SUMÁRIO
1ª PARTE
!!
Sabedoria de Deus 06
!!
Indubitável Solidez 13
!!
Senso de Propósito 17
!!
Ignorância ou Preconceito 20
2ª PARTE
!!
O Livro: Conselhos do Santo 27
!!
Legitimidade da Origem da Bíblia 28
!!
Septuaginta e Apócrifos 33
!!
O Livro dos Séculos 38
!!
O Livro da Criação 48
Textos são palavras desconcertantes, desentoantes
Jogadas sobre o papel, como folhas ao léu
Num redemoinho mágico, muitas vezes em tom
trágico
Distorcem pensamentos, sentimentos e trauma
Textos são palavras intrigantes, personalidades
Gravadas sobre o papel, como portas para o céu
Num movimento santo, muitas vezes em tom
prático
Revelam pensamentos, sentimentos e calma
Textos são palavras pretensiosas para o presente e
o futuro
Cuja utilidade está reservada para o
esquecimento
Textos são palavras guias para o presente e o
futuro
Cujos frutos são gerados para a eternidade1
1 A palavra “texto” vem do latim textum, que nos remete à tecido, à entrelaçamento. E
o texto desta obra foi etimologicamente tecido, com suas pequenas partes entrelaçadas,
para que resista ao futuro.
SABEDORIA
DE DEUS
1ª PARTE
“Nosso saber é uma gotinha e o ignorar é um
oceano”. (Provérbio popular)
BASICAMENTE NÃO EXISTE mais perguntas filosóficas a
serem feitas: todos os povos, em todas as épocas já
realizaram inúmeras perguntas relacionadas, dentro de
vários contextos, com Deus e com a Bíblia. Entre estas
questões os temas como as origens da Terra e da vida são
os mais recorrentes.
Esta inquietação humana externada pela filosofia,
foi paulatinamente substituída pela panacéia da ciência e
do cientificismo, que se esforçam para explicar quase
tudo, esquecendo que certas questões não necessitam de
explicações, como esperança, fé, amor, perdão, Deus...
Mesmo com inumeráveis “respostas” disponíveis,
as pessoas continuam vivendo entre a indiferença e o
conflito, pois vêem em si mesmas o começo e o fim de
tudo, fazendo da mente humana um objeto de adoração.2
E para se sentirem seguras e felizes durante sua
passageira existência as pessoas criaram uma cômoda
2 “A soberba do teu coração te enganou, (...) que dizes no teu coração:
Quem me derrubará em terra?” (Obadias 3 – ECA).
religião, que expressa bem o egocentrismo intelectual e
social: a tecnociência, cuja pressa irrefletida a faz fugir de
Deus diariamente.
Assim, é possível encontrar pessoas bem
informadas, mas com uma cultura rasa; cépticas em
relação a tudo, porém sem senso crítico gabando-se com
toda jactância de nada; que não querem conclusões
seguras, pois se contentam com meras opiniões e
trivialidades. E isso é fruto de um mundo impessoal, sem
tradição, raízes ancestrais ou memória. Um mundo que
vive repetindo os mesmos erros na História. Um mundo
unido por circunstâncias efêmeras, ocupando espaços
comuns mas sem interesses comuns.
Para muitos, Deus, fé e religião são assuntos
ultrapassados. Friedrich Engels (1820-1895) afirmou que
“a religião nasce das concepções limitadas dos homens”.
A religião passou a ser considerada como um
fenômeno que define o comportamento humano num
determinado contexto. Porém, em contradição a estas
conclusões, os primeiros capítulos da Bíblia revelam que a
religião não foi inventada por homens. Mas mostram um
Deus amoroso em constante busca do homem (Gn 3.9). [O Pai da Sabedoria]
Após a queda da humanidade frente ao pecado no
Jardim do Éden, a religião passou a ser uma busca por
valores supremos, o reconhecimento de uma existência
que ultrapassa a existência humana. E esta visão passou a
definir até mesmo o Cristianismo, sendo considerado
apenas mais uma entre as muitas religiões do mundo (Ez
33.31-32).
Mas se o Cristianismo realmente fosse apenas mais
um caminho entre muitos, nem melhor ou pior, então
seria uma presunção desmedida supor que alguém poderia
aproveitar positivamente a nossa experiência religiosa (I
Co 11.1). E tornar-se-ia desnecessária e inverossímil a
aparentemente impossível missão conferida por Jesus:
“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a
criatura” (Mc 16.15).
O Cristianismo considerado apenas como religião,
anula nossas origens apostólicas, que traz em si mesmas
a urgente necessidade de evangelizar o mundo (Mc
16.16).
Antes de reduzir o Cristianismo à condição de mera
religião, é necessário aprender a julgar as pessoas através
da fé, e não a fé através das pessoas, pois a incredulidade
humana não diminui
a soberania de Deus (Rm 3.3-4). Assim como
ocorre na sociedade, o Cristianismo também compartilha
do caráter pecador dos homens que dele fazem parte (I Co
11.30). Contudo existe uma distinção entre a sociedade e
o Cristianismo que não é material, e sim espiritual.
Como religião, o Cristianismo infelizmente muitas
vezes transformou sua mensagem em um produto do
contexto cultural. Sujeitando o Evangelho a novas [O Pai da Sabedoria]
maneiras de pensar. Reformulando os ensinos bíblicos.
Imprimindo um caráter unicamente histórico as Leis
divinas. Isso para que a Bíblia fosse aceitável do ponto de
vista filosófico e coerente em relação à lógica.
A constante mudança na conjunção entre cultura e
religião exige respostas convincentes quanto às questões
teológicas. Todavia estas mudanças acabam por
apresentar um “deus” que lamenta por ser Deus, que
necessita de constante reciclagem para adaptar-se ao
moderno e suplica humildemente a atenção humana.
Em “Hexaêmeron” (“As nove homilias sobre a obra
dos seis dias”) Basílio Magno (330-379 d.C.) chama de
αα(“falseadores da verdade”) os que
distorcem as Escrituras, dando-lhe um sentido unicamente
humano.
Criam e recriam uma Igreja que busca o múltiplo
reconhecimento e a maior recompensa de todas: o poder.
Mas o verdadeiro cristão é aquele que não busca nenhuma
recompensa ou prêmio: sua recompensa é a Graça que
vem de Deus e sua maior herança é a contemplação e o
amor de Deus (II Co 12.9). E aceita humildemente a
Verdade, mesmo que ela seja a favor ou contra ele. Pois
para suportar a Verdade é necessário ir até aos limites
extremos da humildade.
Deve-se considerar que o Evangelho foi um dos
fatores mais importantes e também mais misteriosos da
época apostólica. E o tempo não teve o poder de
transformá-lo em uma simples opção, pois a Igreja
continuou viva na certeza de ter um relacionamento
pessoal com o único Salvador, Jesus Cristo (Mt 28.19-20). [O Pai da Sabedoria]
Quinto Septímio Florêncio Tertuliano (150 - ?), em
“De anima” (sobre a essência, origem e imortalidade da
alma), mostra que através da fé, até mesmo os iletrados
chegam a conhecer muitas Verdades inacessíveis aos
filósofos. Como observou Samuel Nyströn em 1939:
“muitos anunciam verdades que ainda não entendem;
Deus, porém, na Sua misericórdia, não olha para a falta
de ciência, mas para o desejo e o anseio de quem pede”. 3
E isto não é de se estranhar, pois coube à um
desconhecido grupo de galileus, anunciar ao mundo as
boas-novas do homem-Deus Jesus (At 1.8). Sem terem
que acomodar a Palavra de Deus aos seus interesses
pessoais ou aos dos ouvintes:
26
Porque, vedes irmãos, a vossa vocação,
que não são muitos os sábios segundo a
carne, nem muitos os poderosos, nem muitos
os nobres que são chamados.
27
Mas Deus escolheu as coisas loucas deste
mundo para confundir as sábias; e Deus
escolheu as coisas fracas deste mundo para
confundir as fortes.
28
E Deus escolheu as coisas vis deste
mundo, e as desprezíveis, e as que não são,
para aniquilar as que são. (I Coríntios 1.26-
28)
Em vez de imponentes sistemas filosóficos,
fundamentados no raciocínio e sustentados por sua
efêmera coerência interna; a Bíblia desafia os sábios com
o absurdo de um Deus que veio do céu para a terra,
fazendo-se homem foi da terra para a cruz, tendo sido
morto foi da cruz para a sepultura, mas ressurrecto ao
3 "Pelo Espírito do Senhor dos Exércitos”. Mensageiro da Paz. Rio de
Janeiro/RJ. CPAD. Pág. 10. Ano LXVII. Nº 1322. Outubro/1997. Artigo
de Samuel Nyströn, publicado em 1939.
terceiro e glorioso dia, foi da sepultura para o Céu (I Co
15.3-4)!
Muitos hoje acreditam mais em jornais e revistas
do que na Bíblia, mais em personalidades históricas do
que em Jesus. Ignoram que existem mais provas e fontes
confiáveis da existência de Jesus, do que de algumas
personalidades “históricas”, como Sócrates – cuja
existência foi testemunhada basicamente por um
discípulo, Platão.
Como disse Justino (século II d.C.) em “Apologia
II”: “Ninguém creu em Sócrates a ponto de dar a vida por
sua doutrina. Quanto a Cristo, (...) n’Ele confiam não
somente os filósofos e sábios, como também os artesãos e
as pessoas simples, e isto com o mais completo desprezo
às honrarias, ao medo e à morte. Pois Ele é a força do Pai
inefável, e não um vaso da razão humana.”
Jesus foi, dentro de qualquer contexto religioso, a
maior manifestação do sagrado (uma hierofania).
Enquanto nas diversas religiões o sagrado é representado,
em geral, por um mundo totalmente diferente do nosso,
em Jesus o sagrado se manifestou em uma íntima
semelhança com nós: na humanidade de Cristo, através [O Pai da Sabedoria]
da condição de Emanuel – Deus conosco (Mt 1.23). E esta
revelação do homem-Deus (Jo 8.19), foi definitiva:
somente é possível aceitá-la (Jô 20.28) ou rejeitá-la (Mt
9.34).
Porém esta revelação não está totalmente
acessível à razão humana, sendo necessário a fé para
aceitá-la. Pois a razão pode induzir o homem ao mesmo
erro de Ário (250-336 d.C.): concluir que Jesus não era
divino, mas apenas um ser humano excepcional. Todavia
os Evangelhos apresentam um Jesus que não deixou a
opção de ser considerado apenas um Mestre entre outros
(Jo 12.45).
INDUBITÁVEL
SOLIDEZ
“Por causa de seu orgulho, o ímpio não investiga;
todas as suas cogitações são: Não há Deus”. (Salmo
10.4)
Como escreveu Tertuliano em “De Praescriptlone
haerecticorum”: “Quanto a nós, não temos necessidade de
curiosidades depois da vinda de Cristo Jesus, nem de
pesquisas depois do Evangelho. Nós possuímos a fé e
nada mais queremos crer. Pois principiamos por crer que
para além da fé nada existe que devamos crer”.
Nada mais desejamos crer, pois conhecemos
plenamente a salvação. E nada mais poderá ser revelado
que acrescente algo à redenção humana. Entretanto ter fé
ou acreditar não basta. Tertuliano também considerava
necessária uma compreensão daquilo que se crê. Pois fé
não implica em descrédito à razão, ao conhecimento e à [O Pai da Sabedoria]
investigação meticulosa.
Todo cristão deve conhecer a fé em toda sua
intensidade, beleza e profundidade (Is 34.16). Deve
firmar-se de forma definitiva na fé, exatamente como a
Bíblia a apresenta: amando-a e colocando-a como conduta
de vida, para ter uma vida madura no Espírito Santo (Fp
1.27).
Sendo o homem um ser privilegiado, não buscar
esta compreensão ou a Sabedoria do alto, é colocar-se em
situação inferior a dos irracionais, tornando-se negligente
e leviano (Mt 22.29).
Todo crente deve buscar não somente um
crescente conhecimento de Deus, mas uma profunda
intimidade com Ele, para poder experimentar em si
mesmo toda a doçura do seu Deus. Todos devem colocar-
se à disposição e na posição de servo, pois Deus nos quer
usar sem reservas ou limites (I Cr 28.9).
Todavia, a maioria jamais alcança ou alcançará as
possibilidades que Deus lhe põe ao alcance, por ter uma fé
insuficiente (Lc 12.28, 31).
A razão nunca foi uma premissa necessária para a
fé. Crer para compreender ou compreender para crer: é
um esforço inútil tentar compreender para poder crer.
Sören Kierkegaard (1813-1855), sintetizou bem isto ao
afirmar: “se quero entender Deus objetivamente, é porque
não creio; e precisamente porque não posso entendê-lo
objetivamente é que preciso crer.”
Seria impossível transcrever todo conhecimento
acumulado para declarar a fé cristã bíblica. Por isso o
compromisso assumido está baseado na Reforma
Protestante – “as Escrituras somente”, pois somente ela [O Pai da Sabedoria]
contém a resposta definitiva.
Corroborado pela fé cristã objetiva como critério,
nesta série foram reintegradas as verdades que se
encontram parcialmente expostas nas diversas áreas do
conhecimento humano. A Teologia sistematizada nesta
obra é sintetizada e limitada as necessidades abordadas.
Mas por trás desta súmula existe uma rica
herança, vivida e composta por pensadores, descobridores
e pesquisadores que se empenharam em suas conclusões.
No entanto isso não significa que os temas aqui discutidos
giram em redor do pensamento humano, e sim em redor
de um único centro, que é Deus.
Dionísio Pseudo-Areopagita (século VI), em “De
divinis nominibus” escreveu que “a fé e a Escritura são o
fundamento inabalável e o princípio da unidade”.
Por isso nesta série se faz uma indicação precisa
das passagens que serviram de origem para as crenças
bíblicas, as quais deverão ser estudadas. Para esclarecer
possíveis obscuridades e ajudar o desenvolvimento
sistemático do assunto.
Assim o estudo fica bem delimitado, evitando
interpretações unilaterais. A citação de versículos é muito
eficaz quando não existe a intenção de deixar oculta a
concepção que está na base do texto.
Mesmo que se houvesse optado pela árdua missão
de tornar a revelação de Deus clara e compreensível ou de
demonstrar com nitidez o verdadeiro teor da fé cristã;
seria necessário implorar que o Espírito Santo nos
concedesse a sabedoria (Jo 14.26). O que nos faz retornar
a necessidade da fé.
A fé é o único antidoto para evitar o risco de uma [O Pai da Sabedoria]
intelectualização da fé cristã, o que seria apenas uma
tentativa malograda de validar todas as coisas pela razão.
E se verbalizar alguns assuntos já é um desafio, imagine
textualizar frente a um Cristianismo improdutivo, cada vez
mais nominal.
Nesta análise - para incorporar somente elementos
aproveitáveis para a compreensão e elaboração de um
tratado cristão - foi desprezado tudo o que não
interessasse para a fé. Para isso, foi necessário reconhecer
a fé como única norma, suficiente em si mesma, sendo
preferível ficar na ignorância do que ultrapassar os limites
da fé (II Pe 3.17-18).
E tudo que foi desprezado, também foi pesado,
pois nem sempre o desprezo é justo e eqüitativo,
principalmente quando refere-se a inteligência, sentidos e
ciência.
Todo cristão deve procurar conhecer tudo o que for
atingível à inteligência humana. Porém deve admitir que a
situação atual da natureza e do conhecimento humana não
é o único estado possível. Pois o homem tem a
possibilidade e a capacidade de alcançar a natureza
espiritual.
Em “De divina omnipotentia” Pedro Damião (1007-
1072), diz que todo cristão deve fazer com a filosofia
como o israelita fazia com a mulher prisioneira de outras
nações, antes de tomá-la como esposa (Dt 21.10-13):
cortar o cabelo (as teorias inúteis), aparar as unhas (as
obras de superstição) e tirar as vestes (as fábulas e as
crendices mundanas).
[O Pai da Sabedoria]
SENSO DE
PROPÓSITO
Não existe nada de novo nesta obra. Mas o
apóstolo Pedro nos exorta a estarmos “sempre preparados
para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir
a razão da esperança que há em vós” (I Pe 3.15).
As respostas sintetizadas nesta série não são
simplesmente parciais ou comprometidas com instituições
e conceitos religiosos. Muito menos servem aos interesses
de um determinado grupo em particular.
Elas procuram apresentar uma visão teológica
sincera e séria. Pois toda e qualquer perspectiva desta
série foi moldada pela Palavra de Deus.
Nada nestes livros é inspirado ou exige como tal,
pois tudo o que sai da boca do homem é parcial e
provisório, passível de revisão. Mesmo que sejam
comentários sobre a Bíblia, continuam sendo palavras de
um homem. [O Pai da Sabedoria]
As palavras apresentadas nestes livros são
somente verdadeiras quando se harmonizam com as
Verdades reveladas na Bíblia. A mensagem bíblica é
dogmática, não pode ser negada ou contestada, mas é
possível transmiti-la como em um diálogo, discutindo os
pontos aparentemente contestáveis sempre que for
oportuno e necessário.
Contudo deve-se manter uma atitude reflexiva e
uma maravilhosa emoção frente a cada descoberta. Para
poder sentir o gosto das palavras. Pois a mensagem de
Deus não é um vislumbre passageiro mas uma revelação
permanente.
O reconhecimento, mesmo a citação, de idéias de
outros, não deve ser visto como amizade ou apoio. Muitas
dessas citações ficam por conta da intertextualidade
literária. Mesmo que haja uma admiração pelos “pais da
Igreja” (os primeiros filósofos-teólogos-apologistas) não é
possível ver sem algumas reservas suas doutrinas.
Como filho de uma época, todo filósofo ou teólogo
está sujeito às influências de seu tempo, não sendo
plenamente livre de idéias preestabelecidas ou de coações
externas. Por isso, de certa forma houve uma luta para
elaborar uma obra o mais livre possível do peso da cultura
do tempo presente. E isso somente é possível quando há
uma viva consciência das próprias limitações.
Preservando as devidas proporções do respeito
mútuo, é preferível, de forma geral, manter uma atitude
modesta e reservada (o que vale mais que o ouro); pois
como escreveu João de Salesbury (1110, 1120 – 1180)
em “Polycraticus sive de nugis eurialium et vestigiis
philosophorum”, existem certas questões que não podem
ser resolvidas nem pela fé, nem pela razão e nem pelos [O Pai da Sabedoria]
sentidos.
Mesmo sendo uma série composta por livros pouco
mais que medíocres, foi optado em reter o “bem” e
desprezar tudo a que se assemelhe com o mal.
Distinguindo o santo do profano e o puro do impuro (Ez
22.26). Pois como disse Gregório de Nazianzo (329 –
390), “há perigo em se tocar o puro com o impuro”.
Esta série não será querida por alguns
“intelectuais”, também não enriquecerá a filosofia ou
acrescentará algo à teologia. É no máximo um conjunto
introdutório, limitado a assuntos cujo interesse pode levar
a inúmeras possibilidades.
E para aqueles que se deliciarão em refutar os
elementos desta obra, faço minhas as palavras de Antônio
Neves Mesquita registradas em 1928: “a crítica ainda
pode esperar por outros mais capazes”. 4
4 Mesquita, Antônio Neves de. Estudo no Livro de Gênesis. Rio de
Janeiro/RJ. Casa Publicadora Batista. Pág. 9. 4ª Edição. 1979.
IGNORÂNCIA OU
PRECONCEITO
“Por causa de seu orgulho, o ímpio não investiga;
todas as suas cogitações são: Não há Deus”. (Salmo
10.4)
Qual o preço do desenvolvimento da inteligência?
O desenvolvimento da inteligência ocorre, sempre,
às custas de coisas que devem ser esquecidas e
abandonadas, como antigos ideais e conceitos.
Foi desta forma que alguns “estudiosos
racionalistas” esqueceram de sua posição na criação (Rm
1.18, 21, 23), alienando-se de Deus (Is 51.12-13) e
abandonado a Verdade das Escrituras Sagradas (Hb 2.1).
Não ocorreu o desenvolvimento da inteligência, mas o [O Pai da Sabedoria]
início de uma loucura (Rm 1.21-22). Pois o princípio da
soberba é alienar-se de Deus.
A loucura foi o alto preço pago por filósofos
hodiernos (Sl 50.22), que classificaram as antologias dos
povos do passado como “antiga sabedoria” ou “sabedoria
milenar”. E em contraparte, as histórias bíblicas
receberam a classificação de mitos: narrativas alegóricas,
fábulas, lendas ou mesmo uma representação exagerada
dos fatos.
Estas literaturas antigas, cheias de heresias e
apócrifas, passaram ter credibilidade comparável à da
Bíblia (Tt 1.15). E, nesta equivalência com as histórias de
outros povos, não foi considerado o fator demoníaco que
opera nas demais religiões, ligando o santo ao profano (II
Co 6.14-16).
É um consolo saber que a fé em Deus (Hb 11.6) é
a única arma capaz de nos defender do indiferentismo
racionalista e das superstições espiritualistas (Ef 6.16).
Toda sociedade possui uma estrutura de
transferência do conhecimento de uma geração para
outra. Esta estrutura foi fundamentada durante séculos na
tradição oral, representada pelos mitos.
Porém, os mitos não devem ser vistos como as
teorias científicas ou mesmo sociológicas de um povo, pois
sua ênfase é normalmente a consciência do indivíduo. Os
mitos eram transmitidos por pessoas que buscavam um
conhecimento, por exemplo, da origem do homem, nos
limites de sua religiosidade.
É inegável que os estudos dos mitos revelam uma
clara universalidade do pensamento humano, que apesar
de linguagens diferentes, em sua essência é semelhante. [O Pai da Sabedoria]
Entretanto, não justifica uma confiabilidade ao nível da
Bíblia.
Se estas metáforas e simbolismos cruzam os
limites entre estes mitos e a Bíblia, é porque, em um
tempo incerto, todos os homens conheceram a Deus:
Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança (Gn
1.26), sem pecado (Ec 7.29), com a lei divina escrita em
seu coração (Rm 2.14, 15); e, até o incidente na torre de
Babel (Gn 11.1-9), todos foram testemunhas dos mesmos
fatos, como a criação, o jardim do Éden e o dilúvio.
E a narração destes fatos foi corrompida
posteriormente pelo paganismo regional e acrescidos de
símbolos e metáforas, cujos sentidos eram restringidos
pelas diferenças culturais.
Deve-se destacar que a Bíblia é anterior ao
surgimento de textos sagrados do hinduísmo, do budismo,
do islamismo e do xintoísmo. E diferente dos mitos e
lendas, os relatos bíblicos estão ligados a pessoas e datas
específicas (veja I Rs 14.25; Is 36.1; Lc 3.1-2).
Os primeiros adeptos da Teoria da Evolução
pensavam que teria existido uma fase na origem da
história humana em que não havia religião. Partindo da
crença de um antepassado pré-símio, e que animais não
possuem religião, os evolucionistas supunham ter existido
um longo caminho até o desenvolvimento da religião.
Todavia provou-se que esta crença era falsa. Todos
os povos possuem a memória de alguma espécie de deus
superior, um tipo de bondoso pai-criador-deus, que por
não ser temido deixou de ser adorado.
Por isso é “que a evolução a partir do animatismo [O Pai da Sabedoria]
(medo do escuro, ou segundo Bouquet, crença numa
vaga, poderosa e aterrorizadora força inescrutável) já não
pode ser considerado como axiomática, e alguns
antropólogos estão agora a sugerir que, certo ponto de
vista, o monoteísmo pode ser mais primitivo e natural do
que o animismo (religião do medo dos espíritos das tribos
primitivas). (...)
A sua investigação sugere que as tribos não são
animísticas porque tenham evoluído sem modificações
desde a alvorada da História. Pelo contrário, as provas
indicam uma degeneração de um verdadeiro
conhecimento de Deus. O isolamento em relação aos
profetas e livros religiosos levou-os ao suborno sacrificial
para aplacarem os espíritos, em vez das alegres refeições
sacrificiais na presença do Criador”.
Assim, as provas da História levam-nos de
regresso a uma reconsideração da resposta bíblica”. 5
Em cerca de 248 d.C., o filósofo grego Celso havia
afirmado que o monoteísmo era ridículo. Com base nesta
afirmação, Orígenes (185-255 d.C.) escreveu a obra
“Contra Celsum”, onde afirmou que a razão nos conduz ao
monoteísmo. Pois o politeísmo se desenvolveu à medida
que o homem se afastava de Deus.
Deve-se destacar que a constante formalização das
religiões, nunca foi sinônimo de evolução biológica, e sim
de progresso, de evolução social. No entanto a simples
afirmação de que as respostas contidas no livro de
Gênesis são relatos baseados na História, já seria motivo
suficiente para gerar protestos de cientistas e intelectuais.
Pois ignoram que entender plenamente as
verdades bíblicas é recuperar a História, usando-a como [O Pai da Sabedoria]
bases constitutivas e projetistas.
É sabido por todos que não se deve cair no grande
erro de aplicar a ciência em debates teológicos, pois
existem severas restrições para a ciência e para a religião
(Dt 29.29). Porém, isto não impede de ambos se
defrontar, em seus depoimentos contraditórios, para se
apurar a verdade.
5 "As religiões do mundo: do primitivismo ao século XX”. Ob. Cit. Pág.
31. Reverendo Robert Brow
Ao contrário da ciência, a religião policiada pela fé
e aliada com a teologia, tem a humildade de recusar a
compreender o que a ultrapassa e põe sua confiança em
Deus. E apesar dos evidentes limites da ciência e da
religião, ambas devem aprender que não se pode confinar
o Inconfinável.
Contudo alguns praticam a mais estúpida das
tentativas, que é limitar Deus, querendo ditar o que Deus
pode ou não fazer, no que Deus deve ou não agir. A
maioria desses erros se origina em concepções
extremamente antropomorfas de Deus e unicamente
materialistas das coisas espirituais.
Não convém interpretar a Bíblia cientificamente,
pois ela não foi escrita com esta finalidade (Tt 3.9).
Apesar de usar uma linguagem singela e despretensiosa,
ela não foi escrita para satisfazer curiosidades, mas
edificar vidas.
Orígenes escreveu que “a despretensiosidade da
letra nos conduz à preciosidade da compreensão
espiritual”.
Outrossim, “a terminologia científica começou a
desenvolver-se a partir do início do século XIX. Além do [O Pai da Sabedoria]
mais, cada ciência adquiriu o seu próprio vocabulário. (...)
Os cientistas empregam as palavras nos mais variados
sentidos. Mas a linguagem da Bíblia não é científica”. 6
A função da ciência é apenas descrever e descobrir
processos e não definir os propósitos das coisas. O
“cientismo” ou “cientifismo” é uma superstição que
acredita possuir as respostas do objetivo e significado de
nossos atos.
Por isso, apesar de todo o conhecimento
acumulado, a ciência não possui respostas para questões
básicas como o motivo da existência do universo e da
vida. E nem mesmo soluções para os problemas da
humanidade.
O caos que existe hoje é resultado da falência de
uma sociedade científica e tecnocrática que obteve o
completo fracasso ao ignorar a dimensão espiritual do
homem. Pois o intelecto humano é incapaz de resolver
problemas espirituais (I Co 2.14, 15; 3.19, 20).
Mesmo sem o apoio da ciência, a
Bíblia continua sendo respeitada através
dos tempos, sobrevivendo a impérios e a
ideologias. Isto prova que a Verdade (Jo
8.32) é o único antídoto para a cegueira
(intelectual, moral e espiritual) causada
pelo pecado (Ap 3.17, 18). A Verdade e a
6 William W. Menzies & Stanley M. Horton. Doutrinas Bíblicas - Uma
Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro/RJ. CPAD. Pág. 31. 2ª Edição.
1996
Revelação podem ser ignoradas mas
nunca destruídas.
Mesmo com tanta informação à disposição do
homem, a falta de sabedoria tem sido o entrave da
inteligência. Sabedoria é o conhecimento moral e espiritual
de Deus, independente da capacidade cientifica,
acadêmica ou filosófica do indivíduo.
E sem fé é possível chegar até a inteligência, mas
impossível alcançar a sabedoria (Is 7.9), pois o verdadeiro
conhecimento não vem de dentro: vem do alto (Êx 28.3).
E qual o preço do desenvolvimento da sabedoria?
O desenvolvimento da sabedoria ocorre, sempre,
às custas do temor ao Senhor (Sl 111.10).
O desenvolvimento da inteligência é uma
construção contínua, caracterizada pelas substituições e
adições de grandezas quantitativas, qualitativas, espaciais
e temporais.
Mesmo sendo dotado de uma capacidade para
progredir indefinidamente, o homem não pode por si [O Pai da Sabedoria]
mesmo alcançar a Sabedoria (Jó 28.12-13). Pois a
sabedoria é um dom de Deus e não simples fruto dos
recursos humanos (II Cr 20.20).
É com esta Sabedoria que cada crente deve se
conduzir diariamente (Pv 3.13). E sua preciosidade
consiste na capacidade de fazer refletir em todas as ações
diárias o temor ao Senhor (Pv 3.14-18).
28
Eis que o temor ao Senhor é a
sabedoria, e apartar-se do mal é a
inteligência. (Jó 28.28)
O LIVRO: CONSELHOS
DO SANTO
2ª PARTE
“É Deus quem fala no homem, é Deus quem fala
pelo homem, é Deus que fala como homem, é Deus que
fala a favor do homem”. (Myer Pearlman) [O Pai da Sabedoria]
“Disse o néscio em seu coração: Não há Deus”.
(Salmo 14.1)
DEUS EXISTE e tem se revelado para a humanidade. Esta
é a mensagem com a qual se inicia a Epístola aos
Hebreus: “Havendo Deus antigamente falado muitas
vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a
nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho. A quem
constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o
mundo” (Hb 1.1-2).
E cada vez que Deus se revela através de Sua
Palavra, é como água cristalina: refresca, renova as
forças, mata a sede e nos inspira vida.
LEGITIMIDADE DA
ORIGEM DA BÍBLIA
“Por causa de seu orgulho, o ímpio não investiga;
todas as suas cogitações são: Não há Deus”. (Salmo
10.4)
[O Pai da Sabedoria]
Todas as Palavras de Deus estão registradas na
Bíblia. A Bíblia (vocábulo derivado por meio do latim e
proveniente do termo grego “biblia” - “Livros”) não se
assemelha a nenhum outro livro do mundo, por isso é
corretamente chamado de “O Livro dos livros”.
Antes da invenção da imprensa em 1436, por João
Gutenberg, todo o registro bíblico era “manuscrito” (do
latim “Manus” – mão e “scriptus” – escrito). Para isso
eram usados diversos materiais, como:
Pergaminho: peles de carneiros muito finas, curtidas e
polidas (II Tm 4.13). Teve seu uso generalizado a partir
do século I, na Ásia;
Papiro: material extraído de um junco de 2 a 4 metros
de altura, que cresce às margens do rio Nilo (Êx 2.3; Jó
8.11; Is 8.2; II Jo 12). Sua origem remota 3000 a.C.,
no Egito. Porém não era usada largamente pelos
judeus;
Argila (Êx 4.1);
Cera (Is 8.1; 30.8; Lc 1.63);
Chumbo (Jó 19.23, 24);
Ouro (Êx 28.36).
Os textos eram escritos letra por letra em quadros
de madeira divididos 10 por 10 letras; para os mais
importantes, se usava a pedra como no caso das Dez
Palavras, o Decálogo.
Não encontramos o termo “Bíblia” além de sua
inscrição na capa. Ela é chamada de Escrituras ou
Sagradas Escrituras (Mt 21.42; Rm 1.2), Livro do Senhor
(Is 34.16), Palavra de Deus (Mc 7.13; Hb 4.12), Oráculos
de Deus (Rm 3.2). [O Pai da Sabedoria]
O termo “Bíblia” foi primeiramente utilizado pelo
reformador cristão João Crisóstomo (398-404 d.C.). Este
vocábulo é derivado por meio do latim e proveniente do
vocábulo grego que remete etimologicamente a idéia de
“coleção de livros”.
Devido a incrível harmonia, unidade, consistência e
coerência destes livros, o termo grego “biblos” passou a
ser singular nas línguas modernas.
20
Sabendo primeiramente isto: que
nenhuma profecia da Escritura é de particular
origem.
21
Porque a profecia nunca foi produzida
por vontade de homem algum, mas os
homens santos de Deus falaram inspirados
pelo Espírito Santo. (II Pedro 1.20, 21)
O Cristianismo herdou do Judaísmo a fé em um
Deus que fala. Não palavras vazias, mas palavras que
geram ação, palavras dinâmicas. E foi justamente a
necessidade de registrar as surpreendentes revelações
feitas deste Deus, que deram origem a Bíblia.
Tão grandioso registro só poderia ser feito por um
único povo a qual este Deus progressivamente se
revelava: o povo judeu.
Deus revelou-se lentamente através dos séculos.
Esta revelação foi gradual, da menor revelação para a
mais complexa. Porém não existem revelações antigas ou
novas na Bíblia, nem revelações primitivas ou modernas,
nem inferiores ou superiores. [O Pai da Sabedoria]
O relato bíblico é o desdobramento do
relacionamento entre Deus e o homem. Por isso os mais
profundos e inquietantes dilemas existenciais são
respondidos pela Bíblia.
O chamado Velho Testamento foi escrito quase
todo em hebraico (II Rs 18.26, 28; Ne 13.24; Is 19.18;
36.11, 13). O hebraico, que faz parte do grupo ocidental
das línguas semíticas, lê-se da direita para a esquerda.
Seu alfabeto é composto por 22 letras, todas
consoantes, como as que se vêem no Salmo 119 e nos
capítulos 1 a 4 de Lamentações de Jeremias (somente em
algumas versões). Apenas as passagens de Ed 4.8 a 6.18;
7.12-26; Jr 10.11; Dn 2.4 a 7.28 e duas palavras em Gn
31.47 foram escritas em aramaico. As traduções somente
conservam a inspiração divina quando reproduzem com
fidelidade as línguas originais.
Estas Escrituras Hebraicas (que correspondem ao
Velho Testamento), vão Gênesis a Malaquias, e registram
o relato da criação e os primeiros 3500 anos da história da
humanidade. São geralmente chamadas de “Tanakh” (em
hebraico )תנ״ךe divididas em três seções (Lc 24.44):
“Torah” ( - תורהA Lei), “Neviim” ( - נביאיםOs Profetas) e
“Kethuvim” ( - כתוביםOs Escritos).
Os tradutores gregos da Septuaginta chamaram
esta última seção de “Os hagiógrafos” ou “Santos
Escritos”. Já as Escrituras Samaritanas correspondem ao
Pentateuco hebraico.
O “Velho Testamento” hebraico é de certa forma
menor que o encontrado na maioria das bíblias, pois é
composto por apenas 22 livros.
Os judeus consideram como um os livros de Juizes
[O Pai da Sabedoria]
e Rute, I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras e
Neemias, Jeremias e Lamentações, e os doze profetas
menores. Já as Escrituras Gregas vão de Mateus a
Apocalipse, compondo o Novo Testamento.
O Velho Testamento é composto por 39 livros
divididos em quatro seções: Leis (5 livros), História (12
livros), Poesia (5 livros) e Profecias (17 livros). Esta
organização temática apareceu na Vulgata Latina e foi
baseada na Septuaginta.
Estas divisões ressaltam que a Bíblia não é uma
obra sistemática, suas doutrinas encontram-se sob as
mais diversas formas literárias. Na coleção de livros
sagrados do Velho Testamento está a história da aliança
contraída com Deus com Israel antes de Cristo.
O Novo Testamento também é dividido em quatro
seções: Biografia (4 livros), História (1 livro), Doutrina (21
livros) e Profecia (1 livro). Apesar da maioria dos
escritores do Novo Testamento serem de origem judaica,
os livros foram escritos em grego, que era a língua comum
do Império Romano.
Apesar destas divisões e sub-divisões, a Bíblia
apresenta uma unidade íntima, profunda e completa, que
está além de qualquer aparência, coletânea ou antologia.
Na Bíblia o Velho e Novo Testamento se fundem
harmoniosamente para forma um único tema – a redenção
humana. Pois sua composição está ligada, em cada
momento histórico, à degeneração do homem e o fiel
amor de Deus.
Em função da natureza histórica do Velho
Testamento, muitos o tem posto em um plano inferior ao
Novo Testamento. Esquecem que o Velho Testamento é o [O Pai da Sabedoria]
alicerce para o magnífico plano da salvação de Deus.
Os dois Testamentos não se opõem, antes se
completam, pois a incrível harmonia da Bíblia tende a
mesma finalidade. A relação entre os Testamentos é o de
promessa (Velho) para o cumprimento (Novo). Pois é o
próprio Senhor quem diz: “Eu velo sobre a minha palavra
para a cumprir. (Jeremias 1.12).
Jesus reivindicou a autoridade inquestionável do
Velho Testamento ao usar a expressão “está escrito” (Lc
4.4). Ele reconhecia o Velho Testamento como sendo a
Palavra de Deus: “o Criador” (Mt 19.4-5); “pelo Espírito
Santo” (Mc 12.36), “o que Deus declarou” (Mt 22.31).
SEPTUAGINTA E
APÓCRIFOS
“Por causa de seu orgulho, o ímpio não investiga;
todas as suas cogitações são: Não há Deus”. (Salmo
10.4)
[O Pai da Sabedoria]
Após a expansão do império de Alexandre III, o
Grande (356 – 323 a.C.) a partir de 331 a.C., a língua
grega popularizou-se e tornou-se inevitável uma tradução
das escrituras hebraicas.
Em 285 a.C. (ou 275), a pedido de Demétrio
Falario (bibliotecário do rei Ptolomeu Filadelfo), 72 sábios
do Sinédrio de Alexandria iniciaram uma tradução das
escrituras hebraicas para o grego.
Cerca de 39 anos depois haviam concluído a
tradução que ficou conhecida por “Septuaginta” (em latim
“Setenta”, em referência ao número de tradutores), o que
acabou por se tornar a Bíblia no Ocidente.
Nesta versão foram incluídas umas séries de textos
que, apesar do valor histórico e literário, não faziam parte
do cânon hebraico. O termo “cânon” (“norma” ou “vara de
medir”) é usado para designar a coleção de livros
inspirados por Deus, reconhecidos pela tradição e aceitos
como regra de fé.
A existência deste cânon (abrangendo sua
formação, a sua composição, a sua preservação e a sua
transmissão) é um milagre de Deus. É difícil imaginarmos
o quanto o trabalho manuscrito feito por escribas foi
trabalhoso, vagaroso e oneroso.
Estes outros livros haviam surgido no período entre
os Testamentos Velho e Novo (270 – 50 a.C.), e ficaram
conhecidos como “apócrifos”. Foi por causa destes livros
que o termo “apócrifo” ganhou vários significados: no
sentido etimológico, significa “escondido” ou “secreto”; no
sentido doutrinário bíblico, significa “não inspirado”; no
sentido geral, significa “livro de falsa autoria”.
Ao admitir livros apócrifos e
pseudoepígrafos formou-se a Bíblia
católica. Entre os apócrifos da antiga
aliança (o Velho Testamento),
encontram-se: I e II Esdras, Tobias,
Judite, Sabedoria de Salomão,
Eclesiástico, Baruque, Epístola de
Jeremias, Canção dos três jovens,
Oração de Manassés, I e II Macabeus,
Enoque, Assunção de Moisés.
Em 1546 o Concílio de Trento (um concílio de
orientação católica, contra a Reforma Protestante)
considerou alguns desses livros como “protocanônicos” e
outros como “deuterocanônicos” (“Segundo Canônicos”).
A partir de então eles foram incluídos na Bíblia
Vulgata Latina (versão católica romana), como: Livros
Históricos (Tobias, Judite, I e II Macabeus e adições ao
livro de Ester), Sapiênciais (Sabedoria de Salomão e
Eclesiástico) e Proféticos (Baruque e adições ao livro de
Daniel).
Por não aparecerem no cânon hebraico (pois foram
escritos em grego) e nunca terem sido citados por Jesus
ou os apóstolos, este livros não aparecem em diversas
versões da Bíblia, principalmente as protestantes. Pois são
providos de autoridade meramente humana e eclesiástica.
A Bíblia protestante fica entre a católica e judaica: admite [O Pai da Sabedoria]
somente os livros judaicos, mas na ordem católica.
Os livros que compõe a Bíblia são considerados
“canônicos”, não pela aptidão da mente de seus escritores
ou por não apresentarem erros teológicos. Mas pelo fato
de terem sido inspirados pelo Espírito Santo, tendo Deus
como autor (I Pe 1.10-11).
Por isso qualquer que ler a Bíblia, chegará a
conclusão que o escritor não pode ter tido somente um
surto de criatividade, e que seu esboço veio dos céus.
Na época de Jesus, os 39 livros do Velho
Testamento já eram aceitos pelo Judaísmo, por isso são
citados centenas de vezes pelos escritores do Novo
Testamento. Quanto ao Novo Testamento, Atanásio (367
d.C.) e o Concílio de Cartago (397 d.C.), declararam seus
27 livros como “canônicos”. Para isso foi considerado a
Apostolicidade, a Universalidade, o Conteúdo e a
Inspiração de cada livro.
No passado houve discussões quanto a
canonicidade de Ezequiel, Eclesiastes, Cantares de
Salomão e Esdras, o que ficou conhecido por
“Antilegômena” (“Contestado”, em grego). Também
existem composições diferentes da Bíblia, como a etíope
que inclui I Enoque e Jubileus ou a utilizada por alguns
ramos da Igreja Siríaca, que não incluem II Pedro, II e III
João, Judas e Apocalipse.
Outras traduções importantes são: a Hexapla de
Orígenes, a Siríaca Peshita (150-200 d.C.), e os targuns
(de Jonatã, Onquelos e de Jerusalém).
As Escrituras são dignas de confiança e infalíveis
em sua composição original. Se existem falhas ou erros,
são dos copistas e tradutores (compare II Rs 24.8 com II [O Pai da Sabedoria]
Cr 36.9).
Um erro comum dos copistas era as omissões
involuntárias, conhecidas por “Homoioteleuton” (no grego
“final igual”). Quando terminava o trabalho ou desviava os
olhos do texto, o copista ao reiniciar, se encontrasse duas
passagens com finais iguais, poderia enganar-se e
continuar do último final, omitindo o contexto.
A Torah ou o Rolo da Lei, ainda hoje só podem ser
copiadas pelos escribas ou Sopherim (no hebraico
“guardiões da palavra”). São eles que conhecem o
memorizam o texto, o conhecendo no exato seguimento
das letras.
Existe uma extensa lista de variantes textuais
encontradas nas Bíblias que envolvem acréscimo ou
omissão de palavras, ordens textuais e discrepâncias
numéricas. São normalmente compostos por erros de
copistas ou atualizações deliberadas da linguagem.
Todas estas variações além de não interferirem em
qualquer grande doutrina bíblica, são mínimas frentes as
verdades contidas na Bíblia. Deve-se destacar que a Bíblia
não é apenas derivada de fontes documentárias, nem
forma uma coleção de fragmentos ajuntados.
Mas para a reprodução dos manuscritos guardados
pelos sacerdotes, existiam rígidos cuidados, assim como
para sua manutenção. As descobertas arqueológicas
revelaram que os textos atuais são substancialmente os
mesmos dos tempos em que foram escritos.
Isto foi beneficiado pelo uso do hebraico, que é
uma língua concisa e de difícil mutabilidade. Pois não
existem línguas primitivas: muitas línguas dos povos
nativos são mais complexas e eficientes do que a de
países civilizados. O que se tem notado é justamente o
contrário: uma tendência de ir do complexo para o
simples.
Antigamente, mesmo para um rabino experiente,
encontrar uma passagem nas Escrituras era uma tarefa
incrível, pois elas não eram numeradas por capítulos e
versículos (Lc 4.16-17).
A Torah foi primeiro “uma única
palavra”: seu texto escrito em Lashon
Hakodesh, era sem lacunas, sem
espaços entre as letras, não possuía
acentos ou pontuação. Somente em 1250
d.C. o Cardeal Hugo de Sancto Caro,
monge dominiciano, dividiu a Bíblia em
capítulos; o Arcebispo da Cantuária
Stephen Langton também havia feito
uma divisão semelhante em 1232.
Em 1551 o impressor francês Robert Stphen dividiu
a Bíblia em versículos, que também havia sido dividida em
1525 pelo erudito judeu Jacob Ben Haim, em Veneza.
Apesar de toda gratidão e admiração que devemos
ter por estes homens, é lamentável que muitos versículos
passaram a sofrer interpretações estanques, com
conexões arruinadas.
[O Pai da Sabedoria]
O LIVRO DOS
SÉCULOS
“Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu
caminho nem do homem que caminha o dirigir os seus
passos”. (Jeremias 10.23)
A Bíblia é um livro de revelação e infabilidade total,
por isso é a autoridade exclusiva sobre tudo quanto o
homem necessita saber em relação a Deus (ações,
pensamentos e vontades) e de Seu propósito redentor (Jo
3.16).
Foi A. H. Strong quem afirmou que “a Bíblia é a
regra suficiente de fé e conduta”. Mais do que isto: sem a
Bíblia não teríamos condições de conhecer Deus.
Antes de Cristo os homens somente tinham acesso
ao conhecimento natural, que obviamente era adquirido ao
se observar as coisas criadas. Poucos, fora da nação
israelita, tinham acesso à Palavra de Deus. Mas depois de
Cristo, todos os homens podem ter acesso à um
conhecimento transcendental.
O irlandês João Scoto Erígena (800 - ?) em sua
obra “Commentarium in Joannem”, compara o
conhecimento natural – adquirido na fonte da razão – com [O Pai da Sabedoria]
o poço de Jacó e seu esforço para tomar a água (Jo 4.3-
13). Já o conhecimento transcendental – adquirido na
fonte da fé – é a água oferecida por Cristo. Quem a beber
nunca mais terá sede.
A Bíblia não é uma “fraude piedosa”, com uma
fórmula simplista para convencer o homem de uma
suposta salvação; nem um “apanhado de bons
pensamentos”, o qual pode tornar o homem um ser
moralmente melhor. Pois os padrões éticos e morais de
Deus, expressos na Bíblia, são superiores as vulgaridades
deste mundo.
Nem tão pouco um manual sistemático de leis,
rituais, doutrinas ou respostas. Ela apresenta as verdades
divinas nos contextos históricos e ordinários da vida de um
povo. Mostrando os sucessos quando um indivíduo ou uma
nação passa a agir em harmonia com a vontade de Deus.
Bem como os exemplos individuais e coletivos de
derrotadas e humilhações por confiarem somente em suas
obras e suas posses (Jr 48.7).
Ao criar o homem (Gn 2.7), Deus por bondade o
(Gn 3.8), ocasião na
visitava na “viração do dia”
qual conversava com ele. Mas o pecado
mudou este relacionamento entre Deus e
o homem (Is 59.2). Expulso do Paraíso
(Gn 3.24), o homem não pode mais
desfrutar o privilégio de ouvir a voz de
Deus.
Mesmo assim Deus bondosamente continuou [O Pai da Sabedoria]
falando e revelando-se muitas vezes e de várias maneiras
(Hb 1.1). Esta progressiva revelação de Deus não ocorreu
para destacar nossa ignorância, mas para nos fazer
entender que é possível conhecê-Lo (Os 6.3). E ter
diariamente uma nova experiência em que possa sentir a
Sua presença.
Deus não se fechou em si mesmo, taciturno,
impenetrável. Antes diminuiu sua grandiosidade para não
somente falar com ou através do homem, mas para falar
como homem.
Paulo sintetiza esta procura de Deus pelo homem
ao afirmar que Cristo Jesus “sendo em forma de Deus,
não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se
a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se
semelhante aos homens; E, achado na forma de homem,
humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e
morte de cruz” (Fp 2.6-8).
Literalmente a Bíblia desce de Deus ao homem, a
fim de subir o homem até Deus. Por isso ela faz
maravilhas nos corações dos homens.
Apesar da evidente impossibilidade em exprimir
Deus através de palavras (pois não conhecemos Sua
essência), é possível conhecê-Lo através de palavras. Por
isso, mesmo transcendendo em tudo o conhecimento
humano, Deus revelou-se através da Bíblia.
A natureza íntima de Deus
permanece incompreensível ao nosso
entendimento essencialmente limitado
[O Pai da Sabedoria]
ao ser finito. Assim os termos
antropomórficos, quando aplicados a
Deus, são limitados pela conceituação e
percepção.
Mas não podemos ser agnósticos e negar
totalmente a capacidade do homem em conhecer Deus. Os
que assim crêem, confundem o pensamento absoluto e o
conhecimento de Deus. Pois através das Escrituras nos é
permitido chegar a um conceito verdadeiro sobre Deus.
Esta é a grande diferença entre a Bíblia e a
Ciência: a ciência não revela Deus, mas esconde Deus
evidenciando apenas sua criação. Enquanto a Bíblia se
relaciona com Deus, muitas vezes o pensamento científico
se opõe a ela. E é exatamente essa a beleza incomparável
da Bíblia: o seu poder de nos aproximar de Deus (Jo
5.39,46).
Mas o que nos concede o direito de classificar como
superstições, mitos ou mentiras os escritos e as crenças
das demais religiões?
São múltiplas as diferenças que distinguem a Bíblia
de qualquer outro livro. A principal diferença é justamente
a inspiração divina encontrada exclusivamente na Bíblia,
sendo superior à consciência e à razão.
Essa inspiração, não é uma inspiração natural, que
possa ser confundida com “esclarecimento” ou
“iluminação”, pois conforme II Tm 3.16, 17 a Bíblia emana
de Deus: “Toda a Escritura é dada pelo sopro de Deus”.
Ou seja, o Espírito Santo não serviu [O Pai da Sabedoria]
apenas como catalisador ou amplificador
das percepções religiosas de cada
escritor. Por isso a Bíblia é chamada de
Palavra de Deus. E se a declaração de II
Timóteo for correta e verdadeira, então
se torna inimaginável a sabedoria que
Bíblia contém.
A Bíblia não deve ser vista como fruto de uma ação
mecânica (simplesmente ditada por Deus) ou uma ação
dinâmica (confiável mas sujeita a erros). Pois ela não é o
registro da Palavra de Deus, ela é a própria Palavra de
Deus para hoje.
Deus usou os mais de 40 escritores de forma
plena, fazendo com que suas faculdades (dons, educação,
vocabulário e estilo) tomassem parte nos registros das
mensagens (Lc 1.1-4). Seus escritores eram homens de
profissões, caráters e de épocas diferentes que não se
tornaram meros autores ou teólogos que simplesmente
refletiam as relações sociais e a cultura vigente. Pois em
cada palavra está a inspiração plena e verbal do Espírito
Santo.
Cada escritor bíblico escreveu baseado em suas
experiências com Deus (Ex 4.1-17; Sl 32; Jr 12; At 1.1-3;
I Co 1.3-11; II Pe 1.14-18). Eles superaram o
subjetivismo pessoal, pois não registraram apenas os
sentimentos individuais em relação a Deus; mas
escreviam motivados por Deus.
Era mais que uma aptidão, mérito ou intuição
natural. Cada escritor transmitia o que de Deus havia
recebido (I Co 11.23) – uma cooperação vital e
consecutiva entre ele e o Espírito Santo.
A extensão revelada e a forma desta revelação
foram determinadas pelo próprio Deus. Pois até mesmo
para Deus existe “tempo de falar e de calar” (Ec 7.3). Em
alguns casos houve uma revelação externa (Deus falou
com estes homens em voz audível Am 3.8; nuvem e fogo)
e com outros se revelou internamente (através de visões
Jl 2.28; sonhos). Veja Ex 13.21-22; Nm 12.6; Dn 9.21-22;
At 9.3-4.
Cada escritor tinha a assombrosa e ímpar
responsabilidade de falar em nome de Deus. Mas em todos
os casos foi excluída a influência do pecado (II Pe 1.19-
21): pois a perfeição absoluta de Deus exclui toda e
qualquer imperfeição.
Na Bíblia não se encontra espaço para
discrepância, contradição, inexatidão ou inconsistência.
Deus é a própria garantia de tudo quanto foi escrito, pois
Ele não pode enganar-se ou enganar.
Na Bíblia existem livros de história, biografia, ética
e poesia, escritos num período aproximado de 1500 anos
– e todos possuem mensagens com lições objetivas.
Apesar desta diversidade, os 66 livros que a formam
apresentam uma harmonia e unidade incrível, formando
um único livro.
Essa harmonia e unidade foi possível pois o que
contém estes livros é o uniforme e progressivo
pensamento de Deus, que revelam Sua personalidade.
Mesmo que a Bíblia fosse composta por inúmeros
simbolismos, transmitidos de geração para geração, ela só [O Pai da Sabedoria]
poderia ter surgido de fenômenos de percepção comum,
conseqüentemente objetivo.
A negação da origem divina da Bíblia sempre
apareceu em todas as épocas com maior ou menor
intensidade (Ml 3.14-15).
Existe um prazer doentio, uma vitória ilusória e
uma explícita derrota em querer contradizer a Bíblia.
Neste mundo não existe uma astúcia capaz de silenciar a
Palavra de Deus. Para muitos, ouvir falar da Bíblia como
sendo a Palavra de Deus, pode soar como orgulho,
vaidade ou pretensão.
Entretanto, deve-se notar que a Bíblia foi
revolucionária e influente no desenvolvimento do mundo
ocidental. É nítida sua “missão civilizadora” na vida social
e cultural em todas as épocas.
Ela sempre serviu mais como motivação para as
atividades do homem no mundo, do que como fonte de
alienação. Os feitos artísticos mais imponentes da história
(literatura, arquitetura, pintura e música) foram inspirados
pela Bíblia.
E os que negam sua origem divina, estão apoiados
no fato de não entenderem o que está escrito (Mt 22.29).
Geralmente os chamados leigos, tendem a desanimar
quando lêem a Bíblia pela primeira vez. Seus textos são
longos, a linguagem muitas vezes poética e as traduções
clássicas. Isso faz com que as pessoas ignorem o potencial
da Palavra de Deus.
A maior parte dos erros está na tentativa de
interpretar as palavras da Bíblia como se tivessem sido
escritas em nossa época moderna, para pessoas da língua
portuguesa e com o contexto deste século. Isto ocorre [O Pai da Sabedoria]
sempre em função de se chegar aos extremos em tal
interpretação: espiritualizar ou materializar.
Talvez o maior erro seja a negação do aspecto
sobrenatural contido na Bíblia. Todos os métodos de
interpretação ligados às críticas histórica e literária da
Bíblia – derivadas da Alta e Baixa Crítica - acabam por
atacar a Palavra de Deus, vendo-a conforme o querer
particular, e não sob a óptica da unidade inspirada por
Deus.
Os livros da Bíblia foram escritos visando satisfazer
uma necessidade contemporânea. Ao olhar a Palavra de
Deus, deve-se observar a nitidez da Teologia bíblica e
exegética que enfatiza que a Verdade e a Revelação
possuem uma mensagem peculiar para cada época e seu
povo.
Para entender esta Verdade e Revelação é preciso
encaixá-los no quadro cronológico, histórico e geográfico
em que foi escrita. Mesmo as biografias dos personagens
bíblicos só podem ser compreendidas no contexto da
própria Bíblia. O mundo ocidental teve fácil acesso a
Bíblia, porém poucos puderam ir aos países do Oriente e
examinar o clima, os costumes e povos, para entender o
seu significado real.
Para Baruch Spinoza (1632-1677) quando lemos a
Bíblia é necessário considerá-la, exclusivamente, um
produto de sua época. Spinoza contestava o fato de que
cada palavra da Bíblia fosse inspirada. Mas é justamente a
inspiração do Espírito Santo que permitiu a unidade da
Bíblia e sua aplicação teológica a todas épocas, culturas e
situações.
Realmente a Bíblia está ligada à uma série de fatos [O Pai da Sabedoria]
históricos, mas seu conteúdo transcende em muito a
situação histórica em que foi escrita. A mensagem de
Deus para hoje, contém a mesma Verdade dos dias de
Moisés, de Isaías...
E esse é o papel que cabe ao teólogo: ouvir o que
o Espírito Santo dizia no contexto bíblico original.
Mas como saber se o que está escrito é verdade? É
possível buscar em várias especialidades do conhecimento
humano (história, lingüística, geografia e arqueologia)
indícios da autenticidade do texto. Apesar disto, outra
gloriosa diferença com os demais livros, é que as
Escrituras (notavelmente o Novo Testamento) não estão
simplesmente dominadas pelo espírito de uma época. A
maioria dos livros sobre auto-ajuda fica obsoleta em
poucos anos.
Mas o tempo não exerce nenhuma influência sobre
a Bíblia (Mc 13.31), pois quase 2000 anos já se passaram
desde que as últimas palavras da Bíblia foram escritas. O
próprio Jesus aprovou (Mc 7.13), leu (Lc 4.17), ensinou
(Lc 24.25-27) e cumpriu (MT 5.17) as Escrituras.
Enquanto isso, na ciência, muitas coisas
consideradas verdades foram reavaliadas e mesmo
desmentidas. A maioria das descobertas da ciência é
acompanhada por uma obsolência programada. Porém a
própria Bíblia afirma que passará o céu e a terra, mas a
Palavra de Deus permanece para sempre (Mc 13.31).
Nada na Bíblia, por mais obscuro ou pitoresco que possa
parecer, pode se anulado (Jô 10.34-35).
O estudo diário do texto bíblico tem algum valor
como exercício religioso, pois se pode simplesmente lê-la
e achá-la interessante e proveitosa (Sl 119.130). Basta [O Pai da Sabedoria]
ver a Bíblia como um objeto de conhecimento ou um meio
de conhecimento. Mas será inútil se a Bíblia não se
adaptar as necessidades pessoais.
Isto não quer dizer que se deva manipular a
Palavra de Deus, conforme a ideologia do momento
histórico ou da necessidade social. Pois quem não crê é
incapaz de viver a Verdade apresentada pela Bíblia, e
quem não vive a Verdade, não está apto para
compreendê-la.
Assim a Bíblia, que é um excelente meio,
transforma-se em um fim em si mesmo. Mas a sua leitura
não é garantia de salvação instantânea ou automática
para ninguém.
É necessário ir além do simples conhecimento dos
ensinos bíblicos. Pois com a lógica podemos conceituar
qualquer coisa, mas não vivenciar. Deve-se conhecer seu
Autor (Lc 2.27, 45; At 16.14), pois somente Ele nos
ajudará a descobrir os tesouros mais preciosos de Sua
Palavra (I Co 2.14).
Nada nela é supérfluo, pois a consistência e
exatidão do texto bíblico tornam toda doutrina
indispensável: “Tudo o que foi escrito no passado, foi
escrito para ensinar de forma que, por meio da
perseverança, mantenhamos a esperança”. Por isso a
Bíblia é a autoridade final e suprema (Js 1.8).
É loucura alguém pretender compreender a Palavra
de Deus, sem se identificar com Seu autor. A meditação
na Palavra de Deus acende em nosso íntimo uma chama
(Sl 39.3), que ultrapassa todas a filosofias e conceitos de
vida: nos transformando de passivos ouvintes sem
memória, para ativos obreiros de Deus (Tg 1.25). [O Pai da Sabedoria]
Mas se ao ler a Bíblia, alguém conseguir ter
pensamentos verdadeiros sobre Deus, irá alcançar mais do
que jamais imaginou (Jo 10.41).
O LIVRO DA
CRIAÇÃO
“Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu
caminho nem do homem que caminha o dirigir os seus
passos”. (Jeremias 10.23)
A Torah é também denominada pelos seguintes
nomes: Lei de Moisés, Chumash ( )חומשou Pentateuco
Mosaico. Ela é composta por cinco livros: [O Pai da Sabedoria]
• Bereshít (do hebraico " ,בראשיתno ínicio", "no
princípio" – Gênesis);
• Shemot (“ ,ואלה שמותNomes” - Êxodo);
• Vayikrá (“ ,ויקראEle chamou” - Levítico);
• Bamidbar (“ ,במדברNo deserto” - Números);
• Devarim (“ ,דבריםPalavras” - Deuteronômio).
Os nomes que aparecem nas Bíblias ocidentais, são
derivados do grego e estão relacionados com o conteúdo.
Enquanto que as denominações hebraicas são constituídas
pela primeira ou principal palavra do início de cada livro.
Composta por pergaminhos manuscritos de um
único lado, costurados de forma contínua e enrolados em
dois cabos de madeira: a Torah é poeticamente chamada
pelos judeus de “Árvore da Vida”.
As confecções destes rolos de pergaminhos, a
escrita, a paginação e ornamentação, são particularmente
importantes para a cultura judaica. Ela é lida desde o
século IV a.C. (na volta do exílio babilônico) nas segundas,
quintas e sábados .
Os relatos bíblicos das primeiras histórias da
humanidade encontram-se no livro de Gênesis. O relato de
Gênesis pode ser visto como hiperliteral (as informações e
fatos narrados ocorrem invariavelmente conforme
descritos), como hipercientífico (procurar adequar os
relatos às constantes descobertas das ciências) ou como
sumário (resume os fatos sem indicar cronologia em
tempo real).
De qualquer forma Gênesis contém pouco do que
gostaríamos de saber, pois seu relato é moral e não
material, é específico e não geral: registra a origem do
povo de Israel.
No mundo intelectual existe uma nítida aversão ao
relato de Gênesis. Mas assim como toda a Bíblia, Gênesis
é um relato real, objetivo e racional, e nunca pode ser
considerado inverídico ou mitológico. As verdades de
Gênesis encontram eco por toda a terra, pois ele é mais
do que lendas nacionais israelenses.
Sua história é maravilhosamente ingênua, mas
livre de especulações científicas e filosóficas. O relato
conciso e simples de Moisés tem resistido durante milênios
às mais variadas críticas.
Mesmo que a ciência considere o relato de Gênesis
primitivo e incompleto, religiosamente ele é exato e
completo: nada se pode acrescentar nem diminuir à
cosmogonia mosaica. Pois Deus revela nos primeiros
capítulos de Gênesis mais do que todos os estudos
publicados por aqueles que acreditam em mitos, como a
Teoria da Evolução.
Considerar o primeiro capítulo de Gênesis somente
para procurar o processo de criação é tolice, pois toda a
ênfase está no fato que existe um Deus que criou todas as
coisas.
Gênesis, chamado de Bereshit (em
hebraico “No princípio”) ou Géveois (em
grego Γένεσις na Septuaginta), é
corretamente conhecido por “Livro dos
Começos”. O nome “Gênesis”, como [O Pai da Sabedoria]
aparece nas Bíblias da língua
portuguesa, tem sua origem em uma raiz
grega que significa “nascimento”.
Na Septuaginta “Gênesis” foi usada para traduzir o
hebraico toledhoth (“procriações” ou “registros
genealógicos”) no sentido de “geração”. Gênesis, que tem
sua autoria creditada a Moisés (Lc 16.31; 24.44), é o
“Livro das Gerações”:
• dos céus e da terra (2.4),
• de Adão (5.1),
• de Noé (6.9),
• dos filhos de Noé (10.1),
• de Sem (11.10),
• de Terá (11.27),
• de Ismael (25.12),
• de Isaque (25.19),
• de Esaú (36.1),
• dos filhos de Esaú (36.9),
• de Jacó (37.2).
Estas “histórias” resumidas, provavelmente, foram
baseadas em registros históricos (orais e escritos). Uma
indicação disto nestas passagens é a expressão hebraica [O Pai da Sabedoria]
e’lleh toledhoth, traduzida por “estas são as gerações” ou
“estas são as histórias por”. Mas Gênesis não é um estudo
comparativo ou sintético das tradições correntes na época.
Foi em 1753 que o médico francês Francisco Astruc
viu na alternância do uso de Elohim e Jeová (para
designar Deus), a indicação do uso de fontes distintas
para compor o livro de Gênesis.
Mas tarde, graças a Eichhorn esta “hipótese
documentária” foi complementada e tentou reduzir Moisés
a um mero compilador de histórias. Surgiu uma contra-
hipótese, a “hipótese suplementar”, a qual afirma que
foram adicionados posteriores comentários não registrados
por Moisés.
Mas toda a Teoria Documentária da Alta Crítica é
repudiante: Gênesis e os outros 4 livros que formam o
Pentateuco são mais do que uma compilação de outros
documentos. Nas passagens em que se referem a Moisés,
ele aparece em terceira pessoa, pois cada uma das
palavras que formam a Torah foi-lhe ditada por Deus.
Como não poderia ser diferente, a palavra chave
deste livro é “princípio” (1.1): é o começo dos céus e da
terra (2.4), da vida (1.24), das instituições (2.24) e da
auto-revelação de Deus (1.3).
Gênesis é considerado a porta de acesso à catedral
da revelação escrita por Deus. Pois toda a Bíblia está
fundamentada sobre o relato de Gênesis.
Deve-se destacar que a ciência estuda a razão e a
natureza. Deus fala através da razão do homem e das
coisas criadas. A simples observação da natureza pode nos
levar ao reconhecimento de Deus, pois a natureza e a
Bíblia são obras do mesmo Autor. Mas a Bíblia é a Palavra
de Deus! [O Pai da Sabedoria]
Como observou Moisés Maimônides (1135-1204),
na falta de argumento decisivo em pró ou contra a criação
por Deus, deve-se ficar com o relato da Bíblia. Sempre
cientes de que quando a criação do mundo for
completamente demonstrável, encontraremos no início de
tudo Deus.
12
Mas nós não recebemos o espírito do
mundo, mas o Espírito que provém de Deus,
para que pudéssemos conhecer o que nos é
dado gratuitamente por Deus.
13
As quais também falamos, não com
palavras de sabedoria humana, mas com as
que o Espírito Santo ensina, comprando as
coisas espirituais com as espirituais.
14
Ora o homem natural não compreende as
coisas do Espírito de Deus, porque lhe
parecem loucura; e não pode entendê-las,
porque elas se discernem espiritualmente.
15
Mas o que é espiritual discerne bem
tudo, e ele de ninguém é discernido.
16
Porque, quem conheceu a mente do
Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós
temos a mente de Cristo. (I Coríntios 2.12-
16)
O Pai da Sabedoria - Série Bereshit Author: Eliy W more
O Pai da Sabedoria - Série Bereshit Author: Eliy Wellington Barbosa da Silva
Todo cristão deve procurar conhecer tudo o que for atingível à inteligência humana. Porém deve admitir que a situação atual da natureza e do conhecimento humana não é o único estado possível. Pois o homem tem a possibilidade e a capacidade de alcançar a natureza espiritual.
Em “De divina omnipotentia” Pedro Damião (1007-1072), diz que todo cristão deve fazer com a filosofia como o israelita fazia com a mulher prisioneira de outras nações, antes de tomá-la como esposa (Dt 21.10-13): cortar o cabelo (as teorias inúteis), aparar as unhas (as obras de superstição) e tirar as vestes (as fábulas e as crendices mundanas). less
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