Meio ambiente bases hist.  capítulo 1 - marília brandão
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Educação Ambiental

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Meio ambiente bases hist.  capítulo 1 - marília brandão Meio ambiente bases hist. capítulo 1 - marília brandão Document Transcript

  • Capítulo 1 - Meio Ambiente Bases Históricas e Conceituais da Educação Ambiental É a partir da década de 1970 que a Educação Ambiental dá seusprimeiros passos, embora, e exatamente por isso, os processos dedeterioração do ambiente já estivessem em pleno vapor. Como os movimentosambientalistas, essa modalidade de educação vai tomando forma à medida quecresce na sociedade uma visão de que é preciso fazer alguma coisa diante dadegradação ambiental de um mundo que cada vez mais consome, concentrariquezas e distribui seus estragos no ambiente. Não há dúvidas que os meios de produção e de consumo constituem o eixo de sustentação desse modelo econômico, cujo princípio é aumentar o lucro a partir da compreensão de que a natureza não passa de uma fonte de matéria-prima e energia (MUNDO SU STENTÁVEL, ANDRÉ TRIGUEIRO, 2005). Assim, a escassez dos recursos naturais não renováveis, ocomprometimento da qualidade ambiental como um todo, a perda dabiodiversidade, a poluição dos solos, das águas e da atmosfera sãoconseqüências indiscutíveis deste modelo de crescimento econômico. Emboranão tenhamos construído historicamente, na prática, nada que o substitua comsucesso, do ponto de vista da sustentabilidade ambiental. Mesmo nas décadas de 1960/70, a degradação já era evidente nospaíses desenvolvidos, mas não tão disseminada e impactante como nos diasde hoje. É certo que, os grandes acidentes ambientais que vinham ocorrendo,desde 1952, serviram como alerta para a opinião pública reconhecer, pelomenos no plano teórico, que esse modelo econômico precisa caminhar nosentido de levar em conta os serviços ambientais fornecidos pela natureza viva,pela natureza preservada. Esses acidentes ambientais, se é que devemos chamá-los assim, pelassuas proporções ou significado simbólico, têm grande valor comoensinamentos, pois mobilizam a opinião pública por se tratarem da morteevitável, causada pela negligência e irresponsabilidade diante da vida humana. Minamata, no Japão, em 1952, foi cenário de um acidente que causou amorte de 79 pessoas e lesões físicas e mentais em mais 602. A causa foi apoluição das águas marinhas por galões de agrotóxicos abandonados no fundodo mar. Com o tempo, o conteúdo venenoso vazou, acumulando mercúrio emtoda a cadeia alimentar marinha. A população que se alimentou do peixecontaminado, morreu ou ainda sofre com problemas neurológicos. Também no mesmo ano, em Londres, uma inversão térmica, fenômenoclimático natural, provocou uma nuvem de poluição sobre a cidade. O ar deLondres, contaminado pelos poluentes das fábricas, ao invés de se difundir nascamadas mais altas da atmosfera, desceu sobre a cidade provocando a morte
  • de 1.600 pessoas, o que mobilizou a sociedade para a criação da Lei do ArPuro. Na Índia, na cidade de Bhopal, em 1988, um acidente em uma indústriaprovocou o vazamento de gás venenoso (metil-isocianeto) matando duas milpessoas e ferindo 200 mil. A Ucrânia, país da antiga União Soviética, foi palco do maior acidentenuclear do mundo, quando a explosão de um reator de Chernobyl provocou ovazamento de combustível atômico. Essa tragédia matou cerca de dez milpessoas e afetou quatro milhões, dada a amplitude da área contaminada. De modo geral, os acidentes aqui relatados, e muitos outros que fazemparte da longa lista das tragédias ambientais, mostram o descaso, a falta decuidado com a vida humana, a imprudência com a preservação do suportenatural que sustenta a teia da vida no planeta. Essa compreensão, dos riscosambientais frente às escolhas das estratégias de desenvolvimento, foi sendoconstruída, pouco a pouco, na sociedade. Essa compreensão é, sem dúvida,mediada por interesses econômicos, político-ideológicos, culturais e sociais. Reconhece-se, hoje, a importância das contribuições de cientistas, damídia esclarecida, das universidades, dos formadores de opinião, que vêmjogando um papel decisivo para que a consciência ambiental da populaçãoavance e se consolide. A preocupação ambiental já é senso comum em muitospaíses do mundo. Ele marca uma sociedade cuja arma de destruição principalnão é mais a bomba, e sim os meios que ela escolheu para viver. A publicação do livro “Primavera Silenciosa”, de Raquel Casson, em1962, é uma contribuição fantástica para a formação da consciência ambientalna sociedade Norte-americana, quiçá do mundo ocidental. O livro discute ainfluência do DDT usado para o controle de pragas na agricultura na diminuiçãoda biodiversidade, em especial seu efeito cumulativo nas cadeias alimentares eos riscos para extinção de várias espécies de aves e insetos. Daí se explica onome do livro: Primavera Silenciosa (sem o canto dos pássaros). Esse livro foium referencial importante na formulação e no desenvolvimento da consciênciaecológica que eclodiu no final dos anos 60. Antes, muito antes, essa forma de pensar era um privilégio de mentescultas e esclarecidas que já mostravam essa preocupação em suas obras. Aquino Brasil, pesquisas revelaram a existência de uma reflexão profunda e muitoconsistente sobre a questão ambiental expressa nos escritos de grandesintelectuais, ainda no Século XIX. Muito antes que os problemas ambientais seagravassem de fato, alguns memoráveis escritores, como Batista da SilvaLisboa, Joaquim Nabuco e José Bonifácio de Andrade e Silva, jádemonstravam preocupação clara com o meio ambiente (Pádua, 2002). Odiscurso desses notáveis brasileiros, em pleno Século XIX, já defendia o usointeligente dos bens naturais e considerava “crime” os danos provocados pelasqueimadas das florestas, o desmatamento para a extração de pau-brasil eoutras plantas que infelizmente foram extintas pela visão imediatista eutilitarista do colonizador português. A revolucionária década de 1960 criou um contexto histórico altamentefavorável aos movimentos sociais. Muitos têm aí seu nascedouro ou seuespaço de exposição maior. O movimento negro, o feminismo, os movimentospacifistas contra a Guerra do Vietnã, paz e amor, o movimento homossexual eambientalista.
  • Nesse rico caldo de cultura dos anos 60, o ano de 1968, que já completa40 anos, ainda é lembrado pela sua significância na mudança decomportamentos e atitudes da sociedade. As manifestações estudantis de maiode 1968 levaram para as ruas as bandeiras políticas e os anseios da juventudepor uma sociedade mais pacífica, mais justa, de direitos iguais para negros,homossexuais, homens e mulheres. “Também foi em 68 que teve início uma consciência ambiental cada vezmais popular diante do temor de que o planeta passe a ameaçar a própriaexistência humana, a partir das mudanças climáticas drásticas e da escassezdos recursos naturais.” (Jornal O Povo – Vida e Arte – Especial, dia 18 de maiode 2008/ 68 – O Ano da Revolução). É interessante levar em conta, que, para muitos, a política verde é umaespécie de celebração. É uma maneira de reconhecer a identidade do humanocom as outras formas de vida, reconhecer que fazemos parte da grande teia deinter-relações que permite a vida no planeta. Que fazemos parte dosproblemas, mas também podemos contribuir, em muito, para a solução. Estemodo de pensar está muito bem expresso no livro Pensando Verde, onde PetraKelly ressalta também que o ambientalismo sinaliza para o simplificar da vida eo viver em harmonia com valores humanos e ecológicos: “Haverá melhorescondições de vida porque nos permitimos começar...” A política verde passapor uma reformulação de valores pessoais, uma certa revolução interior decada um, reconhecida como o verdejar do ser. (Manuel Castell) Assim, como o ano de 1968 foi histórico para o surgimento de uma novaconcepção de mundo, quando se bradava contra a sociedade de consumo, asguerras, a injustiça social, a degradação ambiental, o preconceito racial esexual, o ano de 1972 foi também histórico, no sentido de marcar a primeiragrande ação dos governos do mundo que reconhecia a degradação ambientalcomo resultante da opção de desenvolvimento. Trata-se da ConferênciaMundial para o Desenvolvimento Humano, mais conhecida como Conferênciade Estocolmo, promovida pela ONU. Essa reunião, de certa forma, foi realizadaainda sob o impacto dos resultados do Relatório do Clube de Roma,organizado por representantes do pensamento capitalista preocupados com oslimites do crescimento. O objetivo era pesquisar até quando se poderiacontinuar crescendo, sem os riscos de faltarem recursos naturais, dentro deuma orientação essencialmente voltada para o consumo. Celso Furtado, na época, refletindo sobre os limites do crescimento,afirmava: “A qualidade e os padrões de consumo dos países desenvolvidosnão podem ser estendidos a todos os países do planeta, pois, se issoocorresse, a pressão sobre os recursos naturais e/ou o controle da poluiçãoseria de tal ordem que o sistema econômico mundial entraria em colapso”, ouseja, quebraria. O que isso significa? Que o planeta Terra, da forma como estásendo explorado, só pode manter o consumo desenfreado de poucos. Essaforma de exploração dos bens naturais é por natureza segregadora. Portanto,para que existam os grandes consumidores, é necessário que existam osexcluídos do mercado, os excluídos do consumo, os excluídos dos bens danatureza. Desenvolver sem descuidar do meio ambiente foi uma grande orientaçãoda Conferência de Estocolmo. A Educação Ambiental aparece nasrecomendações dessa reunião como uma estratégia para que a sociedade crie
  • mecanismos de convivência com o meio ambiente que levem a uma reduçãodos efeitos danosos do desenvolvimento. É somente 20 anos depois, naReunião Rio-92, mais conhecida como ECO- 92, que a comunidade planetáriaexpressa um sentimento profundo de desconforto com as opções dedesenvolvimento trilhadas pelo mundo moderno. Note-se que, nessas alturas, já se vivia claramente um tempo deglobalização. O muro de Berlim já havia caído, já se discutia, no seio dosmovimentos ambientalistas e no mundo acadêmico, as propostas deDesenvolvimento Sustentável. O capitalismo se mostrava hegemônico, nosentido das alternativas de desenvolvimento. O clima na ECO- 92 já estavaminado pelas idéias do Desenvolvimento Sustentável, aquele que promove odesenvolvimento sem comprometer a capacidade de suporte dosecossistemas, nem a possibilidade de vida das futuras gerações. SegundoIgnacy Sachs: A aposta num desenvolvimento econômico e social contínuo, harmonizada com a gestão racional do meio ambiente, passa pela redefinição de todos os objetivos e de todas as modalidades de ação. O ambiente é, na realidade, uma dimensão do desenvolvimento; ele deve ser, portanto, internalizado em todos os níveis de tomada de decisão. De fato, os problemas de uso dos recursos naturais, de suprimento energético, de meio ambiente, de controle demográfico e de desenvolvimento só poderão ser corretamente percebidos quando examinados em suas relações mútuas, o que implica num quadro conceitual unificado de planejamento. Para os países pobres, a alternativa se coloca em termos de projetos de civilização originais ou de não desenvolvimento, não mais parecendo possível e, sobretudo tampouco desejável, a repetição dos caminhos percorridos pelos países industrializados. O Relatório Planeta Vivo, de 2006, do Fundo Mundial para Natureza, nosoferece um dado muito mais preocupante: diz ele que, se as coisascontinuarem seguindo esse mesmo ritmo, ou seja, o tipo de desenvolvimentoeconômico continuar com a mesma voracidade atual, antes do ano de 2050,precisaremos de mais de duas Terras para suprir a demanda de recursosnaturais da humanidade. É importante prestar atenção que nessa conta ospobres vão continuar pobres. E é claro que é sobre eles que recai o maiorcusto da degradação ambiental: aumento da fome, agravo das condições desaúde, saneamento e moradia, configurando-se assim uma grande questão dejustiça ambiental. Não é sem razão que neste inicio de século vivencia-se um expressivodesequilíbrio da economia mundial, provocado, entre outros fatores, peloaumento progressivo do nível de consumo de parte da população mundial, atéentão excluída do mercado, como é o caso da China, da Índia e do Brasil. Um dos papéis primordiais da educação ambiental, referenciado emtodos os documentos, desde a Carta de Tbilise, é promover a capacitação dosatores sociais para perceberem os problemas ambientais de seu espaço devida. Compreendê-los e relacioná-los com suas múltiplas dimensões: social,ecológica, econômica, política, cultural, científica, tecnológica e ética. Leonardo Boff, em artigo de 2006, reflete sobre a necessidade de umaeducação que promova a aprendizagem do pensamento sistêmico, integrado.Diz ele: “Aprender a pensar é decisivo para nos situar autonomamente no
  • interior da sociedade do conhecimento e da informação [...]. Para pensar deverdade precisamos ser críticos, criativos e cuidantes.” Assim, é tarefa dos educadores ambientais criar situações pedagógicasque estimulem a visão sistêmica, a reflexão crítica sobre os problemasambientais e suas formas racionais e criativas de superação, para formarpessoas capazes de cuidar dos seus espaços de vida antenadas com asquestões ecológicas do planeta. É importante ressaltar que a percepção da realidade deve contemplarnão só os aspectos problemáticos, mas também as potencialidades dascidades, dos ecossistemas locais, suas vocações naturais, muitas vezesadormecidas na comunidade. Potencialidades que podem constituir-se empossíveis caminhos em busca da sustentabilidade econômica, socioambiental ecultural do lugar. A percepção do meio ambiente é parte do processo de formação deconhecimentos e, conseqüentemente, informada por um sistema de valoressocialmente construído. Ela afere significados à realidade que cada umpercebe como membro do grupo social ou como indivíduo. A realidade é,portanto, re-construída mentalmente no cotidiano das pessoas. Um dos grandes desafios, no plano da educação, é a percepção dosproblemas ambientais, uma vez que eles têm múltiplas dimensões que se inter-relacionam fortemente. Os métodos tradicionais de pensar os problemas domundo, a partir de saberes fragmentados, não mais dão conta das realidadesmultidimensionais e da complexidade da questão ambiental, com suasmúltiplas facetas. Assim, o desafio é entender o contexto e reconhecer acomplexidade inerente à natureza do conhecimento. “O conhecimento das informações ou dos dados isolados é insuficiente.É preciso situar as informações e os dados em seu contexto para que elesadquiram sentido... A educação deve promover a ‘inteligência geral’ apta areferir-se ao complexo, ao contexto, de modo multidimensional e dentro da suaconcepção global” (EDGAR MORIN). O Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis eResponsabilidade Global, produzido pelos participantes do ECO- 92, no Rio deJaneiro, reforça esse princípio quando afirma que: A Educação Ambiental deve tratar de questões globais críticas, suas causas e inter-relações em uma perspectiva sistêmica, em seu contexto social e histórico. Aspectos primordiais relacionados com o desenvolvimento e o meio ambiente, tais como população, saúde, paz, direitos humanos, democracia, fome, degradação da flora e fauna devem ser abordados dessa maneira (ECO- 92). Assim, reconhece-se que a Educação Ambiental pode contribuir para umsalto qualitativo no processo da educação tradicional, pois se atribui a tarefa deconstruir novos sentidos e práticas que não são comumente cultivados noespaço da escola. A natureza complexa da temática ambiental impõe ao educador a tarefade, junto aos educandos, tecer redes de significados que alimentem umaanálise crítica da realidade a ser re-construída pelo grupo, a partir das
  • experiências pessoais de seus participantes e das ações vivenciadas noprocesso educativo. É, portanto, um desafio constante o trato com o enfoque inter etransdisciplinar, exigência fundamental para construção das redes designificados próprias da temática ecológico-ambiental. Daí a necessidade deuma postura dialógica, tolerante e participativa. Um exemplo interessante deste processo de formação de redes ésugerido por Mauro Guimarães no livro “A Dimensão Ambiental da Educação”,em que tomamos a liberdade de introduzir algumas modificações: • Retirem do lixo um pedaço de papel. De onde ele veio? • Que acontece com a floresta e com a atmosfera quando as árvores são cortadas? • Se esse desmatamento tiver ocorrido próximo a rios e riachos, o que pode acontecer? • O que pode ocorrer com o solo quando as próximas chuvas caírem sobre a área desmatada? • As inundações podem trazer doenças? Que tipos? Por quê? • Para onde vão as toras de madeira? • Como é feito o papel? • Que produtos químicos são usados no processo? • Como esses produtos afetam o meio ambiente e a saúde? • Para onde foi o papel produzido pela fábrica? • De que forma esse papel chegou a você? • Como o papel foi usado? • Poderia ter sido reutilizado? • Para onde irá o papel jogado no lixo? • Que acontecerá com o papel? • Que forma sua cidade destina o lixo? Queima, aterro sanitário ou usina de reciclagem? • Quais as conseqüências destes processos para o meio ambiente e a saúde da comunidade? Essa formulação é apenas um exemplo para mostrar que as ações emEducação Ambiental exigem uma pedagogia amparada na comunicação, ondeo monólogo cede lugar às práticas dialógicas. A construção coletiva dessascadeias de relações promove a discussão, o processamento e análise doconhecimento, de maneira compartilhada entre educadores e educandos, paraque, juntos, encontrem soluções que conduzam à melhoria da qualidade doambiente e da saúde. Opta-se assim, por entender a interdisciplinaridade como um processoque só pode ser vivenciado com o outro, a partir de várias verdadesfragmentadas, a realidade é reconstruída passando pelo olho crítico do grupo.
  • Além do conhecimento, a Educação Ambiental busca a criação daconsciência ecológica, que é o saber-se e sentir-se parte da natureza. Aconsciência de habitar, com todos os seres mortais, a mesma Terra. Aconsciência de saber-se parte de uma cadeia alimentar e da complexa teia derelações que une todos os seres vivos. Finalmente, perceber que nossa união com a biosfera deve conduzir aoabandono do sonho de dominar o mundo natural, para dar lugar ao desejo deconviver com a natureza, aprender com ela e assim criar caminhossustentáveis para viver (Capra, A Teia da Vida). Essa nova ética deve serperseguida e renovada ao longo de todo o trabalho de educação já que a visãoantropocêntrica é dominante na nossa cultura ocidental e permeia toda a nossapraxis. Daí a necessidade de ações educativas voltadas para cultivar osentimento de pertencimento à natureza, sem, no entanto, esquecer quesomos capazes de nos pensarmos assim porque produzimos cultura.Exercícios práticos de construção de cadeias alimentares, com a presença dohomem como consumidor contribuem bastante para clarear essa visão. É fundamental criar situações que possibilitem o desenvolvimento deuma nova atitude diante do mundo, coerente com a consciência ecológica. Ofilósofo Edgar Morin chama atenção para a cadeia trófica lembrando que: “[...] toda podridão se converte em alimento, que todo resíduo se converte em ingrediente, que todo subproduto se converte em matéria-prima, que todo resíduo morto é reintroduzido no ciclo da vida. As decomposições são festins dum fervilhar de insetos e microrganismos, que adubam e remineralizam os solos e alimentam a vegetação”. Sentir-se parte e dependente desse processo natural, dessa grandeaventura da vida é um princípio da Educação Ambiental preconizado em todosos documentos históricos e, mais recentemente, trabalhado e difundido peloCentro de Eco-alfabetização de Berkeley, dirigido pelo físico Fritjof Capra: É no contexto da própria crise existencial, material e ambiental que o ser humano resgatará a sua condição sistêmica. Ou seja, a partir de efeitos deletérios de sua práxis antropocêntrica, o homem passa a saber que é um ser vivo inserido na grande teia biológica da vida e que, como todas as criaturas dessa teia depende da complementaridade existente entre as partes que compõem o universo (CAPRA, 1997). A concepção de meio ambiente, dentro da visão sistêmica, abarcamúltiplas dimensões. Reconhecem-se aspectos inerentes à Biologia, Química,Física, Sociologia, Ecologia, Geomorfologia, Política, Economia, Psicologia,História, dentre muitos outros. Há que se reconhecer também que o públicoalvo das ações educativas poderá ser bastante diversificado, quanto ao nívelde conhecimentos básicos. No entanto, essa característica que poderia servista como uma ameaça ao sucesso do trabalho poderá ser revertida em umaoportunidade para compartilhar diversidade de conhecimentos e experiênciasdentro das “comunidades de aprendizagens”. O essencial é que os momentos de encontro, oficinas eacompanhamento dos projetos sejam oportunidade de troca de experiências,
  • descobertas novas, construção de inter-relações entre saberes semprevoltados para uma ação transformadora do espaço de vida de cada um,melhorando a qualidade do ambiente e da saúde da comunidade. Grupos bem integrados e consolidados ao longo do processo educativopodem criar elos fortes que os conduzam à formulação de projetos que possamincorporar valor e melhorar o capital social da comunidade. É também recomendável estimular futuros projetos, alavancados peloOnda Verde, cujo foco seja o desenvolvimento de ações de EducaçãoAmbiental associadas às atividades econômicas que afiram ganhos financeiroscom a conservação dos ecossistemas, ou do patrimônio construído da cidade.Neste sentido, é importante estar atento para idéias de projetos que promovama renda da comunidade. A agricultura ecológica, farmácias vivas, hortos,jardinagem, floricultura, paisagismo, ecoturismo e proteção do patrimôniohistórico são sugestões já experimentadas que obtiveram sucesso. Sãoexperiências pontuais, mas muito significativas na vida de jovens tãofragilizados pelos efeitos desestruturantes da globalização, que têm comoexpressão clara o crescimento do individualismo, da violência, da insegurançada sobrevivência e o enfraquecimento dos laços de solidariedade. Os educadores ambientais têm, por um lado, a tarefa de resgatar valorese comportamentos como confiança, respeito mútuo, responsabilidade,compromisso, solidariedade e iniciativa e, por outro lado, propiciar odesenvolvimento de habilidades individuais capazes de conquistar espaçospara a geração de renda e empregos que fomentem e sejam fomentados poruma economia voltada para a construção de comunidades sustentáveis. Um dos principais marcos da Educação Ambiental foi formulado naconferência de Tbilise, em 1977, conforme as decisões tomadas emEstocolmo, em 1972, por ocasião na Conferência da ONU sobre MeioAmbiente Humano. Quando ainda não se falava em desenvolvimentosustentável os pensadores da Educação Ambiental de Tbilise já declaravam: [...] desenvolvimento e meio ambiente não são conceitos opostos; ao contrário, podem complementar-se perfeitamente. O meio ambiente é um elemento que deve ser considerado mas, em primeiro lugar, constitui uma fonte de possibilidades a serem exploradas com imaginação e racionalidade. Analogamente, se o desenvolvimento harmonioso deve levar em conta as necessidades da população, deve também incorporar suas riquezas culturais e seus conhecimento. O congraçamento entre o meio ambiente e o desenvolvimento não vacilará em transformar a natureza, porém respeitando as leis que regem o funcionamento dos ecossistemas. O processo de desenvolvimento que leve em consideração o meio ambiente atenderá, evidentemente, às necessidades fundamentais da população; rejeitará o crescimento econômico que vise apenas ao benefício de um setor privilegiado da população mundial, evitando a exploração abusiva de determinados ecossistemas e os danos causados a outros pela poluição. (Carta de Tbilize) Nota-se claramente que as concepções teóricas sobre EducaçãoAmbiental já mostravam forte tendência para alternativas de desenvolvimentomoduladas pela capacidade de suporte dos sistemas ecológicos do Planeta.
  • O Programa de Educação Ambiental do Estado do Ceará (PEACE), aolongo de seu processo de produção coletiva e na sua expressão final, comodocumento, também reafirmou as orientações fundamentais da carta de Tbilise,e do Programa Nacional de Educação Ambiental (PRONEA) e contribuiu comnovas estratégias, colocando a Educação Ambiental como um caminhoprofícuo em busca da sociedade sustentável. Em que pesem todas as indefinições e a falta de estratégias mundiaisque conduzam realmente à sustentabilidade, há de se reconhecer aimportância moral deste apelo ético de responsabilidade entre gerações. Abusca da sustentabilidade passa a ser um caminho de mudança, um estímulo àbusca de alternativas locais de desenvolvimento, como compromisso ético deconduta entre as nações. É ai, que se define a sua dimensão educativa quepostula o respeito às diversidades culturais, a proteção e o uso cauteloso dosrecursos naturais e, finalmente, propõe medidas que conduzam a umasociedade ecologicamente equilibrada e socialmente justa. O mundo atual está carente de uma Educação Ambiental que tenhaconseqüências aqui e agora, no sentido de trazer respostas mais emergenciaisaos problemas contemporâneos e não uma Educação Ambiental voltadaapenas para um futuro remoto. No sentido de apostar nos desenvolvimento dehábitos e atitudes de longo prazo que permitam uma vida melhor, éfundamental conceber a educação como um processo que ocorra no dia-a-dia,de modo que implique em uma nova inserção do cotidiano. Conhecer alegislação, comparar as práticas vivenciadas na cidade, por exemplo, com oque deveria ser de acordo com a lei e os bons costumes, ambientalmentecorretos. Educar-se ambientalmente é também estar atento para as diversasdimensões dos problemas ambientais, sejam elas de caráter legal, ecológico,científico, cultural, social, político, econômico, ético, etc., de modo a trabalharos temas de Educação Ambiental, começando da formulação de umdiagnóstico participativo, na tentativa de buscar compreender as formas deintervenção da sociedade para melhorar um aspecto que incomoda o grupo outrabalhar a partir do diagnóstico, a priorização das questões fundamentais noolhar do grupo, promovido por alunos de escolas, comunidade, associações,grupos de bairros, igrejas ou demais grupos mistos. É muito importante criar sugestões de aprendizagem pautadas narealidade local, de modo a facilitar o entendimento dos conflitos de interessesque emergem das formas de uso e ocupação do espaço urbano, comoestratégia para compreensão e desenvolvimento de práticas socioambientaiscontextualizadas na realidade local. Estimular o diálogo sobre a complexidade dessas questões, tentandosempre desvendar todos os diferentes interesses que se encontram em jogo,no conflito de interesses manifestado no cotidiano é uma estratégia de grandevalor educativo. Podem ser casos comuns e correntes, tais como a ocupaçãoindevida de uma área de entorno de uma lagoa, a coleta seletiva de lixo,organização dos catadores em associações, arborização de uma praça,conservação de uma área de manguezal, licenciamentos ambientais deconstrução em áreas de dunas ou em Área de Preservação Permanente (APP),conservação de lagoas ou rios envolvendo a população local. Todas essassituações de aprendizagem, de vivência em grupos, de embates de idéias são
  • momentos de construção de novos conhecimentos, de evidenciação docontraditório. São, essencialmente, situações de vida propícias ao exercício dacidadania e à criação compartilhada de soluções inteligentes de interessecoletivo. Leonardo Boff, já citado nesse texto, diz que é preciso ser crítico, criativoe cuidante para viver na sociedade do conhecimento. O ser crítico possibilitadesvendar as conexões ocultas que ligam coisas e fatos aparentementedesvinculados, pensar sobre o complexo. O ser criativo propicia a construçãode idéias e soluções concretas, capazes de dirimir conflitos e enfrentardesafios. O ser cuidante se relaciona com o desenvolvimento de princípios,valores e atitudes que expressem o cuidado com as pessoas, com os animais,com as plantas, com os ecossistemas, com a cidade, enfim, com a nossagrande casa comum: a Terra. Como ressalta Boff: É no cuidado que mora a dimensão do humano”. Ea Educação Ambiental é uma forma delicada, prazerosa, lúdica, combativa e àsvezes irreverente e revolucionária de resgatar esse cuidado tão Texto extraído do Onda Verde – Programa de Educação Ambiental deFortaleza – Marília Lopes Brandão