O Abismo Negro De Sonhos Esquecidos Maio 2004 Arquivo

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    O Abismo Negro De Sonhos Esquecidos Maio 2004 Arquivo - Presentation Transcript

    1. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html O A B IS MO NE GR O D E S ON HO S E SQ U EC ID O S "O ABISMO NEGRO DE SONHOS ESQUECIDOS"... Escuros têm sido os meus dias. Cicatrizes imperceptíveis deram à costa novamente. Rasgam-se nas rochas e choram pelo passado que voltou. "O ABISMO NEGRO" ... um blog que é isto, mas que é também muito mais... « abril 2004 | Entrada | junho 2004 » maio 31, 2004 MOSTRA DE CARTOONS: SERGEI Iniciamos com este post uma Mostra de Cartoons que irá ter lugar, aqui no Void, durante as próximas semanas. Serão apresentados alguns trabalhos de cartonistas nacionais e estrangeiros, no sentido de valorizar uma área de trabalho, de tratamento e exploração da realidade ainda não suficientemente conhecida em Portugal (particularmente, para além de um público específico). Os cartoons que se seguem são da autoria de Sergei, pseudónimo de Paulo Teixeira. Relativamente ao autor: nasceu em 1970, sendo actualmente criativo numa agência de publicidade em Lisboa. Alguns exemplos do seu trabalho: 1. O buraco 2. "Estou pronto!" 3. O santo 4. De perder a cabeça 5. Clones 6. O blog 7. Ossos do ofício 8. Se beber não voe Esta Mostra de Cartoons terá continuação todas as Segundas-feiras. Até para a semana! Publicado por void em 06:25 AM | Comentários (2) | TrackBack maio 30, 2004 DOGVILLE Menos de um ano depois de estar em exibição nas salas de cinema, agora também em DVD: 1 of 92 19/1/07 19:01
    2. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Escrito e realizado por Lars von Trier e contando com uma excelente (também porque diferente) interpretação de Nicole Kidman, um filme que nos coloca, com imenso realismo e crueza, perante a hipocrisia e falsidade a que pode chegar o Ser Humano. Defendendo eu que o Homem não é bom por natureza (e aqui distingo-me de Rousseau), em Dogville (espaço onde vive um conjunto de pessoas) isso é claramente notório no tipo de relações desenvolvidas entre quem está e quem chega/permanece, num contexto determinado. A ebulição de sentimentos, os interesses em causa e em jogo, os receios/medos, as fragilidades, as cegueiras e as frustrações individuais são trazidas à cena, sempre, de forma problematizante, levando-nos por isso a um questionar permanente em frente ao ecrã. Em termos de concepção: um filme muito bem conseguido. Originalidade e arrojo são uma evidência. A harmonia conseguida entre um cenário de Teatro e a concretização/desenvolvimento/forma de comunicação das personagens como no Cinema, é uma realidade. Uma imensa inteligência em tudo o que é feito e apresentado. Uma brilhante execução no retratar de vidas e relações humanas. - Argumento: "Em fuga de um grupo de gangsters, a bela Grace chega à isolada povoação de 2 of 92 19/1/07 19:01
    3. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Dogville. Com a ajuda de Tom, o auto-nomeado porta-voz da aldeia, a pequena comunidade decide esconder Grace e, em troca, ela aceita trabalhar para eles. No início ninguém lhe dá trabalho e a sua estadia fica posta em causa, mas depois começam a aparecer pequenos serviços. Contudo, quando a população sabe que Grace é procurada, apercebe-se da importância da pessoa que escondem e exige um acordo mais rentável. Grace vai então descobrir da pior forma quão relativo é o conceito de bondade em Dogville. Mas ela também esconde um segredo muito perigoso que fará Dogville arrepender-se das suas exigências". - Duração: 199' - DVD: Entrevistas com Nicole Kidman e Lars von Trier (entre outros). Ainda: depoimentos dos actores durante a rodagem. (Opinião expressa: da blogger Sandra) Publicado por void em 10:53 AM | Comentários (1) | TrackBack MISHA GORDIN: DOUBT Eis-nos, agora, na galeria seguinte das fotografias de Misha Gordin. Situamo-nos, em termos de período de trabalho desenvolvido, nos anos de 1994-1995. A grande temática envolvente de tudo o que é apresentado: "Doubt". Façamos o percurso: 1. 3 of 92 19/1/07 19:01
    4. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 2. 3. 4. 4 of 92 19/1/07 19:01
    5. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 5. 6. 5 of 92 19/1/07 19:01
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    7. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 9. 10. 7 of 92 19/1/07 19:01
    8. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 11. Próxima galeria: "The New Crowd", subdividida em 3 secções: anos 1996-1998, 1999-2000 e 2001-2002. 8 of 92 19/1/07 19:01
    9. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Publicado por void em 07:38 AM | Comentários (2) | TrackBack maio 29, 2004 MENTIROSOS (Fotografia de Bruno Espadana) e depois o homem entrou no meu quarto e disse-me: queres mexer? e mostrou uma mão cheia de dinheiro a ranger de ódio na minha inocência. eu queria o dinheiro. eu desejava que o homem explodisse com a força da minha vergonha. queres mexer-me no sexo? eu não digo a ninguém. podes fechar os olhos, se quiseres. podes beijá-lo, se queres. não havia ninguém. eu ia dormir no quarto. os pais dormiam. o homem estava acordado e tinha bebido. estava nu e sujo de sexo. tinha-se masturbado. estava sujo e a pingar. podes ter este dinheiro todo. posso ter este ódio todo. a minha vida estava amordaçada naquelas palavras. fazer o homem feliz. fazê-lo vir-se na minha mão. eu estava sentada na cama. tinha medo da cama. o sono era um medo a lutar comigo na minha mente. pedi ajuda ao silêncio. silêncio toma conta de mim. protege-me de ouvir mais uma palavra. o homem não parava de falar. sexo mão boca tesão beijo. o quarto andava à roda das pessoas que dormiam. as portas eram paredes negras e fechadas 9 of 92 19/1/07 19:01
    10. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html pelas palavras. o dinheiro é teu. guarda-o. mexe no meu sexo. e depois o silêncio eram palavras apagadas pelo meu pensamento. o homem não podia estar ali a insistir num desejo só para ele. já não gosto das pessoas. o homem fez-me não gostar de ser desejada. não quero que digam amo-te. mentirosos. eu olhei aquele sexo sujo e insistente durante muito tempo. toda a vida o mesmo sexo a pedir para ser tocado. friccionado. estimulado. eu podia tê-lo beijado. talvez o mundo não soubesse. talvez eu aceitasse o dinheiro com prazer. eu e o homem no quarto escuro. não digas a ninguém. mas o silêncio conhece esta história. eu disse que sim com o silêncio dos meus olhos. não conto a ninguém. nem aos pais que dormem num tempo separado do meu. (Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA) Publicado por void em 05:21 PM | Comentários (0) | TrackBack MISHA GORDIN: CROWD Entremos, pois, na segunda galeria onde estão expostos os trabalhos de Misha Gordin. Desta vez, fotografias situadas temporalmente entre 1987 e 1991. "Crowd" remete-nos para as ideias de repetição, conjunto, aglomerado, humanos equivalentes no ser, no estar e no fazer. Remete-nos para a cor e a forma multiplicadas várias vezes. Olhemos e vejamos: 1. 10 of 92 19/1/07 19:01
    11. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 2. 3. 11 of 92 19/1/07 19:01
    12. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 4. 12 of 92 19/1/07 19:01
    13. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 5. 13 of 92 19/1/07 19:01
    14. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 6. 14 of 92 19/1/07 19:01
    15. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 7. 8. 15 of 92 19/1/07 19:01
    16. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 9. 16 of 92 19/1/07 19:01
    17. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Próxima galeria: "Doubt"- fotografias situadas entre 1994-1995. Publicado por void em 08:03 AM | Comentários (1) | TrackBack maio 28, 2004 THE DAY AFTER TOMORROW 17 of 92 19/1/07 19:01
    18. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html A ver e a perceber paralelamente aos efeitos especiais: - GLOBALMENTE . a intervenção do filme-catástrofe no todo dos EUA, nomeadamente no pós-11 de Setembro . o assumir do envolvimento na reflexão/debate em torno das problemáticas ambientais. - ESPECIFICAMENTE: . o imperativo de ver as relações mundiais de forma contrária, em particular com o pedido de ajuda dos EUA aos vizinhos pobres do sul . o registo de um Poder que não sabe ouvir, embrenhado que está em interesses de outra ordem (lembremos, por exemplo, a administração Bush que se recusou/recusa a assinar a Convenção de Quioto) . o congelamanto de parte de um mundo onde se concentra a riqueza e que em função da mesma condiciona, em muito, o destino da outra parte . a revolta (ou vingança) de um mundo natural de quem dele abusou, destruindo-o ou desequilibrando-o ao nível dos mais variados recursos. A registar Os efeitos especiais não visam a mera espectacularidade, antes a transmissão de 18 of 92 19/1/07 19:01
    19. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html mensagens. Cada caso procura fazer-nos reflectir sobre algo, do qual, não nos devemos eximir: porque não somos (ou não devemos ser) meros espectadores, porque somos habitantes deste planeta, porque a passividade ou inércia mental mata, mumifica... congela. Publicado por void em 07:37 PM | Comentários (0) | TrackBack OS INOCENTES (Fotografia de Bruno Espadana) Detesto a inocência. A inocência fingida. Odeio todos aqueles que se resguardam na inocência para poupar a tristeza dos outros. Detesto-te quando queres fugir ao julgamento de tudo o que sentem por ti. Nunca estamos sós. Pensa nisso, nunca estamos a sós com a nossa vida. Existem sempre os outros, o sentimento deles a construir vedações à volta do que sentimos também por eles. Há uma troca de vidas, palavras que não são margens nem são pontes; palavras que são tudo o que nos resta para morrermos. Lê o que eu escrevo. Não sei onde vou buscar tudo isto, não sei. E se eu te disser que o sofrimento é uma atracção daqueles seres profundos onde não os atingimos nem a gritar? Temo que sejas uma criatura assim. Alimentas-te do teu próprio eco. Muitas vezes agi de cabeça quente de criança a desmontar peças existenciais porque não sei onde começa o humano e acaba a monstruosidade do que sinto pelo mundo das pessoas. Não acredito em inocências. Não há farsa maior e bem construída que os sentimentos que se ocultam numa verdade inocentemente fingida. Se eu te dissesse tudo o que sinto, tudo a respeito da tua inocência, teria de me destruir para dar um sentido à minha honestidade. Os humanos vivem no subconsciente das suas próprias verdades, e tudo o que expõem de positivo são ruínas que se erguem debaixo dos nossos dias. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) 19 of 92 19/1/07 19:01
    20. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Publicado por void em 05:45 PM | Comentários (4) | TrackBack "ESTOU CANSADA DA VIDA, A MINHA MENTE QUER MORRER" (Sarah Kane) [1º registo] - Fizeste planos? - Tomar comprimidos, cortar os pulsos, depois enforcar-me. - Tudo ao mesmo tempo? - De certeza que não podia ser reconstituído como um grito de ajuda. (Silêncio.) - Não ia resultar. - Claro que ia. - Não ia resultar. Sentias-te sonolenta dos comprimidos e não tinhas energia para cortar os pulsos. (Silêncio.) - Se ficares sozinha achas que podes fazer mal a ti própria? - Acho que sim e isso assusta-me. - Pode ser uma espécie de protecção? - Sim. É o medo que me afasta da linha do comboio. Só espero, por amor de Deus, que a morte seja a merda do fim. Sinto-me com oitenta anos. Estou cansada da vida, a minha mente quer morrer. - Isso é uma metáfora, não a realidade. - É um símile. - Não é a realidade. 20 of 92 19/1/07 19:01
    21. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html - Não é uma metáfora, é um símile, mas mesmo que fosse, aquilo que define uma metáfora é ela ser real. (Um longo silêncio.) - Não tens oitenta anos. (Silêncio.) - Tens? (Um silêncio.) Ou tens? (Um longo silêncio.) - Desprezas todas as pessoas infelizes ou sou só eu em particular? - Não te desprezo. A culpa não é tua. Tu estás doente. - Não acho. - Não? - Não. Estou deprimida. A depressão é ira. Foi o que tu fizeste, quem lá estava e quem culpas. - Quem é que tu estás a culpar? - A mim. [2º registo] - Epá, o que é que te aconteceu ao braço? - Cortei-o. - Isso é para chamar a atenção, que coisa tão infantil. Aliviou-te? - Não. - Aliviou-te? (Silêncio.) Aliviou-te? - Não. - Não percebo por que é que fizeste isso? - Então pergunta. - Aliviou a tensão? (Um longo silêncio.) Posso ver? - Não. - Gostava de ver, para ver se está infectado. - Não. (Silêncio.) - Sabia que podias fazer isso. Há muitas pessoas que fazem. Alivia a tensão. - Já alguma vez fizeste? - ... - Não. És sensível e são demais merda. Não sei onde é que tu leste isso, mas não 21 of 92 19/1/07 19:01
    22. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html alivia a tensão. (Silêncio.) Por que é que não me perguntas porquê? Por que é que eu cortei o braço? - Queres dizer-me? - Quero. - Então diz-me. - PERGUNTA. ME. PORQUÊ. (Um longo silêncio.) - Por que é que cortaste o braço? - Porque me sinto muito bem merda. Porque me sinto fantástica merda. - Posso ver? - Podes ver. Mas não toques. - (Olha) Achas que estás doente? - Não. - Eu acho. A culpa não é tua. Mas tens de responsabilizar-te pelas tuas acções. Por favor não voltes a fazê-lo. [3º registo] Vim ter contigo à espera de ser curada. És o meu médico, o meu salvador, o meu juiz omnipotente, o meu padre, o meu deus, o cirurgião da minha alma. E sou tua partidária na sanidade. --------- para atingir objectivos e ambições para superar obstáculos e atingir altos padrões para aumentar a auto-avaliação pelo bem sucedido exercício do talento para superar a oposição para ter controlo e influência sobre os outros para me defender para defender o meu espaço psicológico para justificar o ego para receber atenção para ser vista e ouvida para excitar, surpreender, fascinar, chocar, intrigar, divertir, entreter ou atrair os outros para estar livre de restrições sociais para resistir à coacção e à constrição para ser independente e agir de acordo com o desejo para desafiar a convenção para evitar a dor para evitar a vergonha para apagar as humilhações passadas recapitulando as 22 of 92 19/1/07 19:01
    23. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html acções para manter o auto-respeito para reprimir o medo para superar a fraqueza para pertencer para ser aceite para nos aproximarmos e nos relacionarmos agradavelmente com o outro para conversar de maneira amigável, para contar histórias, trocar sentimentos, ideias segredos para comunicar, para conversar para rir e contar piadas para conquistar a afeição do Outro desejado para aderir e mantermo-nos fiéis ao Outro para gozarmos experiências sensuais com o Outro projectado para alimentar, ajudar, proteger, confortar, consolar, apoiar, cuidar ou curar para ser alimentada, ajudada, protegida, confortada, consolada, apoiada, cuidada ou curada para construir uma relação agradável, durável, cooperante e recíproca com o Outro, com um ideal para ser perdoada para ser amada para ser livre (Sarah Kane- 4:48 PSICOSE) [Os "registos" apresentados são da nossa responsabilidade, para efeitos de exposição dos excertos da peça de Sarah Kane.] Publicado por void em 06:44 AM | Comentários (4) | TrackBack maio 27, 2004 MISHA GORDIN: SHADOWS OF THE DREAM Nesta primeira Galeria de apresentação de trabalhos de Misha Gordin, intitulada "Shadows of the Dream", editamos (alguns) daqueles situados temporalmente entre 1972 e 1983: 1. Confession 23 of 92 19/1/07 19:01
    24. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 2. Inspiration in Black 3. Saturation 24 of 92 19/1/07 19:01
    25. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 4. Renunciation 5. The Mole 25 of 92 19/1/07 19:01
    26. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 6. Prophesy 7. The Liquid Shadow 26 of 92 19/1/07 19:01
    27. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 8. Echo 9. The Fifth Column 27 of 92 19/1/07 19:01
    28. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 10. Sieg Mental Door 28 of 92 19/1/07 19:01
    29. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html 11. Prisoner of Memory Próxima galeria: "Crowd"- trabalhos situados entre 1987 e 1991. Publicado por void em 07:06 AM | Comentários (7) | TrackBack maio 26, 2004 SEQUÊNCIAS 29 of 92 19/1/07 19:01
    30. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Insonia Ouço a sua respiração já distante da realidade. Tem pequenas convulsões como se fizesse um movimento ao qual o corpo não conseguisse corresponder. Continuo a escutar o silêncio dos adormecidos e a insónia da apaixonada noite. Solitária dos condenados, a insonolência dos pensamentos imortais enlouquece qualquer um. Já te aconteceu ficares acordado a pensar que deverias dormir e não o fazes? Espero 30 of 92 19/1/07 19:01
    31. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Não quero viver no medo. Dói ler-te no medo do sangue a espalhar-se, o medo do silêncio reinar sobre nós. O vidro enevoado onde as palavras se embaciam nos gritos da escrita. Vem resgatar-me às sombras emudecidas da morte, os pensamentos funestos da loucura. O abismo vazio do meu corpo afogando-se no teu. Espero. Abrigo 31 of 92 19/1/07 19:01
    32. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Respiro contra as marés da solidão. Receio estes sentimentos incompletamente sentidos, estas palavras que soam distantes da realidade. Se escreveres sorrisos, estarei mais perto de chorar. Os sussurros da casa indefesa de nosso abrigo. (Textos da autoria de uma das bloggers do Void. Editados, também, em Memória Futura. Fotografias de José Marafona. A ele, um agradecimento especial.) Publicado por void em 06:24 AM | Comentários (1) | TrackBack maio 25, 2004 EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA: MISHA GORDIN (1) Misha Gordin: «Em vez de fotografar realidades existentes, decidi fotografar as minhas próprias 32 of 92 19/1/07 19:01
    33. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html realidades imaginárias. Comecei a fotografar conceitos. O processo é semelhante à encenação de uma peça de teatro. Começa com uma ideia (argumento) e depois é preciso encontrar o local (palco) e os modelos (actores) apropriados; há que tomar decisões quanto à iluminação e ao guarda-roupa, tirar fotografias preliminares (ensaios) antes do dia da verdadeira sessão fotográfica (a noite de estreia). Tem muitas semelhanças não só com o teatro, mas também com o cinema, a poesia, a pintura, a escultura e a música. Todos começam por um conceito e depois seguem-se o guião ou a composição, os esboços, as afinações... E todos reflectem possíveis respostas às maiores questões que se colocam a alguém: nascimento, vida e morte. Mas a fotografia tem uma vantagem: a sua verosimilhança. Nós temos uma tendência subconsciente para acreditar que aquilo que vemos fotografado tem de existir.» (Depoimento do fotógrafo in: Periférica, Verão 2003) Misha Gordin nasceu em 1946 em Riga (Letónia). Em 1974 fugiu para os EUA, onde vive. Com este post chamamos a atenção para uma exposição de trabalhos do autor (necessariamente seleccionados) que iremos apresentar. Até lá, a interiorização daquela que é sua ideia sobre o trabalho fotográfico desenvolvido. Publicado por void em 12:27 PM | Comentários (4) | TrackBack O HOMEM QUE SABIA DEMAIS 33 of 92 19/1/07 19:01
    34. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html A PIOR BANDA DO MUNDO, de José Carlos Fernandes Filosofia + Literatura = BD? José Carlos Fernandes é o caso mais sério da BD nacional. Tendo começado algo tardiamente, tem uma produção já vasta, fruto de uma capacidade de trabalho incomum. A sua obra mais aclamada é A Pior Banda do Mundo, série de rara perspicácia e de uma ironia quase cruel, em que referências literárias e filosóficas se conjugam de forma estranhamente harmoniosa com a narrativa gráfica. Publicada simultaneamente em Portugal, Espanha e Brasil (coisa única num autor português), está prevista a expansão a outros mercados (o que, se não é único, é raro). Em 2002 o primeiro volume d' A Pior Banda, com o título O Quiosque da Utopia, foi considerado o melhor álbum do ano no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora; no ano seguinte, igual distinção para O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante, segundo volume da série. Entretanto saiu As Ruínas de Babel. Quanto ao quarto, A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto (de onde foi retirada a história "A Insuspeitada Beleza do Teorema de Tutte", pré-publicada ao virar desta página [não disponível na edição online]), tem lançamento previsto para os próximos dias. FG (In: Periférica, Primavera 2004) Publicado por void em 12:13 PM | Comentários (0) | TrackBack 34 of 92 19/1/07 19:01
    35. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html GARNER, NC (Fotografia de João Redondo) suponhamos que ele tem 30 e ela 17 música de tom jones os dois dançando muito juntos no centro da pista suponhamos que decidem que ela se entrega no wc dos homens que passam três dias e três noites fechados no holly day inn casa-de-banho piscina vistas para a estrada que ele é um maníaco que ela faz coisas em frente a uma handycam sony de 8mm coisas que ao princípio doem e depois doem mais que acorda na valeta da nacional 95 aturdida pelo efeito dos soníferos quase nua como os filhos do mar e que espera o autocarro nalgum ponto do mapa depois de caminhar toda a noite com os sapatos brancos na mão encadeada pelos faróis de todos os camionistas (Pablo García Casado- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004) 35 of 92 19/1/07 19:01
    36. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (1) | TrackBack DESENCONTROS (Kafka) Na verdade tinhas tantas vezes razão contra mim que era surpreendente; nada mais natural quando isso se passava em palavras, porque raras vezes íamos até à conversação, mas tinhas razão até nos factos. Contudo, não havia, também neste caso, nada de especialmente incompreensível: estava pesadamente comprimido por ti em tudo o que se referia ao meu pensamento, mesmo e sobretudo onde ele não se ajustava ao teu. O teu juízo negativo pesava desde início sobre todas as minhas ideias independentes de ti na aparência; era quase impossível suportá-lo até ao remate total e duradouro da ideia. Aqui, não falo de não sei que ideias superiores, mas de pequenos casos infantis, seja ele qual for. Bastava simplesmente estar feliz a propósito de coisa qualquer, de estar pleno, de voltar para casa e dizê-lo, e recebia-se à guisa de resposta um sorriso irónico, um maneio de cabeça, um bater de dedos em cima da mesa (...). Não será necessário dizer que não te podíamos pedir entusiasmo por cada uma das nossas bagatelas infantis, enquanto estavas mergulhado em preocupações e desgostos. Aliás não se tratava disso. O importante é antes que, em virtude da tua natureza oposta à minha, e por princípio, eras sempre levado a preparar decepções deste género à criança, que a oposição se agravava constantemente graças à acumulação do material, que se manifestava por hábito, mesmo quando eras por acaso da minha opinião e que a tua pessoa fazia autoridade em tudo, as decepções da criança não eram decepções da vida corrente, mas iam direitas ao coração. A coragem, o espírito de decisão, a confiança, a alegria de fazer tal ou tal coisa não podiam ir até ao fim quando te opunhas ou até quando se podia suspeitar da tua hostilidade: e esta suposição, podia tê-la a propósito de quase tudo o que eu empreendia. Isso aplicava-se tanto às ideias como às pessoas. Bastava-te que alguém me inspirasse algum interesse (...) para intervires brutalmente pela injúria, a calúnia, as falas aviltantes, sem a menor consideração pela minha afeição e sem respeito pelo meu juízo. Seres inocentes e infantis foram obrigados a padecer. (Kafka- CARTA AO PAI) Publicado por void em 06:31 AM | Comentários (0) | TrackBack maio 24, 2004 VÉNUS 36 of 92 19/1/07 19:01
    37. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Pintura de Fernando Esteves Pinto) Um grande beijo para o autor, também escritor. Um homem das artes. Publicado por void em 03:25 PM | Comentários (0) | TrackBack 37 of 92 19/1/07 19:01
    38. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html SUSSURRAR de fora. quero ficar de fora para o vento. libertar-me das amarras do controlo e voar sobre o impacto de gritar. gritar. gritar. não controlo este sentimento. consegues mitigar a dor da petrificação sobre as palavras mal vividas? hoje quero prantear a tua demora, a tua opacidade, a putrefacção da realidade dentro das coisas palpáveis, teclados de sonhos em visões desesperadas de desejo, muito além dos trocadilhos amorosos. lês-me e desenterras, sulcas e afogas-te entre rios de amarguras, ódios disfarçados em velhos espelhos partidos que cortam, oscilando pelo sangue enxuto e o sangue imaculado, fresco que pulsa, esperando, procurando, descobrindo, atentando. o perigo está nos dias da loucura, nos versos de esperanças que vergastam o tempo e incendeiam as estreitas ligações de sanidade temporária, pois que não é esse verbo de negação que acompanha a minhas acções no dia-a-dia da coerente ausência? perco-me na infelicidade feliz por quem, cujos braços se estendem ao mundo, tão distantes de alguma vez alcançarem esta cova de suspiros abandonados. sussurra outra vez o amor a encostar-se à pele, as labaredas a incutirem-se pelos lábios salgados do gemido abafado, diz-me novamente os cabelos a soltarem-se pelo soalho despido, os tecidos a fugirem da carne efervescente enquanto as curvas se esculpem nos dedos de escritor. toca-me as sonatas de pintor, escreve-me nos quadros de acrílico e esvazia-me no barro que escorre pela tua sombra. deixa a respiração ecoar pela realidade perturbante. deixa os gritos acharem-se em gemidos silenciosos. deixa o momento sonhar-nos. (Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura). Publicado por void em 08:48 AM | Comentários (2) | TrackBack O HOMEM: SEMPRE DESCONHECIDO (Fotografia de Alberto Monteiro) É provavelmente verdade que um homem nos fica sempre desconhecido, e que nele sempre subsiste qualquer coisa de irredutível que nos escapa. Mas, praticamente conheço os homens e reconheço-os pela sua conduta, pelo conjunto dos seus actos, pelas consequências que a sua passagem suscita na vida. Da mesma maneira posso praticamente definir, praticamente apreciar todos esses sentimentos irracionais que a análise não consegue captar. Para tanto me basta reunir a soma das suas consequências na ordem da inteligência, surpreender-lhes e fixar-lhes a face, delimitar-lhes o universo. É certo que, aparentemente, lá por ter visto cem vezes o mesmo actor, nem por isso o conheço pessoalmente melhor. No entanto, se eu adicionar os heróis que ele encarnou e disser que o conheço um pouco mais, por ocasião da centésima personagem recenseada, sente-se que há aqui uma parte de verdade. Porque este paradoxo aparente é também um apólogo. Tem uma moralidade. Ensina que um homem se define bem através das suas comédias como através dos seus impulsos sinceros. Assim acontece, um tom abaixo, com os sentimentos, inacessíveis no coração, mas 38 of 92 19/1/07 19:01
    39. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html parcialmente traídos pelos actos que eles animam e pelas atitudes de espírito que pressupõem. (...) O método que aqui defino confessa o sentimento de que todo o verdadeiro conhecimento é impossível. Só as aparências podem enumerar-se e o clima fazer-se sentir. (Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO) Publicado por void em 06:52 AM | Comentários (0) | TrackBack A ALEGRIA (Ferreira Gullar) O sofrimento não tem nenhum valor. Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria). Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a daquele gato que viste a espinha quebrada a pau arrastando-se a berrar pela sarjeta sem ao menos poder morrer? A justiça é moral, a injustiça não. A dor te iguala a ratos e baratas que também de dentro dos esgotos espiam o sol e no seu corpo nojento de entre fezes querem estar contentes. (Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA) Publicado por void em 12:14 AM | Comentários (0) | TrackBack MEU CORAÇÃO ESTÁ TRISTE 39 of 92 19/1/07 19:01
    40. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Fotografia de Marta Veríssimo) Meu coração está triste E sente-se bastante solitário Resolveu que deve seguir O seu destino sozinho Pois não quer mais dividir Suas emoções Não quer mais estar com... Pois, não consegue viver Numa vida de subterfúgios Nem trabalhar Com momentos mendigados Prefere antes estar só Meu coração Procura abrigo Mas, não com certeza Dessa forma Quer ser livre E poder amar e viver livremente Não consegue viver Num mundo Onde reina a hipocrisia O falso moralismo É o que é Chegou a hora de Quabrarmos as correntes 40 of 92 19/1/07 19:01
    41. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html E assumo Basta de silêncio. (Lília Trajano- INÉDITO) [Conta comigo no acompanhamento deste teu projecto. Acima de tudo: com amizade e sem os tais falsos moralismos. Sandra] Publicado por void em 12:04 AM | Comentários (3) | TrackBack maio 23, 2004 ENXOVAL Em tempos, o enxoval representava um quinto da erótica feminina, que nele empregava desejos, fantasias e até as funções mais abissais do tédio. Os bordados, as bainhas, as rendas aplicadas, as cambraias e os linhos, tinham um significado ligeiramente bestial; um significado de rogo e praxe amorosa que roça pela obscenidade. Fazer ilhós e abrir os riscos de folhagem em volta duma haste em cordão perlé tinha quase o significado dum himeneu. Ema já não estava senão na orla final dessa praxe de gineceu, mas tinha ainda nos ouvidos as recomendações de dona Augusta, ela própria uma dama dos enxovais, que arrumava em armários altos como oratórios; nunca se casou, mas o enxoval cumpriu o seu simbolismo, deu-lhe as alegrias fabulosas do encontro dos corpos e a sensual presença no noivado aromatizado de camoesa e lavanda. Ema percebeu que quanto mais o casamento desagradava e tinha espinhos que feriam de maneira profunda, mais as mulheres voltavam para esse enxoval as suas atenções quase libidinosas. No tempo de Ema, a roupa interior tomou a dianteira sobre o enxoval da casa; fez-se subtil ardente e requintada. Cumpriu com a missão de encobrir desejos sem os deixar de ouvir. Ema teve uma das maiores colecções de camisas de noite, de seda e de algodão fino. Vestia-as, e sentia-se outra: uma deusa na sua concha, embalada pelo mar. (Agustina Bessa-Luís- VALE ABRAÃO) Para além do livro, recomendamos: Argumento: "Vale Abraão" é a história de Ema, uma mulher de uma beleza ameaçadora. Para Carlos, o marido com quem se casou sem amor, "um rosto como o seu pode justificar a vida de um homem". O seu gosto pelo luxo, as ilusões que tem na vida, o desejo que inspira aos homens, fazem-lhe valer o epíteto de "A Bovarinha". Conhecerá três amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um sentimento crescente de desilusão que a leva a definir-se como nada mais que "um estado de alma em balouço". Ema morrerá- "acidentalmente? Quem sabe?"- num dia de sol radioso, depois de se ter vestido como se fosse para ir a um baile." Actores: - Leonor Silveira - Luís Miguel Cintra - Cecile Sanz de Alba - Rui de Carvalho 41 of 92 19/1/07 19:01
    42. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html - Glória de Matos - Luís Lima Barreto - João Perry - Diogo Dória - Isabel Ruth - Micheline Larpin O DVD: - Entrevistas com Agustina Bessa-Luís e Leonor Silveira Duração do filme: 210' Publicado por void em 05:23 PM | Comentários (3) | TrackBack (OUTROS) QUOTIDIANOS FEMININOS Enfim... seja a Maitena, sejamos cada uma de nós, ainda andamos muito assim... nos inícios do Século XXI (não, isto não é Feminismo, é a realidade): 42 of 92 19/1/07 19:01
    43. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Trabalhos de Maitena) Publicado por void em 04:12 PM | Comentários (0) | TrackBack (ALGUNS) QUOTIDIANOS FEMININOS (Trabalhos de Maitena) [Pelo imenso carinho da minha parceira, pelo "abanão", "bofetada" e "carta" do Fernando, acabei por voltar. Vamos lá ver como vou conciliar este e outros projectos. Que raio de vida!! ... Sandra ;)] 43 of 92 19/1/07 19:01
    44. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Publicado por void em 03:42 PM | Comentários (3) | TrackBack ONE DOLLAR não se venda ao silêncio por uma nota de papel Publicado por void em 01:34 AM | Comentários (1) | TrackBack maio 21, 2004 COMO ME QUEREM? (Pintura de Karina Gallo) como me querem? de frente, não? talvez de lado. de frente não fico bem nota-se mais a tristeza funda que sobre as coisas deita o meu olhar parado então está assente: para não perturbar a paz dos dias fico de lado como um disfarce nessa penumbra da gente que não tem onde agarrar-se (Maria Costa- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004.) 44 of 92 19/1/07 19:01
    45. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Publicado por void em 03:13 PM | Comentários (5) | TrackBack FORA DO LUGAR A dor é uma desordem inimiga das palavras com o silêncio todo fora do lugar. Saberemos tomar um caminho por essa floresta escura? Poderemos sequer recuperar a pequena bússola partida, a caneta e o papel, as nossas certezas de trazer no bolso? Não nos avisaram contra o medo, não nos disseram que pode chegar a qualquer hora, deslealmente, enquanto o sol dorme na paisagem e as ervas se levantam para receber o Verão. E agora que quase nos perdemos, sem mapa ou sentido que nos sirva, o nosso único guia é o amor dos que nos esperam numa sala branca onde o chão nos falta e não há estações. (Rui Pires Cabral- poema publicado na revista Periférica, Verão 2003.) Publicado por void em 08:47 AM | Comentários (0) | TrackBack AMOR EM VERMELHO 45 of 92 19/1/07 19:01
    46. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Fotografia de Christian Coigny) Juan, ainda cansado, e suado, disse a Irene: - Acho que deveríamos experimentar algo novo, não sei, tentar outras experiências que nos impeçam de cair na rotina... Depois de dois segundos de um silêncio premeditado, Irene procurou- e encontrou- com um olhar oblíquo as manchas da toalha, a desordem da cozinha, os copos pelo chão... - Eu acho que não corremos esse risco, que somos uma parelha divertida, ou será que já te cansaste de mim? Juan engoliu saliva e deixou-se hipnotizar, uma vez mais, pelo verniz de unhas de Irene. “É tão verde como a erva”, pensou e calou. - Nunca me cansarei de ti... muito pelo contrário. Tenho medo de que tu o faças. Temo-o... Irene arqueou as sobrancelhas como uma malvada preceptora suiça de conto infantil- animação de produção japonesa. - Enquanto me aguentares, não temas nada. - Aguentarei tudo- disse Juan. Mentia, o coração latia assustado, recordando outros momentos similares, próximos no tempo. - Poderias aguentá-lo hoje?- perguntou Irene, entregue de novo ao jogo. Juan engoliu saliva, mas já não se deixou hipnotizar pelo verniz verde-erva das suas unhas. - Acho que sim...- respondeu sem convicção. E foderam de novo, até que ela disse basta. Então, meio asfixiada, satisfeita, bêbada de adrenalina, procurou- e encontrou- com aquele olhar oblíquo as manchas da toalha, a desordem da cozinha, os copos pelo chão e o sangue de Juan correndo em direcção à porta. Decepcionada, abandonou o apartamento sem dizer adeus. E decidiu não voltar a utilizar esse verde para as unhas, nem esse corpete de couro que lhe assava o peito, nem umas facas tão rudimentares, nem um apartamento tão fatela. E decidiu também Sandra não voltar a chamar-se Irene, nem procurar os seus amantes 46 of 92 19/1/07 19:01
    47. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html em bares de beira de estrada. (Salvador Gutiérrez Solís- texto publicado na revista Periférica, Primavera 2004.) Publicado por void em 07:15 AM | Comentários (0) | TrackBack UN PAS DE DEUX - sabes dançar? - não. ensinas-me? - sente. sente até tu, eu e a música sermos um só. - assim? (Trabalho do autor) Publicado por void em 06:55 AM | Comentários (0) | TrackBack KISS mais que um beijo, fusão. 47 of 92 19/1/07 19:01
    48. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Trabalho do autor) Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (1) | TrackBack maio 20, 2004 E TE DIZIA EU COMO O CALOR TRANSTORNA (Fotografia de Mário Filipe Pires) e te dizia eu como o calor transtorna a nítida visão das coisas é que não tenho outra explicação 48 of 92 19/1/07 19:01
    49. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html então não me dizias tu que o carro que havíamos de ter seria era todo azul com os estofos encarnados e que os girassóis cresciam na minha janela e que eram os mais lindos que alguma vez se vira e que as açucenas mais brancas eram as minhas mãos coladas às tuas- puríssima comunhão então- e os olhos mais doces que mel o jeito de rir os lábios em botão o meu corpo criado no céu etc. e tal só pode ter sido o calor que tudo transtorna quando no inverno a seguir me confessavas já frio e sem rir que nada era assim era tudo doutra forma ora eu fiquei com a voz engasgada porque me parecias um ser de virtudes vá-se lá a gente fiar-se não há nada como ter um pé-de-meia contra as vicissitudes e guardar-se (Maria Costa- poema publicado na revista Periférica, Primavera 2004.) Publicado por void em 04:16 PM | Comentários (5) | TrackBack AFERROLHADOS NO HORROR (Fotografia de Christian Coigny) O amante de Cholen habituou-se à adolescência da rapariga branca até se perder nela. 49 of 92 19/1/07 19:01
    50. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html O gozo que tira dela todas as noites comprometeu o seu tempo, a sua vida. Já quase não lhe fala. Talvez ele julgue que ela já não compreenderia o que lhe diria dela, daquele amor que ele ainda não conhecia e de que não sabe dizer nada. Talvez ele descubra que nunca se falaram ainda, salvo quando chamam um pelo outro nos gritos do quarto à noite. Sim, acho que ele não sabia, que descobre que não sabia. Ele olha-a. Com os olhos fechados ainda a olha. Respira o rosto dela. Respira a menina, de olhos fechados respira a sua respiração, esse ar quente que sai dela. Discerne cada vez menos claramente os limites desse corpo, aquele não é como os outros, não está acabado, cresce ainda no quarto, não tem ainda formas definitivas, faz-se a cada momento, não está apenas ali onde ele o vê, também está algures, estende-se para lá da vista, para o jogo, a morte, é elástico, parte inteiro para o gozo como se fosse grande, em idade, sem malícia, duma inteligência assustadora. Eu observava o que ele fazia de mim, como se servia de mim e nunca pensara que se pudesse fazê-lo daquela maneira, ia além da minha esperança e conforme com o destino do meu corpo. Assim tinha-me tornado sua filha. Ele também se tinha transformado noutra coisa para mim. Começava a reconhecer a suavidade inexprimível da sua pele, do seu sexo, para além dele mesmo. (...) Tudo ia ao encontro do seu desejo e o fazia possuir-me. Tinha-me tornado sua filha. Era com a filha que fazia amor todas as noites. E às vezes fica com medo, de repente preocupa-se com a sua saúde como se descobrisse que ela era mortal e o trespassasse a ideia de que a podia perder. (...) Possuía-a como possuiria a sua filha. Era assim que possuiria a sua filha. Brinca com o corpo da filha, volta-a, cobre com ele o rosto, a boca, os olhos. E ela, ela continua a abandonar-se na direcção exacta que ele tomou quando começou a brincar. E de súbito é ela que lhe pede, não diz o quê, e ele, ele grita-lhe que se cale, grita-lhe que já não a quer, que já não quer ter prazer com ela, e ei-los de novo presos, aferrolhados entre si no horror, e eis que esse horror se desfaz mais uma vez, que lhe cedem mais uma vez, em lágrimas, no desespero, na felicidade. (Marguerite Duras- O AMANTE) [Para alguém que me pediu para trazer novamente aqui Marguerite Duras. Sandra] Publicado por void em 07:58 AM | Comentários (3) | TrackBack SAUDADES P: tinhas saudades minhas? R: 50 of 92 19/1/07 19:01
    51. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Trabalho do autor) Publicado por void em 07:20 AM | Comentários (2) | TrackBack ÉS ASSIM (Trabalho do autor) Publicado por void em 07:14 AM | Comentários (2) | TrackBack PAZ (Trabalho do autor) Publicado por void em 07:10 AM | Comentários (4) | TrackBack maio 19, 2004 COMPETÊNCIA PARA AMAR 51 of 92 19/1/07 19:01
    52. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Clã) Vieste comigo Nesse jeito pós-moderno De não querer saber nada De não fazer perguntas Essa pose cansada Tão despida de emoção De quem já viu tudo E tudo é uma imensa repetição Não fosse a minha competência para amar E nunca teríamos acontecido Num mundo de competências E técnicas de ponta A dádiva da fala Quase já não conta Depois quase ias embora Desse modo Evanescente Não soubesse eu ver-te tão transparente E teria sido apenas Um encontro acidental Uma simples vertigem Dum desporto radical Não fosse a minha competência para amar E nunca teríamos acontecido Num mundo de competências E técnicas de ponta A dádiva da fala Já quase não conta (Clã- ROSA CARNE) Publicado por void em 08:56 AM | Comentários (8) | TrackBack PARA TI P: quando pensas em mim, és feliz? 52 of 92 19/1/07 19:01
    53. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html R: (Trabalho do autor) Publicado por void em 06:51 AM | Comentários (1) | TrackBack COLO P: como se escreve carinho, conforto, descanso, ternura, meiguice, aconchego? R: (Trabalho do autor) Publicado por void em 06:45 AM | Comentários (1) | TrackBack 53 of 92 19/1/07 19:01
    54. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html ALMA GÉMEA sinto em ti um eco de mim. (Trabalho do autor) Publicado por void em 06:38 AM | Comentários (3) | TrackBack maio 18, 2004 A MORTE DO POETA De volta surge o poeta Triste e frio Surge, mas, não principia Acredita que já não há vida em si Poeta morto 54 of 92 19/1/07 19:01
    55. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Vagueia feito fantasma Caminha por entre orvalhos Silencia com seu suspiro Dilacerado de dor Dor, que tormenta dor Dor cheia Que aguenta e arrebenta dor Em plena lua cheia, minguante No sal da terra de quem não sabe E não sabe mesmo, pensa o poeta: Que vivo não pode amar E o poeta só e morto prossegue Segue sem saber Que seu saber Que seu corpo já não mais pertence ao mundo Seu corpo flutua no imenso Tejo Flutua com sua angústia Com sua fome de não ser amado Nada é ou será como dantes Basta olharmos o céu para vermos Que de azul se tornou cinzento Já não há esperança A guerra segue no seu curso matando E quem morreu foi o pobre do poeta Que nada tinha a ver com a guerra Mas foi atingido pela hipocrisia do amor O poeta tentou olhar no mirante Do alto da porta do sol Mas a chuva não deixou O poeta está morto Morreu por ter amado E de tanto amar foi esquecido O poeta não soube fingir Não soube disfarçar sua dor Foi definhando devagar Devagar e pra sempre Agora seu corpo jaz sobre o Tejo. (Lilia Trajano- INÉDITO) [Um poema espectacular este, Lília. Beijo grande para ti, amiga. Sandra] Publicado por void em 09:02 AM | Comentários (7) | TrackBack DESEJO quando te deitas pensas em mim? 55 of 92 19/1/07 19:01
    56. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Trabalho do autor) Publicado por void em 06:59 AM | Comentários (6) | TrackBack DEVANEIOS o que é que ainda te falta experimentar? (Trabalho do autor) Publicado por void em 06:53 AM | Comentários (2) | TrackBack ABRAÇO AO VENTO abraçar-te como quem abraça o vento segurar-te como quem segura o tempo. (Trabalho do autor) Publicado por void em 06:48 AM | Comentários (4) | TrackBack maio 17, 2004 56 of 92 19/1/07 19:01
    57. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html ROSTO DESTRUÍDO (Marguerite Duras) Muito cedo na minha vida foi tarde de mais. Aos dezoito anos era já tarde de mais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezassete anos aquando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezanove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído. (Marguerite Duras- O AMANTE) Publicado por void em 05:48 PM | Comentários (1) | TrackBack CORPO quando te debruças e te ofereces assim... 57 of 92 19/1/07 19:01
    58. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Trabalho do autor) Publicado por void em 07:00 AM | Comentários (6) | TrackBack A METAMORFOSE DO ENCONTRO ansiando: tocando: (Trabalhos do autor) Publicado por void em 06:49 AM | Comentários (1) | TrackBack INSTANTE deslizando pelo teu corpo, a minha mão encontrou a tua. aberta, dedos em riste, tal 58 of 92 19/1/07 19:01
    59. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html qual sentidos. ansiando... apertaram-se em uníssono e contraíram-se assim, imitando os corpos num crescendo de prazer. eis o instante: (Trabalho do autor) [Com este post iniciamos a apresentação semanal do trabalho de Alves, blogger do "Abstracto Concreto". Os conjuntos por si construídos merecem, desta forma, o nosso conhecimento, atenção e sentir de significado. Fiquemos, pois, com eles. Sandra] Publicado por void em 06:38 AM | Comentários (2) | TrackBack maio 16, 2004 A DOR TRANSFORMADA EM GOZO Tenho ainda a dizer-vos que tenho quinze anos e meio. (...) Aconteceu muito depressa nesse dia, uma quinta-feira. Ele veio todos os dias buscá-la ao liceu para a levar ao pensionato. E depois, uma vez, veio uma quinta-feira à tarde ao pensionato. Levou-a no automóvel preto. É em Cholen. É do lado oposto às avenidas que ligam a cidade chinesa ao centro de Saigão, essas grandes estradas à americana percorridas pelos eléctricos, os riquexós, os carros. É logo no começo da tarde. Ela escapou ao passeio obrigatório das raparigas do pensionato. É um apartamento no sul da cidade. O sítio é moderno, dir-se-ia que mobilado de qualquer maneira, com móveis a atirar para o moder style. (...) Ela diz-lhe: preferia que não me amasse. Mesmo que me ame gostaria que fizesse como habitualmente faz com as mulheres. Ele olha-a como que apavorado, pergunta: é isso que quer? Ela diz que sim. Ele começou a sofrer ali, no quarto, pela primeira vez, já não mente acerca disso. Diz-lhe que já sabe que ela não o amará nunca. Ela deixa-o dizer. Primeiro diz que não sabe, depois deixa-o dizer. Ele diz-lhe que está só, atrozmente só, com esse amor que tem por ela. Ela diz-lhe que também está só. Não diz com quê. Ele diz: seguiu-me até aqui como teria seguido outro qualquer. Ela respondeu que não pode saber, que nunca seguiu ninguém a quarto nenhum. (...) Ele arrancou o vestido, arrancou as calcinhas de algodão branco e levou-a assim nua até à cama. E depois volta-se para o outro lado da cama e chora. E ela, lenta, paciente, vira-o para si e começa a despi-lo. De olhos fechados, despe-o. Lentamente. Ele quer fazer gestos para a ajudar. Ela pede-lhe que não se mexa. Deixe-me. Ela diz que quer ser ela a fazê-lo. Fá-lo. Despe-o. (...) A pele é duma sumptuosa suavidade. O corpo. O corpo é frágil, sem força, sem músculos, poderia ter estado doente, estar em convalescença, é imberbe, sem outra virilidade que a do sexo, é muito fraco, parece à mercê de um insulto, débil. Ele não a olha no rosto. Não o olha. Toca-o. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a desconhecida novidade. Ele geme, chora. Está num estado de amor abominável. E a chorar fá-lo. Primeiro há a dor. E depois esta dor é por sua vez possuída, transformada, lentamente arrancada, levada até ao gozo, abraçada a ele. O mar, sem forma, simplesmente incomparável. (...) Não sabia que se deitava sangue. Ele pergunta-me se me doeu, digo-lhe que não, ele 59 of 92 19/1/07 19:01
    60. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html diz ainda bem. Ele limpa o sangue, lava-me. Olho-o enquanto o faz. Insensivelmente ele torna a ser desejável. (...) Olhamo-nos. Ele beija-me o corpo. (...) (Marguerite Duras- O AMANTE) Publicado por void em 08:39 AM | Comentários (7) | TrackBack OS SONHADORES (Fotografia de Marta Veríssimo) Os sonhadores odeiam a realidade da vida. Odeiam aqueles que se apresentam como construtores de ideais que só fazem sentido num compartimento ingénuo da existência. A loucura dos meus actos é uma ameaça para aqueles que me amam. As minhas palavras constituem o perigo de viver com os outros, os reais. Quando comecei a escrever, houve por certo alguém que perguntou: escrever porquê? Escrever contra quem? Sempre soube que escreveria contra mim. Na minha casa em Cascais escrevi contra a família. Nunca fui impulsionado pelas virtudes protectoras da inspiração literária. Escrever era viver tudo outra vez. Era sofrer como se não tivesse já sofrido. Escrever a primeira palavra de um muro que se apresentava em duplicado: um muro erguido pela força da minha escrita; um muro derrubado pelo medo de leitura a meu respeito. Os sonhadores escrevem as histórias de medo que sempre desprezaram. Na minha vida nunca tive nada que pudesse perder enquanto escrita, isto é, nada do que 60 of 92 19/1/07 19:01
    61. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html eu escrevi o devo à perda que poderia significar algumas situações da minha própria existência. Eu sabia que o sofrimento do que escrevia se transformava na felicidade dos que me liam. Compreendi que só podia escrever como se estrangulasse os sentimentos daqueles que esperavam de mim um choro poético que os tranquilizassem da ameaça mental que eu constituía na sua forma de viver. Enganaram-se todos. Se havia um relâmpago a rasgar os dias das suas vidas, isso era o meu pensamento a autopsiar os comportamentos dos que me rodeavam. Não acredito na inspiração, sentar-me para escrever e aguardar serenamente que um deus pensativo me ofereça uma guloseima literária que se adapte sem angústia ao meu pensamento. Nunca foi assim. Quando vou para escrever também vou para morrer. Levo tudo destruído. O meu campo de escrita é uma melodia fulminante. Ouço a música da morte que extermina as palavras que se perdem no interior onde são pensadas. E no fim de tudo o que escrevo, só eu sinto que existe em mim uma sepultura de palavras humanas. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) [Com este post damos por concluída a edição semanal de textos do autor. A ele o nosso imenso agradecimento e o reforço da exteriorização daquela que é a nossa admiração pela sua escrita. Sandra] Publicado por void em 08:06 AM | Comentários (4) | TrackBack maio 15, 2004 VOU SER VIOLENTO CONTIGO (Fotografia de Bruno Espadana) Hoje li uma história que começava mal. Fez-me pensar em ti. Agora que estou a pensar em tudo o que li nessa história, tenho uma ideia para ser escrita. Porque será que as histórias tristes são assim tão lindas? Eu penso que seja porque existe muito 61 of 92 19/1/07 19:01
    62. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html amor dentro delas. Eu sei que sou suspeito pelo sofrimento que te faço sentir. Destruo-te pelas palavras. É a minha forma de escrever. Começar uma frase pela destruição. O meu pensamento és tu num quarto fechado. Não sei amar as multidões. O meu amor por ti é tudo aquilo que escrevo sobre esse quarto onde vives por mim. Não me odeies por isso. Não acredito nas pessoas. Tu sabes que eu fecho os olhos ao mundo. Eu estou a escrever talvez sem o teu mundo. O esquecimento é uma perturbação do não sentir. Tu escutas o meu pensamento como um vazio que sentes dentro da tua vida. Eu escrevo nesse tempo destruído onde abandonas todos os teus sentimentos. Não sei amar, não fossem as palavras. Nunca te dei viagens, apenas te fiz sentir no centro do teu próprio corpo. Uma frase minha não paga bilhete para qualquer lugar do mundo. Sou um amante habitacional. A minha inspiração és tu numa cama aberta. O meu amor nunca foi disperso. Não gosto de passear numa cidade com desejo de possuir-te. Sou um cão humano. Gosto de viajar sem tesão. Às vezes ponho a mão na cabeça e escrevo sem pensar. Oiço uma música que me risca a memória. Diz-me tu porque é que as histórias tristes são salvas pelos sentimentos mais belos. É como querer recuperar o amor daqueles que já não amam? Não esperes que eu escreva para resolver a tua vida. Ensina-me a odiar-te humanamente. Eu farei o mesmo com as palavras. A história que eu li falava do amor que se sente para sempre perdido. A escrita é uma boa razão emocional para evitar certas afectividades artificiais. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) Publicado por void em 11:07 AM | Comentários (2) | TrackBack IMPRESSÕES (Trabalho de Paulo Gonçalves) Entras na minha casa. Na minha escrita. Estou sentado a um canto da sala. Vens por trás de mim e eu sinto o teu silêncio. Não digas nada. Não quero escrever as tuas palavras. Hoje não. Respiras no meu pensamento. Tem cuidado. Senta-te e observa a imagem que lês de mim. Queres fazer amor? Escrevi o teu sexo entre a luz. Uma luz insuficiente. Não me apetece pensar. Aproxima-te. É o teu teatro de viver as coisas que me acontecem. Não me beijes, ainda não. Escrevi um poema. Tu lês, não podes fazer outra coisa. O que sentes? Em todo o caso a minha poesia ficaria bem no teu desespero. Estive para escrever a tua dor. Havemos de nos odiar. Não quero saber esse dia, não me perguntes. Agora podes amar-me. Sim, eu deixarei de escrever. Gostaria que a escrita não precisasse de mim. Sinto-me fraco na forma de não teres de me amar ainda. Tens medo do que eu escrevo? Eu sei que sim. Eu também tenho medo. O meu coração encostado ao teu silêncio. Queres ler a minha loucura quando sinto o teu olhar nas palavras que eu não sei recuperar? Não sou assim tão forte, meu amor. Há tanta coisa que tu não sabes. Faz-me impressão, mas escrevo na ignorância de existir. Não posso continuar contigo na minha presença. Sempre desconfiei das minhas verdades. Não te quero como escrita do que sinto por ti. Deixa-me pensar como chegaremos ao prazer deste amor. Acaricia-me o tempo da minha escrita. Não te peço mais do que esse gesto. É difícil olhar para trás. Tu olhas. Estou sempre a destruir-me no que vês. Existes tanto no que escrevo, tanto, que agora quase nada sinto do que és. Sabes, a escrita é sempre uma repetição diferente. Podemos começar por aí. Despe-te enquanto as palavras não vivem a nossa vida. Agora é tarde para escrever. 62 of 92 19/1/07 19:01
    63. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) Publicado por void em 10:44 AM | Comentários (0) | TrackBack maio 14, 2004 AMOR LIXO (Fotografia de Christian Coigny) O amor é um produto do terrorismo dos afectos. Mata-se, morre-se e odeia-se por amor. É o fingimento mais sincero que alguém sente pelo outro. Sente-se amor por alguém somente quando se está a viver numa agonia existencial. Não se admirem de confirmar que o sentimento amoroso vai buscar alimento ao desespero e ao fracasso. O sofrimento é uma condição dos que amam. Se não estiveres disponível para sofrer, também não saberás amar. Depois tens a mentira a enfeitar as promessas do amor. E depois tens a ilusão que parece uma janela alta de onde te deixas cair. E depois tens o lixo e o amor anda no lixo a envenenar-se. E os ridículos que nunca amaram como se bebessem de uma fonte pura, assustam-se com os sentimentos que esgravatam nos livros dos outros, e perguntam assustados: será que estamos todos sujos de amor? sim, escrevo. Leio o que escrevi sobre o amor ao longo da vida como se me afundasse numa lixeira de palavras inúteis e falsas e agressivas. Tens a ausência, estúpido. Tens a perda, amante sem qualidades. Queres maior quantidade de lixo que o amor que não sabes sentir pelos outros? Nem a ler és um ser humano limpo. A tua atenção contamina o que eu escrevo. Posso escrever que o amor é um símbolo postiço; plástico emocional que nos protege da virgindade do desejo. Nem os teus beijos. Nem o teu olhar dá vida às flores que adoecem no meio do lixo amoroso. O medo de amar é que é o grande amor de ser sincero e verdadeiro com aquele que nos ama sempre a destruir-nos. Tudo o resto é uma reza de sofrimento que se ajoelha no coração. 63 of 92 19/1/07 19:01
    64. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) Publicado por void em 09:02 AM | Comentários (4) | TrackBack ESTA HISTÓRIA NÃO É MINHA (Fotografia de Michelle Preuss) Foi isso que me fizeste durante toda a vida, amar na ilusão de nunca perder, e agora eu compreendo que corajoso é aquele que renúncia ao amor, mas a imagem que se tem daquele que renuncia é também a imagem da cobardia. O amor é um sentimento tão poderoso que destrói a pessoa que ama, e eu nunca senti que amasse pelas palavras dos outros, e amo todos os dias porque aquele que ama é quem perde nesse absoluto de amar, ama-se sempre no futuro de ainda haver amor, ama-se no tempo que se perde a amar uma vida. Se soubesses as palavras que o amor consome para ser tempo e amar para sempre, deixa-me dizer o tempo como uma mentira que eu sentisse pelo amor que está perdido, talvez eu amasse o tempo das tuas palavras, ou o medo de as dizer como um acto luminoso a fingir o teu amor. Os meus sentimentos são uma pele envelhecida, mas nunca senti isso como uma destruição, porque esta história não é minha, podemos ainda viver num cenário de existência em que o amor será apenas uma ideia decorativa, a emoção estaria nesse jogo odiosoo em que cada um de nós seria uma disponibilidade do outro, tu na tua ilusão a corroer o tempo que me cria distâncias afectivas. Não escrevas mais sobre mim, peço-te, no teu silêncio a afastar os dias com palavras que nunca serviram para me dizer nada, nada nesse amor que só serve de imagem para sentirmos o quanto já não amamos, não escrevas porque o amor é a linguagem do próprio tempo, e o amor que tu perdes a escrever é a minha presença no teu pensamento. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) Publicado por void em 09:00 AM | Comentários (2) | TrackBack maio 13, 2004 DESORDEM (Fotografia de Fabrício Cardoso) Posso dizer que te amo. E depois? Será o meu amor uma desordem sentimental? Hoje não tenho nada. Nem esta ideia de escrever contra o tempo. Poderia sentir-me vazio, mas tu ainda em tudo o que sinto. Apetece-me roubar a vida dos que amam sem ambições. Tenho as tuas palavras. Leio o que a vida te dá. Há a escrita que impressiona a minha vida. Disse vazio e é espantoso o que sinto nesta viagem para escrever apenas os meus sentimentos. Estou tanto tempo parado. É o silêncio a fabricar pedras na solidão. Também tens os livros. A tua casa. 64 of 92 19/1/07 19:01
    65. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Sinto que é possível amar uma ideia. Estou sempre a esconder-me do amor. Amor, e o que resta das nossas palavras? A escrita de um olhar sobre a vida. Estou inquieto e a escrita alimenta-se desses momentos. Há frases que devo perseguir eternamente. E depois amo-te mas tenho medo. Também quando escrevo tenho medo. Posso apagar tudo, esquecer a tua vida. O tempo, este tempo branco que já não existe. Poderá alguém amar para além do amor? A loucura de sentir mais do que o coração permite. A desgraça de escrever no profundo corpo insuportável. Leio o que tu escreves e é magnífico o sentido que te atribuo na leitura da minha inconsciência. Uma dor vazia a falar-me de amor. Como se amar fosse escrever com o teu pensamento. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) Publicado por void em 06:50 AM | Comentários (4) | TrackBack VIDA ESCRITA (Fotografia de Tiago Morgado Paulino) Amor estúpido. Quando podemos dizer alguma coisa é quando estamos calados. Não penses muito. O amor não se pensa. Fingida. Há coisas mais interessantes do que amar o que não se conhece. O amor é uma prova de vida. É um impresso que não sabes preencher. A saudade não tem palavras. Não acredito no que dizes ou escreves mal o que sentes. Agora sou amigo do tempo. Conversamos muito sobre ti. É claro que eu estou a sofrer, mas isso também é uma religião. Estou a construir vazios como se fosse possível fugirmos do tempo. Tenho uma imagem para te dizer: estamos sentados numa esplanada a ver a multidão. Se não fosse o silêncio, podes ter a certeza, o amor seria um atentado ao coração. Se eu seguisse o que escrevo, se eu experimentasse o que sinto para além do que posso viver, não sei se a felicidade me reservaria um estado emocional que desencadeasse o extermínio dos meus sentimentos. Nunca estive tanto em silêncio. Escrever fechado, dia e noite, num tempo destruído. Escrever para um fim. Se pensar bem, também se vive para um fim. O caminho é o mesmo. Vida escrita. Se imaginasses os pensamentos que eu sepulto na tua imagem, se sentisses as modificações afectivas que eu sinto para te modificar e tornar mais próxima do real, a vida apresentar-te-ia a minha própria destruição. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) Publicado por void em 06:41 AM | Comentários (0) | TrackBack maio 12, 2004 APRENDIZADO 65 of 92 19/1/07 19:01
    66. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Fotografia de Ana Pinto) Do mesmo modo que te abriste à alegria abre-te agora ao sofrimento que é fruto dela e seu avesso ardente. Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo e te perdeste nela e te achaste nessa perda deixa que a dor se exerça agora sem mentiras nem desculpas e em tua carne vaporize toda ilusão que a vida só consome o que a alimenta. (Ferreira Gullar- OBRA POÉTICA) Publicado por void em 08:48 AM | Comentários (4) | TrackBack FOTOGRAFIAS (Fotografia de Fabrício Cardoso) parece que o cenário da nossa vida é uma cama desfeita. depois da destruição com palavras. depois do silêncio amarrotado deste espaço branco. eu estou sentado no frio e olho o meu sexo inútil. penso que o amor representa esta nudez triste deste lado da cama. nunca há um rosto visível para dizer a verdade nestes momentos em que abandonamos o corpo numa luz fotográfica. contra os ferros da cama. contra o teu corpo a soluçar dentro dum tempo amargo. se eu soubesse ser pior que todas as maldades beijava-te essa dor que transpira na tua pele. mas tenho medo e não vejo a noite a ser transportada pela tua respiração humilde. o amor já não reconhece o nosso lugar nesta cama. vivemos num palco de palavras odiosas. já não somos nós mas as palavras que nos ferem neste acto último da nossa vida. o silêncio ensina-te a sofrer. (Fernando Esteves Pinto- MEMÓRIA FUTURA) Publicado por void em 12:18 AM | Comentários (12) | TrackBack UM AMOR QUASE LONGE (Fotografia de Marta Gonçalves) 66 of 92 19/1/07 19:01
    67. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html E depois deixei de te sentir. Mesmo estando na tua presença todos os dias por causa do corpo, do amor que se perde num corpo que não existe como coisa vivida, sexual. Agora só sabemos destruir-nos e não precisamos de falar muito. Se pudesse empurrava-te para trás no tempo. Fazer-te mal, não, nada de violência. Apresentava-te um tempo vazio só para sentires tudo o que não soubemos ser um para o outro. Queres voltar ao inferno de me ouvires escrever à volta da tua vida? Não sei porque estás comigo, não sei, é preciso escrever esse sentimento muito belo que se apaga quando sentimos o sofrimento de viver ao lado de alguém incomparável. E depois fodíamos só por foder, porque as noites eram pesadas e obscuras. Sempre entendi isso como uma viagem que fizesse nos lugares irreconhecíveis da tua vontade. Amas o sofrimento, eu sei, tiras prazer talvez da minha miséria emocional. Não importa, escuta o que eu te digo, sempre precisei de uma mulher que sofresse. Também a minha infância reclama o amor de uma mulher assim. Também o tempo me incomoda como se fosse uma pessoa a estrangular-me de cada vez que escrevo iludido. Tudo o que ficou escrito dependeu unicamente de nós. Não te sinto. Não há noite numa só palavra que eu pudesse agora escrever para recuperar os sentimentos perdidos. Já pensaste como te sentes em relação ao nosso caso? E se eu te disser que um homem e uma mulher são sempre um caso destruído? Por vezes penso que só tu me fazes escrever estas coisas, mais ninguém, tu sabes. Depende inquestionavelmente do que me disseste em toda a vida. Escrevo palavras como se abrisse feridas. Gosto de foder-te zangado. Também é assim com a escrita possível sobre o teu corpo. Ainda me lembro, quero dizer, ainda desejo essa forma de nos envolvermos nesse instante de maldade e prazer. Se soubesses, meu amor, como é terrível sentir as palavras em nenhum instante de as escrever num tempo sem imagem como se tudo estivesse acabado entre nós. Um amor quase longe. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) Publicado por void em 12:04 AM | Comentários (8) | TrackBack maio 11, 2004 DIÁRIO 67 of 92 19/1/07 19:01
    68. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Fotografia de Christian Coigny) estendo-te a minha mão e os dedos tremem sobre o silêncio azul do teu corpo. é o silêncio dos muros, limite da solidão, sono, água, folha seca, ombro, orvalho na tua boca, e eu não procuro nas coisas senão o desejo de te encontrar. o amor nasce na força das coisas que ambos amamos. está uma lâmina dentro dum prato e luz. apenas uma lâmina e o dia voltará a mentir-te. um dia vermelho em decomposição. nas minhas, as tuas mãos escorrem uma doçura oleosa, sufocada de longa rotina. viajar no teu silêncio, no teu sangue. emergir do crepúsculo numa revoada de mil lembranças. vivemos acaso? tenho os meus olhos cheios das tuas lágrimas. nenhuma lágrima poderá apagar qualquer palavra dita ou algum acto cometido. deslizas. deslizo nas curvas enigmáticas do passado. as memórias acendem-se. os pensamentos circulam. os jardins são de cimento e as flores sabem-no. deslizas. é o cenário do teu corpo. as flores no perfume da tua pele. o musgo do teu ventre. o espaço branco-vale dos teus seios. sonho-te vida, segredo, luz, sangue, azul, sonho. e agora a sombra é vazia e a linguagem é gestual. a água no tanque corre em borbotões. a luz escorre de vidros. a terra treme. e no entanto eu sei. amanhã um outro dia. todos os dias são dias deste próprio dia. no primeiro dia que entrei no teu quarto falaste de ódio. o ódio nasce assim como nasce uma rebelia contra os sentidos. ignoramos a dor ao afirmar que no coração de uma criança não se infiltra o ódio. por sobre a cómoda a jarra de flores desbotadas. o passado numa moldura antiga. o amor num retrato amarelecido. cortinas de pó e silêncio. escorre a luz morna pelas paredes. a cama ao fundo desfeita. desfeitos os sonhos também. 68 of 92 19/1/07 19:01
    69. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html concreto o amor apenas de quem ama. longe na distância final. toda esta ausência que dizes haver em mim é feita do que somos e nada te oculto enquanto percorro a chama adormecida do teu corpo. silenciosamente, os teus lábios fecham-se de pó, ardor, vermelho. até no vazio nós caímos entre a separação do que é secreto em ti. as palavras. só a luz pode desiludir a beleza, não achas? a luz desilude a beleza. nesse tempo a noite dormia ainda nos teus olhos e a imaginação era um pensamento aberto. a noite chama-nos e as palavras esquecem-se por momentos. nem o vento de cordeis desgrenhados sacode o profundo desejo. emoldurada nos meus braços, como uma janela engolida pelas heras, escutas o silêncio que é a luz e é de pedra. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) Publicado por void em 12:28 AM | Comentários (27) | TrackBack PERIGO SILÊNCIO (Fotografia de Christian Coigny) Nunca hei-de querer ler códigos. Mas custa-me não aceitar o teu silêncio. Também eu estou a codificar. É um perigo eu estar a pensar sobre o silêncio de quem não conheço. Havia ideias para serem discutidas num campo de batalha com cama e toalha branca. A paz do teu olhar traiu o meu pensamento. Nunca fui educado na paz, paciência. E não te peço perdão porque essa palavra nunca a encontrei entre os meus erros. Devo a minha maldade ao tempo onde a infância fabricava o homem que agora ama todos os silêncios. Amo para destrui-los nas palavras que me dizes. Eu sei que a tua escrita é um enredo de medos e desconfianças. Eu sei que o que escreves nunca fez parte da tua humanidade. Eu acho que as tuas palavras são a mentira do meu pensamento. Um dia aprendi a mentir com as palavras dos outros. Não basta um abraço para não dizer nada. 69 of 92 19/1/07 19:01
    70. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html As palavras fazem falta ao amor para ser escrita desse amor. O que eu escrevo é o pior que posso sentir no perigo do teu silêncio. Não compreendo como te sentes nesse nocturno dos dias agarrados ao corpo solitário. Tu também escreves, eu sei, tu escreves. Mas a tua escrita é o tempo a sofrer no silêncio de alguma palavra viver por ti ainda. Não é a solidão, nunca acredites. A solidão é a forma vazia de sentirmos que já não existimos para os outros. Eu tenho o teu silêncio e isso é diferente de não sentir onde estás. Uma coisa que não podes evitar é existires onde alguém te pensa. Um dia pensei que as palavras eram transportes sentimentais. Veículos carregados de sentimentos. Eu era uma criança leve e possuía poucas palavras. Era uma criança verdadeira que arrumava a vida com poucas palavras. Agora não existe nenhuma palavra que escreva em mim a verdade da vida. Tenho a escrita, eu sei. Mas não será a escrita a meditação codificada do que é verdadeiro em tudo o que eu escrevo? Penso que só o teu silêncio poderá responder perigo e silêncio. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) Publicado por void em 12:14 AM | Comentários (7) | TrackBack maio 10, 2004 CINCO MINUTOS DE AMOR (10) (Fotografia de Cristina Martins) Disseste-me ainda que o sexo era uma espécie de acto de vingança. Uma luta do desespero. Que a dor que se sente nesses momentos é o orgasmo da interioridade. Querias que eu mergulhasse na tua interioridade. Dizias-me: quero que ultrapasses a realidade da minha presença sob o teu domínio. Querias que eu permanecesse em ti como um castigo que alguém impusesse num acto diabólico. Eu pensava que era só assim que sentias prazer. Um ajuste de contas sexual. Um duelo erótico, agressivamente sensual. Um duelo entre duas pessoas que já não se amavam no espaço da vida normal. Duas pessoas que se confrontavam na sessão espectacular dos seus próprios corpos. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) Publicado por void em 12:22 AM | Comentários (4) | TrackBack CENAS HUMANAS (1) 70 of 92 19/1/07 19:01
    71. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Fotografia de Christian Coigny) Lamento que seja desta forma que o nosso amor sobreviva. Tenho pena que seja assim. Eu faço os possíveis para evitar que sofras por minha causa. Eu sinto o teu sofrimento, mas não consigo controlar-me. Há qualquer coisa em ti que me desespera, provoca-me, põe-me à prova, ri-se de mim. Acho que estás sempre à espera de uma reacção minha, um desfecho violento, uma sensação forte, uma resposta que "dignifique" o nosso amor, desde que isso não fuja ao nosso controlo e não contamine os outros. Tens o dom da sensibilidade da vítima. Levei muito tempo a compreender essa tua capacidade para o sofrimento. Sempre distorceste os meus sentimentos de forma a explorares uma reacção da minha parte que te controlasse pela negativa. A degradação estimulava-te. Eu não sabia. Eu tinha uma ideia de comportamento completamente distinta. Uma ideia de relacionamento entre duas pessoas que se amam sem se atreverem a entrar nesse mundo louco da sexualidade vergonhosa e doentia. A naturalidade não nos basta. Tu eras tão normalizada. Tão passiva. Admirava a tua sobriedade sexual. Excitava-me a tua lentidão e resistência para a aprendizagem de novas sensações e outros prazeres. Até que um dia, na cama, durante uma amorfa sessão de sexo rotineiro, me incitaste para que te esbofeteasse durante o orgasmo. Estabelecia-se assim um capítulo erótico nas nossas vidas de odiosos e apaixonados amantes. O acto sexual passou a ser um " espaço de luta". Era nesse breve instante que nos odiávamos. Sob o meu domínio, fazias o teu balanço diário. Contabilizavas os valores positivos e negativos do meu comportamento. O teu rosto de prazer afigurava-se-me como um rosto de revolta. Imaginava o que poderia desfilar na tua mente. Nunca a minha boa imagem, isso seria utópico demais. Mas sentia a tua vingança em ebulição. Uma vingança eruptiva a consumir a minha honestidade. (Fernando Esteves Pinto- ESCRITA IBÉRICA) [Iniciamos, com este post, a (re)edição semanal de textos do autor, no âmbito do projecto lançado na Segunda-feira anterior. Encontra-se cada um destes trabalhos já editado em blogs onde o escritor toma parte, quer a título 71 of 92 19/1/07 19:01
    72. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html individual, quer em parceria. Da responsabilidade do Void, a escolha dos mesmos e a junção de fotografias. Sandra.] Publicado por void em 12:06 AM | Comentários (2) | TrackBack maio 09, 2004 LEI GERAL REI Porque pairam ainda essas nuvens sobre ti? HAMLET Não é assim, Senhor; estou bem exposto ao sol. RAINHA Bom Hamlet, expulsa essas cores da noite e pousa um olhar amigo sobre o rei da Dinamarca. Não procures para sempre, com os olhos baixos, o teu nobre pai no pó da terra. Sabes que é a lei geral. Tudo o que vive deve morrer, arrastado pela natureza para a eternidade. HAMLET 72 of 92 19/1/07 19:01
    73. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Sim, senhora, é a lei geral. RAINHA Se o é, por que te parece tão especial? HAMLET "Parece", Senhora? Não; é! Não conheço "aparências". Não é apenas a minha capa cor de noite, boa mãe, nem o traje soturno dum negro solene, nem o sopro forte dum suspiro forçado, não, nem o rio que me corre nos olhos ou o aspecto tristonho do meu rosto, junto às formas, aspectos e moídos da dor, que verdadeiramente me revelam. Esses, realmente, "parecem"; porque são acções que um homem pode representar... Mas eu tenho dentro de mim o que não pode representar-se e não os trajes ou o cenário da dor. REI Só inaltece o teu carácter, Hamlet, prestar esses magoados preitos a teu pai. Mas tens de saber que teu pai perdeu um pai; que esse perdido pai perdeu o seu; e que é filial dever daquele que fica manter por algum tempo respeitoso luto. Porém, perseverar em cego nojo é acto de impiedoso desvario. É dor imprópria dum homem. É ser rebelde para Deus, prova dum coração sem força, dum espírito sem calma, dum entendimento simples, duma mente inculta. Pois, porque havemos de tomar a peito aquilo que sabemos ter de ser, que é vulgar como as coisas vulgares e é vontade de Deus? É um acto ímpio que ofende os céus, que ofende os mortos, que ofende a natureza, absurdo perante a razão, que sabe que o que "tem de ser", tem de ser. Suplico-te: afasta de ti essa dor vazia e olha-me um pouco como um pai. Pois, é preciso que o mundo saiba, és o mais próximo sucessor do trono e o nobre amor que por ti nutro iguala o que o mais amante dos pais tem por seu filho. Quanto a voltares para a escola em Wittenberg, é o que mais contraria o nosso desejo. E assim te suplico que aqui fiques, para a alegria dos nossos olhos, como nosso primeiro cortesão, nosso primo e nosso filho. RAINHA Que não sejam vãs as preces de tua mãe, Hamlet. Peço-te que fiques connosco. Não vás para Wittenberg. HAMLET Tudo farei para vos obedecer, Senhora. REI Eis uma linda e terna resposta. Fica na Dinamarca como nós próprios. Vamos, senhora. Este acordo gentil e natural de Hamlet sorri ao nosso coração; em louvor do que não há brinde alegre que o Rei hoje faça que o eco dos canhões não vá contar às nuvens e seja repetido pelo céu, eco do trovão terrestre. Vamo-nos. Trombetas. Saem todos. menos Hamlet HAMLET Ah! Não poder esta dura carne fundir-se, derreter e resolver-se em orvalho! Ah! Se não tivesse o Eterno apontado os seus canhões contra o suicídio! Meu Deus, meu Deus! Como parecem vãs, pesadas, estéreis e vulgares todas as alegrias deste mundo! Fora com ele, fora! É um jardim de ervas ruins, que crescem à toa. Só coisas grosseiras e imundas o invadem. Ao que chegamos! Há apenas dois meses que morreu, que digo?- 73 of 92 19/1/07 19:01
    74. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Não, nem tanto!- O Rei tão excelente que ele era. Em relação a este, o que Hiperíon é para um sátiro; tão carinhoso para minha mãe, que nem aos ventos do céu permitiria que a face rudemente lhe tocassem. Ó Céus e ó terra, é preciso que eu o recorde? Ela abraçava-se a ele, como se o desejo aumentasse com o que o alimentava. E contudo, num só mês... Não quero pensar nisso. Fragilidade, o teu nome é mulher. Um mês apenas! E antes que se rompessem os sapatos com que seguiu o cadáver do meu pobre pai como Niobe, toda em prantos, pois ela, até ela... Oh, meu Deus! Uma fera sem entendimento teria carpido mais tempo... Casada com meu tio, com o irmão de meu pai, mas com ele tão parecido quanto eu com Hércules. Dentro de um mês, antes mesmo que o sal das lágrimas secasse nos seus olhos inflamados, voltou a casar-se. Oh perversa ansiedade que a fez correr com tal destreza ao leito incestuoso! Acção perversa, nada de bom pode vir dela. Mas pára, meu coração, pois é preciso que detenha a minha língua. (Shakespeare- HAMLET) Publicado por void em 03:49 PM | Comentários (4) | TrackBack PRESENÇAS (Trabalho de Almor Loucao) Tanta gente partiu Deixando lugares vazios E criando espaços próprios Dentro de mim, Onde as recordo E de onde nunca partirão (Ana- PALAVRAS MUTANTES) [Com este poema dou por concluída a (re)edição semanal de trabalhos da autora. Ana, para ti, um agradecimento muitíssimo especial pela possibilidade que me deste, de com a tua escrita, poder criar/compor cenários. Beijo grande, Sandra.] Publicado por void em 10:59 AM | Comentários (1) | TrackBack NITIDEZ (Trabalho de Domenique Heidy) A nitidez do dia Torna mais claras Todas as coisas. A nitidez do dia Acentua Aprofunda 74 of 92 19/1/07 19:01
    75. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Este abismo em mim (Ana- PALAVRAS MUTANTES) Publicado por void em 10:43 AM | Comentários (3) | TrackBack maio 08, 2004 TELL ME (Trabalho da autoria de alvestc) quando voamos entregando-nos assim que parte de nós era parte de mim? (alvestc- ABSTRACTO CONCRETO) [Do amigo alves aqui para o Void, com aquilo que vai fazendo toda a diferença. Entre "mouros"... abraço. Sandra.] Publicado por void em 07:28 PM | Comentários (3) | TrackBack ABENÇOAR-TE-EI (Fotografia de Marta Leitão Gonçalves) Pede-me a escrita e eu escrever-nos-ei. Pede-me que desobedeça e eu obedecer-te-ei. Pede-me o silêncio e eu calar-me-ei. Pede-me as palavras e eu falar-te-ei. Pede-me o corpo e eu entregar-me-ei. Pede-me um sorriso e eu mil vezes sorrir-te-ei. Pede-me a solidão e eu ausentar-me-ei. Pede-me calor e eu aquecer-te-ei. Pede-me a morte e eu morrerei. Pede-me a vida e eu beijar-te-ei. Pede-me o fim e eu matar-me-ei. Pede-me o sempre e eu eternizar-nos-ei. Pede-me a repulsa e eu amar-te-ei. Viola-me, escraviza-me, toma-me como puta e depois como virgem e eu não me importarei. Aparta os meus membros e eu beijar-te-ei. Corta-me os lábios e eu contemplar-te-ei. Cose-me os olhos e eu ouvir-te-ei. Amputa-me a audição e eu sentir-te-ei com o coração. Arranca-me o coração e eu amar-te-ei com a alma. Amaldiçoa-me a alma e eu abençoar-te-ei. [Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura.] 75 of 92 19/1/07 19:01
    76. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Publicado por void em 06:16 PM | Comentários (1) | TrackBack COISA REPELENTE (Fotografia de Elsa Mota Gomes) É certo que a infelicidade não depende apenas da dor, mas a alegria, essa, só devia depender da ausência de dor física. Vinte séculos inteiros e completos não inventaram uma explicação do sofrimento; sofre-se em comparação com o que é não sofrer, e nenhum homem saudável quer ser educado previamente para aquilo que é mau. Já não se treina a resistência à dor: evita-se, sim, a mistura com essa "coisa" repelente. (Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER) Publicado por void em 11:30 AM | Comentários (1) | TrackBack PESADELO (Trabalho de Sunblister) Há um pesadelo Ao som de um relógio Com horas e minutos marcados. Revivo-o Sempre que a hora chega O tempo pára na hora Em que primeiro o vivi Há um pesadelo Sem tempo Que é só meu. (Ana- PALAVRAS MUTANTES) Publicado por void em 08:30 AM | Comentários (2) | TrackBack RETRATO (Fotografia de Ana Isa F. Fonseca) Mostro-me em glória Vestindo-me de luzes e encantos E por dentro amordaço-me. Sou assim brilho e luz, 76 of 92 19/1/07 19:01
    77. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Sombra e escuridão. (Ana- PALAVRAS MUTANTES) Publicado por void em 08:19 AM | Comentários (1) | TrackBack maio 07, 2004 DON'T LOOK BACK (Pintura de Stroem Jette) Publicado por void em 08:23 PM | Comentários (1) | TrackBack VAZIO (Fotografia de João Santiago) 77 of 92 19/1/07 19:01
    78. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Atravesso Um corredor estreito, branco Que me aperta e enclausura Paredes feitas de memórias Mãos Que me prendem ali no instante E me tocam e maltratam. Sons, vozes, murmúrios Gritos que ainda ecoam Me penetram E violam os sentidos Anulando a vontade de ser. Não há saída Luz ao fundo Porta ou janela Por onde fugir Só o branco que me rodeia Que me atrai me prende e fascina Com a promessa de não ser (Ana- PALAVRAS MUTANTES) Publicado por void em 06:00 PM | Comentários (2) | TrackBack VIVER MAIS (Albert Camus) Se me persuado de que esta vida não tem outra face que não seja a do absurdo, se sinto que todo o seu equilíbrio depende dessa perpétua oposição entre a minha revolta consciente e a obscuridade onde ela se debate, se admito que a minha liberdade não tem sentido a não ser em relação ao seu destino limitado, então devo dizer que o que conta não é viver melhor, mas viver mais. Não preciso de perguntar a mim mesmo se isso é reles ou desagradável, elementar ou lamentável. De uma vez por todas, os juízos 78 of 92 19/1/07 19:01
    79. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html de valor são aqui afastados em proveito dos juízos de facto. Só tenho de tirar conclusões daquilo que posso ver e não arriscar nada que seja uma hipótese. Supondo que viver assim não era honesto, então, a verdadeira honestidade ordenar-me-ia que fosse desonesto. Viver mais; em sentido lato esta regra de vida não significa nada. É preciso torná-la precisa. Parece de início que não aprofundámos o bastante essa noção de quantidade. Porque ela pode explicar uma grande parte da experiência humana. A moral de um homem, a sua escada de valores, não tem sentido senão pela quantidade e variedade de experiências que lhe foi dado acumular. Ora, as condições da vida moderna impõem à maioria dos homens a mesma quantidade de experiências e, portanto, a mesma experiência profunda. Claro que é preciso considerar também o que o indivíduo traz espontaneamente consigo, o que nele é "dado". (Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO) Publicado por void em 05:45 PM | Comentários (0) | TrackBack maio 06, 2004 MARCAS (Trabalho de Nando) Tenho os passos tão leves Que o meu andar Quase não deixa marcas. E ao olhar para trás Nada vejo Que assinale a minha presença. Só um caminho vazio de passos. E um presente Onde não ficarão No futuro Marcas ou traços de mim. (Ana- PALAVRAS MUTANTES) Publicado por void em 06:06 PM | Comentários (5) | TrackBack OS HOMENS MORREM E NÃO SÃO FELIZES 79 of 92 19/1/07 19:01
    80. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (A cena fica vazia durante alguns segundos. Calígula entra furtivamente pela esquerda. Tem um ar alucinado, está sujo, os seus cabelos estão empapados de água e as suas pernas enlameadas. Leva várias vezes a mão à boca. Caminha para o espelho e detém-se, assim que apercebe nele a sua própria imagem. Balbucia palavras indistintas, depois vai-se sentar à direita, os braços caídos entre os joelhos separados. Helicon entra pela esquerda. Vendo Calígula, pára na extremidade da cena e observa-o em silêncio. Calígula volta-se e vê-o. Pausa.) HELICON, atravessando a cena Bom dia, Caius. CALÍGULA, naturalmente Bom dia, Helicon. (Silêncio) HELICON Pareces fatigado? CALÍGULA Andei muito. HELICON Sim, a tua ausência foi longa. (Silêncio) CALÍGULA Era difícil de encontrar. HELICON O quê? CALÍGULA 80 of 92 19/1/07 19:01
    81. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html O que queria. HELICON E que querias tu? CALÍGULA A Lua. HELICON O quê? CALÍGULA Sim, eu queria a Lua. HELICON Ah! (Silêncio. Helicon aproxima-se) CALÍGULA Bem!... É uma das coisas que não tenho. HELICON Claro. E agora, está tudo em ordem? CALÍGULA Não, não a posso ter. HELICON É aborrecido. CALÍGULA Sim, é por isso que estou cansado. (Pausa) CALÍGULA Helicon! HELICON Diz, Caius. CALÍGULA Pensas que estou doido. HELICON Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para isso. CALÍGULA Já sei. Enfim! Não estou doido, parece-me mesmo que nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti de repente necessidade do impossível. (Pausa) As coisas, tal como são, não me parecem satisfatórias. HELICON É a opinião geral. CALÍGULA 81 of 92 19/1/07 19:01
    82. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html É a verdade. Até há pouco tempo, eu não a sabia. Agora, sei. (Sempre natural) Este mundo, tal como está feito, não é suportável. Tenho, portanto, necessidade da Lua, ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo. HELICON É uma razão de peso. Mas, geralmente, não podemos conservá-la até ao fim. CALÍGULA, levantando-se com a mesma simplicidade Que sabes tu disto? É porque nunca a conservamos até ao fim, que nada se alcança. Mas é possível que talvez baste continuarmos lógicos até ao fim. (Olha Helicon) CALÍGULA Li o que estás a pensar. Quantas histórias por causa da morte de uma mulher! Não, não é isso. Suponho recordar-me, é verdade, de ter morrido há alguns dias uma mulher que amava. Mas o que é o amor? Pouca coisa. Juro-te que esta morte não quer dizer nada, apenas significa uma verdade que torna a Lua necessária. Uma verdade muito simples e muito clara, talvez um pouco estúpida, mas difícil de descobrir e pesada de suportar. HELICON E qual é, então, essa verdade, Caius? CALÍGULA, lasso, num tom lento Os homens morrem e não são felizes. HELICON, depois de uma pausa Ora, Caius, toda a gente passa bem sem essa verdade. Olha à tua volta. Não é ela que os impede de almoçar. CALÍGULA, subitamente, numa explosão Então, é porque tudo à minha volta é mentira, e eu, eu quero que se viva na verdade! E, justamente, tenho meios para os obrigar a viverem na verdade. Porque eu sei o que lhes falta, Helicon. Eles estão privados do conhecimento, porque lhes falta um professor que conheça aquilo que ensina. HELINCON Não te ofendas com o que te vou dizer, Caius. Acho que, em primeiro lugar, devias ir repousar. (...) (Albert Camus- CALÍGULA) Publicado por void em 05:52 PM | Comentários (1) | TrackBack maio 05, 2004 INUMANIDADE (Trabalho de Paulo Vaz) Paredes que escorrem dor 82 of 92 19/1/07 19:01
    83. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html A humanidade exposta Em corredores/montras de sofrimento. A indiferença de quem passa E recusa o gesto. A morte que se passeia livre E escolhe o próximo. E o medo de quem espera De quem recusa o gesto Não se permitindo Nem um momento de distracção. Para que depois a morte, Puta que se passeia livre Em corredores de sofrimento, Não diga: Estavas distraída Não olhaste Roubei-te a ti (Ana- PALAVRAS MUTANTES) Publicado por void em 06:09 PM | Comentários (3) | TrackBack BIOGRAFIA DO HOMEM (Fotografia de Manuel Jorge R. T. Inácio) Para Walser, tornara-se evidente que uma existência era composta por uma sucessão de comportamentos dirigidos às coisas e aos outros homens, e que esses comportamentos, esse agir- por grosseiro que fosse- não era objectivamente, mais do que um conjunto de movimentos muscularmente bem definidos, localizados facilmente num mapa anatómico. A biografia de um homem era, no fundo, o que os seus músculos haviam feito. Cada acontecimento individual poderia assim ser, não reduzido, mas assemelhado (...)- poderia ser assemelhado, então, a um somatório de gestos, tal como uma máquina, por mais complexa que fosse, e por mais espantosas que fossem as suas acções, não deixava de ser um somatório de peças que sob determinadas circunstâncias agiam. Ele não considerava justo que o Homem, apenas por conseguir reflectir sobre o mecanismo da sua existência, pudesse orgulhar-se de uma diferença absoluta em relação às máquinas. Conseguir distanciar-se do mecanismo que o constitui não faz o mecanismo deixar de existir. Uma existência humana era, assim, para Walser, um somatório simples. Era o sinal mais que predominava em qualquer ser vivo, e a morte era espantosamente assustadora precisamente porque representava a interrupção abrupta de um somatório que, a certa altura, todos eram levados a pensar ser interminável. Como se cada um, a dado momento, considerasse o seu corpo, por outras palavras: um somatório individual de comportamentos. (Gonçalo M. Tavares- A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER) Publicado por void em 05:46 PM | Comentários (1) | TrackBack 83 of 92 19/1/07 19:01
    84. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html maio 04, 2004 TERAPIAS (Fotografia de Paulo Lopes) Não andamos por aí a dizer “Dói-me a alma Tenho esta dor nem sei onde Que me sufoca… ” Ninguém compreenderia, Ou pensariam que é asma. Não dizemos a toda a gente “Sinto que o corpo não chega Os sonhos são grandes demais Sou maior que este corpo Ou esta realidade...” Internavam-nos E tentariam descobrir Psicoses, neuroses, Uma qualquer patologia. Que é um poeta Senão um contador De dores que não se vêem? (Ana- PALAVRAS MUTANTES) Publicado por void em 08:40 PM | Comentários (5) | TrackBack PLANÍCIE o bando debandou subindo do arvoredo do vácuo que ficou no fim do seu degredo as asas abrem chagas no acinzar do entardecer e amansam a agonia do dia a escurecer ensombram a ribeira e o verde da seara e passam pela eira em que o sol se pousara nas gotas do orvalho luarento e vacilante refrescam o cansaço e dormem um instante pássaros do sul 84 of 92 19/1/07 19:01
    85. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html bando de asas soltas trazem melodias p'ra cantar às moças em noites de romaria em noites de romaria no adejo da alvorada oscila a minha mágoa o céu à desgarrada irrompe azul na água e a passarada acorda no sonhar de um camponês e entrega-se no sul do frio que à noite fez é tempo da partida e a côr no horizonte adensa a despedida e o borbotar da fonte as asas abrem chagas na poeira o sol acalma num agitar inquieto que me refresca a alma pássaros do sul bando de asas soltas trazem melodias pra cantar às moças em noites de romaria em noites de romaria (Mafalda Veiga- PÁSSAROS DO SUL) [Em 1987, pela editora Valentim de Carvalho, Mafalda Veiga edita o seu 1º disco intitulado "Pássaros do Sul". Nessa altura eu tinha 16 anos e andava no 10º ano. De imediato me apaixonei pela canção "Planície" e desde ai a Mafalda é uma referência para mim. Já editei neste blog algumas das letras das suas canções... seria uma falha não registar esta. Foi aqui de tudo começou... Sandra] Publicado por void em 06:25 PM | Comentários (0) | TrackBack maio 03, 2004 CASULO (Trabalho de Rui Veigas) Gosto de gente interventiva, Que mobiliza, Salta para uma cadeira, 85 of 92 19/1/07 19:01
    86. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Estende o braço em desafio E diz: Merda estou aqui. Gosto de gente que se indigna, Denuncia injustiças, Bate na cara dos sacanas, Dá o corpo ao manifesto, Se mete no meio da briga E defende quem precisa. Gosto de gente que se levanta do sofá, Faz as malas, vai para Angola, Porque viu na televisão Um puto com barriga de fome. Gosto de gente que olha A dor dos outros nos olhos, Com um estender de mão a faz sua, Não diz: É só uma dor no meio de tantas, Que raio posso fazer? E eu?? Eu no meu casulo, Gosto de gente assim... (Ana- PALAVRAS MUTANTES) [Iniciamos hoje, aqui no Void, o projecto que determina que, durante uma semana, seja garantido um espaço a todos aqueles que connosco têm colaborado, com a autorização de (re)edição dos seus trabalhos- textos em Poesia ou Prosa-. É com a Ana que arrancamos esta iniciativa. Durante esta semana- até Domingo- vamos estar diariamente com ela. Apreciem. Agradecimento especial à autora. Sandra] Publicado por void em 06:52 PM | Comentários (3) | TrackBack O ABSURDO E O SUICÍDIO 86 of 92 19/1/07 19:01
    87. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html (Albert Camus) Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. (...) O suicídio nunca foi tratado senão como fenómeno social. Aqui, pelo contrário, para começar, importa-nos a relação entre o pensamento individual e o suicídio. Um gesto como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração. O próprio homem o ignora. (...) Há muitas causas para um suicídio e, de um modo geral, as mais aparentes não têm sido as mais eficazes. As pessoas raramente se suicidam (a hipótese, no entanto, não se exclui) por reflexão. Aquilo que provoca a crise é quase sempre incontrolável. (...) Mas se é difícil fixar o momento preciso, o movimento subtil do espírito em que este se determinou pela morte, é mais fácil tirar do próprio gesto as consequências que ele implica. Matar-se, em certo sentido (...), é confessar. É confessar que se é ultrapassado pela vida e que a não compreendemos. (...) O suicídio é apenas a confissão de que a existência "não vale a pena". Viver, naturalmente, nunca é fácil. Continuamos a fazer os gestos que a existência ordena, por muitas razões, a primeira das quais é o hábito. Morrer voluntariamente implica reconhecermos, mesmo instintivamente, o carácter irrisório desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o carácter insensato dessa agitação quotidiana e a inutilidade do sofrimento. (...) Esse divórcio entre o homem e a sua vida, entre o actor e o seu cenário, é que é verdadeiramente o sentimento do absurdo. Como todos os homens sãos já pensaram no seu próprio suicídio, pode reconhecer-se, sem mais explicações, que há um elo directo entre tal sentimento e a aspiração ao nada. (...) As pessoas matam-se porque a vida não vale a pena ser vivida, eis uma verdade, sem dúvida- infecunda, no entanto, porque é truísmo. (...) Será que o seu absurdo exige que lhe escapemos, pela esperança ou pelo suicídio- eis o que é necessário aclarar, prosseguir e ilustrar, afastando todo o resto. Averiguar se o absurdo determina a morte, tal o problema a que se tem de dar primazia, fora de todos os métodos do pensamento e dos jogos do espírito desinteressado. (...) Consciência e revolta, estas recusas são o contrário da renúncia. Tudo o que há de irredutível e de apaixonado num coração humano anima-se, pelo contrário, com a sua vida. Trata-se de morrer irreconciliado e não de bom grado. O suicídio é um desconhecimento. O homem absurdo tem de esgotar tudo e esgotar-se. O absurdo é a sua tensão mais extrema, a que ele mantém constantemente com um esforço solitário, porque sabe que nessa consciência e nessa revolta do dia-a-dia testemunha a sua única verdade, que é o desafio. (Albert Camus- O MITO DE SÍSIFO. ENSAIO SOBRE O ABSURDO) Publicado por void em 06:19 PM | Comentários (0) | TrackBack maio 02, 2004 JAMAIS TE QUIS MAGOAR (Fotografia de Jones Moura do Amaral) desejei não ser isto em mim. desejei que não fosse assim. é difícil nadar contra a corrente de pessoas. é ainda mais difícil nadar contra o meu ser. quis abraçar-te e afogar o peso da minha alma no teu peito consolador. embalar-me na tua respiração profundamente calorosa e esquecer o que me fez tiritar. 87 of 92 19/1/07 19:01
    88. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html quis dizer-te amor sem estremecer a voz. pintar-nos sem a ausência de cor. e porque não?, perguntaste-me. porque não? o mundo que escrevo enlouquece e esta vida tricota-me incoerente. as velhas mágoas sabem quando voltar e eu não lhes dei a chave. quero libertar-me em ti mas não consigo respirar nesta prisão. cortam-me aos bocadinhos e tu estás com eles entre essas grades malditas. perdoa-me se a minha vontade se tornou ruim e malvada. perdoa-me as ofensas, os silêncios e os gritos exaltados. perdoa-me esta quebra de sanidade. jamais te quis magoar. [Texto da autoria de uma das bloggers do Void. Editado, também, em Memória Futura.] Publicado por void em 05:29 PM | Comentários (0) | TrackBack POÇO DE VAIDADE Devo humildemente reconhecê-lo, meu caro compatriota, fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão da minha querida vida e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Nunca pude falar senão gabando-me, sobretudo se o fazia com esta ruidosa discrição cujo segredo era meu. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. Simplesmente, sentia-me liberto em relação a todos pela excelente razão de que me considerava sem igual. Sempre me julguei mais inteligente do que ninguém, disse-lhe eu, mas também mais sensível e mais destro, atirador de escol, volante inigualável, e melhor amante. Mesmo em domínios onde me era fácil verificar a minha inferioridade, como o ténis, por exemplo, onde eu era apenas um parceiro razoável, era-me difícil não acreditar que, se tivesse tempo para me treinar, eu bateria as primeiras categorias. Não me reconhecia senão supe-rioridades, o que explicava a minha benevolência e a minha serenidade. Quando me ocupava de outrem, e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor a mim mesmo. (Albert Camus- A QUEDA) Publicado por void em 01:34 PM | Comentários (1) | TrackBack NAPOLEÃO 88 of 92 19/1/07 19:01
    89. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Napoleão, seguido dos seus cães, subiu para a plataforma erguida no chão, lugar que antes pertencera ao Major, para fazer o seu discurso. Anunciou que, a partir de agora, as Assembleias das manhãs de domingo iam acabar. Eram desnecessárias, disse ele, e uma perda de tempo. De futuro, todas as questões relacionadas com o trabalho da quinta seriam resolvidas por um comité de porcos, presidido por ele. Estes reunir-se-iam em segredo e depois comunicariam as suas resoluções aos outros. Os animais continuariam a reunir-se aos domingos de manhã para saudar a bandeira, cantar Animais da Inglaterra e rebeber dos porcos as ordens para a semana; mas não haveria mais debates. (...), os animais ficaram desanimados com este anúncio. Alguns deles teriam protestado, se tivessem encontrado os argumentos certos. (...) Os próprios porcos ficaram apreensivos, mostrando, no entanto, que eram mais desembaraçados. Quatro leitões que estavam na fila da frente soltaram gritos agudos de desaprovação e levantaram-se, começando a falar. De súdito, os cães que rodeavam Napoleão largaram algumas rosnadelas fundas, ameaçadoras e os porcos calaram-se e sentaram-se de novo. (...) Mais tarde, Squealer andou pela quinta a explicar aos outros as novas disposições. - Camaradas- disse ele-, espero que todos vocês saibam apreciar o sacrifício que o camarada Napoleão fez, tomando à sua conta este trabalho extra. Não julguem, camaradas, que ser chefe é um prazer! Ninguém crê mais firmemente do que o camarada Napoleão que todos os animais são iguais. Ele ficaria até muito feliz se pudesse deixar-vos tomar as vossas próprias decisões. Mas as vossas resoluções poderiam ser erradas, camaradas, e então que nos aconteceria? (...) Disciplina, camaradas, disciplina de ferro! Essa é hoje a palavra de ordem. Um passo em falso e os nossos inimigos cairiam em cima de nós. Certamente, camaradas, vocês não querem que Jones volte, pois não? (George Orwell- O TRIUNFO DOS PORCOS) Publicado por void em 09:54 AM | Comentários (0) | TrackBack maio 01, 2004 A BATALHA Nos princípios de Outubro, quando os cereais já estavam ceifados e empilhados e alguns até debulhados, um bando de pombos veio em turbilhão pelo ar e pousou no pátio da Quinta dos Animais, numa grande excitação. Jones e todos os seus homens e mais meia dúzia, de Foxwood e Pinchfield, tinham entrado pelo portão gradeado e vinham a subir a vareda que conduzia à quinta. Todos traziam paus, excepto Jones, que vinha à 89 of 92 19/1/07 19:01
    90. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html frente, com uma espingarda. Iam, obviamente, tentar reaver a quinta. Há muito tempo que isto era esperado e todos os preparativos tinham sido feitos. (...) Todos os pombos, trinta e cinco ao todo, voaram de um lado para o outro e, lá do alto, expeliram os seus excrementos sobre as cabeças dos homens; e, enquanto os homens tentavam escapar a isto, os gansos, que estavam escondidos atrás da sebe, avançaram velozmente e deram-lhes bicadas traiçoeiras nas barrigas das pernas. (...) Muriel e todos os carneiros, (...), investiram e começaram a marrar e a picar os homens por todos os lados, enquanto Benjamim se virava e desatava aos coices, chicoteando-os com os seus pequenos cascos. Mas, mais uma vez, os homens, com os paus e as suas botas ferradas, foram mais fortes do que eles, e, de repente, (...), todos os animais recuaram para o pátio, passando o portão. Os homens soltaram um grito de triunfo. Viram, pensavam eles, os seus inimigos a fugir e avançaram sobre eles em triunfo. (...) Logo que os viram dentro do pátio, os três cavalos, as três vacas e o resto dos porcos, que tinham estado emboscados no estábulo, surgiram pela retaguarda, cortando-lhes a saída. (...) Momentos depois, todos os animais corriam atrás deles, à volta do pátio. Eram escorneados, escoucinhados, mordidos, pisados. Não houve um único animal que não se vingasse deles à sua maneira. (...) Quando, por um momento, a saída ficou desimpedida, os homens conseguiram fugir do pátio e chegar à estrada. E assim, após cinco minutos de invasão, batiam vergonhosamente em retirada pelo caminho donde tinham vindo, com um bando de gansos a assobiar atrás deles e a picar-lhes as barrigas das pernas durante todo o percurso. (...) Os animais tinham voltado a reunir-se muito excitados, cada um contando em altos gritos as suas façalhas na batalha. Em seguida, realizaram uma improvisada celebração da vitória; a bandeira foi içada e o hino Animais de Inglaterra foi entoado várias vezes (...). (George Orwell- O TRIUNFO DOS PORCOS) Publicado por void em 06:44 PM | Comentários (0) | TrackBack UM ESTRANHO SONHO 90 of 92 19/1/07 19:01
    91. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html Constara, durante o dia, que o velho Major, o premiado porco "Middle White", tivera um estranho sonho na noite anterior e desejava transmiti-lo aos outros animais. Ficara acordado reunirem-se todos no celeiro grande, logo que estivessem livres do Sr. Jones. (...) Quando Major viu que todos estavam confortavelmente instalados, esperando atentamente, aclarou a garganta e começou: - (...) Não creio, camaradas, que esteja entre vós por muitos mais meses e, antes de morrer, sinto que é meu dever transmitir-vos a sabedoria que adquiri. (...) É acerca disto que quero falar-lhes. Camaradas: qual é o sentido desta nossa vida? Encaremos a realidade: a nossa vida é miserável, penosa e curta. Nascemos, somos alimentados apenas com a comida necessária para nos mantermos vivos, e aqueles de entre nós que têm capacidade para isso, são forçados a trabalhar até ao limite das suas forças; e no preciso momento em que a nossa utilidade chega ao fim, somos abatidos com terrível crueldade. Nenhum animal na Inglaterra, depois do primeiro ano de idade, conhece o significado da felicidade ou do ócio. Nenhum animal é livre na Inglaterra. A vida de um animal é angústia e escravidão; esta é a verdade nua e crua. Mas será que isto faz parte da lei da natureza? Será por esta nossa terra ser tão pobre que não possa dar uma vida decente àqueles que nela vivem? Não, camaradas, mil vezes não! (...) Então por que é que continuamos nestas condições miseráveis? Porque a quase totalidade do produto do nosso trabalho nos é roubado pelos seres humanos. Aí, camaradas, está a resposta a todos os nossos problemas. Resume-se a uma simples palavra: o Homem. O homem é o único verdadeiro inimigo que temos. Retirando o Homem da cena, a causa principal da fome e do excesso de trabalho desaparecerá para sempre. O homem é a única criatura que consome sem produzir. (...) No entanto, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a trabalhar, retribui-lhes apenas com o mínimo indispensável para que não morram à fome e o resto guarda para si. O nosso trabalho lavra o solo, o nosso estrume fertiliza-o e, ainda assim, nenhum de nós possui mais do que a sua própria pele. (...) Não está, pois, claro, camaradas, que todos os males desta nossa vida resultam da 91 of 92 19/1/07 19:01
    92. O abismo negro de sonhos esquecidos: maio 2004 Arquivo http://void.weblog.com.pt/arquivo/2004_05.html tirania dos seres humanos? Bastaria libertarmo-nos do Homem e o produto do nosso trabalho seria nosso. Praticamente de um dia para o outro ficaríamos ricos e livres. Que temos então de fazer? Trabalhar noite e dia, de corpo e alma, para derrubar a raça humana! Esta é a mensagem que vos dirijo, camaradas: Revolta! (George Orwell- O TRIUNFO DOS PORCOS) Publicado por void em 10:30 AM | Comentários (1) | TrackBack 92 of 92 19/1/07 19:01
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