SUMÁRIO
!!
A Fé e a Razão 05
!!
A Necessidade da Fé 07
!!
A Subjetividade da Fé 10
!!
Além do Limite Pessoal 13
!!
Teologia 18
!!
A Teologia e as Ciências 23
!!
A Sabedoria 29
[O Pai da Razão]
A FÉ E A RAZÃO
“Religião sem ciência é cega e ciência sem religião
é aleijada”. (Albert Einstein)
“AGORA PODEMOS ter uma correta definição da
fé se dizermos que ela é um conhecimento firme e
constate da benevolência divina em direção a nós, que é
fundamentada na verdade da graciosa promessa de Deus
em Cristo, revelada em nossas mentes e selada em
nossos corações pelo Espírito Santo”. 1
Esta é a definição da fé por Calvino, que traduz a
belíssima simplicidade do escritor aos hebreus: “Ora, a fé
é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a
prova das coisas que se não vêem” (Hebreus 11.1).
A fé, que é possível ser descrita em termos simples
e abstratos é a atividade cujo fim é criar meios de
apropriar-se dos elementos espirituais necessários para
cada pessoa. Fé é a condição necessária de intercâmbio
entre a humanidade e Deus. Fé é a única condição eterna
da vida humana alcançar a salvação em Cristo Jesus.
[O Pai da Razão]
A fé é um processo do qual participam a
humanidade e Deus. Apesar de ser concedida por Deus,
neste processo o homem com sua própria ação, com o seu
posicionamento impulsiona, regula e controla seu
intercâmbio com Deus. E através da fé Deus faz então do
ser humano uma de suas forças. Deus utiliza as forças
1 William W. Menzies & Stanley M. Horton. Doutrinas Bíblicas - Uma
Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro/RJ. CPAD. Pág. 31. 2ª Edição.
1996
naturais de cada pessoa imprimindo-lhe uma vida útil a
Sua obra.
Atuando através da fé o homem modifica a
natureza externa, a história, a situação, ao mesmo tempo
modifica sua própria natureza. Pois a fé desperta os dons
espirituais entorpecidos pela natureza humana.
Se a manifestação de Deus fosse plena não haveria
lugar para a fé. Deus é mais que um símbolo que
transcende os limites da nossa condição terrena. O que
sabemos sobre Deus preenche a nossa alma através de
Cristo Jesus. E o que desconhecemos nos estimula a
buscá-Lo.
Deus é uma lógica desconhecida para a visão
racional. Entendê-lo pela razão é montar uma equação
com unidades de medidas diferentes! É tentar somar 10
minutos com 50 gramas multiplicado por 25 centímetros.
A unidade é impossível de explicar a totalidade , ao
menos que a totalidade se revele a unidade. O homem
nunca vai revelar Deus, pois Deus é um ser que se auto-
revela. E essa revelação é alcança, aceita e entendida
através da fé.
[O Pai da Razão]
A NECESSIDADE DA FÉ
“Intellige ut credas, crede ut intelligas:
Compreende para crer, crê para compreender”.
(Agostinho, sermão 43)
Qual é o preço da fé?
Muitos encontram na razão o dom mais elevado da
humanidade e o próprio contexto social exige isso. Mas as
Escrituras mostram a fé como um dom de Deus, concedido
por Deus e que conduz cada pessoa à Deus (I Coríntios
1.27-09).
A utilização da fé é a própria fé. Enquanto a fé se
projeta para o centro do poder do Universo, que é o
Criador; a razão se projeta para o centro da finitude, que
é o homem.
Porém estas relações não implicam a inferioridade
de uma e a superioridade de outra. Se recebemos o dom
da razão, devemos usá-lo; e se temos o dom da fé,
devemos despertá-lo. Pois quem não manifesta a fé,
despreza Deus, visto que Ele é o doador da fé.
[O Pai da Razão]
Enquanto a ciência e a filosofia estão baseadas no
ser humano, em seu intelecto e em suas interpretações
lógicas do mundo; a Bíblia mostra para a razão que ela
precisa ser purificada pela fé e, por conseqüência, pela
Graça de Deus.
Considerando que o homem não pode fazer
nenhuma coisa para merecer o perdão e a Graça de Deus,
a fé pode ser vista como a segura confiança que se pode
alcançar Deus com base em Seus atos.
Ninguém não pode alcançá-Lo enquanto
permanecer no mundo ou domínio natural. Somente a
aceitação d’Aquele que pode conduzi-lo até Deus, que é
Jesus, pode revela-Lo. Não se pode alcançar Deus a não
ser por meio da fé. Em Jesus Cristo descobrimos a
majestade e a infinidade de Deus. Não há base bíblica que
possa legar outro meio de alcançar Deus. Pois se alcança
Deus, com base exclusiva no que Ele fez por nós através
de Jesus Cristo (Romanos 5.1).
A fé viva tem de apoderar-se da natureza humana
e arrancá-la de sua inércia, e transformá-la em
despenseiro real e efetivo das bênçãos de Deus. Através
da fé Deus se apropria da natureza humana e de acordo
com Sua finalidade empresta-lhe força para que esse
possa cumprir a Sua obra. Pois o crente ao ter fé torna-se
verdadeiramente o que era apenas potencialmente.
A obra de redenção da humanidade (Gênesis 3.15)
teve início com a chamada de Abraão (Gênesis 12.1).
Abraão é dignamente considerado pela Bíblia o Pai da fé e
é chamado de Amigo de Deus. Porém, do ponto de vista
divino, Abraão não tinha nada do que se orgulhar –
[O Pai da Razão]
nenhuma de suas obras fez com que tornasse aceitável
perante Deus (Romanos 4.2).
A Bíblia simplesmente afirma que Abraão “creu em
Deus”. E isso foi suficiente para que Deus anulasse seus
pecados e o declarasse justo, sem culpa (Romanos 4.3).
Pois a fé é o preço imposto por Deus para se alcançar
Suas bênçãos.
Foi com Abraão que aprendemos que por mais
pareça improvável que se cumpra uma promessa de Deus,
devemos simplesmente crer e confiar (Romanos 4.19).
Abraão nunca foi dono de um palmo de terra
sequer, a não ser o lugar da sua sepultura. Mas mesmo
assim a sua fé e confiança tornaram-se cada vez mais
fortes (Romanos 4.20), pois estava plenamente certo que
Deus tinha todo poder para fazer qualquer coisa que
prometesse (Romanos 4.21).
Qual a necessidade da fé? A fé é um princípio que
vivifica e estimula. Por isso não temos nada a perder e o
Céu a ganhar se mantivermos a fé.
[O Pai da Razão]
A SUBJETITIVADE DA FÉ
“A iluminação do intelecto faz o homem culto; a
iluminação da alma faz o homem sábio”. (Raphael
Zambroti)
Quais são os limites da fé? Até que ponto a fé é
necessária, moralmente e espiritualmente para a razão?
Ao se apoiar no senso de valores de Deus (Mateus
6.26), a fé torna-se mais uma questão moral do que
intelectual. Mas se alguém resolver não aceitá-la, recusará
todas as evidências aqui apresentadas. Além de implicar
em uma humilde submissão da razão, a fé pode fazer do
homem um feliz esperançoso.
Buscar Deus através da fé é mais do que uma
tentativa de atribuir sentido as coisas deste mundo e de
nossas vidas. Deus está muito além da atribuição de
função de vigia de um sistema moral. Mas sem uma
referência absoluta qualquer escolha é a correta. No caso
os cristãos atribuem a Deus o fundamento do critério para
fazer as escolhas certas.
[O Pai da Razão]
Apesar da fé possuir a mais profunda convicção
para que ocorra uma mudança no comportamento
humano, não se pode mensurá-la somente quanto ao que
pode ser acrescido à nossa moral. Pois acima de tudo a fé
está relacionada com a nossa confissão da dependência de
um Salvador. Está justamente na fé, e não na razão, a
norma de vida e fonte de salvação (Atos 16.31).
Não se pode desconsiderar que assim como a
razão, a fé também é uma experiência humana e, como
tal, pode estar intensamente carregada por sentimentos
confusos e antagônicos. Também como a razão, pode
chegar a conclusões contraditórias e opiniões
contrastantes, fazendo com que muitos se julguem os
únicos donos da verdade. Pois através da fé, as verdades
objetivas são aplicadas de forma subjetiva, nos limites de
cada indivíduo.
Existem muitos argumentos lógicos contra a fé.
Assim como existem muitos argumentos lógicos,
motivados pela razão, a favor da pedofilia. Perguntem isso
aos filósofos gregos.
Assim como a ciência tem produzido homens...
4
obstinados, orgulhosos, mais amigos dos
deleites do que amigos de Deus (II Timóteo
3.4)
A religião criou homens que apenas...
5
tem a aparência de piedade, mas negam a
eficâcia dela (II Timóteo 3.5)
[O Pai da Razão]
Quanto a esses dois casos, a Bíblia aconselha...
6
Destes afasta-te. (II Timóteo 3.6)
Os racionalistas...
7
aprendem sempre, e nunca podem chegar
ao conhecimento da verdade (II Timóteo 3.7)
E muitos religiosos...
8
resistem à verdade, sendo homens corruptos
de entendimento e réprobos quanto a fé (II
Timóteo 3.8)
Porém, ambos não irão...
9
avante, porque a todos serão manifesto o
seu desvario (II Timóteo 3.9)
A verdade, a quem pertence?
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831) dizia
que a verdade é essencialmente subjetiva, contestando a
existência de haver uma razão acima ou além da humana.
Segundo Hegel, não existem verdades eternas.
Deve-se concordar que existem muitas “verdades”,
e elas se apresentam em quatro formas diferentes:
íntegras, distorcidas, exageradas ou mutiladas. A razão e
[O Pai da Razão]
a crença lançam fundamentos nos mais diversos terrenos,
como a verdade, a mentira e a hipótese.
Todavia, qualquer Verdade para ser reconhecida
como cristã, tem que estar baseada em premissas
seguras, indubitáveis e definitivas contidas na Palavra de
Deus.
A Verdade sempre transcende a própria razão, pois
enquanto que a razão é mutável, a Verdade é imutável. E
o ponto de partida para a aceitação da Verdade é a fé, que
se encontra baseada em revelações, algumas
incompreensíveis à razão, e não em um campo lógico.
Pois existem Verdades que são indispensáveis para
a salvação do homem. E a existência de Deus é uma
verdade indispensável para a salvação do homem.
Quando se afirma que os homens duvidam da
Verdade, se quer dizer que suas definições de verdade não
correspondem com as da Bíblia. Mesmo considerando a
Verdade bíblica como eterna, é difícil não a interpretar a
partir da fé subjetiva. Mas como definiu Evans, “fé não é
um sentido, nem vista, nem razão – é tomar a Deus na
2
sua Palavra”.
[O Pai da Razão]
2 Cowman, Lettie. Mananciais no Deserto. Ob. Cit. Pág. 10.
ALÉM DO LIMITE PESSOAL
“Nissi credideritis non intelelligetis: Se não credes,
não compreendereis”.
Para toda pergunta é possível encontrar inúmeras
respostas. Isto porque o homem não é uma máquina que
reproduz sons e imagens de forma perfeita ou com
exatidão. Não vê as coisas como realmente são, mas as vê
pelo o que elas significam para ele.
As pessoas vêem o que querem ou precisam para
defenderem-se e aproximarem-se de seus objetivos. E isto
depende dos níveis de intuição, sentimento e consciência
de cada indivíduo.
Os sentidos não reproduzem fielmente aquilo que
eles percebem. E o que se percebe não é apenas
armazenado como informação, mas se adapta às “formas”
de sensibilidade do indivíduo.
Em “Eruditionis Didascalicae libri I”, Hugo de São
Vitor, afirmou que o espírito humano transcende os dados
adquiridos através dos sentidos. Então, pode-se afirmar
[O Pai da Razão]
que quanto a capacidade de percepção não se admite
nenhuma dúvida.
Em função de sua estrutura cognitiva, o homem
está inevitavelmente atribuindo significado às coisas –
como inútil e útil, mau e bom... Por isso diferentes povos
têm concepções diferentes das coisas, tendo como base as
suas realidades concretas e seus valores.
São justamente os valores de cada homem que
determinam seus objetivos e condicionam suas ações, pois
como ser ativo, o homem reage conforme sua escala de
valores. Por exemplo, se os cristãos procuram transformar
o mundo, é porque ele não corresponde aos valores da
Bíblia. E os que querem que o mundo permaneça como
está, assim desejam por se beneficiarem dele.
Todo ser capaz de percepção, por mais pleno ou
deficiente que sejam seus sentidos, está preso em si
mesmo e limitado por sua subjetividade. As percepções
que cada um experimenta, é exclusivo de cada ser, por
isso fundamentalmente subjetivas. Apenas os objetos
percebidos são comuns a todos.
Em geral se ignora que a percepção é subjetiva e
os objetos percebidos são objetivos: mesmo que a
percepção não represente fielmente o que o objeto
percebido é, o objeto não deixará de ser aquilo que é. Por
isso, a cor vermelha nunca deixará de ser vermelha,
mesmo que um daltônico a perceba como verde.
Existiria algum objeto cuja percepção fosse comum
a todos? Em “De Libero arbitrio”, Agostinho aponta a
matemática como sendo este objeto. Pois mesmo que não
existissem 10 coisas contáveis, não deixaria de ser
verdade que 6 mais 4 são 10. Assim Agostinho concluiu
que a matemática transcende a percepção dos sentidos.
[O Pai da Razão]
Como seres temporais, contingentes e mutáveis
poderiam conhecer verdades eternas, necessárias e
imutáveis? Existe uma verdade além da nossa?
Esse grau de perfeição pertence exclusivamente a
Deus e a Sua Palavra. Pois a Verdade da Bíblia independe
da fé nela depositada ou da razão que a analisa.
As Palavras de Deus sempre serão a Verdade e a
Justiça, independente de quem as discuta (Romanos 3.4;
Salmo 51.4). A Verdade é indestrutível e imune ao
pecado, pois está sempre um passo adiante do erro. Pois
assim como não “determinamos” que 2 mais 2 são 4, mas
apenas “descobrimos”; não “inventamos” também que o
Eterno tem primazia sobre o temporal.
É árdua a missão de separar o objetivo do
subjetivo, que é sempre subordinado aos conceitos e
preconceitos pessoais. Cada cristão mantém-se isolado em
seu conhecimento, sua compreensão e sua interpretação
de Deus, mas sempre moldados na Palavra de Deus.
A Teologia tem o ideal de colocar a Verdade acima
da crença pessoal, pois a objetividade, em seus limites,
tem preferência e precedência sobre a subjetividade.
Mas de alguma forma, mesmo nas ciências e na
Teologia, o consenso continua sendo o teste da verdade,
pois nenhuma ciência é unicompreensiva. O teólogo Hugo
de São Vítor, em “De sacramentis prol.”, mostra que os
homens de Deus, de todos os tempos, “pelejam por um só
Rei, seguem a mesma bandeira, lutam contra o mesmo
adversário e serão coroados com a mesma vitória.”
A fé é o fundamento da Verdade pessoal, pois Deus
vive e é Vivo no poder de nossa fé. Ela torna-se, como
registrou Tito Flávio Clemente, uma antecipação de certas
[O Pai da Razão]
verdades ignoradas pela razão.
A Bíblia possui um caráter supra-racional, pois
existem Verdades para as quais a fé precede a razão e
outras nas quais a razão precede a fé. Tito Flávio
Clemente via a necessidade de utilizar argumentos lógicos
para guiar os neófitos até a fé. Em sua concepção, assim
como a Graça não veio abolir a Lei, mas cumpri-la, a fé
não veio suprimir a razão.
Como observou Ives Gandrada, não existe,
“portanto um choque entre a fé e a ciência. Antes, por vir
esta sempre atrás daquela, termina por confirmar as
verdades reveladas pela primeira (...)”. 3
A fé é o maior bem que o homem descobriu no
transcendente, e a ciência o maior bem descoberto no
imanente. Mas, por mais profundos que sejam os
conhecimentos humanos, eles não conseguem alcançar a
verdadeira sabedoria. Pois a Bíblia é aceita pela fé e
depois pela razão (Lucas 24.25; I Pedro 1.21; I Timóteo
3.16).
É essencial apoiar a ciência em sua utilidade, mas
condená-la veementemente em sua futilidade. A luta da fé
cristã é contra o obscurantismo, a ignorância, a ilusão do
conhecimento e a preguiça intelectual. Não contra a
ciência, pois o oposto do conhecimento é a ignorância e
não a fé.
Mas a Igreja já teve seus excessos, representados
por homens como Pedro Damião, que em “De sancta
simplicitate” afirmou que a filosofia, assim como a própria
gramática, eram obras de Satanás.
A fé consegue demarcar certos limites para a
razão, que são invioláveis enquanto a fé pessoal for viva.
[O Pai da Razão]
E para se ter um relacionamento com Cristo é necessário,
antes de tudo, uma iluminação intelectual suficiente para
satisfazer a razão. É mediante a fé que acolhemos e
aceitamos tudo quanto contém a Palavra de Deus.
É inegável então, que o conhecimento é um ato de
fé, e que a razão possui uma função soteriológica. Pois
3 Cultura e fé. Jornal O Estado de São Paulo. São Paulo/SP. Agência
Estado. Pág. A2. Ano 121. Num. 38975. 03 de julho de 2000. Artigo de
Ives Gandrada Silva Martins.
como demonstrou Pedro Abelardo, qualquer saber
universal deve ter por base o saber particular. A fé é a
perfeita razão para todo aquele que crer. Mas é necessária
a razão para descobrir o real significado oculto debaixo
das palavras da Bíblia.
A ciência é útil e necessária para a humanidade,
porém jamais será a única interpretação válida e
suficiente. A ciência ou o cientifismo tem a pretensão de
ser poderoso o suficiente para explicar os fenômenos
naturais sem nenhuma menção a Deus.
Muitos homens vivem guiados exclusivamente pela
própria razão, como se Deus não existisse ou agisse no
mundo. Aliado a isso, as culturas atuais, impregnadas pelo
pecado, deformam os valores e significados da ciência.
Da mesma forma que o inferno se veste de
santidade, é possível a mentira se vestir de verdade.
Muitos “adaptam” a Bíblia conforme sua exclusiva
vontade! A ciência também sofre análises subjetivas,
moldadas nos limites culturais e espirituais de quem a
interpreta.
Muitos têm como meta suprema o deleite carnal.
Mas com os olhos carnais só se vêem coisas carnais. Por
isso a ciência se contenta com o que vê: os bens do corpo
[O Pai da Razão]
(Romanos 1.21-25). Assim as riquezas da fé superam, em
muito, as da razão. As descobertas da ciência são poucas,
pouquíssimas diante dos mistérios que a fé pode revelar e
do que o homem pode alcançar em Cristo Jesus.
TEOLOGIA
“Fides quaerens intellectum: Fé procura
compreender”. (Anselmo, Arcebispo de Cantuária)
Parafraseando Hugo de São Vítor, em “Eruditionis
Disdascalicae”, pode-se afirmar que a teologia trata das
causas invisíveis das coisas visíveis, das causas em seus
efeitos e seus efeitos em suas causas e, das formas
invisíveis das coisas visíveis.
Enquanto isso “ciência”, que vem de “scientia”, é o
“conhecimento” da observação do mundo exterior. Já
Teologia é um conjunto de conhecimentos acerca do
fundamento e aplicação do Evangelho.
Os ocidentais, em geral, possuem um domínio da
Teologia, mesmo que pequeno, superficial e folclórico. Em
geral a “teologia popular” acaba por produzir pensamentos
sobre Deus indignos dEle.
É impossível converter o poder do Evangelho em
doutrinas filosóficas, em um sistema de estudo fechado.
Sem o vento do Espírito o ar se torna abafado. Por isso
[O Pai da Razão]
para muitos a teologia é completamente supérflua. E
assim como as ciências, a teologia chegou a ser reputada
por invenção diabólica.
A Teologia se baseia na revelação, a ciência lida
com a observação e a filosofia com a concepção.Mas
enquanto cabe ao cientista interpretar objetivamente a
natureza, cabe ao teólogo tornar a Bíblia compreensível. A
tendência da Teologia é limitar-se aos problemas que não
estão sujeitos ao controle experimental.
A observação e a interpretação das coisas é
condicionada pela consciência individual. E a teologia, em
sua objetividade, separa o que vê do que sabe. Nos
aproximamos da Bíblia para refletir e conhecer mais do
que as aparências. Somente assim o teólogo pode
empenhar-se em fazer declarações sobre o mundo que
não vê. Considerando sempre a finitude e a falibilidade do
indivíduo, a fé vê as obras da criação sintonizando-as para
além das aparências. O que vemos nem sempre é real,
por isso a teologia tenta conciliar aquilo que vê com o que
sabe através da Bíblia.
Muitos questionam a validade e a necessidade, não
só da Igreja, mas também dos teólogos. O que é um
teólogo?
Teólogo não é apenas um transmissor de
informações ou um inventor de fórmulas. O Cristianismo é
permeado por conhecimentos que vão do hábito à
tradição, mas tudo o que a Teologia cria, pensa e diz é
derivada da Bíblia.
Como reconheceu Pedro Abelardo em “Theologia
Christiana” (volume 3), todas as analogias empregadas
pelos teólogos não passam de meras sombras da Verdade.
Por isso, parodiando Georges Gusdorf, pode-se afirmar
[O Pai da Razão]
que o teólogo tem a “função primacial de testemunha e
indicador da Verdade, do Bem e do Belo”. 4
É comum, inclusive entre os cristãos, por não
perceberem ou alcançarem os valores dos argumentos
teológicos, desprezarem-nos baseados unicamente em
suas decepções. Esquecem que diante da Bíblia é
necessária uma postura científica: no sentido de analisar,
4 Gusdorf, Georges. Professor Para Quê? Lisboa. Moraes Editores. Pág.
8. 1970.
experimentar e compreender. Como diria Pedro Abelardo,
“condenam o que ignoram e censuram o que
desconhecem”.
Ou seja, o mundo classifica como loucura o que é
incapaz de entender. Completando Pedro Abelardo diria
“confundem a aparência com a verdade, e o erro com o
argumento”.
Todos têm o direito e o dever de conhecer o poder
da fé, em toda sua beleza e profundidade. Porém é um
indescritível perigo buscar a verdade sem um guia seguro.
Há milênios tem-se discutido qual a relação ideal
entre a fé e a razão, expressados através da teologia e as
demais ciências com suas descobertas e conclusões. Mas é
somente pela fé que alcançamos a Verdade e é através da
razão que compreendemos à própria verdade. As únicas
autoridades superiores a razão são a fé e a revelação
divina (a Bíblia).
Agostinho em sua obra “De libero arbitrio” (388-
395), concluiu que acima da razão está a Verdade, que
julga e modera a razão. Pois entre a interpretação falsa de
um filósofo, cientista ou teólogo e a razão, deve-se ficar
com a razão.
A credulidade apóia-se em coisas imaginárias, a
[O Pai da Razão]
crença em uma aquiescência intelectual e a fé na Palavra
de Deus. Não podemos priorizar o academicismo teológico
e relevar a comunhão com o Espírito Santo em nossas
vidas à um plano inferior. A razão é falível, a fé pode ser
deturpada, mas a Revelação Divina, a Verdade é íntegra!
Por isso Paulo recomenda que cada cristão
continue...
9
E retendo firme a fiel palavra, que é
conforme a doutrina, para que seja poderoso,
tanto para admoestar com a sã doutrina, como
para convercer os contradizentes. (Tito 1.9)
[O Pai da Razão]
A TEOLOGIA E AS
CIÊNCIAS
“Religião sem ciência é cega e ciência sem religião
é aleijada”. (Albert Einstein)
Durante milênios a filosofia cristã vem discutindo
as questões relativas ao problema “fé e ciência”. E
passando por períodos que são desesperadamente
ingênuos ou rigidamente críticos.
Justino, filósofo e mártir do século II afirmava que
a ciência da época (representada pela filosofia grega), não
somente conheceu, mas também praticou a Verdade.
Partindo da afirmação do apóstolo João (que o Logos é “a
luz verdadeira que alumia a todo o homem que vem ao
mundo” – João 1.9), Justino “reconheceu” que os gregos
possuíam também esta verdade, apesar de imperfeita e
incompleta.
Estudante das escolas filosóficas, Justino teve por
mestres os estóicos, os peripatéticos, os pitagóricos e os
[O Pai da Razão]
platônicos. A filosofia estóica afirmava que o mundo era
regido por uma “inteligência cósmica” ou “racionalidade
divina” (o logos), que estava intimamente relacionada com
a razão humana.
Por isso Justino via nas obras de Sócrates, Platão,
Heráclito e dos estóicos, σπερµα του λογου ou seja, um
“germe” ou uma “semente” do Logos. Dentro deste
pensamento, estes filósofos não somente haviam
conhecido, mas também praticado a verdade através de
suas obras.
Ele chegou a denominar estes filósofos de “cristãos
antes de Cristo”, afirmando que a comunidade cristã
sempre existiu, em todas as culturas. Esta foi a defesa de
Justino em sua primeira apologia, redigida em 155 d.C.
Tito Flávio Clemente (150-212), o Clemente de
Alexandria, numa tentativa de justificar a origem divina do
pensamento filosófico, criou uma fórmula simplista em
“Stromata” (composta após 202 d.C.): a revelação cristã é
a união do Antigo Testamento com a razão, pois “o
caminho da verdade é um só”.
Para Clemente o termo “sabedoria deste mundo”
(utilizado pelo apóstolo Paulo em I Coríntios 3.19),
aplicava-se somente ao filósofo grego Epicuro. Os
trabalhos dos demais filósofos conteriam “sementes da
Verdade”.
Pedro Abelardo em “Theologia Christiana”
acreditava no pleno caráter cristão da doutrina dos
filósofos, em especial Platão. Compara os filósofos com os
profetas entre os judeus, concluindo assim como Justino,
que os antigos filósofos seriam cristãos antes de Cristo.
O filósofo judeu Fílon, de Alexandria, ao tentar
[O Pai da Razão]
explicar a Bíblia do ponto de vista da filosofia grega,
adotou a idéia estóica da Razão (Logos), a qual chamou de
“segundo Deus”. A Razão seria um intermediário entre
Deus e o mundo. Já o filósofo francês Pierre Abelardo
(1079-1142), por enfatizar a razão sobre a fé, terminou
sendo culpado por heresia em 1140.
Mas logo surgiu uma corrente antagônica a estes
pensamentos, principalmente a geração posterior a
Clemente de Alexandria. Os partidários desta corrente
passaram a encontrar na Bíblia motivos para separar a
teologia das demais ciências. Pois era a teologia, e não a
filosofia, que ao lado da fé sempre procurou entender a
Verdade da parte de Deus.
Porém houve o permanente consenso de jamais
renunciar estas ciências. Antes, assim como os hebreus se
apoderaram dos vasos de ouro e prata dos egípcios (por
ocasião do Êxodo – Êxodo 12.35-36), todo cristão deveria
tomar conhecimento das ciências em prol do Evangelho de
Cristo.
Logo surgiu uma corrente radical que contestava:
que concórdia há entre Atenas e Jerusalém? Ou que parte
tem a Academia com a Igreja? (numa referência à II
Coríntios 6.14-16).
Essa linha de pensamento conclui que seria
injustificável o uso de “crenças profanas” ao lado da
teologia. Por isso durante a Idade Média a Igreja Católica
monopolizou o conhecimento científico.
Mas em suas epístolas, Paulo jamais teve a
intenção de estabelecer contrastes entre a fé e a razão. E
mostra a diferença entre a sabedoria divina e a sabedoria
mundana. Por isso insistia na debilidade das especulações
humanas frente à Jesus Cristo – a sabedoria de Deus (I
[O Pai da Razão]
Coríntios 1.30).
Sob esta óptica as ciências passam a ser vistas
como servas da verdadeira Sabedoria. E serão muito úteis
para a verdadeira Sabedoria enquanto condizentes com a
fé. Ou seja, ao submeter toda a força e conhecimento ao
serviço da cruz.
Torna-se também atrativa a definição que
Agostinho fez de “ciência” em “De Trinitate”: ciência é a
arte que nos auxilia a usar bem as coisas temporais. Sim,
as coisas temporais, pois toda sabedoria mundana ou
pagã, apesar de descobrir respingos do conhecimento de
Deus, está condenada ao fracasso (Isaías 19.11; Ezequiel
28.2; Obadias 8).
Mas o perigo em ver a Teologia (e não a
Sabedoria), como a ciência suprema, é opinar sobre a fé e
a religião sem conhecer suas distinções e suas relações
mútuas. Pois sem sabedoria a ciência é vã, e sem ciência
(inclusive a Teologia) não há sabedoria.
As heresias têm origem na arrogância que todos se
julgam aptos a discutir as Escrituras. Para deter este mal,
existe um conjunto de critérios rigorosos que compõe a
Teologia. Isto faz com que as múltiplas denominações
cristãs e teológicas do mundo, dentro das inevitáveis
exceções, mantenham uma incrível unidade e coerência.
E a Teologia, aliada com a fé, tornam um excelente
preventivo e antídoto contra a indolência espiritual e a
ignorância. A fé nos protege, até certo ponto, de erros em
questões essenciais. Cabe a fé aceitar as verdades por
Deus reveladas, e à razão analisar e aplicar estas
verdades no cotidiano. Somente assim a Verdade será
vista como coerente, pois haverá correlação com a
realidade e, finalmente, será pragmática – transformará
[O Pai da Razão]
pessoas e situações.
Desde que o filósofo René Descartes popularizou a
máxima “Cogito, ergo sum” (“Penso, logo existo”), o
“pensar” passou a decidir a existência. Esta máxima
culminou com a idéia de separar a ciência e a religião,
dando origem ao Iluminismo, no século XVIII.
O Renascimento também ajudou a “provar” que o
conhecimento humano tem origem nas experiências
pessoais, e não em velhos e empoeirados pergaminhos
bíblicos. E hoje, o discurso científico oficial exige uma total
“independência”, não tolerando qualquer menção à
religião. Fato compreensível ao considerar que a base da
ciência é o poder do pensamento, da razão, e não o poder
da fé. Mas o homem termina por separar a fé da razão,
em uma inútil tentativa de estar isento do comando de
Deus na história.
A ciência construiu uma permanente crítica sectária
e impiedosa para a fé, mas é notório que a Teologia possui
um compromisso exclusivo com a Verdade. E a Verdade
não é exclusividade de um povo, de uma ciência ou de
uma filosofia. Contudo, ao contrário das demais ciências, a
Teologia possui um caminho certo para a Verdade.
Segundo o dualismo, o Universo só se explica como
um todo, formado por dois elementos distintos e
irredutíveis. Para o filósofo grego Platão (428-347 a.C.)
esses dois elementos eram a idéia e a matéria. Platão
acreditava ser possível chegar à um conhecimento seguro
através da razão, que considerava eterna e universal.
Para Descartes, era a inteligência e a matéria. Já
para Hegel, eram as condições espirituais que conduziam
à uma mudança material. Enquanto que para Karl Marx
eram as condições sociais que determinavam, finalmente,
[O Pai da Razão]
também as espirituais.
A queda do homem não destruiu o homem como
ser humano, pois o capítulo 4 de Gênesis mostra os
descendentes de Caim (de uma geração corrupta),
desenvolvendo técnicas agrícolas, pecuárias, musicais,
arquitetônicas e administrativas. Como observou Lawrence
O Richards, a “queda destruiu, isto sim, a capacidade
humana de ver o ‘sobrenatural’, de ter experiências que
exigem que o egoísmo seja imerso no amor divino”. 5
A promessa de vida dos Evangelhos não promete
uma nova humanidade, isto é, ninguém se torna mais do
que um ser humano por crer em Jesus. Ninguém se torna
mais intelectual ou capaz por receber uma nova vida em
Cristo.
A Graça de Deus faz com que a incorrigível vida
humana encontre, em Cristo a melhor variável que pode
existir de cada um de nós. Não ocorrerá também um
processo de ajuste aos valores sociais e culturais
dominantes. Pois existe um abismo intelectual e espiritual
que distingue a nova vida que se recebe em Cristo.
O que muda é “a capacidade de compreender e se
aprofundar no significado da vida como Deus a planejou.
Como pessoas mortas nós nem tínhamos esta capacidade,
como também não a de experimentar tudo o que as
outras religiões consideram ideais distantes”. 6
Por isso a fé cristã nunca será um mero elemento
filosófico, mas o incrível fator gerador da confiança em
Deus.
[O Pai da Razão]
5 Richards, Lawrence O. Teologia da Educação Cristã. São Paulo/SP.
Sociedade Religiosa Edições Vida Nova. Pág. 13. 2ª Edição. 1983.
6 Richards, Lawrence O. Teologia da Educação Cristã. Ob. cit. Pág. 14.
A SABEDORIA
“Neque enim quaero intelligere ut credam, sed
credo ut intellingam: Não se compreende para crer, mas,
ao contrário, crê-se para crer”. (Anselmo, Arcebispo de
Cantuária)
7
A sabedoria é a cousa principal: adquire pois
a sabedoria; sim, com tudo o que possuis
adquire o conhecimento.
8
Exalta-a, e ela te exaltará; e, abraçando-a tu,
ela te honrará. (Provérbios 4.7-8)
Biblicamente a sabedoria é um dom de Deus (I
Coríntios 1.27-29), sendo aperfeiçoada pelo Espírito
Santo: “porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda
as profundezas de Deus” (I Coríntios 2.10-12; João
16.13). Por isso a Sabedoria – assim como a força, o
conselho e o entendimento em seu sentido pleno –
pertencem exclusivamente a Deus (Jó 12.13; Daniel 2.20-
23).
A fé é o único elemento que nos permite agradar a
[O Pai da Razão]
Deus. A verdade está para nós na mesma proporção da fé
que possuímos. Sem fé é impossível alcançar plenamente
a Revelação. Por esse motivo a Sabedoria ou Temor ao
Senhor é fruto de uma viva e ativa fé.
A Sabedoria de Deus governa processos naturais
(Isaías 28.23-29) e históricos (Isaías31.2). E todo cristão
deve buscar a sabedoria para estar sempre preparado
15
para responder com mansidão e temor a
qualquer que vos pedir a razão da esperança
que há em vós. (I Pedro 3.15)
Sem soar redundante, é possível afirmar que a
Teologia tem a missão de transformar aquilo que é naquilo
que deve ser, e aquilo que não deve ser naquilo que é. A
Sabedoria, através da teologia, é a descoberta de coisas
eternas e imutáveis. E a ciência é a descoberta e a
utilização das coisas temporais.
São então duas as maneiras de lidar com as coisas
temporais: através do imanente (a sabedoria mundana)
ou do transcendente (a sabedoria divina). Como disse
Spurgeon, “sabedoria é o correto uso do conhecimento.
Pois apenas conhecer não é ser sábio”.
Mas enquanto a ciência é fruto da inteligência
inferior, a Sabedoria vem do alto, da inteligência superior.
Em “De trinitate”, Agostinho chama as ciências de “ratio
scientiae”, ou seja, razão inferior.
Mas existe uma linha tênue que não pode ser
ignorada: sem sabedoria a ciência é vã, porém sem
ciência não há sabedoria. Em suas obras “De Arithmetica
libri II” e “Quomodo Trinitas unus Deus ac non Tres Dii”,
afirma que sem o conhecimento das ciências naturais não
[O Pai da Razão]
é possível chegar até a sabedoria.
Em geral o resultado da ciência termina em
conhecer e utilizar as coisas por si mesmas, vã gloriando-
se e às vezes mentindo contra a Verdade. A ciência, na
maioria das vezes, gloria-se em si mesmo, enquanto a
Teologia gloria-se em Deus.
A fé tem por meta suprema a glória de Deus,
enquanto a ciência busca a glória terrena, a glória do
homem. Com isso a ciência torna-se o exemplo da
sabedoria mundana, animal e diabólica (Tiago 3.14-15), a
qual ensina o homem à viver para si mesmo, e não para
Deus. E por encontrarem uma “verdade” satisfatória na
injustiça, desconhecem Deus.
Porém, a sabedoria divina gloria-se em Deus. A
meta de nossos esforços intelectuais é um contínuo
aperfeiçoamento do conhecimento de Deus. Pois não são
os avanços das ciências e sim as obras de Deus que são
admiráveis, gloriosas e misteriosas.
Todos devem aproximar-se progressivamente de
Deus e esforçar-se para, que através de Cristo Jesus, se
assemelhem à Ele (Provérbios 2.6-7).
6
Todavia falamos sabedoria entre os
perfeitos; não porém a sabedoria deste mundo
(...)
7
Mas falamos a sabedoria de Deus oculta em
mistérios, a qual Deus ordenou antes dos
séculos para nossa glória (...)
10
Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito...
(I Coríntios 7.6, 7,10) [O Pai da Razão]
Um dia a ciência irá descobrir o verdadeiro
caminho e a verdadeira sabedoria que é Deus,
congregando em si o conhecimento das naturezas mutável
e imutável, material e imaterial. Então ciência e fé estarão
ligadas, não somente por palavras, mas pelo mesmo
Poder.
Pois os bens espirituais são mais preciosos que os
materiais, por isso os homens deveriam buscá-los. Os
bens materiais podem preservar a vida e dar conforto ao
corpo. Mas alegria autêntica e profunda é um bem
espiritual, concedido exclusivamente pelo Espírito Santo
de Deus.
Se o homem não houvesse caído, a força natural
que ampliaria suas capacidades seria a alegria divina.
Houve uma inversão da ordem natural: os homens
passaram a confiar mais em si mesmos, em seus esforços,
saber e aparentes triunfos, do que em Deus, em sua
alegria espontânea, em sua fé e na sua vitória. A
frustração do conhecimento humano torna-se evidente
pelo fato de não conseguirem melhorar o nível (moral,
social e espiritual) da humanidade.
A filosofia e as ciências, em si mesmas, não
produzem uma nova vida. No melhor de seus aspectos
podem dar um bom suporte para a vida material, no
mesmo sentido que os ossos dão suporte ao corpo. Porém,
sozinhos são ossos secos, desprovidos de corpos e de
vida.
Percebendo o perigo que rodeia a ciência, Albert
Einstein alertou que “devemos ter o cuidado de não fazer
do intelecto nosso deus; ele sem dúvidas tem músculos
fortes, mas nenhuma personalidade”.
Durante a vida, o homem passa por sentimentos
[O Pai da Razão]
variados que caracterizam o que ele é: uma criatura.
Parafraseando a máxima de Descartes pode-se afirmar:
“Existo, logo penso. E penso do modo que penso porque
sou o que sou, uma criatura”.
Por esta razão, como registrou o comentarista João
de Oliveira, o entendimento do homem “além de ser
insignificante, é deturpado por causa da natureza
adâmica, além de mal dirigido, em comparação com a
mente de Deus. Nosso mal consiste muito em querer
julgar a Deus, e querer compreendê-lo com a nossa
mente terrena, humana, defeituosa e afetada pelo pecado
e seus males”. 7
Como conseqüência, o Reverendo Ricardo Barbosa
cita que “muitos acabam vivendo de forma limitada e às
vezes medíocre, porque sua visão do mundo e
compreensão da realidade é condicionada pelas
percepções igualmente limitadas impostas a todos nós
pelo pecado”. 8
A Bíblia afirma que muitos possuem uma visão tão
limitada quanto as orientações e informações que
recebem. Por esta atitude pagam um alto preço: não
crescem, não produzem frutos, não amadurecem, sua
existência e seu universo são limitados e pequenos
(Jeremias 17.5-9).
Somente sob esta óptica é possível encontrar as
origens das “invenções” da ciência. A ciência não deveria
“inventar”, ela deveria descobrir, analisar e pesquisar. Se
for considerado que uma hipótese, que não pode ser
testada quantitativamente através de experimentos,
sempre será uma hipótese; então não deveria haver na
ciência, espaço para o subjetivismo na interpretação de
suas idéias. Não deveriam existir hipóteses maravilhosas
[O Pai da Razão]
ou vulgares, mas simplesmente verdadeiras ou falsas.
Apesar da obra e avanço da ciência serem
grandiosos (em geral externados por construções teóricas
bem elaboradas), ela continua repleta de argumentos
7 Estevão, o moço mártir. Lições Bíblicas. Rio de Janeiro/RJ. CPAD.
Pág. 45. 20 de junho de 1982. Comentários de João de Oliveira.
8 Bendito o homem que confia no Senhor. Revista VINDE. Rio de
Janeiro/RJ. VINDE. Pág. 44. Ano III. Num. 36. Novembro de 1998.
Artigo de Ricardo Barbosa de Souza.
pretensiosos e inverossímeis. Fato lamentável para quem
pretende ser a língua oficial universal para todas as
comunidades.
Mas a Bíblia, ao mesmo tempo em que revela a
futilidade da criação, demonstra que não é simplesmente a
razão que separa o homem da fé. Pois nem todos os
empenhos da razão conduzem unicamente ao erro.
Conforme expressou Antônio N. Mesquita, “hoje só
a estreiteza do dogmatismo ou a pressa de alguns sábios
poderá fazer reviver o conflito entre a Bíblia e a ciência”. 9
Em “De divisione naturae” (escrito em 5 volumes), Scoto
Erigena afirmou que é impossível haver contradições na
verdadeira razão.
Existe uma mutabilidade essencial no homem.
Embora todos criados sem distinções, acabam
diversificando-se em função do livre-arbítrio. Orígenes
acreditava que as emoções estão subjugadas/sujeitas ao
juízo racional. Mas onde há razão também existe a
liberdade de escolha, porém escrava da concupiscência.
Os impulsos da concupiscência alcançam a vontade e
determinam os desejos.
E somente o Espírito de Deus pode fazer o homem
totalmente livre. Pois a razão pode desaprovar e rejeitar o
[O Pai da Razão]
que lhe desagrada, bem como aprovar e reter o que lhe
agrada; mesmo assim nem sempre governa as ações. De
certa forma, emocionar-se é reagir à vida e expressar-se
diante do que ela oferece.
É impossível negar que a visão que temos da vida
está mais relacionada com as emoções do que com uma
9 Mesquita, Antônio Neves de. Estudo no Livro de Gênesis. Ob. Cit. Pág.
32.
análise racional da realidade. E junto com as emoções
estão as imaginações e desejos. Por isso supondo-se
extremamente racionais, os homens refugiam-se em um
mundo de fantasia.
19
Porque a ardente expectação da criatura
espera a manifestação dos filhos de Deus.
20
Porque a criação ficou sujeita à vaidade,
não por sua vontade, mas por causa do que a
sujeitou,
21
Na esperança de que também a mesma
criatura será libertada da servidão da
corrupção, para a liberdade da glória dos filhos
de Deus. (Romanos 8.19-21)
[O Pai da Razão]
O Pai da Razão - Série Bereshit Author: Eliy Well more
O Pai da Razão - Série Bereshit Author: Eliy Wellington Barbosa da Silva
Enquanto a ciência e a filosofia estão baseadas no ser humano, em seu intelecto e em suas interpretações lógicas do mundo; a Bíblia mostra para a razão que ela precisa ser purificada pela fé e, por conseqüência, pelaGraça de Deus.
Considerando que o homem não pode fazer nenhuma coisa para merecer o perdão e a Graça de Deus, a fé pode ser vista como a segura confiança que se pode alcançar Deus com base em Seus atos.
Ninguém não pode alcançá-Lo enquanto permanecer no mundo ou domínio natural. Somente a aceitação d’Aquele que pode conduzi-lo até Deus, que é Jesus, pode revela-Lo. Não se pode alcançar Deus a não ser por meio da fé. Em Jesus Cristo descobrimos a majestade e a infinidade de Deus. Não há base bíblica que possa legar outro meio de alcançar Deus. Pois se alcança Deus, com base exclusiva no que Ele fez por nós através de Jesus Cristo (Romanos 5.1). less
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