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Joao cabral de melo neto

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  • 1. 1 João Cabral de Melo Neto
  • 2. 2 A obra de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) é uma das maiores criações da cultura brasileira do século 20. Se trata de uma poesia cerebral e não emotiva. O poeta recorre a uma construção elaborada da linguagem para criar uma atmosfera poética. A poesia de João Cabral de Melo Neto pode ser dividida em dois blocos distintos: uma água construtiva e outra participante. A primeira água seria formada pelos poemas arquitetônicos, experimentais feitos para poetas que versam sobre o próprio fazer poético. Já a água participante volta-se para a problemática social do homem do nordeste e é formada por obras como "O cão sem plumas" e "O rio" , que são poemas sobre os habitantes dos manguezais do rio Capibaribe. João Cabral de Melo Neto nasceu na cidade de Recife - PE, no dia 09 de janeiro de 1920, na rua da Jaqueira (depois Leonardo Cavalcanti), segundo filho de Luiz Antônio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro-Leão Cabral de Melo. Primo, pelo lado paterno, de Manuel Bandeira e, pelo lado materno, de Gilberto Freyre. Passa a infância em engenhos de açúcar. Primeiro no Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, e depois nos engenhos Pacoval e Dois Irmãos, no município de Moreno. Em 1930, com a mudança da família para Recife, inicia o curso primário no Colégio Marista. João Cabral era um amante do futebol, tendo sido campeão juvenil pelo Santa Cruz Futebol Clube em 1935. Foi na Associação Comercial de Pernambuco, em 1937, que obteve seu primeiro emprego, tendo depois trabalhado no Departamento de Estatística do Estado. Já com 18 anos, começa a freqüentar a roda literária do Café Lafayette, que se reúne em volta de Willy Lewin e do pintor Vicente do Rego Monteiro, que regressara de Paris por causa da guerra. Em 1940 viaja com a família para o Rio de Janeiro, onde conhece Murilo Mendes. Esse o apresenta a Carlos Drummond de Andrade e ao círculo de intelectuais que se reunia no consultório de Jorge de Lima. No ano seguinte, participa do Congresso de Poesia do Recife, ocasião em que apresenta suas Considerações sobre o poeta dormindo. 1942 marca a publicação de seu primeiro livro, Pedra do Sono. Em novembro viaja, por terra, para o Rio de Janeiro. Convocado para servir à Força Expedicionária Brasileira (FEB), é dispensado por motivo de saúde. Mas permanece no Rio, sendo aprovado em concurso e nomeado Assistente de Seleção do DASP (Departamento de Administração do Serviço Público). Freqüenta, então, os intelectuais que se reuniam no Café Amarelinho e Café Vermelhinho, no Centro do Rio de Janeiro. Publica Os três mal-amados na Revista do Brasil. O engenheiro é publicado em 1945, em edição custeada por Augusto Frederico Schmidt. Faz concurso para a carreira diplomática, para a qual é nomeado em dezembro. Começa a trabalhar em 1946, no Departamento Cultural do Itamaraty, depois no Departamento Político e, posteriormente, na comissão de Organismos Internacionais. Em fevereiro, casa-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira, no Rio de Janeiro. Em dezembro, nasce seu primeiro filho, Rodrigo. É removido, em 1947, para o Consulado Geral em Barcelona, como vice-cônsul. Adquire uma pequena tipografia artesanal, com a qual publica livros de poetas brasileiros e espanhóis. Nessa prensa manual imprime Psicologia da composição. Nos dois anos seguintes ganha dois filhos: Inês e Luiz, respectivamente. Residindo na Catalunha, escreve seu ensaio sobre Joan Miró, cujo estúdio freqüenta. Miró faz publicar o ensaio com texto em português, com suas primeiras gravuras em madeira. Removido para o Consulado Geral em Londres, em 1950, publica O cão sem plumas. Dois anos depois retorna ao Brasil para responder por inquérito onde é acusado de subversão. Escreve o livro O rio, em 1953, com o qual recebe o Prêmio José de Anchieta do IV Centenário de São Paulo (em 1954). É colocado em disponibilidade pelo Itamaraty, sem rendimentos, enquanto responde ao inquérito, período em que trabalha como secretário de redação do Jornal A Vanguarda, dirigido por Joel Silveira. Arquivado o inquérito policial, a pedido do promotor público, vai para Pernambuco com a família. Lá, é recebido em sessão solene pela Câmara Municipal do Recife.
  • 3. 3 Em 1954 é convidado a participar do Congresso Internacional de Escritores, em São Paulo. Participa também do Congresso Brasileiro de Poesia, reunido na mesma época. A Editora Orfeu publica seus Poemas Reunidos. Reintegrado à carreira diplomática pelo Supremo Tribunal Federal, passa a trabalhar no Departamento Cultural do Itamaraty. Duas alegrias em 1955: o nascimento de sua filha Isabel e o recebimento do Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. A Editora José Olympio publica, em 1956, Duas águas, volume que reúne seus livros anteriores e os inéditos: Morte e vida severina, Paisagens com figuras e Uma faca só lâmina. Removido para Barcelona, como cônsul adjunto, vai com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, onde passa a residir. Em 1958 é removido para o Consulado Geral em Marselha. Recebe o prêmio de melhor autor no Festival de Teatro do Estudante, realizado no Recife. Publica em Lisboa seu livro Quaderna, em 1960. É removido para Madri, como primeiro secretário da embaixada. Publica, em Madri, Dois parlamentos. Em 1961 é nomeado chefe de gabinete do ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa, e passa a residir em Brasília. Com o fim do governo Jânio Quadros, poucos meses depois, é removido outra vez para a embaixada em Madri. A Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabino, publica Terceira feira, livro que reúne Quaderna, Dois parlamentos, ainda inéditos no Brasil, e um novo livro: Serial. Com a mudança do consulado brasileiro de Cádiz para Sevilha, João Cabral muda-se para essa cidade, onde reside pela segunda vez. Continuando seu vai-e-vem pelo mundo, em 1964 é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. Nesse ano nasce seu quinto filho, João. Como ministro conselheiro, em 1966, muda-se para Berna. O Teatro da Universidade Católica de São Paulo produz o auto Morte e Vida Severina, com música de Chico Buarque de Holanda, primeiro encenado em várias cidades brasileiras e depois no Festival de Nancy, no Théatre des Nations, em Paris e, posteriormente, em Lisboa, Coimbra e Porto. Em Nancy recebe o prêmio de Melhor Autor Vivo do Festival. Publica A educação pela pedra, que recebe os prêmios Jabuti; da União de Escritores de São Paulo; Luisa Cláudio de Souza, do Pen Club; e o prêmio do Instituto Nacional do Livro. É designado pelo Itamaraty para representar o Brasil na Bienal de Knock-le-Zontew, na Bélgica. 1967 marca sua volta a Barcelona, como cônsul geral. No ano seguinte é publicada a primeira edição de Poesias completas. É eleito, em 15 de agosto de 1968, para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Assis Chateaubriand. É recebido em sessão solene pela Assembléia Legislativa de Pernambuco como membro do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT). Toma posse na Academia em 06 de maio de 1969, na cadeira número 6, sendo recebido por José Américo de Almeida. A Companhia Paulo Autran encena Morte e vida severina em diversas cidades do Brasil. É removido para a embaixada de Assunção, no Paraguai, como ministro conselheiro. Torna-se membro da Hispania Society of America e recebe a comenda da Ordem de Mérito Pernambucano. Após três anos em Assunção, é nomeado embaixador em Dacar, no Senegal, cargo que exerce cumulativamente com o de embaixador da Mauritânia, no Mali e na Giné-Conakry. Em 1974 é agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco. No ano seguinte publica Museu de Tudo, que recebe o Grande Prêmio de Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte. É agraciado com a Medalha de Humanidades do Nordeste. Em 1976 é condecorado Grande Oficial da Ordem do Mérito do Senegal e, em 1979, como Grande Oficial da Ordem do Leão do Senegal. É nomeado embaixador em Quito, Equador e publica A escola das facas.
  • 4. 4 A convite do governador de Pernambuco, vai a Recife (em 1980) para fazer o discurso inaugural da Ordem do Mérito de Guararapes, sendo condecorado com a Grã-Cruz da Ordem. Ali é inaugurada uma exposição bibliográfica de sua obra, no Palácio do Governo de Pernambuco, organizada por Zila Mamede. Recebe a Comenda do Mérito Aeronáutico e a Grã- Cruz do Equador. No ano seguinte vai para Honduras, como embaixador. Publica a antologia Poesia crítica. Em 1982 é agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Vai para a cidade do Porto, em Portugal, como cônsul geral. Recebe o Prêmio Golfinho de Ouro do Estado do Rio de Janeiro. Publica Auto do frade, escrito em Tegucigalpa. Ganha o Prêmio Moinho Recife, em 1984 e, no ano seguinte, publica os poemas de Agrestes. Nesse livro há uma sessão dedicada à morte ("A indesejada das gentes"). Em 1986 é agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco. Sua esposa, Stella Maria, falece no Rio de Janeiro. João Cabral reassume o Consulado Geral no Porto. Casa-se em segundas núpcias com a poeta Marly de Oliveira. Em 1987 publica Crime na Calle Relator, poemas narrativos. Recebe o prêmio da União Brasileira de Escritores. É removido para o Rio de Janeiro. Em Recife, no ano de 1988, lança sua antologia Poemas pernambucanos. Publica, também, o segundo volume de poesias completas: Museu de tudo e depois. Recebe o Prêmio da Bienal Nestlé de Literatura pelo conjunto da obra, e o Prêmio Lily de Carvalho da ABCL, Rio de Janeiro. Aposenta-se como embaixador em 1990 e publica Sevilha andando. É eleito para a Academia Pernambucana de Letras, da qual havia recebido, anos antes, a medalha Carneiro Vilela. Recebe os seguintes prêmios: Criadores de Cultura da Prefeitura do Recife, Luis de Camões (concedido conjuntamente pelos governos de Portugal e do Brasil), em Lisboa. É condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Judiciário e do Trabalho. A Faculdade Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro publica Primeiros Poemas. Outros prêmios: Pedro Nava (1991) pelo livro Sevilha andando; Casa das Américas, concedido pelo Estado de São Paulo (1992); e também nesse ano o Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma. Viaja a Sevilha para representar o presidente da República nas comemorações do dia 7 de Setembro, que tiveram lugar na Exposição do IV Centenário da Descoberta da América. No Pavilhão do Brasil, foi distribuída sua antologia Poemas sevilhanos, em edição especial. No Rio de Janeiro, na Casa da Espanha, recebe do embaixador espanhol a Grã-Cruz da Ordem de Isabel, a Católica. Em 1993 recebe o Prêmio Jabuti, instituído pela Câmara Brasileira do Livro. João Cabral era atormentado por uma dor de cabeça que não o deixava de forma alguma. Ao saber, anos atrás, que sofria de uma doença degenerativa incurável, que faria sua visão desaparecer aos poucos, o poeta anunciou que ia parar de escrever. Já em 1990, com a finalidade de ajudá-lo a vencer os males físicos e a depressão, Marly, sua segunda esposa, passa a escrever alguns textos tidos como de autoria do biografado. Conforme declarações de amigos, escreveu o discurso de agradecimento feito pelo autor ao receber o Prêmio Luis de Camões, considerado o mais importante prêmio concedido a escritores da língua portuguesa, entre outros. Foi a forma encontrada para tentar tirá-lo do estado depressivo em que se encontrava. Como não admirava a música, o autor foi perdendo também a vontade de falar ("Não tenho muito o que dizer", argumentava). Era, sem dúvida, o nosso mais forte concorrente ao prêmio Nobel, com diversas indicações dos mais variados segmentos de nossa sociedade. Transcrevemos abaixo o discurso proferido por Arnaldo Niskier, presidente da Academia Brasileira de Letras, por ocasião da morte do poeta, em 09/10/99:
  • 5. 5 "Adeus a João Cabral" "Severino retirante, deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia, se não vale mais saltar fora da ponte e da vida; nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga; é difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, Severina; mas se responder não pude à pergunta que fazia ela, a vida, a respondeu com sua presença viva." Vida que foi para João Cabral uma bonita e ao mesmo tempo sofrida obra de engenharia poética, como demonstrou no seu inesquecível Morte e Vida Severina. Aqui está o poeta João Cabral de Melo Neto, presente pela última vez na Academia Brasileira de Letras, de que foi, por 30 anos, uma das figuras fundamentais. Aos 79 anos, apaga-se a voz de significação universal, com a singularidade do seu verso, tantas vezes lembrado para a glória do Prêmio Nobel de Literatura. A nossa dor, que é também a da sua companheira Marly de Oliveira e dos seus filhos e demais parentes, não apaga da nossa memória a convicção de que foi ele um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos - o poeta da razão - que jamais esqueceu, mesmo nos 40 anos de vida diplomática, as suas raízes pernambucanas. O homem que soube desenhar em versos cálidos a saga do retirante nordestino, quando ainda não havia passado dos 35 anos de idade. João Cabral, o poeta João, que não se conformava em perfumar a flor, é o mesmo que escreveu aos 22 anos o livro Pedra do Sono, para depois nos brindar, entre outros, com O engenheiro, O cão sem plumas, Poesias completas, A educação pela pedra e o antológico Morte e Vida Severina, com versões no teatro e na mídia eletrônica. Fecham-se os olhos cansados do poeta João e não conseguimos realizar o sonho que agora desvendo: ver o América Futebol Clube voltar aos seus dias de glória. Nem o daqui do Rio, nem aquele que era a sua verdadeira paixão: o América do Recife. Quando preparava com ele a Cabraliana, que foi o seu primeiro audiolivro, ouvi fantásticas histórias da vida diplomática, especialmente dos tempos de Portugal, Espanha e Marrocos, além de nele reconhecer um orgulho especial pela família, parente que foi de grandes escritores brasileiros, como Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Mauro Mota e Antônio de Moraes e Silva, o famoso Moraes do Dicionário de Língua Portuguesa. Parece que era herdeiro, no seu jeito tão humilde e cativante, de uma genética literária originalíssima. É compreensível a nossa consternação. Enquanto a saúde permitiu, honrou esta casa com a sua assiduidade e o seu sentimento da mais pura cordialidade. Sofrendo agora com o seu silêncio, curvamo-nos diante do grande poeta, para afirmar que a Academia sempre o terá presente, com a saudade e a admiração de todos os seus confrades. Descanse em paz, poeta João. A sua presença jamais deixará de estar conosco. Teremos o consolo da sua poesia imortal." Dados obtidos nos livros do autor, em "Obra Completa", organizada por Marly de Oliveira com assistência do autor e em sites da Internet.
  • 6. 6 Contra a poesia dita profunda João Cabral de Melo Neto Poesia, te escrevia: flor! conhecendo que és fezes. (Fezes como qualquer, gerando cogumelos raros, frágeis, cogumelos) no úmido calor de nossa boca Delicado, escrevia: flor! (Cogumelos serão flor? Espécie estranha, espécie extinta de flor, flor não de todo flor, mas flor, bolha aberta no maduro). Delicado, evitava o estrume do poema, seu caule, seu ovário suas intestinações. Esperava as puras, transparentes florações, nascidas do ar, no ar, como as brisas. O cão sem plumas João Cabral de Melo Neto Aquele rio era como um cão sem plumas. Nada sabia da chuva azul, da fonte cor-de-rosa, da água do copo de água , da água de cântaro, dos peixes de água , da brisa na água. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. Sabia da lama como de uma mucosa. Devia saber dos polvos. Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras.
  • 7. 7 O Rio João Cabral de Melo Neto Da lagoa da Estaca a Apolinário Sempre pensara em ir caminho do mar. Para os bichos e rios nascer já é caminhar. Eu não sei o que os rios têm de homem do mar; sei que se sente o mesmo e exigente chamar. Eu já nasci descendo a serra que se diz do Jacarará, entre caraïbeiras de que só sei por ouvir contar (pois, também como gente, não consigo me lembrar desas primeiras léguas de meu caminhar). Deste tudo que me lembro, lembro-me bem de que baixava entre terras de sêde que das margens me vigiavam. Rio menino, eu temia aquela grande sêde de palha, grande sêde sem fundo que águas meninas cobiçava. Por isso é que ao descer caminho de pedras eu buscava, que não leito de areia com suas bôcas multiplicadas. Leito de pedra abaixo rio menino eu saltava. Saltei até encontrar as terras fêmeas da Mata. Notícia do Alto Sertão Por trás do que lembro, ouvi de uma terra desertada, vaziada, não vazia, mais que sêca, calcinada. De onde tudo fugia, onde só pedra é que ficava, pedras e poucos homens com raízes de pedra, ou de cabra. Lá o céu perdia as nuvens, derradeiras de suas aves; as árvores, a sombra, que nelas já não pousava. Tudo o que não fugia, gaviões, urubus, plantas bravas, a terra devastada ainda mais fundo devastava.
  • 8. 8 A estrada da Ribeira Como aceitara ir no meu destino de mar, preferi essa estrada, para lá chegar, que dizem da ribeira e à costa vai dar, que dêste mar de cinza vai a um mar de mar; preferi essa estrada de muito dobrar, estrada bem segura que não tem errar pois é a que tôda a gente costuma tomar (na gente que regressa sente-se cheiro de mar). De Apolinário a Poço Fundo Para o mar vou descendo por essa estrada da ribeira. A terra vou deixando de minha infância primeira. Vou deixando uma terra reduzida à sua areia, terra onde as coisas vivem a natureza da pedra. À mão direita os ermos do Brejo da Madre de Deus, Taquaritinga à esquerda, onde o êrmo é sempre o mesmo. Brejo ou Taquaritinga, mão direita ou mão esquerda, vou entre coisas poucas e sêcas além de sua pedra. Deixando vou as terras de minha primeira infância. Deixando para trás os nomes que vão mudando. Terras que eu abandono porque é de rio estar passando. Vou com passo de rio, que é de barco navegando. Deixando para trás as fazendas que vão ficando. Vendo-as, enquanto vou, parece que estão desfilando. Vou andando lado a lado de gente que vai retirando; vou levando comigo os rios que vou encontrando. Os rios Os rios que eu encontro vão seguindo comigo. Rios são de água pouca,
  • 9. 9 em que a água sempre está por um fio. Cortados no verão que faz secar todos os rios. Rios todos com nome e que abraço como a amigos. Uns com nome de gente, outros com nome de bicho, uns com nome de santo, muitos só com apelido. Mas todos como a gente que por aqui tenho visto: a gente cuja vida se interrompe quando os rios. De Poço Fundo a Couro d'Anta A gente não é muita que vive por esta ribeira. Vê-se alguma caieira tocando fogo ainda mais na terra; vê-se alguma fazenda com suas casas desertas: vêm para a beira da água como bichos com sêde. As vilas não são muitas e quase tôdas estão decadentes. Constam de poucas casas e de uma pequena igreja, como, no itinerário, já as descrevia Frei Caneca. Nenhuma tem escola; muito poucas possuem feira. As vilas vão passando com seus santos padroeiros. Primeiro é Poço Fundo, onde Santo Antônio tem capela. Depois é Santa Cruz onde o Senhor Bom Jesus se reza. Toritama, antes Tôrres, fêz para a Conceição sua igreja. A vila de Capado chama-se pela sua nova capela. Em Topada, a igreja com um cemitério se completa. No lugar Couro d'Anta, a Conceição também se celebra. Sempre um santo preside à decadência de cada uma delas. A estrada da Paraíba Depois de Santa Cruz, que agora é Capibaribe, encontro uma outra estrada que desce da Paraíba. Saltando o Cariri e a serra de Taquaritinga, na estrada da ribeira ela deságua como num rio.
  • 10. 10 Juntos, na da ribeira, continuamos, a estrada e o rio, agora com mais gente: a que por aquela estrada descia. Lado a lado com gente viajamos em companhia. Todos rumo do mar e do Recife êsse navio. Na estrada da ribeira até o mar ancho vou. Lado a lado com gente, no meu andar sem rumor. Não é estrada curta, mas é a estrada melhor, porque na companhia de gente é que sempre vou. Sou viajante calado, para ouvir histórias bom, a quem podeis falar sem que eu tente me interpor; junto de quem podeis pensar alto, falar só. Sempre em qualquer viagem o rio é o companheiro melhor. Do riacho as Éguas ao ribeiro do Mel Caruaru e Vertentes na outra manhã abandonei. Agora é Surubim, que fica do lado esquerdo. A seguir João Alfredo, que também passa longe e não vejo. Enquanto na direita tudo são terras de Limoeiro. Meu caminho divide, de nome, as terras que desço. Entretanto a paisagem, com tantos nomes, é quase a mesma. A mesma dor calada, o mesmo soluço sêco, mesma morte de coisa que não apodrece mas seca. Coronéis padroeiros vão desfilando com cada vila. Passam Cheos, Malhadinha, muito pobres e sem vida. Depois é Salgadinho com pobre águas curativas. Depois é São Vicente, muito morta e muito antiga. Depois, Pedra Tapada, com poucos votos e pouca vida. Depois é Pirauíra, é um só arruado seguido, partido em muitos nomes mas todo êle pobre e sem vida (que só há esta resposta
  • 11. 11 à ladainha dos nomes dessas vilas). O Relógio João Cabral de Melo Neto 1. Ao redor da vida do homem há certas caixas de vidro, dentro das quais, como em jaula, se ouve palpitar um bicho. Se são jaulas não é certo; mais perto estão das gaiolas ao menos, pelo tamanho e quadradiço de forma. Uma vezes, tais gaiolas vão penduradas nos muros; outras vezes, mais privadas, vão num bolso, num dos pulsos. Mas onde esteja: a gaiola será de pássaro ou pássara: é alada a palpitação, a saltação que ela guarda; e de pássaro cantor, não pássaro de plumagem: pois delas se emite um canto de uma tal continuidade que continua cantando se deixa de ouvi-lo a gente: como a gente às vezes canta para sentir-se existente. 2. O que eles cantam, se pássaros, é diferente de todos: cantam numa linha baixa, com voz de pássaro rouco; desconhecem as variantes e o estilo numeroso dos pássaros que sabemos, estejam presos ou soltos; têm sempre o mesmo compasso horizontal e monótono, e nunca, em nenhum momento, variam de repertório: dir-se-ia que não importa a nenhum ser escutado.
  • 12. 12 Assim, que não são artistas nem artesãos, mas operários para quem tudo o que cantam é simplesmente trabalho, trabalho rotina, em série, impessoal, não assinado, de operário que executa seu martelo regular proibido (ou sem querer) do mínimo variar. 3. A mão daquele martelo nunca muda de compasso. Mas tão igual sem fadiga, mal deve ser de operário; ela é por demais precisa para não ser mão de máquina, a máquina independente de operação operária. De máquina, mas movida por uma força qualquer que a move passando nela, regular, sem decrescer: quem sabe se algum monjolo ou antiga roda de água que vai rodando, passiva, graçar a um fluido que a passa; que fluido é ninguém vê: da água não mostra os senões: além de igual, é contínuo, sem marés, sem estações. E porque tampouco cabe, por isso, pensar que é o vento, há de ser um outro fluido que a move: quem sabe, o tempo. 4. Quando por algum motivo a roda de água se rompe, outra máquina se escuta: agora, de dentro do homem; outra máquina de dentro, imediata, a reveza, soando nas veias, no fundo de poça no corpo, imersa. Então se sente que o som da máquina, ora interior, nada possui de passivo,
  • 13. 13 de roda de água: é motor; se descobre nele o afogo de quem, ao fazer, se esforça, e que êle, dentro, afinal, revela vontade própria, incapaz, agora, dentro, de ainda disfarçar que nasce daquela bomba motor (coração, noutra linguagem) que, sem nenhum coração, vive a esgotar, gôta a gôta, o que o homem, de reserva, possa ter na íntima poça. O luto no sertão João Cabral de Melo Neto Pelo sertão não se tem como não se viver sempre enlutado; lá o luto não é de vestir, é de nascer com, luto nato. Sobe de dentro, tinge a pele de um fosco fulo: é quase raça; luto levado toda a vida e que a vida empoeira e desgasta. E mesmo o urubu que ali exerce, negro tão puro noutras praças, quando no sertão usa a batina negra-fouveiro, pardavasca. Tecendo a Manhã João Cabral de Melo Neto 1. Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos. 2. E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação.
  • 14. 14 A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão. A educação pela pedra João Cabral de Melo Neto Uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, freqüentá-la; captar sua voz inenfática, impessoal (pela de dicção ela começa as aulas). A lição de moral, sua resistência fria ao que flui e a fluir, a ser maleada; a de economia, seu adensar-se compacta: lições de pedra (de fora para dentro, cartilha muda), para quem soletrá-la. Outra educação pela pedra: no Sertão (de dentro para fora, e pré-didática). No Sertão a pedra não sabe lecionar, e se lecionasse não ensinaria nada; lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma. Num monumento à Aspirina João Cabral de Melo Neto Claramente: o mais prático dos sóis, o sol de um comprimido de aspirina: de emprego fácil, portátil e barato, compacto de sol na lápide sucinta. Principalmente porque, sol artificial, que nada limita a funcionar de dia, que a noite não expulsa, cada noite, sol imune às leis de meteorologia, a toda a hora em que se necessita dele levanta e vem (sempre num claro dia): acende, para secar a aniagem da alma, quará-la, em linhos de um meio-dia... O sertanejo falando João Cabral de Melo Neto 1 "A fala a nível do sertanejo engana: as palavras dele vêm, como rebuçadas (palavras confeito, pílula), na glace de uma entonação lisa, de adocicada. Enquanto que sob ela, dura e endurece o caroço de pedra, a amêndoa pétrea, dessa árvore pedrenta (o sertanejo) incapaz de não se expressar em pedra
  • 15. 15 2 Daí porque o sertanejo fala pouco: as palavras de pedra ulceram a boca e no idioma pedra se fala doloroso: o natural desse idioma fala à força. Daí também porque ele fala devagar: tem de pegar as palavras com cuidado, confeitá-las na língua, rebuçá-las; pois toma tempo todo esse trabalho." Cartão de Natal João Cabral de Melo Neto Pois que reinaugurando essa criança pensam os homens reinaugurar a sua vida e começar novo caderno, fresco como o pão do dia; pois que nestes dias a aventura parece em ponto de vôo, e parece que vão enfim poder explodir suas sementes: que desta vez não perca esse caderno sua atração núbil para o dente; que o entusiasmo conserve vivas suas molas, e possa enfim o ferro comer a ferrugem o sim comer o não. O Ovo de Galinha João Cabral de Melo Neto I Ao olho mostra a integridade de uma coisa num bloco, um ovo. Numa só matéria, unitária, maciçamente ovo, num todo. Sem possuir um dentro e um fora, tal como as pedras, sem miolo: é só miolo: o dentro e o fora integralmente no contorno. No entanto, se ao olho se mostra unânime em si mesmo, um ovo, a mão que o sopesa descobre que nele há algo suspeitoso: que seu peso não é o das pedras, inanimado, frio, goro; que o seu é um peso morno, túmido, um peso que é vivo e não morto.
  • 16. 16 II O ovo revela o acabamento a toda mão que o acaricia, daquelas coisas torneadas num trabalho de toda a vida. E que se encontra também noutras que entretanto mão não fabrica: nos corais, nos seixos rolados e em tantas coisas esculpidas cujas formas simples são obra de mil inacabáveis lixas usadas por mãos escultoras escondidas na água, na brisa. No entretanto, o ovo, e apesar de pura forma concluída, não se situa no final: está no ponto de partida. III A presença de qualquer ovo, até se a mão não lhe faz nada, possui o dom de provocar certa reserva em qualquer sala. O que é difícil de entender se se pensa na forma clara que tem um ovo, e na franqueza de sua parede caiada. A reserva que um ovo inspira é de espécie bastante rara: é a que se sente ante um revólver e não se sente ante uma bala. É a que se sente ante essas coisas que conservando outras guardadas ameaçam mais com disparar do que com a coisa que disparam. IV Na manipulação de um ovo um ritual sempre se observa: há um jeito recolhido e meio religioso em quem o leva. Se pode pretender que o jeito de quem qualquer ovo carrega vem da atenção normal de quem conduz uma coisa repleta. O ovo porém está fechado em sua arquitetura hermética e quem o carrega, sabendo-o, prossegue na atitude regra:
  • 17. 17 procede ainda da maneira entre medrosa e circunspeta, quase beata, de quem tem nas mãos a chama de uma vela. A Carlos Drummond de Andrade João Cabral de Melo Neto Não há guarda-chuva contra o poema subindo de regiões onde tudo é surpresa como uma flor mesmo num canteiro. Não há guarda-chuva contra o amor que mastiga e cospe como qualquer boca, que tritura como um desastre. Não há guarda-chuva contra o tédio: o tédio das quatro paredes, das quatro estações, dos quatro pontos cardeais. Não há guarda-chuva contra o mundo cada dia devorado nos jornais sob as espécies de papel e tinta. Não há guarda-chuva contra o tempo, rio fluindo sob a casa, correnteza carregando os dias, os cabelos. Poema(s) da Cabra João Cabral de Melo Neto Nas margens do Mediterrâneo não se vê um palmo de terra que a terra tivesse esquecido de fazer converter em pedra. Nas margens do Mediterrâneo Não se vê um palmo de pedra que a pedra tivesse esquecido de ocupar com sua fera. Ali, onde nenhuma linha pode lembrar, porque mais doce, o que até chega a parecer suave serra de uma foice, não se vê um palmo de terra por mais pedra ou fera que seja,
  • 18. 18 que a cabra não tenha ocupado com sua planta fibrosa e negra. 1 A cabra é negra. Mas seu negro não é o negro do ébano douto (que é quase azul) ou o negro rico do jacarandá (mais bem roxo). O negro da cabra é o negro do preto, do pobre, do pouco. Negro da poeira, que é cinzento. Negro da ferrugem, que é fosco. Negro do feio, às vezes branco. Ou o negro do pardo, que é pardo. disso que não chega a ter cor ou perdeu toda cor no gasto. É o negro da segunda classe. Do inferior (que é sempre opaco). Disso que não pode ter cor porque em negro sai mais barato. 2 Se o negro quer dizer noturno o negro da cabra é solar. Não é o da cabra o negro noite. É o negro de sol. Luminar. Será o negro do queimado mais que o negro da escuridão. Negra é do sol que acumulou. É o negro mais bem do carvão. Não é o negro do macabro. Negro funeral. Nem do luto. Tampouco é o negro do mistério, de braços cruzados, eunuco. É mesmo o negro do carvão. O negro da hulha. Do coque. Negro que pode haver na pólvora: negro de vida, não de morte. 3 O negro da cabra é o negro da natureza dela cabra. Mesmo dessa que não é negra, como a do Moxotó, que é clara. O negro é o duro que há no fundo da cabra. De seu natural. Tal no fundo da terra há pedra, no fundo da pedra, metal.
  • 19. 19 O negro é o duro que há no fundo da natureza sem orvalho que é a da cabra, esse animal sem folhas, só raiz e talo, que é a da cabra, esse animal de alma-caroço, de alma córnea, sem moelas, úmidos, lábios, pão sem miolo, apenas côdea. 4 Quem já encontrou uma cabra que tivesse ritmos domésticos? O grosso derrame do porco, da vaca, do sono e de tédio? Quem encontrou cabra que fosse animal de sociedade? Tal o cão, o gato, o cavalo, diletos do homem e da arte? A cabra guarda todo o arisco, rebelde, do animal selvagem, viva demais que é para ser animal dos de luxo ou pajem. Viva demais para não ser, quando colaboracionista, o reduzido irredutível, o inconformado conformista. 5 A cabra é o melhor instrumento de verrumar a terra magra. Por dentro da serra e da seca não chega onde chega a cabra. Se a serra é terra, a cabra é pedra. Se a serra é pedra, é pedernal. Sua boca é sempre mais dura que a serra, não importa qual. A cabra tem o dente frio, a insolência do que mastiga. Por isso o homem vive da cabra mas sempre a vê como inimiga. Por isso quem vive da cabra e não é capaz do seu braço desconfia sempre da cabra: diz que tem parte com o Diabo. 6 Não é pelo vício da pedra, por preferir a pedra à folha. É que a cabra é expulsa do verde, trancada do lado de fora.
  • 20. 20 A cabra é trancada por dentro. Condenada à caatinga seca. Liberta, no vasto sem nada, proibida, na verdura estreita. Leva no pescoço uma canga que a impede de furar as cercas. Leva os muros do próprio cárcere: prisioneira e carcereira. Liberdade de fome e sede da ambulante prisioneira. Não é que ela busque o difícil: é que a sabem capaz de pedra. 7 A vida da cabra não deixa lazer para ser fina ou lírica (tal o urubu, que em doces linhas voa à procura da carniça). Vive a cabra contra a pendente, sem os êxtases das decidas. Viver para a cabra não é re-ruminar-se introspectiva. É, literalmente, cavar a vida sob a superfície, que a cabra, proibida de folhas, tem de desentranhar raízes. Eis porque é a cabra grosseira, de mãos ásperas, realista. Eis porque, mesmo ruminando, não é jamais contemplativa. 8 O núcleo de cabra é visível por debaixo de muitas coisas. Com a natureza da cabra outras aprendem sua crosta. Um núcleo de cabra é visível em certos atributos roucos que têm as coisas obrigadas a fazer de seu corpo couro. A fazer de seu couro sola, a armar-se em couraças, escamas: como se dá com certas coisas e muitas condições humanas. Os jumentos são animais que muito aprenderam com a cabra. O nordestino, convivendo-a, fez-se de sua mesma casta.
  • 21. 21 9 O núcleo de cabra é visível debaixo do homem do Nordeste. Da cabra lhe vem o escarpado e o estofo nervudo que o enche. Se adivinha o núcleo de cabra no jeito de existir, Cardozo, que reponta sob seu gesto como esqueleto sob o corpo. E é outra ossatura mais forte que o esqueleto comum, de todos; debaixo do próprio esqueleto, no fundo centro de seus ossos. A cabra deu ao nordestino esse esqueleto mais de dentro: o aço do osso, que resiste quando o osso perde seu cimento. * O Mediterrâneo é mar clássico, com águas de mármore azul. Em nada me lembra das águas sem marca do rio Pajeú. As ondas do Mediterrâneo estão no mármore traçadas. Nos rios do Sertão, se existe, a água corre despenteada. As margens do Mediterrâneo parecem deserto balcão. Deserto, mas de terras nobres não da piçarra do Sertão. Mas não minto o Mediterrâneo nem sua atmosfera maior descrevendo-lhe as cabras negras em termos da do Moxotó. ©Protegido pela Lei do Direito Autoral LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998 Permitido o uso apenas para fins educacionais. Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, modificado e que as informações sejam mantidas.

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