O Abismo Negro De Sonhos Esquecidos Maio 2004 Arquivo - Presentation Transcript
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
O A B IS MO NE GR O D E S ON HO S
E SQ U EC ID O S
"O ABISMO NEGRO DE SONHOS ESQUECIDOS"... Escuros têm sido os meus dias. Cicatrizes
imperceptíveis deram à costa novamente. Rasgam-se nas rochas e choram pelo passado que
voltou. "O ABISMO NEGRO" ... um blog que é isto, mas que é também muito mais...
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maio 31, 2004
MOSTRA DE CARTOONS: SERGEI
Iniciamos com este post uma Mostra de Cartoons que irá ter lugar, aqui no Void,
durante as próximas semanas. Serão apresentados alguns trabalhos de cartonistas
nacionais e estrangeiros, no sentido de valorizar uma área de trabalho, de
tratamento e exploração da realidade ainda não suficientemente conhecida em
Portugal (particularmente, para além de um público específico).
Os cartoons que se seguem são da autoria de Sergei, pseudónimo de Paulo Teixeira.
Relativamente ao autor: nasceu em 1970, sendo actualmente criativo numa agência de
publicidade em Lisboa.
Alguns exemplos do seu trabalho:
1. O buraco
2. "Estou pronto!"
3. O santo
4. De perder a cabeça
5. Clones
6. O blog
7. Ossos do ofício
8. Se beber não voe
Esta Mostra de Cartoons terá continuação todas as Segundas-feiras. Até para a semana!
Publicado por void em 06:25 AM | Comentários (2) | TrackBack
maio 30, 2004
DOGVILLE
Menos de um ano depois de estar em exibição nas salas de cinema, agora também em
DVD:
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Escrito e realizado por Lars von Trier e contando com uma excelente (também porque
diferente) interpretação de Nicole Kidman, um filme que nos coloca, com imenso
realismo e crueza, perante a hipocrisia e falsidade a que pode chegar o Ser Humano.
Defendendo eu que o Homem não é bom por natureza (e aqui distingo-me de
Rousseau), em Dogville (espaço onde vive um conjunto de pessoas) isso é claramente
notório no tipo de relações desenvolvidas entre quem está e quem chega/permanece,
num contexto determinado.
A ebulição de sentimentos, os interesses em causa e em jogo, os receios/medos, as
fragilidades, as cegueiras e as frustrações individuais são trazidas à cena, sempre, de
forma problematizante, levando-nos por isso a um questionar permanente em frente ao
ecrã.
Em termos de concepção: um filme muito bem conseguido. Originalidade e arrojo são
uma evidência. A harmonia conseguida entre um cenário de Teatro e a
concretização/desenvolvimento/forma de comunicação das personagens como no
Cinema, é uma realidade.
Uma imensa inteligência em tudo o que é feito e apresentado. Uma brilhante execução
no retratar de vidas e relações humanas.
- Argumento:
"Em fuga de um grupo de gangsters, a bela Grace chega à isolada povoação de
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Dogville. Com a ajuda de Tom, o auto-nomeado porta-voz da aldeia, a pequena
comunidade decide esconder Grace e, em troca, ela aceita trabalhar para eles. No início
ninguém lhe dá trabalho e a sua estadia fica posta em causa, mas depois começam a
aparecer pequenos serviços.
Contudo, quando a população sabe que Grace é procurada, apercebe-se da importância
da pessoa que escondem e exige um acordo mais rentável. Grace vai então descobrir
da pior forma quão relativo é o conceito de bondade em Dogville. Mas ela também
esconde um segredo muito perigoso que fará Dogville arrepender-se das suas
exigências".
- Duração: 199'
- DVD:
Entrevistas com Nicole Kidman e Lars von Trier (entre outros). Ainda: depoimentos dos
actores durante a rodagem.
(Opinião expressa: da blogger Sandra)
Publicado por void em 10:53 AM | Comentários (1) | TrackBack
MISHA GORDIN: DOUBT
Eis-nos, agora, na galeria seguinte das fotografias de Misha Gordin. Situamo-nos, em
termos de período de trabalho desenvolvido, nos anos de 1994-1995. A grande
temática envolvente de tudo o que é apresentado: "Doubt".
Façamos o percurso:
1.
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2.
3.
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7.
8.
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9.
10.
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11.
Próxima galeria: "The New Crowd", subdividida em 3 secções: anos 1996-1998,
1999-2000 e 2001-2002.
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Publicado por void em 07:38 AM | Comentários (2) | TrackBack
maio 29, 2004
MENTIROSOS
(Fotografia de Bruno Espadana)
e depois o homem entrou no meu quarto e disse-me: queres mexer? e mostrou uma
mão cheia de dinheiro a ranger de ódio na minha inocência. eu queria o dinheiro. eu
desejava que o homem explodisse com a força da minha vergonha. queres mexer-me
no sexo? eu não digo a ninguém. podes fechar os olhos, se quiseres. podes beijá-lo, se
queres. não havia ninguém. eu ia dormir no quarto. os pais dormiam. o homem estava
acordado e tinha bebido. estava nu e sujo de sexo. tinha-se masturbado. estava sujo e
a pingar. podes ter este dinheiro todo. posso ter este ódio todo. a minha vida estava
amordaçada naquelas palavras. fazer o homem feliz. fazê-lo vir-se na minha mão. eu
estava sentada na cama. tinha medo da cama. o sono era um medo a lutar comigo na
minha mente. pedi ajuda ao silêncio. silêncio toma conta de mim. protege-me de ouvir
mais uma palavra. o homem não parava de falar. sexo mão boca tesão beijo. o quarto
andava à roda das pessoas que dormiam. as portas eram paredes negras e fechadas
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pelas palavras. o dinheiro é teu. guarda-o. mexe no meu sexo. e depois o silêncio eram
palavras apagadas pelo meu pensamento. o homem não podia estar ali a insistir num
desejo só para ele. já não gosto das pessoas. o homem fez-me não gostar de ser
desejada. não quero que digam amo-te. mentirosos. eu olhei aquele sexo sujo e
insistente durante muito tempo. toda a vida o mesmo sexo a pedir para ser tocado.
friccionado. estimulado. eu podia tê-lo beijado. talvez o mundo não soubesse. talvez eu
aceitasse o dinheiro com prazer. eu e o homem no quarto escuro. não digas a ninguém.
mas o silêncio conhece esta história. eu disse que sim com o silêncio dos meus olhos.
não conto a ninguém. nem aos pais que dormem num tempo separado do meu.
(Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA)
Publicado por void em 05:21 PM | Comentários (0) | TrackBack
MISHA GORDIN: CROWD
Entremos, pois, na segunda galeria onde estão expostos os trabalhos de Misha Gordin.
Desta vez, fotografias situadas temporalmente entre 1987 e 1991. "Crowd"
remete-nos para as ideias de repetição, conjunto, aglomerado, humanos equivalentes
no ser, no estar e no fazer. Remete-nos para a cor e a forma multiplicadas várias
vezes.
Olhemos e vejamos:
1.
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2.
3.
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4.
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5.
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6.
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7.
8.
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9.
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Próxima galeria: "Doubt"- fotografias situadas entre 1994-1995.
Publicado por void em 08:03 AM | Comentários (1) | TrackBack
maio 28, 2004
THE DAY AFTER TOMORROW
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A ver e a perceber paralelamente aos efeitos especiais:
- GLOBALMENTE
. a intervenção do filme-catástrofe no todo dos EUA, nomeadamente no pós-11 de
Setembro
. o assumir do envolvimento na reflexão/debate em torno das problemáticas
ambientais.
- ESPECIFICAMENTE:
. o imperativo de ver as relações mundiais de forma contrária, em particular com o
pedido de ajuda dos EUA aos vizinhos pobres do sul
. o registo de um Poder que não sabe ouvir, embrenhado que está em interesses de
outra ordem (lembremos, por exemplo, a administração Bush que se recusou/recusa a
assinar a Convenção de Quioto)
. o congelamanto de parte de um mundo onde se concentra a riqueza e que em função
da mesma condiciona, em muito, o destino da outra parte
. a revolta (ou vingança) de um mundo natural de quem dele abusou, destruindo-o ou
desequilibrando-o ao nível dos mais variados recursos.
A registar
Os efeitos especiais não visam a mera espectacularidade, antes a transmissão de
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mensagens. Cada caso procura fazer-nos reflectir sobre algo, do qual, não nos devemos
eximir: porque não somos (ou não devemos ser) meros espectadores, porque somos
habitantes deste planeta, porque a passividade ou inércia mental mata, mumifica...
congela.
Publicado por void em 07:37 PM | Comentários (0) | TrackBack
OS INOCENTES
(Fotografia de Bruno Espadana)
Detesto a inocência. A inocência fingida. Odeio todos aqueles que se resguardam na
inocência para poupar a tristeza dos outros. Detesto-te quando queres fugir ao
julgamento de tudo o que sentem por ti. Nunca estamos sós. Pensa nisso, nunca
estamos a sós com a nossa vida. Existem sempre os outros, o sentimento deles a
construir vedações à volta do que sentimos também por eles. Há uma troca de vidas,
palavras que não são margens nem são pontes; palavras que são tudo o que nos resta
para morrermos. Lê o que eu escrevo. Não sei onde vou buscar tudo isto, não sei. E se
eu te disser que o sofrimento é uma atracção daqueles seres profundos onde não os
atingimos nem a gritar? Temo que sejas uma criatura assim. Alimentas-te do teu
próprio eco. Muitas vezes agi de cabeça quente de criança a desmontar peças
existenciais porque não sei onde começa o humano e acaba a monstruosidade do que
sinto pelo mundo das pessoas. Não acredito em inocências. Não há farsa maior e bem
construída que os sentimentos que se ocultam numa verdade inocentemente fingida. Se
eu te dissesse tudo o que sinto, tudo a respeito da tua inocência, teria de me destruir
para dar um sentido à minha honestidade. Os humanos vivem no subconsciente das
suas próprias verdades, e tudo o que expõem de positivo são ruínas que se erguem
debaixo dos nossos dias.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
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Publicado por void em 05:45 PM | Comentários (4) | TrackBack
"ESTOU CANSADA DA VIDA, A MINHA MENTE QUER MORRER"
(Sarah Kane)
[1º registo]
- Fizeste planos?
- Tomar comprimidos, cortar os pulsos, depois enforcar-me.
- Tudo ao mesmo tempo?
- De certeza que não podia ser reconstituído como um grito de ajuda.
(Silêncio.)
- Não ia resultar.
- Claro que ia.
- Não ia resultar. Sentias-te sonolenta dos comprimidos e não tinhas energia para
cortar os pulsos.
(Silêncio.)
- Se ficares sozinha achas que podes fazer mal a ti própria?
- Acho que sim e isso assusta-me.
- Pode ser uma espécie de protecção?
- Sim. É o medo que me afasta da linha do comboio. Só espero, por amor de Deus,
que a morte seja a merda do fim. Sinto-me com oitenta anos. Estou cansada da vida, a
minha mente quer morrer.
- Isso é uma metáfora, não a realidade.
- É um símile.
- Não é a realidade.
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- Não é uma metáfora, é um símile, mas mesmo que fosse, aquilo que define uma
metáfora é ela ser real.
(Um longo silêncio.)
- Não tens oitenta anos.
(Silêncio.)
- Tens?
(Um silêncio.)
Ou tens?
(Um longo silêncio.)
- Desprezas todas as pessoas infelizes ou sou só eu em particular?
- Não te desprezo. A culpa não é tua. Tu estás doente.
- Não acho.
- Não?
- Não. Estou deprimida. A depressão é ira. Foi o que tu fizeste, quem lá estava e quem
culpas.
- Quem é que tu estás a culpar?
- A mim.
[2º registo]
- Epá, o que é que te aconteceu ao braço?
- Cortei-o.
- Isso é para chamar a atenção, que coisa tão infantil. Aliviou-te?
- Não.
- Aliviou-te?
(Silêncio.)
Aliviou-te?
- Não.
- Não percebo por que é que fizeste isso?
- Então pergunta.
- Aliviou a tensão?
(Um longo silêncio.)
Posso ver?
- Não.
- Gostava de ver, para ver se está infectado.
- Não.
(Silêncio.)
- Sabia que podias fazer isso. Há muitas pessoas que fazem. Alivia a tensão.
- Já alguma vez fizeste?
- ...
- Não. És sensível e são demais merda. Não sei onde é que tu leste isso, mas não
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alivia a tensão.
(Silêncio.)
Por que é que não me perguntas porquê?
Por que é que eu cortei o braço?
- Queres dizer-me?
- Quero.
- Então diz-me.
- PERGUNTA.
ME.
PORQUÊ.
(Um longo silêncio.)
- Por que é que cortaste o braço?
- Porque me sinto muito bem merda. Porque me sinto fantástica merda.
- Posso ver?
- Podes ver. Mas não toques.
- (Olha) Achas que estás doente?
- Não.
- Eu acho. A culpa não é tua. Mas tens de responsabilizar-te pelas tuas acções. Por
favor não voltes a fazê-lo.
[3º registo]
Vim ter contigo à espera de ser curada.
És o meu médico, o meu salvador, o meu juiz omnipotente, o meu padre, o meu deus,
o cirurgião da minha alma.
E sou tua partidária na sanidade.
---------
para atingir objectivos e ambições
para superar obstáculos e atingir altos padrões
para aumentar a auto-avaliação pelo bem sucedido
exercício do talento
para superar a oposição
para ter controlo e influência sobre os outros
para me defender
para defender o meu espaço psicológico
para justificar o ego
para receber atenção
para ser vista e ouvida
para excitar, surpreender, fascinar, chocar, intrigar,
divertir, entreter ou atrair os outros
para estar livre de restrições sociais
para resistir à coacção e à constrição
para ser independente e agir de acordo com o desejo
para desafiar a convenção
para evitar a dor
para evitar a vergonha
para apagar as humilhações passadas recapitulando as
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acções
para manter o auto-respeito
para reprimir o medo
para superar a fraqueza
para pertencer
para ser aceite
para nos aproximarmos e nos relacionarmos agradavelmente
com o outro
para conversar de maneira amigável, para contar histórias,
trocar sentimentos, ideias segredos
para comunicar, para conversar
para rir e contar piadas
para conquistar a afeição do Outro desejado
para aderir e mantermo-nos fiéis ao Outro
para gozarmos experiências sensuais com o Outro
projectado
para alimentar, ajudar, proteger, confortar, consolar,
apoiar, cuidar ou curar
para ser alimentada, ajudada, protegida, confortada,
consolada, apoiada, cuidada ou curada
para construir uma relação agradável, durável, cooperante e recíproca com o Outro,
com um ideal
para ser perdoada
para ser amada
para ser livre
(Sarah Kane- 4:48 PSICOSE)
[Os "registos" apresentados são da nossa responsabilidade, para efeitos de
exposição dos excertos da peça de Sarah Kane.]
Publicado por void em 06:44 AM | Comentários (4) | TrackBack
maio 27, 2004
MISHA GORDIN: SHADOWS OF THE DREAM
Nesta primeira Galeria de apresentação de trabalhos de Misha Gordin, intitulada
"Shadows of the Dream", editamos (alguns) daqueles situados temporalmente entre
1972 e 1983:
1. Confession
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2. Inspiration in Black
3. Saturation
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4. Renunciation
5. The Mole
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6. Prophesy
7. The Liquid Shadow
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8. Echo
9. The Fifth Column
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10.
Sieg
Mental Door
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11. Prisoner of Memory
Próxima galeria: "Crowd"- trabalhos situados entre 1987 e 1991.
Publicado por void em 07:06 AM | Comentários (7) | TrackBack
maio 26, 2004
SEQUÊNCIAS
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Insonia
Ouço a sua respiração já distante da realidade.
Tem pequenas convulsões como se fizesse um movimento ao qual o corpo não
conseguisse corresponder.
Continuo a escutar o silêncio dos adormecidos e a insónia da apaixonada noite. Solitária
dos condenados, a insonolência dos pensamentos imortais enlouquece qualquer um.
Já te aconteceu ficares acordado a pensar que deverias dormir e não o fazes?
Espero
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Não quero viver no medo.
Dói ler-te no medo do sangue a espalhar-se, o medo do silêncio reinar sobre nós.
O vidro enevoado onde as palavras se embaciam nos gritos da escrita. Vem
resgatar-me às sombras emudecidas da morte, os pensamentos funestos da loucura.
O abismo vazio do meu corpo afogando-se no teu.
Espero.
Abrigo
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Respiro contra as marés da solidão. Receio estes sentimentos incompletamente
sentidos, estas palavras que soam distantes da realidade.
Se escreveres sorrisos, estarei mais perto de chorar.
Os sussurros da casa indefesa de nosso abrigo.
(Textos da autoria de uma das bloggers do Void. Editados, também, em
Memória Futura. Fotografias de José Marafona. A ele, um agradecimento
especial.)
Publicado por void em 06:24 AM | Comentários (1) | TrackBack
maio 25, 2004
EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA: MISHA GORDIN (1)
Misha Gordin:
«Em vez de fotografar realidades existentes, decidi fotografar as minhas próprias
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realidades imaginárias. Comecei a fotografar conceitos.
O processo é semelhante à encenação de uma peça de teatro. Começa com uma ideia
(argumento) e depois é preciso encontrar o local (palco) e os modelos (actores)
apropriados; há que tomar decisões quanto à iluminação e ao guarda-roupa, tirar
fotografias preliminares (ensaios) antes do dia da verdadeira sessão fotográfica (a noite
de estreia).
Tem muitas semelhanças não só com o teatro, mas também com o cinema, a poesia, a
pintura, a escultura e a música. Todos começam por um conceito e depois seguem-se o
guião ou a composição, os esboços, as afinações... E todos reflectem possíveis
respostas às maiores questões que se colocam a alguém: nascimento, vida e morte.
Mas a fotografia tem uma vantagem: a sua verosimilhança. Nós temos uma tendência
subconsciente para acreditar que aquilo que vemos fotografado tem de existir.»
(Depoimento do fotógrafo in: Periférica, Verão 2003)
Misha Gordin nasceu em 1946 em Riga (Letónia). Em 1974 fugiu para os EUA,
onde vive.
Com este post chamamos a atenção para uma exposição de trabalhos do autor
(necessariamente seleccionados) que iremos apresentar. Até lá, a
interiorização daquela que é sua ideia sobre o trabalho fotográfico
desenvolvido.
Publicado por void em 12:27 PM | Comentários (4) | TrackBack
O HOMEM QUE SABIA DEMAIS
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A PIOR BANDA DO MUNDO, de José Carlos Fernandes
Filosofia + Literatura = BD?
José Carlos Fernandes é o caso mais sério da BD nacional. Tendo começado algo
tardiamente, tem uma produção já vasta, fruto de uma capacidade de trabalho
incomum. A sua obra mais aclamada é A Pior Banda do Mundo, série de rara
perspicácia e de uma ironia quase cruel, em que referências literárias e filosóficas se
conjugam de forma estranhamente harmoniosa com a narrativa gráfica. Publicada
simultaneamente em Portugal, Espanha e Brasil (coisa única num autor português),
está prevista a expansão a outros mercados (o que, se não é único, é raro). Em 2002 o
primeiro volume d' A Pior Banda, com o título O Quiosque da Utopia, foi considerado o
melhor álbum do ano no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora; no
ano seguinte, igual distinção para O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante,
segundo volume da série. Entretanto saiu As Ruínas de Babel. Quanto ao quarto, A
Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto (de onde foi retirada a história "A
Insuspeitada Beleza do Teorema de Tutte", pré-publicada ao virar desta página [não
disponível na edição online]), tem lançamento previsto para os próximos dias. FG
(In: Periférica, Primavera 2004)
Publicado por void em 12:13 PM | Comentários (0) | TrackBack
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GARNER, NC
(Fotografia de João Redondo)
suponhamos que ele tem 30 e ela 17
música de tom jones os dois dançando muito juntos
no centro da pista suponhamos que decidem
que ela se entrega no wc dos homens
que passam três dias e três noites fechados
no holly day inn casa-de-banho piscina vistas para a estrada
que ele é um maníaco que ela faz coisas em frente a uma handycam sony de 8mm
coisas que ao princípio doem e depois doem mais
que acorda na valeta da nacional 95
aturdida pelo efeito dos soníferos quase nua
como os filhos do mar
e que espera o autocarro nalgum ponto do mapa depois de caminhar toda a
noite com os sapatos brancos na mão encadeada pelos faróis de todos
os camionistas
(Pablo García Casado- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004)
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DESENCONTROS
(Kafka)
Na verdade tinhas tantas vezes razão contra mim que era surpreendente; nada mais
natural quando isso se passava em palavras, porque raras vezes íamos até à
conversação, mas tinhas razão até nos factos. Contudo, não havia, também neste caso,
nada de especialmente incompreensível: estava pesadamente comprimido por ti em
tudo o que se referia ao meu pensamento, mesmo e sobretudo onde ele não se
ajustava ao teu. O teu juízo negativo pesava desde início sobre todas as minhas ideias
independentes de ti na aparência; era quase impossível suportá-lo até ao remate total
e duradouro da ideia. Aqui, não falo de não sei que ideias superiores, mas de pequenos
casos infantis, seja ele qual for. Bastava simplesmente estar feliz a propósito de coisa
qualquer, de estar pleno, de voltar para casa e dizê-lo, e recebia-se à guisa de resposta
um sorriso irónico, um maneio de cabeça, um bater de dedos em cima da mesa (...).
Não será necessário dizer que não te podíamos pedir entusiasmo por cada uma das
nossas bagatelas infantis, enquanto estavas mergulhado em preocupações e desgostos.
Aliás não se tratava disso. O importante é antes que, em virtude da tua natureza
oposta à minha, e por princípio, eras sempre levado a preparar decepções deste género
à criança, que a oposição se agravava constantemente graças à acumulação do
material, que se manifestava por hábito, mesmo quando eras por acaso da minha
opinião e que a tua pessoa fazia autoridade em tudo, as decepções da criança não eram
decepções da vida corrente, mas iam direitas ao coração. A coragem, o espírito de
decisão, a confiança, a alegria de fazer tal ou tal coisa não podiam ir até ao fim quando
te opunhas ou até quando se podia suspeitar da tua hostilidade: e esta suposição, podia
tê-la a propósito de quase tudo o que eu empreendia.
Isso aplicava-se tanto às ideias como às pessoas. Bastava-te que alguém me inspirasse
algum interesse (...) para intervires brutalmente pela injúria, a calúnia, as falas
aviltantes, sem a menor consideração pela minha afeição e sem respeito pelo meu
juízo. Seres inocentes e infantis foram obrigados a padecer.
(Kafka- CARTA AO PAI)
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maio 24, 2004
VÉNUS
36 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
(Pintura de Fernando Esteves Pinto)
Um grande beijo para o autor, também escritor. Um homem das artes.
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37 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
SUSSURRAR
de fora. quero ficar de fora para o vento. libertar-me das amarras do controlo e voar
sobre o impacto de gritar.
gritar.
gritar.
não controlo este sentimento.
consegues mitigar a dor da petrificação sobre as palavras mal vividas?
hoje quero prantear a tua demora, a tua opacidade, a putrefacção da realidade dentro
das coisas palpáveis, teclados de sonhos em visões desesperadas de desejo, muito além
dos trocadilhos amorosos. lês-me e desenterras, sulcas e afogas-te entre rios de
amarguras, ódios disfarçados em velhos espelhos partidos que cortam, oscilando pelo
sangue enxuto e o sangue imaculado, fresco que pulsa, esperando, procurando,
descobrindo, atentando.
o perigo está nos dias da loucura, nos versos de esperanças que vergastam o tempo e
incendeiam as estreitas ligações de sanidade temporária, pois que não é esse verbo de
negação que acompanha a minhas acções no dia-a-dia da coerente ausência?
perco-me na infelicidade feliz por quem, cujos braços se estendem ao mundo, tão
distantes de alguma vez alcançarem esta cova de suspiros abandonados.
sussurra outra vez o amor a encostar-se à pele, as labaredas a incutirem-se pelos
lábios salgados do gemido abafado, diz-me novamente os cabelos a soltarem-se pelo
soalho despido, os tecidos a fugirem da carne efervescente enquanto as curvas se
esculpem nos dedos de escritor. toca-me as sonatas de pintor, escreve-me nos quadros
de acrílico e esvazia-me no barro que escorre pela tua sombra. deixa a respiração ecoar
pela realidade perturbante. deixa os gritos acharem-se em gemidos silenciosos. deixa o
momento sonhar-nos.
(Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória
Futura).
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O HOMEM: SEMPRE DESCONHECIDO
(Fotografia de Alberto Monteiro)
É provavelmente verdade que um homem nos fica sempre desconhecido, e que nele
sempre subsiste qualquer coisa de irredutível que nos escapa. Mas, praticamente
conheço os homens e reconheço-os pela sua conduta, pelo conjunto dos seus actos,
pelas consequências que a sua passagem suscita na vida. Da mesma maneira posso
praticamente definir, praticamente apreciar todos esses sentimentos irracionais que a
análise não consegue captar. Para tanto me basta reunir a soma das suas consequências
na ordem da inteligência, surpreender-lhes e fixar-lhes a face, delimitar-lhes o
universo. É certo que, aparentemente, lá por ter visto cem vezes o mesmo actor, nem
por isso o conheço pessoalmente melhor. No entanto, se eu adicionar os heróis que ele
encarnou e disser que o conheço um pouco mais, por ocasião da centésima personagem
recenseada, sente-se que há aqui uma parte de verdade. Porque este paradoxo
aparente é também um apólogo. Tem uma moralidade. Ensina que um homem se
define bem através das suas comédias como através dos seus impulsos sinceros. Assim
acontece, um tom abaixo, com os sentimentos, inacessíveis no coração, mas
38 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
parcialmente traídos pelos actos que eles animam e pelas atitudes de espírito que
pressupõem. (...)
O método que aqui defino confessa o sentimento de que todo o verdadeiro
conhecimento é impossível. Só as aparências podem enumerar-se e o clima fazer-se
sentir.
(Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO)
Publicado por void em 06:52 AM | Comentários (0) | TrackBack
A ALEGRIA
(Ferreira Gullar)
O sofrimento não tem
nenhum valor.
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).
Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?
A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)
Publicado por void em 12:14 AM | Comentários (0) | TrackBack
MEU CORAÇÃO ESTÁ TRISTE
39 of 92 19/1/07 19:01
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(Fotografia de Marta Veríssimo)
Meu coração está triste
E sente-se bastante solitário
Resolveu que deve seguir
O seu destino sozinho
Pois não quer mais dividir
Suas emoções
Não quer mais estar com...
Pois, não consegue viver
Numa vida de subterfúgios
Nem trabalhar
Com momentos mendigados
Prefere antes estar só
Meu coração
Procura abrigo
Mas, não com certeza
Dessa forma
Quer ser livre
E poder amar e viver livremente
Não consegue viver
Num mundo
Onde reina a hipocrisia
O falso moralismo
É o que é
Chegou a hora de
Quabrarmos as correntes
40 of 92 19/1/07 19:01
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E assumo
Basta de silêncio.
(Lília Trajano- INÉDITO)
[Conta comigo no acompanhamento deste teu projecto. Acima de tudo: com
amizade e sem os tais falsos moralismos. Sandra]
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maio 23, 2004
ENXOVAL
Em tempos, o enxoval representava um quinto da erótica feminina, que nele
empregava desejos, fantasias e até as funções mais abissais do tédio. Os bordados, as
bainhas, as rendas aplicadas, as cambraias e os linhos, tinham um significado
ligeiramente bestial; um significado de rogo e praxe amorosa que roça pela
obscenidade. Fazer ilhós e abrir os riscos de folhagem em volta duma haste em cordão
perlé tinha quase o significado dum himeneu. Ema já não estava senão na orla final
dessa praxe de gineceu, mas tinha ainda nos ouvidos as recomendações de dona
Augusta, ela própria uma dama dos enxovais, que arrumava em armários altos como
oratórios; nunca se casou, mas o enxoval cumpriu o seu simbolismo, deu-lhe as
alegrias fabulosas do encontro dos corpos e a sensual presença no noivado aromatizado
de camoesa e lavanda. Ema percebeu que quanto mais o casamento desagradava e
tinha espinhos que feriam de maneira profunda, mais as mulheres voltavam para esse
enxoval as suas atenções quase libidinosas. No tempo de Ema, a roupa interior tomou a
dianteira sobre o enxoval da casa; fez-se subtil ardente e requintada. Cumpriu com a
missão de encobrir desejos sem os deixar de ouvir. Ema teve uma das maiores
colecções de camisas de noite, de seda e de algodão fino. Vestia-as, e sentia-se outra:
uma deusa na sua concha, embalada pelo mar.
(Agustina Bessa-Luís- VALE ABRAÃO)
Para além do livro, recomendamos:
Argumento:
"Vale Abraão" é a história de Ema, uma mulher de uma beleza ameaçadora. Para
Carlos, o marido com quem se casou sem amor, "um rosto como o seu pode justificar a
vida de um homem". O seu gosto pelo luxo, as ilusões que tem na vida, o desejo que
inspira aos homens, fazem-lhe valer o epíteto de "A Bovarinha". Conhecerá três
amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um sentimento crescente
de desilusão que a leva a definir-se como nada mais que "um estado de alma em
balouço". Ema morrerá- "acidentalmente? Quem sabe?"- num dia de sol radioso,
depois de se ter vestido como se fosse para ir a um baile."
Actores:
- Leonor Silveira
- Luís Miguel Cintra
- Cecile Sanz de Alba
- Rui de Carvalho
41 of 92 19/1/07 19:01
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- Glória de Matos
- Luís Lima Barreto
- João Perry
- Diogo Dória
- Isabel Ruth
- Micheline Larpin
O DVD:
- Entrevistas com Agustina Bessa-Luís e Leonor Silveira
Duração do filme:
210'
Publicado por void em 05:23 PM | Comentários (3) | TrackBack
(OUTROS) QUOTIDIANOS FEMININOS
Enfim... seja a Maitena, sejamos cada uma de nós, ainda andamos muito assim... nos
inícios do Século XXI (não, isto não é Feminismo, é a realidade):
42 of 92 19/1/07 19:01
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(Trabalhos de Maitena)
Publicado por void em 04:12 PM | Comentários (0) | TrackBack
(ALGUNS) QUOTIDIANOS FEMININOS
(Trabalhos de Maitena)
[Pelo imenso carinho da minha parceira, pelo "abanão", "bofetada" e "carta"
do Fernando, acabei por voltar. Vamos lá ver como vou conciliar este e outros
projectos. Que raio de vida!! ... Sandra ;)]
43 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
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ONE DOLLAR
não se venda ao silêncio por uma nota de papel
Publicado por void em 01:34 AM | Comentários (1) | TrackBack
maio 21, 2004
COMO ME QUEREM?
(Pintura de Karina Gallo)
como me querem?
de frente, não?
talvez de lado.
de frente não fico bem
nota-se mais a tristeza
funda que sobre as coisas
deita o meu olhar parado
então está assente:
para não perturbar a paz dos dias
fico de lado como um disfarce
nessa penumbra da gente
que não tem onde agarrar-se
(Maria Costa- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004.)
44 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
Publicado por void em 03:13 PM | Comentários (5) | TrackBack
FORA DO LUGAR
A dor é uma desordem inimiga
das palavras com o silêncio todo fora
do lugar. Saberemos tomar um caminho
por essa floresta escura? Poderemos sequer recuperar a pequena bússola partida,
a caneta e o papel, as nossas certezas de trazer no bolso?
Não nos avisaram contra o medo,
não nos disseram que pode chegar
a qualquer hora, deslealmente,
enquanto o sol dorme na paisagem e as ervas
se levantam para receber o Verão. E agora
que quase nos perdemos, sem mapa ou sentido
que nos sirva, o nosso único guia é o amor
dos que nos esperam numa sala branca
onde o chão nos falta e não há estações.
(Rui Pires Cabral- poema publicado na revista Periférica, Verão 2003.)
Publicado por void em 08:47 AM | Comentários (0) | TrackBack
AMOR EM VERMELHO
45 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
(Fotografia de Christian Coigny)
Juan, ainda cansado, e suado, disse a Irene:
- Acho que deveríamos experimentar algo novo, não sei, tentar outras experiências que
nos impeçam de cair na rotina...
Depois de dois segundos de um silêncio premeditado, Irene procurou- e encontrou- com
um olhar oblíquo as manchas da toalha, a desordem da cozinha, os copos pelo chão...
- Eu acho que não corremos esse risco, que somos uma parelha divertida, ou será que
já te cansaste de mim?
Juan engoliu saliva e deixou-se hipnotizar, uma vez mais, pelo verniz de unhas de
Irene. “É tão verde como a erva”, pensou e calou.
- Nunca me cansarei de ti... muito pelo contrário. Tenho medo de que tu o faças.
Temo-o...
Irene arqueou as sobrancelhas como uma malvada preceptora suiça de conto infantil-
animação de produção japonesa.
- Enquanto me aguentares, não temas nada.
- Aguentarei tudo- disse Juan. Mentia, o coração latia assustado, recordando outros
momentos similares, próximos no tempo.
- Poderias aguentá-lo hoje?- perguntou Irene, entregue de novo ao jogo.
Juan engoliu saliva, mas já não se deixou hipnotizar pelo verniz verde-erva das suas
unhas.
- Acho que sim...- respondeu sem convicção.
E foderam de novo, até que ela disse basta.
Então, meio asfixiada, satisfeita, bêbada de adrenalina, procurou- e encontrou- com
aquele olhar oblíquo as manchas da toalha, a desordem da cozinha, os copos pelo chão
e o sangue de Juan correndo em direcção à porta. Decepcionada, abandonou o
apartamento sem dizer adeus.
E decidiu não voltar a utilizar esse verde para as unhas, nem esse corpete de couro que
lhe assava o peito, nem umas facas tão rudimentares, nem um apartamento tão fatela.
E decidiu também Sandra não voltar a chamar-se Irene, nem procurar os seus amantes
46 of 92 19/1/07 19:01
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em bares de beira de estrada.
(Salvador Gutiérrez Solís- texto publicado na revista Periférica, Primavera 2004.)
Publicado por void em 07:15 AM | Comentários (0) | TrackBack
UN PAS DE DEUX
- sabes dançar?
- não. ensinas-me?
- sente. sente até tu, eu e a música sermos um só.
- assim?
(Trabalho do autor)
Publicado por void em 06:55 AM | Comentários (0) | TrackBack
KISS
mais que um beijo, fusão.
47 of 92 19/1/07 19:01
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(Trabalho do autor)
Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (1) | TrackBack
maio 20, 2004
E TE DIZIA EU COMO O CALOR TRANSTORNA
(Fotografia de Mário Filipe Pires)
e te dizia eu como o calor transtorna
a nítida visão das coisas
é que não tenho outra explicação
48 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
então não me dizias tu que o carro que havíamos de ter
seria era todo azul com os estofos encarnados
e que os girassóis cresciam na minha janela
e que eram os mais lindos que alguma vez se vira
e que as açucenas mais brancas eram as minhas mãos
coladas às tuas- puríssima comunhão
então- e os olhos mais doces que mel
o jeito de rir os lábios em botão
o meu corpo criado no céu
etc. e tal
só pode ter sido o calor que tudo transtorna
quando no inverno a seguir
me confessavas já frio e sem rir
que nada era assim era tudo doutra forma
ora eu fiquei com a voz engasgada
porque me parecias um ser de virtudes
vá-se lá a gente fiar-se
não há nada como ter um pé-de-meia
contra as vicissitudes e
guardar-se
(Maria Costa- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004.)
Publicado por void em 04:16 PM | Comentários (5) | TrackBack
AFERROLHADOS NO HORROR
(Fotografia de Christian Coigny)
O amante de Cholen habituou-se à adolescência da rapariga branca até se perder nela.
49 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
O gozo que tira dela todas as noites comprometeu o seu tempo, a sua vida. Já quase
não lhe fala. Talvez ele julgue que ela já não compreenderia o que lhe diria dela,
daquele amor que ele ainda não conhecia e de que não sabe dizer nada. Talvez ele
descubra que nunca se falaram ainda, salvo quando chamam um pelo outro nos gritos
do quarto à noite. Sim, acho que ele não sabia, que descobre que não sabia.
Ele olha-a. Com os olhos fechados ainda a olha. Respira o rosto dela. Respira a
menina, de olhos fechados respira a sua respiração, esse ar quente que sai dela.
Discerne cada vez menos claramente os limites desse corpo, aquele não é como os
outros, não está acabado, cresce ainda no quarto, não tem ainda formas definitivas,
faz-se a cada momento, não está apenas ali onde ele o vê, também está algures,
estende-se para lá da vista, para o jogo, a morte, é elástico, parte inteiro para o gozo
como se fosse grande, em idade, sem malícia, duma inteligência assustadora.
Eu observava o que ele fazia de mim, como se servia de mim e nunca pensara que se
pudesse fazê-lo daquela maneira, ia além da minha esperança e conforme com o
destino do meu corpo. Assim tinha-me tornado sua filha. Ele também se tinha
transformado noutra coisa para mim. Começava a reconhecer a suavidade inexprimível
da sua pele, do seu sexo, para além dele mesmo. (...)
Tudo ia ao encontro do seu desejo e o fazia possuir-me. Tinha-me tornado sua filha.
Era com a filha que fazia amor todas as noites. E às vezes fica com medo, de repente
preocupa-se com a sua saúde como se descobrisse que ela era mortal e o trespassasse
a ideia de que a podia perder. (...)
Possuía-a como possuiria a sua filha. Era assim que possuiria a sua filha. Brinca com o
corpo da filha, volta-a, cobre com ele o rosto, a boca, os olhos. E ela, ela continua a
abandonar-se na direcção exacta que ele tomou quando começou a brincar. E de súbito
é ela que lhe pede, não diz o quê, e ele, ele grita-lhe que se cale, grita-lhe que já não
a quer, que já não quer ter prazer com ela, e ei-los de novo presos, aferrolhados entre
si no horror, e eis que esse horror se desfaz mais uma vez, que lhe cedem mais uma
vez, em lágrimas, no desespero, na felicidade.
(Marguerite Duras- O AMANTE)
[Para alguém que me pediu para trazer novamente aqui Marguerite Duras.
Sandra]
Publicado por void em 07:58 AM | Comentários (3) | TrackBack
SAUDADES
P: tinhas saudades minhas?
R:
50 of 92 19/1/07 19:01
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(Trabalho do autor)
Publicado por void em 07:20 AM | Comentários (2) | TrackBack
ÉS ASSIM
(Trabalho do autor)
Publicado por void em 07:14 AM | Comentários (2) | TrackBack
PAZ
(Trabalho do autor)
Publicado por void em 07:10 AM | Comentários (4) | TrackBack
maio 19, 2004
COMPETÊNCIA PARA AMAR
51 of 92 19/1/07 19:01
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(Clã)
Vieste comigo
Nesse jeito pós-moderno
De não querer saber nada
De não fazer perguntas
Essa pose cansada
Tão despida de emoção
De quem já viu tudo
E tudo é uma imensa repetição
Não fosse a minha competência para amar
E nunca teríamos acontecido
Num mundo de competências
E técnicas de ponta
A dádiva da fala
Quase já não conta
Depois quase ias embora
Desse modo
Evanescente
Não soubesse eu ver-te tão transparente
E teria sido apenas
Um encontro acidental
Uma simples vertigem
Dum desporto radical
Não fosse a minha competência para amar
E nunca teríamos acontecido
Num mundo de competências
E técnicas de ponta
A dádiva da fala
Já quase não conta
(Clã- ROSA CARNE)
Publicado por void em 08:56 AM | Comentários (8) | TrackBack
PARA TI
P: quando pensas em mim, és feliz?
52 of 92 19/1/07 19:01
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R:
(Trabalho do autor)
Publicado por void em 06:51 AM | Comentários (1) | TrackBack
COLO
P: como se escreve carinho, conforto, descanso, ternura, meiguice, aconchego?
R:
(Trabalho do autor)
Publicado por void em 06:45 AM | Comentários (1) | TrackBack
53 of 92 19/1/07 19:01
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ALMA GÉMEA
sinto em ti um eco de mim.
(Trabalho do autor)
Publicado por void em 06:38 AM | Comentários (3) | TrackBack
maio 18, 2004
A MORTE DO POETA
De volta surge o poeta
Triste e frio
Surge, mas, não principia
Acredita que já não há vida em si
Poeta morto
54 of 92 19/1/07 19:01
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Vagueia feito fantasma
Caminha por entre orvalhos
Silencia com seu suspiro
Dilacerado de dor
Dor, que tormenta dor
Dor cheia
Que aguenta e arrebenta dor
Em plena lua cheia, minguante
No sal da terra de quem não sabe
E não sabe mesmo, pensa o poeta:
Que vivo não pode amar
E o poeta só e morto prossegue
Segue sem saber
Que seu saber
Que seu corpo já não mais pertence ao mundo
Seu corpo flutua no imenso Tejo
Flutua com sua angústia
Com sua fome de não ser amado
Nada é ou será como dantes
Basta olharmos o céu para vermos
Que de azul se tornou cinzento
Já não há esperança
A guerra segue no seu curso matando
E quem morreu foi o pobre do poeta
Que nada tinha a ver com a guerra
Mas foi atingido pela hipocrisia do amor
O poeta tentou olhar no mirante
Do alto da porta do sol
Mas a chuva não deixou
O poeta está morto
Morreu por ter amado
E de tanto amar foi esquecido
O poeta não soube fingir
Não soube disfarçar sua dor
Foi definhando devagar
Devagar e pra sempre
Agora seu corpo jaz sobre o Tejo.
(Lilia Trajano- INÉDITO)
[Um poema espectacular este, Lília. Beijo grande para ti, amiga. Sandra]
Publicado por void em 09:02 AM | Comentários (7) | TrackBack
DESEJO
quando te deitas
pensas em mim?
55 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
(Trabalho do autor)
Publicado por void em 06:59 AM | Comentários (6) | TrackBack
DEVANEIOS
o que é que ainda te falta experimentar?
(Trabalho do autor)
Publicado por void em 06:53 AM | Comentários (2) | TrackBack
ABRAÇO AO VENTO
abraçar-te como quem abraça o vento
segurar-te como quem segura o tempo.
(Trabalho do autor)
Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (4) | TrackBack
maio 17, 2004
56 of 92 19/1/07 19:01
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ROSTO DESTRUÍDO
(Marguerite Duras)
Muito cedo na minha vida foi tarde de mais. Aos dezoito anos era já tarde de mais.
Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista.
Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei.
Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando
atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi
brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre
eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a
fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento
do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura.
Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu
curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezassete anos aquando da
minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos
depois, aos dezanove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu
ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto
lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos
rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está
destruída. Tenho um rosto destruído.
(Marguerite Duras- O AMANTE)
Publicado por void em 05:48 PM | Comentários (1) | TrackBack
CORPO
quando te debruças e te ofereces assim...
57 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
(Trabalho do autor)
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A METAMORFOSE DO ENCONTRO
ansiando:
tocando:
(Trabalhos do autor)
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INSTANTE
deslizando pelo teu corpo, a minha mão encontrou a tua. aberta, dedos em riste, tal
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qual sentidos. ansiando... apertaram-se em uníssono e contraíram-se assim, imitando
os corpos num crescendo de prazer. eis o instante:
(Trabalho do autor)
[Com este post iniciamos a apresentação semanal do trabalho de Alves,
blogger do "Abstracto Concreto". Os conjuntos por si construídos merecem,
desta forma, o nosso conhecimento, atenção e sentir de significado. Fiquemos,
pois, com eles. Sandra]
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maio 16, 2004
A DOR TRANSFORMADA EM GOZO
Tenho ainda a dizer-vos que tenho quinze anos e meio. (...)
Aconteceu muito depressa nesse dia, uma quinta-feira. Ele veio todos os dias buscá-la
ao liceu para a levar ao pensionato. E depois, uma vez, veio uma quinta-feira à tarde
ao pensionato. Levou-a no automóvel preto.
É em Cholen. É do lado oposto às avenidas que ligam a cidade chinesa ao centro de
Saigão, essas grandes estradas à americana percorridas pelos eléctricos, os riquexós, os
carros. É logo no começo da tarde. Ela escapou ao passeio obrigatório das raparigas do
pensionato.
É um apartamento no sul da cidade. O sítio é moderno, dir-se-ia que mobilado de
qualquer maneira, com móveis a atirar para o moder style. (...)
Ela diz-lhe: preferia que não me amasse. Mesmo que me ame gostaria que fizesse
como habitualmente faz com as mulheres. Ele olha-a como que apavorado, pergunta: é
isso que quer? Ela diz que sim. Ele começou a sofrer ali, no quarto, pela primeira vez,
já não mente acerca disso. Diz-lhe que já sabe que ela não o amará nunca. Ela deixa-o
dizer. Primeiro diz que não sabe, depois deixa-o dizer.
Ele diz-lhe que está só, atrozmente só, com esse amor que tem por ela. Ela diz-lhe que
também está só. Não diz com quê. Ele diz: seguiu-me até aqui como teria seguido
outro qualquer. Ela respondeu que não pode saber, que nunca seguiu ninguém a quarto
nenhum. (...)
Ele arrancou o vestido, arrancou as calcinhas de algodão branco e levou-a assim nua
até à cama. E depois volta-se para o outro lado da cama e chora. E ela, lenta,
paciente, vira-o para si e começa a despi-lo. De olhos fechados, despe-o. Lentamente.
Ele quer fazer gestos para a ajudar. Ela pede-lhe que não se mexa. Deixe-me. Ela diz
que quer ser ela a fazê-lo. Fá-lo. Despe-o. (...)
A pele é duma sumptuosa suavidade. O corpo. O corpo é frágil, sem força, sem
músculos, poderia ter estado doente, estar em convalescença, é imberbe, sem outra
virilidade que a do sexo, é muito fraco, parece à mercê de um insulto, débil. Ele não a
olha no rosto. Não o olha. Toca-o. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor
dourada, a desconhecida novidade. Ele geme, chora. Está num estado de amor
abominável.
E a chorar fá-lo. Primeiro há a dor. E depois esta dor é por sua vez possuída,
transformada, lentamente arrancada, levada até ao gozo, abraçada a ele. O mar, sem
forma, simplesmente incomparável. (...)
Não sabia que se deitava sangue. Ele pergunta-me se me doeu, digo-lhe que não, ele
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diz ainda bem.
Ele limpa o sangue, lava-me. Olho-o enquanto o faz. Insensivelmente ele torna a ser
desejável. (...)
Olhamo-nos. Ele beija-me o corpo. (...)
(Marguerite Duras- O AMANTE)
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OS SONHADORES
(Fotografia de Marta Veríssimo)
Os sonhadores odeiam a realidade da vida. Odeiam aqueles que se apresentam como
construtores de ideais que só fazem sentido num compartimento ingénuo da existência.
A loucura dos meus actos é uma ameaça para aqueles que me amam. As minhas
palavras constituem o perigo de viver com os outros, os reais. Quando comecei a
escrever, houve por certo alguém que perguntou: escrever porquê? Escrever contra
quem? Sempre soube que escreveria contra mim. Na minha casa em Cascais escrevi
contra a família. Nunca fui impulsionado pelas virtudes protectoras da inspiração
literária. Escrever era viver tudo outra vez. Era sofrer como se não tivesse já sofrido.
Escrever a primeira palavra de um muro que se apresentava em duplicado: um muro
erguido pela força da minha escrita; um muro derrubado pelo medo de leitura a meu
respeito. Os sonhadores escrevem as histórias de medo que sempre desprezaram. Na
minha vida nunca tive nada que pudesse perder enquanto escrita, isto é, nada do que
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eu escrevi o devo à perda que poderia significar algumas situações da minha própria
existência. Eu sabia que o sofrimento do que escrevia se transformava na felicidade dos
que me liam. Compreendi que só podia escrever como se estrangulasse os sentimentos
daqueles que esperavam de mim um choro poético que os tranquilizassem da ameaça
mental que eu constituía na sua forma de viver. Enganaram-se todos. Se havia um
relâmpago a rasgar os dias das suas vidas, isso era o meu pensamento a autopsiar os
comportamentos dos que me rodeavam. Não acredito na inspiração, sentar-me para
escrever e aguardar serenamente que um deus pensativo me ofereça uma guloseima
literária que se adapte sem angústia ao meu pensamento. Nunca foi assim. Quando vou
para escrever também vou para morrer. Levo tudo destruído. O meu campo de escrita
é uma melodia fulminante. Ouço a música da morte que extermina as palavras que se
perdem no interior onde são pensadas. E no fim de tudo o que escrevo, só eu sinto que
existe em mim uma sepultura de palavras humanas.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
[Com este post damos por concluída a edição semanal de textos do autor. A ele
o nosso imenso agradecimento e o reforço da exteriorização daquela que é a
nossa admiração pela sua escrita. Sandra]
Publicado por void em 08:06 AM | Comentários (4) | TrackBack
maio 15, 2004
VOU SER VIOLENTO CONTIGO
(Fotografia de Bruno Espadana)
Hoje li uma história que começava mal. Fez-me pensar em ti. Agora que estou a
pensar em tudo o que li nessa história, tenho uma ideia para ser escrita. Porque será
que as histórias tristes são assim tão lindas? Eu penso que seja porque existe muito
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amor dentro delas. Eu sei que sou suspeito pelo sofrimento que te faço sentir.
Destruo-te pelas palavras. É a minha forma de escrever. Começar uma frase pela
destruição. O meu pensamento és tu num quarto fechado. Não sei amar as multidões.
O meu amor por ti é tudo aquilo que escrevo sobre esse quarto onde vives por mim.
Não me odeies por isso. Não acredito nas pessoas. Tu sabes que eu fecho os olhos ao
mundo. Eu estou a escrever talvez sem o teu mundo. O esquecimento é uma
perturbação do não sentir. Tu escutas o meu pensamento como um vazio que sentes
dentro da tua vida. Eu escrevo nesse tempo destruído onde abandonas todos os teus
sentimentos. Não sei amar, não fossem as palavras. Nunca te dei viagens, apenas te fiz
sentir no centro do teu próprio corpo. Uma frase minha não paga bilhete para qualquer
lugar do mundo. Sou um amante habitacional. A minha inspiração és tu numa cama
aberta. O meu amor nunca foi disperso. Não gosto de passear numa cidade com desejo
de possuir-te. Sou um cão humano. Gosto de viajar sem tesão. Às vezes ponho a mão
na cabeça e escrevo sem pensar. Oiço uma música que me risca a memória. Diz-me tu
porque é que as histórias tristes são salvas pelos sentimentos mais belos. É como
querer recuperar o amor daqueles que já não amam? Não esperes que eu escreva para
resolver a tua vida. Ensina-me a odiar-te humanamente. Eu farei o mesmo com as
palavras. A história que eu li falava do amor que se sente para sempre perdido. A
escrita é uma boa razão emocional para evitar certas afectividades artificiais.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
Publicado por void em 11:07 AM | Comentários (2) | TrackBack
IMPRESSÕES
(Trabalho de Paulo Gonçalves)
Entras na minha casa. Na minha escrita. Estou sentado a um canto da sala. Vens por
trás de mim e eu sinto o teu silêncio. Não digas nada. Não quero escrever as tuas
palavras. Hoje não. Respiras no meu pensamento. Tem cuidado. Senta-te e observa a
imagem que lês de mim. Queres fazer amor? Escrevi o teu sexo entre a luz. Uma luz
insuficiente. Não me apetece pensar. Aproxima-te. É o teu teatro de viver as coisas que
me acontecem. Não me beijes, ainda não. Escrevi um poema. Tu lês, não podes fazer
outra coisa. O que sentes? Em todo o caso a minha poesia ficaria bem no teu
desespero. Estive para escrever a tua dor. Havemos de nos odiar. Não quero saber esse
dia, não me perguntes. Agora podes amar-me. Sim, eu deixarei de escrever. Gostaria
que a escrita não precisasse de mim. Sinto-me fraco na forma de não teres de me
amar ainda. Tens medo do que eu escrevo? Eu sei que sim. Eu também tenho medo. O
meu coração encostado ao teu silêncio. Queres ler a minha loucura quando sinto o teu
olhar nas palavras que eu não sei recuperar? Não sou assim tão forte, meu amor. Há
tanta coisa que tu não sabes. Faz-me impressão, mas escrevo na ignorância de existir.
Não posso continuar contigo na minha presença. Sempre desconfiei das minhas
verdades. Não te quero como escrita do que sinto por ti. Deixa-me pensar como
chegaremos ao prazer deste amor. Acaricia-me o tempo da minha escrita. Não te peço
mais do que esse gesto. É difícil olhar para trás. Tu olhas. Estou sempre a destruir-me
no que vês. Existes tanto no que escrevo, tanto, que agora quase nada sinto do que és.
Sabes, a escrita é sempre uma repetição diferente. Podemos começar por aí. Despe-te
enquanto as palavras não vivem a nossa vida. Agora é tarde para escrever.
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(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
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maio 14, 2004
AMOR LIXO
(Fotografia de Christian Coigny)
O amor é um produto do terrorismo dos afectos. Mata-se, morre-se e odeia-se por
amor. É o fingimento mais sincero que alguém sente pelo outro. Sente-se amor por
alguém somente quando se está a viver numa agonia existencial. Não se admirem de
confirmar que o sentimento amoroso vai buscar alimento ao desespero e ao fracasso. O
sofrimento é uma condição dos que amam. Se não estiveres disponível para sofrer,
também não saberás amar. Depois tens a mentira a enfeitar as promessas do amor. E
depois tens a ilusão que parece uma janela alta de onde te deixas cair. E depois tens o
lixo e o amor anda no lixo a envenenar-se. E os ridículos que nunca amaram como se
bebessem de uma fonte pura, assustam-se com os sentimentos que esgravatam nos
livros dos outros, e perguntam assustados: será que estamos todos sujos de amor? sim,
escrevo. Leio o que escrevi sobre o amor ao longo da vida como se me afundasse numa
lixeira de palavras inúteis e falsas e agressivas. Tens a ausência, estúpido. Tens a
perda, amante sem qualidades. Queres maior quantidade de lixo que o amor que não
sabes sentir pelos outros? Nem a ler és um ser humano limpo. A tua atenção contamina
o que eu escrevo. Posso escrever que o amor é um símbolo postiço; plástico emocional
que nos protege da virgindade do desejo. Nem os teus beijos. Nem o teu olhar dá vida
às flores que adoecem no meio do lixo amoroso. O medo de amar é que é o grande
amor de ser sincero e verdadeiro com aquele que nos ama sempre a destruir-nos. Tudo
o resto é uma reza de sofrimento que se ajoelha no coração.
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(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
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ESTA HISTÓRIA NÃO É MINHA
(Fotografia de Michelle Preuss)
Foi isso que me fizeste durante toda a vida, amar na ilusão de nunca perder, e agora
eu compreendo que corajoso é aquele que renúncia ao amor, mas a imagem que se
tem daquele que renuncia é também a imagem da cobardia. O amor é um sentimento
tão poderoso que destrói a pessoa que ama, e eu nunca senti que amasse pelas
palavras dos outros, e amo todos os dias porque aquele que ama é quem perde nesse
absoluto de amar, ama-se sempre no futuro de ainda haver amor, ama-se no tempo
que se perde a amar uma vida. Se soubesses as palavras que o amor consome para ser
tempo e amar para sempre, deixa-me dizer o tempo como uma mentira que eu
sentisse pelo amor que está perdido, talvez eu amasse o tempo das tuas palavras, ou o
medo de as dizer como um acto luminoso a fingir o teu amor. Os meus sentimentos
são uma pele envelhecida, mas nunca senti isso como uma destruição, porque esta
história não é minha, podemos ainda viver num cenário de existência em que o amor
será apenas uma ideia decorativa, a emoção estaria nesse jogo odiosoo em que cada
um de nós seria uma disponibilidade do outro, tu na tua ilusão a corroer o tempo que
me cria distâncias afectivas. Não escrevas mais sobre mim, peço-te, no teu silêncio a
afastar os dias com palavras que nunca serviram para me dizer nada, nada nesse amor
que só serve de imagem para sentirmos o quanto já não amamos, não escrevas porque
o amor é a linguagem do próprio tempo, e o amor que tu perdes a escrever é a minha
presença no teu pensamento.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
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maio 13, 2004
DESORDEM
(Fotografia de Fabrício Cardoso)
Posso dizer que te amo. E depois?
Será o meu amor uma desordem sentimental?
Hoje não tenho nada. Nem esta ideia de escrever contra o tempo.
Poderia sentir-me vazio, mas tu ainda em tudo o que sinto.
Apetece-me roubar a vida dos que amam sem ambições.
Tenho as tuas palavras. Leio o que a vida te dá.
Há a escrita que impressiona a minha vida.
Disse vazio e é espantoso o que sinto nesta viagem para escrever apenas os meus
sentimentos.
Estou tanto tempo parado. É o silêncio a fabricar pedras na solidão.
Também tens os livros. A tua casa.
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Sinto que é possível amar uma ideia.
Estou sempre a esconder-me do amor.
Amor, e o que resta das nossas palavras?
A escrita de um olhar sobre a vida.
Estou inquieto e a escrita alimenta-se desses momentos.
Há frases que devo perseguir eternamente.
E depois amo-te mas tenho medo.
Também quando escrevo tenho medo.
Posso apagar tudo, esquecer a tua vida.
O tempo, este tempo branco que já não existe.
Poderá alguém amar para além do amor?
A loucura de sentir mais do que o coração permite.
A desgraça de escrever no profundo corpo insuportável.
Leio o que tu escreves e é magnífico o sentido que te atribuo na leitura da minha
inconsciência.
Uma dor vazia a falar-me de amor.
Como se amar fosse escrever com o teu pensamento.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
Publicado por void em 06:50 AM | Comentários (4) | TrackBack
VIDA ESCRITA
(Fotografia de Tiago Morgado Paulino)
Amor estúpido. Quando podemos dizer alguma coisa é quando estamos calados. Não
penses muito. O amor não se pensa. Fingida. Há coisas mais interessantes do que amar
o que não se conhece. O amor é uma prova de vida. É um impresso que não sabes
preencher. A saudade não tem palavras. Não acredito no que dizes ou escreves mal o
que sentes. Agora sou amigo do tempo. Conversamos muito sobre ti. É claro que eu
estou a sofrer, mas isso também é uma religião. Estou a construir vazios como se fosse
possível fugirmos do tempo. Tenho uma imagem para te dizer: estamos sentados numa
esplanada a ver a multidão. Se não fosse o silêncio, podes ter a certeza, o amor seria
um atentado ao coração. Se eu seguisse o que escrevo, se eu experimentasse o que
sinto para além do que posso viver, não sei se a felicidade me reservaria um estado
emocional que desencadeasse o extermínio dos meus sentimentos. Nunca estive tanto
em silêncio. Escrever fechado, dia e noite, num tempo destruído. Escrever para um fim.
Se pensar bem, também se vive para um fim. O caminho é o mesmo. Vida escrita. Se
imaginasses os pensamentos que eu sepulto na tua imagem, se sentisses as
modificações afectivas que eu sinto para te modificar e tornar mais próxima do real, a
vida apresentar-te-ia a minha própria destruição.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
Publicado por void em 06:41 AM | Comentários (0) | TrackBack
maio 12, 2004
APRENDIZADO
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(Fotografia de Ana Pinto)
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.
(Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA)
Publicado por void em 08:48 AM | Comentários (4) | TrackBack
FOTOGRAFIAS
(Fotografia de Fabrício Cardoso)
parece que o cenário da nossa vida é uma cama desfeita. depois da destruição com
palavras. depois do silêncio amarrotado deste espaço branco. eu estou sentado no frio e
olho o meu sexo inútil. penso que o amor representa esta nudez triste deste lado da
cama. nunca há um rosto visível para dizer a verdade nestes momentos em que
abandonamos o corpo numa luz fotográfica.
contra os ferros da cama. contra o teu corpo a soluçar dentro dum tempo amargo. se
eu soubesse ser pior que todas as maldades beijava-te essa dor que transpira na tua
pele. mas tenho medo e não vejo a noite a ser transportada pela tua respiração
humilde. o amor já não reconhece o nosso lugar nesta cama. vivemos num palco de
palavras odiosas. já não somos nós mas as palavras que nos ferem neste acto último
da nossa vida. o silêncio ensina-te a sofrer.
(Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA)
Publicado por void em 12:18 AM | Comentários (12) | TrackBack
UM AMOR QUASE LONGE
(Fotografia de Marta Gonçalves)
66 of 92 19/1/07 19:01
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E depois deixei de te sentir. Mesmo estando na tua presença todos os dias por causa do
corpo, do amor que se perde num corpo que não existe como coisa vivida, sexual.
Agora só sabemos destruir-nos e não precisamos de falar muito. Se pudesse
empurrava-te para trás no tempo. Fazer-te mal, não, nada de violência.
Apresentava-te um tempo vazio só para sentires tudo o que não soubemos ser um para
o outro. Queres voltar ao inferno de me ouvires escrever à volta da tua vida? Não sei
porque estás comigo, não sei, é preciso escrever esse sentimento muito belo que se
apaga quando sentimos o sofrimento de viver ao lado de alguém incomparável. E
depois fodíamos só por foder, porque as noites eram pesadas e obscuras. Sempre
entendi isso como uma viagem que fizesse nos lugares irreconhecíveis da tua vontade.
Amas o sofrimento, eu sei, tiras prazer talvez da minha miséria emocional. Não
importa, escuta o que eu te digo, sempre precisei de uma mulher que sofresse.
Também a minha infância reclama o amor de uma mulher assim. Também o tempo me
incomoda como se fosse uma pessoa a estrangular-me de cada vez que escrevo iludido.
Tudo o que ficou escrito dependeu unicamente de nós. Não te sinto. Não há noite numa
só palavra que eu pudesse agora escrever para recuperar os sentimentos perdidos. Já
pensaste como te sentes em relação ao nosso caso? E se eu te disser que um homem e
uma mulher são sempre um caso destruído? Por vezes penso que só tu me fazes
escrever estas coisas, mais ninguém, tu sabes. Depende inquestionavelmente do que
me disseste em toda a vida. Escrevo palavras como se abrisse feridas. Gosto de
foder-te zangado. Também é assim com a escrita possível sobre o teu corpo. Ainda me
lembro, quero dizer, ainda desejo essa forma de nos envolvermos nesse instante de
maldade e prazer. Se soubesses, meu amor, como é terrível sentir as palavras em
nenhum instante de as escrever num tempo sem imagem como se tudo estivesse
acabado entre nós. Um amor quase longe.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
Publicado por void em 12:04 AM | Comentários (8) | TrackBack
maio 11, 2004
DIÁRIO
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
(Fotografia de Christian Coigny)
estendo-te a minha mão e os dedos tremem sobre o silêncio azul do teu corpo. é o
silêncio dos muros, limite da solidão, sono, água, folha seca, ombro, orvalho na tua
boca, e eu não procuro nas coisas senão o desejo de te encontrar.
o amor nasce na força das coisas que ambos amamos.
está uma lâmina dentro dum prato e luz. apenas uma lâmina e o dia voltará a
mentir-te.
um dia vermelho em decomposição. nas minhas, as tuas mãos escorrem uma doçura
oleosa, sufocada de longa rotina. viajar no teu silêncio, no teu sangue. emergir do
crepúsculo numa revoada de mil lembranças. vivemos acaso? tenho os meus olhos
cheios das tuas lágrimas.
nenhuma lágrima poderá apagar qualquer palavra dita ou algum acto cometido.
deslizas. deslizo nas curvas enigmáticas do passado. as memórias acendem-se. os
pensamentos circulam. os jardins são de cimento e as flores sabem-no. deslizas. é o
cenário do teu corpo. as flores no perfume da tua pele. o musgo do teu ventre. o
espaço branco-vale dos teus seios. sonho-te vida, segredo, luz, sangue, azul, sonho. e
agora a sombra é vazia e a linguagem é gestual. a água no tanque corre em borbotões.
a luz escorre de vidros. a terra treme. e no entanto eu sei. amanhã um outro dia.
todos os dias são dias deste próprio dia.
no primeiro dia que entrei no teu quarto falaste de ódio.
o ódio nasce assim como nasce uma rebelia contra os sentidos. ignoramos a dor ao
afirmar que no coração de uma criança não se infiltra o ódio.
por sobre a cómoda a jarra de flores desbotadas.
o passado numa moldura antiga.
o amor num retrato amarelecido.
cortinas de pó e silêncio.
escorre a luz morna pelas paredes.
a cama ao fundo desfeita.
desfeitos os sonhos também.
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
concreto o amor apenas de quem ama.
longe na distância final.
toda esta ausência que dizes haver em mim é feita do que somos e nada te oculto
enquanto percorro a chama adormecida do teu corpo. silenciosamente, os teus lábios
fecham-se de pó, ardor, vermelho. até no vazio nós caímos entre a separação do que é
secreto em ti. as palavras.
só a luz pode desiludir a beleza, não achas?
a luz desilude a beleza.
nesse tempo a noite dormia ainda nos teus olhos e a imaginação era um pensamento
aberto. a noite chama-nos e as palavras esquecem-se por momentos. nem o vento de
cordeis desgrenhados sacode o profundo desejo. emoldurada nos meus braços, como
uma janela engolida pelas heras, escutas o silêncio que é a luz e é de pedra.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
Publicado por void em 12:28 AM | Comentários (27) | TrackBack
PERIGO SILÊNCIO
(Fotografia de Christian Coigny)
Nunca hei-de querer ler códigos. Mas custa-me não aceitar o teu silêncio. Também eu
estou a codificar. É um perigo eu estar a pensar sobre o silêncio de quem não conheço.
Havia ideias para serem discutidas num campo de batalha com cama e toalha branca. A
paz do teu olhar traiu o meu pensamento. Nunca fui educado na paz, paciência. E não
te peço perdão porque essa palavra nunca a encontrei entre os meus erros. Devo a
minha maldade ao tempo onde a infância fabricava o homem que agora ama todos os
silêncios. Amo para destrui-los nas palavras que me dizes. Eu sei que a tua escrita é
um enredo de medos e desconfianças. Eu sei que o que escreves nunca fez parte da tua
humanidade. Eu acho que as tuas palavras são a mentira do meu pensamento. Um dia
aprendi a mentir com as palavras dos outros. Não basta um abraço para não dizer nada.
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
As palavras fazem falta ao amor para ser escrita desse amor. O que eu escrevo é o pior
que posso sentir no perigo do teu silêncio. Não compreendo como te sentes nesse
nocturno dos dias agarrados ao corpo solitário. Tu também escreves, eu sei, tu
escreves. Mas a tua escrita é o tempo a sofrer no silêncio de alguma palavra viver por
ti ainda. Não é a solidão, nunca acredites. A solidão é a forma vazia de sentirmos que
já não existimos para os outros. Eu tenho o teu silêncio e isso é diferente de não sentir
onde estás. Uma coisa que não podes evitar é existires onde alguém te pensa. Um dia
pensei que as palavras eram transportes sentimentais. Veículos carregados de
sentimentos. Eu era uma criança leve e possuía poucas palavras. Era uma criança
verdadeira que arrumava a vida com poucas palavras. Agora não existe nenhuma
palavra que escreva em mim a verdade da vida. Tenho a escrita, eu sei. Mas não será
a escrita a meditação codificada do que é verdadeiro em tudo o que eu escrevo? Penso
que só o teu silêncio poderá responder perigo e silêncio.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
Publicado por void em 12:14 AM | Comentários (7) | TrackBack
maio 10, 2004
CINCO MINUTOS DE AMOR (10)
(Fotografia de Cristina Martins)
Disseste-me ainda que o sexo era uma espécie de acto de vingança. Uma luta do
desespero. Que a dor que se sente nesses momentos é o orgasmo da interioridade.
Querias que eu mergulhasse na tua interioridade. Dizias-me: quero que ultrapasses a
realidade da minha presença sob o teu domínio. Querias que eu permanecesse em ti
como um castigo que alguém impusesse num acto diabólico. Eu pensava que era só
assim que sentias prazer. Um ajuste de contas sexual. Um duelo erótico,
agressivamente sensual. Um duelo entre duas pessoas que já não se amavam no
espaço da vida normal. Duas pessoas que se confrontavam na sessão espectacular dos
seus próprios corpos.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
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CENAS HUMANAS (1)
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(Fotografia de Christian Coigny)
Lamento que seja desta forma que o nosso amor sobreviva. Tenho pena que seja
assim. Eu faço os possíveis para evitar que sofras por minha causa. Eu sinto o teu
sofrimento, mas não consigo controlar-me. Há qualquer coisa em ti que me desespera,
provoca-me, põe-me à prova, ri-se de mim. Acho que estás sempre à espera de uma
reacção minha, um desfecho violento, uma sensação forte, uma resposta que
"dignifique" o nosso amor, desde que isso não fuja ao nosso controlo e não contamine
os outros. Tens o dom da sensibilidade da vítima. Levei muito tempo a compreender
essa tua capacidade para o sofrimento. Sempre distorceste os meus sentimentos de
forma a explorares uma reacção da minha parte que te controlasse pela negativa. A
degradação estimulava-te. Eu não sabia. Eu tinha uma ideia de comportamento
completamente distinta. Uma ideia de relacionamento entre duas pessoas que se amam
sem se atreverem a entrar nesse mundo louco da sexualidade vergonhosa e doentia. A
naturalidade não nos basta. Tu eras tão normalizada. Tão passiva. Admirava a tua
sobriedade sexual. Excitava-me a tua lentidão e resistência para a aprendizagem de
novas sensações e outros prazeres. Até que um dia, na cama, durante uma amorfa
sessão de sexo rotineiro, me incitaste para que te esbofeteasse durante o orgasmo.
Estabelecia-se assim um capítulo erótico nas nossas vidas de odiosos e apaixonados
amantes. O acto sexual passou a ser um " espaço de luta". Era nesse breve instante
que nos odiávamos. Sob o meu domínio, fazias o teu balanço diário. Contabilizavas os
valores positivos e negativos do meu comportamento. O teu rosto de prazer
afigurava-se-me como um rosto de revolta. Imaginava o que poderia desfilar na tua
mente. Nunca a minha boa imagem, isso seria utópico demais. Mas sentia a tua
vingança em ebulição. Uma vingança eruptiva a consumir a minha honestidade.
(Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA)
[Iniciamos, com este post, a (re)edição semanal de textos do autor, no âmbito
do projecto lançado na Segunda-feira anterior. Encontra-se cada um destes
trabalhos já editado em blogs onde o escritor toma parte, quer a título
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
individual, quer em parceria. Da responsabilidade do Void, a escolha dos
mesmos e a junção de fotografias. Sandra.]
Publicado por void em 12:06 AM | Comentários (2) | TrackBack
maio 09, 2004
LEI GERAL
REI
Porque pairam ainda essas nuvens sobre ti?
HAMLET
Não é assim, Senhor; estou bem exposto ao sol.
RAINHA
Bom Hamlet, expulsa essas cores da noite e pousa um olhar amigo sobre o rei da
Dinamarca. Não procures para sempre, com os olhos baixos, o teu nobre pai no pó da
terra. Sabes que é a lei geral. Tudo o que vive deve morrer, arrastado pela natureza
para a eternidade.
HAMLET
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
Sim, senhora, é a lei geral.
RAINHA
Se o é, por que te parece tão especial?
HAMLET
"Parece", Senhora? Não; é! Não conheço "aparências". Não é apenas a minha capa cor
de noite, boa mãe, nem o traje soturno dum negro solene, nem o sopro forte dum
suspiro forçado, não, nem o rio que me corre nos olhos ou o aspecto tristonho do meu
rosto, junto às formas, aspectos e moídos da dor, que verdadeiramente me revelam.
Esses, realmente, "parecem"; porque são acções que um homem pode representar...
Mas eu tenho dentro de mim o que não pode representar-se e não os trajes ou o
cenário da dor.
REI
Só inaltece o teu carácter, Hamlet, prestar esses magoados preitos a teu pai. Mas tens
de saber que teu pai perdeu um pai; que esse perdido pai perdeu o seu; e que é filial
dever daquele que fica manter por algum tempo respeitoso luto. Porém, perseverar em
cego nojo é acto de impiedoso desvario. É dor imprópria dum homem. É ser rebelde
para Deus, prova dum coração sem força, dum espírito sem calma, dum entendimento
simples, duma mente inculta. Pois, porque havemos de tomar a peito aquilo que
sabemos ter de ser, que é vulgar como as coisas vulgares e é vontade de Deus? É um
acto ímpio que ofende os céus, que ofende os mortos, que ofende a natureza, absurdo
perante a razão, que sabe que o que "tem de ser", tem de ser. Suplico-te: afasta de ti
essa dor vazia e olha-me um pouco como um pai. Pois, é preciso que o mundo saiba,
és o mais próximo sucessor do trono e o nobre amor que por ti nutro iguala o que o
mais amante dos pais tem por seu filho. Quanto a voltares para a escola em
Wittenberg, é o que mais contraria o nosso desejo. E assim te suplico que aqui fiques,
para a alegria dos nossos olhos, como nosso primeiro cortesão, nosso primo e nosso
filho.
RAINHA
Que não sejam vãs as preces de tua mãe, Hamlet. Peço-te que fiques connosco. Não
vás para Wittenberg.
HAMLET
Tudo farei para vos obedecer, Senhora.
REI
Eis uma linda e terna resposta. Fica na Dinamarca como nós próprios. Vamos, senhora.
Este acordo gentil e natural de Hamlet sorri ao nosso coração; em louvor do que não há
brinde alegre que o Rei hoje faça que o eco dos canhões não vá contar às nuvens e seja
repetido pelo céu, eco do trovão terrestre. Vamo-nos.
Trombetas.
Saem todos. menos Hamlet
HAMLET
Ah! Não poder esta dura carne fundir-se, derreter e resolver-se em orvalho! Ah! Se não
tivesse o Eterno apontado os seus canhões contra o suicídio! Meu Deus, meu Deus!
Como parecem vãs, pesadas, estéreis e vulgares todas as alegrias deste mundo! Fora
com ele, fora! É um jardim de ervas ruins, que crescem à toa. Só coisas grosseiras e
imundas o invadem. Ao que chegamos! Há apenas dois meses que morreu, que digo?-
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
Não, nem tanto!- O Rei tão excelente que ele era. Em relação a este, o que Hiperíon é
para um sátiro; tão carinhoso para minha mãe, que nem aos ventos do céu permitiria
que a face rudemente lhe tocassem. Ó Céus e ó terra, é preciso que eu o recorde? Ela
abraçava-se a ele, como se o desejo aumentasse com o que o alimentava. E contudo,
num só mês... Não quero pensar nisso. Fragilidade, o teu nome é mulher. Um mês
apenas! E antes que se rompessem os sapatos com que seguiu o cadáver do meu pobre
pai como Niobe, toda em prantos, pois ela, até ela... Oh, meu Deus! Uma fera sem
entendimento teria carpido mais tempo... Casada com meu tio, com o irmão de meu
pai, mas com ele tão parecido quanto eu com Hércules. Dentro de um mês, antes
mesmo que o sal das lágrimas secasse nos seus olhos inflamados, voltou a casar-se.
Oh perversa ansiedade que a fez correr com tal destreza ao leito incestuoso! Acção
perversa, nada de bom pode vir dela. Mas pára, meu coração, pois é preciso que
detenha a minha língua.
(Shakespeare- HAMLET)
Publicado por void em 03:49 PM | Comentários (4) | TrackBack
PRESENÇAS
(Trabalho de Almor Loucao)
Tanta gente partiu
Deixando lugares vazios
E criando espaços próprios
Dentro de mim,
Onde as recordo
E de onde nunca partirão
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
[Com este poema dou por concluída a (re)edição semanal de trabalhos da
autora. Ana, para ti, um agradecimento muitíssimo especial pela possibilidade
que me deste, de com a tua escrita, poder criar/compor cenários. Beijo
grande, Sandra.]
Publicado por void em 10:59 AM | Comentários (1) | TrackBack
NITIDEZ
(Trabalho de Domenique Heidy)
A nitidez do dia
Torna mais claras
Todas as coisas.
A nitidez do dia
Acentua
Aprofunda
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Este abismo em mim
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
Publicado por void em 10:43 AM | Comentários (3) | TrackBack
maio 08, 2004
TELL ME
(Trabalho da autoria de alvestc)
quando voamos
entregando-nos assim
que parte de nós
era parte de mim?
(alvestc- ABSTRACTO CONCRETO)
[Do amigo alves aqui para o Void, com aquilo que vai fazendo toda a diferença.
Entre "mouros"... abraço. Sandra.]
Publicado por void em 07:28 PM | Comentários (3) | TrackBack
ABENÇOAR-TE-EI
(Fotografia de Marta Leitão Gonçalves)
Pede-me a escrita e eu escrever-nos-ei.
Pede-me que desobedeça e eu obedecer-te-ei.
Pede-me o silêncio e eu calar-me-ei.
Pede-me as palavras e eu falar-te-ei.
Pede-me o corpo e eu entregar-me-ei.
Pede-me um sorriso e eu mil vezes sorrir-te-ei.
Pede-me a solidão e eu ausentar-me-ei.
Pede-me calor e eu aquecer-te-ei.
Pede-me a morte e eu morrerei.
Pede-me a vida e eu beijar-te-ei.
Pede-me o fim e eu matar-me-ei.
Pede-me o sempre e eu eternizar-nos-ei.
Pede-me a repulsa e eu amar-te-ei.
Viola-me, escraviza-me, toma-me como puta e depois como virgem e eu não me
importarei.
Aparta os meus membros e eu beijar-te-ei. Corta-me os lábios e eu contemplar-te-ei.
Cose-me os olhos e eu ouvir-te-ei. Amputa-me a audição e eu sentir-te-ei com o
coração. Arranca-me o coração e eu amar-te-ei com a alma. Amaldiçoa-me a alma e
eu abençoar-te-ei.
[Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória
Futura.]
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Publicado por void em 06:16 PM | Comentários (1) | TrackBack
COISA REPELENTE
(Fotografia de Elsa Mota Gomes)
É certo que a infelicidade não depende apenas da dor, mas a alegria, essa, só devia
depender da ausência de dor física. Vinte séculos inteiros e completos não inventaram
uma explicação do sofrimento; sofre-se em comparação com o que é não sofrer, e
nenhum homem saudável quer ser educado previamente para aquilo que é mau. Já não
se treina a resistência à dor: evita-se, sim, a mistura com essa "coisa" repelente.
(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER)
Publicado por void em 11:30 AM | Comentários (1) | TrackBack
PESADELO
(Trabalho de Sunblister)
Há um pesadelo
Ao som de um relógio
Com horas e minutos marcados.
Revivo-o
Sempre que a hora chega
O tempo pára na hora
Em que primeiro o vivi
Há um pesadelo
Sem tempo
Que é só meu.
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
Publicado por void em 08:30 AM | Comentários (2) | TrackBack
RETRATO
(Fotografia de Ana Isa F. Fonseca)
Mostro-me em glória
Vestindo-me de luzes e encantos
E por dentro amordaço-me.
Sou assim brilho e luz,
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
Sombra e escuridão.
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
Publicado por void em 08:19 AM | Comentários (1) | TrackBack
maio 07, 2004
DON'T LOOK BACK
(Pintura de Stroem Jette)
Publicado por void em 08:23 PM | Comentários (1) | TrackBack
VAZIO
(Fotografia de João Santiago)
77 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
Atravesso
Um corredor estreito, branco
Que me aperta e enclausura
Paredes feitas de memórias
Mãos
Que me prendem ali no instante
E me tocam e maltratam.
Sons, vozes, murmúrios
Gritos que ainda ecoam
Me penetram
E violam os sentidos
Anulando a vontade de ser.
Não há saída
Luz ao fundo
Porta ou janela
Por onde fugir
Só o branco que me rodeia
Que me atrai me prende e fascina
Com a promessa de não ser
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
Publicado por void em 06:00 PM | Comentários (2) | TrackBack
VIVER MAIS
(Albert Camus)
Se me persuado de que esta vida não tem outra face que não seja a do absurdo, se
sinto que todo o seu equilíbrio depende dessa perpétua oposição entre a minha revolta
consciente e a obscuridade onde ela se debate, se admito que a minha liberdade não
tem sentido a não ser em relação ao seu destino limitado, então devo dizer que o que
conta não é viver melhor, mas viver mais. Não preciso de perguntar a mim mesmo se
isso é reles ou desagradável, elementar ou lamentável. De uma vez por todas, os juízos
78 of 92 19/1/07 19:01
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de valor são aqui afastados em proveito dos juízos de facto. Só tenho de tirar
conclusões daquilo que posso ver e não arriscar nada que seja uma hipótese. Supondo
que viver assim não era honesto, então, a verdadeira honestidade ordenar-me-ia que
fosse desonesto.
Viver mais; em sentido lato esta regra de vida não significa nada. É preciso torná-la
precisa. Parece de início que não aprofundámos o bastante essa noção de quantidade.
Porque ela pode explicar uma grande parte da experiência humana. A moral de um
homem, a sua escada de valores, não tem sentido senão pela quantidade e variedade
de experiências que lhe foi dado acumular. Ora, as condições da vida moderna impõem
à maioria dos homens a mesma quantidade de experiências e, portanto, a mesma
experiência profunda. Claro que é preciso considerar também o que o indivíduo traz
espontaneamente consigo, o que nele é "dado".
(Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO)
Publicado por void em 05:45 PM | Comentários (0) | TrackBack
maio 06, 2004
MARCAS
(Trabalho de Nando)
Tenho os passos tão leves
Que o meu andar
Quase não deixa marcas.
E ao olhar para trás
Nada vejo
Que assinale a minha presença.
Só um caminho vazio de passos.
E um presente
Onde não ficarão
No futuro
Marcas ou traços de mim.
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
Publicado por void em 06:06 PM | Comentários (5) | TrackBack
OS HOMENS MORREM E NÃO SÃO FELIZES
79 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
(A cena fica vazia durante alguns segundos. Calígula entra furtivamente pela esquerda.
Tem um ar alucinado, está sujo, os seus cabelos estão empapados de água e as suas
pernas enlameadas. Leva várias vezes a mão à boca. Caminha para o espelho e
detém-se, assim que apercebe nele a sua própria imagem. Balbucia palavras
indistintas, depois vai-se sentar à direita, os braços caídos entre os joelhos separados.
Helicon entra pela esquerda. Vendo Calígula, pára na extremidade da cena e observa-o
em silêncio. Calígula volta-se e vê-o. Pausa.)
HELICON, atravessando a cena
Bom dia, Caius.
CALÍGULA, naturalmente
Bom dia, Helicon.
(Silêncio)
HELICON
Pareces fatigado?
CALÍGULA
Andei muito.
HELICON
Sim, a tua ausência foi longa.
(Silêncio)
CALÍGULA
Era difícil de encontrar.
HELICON
O quê?
CALÍGULA
80 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
O que queria.
HELICON
E que querias tu?
CALÍGULA
A Lua.
HELICON
O quê?
CALÍGULA
Sim, eu queria a Lua.
HELICON
Ah!
(Silêncio. Helicon aproxima-se)
CALÍGULA
Bem!... É uma das coisas que não tenho.
HELICON
Claro. E agora, está tudo em ordem?
CALÍGULA
Não, não a posso ter.
HELICON
É aborrecido.
CALÍGULA
Sim, é por isso que estou cansado.
(Pausa)
CALÍGULA
Helicon!
HELICON
Diz, Caius.
CALÍGULA
Pensas que estou doido.
HELICON
Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso.
CALÍGULA
Já sei. Enfim! Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável.
Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível. (Pausa) As coisas, tal como
são, não me parecem satisfatórias.
HELICON
É a opinião geral.
CALÍGULA
81 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
É a verdade. Até há pouco tempo, eu não a sabia. Agora, sei. (Sempre natural) Este
mundo, tal como está feito, não é suportável. Tenho, portanto, necessidade da Lua, ou
da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não
seja deste mundo.
HELICON
É uma razão de peso. Mas, geralmente, não podemos conservá-la até ao fim.
CALÍGULA, levantando-se com a mesma simplicidade
Que sabes tu disto? É porque nunca a conservamos até ao fim, que nada se alcança.
Mas é possível que talvez baste continuarmos lógicos até ao fim.
(Olha Helicon)
CALÍGULA
Li o que estás a pensar. Quantas histórias por causa da morte de uma mulher! Não, não
é isso. Suponho recordar-me, é verdade, de ter morrido há alguns dias uma mulher que
amava. Mas o que é o amor? Pouca coisa. Juro-te que esta morte não quer dizer nada,
apenas significa uma verdade que torna a Lua necessária. Uma verdade muito simples
e muito clara, talvez um pouco estúpida, mas difícil de descobrir e pesada de suportar.
HELICON
E qual é, então, essa verdade, Caius?
CALÍGULA, lasso, num tom lento
Os homens morrem e não são felizes.
HELICON, depois de uma pausa
Ora, Caius, toda a gente passa bem sem essa verdade. Olha à tua volta. Não é ela que
os impede de almoçar.
CALÍGULA, subitamente, numa explosão
Então, é porque tudo à minha volta é mentira, e eu, eu quero que se viva na verdade!
E, justamente, tenho meios para os obrigar a viverem na verdade. Porque eu sei o que
lhes falta, Helicon. Eles estão privados do conhecimento, porque lhes falta um professor
que conheça aquilo que ensina.
HELINCON
Não te ofendas com o que te vou dizer, Caius. Acho que, em primeiro lugar, devias ir
repousar.
(...)
(Albert Camus- CALÍGULA)
Publicado por void em 05:52 PM | Comentários (1) | TrackBack
maio 05, 2004
INUMANIDADE
(Trabalho de Paulo Vaz)
Paredes que escorrem dor
82 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
A humanidade exposta
Em corredores/montras de sofrimento.
A indiferença de quem passa
E recusa o gesto.
A morte que se passeia livre
E escolhe o próximo.
E o medo de quem espera
De quem recusa o gesto
Não se permitindo
Nem um momento de distracção.
Para que depois a morte,
Puta que se passeia livre
Em corredores de sofrimento,
Não diga:
Estavas distraída
Não olhaste
Roubei-te a ti
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
Publicado por void em 06:09 PM | Comentários (3) | TrackBack
BIOGRAFIA DO HOMEM
(Fotografia de Manuel Jorge R. T. Inácio)
Para Walser, tornara-se evidente que uma existência era composta por uma sucessão
de comportamentos dirigidos às coisas e aos outros homens, e que esses
comportamentos, esse agir- por grosseiro que fosse- não era objectivamente, mais do
que um conjunto de movimentos muscularmente bem definidos, localizados facilmente
num mapa anatómico. A biografia de um homem era, no fundo, o que os seus
músculos haviam feito.
Cada acontecimento individual poderia assim ser, não reduzido, mas assemelhado (...)-
poderia ser assemelhado, então, a um somatório de gestos, tal como uma máquina,
por mais complexa que fosse, e por mais espantosas que fossem as suas acções, não
deixava de ser um somatório de peças que sob determinadas circunstâncias agiam. Ele
não considerava justo que o Homem, apenas por conseguir reflectir sobre o mecanismo
da sua existência, pudesse orgulhar-se de uma diferença absoluta em relação às
máquinas. Conseguir distanciar-se do mecanismo que o constitui não faz o mecanismo
deixar de existir. Uma existência humana era, assim, para Walser, um somatório
simples. Era o sinal mais que predominava em qualquer ser vivo, e a morte era
espantosamente assustadora precisamente porque representava a interrupção abrupta
de um somatório que, a certa altura, todos eram levados a pensar ser interminável.
Como se cada um, a dado momento, considerasse o seu corpo, por outras palavras: um
somatório individual de comportamentos.
(Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER)
Publicado por void em 05:46 PM | Comentários (1) | TrackBack
83 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
maio 04, 2004
TERAPIAS
(Fotografia de Paulo Lopes)
Não andamos por aí a dizer
“Dói-me a alma
Tenho esta dor nem sei onde
Que me sufoca… ”
Ninguém compreenderia,
Ou pensariam que é asma.
Não dizemos a toda a gente
“Sinto que o corpo não chega
Os sonhos são grandes demais
Sou maior que este corpo
Ou esta realidade...”
Internavam-nos
E tentariam descobrir
Psicoses, neuroses,
Uma qualquer patologia.
Que é um poeta
Senão um contador
De dores que não se vêem?
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
Publicado por void em 08:40 PM | Comentários (5) | TrackBack
PLANÍCIE
o bando debandou
subindo do arvoredo
do vácuo que ficou
no fim do seu degredo
as asas abrem chagas
no acinzar do entardecer
e amansam a agonia
do dia a escurecer
ensombram a ribeira
e o verde da seara
e passam pela eira
em que o sol se pousara
nas gotas do orvalho
luarento e vacilante
refrescam o cansaço
e dormem um instante
pássaros do sul
84 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
bando de asas soltas
trazem melodias
p'ra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria
no adejo da alvorada
oscila a minha mágoa
o céu à desgarrada
irrompe azul na água
e a passarada acorda
no sonhar de um camponês
e entrega-se no sul
do frio que à noite fez
é tempo da partida
e a côr no horizonte
adensa a despedida
e o borbotar da fonte
as asas abrem chagas
na poeira o sol acalma
num agitar inquieto
que me refresca a alma
pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
pra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria
(Mafalda Veiga- PÁSSAROS DO SUL)
[Em 1987, pela editora Valentim de Carvalho, Mafalda Veiga edita o seu 1º
disco intitulado "Pássaros do Sul". Nessa altura eu tinha 16 anos e andava no
10º ano. De imediato me apaixonei pela canção "Planície" e desde ai a Mafalda
é uma referência para mim. Já editei neste blog algumas das letras das suas
canções... seria uma falha não registar esta. Foi aqui de tudo começou...
Sandra]
Publicado por void em 06:25 PM | Comentários (0) | TrackBack
maio 03, 2004
CASULO
(Trabalho de Rui Veigas)
Gosto de gente interventiva,
Que mobiliza,
Salta para uma cadeira,
85 of 92 19/1/07 19:01
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Estende o braço em desafio
E diz: Merda estou aqui.
Gosto de gente que se indigna,
Denuncia injustiças,
Bate na cara dos sacanas,
Dá o corpo ao manifesto,
Se mete no meio da briga
E defende quem precisa.
Gosto de gente que se levanta do sofá,
Faz as malas, vai para Angola,
Porque viu na televisão
Um puto com barriga de fome.
Gosto de gente que olha
A dor dos outros nos olhos,
Com um estender de mão a faz sua,
Não diz:
É só uma dor no meio de tantas,
Que raio posso fazer?
E eu??
Eu no meu casulo,
Gosto de gente assim...
(Ana- PALAVRAS MUTANTES)
[Iniciamos hoje, aqui no Void, o projecto que determina que, durante uma
semana, seja garantido um espaço a todos aqueles que connosco têm
colaborado, com a autorização de (re)edição dos seus trabalhos- textos em
Poesia ou Prosa-. É com a Ana que arrancamos esta iniciativa. Durante esta
semana- até Domingo- vamos estar diariamente com ela. Apreciem.
Agradecimento especial à autora. Sandra]
Publicado por void em 06:52 PM | Comentários (3) | TrackBack
O ABSURDO E O SUICÍDIO
86 of 92 19/1/07 19:01
O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
(Albert Camus)
Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida
merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. (...)
O suicídio nunca foi tratado senão como fenómeno social. Aqui, pelo contrário, para
começar, importa-nos a relação entre o pensamento individual e o suicídio. Um gesto
como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração.
O próprio homem o ignora. (...) Há muitas causas para um suicídio e, de um modo
geral, as mais aparentes não têm sido as mais eficazes. As pessoas raramente se
suicidam (a hipótese, no entanto, não se exclui) por reflexão. Aquilo que provoca a
crise é quase sempre incontrolável. (...) Mas se é difícil fixar o momento preciso, o
movimento subtil do espírito em que este se determinou pela morte, é mais fácil tirar
do próprio gesto as consequências que ele implica. Matar-se, em certo sentido (...), é
confessar. É confessar que se é ultrapassado pela vida e que a não compreendemos.
(...) O suicídio é apenas a confissão de que a existência "não vale a pena". Viver,
naturalmente, nunca é fácil. Continuamos a fazer os gestos que a existência ordena,
por muitas razões, a primeira das quais é o hábito. Morrer voluntariamente implica
reconhecermos, mesmo instintivamente, o carácter irrisório desse hábito, a ausência de
qualquer razão profunda de viver, o carácter insensato dessa agitação quotidiana e a
inutilidade do sofrimento. (...) Esse divórcio entre o homem e a sua vida, entre o actor
e o seu cenário, é que é verdadeiramente o sentimento do absurdo. Como todos os
homens sãos já pensaram no seu próprio suicídio, pode reconhecer-se, sem mais
explicações, que há um elo directo entre tal sentimento e a aspiração ao nada. (...) As
pessoas matam-se porque a vida não vale a pena ser vivida, eis uma verdade, sem
dúvida- infecunda, no entanto, porque é truísmo. (...) Será que o seu absurdo exige
que lhe escapemos, pela esperança ou pelo suicídio- eis o que é necessário aclarar,
prosseguir e ilustrar, afastando todo o resto. Averiguar se o absurdo determina a morte,
tal o problema a que se tem de dar primazia, fora de todos os métodos do pensamento
e dos jogos do espírito desinteressado. (...) Consciência e revolta, estas recusas são o
contrário da renúncia. Tudo o que há de irredutível e de apaixonado num coração
humano anima-se, pelo contrário, com a sua vida. Trata-se de morrer irreconciliado e
não de bom grado. O suicídio é um desconhecimento. O homem absurdo tem de
esgotar tudo e esgotar-se. O absurdo é a sua tensão mais extrema, a que ele mantém
constantemente com um esforço solitário, porque sabe que nessa consciência e nessa
revolta do dia-a-dia testemunha a sua única verdade, que é o desafio.
(Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO)
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maio 02, 2004
JAMAIS TE QUIS MAGOAR
(Fotografia de Jones Moura do Amaral)
desejei não ser isto em mim. desejei que não fosse assim.
é difícil nadar contra a corrente de pessoas. é ainda mais difícil nadar contra o meu ser.
quis abraçar-te e afogar o peso da minha alma no teu peito consolador. embalar-me na
tua respiração profundamente calorosa e esquecer o que me fez tiritar.
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
quis dizer-te amor sem estremecer a voz. pintar-nos sem a ausência de cor.
e porque não?, perguntaste-me. porque não?
o mundo que escrevo enlouquece e esta vida tricota-me incoerente. as velhas mágoas
sabem quando voltar e eu não lhes dei a chave. quero libertar-me em ti mas não
consigo respirar nesta prisão. cortam-me aos bocadinhos e tu estás com eles entre
essas grades malditas. perdoa-me se a minha vontade se tornou ruim e malvada.
perdoa-me as ofensas, os silêncios e os gritos exaltados. perdoa-me esta quebra de
sanidade.
jamais te quis magoar.
[Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória
Futura.]
Publicado por void em 05:29 PM | Comentários (0) | TrackBack
POÇO DE VAIDADE
Devo humildemente reconhecê-lo, meu caro compatriota, fui sempre um poço de
vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão da minha querida vida e que se ouvia em tudo quanto
eu dizia. Nunca pude falar senão gabando-me, sobretudo se o fazia com esta ruidosa
discrição cujo segredo era meu. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso.
Simplesmente, sentia-me liberto em relação a todos pela excelente razão de que me
considerava sem igual. Sempre me julguei mais inteligente do que ninguém, disse-lhe
eu, mas também mais sensível e mais destro, atirador de escol, volante inigualável, e
melhor amante. Mesmo em domínios onde me era fácil verificar a minha inferioridade,
como o ténis, por exemplo, onde eu era apenas um parceiro razoável, era-me difícil
não acreditar que, se tivesse tempo para me treinar, eu bateria as primeiras categorias.
Não me reconhecia senão supe-rioridades, o que explicava a minha benevolência e a
minha serenidade. Quando me ocupava de outrem, e todo o mérito revertia em meu
favor: eu subia um degrau no amor a mim mesmo.
(Albert Camus- A QUEDA)
Publicado por void em 01:34 PM | Comentários (1) | TrackBack
NAPOLEÃO
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
Napoleão, seguido dos seus cães, subiu para a plataforma erguida no chão, lugar que
antes pertencera ao Major, para fazer o seu discurso. Anunciou que, a partir de agora,
as Assembleias das manhãs de domingo iam acabar. Eram desnecessárias, disse ele, e
uma perda de tempo. De futuro, todas as questões relacionadas com o trabalho da
quinta seriam resolvidas por um comité de porcos, presidido por ele. Estes
reunir-se-iam em segredo e depois comunicariam as suas resoluções aos outros. Os
animais continuariam a reunir-se aos domingos de manhã para saudar a bandeira,
cantar Animais da Inglaterra e rebeber dos porcos as ordens para a semana; mas não
haveria mais debates. (...), os animais ficaram desanimados com este anúncio. Alguns
deles teriam protestado, se tivessem encontrado os argumentos certos. (...) Os
próprios porcos ficaram apreensivos, mostrando, no entanto, que eram mais
desembaraçados. Quatro leitões que estavam na fila da frente soltaram gritos agudos
de desaprovação e levantaram-se, começando a falar. De súdito, os cães que rodeavam
Napoleão largaram algumas rosnadelas fundas, ameaçadoras e os porcos calaram-se e
sentaram-se de novo. (...)
Mais tarde, Squealer andou pela quinta a explicar aos outros as novas disposições.
- Camaradas- disse ele-, espero que todos vocês saibam apreciar o sacrifício que o
camarada Napoleão fez, tomando à sua conta este trabalho extra. Não julguem,
camaradas, que ser chefe é um prazer! Ninguém crê mais firmemente do que o
camarada Napoleão que todos os animais são iguais. Ele ficaria até muito feliz se
pudesse deixar-vos tomar as vossas próprias decisões. Mas as vossas resoluções
poderiam ser erradas, camaradas, e então que nos aconteceria? (...)
Disciplina, camaradas, disciplina de ferro! Essa é hoje a palavra de ordem. Um passo
em falso e os nossos inimigos cairiam em cima de nós. Certamente, camaradas, vocês
não querem que Jones volte, pois não?
(George Orwell- O TRIUNFO DOS PORCOS)
Publicado por void em 09:54 AM | Comentários (0) | TrackBack
maio 01, 2004
A BATALHA
Nos princípios de Outubro, quando os cereais já estavam ceifados e empilhados e alguns
até debulhados, um bando de pombos veio em turbilhão pelo ar e pousou no pátio da
Quinta dos Animais, numa grande excitação. Jones e todos os seus homens e mais
meia dúzia, de Foxwood e Pinchfield, tinham entrado pelo portão gradeado e vinham a
subir a vareda que conduzia à quinta. Todos traziam paus, excepto Jones, que vinha à
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
frente, com uma espingarda. Iam, obviamente, tentar reaver a quinta.
Há muito tempo que isto era esperado e todos os preparativos tinham sido feitos. (...)
Todos os pombos, trinta e cinco ao todo, voaram de um lado para o outro e, lá do alto,
expeliram os seus excrementos sobre as cabeças dos homens; e, enquanto os homens
tentavam escapar a isto, os gansos, que estavam escondidos atrás da sebe, avançaram
velozmente e deram-lhes bicadas traiçoeiras nas barrigas das pernas. (...) Muriel e
todos os carneiros, (...), investiram e começaram a marrar e a picar os homens por
todos os lados, enquanto Benjamim se virava e desatava aos coices, chicoteando-os
com os seus pequenos cascos. Mas, mais uma vez, os homens, com os paus e as suas
botas ferradas, foram mais fortes do que eles, e, de repente, (...), todos os animais
recuaram para o pátio, passando o portão.
Os homens soltaram um grito de triunfo. Viram, pensavam eles, os seus inimigos a
fugir e avançaram sobre eles em triunfo. (...) Logo que os viram dentro do pátio, os
três cavalos, as três vacas e o resto dos porcos, que tinham estado emboscados no
estábulo, surgiram pela retaguarda, cortando-lhes a saída. (...)
Momentos depois, todos os animais corriam atrás deles, à volta do pátio. Eram
escorneados, escoucinhados, mordidos, pisados. Não houve um único animal que não se
vingasse deles à sua maneira. (...) Quando, por um momento, a saída ficou
desimpedida, os homens conseguiram fugir do pátio e chegar à estrada. E assim, após
cinco minutos de invasão, batiam vergonhosamente em retirada pelo caminho donde
tinham vindo, com um bando de gansos a assobiar atrás deles e a picar-lhes as barrigas
das pernas durante todo o percurso. (...)
Os animais tinham voltado a reunir-se muito excitados, cada um contando em altos
gritos as suas façalhas na batalha. Em seguida, realizaram uma improvisada celebração
da vitória; a bandeira foi içada e o hino Animais de Inglaterra foi entoado várias vezes
(...).
(George Orwell- O TRIUNFO DOS PORCOS)
Publicado por void em 06:44 PM | Comentários (0) | TrackBack
UM ESTRANHO SONHO
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Constara, durante o dia, que o velho Major, o premiado porco "Middle White", tivera um
estranho sonho na noite anterior e desejava transmiti-lo aos outros animais. Ficara
acordado reunirem-se todos no celeiro grande, logo que estivessem livres do Sr. Jones.
(...)
Quando Major viu que todos estavam confortavelmente instalados, esperando
atentamente, aclarou a garganta e começou:
- (...) Não creio, camaradas, que esteja entre vós por muitos mais meses e, antes de
morrer, sinto que é meu dever transmitir-vos a sabedoria que adquiri. (...) É acerca
disto que quero falar-lhes. Camaradas: qual é o sentido desta nossa vida? Encaremos a
realidade: a nossa vida é miserável, penosa e curta. Nascemos, somos alimentados
apenas com a comida necessária para nos mantermos vivos, e aqueles de entre nós que
têm capacidade para isso, são forçados a trabalhar até ao limite das suas forças; e no
preciso momento em que a nossa utilidade chega ao fim, somos abatidos com terrível
crueldade. Nenhum animal na Inglaterra, depois do primeiro ano de idade, conhece o
significado da felicidade ou do ócio. Nenhum animal é livre na Inglaterra. A vida de um
animal é angústia e escravidão; esta é a verdade nua e crua. Mas será que isto faz
parte da lei da natureza? Será por esta nossa terra ser tão pobre que não possa dar
uma vida decente àqueles que nela vivem? Não, camaradas, mil vezes não! (...) Então
por que é que continuamos nestas condições miseráveis? Porque a quase totalidade do
produto do nosso trabalho nos é roubado pelos seres humanos. Aí, camaradas, está a
resposta a todos os nossos problemas. Resume-se a uma simples palavra: o Homem. O
homem é o único verdadeiro inimigo que temos. Retirando o Homem da cena, a causa
principal da fome e do excesso de trabalho desaparecerá para sempre. O homem é a
única criatura que consome sem produzir. (...) No entanto, é o senhor de todos os
animais. Põe-nos a trabalhar, retribui-lhes apenas com o mínimo indispensável para
que não morram à fome e o resto guarda para si. O nosso trabalho lavra o solo, o
nosso estrume fertiliza-o e, ainda assim, nenhum de nós possui mais do que a sua
própria pele. (...)
Não está, pois, claro, camaradas, que todos os males desta nossa vida resultam da
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O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html
tirania dos seres humanos? Bastaria libertarmo-nos do Homem e o produto do nosso
trabalho seria nosso. Praticamente de um dia para o outro ficaríamos ricos e livres. Que
temos então de fazer? Trabalhar noite e dia, de corpo e alma, para derrubar a raça
humana! Esta é a mensagem que vos dirijo, camaradas: Revolta!
(George Orwell- O TRIUNFO DOS PORCOS)
Publicado por void em 10:30 AM | Comentários (1) | TrackBack
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