Surui sociolinguistica tcc_ oliveira

2,306 views

Published on

1 Comment
1 Like
Statistics
Notes
No Downloads
Views
Total views
2,306
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
24
Comments
1
Likes
1
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Surui sociolinguistica tcc_ oliveira

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ ELLEN CRISTIANE DE SOUZA OLIVEIRASituação Sociolinguística da Língua Suruí do Tocantins Belém 2012
  2. 2. 1 ELLEN CRISTIANE DE SOUZA OLIVEIRASituação Sociolinguística da Língua Suruí do Tocantins Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para obtenção do grau de Licenciado em Letras – Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Pará, sob a orientação da Profª Drª Eliete de Jesus Bararuá Solano e co- orientação da Prof.ª Dr.ª Joelma Cristina Parente Monteiro Alencar. Belém 2012
  3. 3. 2 Dados Internacionais de Catalogação na publicação Biblioteca do Centro de Ciências Sociais e Educação da UEPA Oliveira, Ellen Cristiane de Souza Situação Sociolinguística da Língua Suruí do Tocantins. / Ellen Cristiane de Souza,Belém, 2012. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura Plena em Letras-Língua Portuguesa) Universidade do Estado do Pará, Belém, 2012. Orientação de: Eliete de Jesus Bararuá Solano; Co-orientação de: Joelma Cristina ParenteAlencar 1. Sociolinguística. 2. Índios da América do Sul. I. Solano, Elite de Jesus Bararuá (Orientador). II. Alencar, Joelma Cristina Parente (Co-orientador) III. Título. CDD: 21 ed. 306.44
  4. 4. 3 ELLEN CRISTIANE DE SOUZA OLIVEIRA Situação Sociolinguística da Língua Suruí do TocantinsTrabalho de Conclusão de Curso apresentado para obtenção do grau de Licenciado em Letras – LínguaPortuguesa pela Universidade do Estado do Pará, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Eliete de Jesus Bararuá Solano eco-orientação da Prof.ª Dr.ª Joelma Cristina Parente Monteiro Alencar. Banca Examinadora____________________________________________________Prof.ª Dr.ª Eliete de Jesus Bararuá Solano (UEPA) – Presidente____________________________________________________Prof.ª Dr.ª Joelma Cristina Parente Monteiro Alencar (UEPA) – Membro interno____________________________________________________Prof.ª Ms. Mara Silvia Jucá Acácio (UEPA) – Membro interno____________________________________________________Aprovado em:Belém,______ de__________de 2013.
  5. 5. 4Ao Povo Suruí-Aikewara, pelo carinho, respeito e hospitalidade com que me receberam; pela disposição em participar e contribuir para este trabalho, manifesto minha gratidão e dedico este trabalho.
  6. 6. 5 AGRADECIMENTOSMeus sinceros agradecimentosÀ Edna Oliveira e José Augusto Rosa pelo empenho em oferecer o melhor aos seus filhos:amor e educação.Aos meus irmãos Andrey e Andreza, pela paciência, carinho, compreensão e principalmentepor proporcionarem os momentos de leveza que tanto precisei.À Maria Cristina de Souza Oliveira (in memoriam), pelo amor, apoio e conselhos sábios einesquecíveis.À Silvia Maria Aguiar Rezende, pelos conselhos e apoio inestimáveis que contribuíram aomeu despertar acadêmico.À Prof.ª Dr.ª Eliete Bararuá Solano, minha orientadora, pela acolhida acadêmica, pelaspreciosas e incansáveis orientações, pela disposição em me ajudar em tudo que precisei e porme apresentar aos estudos das línguas indígenas, experiência determinante para minha escolhaacadêmica e profissional.À Prof.ª Dr.ª Joelma Monteiro Alencar, responsável por despertar meu interesse pelos estudosindígenas, pelos conselhos providenciais e disponibilidade em me ajudar sempre.À Prof.ª Ph.D. Josebel Akel Fares, pelo apoio e pela iniciação na pesquisa, experiências quecontribuíram ao meu aprendizado sobre ciência dos livros e da vida.À Prof.ª Dr.ª Juliana Araújo, pelos constantes incentivos acadêmicos.À Prof.ª Dr.ª Eneida Assis, pelo apoio e conversas-conselhos acadêmicos.Àqueles que contribuíram para minha constituição acadêmica: Prof.ª Ma. Mara Jucá, Prof.ªMa. Rosana do Vale, Prof.ª Ma. Ionéli Bessa, Prof. Me. Almir Rodrigues, Prof. Me. José
  7. 7. 6Denis Bezerra, Prof. Me. Alonso Jr., Prof. Me. Hilton Silva, Prof. Dr.. Homerval Teixeira,Prof.ª Ma. Margareth Alves, Prof. Me. Maurício Garcia, Prof. Me. Marco Jaime, Prof. Dr.Fernando Costa, Prof.ª Ma. Kátia Andrea, Prof.ª Ma. Isilda Cordeiro, Prof. Dr. Marco AntonioCamelo e Prof. Dr. José Anchieta.Aos colegas de pesquisa e/ou de campo: Alexandra Borba, Plumma Corêcha, Thomas Alves,Tymykong Suruí, Ikatu Suruí, Murué Suruí, Tiape Suruí, Se’a Suruí, Francivaldo Freitas,Matânia Suruí, Amoneté Suruí, Saru Suruí, Arawi Suruí, Awarua Parakanã, Roitong Suruí,Nani Suruí, Winurru Suruí, e Warikatu Suruí, pelos preciosos auxílios.Aos meus amigos e colegas Emídio Bahia, Camila Maciel, Marcelo Tavares, AmandaQuaresma, Renata Colares, Évila Neves, Bianca Rodrigues, Douglas Rodrigues, MarceloDeusdedith, Anna Monteiro, Tayná Zalouth, Raimundo Cesário Neto, Liege Lira, MarcileneBraga, Brena Sena, pela parceria a união ao longo da graduação.À Capes, pelo financiamento do Projeto Observatório da Educação Escolar Indígena quepossibilitou o desenvolvimento dessa pesquisa.Ao Deus, que é amparo, palavra e ponto final em tudo o que faço, por sempre me colocar noexato lugar, acompanhada das pessoas com as quais deseja que eu esteja e aprenda!
  8. 8. 7 RESUMO Este trabalho apresenta resultados e reflexões acerca da situação sociolinguística daLíngua Suruí do Tocantins, língua materna do Povo Suruí-Aikewara (Estado do Pará). AAldeia Sororó, lócus da pesquisa, está localizada entre os municípios de São Domingos doAraguaia e São Geraldo do Araguaia, população com a qual esse povo mantém intensocontato. O objetivo da pesquisa é descrever a situação sociolinguística da língua Suruí doTocantins falada na Aldeia Sororó, considerando-se os seguintes aspectos: quantidade defalantes monolíngues e multilíngues de acordo com as variáveis gênero e faixa etária e usoslinguísticos orais e escritos desenvolvidos na aldeia. Tem-se como referenciais teóricos Labov(2008), Tarallo (1986) e Paiva (2012) referentes à Sociolinguística; os estudos de Hammers eBlanc (1983), Zimmer; Finger; Scherer (2008) e Couto (2009) são utilizados para tratar doBilinguismo; sobre usos linguísticos orais e escritos e estes usos em comunidades indígenastem-se como base os trabalhos desenvolvidos por Calvet (2011), D’Angelis (2007), Meliá(1979), Monte (1994), Gnerre (2003), Maher (1990) e Monserrat (1989). A abordagem dapesquisa é qualitativa e o levantamento de dados foi realizado através da observaçãoparticipante e aplicação de formulários sociolinguísticos, adaptados para a realidade da AldeiaSororó a partir dos questionários desenvolvidos por Aquino (2010) e Silva (2001). Aaplicação dos formulários foi realicada com 177 índios da etnia Suruí-Aikewara a fim deidentificar o quantitativo de falantes monolíngues e bilíngues. A observação participante tevea finalidade de conhecer o contexto sociocultural do povo e seus usos linguísticos orais eescritos. Os dados levantados revelaram que grande parte da população é bilíngue; os usoslinguísticos orais são realizados em ambas as línguas pelos indivíduos bilíngues; e, nos usoslinguísticos escritos há predominância da Língua Portuguesa. Espera-se que este trabalhopossa contribuir para o conhecimento da realidade sociolinguística do Povo Suruí-Aikewara epara o desenvolvimento de projetos de fortalecimento linguístico.Palavras-chave: língua Suruí do Tocantins, Povo Suruí-Aikewara, Sociolinguística.
  9. 9. 8 RÉSUMÉ Cet rapport présente les résultats et les réflexions sur la situation sociolinguistique dela langue Suruí Tocantins, langue maternelle du peuple Suruí-Aikewara (Pará). Le SororóVillage, lieu de recherche, est situé entre les villes de São Domingos do Araguaia et SãoGeraldo do Araguaia, de la population avec laquelle ce peuple est en contact intense.Lobjectif de cette recherche est de décrire la situation sociolinguistique Suruí Tocantinslangue parlée dans le village de Sororó, en tenant compte des aspects suivants: le nombre delocuteurs monolingues et multilingues en fonction de leur sexe et de lâge et utilisationslinguistique orale et écrite développés dans le village. En ayant comme référentielle théoriqueLabov (2008), Tarallo (1986) et Paiva (2012) en ce qui concerne Sociolinguistique; études deHammers et Blanc (1983), Zimmer; Finger; Scherer (2008) et Couto (2009) sont utilisés pourtraiter lle bilinguisme; utilisations du langage oral et écrit et ces usages dans les communautésautochtones a été basée sur le travail développé par Calvet (2011), dAngelis (2007), Melia(1979), Monte (1994), Gnerre (2003), Maher (1990) et Montserrat (1989). lapproche derecherche est de nature qualitative et la collecte des données a été réalisée par lobservationparticipante et à lapplication de questionnaires sociolinguistiques, adaptés à la réalité de laSororó Village à partir de questionnaires élaborés par Aquino (2010) et Silva (2001), avec 177Indiens ethniques Suruí-Aikewara pour identifier la quantité des locuteurs monolingues etbilingues. Lobservation participante a été conçu pour répondre au contexte socio-culturel dupeuple et de leurs usages oraux et la langue écrite. Les données recueillies ont révélé quunegrande partie de la population est bilingue; utilisations linguistique orale sont effectuées dansles deux langues par des personnes bilingues, et le utilisation linguistique écrite est réaliséprincipalement dans le langue portugaise. Il est à espérer que ce travail contribuera à laconnaissance de la réalité sociolinguistique du peuple Suruí-Aikewara et de développer desprojets pour renforcer la langue.Mots-clés: Suruí Tocantins langue, Peuple Surui-Aikewara, la Sociolinguistique.
  10. 10. 9 SUMÁRIOINTRODUÇÃO 101 CONSIDERAÇÕES SOBRE O POVO SURUI-AIKEWARA 121.1 O POVO SURUI-AIKEWARA 121.2 HISTÓRICO DO CONTATO 131.3 LOCALIZAÇÃO 141.4 ESPAÇOS DA ALDEIA SORORÓ 161.5 SUBSISTÊNCIA 191.6 ASPECTOS SOCIOCULTURAIS 201.7 ASPECTOS LINGUÍSTICOS 242 SOCIOLINGUÍSTICA, BILINGUISMO E USOS LINGUÍSTICOS 272.1 SOCIOLINGUÍSTICA: CONCEITOS E DEFINIÇÕESTEÓRICO-METODOLÓGICAS 272.1.1 Variáveis e variantes sociolinguísticas 292.2 BILINGUISMO E INDIVIDUO BILÍNGUE 302.2.1 Contato entre línguas e comunidades indígenas bilíngues 322.3 USO DAS LÍNGUAS NAS MODALIDADESORAL E ESCRITA EM COMUNIDADES INDÍGENAS 352.3.1 A modalidade oral 352.3.2 A modalidade escrita 373 A PESQUISA SOCIOLINGUÍSTICA NA ALDEIA SORORÓ 403.1 ATORES, INSTRUMENTOS E MÉTODOS DA PESQUISA 413.2 FALANTES MONOLÍNGUES E BILÍNGUESDE ACORDO COM ASVARIÁVEIS GÊNERO E FAIXA ETÁRIA 423.3 OS USOS LINGUÍSTICOS ORAIS E ESCRITOS DA ALDEIA SORORÓ 46CONSIDERAÇÕES FINAIS 50REFERENCIAS 54ANEXOS 57
  11. 11. 10INTRODUÇÃO Tão importante quanto os estudos de descrição e documentação de línguas indígenassão os estudos sociolinguísticos que as tem como objeto. Devido à dificuldade que se tem emidentificar nas pesquisas descritivas os falantes nativos dentro da densidade demográficaocorre, em muitos casos, tomar-se por quantidade de falantes o número de indivíduos quecompõem a população. (Moore; Galucio; Gabas Júnior, 2008). O estudo sociolinguístico daslínguas indígenas, além de revelar a real quantidade de falantes nativos da língua, fornecemdados que permitem, entre outros aspectos, verificar a demografia, a quantidade de falantesbilíngues e monolíngues, o contexto sociocultural, os usos linguísticos orais e escritos e seuscontextos, a vitalidade e a transmissão intergeracional da língua. O interesse em desenvolver esta pesquisa surgiu a partir de uma breve visita à AldeiaSororó em maio de 2012, juntamente com coordenadores do Curso de LicenciaturaIntercultural da Universidade do Estado do Pará – UEPA, a fim de aplicar a prova de seleçãodo curso aos candidatos Suruí-Aikewara. Na ocasião foi possível notar significativaquantidade de índios falantes da língua portuguesa, porém não havia clareza da quantidade defalantes da língua indígena e os usos de ambas as línguas; ciente de que o fato poderia edeveria ser investigado empiricamente, decidiu-se pela realização dessa pesquisa. O objetivo principal da pesquisa é descrever a situação sociolinguística da língua Suruído Tocantins falada na Aldeia Sororó. Escolheu-se a referida aldeia por apresentar maiordensidade populacional. A abordagem desta pesquisa é qualitativa e foram utilizados comoinstrumentos para o levantamento de dados a observação participante e formuláriossociolinguísticos. O levantamento bibliográfico precedeu a pesquisa de campo, essa última foirealizada no período de 11 a 22 de agosto de 2012. Os formulários sociolinguísticos foramrespondido por 177 Aikewara, dos sexos masculino e feminino das faixas etárias de 12 a 21anos, 22 a 40 anos, 41 a 60 anos e acima de 60 anos, com finalidade de identificar quais osfalantes bilíngues e monolíngues, seus usos linguísticos e suas práticas de leitura e escrita; aobservação participante possibilitou conhecer aspectos do contexto sociocultural, no qual estáinserido o Povo Suruí-Aikewara e as práticas de leitura e escrita desenvolvidas na aldeia. A presente pesquisa tem como questão norteadora “qual a situação socioliguistica dalíngua Suruí do Tocantins falada na Aldeia Sororó?”. Além do objetivo geral supracitado têm-se os seguintes objetivos específicos: i) Levantar a bibliografia existente sobre os aspectoslinguísticos e socioculturais do Povo Suruí-Aikewara; ii) Identificar os falantes monolíngues,
  12. 12. 11bilíngues ou multilíngues e suas respectivas línguas de acordo com as variáveis sexo e idade;iii) Identificar os usos linguísticos orais e escritos desenvolvidos na comunidade. Espera-se com esta pesquisa contribuir para o estabelecimento de um projeto defortalecimento da língua nativa do Povo Suruí-Aikewara tanto no sentido de valorização dalíngua oral, principalmente pelas crianças e jovens, quanto no ensino/aprendizagem da línguaescrita, como forma de não deixá-la ser esquecida, diante da força imperiosa da línguaportuguesa. Este trabalho está organizado em cinco partes: Introdução, Capítulo 1, Capítulo 2,Capítulo 3 e Considerações Finais. Na Introdução, como de praxe, são apresentados osaspectos relativos ao trabalho: relevância da pesquisa, metodologia, objetivos e hipóteses. Neste trabalho capítulo 1 apresenta aspectos socioculturais do Povo Suruí-Aikewara,como contato com a população envolvente, subsistência, atividades tradicionais e inseridascom o contato, localização e espaços da aldeia, e aspectos linguísticos. O capítulo 2 versa sobre o embasamento teórico do trabalho, nele são apresentadosestudos e teorias referentes à Sociolinguística, Bilinguismo e usos orais e escritos emcomunidades indígenas bilíngues. O capítulo 3 expõe os dados obtidos na pesquisa. Nesse capítulo é apresentado ademografia, o quantitativo de falantes monolíngues e bilíngues, de acordo com as variáveisgênero e faixa etária, e os usos linguísticos orais e escritos praticados na aldeia. Em Considerações Finais são discutidos os resultados obtidos relacionando-os com asdiscussões teóricas e contexto sociocultural. Essa parte do trabalho é sucedida porReferencias e Anexos, onde podem ser verificados os instrumentos de coleta de dados.
  13. 13. 121 CONSIDERAÇÕES SOBRE O POVO SURUI-AIKEWARA1.1 O Povo Surui-Aikewara Segundo relatos de Ywynuhu Suruí apud Mastop-Lima (2002), os Suruí-Aikewára sãooriginários de um único grupo que, após disputa interna por uma ave semelhante ao papagaio,foi dividido em três etnias: Asuriní do Tocantins, Parakanã e Suruí-Aikewára. Suruí foi o nome atribuído ao grupo por Frei Gil Gomes Leitão. Também sãoconhecidos por Suruí do Pará, forma de distingui-los dos Suruí de Rondônia. Mudjetire é onome pelo qual lhes chamam os Kayapó. Aikewára é sua autodenominação, que significa“nós, a gente”. Esse é o motivo de empregar-se neste trabalho o termo composto Suruí-Aikewára. São falantes de língua homônima pertencente ao tronco linguístico Tupi, famílialinguística Tupi-Guarani (RODRIGUES, 2002); língua conhecida na literatura científica porSuruí do Tocantins. A partir do contato, em meados da década de 1940, aprenderam tambémo português brasileiro. O território habitado pelos Suruí-Aikewára é de predominância de indígenas do grupolinguístico Jê. De acordo com Arnaud (1989), na região Tocantins-Xingu habitam asseguintes etnias de origem Tupi e os respectivos referenciais hídricos: Akuáwa-Asuriní(Trocará, Tocantins); Suruí-Mudjetíre (Sororozinho – Tocantins); Parakanân (Tocantins –Xingu); Asuriní do Xingu (Piaçaba) e Araweté (Ipixuna - Xingu). Como se pode observar noMapa 01 abaixo:
  14. 14. 13 Mapa 01: Localização dos povos de origem Tupi. Fonte: ARNAUD, Expedito. O Índio e a Expansão Nacional. Belém: CEJUP, 1989.1.2 Histórico do Contato Segundo Laraia & Matta (1967), as primeiras notícias sobre os Suruí-Aikewára foramfeitas em 1923, por “Frei Antonio Sala, na revista dominicana Cayapós e Carajás: “Sororós –raça ainda não identificada, meio bravos, vagam pelas cabeceiras do rio Sororó, afluentedireito do Itacaiúnas, defronte da povoação de Santa Isabel”. (op. cit., p. 29).
  15. 15. 14 Os primeiros registros de contato com a sociedade envolvente datam de 1947. O PovoSuruí ao aproximarem-se de coletores de castanha esses “abriram fogo contra os indígenasferindo alguns deles.” (loc. cit.). Em 1952, Frei Gil Gomes empreendeu a primeira tentativade pacificação, no ano seguinte obteve o primeiro contato. Em 1960, com a morte do caciqueMusenai e o enfraquecimento do grupo, o regional João Corrêa tentou transformar os índiosem caçadores de pele, para tal utilizou-se do pretexto de civilizá-los e assim cometeu,juntamente com seus comparsas, verdadeiras barbáries entre o povo: da devastação das roçasà prostituição das mulheres, além da disseminação da gripe. Estes episódios levaram à diminuição do grupo a cerca de 40 indivíduos. Comintervenção de Frei Gil em 1960, a expulsão dos intrusos e a guarda da área por umempregado dele, os Suruí-Aikewára puderam retomar o plantio das roças e seus hábitostradicionais. Os Aikewara, para retomar sua população, abandonaram seu controle de natalidade erealizaram poligamia e casamentos com índios de outras etnias e com não índios. Não hánotícia se a poligamia ainda é praticada, mas os casamentos com índios de outra etnia e“kamará1” ainda é praticado. Aproximadamente cinco décadas após os primeiros contatos os Suruí-Aikewáraconstituem uma população de aproximadamente 400 pessoas (cf. SESAI, 2012) que habitam aTerra Indígena (TI) Suruí Sororó.1.3 Localização A TI do povo Suruí-Aikewara está localizada ao Sudeste do Estado do Pará entre osmunicípios de Marabá, São Geraldo do Araguaia e São Domingos do Araguaia. O acesso sedá pela rodovia BR-153, a qual corta a TI. A área da TI é de 26.257 ha e 73.706 km deperímetro (cf. DODDE, 2012). Possui duas aldeias habitadas: Aldeia Sororó e a Aldeia Itahy.Possui ainda outras aldeias abandonadas pelos Suruí, em razão de constantes alagamentosdurante o período de chuvas. A TI tem como referencias hídricas os igarapés Gameleira (afluente do Rio Araguaia)e Grotão dos Caboclos (um dos formadores do Sororó, afluentes do Rio Itacaiúnas, um dostributários do Rio Tocantins). O córrego Água Preta liga-se indiretamente ao Rio Itacaiúnas, e“norteia a utilização do território para caça e coleta de frutos e outros recursos não1 Não índio.
  16. 16. 15madeireiros, além de ser utilizado atualmente como a principal fonte de pesca”. (op. cit., p.97) Como se verifica no Mapa 02 abaixo: Mapa 02: Terra Indígena Suruí Sororó. Extraído de: Dodde, 2012.
  17. 17. 161.4 Espaços da Aldeia Sororó A Aldeia Sororó é a mais antiga da TI, nela há maior concentração populacional comaproximadamente 370 pessoas, distribuídas em pouco mais de 72 famílias (cf. SESAI, 2012).É constituída por espaços de convívio, subsistência e habitação dos Suruí-Aikewára. Nesta aldeia ultrapassando o portão de entrada há uma casa de guarda e um curral.Seguindo pela estrada principal, ultrapassando algumas ladeiras e percorridos algunsquilômetros há as primeiras casas, o posto de saúde que atende à população da aldeia efinalmente a entrada da aldeia. As casas da aldeia estão dispostas de modo a formar um círculo com pátio ao centro,onde está localizado o campo de futebol, onde os Aikewara se reúnem às tardes para jogarfutebol (Figura 01); e a “Casona” (Figura 03), um local de reuniões internas e externas. Naaldeia, há uma igreja evangélica, uma casa para alojar professores da educação básica quetrabalham na escola da aldeia, o posto da FUNAI e a Escola Indígena Moroneikó Suruí. Figura 01: Jogo de futebol no pátio da Aldeia Sororó. Foto: Ellen Oliveira, 08/2012.
  18. 18. 17 Na aldeia há casas tradicionais construídas de madeira e palha (Figura 02) e casas dealvenaria (Figura 03) construídas recentemente, fomentadas pelo governo federal. Essas casaspossuem banheiro e fossa séptica. Em geral na unidade territorial onde é construída uma casaabriga-se mais de uma família que se agrega à família principal através do casamentomatrilocal - no qual o noivo muda-se para a casa dos pais da noiva; ou patrilocal, no qual anoiva muda-se para a casa dos pais do noivo. Figura 02: casas tradicionais da Aldeia Sororó. Foto: Joelma Alencar, 05/2012. Todas as casas são abastecidas por energia elétrica e muitas possuem aparelhoseletrônicos como televisores e rádios, e eletrodomésticos como ventiladores e refrigeradores(para conservação de carnes). Algumas têm água encanada proveniente de cinco caixas-d’água que abastecem a aldeia, com água retirada de poços artesianos. As famílias que nãopossuem água encanada em casa buscam água na Escola Moroneikó e armazenam em galões.
  19. 19. 18 Figura 03: “Casona” no pátio da aldeia. Ao fundo casas recém construídas. Foto: Ellen Oliveira, 08/2012. Os Aikewara costumam fazer roças coletivas e familiares em áreas que, assim comoseus locais de caça e pesca, estão situados um pouco distante do pátio. Existe um localdenominado de “Açaizal” (Figura 04), onde os Aikewara costumam colher frutas, lavarroupas e se banhar no Igarapé Gameleira, principalmente os mais velhos; embora a Aldeiaseja abastecida por água encanada.
  20. 20. 19 Figura 04: Igarapé Gameleira localizado no Açaizal – Aldeia Sororó. Foto: Ellen Oliveira, 08/2012.1.5 Subsistência A subsistência dos Suruí-Aikewára advém da caça, pesca, agricultura, coleta ecomercialização de alguns produtos, entre eles a castanha-do-pará. Observou-se que o grupoutiliza o cultivo rotativo: a cada ano uma área diferente é preparada (derrubada da mata)permitindo que a área utilizada no plantio anterior se recupere. Os principais produtoscultivados são mandioca, milho, fava, feijão, banana, cará, inhame e macaxeira. Da caça e da pesca advém a fonte de proteínas. A caça é atividade constante entre osSuruí-Aikewára. De predomínio masculino, pode ocorrer de modo individual ou coletivo. Osprincipais animais objeto da caçada são: porco do mato/porcão, veado, anta, paca, cotia,macaco, jabuti, tatu, também apreciam muito a carne de jacaré. E aves, como arara, papagaio,tucano, mutum, entre outras das quais tanto se alimentam como aproveitam as penas parafazer artefatos. A pesca é permitida às mulheres e crianças, utilizam como isca as larvas quese criam dentro do coco babaçu.
  21. 21. 20 Ressalta-se que durante a pesquisa de campo, não raro, ouvia-se reclamações dosíndios pela escassez de caça e peixes. A excassez de caça os Aikewara atribuem à invasão daTI por caçadores ilícitos e às queimadas que se tornaram constantes a partir da abertura daBR-153; já a escassez de peixes os Aikewara consideram consequência dos impactos daBarragem Santa Izabel. Este fato é um indício que essas atividades permanecem cultivadas naaldeia como modo de manutenção do ritual. A coleta de frutas, castanha e mel complementa a alimentação e gera renda aos Suruí.As principais frutas coletadas são: cupuaçu, banana, bacaba e açaí; é comum a participaçãodas crianças nessa atividade. Limão e caju são cultivados no quintal das casas. Graviola,bacuri e abacaxi também compõem a dieta. A castanha e o mel são fontes de alimentação erenda. O excedente do mel é comercializado nas cidades próximas à aldeia ou com osfuncionários da FUNAI. A safra de castanha-do-pará ocorre entre os meses de dezembro a março, ou abril, doano seguinte. Nesse período os Suruí-Aikewára adentram a mata e permanecem de cinco adez dias, a depender do estoque de alimentos levados. O transporte da castanha para a aldeia éfeito no carro da aldeia, por animais de carga ou num pequeno trator. Segue para sercomercializada em São Domingos do Araguaia ou Marabá no caminhão fretado pelo caciqueMairá. Com o dinheiro da venda da castanha são comprados, nos mesmos municípios,alimentos que abastecem os Suruí-Aikewára. (MASTOP-LIMA, 2002).1.6 Aspectos Socioculturais O Povo Suruí mantém intenso contato com os habitantes dos municípios próximos -São Domingos do Araguaia, São Geraldo do Araguaia, Brejo Grande e Marabá - são relaçõescomerciais, trabalhistas e busca por serviços médicos. Alguns regionais também frequentam aaldeia: professores não indígenas, que ministram aulas na escola da aldeia, representantes deigrejas evangélicas e católicas que visitam a aldeia, e outras pessoas que são convidadas avisitar a aldeia em momentos festivos. Há também o contato cultural e linguístico estabelecido em função dos casamentos.Embora entre o Povo Suruí-Aikewara alguns pais ainda preservam a tradição do casamentoarranjado, a escolha do parceiro matrimonial tem se tornado comum. E assim são realizadoscasamentos entre índios Aikewara e regionais ou entre Aikewara e índios/índias de outrasetnias.
  22. 22. 21 Elementos culturais tradicionais integram-se a elementos inseridos a partir do contato.Como exemplo tem-se a comemoração do aniversário de nascimento. Cita-se a comemoraçãodo centenário do Pajé Awasai, presenciado no segundo período de pesquisa de campo. Emrazão do aniversário havia presença de muitos regionais, os kamará; carne de diversas caçasacompanhadas por arroz, salada e farinha (manime) foi servida aos convidados: índios e não-índios. Por se tratar de um momento festivo, os índios fizeram a pintura corporal, cujos traçosrepresentam elementos da fauna, da flora e do universo desse povo, como a pintura do jabuti(sauti), a pintura de cobra (moj) ou a da anta (tapi’ira). A pintura corporal, feita em diferentes momentos sociais, também constituiu um dosprocessos de preparação para a dança do Sapurahái, praticada na ocasião (Figura 05). Essadança é realizada por homens, mulheres e crianças. Segundo Silva, G. (2007) tem a finalidadede afastar da aldeia os espíritos que levam doenças para os Aikewara. Nesta dança além decocar (araraw) alguns homens empunham arco e flecha. Os cantos que conduzem a dança são acompanhados pelo wapusá (maracá) fabricado“(...) com Cuipí/Cuité (Crescentia cujete L.), sementes de Mungulú, axixá, Inimó/Fio dealgodão, Akamacyrona/Taquara (Guadua angustifólia Kunth) e penas de arara.” (SILVA, G.,2007, p. 106). Dias depois de ocorrida a festa de aniversário, ao conversar com alguns índios jovens,verificou-se que a comemoração do aniversário não é uma tradição dos Aikewara, elesiniciaram esta prática por influencia dos brancos. Mais alguns dias decorridos se presenciauma mãe comentar com outra que naquela semana foi aniversário de uma de suas filhas e elaesqueceu 2.2 Informação verbal em pesquisa de campo.
  23. 23. 22 Figura 05: Anciãos Aikewara se preparando para iniciar a dança do Sapurahái em comemoração ao centenário do Pajé Awasai (sentado). Foto: Ellen Oliveira, 08/2012. A Festa dos Karuára não foi presenciada em pesquisa de campo, mas é descrita naliteratura sobre o Povo Suruí, especificamente nos trabalhos de Mastop-Lima (2002) e Silva,G. (2007). Trata-se de um ritual de reverência aos espíritos, e seu início é anunciado por umvento forte, que traz o espírito Karuára, o pajé avisa a comunidade e ordena que queimem asroças, para com elas serem queimadas as “coisas ruins”. A preparação e o ritual duram algunsdias: a construção da tukása (casa ritual onde os espíritos serão aprisionados), a pinturacorporal, a confecção de artefatos e cigarros a serem utilizados no ritual. É um ritual depredomínio masculino. E aos homens somam-se algumas mulheres somente no momento dadança no pátio da aldeia (Figura 06).
  24. 24. 23 Figura 06: Suruí-Aikewára dançando em frente à tukása. Fonte: Silva, G., (2007). Os Suruí-Aikewára ainda preservam outros elementos de sua cultura material eimaterial. Entre as tradições orais, mitos, ritos e instrumentos musicais destacam-se alguns:entre os mitos há registro 3 dos seguintes: Mito da criança que tinha rabo; Mito da origem doskamará; Mito do tamanduá; Mito da obtenção do fogo; Mito da índia que engravidou do pau;Mito da cobra; Mito do urubu-rei; Mito da origem das caças; Mito da mucura; Mito da cutia eMito de origem . Além do wapusá, citado anteriormente, os Suruí utilizam e confeccionam outrosinstrumentos musicais como Symya (flautas), Sykã (chocalho em cacho) e Sautikapeháw(casco de jabuti). E artesanatos como anéis, pulseiras, colares e redes; fios de algodão,sementes e miçangas são as matérias-primas desses artigos, que além de utilizados comoadornos próprios, também são comercializados com os kamará, que visitam a aldeia e seinteressam pelos artigos. Confeccionam brinquedos; os araraw com penas de pássaros,flechas e armadilhas de caça; vestes e outros adornos utilizados nas danças ou rituais.3 Op. Cit.
  25. 25. 241.7 Aspectos Linguísticos Historicamente, o Tupinambá foi a língua que falavam os índios da costa brasileiraquando chegaram os primeiros colonos portugueses. Esta língua se tornou língua genéricadevida ao estereótipo de língua brasileira, deu origem a gramáticas e foi a mais utilizada nasmissões jesuítas. Penetrou a Amazônia devido às constantes migrações do Povo Tupinambá.(DIETRICH, 2010, p. 12). Conforme Rodrigues (2000) na região que compreende a bacia hidrográfica do RioAmazonas há o predomínio das famílias linguísticas Aruák, Karib e Tupi-Guarani. Estaúltima foi composta a partir da hipótese formuladas por linguistas que, através de estudoshistórico-comparativos, verificaram a existência de correspondências regulares de aspectosfonológicos, lexicais e morfossintáticos, entre as línguas Tupinambá e o Guarani Antigo. Formulou-se então a hipótese de que ambas têm a mesma origem em uma proto-língua. Portanto, devido às semelhanças entre a Língua Tupi e Guarani, como pode serobservado, em uma simples amostragem, no vocabulário da tabela abaixo, os linguistasconsideram que as duas línguas constituem única família linguística: Tupi-Guarani. Fonte: RODRIGUES, 1994 p.30 Essa família linguística, por sua vez, deu origem a outras línguas, que são agrupadaspor Rodrigues & Cabral (2002), em oito subconjuntos:
  26. 26. 25 Fonte: RODRIGUES & CABRAL (2002), p.335. A Língua Suruí pertence ao subconjunto IV da família Tupi-Guarani; juntamente comas línguas Tapirapé, Asuriní do Tocantins, Parakanã, Avá-Canoeiro, Tembé, Guajajára eTuriwára. Na tabela abaixo é possível visualizar a classificação das línguas em cadasubconjunto.Quadro I: Nova constituição interna da família Tupi-GuaraniRamo I: Guarani Antigo Kaiwá (Kayová, Pãi), Ñandeva (Txiripá), Guaraí Paraguaio Mbyá Xetá (Serra dos Dourados) Tapieté, Chiriguano (Ava), Izoceño (Chané) Guayaki (Axé)Ramo II: Guarayo (Guarayú), Sirionó, Horá (Jorá)Ramo III: Tupí, Língua Geral Paulista (Tupí Austral) Tupinambá, Língua Geral Amazônica (Nhe’engatú)Ramo IV: Tapirapé Asuriní do Tocantins, Parakanã, Suruí (Mujetire), Avá-Canoeiro Tembé, Guajajára, TuriwáraRamo V: Araweté, Ararandewára-Amanajé, Anambé do Cairarí Asuriní do XinguRamo VI: Kayabí, Apiaká Parintintín (Kagwahíb), Tupí-Kawahíb (Tupí do Machado, Pawaté, Wiraféd, Uruewauwau, Amondáva, Karipúna,
  27. 27. 26 etc.) JumaRamo VII: KamayuráRamo VIII: Wayampí (Oyampí), Wayampípukú, Emérillon, Joé Urubu-ka’apór, Anambé de Ehrenreich Guajá Awré e Awrá TakunhapéIbid., p. 335-336 Dos dados linguísticos produzidos sobre a língua Suruí do Tocantins foramencontrados vocabulários; e a análise fonológica da língua realizada por Barbosa (1993). Oreferido autor identificou na língua 23 fones consonantais, 13 fones vocálicos orais e 10 fonesvocálicos nasais. É importante citar que os alunos Aikewara do Curso de Licenciatura Intercultural, emparcerias com professores da Universidade do Estado do Pará – UEPA e da Universidade deBrasília – UnB, estão desenvolvendo projetos linguísticos de natureza fonético-fonológica,morfossintática e lexical. A finalidade desses projetos é desenvolver a escrita oficial da língua Suruí que sirvapara o desenvolvimento de materiais didáticos, documentação da língua e correção dos nomespróprios que, em grande parte, encontram-se grafados de modo equivocado.
  28. 28. 272 SOCIOLINGUÍSTICA, BILINGUISMO E USOS LINGUÍSTICOS Este capítulo versará sobre as bases teóricas, que fundamentam a presente pesquisa. Éimportante ressaltar que nas pesquisas sociolinguísticas em comunidades indígenas utilizam-se diferentes bases teóricas, como aquelas pertinentes à Sociolinguística, Pragmática,Linguística Cognitiva e outros. Pois, pesquisas dessa natureza objetivam conhecer o povo, sualíngua/línguas, as situações nas quais elas são utilizadas, e os valores que o povo atribuí à sualingua. Na primeira parte deste capítulo são utilizados os estudos de Labov (2008), Tarallo(1986), Paiva (2012), Mollica (2012), Calvet (2002), Baernert-Fuerst (1989) e Cezário &Votre (2009) referentes à Sociolinguística. Na segunda parte os estudos de Hammers e Blanc (1983), Zimmer; Finger; Scherer(2008), Santos (2008), Couto (2009) e Baniwa (2006) são utilizados para tratar doBilinguismo. Na terceira parte do capítulo são apresentados estudos sobre usos linguísticos orais eescritos e estes usos em comunidades indígenas tem-se como base os trabalhos desenvolvidospor Calvet (2011), D’Angelis (2007), Meliá (1979), Monte (1994) e Gnerre (2003), Maher(1990) e Monserrat (1989). Em ambas as partes se recorrem aos estudos de Ribeiro (2001),Aquino (2010) e Silva (2001) para ilustrar os fenômenos descritos.2.1 Sociolinguística: conceitos e definições teórico-metodológicas A Sociolinguística é uma área da ciência linguística, que estuda a relação entre osfatores socioculturais e a realização linguística em uma comunidade de falantes. SegundoCezário e Votre (2009) esta corrente concebe a língua como uma instituição social que deveser analisada em seu uso real considerando o contexto situacional, a cultura e a história daspessoas que a fala. Os precursores dessa corrente manifestaram-se, no início do século XX, aodefenderem a importância de considerar nas pesquisas linguísticas as influencias que fatoressociais exercem sobre a mudança linguística. Calvet (2002) destaca entre eles: AntoineMeillet, Paul Lafargue, Marcel Cohen, Basil Bernstein e William Bright. Meillet, embora discípulo de Saussure manifesta-se, após a publicação póstuma doCurso de Linguística Geral, contrariamente à abordagem linguística estruturalista. Para ele, alíngua é um fato social e um sistema que tudo contém: “Por ser a língua um fato social resulta
  29. 29. 28que a linguística é uma ciência social, e o único elemento variável ao qual se pode recorrerpara dar conta da variação linguística é a mudança social”. (MEILLET apud CALVET, 2002,p. 16). Paul Lafargue e Marcel Cohen, influenciados pelo pensamento marxista, apresentarama hipótese de relação entre mudança linguística e mudança social. Para Lafargue (1894 apudCALVET, 2002) a mudança linguística resulta de mudanças políticas; foi o que demonstrouem seu estudo do vocabulário francês antes e depois da Revolução, publicado em 1894. JáCohen (1956 apud Calvet, 2002) pondera que os fatos da língua devem ser analisados sob umolhar sociológico e não mais apenas categorizados teoricamente. Basil Bernstein (1975) e William Bright (1966) são os estudiosos que, pela primeiravez, defedem a relação entre mudança linguística e condição social dos falantes. Os estudosde Bernstein sobre educação o leva a constatar que, o fracasso escolar de crianças, relaciona-se à classe social à qual pertencem; fato que se verificava na produção do código linguísticodas crianças. Assim as crianças da working class tinham um código mais restrito e as criançasda midle class um código mais elaborado. (BERNSTEIN, apud CALVET, 2002, p. 25). Essafoi a primeira tentativa de descrever as diferenças linguísticas a partir das diferenças sociais. Bright (1966), por sua vez, contribui ao pensamento sociolinguístico quando, durante aconferência sobre sociolinguística realizada na UCLA (Universidade da Califórnia, LosAngeles) em maio de 1964, esclarece sobre as tarefas da Sociolinguística: (...) é mostrar que avariação ou a diversidade não é livre, mas que é correlata às diferenças sociais sistemáticas.(BRIGHT apud CALVET, ibid., p. 29). Portanto, a Sociolinguística surge devido à necessidade das pesquisas linguísticas emreconhecer as influencia dos fatores extralinguísticos sobre a realização do sistemalinguístico. E ganha estatuto de ciência a partir dos estudos de William Labov, responsávelpor delimitar o objeto e os métodos da pesquisa sociolinguística. Labov (2008) define a língua como “um instrumento utilizado pelos membros dacomunidade para se comunicar entre si.” (LABOV, 2008, p.320). Essa definição reconhece ocaráter heterogêneo da língua, tendo em vista que uma comunidade, por seu turno, não éhomogênea, pois, comporta indivíduos de diferentes classes social e econômica, faixa etária,etc; fatores que interferem/contribuem para a diversidade linguística. Labov estabelece que oobjeto de estudo da Sociolinguística é a “língua em uso dentro da comunidade de fala”(LABOV, ibid., p.215). Assim os dados que o sociolinguista coleta provém da língua em usoreal por seus falantes: falas menos monitoradas realizadas em momentos nos quais os falantespreocupam-se com o que dizem, não como dizem.
  30. 30. 29 Os métodos propostos para a coleta dos dados podem ser de natureza quantitativa,como o uso de questionários sociolinguísticos, propostos por Labov, através dos quais opesquisador objetiva identificar a frequência de determinada variante e sua relação com avariável pré-estabelecida. E pode ser de natureza qualitativa, como as observaçõesparticipantes a fim de conhecer o contexto histórico e sociocultural da comunidade.(BAERNERT-FUERST, 1989). Considerar os aspectos extralinguísticos no processo de construção do sistemalinguístico significa reconhecer que este sistema sofre influências de fatores sociais dacomunidade falante e fatores individuais inerentes a cada indivíduo. Portanto, significareconhecer a heterogeneidade e dinamismo das línguas naturais que desencadeiam o processode variação linguística.2.1.1 Variáveis e variantes sociolinguísticas As línguas naturais, por seu caráter heterogêneo relacionado a fatores linguísticos eextralinguísticos, apresentam-se dinâmicas. Esse dinamismo resulta em variações do sistemalinguístico de ordem fonológica, morfológica, sintática ou semântica determinados por fatoresinternos ou externos à língua. Os elementos linguísticos que apresentam formas alternativas de realização sãodenominados variantes: a presença ou ausência do /s/ como marca de plural na línguaportuguesa, por exemplo. Em geral, há uma oposição entre uma variante mais conservadora eoutra mais inovadora cuja realização é determinada por variáveis. Tanto o fenômeno davariação quanto o grupo de fatores que o determina são conhecidos por variável. As variáveissão consideradas dependentes, pois não se realizam de modo aleatório, mas obedecendo aregras ou grupos de fatores chamados variáveis independentes, de natureza social ouestrutural. Segundo Mollica (2012, p. 11) as variáveis são em grande número e agemsimultaneamente sobre as variantes. Fatores de natureza fonomorfossintático, semânticos,discursivos e lexicais são considerados variáveis internas ao sistema. Dentre as variáveisexternas ao sistema linguístico há fatores pertinentes ao indivíduo (como etnia, faixa etária esexo), fatores sociais (escolarização, nível de renda, profissão e classe social), contextuais(grau de formalidade ou tensão discursiva). As variáveis, agindo simultaneamente, exercem forças sobre as variantes, e são aomesmo tempo as “armas” utilizadas pelas variantes para combaterem sua opositora e se
  31. 31. 30manterem vivas. Ao investigar o fenômeno de variação, em uma comunidade linguística, opesquisador busca depreender quais fatores determinam a utilização de uma variantetradicional ou de uma variante conservadora. Para esta pesquisa interessam as variáveisindependentes faixa etária e gênero, que serão tratadas a seguir. A variável faixa etária é um fator de análise sincrônica que revela a estabilidade davariação ou a mudança em progresso. No primeiro caso se verifica certo equilíbrio entrefrequência de uso das variantes e o fator faixa etária. No segundo caso se verifica a maiorfrequência de uso da variável inovadora por um dos grupos etários. Tarallo (1986) afirma que“se o uso da variante mais inovadora for mais frequente entre os jovens (...) você[pesquisador] terá presenciado uma situação de mudança em progresso.” (TARALLO, 1986,p. 65). Quanto à variável gênero/sexo o apontamento é o mesmo realizado para a variávelidade: exerce influencia sobre as variantes no fenômeno da variação. Todavia, possuipeculiaridades. Uma delas está ligada à “construção social dos papéis feminino e masculino.”(PAIVA, 2012, p. 33). Segundo Paiva (2012) nas pesquisas sociolinguísticas a variável gênero/sexo estárelacionada, de modo mais evidente, às diferenças lexicais. Nas sociedades ocidentais essadiferenciação não é tão evidente. A autora afirma que a influencia desta variável estáfortemente relacionada à preferencia de um ou outro sexo pela utilização da variante maisprestigiada ou mais estigmatizada socialmente; ou ainda pela variante mais conservadora oumais inovadora. Essa característica, por sua vez, não tem relação com fatores biológicos e sim sociais:a amplitude do círculo social do sexo masculino e do sexo feminino; o sentimento depertencimento a um grupo que compartilha, além das marcas culturais, as marcas linguísticascomo modo de individualizá-lo perante outro grupo. A este último caso há como exemplo asupressão da oclusiva velar /k/ na fala dos homens Karajá, considerada menos conservadoraem relação à fala feminina. (RIBEIRO, 2001).2.2 Bilinguismo e individuo bilíngue O termo bilinguismo designa o uso de duas línguas por um falante. Esse é o conceitomais simples para o termo que também pode se referir à utilização de duas línguas por umacomunidade, ou ainda, oficialização de duas línguas por um país. Há outras atribuições aotermo: “políticas linguísticas que tendem a assegurar a cada uma das línguas faladas no país
  32. 32. 31um status oficial”; designa também o movimento de generalização por “medidas oficiais epelo ensino o uso corrente de determinada língua estrangeira além da língua materna”.(DUBOIS et all, 2007). O bilinguismo também pode ser definido segundo o contexto, grau de proficiência oucompetência do falante em uma das duas línguas ou em ambas. Hamers e Blanc (1983)apresentam algumas dessas concepções: a de Bloomfield “que define o bilinguismo como aposse de uma competência de falante nativo em duas línguas.” (BLOOMFIELD, 1935 apudHAMERS e BLANC, 1983, p. 22, tradução nossa) 4. Para Titone (1972) o bilinguismo é “(...) a capacidade de um indivíduo se exprimir emuma segunda língua respeitando os conceitos e estruturas próprios desta língua semparafrasear sua língua materna”. (TITONE, 1972 apud HAMERS e BLANC, loc. cit.,tradução nossa) 5. Os autores citam ainda a definição de bilinguismo dada por Macnamara: o bilíngue équalquer um que possui uma competência mínima em uma das quatro habilidadeslinguísticas, compreender, falar, ler e escrever em uma língua diferente da sua língua materna.(MACNAMARA, 1967ª apud HAMERS e BLANC, loc. cit., tradução nossa)6. As críticas apontadas por Hamers e Blanc (1983) às definições referem-se àimprecisão das mesmas, pois não esclarecem o que se deve entender por “competência defalante nativo”, “competência mínima em segunda língua” e “respeito aos conceitos eestruturas próprios de uma língua”. Para os autores o bilinguismo é um fenômenomultidimensional e assim deve ser estudado nas pesquisas empíricas. Segundo acompetência linguística do falante apontam duas distinções para os bilíngues: o bilíngueequilibrado (equilibré) e o bilíngue dominante (dominant). O primeiro possui umacompetência equivalente nas duas línguas; o segundo possui competência superior na línguamaterna. As definições apresentadas referem-se ao bilinguismo individual, ao falante bilíngue;denominado por Hamers (1981a) bilingualité (igualdade bilíngue) que consiste no estadopsicológico de um falante que acessa dois códigos linguísticos; o que desconsidera o contextode usos dessas línguas e a construção sociocultural desses falantes.4 No original : « (...) qui définit le bilinguisme comme la possession d’une compétence de locuteur natif dansdeux langues. »5 No original : « (...) la capacité dun individu de sexprimer dans une seconde langue en repectant les concepts etles structures propres à cette langue, plutôt quen paraphrasant sa langue maternelle. »6 No original: « (...) le bilíngue est quelqu’un qui possède une compétence minimale dans une des quatrehabiletés linguistiques, à savoir comprendre, parler, lire et écrire dans une langue autre que sa languematernelle. »
  33. 33. 32 Por bilinguismo social (bilinguisme), Hamers e Blanc (op. cit.) reconhecem o estadode uma comunidade na qual se utilizam duas línguas por consequência do contato entrelínguas e inclui os indivíduos bilíngues. E concluem que o bilinguismo é um fenômeno globalque envolve falante e comunidade bilíngue. Vaid (2002 apud ZIMMER et all, 2008) define bilíngue os “indivíduos que conheceme usam duas línguas, as quais não seriam necessariamente utilizadas no mesmo contexto, nemdominadas com os mesmos níveis de proficiência”. Essa é uma definição bastante abrangenteque envolve os falantes bilíngues que possuem diferentes competências e grau de proficiênciaem uma das duas línguas faladas. E é essa a definição que interessa a presente pesquisaconforme os objetivos apresentados. São muitos os fatores que levam um falante a tornar-se bilíngue, dentre os quais: ocasamento entre pessoas falantes de línguas diferentes e os filhos dessa união; as políticas deensino de língua estrangeira nas escolas; o desejo individual de aprender uma segunda línguapor razões culturais ou socioeconômicas; o convívio em territórios de contato linguístico oucomunidades bilíngues, entre outros.2.2.1 Contato entre línguas e comunidades indígenas bilíngues O contato linguístico ocorre quando indivíduos, ou coletividade, de línguas diferentescompartilham um mesmo território. Contudo não é simples apontar uma definição para otermo, visto que implica a necessidade, segundo Appel & Muysken (apud SANTOS, 2008, p.23), de “definir a natureza, a escala e o grau desse contato e determinar quem entra emcontato com quem: indivíduos, famílias, comunidades ou sociedades inteiras”. A não definição do termo decorre, certamente, dos objetivos da Linguística que resideem estudar as consequências do contato linguístico como afirma Calvet (op. cit., p.35) “oresultado dos contatos linguísticos é um dos primeiros objetos de estudo da Sociolinguística”e não o contato em si. Vale ressaltar que muitos fatores condicionam o contato linguístico e embora aEcolinguistica não seja uma abordagem para esta pesquisa é interessante apresentar os quatrotipos de situações nas quais ocorre o contato linguístico e, consequentemente, obilinguismo/multilinguismo, conforme Couto (2009, p. 51-54):i) Quando um povo se desloca para o território de outro povo que já constitui umacomunidade linguística relativamente estabelecida e estabilizada. Quando o povo que se
  34. 34. 33deslocou é mais fraco política, econômica e militarmente o resultado deste fato é a Lei dasTrês gerações: (...) a primeira geração (quando migra já adulta) aprende quando muito uma variedade pidginizada da língua hospedeira. Os seus filhos geralmente aprendem a língua do país hospedeiro e a dos pais, sendo, portanto bilíngues, continuando a usar a língua original em todas as interações intergrupais. Os netos, porém, tendem a preferir a língua da nova terra, mantendo, quando muito, um conhecimento passivo da língua original de seus avós. A quarta geração frequentemente não tem quase nenhum conhecimento da língua dos antepassados. (COUTO, 2009, p. 51-52).ii) Quando um povo mais forte política, econômica e militarmente se desloca para o territóriode um povo mais fraco e impõe sua língua gradativamente ao povo autóctone, no decorrer dotempo, devido às fortes influencias da língua do povo conquistador sobre a língua do povonativo, esta é falada em territórios e por populações cada vez mais reduzidas, o que configuraas ilhas linguísticas.iii) Quando tanto o povo mais forte quanto o povo mais fraco se desloca para um terceiroterritório que não lhes pertence há situação propicia ao surgimento de pidgin 7 e crioulo8.iv) Quando tanto o grupo mais fraco se desloca temporária ou sazonalmente para o territóriodo povo mais fraco; quanto esse o faz para o território do grupo mais forte. Ou quando emsituações fronteiriças devidas a acidente geográfico um dos grupos se desloca para o territóriodo outro. Nesses casos cada grupo pode falar sua língua no território do outro. Porém, emsituações intercomunicativas a língua utilizada será a mais prestigiada socialmente. Couto (2009) pondera que alguns fatores influenciam nos resultados desse contato:quantidade de pessoas que se deslocam, tempo de permanência no território para o qual sedeslocaram, intensidade do contato entre os povos e poder econômico, político e militar decada povo. O resultado desse contato, por sua vez, pode ser tanto a manutenção da língua comalgumas interferências; quanto, a obsolescência seguida de glototanásia 9 da línguaminoritária. No decorrer da constituição histórico-social do Brasil, mais de uma das situaçõesapresentadas acima ocorreram. Basta lembrar as massas de imigrantes italianos, alemães,japoneses, entre outros, que em terras brasileiras formaram suas colônias, o que caracteriza asituação i. A situação ii apresentada foi o que ocorreu com a chegada dos conquistadores7 Segunda língua de uma comunidade linguística nascida do contato entre línguas e possui sistema maiscomplexo que o sistema do crioulo. (DUBOIS et all, 2007, p. 469).8 Dá-se o nome de crioulo a sabires (sistemas linguísticos reduzidos a algumas regras de combinação e aovocabulário de determinado campo léxico. Línguas compostas a partir do contato entre comunidades linguísticasdiferentes.), pseudo-sabires, ou pidgins, que, por motivos diversos de ordem histórica ou sociocultural, setornaram línguas maternas de toda uma comunidade. (DUBOIS et all, 2007, p. 161).9 Glototanásia é a morte da língua, refere-se à dinâmica das línguas, e ocorre quando deixa de ser usada, ou sejanão tem mais falantes. (COUTO, 2009, p. 84).
  35. 35. 34portugueses em terras, hoje brasileiras, e a imposição gradativa da língua portuguesa atravésdo etnocídio das populações indígenas. A situação iii ocorre nas regiões fronteiriças do Brasil. Esses fenômenos são argumentos suficientes para o reconhecimento do Brasil comoum país plurilíngue, afinal não se pode silenciar as vozes dos falantes das 180 línguasameríndias autóctones e das dezenas de línguas ocidentais trazidas por imigrantes. Estesfalantes compõem inúmeras comunidades bilíngues e/ou multilíngues por todo o territórionacional. Tratando especificamente das comunidades indígenas bilíngues, aquelas nas quais osindivíduos possuem maior contato com a população envolvente, em geral as línguas usadassão a nativa/indígena e uma variedade regional do português brasileiro. É o caso do PovoKarajá e do Povo Asurini do Tocantins (cf. SILVA, 2001 e AQUINO, 2010,respectivamente). E há outras comunidades bilíngues ou multilíngues conforme Braggio(apud SILVA, op. cit., 26): “(...) são bilíngües, isto é, falam a língua materna e o Portuguêsem graus e modos variados, os seguintes grupos: Karajá e Javaé, que fazem parte da famílialingüística Karajá, e os Xerente, Apinajé e Krahò, que integram a família lingüística Jê”. Além do contato, o bilinguismo é mantido devido ao ensino escolarizado que, emboraexista aproximadamente 90% de professores indígenas que atuam nas escolas de suas áreas(cf. BANIWA, 2006), ainda conta com muitos professores não índios que não têm formaçãoadequada para atuar em áreas indígenas e, consequentemente, reproduzem algunspreconceitos linguísticos; e os próprios professores indígenas que, em muitos casos, nãopossuem formação linguística adequada; o resultado é a adoção da língua portuguesa comolíngua de instrução, inclusive no ensino da língua indígena, como ocorre entre os Asurini doTocantins (AQUINO, op. cit.). É possível notar que a relação de domínio através da imposição cultural e linguística eas políticas linguísticas para as populações indígenas brasileiras resultaram na existênciacontemporânea de ilhas linguísticas, que sofrem cada vez mais as pressões da sociedadeenvolvente através da escola, da televisão e dos padrões socioculturais ocidentais difundidos. Essa configuração sociolinguística contribui ainda para o sentimento de pertencimentosocial e cultural do indivíduo ao seu povo, e consequentemente às atitudes e valores dessepara com sua língua e os usos que fazem de cada língua em determinados contextos. Se osvalores forem positivos concorrem para o fortalecimento e manutenção da língua nativa, L1.Se as atitudes e valores forem negativos tendem a estigmatização da língua e, por conseguinteo enfraquecimento ou obsolescência linguística. Sobre estes usos e suas implicações tratará aseção seguinte.
  36. 36. 352.3 Uso das línguas nas modalidades oral e escrita em comunidades indígenas As comunidades indígenas, que já iniciaram contato com a sociedade envolvente, alémda realidade bilíngue e por consequência a assimilação de elementos socioculturais ocidentais(a língua e o universo semântico dessa sociedade), sofrem a imposição outra forma deorganização sociocultural: a linguagem escrita. Esta imposição apresenta dois pontos: se por um lado pode representar aestigmatização da língua nativa frente ao fascínio da escrita; por outro lado pode contribuirpara o registro de elementos culturais através da língua escrita. Todavia, um ou outro resultado depende dos usos, do contexto de circulação e do valoratribuído às modalidades oral e escrita.2.3.1 A modalidade oral De acordo com Calvet (2011) sociedades de tradição oral são aquelas que têm na falao fundamento de sua regulamentação social que, por sua vez, são transmitidos geração ageração pela prática das atividades tradicionais e pela linguagem oral. Nas sociedades detradição oral, como as ameríndias, o poder advém pelo que o autor chama de “força da fala”:todos são governados “por uma tradição ancestral que não se inscreve nos livros, mas namemória social” . Diferentemente do que ocorre nas sociedades de tradição escrita onde “todos sãogovernados por leis, decretos e tratados”. As línguas sem tradição escrita se mantem vivaspela transmissão oral através da nomeação – topônimos, antropônimos, zoônimos – ditados,trava-línguas, contos e músicas. Essas práticas integram o universo cultural do povo e constitui o discursoespecializado da prática de atividades culturais através do qual a língua mantem suavitalidade. Sem a realização das atividades tradicionais e a manutenção desse universosemântico a língua perde sua dinâmica, sobrevivem apenas alguns elementos lexicais queperdem o sentido no seio da comunidade no decorrer do tempo. Assim sendo, nas palavras deSilva (2009), (...) quando determinadas atividades culturais deixam de ser desenvolvidas, as palavras e os enunciados referentes a esses contextos vão, com o tempo, perdendo sentido na comunidade. Já quando essas atividades são mantidas, a língua não só é preservada, mas expandida e renovada. Essa ampliação ocorre com os novos conhecimentos que os indígenas adquirem a partir das novas experiências e criações. (SILVA, 2009, p. 64-65).
  37. 37. 36 A renovação à qual a autora se refere é verificada, por exemplo, na formação depalavras (neologismos) para nomear elementos ou objetos externos à cultura indígena, masintegrados a partir do contato por imposição ou necessidade. Não se pode desconsiderar, porém, que a integração desses elementos é uma dasconsequências do contato entre uma cultura dominada e outra dominante. E, assim como podeocorrer a renovação linguística pelos neologismos, pode ocorrer a invasão da língua pelosempréstimos; ou até por substituição lexical, que é uma das causas da glototanásia. Os estudos sociolinguísticos revelam que nas comunidades indígenas bilíngues alinguagem oral é realizada em língua nativa nos diversos domínios sociais e atividadessocioculturais, porém não exclui o uso da língua portuguesa com falantes índios ou nãoíndios, dependendo do contexto no qual estão inseridos. Cita-se, como exemplo da situação acima descrita, os povos Asuriní do Tocantins eKarajá. Entre os Karajá a língua materna é falada em todos os domínios sociais, inclusive noensino escolar, e só recorrem à língua portuguesa quando há presença de “tori10” (cf. SILVA,2001). Entre os Asuriní há equilíbrio entre os usos da língua indígena e da língua portuguesa,mas em algumas situações a segunda pode prevalecer dependendo do contexto e dos falantes(cf. AQUINO, 2010). Em geral, nessas comunidades, as atividades tradicionais são realizadasem língua nativa devido à necessidade de proferir cantos, rezas, relembrar feitos dosantepassados. Atividades que constituem a educação indígena. Referente ao contexto escolar, a língua de realização depende da política linguísticaadotada, salvo exceções, a língua do ensino escolar é a língua portuguesa. Para os índioscontatados, é importante a aprendizagem do português oral, sobretudo para aqueles queexercem na comunidade o papel de intermediário cultural. De acordo com Maher (1990) essesíndios são “os responsáveis pela interlocução com a sociedade nacional – interlocução que,embora frequentemente mediada pelo texto escrito, depende em muito da capacidade destesindivíduos entenderem a fala do branco e expressarem oralmente o ponto de vista indígena.”(MAHER, 1990, p. 05). Esse aprendizado é importante e necessário, mas não deve, assim como na escrita,negar a identidade e os saberes indígenas. Embora seja inegável sua importância, as atividadesorais desenvolvidas na escola estão mais relacionadas ao ensino na língua portuguesa do queda modalidade oral da língua. É o que revela o estudo de Monte (1994) com Povos do Acre: aaquisição da língua portuguesa como língua-meta na modalidade oral ocorre de modo10 Não índio.
  38. 38. 37descontínuo do processo de aquisição da modalidade escrita. Sobre a escrita tratará a seçãoseguinte.2.3.2 – A modalidade escrita O fato das sociedades indígenas serem, tradicionalmente, orais não significa que sãodesprovidas de representação gráfica do universo cultural. O que não possuem é umarepresentação gráfica organizada em alfabeto, e seus saberes não estão organizados nem sãotransmitidos através de textos escritos, como a organização escrita ocidental. Esta tradição escrita ocidental adentra as sociedades indígenas por meio do contatocom a sociedade envolvente. O contato dos índios com a escrita ocorre simultaneamente aocontato com o não-índio. Este oriundo de uma tradição escrita milenar que, ainda não sendoletrado, possui um consolidado “numeramento”, devido à necessidade cotidiana de contarpesos, medidas, valores, etc. Desse contato e as relações estabelecidas, faz-se necessário ao índio adquirir o“numeramento” da sociedade que o envolve, a não indígena ou branca, para não se deixarlograr nas novas relações estabelecidas: trabalho, comercialização, medidas, etc. E assimocorre o contato primário do índio com a escrita. Escrita, ressalva-se, na língua que tornasse sua segunda língua, a mesma falada pelocolonizador. No caso específico do Brasil, a língua portuguesa. Língua que exerce função dedomínio. Pois, os índios, ao se fazer compreender são obrigados a aprendê-la e posteriormenteabsorvem outros elementos da cultura “branca”. No Período Colonial Brasileiro algumas línguas indígenas foram grafadas, não poriniciativa ou necessidade de seus falantes, mas, devido à necessidade dos missionários emconhecer e dominar a língua a fim de professar a fé cristã entre os nativos. Assim surgiramgramáticas, dicionários e vocabulários escritos nas línguas de origem Tupi ou Guarani. Aprincípio não havia por parte dos índios interesse em aprender sua língua escrita, também nãohavia interesse dos missionários em lhes ensinar. (D’ANGELLIS, 2007). Diversos autores concordam que, no decorrer do tempo de contato do índio com asociedade envolvente, fez-se necessário às sociedades indígenas grafar suas respectivaslínguas. Os motivos são vários e dependem da realidade sócio-histórica de cada povo:administrar sua cooperativa ou barracão para não serem logrados pelos “brancos”; ascendersocialmente como os regionais através da educação escolar dominante; ou documentar
  39. 39. 38aspectos culturais a fim de fortalecimento e valorização linguística ante aos jovens. (MONTE,1994; MONSERRAT, 1989; D’ANGELLIS, 2007). Ainda que o contato com a escrita se dê, concomitantemente ao contato com a culturaenvolvente, é a escola a instituição oficial responsável por inseri-la na comunidade, através daalfabetização e do ensino escolarizado. Em geral, quando a escola chega à comunidadeindígena a língua nativa ainda não foi grafada, ou ainda não possui estrutura escrita definida(alfabeto, ortografia, gramática). O ensino então se realiza na língua portuguesa e temalgumas palavras ou enunciados traduzidos para a língua nativa, salvo exceções. A primeira etapa dessa inserção é a alfabetização do índio que apresenta duasperspectivas: de um lado os interesses da sociedade nacional, de outro os interesses indígenas.No primeiro caso é apresentado o discurso civilizatório da assimilação cultural: “(...) o índiodeve ter cultura, deve se intercomunicar, deve saber responder aos problemas criados pelasociedade envolvente, deve se integrar.” (MELIÀ, 1979, p. 58). Já as sociedades indígenas veem a alfabetização como possibilidade de dominaremuma técnica do branco e assim adquirirem prestígio, melhores possibilidades de emprego,apropriar-se de instrumentos jurídicos para defender seus direitos e interesses, registrar suastradições. Contudo, para o indígena a alfabetização – entende-se também ensino escolar – éum processo complementar da educação indígena e não um processo de assimilação cultural. Conforme Meliá (op. cit., p. 60) a alfabetização do índio é um problema complexoque deve “(...) considerar detidamente as condições pedagógicas nas quais vai ser feita e asituação linguística do índio, que vai ser alfabetizado, e a política linguística a ser seguida”. Ao dar continuidade à escolarização, o avançar das séries escolares defrontam osalunos índios com conteúdos organizados de modo, em muitos casos, descontextualizados.Conteúdos que representam os saberes das sociedades ocidentais com valores linguísticos eculturais alheios à sua construção ontológica. Os materiais didáticos escritos na língua nativa quando existem não passam detradução dos saberes ocidentais, salvo exceções. Aqueles materiais didáticos escritos nalíngua nativa que representam saberes tradicionais, ainda assim, apresentam problemas: foramescritos! A transcrição dos saberes que são difundidos de forma tradicionalmente oral nãorepresenta fielmente estes saberes, uma vez que, a escrita provoca a redução das formas oraisverbais e do seu conteúdo semântico, pois não possui mecanismos suficientes para representá-los. Gnerre (1998) denomina esse fenômeno de “decadência do diálogo” e o define como o“(...) processo de readaptação das formas discursivas na direção de novas exigências de
  40. 40. 39polarização ou/e reestruturação do poder discursivo, que em última análise é o poder.”(GNERRE, 1998, p. 111). Embora o principal ambiente de uso da modalidade escrita da língua, indígena ouportuguesa, seja a escola não significa que não se faça uso dessa modalidade em outrosambientes. Nos postos de saúde, cooperativas e igrejas das aldeias há circulação de materiaisescritos: livros de anotações, prontuários, avisos, atas, bíblias, entre outros. Muitos dessesmateriais, salvo algumas bíblias, são escritos em língua portuguesa. Porém, o uso destamodalidade na língua do outro, a língua portuguesa, contribui para a legitimação que a escritapertence à língua portuguesa e vice-versa e a língua indígena tem seu lugar na oralidade. A realidade sociolinguística de usos das línguas indígenas e portuguesa nasmodalidades oral e escrita confirma a hipótese de Monte (1994) que no contexto debilinguismo nas sociedades indígenas (...) o binômio oral/escrito vem sendo concebido e realizado, na escola e mesmo fora dela, distintivamente em duas línguas: o lugar do oral, no meu entender, está sendo ocupado preferencialmente pelas línguas indígenas, quando língua materna ou 1ª língua. O lugar da escrita pela língua portuguesa, na maioria dos casos, 2ª língua destes falantes. (MONTE, 1994, p. 55). A autora afirma ainda que esta construção pode ser explicada pela concepção dosgrupos, analisados por ela 11, sobre oralidade e escrita. A primeira é a linguagem “nativa,tradicional e indígena”; a segunda é uma língua alheia pertencente ao mundo dos outros eintegrada ao mundo do índio por processos de dominação sociocultural e econômica.11 Projeto de Educação Indígena – Uma Experiência de Autoria desenvolvido com 10 etnias do Acre.
  41. 41. 403 A PESQUISA SOCIOLINGUÍSTICA NA ALDEIA SORORÓ A pesquisa de campo, com finalidade de coleta de dados, foi realizada na AldeiaSororó durante o período de 11 a 22 de agosto de 2012 e contou com a participação de alunosdo Curso de Licenciatura Intercultural da Universidade do Estado do Pará. Participaçãopromovida através da aplicação dos questionários sociolinguísticos (Figura 07), reuniões ereflexões sobre os usos linguísticos e as práticas de leitura e escrita desenvolvidos na aldeia. Nesse momento foi possível conhecer o contexto sociocultural, descrito no primeirocapítulo deste trabalho; verificar a demografia e o quantitativo de falantes monolíngues ebilíngues; e, os usos linguísticos orais e escritos e situações nas quais se realizam na aldeia. Considera-se importante relatar a principal dificuldade enfrentada na realização dapesquisa, fato que exigiu alteração da quantidade de entrevistados. A princípio osquestionários sociolinguísticos seriam realizados com índios da etnia Suruí-Aikewara deambos os sexos a partir de 8 anos de idade. Porém, ao dar início à realização dos primeirosquestionários com crianças de aproximadamente 10 anos, notou-se que as mesmas tinhamdificuldades de responder às questões apresentadas; algumas se calavam tímidas, outrasrecorriam aos pais através do olhar e estes lhe diziam o que responder. Diante da situação foidecidido realizar os questionários com pessoas a partir de 12 anos de idade e se obtevesucesso. Ainda assim não foi possível realizar o questionário sociolinguístico com 29 pessoas,por motivos diversos: alguns estavam acampados na mata, outras viajavam em busca deserviços médicos, outros estavam ausentes da aldeia no momento da realização da pesquisa.
  42. 42. 41 Figura 07: Aluno da Licenciatura Intercultural/UEPA realizando questionário sociolinguístico com membros da comunidade. Foto: Ellen Oliveira, 08/2012.3.1 Atores, instrumentos e métodos da pesquisa Esta pesquisa é qualitativa com levantamento de dados quantitativo. Como método decoleta de dados foi utilizado observação participante e questionários sociolinguísticos (emanexo), estes questionários foram adaptados para a realidade Aikewara a partir dosquestionários utilizados nas pesquisas desenvolvidas por Aquino (2010) e Silva, M. (2001). Os questionários foram realizados com 177 pessoas dos sexos masculinos e femininossegmentando as faixas etárias em quatro: 12 – 21 anos, 22 – 40 anos, 41 – 60 anos e 61 anosou mais. Escolheu-se segmentar nas faixas etárias supracitadas em adaptação à realidadeobservada na Aldeia Sororó. Os jovens de 12 – 21 anos, sem generalizações, ainda frequentam a escola e estãoiniciando sua vida matrimonial. Os adultos de 22 a 40 anos já não frequentam a escola, salvoexceções, e em geral, além de casados já têm filhos. Os adultos da faixa etária de 41 – 60 anosjá são avós, e agregam ao seu núcleo familiar, a família de seus filhos e netos. A partir de 61
  43. 43. 42anos são velhos12 que, casados ou viúvos, mantem uma extensão familiar maior que a faixaetária anteriormente citada. Dentre as faixas etárias, as pessoas acima de 61 anos são aquelasque tendem a preservar a língua e os costumes aikewara, mesmo em face ao intenso contato, eensinam aos jovens. A tabela 01, a seguir, aponta a condição de monolíngue ou bilíngue. Considerando-se que o período em campo (12 dias) é insuficiente para se ter umpanorama da situação sociocultural do povo e dos usos linguísticos que realmente fazem emseu dia-a-dia, recorreu-se à entrevistas semiestruturadas com pessoas da comunidades e comprofessores indígenas.3.2 Falantes monolíngues e bilíngues de acordo com as variáveis gênero e faixa etária Antes de apresentar os dados é necessário expor a demografia da Aldeia Sororó. Essesdados demográficos foram obtidos a partir de tabelas demográficas disponibilizadas porfuncionários do posto de saúde da aldeia. De acordo com as tabelas13 do posto de saúde da Aldeia Sororó existem 364indivíduos nessa aldeia (cf. SESAI). Dos quais 148 são crianças de 0 a 11 anos dos sexosmasculino ou feminino. Dos demais 216 indivíduos – de ambos os sexos – 01 é da etnia Gavião, 03 são daetnia Parakanã e 07 não são indígenas. A população total da aldeia está distribuída em 61casas, porém há 72 famílias. O maior número de famílias em relação ao número de casas sedeve ao casamento matrilocal. Deste modo, uma nova família é constituída habitando oespaço territorial de uma família já existente. Dos 177 entrevistados 85 são do gênero feminino e 92 do gênero masculino. Háequilíbrio entre gêneros das faixas etárias de 12 a 21 anos e de 22 a 40 anos, conformeexposto nas tabelas 03 e 04. A tabela 01 abaixo apresenta o quantitativo de falantes bilínguese monolíngues de acordo com a faixa etária:12 Designação comum entre os Aikewara e não reflete preconceito.13 Atualizada no 1ª semestre de 2012.
  44. 44. 43Tabela 01 Idade Monolíngue Bilíngue Língua Suruí Língua Portuguesa12 – 21 6622 – 40 8141 – 60 2161 ou + 06 03Total 177 A tabela 02 aponta os falantes bilíngues e monolíngues por gênero feminino emasculino:Tabela 02 Monolíngue Bilíngue Total Língua Suruí Língua PortuguesaMasculino 05 87 92Feminino 01 84 85 As tabelas 03 e 04 agregam as variáveis faixa etária e gênero, feminino e masculinorespectivamente, de modo a encontrar aqueles falantes bilíngues ou monolíngues.Tabela 03 Idade Gênero Feminino Monolíngue Bilíngue Língua Suruí Língua Portuguesa12 – 21 3122 – 40 4041 – 60 1261 ou + 01 01Total 85
  45. 45. 44Tabela 04 Idade Gênero Masculino Monolíngue Bilíngue Língua Suruí Língua Portuguesa12 – 21 3522 – 40 4141 – 60 0961 ou + 05 02Total 92 Com 30 famílias foram realizadas observações direcionadas pelas Fichas deObservação Familiar – cujo principal objetivo foi identificar a língua de interação 14 entre osmembros da família – constatou-se que nas casas onde o chefe da família tem mais de 60 anosde idade (Figura )a principal língua de interação desses com sua esposa, seus filhos e netos é aLíngua Suruí. Porém, em geral, a comunicação entre velhos e crianças é mediada por umadulto (pai ou tio da criança e filho de um ancião) que compreende as duas línguas. Os paismais jovens, da faixa etária de 22 – 40 anos interagem com seus filhos, mais em línguaportuguesa. Contudo usam, esporadicamente, frases-prontas em sua língua materna, Suruí doTocantins, como os imperativos: “vem cá”, “vem comer”, “não vai”, “vai tomar banho”. Eainda termos lexicais que designam objetos como facão, nomes de animais e partes do corpo.14 Estes resultados estão intimamente ligados à compreensão de língua dos índios. Conhecer e nomear um cesto,um peixe, uma planta na língua Suruí significa falar a língua; mesmo que esta comunicação não se apresentedinâmica, ou seja, composta pelos elementos lexicais, semânticos, e sintáticos da língua nativa. Sendo assim,mesmo que conheçam apenas listas de palavras na língua nativa, consideram que a falam. Esta observação não seaplica aos Suruí-Aikewara que possuem mais de 60 anos de idade e são monolíngue na língua Suruí.
  46. 46. 45 Figura 08: Anciãos Aikewara após realização do questionário sociolinguístico. Foto: Ellen Oliveira, 08/2012. Ressalva-se que a pesquisa sociolinguística revelou que as crianças de 0 a 11 anos deidade (Figura 09), embora compreendam alguns itens do léxico da Língua Suruí e frasesimperativas, utilizam principalmente a língua portuguesa para interagir com as diversaspessoas da comunidade. Esse resultado foi obtido a partir da análise das fichas de interaçãofamiliar e dos questionários sociolinguísticos, além da observação diária durante o período empesquisa de campo. Os indivíduos bilíngues, que responderam aos questionários, afirmaram que falammais em língua portuguesa com as crianças e falam, principalmente, em língua Suruí com osanciãos.
  47. 47. 46 Figura 09: Crianças Aikewara brincando no pátio da aldeia. Foto: Ellen Oliveira, 08/2012.3.3 Os usos linguísticos orais e escritos da Aldeia Sororó Os usos linguísticos referem-se às línguas utilizadas em diferentes situações eambientes cotidianos, especializados, tradicionais ou não. Nos questionários sociolinguísticoshavia perguntas sobre os usos linguísticos individuais. Entretanto, ao realizá-los se percebeuque as resposta não correspondiam à realidade da aldeia ou à realidade do falante. Em alguns casos, o falante que declarou usar mais a língua indígena nas diversasatividades declarou na seção Facilidade Linguística não compreender ou não falar a línguanativa, há outros casos de falantes que embora declarassem compreender pouco a língua Suruíafirmaram falar frequentemente nessa língua com as crianças. A unanimidade foi o reconhecimento que os velhos falam mais na língua suruí e ascrianças falam mais na língua portuguesa. Diante das situações expostas acima foi decidido desconsiderar os usos linguísticosdeclarados individualmente nos questionários e partir para uma consideração mais ampla,
  48. 48. 47envolvendo os usos linguísticos da aldeia. A estratégia utilizada foi reunir os alunos daLicenciatura Intercultural para discutir sobre esses usos. A fala que resume os usoslinguísticos da aldeia é a de Tyape Suruí: “em todas as atividades nossas aqui da aldeia tem asduas línguas”. Os alunos ressaltaram que, quando existem atividades realizadas por crianças e velhos,deve sempre estar presente alguém que compreende as duas línguas para fazer a mediaçãoentre os falantes. Os mesmos alunos afirmaram que nomes de plantas, animais e peixes daTerra Indígena só conhecem na língua Suruí do Tocantins. Com base nas considerações ediscussões realizadas foi construída a tabela abaixo:TABELA 05 USOS LINGUÍSTICOSAtividades mais Qual língua é utilizada nas situações abaixo +LI15 +LP AMBASTradicionais Nas festas tradicionais – Ex.: Sapurahái X Nas cerimônias/rituais religiosos X Nas atividades de caça X // de pesca X // plantio (roça) X // coleta de frutas X // coleta de castanha X Durante confecção de artesanatos X Nas reuniões internas na aldeia X Brincadeiras infantis, banho no rio XAtividades Situações de compra e venda na aldeia entre parentes Xmenos Reuniões na aldeia com pessoas de fora Xtradicionais Nas cerimônias católicas/cultos evangélicos realizados X(inseridas a na aldeiapartir do Jogo de Futebol na Aldeia Xcontato) Viagens em grupo X Nas festas não tradicionais – Kamará ou aniversários X Oficinas de Formação de Professores na X Aldeia/Licenciatura Intercultural Namoro X O que se infere da tabela é que nas atividades mais tradicionais prevalece o uso dalíngua Suruí, complementa-se que este uso pode se dar através da nomeação de elementos dafauna e da flora, da entoação de cantos ou narração de mitos e histórias antigas. Nasatividades desenvolvidas a partir do contato, mesmo realizada somente por índios – como ojogo de futebol, viagens em grupo e oficina de formação de professores – a língua mais faladaé a portuguesa. Há explicação: além dessas atividades não serem da cultura indígena as15 LI = Língua Indígena; LP = Língua Portuguesa.
  49. 49. 48pessoas que as desenvolvem são bilíngues e, sobretudo jovens que tem menos domínio dalíngua em relação aos velhos. Nas cerimonias religiosas cristãs realizadas na aldeia são faladas as duas línguas, poisnas cerimônias católicas há preces proferidas na língua nativa; e nos cultos evangélicos háhinos cantados na língua Suruí. Durante a coleta de frutas, embora seja uma atividade tradicional, a comunicação serealiza principalmente em língua portuguesa devido a grande participação de crianças nessaatividade, a língua nativa é usada para nomear elementos da fauna e da flora. Os alunos do curso de licenciatura, que participaram da atividade de reflexão epreenchimento da tabela, ressalvaram que durante as atividades de confecção dos artesanatosa língua mais falada é a nativa porque as pessoas que ainda desenvolvem essa atividade são,em geral, os velhos. A seguir a tabela 06, preenchida juntamente com alunos da Licenciatura Intercultural,demonstra as práticas de leitura e escrita desenvolvidas na aldeia.TABELA 06 PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA NA ALDEIAEm qual(is) língua(s) Só Só LI=LP Observaçõessão escritos os LI LPseguintes textos quecirculam na aldeia:Cartas e bilhetes - - - Não desenvolvem este tipo de texto.Jornais e revistas XCartazes, avisos XMateriais religiosos X Exceto alguns hinos e a oração do Pai Nosso que ainda(Bíblia, panfletos, não foram escritos.hinário)Histórias, mitos X Há escassas histórias na língua Suruí.Textos Didáticos X Salvo algumas cartilhas.Relatórios (de Xviagens, de reuniões,etc.)Atas de reuniões XNotícias As notícias circulam na modalidade oral.Tarefas escolares X Há tarefas na língua portuguesa e língua Suruí, porém há mais na primeira.Levantamento, listas XLetras de Músicas X As músicas tradicionais são cantadas em LI, mas as letras de músicas existentes são da cultura envolvente e portanto em LP. Depreende-se da tabela que as práticas de leitura e escrita são realizadasprincipalmente em língua portuguesa. Este fato pode ser um reflexo do alfabeto na língua
  50. 50. 49Aikewara estar ainda em desenvolvimento; assim como pode ser consequência das políticasde ensino e de línguas para as escolas indígenas que privilegiam o ensino da línguaportuguesa.
  51. 51. 50Considerações Finais A Aldeia Sororó é uma comunidade indígena bilíngue, cujo fenômeno do bilinguismose deu devido ao contato linguístico decorrente da migração da população envolvente para seuterritório tradicional. A partir da regulamentação e constituição da Terra Indígena esseterritório torna-se uma ilha linguística, característica de muitas comunidades indígenas. As observações revelaram que o risco de desaparecimento que a língua sofre não estána frequência com que é falada, pois grande maioria dos falantes bilíngues Suruí – aoresponderem os questionários sociolinguísticos – declararam falar a língua em casa,principalmente com os idosos e em atividades realizadas em outros ambientes pertinentes àaldeia; como reunião no pátio, confecção de artesanatos, caça e pesca, preparação do roçado. Porém, as observações participantes revelaram que a língua que reconhecem falar sãopalavras isoladas que tem sua função comunicativa complementada pelo uso da línguaportuguesa. Assim, o que se verificou foi o uso frequente de substantivos ou expressões douniverso sociocultural do Povo Aikewara. Utilizado principalmente por aqueles com menosde 40 anos. Compreende-se que, em comunidades indígenas bilíngues, o uso de uma ou outralíngua constitui um fenômeno equivalente ao da variável linguística. O uso da língua nativaou da segunda língua são dois modos de realizar a comunicação na comunidade linguística. O uso da L1 (equivalente à variante conservadora) ou L2 (equivalente à varianteinovadora) é determinado por fatores como gênero, faixa etária, escolaridade,contexto/situação de fala, origem étnica do interlocutor. Do mesmo modo que há um conflito entre as variantes linguísticas em prol de suasobrevivência, há conflito entre as línguas. E este conflito é ainda mais grave, pois se amudança em progresso beneficiar a L2 pode resultar em morte da língua nativa, L1. Fato,infelizmente, comum na história dos povos indígenas do Brasil. Os dados revelaram que pessoas da etnia Suruí de 12 a 40 anos são bilíngues. Sãomonolíngues em Língua Suruí do Tocantins pessoas acima de 60 anos e as crianças de 0 a 11anos de idade tendem ao monolinguísmo em Língua Portuguesa, visto que seus familiares secomunicam com elas nessa língua. As crianças só têm contato com a língua Suruí em situações e ambientesespecializados, como em festas e atividades tradicionais e rituais, além de estarem maisexpostas à cultura envolvente através da escola e dos valores disseminados pelas redes detelevisão.
  52. 52. 51 Esta situação é preocupante, pois a geração que dará continuidade à etnia Suruí-Aikewara, as crianças que hoje compõem cerca de 40% da população, pouco sabem e menosainda falam na língua nativa. O que pode significar a perca de muitos saberes tradicionais. Os jovens e adultos bilíngues, salvo exceções, que afirmam compreender e falar alíngua Suruí, parecem compreender por língua o léxico e alguns enunciados nessa língua.Situação que, certamente, colabora para o enfraquecimento da transmissão intergeracional. Esse cenário sociolinguístico demonstra que hÀ

×