Simbolismo brasil(1)

3,083 views
2,860 views

Published on

0 Comments
5 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total views
3,083
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
6
Actions
Shares
0
Downloads
156
Comments
0
Likes
5
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Simbolismo brasil(1)

  1. 1. SIMBOLISMO 1896 - 19
  2. 2. Em uma época que, sob o pretexto naturalista, a arte foi reduzida somentea uma imitação do contorno exterior das coisas, os simbolistas voltam aensinar aos jovens que as coisas também têm alma, alma da qual os olhoshumanos não captam mais do que o invólucro, o véu, a máscara.O Simbolismo define-se assim pelo anti-intelectualismo. Propõe a poesiapura, não racionalizada, que use imagens e não conceitos. É uma poesiadifícil, hermética, misteriosa, que destrói a poética tradicional.
  3. 3. Inimiga do ensinamento, da declamação, da falsa sensibilidade, dadescrição objetiva, a poesia simbolista procura vestir a Idéia de umaforma sensível.
  4. 4. Os simbolistas retomam a subjetividade da arte romântica com outrosentido. Os românticos desvendavam apenas a primeira camada da vidainterior, onde se localizavam vivências quase sempre de ordemsentimental. Os simbolistas vão mais longe, descendo até os limites dosubconsciente e mesmo do inconsciente. Este fato explica o caráter ilógicoou o clima de delírio de grande parte de sues poemas, como no fragmentode Cruz e Sousa: Cristais diluídos de clarões álacres, Desejos, vibrações, ânsias, alentos, Fulvas vitórias, triunfamentos acres, Os mais estranhos estremecimentos
  5. 5. Diz Mallarmé:Os parnasianos tomam os objetos em sua integridade e mostram-nos. Por isso carecem de mistério. Descrever um objeto é suprimir três quartas partes do prazer de um poema, que é feito da felicidade de adivinhar-se pouco a pouco. Sugerir, eis o sonho. E o uso perfeito deste mistério é o que constitui o símbolo: evocar o objeto para expressar um estado de alma através de uma série de decifrações.
  6. 6. Cruz e Souza foi especialista na utilização de imagens ousadas comefeito de sugestão. Angústia sexual e erotismo misturam-se naexaltação de uma mulher que parece devorar os homens: Cróton* selvagem, tinhorão* lascivo, Planta mortal, carnívora, sangrenta, De tua carne báquica* rebenta A vermelha explosão de um sangue vivo*Cróton - arbusto ornamental*Tinhorão - erva ornamental*Báquica - relativo a Baco, deus grego do vinho e da dissipação
  7. 7. "A música antes de qualquer coisa."A música é obrigatória, como nesta espécie de receita poética deCruz e Sousa: Derrama luz e cânticos e poemas No verso e torna-o musical e doce Como se o coração, nessas supremas Estrofes, puro e diluído fosse.Mesmo a morte, na obra do simbolista brasileiro, possui umaterrível musicalidade: A música da Morte, a nebulosa, Estranha, imensa música sombria, Passa a tremer pela minhalma e fria Gela, fica a tremer, maravilhosa...
  8. 8. "Nós não estamos no mundo", brada Rimbaud, o mundo concreto se esvaiu, perdeu sua inteligibilidade. Agora é puro mistério: atrás da ordem aparente das coisas estão o caos, a névoa, a bruma, a neblina, o incorpóreo, o fantasmagórico, o estranho, o inefável*.Só os "alquimistas do verbo" podem enxergar além da obviedadedo cotidiano e deparar-se com a essência misteriosa da vida.Cruz e Sousa chega a implorar pelo mistério: Infinitos, espíritos dispersos, Inefável, edênicos*, aéreos, Fecundai o Mistério destes versos Com a chama ideal de todos os mistérios.
  9. 9. CRUZ E SOUZAOBRAS PRINCIPAIS: Broquéis (1893) -Missal (1893) - Evocações (1899) - Faróis(1900) Últimos sonetos (1905)A obra de Cruz e Sousa é a mais brasileirade um movimento que foi, entre nós,essencialmente europeu. Nela opera-se umatentativa de síntese entre formas deexpressão prestigiadas na Europa e o dramaespiritual de um homem atormentado sociale filosoficamente. O resultado passa, àsvezes, por poemas obscuros e verborrágicosmas, na maioria dos casos, a densidadelírica e dramática do "Cisne Negro" atingeum nível só comparável ao dos grandessimbolistas franceses. O primeiro aspectoque percebemos em sua poética é alinguagem renovadora.
  10. 10. No seus poemas, abundam substantivos comuns com iniciais maiúsculase palavras raras. A linguagem denotativa quase desaparece na quantidadede símbolos, aliterações*, sinestesias*, esquisitas harmonias sonoras. Aocontrário do texto parnasiano, o simbolista exige do leitor um esforço dedecifração, de "tradução" da realidade sugerida para a realidade concreta.A todo momento, o poeta apela para a linguagem metafórica: "O demônio sangrento da luxúria..." "Punhais de frígidos sarcasmos..." "Ó negra Monja triste, ó grande soberana." (A lua) "As luas virgens dos teus seios brancos..." "O chicote elétrico do vento..."A musicalidade se dá através de aliterações. Sejam em v: Vozes veladas, veludosas vozes, volúpias dos violões, vozes veladas vagam nos velhos vórtices* velozes dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas*...*Sinestesias: correspondência entre as diversas sensações, sons, olhares e cheiros. *Aliterações: repetiçãode fonemas no início, meio ou fim das palavras. *Vórtices: redemoinho, turbilhão. *Vulcanizadas: ardentes,exaltadas.
  11. 11. Sejam em m: Mudas epilepsias, mudas, mudas, mudas epilepsias Masturbações mentais, fundas, agudas negras nevrostenias*.Os exemplos são infinitos. Em s: "Surdos, soturnos, subterrâneosdesesperos..." Em f: "Finos frascos facetados" E assim por diante, sempre a"música antes de qualquer coisa." Vale a pena lembrar também que oescritor não ignorava a sinestesia, utilizando-a com frequência: "vozesluminosas" - "aromas mornos e amargos" - "claridade viscosa" - "vermelhosclarinantes", etc.Da mesma forma, quando necessitado de novas palavras com sonoridadeoriginais, ele não tinha vergonha de inventá-las: "purpurejamento - suinice -tentaculizar - maternizado, etc.
  12. 12. TEMA DE CRUZ E SOUZA A obsessão pela cor branca O erotismo e sua sublimação O sofrimento da condição negra A espiritualizaçãoSe caminhares para a direita, baterás e esbarrarás ansioso, aflito,numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos ePreconceitos! Se caminhares para a esquerda, outra parede, deCiências e Críticas, mais alta do que a primeira. Se caminhares para afrente, ainda nova parede, feita de Despeito e Impotências, tremenda,de granito, broncamente se elevará do alto! Se caminhares, enfim,para trás, há ainda uma derradeira parede, fechando tudo, fechandotudo - horrível! - parede de Imbecilidade e Ignorância, te deixará numfrio espasmo de terror absoluto. (...) E as estranhas paredes hão desubir - longas, negras, terríficas! Hão de subir, subir, subir mudas,silenciosas, até as Estrelas, deixando-te para sempre perdidamentealucinado e emparedado dentro do teu Sonho...
  13. 13. O ser que é ser e que jamais vacilaNas guerras imortais entra sem susto,Leva consigo este brasão augustoDo grande amor, da grande fé tranqüila.Os abismos carnais da triste argilaEle os vence sem ânsia e sem custo...Fica sereno, num sorriso justo,Enquanto tudo em derredor oscila.Ondas interiores de grandezaDão-lhe esta glória em frente à Natureza,Esse esplendor, todo esse largo eflúvio*.O ser que é ser transforma tudo em flores...E para ironizar as próprias doresCanta por entre as águas do Dilúvio!
  14. 14. Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,ó ser humilde entre os humildes seres.Embriagado, tonto dos prazeres,o mundo para ti foi negro e duro.Atravessaste no silêncio escuroa vida presa a trágicos deverese chegaste ao saber de altos saberes,tornando-te mais simples e mais puro.Ninguém te viu o sentimento inquieto,magoado, oculto e aterrador, secreto,que o coração te apunhalou no mundo.Mas eu que sempre te segui os passossei que cruz infernal prendeu-te os braçose o teu suspiro como foi profundo!
  15. 15. Dos sofrimentos físicos e morais de sua vida,do seu penoso esforço de ascensão na escalasocial, do seu sonho místico de uma arte queseria uma eucarística espiritualização, dofundo indômito de seu ser de emparedadodentro da raça desprezada, ele tirou os acentospatéticos que lhe garantem a perpetuidade desua obra na literatura brasileira. Não há gritosmais dilacerantes, suspiros mais profundos doque os seus.
  16. 16. ALPHONSUS DE GUIMARAENS (1870-1921)Mineiro, passado quase toda a sua vida nascidades barrocas e decadentes da regiãoaurífera, Alphonsus de Guimarães sofreu asinfluências ambientais dessas cidades,povoadas apenas, no dizer de Roger Bastide,"de sons e sinos, de velhas deslizando pelosbecos silenciosos, de vultos que se escondemà sombra das muralhas. Cidades de brumas,conhecendo as mesmas existências cinzentase os mesmos fantasmas noturnos: donzelassolitárias, vestidas de luar." Sua poesia giraem torno de pouco assuntos:a morte da amadaa religiosidade litúrgica
  17. 17. Hão de chorar por ela os cinamomosMurchando as flores ao tombar do diaDos laranjais hão de cair os pomosLembrando-se daquela que os colhia.As estrelas dirão: - "Ai, nada somos,Pois ela se morreu silente* e fria..."E pondo os olhos nela como pomos,Hão de chorar a irmã que lhes sorria.A lua que lhe foi mãe carinhosaQue a viu nascer e amar, há de envolvê-laEntre lírios e pétalas de rosa.Os meus sonhos de amor serão defuntos...E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,Pensando em mim: - "Por que não vieramjuntos?"* Silente: silencioso, secreto.
  18. 18. Quando Ismália enlouqueceu, E como um anjo pendeuPôs-se na torre a sonhar... As asas para voar...Viu uma lua no céu, Queria a lua do céu,Viu outra lua no mar. Queria a lua do mar...No sonho em que se perdeu As asas que Deus lhe deuBanhou-se toda em luar... Ruflaram de par em par...Queria subir ao céu, Sua alma subiu ao céu,Queria descer ao mar... Seu corpo desceu ao marE, no desvario seuNa torre pôs-se a cantar...Estava perto do céu,Estava longe do mar...
  19. 19. Quando Ismália enlouqueceu, E como um anjo pendeuPôs-se na torre a sonhar... As asas para voar...Viu uma lua no céu, Queria a lua do céu,Viu outra lua no mar. Queria a lua do mar...No sonho em que se perdeu As asas que Deus lhe deuBanhou-se toda em luar... Ruflaram de par em par...Queria subir ao céu, Sua alma subiu ao céu,Queria descer ao mar... Seu corpo desceu ao marE, no desvario seuNa torre pôs-se a cantar...Estava perto do céu,Estava longe do mar...
  20. 20. Ilustrativo das tendências simbólicas, místicas e musicais de Alphonsus é o seu poema A catedral: Entre brumas ao longe surge a aurora. E o sino dobra em lúgubres O hialino* orvalho aos poucos se evapora, responsos: Agoniza o arrebol*. Pobre Alphonsus! Pobre A catedral ebúrnea* do meu sonho Alphonsus! Aparece na paz do céu risonho Toda branca de sol. O céu é todo trevas: o vento uiva. Do relâmpago a cabeleira ruiva E o sino canta em lúgubres responsos*: Vem açoitar o rosto meu. Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus! (...) E a catedral ebúrnea do meu sonho Por entre lírios e lilases desce Afunda-se no caos do céu A tarde esquiva: amargurada prece medonho Põe-se a lua a rezar. Como um astro que já morreu. A catedral ebúrnea do meu sonho Aparece na paz do céu tristonho E o sino geme em lúgubres Toda branca de luar. responsos: Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!Hialino: transparente, Arrebol: vermelhidão do nascer ou dopôr do sol, Ebúrnea: de marfim, Responsos: versículosrezados ou cantados.

×