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    A descendencia-do-orisa A descendencia-do-orisa Document Transcript

    • A DESCENDÊNCIA DO ÒRÌSÀE SUA SOBREVIVÊNCIA NA INICIAÇÃO NO BATUQUE DO RSRudinei Borba& Erick WolffPesquisadores independentes eAutodidatasNovembro / 2012RESUMOO propósito deste texto é analisarmos a descendência do Òrìsà, e suasobrevivência no rito de iniciação do Batuque do R.S., mostrando a possibilidade de taisritos terem sido fundados por descendentes reais da linhagem dos Òrìsà, utilizandocomo base para o estudo as informações fornecidas pelo bàbáláwo Chief AikulolaFawehinmi, sacerdote reconhecido no culto tradicional yorùbá, tanto em Osogbo quantoem Òyó.PALAVRAS CHAVES: òrìsà, ancestralidade africana, religiões africanas, religiõesafro-brasileiras, Batuque.ABSTRACTThe purpose of this paper is to analyze the progeny of Orisha, and their survivalin the initiation rite of Batuque R.S., showing the possibility of such rites have beenfounded for descendants of royal lineage of Orisha, using as a basis for studying theinformation provided by Babalawó Aikulola Chief Fawehinmi, priest recognized intraditional Yoruba worship, both in Osogbo as in Oyo.KEYWORDS: orisha, african ancestry, african religions, african-brazilian religions,batuque.
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff2INTRODUÇÃODentro da cultura tradicional yorùbá não aculturada existe a crença onde areencarnação está presente dentro do mesmo âmbito familiar e que a forma quediferencia uma reencarnação de um personagem importante no culto e descendência doÒrìsà (ìran-òrìsà, ìran-òòsà) se dá apenas pelo fato do mesmo ter ou não sangue real,ou seja, descender de uma linhagem nobre da família real de um rei yorùbá. Este fatonão é muito difícil de entendermos, partindo do entendimento de um sistemamonárquico onde impera o rei e ou a rainha e que vem sido cultuado pelos povosyorùbá através dos séculos, tendo sua origem através de Odùduwà, o progenitor danação yorùbá.Segundo Abímbólá (1997, pg. 69) “para um Òrìsà receber seu status como“divindade”, eles tiveram que vir ao mundo em forma humana para após completarsua etapa terrestre, ser lembrado como personagens importantes dentro da culturareligiosa yorùbá” (a tradução é nossa).Através da fala de Abímbólá, pensamos que, após a morte de um personagemimportante yorùbá, que não tem sangue real, ele passa integrar o culto Egúngún, cultoaos ancestrais, e poderá através dos séculos se tornar um “caminho de Òrìsà”, pois temsangue real e descendem diretamente de uma linhagem que liga um ancestral Realdireto, como nos casos de Sàngó em Òyó, Obatàlá em Ifè, Òsóòsí em Kétu, etc.Podemos citar outro exemplo: no culto de Òsun, não se rende homenagemapenas ao rio que leva seu nome, em Osogbo, mas a mulher que um dia, transformou-seem Òrìsà devido a sua importância na sociedade da qual vivia. Cultuar Sàngó não seresume apenas em invocar e venerar o raio ou o trovão, e sim em honrá-lo pelo homemque fora, capaz de empregar esses recursos naturais, por ter sido o grande àlàáfin deÒyó e um grande monarca que é lembrado até os dias de hoje.A associação de alguns Òrìsà com elementos da natureza, não é porque o crentevenere essa energia, mas antes, a memória deles enquanto homens que viveram no ayé(terra) em tempos remotos. O fato de um yorùbá olhar um raio e saudar o imortal reiSàngó, faz apenas com que nunca se esqueça do mesmo.
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff3Abímbólá (1997, pg. 69) também relata que “após a morte dos Oba (reis)yorùbá, eles passam da etapa de Éégún para Òrìsà, [...] nem todos os reis sãorecordados, mas teoricamente tiveram oportunidade de transformar-se em um Òrìsà ede serem lembrados pelos seus atos[...] nos dias atuais existem pessoas canonizadasque se converteram em Òrìsà em Ilé-Ifè”. Assim ocorreu com Sàngó, Aganjú, Kori,Oya, etc., como veremos adiante.Entendemos que é dever de um rei (Oba) tentar ficar conhecido após seudesempenho positivo em seu reinado. Acreditamos que assim ocorrerá com o atual Onide Ilé-Ifè, a excelência Oba Okunadé Sijuwàdéi, que é o descendente direto deOdùduwà na terra.Novamente Abímbóla1(1971, pg. 03-04) nos fornece claramente essa noção deÒrìsà e Éégún, como segue:! " # $ % & ( ) $ ** $ + * ", * % & # % "* $ *- " *. / &% * !01 ! 2 &3,3# " ! 4 2 &3,! #" * . 5 ) 6#. 5 ) ! - * . 5 )! . * 72 &3, 8 " .3% " * 4$ * "* # .. 3# * ** .1. Wándé Abimbólá recebeu da maioria dos Bàbáláwo o título Àwíse Àgbàiyé – Porta voz mundial dacultura yorùbá no mundo.2. São os Ajogun: Òfò – Prejuízos, Ègbà – Paralisia, Èjò – Problemas, Èpè – Maldição, Èwòn – Prisão,Èse – qualquer outro malefício que possa afetar os seres humanos, entre outras energias maléficas.(Nota dos autores)
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff43#A DESCENDÊNCIALendo Abímbólá compreendemos o papel importante de um ancestral para suafamília religiosa, bem como, na forma cultuada dos mesmos, presente junto ao culto dosÒrìsà, ajudando os homens e os conduzindo, dando assistências nas suas vidas nomundo visível e que nos dá o entendimento de um Éégún importante possa vir a ser umadivindade para seu povo. Percebemos também que o mesmo menciona a vinda dosÒrìsà na terra, como também acreditamos ao escrever este ensaio. Talvez seja pelocostume buscar-se na natureza a pedra de assentamento (ota) que o afrodescendenteacredita que o Òrìsà seja apenas uma energia da natureza.Marins (2010, p. 66) nos mostra um antigo costume yorùbá chamado Didota queera feito para eternizar em pedra uma pessoa poderosa:9:9;%< = ><4 9% ?4> @AB C% ?4> <%>C > 749>5 . " * # %" 3 * @ $ 3 ## , 3 3D D :** -*,4* E ; F % 3 5 " # E F G 3 #E% F E 01 F E9H F E FC **7 E9 H F *. 4 # *G E% 3 3 % F " *II EB 1 3 # " *F 9 , # J KLMA partir desse antigo costume de imortalizar um personagem importante atravésde uma pedra, acreditamos ter originado o culto através do ota como assentamento da
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff5divindade, mas não o caracteriza como sendo uma energia da natureza apenas, e sim umancestral que após longos anos de vida tornou-se uma pedra.Chief Aikulola Fawehinmi3publicou importante texto4, que será de sumaimportância para nosso entendimento sobre a descendência de Òrìsà, como segue:%3 , # 5 "" %3 , , .%3 , " : $ :: $ %0 : 4$ 3 :0 %N 4 D D %3 ,, A 5% 6 % % 6 % 6 . 4$ 3" %3 , 7 % 6 $," # . %3 , %% %3 , : (a tradução é nossa).Lendo o relato do Bàbáláwo, ficou evidente a crença na descendência de Òrìsàdentro da cultura yorùbá, ao relatar que em diferentes momentos de existência, Obatàláteve algumas de suas descendências em diferentes lugares e povos. Entendemos tambémque esse fato é fácil de observar, uma vez que os descendentes diretos de Obatàlá foramse tornando reis em locais conquistados.Outro bàbáláwo, Ifáyemí Elébuìbon (1989, pg. 07) atual Arabá de Osogboconfirma nosso pensamento quando escreve que “[...] galinhas brancas são asoferendas favoritas de Obàtálá, e dos outros Òrìsà que são seus descendentes, comoOgiyan, Òrìsàirowu, Òrìsà Oluofin, Òrìsà Popo… etc.” (a tradução é nossa)Da mesma maneira fez Odùduwà em épocas remotas ao colocar seusdescendentes em locais diferentes como reis yorùbá, conforme Aulo Barretti descrevede forma clara e objetiva:EJ O 0 $ % & N $, ** 1* * %3 2 &3," 6 &3,% * 33. Chefe Aikulola Fawehinmi Nathan Lugo é um sacerdote de Ifá, Obatàlá e sacerdote do cultoEgúngún, sendo seu mestre, o sacerdote chefe Fakayode Faniyi. Ele é o Awo Gbawoniyi de Osogbo,um título de grande prestígio em Ifá. Membro do templo Idinleke Ifá de Osogbo e também dasociedade Obatàlá de Òyó.4. Disponível em:< www.gbawoniyi.com >
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff6% & N 8 * 3 " 6 &3,% % & N P$ 6# # E% 7 2 &3,E5Para entendermos melhor esse assunto de reencarnações, temos primeiro ter emmente que a cultura yorùbá é toda baseada na reencarnação e se tem a crença que essefato ocorre dentro do mesmo âmbito familiar, o que difere do pensamento kardecistaatual, onde a reencarnação pode ocorrer em qualquer família no mundo. Assim como aspessoas yorùbá reencarnam no mesmo âmbito familiar, os grandes monarcas tambémtinham que ter filhos para herdar o trono, e assim ocorreu também durante o reinado deAganjú em Òyó, onde sucedeu o trono de Àjaká, como relata Johnson (1921-1960, pg.155) a seguir:O 9 P$ 0, 6 $, ?" ) 5 < .# $1 * P$ 0,6 5 6 P$ 0,*% $1 4 *7 ,9 *$1 #4 3 ,3, " 3$1 * $G $1 % 3 " * :6 61C % . 3 ) G % % 3!.% 3 ? 1 *O 3 3 . " :6 6" * $ $1# *# % *C" 5 * * **% Q Q $ * 3 4 0 3 9)4 0 3 1 * :6 6R $1S * 6 T5. Disponível em: < http://aulobarretti.wordpress.com/revista-ebano-ile-ife/ile-ife/ >
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff7. 3 3 $1, ) :6 6 ** * " 3 -:6 6 , * $1 3" . :6 6 5% * $ , %* U9 V U :6 6 > * #U :6 64$ 3 : 0 % : 0. * # * T< 4 (A tradução é nossa).O relato de Johnson nos mostra que, somente após longo tempo um descendentepoderia assumir o trono de seu reino, diferente das mitologias empregadas na culturaAfro-brasileira, as quais afirmam que os Òrìsà possuem “caminhos” e ou “qualidades”como caso de Aganjú e Agodo, que seriam qualidades Sàngó, entre outros.Outra parte interessante é a questão que Kori seria um descendente sanguíneo deAganjú, ou seja, sua reencarnação novamente na terra, pois seria como se Aganjúretornasse dentro do mesmo âmbito familiar através de seu neto. Entendemos tambémque ao rezarem diante sua tumba, nos faz entender que Aganjú foi um homem queviveu, mostrou seu poder, e ficou conhecido, isentando o que muito se escuta na culturaafrodescendente aculturada que Òrìsà é uma centelha de luz ou uma energia danatureza.Não seria possível acreditar que uma energia da natureza ou uma faixa de luzmanifestasse em uma pessoa, pois seria o mesmo que personificar um elemento que nãopossui consciência e acreditar que pudesse baixar em um ser humano, contradizendotoda a estrutura religiosa que se baseia na ancestralidade e personificação dasdivindades cultuadas, assim como acreditar na manifestação do próprio Ifá.CAMINHOS DE ÒRÌSÀ DENTRO DA CULTURAAFRO-BRASILEIRAAcreditamos que houve uma grande perda de conceitos tradicionais dentro dacultura afro-brasileira, devido a não sobrevivência da mitologia tradicional. Materiaisescritos por pessoas pouco conhecedoras da cultura yorùbá tradicional acumularam
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff8mitologias através de gerações, causando até mesmo um desprestígio. Um destes mitosé o que Aganjú teria até se casado com sua mãe Yemoja, desacreditando totalmente areligião dos Òrìsà. É importante comentarmos esse fato mesmo não sendo o foco donosso trabalho, para que possamos ter um melhor entendimento do tema.Altair T’Ògún (in memorian), quando ainda em vida, manteve em seu site6,relevantes informações, um deles, o problema de “qualidades”:C" $ # "" E- ! FR WXS * 1 3 4 $,3 J* * G E4 " 5 F R 3S? 2 &3, # " 5 "* E F Q O,< * 1 Y?! ! 4" "* %$ 3 C" 5 3, 73, , 3,1 3, $ 3 " "", 1 * " $ 4 " "# 3 , * 4* 1 Y* *Q 54 " 4# * " #G .B"" " ) * . 4 $ #. E F$E FV 3 " Y# * J G, " # ? Y " # 2 $ Y" # 1 Y 4 " # ! Y ?! 0 " #1 Y (3, % . " " %6 Y* * " 3% # .0 # ** . 2 &3, 3 E F6. Disponível em: < http://www.altair.togun.nom.br/arquivo/cultura01.htm >
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff9Percebemos que não somos os primeiros a não concordar com a expressão“qualidades” que foram empregadas na nossa cultura para explicar os diversoscaminhos ou descendências dos Òrìsà.Acreditamos que a palavra “caminho” seria melhor empregada no temaproposto, pois ficar mais evidente e de fácil entendimento, pois se traçarmos uma linhana nossa frente, por exemplo, enchergamos o que? Um caminho! Certo? Se pensarmosem uma linha a frente dos pés do grande imperador Sàngó, o que veremos? Acreditamosque vemos suas “encarnações”, ou seja, sua descendência tanto real quanto seus“caminhos de Òrìsà”, pois ele é o progenitor.Quando falamos em seus “caminhos reais”, fica evidente que estaríamos falandode pessoas ligadas a sua descendência sanguinea, como caso de Aganjú, Kori, seguindoaté o atual Aláàfin de Òyó, que por terem sangue real poderão se tornar um Òrìsà paraseu povo, podendo ser lembrados com passar dos tempos ou não.Quando falamos em “caminhos de Òrìsà” muda um pouco, pois estaríamos nosreferindo a um Éégún ancestral que em vida foi iniciado no culto de Sàngó comoexemplo, e que após tempos de prestígios poderia vir manifestado em algum iniciadocomo caminho de Sàngó, fato este sendo visível na tradição não aculturada yorùbá,onde são efetuadas roupas para o Éégún nas cores e emplementos do Òrìsà ao qualancestral pertencia.Usando um exemplo prático da tradição do Batuque, onde temos nomes dosÒrìsà, como segue:Sàngó Èdùnbadéyí: se analisarmos a expressão Sàngó, seria o imperador e Òrìsàque veio ao mundo mostrar seu poder.Èdùnbadéyí seria o ancestral que foi iniciado no culto de Sàngó e que após sercultuado como Éégún ganhou a dádiva de poder vir ajudar usando um caminho deSàngó. E assim sucessivamente com os demais Òrìsà do culto. Entendemos tambémque para esse ancestral tornar-se um “caminho” de seu Òrìsà, levaria muitos anos e atéséculos de culto, e que talvez seja por isso que não temos tantos “caminhos” de algumasdivindades.Analisando outro exemplo, percebemos que o culto dos Òrìsà Funfun dentro doBatuque, é cultuado Òòsàálá como o Òrìsà, e a exemplo, Óbokún e Jóbokún seriam
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff10seus caminhos, ou seja, o culto de Óbokún e Jóbokún dentro do de Òòsàálá, onde talvezexplicasse o porquê se sacrifica galinhas para Òòsàálá no Batuque, e em alguns casos,galos para Óbokún na tradição do Candomblé. Daria também o entendimento de quandoé mencionado que o iniciado é filho de Òòsàálá Óbokún e não como o próprio ÒrìsàÓbokún, sendo um caminho do mesmo. Aikulola ainda menciona:E ! , , # %3 , ) F C *! , , ## %3 , "Z %4 3# %3 , #* < 3# ":6Na fala do Bàbáláwo, entendemos que as descendências do Òrìsà podem sertanto masculinas, quanto femininas. Chief Aikulola Fawehinmi relata:%3 , # . " "6 &3, % * T3 3 <) , %3 , *T G %0 ** EB % F 3 0 E%0 F 6E%0 :3 F :3 (a tradução é nossa).Nota-se claramente que o Bàbáláwo fala sobre os demais descendentes deObatàlá serem filhos dos mesmos e viverem em outras regiões, e que na religiãoafrodescendente acredita-se que, por exemplo, Oke é uma qualidade de Obatàlá, assimcomo outros Òrìsà Funfun sendo cultuados como “Caminho” de Obatàlá e descreveque: “[...] Alguns caminhos de Obatàlá em terras Yorùbá: Òòsà Olufon, Òòsà Oluofin,Òòsà Popo, Òòsà Ogiyan, Òòsà Rowu, Òòsà Alajo, Òòsà Ikire, Òòsà Irele, ÒòsàAjagemo, Òòsà Ajaguna, Òòsà Ojuna, Òòsà Obanimoro, Òòsà Obaso [...]”Se acreditarmos na descendência do Òrìsà, bem como em seus “caminhos”,entendemos por que no culto do Batuque se oferece galinhas para os “caminhos” de
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff11Òòsàálá e também talvez possamos entender os demais nomes dos diferentes caminhosdas demais divindades, como: Bikín, Birín, Lajiki, Bikúyìí, Funmilayo, Bí-Omi, Deyìí,Nikè, Bòmáaté, Olóbomi, Elefón, Odomaìyá, entre tantos outros cultuados no BatuqueAfro-Sul.Verger (1997, pg. 18) também registrou a ancestralidade divinizada do Òrìsà,onde efetuaremos comentários das partes retiradas de seu trabalho:" 5, , " . ., 3 % 5,. 3 . *3 " ," * 3 53 * *" % 5,[ "" 5, 55" $3Verger nos faz entender que, ressalvadas as diferenças ritualísticas, existe umasemelhança filosófica no culto de Òrìsà e de Eégún quando praticados dentro do mesmoâmbito familiar, podendo futuramente ganhar uma expansão de culto ou não, poismostraram seu poder quando em suas vidas terrenas. Em outro parágrafo (pg. 19)informa:E% 5, # .* 4 * 5,# * # & # E F &< . 5, 3FO autor novamente menciona que o Òrìsà “retorna” a terra para saudar e receberhonras de seus “descendentes”. Em seguida, informando sobre o culto de uma divindadecultuada numa família em uma aldeia, conforme relata:E[ " 5, 3
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff125 *" # 1 %" ,3 )% # , A 5[ 3 Z 3 < [? * E * < F [ ? ! ,3, # %3 1 6# 3# E? * F4 , " .# 3, , : # " 0 ) %" * [ , "T 3 K]^] 3 6 * < ) * . 3 *,* 3[ 1 35 , 3 * 4 3 .5* B* [? , B 3 .V FO autor menciona uma homenagem feita a um “caminho” de Sapatá que eracultuado pela sua própria família, da qual o descendia, numa aldeia em Tètèpa.Acreditamos que o “caminho” familiar do Sapatá mencionado por Verger seria“Megban”, conforme relatou no texto e que explicaria nosso propósito de estudo.Finalizamos a análise deste texto de Verger (pg. 19) comparando-o com outraparte de seu relato já anteriormente citado. Não efetuaremos comentários, e deixaremoscomo reflexão apenas.E% 5, # 3 . *% * . 3 35, , "$ # & " . 5, V FA INICIAÇÃO NO BATUQUEAo abordarmos o assunto sobre “caminhos” dos Òrìsà e suas descendências,preparamos a fala para o tema proposto, que é iniciação no Batuque do R.S., pelo fato
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff13dela diferenciar-se profundamente de outros segmentos religiosos afrodescendentes.Assim, faremos um relato resumido das duas iniciações realizadas dentro do culto, paraque possamos dar sequencia no nosso estudo.Na iniciação no Batuque não é praticado o ato da raspagem dos cabelos do novoadepto e também não pratica o ritual do adósù7realizado por outras religiões afro-brasileiras. O primeiro ato iniciático se resume em lavar a cabeça do noviço com banhode folhas8seguido pelo oríbibo9ou eborí10.Pensamos que apesar do iniciado ter passado pelo ritual de eborí, não o faziniciado ainda no culto de Òrìsà. Para os yorùbá, a oferenda de um quadrúpede ao Orí,não tem nenhuma relação com a iniciação em Òrìsà. São ritos completamenteseparados.Para a segunda parte ritual, ou seja, a iniciação do adepto ao culto do Òrìsà, osacerdote já fez uma consulta prévia ao oráculo dos búzios na presença do mesmo,sabendo assim, qual o dia apropriado para consagração das feituras, bem como, quaisserão os Òrìsà responsáveis pelo auxílio do cumprimento de seu destino.Não havendo a necessidade de se raspar os cabelos, o corpo é marcado commanteiga vegetal (òrí) no alto da cabeça, e em algumas partes vitais, sobre os quaisserão efetuados os sacrifícios prescritos.Após ter a resposta afirmativa de quais os Òrìsà que regerão sua vida, sãoescolhidos na natureza os ota (pedras) que carregam aparência ou tem algumaparticularidade ligada ao Òrìsà, caso seja necessária a sua utilização, pois nem todos sãocultuados em ota, podendo ser utilizados ou não. Dependendo da raiz religiosa praticadadentro do Batuque, o Òrìsà também pode ser feito apenas em uma estatueta, esta7. Um amalgama de vários elementos de origem vegetal, mineral e animal que são colocados na cabeçado neófito durante a iniciação, sacralizando-o ao Òrìsà.8. Estes banhos podem ser: omièrò (apaziguador; no batuque feito com folhas cheirosas.), ou omiàse(composto com vários tipos de fôlhas). O sacerdote saberá utilizar as folhas adequadas a cada caso.9. Ato de reverenciar Orí através de oferendas, seguido de um ritual que é composto do sacrifício dedois pombos, o èjè deve cair apena na cabeça, sem necessidade de colocar quartinha ou qualqueroutro utensílio sagrado.10. Ato de reverenciar Orí através de oferendas. Neste momento pode ser montada (ou não) a cremeira, eos búzios que simbolizarão a cabeça devem ser colocados sobre a mesma, para receber o èjè.Algumas casas montam a cremeira com os búzios, mantendo tudo vasilha, no chão, ato totalmentedesprovido de significado, pois se Orí é tudo que está acima, como poder ser montado no chão?
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff14conhecida por “vulto”, e em alguns casos é utilizado apenas implementosconfeccionados em ferro, como no caso do Òrìsà Ògún. Em outros lados religiosostambém são usados o ota na companhia também do vulto.Após ter a disposição dos objetos de culto do Òrìsà, é feito uma segundaconsulta oracular para saber qual o “caminho” dos Òrìsà que serão consagrados para oiniciado, assim sabendo suas particularidades de culto e também suas quizilas.Acreditamos que os caminhos11dos Òrìsà em questão, devem ser informados ao noviçono momento dessa consulta e nunca algum tempo depois, como vem ocorrendoatualmente no quadro do Batuque, entregando-se os nomes dos caminhos dos mesmossomente quando o religioso passa a sua categoria de sacerdócio.Tendo a posse de todos os materiais que serão utilizados na feitura do Òrìsà nonovo adepto, estes objetos recebem do sacerdote um banho purificatório com as ervasespecíficas, em seguida o iniciado é preparado para o momento do sacrifício dosanimais, estando já devidamente limpo através de banhos rituais, ebós e etc.O mesmo é colocado sentado no chão de frente para o quarto de santo, tendo emseu colo a vasilha que contem os materiais pertinentes ao culto do Òrìsà em questão,bem como, sua moringa (quartinha). O sacerdote efetua o ato propiciatório, deixandocair o èjè12sobre os objetos de culto, que estão no colo do adepto, carregando-o até oalto da cabeça do mesmo, sem a necessidade da mesma estar raspada para a ocasiãoritual, nem ter sido utilizado o adósù.Entendemos que o fato do èjè consagrar “primeiro” os objetos que servirão deculto do Òrìsà, e posteriormente levados à cabeça do adepto, é para despertar seuancestral mais “remoto”, o Òrìsà em questão, dando assim a explicação que o adeptoseria a descendência do Òrìsà, por estar recebendo esta ligação.O àse do èjè é fixado onde cai à primeira gota (òsòòrò èkíní), assim, são osobjetos de adoração que a recebem primeiro, durante o ato de feitura do Òrìsà napessoa. Este é o processo inverso do primeiro ato, o do eborí, onde é a cabeça querecebe a primeira gota e posteriormente o objeto de culto, a cremeira13pessoal, trazendo11. Ver exemplo de “caminhos” na (pg. 09).12. Sangue.13. Uma manteigueira que contém os elementos que formam o objeto de adoração de Orí.
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff15assim Orí para os objetos de culto. Já na segunda parte ritualística, a do Òrìsà, é seu àseque é levado e consagrado na pessoa. Ao final o iniciado é recolhido ao ilé14por tempodeterminado pela divindade através do oráculo, permanecendo isolado e deitado nochão.Queremos enfatizar que o culto do Batuque em momento algum utilizou ota noassentamento de orí, não raspou a cabeça e não efetua o ritual de adósù no noviço doculto, tal qual tradicionalmente fazem os descendentes de Òrìsà na Iorubalandia, comoveremos na fala do Awo Aikulola, na entrevista a seguir:ENTREVISTA15:O O BO O BO O BO O B GGGG4 NB # O O B %5 , Q > (? Q C" # J 3 # 3 4 *3 " 2 &3, )3 " 1QK_ 4 2 &3, &5 X C 3 "& 3 "+_ C " 6 &3, : # % . X C Q : # % . "3 # " # . # "6 &3,P W T ) W B 1: W0 T N * G0 T N * G0 T N * G0 T N * G% , O 3 7 )- " 6 &3, " # . 4" 46 &3, " # . "14. Casa.15. A entrevista completa pode ser verificada na Biblioteca Orixás<http://culturayoruba.wordpress.com/biblioteca-orixas/> pasta geral. Para o propósito deste texto foiutilizado um resumo.
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff16E 3 .F Q # # . C # ?" 3 3# ?E 3 .F Q " # ,@, "7 "G 4# 1 1 $ . 2 B # 33 : , % $1 % 0 % 64 " " Z % #" & ? EF . E " F &* 7[ " . B&? 3 $,6 &3, 3# N *7 " 3# WJ* 0 T N * (3 N 6 N % 3Conforme podemos claramente perceber na fala do Awo Aikulola, osdescendentes de Òrìsà, por possuírem geneticamente o hereditário ìpìn sagrado em seuscorpos, não tem, segundo o bàbáláwo, a necessidade de rasparem a cabeça, nem passarpelo ritual do adósù.Esta informação do bàbáláwo, conforme coletada pelo entrevistador, motivou-nos a trabalhar neste texto a hipótese de que o Batuque, até mesmo antes do PríncipeCustódio, tenha sido fundamentado por descendentes reais não registradosetnograficamente, que naturalmente, ao aplicarem em si mesmos o costume tradicionalde sua terra natal yorùbá, isto é, de não raspar e não usar o adósù por seremdescendentes do Òrìsà, teria instituídos em terras afro-gaúchas um costume que deveriapertencer apenas à família real descendente da divindade, mas que por circunstânciasvárias, estendeu-se a todos, talvez como forma de sobrevivência.Em seu site, o bàbáláwo Aikulola reafirma que, para aqueles consideradosdescendentes do Òrìsà, não há não necessidade de raspar e adoxar:E4 , %6 %3 # *$ # * .. % $ % # * B 3 ?3# # ? "R 3 " S%3 [ " " 5
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff17" % F K^ (a tradução é nossa)Assim, de acordo com o exposto, não podemos descartar essa hipótese doBatuque ter seus fundamentos originados por um ou mais descendentes diretos doÒrìsà, pertencente à nobreza tradicional yorùbá, como veremos a seguir.A NOBREZA YORÙBÁ NA FORMAÇÃO DO BATUQUE DO R.S.Pierre Verger (1985, pg. 153-154), corroborando nossa hipótese, documentousobre a Na Agontimé17que foi reconhecida pela Unesco por pertencer à família real doDahomey (atual Rep. Pop. do Benin), fundando a Casas das Minas, no Maranhão.Isto abre margem para um estudo nessa direção, de que o Batuque também podeter sido introduzido no Rio Grande do Sul por membros de famílias reais dos yorùbá,que não tinham em suas iniciações religiosas a necessidade de raspar os cabelos, nemusar o adósù, por serem, como disse Aikulola, descendentes do Òrìsà.Nesse sentido, conforme texto de Eduardo Cezimbra (Pai Tita de Xangô) há relatosda passagem de pessoas vindas da realeza de Òyó18:@, " %6 "* 4 . 1$ B" 4 . %6, 4 .16. Disponível em: <http://www.gbawoniyi.com/Articles.html>17. Verger documentou que a mãe do Imperador Daomeano Guezo e esposa do Rei Agonglo, foi enviadapor Adandozan como escrava para São Luis do Maranhão no Brasil, antes de seu filho Guezo assumiro trono em 1818. Acreditando que a mesma teria recebido o nome de Andressa, passando a fundar acasa dos Vodúns por cultuar um Vodún que somente era cultuado pela família real que permaneciaainda no Dahomey (atual Rep. Pop. do Benin).18. Internet. Disponível em < http://www.xangosol.com/nacoes.htm >
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff183 Z @ 7 V* %5 # " * 3 " ?$ 7 7 * $1 B" 4 .K]IM 5 , *Ao analisarmos as partes extraídas do texto escrito por Eduardo Cezimbra, nota-se que tivemos uma sacerdotisa que descendia de uma família nobre na áfrica. O autorinforma que seu nome seria Emília Fontes de Araújo, a qual teria introduzido os rituaisde raiz Òyó no nosso Estado, e que esta era iniciada no Òrìsà Oya, e que o seu caminhoseria Lájà19. É informado também no relato que havia nativos africanos convivendojuntamente com pessoas desse lado religioso no Batuque.Pai Carlos de Aganjú registra também em seu texto intitulado20“História doBatuque / Nação” a possível nobreza de Mãe Emília, quando relata que ela era umaprincesa, como segue:E%6 ` B" 4 . %6, O $, 7 9 2 $, B"( 5 " B" D7 D %3, B" T ? 7 *%5 C a [ B" B %5 B a [ a [ < *a [ < % FSegundo Jean de Yemoja21, “Ìyá Cezária ti Sàngó - Oba Leri era irmã de MãeEmília de Oya. Informando-nos que a Nação Òyó no Rio Grande do Sul teve suasorigens nas cidades de Rio Grande e Pelotas (RS) e que Ìyá Cezária ti Sàngó - Oba Lerié tida como a matriarca do povo de Òyó vindo de Pelotas. Jean diz que os seguidoresda nação Òyó presentes em Porto Alegre (pouquíssimos em tempos atuais), tem suamatriarca a pessoa de Mãe Emília de Oya - Oya Lájà e que segundo relatos orais, asduas eram irmãs de santo, iniciadas pela mesma Ìyálòrìsà, a Senhora Bibica de Ògún.Jean informa também que muito escutou dos antigos que ambas seriam vindas de Òyó eque as sacerdotisas teriam algum tipo de nobreza sanguínea”. (informação pessoal)Acreditamos que assim como ocorreu com caso de Na Agontimé registrado por19. Ler: Ládja, podendo ser “aquela que vence a guerra”.20. Disponível em Internet:<http://www.iledeaganju.com/HIST%C3%93RICO.php>21. Descende do Òyó herdado de Mãe Emília de Oya, onde atualmente mora e trabalha como professorde história em Curitiba (PR).
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff19Verger, poderiam também ter vindo para o Rio Grande do Sul, nativos yorùbá dedescendência real, mantendo em solo afro-gaúcho o culto que aprendera ainda em soloafricano.Se trabalharmos com a hipótese de Mãe Emília de Oya Lájà ter descendênciareal africana, os fundadores do Batuque carregariam o ìpìn do Òrìsà em seus corpos, talcomo descreve o Bàbáláwo Aikulola, mantendo assim no culto do Batuque um costumetradicional da realeza iorubá. Isto explicaria por que no Batuque, por herança culturaldos fundamentos religiosos implantados e outorgados pelos descendentes diretos doÒrìsà, o iniciado não tem a necessidade de raspar a cabeça, nem utilizar o adósù, talqual ocorre em outros segmentos religiosos afrodescendentes.O OTA E O IGBÁ-ORÍ (Cremeira)Este tema nada tem a ver com o objetivo deste texto, e já recebeu a devidaatenção em outro trabalho, mas como está citado na entrevista, faremos um brevecomentário. Caso o leitor deseje, poderá encontrá-lo melhor desenvolvido nos endereços
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff20que constam na nota de rodapé. 22Conforme a entrevista citada, o entrevistador pergunta ao Bàbáláwo Aikulolasobre o uso do ota (pedra) no assentamento de orí (cabeça). A pergunta tem sua razão deser, porque na internet circulam alguns textos falando que o assentamento de Orí temota.O Ilé-Orí ou Igbá-Orí, chamada no Batuque de “cremeira ou manteigueira”,além de simbolizar a cabeça, está indiretamente ligado à ancestralidade, que ésimbolizada pelo uso, no Batuque, da moringa, elemento constituído de barro, semprecheia de água. Ela não é “símbolo da cabeça”, como pensam alguns, apenas por que temforma esférica. Todo o conjunto da cremeira é um elemento transitório, que deixa deexistir quando seu possuidor volta ao òrun, diferente de alguns Òrìsà que podem serherdados e continuarem a ser cultuados mesmo após o desenlace do iniciado.De acordo com a fala do bàbáláwo, o Ilé-Orí tradicional yorùbá não usa ota, eno Batuque tradicional conservou-se também este fundamento de não utilizar ota noassentamento de Orí.Conforme vimos, o antigo costume yorùbá de “Didota” tem a finalidade de“eternizar” alguém em um busto de pedra (ota), pois dentro do conceito de “Noção dePessoa” a pedra simboliza eternidade, láilái em yorùbá.Assim compreendido, não faz nenhum sentido o uso do ota em assentamentos deOrí, pois, para que se utilizaria de um símbolo de eternidade como base para algo que étransitório e finito?Entretanto, esta nossa fala refere-se ao Batuque, e não tem a intenção deconflitar com outros segmentos religiosos afro-brasileiros. Por exemplo, é sabido que osegmento do candomblé reafricanizado “resgatou” o uso do Igbá-Orí que o candomblétradicional perdeu, e nesse trabalho de reafricanização, convencionou-se o uso de umapedra.Conforme os informantes consultados, o uso desta pedra no Igbá-Orí do22. Internet, ver in: Revista Olorun <http://www.olorun.com.br> e Cultura Iorubá,<http://culturayoruba.wordpress.com/o-ile-ori-e-a-cremeira-a-nocao-de-pessoa-no-batuque-do-r-s/>
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff21candomblé reafricanizado não tem a finalidade de ser um “ota” de assentamento de Orí,mas sim, apenas “um dos elementos” que formarão o jogo de búzios do futurosacerdote, não tendo nenhuma conotação de assentamento. 23Assim, a resposta do bàbáláwo Aikulola atendeu perfeitamente à finalidade dapergunta.CONSIDERAÇÕES FINAISTivemos grande prazer ao abordarmos os temas de descendência e caminhos deÒrìsà dentro do nosso culto afrodescendente, o qual muito aculturado ao longo dostempos, e que podemos através deste ensaio visualizar outros ângulos de raciocínios ede pontos de vista.Entendemos que o Batuque conseguiu preservar costumes tradicionais dosyorùbá, surgindo uma grande possibilidade de, a partir da informação da entrevista doBàbáláwo Aikulola, compreendemos que o Batuque, ao conservar no seu rito religiosode iniciação o costume de não raspar os cabelos e não usar adosù culminou porpreservar um costume da nobreza yorùbá, colocando-o assim muito próximo das raízestradicionais dos yorùbá.Assim, a formação, fundamentação e a forma de iniciação do Batuque no Estadodo Rio Grande do Sul deixa em evidência a herança cultural de descendentes reais doÒrìsà em África, que sobreviveram no nosso Estado.Outro rito conservado seria a cremeira, que não usa ota, tal qual o Igbá-Orí dosyorùbá, novamente segundo Aikulola.Não tivemos em nenhum momento a intenção de darmos à famosa “verdadeabsoluta” dos fatos, uma vez que podemos sim entender “todos juntos” um pouco maisde nossas tradições religiosas.Convidamos o povo de santo do Batuque a analisar com carinho o objeto desteestudo.23. Informação pessoal de Luiz L. Marins, conforme ouviu do Babalorixá Aulo Barretti, de Òsóòsí, nocandomblé kêtu reafricanizado.
    • A descendência do Òrìsà e sua sobrevivência na Iniciação no Batuque do RSRudinei Borba & Erick Wolff22Fontes BibliográficasABIMBOLÁ, Wande. Ifá will mend our broken world – Thoughts on Yorùbá Religionand Culture in Africa and the Diaspora, Ifé, Iroko Academic Publishers, 1997.___________, “A concepção ioruba da personalidade humana”, Paris, 1981. In:INTERNET, Cultura Iorubá, <http://culturayoruba.wordpress.com>.___________, “The concept of good character in Ifá Literary Corpus”, In: Yoruba OralTradition, selections from the papers present at the seminar on Yoruba oral tradition:poetry in music, dance and drama, Wande Abímbolá (Org.) Departament of Africanlanguages and Literatures, University of Ife, Ile-Ife, Nigeria, 1975.ABRAHAM, R. C. Dictionary of Yoruba Modern, London, *QFFGT 5VQWIVJQP =?.ADESOJI, Michael Adémola. Nigéria, História – Costumes, cultura do povo Ioruba e aorigem dos seus Orixás, 1990, edição do Autor.BARRETTI FILHO, Aulo. Dos Yorùbá ao Candomblé Kétu, Edusp, São Paulo, 2010.BASCOM, William. Yoruba concept of the Soul. In: INTERNET: Cultura Iorubá,<http://culturayoruba.wordpress.com/concepcaoiorubadaalma/>BOWEN, Rev. T. J. Grammar and Dictionary of the Yoruba Language, 1856. In:INTERNET, Cultura Iorubá, <http://culturayoruba.wordpress.com/dicionarios-de-yoruba/>.COURLANDER, Harold. Tales of Yoruba gods & heroes, Original Publications, NewYork, 1973.DREWAL, Margaret Thompson. Yoruba Ritual (Performers, Play, Agency), IndianaUniversity Press, Indiana, 1992.ELBEIN DOS SANTOS, Juana. Os Nagô e a Morte, Petrópolis, Vozes, 1993 [1986].FAKINLEDE, Kayode J. Modern Practical Dictionary English-Yoruba Yoruba-English, Hippocrene Books, Inc, New York, 2008FAMULE, Olawole F. Art And Spirituality: The Ijumu Northeastern-Yoruba Egúngún,Phd. Dissertation, University of Arizona, 2005.
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