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A Era do Imperialismo
 

A Era do Imperialismo

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Texto sobre a Segunda Revolução Industrial e a Era do Imperialismo

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    A Era do Imperialismo A Era do Imperialismo Document Transcript

    • N o inicio do século XIX a população mundial se encontrava em ritmo ace lerado de crescimento. No planeta já viviam quase 1 bilhão de habitantes, concentrados na Eurásia, mas já se espalhando por outras regiões. Os índices de natalidade aumentavam a cada ano, mas tei- mosamente, os índices de mortalidade indicavam que a expectativa de vida era muito curta. Na França, em 1815, a população mais jovem representava 40% do total de habitantes, enquanto os mais velhos significa- vam apenas 7%. As doenças endêmicas continuavam ceifandovidasquenãoconseguiamdriblarosmalefícios do cólera, do tifo, peste bubônica e outras enfermida- des. Na maioria das casas, a umidade era um estí- mulo à propagação da tuberculose e doenças de ori- gem pulmonar. De todas as doenças, o cólera parecia ser a mais devastadora pois os remédios eram inúteis para combatê-la. A natalidade era bem maior do que nos séculos anteriores, mas é bem verdade, que nem todos tinham chance de sobreviver por muito tempo. A pobreza generalizada acentuava as dificuldades da população mais humilde, tornando a vida dos mais pobres, um verdadeiro inferno. Os cronistas do século XIX deixaram um regis- tro descrevendo um mundo desigual, aonde poucos ti- nham muito e muitos não tinham nada. Cientistas fa- mosos como o pastor Malthus, alegavam que a pobre- za era responsabilidade dos pobres, que não paravam de gerar filhos. Sua teoria teve muitos seguidores que assim podiam justificar a miséria e a desigualdade soci- al. As dificuldades sociais forneceram o combustí- vel para as revoluções de 1830 e 1848, porém aos pou- cos os homens foram aprendendo a contornar os pro- blemas, ou pelo menos, diminui-los o que já era grande coisa. No desenrolar da Revolução Industrial, impor- tantes descobertas modificaram as estatísticas de mor- talidade em favor de uma melhoria na qualidade de vida. Com efeito, as grandes descobertas do século XIX embora não tenham acabado com a miséria, tornaram a vida mais fácil com suas inúmeras invenções. No plano das grandes invenções, em meados do século XIX, muitas indústrias utilizariam o aço, que era mais barato, mais maleável e mais resistente que o fer- ro. No mesmo período, a descoberta da eletricidade deixaria para trás a energia a vapor, tornando-se a fonte de energia preponderante nas indústrias. “Época de 1900, bela época; que orgulho de ser burguês e que orgulho de ser europeu. Em redor das mesas de tampo verde de Londres, de Paris ou de Berlim decide-se o destino do planeta. Passeiam- se as árvores da borracha da Amazônia, Malásia, extinguem-se na miséria os jazigos enormes do Alto Hoang-Ho, constrói-se em algumas semanas uma cidade mineira ao norte do Alto Vaal. Mobilizadas pelo vapor, as riquezas planetárias são deslocadas, “dum extremo do mundo ao outro extremo”, como diz Le Bateauivre, por ordens que o telégrafo transmite em alguns minutos. De decisões dos conselhos de administração de Londres, de Paris ou de Berlim depende a vida de milhões de seres que não se apercebem que o seu direito à felicidade se mede nas cotações das três bolsas mais ruidosas, recintos no estilo de templos, onde se travam as grandes batalhas das ambições financeiras desenfreadas. E as capitais financeiras da Europa não desdenham nenhum pormenor, fixam o preço do bonde no Rio de Janeiro ou da hora de trabalho de um trabalhador em Hong-Kong. Nunca tal poderio estivera reunido em tão poucas mãos num tão limitado canto da Terra. É o apogeu dos burgueses da Europa” 1 Multidões invadem o Palácio de Cristal em Nova York na feira realizada em 1854 para comemorar a variedade e abundâncias dos bens manufaturados na América.
    • CapitalismoeImperialismo Telégrafo e telefone encurtaram o mundo, pos- sibilitando a comunicação mais eficiente entre as na- ções e os continentes. Na ciência, o benefício das invenções permitiu a cura de terríveis doenças endêmicas. “Para o próspero mundo industrial do final do século XIX, o progresso vinha banhado pelo bri- lho da luz elétrica. Luzindo nos arcos voltaicos teatrais, inundando campos de esportes, ilu- minando os debates parlamentares e acrescentando prestígio e glamour às lojas de departamentos e resi- dências, a eletricidade trouxe uma nova força para a vida das pessoas que prometia mudar o mundo de maneira jamais sonhada” 2 As ferrovias continuavam sendo a vitrine da in- dústria. Por onde os trens passavam, o progresso che- gava logo atrás, com a criação de novos empregos e o crescimento das cidades. Segundo estimativas, a Euro- pa possuía 105.000 km construídos, os EUA, 95.000 km. O sistema ferroviário mundial empregava 2 milhões de pessoas, sem contar os empregos indiretos. No que diz respeito à oferta de empregos, a indústria ferroviá- ria representava no final do século XIX, o que a indús- tria automobilística representa nos dias de hoje. A Re- volução Industrial preparava-se para um grande salto se irradiando por outros países, tirando da Inglaterra o monopólio desfrutado até então. Com efeito, a Revolução Industrial até 1820- 1830 era um fenômeno restrito à Inglaterra. Nas déca- das anteriores, os ingleses controlaram a produção mundial abastecendo até países inimigos. A estrutura da indústria na primeira fase ainda era tipicamente familiar, restringindo o crescimento de capital a in- teresses e riscos individuais.Apesar de enormes em relação ao período, hoje, as indústrias de 1830 seriam comparadas a galpões de fundo de quintal. Mas é lógico que o “boom” representado pela Revolução Industrial não iria parar, nem estagnar no tempo. Deve-se levar em conta, que o crescimento demográfico implicava no aumento da produção, exi- gindo das máquinas e homens o trabalho em ritmo acelerado. OS TRUSTES E OS CARTÉISOS TRUSTES E OS CARTÉISOS TRUSTES E OS CARTÉISOS TRUSTES E OS CARTÉISOS TRUSTES E OS CARTÉIS Com o avanço das comunicações o mundo fi- cou bem menor, pois muito rapidamente se cruzava os cinco oceanos. O desenvolvimento dos transportes transformou as ferrovias em artérias, que circulavam o continente europeu e outros países em desenvolvi- mento, levando o símbolo do progresso. Mudou tam- bém a natureza da indústria, com a expansão do mer- cado de ações e a investimento de capital, através das Bolsas de Valores e das sociedades anônimas. Na queda de braço da concorrência, as indús- trias menores foram eliminadas por não terem força para derrubar o grande capital. Em alguns casos, nem ao menos entraram na competição. Essa nova realida- de provocou a formação dos conhecidos trustes e cartéis, que hoje monopolizam a produção e o comér- cio mundial. Os trustes assumiram proporções gigan- tescas, controlando várias fases da produção, desde a matéria-prima até o produto final. Não se restringiam a um único país e como observamos na realidade atu- al, não havia fronteiras para as grandes empresas, que em sua versão moderna, se materializam nas gigantes- cas multinacionais. Em um anúncio americano do início do século, uma senhora elegante tenta ligar a imagem da Coca-Cola aos padrões da moda. Bolsa de algodão em New Orleans, pintada por de Degas.
    • CapitalismoeImperialismo Arespeito da concorrência John Rockfeller Jr., numa conferência nos EUA, dizia “A rosa American Beauty só pode ser produzida com todo o seu esplen- dor e fragrância, sacrificando-se os primeiros botões que nascem à sua volta.” No mesmo contexto os cartéis desempenharam uma estrutura de acordo voltada para a barganha, onde diferentes empresas determinavam o preço igual de uma mercadoria. Proporcionalmente os preços se man- tinham iguais, ressalvando-se a peculiaridade de cada país em custos adicionais de mão-de-obra, impostos etc. Como afirma Léo Huberman, “com o crescimento do monopólio, a oferta e a procura não se ajustaram - foram ajustadas. Com o crescimento do monopólio, os preços não se estabeleceram através da concor- rência no mercado livre - o mercado deixou de ser livre e os preços foram fixados.” Outro sinal dos novos tempos era a associa- ção das grandes indústrias com o capital bancário, visando um lastro seguro para os investimentos. Com a expansão do mercado de ações, os capitalistas liberaram expressivas linhas de crédito, disponíveis apenas nos grandes bancos. Com freqüência os banqueiros adquiriam ações das empresas em crescimento, tornando-se co-participantes de próspe- ros negócios. Por tudo isso, o capitalismo mudou a nomenclatura de Industrial para Monopolista e Finan- ceiro. OS CONCORRENTES DAOS CONCORRENTES DAOS CONCORRENTES DAOS CONCORRENTES DAOS CONCORRENTES DA INGLATERRAINGLATERRAINGLATERRAINGLATERRAINGLATERRA A partir da segunda década do século XIX, os ingleses tiveram novos parceiros na produção industri- al. A França no começo do século livrou-se do fardo das restrições feudais e do mercantilismo. Após a Re- volução de 1830, o país teve sua fase de maior prospe- ridade, vinculada aos investimentos de poderosos ban- queiros ligados ao governo. A partir de 1850, adota- ram-se medidas de proteção à indústria interna visando o crescimento industrial. Entretanto, apesar das reser- vas de carvão de Alsácia e Lorena, a França ainda im- portava boa parte das matérias-primas básicas da in- dústria De outro lado, após a unificação em 1870, a Ale- manha seguiria a Inglaterra em ritmo extremamente acelerado. Afinal, desde 1830, bem antes da unidade política, os alemães haviam eliminado as barreiras al- fandegárias, após a criação do Zollverein, — mercado comum dos estados germânicos. Com a mudança, as indústrias alemãs decolaram à todo vapor, contando com a ajuda das imensas reservas de carvão do vale do Ruhr, responsáveis por 50% do carvão consumido in- ternamente. Com a expansão da indústria química, os alemães deram goleada nos concorrentes e, até hoje, têm posição de destaque no panorama mundial. Com a ascensão do ministro Bismarck, em 1860, a Prússia apostou na articulação de uma política de exaltação nacionalista, que levou os prussianos a reali- zarem duas guerras contra o débil reino da Dinamarca e o fraco império Áustro-Húngaro. As sucessivas vitóri- as alemãs ressaltaram o ego nacionalista, unindo os Estados germânicos mais resistentes. Em 1870, no maior lance de sua carreira de grande líder e diplomata, o gê- nio Bismarck declarou guerra à França. A vitória alemã foi obtida com um “passeio” que levou as tropas germânicas a desfilarem em triunfo pelas ruas de Paris. A derrota humilhou a França gerando uma série crise interna, culminando na renúncia de Napoleão III, que governava o país desde 1848. “À frente de um grupo de oficiais do exército, o rei Guilherme i e seu chefe de estado-maior, general Von Moltke, observam manobras militares. Lingüísta talentoso, mas taciturno, Moltke foi certa vez descrito como sendo silencioso em sete línguas. “A rosa American Beauty só pode ser produzida com todo o seu esplendor e fra- grância, sacrificando-se os primeiros botões que nascem à sua volta.” OTempo da História 1830 - 1848 REVOLUÇÕES LIBERAIS NA FRANÇA EUA FIM DA GUERRA DE SECESSÃO UNIFICAÇÃO DA ALEMANHA E ITÁLIA 1850 EXPANSÃO IMPERIALISTA 1878 PARTILHA DA ÁFRICA JAPÃO REVOLUÇÃO ‘MEIJI 1870
    • CapitalismoeImperialismo Percebendo que o uso de ferrovias iria trans- formar a condição das guerras, permitindo que gran- des quantidades de tropas fossem rapidamente mobi- lizadas e supridas. Moltke fez do exército prussiano a mais eficiente força militar da Europa, coordenada por uma equipe de estrategistas capazes e equipada com canhões leves e carregáveis pela culatra”.3 No restante da Europa, Rússia, Itália, Áustria- Hungria e Holanda tiveram níveis de desenvolvimento bem inferiores aos de Inglaterra, Alemanha e França. No geral, dependiam bastante dos investimentos externos, como é o caso da Rússia. Os russos tiveram a industrialização bastante dependente do capital francês além de restrita a pouquíssimas cidades. A Itália tinha uma vigorosa indústria, porém restrita ao norte, pois o resto do país estava mergulhado num atraso que lembrava a época feudal. O império Áustro-Húngaro era uma colcha de retalhos de várias nacionalidades distintas. Fora da Europa, observa-se o crescimento de EUA e Japão. Os EUA deram a grande arrancada, após a Guerra de Secessão, quando houve a unificação do mercado interno e a adoção de medidas de proteção à indústria. Os EUA eram uma espécie de Eldorado, atra- indo imigrantes que não paravam de chegar. Boa parte desses imigrantes era altamente qualificada para o tra- balho, e fugiam do fantasma do desemprego nas indús- trias européias. Enquanto a rede ferroviária norte-ame- ricana, se alastrava em todo o território, a indústria pe- sada já ostentava o primeiro lugar mundial em produ- ção de ferro, carvão, cobre, aço e alumínio. O Japão entrou para o grupo de países desenvolvidos em 1868 com a Revolução Meiji. Até essemomento,eradifícilimaginarqueseriaumapotência industrial. A revolução destruiu a herança feudal e co- locou um ponto final no controle político dos Shoguns. A burguesia japonesa com apoio estrangeiro, deu um golpe derrubando o shogunato substituindo-o pela mo- narquia parlamentar de perfil autoritário. Daí em diante, os japoneses combinaram com muita habilidade: concentração de recursos adminis- trados pelo Estado; mão-de-obra numerosa e muito capital disponível. Ajudando o crescimento da econo- mia, o Estado implementava as indústrias e depois transferia o controle acionista aos investidores parti- culares. Na verdade, a transferência de recursos privi- legiou pouquíssimos grupos, tornando a economia ja- ponesa monopólio de alguns trustes. PROTECIONISMO E VÁLVULA DEPROTECIONISMO E VÁLVULA DEPROTECIONISMO E VÁLVULA DEPROTECIONISMO E VÁLVULA DEPROTECIONISMO E VÁLVULA DE ESCAPEESCAPEESCAPEESCAPEESCAPE. Voltando ao continente europeu, paradoxalmen- te, o crescimento do capitalismo veio conjugado com uma grande crise. A explicação para o fenômeno, se deve ao modelo de crescimento, pois ocorria grande acúmulo de capital em prejuízo dos baixíssimos salári- os da massa trabalhadora. A curto ou médio prazo, as mercadorias sobravam nas prateleiras, não havendo quem as comprasse. De outro lado, a concorrência de vários países no processo produtivo, estrangulou o mercado europeu tornando-o pequeno para o ritmo frenético de produção. Era possível encontrar novas perspectivas para o escoamento do grande capital? Os monopolistas estavam na situação interna de regular a oferta para estabelecer a procura, e foi o que fizeram. Era uma prática comercial inteligente, que lhes proporcionou altos lucros. Mas deixara uma boa parte da capacidade produtiva de suas fábricas parada, e essa situação tende sempre a dar aos capi- tães da indústria uma dor de cabeça. Não queriam fazer apenas mercadorias para vender internamente. Queriam usar suas fábricas permanentemente para produzir o máximo de mercadorias. Para tanto, ti- nham de vendê-las fora do país. Tinham de encontrar mercados estrangeiros que absorvessem os exceden- tes de suas indústrias. Onde encontrá-los? Podiam tentar despejar suas mercadorias noutras nações ricas, como a In- glaterra fizera durante anos. Mas as altas tarifas pro- tetoras aumentavam cada vez mais, e atrás delas os concorrentes haviam podido controlar o mercado dos respectivos países. Vejamos essa queixa de Jules Ferry, primeiro-ministro francês em 1885: “O que falta às nossas indústrias, o que lhes falta cada vez mais, são mercados. Por quê? Porque... a Alemanha se está pro- tegendo com barreiras; porque, além do oceano, os Estados Unidos da América se tornaram protecionis- tas, e a um grau extremo.” Nações como a Alemanha e os Estados Uni- dos já não eram um mercado livre para as mercadori- as de outros países — elas mesmas estavam concor- rendo em busca dos mercados mundiais. A situação era séria. Dentro das grandes indústrias, a capacida- de de produzir superava a capacidade de consumir. Todas tinham um excedente de mercadorias manufa- turadas, para as quais necessitavam encontrar mer- cados externos. Onde encontrá-los? A resposta é o Neocolonialismo. 4 Cena de ônibus (tela de W. Joy): a humilhação do pobre ante a prosperidade e segurança da classe média em ascensão.
    • CapitalismoeImperialismo A lém desses fatores citados por Leo Huberman, identificamos ainda a ne cessidade do capital bancário “expor- tar” o excedente para não gerar uma crise de graves proporções. Dessa forma, as áreas colonizadas rece- beriam investimentos em diversos setores, sobretudo construção de ferrovias, portos e obras de grande por- te. Esses investimentos criaram um emaranhado de empréstimos que terminariam arrasando a frágil eco- nomia das áreas ocupadas. É bom lembrar que essa difícil situação não atin- gia apenas as áreas colonizadas, mas também áreas que haviam obtido sua independência, como é o caso daAmérica Latina. Por tudo isso, os historiadores dis- tinguem o colonialismo do século XIX, considerando- o bem diferente do colonialismo do século XVI, da época das Grandes Navegações. No século XIX o Neocolonialismo visava a obtenção de matérias-primas vitais para o desenvolvimento do capitalismo, como ferro, cobre, petróleo etc. Além disso, não houve utilização de mão-de-obra escrava, pois entrava em choque com a necessidade de mercado consumidor. Em 1916, Lênin, no livro Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo, definiu esse processo como “uma fase do capitalismo em desenvolvimento, con- solidando a dominação dos monopólios e do capital financeiro, aumentando a prática de exportação de capitais, iniciando a partilha do mundo pelos trustes internacionais repartindo toda a terra entre os pa- íses capitalistas mais importantes”. Mesmo assim, vários intelectuais da época procuraram jus- tificar o Imperialismo como algo natural, fruto da superioridade do homem branco que se impunha aos homens inferiores. Para justificar essa absurda teoria recorreu-se a Darwin, alegando-se que a luta pela sobrevivência no reino animal, também existia na sociedade e na relação entre os homens. Os mais fortes naturalmente dominariam os mais fracos, subjugando os menos aptos. Algumas obras enfatizavam o dever dos “povos civilizados” explorar as riquezas naturais das áreas colonizadas em benefício de toda a humani- dade, tirando-as do monopólio exclusivo dos “povos inferiores”. Para eles, a dominação imperialista visava o bem de toda a humanidade! “Em um livro publicado em 1931, Grandeza y servidumbres coloniales, Sarrault expôs seus argumen- tos com fria e cega convicção. Vejamos alguns tre- chos: “Em nome do direito de viver da humanidade, a colonização, agenda da civilização, deverá tomar a seu encargo a valorização e a circulação das rique- zas que possuidores fracos detenham sem benefício para eles próprios e para os demais. Age-se, assim, para o bem de todos. A Europa não abandonará, ab- solutamente, sua autoridade colonial. Apesar de al- guns perigos e de algumas servidões que a Europa deve suportar e de algumas compulsões para abdicar que recebe, não deve desertar de sua linha colonial. Ela está no comando e no comando deve permanecer. Eu nego com todas minhas forças e repúdio com toda a energia de meu coração todas as tendências que procuram, tanto para a Europa como para meu país, o despejo da tutela ocidental nas colônias.” 5 Como não poderia deixar de ser, religiosos católicos e protestantes se engajaramnaexpansãoim- perialista, funcionando como suporte ideológico e moral da colonização. Atrás das ferrovias e das expedições colonizadoras, havia sempre um missionário cristão para levar a “palavra de Deus” aos “povos selvagens e ateus”. A “vontade divi- na” impregnou a coloniza- ção, que foi justificada pela “missão civilizadora e cris- tã”. Na colonização existiram diferentes formas de dominação. Nas colônias de enraizamento as áreas co- lonizadas ficavam sob controle direto dos países impe- rialistas. Nessa situação, desaparecia qualquer autono- mia das regiões conquistadas e o governo era exercido pelo país dominador, como era o caso da Indochina, colonizada pelos franceses, Índia, dominada pelos in- gleses, e de muitas áreas do continente africano. Nas colônias de enquadramento o governo local perma- necia sob controle indireto do país dominador, a exemplo do Egito, que ficou subordinado à Inglaterra após a construção do canal de Suez. A Era do Imperialismo Pintado por Louis Sontag em 1895, o bairro de Bowery em Nova York, pulsa de vida, com as luzes elétricas banindo a escuridão das calçadas lotadas.
    • CapitalismoeImperialismo PARTILHA DA ÁFRICAPARTILHA DA ÁFRICAPARTILHA DA ÁFRICAPARTILHA DA ÁFRICAPARTILHA DA ÁFRICA A ocupação do continente africano teve início em 1830, quando Carlos X da França, invadiu o território da atualArgélia, mas foi no final do século que houve a fase mais acirrada da disputa. Em 1884, a Conferência de Berlim reuniu todas as potências européias quando se fez a Partilha da África, com vantagens para ingleses e franceses, que ocuparam a maior parte do território africano. Os franceses se estabeleceram na região noro- este, oeste e centro da África.Ainda hoje, vários países desa região estão subordinados às imposições france- sas. No leste da África, o limite da área francesa fazia fronteira com o Sudão Anglo-Egípcio. Nessa região, quase estourou uma guerra em 1898, pois os franceses procuraram explorar a rebeldia dos muçulmanos do Sudão, jogando-os contra os ingleses. A Inglaterra dominou regiões no nordeste e no sul da África.Aprimeira vítima foi o Egito, que estava na mira dos europeus para a construção do canal de Suez. Aobra monumental era impossível de ser reali- zada com recursos egípcios. Convencido “espontane- amente” o governo egípcio contraiu empréstimos, que não teve a menor condição de pagar. As ações da Companhia do Canal de Suez foram leiloadas e, num lance ousadíssimo, um consórcio inglês obteve a mai- or parte dessas ações colocando o Egito na órbita de influencia inglesa. Na África do Sul os ingleses enfrentaram a re- ação dos bôeres – descendentes de holandeses, que há muitos séculos viviam no local. O problema é que fo- ram descobertas grandes reservas de ouro e diamante nas terras dos colonos holandeses, que obviamente não aceitavam entregar essas riqquezasaos ingleses de “mão beijada”. Em 1899, as tropas inglesas atacaram os colonos começando a Guerra dos Bôeres que se prolongou até 1902. No meio da confusão, entraram em cena os temíveis guerreiros zulus impondo baixas nos dois lados. Como não conseguiu vencer o inimigo, a Inglaterra foi obrigada a fazer concessões aos brancos holandeses. No final os brancos (africânderes) conse- guiram autonomia e preservaram interesses no comércio do ouro e diamante. Os negros da África do Sul, tiveram todos os direitos negados, tornando-se os reais perdedores. Mais tarde foi implantado o regime de segregação racial - Apartheid - que durante muitas décadas marginalizou os negros da África do Sul. O IMPERIALISMO NA ÁSIAO IMPERIALISMO NA ÁSIAO IMPERIALISMO NA ÁSIAO IMPERIALISMO NA ÁSIAO IMPERIALISMO NA ÁSIA Na Ásia os europeus tiveram grande dificulda- de em estabelecer o domínio sobre os países da re- gião. Os obstáculos iniciais fizeram as potências euro- péias pressionarem por liberdade de comércio nos prin- cipais portos e privilégios para os cidadãos europeus. O governo imperial da China conseguia, até 1830, re- sistir à pressão da Inglaterra. Daí em diante, os ingle- ses começaram a despejar em território chinês, quanti- dades exorbitantes de ópio, produzidas na Índia. Numa reação firme o imperador protestou ameaçando pren- der os residentes ingleses. “”Assumi o fardo do homem branco, Enviai os melhores dos vossos filhos, Condenai vossos filhos ao exílio Para que sejam os servidores dos seus cativos, Para que velem, pesadamente ajezados. Os povos sublevados e selvagens, Povos recém-dominados, inquietos. Meio demônio meio infantis. Assumi o fardo do homem branco Tudo que fizerdes ou deixardes Servirá a esses povos silenciosos e consumidos, Para pesar vossas mercadorias e vós mesmos.” -Rudyard Kipling. Poeta hindu. A África colonizada antes da I Guerra Mundial
    • CapitalismoeImperialismo AInglaterranãodeuame- nor bola e na primeira chance invadiram a China com o auxílio de tropas de outros países. Tra- vou-seaGuerradoÓpio,emtrês etapas,de1840a1860.Nofinal,a China foi derrotada e obrigada a assinar o Tratado de Nanquim, permitindo a abertura dos portos chineses aos países estrangeiros. Para derrotar a China foi necessária a união de várias po- tências. A Inglaterra recebeu o maior prêmio, que foi o porto de Hong-Kong, recentemente de- volvida à China depois de longa negociação. Mais uma vez a In- glaterra exercia o papel de rei do imperialismo, obtendo 70% do comércio e 40% da dívi- da chinesa. Dessa vez a Alemanha recebeu algumas regiões, deixando para a França as províncias meridio- nais. “Por seu lado, os alemães, apesar do atraso com que entraram na partilha colonial, haviam con- seguido firmar solidariamente seu comércio e os in- vestimentos. Detinham 28% das obrigações do go- verno chinês e o investimento direto de 17% em 1902; ocupavam o terceiro lugar depois dos russos e ingle- ses. Concorriam, com sucesso, no vale do rio Iang- tsé e os banqueiros alemães agiam em estreita cola- boração para construir duas ferrovias em Chaotung; o direito de explorar minas num raio de 17 quilôme- tros de cada lado destas ferrovias; e a prioridade para fornecer conhecimentos práticos, capital e arrenda- mento do porto de Kiaustschau por 99 anos. Para a Alemanha era importante conservar a integridade do país e quando decidiu ocupar militarmente este porto em 1897, para reprimir o assassinato de missionári- os alemães, o fez para compensar a base britânica de Hong Kong.” 7 No caso da Índia, desde o século XVI se esta- beleceram relações comerci- ais com os hindus, com base na venda de especiarias que tinham alto valor nas feiras européias. Por muito tempo os navios fizeram o longo trajeto, levando para a Eu- ropa uma quantidade enor- me de mercadorias. No sé- culoXIXosinglesesabriram os olhos para as imensas possibilidades de exploração do território hindu. O solo e o clima eram excelentes para o plantio do algodão, que havia se tornado a matéria- prima essencial da indústria têxtil inglesa. Alegando uma suposta ajuda para a contenção de revoltas das populações insatisfeitas com o domínio imperial hindu, os ingleses foram entrando de mansinho e quando os indianos acordaram, havia na Índia um gran- de contingente militar inglês. O esquema de dominação se deu com a anuência dos marajás corruptos que se aproveitaram da parceria com a Inglaterra. A passivi- dade religiosa hindu serviu de estímulo à aceitação do domínio imperialista, apesar de alguns nativos reagirem na Revolta dos Sipaios, em 1857, que foi sufocada bru- talmente pelas tropas inglesas. Com a derrota dos naci- onalistas estabeleceu-se a Companhia das Índias Orien- tais que monopolizou a produção e o comercio do al- godão. As manufaturas têxteis que existiam no país fo- ram proibidas em detrimento da compra de tecidos in- gleses. Na Índia os ingleses construíram centenas de quilômetros de ferrovias, estruturando a maior malha ferroviária do mundo. Implementaram também pontes, portos, rede elétrica e hospitais maquiando perversa- mente o sistema de dominação, pois apesar do desen- volvimento, a dívida com a Inglaterra transfigurou a Índia tornando-a completamente dependente da econo- mia inglesa. ...Afirmo (...) que esta política colonial é um sistema concebido, definido e limitado do seguinte modo repousa sobre uma tríplice base econômica, humanitária e política (...) A questão colonial é, para os países voltados a uma grande exportação pela própria natureza de sua indústria, como o nosso, uma questão de salvação. No tempo em que vivemos e na crise que atravessam todas as indústrias européias, a fundação de uma colônia é a criação de uma válvula de escape (...). É preciso dizer abertamente que as raças superiores têm direitos sobre as raças inferiores (...) porque têm um dever para com elas — o dever de civilizá-las (...). Afirmo que a política colonial da França, que nos tem levado (...) a Saigon, na Cochinchina, à Tunísia e a Madagascar inspira-se numa verdade sobre a qual é preciso atrair um instante vossa atenção (...). Senhores, na Europa tal como ela é feita, nessa concorrência de tantos rivais que vemos crescer em torno de nós, quer pelo aperfeiçoamento militar ou marítimo, quer pelo desenvolvimento prodigioso de uma população que cresce incessantemente; na Europa, ou antes, num universo assim feito, a política de recolhimento ou de abstenção é simplesmente o grande caminho da decadência (...).” 6 Guerra dos Boers na África do Sul
    • CapitalismoeImperialismo “O imperialismo deixou um legado de profun- da animosidade entre os povos. Os argumentos eco- nômicos apresentados em favor da expansão imperial - a necessidade de matérias-primas, mercados e luga- res de investimento - não resistem à análise. A maior parte das áreas reivindicadas pelos europeus e ameri- canos não eram fontes lucrativas de matérias-primas, nem eram bastante ricas para se constituírem em bom mercados. Europeus e americanos negociavam e in- vestiam principalmente entre si. É possível que em- presas individuais obtivessem lucros, mas é certo que a maioria das colônias não foi lucrativa para os con- tribuintes ocidentais. A maior parte delas não atraiu a população excedente dos países metropolitanos - as Américas fo- ram o grande objetivo dos emigrantes europeus. O nacionalismo agressivo, inclusive a luta pelas conquis- tas diplomáticas e militares, distantes de perigosos campos de conflito na Europa, parece ter sido uma das mais vigorosas forças por trás da atividade impe- rial. (...) O imperialismo tem sido uma fonte de gran- de amargura, não só pela exploração econômica mas pelo racismo e pela brutal indiferença por outras cul- turas. E hoje, em toda parte onde os europeus e os americanos gostariam de estabelecer contatos nas áre- as da economia e da política encontram nações, não povos, grupos ou indivíduos dispares - nações que o imperialismo criou ou às quais pelo menos deu a cons- ciência de serem nações.” 8 1 In. Morazé, Charles - Os Burgueses e a Con- quista do Mundo - Edições Cosmos. Pág. 7. 2 In. Parker Geoffrey. Op. Cit. Pág. 35. 3 In. Parker, Geoffrey. Op. Cit. Pág. 47. 4 In. Huberman, Léo. História da Riqueza do Homem. Zahar Editores. Pág. 128. 5 In. Bruit, Hector. O Imperialismo.Atual Edi- tora. Pág. 11. 6 Discurso de Jules Ferry, citado por Henri Brunschwig, Mythes et Réalites de L’Impérialisme Colonial Français — A. Colin, Paris, 1960, pág. 74- 75. 7 In. Bruit, Hector. Op. Cit. Pág. 56. 8 In. Perry, Marvin. Civilização Ocidental. Uma História Concisa. Martins Fontes Editora. Pág. 608. Roupas em frangalhos e potes quebrados espalham-se pelo Bibighar, local em Cawnpore no qual duzentas mulheres e crianças britânicas foram massacradas pelos amotinados indianos em junho de 1857. Essa atrocidade inflamou os ingleses que nos estágios finais do motim, vingaram-se dos rebeldes com igual ferocidade.