Cassiano2

Loading...

Flash Player 9 (or above) is needed to view presentations.
We have detected that you do not have it on your computer. To install it, go here.

0 comments

Post a comment

    Post a comment
    Embed Video
    Edit your comment Cancel

    Favorites, Groups & Events

    Cassiano2 - Presentation Transcript

    1. Cassiano Ricardo : A modernidade lírica da poesia "Toda arte fala; mas a poesia é a única que fala a linguagem das palavras." Em Textos Escolhidos, uma análise da obra do poeta Cassiano Ricardo. ( Leia completo) Índice : Pág. 01 – Cassiano Ricardo, um poeta do século XX, por Geraldo Affonso Pimentel Pereira de Araújo Pág. 02 – Poemas Pág. 03 - Poesia e Expressão da Linguagem, por Patrícia de Ávila Vechiatto Pág. 04 - Obras CASSIANO RICARDO, UM POETA DO SÉCULO XX Geraldo Affonso Pimentel Pereira de Araujo Resumo: Um breve estudo crítico sobre a vida e obra do poeta Cassiano Ricardo CASSIANO RICARDO , UM POETA DO SÉCULO XX Geraldo Affonso No recente fim de século e de milênio , os meios de comunicação procuraram apontar tanto aqui em nossa pátria como alhures as personalidades que se destacaram nos vários segmentos das manifestações que integram o universo cultural . Dentro dessa perspectiva eu também questionaria qual teria sido a grande, a maior personalidade poética brasileira do século XX. Evidentemente que numa rápida lembrança , alguns nomes sufragados pela mídia e pela divulgação de suas obras surgiriam de pronto . Assim, de acordo com a preferência dos leitores ou dos críticos , nomes como os de Carlos Drummond de Andrade , Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes , ou ainda recuando aos primórdios do século para incluir o parnasiano Olavo Bilac , qualquer um deles poderia ser apontado como o Poeta Brasileiro do Século e com todos os louvores, porque possuem indiscutível valor literário. Por esse Brasil a fora , quantos outros poetas também de indiscutível valor poderiam fazer parte dessa plêiade de privilegiados , se houvessem conseguido furar o bloqueio da obscuridade . Talvez centenas , pois não há cidade brasileira que não tenha o ser versejador e, sem dúvida, muitos de talento igual ou até melhor do que o de alguns que alcançaram a notoriedade. Até mesmo entre os poetas do meu cantinho de Minas Gerais, Ouro Fino , pelo menos, os nomes de Maurício de Moraes e Rui Apocalypse poderiam com toda justiça figurar em qualquer listagem de grandes poetas do século , se também houvessem conseguido penetrar no fechado círculo das igrejas literárias , das grandes editoras ou das badalações da crítica . A poesia é uma arte que toca a sensibilidade do leitor e, na verdade, cada um de nós a sente de modo particular , ou seja, de acordo com a nossa própria sensibilidade . Assim. a tarefa de se apontar o melhor, o poeta do século , não é coisa das mais fáceis , pois o melhor para uns já não o será para outros. Levando-se em consideração essa dificuldade, entre os poetas brasileiros do século XX eu situaria o paulista Cassiano Ricardo , não como o melhor , pois não me atreveria a apontar um apenas entre tantos outros que apresentaram obras memoráveis, mas como aquele que mais atingiu a minha sensibilidade de leitor . Justifico analisando alguns trechos de Cassiano e fazendo alguns breves comentários sobre a obra do grande poeta brasileiro. Nascido em São José dos Campos em 1895, Cassiano muito cedo iniciou sua trajetória literária e , sem dúvida , foi o poeta brasileiro que viveu com mais intensidade as várias tendências da arte literária do século XX , mostrando através de sua obra, impressionante capacidade de renovação estético-artesanal que somente cessaria com sua morte , já em 1974 . A obra de Cassiano revela em suas várias fases uma posição de completo engajamento, de verdadeiro comprometimento com o seu tempo. Seu verso nunca envelheceu, acompanhou o poeta pela vida inteira e refletiu suas tendências políticas, suas preocupações humanísticas, seu patriotismo , por vezes sua descrença , seu temor com a possibilidade de uma catástrofe nuclear , seu protesto . Já em 1915 o jovem Cassiano iniciava sua trajetória poética dando a lume sua obra vestibular, "Dentro da Noite" , um requintado exercício de parnasianismo, tendência poética então predominante . Sua segunda obra, "A Flauta de Pã" http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    2. ainda inserida nos cânones parnasianos , demonstraria uma vez mais um jovem primoroso na lapidação poética , característica primordial do referido estilo . Com o advento do modernismo e da polêmica que caracterizaria seus primeiros passos , Cassiano engajou-se entre os que propugnavam por uma estética autenticamente brasileira, formando com Menotti Del Picchia, Plínio Salgado, Cândido Mota Filho e Raul Bopp o chamado "Grupo da Anta", que exaltava a terra e a nacionalidade. Pertencem a essa tendência nacionalista suas obras da segunda década do século, "Borrões de Verde e Amarelo", "Vamos Caçar Papagaios" e "Martim Cererê" . No entanto, suas obras da maturidade , tais como "Arranha-céu de Vidro", "Jeremias Sem Chorar" e "João Torto e a Fábula" correspondem à fase em que o poeta justifica sua arte através de um constante aprimoramento estético- artesanal que o insere como o poeta brasileiro que mais renovou a forma de sua expressão artística. A preocupação com a sobrevivência da espécie humana ante a perspectiva de uma catástrofe nuclear, uma postura crítica em face de um mundo cada vez mais mecanizado, mais subordinado às máquinas em detrimento da inocência, da pureza, do lírico, do poético , são as temáticas predominantes dessa fase , sem dúvida, a principal da obra de Cassiano. E toda essa ebulição criativa desenvolvida num espírito altamente inquisitivo fez com que o poeta paulista possa ser apontado como aquele que mais encarnou o modernismo em sua longa trajetória literária. O fator, sem dúvida, que mais caracteriza suas produções reside, a meu ver, em sua contemporaneidade. Entre os grandes poetas brasileiros do século século XX , não conheço nenhum outro que tenha produzido uma obra tão contemporânea, tão inserida na temática de seu tempo como Cassiano Ricardo . Sua preocupação com a modernidade não se revela apenas nos temas ou na forma de seus poemas, sempre inovadores, como também no próprio vocabulário utilizado. Palavras ou expressões que , a princípio, possam ser consideradas apoéticas , tais como "chuva radioativa", "bomba de hidrogênio" "nylon" ‘lágrimas elétricas" , "laboratório de física anti- celeste" , "rádio-ouvinte" , mostravam-se corriqueiras na poética de Cassiano Ricardo, cumprido observar ainda que adquirem incrível conotação lírica . Na elaboração de seus recursos estético-artesanais Cassiano mostra uma criatividade ilimitada. Em seu poema "Viagem em Círculo", por exemplo, inserido em seu livro "Geremias Sem Chorar" , o tema é a esperança de se encontrar a saída, a salvação para a humanidade que gira desnorteada e Cassiano procura atingir seu objetivo criando um texto em que predomina a idéia giratória , como bem se demonstra no trecho transcrito abaixo: a esperança me o- briga a caminhar em círculo em tor- no do globo em tor- no de mim mesmo em torno de uma mesa de jogO até que o zodíaco pára e a noite cos- tura-me a boca a retrós preto/mas eu fico impresso no olhar do dia obsoletO Neste pequeno trecho de seu poema , podemos identificar vários recursos em que o poeta procura atingir seu objetivo de mostrar a idéia de círculo , seja na utilização de expressões semanticamente circulares , ou mesmo no enriquecimento gráfico visual de certas palavras , tais como, "jogO", "obsoletO" . Vale acentuar que no livro "Geremias Sem Chorar", o poeta procura situar o homem, ser infinitamente sensível e seu confinamento num mundo cada vez mais insensível e cada vez mais mecanizado. E o poeta acena com uma saída, uma válvula de escape para o lírico, para o poético, para o humano, partindo de um recurso simples: a humanização da máquina, como se revela num trecho do poema "O Urso e as Crianças": "Recurso - entrarei num urso oco por dentro azul por fora. E caminharei no seu bojo pela rua -urso automático." De prodigiosa estatura; com seus 20 metros de altura. E sem que ninguém o saiba, quero me aplaudam supondo que estão aplaudindo o urso. Suas múltiplas originalidades formais patenteiam-se em quase toda sua obra, principalmente nos livros "Arranha-céu de Vidro", "João Torto e a Fábula e "Jeremias Sem Chorar . Como exemplo , podemos mencionar o efeito conseguido pelo poeta ao criar a palavra "ätlasmundipluricolor" que, dentro do contexto poético adquire admirável expressividade conotativa, como bem prova o trecho transcrito: http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    3. "E estendendo sobre a mesa o atlasmundipluricolor, todo azul e coral, onde as ilhas se reúnem salpicadas em várias línguas, como num vitral" Em grande parte de sua vida Cassiano Ricardo vivenciou um mundo ideologicamente beligerante, em que a tônica da então chamada guerra fria era a ameaça de um catástrofe nuclear e esse conflito ideológico ressoou em sua sensibilidade , fazendo eco em parte considerável de sua obra . Cassiano mostrou-se profundamente preocupado com divisão ideológica do mundo de seu tempo e sua poesia procurou demonstrar a estupidez das ameaças de guerra , principalmente com a utilização de armas nucleares, como se constata no exemplo abaixo: "Ó loucos dos dois hemisférios, por que a bomba atômica se ninguém tem culpa , se há crianças no mundo?" No entanto, ao fechar seu excelente livro "João Torto e Fábula" com o poema "Jornal Falado", o poeta faz o mais explícito dos vaticínios da paz e concórdia universal , ao dizer : "De uma simples flauta sairá mais que a bomba de hidrogênio Muito mais que o cavalo alvo do Apocalipese Muito mais que um eclipse do sol e da lua. Muito mais que uma estrela voadora, sem alvo. Saírá o mínimo de ternura de que o mundo precisa para ser salvo. Cassiano Ricardo não viveu o suficiente para ver a queda do Muro de Berlim, marco do abrandamento da batalha ideológica que caracterizou o tempo em que viveu e que tanto impregnou sua poesia . Embora reconhecido como um dos principais poetas de nosso século , não foram muitos os estudiosos e críticos da arte literária que se aventuraram a um estudo mais aprofundado de sua obra poética , valendo observar ainda que seu nome também não se situa entre os mais conhecidos de nossa literatura . A primeira vista, ou numa primeira leitura , sua poesia pode parecer um tanto hermética ou intelectualizada , porém essa impressão se desfaz à medida que o leitor vai se familiarizando e se emocionando com o sentido profundamente humanístico de sua obra. Como afirmei no início desse modestíssimo trabalho , não posso apontar quem seja o melhor poeta brasileiro do século XX , posso, isto sim, apontar entre aqueles que mais tocaram minha sensibilidade o nome de Cassiano Ricardo , sem dúvida, um dos grandes que está a merecer um lugar de maior destaque entre os cultores da arte das palavras que enfeitam a vida. Bibliografia: Cassiano Ricardo - "João Torto e a Fácula", Liv. José Olimpio Editora, Rio, 1956. Cassiano Ricardo- "Poesias Completas, Liv. José olimpio Editora, Rio, 1957. Cassiano Ricardo - "Jeremias sem Chorar", Livraria José Olimpio Editora, 2ª Ed. 1968; Marques, Oswaldino - "Laboratório Poético de Cassiano Ricardo", Civilização Brasileira, 1962, Rio de Janeiro. Biografia: Geraldo Affonso é professor,radialista, advogado e membro da Academia Ouro-finense de Letras e Artes. Apresenta aos sábados, a partir de meio-dia e meia na Rádio Difusora Ouro Fino um programa de entrevistas, voltado, principalmente, para a cultura, que pode ser ouvido pela Internet no site www.difusoraourofino.com.br ( Fonte : http://www.komedi.com.br/escrita/leitura.asp?Texto_ID=1076) Poemas http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    4. 1) Poética 1 Que é a Poesia? uma ilha cercada de palavras pro todos os lados. 2 Que é o Poeta? um homem que trabalha com o suor do seu rosto. Um homem que tem fome como qualquer outro homem. 2) O RELÓGIO Diante de coisa tão doída Conservemo-nos serenos Cada minuto de vida Nunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma face Do não ser, e não do ser Desde o instante em que se nasce Já se começa a morrer. 3) Viajam as palavras Passageiros, formo como que um diagrama entre o céu tremido e o jornal que a trepidação do trem sacode em minhas mãos. A paisagem me vem oferecer seus buquês roxos e cor de ouro mas foge, arrependida. Vistos, de longe, de passagem, todos os rostos são amigos, são iguais. Só que depois, em minha memória, que estará rolando ainda esta paisagem impressa em mim, à minha saudade como um quadro à parede. O possível desastre faz cantar, como uma carretilha ao meu ouvido, o pássaro do adeus. O trem de ferro desloca o sentido das coisas. Viajam as palavras.Cassiano Ricardo Em "O sangue das horas" http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    5. 4) Ficaram-me as penas O pássaro fugiu, ficaram-me as penas da sua asa, nas mãos encantadas. Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas. Uma lembrança e outros pequenos nadas. Passou o vento mau, entre açucenas, deixou-me só corolas arrancadas... Despedem-se de mim glorias terrenas. Fica-me aos pés a poeira das estradas. A água correu veloz, fica-me a espuma. Só o tempo não me deixa coisa alguma até que da própria alma me despoje! Desfolhados os últimos segredos, quero agarrar a vida, que me foge, vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos. 5) Rotação a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina de novo a esperança na esfera a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina uma nova esperança na esfera a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina uma nova esperança na esfera 6) A física do susto O espelho caiu a parede. Caiu com ele o meu rosto. Com o meu rosto a minha sede. Com a minha sede meu desgosto. http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    6. O meu desgosto de olhar, no espelho caído, o meu rosto. 7) Os nomes dados a terra descoberta Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome de ilha de Vera-Cruz. Ilha cheia de graça Ilha cheia de pássaros Ilha cheia de luz. Ilha verde onde havia mulheres morenas e nuas anhangás a sonhar com histórias de luas e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés. Depois mudaram-lhe o nome pra terra de Santa Cruz. Terra cheia de graça Terra cheia de pássaros Terra cheia de luz. A grande terra girassol onde havia guerreiros de tanga e onças ruivas deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol Mas como houvesse em abundância, certa madeira cor de sangue, cor de brasa e como o fogo da manhã selvagem fosse um brasido no carvão noturno da paisagem, e como a Terra fosse de árvores vermelhas e se houvesse mostrado assaz gentil, deram-lhe o nome de Brasil. Brasil cheio de graça Brasil cheio de pássaros Brasil cheio de luz. 8) Papagaio Gaio Papagaio insensato, que te fêz assim? Que não sabes falar brasileiro e já sabes latim? Papagaio insensato, ave agreste, do mato, que diabo em ti existe, verde-gaio, que nunca estás triste? Papagaio do mato, se nunca estás triste, quem foi que te ensinou, por maldade, http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    7. a palavra saudade? Papagaio triste, papagaio gaio, quem te fêz tão triste e tão gaio, triste mas verde-gaio? Papagaio gaio, quem te ensinou, em mais do mato, a repetir, papagaio, tanto nome feio? Gaio papagaio, gaio, gaio, gaio, que repetes tudo... Antes fosses um pássaro mundo. Papagaio do mato, se nunca estás triste, quem foi que te ensinou, por maldade, a palavra saudade? Papagaio gaio. Gaio, gaio, gaio. 9) Coroa mural Muro que hoje separa os homens em passado e futuro, que divide, agora, o coração em dois: em oriente e ocidente. Divide o sol em dois: em dois mistérios. Divide o mundo em dois: em dois hemisférios, Ou em dois cemitérios? No labirinto do desentendimento humano o anjo rebelde se debate em busca de uma saída. E ao mesmo tempo, é expulso de uma cor para outra, deixando os pés escritos em areia e neve, na rude geografia das injustiças. (Só a dor e as estrelas são universais). http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    8. Mas, como destruí-lo? Com as velhas trombetas de Jericó, já douradas de pó? Recolocando, no ar, em seu lugar, agora o novo arco celeste de uma ponte pênsil? Ou com a lira em flor Que Anfião tocou em Tebas? Anfião, a quem possam as pedras transformar-se, de novo, em pássaros? Ou com o sol de hidrogênio e só pelo consolo de morrermos, todos, — todos, ao mesmo tempo — e, assim, um ser irmão do outro, por prêmio? Ah! o herói obscuro a quem — todos — pudéssemos. os que sofremos dentro e fora do muro; de um só mal, todos presa, ofertar, toda em ouro, a coroa mural, Igual à que os romanos, num afresco antigo, estão oferecendo, sob um céu de turquesa, ao primeiro soldado que escalou a muralha de uma fortaleza. O dia é geográfico A noite é universal. Mas, se Deus ouvir rádio, esteja onde estiver, ouvirá o meu grito: por que a noite nos une e o dia nos separa? 10) Canção para poder viver Dou-lhe tudo do que como, e ela me exige o último gomo. Dou-lhe a roupa com que me visto e ela me interroga: só isto? Se ela se fere num espinho, O meu sangue é que é o seu vinho. Se ela tem sede eu é que choro, no deserto, para lhe dar água: http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    9. E ela mata a sua sede, já no copo de minha mágoa Dou-lhe o meu canto louco; faço um pouco mais do que ser louco. E ela me exige bis, "ao palco"! 11) A rua Bem sei que, muitas vezes, O único remédio É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem, A dívida, o divertimento, O pedido de emprego, ou a própria alegria. A esperança é também uma forma De continuo adiamento. Sei que é preciso prestigiar a esperança, Numa sala de espera. Mas sei também que espera significa luta e não, apenas, Esperança sentada. Não abdicação diante da vida. A esperança Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera. Nunca é figura de mulher Do quadro antigo. Sentada, dando milho aos pombos. 12) O acusado Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia De chorar, me vinham de outros olhos. Já o sangue que caminha em minhas veias pro futuro Era um rio. Quando eu nasci já as estrelas estavam em seus lugares Definitivamente Sem que eu lhes pudesse, ao menos, pedir que influíssem Desta ou daquela forma, em meu destino. Eu era o irmão de tudo: ainda agora sinto a nostalgia Do azul severo, dramático e unânime. Sal — parentesco da água do oceano com a dos meus olhos, Na explicação da minha origem. Quando eu nasci, já havia o signo do zodíaco. Só, o meu rosto, este meu frágil rosto é que não Quando eu nasci. Este rosto que é meti, mas não por causa dos retratos Ou dos espelhos. http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    10. Este rosto que é meu, porque é nele Que o destino me dói como uma bofetada. Porque nele estou nu, originalmente. Porque tudo o que faço se parece comigo. Porque é com ele que entro no espetáculo. Porque os pássaros fogem de mim, se o descubro Ou vêm pousar em mim quando eu o escondo. 13) Desejo As coisas que não conseguem morrer Só por isso são chamadas eternas. As estrelas, dolorosas lanternas Que não sabem o que é deixar de ser. Ó força incognoscível que governas O meu querer, como o meu não-querer. Quisera estar entre as simples luzernas Que morrem no primeiro entardecer. Ser deus — e não as coisas mais ditosas Quanto mais breves, como são as rosas É não sonhar, é nada mais obter. Ó alegria dourada de o não ser Entre as coisas que são, e as nebulosas, Que não conseguiu dormir nem morrer. 14) A outra vida Não espero outra vida, depois desta. Se esta é má Por que não bastará aos deuses, já, A pena que sofri? Se é boa a vida, deixará de o ser, Repetida. 15) Espaço lírico Não amo o espaço que o meu corpo ocupa Num jardim público, num estribo de bonde. Mas o espaço que mora em mim, luz interior. Um espaço que é meu como uma flor Que me nasceu por dentro, entre paredes. Nutrido à custa de secretas sedes. Que é a forma? Não o simples adorno. Não o corpo habitando o espaço, mas o espaço Dentro do meu perfil, do meu contorno. Que haja em mim um chão vivo em cada passo (mesmo nas horas mais obscuras) para Que eu possa amar a todas as criaturas. Morte: retorno ao incriado. Espaço: http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    11. Virgindade do tempo em campo verde. 16) VIAGEM EM CÍRCULO (REPETIÇÃO) a esperança me o- briga a caminhar em círculo em tor- no do globo em tor- no de mim mesmo em torno de uma mesa de jogO até que o zodíaco pára e a noite cos- tura-me a boca a retrós preto/ mas eu fico impresso no olho do dia o- bsoletO viagem em círculo sem ida nem venida sem nenhuma aveni- da/ adeus com a mão esquerda/ amanhã recomeçO entre e um e outro julho entre um e outro crepúsculo a cidade que busco como hei de encon- trá-la/ ouço-lhe a fala mas estou na outra sala/ amanhã recomeçO a esperança é um círculo no zodía- co na ciranda na roleta na rosa do circo na roda do moinho amanhã recomeçO em que lado do glo- bo terá cessado o diálogo da ovelha e do lobO ? 17) LADAINHA Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso. Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    12. corporal? Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por nós. Por que labutar no campo, na cidade? A máquina o fará por nós. Por que pensar, imaginar? A máquina o fará por nós. Por que fazer um poema? A máquina o fará por nós. Por que subir a escada de Jacó? A máquina o fará por nós. Ó máquina, orai por nós. 18) Sala de Espera (Ah, os rostos sentados numa sala de espera. Um "Diário Oficial" sobre a mesa. Uma jarra com flores. A xícara de café, que o contínuo vem, amável, servir aos que esperam a audiência [marcada. Os retratos em cor, na parede, dos homens ilustres que exerceram, já em remotas épocas, o manso ofício de fazer esperar com esperança. E uma resposta, que será sempre a mesma: só amanhã. E os quase eternos amanhãs daqueles rostos sempre [adiados e sentados numa sala de espera.) Mas eu prefiro é a rua. A rua em seu sentido usual de "lá fora". Em seu oceano que é ter bocas e pés para exigir e para caminhar. A rua onde todos se reúnem num só ninguém coletivo. Rua do homem como deve ser: transeunte, republicano, universal. Onde cada um de nós é um pouco mais dos outros do que de si mesmo. Rua da procissão, do comício, do desastre, do enterro. Rua da reivindicação social, onde mora o Acontecimento. A rua! uma aula de esperança ao ar livre. Publicado no livro Um dia depois do outro, 1944/1946 (1947). In: RICARDO, Cassiano. Poesias completas. Pref. Tristão de Athayde. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. p.263-26 19) Morte em Câmara de Gás 1 Tão certa a morte que inútil marcar-lhe http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    13. uma hora exata. Gosto da lei em ser exata não apenas certa. Nenhuma razão pra tanto amor ao relógio, ao necrológio. A data é que lhe põe (felina) uma gota de fel em cada minuto. E o mata com uma lentidão de faca. A justiça, olhos fechados como os da noite. A câmara de gás talvez menos vil se à noite. Na cela em que o condenado dorme sem data olhos fechados como os da justiça. 2 Ao carr'asco se evitaria o asco do seu nome. In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.67-68. Poema integrante da série Xilogravuras "O tocador de clarineta": Quando ouvires o pássaro Cantar em frente do teu quarto, Naturalmente em vão, não penses que sou eu que aí vim tocar, não. Quando o vento disser, ao teu ouvido de mulher uma palavra branca e fria como a cerração, não penses que o vento fui eu, não. Quando receberes uma carta anônima, trazida por secreta mão - quem será que assim me acusa? - eu é que não serei, não. http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    14. Quando ouvires, porém, no escuro, a goteira caindo sobre o triste chão, aí, então, serei eu que estou batendo na pedra do teu coração. Poesia e Expressão da Linguagem Patrícia de Ávila Vechiatto A Palavra como Instrumento na Poesia de Cassiano Ricardo "Toda arte fala; mas a poesia é a única que fala a linguagem das palavras." (Cassiano Ricardo, 1966: 15). Esta frase expressa a síntese da filosofia adotada por Cassiano Ricardo para compor os seus poemas. Fundamentando-se nos postulados teóricos da estética praxista, Cassiano Ricardo empenhou-se na busca de novas soluções estilísticas, emergentes das concepções de mundo por ele depreendidas, cujo tempo histórico retrata a era da tecnologia, da informática, dos novos experimentos científicos; enfim, utilizando os termos de Nelly Novaes Coelho, o "mundo da bomba atômica", em que somos sobreviventes e espectadores desse cenário turbulento. O estudo da linguagem ricardiana permite afirmar que este poeta poderia ser designado como o "poeta da palavra", uma vez que trata os signos lingüísticos como se fossem peças de um brinquedo que ele monta, desmonta e remonta, criando assim novos brinquedos que, desse modo, exercerão uma nova função dentro do contexto em que estão inseridos. É dessa maneira que Cassiano Ricardo trabalha com a palavra: através do desmembramento de um vocábulo, ele cria outros que, por sua vez, constituem um novo código lingüístico, matéria-prima da mensagem transmitida em seus poemas. Assim sendo, as palavras sofrem um processo que poderíamos denominar de "sanfona", uma vez que são distendidas, contraídas, alargadas, comprimidas, causando várias rupturas na sua estrutura interna, cujas conseqüências serão determinantes na formação de novos campos semânticos dentro do corpo do texto poético. Toda essa "plasticidade" vocabular deixa transparecer o modo como Cassiano Ricardo explora as palavras em seus âmbitos semântico, sintático, fonético e, até mesmo, gráfico. Os espaços em branco estabelecidos entre as palavras e versos (ou melhor, plurissignos como são denominados pelo poeta), funcionam como um retoque final no acabamento de seus textos. Utilizando as palavras de Cassiano Ricardo, "a dialética do espaço em branco com o em preto, dá ao poema uma fisionomia peculiar que o destaca imediatamente da prosa, que não tem essa preocupação." (Cassiano Ricardo, 1966: 9). Em seus poemas os espaços em branco passam a ter uma outra conotação: aqui, a página em branco não é um simples pedaço de papel utilizado pelo poeta para escrever o seu texto. Os trechos em branco passam a interagir com os sinais gráficos nele impressos e, juntos, constróem a significação do poema. Mais do que isso, os espaços não preenchidos da folha substituem as pausas e as entoações dos versos, tornando-se desnecessária uma excessiva preocupação com a pontuação e, por conseguinte, um extremo cuidado com a instauração do ritmo e da harmonia do texto poético. É como se a pontuação se substantivasse e passasse a ser determinada pelos espaços em branco que rodeiam o poema. Além disso, sob o ponto de vista da filosofia praxista, a comunicação se dá não só por meio das palavras, mas, também, e sobretudo, pelo não verbal, isto é, por intermédio de imagens. Nesse sentido, podemos considerar a palavra como o elemento essencial na construção de seus textos. É ela a responsável pela transformação da linguagem comum em linguagem poética, no momento em que estabelece uma fusão espacio-temporal com os demais elementos básicos do poema. A partir da criação de vocábulos e das inter-relações e intra-relações estabelecidas entre eles e os versos, Cassiano Ricardo constrói todo o universo semântico de seus poemas. A palavra, além de ser a matéria-prima de sua criação, é o instrumento utilizado pelo poeta para expressar seus estados da alma, extravasando, dessa forma, os seus mais íntimos sentimentos. Assim sendo, o peso e o valor da palavra dependem, e muito, do modo como esta é articulada e, principalmente, dos acréscimos de significação que o poeta lhe dá. Na poesia, a língua não é apenas um sistema orgânico do qual lançamos mão para nos expressar e comunicarmos com as http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    15. outras pessoas. Nela, a língua apresenta-se como um "ser vivo" e, como tal, possui vida, personalidade e determinadas nuanças que a tornam singular quando comparada com as demais formas de manifestações lingüísticas. Assim como todo sistema lingüístico, a linguagem poética possui um método de organização da sua estrutura interna, em que a disposição das partes, ou elementos de um todo coordenados entre si, funcionam como a base sobre a qual irá apoiar-se e constituir-se como um conjunto de signos uno e significativo. Nos poemas de Cassiano Ricardo, por exemplo, as partes são as sílabas, que formam os signos lingüísticos que, por sua vez, compõem os sintagmas responsáveis pela instauração do significado dos seus poemas. Essa é a dinâmica da estrutura poética dos textos de Cassiano Ricardo. Nos poemas ricardianos, embora as palavras sobrevivam independentes umas das outras, estão fortemente ligadas pelo contexto, pois é por meio dele que elas se unem para dar ao poema uma montagem significativa. É o contexto que determina na poesia a sua existência e, principalmente, o seu caráter durativo e "eterno". As composições poéticas de Cassiano Ricardo têm uma imagem muito forte. Cada palavra possui uma cor, um brilho, os quais contribuem para o enriquecimento "imagético" do texto poemático e, quando reunidas para a construção do poema, deixam fluir todo o seu potencial "artístico" enquanto signo lingüístico por excelência. É como se cada uma delas representasse uma "imagem" peculiar, que quando combinadas formam uma unidade monocromática totalmente (ou quase) harmônica. Poesia e pintura são duas formas de manifestação artística que caminham paralelamente e, por isso, se completam. Ambas têm em si a "imagem" como fator determinante na sua constituição. A musicalidade também é uma constante tanto no texto poético quanto na pintura, embora no primeiro se apresente de maneira mais evidente, mais transparente. Desse modo, os poemas de Cassiano Ricardo podem ser entendidos como quadros, nos quais o poeta trabalha cada detalhe com muito cuidado para não arruinar o produto final da sua obra-de-arte. Todo esse zelo em preservar o significado da criação textual pode ser notado no momento em que Cassiano manipula os signos lingüísticos, no intuito de elaborar uma nova produção poética: quando o poeta rompe com a estrutura de um vocábulo, ele presta muita atenção para recuperar a sua integridade semântica em um outro signo ou, a partir do segmento recortado, criar um novo, com um outro significado dentro do seu próprio contexto enquanto palavra e de um maior, que é o poema. Nenhum elemento, lingüístico ou não, dentro dos textos de Cassiano Ricardo são desprovidos de significado; todos executam um papel ou exercem uma função dentro contexto em que estão inseridos. Inclusive o silêncio, ou mesmo um sinal gráfico, possui uma significação no texto. É a coesão estabelecida entre os elementos gramaticais e "agramaticais" do poema que constituem e constróem a unidade semântica de seu estilo poético. Por conseguinte, a utilização de ideogramas, a distribuição estratégica das palavras na página e as imagens por elas construídas, passam a ser elementos determinantes na poesia de Cassiano Ricardo. Baseando-se nos estudos sobre teoria da linguagem de Karl Bühler, Mukarovsky esclarece que a língua possui três funções fundamentais no esquema da comunicação, a saber: a representação, a expressão e o apelo. Para o autor, este esquema está perfeito no que concerne à função comunicativa da língua, mas não à função poética, que possui como traço distintivo a função estética. "A nova função transforma o próprio signo no centro das atenções." (Mukarovsky, 1978: 161). Na função estética o signo lingüístico debruça-se sobre si mesmo, inserindo-se semanticamente na estrutura interna do poema, enfraquecendo, assim, a sua relação com a realidade. Enfraquece, mas não deixa de existir por completo, uma vez que a poesia "não se refere somente às realidades concretas, mas ao universo inteiro." (Mukarovsky, 1978: 165). Nestes termos, podemos concluir que na poesia as funções práticas da língua encontram-se subordinadas à função estética e, por seu intermédio, o fazer poético concentra-se no próprio signo. A função estética mostra-se muito presente nos poemas de Cassiano Ricardo, na medida em que a preocupação primeira do poeta encontra-se centrada na palavra. Em suas composições, o signo é o principal elemento a ser trabalhado com o intuito de proporcionar ao poema a sua significação. Como já foi mencionado anteriormente, em seus trabalhos poéticos a palavra é o núcleo semântico, sintático, morfológico e fonético em torno do qual giram os demais elementos constitutivos do poema; ela é experimentada como palavra e não como mero objeto de expressão emocional. Ela é atuante, autônoma e, sobretudo, "intransitiva". Blackmur vai ainda mais fundo nesta questão. Segundo ele, "o discurso da poesia se distingue porque nele as palavras se tornam gestos." (Todorov, 1980: 97). Na poesia, as palavras estão integradas por meio de um sistema muito mais rígido e rigoroso do que na linguagem corrente, do cotidiano. Elas se intercalam no que diz respeito às posições que ocupam no texto. Ou ainda, "as palavras, em poesia, iluminam-se com chamas recíprocas." (Todorov, 1980:99) Esse tipo de interligação vocabular se faz constante nos poemas de Cassiano Ricardo: as palavras fundem-se umas às outras formando apenas um único signo lingüístico, o qual, muitas vezes, mostra-se indissociável, tanto semanticamente quanto morficamente. http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    16. Desse modo, a interpretação, ou melhor, a decodificação da poesia de Cassiano Ricardo requer do leitor uma visão aprimorada capaz de atravessar as diversas faces lingüísticas constituintes de uma palavra a fim de desvendar, na sua mais profunda essência, os elementos que as formam e os que são formados a partir delas. O exercício poético de Cassiano Ricardo consiste, acima de tudo, em trabalhar a elasticidade da palavra no seu grau máximo, explorando de maneira intensa as suas naturezas sintática, semântica e fonética. Desse modo, a palavra integra-se no poema como um "corpo vivo", que para garantir a sua perpetuação, divide-se e multiplica-se formando novos corpos lingüísticos, porém com conotações diferentes. Em seus poemas, a palavra é o núcleo do linossigno, onde se agregam outras partículas semânticas e estéticas. Além disso, cada signo lingüístico tem em si um vocabulário próprio, o qual transmite informações de outras palavras que ocupam o mesmo espaço geométrico em que está inserido. Este processo de acoplamento de uma palavra em outra é o que dá origem às "palavras-teses e palavras antíteses cujas sínteses léxicas ficam por conta do leitor" (Cassiano Ricardo, 1966: 17). A palavra, assim, transforma-se em um instrumento utilizado pelo poeta para retratar a sua visão de e sobre o mundo; é o código por ele utilizado para traduzir os seus sentimentos e desnudar as suas emoções diante do leitor. Ela possui vida, é nervosa, auto-suficiente e criadora de outras palavras que, por sua vez, possuem um novo significado. Como nos explica Cassiano Ricardo, "no poema, a palavra é que faz nascer o espaço." Para o poeta, a poesia é vista como uma "arte sem tréguas", território onde se multiplicam sentidos (de natureza tanto externa quanto interna ao eu-lírico), por meio da desarticulação dos vocábulos que nele estão instaurados. A Estilística surge, então, como a ciência da linguagem, por meio da qual a poesia transcende o plano do individual para, agora, atingir o universal. Segundo Vinogradov, "por ela, a criação lingüística do escritor é importante, não somente como um microcosmo, mas também como um dos elos no encadeamento geral dos estilos artísticos sucessivos. Essa aproximação expulsa as obras do poeta da consciência individual e as determina num nível geral." (Vinogradov, 1978: 92). A "poesia-práxis" busca, justamente, instaurar-se em meio a esse espaço "universal" que é buscado pela linguagem do poeta. Em outros termos, a palavra não é um mero objeto de que o poeta lança mão para construir seus textos; ela é, além de tudo, o núcleo do poema práxis enquanto manifestação poética. Um dado importante que diz respeito à poesia- práxis é o vínculo que esta possui com a realidade político-social que circunda o universo de criação do poeta: a poesia, nestes termos, passa a ser um retrato dos acontecimentos sociais que fazem parte do conhecimento de mundo do artista. Todos esses fatores são determinantes na poesia de Cassiano Ricardo e reforçam a teoria de que este poeta soube entender a linguagem na sua mais profunda significação, rompendo com a horizontalidade arcaizante e formal, dando lugar a um lirismo rebelde e lúcido, marca registrada do seu fazer poético.Patrícia de Ávila Vechiatto* REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COELHO, N. N. "Cassiano Ricardo e 'Os Sobreviventes'". In: Cassiano Ricardo/Coletânea organizada por Sônia Brayner. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. (Coleção Fortuna Crítica; v. 3), pp. 276 a 287. COHEN, J. Estrutura da Linguagem Poética. 2ª ed., São Paulo: Cultrix, 1978. LEFEBRE, M. J. "Discurso Poético e Discurso da Narrativa", in: Estrutura do Discurso da Poesia e da Narrativa. Coimbra: Livraria Almedina, 1975, pp.153 a 168. LEVIN, S. R. Estruturas Lingüísticas em Poesia. São Paulo:Cultrix, 1975. MUKAROVSKY, J. "A denominação poética e a função estética da língua" e "O estruturalismo na estética e na ciência literária", in: Círculo lingüístico de Praga: estruturalismo e semiologia. Porto Alegre: Globo, 1978, pp. 159 a 166 e pp. 141 a 157. RICARDO, C. Poesia Praxis e 22. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966. RIFATERRE, M. Estilística Estrutural. São Paulo: Cultrix, 1973. TODOROV, T. "Em torno da Poesia", in: Os Gêneros do Discurso. São Paulo: Martins Fontes, 1980 (Ensino Superior), pp.95 a 125. VINOGRADOV, V.V. "As Tarefas da Estilística", in: Teoria da Literatura. Formalistas Russos. Porto Alegre: Globo, 1978, http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    17. pp. 89 a 93. Sobre a autora: Patrícia de Ávila Vechiatto é professora de Língua Portuguesa e Literatura na escola Pueri Domus, em São Paulo. Está, no momento, fazendo mestrado na USP, na área de Estilística. Nesta instituição desenvolve um projeto de pesquisa sobre a linguagem utilizada pelo poeta modernista Cassiano Ricardo na construção de seus poemas. ( Fonte : http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=49&rv=Literatura) Obras POESIA: Dentro da noite (1915); A frauta de Pã (1917); Jardim das Hespérides (1920); A mentirosa de olhos verdes (1924); Vamos caçar papagaios (1926); Borrões de verde e amarelo (1927); Martim Cererê (1928); Canções da minha ternura (1930); Deixa estar, jacaré (1931); O sangue das horas (1943); Um dia depois do outro (1947); Poemas murais (1950); A face perdida (1950); O elefante que fugiu do circo (1950); 25 sonetos (1954); O arranha-céu de vidro (1956) - Prêmio Paula Brito, 1956; João Torto e a fábula (1956); Poesias completas (1957); Montanha russa (1960) - Prêmio Carmem Dolores Barbosa, 1960; A difícil manhã (1960) - Prêmio Jaboti, 1960; Jeremias sem-chorar (1964) - Prêmio Jorge Lima, 1965; Poemas escolhidos (1965); O Sobreviventes (1971). PROSA O Brasil no original (1936) O negro da bandeira (1938), in Revista do Arquivo Municipal de São Paulo; Elogio de Paulo Setúbal - Discurso de Posse na Academia Brasileira de Letras (1938); Pedro Luís visto pelos modernos (1939), in Revista da ABL; Pedro Luís, precursor de Castro Alves (1939), in Revista da ABL; A Academia e a poesia moderna (1939); Marcha para Oeste (1940); A Academia e a Língua Portuguesa (1941), in Revista da ABL; A poesia na técnica do romance (1953); O tratado de Petrópolis (1954); Gonçalves Dias e o Indianismo (1956), in A Literatura no Brasil; O homem cordial (e outros pequenos estudos brasileiros) (1959); Pequeno ensaio de bandeirologia (1959); 22 e a poesia de hoje (1962); Algumas reflexões sobre a poética de vanguarda (1964); O Indianismo de Gonçalves Dias (1964); Poesia Praxis e 22 (1966); Viagem no tempo e espaço (memórias) (1970); http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros Powered by Mambo Generated: 21 July, 2009, 16:52
    SlideShare Zeitgeist 2009

    + Edgar ArrudaEdgar Arruda Nominate

    custom

    63 views, 0 favs, 0 embeds more stats

    More info about this document

    © All Rights Reserved

    Go to text version

    • Total Views 63
      • 63 on SlideShare
      • 0 from embeds
    • Comments 0
    • Favorites 0
    • Downloads 0
    Most viewed embeds

    more

    All embeds

    less

    Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
    Flag as inappropriate

    Select your reason for flagging this presentation as inappropriate. If needed, use the feedback form to let us know more details.

    Cancel
    File a copyright complaint
    Having problems? Go to our helpdesk?

    Categories