Avaliação desempenho docente

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Avaliação desempenho docente

  1. 1. Avaliação do desempenho docente: breve revisão da literaturaO que é avaliar e o que é avaliar o desempenho docente? A palavra avaliar tem origem no latim – a + valere – e significa dar valor, atribuirmérito ou juízo de valor, aferição da qualidade. Avaliar é próprio da condição humana. Paraalguns é processo segundo a lógica da mensuração, medida de conhecimento eclassificação. Para outros, trampolim para o aprimoramento da atividade, seja ela qual for.Mas, para restringir o objeto de análise, nos concentraremos na avaliação do desempenhodocente. É imperioso dizer, inicialmente, que avaliar esta no cerne da humanidade. A reaçãodo organismo vivo aos estímulos do meio dispara uma série de ações avaliativas imediatascom o objetivo de tomar decisões. Podemos inferir que avaliar é conhecer e o conhecimentorefina a avaliação para saber mais e melhor. Nas palavras do filósofo Antonio J. Severino1, (...) conhecer é um impulso como que natural e instintivo no sentido em que ele brota espontaneamente, confundindo-se na sua origem, com o próprio impulso da vida. A consciência emerge e se desenvolve como estratégia de vida, integrando, e equipamento de ação do homem com vistas a sua sobrevivência. O pensar surge, assim, concomitantemente ao agir, com ele se confundindo. O pensamento não é anterior à ação, pois surge do próprio fluxo do agir (SEVERINO, 79). Ora, se avaliar é ajuizar, aferir, qualificar, quantificar, dar valor e mérito (dentre tantosoutros sinônimos que poderíamos arrolar), podemos concordar com a definição de Severinona medida em que este situa o conhecimento como sustentáculo da sobrevida. Nesseínterim, avaliar é condição sine qua non para a sobrevivência humana nos diferentesaspectos da vida e nos mais diversos ambientes. O fato que a Avaliação é tema controverso, complexo e polêmico, ainda mais quandose trata da avaliação do desempenho docente. A quantidade de nota significa quantidade equalidade de conhecimento? Avaliar o docente em sua atuação profissional implica dizer queeste, enquanto humano, está à mercê do meio em que desempenha sua profissionalidadecom o objetivo de sobreviver no mercado2 de trabalho. A pergunta que se segue é: quem é oprofessor no século XXI e como ele se desenvolve profissionalmente? Diversos catedráticos na área educacional teceram pensamentos sobre o tema oraem análise. O professor Dr. Domingo Fernandes explicita na sua análise que a avaliação dodesempenho docente é tema complexo e que o saber científico sobre o assunto está longede nos oferecer características estáveis e mensuráveis. Verifica a existência de diferentestipos e estilos de avaliação, contudo, lhe interessa sobremaneira como a avaliação pode1 Antônio Joaquim Severino é atualmente professor titular de Filosofia da Educação na Faculdade de Educaçãoda USP. Bacharel em Filosofia pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica, em 1964, doutorou-se naPUC/SP.2 Digo, mercado de trabalho, uma vez que este está sob o jugo da roda capitalista que, invariavelmente,proletarizou o trabalho intelectual.
  2. 2. influenciar positivamente a qualidade do ensino e, concomitantemente, a competência, odesempenho e a vida profissional dos professores (FERNANDES, p. 12). Complementarmente, Veiga Simão, Flores, Morgado, Forte e Almeida, em artigosobre formação de professores em contextos colaborativos, explicitam que a investigação-ação a partir da planificação de conceitos e reflexão contribui para a instalação de umacomunidade do saber pedagógico corrobora para o desenvolvimento da profissionalidadedocente. Em tom desafiador (aos professores), provocam dizendo que se “se acredita que o aluno pode ser construtor do seu próprio conhecimento, participando em processos de colaboração com os seus pares, sob orientação do professor, por que razão os professores não podem igualmente desenvolver a sua competência e a sua profissionalidade em contacto com os seus pares em local de trabalho?” (Veiga Simão, Flores, Morgado, Forte e Almeida, p. 64). Em conferência internacional sobre avaliação3, Gérard Figari enumera dois modelosde avaliação: controle (gestão, painel de controle, pilotagem) e desenvolvimento (aspectoformativo) e, dentre os paradigmas destacados (abordagem externa, interna subjetivista enegociada interativista) destaca a idéia de se criar um cenário misto onde regras gerais,referenciais nacionais e expectativas locais interagiriam formando um círculo de construçãodas informações. Como visto, avaliar não é tarefa fácil. Mais complexo ainda é tecer pensamento sobreavaliação do desempenho docente. É evidente que o ajuizamento do assunto, sob achancela científica, demanda muitos estudos, análises e comparações para se chegar numponto ótimo (se é que chegaremos a tal ponto). Tendo em vista as condicionantesambientais, culturais, sociais, econômicas, ideológicas e pessoais, há que se considerar osdois principais modelos ao qual nos referimos: avaliação para controle e avaliação para oaprimoramento. Mas por hora, podemos dizer que avaliar é conhecer algo, através dediferentes instrumentos, objetivando tomar decisões mais precisas e avaliação dodesempenho docente é a recolha de provas fidedignas e fiáveis da atuação do professorcom vistas tanto para o controle (gestão e prestação de contas) quanto para odesenvolvimento pessoal (teceremos uma defesa desse modelo logo à frente). Na próximaparte veremos algumas tendências de avaliação do professor e escolheremos um caminhopara dissertar: o da avaliação com vistas ao aprimoramento profissional em contraponto aosistema de avaliação para controle.Tendências de Avaliação da profissionalidade docente O atual momento histórico é extremamente conturbado. Revoltas populares, crisesfinanceiras globais, guerras, dinâmicas citadinas extremamente complexas e deterioradas,3 Atas de conferência internacional. Lisboa, maio de 2007.
  3. 3. enfim, uma série de acontecimentos na sociedade que, invariavelmente, refletem na escola.Dentro desse contexto, os diferentes modelos de avaliação docente representam osdiferentes matizes da sociedade. Mas a grande questão que se coloca é: o que é um bomprofessor? Antes de responder a questão que se coloca, devemos perscrutar algumas idéias. Aprimeira de ordem histórico-social reduz o professor a mero produto no mercado de trabalho(proletarização do trabalho intelectual), uma força produtiva como qualquer outra (EUA: anos80). As dinâmicas do capitalismo impuseram à educação a lógica de mercado pautada narentabilidade e enriquecimento de empresas do ramo. Tal lógica instrumental estigmatizou oprofessor como competente e com potencial para evoluir em conhecimento. A partir dos anos 60 investigou-se muito na área educacional, principalmente porconta de Piaget e Brunn. Os anos 90 foram marcados pela consciência de que se produziumuito. Contudo, o que fazer com tanto conhecimento acumulado? Como aplicá-lo comqualidade? Como se atesta e comprova a qualidade? O fato é que esse modelo deinvestigação falhou porque a universidade divorciou-se, nesse ínterim, da realidade e adotouuma perspectiva personalista na medida em que a profissão enveredou-se pela vocação. No Brasil, segundo Freitas – que analisa a política de formação de professoressegundo as Diretrizes Nacionais para Formação de Professores da Educação Básica emnível superior – a concepção tecnicista de educação da década de 70, criticadaexaustivamente na década de 80, retorna sob novo olhar: solução dos problemas decompetitividade do Brasil no cenário global e necessidade de recursos humanos maisqualificados (Freitas, 2002). É a lógica instrumental – veementemente criticada porHabermas4 - racionalizando as atividades educacionais na busca incessante por eficiência eprodutividade. A segunda idéia nos remete ao professor e ao seu saber competente. Ora, mas o queé competência? Inicialmente, podemos inferir que competência significa saber fazer(confiança atuando juntamente com as expectativas de futuro). Para tê-la é necessáriopossuir, também, habilidade (do latin habilis, saber fazer). De modo mais amplo, envolveconhecimento, ação, exploração, inovação e afetividade. Esse cabedal elucidativocaracteriza, essencialmente, a Ciência, afinal, esta se reconstrói a cada dia. Tais considerações nos dão fôlego para apontar tendências na avaliação deprofessores. Uma delas, citada por Juan Casassus num artigo crítico sobre avaliação daprofissionalidade docente, é avaliação de tipo estandardizada (Casassus, 2009) que,segundo o autor, não verifica a qualidade e sim mede fomentando dados estatísticos parafins de gestão do sistema educativo (origem na economia). Ele denomina tais avaliaçõescomo referidas à norma que, no fundo, objetivam estabelecer ranking’s.4 Teoria de la acción comunicativa I - Racionalidad de laacción y racionalización social. Madri: Taurus, 1987b.
  4. 4. O contraponto dessa tendência – que reduz o profissional, que particulariza sua açãoe que o transforma em mero instrumento na lógica capitalista – é a que qualifica, desenvolvea profissionalidade, enfim, a que substancialmente está atrelada à qualidade e que a temcomo alvo a ser alcançado. Nessa linha, Charlotte Danielson, em colóquio para a fundaçãoCESGRANRIO, aponta três componentes necessários para uma avaliação que sejaexigente, eficiente e fiável: definição do que é uma boa prática pedagógica; métodos justos econfiáveis para fazer provas justas sobre o que é uma boa prática; avaliadores confiáveis esensíveis (DANIELSON, p. 2). Complementarmente, Alves e Machado, na introdução daobra O Pólo de excelência, apontam para uma mudança de paradigma: de uma visãopuramente instrumental voltada para resultados para uma visão humanista e emancipatória.Na mesma obra, no capítulo 1, De Ketele5 exorta para que se fale mais de desenvolvimentoprofissional e de avaliação do ensino do que de avaliação de professores com o intuito deafastar a figura do profissional da postura de controle (postura estatal, de gestão) eaproximá-lo à postura de reconhecimento pelo mérito. Na esteira, Tardif e Foucher,corroborando com as idéias de De Ketele, enfatizam a necessidade de se exaltar aprofissionalidade , afinal, “a profissionalização corresponde ao processo de transformaçãode uma pessoa num profissional, habilitando-o a assumir funções profissionais”6 (Alves &Machado, p. 34). É perceptível a tendência mundial em avaliar sistemas de ensino. Classificações depaíses, de escolas e de alunos, a partir de um mecanismo de gestão de recursos financeiroscom vistas a otimização de gastos e lucros, cria uma lógica perversa na busca incessantepelo perfomatismo e busca de resultados. Isso significa qualidade no ensino e naaprendizagem? Os profissionais da educação se tornam meramente peças na complexamáquina social relacional. Qual sua função, então? A crítica a esse modelo nos impulsionapara um esboço inicial de defesa de um mecanismo de avaliação em contraposição aosistema avaliativo de controle: humanista, de aprimoramento da profissionalidade.Avaliação para o aprimoramento profissional: contraponto ao modelo de avaliaçãopara controle A partir da análise dos modelos de avaliação, notamos que no modelo de avaliaçãopor desempenho prevalece o burocratismo, a ação instrumental e a gestão financeira paraprestação de contas, principalmente ao avaliar sistemas educativos, como os estatais, porexemplo. Acreditamos, para tecer o contraponto, que a avaliação para promoção doaprimoramento profissional (ou para o progresso/ mérito) seja mais importante, nãoobstante, mais complexo, demandando profissionais qualificados, éticos e sensíveis.5 De Ketele, p. 13.6 Tardif & Foucher, p. 34.
  5. 5. Alves e Machado (2010, p.1) concluem que a avaliação docente terá validade namedida em que funcionar como ferramenta para a reflexão sobre a prática baseada nadialogia, na ética e na criação de um ambiente de aprendizagem. Em outras palavras, sersujeito e não sujeitar-se. De ketele se aproxima de Alves e Machado por repudiar a posturade controle e valorizar a postura de reconhecimento. Não obstante, enfatiza o debatecalcado no desenvolvimento profissional e do ensino (Alves & Machado, p. 13). Revela queuma avaliação de desempenho não avalia somente o indivíduo, mas todo o sistema porqueos atores não agem isoladamente. Estão emaranhados no complexo organizacional. Logo, aabordagem deve ser sistêmica. Não há sentido em avaliar um professor se o objetivo não propugnar a criação demais valia. Tardiff e Foucher esclarecem que a avaliação docente deve considerar oaprimoramento da cultura profissional, o desenvolvimento de competências e a construçãode uma identidade profissional. Nesse sentido, só há sentido na avaliação se este semprestar ao desenvolvimento da profissionalidade, ao aprimoramento do sujeito a seravaliado. Por fim, podemos dizer que a avaliação de desempenho ou controle é, de maneirageral, perversa porque considera o sistema em detrimento dos indivíduos. Por outro lado, aavaliação que considera o sujeito, o desenvolvimento profissional e o aprimoramento nosparece ser mais eficiente quando miramos o público fim de todo o sistema educacional: oaluno. Professores primorosos, alunos brilhantes. A avaliação em contextos colaborativosnos parece favorecer esse cenário ideal.Bibliografia1. Avaliação de professores. Visões e realidades. Atas da Conferência Internacional. Lisboa,Maio de 2007: 3. A Avaliação dos Professores entre o Controlo e o Desenvolvimento Gérard deFigari, pp. 17-262. DANIELSON, Charlotte (2010). Novas tendências na avaliação do professor. Riode Janeiro: Fundação Cesgranrio, pp.3. FERNANDES, Domingues (s/data) Avaliação do Desempenho Docente: Desafios,Problemas e Oportunidades. Lisboa: Texto Editora.4. FREITAS, Helena Costa Lopes de (2002). Formação de Professores no Brasil: 10 anos deembate entre projetos de formação. Educ. Soc. Campinas, vol. 23, n. 80, Setembro/2002, pp.136-167.5. ALVES, Maria Palmira & MACHADO, Eusébio André. O Pólo de excelência: caminhospara a avaliação do desempenho docente. Porto: Areal, 2010.6. SEVERINO, A.J. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1992.7. VEIGA SIMÃO, Ana M. et al. (2009). Formação de Professores em contextoscolaborativos. Um projeto de investigação em curso. Sísifo. Revista de Ciências daEducação, 08, pp. 61-74.

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