OS MORTOS SÃO MEUS VIZINHOS<br />Autora: Elizete Vasconcelos Arantes Filha <br />Recentemente fui a um velório do pai de u...
Os Mortos SãO Meus Vizinhos
Os Mortos SãO Meus Vizinhos
Os Mortos SãO Meus Vizinhos
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Os Mortos SãO Meus Vizinhos

910 views
856 views

Published on

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
910
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
3
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Os Mortos SãO Meus Vizinhos

  1. 1. OS MORTOS SÃO MEUS VIZINHOS<br />Autora: Elizete Vasconcelos Arantes Filha <br />Recentemente fui a um velório do pai de uma amiga em uma casa de velórios muito elegante aqui na cidade do Natal. Os amigos, aos poucos foram chegando em seus belos carros, com as suas belas roupas, e com as suas belas palavras de condolências. Como boa observadora, fiquei encantada com oritual funerário apresentado, tudo era muito bonito, limpo, organizado, muitas flores, muitas faixas de saudades vindas dos quatros cantos da cidade, com nomes de famílias importantes escritas em dourado ou prateado, de certa forma combinando com os demais acessórios. Após o culto ecumênico, todos se dirigiram ao cemitério, não menos suntuoso, um grande espaço afastado da cidade, com muros altos, estacionamento com manobrista, muitas luzes, com uma entrada digna de um condomínio residencial de luxo. No último adeus, após a decida do caixão à sepultura, uma salva de palmas e uma chuva de pétalas de flores. Até ai, nada demais, a maioria dos leitores também já vira cemitério e rituais funerários dignos de enredo de cinema. O que vocês nunca viram é o que vejo todos os dias em uma comunidade esquecida por Deus e pelos políticos, num bairro muito afastado das badalações, do comércio e dos condomínios de luxo, comuns à cidade do sol, em que todos os dias eu passo pela frente, indo e vindo.<br />Enquanto os “cemitérios de bacana” têm nomes poéticos, como Morada da Paz, Cemitério Nosso Senhor do Bomfim, Paraíso, Pedaço do Céu e outros tantos, em tantos lugares que já visitei. O Cemitério Pajussara, no entanto, está localizado num bairro chamado Brasil Novo. A confusão já começa por aí, é normal os cemitérios serem destinados a várias comunidades, mas esse em particular é centro de algumas polêmicas, pois não há espaço suficiente nem para enterrar os mortos de uma única comunidade, imaginem atender os mortos de tantas. Só sei que o cemitério favorece vários bairros, Pajussara, Brasil Novo, Parque das Dunas, Bairro Novo, República Nova, Pajussara Sítio, Novo Horizonte e outros. Estas comunidades cresceram ao redor deste cemitério e para encurtar a conversa todas se denominam de vizinhos do cemitério, portanto, todas têm o direito de enterrar seus mortos lá.<br />Bem, o cemitério serve aos mortos e aos vivos também, se alguém quiser achar uma rua, ou um estabelecimento comercial, ou alguém que mora na comunidade, tem como base o cemitério, a conversa sempre começa assim: “Você vai direto, quando chegar ao cemitério você dobra a esquerda”, e/ ou para quem vem de dentro da comunidade sempre sinaliza assim, segue em frente e ao “chegar ao cemitério, dobra a direita” e outra, “vai direto, direto, passa pelo cemitério e ainda vai direto”, na verdade todos têm que passar por este lugar, pois é a entrada para todas as comunidades e a forma mais viável de se chegar à praia de Genipabu, sim, aquela famosa praia com dromedários e que a global Ana Maria Braga, de vez em quando vêm fazer matérias para o seu programa. <br />Voltemos às comunidades que ainda têm muitos habitantes remanescentes dos empregados de uma antiga fazenda, cujo dono, seu França, como é conhecido no local, antes de morrer, foi deixando as famílias se apossarem e se estabelecerem no local. Ao levantar esta história entrevistei os moradores mais antigos e registrei através de fotografias. A história começa bem antes da época em que foi construído há 60 anos, ou seja, em meados de 1940, primeira metade do século XX, mas há registros orais dos habitantes antigos de pessoas enterradas desde 1900, pois não havia um espaço destinado para os mortos na região e os mesmos eram enterrados debaixo das árvores aos pés de pitombeiras e timbaubas, árvores ainda existentes no local. Mas não eram todos, os brancos eram enterrados em um cemitério pertencente à prefeitura de Extremós município do Rio Grande do Norte e ou no Cemitério Inglês no bairro do Igapó em Natal e, só os negros, eram enterrados debaixo das árvores, pois a maioria não tinha registros ou identificação de existência e não podia pagar para ter “seus últimos sete palmos de terra” e o transporte ficava dispendioso para as famílias.<br />Na época, o número de mortos era de um ou dois por ano e, às vezes, passavam - se três anos sem haver óbitos. No entanto, com o passar dos anos e com o aumento demográfico e, consequentemente, do número de óbitos, foi necessária a construção do cemitério, com as terras doadas às famílias dos empregados negros. Seu Genival 66 anos - alfabetizado, um dos remanescentes dessas famílias me mostrou o mapa das terras riscando no chão e explicando como foi a sua distribuição dizendo: “[...] finada Batista tinha a maior parte junto com Nanete. A minha parte era essa aqui. O filho de Nanete começou a plantar verdura e legumes no terreno do cemitério, já que tinha terreno sobrando... para venda em supermercados da cidade e para o consumo dos habitantes locais. A covisa mandou ele fechar o negócio, ele abriu ali na frente junto ao rio, o negócio prosperou, muita gente daqui é empregado dele. Ele é um bom patrão” . <br />Na década de 1970 um vereador do município de Ceará Mirim/RN o Sr. Roberto Varela, na tentativa de angariar votos da comunidade, assume a doação das terras passando em cartório a documentação como sendo o proprietário e doando à comunidade em nome da política. Consequentemente a prefeitura da Cidade do Natal assume a administração trazendo algumas melhorias, como a construção de um muro que delimita o espaço e uma pintura durante a época das eleições. No entanto, essa demarcação das terras também se tornou motivo de disputa já que a prefeitura só construiu o muro utilizando a metade do espaço utilizado pelo cemitério, a outra metade que foi invadida pelo filho de Nanete, ficou de fora e não mais passou a ser considerada como espaço pertencente ao cemitério. Sendo apossada posteriormente por uso capeão causando indignação a todos da comunidade vizinha ao cemitério. <br />Entretanto, logo as terras delimitadas para uso do cemitério foram ficando insuficientes, sendo forçoso diminuir a profundidade das covas e a largura e, em alguns casos, colocar um morto em cima do outro e até de lado, fora das regras ambientais que estipula um prazo de três anos entre um sepultamento e outro, já que não há uma divisão de concreto entre uma urna e outra. A situação do cemitério na atualidade vem provocando um desequilíbrio ambiental. Alguns moradores reclamam do lixo que se jogam ao redor do cemitério, restos de caixão de madeira, ossos e até fetos, dos trabalhos de “macumba” com galinha morta, da areia fofa de tanto remexerem a terra, do vento que leva o mau cheiro de carne putrefata até os vizinhos do cemitério, dos moradores desinformados sobre questões ambientais e saúde pública. Conversei com o coveiro, o sr. Jovenilson, Ele disse: “tenho que cavar 1.30 de profundidade, mas não dá, quando chego na metade a areia cai em cima de mim, uso bota e luva de plástico, mas sei que corro risco. Faz 60 anos que enterramos gente aqui, a terra já está contaminada, fede... todo mundo me alerta, mas não posso fazer nada, sou analfabeto, não vou consegui outro meio de vida”.<br />Recentemente a área que estava destinada para aumento do cemitério foi vendida ilegalmente e o novo proprietário iniciou a construção de um condomínio residencial, ficando muro a muro com o cemitério. Os lideres comunitários responsáveis pelo cemitério solicitaram a desapropriação do terreno à prefeitura local, as casas que estavam em construção foram interditadas e proibidas novas construções. Mas até então a prefeitura não liberou o terreno para uso do cemitério e segundo o administrador do local o sr. Arapuan José do Nascimento, “[...] quando o cemitério era particular, os moradores tornavam organizados. Depois a prefeitura assumiu, virou bagunça. Já solicitamos mais terrenos, mas a prefeitura se nega, tem terreno ali do lado, mas a prefeitura não quer pagar por ele, o negócio é colocar um defunto em cima do outro, mesmo fora de tempo. Se morrer duas ou três pessoas da mesma família em curto prazo, a gente abre a cova e bota o morto, quem sofre é o coveiro, que tem que abrir e fechar e levar toda a poeira”.<br />O coveiro o sr. Jovenilson, inconformado me disse: “ a gente enterra os mortos aqui em qualquer lugar, nos cantos da parede, entre uma cova e outra, onde tiver espaço. [...] Não sei quantos metros tem o local, não senhora”. Houve uma ocasião que eu estava fotografando os túmulos e pisei numa areia fofa, logo o sr. Jovenilson veio ao meu socorro e disse: “moça, ai onde a senhora ta, tem um defunto enterrado, cuidado para não afundar”. É importante dizer que já fazia algum tempo que havia sido enterrada uma pessoa ali e, não havia nenhuma identificação. Voltei um mês depois ao mesmo local para fotografar novos túmulos e no mesmo local onde quase afundei, tinha mais três covas recém fechadas e sem identificação, só algumas flores.<br />Também existe a contaminação do lençol freático pelo formol e pelas doenças, já que há no local o percurso do rio doce, cuja água é utilizada para aguar as plantações e para dar de beber aos animais. Quando falta água encanada à comunidade, os vizinhos mais próximos utilizam a água do rio para fazer as lavagens domésticas; e esse mesmo rio é utilizado como um lugar de lazer (banho e pesca) para os moradores e comunidades adjacentes. Outra questão que merece ser sublinhada é que a delimitação como área urbana só acontece na região que fica ao lado do cemitério, atravessando a rua já se distingue como área rural, possuindo todas as características. Uma das consumidoras de hortaliças da região confidenciou: “várias famílias sobrevivem da plantação de verduras, não queremos que eles saiam daqui, o que queremos é que o cemitério seja fechado e abram outro espaço para os mortos em outro lugar”. <br />Os vizinhos do cemitério reclamam da situação, mas não sabem a quem mais recorrer, haja vista o descaso da prefeitura e de alguns lideres comunitários que querem tirar proveito próprio: “[...] a gente não agüenta mais a falta de respeito com os nossos mortos. Esse trabalho que a senhora tá fazendo vai ser bom para despertar esse povo que não tem amor nem consideração. Eu tenho uma filha e um neto enterrado lá, cuido do túmulo deles e sei que também um dia vou ser enterrado junto com eles. Quero que o cemitério seja preservado. ( Sr. Genival – 66 anos). Lembrando aos leitores que esse terreno de toda essa controvérsia é o mesmo que já tinha sido doado há 60 anos atrás e que foi invadido ilegalmente para plantação de verduras e depois apossado por uso capeão, que posteriormente foi vendido para construção de um condomínio residencial e agora os moradores estão querendo que a prefeitura compre-o de volta. A prefeitura nega-se a comprar, pois não quer pagar o valor exigido e o conflito continua. Esses problemas atípicos a um cemitério, que até então acreditava-se ser um lugar de paz vêm interferir na auto-estima dos moradores adultos e dos jovens e crianças que são exatamente os vizinhos do cemitério, que ao menos na morte, gostariam de ter um pouco de paz e até um pouco de conforto.<br />Fontes: pesquisa oral com os vizinhos do cemitério Pajussara.<br />Fotografias de autoria da pesquisadora<br />Postado por PROFESSORA ELIZETE ARANTES às 19:47 2 comentários <br />Marcadores: Cemitério, Elizete Arantes, Os Mortos São meus vizinhos <br />

×