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Monografia - Musica como documento Historico
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Monografia - Musica como documento Historico

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Monografia - Musica como documento Historico Monografia - Musica como documento Historico Document Transcript

  • CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO VALE DO SÃO FRANCISCO PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” EDNA DE JESUS MOURAMÚSICA COMO FONTE HISTÓRICA EM SALA DE AULA - MPB NO ENSINO DE HISTÓRIA DO BRASIL NO PERÍODO DA DITADURA MILITAR (1964 – 1985) Belém do São Francisco - PE Dezembro 2012
  • 1 EDNA DE JESUS MOURA MÚSICA COMO FONTE HISTÓRICA EM SALA DE AULA - A MPBNO ENSINO DE HISTÓRIA DO BRASIL NO PERÍODO DA DITADURA MILITAR (1964 – 1985) Monografia apresentada junto ao curso de pós-graduação em História e Cultura Afro- Brasileira e Indígena do Centro de Ensino Superior do Vale do são Francisco como requisito para obtenção do grau de especialista em História. Orientadora: Profª Ms. Geyza Kelly Alves da Silva. Belém do São Francisco - PE Dezembro 2012
  • 2 EDNA DE JESUS MOURA MÚSICA COMO FONTE HISTÓRICA EM SALA DE AULA - MPB NO ENSINO DE HISTÓRIA DO BRASIL NO PERÍODO DA DITADURA MILITAR (1964 – 1985) Monografia apresentada junto ao curso de pós-graduação em História e Cultura Afro- Brasileira e Indígena do Centro de Ensino Superior do Vale do são Francisco como requisito para obtenção do grau de especialista em História.Aprovada em ____ de dezembro de 2012Nota: ___________________________ _____________________________________________________ Prof.ª MSc. Geyza Kelly Alves da Silva/ UFPE (Orientadora) Belém do São Francisco - PE Dezembro 2012
  • 3 AGRADECIMENTOSA Deus pela dádiva da vida.Aos meus pais por guiarem os meus primeiros passos rumo ao que sou.A minha orientadora e professora Geyza Kelly Alves da Silva pelo convívio, peloapoio, pela compreensão e pela amizade.A todos os professores do Curso de Especialização do CESVASF, que foram tãoimportantes na minha vida acadêmica e no desenvolvimento desta monografia.Aos amigos e colegas, pelo incentivo e pelo apoio constante em especial áFernanda Kárita Leite, Maria Neuza Moura e Mércia Santana.A todos aqueles que de alguma forma ajudaram a semear, cultivar e colher os frutosdesses anos de curso. Caminharam comigo, transmitindo-me serenidade econcedendo-me o apoio da amizade, imprescindível no convívio acadêmico.
  • 4“Já há algum tempo, como que tateando outroscaminhos, historiadores e cientistas sociais têmprocurado incorporar ao arsenal de recursos depesquisa outras linguagens, para além dashabituais” (PARANHOS, 2000, p. 223)
  • 5 RESUMOEsta pesquisa tem o objetivo de discutir e analisar, a partir de uma pesquisabibliográfica, a relação música e história especificamente a MPB (Música PopularBrasileira), demonstrando a importância da música como fonte histórica em sala deaula, nos períodos de 1964 a 1985. Quando ocorre o Golpe de Estado, tantas vezesensaiado e finalmente deflagrado, dando início à ditadura. A partir deste contextovamos analisar as manifestações culturais, sociais e políticas deste período atravésdas canções, sabendo da importância da música como fonte histórica. Para evitarcair na simplificação, pretende-se refletir a música de uma maneira mais ampla, asfontes utilizadas no presente trabalho, servirão como mediação para a produção doconhecimento dos alunos, espera-se que com o uso racional e sistemático desserecurso pedagógico, crie-se situações em que o aluno sinta-se atraído pela propostado docente. As linguagens alternativas têm sido utilizadas como um importanterecurso didático para a aprendizagem de história. Entre essas linguagens, a músicapopular tem ocupado espaço, como instrumento pelo qual se revela o registro davida cotidiana, na visão de autores que observam o contexto social no qual vivem.As representações sociais de autores e intérpretes serão instrumentos natransformação dos conceitos espontâneos em conceitos científicos, porque comoregistros são evidências, restos que o passado deixou para trás e que facilitam acompreensão histórica pelos alunos, pela empatia que estabelecem entre eles eaqueles que viveram em outros contextos históricos.Palavras-chave: História. Música Popular Brasileira. Fonte histórica. Linguagensalternativas. Ensino de História.
  • 6 AbstractThis research aims to discuss and analyze, from a literature search, music history andthe relationship specifically MPB (Brazilian Popular Music), demonstrating theimportance of music as a historical source in the classroom, in the periods from 1964to 1985. Occurs when the Coup dÉtat, tested many times and finally triggered,initiating the dictatorship. From this context we will analyze the cultural manifestations,socials and politics this period through the songs, knowing the importance of music asa historical source. To avoid falling into the simplification, it is intended to reflect themusic more broadly, the sources used in the present work, will serve as a mediatorfor the production of knowledge of the students, it is expected that with the use ofrational and systematic teaching resource, to create situations in which students feelattracted by the proposal of the teacher. The alternative languages have been usedas an important teaching resource for learning history. Among these languages,popular music has its space as a tool that reveals the record of everyday life, in theview of the authors who observe the social context in which they live. Socialrepresentations of authors and interpreters will help transform spontaneous conceptsin scientific concepts, because such records are evidence, that the last remnants leftbehind and that facilitate historical understanding by students, the empathyestablished between them and those who lived in other Historical contexts.Keywords: History. Brazilian Popular Music. Historical source. Alternative languages.Teaching of History.
  • 7 Listas de SIGLASAPEOESP – Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São PauloUTE – MG - Comunidade dos Trabalhadores em Educação de Ipatinga, Minas GeraisANPUH – Associação Nacional de HistóriaSBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
  • 8 SUMÁRIO LISTAS DE SIGLAS ................................................................................................ 08 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 10 CAPÍTULO I - A música como documento histórico em sala de aula......................12 1.1 - Música popular brasileira no ensino de História..............................................15 CAPÍTULO II - A Música Popular Brasileira como instrumento de reação à Ditadura Militar no Brasil (1964 – 985)...................................................................................19 CAPÍTULO III – Ditadura militar no Brasil (pós-64) através da música: uma experiência em sala de aula.....................................................................................29 3.1- O conhecimento prévio dos alunos...................................................................303.2 - O uso da música: uma proposta de produção de conhecimento com os alunos...................................................................................................................................33 CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................................44 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.........................................................................46
  • 9 INTRODUÇÃO A escola hoje requisita um professor que expresse em seu fazer pedagógicoas dimensões humana, tecnológica e política e que seja capaz de visualizar osefeitos sociais do trabalho pedagógico e dos condicionamentos que nele interferem,que saiba selecionar criticamente as orientações de sua práxis. E para tanto énecessário inovar; utilizando -se diversos recursos e metodologias, ou“armas”, como Adalberto Paranhos as chamam. A forma como PARANHOS desenvolve abaixo , notar-se umaconsiderável busca na atualidade por “armas”, em vários campos doconhecimento humano, com o objetivo de unir-se ao “arsenal de recursos depesquisa” já utilizados tradicionalmente. “Já há algum tempo, como que tateandooutros caminhos, historiadores e cientistas sociais têm procurado incorporar aoarsenal de recursos de pesquisa outras linguagens, para além das habituais”(PARANHOS, 2000, p. 223). Ao se referir em “armas” pode-se pensar o teatro, cinema, dança, pintura,escultura, literatura e por que não, a música. Todas estas, e outras mais,constituem-se em artifícios para enriquecer as aulas, trazer novasperspectivas, bem como novas visões e metodologias à História e às CiênciasSociais, de um modo geral. Partindo desta nova busca, a presente pesquisadesafia-se aguçar o questionamento a respeito da utilização da música comouma fonte à História - mais precisamente a música popular brasileira naditadura militar 1964 á 1985, a sua i m p o r t â n c i a p a r a s e p e r c e b e r a ssensibilidades da época em que foi concebida, além de outrasconsiderações em torno da metodologia de trabalhar esse tipo de fonte. Paraisso, a referente pesquisa será desenvolvida através de estudos bibliográficos,entrevistas e diferentes textos que propõem procedimentos de p e s q u i s apara a canção popular no Brasil. Espera -se que, através dasreflexões aqui contidas, á metodologia aplicada ao ensino deHistória para com a música se torne esclarecedora e que traga,p o r q u e n ã o , m a i s pesquisadores e/ou educadores para esta tão rica forma dese “pensar a História”.
  • 10 A problemática da pesquisa se resume na seguinte indagação: qual a relaçãoentre a música enquanto documento histórico e o ensino de História? Mas qual o conceito de música? “(...) a definição do que é música não éuniversal, mas é criada e compartilhada pelos diferentes grupos e culturas.” AfirmaDuarte (2002, p. 187). Observe o que diz MORAIS (2000, p. 204 – 205): [...] a canção é uma expressão artística que contém um forte poder de comunicação, principalmente q u a n d o s e d i f u n d e p e l o u n i v e r s o urbano, alcançando ampla dimensão da realidade social [ . . . ] aparentemente as canções poderiam constituir-se em um acervo importante para se conhecer melhor ou revelar zonas obscuras das histórias do cotidiano dos segmentos subalternos. Ou seja, a canção e a música popular poderiam ser encaradas como uma rica fonte para compreender certas realidades da cultura popular e desvendar a história de setores da sociedade pouco lembrados pela historiografia. Música na sala de aula: pra quê? Esse questionamento tem sido respondidoem cada tempo-espaço da instituição de ensino. A importância da música naformação integral de crianças e jovens já eram enfatizadas na Antiguidade, apropósito da formação do caráter do homem público, do guerreiro. Dos benefícios que a música pode trazer para as escolas, também muito já seouviu falar. Nossa memória encontra resquícios da sua presença na escola,justificada como auxiliar no desenvolvimento de competências e habilidadescognitivas, matemáticas, linguísticas, ou para o aumento do vocabulário, porexemplo. Conhecemos muito bem a prática da música como recurso para formarcorpos dóceis e controlar a rotina escolar, fazendo isso tudo através do cantocoletivo. Se a música contribui e desenvolvi todo esse potencial no sujeito. Então,por que não a utilizarmos nas aulas? A proposta de música como fonte documental nas aulas de História vem nummomento muito propício visto que a lei nº 11.769/08; torna obrigatório no currículoescolar o ensino de música no nível fundamental e médio; é uma boa oportunidadepara uni-las com a finalidade de não só tornar a aula mais prazerosa, mas tambémcontribuir para a compreensão, absorção e entendimento do tema abordado.
  • 11 CAPÍTULO I A música como documento histórico em sala de aula A música sempre teve papel importante na história da humanidade. Atravésdela, civilizações expressaram sua cultura, sociedades protestaram e criticaram seugoverno como foi o caso da história do Brasil durante o regime militar, onde aMúsica Popular Brasileira teve um papel fundamental na disseminação demensagens contra o sistema político opressor. Nessa perspectiva, a música foi umaforte aliada. Agora na busca por novas metodologias o professor de história visaenriquecer as aulas relacionando a música ao tema a ser estudado. As canções de protesto compostas durante a ditadura militar (1964-85)ocupam um lugar especial na história da música popular brasileira. Esse tipo deregistro, explorado como material didático-pedagógico nas aulas de História doBrasil, além de tornar as experiências em sala de aula mais prazerosas einstigantes, aumenta a bagagem cultural dos alunos e convida-os a refletir sobre aimportância da luta pela democracia e pelo respeito aos direitos humanos. Propõe-se aqui a utilização da MPB como documento histórico em sala de aula abordando aMPB na ditadura militar. Visto que essa possibilidade de inovações só se tornoupossível devido a uma vertente, a escola dos Annales, ocorrida na historiografia e naampliação do uso de fontes que antes se restringia ao escrito. Com os trabalhos iniciais de Marc Bloch e Lucien Febvre, um dos fundadoresda Escola de Annales, nos anos 30, os estudos históricos receberam novos ares,aumentando a amplitude das pesquisas que passam a tratar com novos objetos, sobnovos enfoques e métodos, e com outras fontes capazes de responder a este novoproblematizador, numa perspectiva historiográfica preocupada com um passadohumano mais amplo, uma história-problema que vai além do político e doeconômico. A música por si só é capaz de transpor os limites de uma única ciência,através dela vivemos a história, aprendemos geografia, biologia, política, economia,sociologia e muitas outras. Conforme os PCN`s, a música:
  • 12 [...] é a linguagem que traduz em formas sonoras capazes de expressar e comunicar sensações, sentimentos e pensamentos, por meio da organização e relacionamento expressivo entre o som e o silêncio. [...] A integração entre os aspectos sensíveis, afetivos, estéticos e cognitivos, assim como a promoção de interação e comunicação social, conferem caráter significativo à linguagem musical [...]. A música relacionada ao ensino de História é de fato importante, já que tempor finalidade fazer com que os alunos se interessem mais pelo estudo doconhecimento histórico. Deve-se trabalhar com as letras das músicas antes de seiniciar o tema, como uma forma de sensibilização ao conteúdo a ser estudado. Selva Guimarães Fonseca (2005) no seu livro “Didática e Prática de Ensinode História”, evidencia a grande necessidade da utilização de novas metodologias,bem como a atualização das mesmas, na busca de um objetivo maior que se refereexclusivamente ao ensino e aprendizagem mais eficaz. Assim diz: “Ao incorporar diferentes linguagens no processo de ensino de história,reconhecemos não só a estreita ligação entre os saberes escolares e a vida social,mas também a necessidade de re-construirmos nosso conceito de ensinoaprendizagem”. O repensar do ensino de história ganha espaços em associações cientificas como ANPUH, SBPC; associações sindicais como APEOESP – SP e UTE – MG, congressos, seminários, debates envolvendo os três graus de ensino, também as mídias se ocupam dos debates sobre os possíveis caminhos do ensino de Historia. As discussões recorrente priorizam os seguintes aspectos; a produção de conhecimento histórico como forma de romper com o papel reprodutivista que tradicionalmente é conferido ao 1º e 2º graus, o livro didático: o significado de sua utilização e a análise dos conteúdos veiculados; o ensino temático como proposta alternativa ao ensino tradicional de História e experiências utilizando diferentes linguagens e recursos no ensino, tais como a música [...] (FONSECA, 1993, pg. 86) Nota-se no texto de Selva G. Fonseca a preocupação por parte de diversossegmentos relacionados com o ensino de História e a importância da utilização denovas metodologias para a prática pedagógica, e a música é uma excelente fonte,visto que o discente ficará mais motivado, é sabido que a absorção de informaçõesocorre com mais facilidade quando atinge o emocional e a música tem essacapacidade, como nos explica: "A música desacelera o pensamento, alivia a
  • 13ansiedade melhora a concentração, desenvolve o prazer de aprender e educa aemoção!” (CURY, Augusto Jorge, 2003). As principais discussões, na área da metodologia do ensino de História, têmsido o uso de diferentes linguagens e fontes no estudo dessa disciplina. Esse debatefaz parte do processo de critica ao uso exclusivo de livros didáticos tradicionais e,sobretudo, do movimento historiográfico que se caracterizou pela ampliaçãodocumental e temática das pesquisas. A partir dessa conjectura vemos a importância que teve a escola dos Annalespara o uso de novas fontes documentais, esse movimento que surgiu na Françaprovocou grandes mudanças que dão vazão para a utilização de novas fontesdocumentais. Essas mudanças surgiram num momento em que os historiadoressentiram a inviabilidade do absoluto e do excesso de cientificidade da historiografiapositivista, surge à corrente dos Annales, propondo uma renovação no conceito dehistória, abrindo os horizontes, despertando para a colaboração de diferentesciências do homem, numa luta incansável por uma historia total, centrada naatividade humana, na vida dos grupos e das sociedades. Defendiam,essencialmente, uma história problema, comparativa, analisando, questionando,criticando, levantando hipóteses, na construção de uma história inclusiva. (livroRevolução Francesa da Historiografia, escrito por Peter Burker). Segundo SOUZA (2006), “o professor de História deve ajudar o aluno aaprender a pensar historicamente”. A grande tarefa do educador e professor édesenvolver ações para garantir que o aprendizado ocorra e que o aluno possautilizar, de forma efetiva, os conhecimentos transferidos em sala de aula. De acordo com VOSS (1996), em seu livro Revolucionando a Aprendizagem, oser humano aprende, em média, 10% pelo que lê; 15% pelo que ouve e 80% peloque vivência. Vivenciar é mudar o foco de ensinar para aprender. O aluno através damúsica certamente vivenciará o momento histórico ao qual a canção se remete. E éjustamente aí que pode ocorrer a internalização do conhecimento. Um trabalho com a linguagem expressa das canções foge ao convencional emsala de aula. Seu propósito é auxiliar o aluno a construir o conhecimento histórico apartir de documentos diferenciados dos costumeiramente presentes nas aulas e, porisso, sua utilização está relacionada a propostas alternativas de organização deconteúdos. Tal metodologia de ensino auxilia os alunos a elaborarem conceitos e adar significados a fatos históricos. As letras de música se constituem em evidências,
  • 14registros de acontecimentos a serem compreendidos pelos alunos em suaabrangência mais ampla, ou seja, em sua compreensão cronológica, na elaboraçãoe re-significação de conceitos próprios da disciplina. Mais ainda, a utilização de taisregistros colabora na formação dos conceitos espontâneos dos alunos e naaproximação entre eles e os conceitos científicos. Permite que o aluno se aproximedas pessoas que viveram no passado, elaborando a compreensão histórica, que“vem da forma como sabemos como é que as pessoas viram as coisas, sabendo oque tentaram fazer, sabendo o que sentiram em relação à determinada situação”(Duarte, 2005). Dessa forma a música estando imbuída no processo de formação da memóriae de construções do conhecimento histórico a intenção é de que a música possa serdiscutida enquanto recurso didático em sala de aula. Tornando possível, a utilizaçãoda música popular brasileira no ensino de História, para a construção de uma culturatotalmente brasileira, com a possibilidade de tornar a aula de História dinâmica,prazerosa, e inovadora. Portanto, uma das principais preocupações desse trabalho é mostrar, demaneira simplificada, a prática do ensino de História em sala de aula com autilização da música, procurando entender de que forma a linguagem musicalcontribui na construção do conhecimento histórico. 1.1 – Música popular brasileira no ensino de História. No Brasil, segundo NAPOLITANO (2002, p.77): “[...] a canção ocupa um lugar especial na produção cultural, em seus diversos matizes, ela tem o termômetro, caleidoscópio e espelho não só das mudanças s oc i a i s , m as , s o b r e t u d o d a s n o s s a s s e n s i b i l i d a d e s c o l e t i v a s m a i s pr of u n d a s ” .
  • 15 Assim, torna-se importante explorar esses significados impressos nascanções, com uma forma de interpretar nossa própria sociedade, suasmensagens e ideologias, concebendo a música como um veículo possuidorde forte poder de comunicação e difusão. A história da música popular brasileira guarda capítulos de nossa contestadoraclasse artística. Insatisfeitos com a repressão dos militares, compositoresdisseminaram suas críticas por meio de letras que se tornaram a trilha sonora daditadura no Brasil. Esse gênero musical caiu no gosto do público através dos festivais musicais,promovidos pelas redes de televisão, transformavam em espaço de movimentação emanifestação de ideais revolucionários. Os artistas possuíam fieis e participativastorcidas organizadas, formada por intelectuais de esquerda e estudantesuniversitários, a agitada plateia constituía-se como foco de resistência ao regimemilitar. Daí percebe-se a importância da música na luta contra a ditadura. Usá-lacomo documento em sala de aula pode revelar fatos ainda não mencionados no livrodidático e instigar os discentes a pesquisa e ao conhecimento. Essas canções têm um poder histórico pouco valorizado no que desrespeito aoseu estudo histórico, o que percebemos no ensino atual é que é superficialmenteabordada, como forma de expressão artística ou no máximo na introdução do tema aser estudado sem maiores observações. Não sabendo do riquíssimo material queesta sendo pouco explorado ou deixado de lado. Alguns estudiosos ou pesquisadores apontam para uma vertente que visa otrabalho com outras disciplinas. Assim diz Vinci de Moraes, em artigo publicadona Revista Brasileira de História, transpõe-se a necessidade de umaperspectiva interdisciplinar, expondo como “(...) as relações entre história,cultura e música podem desvendar processos pouco conhecidos e raramentelevantados pela historiografia”. Através desse olhar interdisciplinar, pode-se perceber aspectosdificilmente perceptíveis por outras fontes se não a música. Wisnik (1989, p.214),crítico musical, escreve que: [...] as canções absorvem frações do momentohistórico, os gestos e o imaginário, as pulsões latentes e as contradições, das quaisficam impregnadas, e que poderão ser moduladas em novos momentos, por novasinterpretações.
  • 16 Na campanha Diretas Já, grandes comícios passaram a ser realizados emtodo o país embalados pela MPB. Essas canções podem ser consideradassignificativas para a mobilização popular no período pelas eleições diretas para apresidência da República em 1984. Considera-se aqui a música um tipo de produçãosimbólica contextualizada, ou seja, que carrega traços de contextos culturais,políticos e econômicos da sociedade em que foi produzida e ainda tem o poder deinfluenciar e formar opiniões. No palanque, vários artistas populares se misturavam a líderes políticosnacionais e a representantes locais e regionais. Em uma descrição de talacontecimento feita por Dante de Oliveira e Domingos Leonelli (2004), destaca-seque: Um dos pontos altos foi quando o público cantou, junto com Simone, a música Pra dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. Chico Buarque também foi muito aplaudido na sua improvisação de Vai levando: Mesmo com todo emblema, todo problema, todo sistema, toda Ipanema, a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando as Diretas.(...) Mas o ápice foi mesmo o momento em que Fafá de Belém cantou o Hino da Independência , acompanhada pela multidão. Papéis picados choveram dos prédios vizinhos e um espetáculo de fogos de artifício iluminou aquele início de noite, como se anunciasse que as Diretas estavam chegando. (OLIVEIRA; LEONELLI,2004,p.419) A partir de descrições como esta, pode-se perceber a presença da músicapopular brasileira nos comícios. Músicas estas que são cantadas juntamente com osHinos oficiais, como se fossem também, tais como estes, hinos à liberdade e aoBrasil. Abordar os temas transversais propostos pelos Pcns a partir de musicapopular brasileira do presente e do passado contribui para a construção daidentidade do aluno. Na área de Ciências Humanas e suas Tecnologias, devem-se construir competências que permitam ao aluno: 1. “compreender os elementos cognitivos, afetivos, sociais e culturais que constituem a identidade própria e a dos outros”; 2. “compreender a sociedade, sua gênese e transformação, e os múltiplos fatores que nela intervêm, como produtos da ação humana; a si mesmo como agente social; e aos processos sociais como orientadores da dinâmica dos diferentes grupos de indivíduos”. (Parâmetros curriculares nacionais: ensino médio: ciências humanas e suas tecnologias, Brasília, MEC/SEMTEC, 1999, p. 21)
  • 17 E ainda segundo os PCNs, propõe-se, no nível do Ensino Médio, a formaçãogeral, em oposição à formação específica; o desenvolvimento de capacidades depesquisar, buscar informações, analisá-las e selecioná-las; a capacidade deaprender, criar, formular, ao invés do simples exercício de memorização. A nova legislação altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB),fazendo da música o único conteúdo obrigatório, porém não exclusivo. As demaisáreas artísticas deverão ser contempladas dentro do planejamento pedagógico dasescolas. Haverá uma nova política que definirá em quais séries da educação básicaa música será incluída e em que frequência. Com a obrigatoriedade de ensino da música nas escolas de todo o Brasil;ficará bem mais fácil unir essa disciplina com História, podendo assim osprofissionais em suas áreas específicas dar a sua contribuição trabalhando comprojetos interdisciplinares; o aluno só tem a ganhar com isso. A proposta de músicacomo fonte documental nas aulas de História vem num momento muito propício vistoque a lei nº 11.769/08 torna obrigatório o ensino de música no ensino fundamental emédio. Essa disciplina é defendida por um dos mais talentosos maestros brasileiros,Heitor Villa-Lobos (1887-1959), onde volta a ser obrigatória na grade curricular. Paraespecialistas, a aprovação dessa lei significa uma formação mais humanística dosestudantes, na qual serão desenvolvidas habilidades motoras, de concentração e acapacidade de trabalhar em grupo, de ouvir e de respeitar o outro.
  • 18 CAPÍTULO IIA Música Popular Brasileira como instrumento de reação à Ditadura Militar no Brasil (1964 – 1985) Durante o regime militar brasileiro as manifestações culturais e artísticasforam intensas, exercendo um papel muito importante na conscientização dapopulação em relação aos problemas sociais, políticos e culturais vividos na época.Os compositores musicais se organizaram para mostrar ao povo brasileiro que eranecessário reagir à ditadura, porque os militares estavam restringindo muitasliberdades individuais e coletivas. Principalmente com O Ato Institucional nº 5, AI-5,baixado em 13 de dezembro de 1968, onde é considerado "o ano que não acabou",ficou marcado na história mundial e na do Brasil como um momento de grandecontestação da política e dos costumes. Vale lembrar que Durante o regime, acensura à produção cultural passa a perseguir qualquer ideia que fosse contráriaaos interesses dos militares – mesmo aquela que não tivesse conteúdo diretamentepolítico. Atinge, em cheio, o teatro, o cinema, a literatura, a imprensa e a música. Nadando contra a maré, o cenário artístico cresce e se profissionaliza. Osfestivais da canção, a partir de 1965, passaram a ser veiculado pela televisão, essemeio de comunicação foi um elemento muito importante, pois expandiu o público daMPB, devido ao fato de ter programas com destaque para a música e destinados àsdiferentes camadas da população. Os programas que bateram recorde de audiênciaforam os Festivais da Canção. Esses grandes festivais ascendem com suas músicasde protesto, de veia nacionalista. Inicialmente surgiram através da extinta TV Excelsior paulista e prosseguiramcom a produção da TV Record em seu período de grande audiência. Mas apóssofrer vários incêndios em suas instalações, a TV Record não pode continuar comproduções de igual qualidade, o que causou uma enorme crise nos festivais demúsica. Assim, estes grandes festivais passaram a ser produzido pela TV Rio eprosseguiram até sua extinção nos anos 80, com as suas transmissões geradas pelaTV Globo. Os órgãos censores, porém, não se interessam por divergências estéticas ouideológicas. Ações são intensificadas e tomam forma nada flexível.
  • 19 Com o país nas mãos, os militares implantam um projeto repressivo compostopor um forte esquema de informações intra-governo. O grupo militar conseguiuimpor, ainda durante o governo de Castello Branco, o Ato Institucional nº 2, quereabriu a temporada de punições (o primeiro ato institucional permitiu punições porpouco tempo). Mas foi com a posse de Costa e Silva à Presidência da República, eo AI-5, que indicaram a vitória indiscutível da linha dura. Levando em conta o fato de ter sido a época do Regime militar o momentoque a Música Popular Brasileira (MPB), se impôs no panorama histórico, em que amusica como forma de resistência política ganhou popularidade, é fundamental falarda importância que teve não só a música popular, mas também a bossa nova, paraque a música aparecesse no cenário político e dando possibilidade de sertrabalhada como documento histórico na reconstrução da história em sala de aula. A MPB é um gênero musical brasileiro que surgiu a partir de 1966, com asegunda geração da Bossa Nova. Na prática, a sigla MPB anunciou uma fusão dedois movimentos musicais até então divergentes, a Bossa Nova e o engajamentofolclórico dos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes, osprimeiros defendendo a sofisticação musical e os segundos, a fidelidade à músicade raiz brasileira. Seus propósitos se misturaram e, com o golpe de 1964, os doismovimentos se tornaram uma frente ampla cultural contra o regime militar, adotandoa sigla MPB na sua bandeira de luta. As mudanças ocorridas na sociedade podem ser observadas a partir doperíodo da “Bossa Nova”, apesar de ter este novo estilo se iniciado antes do GolpeMilitar em meio à classe média do Rio de Janeiro, foi de lá que saíram aqueles quenos anos seguintes iriam se tornar grandes representantes da música de protestocontra a ditadura, dentre estes, Chico Buarque. Pôde-se atestar ainda que, mesmosofrendo inúmeras mudanças em seus rumos e propostas, a Bossa Nova não foicapaz de deixar realmente o ambiente sofisticado onde nasceu para atingir tambéma classe trabalhadora, visto a grande distância que sempre houve entre a “Zona Sule o morro”. Por outro lado, a Tropicália, pode-se afirmar ter sido este não apenas umnovo jeito de fazer música, mas um verdadeiro movimento artístico-cultural queabrangeu música, cinema, teatro, literatura e outros veículos. Nascida doinconformismo e da proposta de denúncia de expoentes da MPB, como Caetano eGil, a música do Tropicalismo procurou alcançar e criticar os mais diversos
  • 20segmentos da sociedade brasileira. Quase nada escapou à metralhadora giratóriados tropicalistas, que, com isso, atraíram antipatias de todos os lados e acabaramsendo presos e exilados pelo Regime Militar. Portanto, pode-se concluir que amúsica seja talvez o meio mais contundente e eficaz para a divulgação edisseminação de ideias ou ideais. É importante, no entanto, ressaltar que a censura musical, inserida no setorcom a denominação de Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), não éalgo novo. Desde o Estado Novo a censura prévia vigiava de perto a músicapopular. Canções de teor político só eram divulgadas pelo rádio quando elogiosasao Estado. Em 1976, Belchior lançou a música “Apenas um Rapaz Latino-Americano”,essa canção caracteriza o Brasil da época de forma irônica. “Apenas um rapaz latinoamericano” é um protesto contra a repressão que censurava os artistas e,principalmente músicos da época. Versos como “Por favor não saque a arma no"saloon" eu sou apenas um cantor / Mas se depois de cantar você ainda quiser meatirar / Mate-me logo, à tarde, às três, que à noite tenho um compromisso / E nãoposso faltar por causa de você”, seriam quase como uma pergunta: O que vocêstanto têm a temer que não podem nem deixar que nós, que somos somentemúsicos, digamos e cantemos o que pensamos? A censura à música está diretamente ligada à tradição dos bons costumes,calcada em torno de valores conservadores e, por isso, condenandoveementemente o obsceno e o pornográfico. Além do cunho moral, há um olharcrítico para supostas ideias tendenciosas sobre o âmbito político. Odette Lanziotti,ex-técnica de censura, relata que o Departamento de Censura designava certoscensores para acompanhar as criações de determinados compositores. “Existiamcensores mais específicos para determinados autores, para analisar as cançõespolíticas”. O Órgão responsável pela censura de produções artísticas durante o regimemilitar, a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), tem sua gênese em umdecreto de 1934, com o qual Getúlio Vargas criou o Departamento de Propaganda eDifusão Cultural. Em 1939, surge um outro braço de sua inspiração: o Departamentode Imprensa e Propaganda (DIP). Maika Lóis, historiadora (em entrevista ao site censura musical), conta que alegislação montada pelos militares a partir de 1964 foi adaptada, construída com
  • 21base nas leis do Estado Novo. “Com o golpe, logo nos primeiros momentos se tem avisão de que era necessário centralizar essa censura. Em 1966 é promulgada umalei que concentrava o departamento de censura em Brasília”. Com a necessidade deracionalização dos serviços, muitos funcionários são remanejados de outrosdepartamentos governamentais, criando assim uma equipe improvisada e muitasvezes desqualificada. Assim em 1970, ano em que a seleção brasileira conquistou o tricampeonatomundial, as torturas e desaparecimentos de pessoas contrárias ao regime dogeneral Médici eram constantes. Chico Buarque fez a letra dirigida exatamente àMédici, e enviou aos censores, certo de que não passaria. Passou e foi gravada. Odisco já tinha vendido em torno de 80 a 100 mil cópias quando um jornal insinuouque a música era uma “homenagem ao presidente”. A gravadora foi invadida e todasas cópias destruídas. Chico foi chamado a um interrogatório para prestarinformações e esclarecer quem era o “você” mencionado na música. “É uma mulhermuito mandona, muito autoritária”, respondeu. A canção só seria regravada em 1978num álbum que leva o nome do autor da música. O produtor Manoel Barenbein fala sobre problemas com a DCDP quandotrabalhava com Caetano, Gil e Chico, perguntado se a gravadora teve prejuízossobre o fato ocorrido com o disco que continha a canção “apesar de você”. Diz: Eu diria que nem tanto, porque existe um processo dentro da discografia que uma proibição se torna um marketing. Mas se ninguém falar nada, passa batido. O Zuza (Homem de Mello) foi muito feliz em colocar uma parábola dizendo que a MPB cresceu a medida em que a ditadura foi ficando mais forte, e perdeu a criatividade quando a ditadura acabou...A censura trabalhou muito em cima do universitário, do cara que estava desabrochando. Esse cara, quando tinha capacidade criativa, ele driblava e acabou. (BARENBEIN, Manoel – Produtor Musical) A sociedade se mobilizava como podia, dentre os movimentos populares sedestacou o Movimento Estudantil (ME) que liderou diversas manifestações eprotestos. As passeatas organizadas contra o regime militar passaram a serreprimidas violentamente, o que acabou por difundir a revolta dos estudantes pelosoutros estados do país. Contando com grande apoio estudantil de repúdio àditadura, a UNE decretou uma segunda greve geral e elegeu o dia 22 de setembrocomo o Dia Nacional da Luta contra a Ditadura. A terceira greve geral estudantil
  • 22promovida pela UNE, em 1968, teve como estopim a morte do estudante Edson LuísLima Souto, durante uma manifestação contra o fechamento do restauranteCalabouço. Esse episódio desencadeou um dos momentos mais importantes domovimento: o cortejo do estudante, que contou com mais de 50 mil pessoas. Aindaem 68, a UNE promoveu a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. Com o apoiode artistas e religiosos, os estudantes realizaram uma passeata pacífica em defesado ensino gratuito, contra a tentativa de transformação das universidades emfundações e em protesto contra a prisão de líderes estudantis. Com o decreto do AtoInstitucional n°5, em dezembro de 68, os grêmios estudantis foram substituídospelos centros cívicos e, nesse momento, quase todos os líderes estudantis jáestavam presos ou exilados. Por esse motivo, o movimento passou a atuar demaneira mais discreta e por meio de atos isolados, como uma missa pelos dois anosde morte do estudante Edson Luís. Aborda-se nesse trabalho a participação de alunos universitários, oumovimento estudantil, pois a música popular surge exatamente nesse espaço. Os estudos propriamente históricos sobre o golpe de 64, e o regime militartardariam, antes dos historiadores, os cientistas político foram os primeiros a tratardo período, como se verá. A exceção é o historiador norte americano Thomasskidmore que lançou o seu livro politics in Brazil, 1930 a 1964. Estudar esse período muitas vezes torna-se complicado, pois osprotagonistas das atrocidades encarregaram de dar sumiço ou esconder as fontes,sabe-se que, o que não puderam destruir, não querem que a sociedade veja.Passados, porém, 26 anos do fim da Ditadura, até hoje nenhum militar foi punido eos arquivos relativos àquele período permanecem fechados, secretos, impedindoque a sociedade possam saber da verdade. Baseado nisto, assim diz a jornalistaNiara de Oliveira: A Corte dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) reconheceu a importância de se identificar e punir os torturadores da Ditadura Militar, decidindo que a manutenção da Lei da Anistia fere acordos internacionais assinados pelo Brasil. Mas, infelizmente, o governo brasileiro segue ignorando a decisão. Enquanto isto, o Supremo Tribunal Federal (STF) permanece na mais completa imobilidade e não dá mostras de que, ao menos pela via judicial, a decisão da OEA será respeitada. O Brasil, desta forma, caminha para se tornar um país criminoso, que não respeita as decisões de cortes internacionais superioras. A tortura está institucionalizada no país porque não é possível punir tortura tendo
  • 23 anistiado os maiores torturadores de nossa história e nem sequer identificá- los... (OLIVEIRA, Niara – Desarquivando o Brasil). E continua: ... Só quando o período da ditadura ganhar os livros de história com todas as suas cores horrendas e detalhes monstruosos teremos todos, a dimensão do quanto essa democracia se parece com uma ditadura e até onde a repressão ainda nos alcança e limita. (OLIVEIRA, Niara – Desarquivando o Brasil). Hoje a sensação é que esse capítulo da história ainda não acabou, asociedade vive numa falsa democracia, pelo menos na época do regime militartínhamos a certeza de estarmos sem liberdade, então se usava de diversas formaspara se protestar. Os artistas e intelectuais, por exemplo, faziam letras de musicascom duplo sentido e passeatas de protestos. Durante esse período tiveram um papelrelevante na conscientização da população brasileira durante a ditadura, pois esteseram os nossos grandes representantes, que nos ajudaram a pensar que comocidadãos não podemos ficar calados diante das injustiças que inúmeras vezes feremas nossas liberdades individuais e sociais. 2.1 MPB, Política e o ensino de História durante o Regime Militar O ensino de História para a Ditadura Militar era visto como uma ameaça,afirmava-se que os docentes de História eram os responsáveis pela subversão dajuventude. Em consequência deste pensamento, fizeram leis destinadas a “acabar”com o estudo de História, tais leis contribuem para a formação de um cidadãoacrítico. Eles colocaram o ensino da disciplina de História em segundo plano noscurrículos escolares. Assim é preciso levar em consideração o que diz Selva Guimarães: Dentre as varias mudanças sociais ocorridas no pós – 1964, as reformas no ensino foram as que mais afetaram diretamente a pratica de ensino da História e as condições em que o trabalho se processava. Isto influiu
  • 24 fortemente na vida dos professores de História, na motivação e no desenvolvimento das carreiras, provocando tensões, resistências e lutas contra as medidas decretadas pelo governo... (FONSECA, 2006,p.195). Reduzir a carga horária semanal reservada ao ensino de História.Banalizou a História ao incluí-la nos Estudos Sociais. Elaboraram diretrizesufanistas e patriotas através da Educação Moral e Cívica (EMC), da OrganizaçãoSocial e Política Brasileira (OSPB) e Controlavam os conteúdos dos livros didáticosde História. Segundo o Decreto N.º 68.065, de 14 de janeiro de 1971, a Históriadeveria ficar enquadrada no ensino “do culto à Pátria, dos símbolos nacionais,tradições, instituições e aos seus grandes vultos”. Contudo, apesar de todas as leisautoritárias, muitos professores conseguiram levar adiante com a sua função deeducadores, excitando a consciência crítica nos alunos. Eles foram, é claroperseguido como qualquer um que se opõe a ordem vigente. Trabalhar essa temática através da música como documento histórico emsala de aula requer algumas observações e cuidados pelo discente. Os professores até usam a música nas atividades de ensino e demonstramgrande interesse, mas o problema é que eles se referem a uma concepção bastanterestrita. A via de regra, ao fazerem uso dessa fonte material apenas endossamaquilo que a letra da música já apresentava de antemão. Dessa forma perde-se adimensão da própria historicidade. Remetendo-se ao engano de supor que umafonte fala por se só, perdendo de vista o diálogo entre a fonte e o historiador. Agindodessa forma corre o risco de tornar tal diálogo pobre e limitado, por que submete afonte a uma leitura que pouco ou nada irar esclarecer e revelar para além daquiloque já aparece como óbvio, até mesmo para não especialista. O professor de história tem uma grande responsabilidade na produção desentidos e interpretações que ele fará acerca de processos históricos vividos, poderáservir tanto como justificativa para a perpetuação das relações de poder ou comocombustível para luta e reivindicação para a transformação da realidade histórica. A responsabilidade do trabalho do historiador só tende a aumentar, lidam comalunos do ensino fundamental, médio e até mesmo universitário. Sabe-se que osrecursos didáticos não contribuem. Isso leva a impotência vivida pelo professordiante de salas superlotadas por alunos das mais diversas origens, idades erealidades sociais.
  • 25 Mas de qualquer forma, isso não justifica o pouco preparo que muitosprofissionais de história demonstram ao lidar com fonte que não seja exclusivamenteos livros didáticos como a música. Vale salientar que uma determinada música pode ser passível deinterpretações diferentes, como os próprios contextos sociais específicos, mastambém não basta analisar o contexto social e situar a música em seu interior,analisando os aspectos mais sobressalentes, como a letra, é preciso proceder deforma mais aprofundada, o que não implica ter conhecimento mais aprofundado demúsica. Mas supõe-se ao menos a ampliação de sua noção sobre aquilo queconstitui em sua fonte. É o desenvolvimento dessa concepção que permitirá a“leitura” de elementos nem sempre visíveis. Veja nessa música de Geraldo Vandré “pra não dizer que não falei das flores”,um caso interessante em que uma mesma música e letra pode assumir significadosdiferentes a partir de contextos sociais específicos: Durante a ditadura militar brasileira, vários movimentos de contestação viram simbolizar sua luta nos versos da canção de Geraldo Vandré, especialmente no trecho, Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. A partir do qual muitos deles assumiram que uma revolução social de classe (contra o redime militar...) não podia esperar. Recentemente o governo lula utilizou essa mesma canção para veicular umapropaganda do PROUNI, onde se percebe claramente quando colocada em outrocontexto, inverte á ideia de música engajada. O suporte musical foi trocado por uma batita de hip-hop, o solista um jovem negro, que ao caminhar e cantar os versos. Atraia em torno de si outros jovens, em sua maioria negro e então a propaganda acabava de forma imponente, com uma centena de jovens entrando no pátio da universidade. Nessa situação, trabalhava-se basicamente duas ideias centrais, nenhuma das quais relacionadas com a letra em si: as ideias de que o PROUNI viria democratizar o acesso ao ensino superior publico e que o problema da educação no Brasil é meramente uma questão racial. (...) o PROUNI faz uso de uma canção que um dia foi engajada para veicular uma ideia totalmente oposta. Por isso, ainda que os versos dessa canção tenham permanecido inalterada, sua utilização em outro contexto inverteu completamente aquele seu sentido inicialmente estabelecido. (CERRI, 2007, p.59)
  • 26 Para dar conta dessa discussão música e ensino de história vejamos comoandava a economia, a educação e as medidas ou mudanças adotadas no Brasildurante o governo militar. Haja vista que um dos mais importantes propósitos do governo militar seriadesenvolver o Brasil industrialmente, autorizando acréscimo da implantação demultinacionais no território brasileiro, de acordo com Maria do Carmo Martins: O governo federal teria dois tipos básicos de preocupação: o primeiro se daria em relação ao ideário nacionalista baseado nos princípios de segurança nacional respeitando-se a “ordem pública” e a “hierarquia dos poderes” e o segundo diz respeito ao projeto desenvolvimentista de governo, levando em consideração a necessidade de um mercado consumidor e consequentemente o trabalhador capacitado para o trabalho na indústria (MARTINS, 2007, p. 29) As instituições de ensino haveria de ter papel essencial nesse sentido, elateria que ser formadora de mão de obra para o setor industrial sem a necessidadede formar cidadãos críticos a ponto de poderem contestar as decisõesgovernamentais. Por tanto, não teria a necessidade das ciências humanasformadoras de senso crítico. Por consequência gerava uma negação de conteúdocrítico na formação geral do aluno. Em relação à negação da formação geral aoeducando, FONSECA (1993, p.25) nos coloca essa questão afirmando que: “Oobjetivo seria proporcionar uma educação que levasse em conta os ideais doConselho de Segurança Nacional cujo objetivo era controlar e reprimir as opiniões afim de evitar ou eliminar qualquer resistência ao regime autoritário em vigor”. Os profissionais da educação com licenciaturas curtas seriam na práticamenos qualificados, pois seriam formados a toque de caixa para atenderem anecessidade de mão de obra, tornando-se desta forma, meros proletários daeducação, Desta forma não teriam a formação necessária para serem autônomos,ou seja, tiravam-lhe a capacidade de formular por conta própria suas opiniões frenteàs imposições governamentais. Visto ser o docente supostamente o detentor dosaber, seria necessário acometer precisamente sua formação, tirando a capacidadede contestação, por isso foram criados os cursos de licenciatura curta através da Lei5692/71 que segundo Marilena S. Chauí: “Esta e suas sucessivas portariasregulamentam a implantação de Estudos Sociais e da licenciatura curta para formar
  • 27professores polivalentes em ciências humanas no irrisório prazo de um ano e meio”.(CHAUÍ, 1978, p.148). Sendo assim dentro desse contexto de forte controle autoritário sobre aeducação, onde há a “imposição” do conhecimento polivalente na área de EstudosSociais, somando-se ao curto período de formação do profissional em educação econsequentemente a baixa aquisição de conhecimentos, fatores esses responsáveispela falta de um espírito crítico nos futuros educadores que dessa forma, por falta desubsídios (conhecimento), também formarão “cidadãos” acríticos, sem capacidadede contestar ou protestar contra o que acham que não é direito, caminhando dessaforma para a formação da “geração do deixa para lá”, já que não há a consciênciade luta comum para algo melhor ou a “consciência” de que nada que se faça fará adiferença para melhorar as coisas, uma vez que não depende de nós. Era esse oobjetivo do governo militar ao elaborar leis ditatórias para a educação. A História por se referir a uma disciplina que trata com o conhecimento, com acausalidade dos fatos, seria necessário ao Regime Militar controlá-la de tal formaque não oferecesse perigo aos seus planos. Para isso, tratou de desestruturá-la naformação de seus profissionais, capacitando-os da forma mais ineficaz possível,tirando-lhes a capacidade de formular por conta própria suas opiniões, de transmitiraos seus alunos conhecimentos de tal forma que lhes permitisse ver e contestar asações autoritárias e contraditórias do Regime Ditatorial.
  • 28 CAPÍTULO III Ditadura militar no Brasil (pós-64) através da música: uma experiência em sala de aula. Uma das maiores ou a maior inquietação, enquanto professores de históriatem sido a dificuldade que os discentes têm demonstrado na aprendizagem destaárea do conhecimento, pois estes não conseguem entender o caráter dinâmicopróprio da história. Contudo, o ensino da história tem sofrido mudanças e sob ainfluência de novos enfoques teóricos e metodológicos, temos buscado novasformas de promover o processo de ensino-aprendizagem. Uma das propostas estáno uso de documentos históricos como a música, enquanto recurso de ensino. Perante o grande desafio em transformar as aulas de História em uminstrumento capaz de estimular o senso crítico dos alunos, algo substancial à suaformação cidadã, os professores frequentemente tem encontrado grandesdificuldades para atrair a atenção de seus alunos. Segundo Lana Mara C. Siman, a História não é uma ciência fácil, éprovavelmente a mais abstrata das disciplinas, já que o historiador trabalha com umambiente imaginário e utiliza linguagens e conceitos muito complexos (SIMAN, 2004,p.82). Hoje, muito se tem discutido o ensino/aprendizagem de História e comoocorre a produção do conhecimento histórico. Para Siman: “Sabemos que a tarefado professor é formar alunos capazes de raciocinar historicamente, criticamente ecom sensibilidade sobre a vida social, material e cultural das sociedades” (SIMAN,2004, p.83). Em meados da década de 60 a sociedade estava diante da falta de liberdadeem todos os aspectos, pensando numa forma de protestar, mas de forma camufladaalguns músicos criticavam o regime militar nos versos das canções através demetáforas. As canções engajadas compostas durante o regime militar (1964 - 85)ocupam um lugar de destaque na história da música popular brasileira. Esse tipo deregistro, explorado como material didático-pedagógico nas aulas de História doBrasil, além de tornar as experiências em sala de aula mais prazerosas e
  • 29instigantes, enriquece a bagagem cultural dos alunos e convida-os a refletir sobre aimportância da luta pela democracia e pelo respeito aos direitos humanos. Propõe-se que esse trabalho seja realizado com base nas músicas “Pra nãodizer que não falei das flores” de Geraldo Vandré, “Apesar de você” e “Cálice”, deChico Buarque de Hollanda. 3.1 - O conhecimento prévio dos alunos Apesar de sua complexidade e da lógica própria da história, o seu ensinodeve ser levado em conta que os alunos já trazem do convívio familiar e social, umasérie de conhecimentos e experiências, que os influenciam em sua maneira depensar o mundo. Assim diz Maria do Céu de Melo: Os professores devem investigar os conhecimentos tácitos dos alunos antes de trabalhar um determinado conteúdo. Mas este deve ser apenas o primeiro passo, aos alunos devem ser propostas tarefas que os tornem não só conscientes desse seu saber para, posteriormente, e através de situações de aprendizagem intencionalmente desenhadas, com elas serem confrontados. Só assim haverá contribuição para mudanças no modo dos alunos resolverem situações problemas, tanto na escola, como na vida. (MELO, 2001, p.52). Partindo dessa reflexão, realizou-se a implementação junto aos alunos do 9ºano do Ensino Fundamental II junto ao Colégio Estadual Gildásio Penedo localizadoem Tucano - BA. A primeira fase consistiu em pesquisar o perfil da turma através dequestionários previamente elaborados. No total, 27 alunos participaram da pesquisa,sendo 20 do sexo masculino e 07 do sexo feminino, com idades que variavam entre14 a 16 anos, havendo um total de 03 alunos repetentes. Ao serem questionados se gostavam de música, 100% responderam que sim. Quanto ao tipo de música preferida, foram citadas:
  • 30 Músicas Nº de vezes que foram citadas Sertaneja 13 Funk 09 Reagge 08 Pagode 07 Outros (Eletrônica, Rock, Gospel, Rap) 05 Ao questionar se gostam de História, obteve-se as seguintes respostas: 13alunos disseram que sim, pois é uma maneira de adquirir conhecimento; 3 disseramque não, devido aos textos que são necessários ler; 11 disseram mais ou menos,por motivos que não souberam explicar. Quanto à pergunta se é uma matéria fácil ou difícil, 05 alunos consideraramuma matéria difícil; 4 acharam que é fácil e 19 que depende do conteúdo e doprofessor. Entretanto, 26 alunos responderam que consideram importante estudarHistória. Neste sentido, remete-se à preocupação de Peter Lee sobre a forma comoos alunos conseguem reter as ideias sobre História, se estão no caminho deaprender, mas fazem-na parecer uma atividade dúbia e fútil. História não pode sertratada como um acúmulo de eventos. (LEE, 2006: 134) Os temas que acharam mais interessantes foram: Tema Nº de citações Astecas 17 Maias 16 Incas 15 Índios 06 Idade Média 03 Guerras 02(Grécia antiga, Dinossauros, Colonização do 01 Brasil, Contrarreforma, Espanha e suas colônias na America) Todos os temas 01 O passo seguinte foi solicitar sugestões de como tornar mais interessante oestudo de História, obteve-se as seguintes sugestões: Vídeos e imagens, utilização
  • 31de músicas, seminários, aulas mais dinâmicas, “Quiz” (é um jogo de perguntas erespostas com o objetivo de testar os conhecimentos; na sala de aula pode-se dividiros alunos em grupo para ver quem acerta mais), teatro e mais empenho por partedos discentes. Dos 27 alunos, 02 disseram que não sabiam como tornar o estudo deHistória mais interessante. Quanto à indagação se é possível aprender História através da música,obteve-se 13 alunos dizendo que sim é possível; 14 que talvez fosse possível enenhum aluno disse que não era possível. Passa-se então à segunda parte da intervenção, onde foi elaborado umquestionário para traçar os conhecimentos prévios dos alunos sobre o temapesquisado. As perguntas foram as seguintes: • O que você entende por Ditadura Militar? As respostas mais citadas foram:Não sei, 20 alunos. Alguns alunos, era um tempo que o governo militar mandava emtudo; guerra, armas, bombas, violência, mortes, e perdas de amigos e familiares; erauma época de muito tormento. • Quando ocorreu? Do total de alunos, 13 responderam que não sabiam; 10disseram que foi em 1964; outros responderam que foi em (1945, 1961, 1975). • Onde ocorreu? As respostas obtidas foram: não sabiam - 13; 06 disseramque foi no Brasil, 04 na Europa e outros (EUA, São Paulo, Minas Gerais, Índia). • Escreva cinco palavras que melhor expressam o que foi a Ditadura Militar. Palavras Nº de citações Guerra 07 Luta 03 Armas 03 Miséria 03 Destruição 02 Bombas 02 Tristeza 02 Corrupção 05 Morte 06Outras (presos, violência, polícia, maldade) 01 Não souberam responder 11
  • 32 Percebe-se que esta lista de palavras que os alunos relacionaram ao RegimeMilitar, indica uma concepção adquirida previamente à sala de aula, que pode tersido adquirida de várias formas: com a família, através do cinema e televisão,literatura, etc. Com relação à outra pergunta: • Você acha que ainda existe ditadura? Explique. Neste momento, 22 alunos disseram que não sabiam e 5 disseram que sim,mas não sabiam como explicar. O que indica, talvez, a permanência de ideias deviolência e formas de censura ainda presentes, de forma inconsciente, na memóriadestes jovens, relacionadas ao regime militar.3.2 - O uso da música: uma proposta de produção de conhecimento com os alunos Quando a proposta de utilização da música foi apresentada aos alunos,observa-se que foram tomados pela curiosidade e ansiedade. A receptividade foisatisfatória, isto foi muito positivo na concentração e absorção das ideiasexplicitadas pela obra musical. Após a escolha e seleção das canções, preparei omaterial de apoio (cópias das letras, textos, CDs, aparelho de som, TV, Pendrive,data show). Passei então para a contextualização do momento histórico a serestudado. Expliquei que a crise política se arrastava desde a renúncia de JânioQuadros em 1961. Na aula seguinte falamos sobre a Jovem Guarda e oTropicalismo. O próximo passo foi tratar sobre os festivais. Informei-os que oprimeiro grande momento da era dos festivais foi, sem dúvida, o II Festival da MPB,exibido pela TV Record e que o sucesso dos festivais se repetiria em 1967. Nestaaula expositiva eles aprenderam que os festivais musicais contribuíram para aconsolidação da MPB, e que foram momentos importantes para a expressão culturalbrasileira e também para protestos contra o regime militar. Após os esclarecimentos e informações sobre o contexto histórico colocamos“a mão na massa” e chegamos finalmente ao uso da música como fonte histórica. Ascanções trabalhadas foram as composições “Apesar de você” (Chico Buarque, 1970)e “Cálice” (Chico Buarque e Gilberto Gil, 1973) e “Pra não dizer que não falei dasflores” de Geraldo Vandré.
  • 33 Chegando à sala de aula, minha primeira providência foi colocar as músicaspara tocar e distribuir as letras para os alunos. Feito isto, pude estabelecer um diálogo com a turma, perguntando se algumdeles já tinha ouvido uma daquelas canções, se são capazes de identificar o cantore se compreendem o significado das letras apresentadas. À medida que asrespostas apareciam, exibi para os alunos uma pequena biografia do cantor eexpliquei as condições em que cada música foi escrita. Num segundo momento, asletras foram analisadas separadamente, explorando-se o significado de cada estrofee reportando-o à conjuntura política da época, particularmente no que se refere àsupressão dos direitos políticos e à violação dos direitos humanos dos cidadãos. “Apesar de você” foi escrita por Chico Buarque assim que voltou do exílio.Uma leitura menos atenta da música permite que seu tema seja identificado comouma briga de namorados, e talvez tenha sido por esse motivo que a composiçãopassou tão facilmente pela censura. Lançado num compacto simples, o discovendeu quase cem mil cópias e estourou nas rádios de Rio de Janeiro e São Paulo,sendo cantado em coro por todos aqueles que se mostravam descontentes com amanutenção do regime autoritário. Mas depois foi vetada ao sair uma notícia nojornal afirmando que o “você” da música se referia ao presidente Medice. Eis a letrada música:“Apesar de você”(Chico Buarque, 1970)Hoje você é quem manda Você que inventou esse estadoFalou, tá falado E inventou de inventarNão tem discussão Toda a escuridãoA minha gente hoje anda Você que inventou o pecadoFalando de lado Esqueceu-se de inventarE olhando pro chão, viu O perdão Nos versos acima contêm referências explicitas ao fim da liberdade deexpressão após a promulgação do Ato Institucional nº 5, AI-5, baixado em 13 dedezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi a expressãomais acabada da ditadura militar brasileira.
  • 34(Refrão) Da enorme euforia Como vai proibirApesar de você Quando o galo insistirAmanhã há de ser Em cantarOutro dia Água nova brotandoEu pergunto a você E a gente se amandoOnde vai se esconder Sem parar O compositor expressa otimismo e acredita em mudanças. Apresenta umclima de esperança em relação ao futuro, relacionado com a palavra amanhã. Éonde entra a expressão que dá título à música: Apesar de você. Apesar de você,senhor presidente, tudo vai melhorar, o futuro promete coisas boas.Quando chegar o momento Você que inventou a tristezaEsse meu sofrimento Ora, tenha a finezaVou cobrar com juros, juro De desinventarTodo esse amor reprimido Você vai pagar e é dobradoEsse grito contido Cada lágrima roladaEste samba no escuro Nesse meu penar Esse trecho aborda o descontentamento com a continuidade do regime. E háum latente desejo de vingança, desafia-se o regime moralmente.Apesar de você Você vai se amargarAmanhã há de ser Vendo o dia raiarOutro dia Sem lhe pedir licençaInda pago pra ver E eu vou morrer de rirO jardim florescer Que esse dia há de virQual você não queria Antes do que você pensa O eu ainda anuncia que seu lado sairá como vencedor.Apesar de você Outro diaAmanhã há de ser Você vai ter que ver
  • 35A manhã renascer De repente, impunementeE esbanjar poesia Como vai abafarComo vai se explicar Nosso coro a cantarVendo o céu clarear Na sua frente... E provoca os governantes que, no futuro, já não terão mais poder. Já a música “Cálice”, informei-os que é uma das melhores composições de ChicoBuarque, somando-se o fato dele ter como parceria a genialidade de Gilberto Gil,compuseram uma grande obra. Os versos da canção estão imbuídos de metáforasusadas para contar o drama da tortura no Brasil no período militar. Disse também que “Cálice” foi composta para ser especialmente apresentadanum evento promovido pela PolyGram. No entanto, no dia do show, os microfonesdos cantores foram desligados para que não pudessem cantar sua música.Indignados, os cantores procuraram outros microfones para que pudessem cantar,mas um a um eles foram sucessivamente desligados. Desta forma, calou-se“Cálice”. Boa parte da música pode ser compreendida como uma analogia entre a Paixãode Cristo e o sofrimento vivido pela população aterrorizada com o regime autoritário.Assim diz o refrão: Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue (BUARQUE; Chico e Gilberto Gil, Cálice;1973.) Sintetiza uma súplica por algo que se deseja ver à distância; é o cálice queremete a forma imperativa do verbo calar, “cale-se”, representando toda a essênciaautoritária do regime militar que impunha o silêncio de ideologias contrárias a ele ecalava todas as atitudes de contestação. Como beber dessa bebida amarga Tragar a dor, engolir a labuta
  • 36 Mesmo calada a boca, resta o peito Silêncio na cidade não se escuta De que me vale ser filho da santa Melhor seria ser filho da outra Outra realidade menos morta Tanta mentira, tanta força bruta Os versos reflete o quadro tenso da situação política em vigor. O paradoxo“escutar o silêncio” denuncia o fato de não haver tranquilidade nas ruas, mas sim,confusão, barulho. E é, justamente, o “barulho” da repressão dos agentes dosistema contra quem se opunha a ele. Ou seja, a palavra silêncio estáimplicitamente relacionada à censura. A música também nos remete a outrasquestões como os mal explicados desaparecimentos e execuções de presospolíticos, a angústia trazida pelo convívio com os aparelhos repressores e a falta deperspectiva para a instauração de um regime democrático. Como é difícil acordar calado Se na calada da noite eu me dano Quero lançar um grito desumano Que é uma maneira de ser escutado Esse silêncio todo me atordoa Atordoado eu permaneço atento Na arquibancada pra a qualquer momento Ver emergir o monstro da lagoa O eu lírico admite a dificuldade de aceitar passivamente as imposições deregime e permanecer calado diante de atos escusos (prisões e torturas) que eramrealizados, preferencialmente, à noite. E aí reside uma grave crítica a postura dosmilitares: tudo era tão arbitrário que precisava ser feito “às escondidas”, “àsescuras”. De muito gorda a porca já não anda De muito usada a faca já não corta Como é difícil, pai, abrir a porta
  • 37 Essa palavra presa na garganta Esse pileque homérico no mundo De que adianta ter boa vontade Mesmo calado o peito, resta a cuca Dos bêbados do centro da cidade É possível relacionar essa porca que já até passou do tempo do abate, com osistema em vigor, ineficiente e “mais que pronto” para acabar. Talvez o mundo não seja pequeno Nem seja a vida um fato consumado Quero inventar o meu próprio pecado Quero morrer do meu próprio veneno Quero perder de vez tua cabeça Minha cabeça perder teu juízo Quero cheirar fumaça de óleo diesel Me embriagar até que alguém me esqueça Diante de tanta dor e sofrimento, um dos elementos recorrentes nasexpressões artísticas da época foi a bebida. Com sentido aparentemente ilógico,“Quero perder de vez tua cabeça / Minha cabeça perder teu juízo” traz a ideia deque o Eu deseja ter seu próprio juízo e não o do poder repressor. Quer decapitar acabeça da ditadura e libertar-se do juízo imposto por ela, para ter suas própriasideias e ponderações. E por fim a canção considerada um dos hinos da resistência ao regime militar“Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré”. Neste momento optei emutilizar a musica com uma nova roupagem na voz de Charlie Brown Jr. no estilo poprock. Pra fazer um paralelo entre os períodos históricos através da melodia; vistoque por ser cantada e interpretada por um cantor que faz parte do cotidiano do alunopercebe que houve um maior entrosamento ou/e participação. Ao longo da aula houve muito diálogo com os alunos onde analisamos cadaestrofe: Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores
  • 38 (Geraldo Vandré, 1968) Caminhando e cantando E seguindo a canção Somos todos iguais Braços dados ou não Representa as passeatas que reuniam, em sua maioria, jovens que tinhamconsigo um desejo de mudança, ambições e sonhos, eram movidas a cartazes deprotestos, a vozes gritantes que entoavam hinos e músicas. Nas escolas, nas ruas Campos, construções Caminhando e cantando E seguindo a canção As manifestações eram compostas de pessoas de diversos ambientes, masque possuíam o desejo de mudança em comum. REFRÃO: Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer Esse trecho contesta sobre aqueles que sofriam o momento na pele e nãofaziam nada, afinal não se muda um país, ficando parado. Quem sabe faz a hora,não espera acontecer. Pelos campos há fome Em grandes plantações Pelas ruas marchando Indecisos cordões
  • 39 As pessoas que trabalhavam nos campos, ou que eram agricultores, tambémsofriam com a ditadura, os poucos que possuíam um pedaço de terra a mesmalhe era tomada, os camponeses muitas vezes eram despejados e acabavam porpassar fome. Ainda fazem da flor Seu mais forte refrão E acreditam nas flores Vencendo o canhão Enquanto os militares reprimiam os protestantes com canhões, bombas degás, e armas, a população saia nas ruas com cartazes e com a força de suasvozes, muitos atirando pedras e tudo o que se estivesse ao alcance, mas nadaparecia ser tão forte e provocante quanto os gritos, as palavras de ordem dosmovimentos estudantis, frases e músicas daquele ano, essas sim eram suasverdadeiras flores. Há soldados armados Amados ou não Quase todos perdidos De armas na mãoOs soldados estavam sempre armados e dispostos a prender os manifestantes elevá-los para as salas do DOPS, porém, muitos pareciam alienados, não sabiamdireito o que acontecia ou fingiam não saber. Nos quartéis lhes ensinam Uma antiga lição: De morrer pela pátria E viver sem razão Os soldados aprendiam lições e como se houvesse uma lavagem cerebralaceitavam cumprir as ordens do governo, mas acredito que em sua maioria
  • 40 muitos sabiam exatamente o que faziam e concordavam com os planos e métodos. Os amores na mente As flores no chão A certeza na frente A história na mão Caminhando e cantando E seguindo a canção A maioria, se não todas as pessoas que participavam ativamente dos manifestos eram motivados pelas perdas que sofriam, pelas mortes de amigos, parentes, conhecidos. Aprendendo e ensinando Uma nova lição Grande parcela dos jovens brasileiros de hoje, desconhecem o período desde o golpe militar até o fim da ditadura, o desejo de mudança, a fome por liberdade e a coragem de lutar não está entre as principais prioridades do jovem do século XXI. Após a intervenção pedagógica, foi aplicada a segunda parte do questionário,onde analisou-se as respostas apresentadas, no qual observa-se os seguintesresultados: • O que você entende por Ditadura Militar? Obtive-se 19 respostas relacionadas à censura e 17 relacionadas aomilitarismo. • Quando ocorreu? Todos os alunos responderam que foi no período de 1964 a 1985. • Onde ocorreu? No Brasil, foi a respostas dos 27 alunos. •Escreva cinco palavras que melhor expressam o que foi a Ditadura Militar.
  • 41 Palavras citadas Número de vezes Morte 23 Tortura 21 Falta de liberdade 16 Repressão 09 Exílio 09 Sofrimento 08 Abuso de poder 07 Guerra 05 Proibição 04 Censura 04 Anistia 03 Corrupção 02 Outras (falta de democracia, supressão de 01 direitos, perseguição política, desaparecimento, terror, desespero) •Você acha que ainda existe Ditadura? Explique. As respostas positivas (13) foram relacionas a Coreia do Norte e a Cuba; jáas respostas negativas (14) foram relacionadas ao processo democrático econstitucional que vivemos no país. Uma última pergunta abordada foi se após a intervenção do tema DitaduraMilitar através da música, é possível aprender História através da música. Foi muitogratificante observar que quase 100% dos alunos disseram que é possível, apenas 1aluno disse (talves). Segundo o aluno R.S.A. 15 anos: “Sim, pois a música é uma forma prática de aprender.” Ou ainda a aluna A.V.J. 15 anos “: “Sim, a letra da música fala muito da sociedade da época.” A aluna C.M.S. 14 anos, disse: Sim, por exemplo, a canção de Geraldo Vandré, no refrão diz: “caminhando ecantando, seguindo a canção somos todos iguais braços dados ou não.” Onderepresenta as passeatas que reuniam em sua maioria jovens que tinham consigo odesejo de mudança. A aluna L.J.P. 14 anos: “Sim, as músicas contam a história e guardam em suas letras as aflições queas pessoas tiveram, se não as analisarmos não entenderemos o que queriam dizer”.
  • 42 Ao final percebe-se, através do processo de categorização, que os alunosobtiveram, através da música como mediação nas aulas, uma forma mais eficaz deaprendizagem sobre este tema e que foi possível sim, a produção de conhecimentohistórico em sala de aula.
  • 43 CONSIDERAÇÕES FINAIS Acredita-se que a proposta aqui apresentada, constitui-se em uma ferramentaou instrumento pedagógico de grande valia na busca de inovações metodológicasna sala de aula. A música facilitou a relação professor/aluno e contribuiu para oensino de História, já que está voltada à prática do aluno. As interpretações e/ou suposições, fundamentada no contexto histórico, queos discentes realizaram das canções mostraram seu senso crítico e o interessedespertado por essa metodologia de trabalho; uma vez que demonstraramentendimento da mensagem. Dessa forma não há dúvida que a utilização da cançãocomo instrumento de ensino é um recurso que desperta, incita e motiva acriatividade do aluno, favorecendo o ensino-aprendizagem de História maissignificativo. A MPB engloba muitas temáticas além da proposta neste trabalho, e o seuuso no ambiente escolar não pode estar limitado a simplesmente interpretar e/ouanalisar as composições musicais, mas ao seu papel histórico e, principalmente, seupoder de construir e transformar ideias e conceitos. Ainda, conclui-se que o trabalhointerdisciplinar é essencial para que o conhecimento fornecido por esse tipo de fontehistórica não seja algo fragmentado. Reafirma-se que as fontes históricas seja amúsica ou qualquer documento histórico, não devem ser simplificados a uma merailustração de conteúdos, uma vez que se traduzem em artefatos culturais repletos deintencionalidades. As fontes devem assumir um papel fundamental de significaçãona estrutura cognitiva do aluno. Ao decidir pelo uso da música popular no ensino de história, a problemáticada questão estar em defender a abordagem da música como fonte histórica a serestudada em todos os seus aspectos da mesma forma que os demais documentos osão. Dando a música sua devida importância quanto ao seu valor histórico e suaimportância no cenário histórico, sobretudo, na ditadura militar do Brasil (1964 –1985) tema abordado por esse trabalho. A riqueza da música esta nesta capacidadede reunir em torno dela toda uma gama de significados e visões de mundo de umaépoca. Cabe a nós, professores pesquisadores, investigar estes significados.
  • 44 Analisar canções requer trabalho, dedicação e paciência, mas muitorecompensador considerando que sua utilização em sala de aula, tornara oambiente escolar inclusivo e o ensino construtivo.
  • 45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASCHAUÍ, Marilena. A Reforma do Ensino de História. Discurso nº 8. São Paulo:FLCH/USP, 1978.CERRI, Luiz Fernando. Ensino de história e educação: olhares em convergência,p.59.DUARTE, Geni Rosa. História e Música. In: CATTELAN, João C e VONBORSTEL,Clarice Nadir (orgs). Anais da 5ªJELL – Jornada de Estudos Linguísticos eLiterários “Linguística: linguagens e produção de sentidos”. UNIOESTE, MarechalCândido Rondon, Pr: 07 a 09 de novembro de 2002, p. 187FONSECA, Selva Guimarães. Caminhos da História Ensinada. 10ª ed. São Paulo:Papirus, 1993.FONSECA, Selva Guimarães. Didática e Prática de Ensino de História. 4ª ed. SãoPaulo: Papirus, 1993.FONSECA, Selva Guimarães. Ser professor no Brasil: história oral de vida. 3ª ed.São Paulo: Papirus, (2006).LEE, Peter. Em direção a um conceito de literacia histórica. Educar em Revista.Curitiba: Ed. UFPR, 2006, p. 131-150.Letras das músicas de Chico Buarque da década de 70, “Cálice e Apesar de você”;Disponíveis in: http://letras.mus.br/chico-buarque/45121/MARTINS, Maria do Carmo. Currículo, cultura e ideologia na ditadura militarbrasileira: demarcação do espaço de atuação do professor. In: CERRI, LuizFernando. (org). O Ensino de História e a Ditadura Militar. 2ª ed. Aos Quatro Ventos,2007.MORAES, José Geraldo Vinci de. “História e música: canção popular econhecimento histórico”. IN: Revista Brasileira de História, 20/39,ANPUH/Humanitas/FAPESP, 2000, p.204-205.MORAES, José Geraldo Vinci de. História e Música: canção popular e conhecimentohistórico. IN: Revista Brasileira de História, ANPUH/Humanitas/FAPESP, 2000,20/39, São Paulo 2000. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/29556076/Historia-e-musica-consideracoes-teorico-metodologicasMusica “pra não dizer que não falei das flores” na voz de Charlie Brown Jr.;Disponíveis in: http://letras.mus.br/charlie-brown-jr/64460/
  • 46OLIVEIRA, Niara de. Desarquivando o Brasil, 2011. Disponível em:http://pimentacomlimao.wordpress.com/2011/01/30/desarquivando-o-brasil/PARANHOS, Adalberto. Sons de sins e nãos: a linguagem musical e aprodução de sentidos. Revista do programa de estudos pós-graduadosem História e do departamento de História da PUC -SP, número 20. SãoPaulo, Educ, abril de 2000, p. 223PLAZZA, Rosimary. Artigo disponível em:http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/producoes_pde/artigo_rosimary_plazza.pdfVOS, Jeannette; DRYDEN, Gordon. Revolucionando o Aprendizado. São Paulo:Ed. Makron, 1996.