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Jornalismo opinativo no rádio brasileiro

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Trabalho de conclusão de curso de Raquel Bariani

Trabalho de conclusão de curso de Raquel Bariani

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  • 1. UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL COMUNICAÇÃO SOCIAL – JORNALISMO RAQUEL BARIANI BERNARDINOJORNALISMO OPINATIVO NO RÁDIO BRASILEIRO: HERÓDOTO BARBEIRO x RICARDO BOECHAT SÃO PAULO 2009
  • 2. RAQUEL BARIANI BERNARDINOJORNALISMO OPINATIVO NO RÁDIO BRASILEIRO: HERÓDOTO BARBEIRO x RICARDO BOECHAT Trabalho de conclusão de curso apresentado como exigência parcial para a obtenção do título de Bacharel em Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, sob orientação da Prof.ª Ms. Flávia Silveira Serralvo. SÃO PAULO 2009
  • 3. Dedico este trabalho a Deus e aos meus pais,Silvio e Lázara, que me apoiaram na decisão decursar jornalismo.À minha irmã Natália e aos meus amigos, quenos momentos de maior dificuldade, durante odesenvolvimento desta pesquisa, souberam merespeitar. ii
  • 4. Agradeço aos professores, que desde o primeiroano já nos incentivaram a não desistirmos dossonhos e objetivos.A meus pais, pelo incentivo e apoio. iii
  • 5. RESUMO Este trabalho pretende analisar criticamente a maneira como os âncorasHeródoto Barbeiro, da CBN, e Ricardo Boechat, da BandNews FM, transmitem asinformações e notícias ao público. Analisaremos como são aplicados os comentáriossobre os fatos, se são claramente distintos, ou se confundem o ouvinte.Palavras-chave: Jornalismo Opinativo; Radiojornalismo; Análise de Discurso. iv
  • 6. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................... 61 JORNALISMO NO RÁDIO.............................................................................. 82 GÊNEROS JORNALÍSTICOS........................................................................ 133 NOTÍCIA VERSUS COMENTÁRIO................................................................ 214 O ÂNCORA NO JORNALISMO...................................................................... 26 4.1 HERÓDOTO BARBEIRO ......................................................................... 27 4.2 RICARDO BOECHAT............................................................................... 295 ESTUDO DE CASO ....................................................................................... 31 5.1 UNIVERSO .............................................................................................. 31 5.2 AMOSTRA .............................................................................................. 31 5.3 ANÁLISE ................................................................................................. 31 CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................... 46 REFERÊNCIAS ............................................................................................. 48 ANEXOS ........................................................................................................ 51 v
  • 7. 6  INTRODUÇÃO Na faculdade, aprendemos que jornalismo é a arte de informar, e que nãodevemos nos posicionar favorável ou contrariamente ao fato. Devemos transmitir ainformação de forma imparcial. Porém, na observância dos veículos de comunicaçãode massa, notamos que não é assim que a informação nos é dada. Oposicionamento do jornalista ou da empresa, na forma do editorial, sempre se fazpresente. Neste trabalho, propomos analisar criticamente como se dá a expressãoda opinião em cinco edições de programas jornalísticos de rádios concorrentes,apresentados por âncoras de destaque no radiojornalismo brasileiro. Nosso interesse pelo rádio como veículo de informação deu origem ao tema“jornalismo opinativo”. Buscamos, com esta pesquisa, esclarecer ao público leitor asfunções dos âncoras, analisando a maneira com que eles buscam contribuir com ojornalismo. Este trabalho tem como base principal a pesquisa bibliográfica e análise deconteúdo, a partir de livros e gravações dos programas selecionados como corpusde análise, entre outros materiais que se mostraram relevantes ao estudo.Caracteriza-se ainda como analítica, tendo como finalidade observar, registrar,comparar e analisar os fenômenos que fazem parte da obra. Esta monografia foi dividida em cinco capítulos. O primeiro capítulo, intitulado“Jornalismo no rádio”, traz um panorama histórico do jornalismo radiofônico no Brasile no mundo. No segundo capítulo, intitulado “Gêneros jornalísticos”, fazemos uma brevedescrição dos gêneros mais comuns no jornalismo brasileiro, bem como asclassificações dos gêneros jornalísticos na França, Alemanha e América do Norte. O terceiro capítulo, “Notícia versus comentário”, traz mais detalhadamente asdescrições destes dois gêneros, itens principais que compõem nosso corpus daanálise. No quarto capítulo, “O âncora no jornalismo”, procuramos definir o termo‘âncora’ no sentido de apresentador. Neste capítulo, há dois subitens, em quecontamos um pouco da trajetória dos âncoras analisados. No quinto capítulo, “Estudo de caso”, há informações sobre os programas, ouniverso e a amostra de nossa pesquisa, bem como a análise de conteúdo.
  • 8. 7   Por fim, nas considerações finais, observamos que independentemente daforma como é apresentada, a opinião está presente no jornalismo. O objetivo destapesquisa foi alcançado, visto que respondemos às questões levantadas, que serãoapresentadas no decorrer do trabalho.
  • 9. 8  1 JORNALISMO NO RÁDIO Para falarmos da história e do início do jornalismo radiofônico no Brasil, éimportante fazermos uma introdução com a história do rádio no Brasil e no mundo. Em 1864, o físico escocês James Clerk Maxwell lançou a teoria de que umaonda luminosa podia ser como uma perturbação eletromagnética que se prolongavano espaço vazio atraída pelo éter, ou seja, ondas de natureza eletromagnéticapovoavam o infinito em todas as direções e a luz e o calor radiante pertenciam aeste tipo de ondas. O físico morreu e deixou apenas a ideia desta teoriamatematicamente comprovada, sem poder levá-la para o campo experimental. Em 1887, um jovem estudante alemão, Heinrich Rudolf Hertz, construiu umaparelho que comprovava a teoria de Maxwell. O dispositivo produzia correntesalternadas de período extremamente curto, que variavam muito rapidamente. Asondas descobertas foram chamadas de “Ondas Hertzianas”. Em 1895, o italiano Guglielmo Marconi, após assistir à repetição daexperiência de Hertz, teve a ideia de transmitir sinais à distância. Entregou-se aoestudo das ondas Hertzianas e, dois anos mais tarde, descobriu o princípio defuncionamento da antena. Em 1896, ele enviou mensagens em código morse a umadistância de 32 milhas, à velocidade de 20 palavras por minuto. Em 1903, o inventorconseguiu enviar uma mensagem ao outro lado do oceano. A história do rádio no Brasil não teria sentido se não mencionássemos opadre brasileiro Roberto Landell de Moura, que, de acordo com César (2002, p. 37)iniciou os estudos na área científica na cidade do Rio de Janeiro, transferindo-separa Roma, na Itália, para aprimorar seus conhecimentos, onde desenvolveuestudos na área de ciências químicas e físicas, e onde começou a conceber asprimeiras ideias em torno de sua teoria sobre a unidade das forças físicas e aharmonia do universo. Em 1892 retornou ao Brasil, dedicando-se simultaneamente às atividadescientíficas e sacerdotais, promovendo as primeiras experiências de radiodifusão nomundo. Foi renegado, considerado herege e bruxo, devido às suas experiênciascientíficas, com isso, transferiu-se para Nova York, onde permaneceu por três anos.Foi lá que recebeu as patentes de seus três equipamentos, para Transmissor deOndas, Telefone sem Fio e Telégrafo sem fio.
  • 10. 9   De volta ao Brasil, pretendia doar seus inventos, com as respectivas patentes,ao governo brasileiro, mas este recusou os dois navios da esquadra brasileirasolicitados para a demonstração na Baía de Guanabara. Conforme destaca César(2002, p.38), se o padre Landell houvesse sido atendido, a história das transmissõespor rádio poderiam ter sido iniciadas em nosso país. De acordo com Ortriwano (1985, p.13), a primeira transmissão radiofônicaoficial no Brasil foi o discurso do Presidente Epitácio Pessoa, no Rio de Janeiro, emplena comemoração do centenário da Independência do Brasil, no dia 7 de setembrode 1922. Porém, experiências já eram feitas por alguns amadores, existindodocumentos que provam que o rádio, no Brasil, nasceu em Recife, no dia 6 de abrilde 1919, quando, com um transmissor importado da França, foi inaugurada a RádioClube de Pernambuco por Oscar Moreira Pinto, que depois se associou a AugustoPereira e João Cardoso Ayres. A data de instalação da radiodifusão no Brasil foi 20 de abril de 1923, quandocomeça a funcionar a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por EdgardRoquete Pinto e Henry Morize. No início, ouvia-se uma programação muito “seleta”,apesar de Roquette Pinto estar convencido, desde o início, de que o rádio setransformaria num meio de comunicação de massa (ORTRIWANO, 1985, p. 13). E,devido a essa certeza e à vontade de divulgar a ciência pelas camadas populares,muitas iniciativas foram tomadas no sentido da implantação efetiva da radiodifusãono Brasil. Com o início da Segunda Guerra Mundial, o interesse por notícias imediatas eatualizadas aumentou, criando possibilidades para o desenvolvimento de noticiáriosradiofônicos. Segundo Ortriwano (1985, p. 20), o “Repórter Esso”, teve sua primeiratransmissão às 12h45 do dia 28 de agosto de 1941, quando a voz de RomeuFernandez anunciou o ataque de aviões da Alemanha à Normandia, durante a 2ªGuerra Mundial. Em 1942 entrou no ar o primeiro jornal do rádio brasileiro, o “Grande JornalFalado Tupi”, criado por Coripheu de Azevedo Marques e Armando Bertoni, comuma hora de duração diária. Ambos os jornais foram marcos importantes para que oradiojornalismo brasileiro fosse encontrando sua definição, os caminhos de umalinguagem própria para o meio, deixando de ser apenas a “leitura ao microfone” dasnotícias dos jornais impressos.
  • 11. 10   Em determinado momento, entendeu-se que jornalismo em rádio deveria ser feito apenas a partir do que as pessoas declaravam. Cabia ao jornalismo impresso a parte dita “nobre”, a da investigação, da interpretação, do bastidor, da informação não passada pela fonte durante a entrevista coletiva. E ficou para o repórter de rádio o trabalho “menor”, algo tipo relatório, ou o acompanhamento da “repercussão” de algum fato explorado pelos jornais. Resignar-se a cumprir este papel significa, ao longo do tempo, sucumbir. O bom rádio joga no ataque sempre, levantando temas e pautando os outros meios (PARADA, 2004, p. 33). A “época de ouro” do rádio terminou com o surgimento da televisão, quebuscou no rádio seus primeiros profissionais, imitou quadros e levou consigo apublicidade. Para enfrentar essa concorrência, o rádio procurou por uma linguagemmais econômica, no início, com muita música e poucos programas produzidos. “Orádio aprendeu a trocar os astros e estrelas por discos e fitas gravadas, as novelaspelas notícias e as brincadeiras de auditório pelos serviços de utilidade pública”,afirma Ortriwano (1989, p. 21). Começou, então, a especialização das emissoras,procurando por um público específico. Um novo tipo de programação noticiosa foi lançado pela Rádio Bandeirantes,em 1954, impulsionando o radiojornalismo. A produção de um radiojornal maisdinâmico, em que as notícias tinham um minuto de duração a cada 15 minutos; enas horas cheias, boletins de 3 minutos, influenciou a programação de outrasemissoras. Para Ortriwano (1985, p. 78-81), a informação no rádio vai apresentarcaracterísticas próprias, sem, contudo perder sua identificação com o conteúdoinformado. Características, como ela mesma diz, “intrínsecas”, e cita: a) Linguagem oral: não há necessidade de alfabetização do públicoouvinte, pois este veículo trabalha com a fala, sendo que, para que a mensagemseja recebida, é necessário apenas ouvir. Em relação à televisão, o espectadortambém não precisa saber ler, apesar de, cada dia mais, os caracteres estaremsendo utilizados para prestar informações importantes, que escaparão aoanalfabeto. b) Penetração: geograficamente, o rádio é o mais abrangente dos meiosde comunicação de massa, sendo considerado de alcance nacional. Pode tambémestar presente o regionalismo, pois, tendo menos complexidade tecnológica, permite
  • 12. 11  a existência de emissoras locais, mesmo em cidades pequenas e/ou com poucosrecursos financeiros. c) Mobilidade: sob dois aspectos: 1. Emissor: por ser menos complexo que a televisão, o rádio pode estar presente com mais facilidade no local dos acontecimentos e transmitir as informações mais rapidamente. Suas mensagens não requerem preparo anterior, podendo ser elaboradas enquanto estão sendo transmitidas. 2. Receptor: o rádio hoje está em todo lugar. Seu tamanho torna-o facilmente transportável, permitindo, inclusive, recepção individualizada nos lugares públicos. d) Baixo custo: o aparelho receptor é o mais barato, se comparado àtelevisão e veículos impressos. O preço que o cidadão paga para receber asmensagens não está vinculado ao consumo que ele faça dessas mensagens, mas,sim, ao consumo que ele faça dos produtos que fazem publicidade nos veículos. Aprodução radiofônica é mais barata do que a televisiva, justamente por ser menoscomplexa. e) Imediatismo: os fatos podem ser transmitidos no instante em queocorrem. f) Instantaneidade: a informação é recebida no momento em que éemitida, não sendo possível, assim, que o receptor volte à mensagem, como podeocorrer com a mídia impressa. g) Sensorialidade: a criação de sons (e imagens, no caso da televisão)envolve o público de forma mais impactante do que as letras garrafais do impresso.“’Uma imagem vale por mil palavras’ é um chavão sobejamente conhecido por todos.E o rádio realmente usa as ‘mil palavras’ para criar cada imagem”, afirma Ortriwano. h) Autonomia: o rádio deixou de ser meio de recepção coletiva paratornar-se individualizado. Essa característica faz com que o emissor possa falar paratoda a sua audiência como se estivesse falando para cada um em particular. Em função de suas características, o rádio ganhou campo frente aos veículosimpressos. Não morreu com o surgimento da televisão, especializou-se em suaprópria faixa de potencialidade. O rádio convive com a televisão: na hora do futebol,por exemplo, muitos torcedores preferem unir a imagem da TV com a narraçãoradiofônica.
  • 13. 12   O rádio está em condições de transmitir a informação mais rapidamente doque qualquer outro meio de comunicação, pois é imediato, flexível, é mais regional,possui maior mobilidade etc. A informação apresenta características próprias, semperder sua identificação com o conteúdo a ser informado, o que pode ocorrer é aaparição eventual de acontecimentos que melhor se adaptam para seremtransmitidos por um ou outro meio.
  • 14. 13  2 GÊNEROS JORNALÍSTICOS “O dicionário define gênero como: ‘Classe cuja extensão se divide em outrasclasses, as quais, em relação à primeira, são chamadas espécies [...]’” (BARBOSAFILHO, 2003, p. 52). Há autores que não concordam com a divisão de gêneros nojornalismo, como é o caso de Wolf, que afirma que a divisão dos conteúdostelevisivos – aplicável também ao rádio – em gêneros conduz a umaestereotipização, pois definem a atitude do receptor (WOLF, 2003, p. 91). Para Sousa (2001, p. 230), os gêneros jornalísticos não têm fronteiras rígidas,sendo, às vezes, difícil classificar um determinado elemento, pois, estrategicamenteesses elementos são notícias, especialmente se apresentarem alguma informaçãonova. “Os gêneros jornalísticos correspondem a determinados modelos deinterpretação e apropriação da realidade através de linguagens” (SOUSA, 2001, p.231). Segundo o autor, “há, certamente, gêneros jornalísticos que ainda não viram aluz do dia e outros que já não se praticam”. Todorov acredita que “ocupar-se dosgêneros pode parecer atualmente um passatempo ocioso, quiçá anacrônico” (1980,p. 43) Barbosa Filho afirma que “falar em gêneros implica, invariavelmente,incursões nos debates que o tema suscitou ao longo da história. [...] dimensionarseu conceito tautológico é uma questão que vem atormentando os filólogos ao longodos tempos” (2003, p. 51). Para Luís Martinez Albertos, o jornalismo é “[...] um estiloliterário peculiar, um estilo caracterizado, basicamente, pelos fins informativos quepersegue – a transmissão de notícias – e a exigência ou expectativa do destinatário”(ALBERTOS apud BARBOSA FILHO, 2003, p. 55). Os gêneros são, ainda, unidades que se podem descrever sob dois pontos de vista diferentes: o da observação empírica e o da análise abstrata. O primeiro – o da observação empírica – refere-se às “propriedades discursivas” que tornam um texto diferente ou igual a outro; e o segundo – o da análise empírica – tem a ver com a conceituação dessas propriedades. Em jornalismo, a análise empírica corresponde ao fazer jornalístico diário; varia conforme o fato jornalístico ou o enfoque. Por exemplo, um crime policial pode ter um texto meramente de relato ou tornar-se uma crônica. A significação de um ou outro texto fica na esfera da análise abstrata desse fazer; é o saber do jornalismo, que nada mais é que as teorias de classificação do gênero (BARBOSA FILHO, 2003, p. 57).
  • 15. 14   Pena nos traz modelos de classificações dos gêneros utilizadas na França,Estados Unidos e Alemanha (2005, p. 67-68), como vemos:a) Classificação Francesa (autor: Joseph Foliet) Editorial; Artigos de fundo; Crônica geral (resenhas dos acontecimentos); Despachos (reportagens e entrevistas); Cobertura setorial; Fait divers; Crônica especializada (crítica); Folhetim; Fotos e legendas; Caricaturas; Comics (quadrinhos). Segundo Marques de Melo (apud PENA, 2005, p. 68), há “erro na inclusão deunidades redacionais que pertencem ao âmbito do imaginário (folhetins) e doentretenimento (quadrinhos)”.b) Classificação norte-americana (autor: Fraser Bond)Noticiário: Notícia; Reportagem; Entrevista; História de interesse humano.Página editorial: Editorial; Caricatura; Coluna; Crítica. Para Marques de Melo (apud PENA, 2005, p. 68), essa classificação “nãoreflete o dinamismo dos grandes jornais e revistas, nem das prósperas emissoras deTV americanas na atividade noticiosa”.
  • 16. 15  c) Classificação alemã (autor: Emil Dovifat)Informativos: Notícia (fact-story); Report (act-story); Entrevista (quote-story).De opinião: Editorial; Artigos curtos; Glosa (crônica).Amenos1: Folhetim (resenha cultural); Crítica; Recreio e espelho cultural (contos, versos etc.). Marques de Melo (apud PENA, 2005, p. 68) considera errada essa divisão,pois, para ele, a crítica deveria pertencer ao conjunto de matérias de opinião, deacordo com o critério proposto, o estilo; e o folhetim, por se tratar de um panoramada vida cultural, deveria estar inserido no gênero notícia. A sistematização feita por Luiz Beltrão é da qual Marques de Melo (apudPENA, 2005, p. 68) parte, porém, não integralmente, como veremos:Jornalismo informativo Nota Notícia Reportagem EntrevistaJornalismo opinativo Editorial Comentário Artigo Resenha Coluna Crônica                                                            1 O termo ameno refere-se a algo “que se apresenta ou transcorre de modo suave, simples,agradável” (DICIONÁRIO HOUAISS, on-line).
  • 17. 16   Caricatura Carta Para Marques de Melo, a distinção entre nota, notícia e reportagem está na progressão dos acontecimentos. “A nota corresponde ao relato de acontecimentos que estão em processo de configuração e por isso é mais frequente no rádio e TV. A notícia é o relato integral de um fato que já eclodiu no organismo social. A reportagem é o relato ampliado de um acontecimento que já repercutiu no organismo social” (MARQUES DE MELO apud PENA, 2005, p. 69). Alguns autores dividem os gêneros jornalísticos em nota, notícia, boletim,reportagem, entrevista, editorial e crônica, conforme veremos a seguir: Nota: significa um informe sintético de um fato atual. Suas principais características são o tempo de irradiação, sempre curto, com quarenta segundos de duração, e as mensagens transmitidas são frases diretas, quase telegráficas (BARBOSA FILHO, 2003, p. 90). Notícia: para Luiz Amaral, “a notícia é a matéria-prima do jornalismo” (AMARAL apud PENA, 2005, p. 70), é a expressão de um fato novo, que desperta o interesse do público, é um relato dos fatos sem comentário nem interpretação. “Para o professor Luís Amaral, a notícia é ‘a informação atual, verdadeira, carregada de interesse humano e capaz de despertar a atenção e curiosidade de um grande número de pessoas’” (TRAVANCAS, 1993, p. 33). Caracteriza-se por uma linguagem clara, impessoal, concisa e adequada ao veículo. Nela, encontramos a essência do texto, o lead, que consiste num parágrafo que apresenta um relato dos aspectos da informação. No rádio, a notícia apresenta características diversas das que se observam em outros meios. Faus Belau classifica a notícia radiofônica de acordo com sua forma de divulgação, seja por meio do “flash” – modelo extemporâneo de intervenção informativa e que “[...] interessa unicamente dar a conhecer o fato com a maior rapidez possível [...]” – ou das notícias explicadas, que são as que aparecem nos boletins e/ou radiojornais e enfocam o fato em si e tudo o que acompanha e seja fundamental para seu entendimento (BARBOSA FILHO, 2003, p. 90).
  • 18. 17   Para Barbosa Filho, as notícias de opinião estão próximas do comentário, anotícia ambientada utiliza de fundos e efeitos sonoros para ambientar a notícia. Anotícia documentada é o que conhecemos como a base de programas jornalísticos,sem a presença de opinião, esclarece os fatos (2003, p. 91). Encontramos, ainda, o informe, que se aproxima do programa de variedades,conforme Belau: “[...] trata de dar uma visão completa dos acontecimentos nodesenvolvimento de uma determinada notícia não somente quanto a seus dadosestritos – presentes e passados – e sim buscando o porquê dos mesmos [...]”(BELAU apud BARBOSA FILHO, 2003, p. 91). Boletim: são pequenos programas jornalísticos, que, segundo Prado (2006, p. 9), não ultrapassam três minutos, inseridos na programação, por meio de notas, notícias, pequenas entrevistas ou reportagens. Reportagem: é uma narrativa que engloba, ao máximo, as diversas variáveis do acontecimento, proporcionando maior aprofundamento a respeito do fato narrado. A reportagem, segundo Marques de Melo, “[...] é o relato ampliado de um acontecimento que já repercutiu no organismo social e produziu alterações que são percebidas pela instituição jornalística [...]” (MARQUES DE MELO apud BARBOSA FILHO, 2003, p. 92). Porchat define a reportagem como “conjunto de providências necessárias à elaboração de uma matéria. Engloba pesquisa, entrevista e seleção de dados relacionados à mensagem a ser vinculada” (1989, p. 196). Entrevista: representa uma das principais fontes de informação de uma notícia, presente direta ou indiretamente na maioria das matérias jornalísticas. “A entrevista é formalmente um diálogo que representa uma das fórmulas mais atraentes da comunicação humana” (PRADO apud BARBOSA FILHO, 2003, p. 94). A interação existente entre o entrevistado e o entrevistador, exerce um efeito de aproximação do ouvinte. [...] é acontecimentos jornalístico eventual e normalmente se apresenta inserida no corpo da notícia. A não ser em episódios circunstanciais, como desastres, incêndios, manifestações, onde o repórter parte em busca de informações suplementares daquele
  • 19. 18   acontecimento e ali tenta apurá-las, em “som ambiental”, a entrevista geralmente é “montada” na sequência de uma narrativa fundamentalmente noticiosa [...] (SAMPAIO apud BARBOSA FILHO, 2003, p. 93). A diferença entre entrevista e reportagem, segundo Prado, é que a primeira édireta, realizada “ao vivo”, enquanto a segunda, pode ser montada antes de suaveiculação, e nos elucida, também, quanto às entrevistas de caráter, que visam apersonalidade do entrevistado, e às entrevistas noticiosas, que, como o próprionome diz, visam a informação (PRADO apud BARBOSA FILHO, 2003, p. 94). Entre as entrevistas noticiosas, Prado destaca as de “informação escrita” – as mais verificadas no rádio, visto que garantem agilidade à programação em virtude da brevidade – e as de “informação em profundidade” – que oferecem ao ouvinte informações adicionais ao fato, com o objetivo de provocar a reflexão. As peças da informação em profundidade possuem, obviamente, maior duração. (BARBOSA FILHO, 2003, p. 95). Editorial: esta peça jornalística, pouco utilizada no rádio, tem como característica principal o anúncio de opinião não-personalizada e retrata o ponto de vista da instituição radiofônica. Porchat define editorial como “texto opinativo, escrito de maneira impessoal, sem identificação do redator, sobre assunto nacional ou internacional, que define e expressa a opinião da Jovem Pan” (PORCHAT apud BARBOSA FILHO, 2003, p. 97). Crônica: surge no rádio acompanhando as características conhecidas no jornalismo impresso. Para Beltrão a crônica é “a forma de expressão do jornalista/escritor para transmitir ao leitor seu juízo sobre fatos, ideias e estados psicológicos pessoais e coletivos. [...] O comentário é leve, concreto, incisivo; as conclusões oferecem normas e julgamentos específicos e diretos. [...] está visceralmente ligada à atualidade” (1980, p. 66). Muito presente nos jornais brasileiros, é considerada o formato que transita nas fronteiras do jornalismo e da literatura. Segundo Marques de Melo (apud BARBOSA FILHO, 2003, p. 99), “a crônica estrutura-se de modo temporalmente mais defasado; vincula-se diretamente aos fatos que estão acontecendo, mas segue-lhe o rastro, ou melhor, não coincide com seu momento eclosivo”.
  • 20. 19   O gênero comentário, que não faz parte da classificação proposta porBarbosa Filho, é definido por Ferraretto (2001, p. 283) como “um texto opinativo emque um jornalista ou um especialista em determinada área analisa a fundo umassunto, explicando-o e/ou posicionando-se a respeito”. Charaudeau (2005, p. 175) afirma que comentar constitui uma atividadediscursiva, complementar ao relato: Relato (narrativa) e comentário estão intrinsecamente ligados, a ponto de os teóricos da linguagem se dividirem, ainda hoje, entre duas opiniões extremas: os que sustentam que “tudo é narrativa” e aqueles que afirmam que “tudo é argumentação”. Na verdade, essa dupla atividade discursiva empreende a mesma busca: conhecer o porquê dos fatos, dos seres e das coisas, e, com essa finalidade, comenta-se contando ou conta-se comentando. Apesar dessa convergência, essas duas atividades apelam para diferentes faculdades da mente e para diferentes processos de discursivização (CHARAUDEAU, 2009, p. 175). Segundo Charaudeau (2009, p. 176), a discussão entre relato e comentáriono mundo profissional das mídias vem como uma indagação sobre o papel socialdas mídias, em que escolas de jornalismo e grupos de jornalistas questionam o quedeve ser fornecido pelas mídias: fatos ou comentários. Para o autor, não é possívelinformar se não puder, ao mesmo tempo, garantir a veracidade das informaçõestransmitidas comentando-as, “o comentário jornalístico é uma atividadeestreitamente ligada à descrição do acontecimento para produzir um ‘acontecimentocomentado’ (AC)”. A principal função do comentário reside, apropriadamente, no seu conteúdoopinativo, que sugere conhecimento especializado. Na verdade, trata-se de umformato jornalístico que se aproxima do editorial. A diferença entre aquele(comentário) e este (editorial) é que o primeiro corresponde à opinião do autor, e osegundo à da instituição, do veículo. Pode aparecer como peça independente daprogramação, geralmente apresentada pelo autor, ou narrada por um locutor,acompanhado da menção explícita de sua autoria ou ainda dentro de formatosgenéricos como o esportivo, o policial e o radiojornal. O comentário, nessesformatos, não deve ser veiculado como notícia, mas após a informação, na voz docomentarista.
  • 21. 20   Por ser um dos itens principais que compõem o corpus de análise destetrabalho, o gênero comentário será abordado mais detalhadamente no capítulo aseguir.
  • 22. 21  3 NOTÍCIA VERSUS COMENTÁRIO As definições de notícia são muitas. Para Sodré (apud Travancas, 1992, p.33), notícia é “todo fato social destacado em função de sua atualidade, interesse ecomunicabilidade”. Mac Neil (apud Travancas, 1992, p. 33) define notícia como “umacompilação de fatos e eventos de interesse ou importância para os leitores do jornalque a publica”. Luís Amaral (apud Travancas, 1992, p. 33) acredita que “ainformação atual, verdadeira, carregada de interesse humano e capaz de despertara atenção e curiosidade de grande número de pessoas” seja a melhor definição parao tema. A melhor definição de notícia é “aquilo que é novidade, interessante e verdadeiro”. “Novidade” à medida que é um relato de eventos que o ouvinte ainda não conhece – ou uma atualização de uma história que lhe é familiar. “Interessante” no sentido de que é um material que lhe diz respeito ou que o afeta de alguma maneira. “Verdadeiro” porque a história, como foi contada, é factualmente correta (MCLEISH, 1999, P. 71). Para Secanella (apud PRADO, 1985, p. 47), somente uma definiçãopermanece após todas as mudanças nos conceitos e divisões dos gênerosinformativos, de que “é notícia o que os jornais escrevem em suas colunas e o queas emissoras de rádio e televisão emitem em seus programas informativos. Ou seja,os tipos de notícia são infinitos”. Prado (1985, p. 48) afirma que a instantaneidade e simultaneidade permitidaspelo rádio implicam em rapidez, principal vantagem da distribuição de informação.Isso permite aos jornalistas radiofônicos pensarem nas notícias do momento, e nãodo dia, como fazem os profissionais que trabalham para os veículos impressos. Anotícia radiofônica obriga o ouvinte a realizar um exercício de transformação dasideias transmitidas pelo som em visuais, aumentando o sentido de participação nosfatos relatados, o que resulta em maior credibilidade. Porém, a não permanência dasmensagens radiofônicas obriga o jornalista a escrever de forma clara, que possa serentendida na primeira vez. Em consequência disso, surge a brevidade, característicamais importante das notícias radiofônicas.
  • 23. 22   “A verdade de uma notícia, baluarte de um neoliberalismo (mercado livre deideias) contemporâneo, se remete à fundamentação teórica do acontecimento”(MEDINA, 1988, p. 20). Propomos chamar “notícia” a um conjunto de informações que se relaciona a um mesmo espaço temático, tendo um caráter de novidade, proveniente de uma determinada fonte e podendo ser diversamente tratado. Um mesmo espaço temático: significa que o acontecimento, de algum modo, é um fato que se inscreve num certo domínio do espaço público, e que pode ser reportado sob a forma de um minirrelato [...] há elementos de informação que podem dar origem a um novo espaço temático, mas podem também se ligar a um espaço temático já circunscrito e conhecido, como no caso de um conflito que se prolonga e do qual as mídias se ocupam cotidianamente [...] no mesmo instante em que se dá a notícia, ela é tratada sob uma forma discursiva que consiste grosso modo em: descrever o que passou, reportar reações, analisar os fatos (CHARAUDEAU, 2009, p. 132). Para Charaudeau (2009, p. 133), “a contemporaneidade midiática está no fatode a aparição do acontecimento ser o mais consubstancial possível ao ato detransmissão da notícia e a seu consumo”. Uma notícia é tão efêmera quanto umrelâmpago, no instante de sua aparição. Nas mídias, pode, por exemplo, serrepetida, guardando certo frescor, mas sob a condição de que permaneça no quadrode uma atualidade imediata. As mídias têm por tarefa reportar os acontecimentos do mundo que ocorreram em locais próximos ou afastados daquele em que se encontra a instância de recepção. O afastamento espacial do acontecimento obriga a instância midiática a se dotar de meios para descobri-lo e alcançá-lo. Ela o faz utilizando as indústrias dos serviços de informação (agências), mantendo pelo mundo uma rede de colaboradores (correspondentes), solicitando informações da parte de diversas instituições ou de grupos sociais (fontes oficiais ou oficiosas), apelando para todo tipo de testemunha (CHARAUDEAU, 2009, p. 135). Segundo Charaudeau (2009, p. 137), as mídias estão presas a dois tipos deimprensa: a regional, que se ocupa somente dos fatos que envolvem pessoas dolocal (política e costumes locais), e a nacional, que se ocupa com a política de modogeral e acontecimentos sociais. O autor sugere que, para atingir simultaneamenteesses dois públicos, seja feita uma simulação de participação cidadã, mais fácil deser aplicado ao rádio e televisão.
  • 24. 23   O acontecimento midiático constrói-se segundo três tipos de critério, conformenos mostra Charaudeau (2009, p. 150): Atualidade: dar conta do que ocorre numa temporalidade co-extensiva à do sujeito-informador-informado (princípio de modificação); Expectativa: captar o interesse-atenção do sujeito alvo, logo deve jogar com seu sistema de expectativa, de previsão e de imprevisão (princípio da saliência); Socialidade: tratar daquilo que surge no espaço público, cujo compartilhamento e visibilidade devem ser assegurados (princípio de pregnância). Não há palavra que não seja proferida de um determinado lugar e não convoque o interlocutor a ocupar um lugar correlativo; seja porque essa palavra pressupõe simplesmente que a relação de lugares está em vigor, seja porque o locutor espera do outro o reconhecimento do lugar que lhe é próprio, ou porque obriga o interlocutor a se inscrever na relação (FLAHAULT apud MAINGUENEAU, 2005, p. 34). Para Charaudeau (2009, p. 151), o universo da informação midiática éefetivamente um universo construído, o resultado de uma construção. Osacontecimentos não são transmitidos em seu estado bruto, pois se tornam objeto deracionalização. “Assim, a instância midiática impõe ao cidadão uma visão de mundopreviamente articulada, sendo que tal visão é apresentada como se fosse a visãonatural do mundo”. Maingueneau (2005, p. 53) afirma que “falar é uma forma de ação sobre ooutro e não apenas uma representação do mundo” e que toda enunciação constituium ato que visa a modificar uma situação. Orlandi (1999, p. 86) distingue os diferentes modos de funcionamento dodiscurso, tomando como referência elementos constitutivos de suas condições deprodução e sua relação com o modo de produção de sentidos, com seus efeitos,como segue:
  • 25. 24   a. Discurso autoritário: aquele em que a polissemia2 é contida, o referente está apagado pela relação de linguagem que se estabelece e o locutor se coloca como agente exclusivo, apagando também sua relação com o interlocutor; b. Discurso polêmico: aquele em que a polissemia é controlada, o referente é disputado pelos interlocutores, e estes se mantêm em presença, numa relação tensa de disputa pelos sentidos; c. Discurso lúdico: aquele em que a polissemia está aberta, o referente está presente como tal, sendo que os interlocutores se expõem aos efeitos dessa presença inteiramente não regulando sua relação com os sentidos. Para a autora, não há nunca um discurso puramente autoritário, polêmico oulúdico, mas sim misturas, articulações de modo que podemos dizer que um discursotem um funcionamento dominante autoritário, ou tende para o autoritário etc.(ORLANDI, 1999, p. 87). Afirma ainda que um modo de se evitarem essascategorizações é dizer que o discurso em análise tende para a paráfrase, ou para amonossemia (quando autoritário), tende para a polissemia (quando lúdico) e sedivide entre polissemia e paráfrase (quando polêmico). Maingueneau (20005, p. 55) afirma que “o discurso só é discurso enquantoremete a um sujeito, um EU, que se coloca como fonte de referências pessoais,temporais, espaciais e, ao mesmo tempo, indica que atitude está tomando emrelação àquilo que diz e ao seu co-enunciador”. Para Charaudeau (2009, p. 175), “comentar o mundo constitui uma atividadediscursiva, complementar ao relato, que consiste em exercer suas faculdades deraciocínio para analisar o porquê e o como dos seres que se acham no mundo e dosfatos que aí se produzem”. No mundo profissional das mídias, a relação entre relato(a que também podemos chamar notícia) e comentário é “espinhosa”, conformeafirma o autor (p. 176). Não raramente, é colocada em termos opostos,questionando se as mídias devem fornecer fato ou comentário, e se os jornalistasdevem descrever ou comentar.                                                            2  De acordo com a autora, “podemos tomar a polissemia enquanto processo que representa a tensão constante estabelecida pela relação homem/mundo, pela intromissão da prática e do referente enquanto tal, na linguagem” (1996, p.15). 
  • 26. 25   Não é possível informar se não se pode, ao mesmo tempo, dar garantias sobre a veracidade das informações transmitidas, logo, fazer saber implica, necessariamente, um “explicar”: o comentário jornalístico é uma atividade estreitamente ligada à descrição do acontecimento para produzir um “acontecimento comentado” (CHARAUDEAU, 2009, p. 177). Charaudeau (2009, p. 180) nos diz que “o comentador sabe que precisa sercredível, mas também sabe que nenhuma análise ou argumentação terá impacto senão despertar o interesse do consumidor de informação e se não tocar suaafetividade”. Porém, o posicionamento do comentarista e seus modos de raciocíniopode ser um dos problemas que o comentário coloca para as mídias. O comentário midiático corre o risco constante de produzir efeitos perversos de dramatização abusiva, de amálgama, de reação paranóica. Assim, a instância midiática procura, para compensar tais efeitos, multiplicar os pontos de vista e colocar num plano de igualdade os argumentos contrários. Talvez esteja aí a especificidade do comentário jornalístico: uma argumentação que, certamente, bloqueia a análise crítica, mas que, pela sua própria fragmentação, sua própria multiplicidade de pontos de vista, fornece elementos para que se construa uma verdade mediana. É uma atitude discursiva que aposta na responsabilidade do sujeito interpretante (CHARAUDEAU, 2009, p. 187). Todas essas definições de comentário e notícia, bem como a homogeneidadena apresentação de ambos serão consideradas para fazermos o estudo de caso daanálise proposta nesta monografia, como veremos no capítulo 5.
  • 27. 26  4 O ÂNCORA NO JORNALISMO O termo âncora (anchorman) no jornalismo começou a ser utilizado nosEstados Unidos na década de 50, e representava a pessoa melhor informada, ondetodas as linhas de comunicação deveriam terminar, o estúdio onde ele estivessedeveria ser o coração e o cérebro da cobertura (SQUIRRA, 1993, p.65). Hoje, os âncoras dos tele e radiojornais americanos não são somente osapresentadores do noticiário, mas os editores-chefes. O programa é a sua própriaimagem e tem a sua marca. Basicamente, é a sua ‘propriedade’ (SQUIRRA, 1993,p.67). A figura do âncora é recente na história do jornalismo brasileiro. SegundoMello e Souza (apud SQUIRRA, 1993, p. 118), a primeira referência a um jornalistaque supostamente teria atuado como âncora em um telejornal brasileiro foi nospreparativos para a cobertura das eleições municipais de novembro de 1976. Nessaocasião, foi preparado um plano especial de trabalho na Rede Globo, que sugeria autilização do repórter Costa Manso como uma espécie de ‘anchorman’. No entanto,para Cruz (apud SQUIRRA, 1993, p. 118), o primeiro âncora brasileiro foi CarlosMonforte. Mello e Souza (apud SQUIRRA, 1993, p. 119) propõe uma definição do papeldo âncora, como vemos a seguir: Basicamente, é um jornalista com a paciência e a curiosidade de ler, com a maior isenção possível, os jornais impressos do dia; esse jornalista deve ter uma visão de mundo, dispor de uma cultura humanística e histórica que lhe permita descobrir, mesmo em uma pequena anedota, a sua importância trágica ou sua terrível comicidade; alguém em condições de estar permanentemente chocado pela realidade, mas com o poder de se apresentar diante dos telespectadores sem que olhos e músculos reflitam qualquer tipo de comoção indesejável; alguém que acompanhe, na redação, o nascimento e o desenvolvimento da notícia; uma pessoa capaz de sofrer, durante dez minutos, para escrever um bom texto de duas linhas e, ao mesmo tempo, improvisar com naturalidade e conhecimento de causa uma locução de dois minutos sobre algum acontecimento de última hora; alguém com ar de serenidade e respeito pelos outros; traços corretos, boa voz, um ritmo dialogal de leitura e – exigência suprema! – um ar inteligente (MELO E SOUZA apud SQUIRRA, 1993, p. 119).
  • 28. 27   Segundo Squirra (1993, p. 179) a característica que difere o âncora brasileirodos demais, é o fato de emitirem opinião na forma de comentários. Como controlamde forma extremamente cuidadosa tudo o que vai ao ar, exercem de alguma forma,atuação opinativa, direcionando editorialmente os telejornais.4.1 HERÓDOTO BARBEIRO Heródoto Barbeiro nasceu em São Paulo, em 1946. Foi office boy, mecânico,borracheiro e professor de inglês. É graduado e mestre em História pelaUniversidade de São Paulo, onde lecionou por 12 anos. Também se formou emDireito e passou pelo curso de Japonês, na USP. Cerca de 20 anos mais tarde,decidiu trocar o corpo docente pelo discente, cedendo ao desejo de se tornarjornalista, “deixei de falar e escrever no passado e aprendi a falar e escrever com osverbos no presente. Deixei a história e passei para o jornalismo” (BARBEIRO, on-line). Atualmente é gerente de jornalismo da Rádio CBN e apresentador doprograma Roda Viva, na TV Cultura. Livros e capítulos publicados: Meu velho centro, histórias do coração de São Paulo. Boitempo, 2007; Fora do ar. Ediouro, 2007; A história do consumo no Brasil – do mercantilismo à era do foco no cliente. Campus, 2007; CBN mundo corporativo. Futura, 2006; Manual do jornalismo esportivo. Contexto, 2006; O relatório da CIA – como será o mundo em 2020. Ediouro, 2006; Buda: o mito e a realidade. Madras, 2005; Falar para liderar. Futura, 2003; Manual de telejornalismo. Elsevier, 2005; Você na telinha. Futura, 2002; Liberdade de expressão. Futura, 2003; Liberdade de expressão 2. Futura, 2004; Doutor Bolinha, In AMATO NETO, V. & PASTERNAK, J. Do parto ao Infarto – coletânea de contos médico-policiais. Segmento, 2008;
  • 29. 28   Os caminhos do jornalismo, In TABACOF, D. 60 dias que mudaram o Oriente Médio. Kadimah, 2007; Somos milhares, In GOMES, A. L. Z. Na boca do rádio – o radialista e as políticas públicas. Hucitec, 2007; Paz Interior, In MENDES, J. Bolinha Muletas. Vozes, 2006; Esportes (Celeiro de Craques), In PINSKY, J. (org.) O Brasil no contexto 1987-2007. Contexto, 2007; No Lombo do Burro, In VOLPI. A. História do comércio no Brasil - do mercantilismo à era do Foco no Cliente. Campus, 2007; Panorama de História, com Bruna Cantele e Carlos A. Schneeberger. IBEP, 2006; O desafio da ancoragem In CBN – a rádio que toca notícia. Senac, 2006; Ancoragem, In RODRIGUES, E. (org) No próximo bloco. PUC, 2005; História de olho no mundo do trabalho. com Bruna Cantele e Carlos A. Schneeberger. Scipione, 2005, 3vols; História de olho no mundo do trabalho. com Bruna Cantele e Carlos A. Schneeberger. Scipione, 2005, 3vols; Jornalismo In GOYZUETA, V. e OGIER, T. Guerra e jornalismo. Summus, 2003; Os Ambiciosos. Ed. Brasil, 2003; Prefácio, In GOYZUETA, V e OGIER, T. Guerra e Imprensa. Summus, 2003; Os Ambiciosos. Ed. Brasil, 2003; Ensaio Geral - Brasil 500 Anos. Nacional, 2000; Curso de História Geral, S.Paulo, 1985; Curso de História da América. Harbra, 1984; Curso de História do Brasil. Harbra, 1984; Curso de História da América. Harbra, 1984; Curso de História do Brasil. Harbra, 1984; História da América. Moderna, 1982; História do Brasil. Moderna, 1981; História Geral. Moderna, 1980; O Diário de Viagem do Tenente G.H. Preeble. R. de História, 1975. Prêmios:
  • 30. 29   1992 - Libero Badaró - Destaque do Ano; 1999 - APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) – Âncora de rádio; 2000 - Prêmio Unesco de Jornalismo; 2000 - Ateneu Rotário; 2001 - Ayrton Senna - Grande Prêmio de Jornalismo; 2001 - Ateneu Rotário; 2002 - APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) – Âncora de rádio; 2002 - PNBE - Destaque Jornalístico do Ano; 2003 - Comunique-se – Categoria Âncora de rádio; 2005 - Comunique-se – Categoria Âncora de rádio; 2005 - Troféu Keiko Ogura Buralli; 2006 - Troféu Dia da Imprensa; 2007- Prêmio Keiko Ogura de Jornalismo; 2007 - Prêmio Comunique-se – Categoria Âncora de rádio; 2007 - Prêmio Comunique-se – Mestre de Jornalismo; 2008 - 13º Prêmio Nacional de Seguridade Social – Comunicação; 2008 - Prêmio Comunique-se 2008 - Melhor âncora de televisão; 2009 - Prêmio Economista do Ano – Jornalismo econômico; Membro do Conselho Editorial do Le Monde Diplomatique –Brasil.4.2 RICARDO BOECHAT Ricardo Eugênio Boechat nasceu em Buenos Aires em 13 de julho de 1952.Começou sua carreira em 1970 como repórter do extinto jornal Diário de Notícias, nacidade do Rio de Janeiro. Também na década de 70, iniciou-se como colunista,colaborando com a equipe de Ibrahim Sued. Em 1987 foi para o jornal O Globo, doqual foi demitido após trinta anos de trabalho, depois de uma matéria publicada narevista Veja3 o acusar de revelar o conteúdo das matérias que seriam publicadas aum jornalista do jornal concorrente, o Jornal do Brasil, no qual assumiu a “ColunaBoechat”.                                                            3  A matéria está disponível em http://veja.abril.com.br/270601/p_038.html. Acesso dia 23/10/2009 
  • 31. 30   Atualmente apresenta o Jornal da Band, ancora um jornal matutino na redeBandNews FM, assina uma coluna diária no jornal O Dia desde 2006 e escreve,semanalmente, para a revista IstoÉ. Foi diretor de jornalismo da TV Bandeirantes doRio de Janeiro e trabalhou para o SBT carioca. Livros: Copacabana Palace: Um hotel e sua história. DBA, 1998. Prêmios: 1989 – Prêmio Esso de Jornalismo. Categoria Reportagem; 1992 – Prêmio Esso de Jornalismo. Categoria Informação Política; 2001 – Prêmio Esso de Jornalismo. Categoria Informação Econômica; 2006 – Prêmio Comunique-se. Categoria Âncora de rádio; 2007 – Prêmio Comunique-se. Categoria Apresentador de TV; 2008 – Prêmio Comunique-se. Categorias Âncora de rádio e Colunista de notícias; Prêmio White Martins de Imprensa.
  • 32. 31  5 ESTUDO DE CASO O presente trabalho configura-se como uma pesquisa descritiva, sendo ocorpus de análise composto por cinco edições dos programas Jornal da Band(transmitido pela BandNews FM de segunda a sexta das 7h às 9h, apresentado porRicardo Boechat) e Jornal da CBN (transmitido pela Rádio CBN FM de segunda asábado das 6h às 9h30m, apresentado por Heródoto Barbeiro). Optamos por não estudar a edição de sábado do programa Jornal da CBN,pois o objetivo deste trabalho é fazer uma análise comparativa entre os âncoras combase nas notícias em comum apresentadas na mesma data.5.1 UNIVERSO Mensalmente são veiculados em média 25 programas apresentados porHeródoto Barbeiro na CBN e 21 programas apresentados por Ricardo Boechat naBandNews FM.5.2 AMOSTRA Neste trabalho foram analisadas cinco edições de cada um dos programasselecionados, o que corresponde a 20% dos programas veiculados pela CBN e23,8% dos programas veiculados pela BandNews FM. A análise dos programas será feita a partir das notícias em comumapresentadas por ambos os âncoras. Para tanto, realizamos a gravação dosradiojornais nos dias 27, 28, 29 e 30 de outubro e 3 de novembro. As manchetesque foram encontradas em ambos os programas estão elencadas no quadro dosubitem 5.3, assim como a transcrição das falas de Heródoto e Boechat, analisadascom base nas teorias apresentadas anteriormente neste trabalho.5.3 ANÁLISE A análise dos conteúdos será feita a partir das notícias em comumapresentadas por ambos os âncoras. Para tanto, gravamos e expusemos no quadroa seguir as manchetes do período de 27 de outubro a 3 de novembro encontradas
  • 33. 32  em ambos os programas. Posteriormente, transcrevemos as falas de Heródoto eBoechat, e as analisamos com base nas teorias utilizadas anteriormente nestetrabalho. Pautas Jornal da CBN4 Jornal da Band51. Câncer de mama masculino 28/10 28/10 28/10 – somente2. Conselho Nacional de Justiça quer pôr introdução àfim ao regime semi-aberto (tornozeleiras notícia 28/10eletrônicas) 29/11 – entrevista sobre o tema3. Aluna da Uniban hostilizada pelos 30/10 30/10colegasPauta 1: Câncer de mama masculino (dia 28/10/09)TranscriçãoJornal da CBN:- Heródoto Barbeiro: “A Associação Brasileira de gays e lésbicas divulgou uma notacriticando a difamação do governador do Paraná, Roberto Requião. Durante oevento, que reuniu integrantes do governo, ontem, ao apresentar o secretário dasaúde, Requião fez o seguinte comentário, ouça aí: ‘Eu chamaria o Gilberto Martins,que vai, num espaço reduzido de tempo, anunciar a implementação de açõesestratégicas para o controle do câncer. A ação do governo não é só em defesa dointeresse público, é da saúde da mulher também. Embora hoje, câncer de mamaseja uma doença masculina também. Deve ser consequência dessas passeatas                                                            4 Apresentado por Heródoto Barbeiro, transmitido pela rádio CBN de segunda a sexta das 6h às9h30, sábados e domingos das 6h às 9h.5 Apresentado por Ricardo Boechat, transmitido pela rádio BandNews FM de segunda a sexta das 7hàs 9h.
  • 34. 33  gay’. A Associação Brasileira de gays e lésbicas afirmou que piadinhas desse tiporeforçam o preconceito e a discriminação. A entidade lembrou que muitas pessoasforam assassinadas no ano passado, 19 no Paraná, e que nos últimos 15 anosforam 160 pessoas mortas”.Jornal da Band:- Repórter Luiz Megale: “A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays e Bissexuaispede uma audiência com o governador do Paraná Roberto Requião. O grupo querexplicações sobre a declaração feita por ele na TV Educativa do Estado, associandoo câncer de mama às passeatas gays. ‘A ação do governo não é só em defesa dointeresse público, é da saúde da mulher também. Embora hoje, câncer de mamaseja uma doença masculina também. Deve ser consequência dessas passeatasgay’”.- Ricardo Boechat: “Bom, câncer de mama de fato acontece em homens, claro.Homens têm mama, e têm o câncer de mama também, numa incidência menor quea das mulheres, mas não desprezível. Aliás, numa entrevista que eu fiz com umacancerologista no Rio [de Janeiro] sobre o câncer de mama, ela diz que prevenção,o auto-exame é exatamente o mesmo, apalpar, ver se tem nódulo, se tem doreslocalizadas, eu estou até fazendo este movimento aqui agora, porque não faço hámuito tempo, tem que fazer. E aí o detalhe é o seguinte: associar isso, fazer umacaricatura disso ou tentar fazer uma piada em cima disso é típico de uma cabeça dejerico, não há mais o que dizer”.- Ricardo Boechat, 49 minutos depois: “O Fernando Vieira de Melo, nossocompanheiro aqui do Primeiro Jornal, me mandou uma informação curiosa apropósito das declarações do governador Requião, fazendo uma associação com ocâncer de mama masculino às paradas gays. Uma brincadeira, uma ironia, estásendo alvo de críticas lá no Paraná, de grupos homossexuais, lésbicas e tudo mais.‘Seguem’, diz Fernando Vieira de Melo, ‘algumas informações que me forampassadas pelo médico A. C. Camargo, que é meu amigo, sobre a sábia declaraçãodo governador Requião’. Quer botar aí, vamos botar? Bota aí, olha o que o Requiãofalou: ‘A ação do governo não é só em defesa do interesse público, é da saúde damulher também. Embora hoje, câncer de mama seja uma doença masculinatambém. Deve ser consequência dessas passeatas gay’. Bom, o câncer de mamasempre foi também uma doença masculina. O que disse o médico A. C. Camargo,
  • 35. 34  aqui de São Paulo? Duzentos casos de câncer de mama entre homens desde 1953foram registrados no Hospital do Câncer A. C. Camargo, perdão, o médico é do A.C. Camargo, e não o médico A. C. Camargo, desculpe, falei uma besteira aqui. Ummédico amigo do Fernando Vieira de Melo, do Hospital do Câncer A. C. Camargo,então, 200 casos de câncer masculino foram registrados neste hospital desde 1953.Entre os 200 casos de câncer masculino, Barão, não havia um único homossexual,nenhum dos homens com essa patologia usou qualquer hormônio feminino ouanabolizante. De cada 100 mulheres que têm câncer de mama, um homem poderáter câncer de mama. As informações, agora sim, são do médico Mário Mourão,diretor do departamento de mastologia do Hospital do Câncer A. C. Camargo de SãoPaulo”.Análise Notamos que algumas informações estatísticas apresentadas no programaJornal da CBN não são encontradas no Jornal da Band. Porém, a ausência de taisinformações não interfere diretamente no conteúdo informativo. Os trechosmostrados nos programas remetem a um teor informativo maior, quando transmitidopor Heródoto, pois contextualiza o ouvinte quanto à situação em que a declaraçãofoi feita, diferentemente de Boechat, que somente comunica o fato semcontextualizá-lo. Charaudeau (2009, p. 175) afirma que “comentar o mundo constitui umaatividade discursiva, complementar ao relato, que consiste em exercer suasfaculdades de raciocínio para analisar o porquê e o como dos seres que se achamno mundo e dos fatos que aí se produzem”. Essa complementação a que o autor serefere é claramente observada no programa da BandNews FM, enquanto no outro,somente encontramos a transmissão da notícia. Notamos em Boechat um certo sarcasmo no trecho em que ele fala dainformação passada por Luiz Vieira de Melo, em que diz “sobre a sábia declaraçãodo governador Requião”, ironizando a palavra “sábia”.Pauta 2: Uso de tornozeleiras eletrônicas (28/10/09)
  • 36. 35  TranscriçãoJornal da CBN: No dia 28/10, Heródoto fez uma introdução à notícia. No dia 29/10conduziu uma entrevista com o professor de direito penal da Universidade Federaldo Rio de Janeiro e conselheiro do Conselho Nacional de Política Criminal ePenitenciária, Doutor Carlos Eduardo Adriano Japiassú6 sobre o tema.28/10- Heródoto Barbeiro: “Com a notícia que o Conselho Nacional de Justiça estudapropor mudança aqui na lei penal. Entre as novidades estaria o monitoramentoeletrônico dos presos em regime aberto, e a concessão de incentivos a empresasque contratassem detentos ou ex-detentos”.- Repórter Liziane Cardoso: “O Conselho Nacional de Justiça pretende avaliar nasemana que vem propostas de mudanças na legislação penal. Se aprovadas, elasserão enviadas para votação no Congresso Nacional. Um dos projetos modifica oregime aberto de prisão. Hoje o preso pode trabalhar de dia, mas precisa dormir naschamadas casas de albergados. Como isso pode aumentar a criminalidade, asugestão é que o preso vá para casa desde que concorde em ser monitoradoeletronicamente, com tornozeleiras ou pulseiras, por exemplo. O CNJ tambémsugere que as empresas que oferecem emprego para detentos ou ex-detentostenham incentivos fiscais. Já os presidiários que trabalharem deverão receber algumtipo de remuneração. O conselheiro do CNJ, Valter Nunes, afirma que isso contribuipara reintegração do detento na sociedade. ‘Ninguém pode ser obrigado a trabalharsem receber nenhuma remuneração, mesmo o preso. As formas de se buscar arecuperação de alguém, grande parte das pessoas que ingressam no sistemacriminal, são pessoas ou que não estejam no mercado de trabalho, ou mesmo queestejam no mercado de trabalho, mas estão com problemas comportamentais. Umadas formas de recuperar alguém necessariamente passa pela inserção dele,reinserção dele no mercado de trabalho. Então isso é uma questão de dignificaçãoprofissional’. O CNJ quer que a justiça eleitoral providencie meios para que ospresos provisórios votem. O pacote também prevê que as visitas ou ligaçõestelefônicas recebidas por presos no regime disciplinar diferenciado sejam gravadas,                                                            6  Nota da autora: Currículo disponível em http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4774685Y8 Acessado dia 07/11/09 
  • 37. 36  para evitar novos crimes ou a circulação de informações entre membros de gruposcriminosos. Uma resolução do CNJ, que não precisa de aprovação no Congresso,cria um sistema de proteção e assistência a juízes em situação de risco, e oconselho também estuda disponibilizar o sistema de videoconferência paradepoimentos em todo o país”.29/10- Heródoto: “Bom dia, doutor Japiassú”.- Dr. Japiassú: “Bom dia, Heródoto”.- Heródoto: “Doutor Japiassú, o Conselho Nacional de Justiça analisa aqui napróxima semana uma proposta para alterar o regime aberto para regime domiciliar, ecom essa mudança adotada, aqui também se cria o monitoramento eletrônico. Essemonitoramento eletrônico seria aquela tornozeleira que se comentou há algumtempo?”- Dr. Japiassú: “Exatamente, a ideia do monitoramento é essa. Eu até, eu confessoque não li a proposta do CNJ, o que eu sei é pela imprensa, e chega a se comentarque poderia ser bracelete, essas coisas, o modelo normal, tradicional que seencontra pelo mundo é uma tornozeleira e mais um transmissor que fica na cintura,em geral, como um celular”.- Heródoto: “Como um celular. Isso impediria que aquelas pessoas que estão nochamado regime semi-aberto, por exemplo, fugissem, ou aquelas que ganham apossibilidade de passar um feriado com a sua família também desaparecessem, nãovoltassem nunca mais?”- Dr. Japiassú: “Não impede porque as pessoas, o que acontece é o seguinte, atornozeleira não pode ser retirada, ela só pode ser rompida. Então, a pessoa ficasendo monitorada, impedir que ela desapareça não, meramente ela cria uma formade controle sobre onde ela está localizada e como vai. Se ela rompeu a tornozeleiraou se ela descumprir a área onde ela tem que estar, fica sendo informadoautomaticamente. O que o CNJ está mencionando é que o regime semi-aberto, apessoa sai da prisão-albergue, e a partir daí só tem controle quando ela retornar.Assim haveria alguma forma de controle. De qualquer maneira, muitos paísesadotam o sistema de monitoramento, tem uma pesquisa específica na Inglaterra quefoi feita com pessoas que utilizavam, e outros presos disseram que usar atornozeleira fazia com que eles se lembrassem o tempo todo da obrigação, e issoteria gerado resultados positivos”.
  • 38. 37  - Heródoto: “Esse é o sistema britânico? Nos Estados Unidos é a mesma coisa ounão?”- Dr. Japiassú: “Na realidade o modelo é mais ou menos parecido. Ele começa nosEstados Unidos depois se expande pelo mundo. Ele começou em 83 nos EstadosUnidos. Em todos os lugares, geral, ele é tornozeleira, porque fica escondidodebaixo da calça, pra pessoa não ser identificada longe que está com a tornozeleira,e o modelo basicamente são dois, ou é por telefone, que fica mandando sinais praindicar que a pessoa está perto a cada meia hora, ou um sistema mais caro que é osistema por GPS, como se fosse um celular mesmo”.- Heródoto: “Entendo, agora se a pessoa se recusar a receber isso ela perde aprogressividade da pena? Ela perde o benefício?”- Dr. Japiassú: “Na realidade, o monitoramento no mundo inteiro só pode serimplementado com o consentimento da pessoa. A pessoa tem que aceitar ingressarnum programa de...”- Heródoto: “Mas ela não aceitando, ela pode perder o benefício ou não?”- Dr. Japiassú: “Na realidade, em geral você escolhe, ou você ingressa nomonitoramento ou você permanece preso. O monitoramento é no mundo inteiro umamedida pra desencarcerar. Não é justamente como está se propondo aqui, que é pracontrolar quem já vai estar fora”.- Heródoto: “É uma maneira, então, de colocar ou de facilitar a reintegração docidadão na sociedade, é isso?”- Dr. Japiassú: “Exatamente, na realidade no mundo inteiro o monitoramento éentendido, pelo menos essa é a principal bandeira, como instrumento pra reduzirsuperlotação carcerária, um problema grave no Brasil. Aqui está se propondo pracontrolar quem vai estar em regime aberto, não é exatamente essa a proposta dequem defende no mundo o monitoramento, em geral eles preferem... o problema desuperlotação, que é um problema mundial, e que no Brasil é muito grave”.- Heródoto: “Perfeitamente. Professor Japiassú, muito obrigado. Professor CarlosEduardo Adriano Japiassú, professor de direito penal da Universidade Federal doRio de Janeiro. Olha que interessante. Então isso não é pra monitorar quem já estáfora, mas sim para permitir que pessoas que estão presas possam ficar nesseregime progressivo. Eu acho que isso é interessantíssimo, essa observação feitaaqui pelo professor Japiassú”.
  • 39. 38  Jornal da Band:- Ricardo Boechat: “Estou lendo a matéria da Mariana Garuti, n’O Estado deS.Paulo, que o Conselho Nacional de Justiça quer pôr fim ao regime aberto. Esseregime aberto, semi-aberto, enfim, tem várias modalidades, que pressupõem-seprevistas no regime de progressão de penas, o criminoso é condenado a um x detempo na cadeia, e dependendo da forma como cumpra essa pena, semtransgressões disciplinares, sem tentativa de fuga, ele consegue sair em um sextoda pena. Então o cara é condenado a 30 anos, ele sai em cinco anos, é isso? Cincovezes seis, 30, exatamente. O cara condenado a 20, ele sai em um sexto da pena, epor aí vai. Isso vai progredindo, primeiro o cara consegue sair de manhã e voltar ànoite, depois ele tem direito a ficar o tempo que... isso se ele conseguir emprego, seconseguir algum trabalho, alguma ocupação; ele tem direito a sair nas datasfestivas, Dia dos Pais, Dia das Mães, Natal, coisa do gênero, com o compromisso:sair de manhã, voltar à noite. Depois ele pode ficar fora, mas ele tem que ficar umperíodo numa quarentena, sem cometer nenhum delito, lálálálá... O que acontece?Dezessete por cento dos presos beneficiados com esse tipo de indulto, de benefício,de progressão de pena, não voltam. Não voltam e são exatamente dos dezessetepor cento que acabam voltando pra bandidagem mais pesada. A reincidência entreoriundos do sistema penal também é muito grande, e o Conselho Nacional deJustiça agora começa a discutir a possibilidade de criar regras mais rigorosas paraesses benefícios. Uma dessas regras, que está em discussão aí, muito preliminar, écolocar algum tipo de monitoramento eletrônico no preso beneficiado com a saídaprovisória. Você bota lá uma pulseira eletrônica, bota lá um chip na canela do carapreso a uma espécie de sei lá o quê, uma argola, uma coisinha e tal, e ele passa aser monitorado, onde ele estiver ele estará sendo monitorado. Já existemequipamentos pra isso, já há experiências fora do Brasil, desse tipo, presos que têmbenefícios dessa forma e saem com... olha lembrem-se que os bispos da IgrejaRenascer usaram esse tipo de coleira eletrônica, sei lá que nome tem, pra poderserem monitorados e não saírem do país, dos Estados Unidos, com o qual foramcondenados por entrar com dinheiro na Bíblia, dinheiro não declarado, então, existeesse tipo de coisa, aqui no Brasil tem uma visão, de criminalistas, de juristas queacham que isso bestializa o direito à liberdade, enfim, por aí vai. Agora, que asociedade quer que essas coisas mudem, e mudem pra mais vigor,indiscutivelmente quer”.
  • 40. 39  - Repórter Thiago Rogério (13 minutos depois): “Boechat, mais cedo você falavasobre a implantação do uso de tornozeleiras eletrônicas aqui no Brasil, em Minas foifirmado um termo de cooperação entre o governo, o Tribunal de Justiça e oMinistério Público, a expectativa é de que até o fim do ano o uso das tornozeleiras jáseja implantado em alguns presídios da região metropolitana de Belo Horizonte”.- Ricardo Boechat: “As tornozeleiras de que falamos agora, você ouviu aí o ThiagoRogério, são tornozeleiras eletrônicas, pra monitorar a saída de presos beneficiadoscom aquelas saídas temporárias, pra Dia dos Pais, Natal, ou mesmo por regimesemi-aberto, eles saem com as tornozeleiras, ficam sendo eletronicamentemonitorados pra que se possam vigiar seus passos”.Análise Durante a introdução feita por Heródoto à notícia, que ocorreu no dia 28/10,não encontramos qualquer forma de expressão de opinião, que é claramenteexposta por Boechat. Porém, durante a entrevista conduzida pelo âncora da CBN,no dia 29/10, notamos que Barbeiro tenta conduzir o convidado a dizer o queinteressa aos ouvintes do Jornal da CBN. Ao final da entrevista, notamos que Heródoto faz uma síntese do que foi ditopelo doutor Japiassú, e usa da hipérbole para chamar a atenção do ouvinte em“interessante (...) interessantíssimo”. Ele também mostra que, no Brasil, o uso dastornozeleiras, como está sendo proposto fazer, se dá de forma errônea, pois “issonão é pra monitorar quem já está fora, mas sim para permitir que pessoas que estãopresas possam ficar nesse regime progressivo”. Boechat relembra fatos anteriores no comentário dele, como vemos em“lembrem-se que os bispos da Igreja Renascer usaram esse tipo de coleiraeletrônica, sei lá que nome tem, pra poder serem monitorados e não saírem do país,dos Estados Unidos”. Ele não fala se é bom ou ruim, mascara sua opinião,transferindo-a para a sociedade no trecho “agora, que a sociedade quer que essascoisas mudem, e mudem pra mais vigor, indiscutivelmente quer”. Usa umalinguagem mais informal, facilitando o entendimento do ouvinte, chamando suaatenção como em “você bota lá uma pulseira eletrônica, bota lá um chip na canelado cara preso a uma espécie de sei lá o quê, uma argola, uma coisinha e tal”. No programa Jornal da CBN encontramos uma linguagem mais formal.
  • 41. 40  Pauta 3: Aluna da Uniban hostilizada pelos colegas (dia 30/10/09)TranscriçãoJornal da CBN:- Heródoto Barbeiro: “Bem, cerca de 700 alunos numa faculdade em São Paulo,chamada Uniban, Universidade Bandeirante, campus de São Bernardo, na região doABC, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, ameaçarde estupro, cuspir, tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de turismoque compareceu à escola com um micro-vestido rosa-choque, maquiagem debalada, na quinta-feira da semana passada. Ela só conseguiu sair da escola sobescolta de cinco policiais militares, duas mulheres inclusive, que tiveram que usarspray de pimenta para conter os estudantes mais exaltados e abrir caminho entre amassa. Vídeos de ataque circulam pela rede [internet], uns ofendendo a dignidadeda estudante. Estou aqui com o médico, doutor João Augusto Figueiró7, que épsicoterapeuta do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP,presidente do Instituto Zero a Seis, dedicado à criança da primeira infância. Bom dia,doutor João Augusto”.- Dr. João Augusto: “Bom dia, Heródoto, é um prazer falar com você e com seusouvintes”.- Heródoto: “Doutor João Augusto, como se pode entender uma manifestaçãocoletiva como essa de se perseguir uma pessoa dentro de uma universidade, aqui,no caso, chamada Uniban, e ameaçar de quase linchamento porque uma pessoaestava vestida de maneira não convencional para uma escola?”- Dr. João Augusto: “Esse fenômeno já foi bastante estudado na psicologia e napsiquiatria, e principalmente na área da psicologia das massas, e isso decorreprincipalmente dos fenômenos que ocorreram durante o período do Nazismo, quecomeçou a ser estudado em profundidade pela Hannah Arendt, que é o seguintefenômeno: as pessoas normais, que têm uma vida normal, não têm uma história                                                            7  Nota da autora: Currículo disponível em http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4775849H6 Acessado dia 07/11/09 
  • 42. 41  prévia de crimes, elas, mobilizadas por uma ou mais pessoas que têmcaracterísticas psicopáticas, ou são psicopatas, ou têm personalidade deserta,essas pessoas, elas sofrem aquilo que a gente chama de um contágio psíquico esão mobilizadas num fenômeno que a gente poderia chamar, um fenômeno deprótons, um fenômeno de massa, são mobilizadas em direção a um determinadoobjetivo. Isso é uma coisa bastante visível e infelizmente nós tivemos váriasexperiências, e é rapidamente esse contágio que faz essa contaminaçãocomportamental se faz rapidamente, por exemplo, nas torcidas de futebol, pessoashabitualmente normais que são capazes de cometer atos de vandalismo, decriminalidade, de transgressão, de agressão, com violência”.- Heródoto: “Professor João Augusto, quando a gente diz fenômeno de massa entãoele pode ocorrer tanto num campo de futebol quanto numa universidade?”- Dr. João Augusto: “Sim, sim. Pode ocorrer. São informações que percorremrapidamente um conjunto ou um grupo e essas informações são lideradas por umaou mais pessoas com características mais perversas e que são induzidas, elasservem à sua capacidade de auto-controle e abandonam seus valores, e adquiremaquele valor do guia, da coordenação, do líder. Então, esse é um fenômeno que foi,infelizmente, depois testado nos Estados Unidos, foram feitas algumas experiências,com pessoas que foram submetidas a processos de testes artificiais, e essasexperiências, basicamente duas delas pelo menos, tiveram que ser interrompidasdado a gravidade do contágio e da violência que se criava com essas pessoas.Talvez você conheça uma das experiências, é aquela em que se colocou pessoasno papel de prisioneiros, que não eram prisioneiros, eram alunos universitáriosnormais, e outras pessoas no papel de policiais, fardados, com píndulos, compalavras de ordem, pra verificar como que essa relação se estabelecia ao longo doprazo, a havia um tempo previsto pra que essa experiência fosse feita. A surpresaera que foi interrompida rapidamente depois de poucos dias, dado o grau deviolência que se instaurava entre esses dois grupos. Um segundo processointeressante de abordar nesse aspecto em particular que você está trazendo, dogrupo da Uniban, é a questão do bullying, o bullying é exatamente isso, um grupo dealunos numa escola que reúne, liderados frequentemente por uma, duas ou maispessoas, um grupo menor, e atacam sistematicamente, com violência progressiva,um determinado indivíduo que é escolhido por alguma característica que o diferenciados outros. Ou ele é mais gordo, mais magro, mais alto, mais baixo, mais bonito,
  • 43. 42  mais inteligente, ou mais bobo, enfim, alguma característica que o distingue, e aturma o elege”.- Heródoto: “Isso é o quê? É a ressurreição da ação medieval do bode espiatório?”- Dr. João Augusto: “É, é. Ele serve como bode espiatório, nele são colocadasqualidades que o tornam... o Chico Buarque acho que refletiu isso muito bem em“Geni”. A Geni foi escolhida porque era uma pessoa que não era aceita pelo grupo, eaí joga-se tudo na Geni, não é mesmo? Então, é fenômeno. E uma outramodernização do bullying é o que hoje nós nos convencionamos chamar de cyberbullying, que é o uso do bullying na internet pra promover esses ataques à honra,dignidade do alunos. Isso é muito comum hoje, você faz circular com uma certavelocidade fotos, informação, acusações falsas em relação a um determinado alunoe isso incide com uma frequência bastante elevada em depressão grave e inclusivesuicídio”.- Heródoto: “Muito obrigado aqui ao médico, doutor João Augusto Figueiró, que é doInstituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da USP, conversando um poucoconosco a respeito dessa ação coletiva de alunos que barraram, interromperam aaula do curso noturno, perseguiram, xingaram, tocaram, fotografaram, ameaçaramde estupro e cuspiram numa aluna que havia chegado na escola, do primeiro ano docurso de turismo, com roupas não convencionais para a faculdade”.Jornal da Band:- Ricardo Boechat: “Uma luta entre o faminto e o poeta em torno da sereia na areia,acabam dilacerando a sereia, cada qual pelo seu motivo de amor, de afeto, ofaminto querendo comer a sereia literalmente, e o poeta querendo contemplá-la,contemplar sua beleza, e tal. Por isso ontem essa moça de minissaia fez com quetalvez quatro mil... olha, gente, é uma multidão, vocês não acreditam, as imagensserão exibidas hoje novamente no Jornal da Band [na TV Bandeirantes], que a gentevai tentar entender um pouco, e eu estou contando essa história pra vocês pra dizero seguinte: há mais ou menos dois anos, um professor da Universidade Federal daBahia, disse, a propósito da degradação, da perda de qualidade do aluno brasileiro,e ele referia-se especificamente a um aluno baiano, ele usou uma piada, umacaricatura que vivem fazendo pra provocar os baianos, dizendo que ‘por que’, elefalou ‘por que o berimbau tem uma corda só?’, disse o professor lá daquelaUniversidade Federal da Bahia, ‘porque se tivesse duas o baiano não tocava’. E
  • 44. 43  houve uma reação natural, compreensiva, é só uma caricatura absurda feita aindamais por um professor da Universidade Federal da Bahia, deu uma comoçãoenorme, foi afastado, foi objeto de muitas discussões, e tal, e na verdade a frasedele foi infeliz, mas ela pretendia expressar um sentimento que precisa ser discutidoentre nós, e bastante. No que se transformou a tal juventude brasileira? Ou no queboa parte dela está se transformando? Não será nem melhor, talvez, nem pior doque a juventude em outras gerações, especialmente a minha, mas cá entre nós, agente não vê na rua quatro mil estudantes pra protestar contra rigorosamente nadado grande elenco de barbaridades com que somos afrontados todos os dias. Eu nãoos vejo na rua com frequência praticamente alguma, fazendo protestos significativos,sequer quando cancelam a prova do ENEM, que afetou a quatro milhões deles.Agora, pra juntar cinco mil, pra chamar de prostituta, ofender, gritar, acuar,perseguir, quase linchar uma moça que estava com uma minissaia. E uma menina ládisse para o Jornal da Band ‘ela estava vestida como uma prostituta’. E se fosseuma prostituta? Não poderia frequentar uma universidade e dali sair para o seutrabalho? Qual é o problema? E mais: diante do que se viu ali ontem, o crime maioré a prostituição?”- No dia 03/11, diante da notícia que a estudante voltaria às aulas, mas de calçacomprida, blusa e salto alto, conforme noticiou Luiz Megale, Boechat proferiu oseguinte:- Ricardo Boechat: “É lamentável. Deveria voltar com o mesmo vestido. Não é elaquem tem que mudar de atitude, não é ela quem tem que mudar de atitude. Quemtem que mudar de atitude são aqueles bobalhões lá, filhinhos de papai, eprofessores daquela... Uniban, né? Uniban que chama? Até disseram aí, fizeramuma piada que não é Uniban, é Talibã. Um negócio horroroso que fizeram com essamoça, e a atitude dela, é claro, pra se proteger, mas eu queria ver qual seria hoje areação daquele bando de paspalhões diante da mesma moça com o mesmovestido”.Análise Nessa pauta, o que mais nos chama a atenção é o uso da hipérbole, porBoechat, ao dizer a quantidade de alunos envolvidos no caso, bem como a
  • 45. 44  incerteza, com o uso da palavra “talvez” dentro da notícia, e não do comentário. Afala de Heródoto - “cerca de 700 alunos” - nos faz acreditar que houve umaapuração da informação antes de transmiti-la a seus ouvintes. Boechat inicia a notícia fazendo uma intertextualidade com a música “ANovidade”, de Gilberto Gil: A novidade veio dar à praia, na qualidade rara de sereia Metade o busto de uma deusa Maia, metade um grande rabo de baleia A novidade era o máximo, do paradoxo estendido na areia Alguns a desejar seus beijos de deusa Outros a desejar seu rabo pra ceia Ó mundo tão desigual, tudo é tão desigual, ô ô ô ô ô De um lado este carnaval, de outro a fome total, ô E a novidade que seria um sonho, o milagre risonho da sereia Virava um pesadelo tão medonho, ali naquela praia, ali na areia A novidade era a guerra entre o feliz poeta e o esfomeado Estraçalhando uma sereia bonita, despedaçando o sonho pra cada lado O âncora do Jornal da Band usa da pergunta retórica para manifestar suaopinião, seus comentários, como vemos em “no que se transformou a tal juventudebrasileira? Ou no que boa parte dela está se transformando?”, em que ele critica ajuventude com o uso da palavra “tal”, que transmite ideia de negativismo.Posteriormente ele ameniza a generalização (“boa parte”), no entanto ele utiliza aconjunção adversiativa “mas”, e nos faz pensar que, na opinião dele, “essa taljuventude” é pior sim, quando diz que não saem às ruas para protestar, o que nosremete ao movimento dos caras-pintadas, que protestaram na década de 90 contrao então presidente Fernando Collor de Mello. Boechat termina sua reflexão em 30/10 com uma pergunta retórica, em “e sefosse uma prostituta? Não poderia frequentar uma universidade e dali sair para oseu trabalho? Qual é o problema? E mais: diante do que se viu ali ontem, o crimemaior é a prostituição?”, que finaliza a notícia estimulando uma reflexão do ouvinte. Diferentemente das outras duas pautas analisadas, Boechat usa adjetivos,como “bobalhões”, “filhinhos de papai” e “paspalhões”, no trecho transmitido em03/11, deixando claro que esta é a sua opinião, e não da sociedade, como vimosnas análises anteriores. Além disso, reproduz um termo que foi usado, segundo ele,pela sociedade em “até disseram aí, fizeram uma piada que não é Uniban, é Talibã”.
  • 46. 45   Charaudeau (2009, p. 176) diz que no mundo profissional há umquestionamento se os jornalistas devem ou não comentar. Em contrapartida,analisando Charaudeau (2009, p. 180), ao dizer que “o comentador sabe queprecisa ser credível, mas também sabe que nenhuma análise ou argumentação teráimpacto se não despertar o interesse do consumidor de informação e se não tocarsua afetividade”, nos leva a crer que Boechat busca chamar a atenção do públicopara um fato que, segundo a entrevista do doutor João Augusto ao Jornal da CBN,tem tomado proporções absurdas ultimamente.
  • 47. 46  CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho, contamos um pouco a história do rádio, como veículo decomunicação, bem como o início do radiojornalismo no Brasil. Em seguida,estudamos os diversos gêneros jornalísticos, utilizados em todas as mídias, nãosomente no rádio. Por serem peças-chave desta monografia, estudamos com maiscautela e detalhes os gêneros “notícia” e “comentário”, por serem fundamentais paraa análise proposta. Vimos, também, qual a função do âncora, encontrado no tele eradiojornalismo, bem como um pouco da história dos profissionais estudados eanalisados nesta pesquisa. O problema, que gerou esta análise, é a presença do comentário noradiojornalismo. Há expressão de opinião por parte dos âncoras? Os âncoras doradiojornalismo têm como função informar, sem induzir o ouvinte a concordar comseus princípios. Isso realmente ocorre? Ao analisar os programas Jornal da Band, apresentado por Ricardo Boechat,e Jornal da CBN, apresentado por Heródoto Barbeiro, notamos que o primeiroexpressa sua opinião na maior parte das notícias, muitas vezes conduzindo oouvinte a seguir pelo mesmo pensamento, em alguns casos, expressa seussentimentos, de raiva, indignação etc., enquanto Heródoto busca noticiar, informarsem comentar, leva ao ouvinte a opinião de um profissional da área, não sua opiniãode jornalista, formador de opinião. Com isso, podemos concluir que os profissionais analisados têm maneirasdistintas de transmitir a notícia ao público, conforme sua formação acadêmica.Existe, sim, a expressão de opinião dos âncoras, mas não se pode generalizar, pois,conforme vimos, cada profissional tem sua maneira de fazê-lo, seja durante aprogramação, através da preparação do radiojornal, ou durante a transmissão dasinformações. Este trabalho nos mostrou que a imparcialidade total não existe - seja deforma sutil ou não, a opinião é expressa pelo profissional, mesmo que não sejatransmitida, pois, conforme vimos com Squirra (1993, p. 179), o âncora brasileiroexerce atuação opinativa, seja na forma de comentários ou controlando de formaextremamente cuidadosa tudo o que vai ao ar.
  • 48. 47   Sabemos que ainda há muito a ser estudado sobre o tema, porém, devido aocurto espaço de tempo para desenvolver esta monografia, propomos darcontinuidade à pesquisa posteriormente, durante a pós-graduação, em quepretendemos desenvolver um trabalho mais amplo e detalhado sobre a opinião noradiojornalismo brasileiro.
  • 49. 48  REFERÊNCIASAMARAL, Luiz. A objetividade jornalística. Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1996AMOSSY, Ruth. Imagens de si no discurso: A construção do ethos. São Paulo:Contexto, 2005BARBEIRO, Heródoto; LIMA, Paulo Rodolfo de. Manual de radiojornalismo:Produção, ética e internet. Rio de Janeiro: Campus, 2003_________ O desafio da ancoragem In CBN: a rádio que toca notícia. Senac, 2006BARBOSA FILHO, Antonio. Gêneros radiofônicos. São Paulo: Paulinas, 2003BELTRÃO, Luiz. Jornalismo opinativo. Porto Alegre: Sulina, 1980BESPALHOK, Flavia Lucia Bazan; HEITZMANN, Patrícia Zanin. Radiojornalismo esubjetividade: Em busca de vozes singulares. (Dissertação) – Intercom - XXVICongresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belo Horizonte, MG, 2003(http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2003/www/pdf/2003_temas_bespalhok.pdf) Acesso dia 19/05/2009CÉSAR, Cyro. Como falar no rádio. São Paulo: Ibrasa, 2002CHANTLER, Paul; HARRIS, Jim. Radiojornalismo. São Paulo: Summus, 1992CHAPARRO, Manuel Carlos. Pragmáticas do jornalismo. São Paulo: Summus, 1993CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2009CORTINA, Arnaldo; MARCHEZAN, Renata. Razões e sensibilidades: A semióticaem foco. Araraquara: Laboratório Editorial FCL/UNESP, 2004COSTELLA, Antonio F. Comunicação – do grito ao satélite. São Paulo: Mantiqueira,2002FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio: o veículo, a história, a técnica. Porto Alegre:Sagra-Luzzatto, 2001GOMES, Adriano Lopes. O jornalismo radiofônico e a construção da identidadeprofissional. (Dissertação) – Intercom - X Congresso de Ciências da Comunicaçãona Região Nordeste – São Luis, MA,2008.(http://www.intercom.org.br/papers/regionais/nordeste2008/resumos/R12-0794-1.pdf) Acesso dia 19/05/2009KARAM, Francisco José. Jornalismo, ética e liberdade. São Paulo: Summus, 1997KOVACH, Bill; ROSENSTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo. São Paulo:Geração, 2004KUNCZIK, Michael. Conceitos de jornalismo – Manual de comunicação (Norte e Sul).São Paulo: Edusp, 1988LAGE, Nilson. Linguagem jornalística. São Paulo: Ática, 2004MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez,2005____________. Novas tendências em análise do discurso. [s.l.]: Pontes, 1997
  • 50. 49  MARCONDES FILHO, Ciro. O capital da notícia – Jornalismo como produção socialna segunda natureza. São Paulo: Ática, 1989MCLEISH, Robert. Produção de rádio: um guia abrangente de produção radiofônica.São Paulo: Summus, 1999MEDINA, Cremilda. Notícia: Um produto à venda. São Paulo: Summus, 1988MEDITSCH, Eduardo. A nova era do rádio: O discurso do radiojornalismo comoproduto intelectual eletrônico. In BIANCO, Nélia R. Del; MOREIRA, Sônia Virginia.Rádio no Brasil – Tendências e Perspectivas. Brasília: UnB, 1999MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1985_________. Jornalismo brasileiro. Porto Alegre: Sulina, 2003_________. Jornalismo opinativo. São Paulo: Mantiqueira, 2003MURCE, Renato. Bastidores do rádio: Fragmentos do rádio de ontem e de hoje. Riode Janeiro: Imago, 1976ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de discurso. Campinas: Pontes, 1999________. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. Campinas:Pontes, 1996ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informação no rádio. São Paulo: Summus, 1985PARADA, Marcelo. Rádio: 24 horas de jornalismo.São Paulo:Panda Books, 2004PENA, Felipe. Teoria do jornalismo. São Paulo: Contexto, 2007PORCHAT, Maria Elisa. Manual de radiojornalismo Jovem Pan. São Paulo: Ática,1993PRADO, Emilio. Estrutura da informação radiofônica. São Paulo: Summus, 1985ROSSI, Clóvis. O que é jornalismo. São Paulo: Brasiliense, 1980SILVA, Ednelson Florentino da. Narração esportiva no rádio: Subjetividade esingularidade do narrador. (Dissertação) – Mestrado em Linguística Aplicada pelaUniversidade de Taubaté. Taubaté, 2008 (http://www.unitau.br/cursos/pos-graduacao/mestrado/linguistica-aplicada/dissertacoes-2/dissertacoes-2008/2006-2008%20SILVA%20Ednelson%20Florentino%20da.pdf) Acesso dia 19/05/2009SOUSA, Jorge Pedro de. Elementos do jornalismo impresso. Porto: s/e, 2001SQUIRRA, Sebastião. Bóris Casoy: o âncora no telejornalismo brasileiro. Petrópolis:Vozes, 1993_________. Aprender telejornalismo. São Paulo: Brasiliense, 1990TAVARES, Reynaldo C. Histórias que o rádio não contou. São Paulo: Harbra, 1999TODOROV, Tzvetan. Os gêneros do discurso. São Paulo: Martins Fontes, 1980TRAVANCAS, Isabel Siqueira. O mundo dos jornalistas. São Paulo: Summus, 1992WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa: Presença, 2003