Tx eça de queiros   os maias
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Tx eça de queiros   os maias Tx eça de queiros os maias Document Transcript

  • Os Maias Eça de Queirós BD Biblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os MaiasEPISÓDIOS DA VIDA ROMÂNTICA
  • Os Maias Eça de Queirós pág. 3 de 595 Capítulo I A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outonode 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco dePaula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Rama-lhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome devivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes seve-ras, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiroandar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beirado telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica quecompetia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: comuma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégiode Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto de um revesti-mento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico doEscudo de Armas, que nunca chegara a ser colocado, e represen-tando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se dis-tinguiam letras e números de uma data. Longos anos o Ramalhete permanecera desabitado, com teiasde aranha pelas grades dos postigos térreos, e cobrindo-se de tonsde ruína. Em 1858, Monsenhor Buccarini, Núncio de Sua Santi-dade, visitara-o com ideia de instalar lá a Nunciatura, seduzidopela gravidade clerical do edifício e pela paz dormente do bairro: eo interior do casarão agradara-lhe também, com a sua disposiçãoapalaçada, os tectos apainelados, as paredes cobertas de frescosonde já desmaiavam as rosas das grinaldas e as faces dos Cupidi-nhos. Mas Monsenhor, com os seus hábitos de rico prelado romano, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 4necessitava na sua vivenda os arvoredos e as águas de um jardimde luxo e o Ramalhete possuía apenas, ao fundo de um terraço detijolo, um pobre quintal inculto, abandonado às ervas bravas, comum cipreste, um cedro, uma cascatazinha seca, um tanque entu-lhado, e uma estátua de mármore (onde Monsenhor reconheceulogo Vénus Citereia) enegrecendo a um canto na lenta humidadedas ramagens silvestres. Além disso, a renda que pediu o velhoVilaça, procurador dos Maias, pareceu tão exagerada a Monsenhor,que lhe perguntou sorrindo se ainda julgava a Igreja nos tempos deLeão X. Vilaça respondeu — que também a nobreza não estava nostempos do senhor D. João V. E o Ramalhete continuou desabitado. Este inútil pardieiro (como lhe chamava Vilaça Júnior, agora, pormorte de seu pai, administrador dos Maias) só veio a servir, nos finsde 1870, para lá se arrecadarem as mobílias e as louças provenientesdo palacete de família em Benfica, morada quase histórica, que,depois de andar anos em praça, fora então comprada por um comen-dador brasileiro. Nessa ocasião vendera-se outra propriedade dosMaias, a Tojeira; e algumas raras pessoas que em Lisboa ainda selembravam dos Maias, e sabiam que desde a Regeneração eles viviamretirados na sua quinta de Santa Olávia, nas margens do Douro,tinham perguntado a Vilaça se essa gente estava atrapalhada. — Ainda têm um pedaço de pão — disse Vilaça sorrindo — e amanteiga para lhe barrar por cima. Os Maias eram uma antiga família da Beira, sempre pouconumerosa, sem linhas colaterais, sem parentelas — e agora reduzidaa dois varões, o senhor da casa, Afonso da Maia, um velho já, quaseum antepassado, mais idoso que o século, e seu neto Carlos que estu-dava medicina em Coimbra. Quando Afonso se retirara definitiva-mente para Santa Olávia, o rendimento da casa excedia já cinquentamil cruzados: mas desde então tinham-se acumulado as economiasde vinte anos de aldeia; viera também a herança de um últimoparente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia em Nápoles, sóocupando-se de numismática: — e o procurador podia certamentesorrir com segurança quando falava dos Maias e da sua fatia de pão. A venda da Tojeira fora realmente aconselhada por Vilaça: masnunca ele aprovara que Afonso se desfizesse de Benfica — só pelarazão de aqueles muros terem visto tantos desgostos domésticos.Isso, como dizia Vilaça, acontecia a todos os muros. O resultado eraque os Maias, o Ramalhete inabitável, não possuíam agora uma © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 5casa em Lisboa; e se Afonso naquela idade amava o sossego deSanta Olávia, seu neto, rapaz de gosto e de luxo que passava asférias em Paris e Londres, não quereria, depois de formado, irsepultar-se nos penhascos do Douro. E com efeito, meses antes deele deixar Coimbra, Afonso assombrou Vilaça anunciando-lhe quedecidira vir habitar o Ramalhete! O procurador compôs logo umrelatório a enumerar os inconvenientes do casarão: o maior eranecessitar tantas obras e tantas despesas; depois, a falta de umjardim devia ser muito sensível a quem saía dos arvoredos deSanta Olávia; e por fim aludia mesmo a uma lenda, segundo a qualeram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete, «ainda que(acrescentava ele numa frase meditada) até me envergonho demencionar tais frioleiras neste século de Voltaire, Guizot e outrosfilósofos liberais...» Afonso riu muito da frase, e respondeu que aquelas razõeseram excelentes — mas ele desejava habitar sob tectos tradicional-mente seus; se eram necessárias obras, que se fizessem e larga-mente; e enquanto a lendas e agouros, bastaria abrir de par em paras janelas e deixar entrar o sol. Sua Excelência mandava: — e, como esse Inverno ia seco, asobras começaram logo, sob a direcção de um Esteves, arquitecto,político, e compadre de Vilaça. Este artista entusiasmara o procu-rador com um projecto de escada aparatosa, flanqueada por duasfiguras simbolizando as conquistas da Guiné e da Índia. E estavaideando também uma cascata de louça na sala de jantar — quando,inesperadamente, Carlos apareceu em Lisboa com um arquitecto--decorador de Londres, e, depois de estudar com ele à pressa algu-mas ornamentações e alguns tons de estofos, entregou-lhe as qua-tro paredes do Ramalhete, para ele ali criar, exercendo o seu gosto,um interior confortável, de luxo inteligente e sóbrio. Vilaça ressentiu amargamente esta desconsideração peloartista nacional; Esteves foi berrar ao seu Centro político que istoera um país perdido. E Afonso lamentou também que se tivessedespedido o Esteves, exigiu mesmo que o encarregassem da cons-trução das cocheiras. O artista ia aceitar — quando foi nomeadogovernador civil. Ao fim de um ano, durante o qual Carlos viera frequentementea Lisboa colaborar nos trabalhos, «dar os seus retoques estéticos»— do antigo Ramalhete só restava a fachada tristonha, que Afonso © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 6não quisera alterada por constituir a fisionomia da casa. E Vilaçanão duvidou declarar que Jones Bule (como ele chamava ao inglês)sem despender despropositadamente, aproveitando até as antigua-lhas de Benfica, fizera do Ramalhete «um museu». O que surpreendia logo era o pátio, outrora tão lôbrego, nu,lajeado de pedregulhos — agora resplandecente, com um pavi-mento quadrilhado de mármores brancos e vermelhos, plantasdecorativas, vasos de Quimper, e dois longos bancos feudais queCarlos trouxera de Espanha, trabalhados em talha, solenes comocoros de catedral. Em cima, na antecâmara, revestida como umatenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos morria: e orna-vam-na divãs cobertos de tapetes persas, largos pratos mouriscoscom reflexos metálicos de cobre, uma harmonia de tons severos,onde destacava, na brancura imaculada do mármore, uma figurade rapariga friorenta, arrepiando-se, rindo, ao meter o pezinho naágua. Daí partia um amplo corredor, ornado com as peças ricas deBenfica, arcas góticas, jarrões da Índia, e antigos quadros devotos.As melhores salas do Ramalhete abriam para essa galeria. Nosalão nobre, raramente usado, todo em brocados de veludo cor demusgo de Outono, havia uma bela tela de Constable, o retrato dasogra de Afonso, a condessa de Runa, de tricorne de plumas e ves-tido escarlate de caçadora inglesa, sobre um fundo de paisagemenevoada. Uma sala mais pequena, ao lado, onde se fazia música,tinha um ar de século XVIII com seus móveis enramalhetados deouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas tapeçarias deGobelins desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as paredes depastores e de arvoredos. Defronte era o bilhar, forrado de um couro moderno trazido porJones Bule, onde, por entre a desordem de ramagens verde-gar-rafa, esvoaçavam cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se ofumoir, a sala mais cómoda do Ramalhete: as otomanas tinham afofa vastidão de leitos; e o conchego quente e um pouco sombrio dosestofos escarlates e pretos era alegrado pelas cores cantantes develhas faianças holandesas. Ao fundo do corredor ficava o escritório de Afonso, revestido dedamascos vermelhos com uma velha câmara de prelado. A maciçamesa de pau-preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o soleneluxo das encadernações, tudo tinha ali uma feição austera de pazestudiosa — realçada ainda por um quadro atribuído a Rubens, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 7antiga relíquia da casa, um Cristo na Cruz, destacando a suanudez de atleta sobre um céu de poente revolto e rubro. Ao lado dofogão, Carlos arranjara um canto para o avô com um biombo japo-nês bordado a ouro, uma pele de urso branco, e uma venerávelcadeira de braços, cuja tapeçaria mostrava ainda as armas dosMaias no desmaio da trama de seda. No corredor do segundo andar guarnecido com retratos de famí-lia, estavam os quartos de Afonso. Carlos dispusera os seus, numângulo da casa, com uma entrada particular, e janelas sobre o jar-dim: eram três gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmotapete: e os recostos acolchoados, a seda que forrava as paredes,faziam dizer ao Vilaça que aquilo não eram aposentos de médico —mas de dançarina! A casa, depois de arranjada, ficou vazia enquanto Carlos, já for-mado, fazia uma longa viagem pela Europa; — e foi só nas vésperasda sua chegada, nesse lindo Outono de 1875, que Afonso se resolveuenfim a deixar Santa Olávia e vir instalar-se no Ramalhete. Haviavinte e cinco anos que ele não via Lisboa; e, ao fim de alguns curtosdias, confessou ao Vilaça que estava suspirando outra vez pelassuas sombras de Santa Olávia. Mas, que remédio! Não queria vivermuito separado do neto; e Carlos agora, com ideias sérias de car-reira activa, devia necessariamente habitar Lisboa... De resto, nãodesgostava do Ramalhete, apesar de Carlos, com o seu fervor peloluxo dos climas frios, ter prodigalizado de mais as tapeçarias, ospesados reposteiros e os veludos. Agradava-lhe também muito avizinhança, aquela doce quietação de subúrbio adormecido ao sol. Egostava até do seu quintalejo. Não era decerto o jardim de SantaOlávia: mas tinha o ar simpático, com os seus girassóis perfiladosao pé dos degraus do terraço, o cipreste e o cedro envelhecendo jun-tos como dois amigos tristes, e a Vénus Citereia parecendo agora, noseu tom claro de estátua de parque, ter chegado de Versalhes, dofundo do Grande Século... E desde que a água abundava, a cascata-zinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus trêspedregulhos arranjados em despenhadeiro bucólico, melancolizandoaquele fundo de quintal soalheiro com um pranto de náiade domés-tica, esfiado gota a gota na bacia de mármore. O que desconsolara Afonso, ao princípio, fora a vista do terraço— donde outrora, decerto, se abrangia até ao mar. Mas as casasedificadas em redor, nos últimos anos, tinham tapado esse hori- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 8zonte esplêndido. Agora, uma estreita tira de água e monte que seavistava entre dois prédios de cinco andares, separados por umcorte de rua, formava toda a paisagem defronte do Ramalhete. E,todavia, Afonso terminou por lhe descobrir um encanto íntimo. Eracomo uma tela marinha, encaixilhada em cantarias brancas, sus-pensa do céu azul em face do terraço, mostrando, nas variedadesinfinitas de cor e luz, os episódios fugitivos de uma pacata vida derio: às vezes uma vela de barco da Trafaria fugindo airosamente àbolina; outras vezes uma galera toda em pano, entrando num favorda aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou então a melancoliade um grande paquete, descendo, fechado e preparado para a vaga,entrevisto um momento, desaparecendo logo, como já devorado pelomar incerto; ou ainda durante dias, no pó de ouro das sestas silen-ciosas, o vulto negro de um couraçado inglês... E sempre ao fundo opedaço de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, eduas casas brancas ao rés da água, cheias de expressão — ora fais-cantes e despedindo raios das vidraças acesas em brasa; oratomando aos fins de tarde um ar pensativo, cobertas dos rosadostenros do poente, quase semelhantes a um rubor humano; e de umatristeza arrepiada nos dias de chuva, tão sós, tão brancas, comonuas, sob o tempo agreste. O terraço comunicava por três portas envidraçadas com o escri-tório — e foi nessa bela câmara de prelado que Afonso se acostu-mou logo a passar os seus dias, no recanto aconchegado que o netolhe preparara ternamente, ao lado do fogão. A sua longa residênciaem Inglaterra dera-lhe o amor dos suaves vagares junto do lume.Em Santa Olávia as chaminés ficavam acesas até Abril; depoisornavam-se de braçadas de flores, como um altar doméstico; e eraainda aí, nesse aroma e nessa frescura, que ele gozava melhor oseu cachimbo, o seu Tácito, ou o seu querido Rabelais. Todavia, Afonso ainda ia longe, como ele dizia, de ser um velhoborralheiro. Naquela idade, de Verão ou de Inverno, ao romper doSol, estava a pé, saindo logo para a quinta, depois da sua boa ora-ção da manhã que era um grande mergulho na água fria. Sempretivera o amor supersticioso da água; e costumava dizer que nadahavia melhor para o homem — que sabor de água, som de água evista de água. O que o prendera mais a Santa Olávia fora a suagrande riqueza de águas vivas, nascentes, repuxos, tranquilo espe-lhar de águas paradas, fresco murmúrio de águas regantes... E a © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 9esta viva tonificação da água atribuía ele o ter vindo assim, desde ocomeço do século, sem uma dor e sem uma doença, mantendo a ricatradição de saúde da sua família, duro, resistente aos desgostos eanos — que passavam por ele, tão em vão, como passavam em vão,pelos seus robles de Santa Olávia, anos e vendavais. Afonso era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e for-tes: e com a sua face larga de nariz aquilino, a pele corada, quasevermelha, o cabelo branco todo cortado à escovinha, e a barba deneve aguda e longa — lembrava, como dizia Carlos, um varãoesforçado das idades heróicas, um D. Duarte de Meneses ou umAfonso de Albuquerque. E isto fazia sorrir o velho, recordar aoneto, gracejando, quanto as aparências iludem! Não, não era Meneses, nem Albuquerque, apenas um antepas-sado bonacheirão que amava os seus livros, o conchego da sua pol-trona, o seu whist ao canto do fogão. Ele mesmo costumava dizerque era simplesmente um egoísta: — mas nunca, como agora navelhice, as generosidades do seu coração tinham sido tão profundase largas. Parte do seu rendimento ia-se-lhe por entre os dedos,esparsamente, numa caridade enternecida. Cada vez amava mais oque é pobre e o que é fraco. Em Santa Olávia, as crianças corriampara ele, dos portais, sentindo-o acariciador e paciente. Tudo o quevive lhe merecia amor — e era dos que não pisam um formigueiro ese compadecem da sede de uma planta. Vilaça costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se contados patriarcas, quando o vinha encontrar ao canto da chaminé, nasua coçada quinzena de veludilho, sereno, risonho, com um livro namão, o seu velho gato aos pés. Este pesado e enorme angorá,branco com malhas louras, era agora (desde a morte de Tobias, osoberbo cão são-bernardo) o fiel companheiro de Afonso. Tinha nas-cido em Santa Olávia, e recebera então o nome de Bonifácio:depois, ao chegar à idade do amor e da caça, fora-lhe dado o apelidomais cavalheiresco de «D. Bonifácio de Calatrava»: agora, dormi-nhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidadeseclesiásticas, e era o «Reverendo Bonifácio»... Esta existência nem sempre assim correra com a tranquilidadelarga e clara de um belo rio de Verão. O antepassado, cujos olhos seenchiam agora de uma luz de ternura diante das suas rosas, e queao canto do lume relia com gosto o seu Guizot, fora, na opinião de © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 10seu pai, algum tempo, o mais feroz jacobino de Portugal! E todavia,o furor revolucionário do pobre moço consistira em ler Rousseau,Volney, Helvécio, e a «Enciclopédia»; em atirar foguetes de lágrimasà Constituição; e ir, de chapéu à liberal e alta gravata azul, reci-tando pelas lojas maçónicas odes abomináveis ao Supremo Arqui-tecto do Universo. Isto, porém, bastara para indignar o pai. Caetanoda Maia era um português antigo e fiel que se benzia ao nome deRobespierre, e que, na sua apatia de fidalgo beato e doente, tinha sóum sentimento vivo — o horror, o ódio ao jacobino, a quem atribuíatodos os males, os da pátria e os seus, desde a perda das colóniasaté às crises da sua gota. Para extirpar da nação o jacobino, dera eleo seu amor ao senhor infante D. Miguel, messias forte e restauradorprovidencial... E ter justamente por filho um jacobino, parecia-lheuma provação comparável só às de Job! Ao princípio, na esperança que o menino se emendasse, conten-tou-se em lhe mostrar um carão severo e chamar-lhe com sarcasmo— cidadão! Mas quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se mis-turara à turba que, numa noite de festa cívica e de Luminárias,tinha apedrejado as vidraças apagadas do senhor legado deÁustria, enviado da Santa Aliança — considerou o rapaz um Marate toda a sua cólera rompeu. A gota cruel, cravando-o na poltrona,não lhe deixou espancar o mação, com a sua bengala da Índia, à leide bom pai português: mas decidiu expulsá-lo de sua casa, semmesada e sem bênção, renegado como um bastardo! Que aquelepedreiro-livre não podia ser do seu sangue! As lágrimas da mamã amoleceram-no; sobretudo as razões deuma cunhada de sua mulher, que vivia com eles em Benfica,senhora irlandesa de alta instrução, Minerva respeitada e tutelar,que ensinara inglês ao menino e o adorava como um bebé. Caetanoda Maia limitou-se a desterrar o filho para a Quinta de Santa Olá-via; mas não cessou de chorar no seio dos padres que vinham a Ben-fica a desgraça da sua casa. E esses santos lá o consolavam, afir-mando-lhe que Deus, o velho Deus de Ourique, não permitiriajamais que um Maia pactuasse com Belzebu e com a Revolução! E, àfalta de Deus-Padre, lá estava Nossa Senhora da Soledade,padroeira da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre. E o milagre fez-se. Meses depois, o jacobino, o Marat, voltavade Santa Olávia um pouco contrito, enfastiado sobretudo daquelasolidão, onde os chás do brigadeiro Sena eram ainda mais tristes © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 11que o terço das primas Cunhas. Vinha pedir ao pai a bênção, ealguns mil cruzados, para ir a Inglaterra, esse país de vivos pradose de cabelos de ouro, de que lhe falara tanto a tia Fanny. O pai bei-jou-o, todo em lágrimas, acedeu a tudo fervorosamente, vendo ali aevidente, a gloriosa intercessão de Nossa Senhora da Soledade! E omesmo frei Jerónimo da Conceição, seu confessor, declarou estemilagre — não inferior ao de Carnaxide. Afonso partiu. Era na Primavera — e a Inglaterra toda verde,os seus parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia pene-trante dos seus nobres costumes, aquela raça tão séria e tão forte— encantaram-no. Bem depressa esqueceu o seu ódio aos sorumbá-ticos padres da Congregação, as horas ardentes passadas no cafédos Remolares a recitar Mirabeau, e a República que quisera fun-dar, clássica e voltairiana, com um triunvirato de Cipiões e festasao Ente Supremo. Durante os dias da Abrilada estava ele nas cor-ridas de Epsom, no alto de uma sege de posta, com um grandenariz postiço, dando hurras medonhos — bem indiferente aos seusirmãos de Maçonaria, que a essas horas o senhor infante espica-çava a chuço, pelas vielas do Bairro Alto, no seu rijo cavalo deAlter. Seu pai morreu de súbito, ele teve de regressar a Lisboa. Foientão que conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde deRuna, uma linda morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim doluto casou com ela. Teve um filho, desejou outros; e começou logo,com belas ideias de patriarca moço, a fazer obras no palacete deBenfica, a plantar em redor arvoredos, preparando tectos e som-bras à descendência amada que lhe encantaria a velhice. Mas não esquecia a Inglaterra: — e tornava-lha mais apetecidaessa Lisboa miguelista que ele via, desordenada como uma Tunesbarbaresca; essa rude conjuração apostólica de frades e boleeiros,atroando tabernas e capelas; essa plebe beata, suja e feroz, rolandodo lausperene para o curro, e ansiando tumultuosamente pelo prín-cipe que lhe encarnava tão bem os vícios e as paixões... Este espectáculo indignava Afonso da Maia; e muitas vezes, napaz do serão, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu aindignação da sua alma honesta. Já não exigia decerto, como emrapaz, uma Lisboa de Catões e de Múcios Cévolas. Já admitiamesmo o esforço de uma nobreza para manter o seu privilégio his-tórico; mas então queria uma nobreza inteligente e digna, como a © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 12aristocracia tory (que o seu amor pela Inglaterra lhe fazia ideali-zar), dando em tudo a direcção moral, formando os costumes e ins-pirando a literatura, vivendo com fausto e falando com gosto,exemplo de ideias altas e espelho de maneiras patrícias... O quenão tolerava era o mundo de Queluz, bestial e sórdido. Tais palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando sereuniram as Cortes Gerais, a polícia invadiu Benfica, «a procurarpapéis e armas escondidas». Afonso da Maia, com o seu filho nos braços e a mulher tre-mendo ao lado — viu, impassivelmente e sem uma palavra, abusca, as gavetas arrombadas pela coronha das escopetas, as mãossujas do malsim rebuscando os colchões do seu leito. O senhor juizde fora não descobriu nada; aceitou mesmo na copa um cálice devinho, e confessou ao mordomo «que os tempos iam bem duros...».Desde essa manhã as janelas do palacete conservaram-se cerradas;não se abriu mais o portão nobre para sair o coche da senhora; edaí a semanas, com a mulher e com o filho, Afonso da Maia partiapara Inglaterra e para o exílio. Aí instalou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredoresde Londres, junto a Richmond, ao fundo de um parque, entre assuaves e calmas paisagens de Surrey. Os seus bens, graças ao crédito do conde de Runa, antigomimoso de D. Carlota Joaquina, hoje conselheiro ríspido do senhorD. Miguel, não tinham sido confiscados; e Afonso da Maia podiaviver largamente. Ao princípio os emigrados liberais, Palmela e a gente doBelfast, ainda o vieram desassossegar e consumir. A sua alma rectanão tardou a protestar vendo a separação de castas, de jerarquias,mantidas ali na terra estranha entre os vencidos da mesma ideia— os fidalgos e os desembargadores vivendo no luxo de Londres àforra, e plebe, o exército, depois dos padecimentos da Galiza,sucumbindo agora à fome, à vérmina, à febre nos barracões dePlymouth. Teve logo conflitos com os chefes liberais; foi acusado devintista e demagogo; descreu por fim do liberalismo. Isolou-seentão — sem fechar todavia a sua bolsa, donde saíam às cinquenta,às cem moedas... Mas quando a primeira expedição partiu, e poucoa pouco se foram vazando os depósitos de emigrados, respirouenfim — e, como ele disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar deInglaterra! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 13 Meses depois, sua mãe, que ficara em Benfica, morria de umaapoplexia: e a tia Fanny veio para Richmond completar a felicidadede Afonso, com o seu claro juízo, os seus caracóis brancos, os seusmodos de discreta Minerva. Ali estava ele pois no seu sonho, numadigna residência inglesa, entre árvores seculares, vendo em redornas vastas relvas dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sen-tindo em torno de si tudo tão são, forte, livre e sólido — como oamava o seu coração. Teve relações; estudou a nobre e rica literatura inglesa; interes-sou-se, como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura,pela cria dos cavalos, pela prática da caridade; — e pensava comprazer em ficar ali para sempre naquela paz e naquela ordem. Somente Afonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativae triste, tossia sempre pelas salas. À noite sentava-se ao fogão, sus-pirava e ficava calada... Pobre senhora! A nostalgia do País, da parentela, das igrejas,ia-a minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem sequeixar e sorrindo palidamente, tinha vivido desde que chegaranum ódio surdo àquela terra de hereges e ao seu idioma bárbaro:sempre arrepiada, abafada em peles, olhando com pavor os céusfuscos ou a neve nas árvores, o seu coração não estivera nunca ali,mas longe, em Lisboa, nos adros, nos bairros batidos do sol. A suadevoção (a devoção dos Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacer-bara-se àquela hostilidade ambiente que ela sentia em redor contraos «papistas». E só se satisfazia à noite, indo refugiar-se no sótãocom as criadas portuguesas, para rezar o terço agachada numaesteira — gozando ali, nesse murmúrio de ave-marias em país pro-testante, o encanto de uma conjuração católica! Odiando tudo o que era inglês, não consentira que seu filho, oPedrinho, fosse estudar ao colégio de Richmond. Debalde Afonsolhe provou que era um colégio católico. Não queria: aquele catoli-cismo sem romarias, sem fogueiras pelo S. João, sem imagens doSenhor dos Passos, sem frades nas ruas — não lhe parecia a reli-gião. A alma do seu Pedrinho não abandonaria ela à heresia; — epara o educar mandou vir de Lisboa o padre Vasques, capelão doconde de Runa. O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas, sobretudo a car-tilha: e a face de Afonso da Maia cobria-se de tristeza, quando aovoltar de alguma caçada ou das ruas de Londres, de entre o forte © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 14rumor da vida livre — ouvia no quarto dos estudos a voz dormentedo reverendo, perguntando como do fundo de uma treva: — Quantos são os inimigos da alma? E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando: — Três. Mundo, Diabo e Carne... Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia ali o reverendoVasques, obeso e sórdido, arrotando do fundo da sua poltrona, como lenço do rapé sobre o joelho... Às vezes Afonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia adoutrina, agarrava a mão do Pedrinho — para o levar, correr comele sob as árvores do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio opesadume crasso da cartilha. Mas a mamã acudia de dentro, emterror, a abafá-lo numa grande manta: depois, lá fora, o menino,acostumado ao colo das criadas e aos recantos estofados, tinhamedo do vento e das árvores: e pouco a pouco, num passo desconso-lado, os dois iam pisando em silêncio as folhas secas — o filho todoacobardado das sombras do bosque vivo, o pai vergando os ombros,pensativo, triste daquela fraqueza do filho... Mas o menor esforço dele para arrancar o rapaz àqueles braços demãe que o amoleciam, àquela cartilha mortal do padre Vasques —trazia logo à delicada senhora acessos de febre. E Afonso não se atre-via já a contrariar a pobre doente, tão virtuosa, e que o amava tanto!Ia então lamentar-se para o pé da tia Fanny: a sábia irlandesa metiaos óculos entre as folhas do seu livro, tratado de Addison ou poema dePope, e encolhia melancolicamente os ombros. Que podia ela fazer!... Por fim a tosse de Maria Eduarda foi aumentando — como atristeza das suas palavras. Já falava da «sua ambição derradeira»,que era ver o sol uma vez mais! Porque não voltariam a Benfica, aoseu lar, agora que o senhor Infante estava também desterrado eque havia uma grande paz? Mas a isso Afonso não cedeu: não que-ria ver outra vez as suas gavetas arrombadas a coronhadas — e ossoldados do senhor D. Pedro não lhe davam mais garantias que osmalsins do senhor D. Miguel. Por esse tempo veio um grave desgosto à casa: a tia Fanny mor-reu, de uma pneumonia, nos frios de Março; e isto enegreceu maisa melancolia de Maria Eduarda, que a amava muito também — porser irlandesa e católica. Para a distrair, Afonso levou-a para a Itália, para uma deliciosavilla ao pé de Roma. Aí não lhe faltava o sol: tinha-o pontual e © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 15generoso todas as manhãs, banhando largamente os terraços, dou-rando loureirais e mirtos. E depois, lá em baixo, entre mármores,estava a coisa preciosa e santa — o Papa! Mas a triste senhora continuava a choramingar. O que real-mente apetecia era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos doseu bairro, as procissões passando num rumor de pachorrentapenitência por tardes de sol e de poeira... Foi necessário calmá-la, voltar a Benfica. Aí começou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhavalentamente, todos os dias mais pálida, levando semanas imóvelsobre o canapé, com as mãos transparentes cruzadas sobre as suasgrossas peles de Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-sedaquela alma aterrada para quem Deus era um amo feroz, tornara--se o grande homem da casa. De resto Afonso encontrava a cadamomento pelos corredores outras figuras canónicas, de capote esolidéu, em que reconhecia antigos franciscanos, ou algum magrocapuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio de sacris-tia; e dos quartos da senhora vinha constantemente, dolente evago, um rumor de ladainha. Todos aqueles santos varões comiam, bebiam o seu vinho do Portona copa. As contas do administrador apareciam sobrecarregadas comas mesadas piedosas que dava a senhora: um frei Patrício surripiara-lhe duzentas missas de cruzado por alma do senhor D. José I... Esta carolice que o cercava ia lançando Afonso num ateísmorancoroso: quereria as igrejas fechadas como os mosteiros, as ima-gens escavacadas a machado, uma matança de reverendos...Quando sentia na casa a voz das rezas, fugia, ia para o fundo daquinta, sob as trepadeiras do mirante, ler o seu Voltaire: ou entãopartia a desabafar com o seu velho amigo, o coronel Sequeira, quevivia numa quinta a Queluz. O Pedrinho no entanto estava quase um homem. Ficara peque-nino e nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da forçados Maias; a sua linda face oval de um trigueiro cálido, dois olhosmaravilhosos e irresistíveis, prontos sempre a humedecer-se,faziam-no assemelhar a um belo árabe. Desenvolvera-se lenta-mente, sem curiosidades, indiferente a brinquedos, a animais, aflores, a livros. Nenhum desejo forte parecera jamais vibrarnaquela alma meio adormecida e passiva: só às vezes dizia que gos-taria muito de voltar para a Itália. Tomara birra ao padre Vasques, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 16mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um fraco; e esse aba-timento contínuo de todo o seu ser resolvia-se a espaços em crisesde melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, murcho, ama-relo, com as olheiras fundas e já velho. O seu único sentimentovivo, intenso, até aí, fora a paixão pela mãe. Afonso quisera-o mandar para Coimbra. Mas, à ideia de seseparar do seu Pedro, a pobre senhora caíra de joelhos diante deAfonso, balbuciando e tremendo: e ele, naturalmente, lá cedeuperante essas mãos suplicantes, essas lágrimas que caíam quatro aquatro pela pobre face de cera. O menino continuou em Benfica,dando os seus lentos passeios a cavalo, de criado de farda atrás,começando já a ir beber a sua genebra aos botequins de Lisboa...Depois foi despontando naquela organização uma grande tendênciaamorosa: aos dezanove anos teve o seu bastardozinho. Afonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de tão des-graçados mimos, não faltavam ao rapaz qualidades: era muitoesperto, são e, como todos os Maias, valente: não havia muito queele só, com um chicote, dispersara na estrada três saloios de vara-pau que lhe tinham chamado palmito. Quando a mãe morreu, numa agonia terrível de devota, deba-tendo-se dias nos pavores do Inferno, Pedro teve na sua dor osarrebatamentos de uma loucura. Fizera a promessa histérica, seela escapasse, de dormir durante um ano sobre as lajes do pátio: elevado o caixão, saídos os padres, caiu numa angústia soturna,obtusa, sem lágrimas, de que não queria emergir, estirado de bru-ços sobre a cama numa obstinação de penitente. Muitos mesesainda não o deixou uma tristeza vaga: e Afonso da Maia já sedesesperava de ver aquele rapaz, seu filho e seu herdeiro, sairtodos os dias a passos de monge, lúgubre no seu luto pesado, parair visitar a sepultura da mamã... Esta dor exagerada e mórbida cessou por fim; e sucedeu-lhe,quase sem transição, um período de vida dissipada e turbulenta,estroinice banal, em que Pedro, levado por um romantismo torpe,procurava afogar em lupanares e botequins as saudades da mamã.Mas essa exuberância ansiosa que se desencadeara tão subita-mente, tão tumultuosamente, na sua natureza desequilibrada, gas-tou-se depressa também. Ao fim de um ano de distúrbios no Marrare, de façanhas nasesperas de toiros, de cavalos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 17começaram a reaparecer as antigas crises de melancolia nervosa;voltavam esses dias taciturnos, longos como desertos, passados emcasa a bocejar pelas salas, ou sob alguma árvore da quinta todoestirado de bruços, como despenhado num fundo de amargura. Nes-ses períodos tornava-se também devoto: lia Vidas de Santos, visi-tava o lausperene: eram desses bruscos abatimentos de alma queoutrora levavam os fracos aos mosteiros. Isto penalizava Afonso da Maia: preferia saber que ele reco-lhera de Lisboa, de madrugada, exausto e bêbedo, — do que vê-lo,de ripanço debaixo do braço, com um ar velho, marchando para aigreja de Benfica. E havia agora uma ideia que, a seu pesar, às vezes o torturava:descobrira a grande parecença de Pedro com um avô de suamulher, um Runa, de quem existia um retrato em Benfica: estehomem extraordinário, com que na casa se metia medo às crianças,enlouquecera — e julgando-se Judas enforcara-se numa figueira... Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava!Era um amor à Romeu, vindo de repente numa troca de olharesfatal e deslumbradora, uma dessas paixões que assaltam uma exis-tência, a assolam como um furacão, arrancando a vontade, a razão,os respeitos humanos e empurrando-os de roldão aos abismos. Numa tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, à porta deMadame Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapéubranco, e uma senhora loura, embrulhada num xale de Caxemira. O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha talhadapor baixo do queixo, uma face tisnada de antigo embarcadiço e o argoche, desceu todo encostado ao trintanário como se um reuma-tismo o tolhesse, entrou arrastando a perna o portal da modista; eela voltando devagar a cabeça olhou um momento o Marrare. Sob as rosinhas que ornavam o seu chapéu preto, os cabelos loi-ros, de um oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e clás-sica: os olhos maravilhosos iluminavam-na toda; a friagem fazia--lhe mais pálida a carnação de mármore: e com o seu perfil gravede estátua, o modelado nobre dos ombros e dos braços que o xalecingia — pareceu a Pedro nesse instante alguma coisa de imortal esuperior à Terra. Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodesnegros, vestido de negro, que fumava encostado à outra ombreira,numa pose de tédio — vendo o violento interesse de Pedro, o olhar © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 18aceso e perturbado com que seguia a caleche trotando Chiadoacima, veio tomar-lhe o braço, murmurou-lhe junto à face na suavoz grossa e lenta: — Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens,as datas e os feitos principais? E pagas ao teu amigo Alencar, aoteu sequioso Alencar, uma garrafa de champanhe? Veio o champanhe. E o Alencar, depois de passar os dedosmagros pelos anéis da cabeleira e pelas pontas do bigode, começou,todo recostado e dando um puxão aos punhos: — Por uma doirada tarde de Outono... — André — gritou Pedro ao criado, martelando o mármore damesa — retira o champanhe! O Alencar bradou, imitando o actor Epifânio: — O quê! Sem saciar a avidez do meu lábio?... Pois bem, o champanhe ficaria: mas o amigo Alencar, esque-cendo que era o poeta das Vozes de Aurora, explicaria aquela genteda caleche azul numa linguagem cristã e prática!... — Aí vai, meu Pedro, aí vai! Havia dois anos, justamente quando Pedro perdera a mamã,aquele velho, o papá Monforte, uma manhã rompera subitamentepelas ruas e pela sociedade de Lisboa naquela mesma caleche comessa bela filha ao seu lado. Ninguém os conhecia. Tinham alugado aArroios um primeiro andar no palacete dos Vargas; e a raparigaprincipiou a aparecer em S. Carlos, fazendo uma impressão — umaimpressão de causar aneurismas, dizia o Alencar! Quando ela atra-vessava o salão, os ombros vergavam-se no deslumbramento deauréola que vinha daquela magnífica criatura, arrastando com umpasso de deusa a sua cauda de corte, sempre decotada como em noi-tes de gala, e, apesar de solteira, resplandecente de jóias. O papánunca lhe dava o braço: seguia atrás, entalado numa grande gra-vata branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarca-diço na claridade loira que saía da filha, encolhido e quase apavo-rado, trazendo nas mãos o óculo, o libreto, um saco de bombons, oleque e o seu próprio guarda-chuva. Mas era no camarote, quando aluz caía sobre o seu colo ebúrneo e as suas tranças de oiro, que elaoferecia verdadeiramente a encarnação de um ideal da Renascença,um modelo de Ticiano... Ele, Alencar, na primeira noite em que avira, exclamara, mostrando-a a ela e às outras, as trigueirotas deassinatura: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 19 — Rapazes! É como um ducado de oiro novo entre velhos pata-cos do tempo do senhor D. João VI! O Magalhães, esse torpe pirata, pusera o dito num folhetim doPortuguês. Mas o dito era dele, Alencar! Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar o palacetede Arroios. Mas nunca naquela casa se abria uma janela. Os cria-dos interrogados disseram apenas que a menina se chamavaMaria, e que o senhor se chamava Manuel. Enfim uma criada,amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem era taciturno, tre-mia diante da filha, e dormia numa rede; a senhora, essa, vivianum ninho de sedas todo azul-ferrete, e passava o seu dia a lernovelas. Isto não podia satisfazer a sofreguidão de Lisboa. Fez-seuma devassa metódica, hábil, paciente... Ele, Alencar, pertencera àdevassa. E souberam-se horrores. O papá Monforte era dos Açores;muito moço, uma facada numa rixa, um cadáver a uma esquinatinham-no forçado a fugir a bordo de um brigue americano. Temposdepois um certo Silva, procurador da Casa de Taveira, que o conhe-cera nos Açores, estando na Havana a estudar a cultura do tabacoque os Taveiras queriam implantar nas Ilhas encontrara lá o Mon-forte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando pelo cais,de chinelas de esparto, à procura de embarque para a NovaOrleães. Aqui havia uma treva na história do Monforte. Parece queservira algum tempo de feitor numa plantação da Virgínia... Enfim,quando reapareceu à face dos céus, comandava o brigue NovaLinda, e levava cargas de pretos para o Brasil, para a Havana epara a Nova Orleães. Escapara aos cruzeiros ingleses, arrancara uma fortuna da peledo africano, e agora rico, homem de bem, proprietário, ia ouvir aCorelli a S. Carlos. Todavia esta terrível crónica, como dizia o Alen-car, obscura e mal provada, claudicava aqui e além... — E a filha? — perguntou Pedro, que o escutara, sério e pálido. Mas isso não o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assimtão loira e bela? Quem fora a mamã? Onde estava? Quem a ensinaraa embrulhar-se com aquele gesto real no seu xale de Caxemira?... — Isso, meu Pedro, são mistérios que jamais pôde Lisboa astuta devassar e só Deus sabe! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 20 Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquela legenda de sanguee negros, o entusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinhasangue de assassino, a beltà do Ticiano era filha de negreiro! As senho-ras, deliciando-se em vilipendiar uma mulher tão loira, tão linda e comtantas jóias, chamaram-lhe logo a negreira! Quando ela aparecia agorano teatro, D. Maria da Gama afectava esconder a face detrás do leque,porque lhe parecia ver na rapariga (sobretudo quando ela usava osseus belos rubis) o sangue das facadas que dera o papazinho!E tinham-na caluniado abominavelmente. Assim, depois de passaremem Lisboa o primeiro Inverno, os Monfortes sumiram-se: pois disse-selogo, com furor, que estavam arruinados, que a polícia perseguia ovelho, mil perversidades... O excelente Monforte, que sofria de reuma-tismos articulares, achava-se tranquilamente, ricamente, tomando aságuas dos Pirenéus... Fora lá que o Melo os conhecera... — Ah! o Melo conhece-os? — exclamou Pedro. — Sim, meu Pedro, o Melo os conhece. Pedro daí a um momento deixou o Marrare; e nessa noite, antesde recolher, apesar da chuva fria e miúda, andou rondando umahora, com a imaginação toda acesa, o palacete dos Vargas, apagadoe mudo. Depois, daí a duas semanas o Alencar, entrando em S. Car-los ao fim do primeiro acto do Barbeiro, ficou assombrado ao verPedro da Maia instalado na frisa do Monforte, à frente, ao lado deMaria, com uma camélia escarlate na casaca — igual às de umramo pousado no rebordo de veludo. Nunca Maria Monforte aparecera mais bela: tinha uma dessastoilettes excessivas e teatrais que ofendiam Lisboa, e faziam dizeràs senhoras que ela se vestia «como uma cómica ». Estava de sedacor de trigo, com duas rosas amarelas e uma espiga nas tranças,opalas sobre o colo e nos braços; e estes tons de seara madurabatida do sol, fundindo-se com o ouro dos cabelos, iluminando-lhe acarnação ebúrnea, banhando as suas formas de estátua, davam-lheo esplendor de uma Ceres. Ao fundo entreviam-se os grandes bigo-des loiros do Melo, que conversava de pé com o papá Monforte —escondido como sempre no canto negro da frisa. O Alencar foi observar «o caso» do camarote dos Gamas. Pedrovoltara à sua cadeira, e de braços cruzados contemplava Maria. Elaconservou algum tempo a sua atitude de deusa insensível; masdepois, no dueto de Rosina e Lindor, duas vezes os seus olhos azuise profundos se fixaram nele, gravemente e muito tempo. O Alencarcorreu ao Marrare, de braços ao ar, a berrar a novidade. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 21 Não tardou de resto a falar-se em toda a Lisboa da paixão dePedro da Maia pela negreira. Ele também namorou-a publicamente,à antiga, plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas,com os olhos cravados na janela dela, imóvel e pálido de êxtase. Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel— poemas desordenados que ia compor para o Marrare: e ninguémlá ignorava o destino daquelas páginas de linhas encruzadas que seacumulavam diante dele sobre o tabuleiro da genebra. Se algumamigo vinha à porta do café perguntar por Pedro da Maia, os cria-dos já respondiam muito naturalmente: — O sr. D. Pedro? Está a escrever à menina. E ele mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a mão, excla-mava radiante, com o seu belo e franco sorriso: — Espera aí um bocado, rapaz, estou a escrever à Maria! Os velhos amigos de Afonso da Maia que vinham fazer o seuwhist a Benfica, sobretudo o Vilaça, o administrador dos Maias,muito zeloso da dignidade da casa, não tardaram em lhe trazer anova daqueles amores do Pedrinho. Afonso já os suspeitava: viatodos os dias um criado da quinta partir com um grande ramo dasmelhores camélias do jardim; todas as manhãs cedo encontrava nocorredor o escudeiro, dirigindo-se ao quarto do menino, a cheirarregaladamente o perfume de um envelope com sinete de lacre dou-rado; e não lhe desagradava que um sentimento qualquer, humanoe forte, lhe fosse arrancando o filho à estroinice bulhenta, ao jogo,às melancolias sem razão em que reaparecia o negro ripanço... Mas ignorava o nome, a existência sequer dos Monfortes; e asparticularidades que os amigos lhe revelaram, aquela facada nosAçores, o chicote de feitor na Virgínia, o brigue Nova Linda, toda asinistra legenda do velho contrariou muito Afonso da Maia. Uma noite que o coronel Sequeira, à mesa do whist, contavaque vira Maria Monforte e Pedro passeando a cavalo, ambos muitobem e muito distingués, Afonso, depois de um silêncio, disse comum ar enfastiado: — Enfim, todos os rapazes têm as suas amantes... Os costumessão assim, a vida é assim, e seria absurdo querer reprimir tais coisas.Mas essa mulher com um pai desses, mesmo para amante acho má. O Vilaça suspendeu o baralhar das cartas, e ajeitando os óculosde oiro exclamou com espanto: — Amante! Mas a rapariga é solteira, meu senhor, é umamenina honesta!... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 22 Afonso da Maia enchia o seu cachimbo; as mãos começaram atremer-lhe; e voltando-se para o administrador, numa voz que tre-mia um pouco também: — O Vilaça decerto não supõe que meu filho queira casar comessa criatura... O outro emudeceu. E foi o Sequeira que murmurou: — Isso não, está claro que não... E o jogo continuou algum tempo em silêncio. Mas Afonso da Maia principiou a andar descontente. Passa-vam-se semanas que Pedro não jantava em Benfica. De manhã, seo via, era um momento, quando ele descia ao almoço, já com umaluva calçada, apressado e radiante, gritando para dentro se estavaselado o cavalo; depois, mesmo de pé, bebia um gole de chá, per-guntava a correr «se o papá queria alguma coisa», dava um jeitoao bigode diante do grande espelho de Veneza sobre o fogão, e lápartia, enlevado. Outras vezes todo o dia não saía do quarto: atarde descia, acendiam-se as luzes; até que o pai, inquieto, subia,ia encontrá-lo estirado sobre o leito, com a cabeça enterrada nosbraços. — Que tens tu? — perguntava-lhe. — Enxaqueca — respondia num tom surdo e rouco. E Afonso descia indignado, vendo em toda aquela angústiacobarde alguma carta que não viera, ou talvez uma rosa oferecidaque não fora posta nos cabelos... Depois, por vezes, entre dois robbers ou conversando em voltada bandeja do chá, os seus amigos tinham observações que oinquietavam, partindo daqueles homens que habitavam Lisboa, lheconheciam os rumores — enquanto ele passava ali, Inverno eVerão, entre os seus livros e as suas rosas. Era o excelenteSequeira que perguntava porque não faria Pedro uma viagemlonga, para se instruir, à Alemanha, ao Oriente? Ou o velho LuísRuna, o primo de Afonso, que a propósito de coisas indiferentes,rompia lamentando os tempos em que o Intendente da polícia podialivremente expulsar de Lisboa as pessoas importunas... Evidente-mente aludiam à Monforte, evidentemente julgavam-na perigosa. No Verão, Pedro partiu para Sintra; Afonso soube que os Mon-fortes tinham lá alugado uma casa. Dias depois o Vilaça apareceuem Benfica, muito preocupado: na véspera Pedro visitara-o no car-tório, pedira-lhe informações sobre as suas propriedades, sobre o © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 23meio de levantar dinheiro. Ele lá lhe dissera que em Setembro,chegando à sua maioridade, tinha a legítima da mamã... — Mas não gostei disto, meu senhor, não gostei disto... — E porquê, Vilaça? O rapaz quererá dinheiro, quererá darpresentes à criatura... O amor é um luxo caro, Vilaça. — Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ouça! E aquela confiança tão nobre de Afonso da Maia no orgulhopatrício, nos brios de raça de seu filho, chegava a tranquilizar Vilaça. Daí a dias, Afonso da Maia viu enfim Maria Monforte. Tinhajantado na quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam amboso seu café no mirante, quando entrou pelo caminho estreito queseguia o muro a caleche azul com os cavalos cobertos de redes.Maria, abrigada sob uma sombrinha escarlate, trazia um vestidocor-de-rosa cuja roda, toda em folhos, quase cobria os joelhos dePedro, sentado ao seu lado: as fitas do seu chapéu, apertadas numgrande laço que lhe enchia o peito, eram também cor-de-rosa: e asua face, grave e pura como um mármore grego, aparecia real-mente adorável, iluminada pelos olhos de um azul sombrio, entreaqueles tons rosados. No assento defronte, quase todo tomado porcartões de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapéupanamá, calça de ganga, o mantelete da filha no braço, o guarda--sol entre os joelhos. Iam calados, não viram o mirante; e, no cami-nho verde e fresco, a caleche passou com balanços lentos, sob osramos que roçavam a sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com achávena de café junto aos lábios, de olho esgazeado, murmurando: — Caramba! É bonita! Afonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquela sombrinhaescarlate que agora se inclinava sobre Pedro, quase o escondia,parecia envolvê-lo todo — como uma larga mancha de sangue alas-trando a caleche sob o verde triste das ramas. O Outono passou, chegou o Inverno, frigidíssimo. Uma manhã,Pedro entrou na livraria onde o pai estava lendo junto ao fogão;recebeu-lhe a bênção, passou um momento os olhos por um jornalaberto, e voltando-se bruscamente para ele: — Meu pai — disse, esforçando-se por ser claro e decidido —venho pedir-lhe licença para casar com uma senhora que se chamaMaria Monforte. Afonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e numa voz gravee lenta: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 24 — Não me tinhas falado disso... Creio que é a filha de umassassino, de um negreiro, a quem chamam também a negreira... — Meu pai!... Afonso ergueu-se diante dele, rígido e inexorável como a encar-nação mesma da honra doméstica. — Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.Pedro, mais branco que o lenço que tinha na mão, exclamou todo atremer, quase em soluços: — Pois pode estar certo, meu pai, que hei-de casar! Saiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritoupelo escudeiro, muito alto para que o pai ouvisse, e deu-lhe ordempara levar as suas malas ao Hotel Europa. Dois dias depois Vilaça entrou em Benfica, com as lágrimas nosolhos, contando que o menino casara nessa madrugada — esegundo lhe dissera o Sérgio, procurador do Monforte, ia partir coma noiva para a Itália. Afonso da Maia sentara-se nesse instante à mesa do almoço,posta ao pé do fogão: ao centro, um ramo esfolhava-se num vaso doJapão, à chama forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava onúmero da Grinalda, jornal de versos que ele costumava receber...Afonso ouviu o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrarlentamente o seu guardanapo. — Já almoçou, Vilaça? O procurador, assombrado daquela serenidade, balbuciou: — Já almocei, meu senhor... Então Afonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escu-deiro: — Pode tirar dali esse talher, Teixeira. Daqui por diante há sóum talher à mesa... Sente-se, Vilaça, sente-se. O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indiferença otalher do menino. Vilaça sentara-se. Tudo em redor era correcto ecalmo como nas outras manhãs em que almoçara em Benfica. Ospassos do escudeiro não faziam ruído no tapete fofo; o lume esta-lava alegremente, pondo retoques de oiro nas pratas polidas; o soldiscreto que brilhava fora no azul de Inverno fazia cintilar cristaisde geada nas ramas secas; e à janela o papagaio, muito patuleia eeducado por Pedro, rosnava injúrias aos Cabrais. Por fim Afonso ergueu-se; esteve olhando abstraidamente aquinta, os pavões no terraço; depois ao sair da sala tomou o braço © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 25de Vilaça, apoiou-se nele com força, como se lhe tivesse chegado aprimeira tremura da velhice, e no seu abandono sentisse ali umaamizade segura. Seguiram o corredor, calados. Na livraria Afonsofoi ocupar a sua poltrona ao pé da janela, começou a encher deva-gar o seu cachimbo. Vilaça, de cabeça baixa, passeava ao compridodas altas estantes, nas pontas dos pés, como no quarto de umdoente. Um bando de pardais veio gralhar um momento nos ramosde uma alta árvore que roçava a varanda. Depois houve um silên-cio, e Afonso da Maia disse: — Então, Vilaça, o Saldanha lá foi demitido do Paço?... O outro respondeu vaga e maquinalmente: — É verdade, meu senhor, é verdade... E não se falou mais de Pedro da Maia. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós pág. 26 de 595 Capítulo II P EDRO e Maria, no entanto, numa felicidade de novela, iamdescendo a Itália, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, nessavia sagrada que vai desde as flores e das messes da planície lom-barda até ao mole país de romanza, Nápoles, branca sob o azul.Era lá que tencionavam passar o Inverno, nesse ar sempre tépidojunto a um mar sempre manso, onde as preguiças de noivado têmuma suavidade mais longa... Mas um dia, em Roma, Maria sentiu oapetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar, assim, aos baloiçosdas caleças, só para ir ver lazzaroni engolir fios de macarrão.Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos Elí-sios, e gozarem ali um lindo Inverno de amor! Paris estava seguro,agora, com o príncipe Luís Napoleão... Além disso, aquela velhaItália clássica enfastiava-a já: tantos mármores eternos, tantasMadonas começavam (como ela dizia pendurada languidamente dopescoço de Pedro) a dar tonturas à sua pobre cabeça! Suspirava poruma boa loja de modas, sob as chamas do gás, ao rumor do Boule-vard... Depois tinha medo da Itália, onde todo o mundo conspirava. Foram para França. Mas por fim aquele Paris ainda agitado, onde parecia restarum vago cheiro de pólvora pelas ruas, onde cada face conservavaum calor de batalha, desagradou a Maria. De noite acordava com aMarselhesa; achava um ar feroz à polícia; tudo permanecia triste; eas duquesas, pobres anjos, ainda não ousavam vir ao Bois, commedo dos operários, corja insaciável! Enfim demoraram-se lá até à © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 27Primavera, no ninho que ela sonhara, todo de veludo azul, abrindosobre os Campos Elísios. Depois principiou a falar-se de novo em revolução, em golpe deestado. A admiração absurda de Maria pelos novos uniformes daGarde Mobile fazia Pedro nervoso. E quando ela apareceu grávida,ansiou por a tirar daquele Paris batalhador e fascinante, virabrigá-la na pacata Lisboa adormecida ao sol. Antes de partir, porém, escreveu ao pai. Fora um conselho, quase uma exigência de Maria. A recusa deAfonso da Maia ao princípio desesperara-a. Não a afligia a desu-nião doméstica: mas aquele não afrontoso de fidalgo puritano mar-cara muito publicamente, muito brutalmente, a sua origem sus-peita! Odiou o velho: e tinha apressado o casamento, aquela par-tida triunfante para Itália, para lhe mostrar bem que nada valiamgenealogias, avós godos, brios de família — diante dos seus braçosnus... Agora, porém, que ia voltar a Lisboa, dar soirées, criar corte,a reconciliação tornava-se indispensável; aquele pai retirado emBenfica, com o rígido orgulho de outras idades, faria lembrar cons-tantemente, mesmo entre os seus espelhos e os seus estofos, o bri-gue Nova Linda carregado de negros... E queria mostrar-se a Lis-boa pelo braço desse sogro tão nobre e tão ornamental, com as suasbarbas de vizo-rei. — Diz-lhe que já o adoro — murmurava ela curvada sobre aescrivaninha acariciando os cabelos de Pedro. — Diz-lhe que setiver um pequeno lhe hei-de pôr o nome dele... Escreve-lhe umacarta bonita, hem! E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao papá. O pobre rapazamava-o. Falou-lhe comovido da esperança de ter um filho varão;as desinteligências deviam findar em torno do berço daquelepequeno Maia que ali vinha, morgado e herdeiro do nome... Con-tava-lhe a sua felicidade com uma efusão de namorado indiscreto: ahistória da bondade de Maria, das suas graças, da sua instrução,enchia duas páginas: e jurava-lhe que apenas chegasse não tarda-ria uma hora em ir atirar-se aos seus pés... Com efeito, apenas desembarcou, correu num trem a Benfica.Dois dias antes o pai partira para Santa Olávia: isto pareceu-lheuma desfeita — e feriu-o acerbamente. Fez-se então entre o pai e o filho uma grande separação.Quando lhe nasceu uma filha Pedro não lho participou — dizendo © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 28dramaticamente ao Vilaça «que já não tinha pai!» Era uma lindabebé, muito gorda, loura e cor-de-rosa, com os belos olhos negrosdos Maias. Apesar dos desejos de Pedro, Maria não a quis criar;mas adorava-a com frenesi; passava dias de joelhos ao pé do berço,em êxtase, correndo as suas mãos cheias de pedrarias pelas carni-nhas tenras, pondo-lhe beijos de devota nos pezinhos, nas rosqui-nhas das coxas, balbuciando-lhe num enlevo nomes de grandeamor, e perfumando-a já, enchendo-a já de laçarotes. E nestes delírios pela filha, brotava, mais amarga, a sua cóleracontra Afonso da Maia. Considerava-se então insultada em simesma e naquele querubim que lhe nascera. Injuriava o velhogrosseiramente, chamava-lhe o D. Fuas, o Barbatanas... Pedro um dia ouviu isto, e escandalizou-se: ela replicou desa-bridamente: e diante daquela face abrasada, onde entre lágrimasos olhos azuis pareciam negros de cólera, ele só pôde balbuciartimidamente: — É meu pai, Maria... Seu pai! E à face de toda a Lisboa tratava-a então como umaconcubina! Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de vilão. UmD. Fuas, um Barbatanas, nada mais!... Arrebatou a filha, e abraçada nela, romperam as queixas porentre os prantos: — Ninguém nos ama, meu anjo! Ninguém te quer! Tens só atua mãe! Tratam-te como se fosses bastarda! A bebé, sacudida nos braços da mãe, desatou a gritar. Pedrocorreu, envolveu-as ambas no mesmo abraço, já enternecido, jáhumilde; e tudo terminou num longo beijo. E ele, por fim, no seu coração, justificava aquela cólera de mãeque vê desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos dePedro, o Alencar, o D. João da Cunha, que começavam agora a fre-quentar Arroios, riam daquela obstinação de pai gótico, amuado naprovíncia, porque sua nora não tivera avós mortos em Aljubarrota!E onde havia outra em Lisboa, com aquelas toilettes, aquela graça,recebendo tão bem? Que diabo, o mundo marchara, saíra-se já dasatitudes empertigadas do século XVI! E o próprio Vilaça, um dia que Pedro lhe fora mostrar a pequer-ruchinha adormecida entre as rendas do seu berço, sensibilizou-se,veio-lhe uma das suas fáceis lágrimas, declarou, com a mão nocoração, que aquilo era uma caturrice do Sr. Afonso da Maia! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 29 — Pois pior para ele! Não querer ver um anjo destes! — disseMaria, dando diante do espelho um lindo jeito às flores do cabelo.— Também não faz cá falta... E não fazia falta. Nesse Outubro, quando a pequena completouo seu primeiro ano, houve um grande baile na casa de Arroios, queeles agora ocupavam toda, e que fora ricamente remobilada. E assenhoras que outrora tinham horror à negreira, a D. Maria daGama que escondia a face por trás do leque, lá vieram todas, amá-veis e decotadas, com o beijinho pronto, chamando-lhe «querida»,admirando as grinaldas de camélias que emolduravam os espelhosde quatrocentos mil réis, e gozando muito os gelados. Começara então uma existência festiva e luxuosa, que, segundodizia o Alencar, o íntimo da casa, o cortesão de Madame, «tinha umsaborzinho de orgia distinguée como os poemas de Byron». Eramrealmente as soirées mais alegres de Lisboa: ceava-se à uma horacom champanhe; talhava-se até tarde um monte forte;inventavam-se quadros vivos, em que Maria se mostrava soberana-mente bela sob as roupagens clássicas de Helena ou no luxo som-brio do luto oriental de Judite. Nas noites mais íntimas, ela costu-mava vir fumar com os homens uma cigarrilha perfumada. Muitasvezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a bater àcarambola francesa D. João da Cunha, o grande taco da época. E no meio desta festança, atravessada pelo sopro romântico daRegeneração, lá se via sempre, taciturno e encolhido, o papá Mon-forte, de alta gravata branca, com as mãos atrás das costas ron-dando pelos cantos, refugiado pelos vãos das janelas, mostrando-sesó para salvar alguma bobeche que ia estalar — e não despren-dendo nunca da filha o olho embevecido e senil. Nunca Maria fora tão formosa. A maternidade dera-lhe umesplendor mais copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz àque-las altas salas de Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira,os diamantes das tranças, o ebúrneo e o lácteo do colo nu, e orumor das grandes sedas. Com razão, querendo ter, à maneira dasdamas da Renascença, uma flor que a simbolizasse, escolhera atúlipa real, opulenta e ardente. Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas dovalor de propriedades!... Podia fazê-lo! O marido era rico, e ela semescrúpulo arruiná-lo-ia, a ele e ao papá Monforte... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 30 Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar,esse proclamava-se com alarido «seu cavaleiro e seu poeta». Estavasempre em Arroios, tinha lá o seu talher: por aquelas salas soltavaas suas frases ressoantes, por esses sofás arrastava as suas posesde melancolia. Ia dedicar a Maria (e nada havia mais extraordiná-rio que o tom langoroso e plangente, o olho turvo, fatal, com que elepronunciava este nome — MARIA!), ia dedicar-lhe o seu poema, tãoanunciado, tão esperado — FLOR DE MARTÍRIO! E citavam-seestrofes que lhe fizera ao gosto cantante do tempo: Vi-te essa noite no esplendor das salas Com as loiras tranças volteando louca... A paixão do Alencar era inocente: mas, dos outros íntimos dacasa, mais de um, decerto, balbuciara já a sua declaração no bou-doir azul em que ela recebia às três horas, entre os seus vasos detúlipas; as suas amigas, porém, mesmo as piores, afirmavam queos seus favores nunca teriam passado de alguma rosa dada numvão de janela, ou de algum longo e suave olhar por trás do leque.Pedro todavia começava a ter horas sombrias. Sem sentir ciúmes,vinha-lhe às vezes, de repente, um tédio daquela existência de luxoe de festa, um desejo violento de sacudir da sala esses homens, osseus íntimos, que se atropelavam assim tão ardentemente em voltados ombros decotados de Maria. Refugiava-se então nalgum canto, trincando com furor o cha-ruto: e aí, era em toda a sua alma um tropel de coisas dolorosas esem nome... Maria sabia perceber bem na face do marido «estas nuvens»,como ela dizia. Corria para ele, tomava-lhe ambas as mãos, comforça, com domínio: — Que tens tu, amor? Estás amuado! — Não, não estou amuado... — Olha então para mim!... Colava o seu belo seio contra o peito dele; as suas mãoscorriam-lhe os braços numa carícia lenta e quente, dos pulsos aosombros; depois, com um lindo olhar, estendia-lhe os lábios. Pedrocolhia neles um longo beijo, e ficava consolado de tudo. Durante esse tempo Afonso da Maia não saía das sombras deSanta Olávia, tão esquecido para lá como se estivesse no seu jazigo. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 31Já se não falava dele em Arroios, D. Fuas estava roendo a teima. SóPedro às vezes perguntava a Vilaça «como ia o papá». E as notícias doadministrador enfureciam sempre Maria: o papá estava óptimo; tinhaagora um cozinheiro francês esplêndido; Santa Olávia enchera-se dehóspedes, o Sequeira, André da Ega, D. Diogo Coutinho... — O Barbatanas trata-se! — ia ela dizer ao pai com rancor. E o velho negreiro esfregava as mãos, satisfeito de o saber assimfeliz em Santa Olávia; porque nunca cessara de tremer à ideia de verem Arroios, diante de si, aquele fidalgo tão severo e de vida tão pura. Quando, porém, Maria teve outro filho, um pequeno, o sossegoque então se fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente, aocoração de Pedro, a imagem do pai abandonado naquela tristeza doDouro. Falou a Maria de reconciliação, a medo, aproveitando a fra-queza da convalescença. E a sua alegria foi grande quando Maria,depois de ficar um momento pensativa, respondeu: — Creio que me havia de fazer feliz tê-lo aqui... Pedro, entusiasmado com um assentimento tão inesperado,pensou em abalar para Santa Olávia. Mas ela tinha um planomelhor: Afonso, segundo dizia o Vilaça, devia recolher em breve aBenfica; pois bem, ela iria lá com o pequeno, toda vestida de preto,e de repente, atirando-se-lhe aos pés, pedir-lhe-ia a bênção para oseu neto! Não podia falhar! Não podia, realmente; e Pedro viu aliuma alta inspiração de maternidade... Para abrandar desde já o papá, Pedro quis dar ao pequeno onome de Afonso. Mas nisso Maria não consentiu. Andava lendouma novela de que era herói o último Stuart, o romanesco príncipeCarlos Eduardo; e, namorada dele, das suas aventuras e desgraças,queria dar esse nome a seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um talnome parecia-lhe conter todo um destino de amores e façanhas. O baptizado teve de ser retardado; Maria adoecera com umaangina. Foi muito benigna porém; e daí a duas semanas Pedro podiajá sair para uma caçada na sua quinta da Tojeira, adiante deAlmada. Devia demorar-se dois dias. A partida arranjara-se unica-mente para obsequiar um italiano, chegado por então a Lisboa, dis-tinto rapaz que lhe fora apresentado pelo secretário da Legaçãoinglesa, e com quem Pedro simpatizara vivamente; dizia-se sobrinhodos príncipes de Sória; e vinha fugido de Nápoles, onde conspiraracontra os Bourbons e fora condenado à morte. O Alencar e D. JoãoCoutinho iam também à caçada — e a partida foi de madrugada. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 32 Nessa tarde, Maria jantava só no seu quarto, quando sentiucarruagens parando à porta, um grande rumor encher a escada;quase imediatamente Pedro aparecia-lhe trémulo e enfiado: — Uma grande desgraça, Maria! — Jesus! — Feri o rapaz, feri o napolitano!... — Como? Um desastre estúpido!... Ao saltar um barranco, a espingardadisparara-se-lhe, e a carga, zás, vai cravar-se no napolitano! Nãoera possível fazer curativos na Tojeira, e voltaram logo a Lisboa.Ele naturalmente não consentira que o homem que tinha feridorecolhesse ao hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verdepor cima, mandara chamar o médico, duas enfermeiras para ovelar, e ele mesmo lá ia passar a noite... — E ele? — Um herói!... Sorri, diz que não é nada, mas eu vejo-o pálidocomo um morto. Um rapaz adorável! Isto só a mim, Senhor! Eentão o Alencar, que ia mesmo ao pé dele... Podia antes ter ferido oAlencar, um rapaz íntimo, de confiança! Até a gente se ria. Masnão, zás, logo o outro, o de cerimónia... Uma sege, nesse instante, entrava o pátio. — É o médico! E Pedro abalou. Voltou daí a pouco, mais tranquilo. O Dr. Guedes quase riradaquela bagatela, uma chumbada no braço, e alguns grãos perdidosnas costas. Prometera-lhe que daí a duas semanas podia caçaroutra vez na Tojeira; e o príncipe estava já fumando o seu charuto.Belo rapaz! Parecia simpatizar com o papá Monforte. Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitação vaga que lhedava aquela ideia de um príncipe entusiasta, conspirador, conde-nado à morte, ferido agora, por cima do seu quarto. Logo de manhã cedo — apenas Pedro saíra a fazer transportar,ele mesmo, do hotel, as bagagens do napolitano — Maria mandou asua criada francesa de quarto, uma bela moça de Arles, acima,saber da parte dela como Sua Alteza passara, e «ver que figuratinha». A arlesiana apareceu, com os olhos brilhantes, a dizer àsenhora, nos seus grandes gestos de provençal, que nunca vira umhomem tão formoso! Era uma pintura de Nosso Senhor JesusCristo! Que pescoço, que brancura de mármore! Estava muito © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 33pálido ainda; agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia;e ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros... Maria, desde então, não pareceu interessar-se mais pelo ferido.Era Pedro que vinha, a cada instante, falar-lhe dele, entusiasmado poraquela existência patética de príncipe conspirador, partilhando já oseu ódio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos queencontrava nele, o mesmo amor da caça, dos cavalos, das armas. Agoralogo de manhã, subia para o quarto do príncipe, de robe-de-chambre ecachimbo na boca, e passava lá horas numa camaradagem, fazendogrogues quentes — permitidos pelo Dr. Guedes. Levava mesmo para láos seus amigos, o Alencar, o D. João da Cunha. Maria sentia-lhes porcima as risadas. Às vezes tocava-se viola. E o velho Monforte, pas-mado para o herói, não cessava de lhe rondar o leito. A arlesiana, essa, também a cada momento aparecia lá a levartoalhas de rendas, um açucareiro que ninguém reclamara, ou algumvaso com flores para alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou aPedro, muito séria, se além de todos os amigos da casa, duas enfer-meiras, dois escudeiros, o papá e ele Pedro — era necessária tam-bém constantemente a sua própria criada no quarto de Sua Alteza! Não era. Mas Pedro riu muito à ideia de que a arlesiana setivesse namorado do príncipe. Nesse caso Vénus era-lhe propícia! Onapolitano também a achava picante: un très joli brin de femme,tinha ele dito. A bela face de Maria empalideceu de cólera. Julgava tudo issode mau gosto, grosseiro, impudente! Pedro fora realmente umdoido em trazer assim para a intimidade de Arroios um estran-geiro, um fugido, um aventureiro! Demais, aquela troça em cima,entre grogues quentes, com guitarra, sem respeito por ela, aindatoda nervosa, toda fraca da convalescença, indignava-a! ApenasSua Alteza pudesse acomodar-se com almofadas numa sege,queria-o fora, na estalagem... — O que aí vai! Jesus! O que aí vai!... — disse Pedro. — É assim. E decerto foi muito severa também com a arlesiana, porquenessa tarde Pedro encontrou a moça aos ais no corredor, limpandoao avental os olhos afogueados. Daí a dias, porém, o napolitano, já convalescente, quis recolherao seu hotel. Não vira Maria: mas em agradecimento da sua hospi-talidade, mandou-lhe um admirável ramo, e, com uma galanteria de © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 34príncipe artista da Renascença, um soneto em italiano enroladoentre as flores e tão perfumado como elas: comparava-a a umanobre dama da Síria, dando a gota de água da sua bilha ao cavaleiroárabe, ferido na estrada ardente; comparava-a à Beatriz do Dante. Isto afigurou-se a todos de uma rara distinção, e, como disse oAlencar, um rasgo à Byron. Depois, na soirée do baptizado Carlos Eduardo, dada daí a umasemana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era umhomem esplêndido, feito como um Apolo, de uma palidez de már-more rico: a sua barba curta e frisada, os seus longos cabelos casta-nhos, cabelos de mulher, ondeados e com reflexos de oiro, apartadosà nazarena — davam-lhe realmente, como dizia a arlesiana, umafisionomia de belo Cristo. Dançou apenas uma contradança com Maria, e pareceu, na ver-dade, um pouco taciturno e orgulhoso: mas tudo nele fascinava, asua figura, o seu mistério, até o seu nome de Tancredo. Muitoscorações de mulher palpitavam quando ele encostado a umaombreira, de claque na mão, uma melancolia na face, exalando oencanto patético de um condenado à morte, derramava lentamentepela sala o langor sombrio do seu olhar de veludo. A marquesa deAlvenga, para o examinar de perto, pediu o braço a Pedro, e foiaplicar-lhe, como a um mármore de museu, a sua luneta de oiro. — É de apetite! — exclamou ela. — É uma imagem!... E sãoamigos, são amigos, Pedro? — Somos como dois irmãos de armas, minha senhora. Nessa mesma soirée, o Vilaça informara Pedro que o pai eraesperado no dia seguinte em Benfica. E Pedro, logo que se recolhe-ram, falou a Maria em «irem fazer a grande cena ao papá». Ela,porém, recusou, e com as razões mais imprevistas, as mais sensa-tas. Tinha cogitado muito! Reconhecia agora que um dos motivosdaquela teima do papá — ultimamente chamava-lhe sempre o papá— era essa extraordinária existência de Arroios... — Mas, filha — disse Pedro — escuta, nós não vivemos tambémem plena orgia... Alguns amigos que vêm... Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter uminterior mais calmo e mais doméstico. Era mesmo melhor para osbebés. Pois bem, queria que o papá estivesse convencido dessatransformação, para que as pazes fossem mais fáceis e eternas. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 35 — Deixa passar dois ou três meses... Quando ele souber como nósvivemos quietinhos, eu o trarei, sossega... É bom também que sejaquando meu pai partir para as águas, para os Pirenéus. Que o pobrepapá, coitado, tem medo do teu... Filho, não achas assim melhor? — És um anjo — foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas asmãos. Toda a antiga maneira de Maria pareceu com efeito ir mudando.Suspendera as soirées. Começou a passar as noites muito recolhi-das, com alguns íntimos, no seu boudoir azul. Já não fumava; aban-donara o bilhar; e vestida de preto, com uma flor nos cabelos, faziacrochet ao pé do candeeiro. Estudava-se música clássica quandovinha o velho Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entraratambém na gravidade, recitava traduções de Klopstock. Falava-secom sisudez de política; Maria era muito regeneradora. E todas essas noites, Tancredo lá estava, indolente e belo, dese-nhando alguma flor para ela bordar, ou tangendo à guitarra cançõespopulares de Nápoles. Todos ali o adoravam; mas ninguém mais queo velho Monforte, que passava horas, enterrado na sua alta gravata,contemplando o príncipe com enternecimento. Depois, de repente,erguia-se, atravessava a sala, ia-se debruçar sobre ele, palpá-lo,senti-lo, respirá-lo, murmurando no seu francês de embarcadiço: — Ça aller bien... Hein? Beaucoup bien... Ora estimo... E estas correntes bruscas de afecto comunicavam-se decerto,porque nesse momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sor-risos para o papá ou vinha beijá-lo na testa. De dia ocupava-se de coisas sérias. Organizara uma útil asso-ciação de caridade, a Obra Pia dos Cobertores, com o fim de fazerno Inverno às famílias necessitadas distribuições de agasalhos; epresidia no salão de Arroios, com uma campainha, às reuniões emque se elaboravam os estatutos. Visitava os pobres. Ia tambémamiudadas vezes a uma devoção às igrejas, toda vestida de preto, apé, com um véu muito espesso no rosto. O esplendor da sua beleza aparecia agora velado por uma som-bra tocante de ternura grave: a Deusa idealizava-se em Madona; enão era raro ouvi-la de repente suspirar sem razão. Ao mesmo tempo a sua paixão pela filha crescia. Tinha entãodois anos e estava realmente adorável; vinha todas as noites ummomento à sala, vestida com um luxo de princesa; e as exclamações,os êxtases de Tancredo não findavam! Fizera-lhe o retrato a carvão, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 36a esfuminho, a aguarela; ajoelhava-se para lhe beijar a mãozinhacor-de-rosa, como ao bambino sagrado. E Maria, agora, apesar dosprotestos de Pedro, dormia sempre com ela entre os braços. Ao começo desse Setembro o velho Monforte partiu para osPirenéus. Maria chorou, dependurada do pescoço do velho, como seele largasse de novo para as travessias de África. Ao jantar, porém, chegou já consolada e radiante; e Pedro vol-tou a falar da reconciliação, parecendo-lhe bom o momento de ir aBenfica recuperar para sempre aquele papá tão teimoso... — Ainda não — disse ela reflectindo, olhando o seu cálice deBordéus. — Teu pai é uma espécie de santo, ainda o não merece-mos... Mais para o Inverno. Uma sombria tarde de Dezembro, de grande chuva, Afonso daMaia estava no seu escritório lendo, quando a porta se abriu vio-lentamente, e, alçando os olhos do livro, viu Pedro diante de si.Vinha todo enlameado, desalinhado, e na sua face lívida, sob oscabelos revoltos, luzia um olhar de loucura. O velho ergueu-se ater-rado. E Pedro sem uma palavra atirou-se aos braços do pai, rompeua chorar perdidamente. — Pedro! Que sucedeu, filho? Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, à ideia dofilho livre para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo à suasolidão os dois netos, toda uma descendência para amar! E repetia,trémulo também, desprendendo-o de si com grande amor: — Sossega, filho, que foi? Pedro então caiu para o canapé, como cai um corpo morto; elevantando para o pai um rosto devastado, envelhecido, disse, pala-vra a palavra, numa voz surda: — Estive fora de Lisboa dois dias... Voltei esta manhã... AMaria tinha fugido de casa com a pequena... Partiu com umhomem, um italiano... E aqui estou! Afonso da Maia ficou diante do filho, quedo, mudo, como umafigura de pedra; e a sua bela face, onde todo o sangue subira,enchia-se, pouco a pouco, de uma grande cólera. Viu, num relance, oescândalo, a cidade galhofando, as compaixões, o seu nome pela lama.E era aquele filho que, desprezando a sua autoridade, ligando-se aessa criatura, estragara o sangue da raça, cobria agora a sua casa devexame. E ali estava, ali jazia sem um grito, sem um furor, um arran- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 37que brutal de homem traído! Vinha atirar-se para um sofá, chorandomiseravelmente! Isto indignou-o, e rompeu a passear pela sala, rígidoe áspero, cerrando os lábios para que não lhe escapassem as palavrasde ira e de injúria que lhe enchiam o peito em tumulto... — Mas erapai: ouvia, ali ao seu lado, aquele soluçar de funda dor; via tremeraquele pobre corpo desgraçado que ele outrora embalara nos braços...Parou junto de Pedro, tomou-lhe gravemente a cabeça entre as mãos,e beijou-o na testa, uma vez, outra vez, como se ele fosse aindacriança, restituindo-lhe ali e para sempre a sua ternura inteira. — Tinha razão, meu pai, tinha razão — murmurava Pedroentre lágrimas. Depois ficaram calados. Fora, as pancadas sucessivas da chuvabatiam a casa, a quinta, num clamor prolongado; e as árvores, sobas janelas, ramalhavam num vasto vento de Inverno. Foi Afonso que quebrou o silêncio: — Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? Não é sóchorar... — Não sei nada — respondeu Pedro num longo esforço. — Seique fugiu. Eu saí de Lisboa na segunda-feira. Nessa mesma noite,ela partiu de casa numa carruagem, com uma maleta, o cofre dejóias, uma criada italiana que tinha agora, e a pequena. Disse àgovernanta e à ama do pequeno que ia ter comigo. Elas estranha-ram, mas que haviam de dizer?... Quando voltei, achei esta carta. Era um papel já sujo, e desde essa manhã decerto muitas vezesrelido, amarrotado com fúria. Continha estas palavras: «É uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me,que não sou digna de ti, e levo a Maria, que me não posso separardela.» — E o pequeno, onde está o pequeno? — exclamou Afonso. Pedro pareceu recordar-se: — Está lá dentro com a ama, trouxe-o na sege. — O velho correu, logo; e daí a pouco aparecia, erguendo nosbraços o pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a suatouca de rendas. Era gordo, de olhos muito negros, com uma adorá-vel bochecha fresca e cor-de-rosa. Todo ele ria, grulhando, agitandoo seu guizo de prata. A ama não passou da porta, tristonha, com osolhos no tapete e uma trouxazinha na mão. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 38 Afonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e acomodou oneto no colo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bela luz de ternura;parecia esquecer a agonia do filho, a vergonha doméstica; agora sóhavia ali aquela facezinha tenra, que se lhe babava nos braços... — Como se chama ele? — Carlos Eduardo — murmurou a ama. — Carlos Eduardo, hem? Ficou a olhá-lo muito tempo, como procurando nele os sinais dasua raça: depois tomou-lhe na sua as duas mãozinhas vermelhasque não largavam o guizo, e muito grave, como se a criança o perce-besse, disse-lhe: — Olha bem para mim. Eu sou o avô. É necessário amar o avô! E àquela forte voz, o pequeno, com efeito, abriu os seus lindosolhos para ele, sérios de repente, muito fixos, sem medo das barbasgrisalhas: depois rompeu a pular-lhe nos braços, desprendeu amãozinha, e martelou-lhe furiosamente a cabeça com o guizo. Toda a face do velho sorria àquela viçosa alegria; apertou-o aoseu largo peito muito tempo, pôs-lhe na face um beijo longo, conso-lado, enternecido, o seu primeiro beijo de avô; depois, com todo ocuidado, foi colocá-lo nos braços da ama. — Vá, ama, vá... A Gertrudes já lá anda a arranjar-lhe oquarto, vá ver o que é necessário. Fechou a porta, e veio sentar-se junto do filho, que se nãomovera do canto do sofá nem despregara os olhos do chão. — Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos nãovemos há três anos, filho... — Há mais de três anos — murmurou Pedro. Ergueu-se, alongou a vista à quinta, tão triste sob a chuva;depois, derramando-a morosamente pela livraria, considerou ummomento o seu próprio retrato, feito em Roma aos doze anos, todode veludo azul, com uma rosa na mão. E repetia ainda amarga-mente: — Tinha razão, meu pai, tinha razão... E pouco a pouco, passeando e suspirando, começou a falardaqueles últimos anos, o Inverno passado em Paris, a vida emArroios, a intimidade do italiano na casa, os planos de reconcilia-ção, por fim aquela carta infame, sem pudor, invocando a fatali-dade, arremessando-lhe o nome do outro!... No primeiro momentotivera só ideias de sangue e quisera persegui-los. Mas conservara © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 39um clarão de razão. Seria ridículo, não é verdade? Decerto a fugafora de antemão preparada, e não havia de ir correndo as estala-gens da Europa à busca de sua mulher... Ir lamentar-se à polícia,fazê-los prender? Uma imbecilidade; nem impedia que ela fosse jápor esses caminhos fora dormindo com outro... Restava-lhesomente o desprezo. Era uma bonita amante que tivera algunsanos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho, semmãe, com um mau nome. Paciência! Necessitava esquecer, partirpara uma longa viagem, para a América talvez; e o pai veria, haviade voltar consolado e forte. Dizia estas coisas sensatas, passeando devagar, com o charutoapagado nos dedos, numa voz que se calmava. Mas de repenteparou diante do pai, com um riso seco, um brilho feroz nos olhos. — Sempre desejei ver a América, e é boa ocasião agora... É umaocasião famosa, hem? Posso até naturalizar-me, chegar a presi-dente, ou rebentar... Ah! Ah! — Sim, mais tarde, depois pensarás nisso, filho — acudiu ovelho assustado. Nesse momento a sineta do jantar começou a tocar lentamente,ao fundo do corredor. — Ainda janta cedo, hem? — disse Pedro. Teve um suspiro cansado e lento, murmurou: — Nós jantávamos às sete... Quis então que o pai fosse para a mesa. Não havia motivo paraque se não jantasse. Ele ia um bocado acima, ao seu antigo quartode solteiro... Ainda lá tinha a cama, não é verdade? Não, não queriatomar nada... — O Teixeira que me leve um cálice de genebra... Ainda cá estáo Teixeira, coitado! E vendo Afonso sentado, repetiu, já impaciente: — Vá jantar, meu pai, vá jantar, pelo amor de Deus... Saiu. O pai ouviu-lhe os passos por cima, e o ruído de janelasdesabridamente abertas. Foi então andando para a sala de jantar,onde os criados, que, pela ama, sabiam decerto o desgosto, semoviam em pontas de pés, com a lentidão contristada de uma casaonde há morte. Afonso sentou-se à mesa só; mas já lá estava outravez o talher de Pedro; rosas de Inverno esfolhavam-se num vaso doJapão; e o velho papagaio agitado com a chuva mexia-se furiosa-mente no poleiro. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 40 Afonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltronapara junto do fogão; e ali ficou envolvido pouco a pouco naquelemelancólico crepúsculo de Dezembro, com os olhos no lume, escu-tando o sudoeste contra as vidraças, pensando em todas as coisasterríveis que assim invadiam num tropel patético a sua paz de velho.Mas no meio da sua dor, funda como era, ele percebia um ponto, umrecanto do seu coração onde alguma coisa de muito doce, de muitonovo, palpitava com uma frescura de renascimento, como se alguresno seu ser estivesse rompendo, borbulhando, uma nascente rica dealegrias futuras; e toda a sua face sorria à chama alegre, revendo abochechinha rosada, sob as rendas brancas da touca... Pela casa no entanto tinham-se acendido as luzes. Já inquieto,subiu ao quarto do filho; estava tudo escuro, tão húmido e frio comose a chuva caísse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quandochamou, a voz de Pedro veio do negro da janela; estava lá, com avidraça aberta, sentado fora na varanda, voltado para a noitebrava, para o sombrio rumor das ramagens, recebendo na face ovento, a água, toda a invernia agreste. — Pois estás aqui, filho! — exclamou Afonso. — Os criadoshão-de querer arranjar o quarto, desce um momento... Estás todomolhado, Pedro. Apalpava-lhe os joelhos, as mãos regeladas. Pedro ergueu-se comum estremeção, desprendeu-se, impaciente daquela ternura do velho. — Querem arranjar o quarto, hem? Faz-me bem o ar, faz-metão bem! O Teixeira trouxe luzes, e atrás dele apareceu o criado dePedro, que chegara nesse momento de Arroios, com um largo estojode viagem recoberto de oleado. As malas tinha-as deixado embaixo; e o cocheiro viera também, como nenhum dos senhoresestava em casa... — Bem, bem — interrompeu Afonso. — O Sr. Vilaça lá irá ama-nhã, e ele dará as ordens. O criado então, em bicos de pés, foi depor o estojo sobre o már-more da cómoda: ainda lá restavam antigos frascos de toilette dePedro: e os castiçais sobre a mesa alumiavam o grande leito tristede solteiro com os colchões dobrados ao meio. A Gertrudes, toda atarefada, entrara com os braços carregadosde roupa de cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; ocriado de Arroios, pousando o chapéu a um canto, e sempre em pon- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 41tas de pés, veio ajudá-los também. Pedro, no entanto, como sonâm-bulo, voltara para a varanda, com a cabeça à chuva, atraído poraquela treva da quinta que se cavava em baixo com um rumor demar bravo. Afonso, então, puxou-lhe o braço quase com aspereza. — Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento. Ele seguiu maquinalmente o pai à livraria, mordendo o charutoapagado que desde tarde conservava na mão. Sentou-se longe daluz, ao canto do sofá, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo sóos passos lentos do velho, ao comprido das altas estantes, quebra-ram o silêncio em que toda a sala ia adormecendo. Uma brasa mor-ria no fogão. A noite parecia mais áspera. Eram de repente vergas-tadas de água contra as vidraças, trazidas numa rajada, que longa-mente, num clamor teimoso, faziam escoar um dilúvio dos telha-dos; depois havia uma calma tenebrosa, com uma sussurração dis-tante de vento fugindo entre ramagens; nesse silêncio as goteiraspunham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria maisfuriosa, envolvia a casa num bater de janelas, redemoinhava, par-tia com silvos desolados. — Está uma noite de Inglaterra — disse Afonso, debruçando-sea espertar o lume. Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. Decertoo ferira a ideia de Maria, longe, num quarto alheio, agasalhando-seno leito do adultério entre os braços do outro. Apertou um instantea cabeça nas mãos, depois veio junto do pai, com o passo mal firme,mas a voz muito calma: — Estou realmente cansado, meu pai, vou-me deitar. Boanoite... Amanhã conversaremos mais. Beijou-lhe a mão e saiu devagar. Afonso demorou-se ainda ali, com um livro na mão, sem ler,atento só a algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia emsilêncio. Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde sefizera a cama da ama. A Gertrudes, o criado de Arroios, o Teixeira,estavam lá cochichando ao pé da cómoda, na penumbra que davaum fólio posto diante do candeeiro; todos se esquivaram em pontasde pés quando lhe sentiram os passos, e a ama continuou a arru-mar em silêncio os gavetões. No vasto leito o pequeno dormia comoum Menino Jesus cansado, com o seu guizo apertado na mão. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 42Afonso não ousou beijá-lo, para o não acordar com as barbas áspe-ras; mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa contra aparede, deu um jeito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a suador calmar-se naquela sombra de alcova onde o seu neto dormia. — É necessário alguma coisa, ama? — perguntou abafando a voz. — Não, meu senhor... Então, sem ruído, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fendaclara, entreabriu a porta. O filho escrevia, à luz de duas velas, como estojo aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pai: e na faceque ergueu, envelhecida e lívida, dois sulcos negros faziam-lhe osolhos mais refulgentes e duros. — Estou a escrever — disse ele. Esfregou as mãos, como arrepiado da friagem do quarto, eacrescentou: — Amanhã cedo é necessário que o Vilaça vá a Arroios... Estãolá os criados, tenho lá dois cavalos meus, enfim, uma porção dearranjos. Eu estou-lhe a escrever. É número 32 a casa dele, não é?O Teixeira há-de saber... Boas noites, papá, boas noites. No seu quarto, ao lado da livraria, Afonso não pôde sossegar,numa opressão, uma inquietação que a cada momento o faziaerguer sobre o travesseiro, escutar: agora, no silêncio da casa e dovento que calmara, ressoavam por cima, lentos e contínuos, os pas-sos de Pedro. A madrugada clareava, Afonso ia adormecendo — quando derepente um tiro atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gri-tando: um criado acudia também com uma lanterna. Do quarto dePedro, ainda entreaberto, vinha um cheiro de pólvora; e aos pés dacama, caído de bruços, numa poça de sangue que se ensopava notapete, Afonso encontrou o seu filho morto, apertando uma pistolana mão. Entre as duas velas que se extinguiam, com fogachos lívidos,deixara-lhe uma carta lacrada com estas palavras sobre o envelope,numa letra firme: Para o papá. Daí a dias fechou-se a casa de Benfica. Afonso da Maia partiacom o neto e com todos os criados para a Quinta de Santa Olávia. Quando Vilaça, em Fevereiro, foi lá acompanhar o corpo dePedro, que ia ser depositado no jazigo de família, não pôde conteras lágrimas ao avistar aquela vivenda onde passara tão alegres © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 43Natais. Um baetão preto recobria o brasão de armas, e esse panode esquife parecia ter destingido todo o seu negrume sobre afachada muda, sobre os castanheiros que ornavam o pátio; dentroos criados abafavam a voz, carregados de luto; não havia uma flornas jarras; o próprio encanto de Santa Olávia, o fresco cantar daságuas vivas por tanques e repuxos, vinha agora com a cadênciasaudosa de um choro. E Vilaça foi encontrar Afonso na livraria,com as janelas cerradas ao lindo sol de Inverno, caído para umapoltrona, a face cavada sob os cabelos crescidos e brancos, as mãosmagras e ociosas sobre os joelhos. O procurador veio dizer para Lisboa que o velho não durava umano. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós pág. 44 de 595 Capítulo III M AS esse ano passou, outros anos passaram. Por uma manhã de Abril, nas vésperas de Páscoa, Vilaça che-gava de novo a Santa Olávia. Não o esperavam tão cedo; e como era o primeiro dia bonitodessa Primavera chuvosa, os senhores andavam para a quinta. Omordomo, o Teixeira, que ia já embranquecendo, mostrou-se todosatisfeito de ver o senhor administrador, com quem às vezes se cor-respondia, e conduziu-o à sala de jantar, onde a velha governanta,a Gertrudes, tomada de surpresa, deixou cair uma pilha de guarda-napos, para lhe saltar ao pescoço. As três portas envidraçadas estavam abertas para o terraço,que se estendia ao sol, com a sua balaustrada de mármore cobertade trepadeiras: e Vilaça, adiantando-se para os degraus que des-ciam ao jardim, mal pôde reconhecer Afonso da Maia naquele velhode barba de neve, mas tão robusto e corado, que vinha subindo arua de romãzeiras com o seu neto pela mão. Carlos, ao avistar no terraço um desconhecido, de chapéu alto,abafado num cache-nez de pelúcia, correu a mirá-lo, curioso — eachou-se arrebatado nos braços do bom Vilaça, que largara oguarda-sol, o beijava pelo cabelo, pela face, balbuciando: — Oh! meu menino, meu querido menino! Que lindo que está!que crescido que está… — Então, sem avisar, Vilaça? — exclamava Afonso da Maia,chegando de braços abertos. — Nós só o esperávamos para asemana, criatura! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 45 Os dois velhos abraçaram-se; depois um momento os seus olhosencontraram-se, vivos e húmidos, e tornaram a apertar-se comovi-dos. Carlos ao lado, muito sério, todo esbelto, com as mãos enterra-das nos bolsos das suas largas bragas de flanela branca, o casqueteda mesma flanela posto de lado sobre os belos anéis do cabelo negro— continuava a mirar o Vilaça, que, com o beiço trémulo, tendotirado a luva, limpava os olhos por baixo dos óculos. — E ninguém a esperá-lo, nem um criado lá em baixo no rio! —dizia Afonso. — Enfim, cá o temos, é o essencial... E como você estárijo, Vilaça! — E Vossa Excelência, meu senhor! — balbuciou o administra-dor, engolindo um soluço. — Nem uma ruga! Branco sim, mas umacara de moço... Eu nem o conhecia!... Quando me lembro, a últimavez que o vi... E cá isto! cá esta linda flor!... Ia abraçar Carlos outra vez entusiasmado, mas o rapazfugiu-lhe com uma bela risada, saltou do terraço, foi pendurar-sede um trapézio armado entre as árvores, e ficou lá, balançando-seem cadência, forte e airoso, gritando: «Tu és o Vilaça!» O Vilaça, de guarda-sol debaixo do braço, contemplava-o embe-vecido. — Está uma linda criança! Faz gosto! E parece-se com o pai. Osmesmos olhos, olhos dos Maias, o cabelo encaracolado... Mas há-deser muito mais homem! — É são, é rijo — dizia o velho risonho, anediando as barbas. —E como ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando é esse casamento?Venha você cá para dentro, Vilaça, que há muito que conversar... Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha nachaminé de azulejo esmorecia na fina e larga luz de Abril; porcela-nas e pratas resplandeciam nos aparadores de pau-santo; os caná-rios pareciam doidos de alegria. A Gertrudes, que ficara a observar, acercou-se, com as mãoscruzadas sob o avental branco, familiar, terna. — Então, meu senhor, aqui está um regalo, ver outra vez esteingrato em Santa Olávia! E, com um clarão de simpatia na face, alva e redonda comouma velha Lua, ornada já de um buço branco: — Ah! Sr. Vilaça, isto agora é outra coisa! Até os canários can-tam! E também eu cantava, se ainda pudesse... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 46 E foi saindo, subitamente comovida, já com vontade de chorar. O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia deuma a outra ponta dos seus altos colarinhos de mordomo. — Eu creio que prepararam o quarto azul ao Sr. Vilaça, hem?— disse Afonso. — No quarto em que você costumava ficar dormeagora a viscondessa... Então o Vilaça apressou-se a perguntar pela senhora viscon-dessa. Era uma Runa, uma prima da mulher de Afonso, que notempo em que os poetas de Caminha a cantavam, casara com umfidalgote galego, o senhor visconde de Urigo de La Sierra, um bor-racho, um brutal que lhe batia: depois, viúva e pobre, Afonso reco-lhera-a por dever de parentela, e para haver uma senhora emSanta Olávia. Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relógio, Afonsointerrompeu a relação desses achaques. — Vilaça, vá-se arranjar, depressa, que daqui a pouco é o jan-tar. O administrador, surpreendido, olhou também o relógio, depoisa mesa já posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas dePorto. — Então Vossa Excelência agora janta de manhã? Eu penseique era o almoço... — Eu lhe digo. O Carlos necessita ter um regime. De madru-gada está já na quinta; almoça às sete; e janta à uma hora. E eu,enfim, para vigiar as maneiras do rapaz... — E o senhor Afonso da Maia — exclamou Vilaça — a mudar dehábitos, nessa idade! O que é ser avô, meu senhor! — Tolice! não é isso... É que me faz bem. Olhe que me fazbem!... Mas avie-se, Vilaça, avie-se que Carlos não gosta de espe-rar... Talvez tenhamos o abade. — O Custódio? Rica coisa! Então, se Vossa Excelência me dálicença... Apenas no corredor, o mordomo, ansioso por conversar com osenhor administrador, perguntou-lhe, desembaraçando-o doguarda-sol e do xale-manta: — Com franqueza, como nos acha por cá, pela quinta, Sr.Vilaça? — Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir porgosto a Santa Olávia. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 47 E, pousando familiarmente a mão no ombro do escudeiro, pis-cando o olho ainda húmido: — Tudo isto é o menino. Fez reviver o patrão! O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente era a ale-gria da casa... — Olá! Quem toca por cá? — exclamou Vilaça, parando nosdegraus da escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rabeca. — É o Sr. Brown, o inglês, o preceptor do menino... Muito habi-lidoso, é um regalo ouvi-lo; toca às vezes à noite na sala, o senhorjuiz de direito acompanha-o na concertina... Aqui, Sr. Vilaça, oquarto de Vossa Senhoria... — Muito bonito, sim senhor! O verniz dos móveis novos brilhava na luz da duas janelas,sobre o tapete alvadio semeado de florzinhas azuis: e as bambine-las, os reposteiros de cretone, repetiam as mesmas folhagens azula-das sobre fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou obom Vilaça. Foi logo apalpar os cretones, esfregou o mármore da cómoda,provou a solidez das cadeiras. Eram as mobílias compradas noPorto, hem? Pois, elegantes. E, realmente, não tinham sido caras.Nem ele fazia ideia! Ficou ainda em bicos de pés a examinar duasaguarelas inglesas representando vacas de luxo deitadas na relva,à sombra de ruínas românticas. O Teixeira observou-lhe, com orelógio na mão: — Olhe que Vossa Senhoria tem só dez minutos... O meninonão gosta de esperar. Então Vilaça decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou oseu pesado colete de malha de lã; e pela camisa entreaberta via-seainda uma flanela escarlate, por causa dos reumatismos, e os ben-tinhos de seda bordada. O Teixeira desapertava as correias damaleta; ao fundo do corredor, a rabeca atacara o Carnaval deVeneza; e através das janelas fechadas sentia-se o grande ar, a fres-cura, a paz dos campos, todo o verde de Abril. Vilaça, sem óculos, um pouco arrepiado, passava a ponta datoalha molhada pelo pescoço, por trás da orelha, e ia dizendo: — Então o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hem? Já sesabe, é ele quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente... Mas o Teixeira, muito grave, muito sério, desiludiu o senhoradministrador. Mimos e mais mimos, dizia Sua Senhoria? Coitadi- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 48nho dele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se elefosse a contar ao Sr. Vilaça! Não tinha a criança cinco anos já dor-mia num quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, paradentro de uma tina de água fria, às vezes a gear lá fora... E outrasbarbaridades. Se não se soubesse a grande paixão do avô pelacriança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele,Teixeira, chegara a pensá-lo... Mas não, parece que era sistemainglês! Deixava-o correr, cair, trepar às árvores, molhar-se, apa-nhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o rigor com ascomidas! Só a certas horas e de certas coisas... E às vezes a crianci-nha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza. E o Teixeira acrescentou: — Enfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que nós apro-vássemos a educação que tem levado, isso nunca aprovámos, nemeu, nem a Gertrudes. Olhou outra vez o relógio, preso por uma fita negra sobre ocolete branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois,tomando de sobre a cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe pas-sando a escova pela gola, de leve e por amabilidade, enquantodizia, junto ao toucador onde o Vilaça acamava as duas longasrepas sobre a calva: — Sabe Vossa Senhoria, apenas veio o mestre inglês, o que lheensinou? A remar! A remar, Sr. Vilaça, como um barqueiro! Semcontar o trapézio, e as habilidades de palhaço; eu nisso nem gostode falar... Que eu sou o primeiro a dizê-lo: o Brown é boa pessoa,calado, asseado, excelente músico. Mas é o que eu tenho repetido àGertrudes: pode ser muito bom para inglês, não é para ensinar umfidalgo português... Não é. Vá Vossa Senhoria falar a esse respeitocom a Sr.a D. Ana Silveira... Bateram de manso à porta, o Teixeira emudeceu. Um escudeiroentrou, fez um sinal ao mordomo, tirou-lhe do braço respeitosa-mente a sobrecasaca, e ficou com ela junto do toucador, onde oVilaça, vermelho e apressado, lutava ainda com as repas rebeldes. O Teixeira, da porta, disse com o relógio na mão: — É o jantar. Tem Vossa Senhoria dois minutos, Sr. Vilaça. E o administrador daí a um momento abalava também, abo-toando ainda o casaco pelas escadas. Os senhores já estavam todos na sala. Junto do fogão, onde asachas consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 49Times. Carlos, a cavalo nos joelhos do avô, contava-lhe uma grandehistória de rapazes e de bulhas; e ao pé o bom abade Custódio, como lenço de rapé esquecido nas mãos, escutava, de boca aberta, numriso paternal e terno. — Olhe quem ali vem, abade — disse-lhe Afonso. O abade voltou-se, e deu uma grande palmada na coxa: — Esta é nova! Então é o nosso Vilaça! E não me tinham ditonada! Venham de lá esses ossos, homem!... Carlos pulava nos joelhos do avô, muito divertido com aqueleslongos abraços que juntavam as duas cabeças dos velhos — umacom as repas achatadas sobre a calva, outra com uma grande coroaaberta numa mata de cabelo branco. E como eles, de mãos dadas,continuavam a admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dosanos, Afonso disse: — Vilaça! A senhora viscondessa... O administrador, porém, procurou-a debalde, com os olhosabertos, pela sala. Carlos ria, batendo as mãos: — e Vilaça desco-briu-a enfim a um canto, entre o aparador e a janela, sentadanuma cadeirinha baixa, vestida de preto, tímida e queda, com osbraços rechonchudos pousados sobre a obesidade da cinta. O rostoanafado e mole, branco como papel, as roscas do pescoçocobriam-se-lhe subitamente de rubor; não achou uma palavra paradizer ao Vilaça, e estendeu-lhe a mão papuda e pálida, com umdedo embrulhado num pedaço de seda negra. Depois ficou aabanar-se com um grande leque de lantejoulas, o seio a arfar, osolhos no regaço, como exausta daquele esforço. Dois escudeiros tinham começado a servir a sopa, o Teixeiraesperava, perfilado por trás do alto espaldar da cadeira de Afonso. Mas Carlos cavalgava ainda o avô, querendo acabar outra his-tória. Era o Manuel, trazia uma pedra na mão... Ele primeiro pen-sara ir às boas; mas os dois rapazes começaram a rir... De maneiraque os correu a todos... — E maiores que tu? — Três rapagões, vovô, pode perguntar à tia Pedra... Ela viu,que estava na eira. Um deles trazia uma foice… — Está bom, senhor, está bom, ficamos inteirados... Vá, des-monte, que está a sopa a esfriar. Upa! upa! E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarca feliz,veio sentar-se ao alto da mesa, sorrindo e dizendo: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 50 — Já se vai fazendo pesado, já não está para colo... Mas então reparou no Brown, e tornando a erguer-se, fez aapresentação do procurador: — O Sr. Brown, o amigo Vilaça... Peço perdão, descuidei-me, foiculpa daquele cavalheiro lá ao fundo da mesa, o Sr. D. Carlos deMata-Sete! O preceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasacamilitar, deu toda a volta à mesa, rígido e teso, para vir sacudir oVilaça num tremendo shake-hands; depois, sem uma palavra, reocu-pou o seu lugar, desdobrou o guardanapo, cofiou os formidáveis bigo-des, e foi então que disse ao Vilaça, com o seu forte acento inglês: — Muito belo dia... glorioso! — Tempo de rosas — respondeu o Vilaça, cumprimentando,intimidado diante daquele atleta. Naturalmente, nesse dia, falou-se da jornada de Lisboa, do bomserviço da mala-posta, do caminho-de-ferro que se ia abrir... OVilaça já viera no comboio até ao Carregado. — De causar horror, hem? — perguntou o abade, suspendendoa colher que ia levar à boca. O excelente homem nunca saíra de Resende; e todo o largomundo que ficava para além da penumbra da sua sacristia e dasárvores do seu passal lhe dava o terror de uma Babel. Sobretudoessa estrada de ferro, de que tanto se falava... — Faz arrepiar um bocado — afirmou com experiência Vilaça.— Digam o que disserem, faz arrepiar! Mas o abade assustava-se sobretudo com as inevitáveis desgra-ças dessas máquinas! O Vilaça então lembrou os desastres da mala-posta. No de Alco-baça, quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irmãs de cari-dade! Enfim, de todos os modos havia perigos. Podia-se quebraruma perna a passear no quarto... O abade gostava do progresso... Achava até necessário o progresso.Mas parecia-lhe que se queria fazer tudo à lufa-lufa... O País nãoestava para essas invenções; o que precisava eram boas estradinhas... — E economia! — disse o Vilaça, puxando para si os pimentões. — Bucelas? — murmurou-lhe sobre o ombro o escudeiro. O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe àluz a cor rica, provou-o com a ponta do lábio, e piscando o olho paraAfonso: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 51 — É do nosso! — Do velho — disse Afonso. — Pergunte ao Brown... Hem,Brown, um bom néctar? — Magnificente! — exclamou o preceptor com uma energiafogosa. Então Carlos, estendendo o braço por cima da mesa, reclamoutambém Bucelas. E a sua razão era haver festa por ter chegado oVilaça. O avô não consentiu; o menino teria o seu cálice de Colares,como de costume, e um só. Carlos cruzou os braços sobre o guarda-napo que lhe pendia do pescoço, espantado de tanta injustiça! Entãonem para festejar o Vilaça poderia apanhar uma gotinha de Bucelas?Aí estava uma linda maneira de receber os hóspedes na quinta... AGertrudes dissera-lhe que, como viera o senhor administrador, haviade pôr à noite para o chá o fato novo de veludo. Agora observavam-lheque não era festa, nem caso para Bucelas... Então não entendia. O avô, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente umcarão severo. — Parece-me que o senhor está palrando de mais. As pessoasgrandes é que palram à mesa. Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito man-samente: — Está bom, vovô, não te zangues. Esperarei para quando forgrande... Houve um sorriso em volta da mesa. A própria viscondessa,deleitada, agitou preguiçosamente o leque: o abade, com a sua boaface banhada em êxtase para o menino, apertava as mãos cabelu-das contra o peito, tanto aquilo lhe parecia engraçado: e Afonso tos-sia por trás do guardanapo, como limpando as barbas — a escondero riso, a admiração que lhe brilhava nos olhos. Tanta vivacidade surpreendeu também Vilaça. Quis ouvir maiso menino, e pousando o seu talher: — E diga-me, Carlinhos, já vai adiantado nos seus estudos? O rapaz, sem olhar, repoltreou-se, mergulhou as mãos pelos cósdas flanelas, e respondeu com um tom superior: — Já faço ladear a Brígida. Então o avô, sem se conter, largou a rir, caído para o espaldarda cadeira: — Essa é boa! Eh! Eh! Já faz ladear a Brígida! E é verdade,Vilaça, já a faz ladear... Pergunte ao Brown; não é verdade, Brown? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 52E a eguazita é uma piorrita, mas fina... — Ó vovô — gritou Carlos já excitado — diz ao Vilaça, anda.Não é verdade que eu era capaz de governar o dog-cart? Afonso reassumiu um ar severo. — Não nego... Talvez o governasse, se lho consentissem. Masfaça-me o favor de se não gabar das suas façanhas, porque um bomcavaleiro deve ser modesto... E sobretudo não enterrar assim asmãos pela barriga abaixo... O bom Vilaça, no entanto, dando estalinhos aos dedos, prepa-rava uma observação. Não se podia decerto ter melhor prenda quemontar a cavalo com as regras... Mas ele queria dizer se o Carli-nhos já entrava com o seu Fedro, o seu Tito Liviozinho... — Vilaça, Vilaça — advertiu o abade, de garfo no ar e um sor-riso de santa malícia — não se deve falar em latim aqui ao nossonobre amigo... Não admite, acha que é antigo... Ele, antigo é... — Ora sirva-se desse fricassé, ande, abade — disse Afonso —que eu sei que é o seu fraco, e deixe lá o latim... O abade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico osbons pedaços de ave, ia murmurando: — Deve-se começar pelo latinzinho, deve-se começar por lá... Éa base; é a basezinha! — Não! latim mais tarde! — exclamou o Brown, com um gestopossante. Prrimeiro forrça! Forrça! Músculo... E repetiu, duas vezes, agitando os formidáveis punhos: — Prrimeiro músculo, músculo!... Afonso apoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. Olatim era um luxo de erudito... Nada mais absurdo que começar aensinar a uma criança numa língua morta quem foi Fábio, rei dosSabinos, o caso dos Gracos, e outros negócios de uma nação extinta,deixando-o ao mesmo tempo sem saber o que é a chuva que omolha, como se faz o pão que come, e todas as outras coisas do uni-verso em que vive... — Mas enfim os clássicos — arriscou timidamente o abade. — Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E paraisso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata con-siste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolverexclusivamente o animal, armá-lo de uma grande superioridadefísica. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... Aalma é outro luxo. É um luxo de gente grande... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 53 O abade coçava a cabeça, com o ar arrepiado. — A instruçãozinha é necessária — disse ele. — Você não acha,Vilaça? Que Vossa Excelência, Sr. Afonso da Maia, tem visto maismundo do que eu... Mas enfim a instruçãozinha... — A instrução para uma criança não é recitar Tityre, tu patulaerecubans... É saber factos, noções, coisas úteis, coisas práticas... Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, num sinal ao Vilaça,mostrou-lhe o neto que palrava inglês com o Brown. Eram decertofeitos de força, uma história de briga com rapazes que ele lheestava a contar, animado e jogando com os punhos. O preceptoraprovava, retorcendo os bigodes. E à mesa os senhores, com os gar-fos suspensos, por trás os escudeiros de pé e guardanapo no braço,todos, num silêncio reverente, admiravam o menino a falar inglês. — Grande prenda, grande prenda — murmurou Vilaça, incli-nando-se para a viscondessa. A excelente senhora corou, através de um sorriso. Pareciaassim mais gorda, toda acaçapada na cadeira, silenciosa, comendosempre; e, a cada gole de Bucelas, refrescava-se languidamentecom o seu grande leque negro e lantejoulado. Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Afonso fez umasaúde ao Vilaça. Todos os copos se ergueram num rumor de ami-zade. Carlos quis gritar hurra! O avô, com um gesto repreensivo,imobilizou-o; e na pausa satisfeita que se fez, o pequeno disse comuma grande convicção: — Ó avô, eu gosto do Vilaça. O Vilaça é nosso amigo. — Muito, e há muitos anos, meu senhor! — exclamou o velhoprocurador, tão comovido que mal podia erguer o cálice na mão. O jantar findava. Fora, o Sol deixara o terraço e a quinta verde-java na grande doçura do ar tranquilo, sob o azul-ferrete. Na cha-miné só restava uma cinza branca: os lilases das jarras exalavam umaroma vivo, a que se misturava o do creme queimado, tocado de umfio de limão: os criados, de coletes brancos, moviam o serviço dondese escapava algum som argentino: e toda a alva toalha adamascadadesaparecia sob a confusão da sobremesa, onde os tons dourados dovinho do Porto brilhavam entre as compoteiras de cristal. A viscon-dessa, afogueada, abanava-se. Padre Custódio enrolava devagar oguardanapo, a sua batina coçada luzia nas pregas das mangas. Então Afonso, sorrindo ternamente, fez a última saúde. — Viva Vossa Senhoria, Sr. Carlos de Mata-Sete! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 54 — Sr. Vovô! — dizia o pequeno escorropichando o copo. A cabecinha de cabelos negros, a velha face de barbas de neve,saudavam-se das extremidades da mesa — enquanto todos sor-riam, no enternecimento daquela cerimónia. Depois o abade, depalito na boca, murmurou as graças. A viscondessa, cerrando osolhos, juntou também as mãos. E Vilaça, que tinha crenças religio-sas, não gostou de ver Carlos, sem se importar com as graças, sal-tar da cadeira, vir atirar-se ao pescoço do avô, falar-lhe ao ouvido. — Não senhor! não senhor! — dizia o velho. Mas o rapaz, abraçando-o mais forte, dava-lhe grandes razões,num murmúrio de mimo doce como um beijo, que ia pondo na facedo velho uma fraqueza indulgente. — É por ser festa — disse ele enfim vencido. — Mas veja lá,veja lá... O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Vilaça pelos braços,fê-lo redemoinhar, e foi cantando num ritmo seu: — Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Teresi-nha, inha, inha, inha! — É a noiva — disse o avô, erguendo-se da mesa. — Já temamores, é a pequena das Silveiras... O café para o terraço, Teixeira. O dia fora convidava, adorável, de um azul suave, muito puro emuito alto, sem uma nuvem. Defronte do terraço os gerânios verme-lhos estavam já abertos; as verduras dos arbustos, muito tenrasainda, de uma delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro;vinha por vezes um vago cheiro de violetas, misturado ao perfumeadocicado das flores do campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas dojardim, bordadas de buxos baixos, a areia fina faiscava de leve àqueleSol tímido de Primavera tardia, que ao longe envolvia os verdes daquinta, adormecida a essa hora de sesta numa luz fresca e loira. Os três homens sentaram-se à mesa do café. Defronte do ter-raço, o Brown, de boné escocês posto ao lado e grande cachimbo naboca, puxava ao alto a barra do trapézio para Carlos se balouçar.Então o bom Vilaça pediu para voltar as costas. Não gostava de verginásticas; bem sabia que não havia perigo; mas mesmo nos cavali-nhos, as cabriolas, os arcos atordoavam-no; saía sempre com o estô-mago embrulhado... — E parece-me imprudente, sobre o jantar... — Qual! é só balouçar-se... Olhe para aquilo! Mas Vilaça não se moveu, com a face sobre a chávena. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 55 O abade, esse, admirava, de lábios entreabertos, e o pires cheiode café esquecido na mão. — Olhe para aquilo, Vilaça — repetiu Afonso. — Não lhe fazmal, homem! O bom Vilaça voltou-se, com esforço. O pequeno, muito alto noar, com as pernas retesadas contra a barra do trapézio, as mãos àscordas, descia sobre o terraço, cavando o espaço largamente, com oscabelos ao vento; depois elevava-se, serenamente, crescendo empleno sol; todo ele sorria; a sua blusa, os calções enfunavam-se àaragem; e via-se passar, fugir, o brilho dos seus olhos muito negrose muito abertos. — Não está mais na minha mão, não gosto! — disse o Vilaça. —Acho imprudente! Então Afonso bateu as palmas, o abade gritou: Bravo, bravo!Vilaça voltou-se para aplaudir, mas Carlos tinha já desaparecido; otrapézio parava, em oscilações lentas; e o Brown, retomando oTimes que pusera ao lado sobre o pedestal de um busto, foi des-cendo para a quinta envolvido numa nuvem de fumo do cachimbo. — Bela coisa, a ginástica! — exclamou Afonso da Maia, acen-dendo com satisfação outro charuto. Vilaça já ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abade,depois de dar um sorvo ao café, de lamber os beiços, soltou a suabela frase, arranjada em máxima: — Esta educação faz atletas mas não faz cristãos. Já o tenho dito... — Já o tem dito, abade, já! — exclamou Afonso alegremente. —Diz-mo todas as semanas... Quer você saber, Vilaça? O nosso Custó-dio mata-me o bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha aorapaz. A cartilha!... Custódio ficou um momento a olhar Afonso, com uma face des-consolada e a caixa de rapé aberta na mão; a irreligião daquele velhofidalgo, senhor de quase toda a freguesia, era uma das suas dores. — A cartilha, sim, meu senhor, ainda que Vossa Excelência odiga assim com esse modo escarnica... A cartilha. Mas já não querofalar da cartilha... Há outras coisas. E se o digo tantas vezes, Sr.Afonso da Maia, é pelo amor que tenho ao menino. E recomeçou a discussão, que voltava sempre ao café, quandoCustódio jantava na quinta. O bom homem achava horroroso que naquela idade um tãolindo moço, herdeiro de uma casa tão grande, com futuras respon- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 56sabilidades na sociedade, não soubesse a sua doutrina. E narroulogo ao Vilaça a história da D. Cecília Macedo: esta virtuosasenhora, mulher do escrivão, tendo passado diante do portão daquinta, avistara o Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga decrianças como era, e pedira-lhe que lhe dissesse o Acto de Contri-ção. E que respondeu o menino? Que nunca em tal ouvira falar!Estas coisas entristeciam. E o Sr. Afonso da Maia achava-lhe graça,ria-se! Ora ali estava o amigo Vilaça que podia dizer se era casopara jubilar. Não, o Sr. Afonso da Maia tinha muito saber, e correramuito mundo; mas de uma coisa não o podia convencer, a ele pobrepadre que nem mesmo o Porto vira ainda, é que houvesse felicidadee bom comportamento na vida sem a moral do catecismo. E Afonso da Maia respondia com bom humor: — Então que lhe ensinava você, abade, se eu lhe entregasse orapaz? Que se não deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem men-tir, nem maltratar os inferiores, porque isso é contra os manda-mentos da lei de Deus, e leva ao Inferno, hem? É isso?... — Há mais alguma coisa… — Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se nãodeve fazer, por ser um pecado que ofende a Deus, já ele sabe que senão deve praticar, porque é indigno de um cavalheiro e de umhomem de bem... — Mas, meu senhor... — Ouça, abade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapazseja virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra;mas não por medo às caldeiras de Pêro Botelho, nem com o engodode ir para o Reino do Céu... E acrescentou, erguendo-se e sorrindo: — Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abade, é quandovem, depois de semanas de chuva, um dia destes, ir respirar peloscampos e não estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! E se oVilaça não está muito cansado, vamos dar aí um giro pelas fazendas... O abade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dostempos de Belzebu arrebatando as melhores reses do rebanho;depois olhou a chávena e sorveu com delícias o resto do seu café. Quando Afonso da Maia, Vilaça e o abade recolheram do seupasseio pela freguesia, escurecera, havia luzes pelas salas, etinham chegado já as Silveiras, senhoras ricas da Quinta daLagoaça. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 57 D. Ana Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa dafamília, e era em pontos de doutrina e etiqueta uma grande autori-dade em Resende. A viúva, D. Eugénia, limitava-se a ser uma exce-lente e pachorrenta senhora, de agradável nutrição, trigueirota e pes-tanuda; tinha dois filhos, a Teresinha, a noiva de Carlos, uma rapari-guinha magra e viva com cabelos negros como tinta, e o morgadinho,o Eusebiozinho, uma maravilha muito falada naqueles sítios. Quase desde o berço este notável menino revelara um edificanteamor por alfarrábios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhavae já a sua alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embru-lhado num cobertor, folheando in-fólios com o craniozinho calvo desábio curvado sobre as letras garrafais da boa doutrina; e depois decrescidinho tinha tal propósito que permanecia horas imóvel numacadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca apete-cera um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel,onde o precoce letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passavadias a traçar algarismos, com a linguazinha de fora. Assim na família tinha a sua carreira destinada: era rico, haviade ser primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha aSanta Olávia, a tia Anica instalava-o logo à mesa, ao pé do can-deeiro, a admirar as pinturas de um enorme e rico volume, Os Cos-tumes de Todos os Povos do Universo. Já lá estava nessa noite, ves-tido como sempre de escocês, com o plaid de flamejante xadrez ver-melho e negro posto a tiracolo e preso ao ombro por uma dragona;para que conservasse o ar nobre de um Stuart, de um valorosocavaleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o boné onde searqueava com heroísmo uma rutilante pena de galo; e nada haviamais melancólico que a sua facezinha trombuda, a que o excesso delombrigas dava uma moleza e uma amarelidão de manteiga, osseus olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a ciêncialhas tivesse já consumido, pasmando com sisudez para as campone-sas da Sicília, e para os guerreiros ferozes do Montenegro apoiadosa escopetas, em píncaros de serranias. Diante do canapé das senhoras lá se achava também o fiel amigo,o doutor delegado, grave e digno homem, que havia cinco anos andavaponderando e meditando o casamento com a Silveira viúva, sem sedecidir — contentando-se em comprar todos os anos mais meia dúziade lençóis, ou uma peça mais de bretanha, para arredondar o bragal.Estas compras eram discutidas em casa das Silveiras, à braseira: e as © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 58alusões recatadas, mas inevitáveis, às duas fronhazinhas, ao tamanhodos lençóis, aos cobertores de papa para os conchegos de Janeiro — emlugar de inflamar o magistrado, inquietavam-no. Nos dias seguintesaparecia preocupado — como se a perspectiva da santa consumação domatrimónio lhe desse o arrepio de uma façanha a empreender, o ter deagarrar um toiro, ou nadar nos cachões do Douro. Então, por qualquerrazão especiosa, adiava-se o casamento até ao S. Miguel seguinte. Ealiviado, tranquilo, o respeitável doutor continuava a acompanhar asSilveiras a chás, festas de igreja ou pêsames, vestido de preto, afável,serviçal, sorrindo a D. Eugénia, não desejando mais prazeres que osdessa convivência paternal. Apenas Afonso entrou na sala deram-lhe logo notícia do contra-tempo: o doutor juiz de direito e a senhora não podiam vir, porque omagistrado tivera a dor; e as Brancos tinham mandado recado adesculpar-se, coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazerdezassete anos que morrera o mano Manuel... — Bem — disse Afonso — bem. A dor, a tristeza, o manoManuel... Fazemos nós um voltaretezinho de quatro. Que diz onosso doutor delegado? O excelente homem dobrou a sua fronte calva, murmurandoque «estava às ordens». — Então ao dever, ao dever! — exclamou logo o abade, esfre-gando as mãos, no ardor já da partida. Os parceiros dirigiram-se à saleta do jogo — que um reposteirode damasco separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesaverde e, nos círculos de luz que caíam dos abat-jours, os baralhosabertos em leque. Daí a um momento o doutor delegado voltou,risonho, dizendo que «os deixara para um roquezinho de três»; eretomou o seu lugar ao lado de D. Eugénia, cruzando os pésdebaixo da cadeira e as mãos em cima do ventre. As senhoras esta-vam falando da dor do doutor juiz de direito. Costumava dar-lhetodos os três meses: e era condenável a sua teima em não quererconsultar médicos. Quanto mais que ele andava acabado, resse-quindo, amarelando — e a D. Augusta, a mulher, a nutrir à larga, aganhar cores!... A viscondessa, enterrada em toda a sua gordura aocanto do canapé, com o leque aberto sobre o peito, contou que emEspanha vira um caso igual: o homem chegara a parecer um esque-leto, e a mulher uma pipa; e ao princípio fora o contrário; até sobreisso se tinham feito uns versos... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 59 — Humores — disse com melancolia o doutor delegado. Depois falou-se nas Brancos; recordou-se a morte de ManuelBranco, coitadinho, na flor da idade! E que perfeição de rapaz! Eque rapaz de juízo! D. Ana Silveira não se esquecera, como todos osanos, de lhe acender uma lamparina por alma, e de lhe rezar trêspadre-nossos. A viscondessa pareceu toda aflita por se não ter lem-brado... E ela que tinha o propósito feito! — Pois estive para to mandar dizer! — exclamou D. Ana. — Eas Brancos que tanto o agradecem, filha! — Ainda está a tempo — observou o magistrado. D. Eugénia deu uma malha indolente no crochet de que nuncase separava, e murmurou com um suspiro: — Cada um tem os seus mortos. E no silêncio que se fez, saiu do canto do canapé outro suspiro,o da viscondessa, que decerto se recordara do fidalgo de Urigo deLa Sierra, e murmurava: — Cada um tem os seus mortos... E o digno doutor delegado terminou por dizer igualmente,depois de passar reflectidamente a mão pela calva: — Cada um tem os seus mortos! Uma sonolência ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre asconsoles, as chamas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiozi-nho voltava com cautela e arte as estampas de Os Costumes deTodos os Povos. E na saleta de jogo, através do reposteiro aberto,sentia-se a voz já arrenegada do abade, rosnando com um rancortranquilo: «Passo, que é o que tenho feito toda a santa noite!» Nesse momento Carlos arremetia pela sala dentro arrastando asua noiva, a Teresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo agrulhada das suas vozes reanimou o canapé dormente. Os noivos tinham chegado de uma pitoresca e perigosa viagem,e Carlos parecia descontente de sua mulher; comportara-se de umamaneira atroz; quando ele ia governando a mala-posta, ela quiseraempoleirar-se ao pé dele na almofada... Ora senhoras não viajamna almofada. — E ele atirou-me ao chão, titi! — Não é verdade! Demais a mais é mentirosa! Foi como quandochegámos à estalagem... Ela quis-se deitar, e eu não quis... A gente,quando se apeia de viagem, a primeira coisa que faz é tratar dogado... E os cavalos vinham a escorrer... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 60 A voz de D. Ana interrompeu, muito severa: — Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavalaram bastante.Senta-te aí ao pé da senhora viscondessa, Teresa... Olha essa tra-vessa do cabelo... Que despropósito! Sempre destestara ver a sobrinha, uma menina delicada de dezanos, a brincar assim com o Carlinhos. Aquele belo e impetuosorapaz, sem doutrina e sem propósito, aterrava-a; e pela sua imagi-nação de solteirona passavam sem cessar ideias, suspeitas deultrajes que ele poderia fazer à menina. Em casa, ao agasalhá-laantes de vir para Santa Olávia, recomendava-lhe com força quenão fosse com o Carlos para os recantos escuros, que o não deixassemexer-lhe nos vestidos!... A menina, que tinha os olhos muito lan-gorosos, dizia: «Sim, titi.» Mas, apenas na quinta, gostava de abra-çar o seu maridinho. Se eram casados, porque não haviam de fazernené, ou ter uma loja e ganharem a sua vida aos beijinhos? Mas oviolento rapaz só queria guerras, quatro cadeiras lançadas agalope, viagens a terras de nomes bárbaros que o Brown lhe ensi-nava. Ela, despeitada, vendo o seu coração mal compreendido, cha-mava-lhe arrieiro; ele ameaçava boxá-la à inglesa; — eseparavam-se sempre arrenegados. Mas quando ela se acomodou ao lado da viscondessa, gravezinhae com as mãos no regaço — Carlos veio logo estirar-se ao pé dela,meio deitado para as costas do canapé, bamboleando as pernas. — Vamos, filho, tem maneiras — rosnou-lhe muito seca D. Ana. — Estou cansado, governei quatro cavalos — replicou ele, inso-lente e sem a olhar. De repente, porém, de um salto, precipitou-se sobre o Eusebiozinho.Queria-o levar à África, a combater os selvagens; e puxava-o já pelo seubelo plaid de cavaleiro da Escócia , quando a mamã acudiu aterrada: — Não, com o Eusebiozinho não, filho! Não tem saúde paraessas cavaladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avô! Mas o Eusebiozinho, a um repelão mais forte, rolara no chão,soltando gritos medonhos. Foi um alvoroço, um levantamento. Amãe, trémula, agachada junto dele, punha-o de pé sobre as perni-nhas moles, limpando-lhe as grossas lágrimas, já com o lenço, jácom beijos, quase a chorar também. O delegado, consternado, apa-nhara o boné escocês, e cofiava melancolicamente a bela pena degalo. E a viscondessa apertava às mãos ambas o enorme seio, comose as palpitações a sufocassem. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 61 O Eusebiozinho foi então preciosamente colocado ao lado datiti; e a severa senhora, com um fulgor de cólera na face magra,apertando o leque fechado como uma arma, preparava-se a repeliro Carlinhos, que, de mãos atrás das costas e aos pulos em roda docanapé, ria, arreganhando para o Eusebiozinho um lábio feroz. Masnesse momento davam nove horas, e a desempenada figura doBrown apareceu à porta. Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detrás da vis-condessa, gritando: — Ainda é muito cedo, Brown, hoje é festa, não me vou deitar! Então Afonso da Maia, que se não movera aos uivos lancinantesdo Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade: — Carlos, tenha a bondade de marchar já para a cama. — Ó vovô, é festa, que está cá o Vilaça! Afonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem umapalavra, agarrou o rapaz pelo braço, e arrastou-o pelo corredor —enquanto ele, de calcanhares fincados no soalho, resistia, protes-tando com desespero: — É festa, vovô... É uma maldade!... O Vilaça pode-se escanda-lizar... Ó vovô, eu não tenho sono! Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censu-raram logo aquela rigidez: aí estava uma coisa incompreensível; oavô deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe então obocadinho da soirée... — Ó Sr. Afonso da Maia, porque não deixou estar a criança? — É necessário método, é necessário método — balbuciou ele,entrando, todo pálido do seu rigor. E à mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mãos tré-mulas, repetia ainda: — É necessário método. Crianças à noite dormem. D. Ana Silveira, voltando-se para o Vilaça — que cedera o seulugar ao doutor delegado e vinha palestrar com as senhoras — teveaquele sorriso mudo que lhe franzia os lábios, sempre que Afonsoda Maia falava em «métodos». Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo oleque, declarou, a trasbordar de ironia, que, talvez por ter a inteli-gência curta, nunca compreendera a vantagem dos «métodos»... Eraà inglesa, segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; masou ela estava enganada, ou Santa Olávia era no reino de Portugal. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 62 E como Vilaça inclinava timidamente a cabeça, com a suapitada nos dedos, a esperta senhora, baixo para que Afonso dentronão ouvisse, desabafou. O Sr. Vilaça naturalmente não sabia, masaquela educação do Carlinhos nunca fora aprovada pelos amigos dacasa. Já a presença do Brown, um herético, um protestante, comopreceptor na família dos Maias, causara desgosto em Resende.Sobretudo quando o Sr. Afonso tinha aquele santo do abade Custó-dio, tão estimado, homem de tanto saber... Não ensinaria à criançahabilidades de acrobata; mas havia de lhe dar uma educação defidalgo, prepará-lo para fazer boa figura em Coimbra. Nesse momento, o abade, suspeitando uma corrente de ar,erguera-se da mesa do jogo a fechar o reposteiro: então, comoAfonso já não podia ouvir, D. Ana ergueu a voz: — E olhe que o Custódio teve desgosto, Sr. Vilaça. Que o Carli-nhos, coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhequero contar o que sucedeu com a Macedo. Vilaça já sabia. — Ah! já sabe? Lembras-te, viscondessa? Com a Macedo, doActo de Contrição... A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao Céu atra-vés do tecto. — Horroroso! — continuou D. Ana. — A pobre mulher chegou láa nossa casa embuchada... E eu fez-me impressão. Até sonhei comaquilo três noites a fio... Calou-se um momento. Vilaça, embaraçado, acanhado, fazia girara caixa de rapé nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langorde sonolência passou na sala; D. Eugénia, com as pálpebras pesadas,fazia de vez em quando uma malha mole no crochet; e a noiva de Car-los, estirada para o canto do sofá, já dormia, com a boquinha aberta,os seus lindos cabelos negros caindo-lhe pelo pescoço. D. Ana, depois de bocejar de leve, retomou a sua ideia: — Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser umbocado de inglês, não sabe nada... Não tem prenda nenhuma! — Mas é muito esperto, minha rica senhora! — acudiu Vilaça. — É possível — respondeu secamente a inteligente Silveira. E,voltando-se para o Eusebiozinho, que se conservava ao lado dela,quieto como se fosse de gesso: — Ó filho, diz tu aqui ao Sr. Vilaça aqueles lindos versos quesabes... Não sejas atado, anda!... Vá, Eusébio, filho, sê bonito... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 63 Mas o menino, molengão e tristonho, não se descolava das saiasda titi: teve ela de o pôr de pé, ampará-lo, para que o tenro prodígionão aluísse sobre as perninhas flácidas; e a mamã prometeu-lheque, se dissesse os versinhos, dormia essa noite com ela... Isto decidiu-o: abriu a boca, e como de uma torneira lassa veiode lá escorrendo, num fio de voz, um recitativo lento e babujado: É noite, o astro saudoso Rompe a custo um plúmbeo céu, Tolda-lhe o rosto formoso Alvacento, húmido véu... Disse-a toda — sem se mexer, com as mãozinhas pendentes, osolhos mortiços pregados na titi. A mamã fazia o compasso com aagulha do crochet; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorrisode quebranto, banhada no langor da melopeia, ia cerrando as pál-pebras. — Muito bem, muito bem! — exclamou o Vilaça, impressionado,quando o Eusebiozinho findou coberto de suor. — Que memória!Que memória!... É um prodígio!... Os criados entravam com o chá. Os parceiros tinham findado apartida; e o bom Custódio, de pé, com a sua chávena na mão, quei-xava-se amargamente da maneira por que aqueles senhores otinham esfolado. Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senho-ras retiraram-se às nove e meia. O serviçal doutor delegado dava obraço a D. Eugénia; um criado da quinta alumiava adiante com olampião; e o moço das Silveiras levava ao colo o Eusebiozinho, queparecia um fardo escuro, abafado em mantas, com um xale amar-rado na cabeça. Depois da ceia, Vilaça acompanhou ainda um momento Afonsoda Maia à livraria, onde, antes de recolher, ele tomava sempre àinglesa o seu conhaque e soda. O aposento, a que as velhas estantes de pau-preto davam umar severo, estava adormecido tepidamente, na penumbra suave,com as cortinas bem fechadas, um resto de lume na chaminé, e oglobo do candeeiro pondo a sua claridade serena na mesa cobertade livros. Em baixo, os repuxos cantavam alto no silêncio danoite. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 64 Enquanto o escudeiro rolava para o pé da poltrona de Afonso,numa mesa baixa, os cristais e as garrafas de soda, Vilaça, com asmãos nos bolsos, de pé e pensativo, olhava a brasa da acha quemorria na cinza branca. Depois ergueu a cabeça, para murmurar,como ao acaso: — Aquele rapazito é esperto... — Quem? o Eusebiozinho? — disse Afonso, que se acomodavajunto ao fogão, enchendo alegremente o cachimbo. — Eu tremo de over cá, Vilaça! O Carlos não gosta dele, e tivemos aí um desgostohorroroso... Foi já há meses. Havia uma procissão e o Eusebiozinhoia de anjo... As Silveiras, excelentes mulheres, coitadas,mandaram-no cá para o mostrar à viscondessa, já vestido de anjo.Pois senhores, distraímo-nos, e o Carlos, que o andava a rondar,apodera-se dele, leva-o para o sótão, e, meu caro Vilaça... Em pri-meiro lugar ia-o matando porque embirra com anjos... Mas o piornão foi isso. Imagine você o nosso terror, quando nos aparece oEusebiozinho aos berros pela titi, todo desfrisado, sem uma asa,com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um bar-bante, a coroa de rosas enterrada até ao pescoço, e os galões deouro, os tules, as lantejoulas, toda a vestimenta celeste em franga-lhos!... Enfim, um anjo depenado e sovado... Eu ia dando cabo doCarlos. Bebeu metade da sua soda, e passando a mão pelas barbas,acrescentou, com uma satisfação profunda: — É levado do Diabo, Vilaça! O administrador, sentado agora à borda de uma cadeira, esbo-çou uma risadinha muda; depois ficou calado, olhando Afonso, comas mãos nos joelhos, como esquecido e vago, Ia abrir os lábios, hesi-tou ainda, tossiu de leve; e continuou a seguir pensativamente asfaíscas que erravam sobre as achas. Afonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para olume, recomeçara a falar do Silveirinha. Tinha três ou quatromeses mais que Carlos, mas estava enfezado, estiolado, por umaeducação à portuguesa: daquela idade ainda dormia no choco comas criadas, nunca o lavavam para o não constiparem, andava cou-raçado de rolos de flanelas! Passava os dias nas saias da titi a deco-rar versos, paginas inteiras do Catecismo de Perseverança. Ele porcuriosidade um dia abrira este livreco e vira lá «que, o Sol é queanda em volta da Terra (como antes de Galileu), e que Nosso © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 65Senhor todas as manhãs dá as ordens ao Sol, para onde há-de ir eonde há-de parar, etc., etc.». E assim lhe estavam arranjando umaalmazinha de bacharel... Vilaça teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamentedecidido, ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras: — Vossa Excelência sabe que apareceu a Monforte? Afonso, sem mover a cabeça, reclinado para as costas da pol-trona, perguntou tranquilamente, envolvido no fumo do cachimbo: — Em Lisboa? — Não senhor, em Paris. Viu-a lá o Alencar, esse rapaz queescreve, e que era muito de Arroios... Esteve até em casa dela. E ficaram calados. Havia anos que entre eles se não pronun-ciara o nome de Maria Monforte. Ao princípio, quando se retirarapara Santa Olávia, a preocupação ardente de Afonso da Maia foratirar-lhe a filha que ela levara. Mas a esse tempo ninguém sabiaonde Maria se refugiara com o seu príncipe: nem pela influênciadas legações, nem pagando regiamente a polícia secreta de Paris,de Londres, de Madrid, se pôde descobrir a «toca da fera», comodizia então o Vilaça. Ambos decerto tinham mudado de nome; e,dadas essas naturezas boémias, quem sabe se não errariam agorapela América, pela Índia, em regiões mais exóticas? Depois, pouco apouco, Afonso da Maia, descoroçoado com aqueles esforços vãos,todo ocupado do neto que crescia belo e forte ao seu lado, no enter-necimento contínuo que ele lhe dava, foi esquecendo a Monforte e asua outra neta, tão distante, tão vaga, a quem ignorava as feições,de quem mal sabia o nome. E agora, de repente, a Monforte apare-cia outra vez em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e aquelacriança que dormia ao fundo do corredor nunca vira sua mãe... Erguera-se, passeava na livraria, pesado e lento, com a cabeçabaixa. Junto à mesa, ao pé do candeeiro, o Vilaça ia percorrendoum a um os papéis da sua carteira. — E está em Paris com o italiano? — perguntou Afonso dofundo sombrio do aposento. O Vilaça ergueu a cabeça de sobre a carteira, e disse: — Não senhor, está com quem lhe paga. E como Afonso se aproximava da mesa, sem uma palavra,Vilaça, dando-lhe um papel dobrado, acrescentou: — Todas estas coisas são muito graves, Sr. Afonso da Maia, e eunão quis fiar-me só na minha memória. Por isso pedi ao Alencar, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 66que é um excelente rapaz, que me escrevesse numa carta tudo oque me contou. Assim, temos um documento. Eu não sei mais doque está escrito. Pode Vossa Excelência ler... Afonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma história sim-ples, que o Alencar, o poeta da Vozes de Aurora, o estilista de Elvira,ornara de flores e de galões dourados como uma capela em dia de festa. Uma noite, ao sair da Maison d’Or, ele vira a Monforte saltarde um coupé com dois homens de gravata branca; tinham-se logoreconhecido; e um momento ficaram hesitando, um defronte dooutro, debaixo do candeeiro de gás, no trottoir. Foi ela que, muitodecidida, rindo, estendeu a mão ao Alencar, pediu-lhe que a visi-tasse, deu-lhe a adresse, o nome por que devia perguntar: Madamede l’Estorade. E no seu boudoir, na manhã seguinte, a Monfortefalou largamente de si: vivera três anos em Viena de Áustria comTancredo, e com o papá que se lhes fora reunir — e que lá conti-nuava decerto como em Arroios, refugiando-se pelos cantos dassalas, pagando as toilettes da filha, e dando palmadinhas ternas noombro do amante como outrora no ombro do marido. Depois tinhamestado em Mónaco; e aí, dizia o Alencar, «num drama sombrio depaixão que ela me fez entrever», o napolitano fora morto em duelo.O papá morrera também nesse ano, deixando apenas da sua for-tuna uns magros contos de réis, e a mobília da casa em Viena: ovelho arruinara-se com o luxo da filha, com as viagens, com as per-das de Tancredo ao bacará. Passara então um tempo em Londres: edaí viera habitar Paris, com Mr. de l’Estorade, um jogador, umespadachim, que acabou de a arrasar, e que a abandonoulegando-lhe esse nome de l’Estorade, que lhe era a ele de ora emdiante inútil porque passava a adoptar outro mais sonoro deVicomte de Manderville. Enfim, pobre, formosa, doida, excessiva,lançara-se na existência daquelas mulheres de quem, dizia o Alen-car, «a pálida Margarida Gautier, a gentil Dama das Camélias, é otipo sublime, o símbolo poético, a quem muito será perdoado por-que muito amaram». E o poeta terminava: «Ela está ainda noesplendor da beleza, mas as rugas virão, e então que avistará emredor de si? As rosas secas e ensanguentadas da sua coroa deesposa. Saí daquele boudoir perfumado com a alma dilacerada,meu Vilaça! Pensava no meu pobre Pedro, que lá jaz sob o raio deluar, entre as raízes dos ciprestes. E, desiludido desta cruel vida,vim pedir ao absinto, no Boulevard, uma hora de esquecimento.» © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 67 Afonso da Maia deu um repelão à carta, menos enojado das tor-pezas da história, que daqueles lirismos relambidos. E começou a passear, enquanto o Vilaça recolhia religiosamenteo documento que tinha relido muitas vezes, na admiração do senti-mento, do estilo, do ideal daquela página. — E a pequena? — perguntou Afonso. — Isso não sei. O Alencar não lhe falaria na filha, nem elemesmo sabe que ela a levou. Ninguém o sabe em Lisboa. Foi umdetalhe que passou despercebido no grande escândalo. Masenquanto a mim, a pequena morreu. Senão, siga Vossa Excelência omeu raciocínio... Se a menina fosse viva, a mãe podia reclamar alegítima que cabe à criança... Ela sabe a casa que Vossa Excelênciatem; há-de haver dias, e são frequentes na vida dessas mulheres,em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educação damenina, ou de alimentos, já nos tinha importunado... Escrúpulosnão tem ela. Se o não faz, é que a filha morreu. Não lhe parece aVossa Excelência? — Talvez — disse Afonso. E acrescentou, parando diante de Vilaça — que olhava outravez a brasa morta tirando estalinhos dos dedos: — Talvez... Suponhamos que morreram ambas, e não se falemais nisso. Estava dando meia-noite, os dois homens recolheram-se. Edurante os dias que Vilaça passou em Santa Olávia, não se proferiumais o nome de Maria Monforte. Mas, na véspera da partida do administrador para Lisboa,Afonso subiu ao quarto dele, a entregar-lhe as amêndoas da Páscoaque Carlos mandava a Vilaça Júnior, um alfinete de peito com umamagnífica safira — e disse-lhe, enquanto o outro, sensibilizado, bal-buciava os agradecimentos: — Agora outra coisa, Vilaça. Tenho estado a pensar. Vou escre-ver a meu primo Noronha, ao André, que vive em Paris como vocêsabe, pedir-lhe que procure essa criatura, e que lhe ofereça dez ouquinze contos de réis, se ela me quiser entregar a filha... No caso,está claro, que esteja viva... E quero que você saiba desse Alencar amorada da mulher em Paris. O Vilaça não respondeu, ocupado a meter entre as camisas, bemno fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se,ficou diante de Afonso, a coçar reflectidamente o queixo. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 68 — Então que lhe parece, Vilaça? — Parece-me arriscado. E deu as suas razões. A menina devia ir nos seus treze anos.Estava uma mulher, com o seu temperamento formado, o carácterfeito, talvez os seus hábitos... Nem falaria o português. As sauda-des da mãe haviam de ser terríveis... Enfim, o Sr. Afonso da Maiatrazia uma estranha para casa... — Você tem razão, Vilaça. Mas a mulher é uma prostituta, e apequena é do meu sangue. Nesse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vovô,precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma romã.— O Brown tinha achado um corujazinha pequena! Queria que ovovô viesse ver, andara a buscá-lo por toda a casa... Era de morrera rir... Muito pequena, muito feia, toda pelada, e com dois olhos degente grande! E sabiam onde havia o ninho... — Vem depressa, ó vovô! Depressa, que é necessário ir pô-la noninho, por causa da coruja velha que se pode afligir... O Brownestá-lhe a dar azeite. Ó Vilaça, vem ver! Ó vovô, pelo amor deDeus! Tem uma cara tão engraçada! Mas depressa, que a corujavelha pode dar pela falta!... E impaciente com a lentidão risonha do vovô, tanta indiferençapela inquietação da coruja velha, abalou atirando com a porta. — Que bom coração! — exclamou o Vilaça comovido. — A pen-sar nas saudades da coruja... A mãe dele é que não tem saudades!Sempre o disse, é uma fera! Afonso encolheu tristemente os ombros. Iam já no corredorquando ele, parando um momento, baixando a voz: — Tem-me esquecido de lhe contar, Vilaça, o Carlos sabe que opai se matou... Vilaça arredondou os olhos de espanto. Era verdade. Umamanhã entrara-lhe pela livraria, e dissera-lhe: — Ó vovô, o papámatou-se com uma pistola! — Naturalmente algum criado que lhocontara... — E Vossa Excelência? — Eu... que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenhoobedecido ao que Pedro me pediu, nessas quatro ou cinco linhas dacarta que me deixou. Quis ser enterrado em Santa Olávia, aí está.Não queria que o filho jamais soubesse da fuga da mãe; e por mim,decerto, nunca o saberá. Quis que dois retratos que havia dela em © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 69Arroios fossem destruídos; como você sabe, obtiveram-se e destruí-ram-se. Mas não me pediu que ocultasse ao rapaz o seu fim. E porisso, disse ao pequeno a verdade: disse-lhe que num momento deloucura, o papá tinha dada um tiro em si... — E ele? — E ele — replicou Afonso sorrindo — perguntou-me quem lhetinha dado a pistola, e torturou-me toda a manhã para lhe dar tam-bém uma pistola... E aí está o resultado dessa revelação: é que tivede mandar vir do Porto uma pistola de vento... Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo avô, osdois apressaram-se a ir admirar a corujazinha. Vilaça ao outro dia partiu para Lisboa. Passadas duas semanas, Afonso recebia uma carta do adminis-trador, trazendo-lhe, com a adresse da Monforte, uma revelaçãoimprevista. Tinha voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordandooutros incidentes da sua visita a Madame de l’Estorade,contara-lhe que no boudoir dela havia um adorável retrato decriança, de olhos negros, cabelo de azeviche, e uma palidez denácar. Esta pintura ferira-o, não só por ser de um grande pintoringlês, mas por ter, pendente sob o caixilho, como um voto funerá-rio, uma linda coroa de flores de cera brancas e roxas. Não haviaoutro quadro no boudoir: e ele perguntara à Monforte se era umretrato ou uma fantasia. Ela respondera que era o retrato da filhaque lhe morrera em Londres. «Estão assim dissipadas todas as dúvidas», acrescentava oVilaça. «O pobre anjinho está numa pátria melhor. E para ela, bemmelhor!» Afonso, todavia, escreveu a André de Noronha. A resposta tar-dou. Quando o primo André procurara Madame de l’Estorade,havia semanas que ela partira para a Alemanha, depois de vendermobília e cavalos. E no Clube Imperial, a que ele pertencia, umamigo, que conhecia bem Madame de l’Estorade e a vida galante deParis, contara-lhe que a doida fugira com um certo Catanni, acro-bata do Circo de Inverno nos Campos Elísios, homem de formasmagníficas, um Apolo de feira, que todas as cocottes se disputavame que a Monforte empolgara. Naturalmente corria agora a Alema-nha com a companhia de cavalinhos. Afonso da Maia, enojado, remeteu esta carta ao Vilaça sem umcomentário. E o honrado homem respondeu: «Tem Vossa Excelência © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 70razão, é atroz: e mais vale supor que todos morreram, e não gastarmais cera com tão ruins defuntos...» E depois num pós-escritoacrescentava: «Parece certo abrir-se em breve o caminho-de-ferroaté ao Porto: em tal caso, com permissão de Vossa Excelência, aíirei e o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns dias de hospitalidade.» Esta carta foi recebida em Santa Olávia um domingo, ao jantar.Afonso lera alto o P. S. Todos se alegraram, na esperança de ver obom Vilaça em breve na quinta; e falou-se mesmo em arranjar umgrande piquenique, rio acima. Mas, terça-feira à noite, chegava um telegrama de ManuelVilaça anunciando que o pai morrera, nessa manhã, de uma apo-plexia: dois dias depois vinham mais longos e tristes pormenores.Fora depois do almoço que, de repente, Vilaça se sentira muitosufocado, e com tonturas: ainda tivera forças de ir ao quarto respi-rar um pouco de éter: mas ao voltar à sala cambaleava, queixava-sede ver tudo amarelo, e caiu de bruços, como um fardo, sobre ocanapé. O seu pensamento, que se extinguia para sempre, aindanesse momento se ocupou da casa que há trinta anos administrava:balbuciou, a respeito de uma venda de cortiça, recomendações queo filho já não pôde perceber: depois deu um grande ai; e só tornou aabrir os olhos para murmurar no derradeiro sopro estas derradei-ras palavras: Saudades ao patrão! Afonso da Maia ficou profundamente afectado, e em Santa Olá-via, mesmo entre os criados, a morte de Vilaça foi como um lutodoméstico. Uma dessas tardes, o velho, muito melancólico, estava nalivraria com um jornal esquecido nas mãos, os olhos cerrados —quando Carlos, que ao lado rabiscava carantonhas num papel, veiopassar-lhe um braço pelo pescoço, e como compreendendo os seus pen-samentos, perguntou-lhe se o Vilaça não voltaria a vê-los à quinta. — Não, filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a ver. O pequeno, entre os joelhos e os braços do velho, olhava otapete, e, como recordando-se, murmurou tristemente: — O Vilaça, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Ó vovô,para onde o levaram? — Para o cemitério, filho, para debaixo da terra. Então Carlos desprendeu-se devagar do abraço do avô, e muitosério, com os olhos nele: — Ó vovô! porque não lhe mandas fazer uma capelinha bonita,toda de pedra, com uma figura, como tem o papá? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 71 O velho achegou-o ao peito, beijou-o, comovido: — Tens razão, filho. Tens mais coração que eu! Assim o bom Vilaça teve no Cemitério dos Prazeres o seu jazigo— que fora a alta ambição da sua existência modesta. Outros anos tranquilos passaram sobre Santa Olávia. Depois uma manhã de Julho, em Coimbra, Manuel Vilaça(agora administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mon-dego, onde Afonso se hospedara com o neto, e entrava-lhe pela sala,vermelho, suando, berrando: — Neminè! Neminè! Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira, quetinha acompanhado os senhores de Santa Olávia correu à porta,abraçou-se quase chorando ao menino, agora mais alto que ele, emuito formoso na sua batina nova. Em cima no quarto, Manuel Vilaça, soprando ainda, limpandoas bagas de suor, exclamava: — Ficou tudo espantado, Sr. Afonso da Maia! Os lentes atéestavam comovidos. Ih! Jesus! que talento! Vem a ser um grandehomem, é o que todo o mundo disse... E que Faculdade vai eleseguir, meu senhor? Afonso, que passeava, todo trémulo, respondeu com um sorriso: — Não sei, Vilaça... Talvez nos formemos ambos em Direito. Carlos assomou à porta, radiante, seguido do Teixeira e dooutro escudeiro — que trazia champanhe numa salva. — Então venha cá, seu maroto — disse Afonso muito branco,com os braços abertos. — Bom exame, hem?... Eu... Mas não pôde prosseguir: as lágrimas, duas a duas, corriam-lhepela barba branca. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós pág. 72 de 595 Capítulo IV C ARLOS ia formar-se em Medicina. E como dizia o Dr. Tri-gueiros houvera sempre naquele menino realmente uma «vocaçãopara Esculápio». A «vocação» revelara-se bruscamente um dia que descobriu nosótão, entre rumas de velhos alfarrábios, um rolo manchado e anti-quado de estampas anatómicas; tinha passado dias a recortá-las,pregando pelas paredes do quarto fígados, liaças de intestinos,cabeças de perfil «com o recheio à mostra». Uma noite mesmo rom-pera pela sala em triunfo, a mostrar às Silveiras, ao Eusébio, apavorosa litogradia de um feto de seis meses no útero materno.D. Ana recuou, com um grito, colando o leque à face: e o doutordelegado, escarlate também, arrebatou prudentemente Eusebiozi-nho para entre os joelhos, tapou-lhe a face com a mão. Mas o queescandalizou mais as senhoras foi a indulgência de Afonso. — Então que tem, então que tem? — dizia ele sorrindo. — Que tem, Sr. Afonso da Maia!? — exclamou D. Ana. São inde-cências! — Não há nada indecente na Natureza, minha rica senhora. Inde-cente é a ignorância... Deixar lá o rapaz. Tem curiosidade de sabercomo é esta pobre máquina por dentro, não há nada mais louvável. D. Ana abanava-se, sufocada. Consentir tais horrores nas mãosda criança!... Carlos começou a aparecer-lhe como um libertino«que já sabia coisas»; e não consentiu mais que a Teresinha brin-casse só com ele pelos corredores de Santa Olávia. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 73 As pessoas sérias, porém, o doutor juiz de direito, o próprioabade, lamentando, sim, que não houvesse mais recato, concorda-vam que aquilo mostrava no pequeno uma grande queda para amedicina. — Se pega — dizia então com um gesto profético o Dr. Triguei-ros — temos dali coisa grande! E parecia pegar. Em Coimbra, estudante do Liceu, Carlos deixava os seus com-pêndios de lógica e retórica, para se ocupar de anatomia: numasférias, ao abrir das malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendoalvejar entre as dobras de um casaco o riso de uma caveira: e sealgum criado da quinta adoecia, lá estava Carlos logo revolvendo ocaso em velhos livros de medicina da livraria, sem lhe largar abeira do catre, fazendo diagnósticos que o bom Dr. Trigueiros escu-tava respeitoso e pensativo. Diante do avô já chamava mesmo aomenino «o seu talentoso colega». Esta inesperada carreira de Carlos (pensara-se sempre que eletomaria capelo em Direito) era pouco aprovada entre os fiéis amigosde Santa Olávia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapazque ia crescendo tão formoso, tão bom cavaleiro, viesse a estragar avida receitando emplastros, e sujando as mãos no jorro das san-grias. O doutor juiz de direito confessou mesmo um dia a sua des-crença de que o Sr. Carlos da Maia quisesse «ser médico a sério». — Ora essa! — exclamou Afonso. — E porque não há-de sermédico a sério? Se escolhe uma profissão é para a exercer com sin-ceridade e com ambição, como os outros. Eu não o educo para vadio,muito menos para amador; educo-o para ser útil ao seu país... — Todavia — arriscou o doutor juiz de direito com um sorrisofino — não lhe parece a Vossa Excelência que há outras coisas,importantes também, e mais próprias talvez, em que seu neto sepoderia tornar útil?... — Não vejo — replicou Afonso da Maia. — Num país em que aocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é incontes-tavelmente saber curar. — Vossa Excelência tem resposta para tudo — murmurou res-peitosamente o magistrado. E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida«a sério», prática e útil, as escadas de doentes galgadas à pressa nofogo de uma vasta clínica, as existências que se salvam com um © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 74golpe de bisturi, as noites veladas à beira de um leito, entre o ter-ror de uma família, dando grandes batalhas à morte. Como empequeno o tinham encantado as formas pitorescas das vísceras —atraíam-no agora estes lados militantes e heróicos da ciência. Matriculou-se realmente com entusiasmo. Para esses longosanos de quieto estudo o avô preparara-lhe uma linda casa emCelas, isolada, com graças de cottage inglês, ornada de persianasverdes, toda fresca entre as árvores. Um amigo de Carlos (um certoJoão da Ega) pôs-lhe o nome de «Paços de Celas», por causa deluxos então raros na Academia, um tapete na sala, poltronas demarroquim, panóplias de armas, e um escudeiro de libré. Ao princípio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgo-tes, mas suspeito aos democratas; quando se soube, porém, que odono destes confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spen-cer, e considerava também o país uma choldra ignóbil — os maisrígidos revolucionários começaram a vir aos Paços de Celas tãofamiliarmente como ao quarto do Trovão, o poeta boémio, o durosocialista, que tinha apenas por mobília uma enxerga e uma Bíblia. Ao fim de alguns meses, Carlos, simpático a todos, conciliaradandies e filósofos: e trazia muitas vezes no seu break, lado a lado,o Serra Torres, um monstro que já era adido honorário em Berlim etodas as noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava aMorte de Satanás, encolhido no seu gabão de Aveiro, com o seugrande barrete de lontra. Os Paços de Celas, sob a sua aparência preguiçosa e campestre,tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se umaginástica científica. Uma velha cozinha fora convertida em sala dearmas — porque naquele grupo a esgrima passava como umanecessidade social. À noite, na sala de jantar, moços sérios faziamum whist sério: e no salão, sob o lustre de cristal, com o Figaro, oTimes e as revistas de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas,o Gamacho ao piano tocando Chopin ou Mozart, os literatos estira-dos pelas poltronas — havia ruidosos e ardentes cavacos, em que aDemocracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismarck,o Amor, Hugo e a Evolução, tudo por seu turno flamejava no fumodo tabaco, tudo tão ligeiro e vago como o fumo. E as discussõesmetafísicas, as próprias certezas revolucionárias adquiriam umsabor mais requintado com a presença do criado de farda desarro-lhando a cerveja, ou servindo croquetes. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 75 Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com asfolhas intactas, os seus expositores de medicina. A Literatura e aArte, sob todas as formas, absorveram-no deliciosamente. Publicousonetos no Instituto — e um artigo sobre o Pártenon: tentou, numatelier improvisado, a pintura a óleo: e compôs contos arqueológi-cos, sob a influência da Salammbô. Além disso todas as tardes pas-seava os seus dois cavalos. No segundo ano levaria um R se nãofosse tão conhecido e rico. Tremeu, pensando no desgosto do avô:moderou a dissipação intelectual, acantoou-se mais na ciência queescolhera: imediatamente lhe deram um accessit. Mas tinha nasveias o veneno do diletantismo: e estava destinado, como dizia Joãoda Ega, a ser um desses médicos literários que inventam doençasde que a humanidade papalva se presta logo a morrer! O avô, às vezes, vinha passar uma, duas semanas a Celas. Nosprimeiros tempos a sua presença, agradável aos cavalheiros dapartida de whist, desorganizou o cavaco literário. Os rapazes malousavam estender o braço para o copo da cerveja; e os vossa exce-lência isto, vossa excelência aquilo, regelavam a sala. Pouco apouco, porém, vendo-o aparecer em chinelas e de cachimbo na boca,estirar-se na poltrona com ares simpáticos de patriarca boémio,discutir arte e literatura, contar anedotas do seu tempo de Ingla-terra e de Itália, começaram a considerá-lo como um camarada debarbas brancas. Diante dele já se falava de mulheres e de estroini-ces. Aquele velho fidalgo, tão rico, que lera Michelet e o admirava— chegou mesmo a entusiasmar os democratas. E Afonso gozavaali também horas felizes, vendo o seu Carlos centro daqueles moçosde estudo, de ideal e de veia. Carlos passava as férias grandes em Lisboa, às vezes em Parisou Londres; mas por Natais e Páscoas vinha sempre a Santa Olávia,que o avô, mais só, se entretinha a embelezar com amor. As salastinham agora soberbos panos de Arrás, paisagens de Rousseau eDaubigny, alguns móveis de luxo e de arte. Das janelas a quinta ofe-recia aspectos nobres de parque inglês: através dos macios tabulei-ros de relva, davam curvas airosas as ruas areadas: havia mármo-res entre as verduras; e gordos carneiros de luxo dormiam sob oscastanheiros. Mas a existência neste meio rico não era agora tãoalegre: a viscondessa, cada dia mais nutrida, caía em sonos conges-tivos logo depois do jantar; o Teixeira primeiro, a Gertrudes depois,tinham morrido, ambos de pleurises, ambos no Entrudo: e já se não © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 76via também à mesa a bondosa face do abade, que lá jazia sob umacruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o ano. O doutor juizde direito com a sua concertina passara para a Relação do Porto;D. Ana Silveira, muito doente, nunca saía; a Teresinha fizera-seuma rapariguinha feia, amarela como uma cidra; o Eusebiozinho,molengão e tristonho, já sem vestígios sequer do seu primeiro amoraos alfarrábios e às letras, ia casar na Régua. Só o doutor delegado,esquecido naquela comarca, estava o mesmo, mais calvo talvez,sempre afável, amando sempre a pachorrenta D. Eugénia. E quasetodas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua égua branca aoportão, para vir cavaquear com o colega. As férias, realmente, só eram divertidas para Carlos quandotrazia para a quinta o seu íntimo, o grande João da Ega, a quemAfonso da Maia se afeiçoara muito, por ele e pela sua originalidade,e por ser sobrinho de André da Ega, velho amigo da sua mocidadee, muitas vezes outrora, hóspede também em Santa Olávia. Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pau-sadamente — ora reprovado, ora perdendo o ano. Sua mãe, rica,viúva e beata, retirada numa quinta ao pé de Celorico de Bastocom uma filha, beata, viúva e rica também, tinha apenas umanoção vaga do que o Joãozinho fizera, todo esse tempo, em Coim-bra. O capelão afirmava-lhe que tudo havia de acabar a contento, eque o menino seria um dia doutor como o papá e como o titi: e estapromessa bastava à boa senhora, que se ocupava sobretudo da suadoença de entranhas e dos confortos desse padre Serafim. Esti-mava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longeda quinta, que ele escandalizava com a sua irreligião e as suasfacécias heréticas. João da Ega, com efeito, era considerado não só em Celorico,mas também na Academia, que ele espantava pela audácia e pelosditos, como o maior ateu, o maior demagogo, que jamais apareceranas sociedades humanas. Isto lisonjeava-o: por sistema exagerou oseu ódio à Divindade, e a toda a Ordem social: queria o massacredas classes médias, o amor livre das ficções do matrimónio, arepartição das terras, o culto de Satanás. O esforço da inteligêncianeste sentido terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisiono-mia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os pêlos do bigodearrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado noolho direito — tinha realmente alguma coisa de rebelde e de satânico. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 77Desde a sua entrada na Universidade, renovara as tradições daantiga boémia: trazia os rasgões da batina cosidos a linha branca;embebedava-se com carrascão; à noite, na Ponte, com o braçoerguido, atirava injúrias a Deus. E no fundo muito sentimental,enleado sempre em amores por meninas de quinze anos, filhas deempregados, com quem às vezes ia passar a soirée, levando-lhescartuchinhos de doce. A sua fama de fidalgote rico tornava-o apete-cido nas famílias. Carlos escarnecia estes idílios futricas; mas também ele termi-nou por se enredar num episódio romântico com a mulher de umempregado do Governo Civil, uma lisboetazinha, que o seduziu pelagraça de um corpo de boneca e por uns lindos olhos verdes. A ela oque a fanatizara fora o luxo, o groom, a égua inglesa de Carlos.Trocaram-se cartas; e ele viveu semanas banhado na poesia ásperae tumultuosa do primeiro amor adúltero. Infelizmente a raparigatinha o nome bárbaro de Hermengarda; e os amigos de Carlos, des-coberto o segredo, chamavam-lhe já Eurico, o Presbítero, dirigiampara Celas missivas pelo correio com este nome odioso. Um dia, Carlos andava tomando o Sol na feira, quando oempregado do Governo Civil passou junto dele com o filhinho pelamão. Pela primeira vez via tão de perto o marido de Hermengarda.Achou-o enxovalhado e macilento. Mas o pequerrucho era adorável,muito gordo, parecendo mais roliço por aquele dia de Janeiro sob osagasalhos de lã azul, tremelicando nas pobres perninhas roxas defrio, e rindo na clara luz — rindo todo ele, pelos olhos, pelas covi-nhas do queixo, pelas duas rosas das faces. O pai amparava-o; e oencanto, o cuidado com que o rapaz ia assim guiando os passos doseu filho, impressionou Carlos. Era no momento em que ele liaMichelet — e enchia-lhe a alma a veneração literária da santidadedoméstica. Sentiu-se canalha em andar ali de cima do seu dog-cart,a preparar friamente a vergonha, e as lágrimas daquele pobre paitão inofensivo no seu paletó coçado! Nunca mais respondeu às car-tas em que Hermengarda lhe chamava seu ideal. Decerto a rapa-riga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do Governo Civil,daí por diante, dardejava sobre ele olhares sangrentos. Mas a grande «topada sentimental de Carlos», como disse oEga, foi quando ele, ao fim de umas férias, trouxe de Lisboa umasoberba rapariga espanhola, e a instalou numa casa ao pé de Celas.Chamava-se Encarnación. Carlos alugou-lhe ao mês uma vitória © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 78com um cavalo branco e Encarnación fanatizou Coimbra como aaparição de uma Dama das Camélias, uma flor de luxo das civiliza-ções superiores. Pela Calçada, pela estrada da Beira, os rapazesparavam, pálidos de emoção, quando ela passava, reclinada navitória, mostrando o sapato de cetim, um pouco da meia de seda,lânguida e desdenhosa, com um cãozinho branco no regaço. Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnaciónfoi chamada Lírio de Israel, Pomba da Arca e Nuvem da Manhã.Um estudante de teologia, rude e sebento transmontano, quis casarcom ela. Apesar das instâncias de Carlos, Encarnación recusou; e oteólogo começou a rondar Celas, com um navalhão, para «beber osangue» ao Maia. Carlos teve de lhe dar bengaladas. Mas a criatura, desvanecida, tornou-se intolerável, falando semcessar de outras paixões que inspirara em Madrid e em Lisboa, domuito que lhe dera o conde de tal, o marquês sicrano, da grandeposição da sua família ainda aparentada com os Medina-Coeli: osseus sapatos de cetim verde eram tão antipáticos como a sua vozestrídula: e quando tentava elevar-se às conversações que ouvia,rompia a chamar ladrões aos republicanos, a celebrar os tempos deD. Isabel, a sua gracia, o seu salero — sendo muito conservadoracomo todas as prostitutas. João da Ega odiava-a. E Craveiro decla-rou que não voltava aos Paços de Celas enquanto por lá aparecesseaquele montão de carne, pago ao arrátel, como a de vaca. Enfim, uma tarde, Baptista, o famoso criado de quarto de Car-los, surpreendeu-a com um Juca que fazia de dama no Teatro Aca-démico. Aí estava, enfim, um pretexto! E, convenientemente paga,a parenta dos Medina-Coeli, o Lírio de Israel, a admiradora dosBourbons, foi recambiada a Lisboa, e à Rua de S. Roque, seu ele-mento natural. Em Agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegrefesta em Celas. Afonso viera de Santa Olávia, Vilaça de Lisboa;toda a tarde no quintal, de entre as acácias e as belas sombras,subiram ao ar molhos de foguetes; e João da Ega, que levara o seuúltimo R no seu último ano, não descansou, em mangas de camisa,pendurando lanternas venezianas pelos ramos, no trapézio e emroda do poço, para a iluminação da noite. Ao jantar, a que assis-tiam lentes, Vilaça, enfiado e trémulo, fez um speech; ia citar onosso imortal Castilho quando sob as janelas rompeu, a granderuído de tambor e pratos, o Hino Académico. Era uma serenata. — © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 79Ega, vermelho, de batina desabotoada, a luneta para trás das cos-tas, correu à sacada, a perorar: — Aí temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, come-çando a sua gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidadeenferma — ou acabar de a matar, segundo as circunstâncias! A queparte remota destes reinos não chegou já a fama do seu génio, do seudog-cart, do sebáceo accessit que lhe enodoa o passado, e deste vinhodo Porto contemporâneo dos heróis de 20, que eu, homem de revolu-ção e homem de carraspana, eu, João da Ega, Joahanes ab Ega... O grupo escuro em baixo desatou aos vivas. A filarmónica,outros estudantes, invadiram os Paços. Até tarde, sob as árvores doquintal, na sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correramcom salvas de doce, não cessou de estalar o champanhe. E Vilaça,limpando a testa, o pescoço, abafado de calor, ia dizendo a um, aoutro, a si mesmo também: — Grande coisa, ter um curso! E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pelaEuropa. Um ano passou. Chegara esse Outono de 1875: e o avô,instalado enfim no Ramalhete, esperava por ele ansiosamente. Aúltima carta de Carlos viera de Inglaterra, onde andava, dizia ele,a estudar a admirável organização dos hospitais de crianças. Assimera: mas passeava também por Brighton, apostava nas corridas deGoodwood, fazia um idílio errante pelos lagos da Escócia, com umasenhora holandesa, separada de seu marido, venerável magistradoda Haia, uma Madame Rughel, soberba criatura de cabelos de oirofulvo, grande e branca como uma ninfa de Rubens. Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixassucessivas de livros, outras de instrumentos e aparelhos, toda umabiblioteca e todo um laboratório — que trazia o Vilaça, manhãsinteiras, aturdido pelos armazéns da Alfândega. — O meu rapaz vem com grandes ideias de trabalho — diziaAfonso aos amigos. Havia catorze meses que ele o não via, o «seu rapaz», a não sernuma fotografia mandada de Milão, em que todos o acharam magroe triste. E o coração batia-lhe forte, na linda manhã de Outono,quando do terraço do Ramalhete, de binóculo na mão, viu assomarvagarosamente, por trás do alto prédio fronteiro, um grandepaquete da Royal Mail que lhe trazia o seu neto. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 80 À noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho,o Vilaça — não se fartavam de admirar «o bem que a viagem fizeraa Carlos». Que diferença da fotografia! Que forte, que saudável! Era decerto um formoso e magnífico moço, alto, bem feito, deombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis dos cabelospretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, deum negro líquido, ternos como os dele e mais graves. Trazia abarba toda, muito fina, castanho-escura, rente na face, aguçada noqueixo — o que lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantosda boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascença. E o avô,cujo olhar risonho e húmido trasbordava de emoção, todo se orgu-lhava de o ver, de o ouvir, numa larga veia, falando da viagem, dosbelos dias de Roma, do seu mau humor na Prússia, da originali-dade de Moscovo, das paisagens da Holanda... — E agora? — perguntou-lhe o Sequeira, depois de ummomento de silêncio em que Carlos estivera bebendo o seu conha-que e soda. — Agora que tencionas tu fazer? — Agora, general? — respondeu Carlos, sorrindo e pousando ocopo. — Descansar primeiro e depois passar a ser uma glória nacional! Ao outro dia, com efeito, Afonso veio encontrá-lo na sala debilhar — onde tinham sido colocados os caixotes — a despregar, adesempacotar, em mangas de camisa e assobiando com entusiasmo.Pelo chão, pelos sofás, alastrava-se toda uma literatura em rumasde volumes graves; e aqui e além, por entre a palha, através daslonas descosidas, a luz faiscava num cristal, ou reluziam os verni-zes, os metais polidos dos aparelhos. Afonso pasmava em silênciopara aquele pomposo aparato do saber. — E onde vais tu acomodar este museu? Carlos pensara em arranjar um vasto laboratório ali perto nobairro, com fornos para trabalhos químicos, uma sala disposta paraestudos anatómicos e fisiológicos, a sua biblioteca, os seus aparelhos,uma concentração metódica de todos os instrumentos de estudo... Os olhos do avô iluminavam-se ouvindo este plano grandioso. — E que não te prendam questões de dinheiro, Carlos! Nós fize-mos nestes últimos anos de Santa Olávia algumas economias... — Boas e grandes palavras, avô! Repita-as ao Vilaça. As semanas foram passando nestes planos de instalação. Car-los trazia realmente resoluções sinceras de trabalho: a ciência comomera ornamentação interior do espírito, mais inútil para os outros © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 81que as próprias tapeçarias do seu quarto, parecia-lhe apenas umluxo de solitário: desejava ser útil. Mas as suas ambições flutua-vam, intensas e vagas; ora pensava numa larga clínica; ora na com-posição maciça de um livro iniciador; algumas vezes em experiên-cias fisiológicas, pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou supu-nha sentir, o tumulto de uma força, sem lhe discernir a linha deaplicação. «Alguma coisa de brilhante», como ele dizia: e isto paraele, homem de luxo e homem de estudo, significava um conjunto derepresentação social e de actividade científica; o remexer profundode ideias entre as influências delicadas da riqueza; os elevadosvagares da filosofia entremeados com requintes de sport e de gosto;um Claude Bernard que fosse também um Morny... No fundo eraum diletante. Vilaça fora consultado sobre a localidade própria para o labora-tório; e o procurador, muito lisonjeado, jurou uma diligência incan-sável. Primeira coisa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clí-nica?... Carlos não decidira fazer exclusivamente clínica: mas desejavadecerto dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como prá-tica. Então Vilaça sugeriu que o consultório estivesse separado dolaboratório. — E a minha razão é esta: a vista de aparelhos, máquinas, coi-sas, faz esmorecer os doentes... — Tem você razão, Vilaça! — exclamou Afonso. — Já meu paidizia: poupe-se ao boi a vista do malho. — Separados, separados, meu senhor — afirmou o procuradornum tom profundo. Carlos concordou. E Vilaça bem depressa descobriu, para olaboratório, um antigo armazém, vasto e retirado, ao fundo de umpátio, junto ao Largo das Necessidades. — E o consultório, meu senhor, não é aqui, nem acolá; é no Ros-sio, ali em pleno Rossio! Esta ideia do Vilaça não era desinteressada. Grande entusiastada Fusão, membro do Centro Progressista, Vilaça Júnior aspiravaa ser vereador da Câmara, e mesmo em dias de satisfação superior(como quando o seu aniversário natalício vinha anunciado no Ilus-trado, ou quando no Centro citava com aplauso a Bélgica),parecia-lhe que tantas aptidões mereciam do seu partido umacadeira em S. Bento. Um consultório gratuito, no Rossio, o consultório © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 82do Dr. Maia, «do seu Maia» reluziu-lhe logo vagamente como umelemento de influência. E tanto se agitou, que daí a dois dias tinhaalugado um primeiro andar de esquina. Carlos mobilou-o com luxo. Numa antecâmara, guarnecida debanquetas de marroquim, devia estacionar, à francesa, um criadode libré. A sala de espera dos doentes alegrava com o seu papelverde de ramagens prateadas, a plantas em vasos de Ruão, qua-dros de muita cor, e ricas poltronas cercando a jardineira cobertade colecções do Charivari, de vistas estereoscópicas, de álbuns deactrizes seminuas, para tirar inteiramente o ar triste de consultó-rio, até um piano mostrava o seu teclado branco. O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quase austero,todo em veludo verde-negro, com estantes de pau-preto. Algunsamigos que começavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporâ-neo e agora vizinho do Ramalhete, o Cruges, o marquês de Souse-las, com quem percorrera a Itália — vieram ver estas maravilhas.O Cruges correu uma escala no piano e achou-o abominável;Taveira absorveu-se nas fotografias de actrizes; e a única aprova-ção franca veio do marquês, que depois de contemplar o divã dogabinete, verdadeiro móvel de serralho, vasto, voluptuoso, fofo,experimentou-lhe a doçura das molas e disse, piscando o olho aCarlos: — A calhar. Não pareciam acreditar nestes preparativos. E todavia eramsinceros. Carlos até fizera anunciar o consultório nos jornais;quando viu, porém, o seu nome em letras grossas, entre o de umaengomadeira à Boa Hora e um reclamo de casa de hóspedes —encarregou Vilaça de retirar o anúncio. Ocupava-se então mais do laboratório, que decidira instalar noarmazém, às Necessidades. Todas as manhãs, antes de almoço, iavisitar as obras. Entrava-se por um grande pátio, onde uma belasombra cobria um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchosde ferro que a prendiam ao muro. Carlos já decidira transformaraquele espaço em fresco jardinete inglês; e a porta do casarãoencantava-o, ogival e nobre, resto de fachada de ermida, fazendoum acesso vulnerável para o seu santuário de ciência. Mas dentroos trabalhos arrastavam-se sem fim; sempre um vago martelar pre-guiçoso numa poeira alvadia; sempre as mesmas coifas de ferra-mentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um carpinteiro © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 83esgrouviado e triste parecia estar ali desde séculos, aplainandouma tábua eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os traba-lhadores, que andavam alargando a clarabóia, não cessavam deassobiar, no sol de Inverno, alguma lamúria de fado. Carlos queixava-se ao Sr. Vicente, o mestre-de-obras, que lheasseverava invariavelmente «como daí a dois dias havia de SuaExcelência ver a diferença». Era um homem de meia-idade, riso-nho, de falar doce, muito barbeado, muito lavado, que morava ao péde Ramalhete, e tinha no bairro fama de republicano. Carlos, porsimpatia, como vizinho, apertava-lhe sempre a mão: e o Sr. Vicente,considerando-o por isso um «avançado», um democrata,confiava-lhe as suas esperanças. O que ele desejava primeiro quetudo era um 93, como em França... — O quê, sangue? — dizia Carlos, olhando a fresca, honrada eroliça face do demagogo. — Não, senhor, um navio, um simples navio... — Um navio? — Sim, senhor, um navio fretado à custa da nação, em que semandasse pela barra fora o rei, a família real, a cambada dosministros, dos políticos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc. Carlos sorria, às vezes argumentava com ele. — Mas está o Sr. Vicente bem certo, que apenas a cambada,como tão exactamente diz, desaparecesse pela barra fora, ficavamresolvidas todas as coisas e tudo atolado em felicidade? Não, o Sr. Vicente não era «burro» que assim pensasse. Mas,suprimida a cambada, não via Sua Excelência? Ficava o país desa-travancado; e podiam então começar a governar os homens desaber e de progresso... — Sabe Vossa Excelência qual é o nosso mal? Não é má vontadedessa gente; é muita soma de ignorância. Não sabem. Não sabemnada. Eles não são maus, mas são umas cavalgaduras! — Bem, então essas obras, amigo Vicente — dizia-lhe Carlos,tirando o relógio e despedindo-se dele com um valente shake-hands— veja se me andam. Não lho peço como proprietário, é como corre-ligionário. — Daqui a dois dias há-de Vossa Excelência ver a diferença —respondia o mestre-de-obras, desbarretando-se. No Ramalhete, pontualmente ao meio-dia, tocava a sineta doalmoço. Carlos encontrava quase sempre o avô já na sala de jantar, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 84acabando de percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tépidasuavidade daquele fim de Outono não permitia acender lume, masverdejando todo de plantas de estufa. Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam sua-vemente, no seu luxo maciço e sóbrio, as baixelas antigas; pelas tape-çarias ovais dos muros apainelados corriam cenas de balada, caçado-res medievais soltando o falcão, uma dama entre pajens alimentandoos cisnes de um lago, um cavaleiro de viseira calada seguindo aolongo de um rio; e contrastando com o tecto escuro de castanho enta-lhado, a mesa resplandecia com as flores entre os cristais. O «Reverendo Bonifácio», que desde que se tornara dignitárioda Igreja comia com os senhores, lá estava já majestosamente sen-tado sobre a alvura nevada da toalha, à sombra de algum granderamo. Era ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava delamber, com o seu vagar estúpido, as sopas de leite, servidas numcovilhete de Estrasburgo. Depois agachava-se, traçava por diantedo peito a fofa pluma da sua cauda, e de olhos cerrados, os bigodestesos, todo ele uma bola entufada de pêlo branco malhado de oiro,gozava de leve uma sesta macia. Afonso — como confessava, sorrindo e humilhado — ia-se tornandocom a velhice um gourmet exigente; e acolhia, com uma concentraçãode crítico, as obras de arte do chef francês que tinham agora, um cava-lheiro de mau génio, todo bonapartista, muito parecido com o impera-dor, e que se chamava Mr. Théodore. Os almoços no Ramalhete eramsempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando;e passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma excla-mação, precipitando-se sobre o relógio, se lembrava do seu consultório.Bebia um cálice de chartreuse, acendia à pressa um charuto. — Ao trabalho, ao trabalho! — exclamava. E o avô, enchendo devagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquelaocupação, enquanto ele ficava ali a vadiar toda a manhã... — Quando esse eterno laboratório estiver acabado, talvez vápara lá passar um bocado, ocupar-me de química. — E ser talvez um grande químico. O avô tem já o feitio. O velho sorria. — Esta carcaça já não dá nada, filho. Está pedindo Eternidade! — Quer alguma coisa da Baixa, de Babilónia? — perguntavaCarlos, abotoando à pressa as suas luvas de governar. — Bom dia de trabalho. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 85 — Pouco provável... E no dog-cart, com aquela linda égua, a Tunante, ou no fae-tonte com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grandeestilo para a Baixa, para «o trabalho». O seu gabinete, no consultório, dormia numa paz tépida entreos espessos veludos escuros, na penumbra que faziam os estores deseda verde corridos. Na sala, porém, as três janelas abertas bebiamà farta a luz; tudo ali parecia festivo; as poltronas em torno da jar-dineira estendiam os seus braços, amáveis e convidativos; o tecladobranco do piano ria e esperava, tendo abertas por cima as Cançõesde Gounod; mas não aparecia jamais um doente. E Carlos — exac-tamente como o criado que, na ociosidade da antecâmara, dormi-tava sob o Diário de Notícias, acaçapado na banqueta — acendiaum cigarro «Laferme», tomava uma revista, e estendia-se no divã.A prosa, porém, dos artigos estava como embebida do tédio morosodo gabinete: bem depressa bocejava, deixava cair o volume. Do Rossio, o ruído das carroças, os gritos errantes de pregões, orolar dos americanos, subiam, numa vibração mais clara, por aquelear fino de Novembro: uma luz macia, escorregando docemente doazul-ferrete, vinha dourar as fachadas enxovalhadas, as copas mes-quinhas das árvores do município, a gente vadiando pelos bancos: eessa sussurração lenta de cidade preguiçosa, esse ar aveludado declima rico, pareciam ir penetrando pouco a pouco naquele abafadogabinete e resvalando pelos veludos pesados, pelo verniz dosmóveis, envolver Carlos numa indolência e numa dormência... Coma cabeça na almofada, fumando, ali ficava, nessa quietação de sesta,num cismar que se ia desprendendo, vago e ténue, como o ténue eleve fumo que se eleva de uma braseira meio apagada; até que, comum esforço, sacudia este torpor, passeava na sala, abria aqui e alémpelas estantes um livro, tocava no piano dois compassos de valsa,espreguiçava-se — e, com os olhos nas flores do tapete, terminavapor decidir que aquelas duas horas de consultório eram estúpidas! — Está aí o carro? — ia perguntar ao criado. Acendia bem depressa outro charuto, calçava as luvas, descia,bebia um largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, mur-murando consigo: — Dia perdido! Foi uma dessas manhãs que preguiçando assim no sofá com aRevista dos Dois Mundos na mão, ele ouviu um rumor na antecâ- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 86mara, e logo uma voz bem conhecida, bem querida, que dizia portrás do reposteiro: — Sua Alteza Real está visível? — Oh! Ega! — gritou Carlos, dando um salto do sofá. E caíram nos braços um do outro, beijando-se na face, enternecidos. — Quando chegaste tu? — Esta manhã. Caramba! — exclamava Ega, procurando pelopeito, pelos ombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o enfimno olho. — Caramba! Tu vens esplêndido desses Londres, dessascivilizações superiores. Estás com um ar Renascença, um arValois... Não há nada como a barba toda! Carlos ria, abraçando-o outra vez. — E donde vens tu, de Celorico? — Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... Ofígado, o baço, uma infinidade de vísceras comprometidas. Enfim,doze anos de vinhos e aguardentes. Depois falaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, dademora do Ega em Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito doalto da diligência, às várzeas de Celorico, o adeus de eternidade. — Imagina tu, Carlos amigo, a história deliciosa que me sucedecom a minha mãe... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a arespeito de vir viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinhei-ros largos. Qual, não caiu! Fiquei na quinta, fazendo epigramas aopadre Serafim e a toda a Corte do Céu. Chega Julho, e aparece nosarredores uma epidemia de anginas. Um horror, creio que vocês lhechamam diftéricas... A mamã salta imediatamente à conclusão queé a minha presença, a presença do ateu, do demagogo, sem jejuns esem missa, que ofendeu Nosso Senhor e atraiu o flagelo. Minhairmã concorda. Consultam o padre Serafim. O homem, que nãogosta de me ver na quinta, diz que é possível que haja indignação doSenhor — e minha mãe vem pedir-me quase de joelhos, com a bolsaaberta, que venha para Lisboa, que a arruíne, mas que não estejaali chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz... — E a epidemia... — Desapareceu logo — disse o Ega, começando a puxar devagardos dedos magros uma longa luva cor de canário. Carlos mirava aquelas luvas do Ega; e as polainas de casimira;e o cabelo que ele trazia crescido com uma mecha frisada na testa;e na gravata de cetim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 87Ega dandy, vistoso, paramentado, artificial e com pó-de-arroz — eCarlos deixou enfim escapar a exclamação impaciente que lhe bai-lava nos lábios: — Ega, que extraordinário casaco! Por aquele Sol macio e morno de um fim de Outono português,o Ega, o antigo boémio de batina esfarrapada, trazia uma peliça,uma sumptuosa peliça de príncipe russo, agasalho de trenó e deneve, ampla, longa, com alamares trespassados à Brandeburgo, epondo-lhe em torno do pescoço esganiçado e dos pulsos de tísicouma rica e fofa espessura de peles de marta. — É uma boa peliça, hem? — disse ele logo, erguendo-seabrindo-a, exibindo a opulência do forro. — Mandei-a vir peloStrauss... Benefícios da epidemia. — Como podes tu suportar isso? — É um bocado pesada, mas tenho andado constipado. Tornou a recostar-se no sofá, adiantando o sapato de vernizmuito bicudo, e, de monóculo no olho, examinou o gabinete. — E tu que fazes? Conta-me lá... Tens isto esplêndido! Carlos falou dos seus planos, de altas ideias de trabalho, dasobras do laboratório... — Um momento, quanto te custou tudo isto? — exclamou o Egainterrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o veludo dos repos-teiros, mirar os torneados da secretária de pau-preto. — Não sei. O Vilaça é que deve saber... E Ega, com as mãos enterradas nos vastos bolsos da peliça,inventariando o gabinete, fazia considerações: — O veludo dá seriedade... E o verde-escuro é a cor suprema, éa cor estética... Tem a sua expressão própria, enternece e faz pen-sar... Gosto deste divã. Móvel de amor... Foi entrando para a sala dos doentes, devagar, de luneta noolho, estudando os ornatos. — Tu és o grandioso Salomão, Carlos! O papel é bonito... E ocretonezinho agrada-me. Apalpou-o também. Uma begónia, manchada da sua ferrugemde prata, num vaso de Ruão, interessou-o. Queria saber o preço detudo; e diante do piano, olhando o livro da música aberto, as Can-ções de Gounod, teve uma surpresa enternecida: — Homem, é curioso... Cá me aparece! A Barcarola! É deli-ciosa, hem?... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 88 Dites, la jeune belle, Où voulez-vous aller? La voile... — Estou um bocado rouco... Era a nossa canção na Foz! Carlos teve outra exclamação, e cruzando os braços diante dele: — Tu estás extraordinário, Ega! Tu és outro Ega!... A propósitoda Foz... Quem é essa Madame Cohen, que estava também na Foz,de quem tu, em cartas sucessivas, verdadeiros poemas, que recebiem Berlim, na Haia, em Londres, me falavas com os arroubos doCântico dos Cânticos? Um leve rubor subiu às faces do Ega. E limpando negligente-mente o monóculo ao lenço de seda branca: — Uma judia. Por isso usei o lirismo bíblico. É a mulher doCohen, hás-de conhecer, um que é director do Banco Nacional...Demo-nos bastante. É simpática... Mas o marido é uma besta... Foiuma flirtation de praia. Voilà tout. Isto era dito aos bocados, passeando, puxando o lume ao cha-ruto, e ainda corado. — Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocês no Ramalhete?O avô Afonso? Quem vai por lá?... No Ramalhete, o avô fazia o seu whist com os velhos parceiros.Ia o D. Diogo, o decrépito leão, sempre de rosa ao peito, e frisandoainda os bigodes... Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoi-rar de sangue, à espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbro-ken... — Não conheço. Refugiado?... Polaco?... — Não, ministro da Finlândia... Queria-nos alugar umascocheiras e complicou esta simples transacção com tantas finurasdiplomáticas, tantos documentos, tantas coisas com o selo real daFinlândia, que o pobre Vilaça, aturdido, para se desembaraçar,remeteu-o ao avô. O avô, desnorteado também, ofereceu-lhe ascocheiras de graça. Steinbroken considera isto um serviço feito aorei da Finlândia, à Finlândia, vai visitar o avô, em grande estado,com o secretário da Legação, o cônsul, o vice-cônsul... — Isso é sublime! — O avô convida-o a jantar... E como o homem é muito fino, umgentleman, entusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos,uma autoridade no whist, o avô adopta-o. Não sai do Ramalhete. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 89 — E de rapazes? De rapazes, aparecia Taveira, sempre muito correcto, empre-gado agora no Tribunal de Contas; um Cruges, que o Ega nãoconhecia, um diabo adoidado, maestro, pianista, com uma pontinhade génio; o marquês de Souselas... — Não há mulheres? — Não há quem as receba. É um covil de solteirões. A viscon-dessa, coitada... — Bem sei. Um apoplecté... — Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos também o Silveiri-nha, chegou-nos ultimamente o Silveirinha... — O de Resende, o cretino? — O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um bocadotísico, todo carregado de luto... Um fúnebre. O Ega, repoltreado, com aquele ar de tranquila e sólida felici-dade que Carlos já notara, disse, puxando lentamente os punhos: — É necessário reorganizar essa vida. Precisamos arranjar umcenáculo, uma boemiazinha doirada, umas soirées de Inverno, comarte, com literatura... Tu conheces o Craft? — Sim, creio que tenho ouvido falar... Ega teve um grande gesto. Era indispensável conhecer o Craft!O Craft era simplesmente a melhor coisa que havia em Portugal... — É um inglês, uma espécie de doido?... Ega encolheu os ombros. Um doido!... Sim, era essa a opiniãoda Rua dos Fanqueiros; o indígena, vendo uma originalidade tãoforte como a de Craft, não podia explicá-la senão pela doidice. OCraft era um rapaz extraordinário!... Agora tinha ele chegado daSuécia, de passar três meses com os estudantes de Upsala. Estavatambém na Foz... Uma individualidade de primeira ordem! — É um negociante do Porto, não é? — Qual negociante do Porto! — exclamou o Ega erguendo-se,franzindo a face, enojado de tanta ignorância. — O Craft é filho deum clergyman da igreja inglesa do Porto. Foi um tio, um nego-ciante de Calcutá ou da Austrália, um nababo, que lhe deixou a for-tuna. Uma grande fortuna. Mas não negoceia, nem sabe o que issoé. Dá largas ao seu temperamento byroniano, é o que faz. Tem via-jado por todo o universo, colecciona obras de arte, bateu-se comovoluntário na Abissínia e em Marrocos, enfim vive, vive na grande,na forte, na heróica acepção da palavra. É necessário conhecer o © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 90Craft. Vais-te babar por ele... Tens razão, caramba, está calor. Desembaraçou-se da opulenta peliça, e apareceu em peitilho decamisa. — O quê! tu não trazias nada por baixo? — exclamou Carlos. —Nem colete? — Não; então não a podia aguentar... Isto é para o efeito moral,para impressionar o indígena... Mas, não há negá-lo, é pesada! E imediatamente voltou à sua ideia: apenas o Craft chegasse doPorto relacionavam-se, organizava-se um cenáculo, um Decâmeronde arte e diletantismo, rapazes e mulheres, três ou quatro mulherespara cortarem, com a graça dos decotes, a severidade das filosofias... Carlos ria-se desta ideia do Ega. Três mulheres de gosto e deluxo, em Lisboa, para adornar um cenáculo! Lamentável ilusão deum homem de Celorico! O marquês de Souselas tinha tentado, epara uma vez só, uma coisa bem mais simples — um jantar nocampo com actrizes. Pois fora o escândalo mais engraçado e maiscaracterístico: uma não tinha criada e queria levar consigo para afesta uma tia e cinco filhos; outra temia que, aceitando, o brasileirolhe tirasse a mesada; uma consentiu, mas o amante, quando soube,deu-lhe uma coça. Esta não tinha vestido para ir; aquela pretendiaque lhe garantissem uma libra; houve uma que se escandalizoucom o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os queridos,os polhos, complicaram medonhamente a questão; uns exigiam serconvidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos,fizeram-se intrigas — enfim esta coisa banal, um jantar com actri-zes, resultou em o Tarquínio do Ginásio levar uma facada... — E aqui tens tu Lisboa. — Enfim — exclamou o Ega — se não aparecerem mulheres,importam-se, que é em Portugal para tudo recurso natural. Aquiimporta-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas,ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nosvem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima,com os direitos da Alfândega: e é em segunda mão, não foi feitapara nós, fica-nos curta nas mangas... Nós julgamo-nos civilizadoscomo os negros de São Tomé se supõem cavalheiros, se supõemmesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha dopatrão... Isto é uma choldra torpe. Onde pus eu a charuteira? Desembaraçado da majestade que lhe dava a peliça, o antigoEga reaparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mefistó- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 91feles em verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibraras suas grandes frases, numa luta constante com o monóculo, quelhe caía do olho, que ele procurava pelo peito, pelos ombros, pelosrins, retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlosanimava-se também, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo,Gambetta, o Niilismo; depois, com ferocidade e à uma, malharamsobre o país... Mas o relógio ao lado bateu quatro horas; imediatamente Egasaltou sobre a peliça, sepultou-se nela, aguçou o bigode ao espelho,verificou a pose e, encouraçado nos seus alamares, saiu com umarzinho de luxo e de aventura. — John — disse Carlos que o achava esplêndido e o ia seguindoao patamar — onde estás tu? — No Universal, esse santuário! Carlos abominava o Universal, queria que ele viesse para oRamalhete. — Não me convém... — Em todo o caso vais hoje lá jantar, ver o avô. — Não posso. Estou comprometido com a besta do Cohen... Masvou lá amanhã almoçar. Já nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monóculo, gritoupara cima: — Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro! — O quê! está pronto? — exclamou Carlos, espantado. — Está esboçado, à broxa larga... O livro do Ega! Fora em Coimbra, nos dois últimos anos, queele começara a falar do seu livro, contando o plano, soltando títulosde capítulos, citando pelos cafés frases de grande sonoridade. Eentre os amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendoiniciar, pela forma e pela ideia, uma evolução literária. Em Lisboa(onde ele vinha passar as férias e dava ceias no Silva) o livro foraanunciado como um acontecimento. Bacharéis, contemporâneos ouseus condiscípulos, tinham levado de Coimbra, espalhado pelasprovíncias e pelas ilhas, a fama do livro do Ega. Já de qualquermodo essa notícia chegara ao Brasil. E sentindo esta ansiosa expec-tativa em torno do seu livro — o Ega decidira-se enfim a escrevê-lo. Devia ser uma epopeia em prosa, como ele dizia, dando, sob epi-sódios simbólicos, a história das grandes fases do Universo e daHumanidade. Intitulava-se Memórias de Um Átomo, e tinha a © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 92forma de uma autobiografia. Este átomo (o átomo do Ega, como selhe chamava a sério em Coimbra) aparecia no primeiro capítulo,rolando ainda no vago das nebulosas primitivas: depois vinhaembrulhado, faísca candente, planta que surgiu da crosta aindamole do globo. Desde então, viajando nas incessantes transforma-ções da substância, o átomo do Ega entrava na rude estrutura doOrango, pai da Humanidade — e mais tarde vivia nos lábios dePlatão. Negrejava no burel dos santos, refulgia na espada dosheróis, palpitava no coração dos poetas. Gota de água nos lagos deGalileia, ouvira o falar de Jesus, aos fins da tarde, quando os após-tolos recolhiam as redes; nó de madeira na tribuna da Convenção,sentira o frio da mão de Robespierre. Errara nos vastos anéis deSaturno; e as madrugadas da Terra tinham-no orvalhado, pétalaresplandecente de um dormente e lânguido lírio. Fora omnipre-sente, era omnisciente. Achando-se finalmente no bico da pena doEga, e cansado desta jornada através do Ser, repousava — escre-vendo as suas Memórias... Tal era este formidável trabalho — deque os admiradores do Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e comoesmagados de respeito: — É uma Bíblia! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós pág. 93 de 595 Capítulo V N O escritório de Afonso da Maia ainda durava, apesar deser tarde, a partida de whist. A mesa estava ao lado da chaminé,onde a chama morria nos carvões escarlates, no seu recanto costu-mado, abrigada pelo biombo japonês, por causa da bronquite deD. Diogo e do seu horror ao ar. Esse velho dandy — a quem as damas de outras eras chama-vam o «Lindo Diogo», gentil toureiro que dormira num leito real —acabava justamente de ter um dos seus acessos de tosse, cavernosa,áspera, dolorosa, que o sacudiam como uma ruína, que ele abafavano lenço, com as veias inchadas, roxo até à raiz dos cabelos. Mas passara. Com a mão ainda trémula, o decrépito leão lim-pou as lágrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, com-pôs a rosa-de-musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um gole dasua água chazada, e perguntou a Afonso, seu parceiro, numa vozrouca e surda: — Paus, hem? E de novo, sobre o pano verde, as cartas foram caindo numdaqueles silêncios que se seguiam às tosses de D. Diogo. Sentia-sesó a respiração assobiada, quase silvante, do general Sequeira,muito infeliz essa noite, desesperado com o Vilaça, seu parceiro,rezingão e com todo o sangue na face. Um tom fino retiniu, o relógio Luís XV foi ferindo alegremente,vivamente, a meia-noite; — depois a toada argentina do seuminuete vibrou um momento e morreu. Houve de novo um silêncio. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 94Uma renda vermelha recobria os globos de dois grandes candeeirosCarcel; e a luz assim coada, caindo sobre os damascos vermelhosdas paredes, dos assentos, fazia como uma doce refracçãocor-de-rosa, um vaporoso de nuvem em que a sala se banhava edormia: só aqui e além, sobre os carvalhos sombrios das estantes,rebrilhava em silêncio o ouro de um Sèvres, uma palidez de mar-fim, ou algum tom esmaltado de velha majólica. — O quê! ainda encarniçados! — exclamou Carlos, que abrira oreposteiro, entrava, e com ele o rumor distante de bolas de bilhar. Afonso, que recolhia a sua vaza, voltou logo a cabeça, a pergun-tar com interesse: — Como vai ela? Está sossegada? — Está muito melhor! Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origemalsaciana, casada com o Marcelino padeiro, muito conhecida nobairro pelos seus belos cabelos, loiros e penteados sempre em tran-ças soltas. Tinha estado à morte com uma pneumonia; e apesar demelhor, como a padaria ficava defronte, Carlos ainda às vezes ànoite atravessava a rua para a ir ver, tranquilizar o Marcelino,que, defronte do leito e de gabão pelos ombros, sufocava soluços deamante, escrevinhando no livro de contas. Afonso interessara-se ansiosamente por aquela pneumonia; eagora estava realmente agradecido à Marcelina, por ter sido salvapor Carlos. Falava dela comovido; gabava-lhe a linda figura, oasseio alsaciano, a prosperidade que trouxera à padaria... Para aconvalescença, que se aproximava, já lhe mandara até seis garrafasde Château-Margaux. — Então fora de perigo, inteiramente fora de perigo? — per-guntou Vilaça, com os dedos na caixa do rapé, sublinhando muito asua solicitude. — Sim, quase rija — disse Carlos, que se aproximara da cha-miné, esfregando as mãos, arrepiado. É que a noite, fora, estava regelada! Desde o anoitecer geava,de um céu fino e duro, trasbordando de estrelas que rebrilhavamcomo pontas afiadas de aço; e nenhum daqueles cavalheiros, desdeque se entendia, conhecera jamais o termómetro tão baixo. Sim,Vilaça lembrava-se de um Janeiro pior no Inverno de 64... — É necessário carregar no ponche, hem, general! — exclamouCarlos, batendo galhofeiramente nos ombros maciços do Sequeira. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 95 — Não me oponho — rosnou o outro, que fixava com concentra-ção e rancor um valete de copas sobre a mesa. Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carvões: umachuva de ouro caiu por baixo, uma chama mais forte ressaltou,rugiu, alegrando tudo, avermelhando em redor as peles de ursoonde o «Reverendo Bonifácio», espapado, torrava ao calor, ronro-nava de gozo. — O Ega deve estar radiante — dizia Carlos com os pés àchama. — Tem, enfim, justificada a peliça. A propósito, algum dossenhores tem visto o Ega estes últimos dias? Ninguém respondeu, no interesse súbito que causava a cartada.A longa mão de D. Diogo recolhia devagar a vaza — e languida-mente, no mesmo silêncio, soltou uma carta de paus. — Oh! Diogo! Oh! Diogo! — gritou Afonso, estorcendo-se, comose o traspassasse um ferro. Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faíscas, colo-cou o seu valete; Afonso, profundamente infeliz, separou-se do reide paus; Vilaça bateu de estalo com os ás. E imediatamente foi emredor uma discussão tremenda sobre a puxada de D. Diogo —enquanto Carlos, a quem as cartas sempre enfastiavam, se debru-çava a coçar o ventre fofo do venerável «Reverendo». — Que perguntavas tu, filho? — disse enfim Afonso,erguendo-se, ainda irritado, a buscar tabaco para o cachimbo, suaconsolação nas derrotas. — O Ega? Não, ninguém o viu, não tornoua aparecer! Está também um bom ingrato, esse John... Ao nome do Ega, Vilaça, parando de baralhar as cartas,erguera a face curiosa: — Então sempre é certo que ele vai montar casa? Foi Afonso que respondeu, sorrindo e acendendo o cachimbo: — Montar casa, comprar coupé, deitar libré, dar soirées literá-rias, publicar um poema, o diabo! — Ele esteve lá no escritório — dizia o Vilaça recomeçando abaralhar. — Esteve lá a indagar o que tinha custado o consultório,a mobília de veludo, etc. O veludo verde deu-lhe no goto... Eu, comoé um amigo da casa, lá lhe prestei informações, até lhe mostrei ascontas. — E respondendo a uma pergunta do Sequeira: — Sim, amãe tem dinheiro, e creio que lhe dá o bastante. Que enquanto amim, ele vem-se meter na política. Tem talento, fala bem, o pai jáera muito regenerador... Ali há ambição. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 96 — Ali há mulher — disse D. Diogo, colocando com peso estadecisão e acentuando-a com uma carícia lânguida à ponta frisadados bigodes brancos. — Lê-se-lhe na cara, basta ver-lhe a cara... Alihá mulher. Carlos sorria, gabando a penetração de D. Diogo, o seu fino olhoà Balzac; e Sequeira, logo, franco como velho soldado, quis saberquem era a Dulcineia. Mas o velho dandy declarou, da profundi-dade da sua experiência, que essas coisas nunca se sabiam, e erapreferível não se saberem. Depois, passando os dedos magros e len-tos pela face, deixou cair de alto e com condescendência este juízo: — Eu gosto do Ega, tem apresentação; sobretudo tem dégagé... Tinham recebido as cartas, fez-se um silêncio na mesa. O gene-ral, vendo o seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou ocigarro do cinzeiro, e puxou-lhe uma fumaça furiosa. — Os senhores são muito viciosos, vou ver a gente do bilhar —disse Carlos. — Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquês,a perder já quatro mil réis. Querem o ponche aqui? Nenhum dos parceiros respondeu. E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silêncio de sole-nidade. O marquês, estirado sobre a tabela, com a perna meio no ar,o começo de calva alvejando à luz crua que caía dos abat-jours deporcelana, preparava a carambola decisiva. Cruges, que apostarapor ele, deixara o divã, o cachimbo turco, e, coçando com um gestonervoso a grenha crespa que lhe ondeava até à gola do jaquetão,vigiava a bola inquieto, com os olhinhos piscos, o nariz espetado. Dofundo da sala, destacando em preto, o Silveirinha, o Eusebiozinhode Santa Olávia, estendia também o pescoço, afogado numa gravatade viúvo, de merino negro e sem colarinho, sempre macambúzio,mais molengo que outrora, com as mãos enterradas nos bolsos —tão fúnebre que tudo nele parecia completamente de luto pesado,até o preto do cabelo chato, até o preto das lunetas de fumo. Juntoao bilhar, o parceiro do marquês, o conde Steinbroken esperava: eapesar do susto, da emoção de homem do Norte aferrado aodinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco, sorrindo, semdesmanchar a sua linha britânica — vestido como um inglês, inglêstradicional de estampa, com uma sobrecasaca justa de manga umpouco curta, e largas calças de xadrez sobre sapatões de tacão raso. — Hurra! — gritou de repente Cruges. — Os dez tostõezinhospara cá, Silveirinha! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 97 O marquês carambolara, ganhando a partida, e triunfava tam-bém: — Você trouxe-me a sorte, Carlos! Steinbroken depusera logo o taco, e alinhava já sobre a tabela,lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas. Mas o marquês, de giz na mão, reclamava-o para outras refre-gas, esfaimado de ouro finlandês. — Nada mach!... Você hoje ‘stá têrrívêl! — dizia o diplomata, noseu português fluente, mas de acento bárbaro. O marquês insistia, plantado diante dele, de taco ao ombrocomo uma vara de campino, dominando-o com a sua maciça,desempenada estatura. E ameaçava-o de destinos medonhos numavoz possante habituada a ressoar nas lezírias; queria-o arruinar aobilhar, forçá-lo a empenhar aqueles belos anéis, levá-lo a ele,ministro da Finlândia e representante de uma raça de reis fortes, avender senhas à porta da Rua dos Condes! Todos riam; e Steinbroken também, mas com um riso franzino edifícil, fixando no marquês o olhar azul-claro, claro e frio, que tinhano fundo da sua miopia a dureza de um metal. Apesar da sua sim-patia pela ilustre Casa de Souselas, achava estas familiaridades,estas tremendas chalaças, incompatíveis com a sua dignidade ecom a dignidade da Finlândia. O marquês, porém, coração de ouro,abraçava-o já pela cinta, com expansão: — Então se não quereis mais bilhar, um bocadinho de canto,Steinbroken amigo! A isto o ministro acedeu, afável, preparando-se logo, dandocarícias ligeiras às suíças, e aos anéis do cabelo de um loiro deespiga desbotada. Todos os Steinbrokens, de pais a filhos (como ele dissera aAfonso) eram bons barítonos: e isso trouxera à família não poucosproventos sociais. Pela voz cativara seu pai o velho rei Rodolfo III,que o fizera chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras nosseus quartos, ao piano, cantando salmos luteranos, corais escola-res, sagas da Dalecárlia — enquanto o taciturno monarca cachim-bava e bebia, até que, saturado de emoção religiosa, saturado decerveja preta, tombava do sofá, soluçando e babando-se. Elemesmo, Steinbroken, levara parte da sua carreira ao piano, já comoadido, já como segundo-secretário. Feito chefe de missão,absteve-se: foi só quando viu o Figaro celebrar repetidamente as © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 98valsas do príncipe Artoff, embaixador da Rússia em Paris, e a vozde basso do conde de Baspt, embaixador da Áustria em Londres,que ele, seguindo tão altos exemplos, arriscou, aqui e além, em soi-rées mais íntimas, algumas melodias finlandesas. Enfim cantou noPaço. E desde então exerceu com zelo, com formalidades, com pra-xes, o seu cargo de «barítono plenipotenciário», como dizia o Ega.Entre homens, e com os reposteiros corridos, Steinbroken não duvi-dava todavia cantarolar o que ele chamava cançonetas brejêras! —o Amant d’Amanda, ou uma certa balada inglesa: On the Serpentine, Oh my Caroline... Oh! Este Oh! como ele o expelia, gemido, bem puxado, num movi-mento de batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazese com os reposteiros fechados. Nessa noite, porém, o marquês, que o conduzia pelo braço àsala do piano, exigia uma daquelas canções da Finlândia, de tantosentimento e que lhe faziam tão bem à alma... — Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, frisk,gluzk... Lá ra lá, lá, lá! — A Primavera — disse o diplomata sorrindo. Mas antes de entrar na sala, o marquês soltou o braço de Stein-broken, fez um sinal ao Silveirinha para o fundo do corredor — eaí, sob um sombrio painel de Santa Madalena no deserto peniten-ciando-se e mostrando nudezas ricas de ninfa lúbrica, interpelou-oquase com aspereza: — Vamos nós a saber. Então, decide-se ou não? Era uma negociação que havia semanas se arrastava entreeles, a respeito de uma parelha de éguas. Silveirinha nutria odesejo de montar carruagem; e o marquês procurava vender-lheumas éguas brancas, a que ele dizia «ter tomado enguiço, apesar deserem dois nobres animais». Pedia por elas um conto e quinhentosmil réis. Silveirinha fora avisado pelo Sequeira, por Travassos, poroutros entendedores, que era uma espiga: o marquês tinha a suamoral própria para negócios de gado, e exultaria em intrujar umpexote. Apesar de advertido, Eusébio, cedendo à influência dagrossa voz do marquês, da robustez do seu físico, da antiguidade do © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 99seu título, não ousava recusar. Mas hesitava: e nessa noite deu aresposta usual ao forreta, coçando o queixo, cosido ao muro: — Eu verei, marquês... Um conto e quinhentos é dinheiro... O marquês ergueu dois braços ameaçadores como duas trancas: — Homem, sim ou não! Que diabo! Dois animais que são duasestampas! Irra! Sim ou não! Eusébio ajeitou as lunetas, rosnou: — Eu verei... Ele é dinheiro. Sempre é dinheiro... — Queria você, talvez, pagá-las com feijões? Você leva-me acometer um excesso! O piano ressoou, em dois acordes cheios, sob os dedos do Cru-ges; e o marquês, baboso por música, imediatamente largou a ques-tão das éguas, recolheu em pontas de pés. Eusebiozinho ainda ficoua remoer, a coçar o queixo; enfim, às primeiras notas de Steinbro-ken veio pousar como uma sombra silenciosa entre a ombreira e oreposteiro. Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabe-leira como pousada às costas, Cruges feria o acompanhamento, deolhos cravados no livro de Melodias Finlandesas. Ao lado, emperti-gado, quase oficial, com o lenço de seda na mão, a mão fincada con-tra o peito, Steinbroken soltava um canto festivo, num movimentode tarantela triunfante, em que passavam, como um entrechocarde seixos, esses bocados de palavras de que o marquês gostava,frisk, slécht, clikst, glukst. Era A Primavera — fresca e silvestre,Primavera do Norte em país de montanhas, quando toda umaaldeia dança em coros sob os fuscos abetos, a neve se derrete emcascatas, um sol pálido aveluda os musgos, e a brisa traz o aromadas resinas... Nos graves e cheios, as cantoneiras de Steinbrokenruborizavam-se, inchavam. Nos tons agudos todo ele se ia alçandosobre a ponta dos pés, como levado no compasso vivo; despegavaentão a mão do peito, alargava um gesto, as belas jóias dos seusanéis faiscavam. O marquês, com as mãos esquecidas nos joelhos, parecia bebero canto. Na face de Carlos passava um sorriso enternecido pen-sando em Madame Rughel que viajara na Finlândia, e cantava àsvezes aquela Primavera nas suas horas de sentimentalismo fla-mengo... Steinbroken soltou um stacato agudo, isolado como uma voznum alto — e imediatamente, afastando-se do piano, passou o © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 100lenço sobre as fontes, sobre o pescoço, rectificou com um puxão alinha da sobrecasaca, e agradeceu o acompanhamento ao Crugesnum silencioso shake-hands. — Bravo! bravo! — berrava o marquês, batendo as mãos comomalhos. E outros aplausos ressoaram à porta, dos parceiros do whist,que tinham findado a partida. Quase imediatamente os escudeirosentraram com um serviço frio de croquetes e sanduíches, ofere-cendo St. Emilion ou Porto; e sobre uma mesa, entre os renques decálices, a poncheira fumegou num aroma doce e quente de conha-que e limão. — Então, meu pobre Steinbroken — exclamou Afonso,vindo-lhe bater amavelmente no ombro — ainda dá desses beloscantos a estes bandidos, que o maltratam assim ao bilhar? — Fui essfôladito, si essfôladito. Agradecido, nô, prefiro umcopita Porto... — Hoje fomos nós as vítimas — disse-lhe o general, respirandocom delícia o seu ponche. — Você tãbem, meu genêral? — Sim, senhor, também me cascaram... E que dizia o amigo Steinbroken às notícias da manhã? — per-guntava Afonso. — A queda de Mac-Mahon, a eleição de Grevy... Oque o alegrava nisto era o desaparecimento definitivo do antipáticosenhor de Broglie e da sua clique. A impertinência daquele acadé-mico estreito, querendo impor a opinião de dois ou três salões dou-trinários à França inteira, a toda uma Democracia! Ah, o Timescantava-lhas! — E o Punch? Não viu o Punch? Oh, delicioso!… O ministro pousara o cálice, e, esfregando cautelosamente asmãos, disse numa meia voz grave a sua frase, a frase definitivacom que julgava todos os acontecimentos que aparecem em telegra-mas: — É gràve... É eqsessivemente gràve... Depois falou-se de Gambetta; e como Afonso lhe atribuía umaditadura próxima, o diplomata tomou misteriosamente o braço deSequeira, murmurou a palavra suprema com que definia todas aspersonalidades superiores, homens de estado, poetas, viajantes outenores. — É um hom˜ mûto forte. É um hom˜ eqsessivemente forte! e e © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 101 — O que ele é, é um ronha! — exclamou o general, escorropi-chando o seu cálice. E todos três deixaram a sala, discutindo ainda a república —enquanto Cruges continuava ao piano, vagueando por Mendelssohne por Chopin, depois de ter devorado um prato de croquetes. O marquês e D. Diogo, sentados no mesmo sofá, um com a suachazada de inválido, outro com um copo de St. Emilion, a que aspi-rava o bouquet, falavam também de Gambetta. O marquês gostavade Gambetta: fora o único que durante a guerra mostrara ventasde homem; lá que tivesse «comido» ou que «quisesse comer» comodiziam — não sabia nem lhe importava. Mas era teso! E o Sr.Grevy também lhe parecia um cidadão sério, óptimo para chefe deEstado... — Homem de sala? — perguntou languidamente o velho leão. O marquês só o vira na Assembleia, presidindo e muito digno... D. Diogo murmurou, com um melancólico desdém na voz, nogesto, no olhar: — O que eu queria a toda essa canalha era a saúde, marquês! O marquês consolou-o, galhofeiro e amável. Toda essa gente,parecendo forte por se ocupar de coisas fortes, no fundo tinhaasma, tinha pedra, tinha gota... E o Dioguinho era um hércules... — Um hércules! O que é, é que você apaparica-se muito... Adoença é um mau hábito em que a gente se põe. É necessário rea-gir... Você devia fazer ginástica, e muita água fria por essa espinha.Você, na realidade, é de ferro! — Enferrujadote, enferrujadote... — replicou o outro, sorrindo edesvanecido. — Qual enferrujadote! Se eu fosse cavalo ou mulher antes oqueria a você que a esses badamecos que por aí andam meiopodres... Já não há homens da sua têmpera, Dioguinho! — Já não há nada — disse o outro grave e convencido, e como oderradeiro homem nas ruínas de um mundo. Mas era tarde, ia-se agasalhar, recolher, depois de acabar a suachazada. O marquês ainda se demorou, preguiçando no sofá,enchendo lentamente o cachimbo, dando um olhar àquela sala queo encantava com o seu luxo Luís XV, os seus floridos e os seus dou-rados, as cerimoniosas poltronas de Beauvais feitas para a ampli-dão das anquinhas, as tapeçarias de Gobelins de tons desmaiados,cheias de galantes pastoras, longes de parques, laços e lãs de cor- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 102deiros, sombras de idílios mortos, transparecendo numa trama deseda... Àquela hora, no adormecimento que ia pesando, sob a luzsuave e quente das velas que findavam, havia ali a harmonia e o arde um outro século: e o marquês reclamou do Cruges um minuete,uma gavota, alguma coisa que evocasse Versalhes, Maria Anto-nieta, o ritmo das belas maneiras e o aroma dos empoados. Crugesdeixou morrer sob os dedos a melodia vaga que estava diluindo emsuspiros, preparou-se, alargou os braços — e atacou, com um pedalsolene, o Hino da Carta. O marquês fugiu. Vilaça e Eusebiozinho conversavam no corredor, sentados numadas arcas baixas de carvalho lavrado. — A fazer política? — perguntou-lhes o marquês ao passar. Ambos sorriram; Vilaça respondeu jocosamente: — É necessário salvar a pátria! Eusébio pertencia também ao Centro Progressista, aspirava ainfluência eleitoral no círculo de Resende, e ali às noites no Rama-lhete faziam conciliábulos. Nesse momento, porém, falavam dosMaias: Vilaça não duvidava confiar ao Silveirinha, homem de pro-priedade, vizinho de Santa Olávia, quase criado com Carlos, certascoisas que lhe desagradavam na casa, onde a autoridade da suapalavra parecia diminuir; assim, por exemplo, não podia aprovar oter Carlos tomado uma frisa de assinatura. — Para quê — exclamava o digno procurador — para quê, meucaro senhor? Para lá não pôr os pés, para passar aqui as noites...Hoje diz que há entusiasmo, e ele aí esteve. Tem ido lá, eu sei?duas ou três vezes... E para isto dá cá uns poucos de centos de milréis. Podia fazer o mesmo com meia dúzia de libras! Não, não égoverno. No fim a frisa é para o Ega, para o Taveira, para o Cru-ges... Olhe, eu não me utilizo dela; nem o amigo. É verdade que oamigo está de luto. Eusébio pensou, com despeito, que se podia meter para o fundoda frisa — se tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter umsorriso mole: — Indo assim, até se podem encalacrar... Uma tal palavra, tão humilhante, aplicada aos Maias, à casaque ele administrava, escandalizou Vilaça. Encalacrar! Ora essa! — O amigo não me compreendeu... Há despesas inúteis, sim,mas, louvado Deus, a casa pode bem com elas! É verdade que o ren-dimento gasta-se todo, até o último ceitil; os cheques voam, voam, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 103como folhas secas; e até aqui o costume da casa foi pôr de lado,fazer bolo, fazer reserva. Agora o dinheiro derrete-se... Eusébio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, osnove cavalos, o cocheiro inglês, os grooms... O procurador acudiu: — Isso, amigo, é de razão. Uma gente destas deve ter a suarepresentação, as suas coisas bem montadas. Há deveres na socie-dade... É como o Sr. Afonso... Gasta muito, sim, come dinheiro. Nãoé com ele, que lhe conheço aquele casaco há vinte anos... Mas sãoesmolas, são pensões, são empréstimos que nunca mais vê... — Desperdícios... — Não lho censuro... É o costume da casa; nunca da porta dosMaias, já meu pai dizia, saiu ninguém descontente... Mas umafrisa, de que ninguém usa, só para o Cruges, só para o Taveira!... Teve de se calar. Justamente ao fundo do corredor assomava oTaveira, abafado até aos olhos na gola de uma ulster donde saíamas pontas de um cache-nez de seda clara. O escudeiro desembara-çou-o dos agasalhos; e ele, de casaca e colete branco, limpando obonito bigode húmido da geada, veio apertar a mão ao caro Vilaça,ao amigo Eusébio, arrepiado, mas achando o frio elegante, dese-jando a neve e o seu chique... — Nada, nada — dizia Vilaça todo amável — cá o nosso solzi-nho português sempre é melhor... E foram entrando no fumoir, onde se ouviam as vozes do mar-quês, de Carlos, numa das suas sábias e prolixas cavaqueiras sobrecavalos e sport. — Então? Que tal? A mulher? — foi a interrogação que acolheuo Taveira. Mas antes de dar notícia da estreia da Morelli, a dama nova,Taveira reclamou alguma coisa quente. E enterrado numa poltronajunto do fogão, com os sapatos de verniz estendidos para as brasas,respirando o aroma do ponche, saboreando uma cigarette, declarouenfim que não tinha sido um fiasco. — Que ela, a meu ver, é uma insignificância, não tem nada,nem voz, nem escola. Mas, coitada, estava tão atrapalhada, que nosfez pena. Houve indulgência, deram-se-lhe umas palmas... Quandofui ao palco, ela estava contente... — Vamos a saber, Taveira, que tal é ela? — inquiria o marquês. — Cheia — dizia o Taveira, colocando as palavras como pince-ladas. — Alta, muito branca; bons olhos; bons dentes… © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 104 — E o pezinho? — E o marquês, já com os olhos acesos, passavadevagar a mão pela calva. Taveira não reparara no pé. Não era amador de pés... — Quem estava? — perguntou Carlos, indolente e bocejando. — A gente do costume... É verdade, sabes quem tomou a frisaao lado da tua? Os Gouvarinhos. Lá apareceram hoje... Carlos não conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe:o conde de Gouvarinho, o par do Reino, um homem alto, de lunetas,poseur... E a condessa, uma senhora inglesada, de cabelo cor decenoura, muito bem-feita... Enfim, Carlos não conhecia. Vilaça encontrava o conde no Centro Progressista, onde ele erauma coluna do partido. Rapaz de talento, segundo o Vilaça. O que oespantava é que ele pudesse ter assim frisa de assinatura, atrapa-lhado como estava: ainda não havia três meses lhe tinham protes-tado uma letra de oitocentos mil réis, no Tribunal do Comércio... — Um asno, um caloteiro! — diz o marquês com nojo. — Passa-se lá bem, às terças-feiras!... — disse Taveira,mirando a sua meia de seda. Depois falou-se do duelo do Azevedo da Opinião com o SáNunes, autor de El-Rei Bolacha, a grande mágica da Rua dos Con-des, e ultimamente ministro da Marinha: tinham-se tratado furiosa-mente nos jornais de pulhas e de ladrões: e havia dez intermináveisdias que estavam desafiados e que Lisboa, em pasmaceira, esperavao sangue. Cruges ouvira que Sá Nunes não se queria bater, porestar de luto por uma tia; dizia-se também que o Azevedo partiraprecipitadamente para o Algarve. Mas a verdade, segundo Vilaça,era que o ministro do Reino, primo do Azevedo, para evitar o recon-tro, conservava a casa dos dois cavalheiros bloqueada pela polícia... — Uma canalha! — exclamou o marquês com um dos seus resu-mos brutais que varriam tudo. — O ministro não deixa de ter razão — observou Vilaça. — Istoàs vezes, em duelos, pode bem suceder uma desgraça... Houve um curto silêncio. Carlos, que caía de sono, perguntouao Taveira, através de outro bocejo, se vira o Ega no teatro. — Pudera! Lá estava de serviço, no seu posto, na frisa dosCohens, todo puxado... — Então essa coisa do Ega com a mulher do Cohen — disse omarquês — parece clara... — Transparente, diáfana! um cristal!... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 105 Carlos, que se erguera a acender uma cigarette para despertar,lembrou logo a grande máxima de D. Diogo: essas coisas nunca sesabiam, e era preferível não se saberem! Mas o marquês, a isto,lançou-se em considerações pesadas. Estimava que o Ega se ati-rasse; e via aí um facto de represália social, por o Cohen ser judeue banqueiro. Em geral não gostava de judeus; mas nada lhe ofendiatanto o gosto e a razão como a espécie banqueiro. Compreendia osalteador de clavina, num pinheiral; admitia o comunista, arris-cando a pele sobre uma barricada. Mas os argentários, os Fulanos eC.as faziam-no encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domés-tica era acto meritório! — Duas horas e um quarto! — exclamou Taveira, que olhara orelógio. — E eu aqui, empregado público, tendo deveres para com oEstado, logo às dez horas da manhã. — Que diabo se faz no Tribunal de Contas? — perguntou Car-los. — Joga-se? Cavaqueia-se? — Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... Até contas! Afonso da Maia já estava recolhido. Sequeira e Steinbrokentinham partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, láfora também a tomar ainda gemada, a pôr ainda o emplastro, sob oolho solícito da Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. Eos outros não tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novosepultado na ulster, trotou até casa, uma vivendazinha perto comum bonito jardim. O marquês conseguiu levar Cruges no coupépara lhe ir fazer música a casa, no órgão, até às três ou quatrohoras, música religiosa e triste, que o fazia chorar, pensando nosseus amores e comendo frango frio com fatias de salame. E o viúvo,o Eusebiozinho, esse, batendo o queixo, tão morosa e soturnamentecomo se caminhasse para a sua própria sepultura, lá se dirigiu aolupanar onde tinha uma paixão. O laboratório de Carlos estava pronto — e muito convidativo,com o seu soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta mesa demármore, um amplo divã de crina para o repouso depois das grandesdescobertas, e em redor, por sobre peanhas e prateleiras, um rico bri-lho de metais e cristais; mas as semanas passavam, e todo esse belomaterial de experimentação, sob a luz branca da clarabóia, jazia vir-gem e ocioso. Só pela manhã um servente ia ganhar o seu tostão diá-rio, dando lá uma volta preguiçosa com um espanador na mão. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 106 Carlos realmente não tinha tempo de se ocupar do laboratório; edeixaria a Deus mais algumas semanas o privilégio exclusivo desaber o segredo das coisas — como ele dizia rindo ao avô. Logo pelamanhã cedo ia fazer as suas duas horas de armas com o velho Ran-don; depois via alguns doentes no bairro, onde se espalhara, com umbrilho de legenda, a cura da Marcelina — e as garrafas de Bordéusque lhe mandara Afonso. Começava a ser conhecido como médico.Tinha visitas no consultório — ordinariamente bacharéis, seus con-temporâneos, que sabendo-o rico o consideravam gratuito, e lá entra-vam, murchos e com má cara, a contar a velha e mal disfarçada histó-ria de ternuras funestas. Salvara de um garrotilho a filha de um bra-sileiro, ao Aterro — e ganhara aí a sua primeira libra, a primeira quepelo seu trabalho ganhava um homem da sua família. O Dr. Barbedoconvidara-o a assistir a uma operação ovariotómica. E enfim (masesta consagração não a esperava realmente Carlos tão cedo) algunsdos seus bons colegas, que até aí, vendo-o só a governar os seus cava-los ingleses, falavam do «talento do Maia» — agora, percebendo-lheestas migalhas de clientela, começavam a dizer «que o Maia era umasno». Carlos já falava a sério da sua carreira. Escrevera, com labo-riosos requintes de estilista, dois artigos para a Gazeta Médica, e pen-sava em fazer um livro de ideias gerais que se devia chamar Medi-cina Antiga e Moderna. De resto ocupava-se sempre dos seus cavalos,do seu luxo, do seu bricabraque. E através de tudo isto, em virtudedessa fatal dispersão de curiosidade que, no meio do caso mais inte-ressante de patologia, lhe fazia voltar a cabeça, se ouvia falar de umaestátua ou de um poeta, atraía-o singularmente a antiga ideia doEga, a criação de uma revista, que dirigisse o gosto, pesasse na polí-tica, regulasse a sociedade, fosse a força pensante de Lisboa... Era porém inútil lembrar ao Ega este belo plano. Abria um olhovago, respondia: — Ah, a revista... Sim, está claro, pensar nisso! Havemos defalar, eu aparecerei... Mas não aparecia no Ramalhete, nem no consultório; apenas seavistavam, às vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo quenão passava no camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refu-giar-se no fundo da frisa de Carlos, por trás de Taveira ou do Cru-ges, donde pudesse olhar de vez em quando Raquel Cohen — e alificava, silencioso, com a cabeça apoiada ao tabique, repousando ecomo saturado de felicidade... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 107 O dia (dizia ele) tinha-o todo tomado: andava procurando casa,andava estudando mobílias... Mas era fácil encontrá-lo pelo Chiadoe pelo Loreto, a rondar e a farejar — ou então no fundo de tipóiasde praça, batendo a meio galope, num espalhafato de aventura. O seu dandismo requintava; arvorara, com o desplante soberbode um Brummel, casaca de botões amarelos sobre colete de cetimbranco; e Carlos, entrando uma manhã cedo no Universal, deu comele pálido de cólera, a despropositar com um criado, por causa deuns sapatos mal envernizados. Os seus companheiros constantes,agora, eram um Dâmaso Salcede, amigo do Cohen, e um primo daRaquel Cohen, mocinho imberbe, de olho esperto e duro, já comares de emprestar a trinta por cento. Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-seàs vezes Raquel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a «deli-ciosa!» — e dizia-o rilhando o dente: ao marquês não deixava deparecer apetitosa, para uma vez, aquela carnezinha faisandée demulher de trinta anos: Cruges chamava-lhe uma «lambisgóiarelambória» Nos jornais, na secção do High Life, ela era «uma dasnossas primeiras elegantes»: e toda a Lisboa a conhecia, e a sualuneta de oiro presa por um fio de oiro, e a sua caleche azul comcavalos pretos. Era alta, muito pálida, sobretudo às luzes, delicadade saúde, com um quebranto nos olhos pisados, uma infinita lan-guidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lírio meiomurcho: a sua maior beleza estava nos cabelos, magnificamentenegros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que eladeixava habilmente cair numa massa meio solta sobre as costas,como num desalinho de nudez. Dizia-se que tinha literatura, efazia frases. O seu sorriso lasso, pálido, constante, dava-lhe um arde insignificância. O pobre Ega adorava-a. Conhecera-a na Foz, na Assembleia; nessa noite, cervejandocom os rapazes, ainda lhe chamou camélia melada; dias depois jáadulava o marido; e agora esse demagogo, que queria o massacreem massa das classes médias, soluçava muita vez por causa dela,horas inteiras, caído para cima da cama. Em Lisboa, entre o Grémio e a Casa Havanesa, já se começavaa falar do «arranjinho do Ega». Ele todavia procurava pôr a suafelicidade ao abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suascomplicadas precauções tanta sinceridade como prazer românticodo mistério; e era nos sítios mais desajeitados, fora de portas, para © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 108os lados do Matadouro, que ia furtivamente encontrar a criada quelhe trazia as cartas dela... Mas em todos os seus modos (mesmo nodisfarce afectado com que espreitava as horas), transbordava aimensa vaidade daquele adultério elegante. De resto sentia bemque os seus amigos conheciam a gloriosa aventura, o sabiam empleno drama: era mesmo talvez por isso que, diante de Carlos e dosoutros, nunca até aí mencionara o nome dela, nem deixara jamaisescapar um lampejo de exaltação. Uma noite, porém, acompanhando Carlos até ao Ramalhete,noite de Lua calma e branca, em que caminhavam ambos calados,Ega, invadido decerto por uma onda interior de paixão, soltou desa-bafadamente um suspiro, alargou os braços, declamou com os olhosno astro, um tremor na voz: Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l’amour c’est la vie! Isto fugira-lhe dos lábios como um começo de confissão; Carlosao lado não disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto. Mas Ega sentiu-se decerto ridículo, porque se calmou,refugiou-se imediatamente no puro interesse literário. — No fim de contas, menino, digam lá o que disserem, não hásenão o velho Hugo... Carlos, consigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindocontra Hugo, chamando-lhe «saco-roto de espiritualismo»,«boca-aberta de sombra», «avozinho lírico», injúrias piores. Mas nessa noite o grande fraseador continuou: — Ah, o velho Hugo! o velho Hugo é o campeão heróico de ver-dades eternas... É necessário um bocado de ideal, que diabo!... Deresto o ideal pode ser real... E foi, com esta palinódia, acordando os silêncios do Aterro. Dias depois, Carlos, no consultório, acabava de despedir umdoente, um Viegas, que todas as semanas vinha ali fazer a fasti-diosa crónica da sua dispepsia — quando do reposteiro da sala deespera lhe surgiu o Ega, de sobrecasaca azul, luva gris-perle e umrolo de papel na mão. — Tens que fazer, doutor? — Não, ia a sair, janota! — Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do Átomo...Senta-te aí. Ouve lá. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 109 Imediatamente abancou, afastou papéis e livros, desenrolou omanuscrito, espalmou-o, deu um puxão ao colarinho — e Carlos,que se pousara à borda do divã, com a face espantada e as mãosnos joelhos, achou-se quase sem transição transportado dos rugidosdo ventre do Viegas para um rumor de populaça, num bairro dejudeus, na velha cidade de Heidelberga. — Mas espera lá! — exclamou ele. — Deixa-me respirar. Issonão é o começo do livro! Isso não é o Caos... Ega então recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tam-bém. — Não, não é o primeiro episódio... Não é o Caos. É já no séc.XV... Mas num livro destes pode-se começar pelo fim... Conveio-mefazer este episódio: chama-se A Hebreia. A Cohen! — pensou Carlos. Ega tornou a alargar o colarinho — e foi lendo, animando-se,ferindo as palavras para as fazer viver, soltando grandes cheios devoz nas sonoridades finais dos períodos. Depois da sombria pinturade um bairro medieval de Heidelberga, o famoso Átomo, o Átomo doEga, aparecia alojado no coração do esplêndido príncipe Franck,poeta, cavaleiro, e bastardo do imperador Maximiliano. E todo essecoração de herói palpitava pela judia Ester, pérola maravilhosa doOriente, filha do velho rabino Salomão, um grande doutor da Lei,perseguido pelo ódio teológico do Geral dos Dominicanos. Isto contava-o o Átomo num monólogo, tão recamado de imagenscomo um manto da Virgem está recamado de estrelas — e que erauma declaração dele, Ega, à mulher do Cohen. Depois abria-se umintermédio panteísta: rompiam coros de flores, coros de astros, can-tando, na linguagem da luz ou na eloquência dos perfumes, a beleza,a graça, a pureza, a alma celeste de Ester — e de Raquel... Enfim,chegava o negro drama da perseguição: a fuga da família hebraica,através de bosques de bruxas e brutas aldeias feudais; a aparição,numa encruzilhada, do príncipe Franck que vem proteger Ester, delança alta, no seu grande corcel; o tropel da turba fanática, correndoa queimar o rabino e os seus livros hereges; a batalha, e o príncipeatravessado pelo chuço de um reitre, indo morrer no peito de Ester,que morre com ele num beijo. Tudo isto se precipitava como umsonoro e tumultuoso soluço; e era tratado com as maneiras modernasde estilo, o esforço atormentado inchando a expressão, as camadasde cor atiradas à larga para fazer ressaltar o tom de vida… © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 110 Ao findar, o Átomo exclamava, com a vasta solenidade de umcheio de órgão: «Assim arrefeceu, parou, aquele coração de heróique eu habitava; e evaporado o princípio de vida, eu, agora livre,remontei aos astros, levando comigo a essência pura desse amorimortal.» — Então?... — disse Ega, esfalfado, quase trémulo. Carlos só pôde responder: — Está ardente. Depois elogiou a sério alguns lances, o coro das florestas, a lei-tura do Ecclesiastes, de noite, entre as ruínas da torre de Othon,certas imagens de um grande voo lírico. Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscrito, rea-botoou a sobrecasaca, e já de chapéu na mão: — Então, parece-te apresentável?... — Vais publicar? — Não, mas enfim... — E ficou nesta reticência, fazendo-secorado. Carlos compreendeu tudo dias depois, encontrando na Gazetado Chiado uma descrição «da leitura feita em casa do Ex. mo Sr.Jacob Cohen, pelo nosso amigo João da Ega, de um dos mais bri-lhantes episódios do seu livro — As Memórias de Um Átomo». E ojornalista acrescentava, dando a sua impressão pessoal: «É umapintura dos sofrimentos por que passaram, nos tempos da intole-rância religiosa, aqueles que seguem a Lei de Israel. Que poder deimaginação! Que fluência de estilo! O efeito foi extraordinário, equando o nosso amigo fechou o manuscrito ao sucumbir da protago-nista — vimos lágrimas em todos os olhos da numerosa e estimávelcolónia hebraica!» Oh, furor do Ega! Rompeu nessa tarde pelo consultório, pálido,desorientado... — Estas bestas! Estas bestas destes jornalistas! Leste? Lágri-mas em todos os olhos da numerosa e estimável colónia hebraica!Faz cair a coisa em ridículo... E depois a fluência do estilo. Queburros! Que idiotas! Carlos, que cortava as folhas de um livro, consolou-o. Aquelaera a maneira nacional de falar de obras de arte... Não valia a penabramar... — Não, palavra, tinha vontade de quebrar a cara àquele folicu-lário! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 111 — E porque lha não quebras? — É um amigo dos Cohens. E foi grunhindo impropérios contra a imprensa, a passos detigre pelo gabinete. Por fim, irritado com a indiferença de Carlos: — Que diabo estás tu aí a ler? Nature parasitaire des accidentsde l’impaludisme... Que blague, a medicina! Dize-me uma coisa.Que diabo serão umas picadas que me vêm aos braços, sempre quevou a adormecer?… — Pulgas, bichos, vérmina… — murmurou Carlos com os olhosno livro. — Animal! — rosnou Ega, arrebatando o chapéu. — Vais-te, John? — Vou, tenho que fazer! — E junto do reposteiro, ameaçando océu com o guarda-chuva, chorando quase de raiva: — Estes burrosdestes jornalistas! São a escória da sociedade! Daí a dez minutos reapareceu, bruscamente: e já com outravoz, num tom de caso sério: — Ouve cá. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aosGouvarinhos? — Não tenho um interesse especial — respondeu Carlos,erguendo os olhos do livro, depois de um silêncio. — Mas não tenhotambém uma repugnância especial. — Bem — disse Ega. — Eles desejam conhecer-te, sobretudo acondessa faz empenho... Gente inteligente, passa-se lá bem...Então, decidido! Terça-feira vou-te buscar ao Ramalhete, evamo-nos gouvarinhar. Carlos ficou pensando naquela proposta do Ega, na maneiracomo ele sublinhara o empenho da condessa. Lembrava-se agoraque ela era muito íntima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos,naquela fácil vizinhança de frisa, surpreendera certos olharesdela... Mesmo, segundo o Taveira, ela realmente fazia-lhe umolhão. E Carlos achava-a picante, com os seus cabelos crespos e rui-vos, o narizinho petulante, e os olhos escuros, de um grande brilho,dizendo mil coisas. Era deliciosamente bem-feita — e tinha umapele muito clara, fina e doce à vista, a que se sentia mesmo delonge o cetim. Depois daquele dia tristonho de aguaceiros, ele resolvera pas-sar um bom serão de trabalho, ao canto do fogão, no conforto do seurobe-de-chambre. Mas, ao café, os olhos da Gouvarinho começaram © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 112a faiscar-lhe por entre o fumo do charuto, a fazer-lhe um olhão,colocando-se tentadoramente entre ele e a sua noite de estudo,pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade... Tudo culpa doEga, esse Mefistófeles de Celorico! Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se, porém, à boca da frisa,preparado, de colete branco e pérola negra na camisa — em lugar doscabelos crespos e ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, umpreto de doze anos, trombudo e luzidio, de grande colarinho à mamãsobre uma jaqueta de botões amarelos; ao lado outro preto, maispequeno, com o mesmo uniforme de colégio, enterrava pela ventaaberta o dedo calçado de pelica branca. Ambos eles lhe relancearamos olhos bugalhudos, cor de prata embaciada. A pessoa que os acom-panhava, escondida para o fundo, parecia ter um catarro ascoroso. Dava-se a Lúcia em benefício, com a segunda dama. Os Cohensnão tinham vindo — nem o Ega. Muitos camarotes estavam deser-tos, em toda a tristeza do seu velho papel vermelho. A noite chuvis-cosa, com um bafo de sudoeste, parecia penetrar ali, derramando oseu pesadume, a morna sensação da sua humidade. Nas cadeiras,vazias, havia uma mulher solitária, vestida de cetim claro;Edgardo e Lúcia desafinavam; o gás dormia, e os arcos das rabecas,sobre as cordas, pareciam ir adormecendo também. — Isto está lúgubre — disse Carlos ao amigo Cruges, que ocu-pava o escuro da frisa. Cruges, amodorrado num acesso de spleen, com o cotovelo sobreas costas da cadeira, os dedos por entre a cabeleira, todo ele embru-lhado em crepes sobrepostos de melancolia, respondeu, como dofundo de um sepulcro: — Pesadote. Por indolência, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquele preto deque os seus olhos se não podiam despegar, ali entronizado na pol-trona de repes verde da Gouvarinho, com a manga da jaqueta plan-tada no rebordo onde costumava alvejar um lindo braço — foi-lhearrastando, a seu pesar, a imaginação para a pessoa dela; relem-brou toilettes com que ela ali estivera; e nunca lhe pareceram tãopicantes, como agora que os não via, os seus cabelos ruivos, cor debrasa às luzes, de um encrespado forte, como crestados da chamainterna. A carapinha do preto, essa, em lugar de risca tinha umsulco cavado à tesoura na massa de lã espessa. Quem seriam, por-que estavam ali, aqueles africanos de perfil trombudo? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 113 — Tu já reparaste nesta extraordinária carapinha, Cruges? O outro, que se não mexera da sua atitude de estátua tumular,grunhiu da sombra um monossílabo surdo. Carlos respeitou-lhe os nervos. De repente, ao desafinar mais áspero de um coro, Cruges deuum salto. — Isto só a pontapé... Que empresa esta! — rugiu ele, enver-gando furiosamente o paletó. Carlos foi levá-lo no coupé à Rua das Flores, onde ele moravacom a mãe e uma irmã; e até ao Ramalhete não cessou de lamentarconsigo o seu serão de estudo perdido. O criado de Carlos, o Baptista (familiarmente o Tista)esperava-o lendo o jornal, na confortável antecâmara dos «quartosdo menino», forrada de veludo cor de cereja, ornada de retratos decavalos e panóplias de velhas armas, com divãs do mesmo veludo, emuito alumiada a essa hora por dois candeeiros de globo pousadossobre colunas de carvalho, onde se enrolavam lavores de ramos devide. Carlos tinha desde os onze anos este criado de quarto, queviera com o Brown para Santa Olávia, depois ter servido em Lis-boa, na Legação inglesa, e ter acompanhado o ministro, Sir Hercu-les Morrisson, várias vezes a Londres. Foi em Coimbra, nos Paçosde Celas, que Baptista começou a ser um personagem: Afonso cor-respondia-se com ele de Santa Olávia. Depois viajou com Carlos;enjoaram nos mesmos paquetes, partilharam das mesmas sanduí-ches no bufete das gares; Tista tornou-se um confidente. Era hojeum homem de cinquenta anos, desempenado, robusto, com umcolar de barba grisalha por baixo do queixo, e o ar excessivamentegentleman. Na rua, muito direito na sua sobrecasaca, com o par deluvas amarelas espetado na mão, a sua bengala de cana-da-índia,os sapatos bem envernizados, tinha a considerável aparência deum alto funcionário. Mas conservava-se tão fino e tão desembara-çado como quando em Londres aprendera a valsar e a boxar narude balbúrdia dos salões dançantes, ou como quando mais tarde,durante as férias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e oajudava a saltar o muro do quintal do senhor escrivão de Fazenda— aquele que tinha uma mulher tão garota. Carlos foi buscar um livro ao gabinete de estudo, entrou noquarto, estendeu-se, cansado, numa poltrona. À luz opalina dos glo- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 114bos, o leito entreaberto mostrava, sob a seda dos cortinados, umluxo efeminado de bretanhas, bordados e rendas. — Que há hoje no Jornal da Noite? — perguntou ele bocejando,enquanto Baptista o descalçava. — Eu li-o todo, meu senhor, e não me pareceu que houvessecoisa alguma. Em França continua sossego… Mas a gente nuncapode saber, porque estes jornais portugueses imprimem sempre osnomes estrangeiros errados. — São uma bestas. O Sr. Ega hoje estava furioso com eles... Depois, enquanto Baptista preparava com esmero um groguequente, Carlos já deitado, aconchegado, abriu preguiçosamente olivro, voltou duas folhas, fechou-o, tomou uma cigarette, e ficoufumando com as pálpebras cerradas, numa imensa beatitude. Atra-vés das cortinas pesadas sentia-se o sudoeste que batia o arvoredo,e os aguaceiros alagando os vidros. — Tu conheces os senhores condes de Gouvarinho, Tista? — Conheço o Pimenta, meu senhor, que é criado de quarto dosenhor conde... Criado de quarto e serve à mesa. — E que diz então esse Tormenta? — perguntou Carlos, numavoz indolente, depois de um silêncio. — Pimenta, meu senhor! O Manuel é Pimenta. O Sr. Gouvari-nho chama-lhe Romão, porque estava acostumado ao outro criadoque era Romão. E já isto não é bonito, porque cada um tem o seunome. O Manuel é Pimenta. O Pimenta não está contente... E Baptista, depois de colocar junto da cabeceira a salva com ogrogue, o açucareiro, as cigarettes, transmitiu as revelações doPimenta. O conde de Gouvarinho, além de muito maçador e muitopeguinhento, não tinha nada de cavalheiro: dera um fato de che-viote claro ao Romão (ao Pimenta), mas tão coçado e tão cheio deriscas de tinta, de limpar a pena à perna e ao ombro, que oPimenta deitou o presente fora. O conde e a senhora não se davambem: já no tempo do Pimenta, uma ocasião, à mesa, tinham-sepegado de tal modo que ela agarrou do copo e do prato, e esmiga-lhou-os no chão. E outra qualquer teria feito o mesmo; porque osenhor conde, quando começava a repisar, a remoer, não se podiaaturar. As questões eram sempre por causa de dinheiro. O Tompsonvelho estava farto de abrir os cordões à bolsa... — Quem é esse Tompson velho, que nos aparece agora, a estahora da noite? — perguntou Carlos, a seu pesar interessado. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 115 — O Tompson velho é o pai da senhora condessa. A senhoracondessa era uma Miss Tompson, dos Tompson do Porto. O Sr.Tompson não tem querido ultimamente emprestar nem mais umreal ao genro: de sorte que, uma vez, já no tempo do Pimenta tam-bém, o senhor conde, furioso, disse à senhora que ela e o pai sedeviam lembrar que eram gente de comércio e que fora ele quefizera dela uma condessa; e com perdão de Vossa Excelência, asenhora condessa ali mesmo à mesa mandou o condado à tábua...Estas coisas não estão no género do Pimenta. Carlos bebeu um gole do grogue. Bailava-lhe nos lábios umapergunta, mas hesitava. Depois reflectiu na puerilidade de tão rígi-dos escrúpulos a respeito de uma gente que, ao jantar, diante doescudeiro, quebrava a porcelana, mandava à tábua o título dosantepassados. E perguntou: — Que diz o Sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Eladiverte-se? — Creio que não, meu senhor. Mas a criada de confiança dela,uma escocesa, essa é desobstinada. E não fica bem à senhora con-dessa ser assim tão íntima com ela... Houve um silêncio no quarto, a chuva cantou mais forte nosvidros. — Passando a outro assunto, Baptista. Vamos a saber, háquanto tempo não escrevo eu a Madame Rughel? Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apon-tamentos, aproximou-se da luz, encavalou a luneta no nariz, e veri-ficou, com método, estas datas: «Dia 1 de Janeiro, telegrama expe-dido com felicitações do começo de ano a Madame Rughel, Hôteld’Albe, Champs Elysées, Paris. Dia 3, telegrama recebido deMadame Rughel, reciprocando cumprimentos, exprimindo amizade,anunciando partida para Hamburgo. Dia 15, carta lançada ao cor-reio, para Madame Rughel, William-Strasse, Hamburgo, Alle-magne.» Depois — mais nada. De modo que havia já cinco semanasque o menino não escrevia a Madame Rughel... — É necessário escrever amanhã — disse Carlos. Baptista tomou uma nota. Depois, entre uma fumaça lânguida, a voz de Carlos ergueu-sede novo na paz dormente do quarto: — Madame Rughel era muito bonita, não é verdade, Baptista?É a mulher mais bonita que tu tens visto na tua vida! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 116 O velho criado meteu o livro no bolso da casaca, e respondeu,sem hesitar, muito certo de si: — Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas amulher mais linda em que tenho posto os olhos, se o menino dálicença, era aquela senhora do coronel de hussardos que vinha aoquarto do hotel em Viena. Carlos atirou a cigarette para a salva — e escorregando pelaroupa abaixo, todo invadido por uma onda de recordações alegres,exclamou da profundidade do seu conforto, no antigo tom de ênfaseboémia dos Paços de Celas: — O Sr. Baptista não tem gosto nenhum! Madame Rughel erauma ninfa de Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o esplendorde uma deusa da Renascença, senhor! Madame Rughel devia terdormido no leito imperial de Carlos Quinto... Retire-se, senhor! Baptista entalou mais o couvre-pieds, relanceou pelo quarto umolhar solícito, e, contente da ordem em que as coisas adormeciam,saiu, levando o candeeiro. Carlos não dormia: e não pensava nacoronela de hussardos, nem em Madame Rughel. A figura que noescuro dos cortinados lhe aparecia, num vago dourado que provi-nha do reflexo dos seus cabelos soltos, era a Gouvarinho — a Gou-varinho que não tinha o esplendor de uma deusa da Renascençacomo Madame Rughel, nem era a mulher mais linda em que Bap-tista pusera os seus olhos como a coronela de hussardos: mas, como seu nariz petulante e a sua boca grande, brilhava mais e melhorque todas na imaginação de Carlos — porque ele esperara-a essanoite e ela não tinha aparecido. Na terça-feira prometida Ega não veio buscar Carlos para seirem gouvarinhar. E foi Carlos que daí a dias, entrando como poracaso no Universal, perguntou rindo ao Ega: — Então quando nos gouvarinhamos? Nessa noite, em S. Carlos, num entreacto dos Huguenotes, Egaapresentou-o ao senhor conde de Gouvarinho, no corredor das fri-sas. O conde, muito amável, lembrou logo que já tivera, mais deuma vez, o prazer de passar pela porta de Santa Olávia, quando iaver os seus velhos amigos, os Tedins, a Entre Rios — uma formosavivenda também. Falaram então do Douro, da Beira, compararamoutras paisagens. Para o conde, nada havia, no nosso Portugal,como os campos do Mondego: mas a sua parcialidade era perdoável,pois nesses férteis vales nascera e se criara: e falou um momento © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 117de Formoselha, onde tinha casa, onde vivia idosa e doente sua mãe,a senhora condessa viúva... Ega, que afectara beber as palavras do conde, começou entãouma controvérsia, sustentando, como se se tratasse dos dogmas deuma fé, a beleza superior do Minho, «esse paraíso idílico». O condesorria: via ali, como ele observou a Carlos, batendo amavelmenteno ombro do Ega, a rivalidade das duas províncias. Emulaçãofecunda, de resto, no seu pensar... — Aí está, por exemplo — dizia ele — o ciúme entre Lisboa ePorto. É uma verdadeira dualidade como a que existe entre a Hun-gria e a Áustria... Ouço por ali lamentá-la. Pois bem, eu, se fossepoder, instigá-la-ia, acirrá-la-ia, se Vossas Excelências me permi-tem a expressão. Nesta luta das duas grandes cidades do reino,podem outros ver despeitos mesquinhos, eu vejo elementos de pro-gresso. Vejo civilização! Proferia estas coisas como do alto de um pedestal, muito acimados homens, deixando-as providamente cair dos tesouros do seuintelecto à maneira de dons inestimáveis. A voz era lenta erotunda; os cristais da sua luneta de oiro faiscavam vistosamente;e no bigode encerado, na pêra curta, havia ao mesmo tempoalguma coisa de doutoral e de casquilho. Carlos dizia: «Tem Vossa Excelência razão, senhor conde.» OEga dizia: «Você vê essas coisas de alto, Gouvarinho.» Ele cruzaraas mãos por baixo das abas da casaca — e estavam todos trêsmuito sérios. Depois o conde abriu a porta da frisa, Ega desapareceu. E daí aum momento, Carlos, apresentado como «vizinho de camarote»,recebia da senhora condessa um grande shake-hands, em que tilin-taram uma infinidade de aros de prata e de blangles índios sobre asua luva preta de doze botões. A senhora condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa,lembrou logo a Carlos que o vira no Verão passado em Paris, nosalão baixo do Café Inglês: até por sinal estava nessa noite um velhoabominável com duas garrafas vazias diante de si, e contando alto,para uma mesa defronte, histórias horrorosas do Sr. Gambetta: umsujeito ao lado protestou; o outro não fez caso, era o velho duque deGrammont. O conde passou os dedos lentos pela testa, com um arquase angustioso: não se lembrava de nada disso! Queixou-se logoamargamente da sua falta de memória. Uma coisa tão indispensável © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 118em quem segue a vida pública, a memória!, e ele, desgraçadamente,não possuía nem um átomo. Por exemplo, lera (como todo o homemdevia ler) os vinte volumes da História Universal de César Cantu;lera-os com atenção, fechado no seu gabinete, absorvendo-se na obra.Pois, senhores, escapara-lhe tudo — e ali estava sem saber história! — Vossa Excelência tem boa memória, Sr. Maia? — Tenho uma razoável memória. — Inapreciável bem de que goza! A condessa voltara-se para a plateia, coberta com o leque, com oar constrangido, como se aquelas palavras pueris do marido a dimi-nuíssem, a desfeassem... Carlos então falou da ópera. Que belo escu-deiro huguenote fazia o Pandolli! A condessa não aturava o Corcelli,o tenor, com as suas notas ásperas e aquela obesidade que o tornavabufo. Mas também (lembrava Carlos) onde havia hoje tenores? Pas-sara essa grande raça dos Mários, homens de beleza, de inspiração,realizando os grandes tipos líricos. Nicolini era já uma degenera-ção... Isto fez lembrar a Patti. A condessa adorava-a, e a sua graçade fada, e a sua voz semelhante a uma chuva de oiro!... Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil coisas; em certos movimen-tos, o cabelo, crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho:e em torno dela errava, no calor do gás e da enchente, um aromaexagerado de verbena. Estava de preto, com uma gargantilha derendas negras, à Valois, afogando-lhe o pescoço onde pousavamduas rosas escarlates. E toda a sua pessoa tinha um arzinho deprovocação e de ataque. De pé, calado, grave, o conde batia a coxacom a claque fechada. O quarto acto começara, Carlos ergueu-se; e os seus olhosencontraram defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binóculo, obser-vando-o, mirando a condessa e falando a Raquel, que sorria, moviao leque com um ar dolente e vago. — Nós recebemos às terças-feiras — disse a condessa a Carlos.E o resto da frase perdeu-se num murmúrio e num sorriso. O conde acompanhou-o fora, ao corredor. — É sempre uma honra para mim — dizia ele caminhando aolado de Carlos — fazer o conhecimento das pessoas que valemalguma coisa neste país... Vossa Excelência é desse número, bemraro infelizmente. Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta erotunda: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 119 — Não lisonjeio. Eu nunca lisonjeio... Mas a Vossa Excelênciapodem-se dizer estas coisas, porque pertence à élite: a desgraça dePortugal é a falta de gente. Isto é um país sem pessoal. Quer-se umbispo? Não há um bispo. Quer-se um economista? Não há um eco-nomista. Tudo assim! Veja Vossa Excelência mesmo nas profissõessubalternas. Quer-se um bom estofador? Não há um bom estofa-dor... Um cheio de instrumentos e vozes, de um tom sublime, pas-sando pela porta da frisa entreaberta, cortou-lhe umas últimaspalavras sobre a deficiência dos fotógrafos... Escutou com a mão noar: — É o Coro dos Punhais, não? Ah! vamos a ouvir... Ouve-sesempre isto com proveito. Há filosofia nesta música... É pena quelembre tão vivamente os tempos da intolerância religiosa, mas háali incontestavelmente filosofia! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós pág. 120 de 595 Capítulo VI C ARLOS, nessa manhã, ia visitar de surpresa a casa doEga, a famosa «Vila Balzac», que esse fantasista andara meditandoe dispondo desde a sua chegada a Lisboa, e onde se tinha enfiminstalado. Ega dera-lhe esta denominação literária, pelos mesmos motivospor que a alugara num subúrbio longínquo, na solidão da Penha deFrança — para que o nome de Balzac, seu padroeiro, o silênciocampestre, os ares limpos, tudo ali fosse favorável ao estudo, àshoras de arte e de ideal. Porque ia fechar-se lá, como num claustrode letras, a findar as Memórias de Um Átomo! Somente, por causadas distâncias, tinha tomado ao mês um coupé da Companhia. Carlos teve dificuldades em encontrar a «Vila Balzac»: não era,como tinha dito Ega no Ramalhete, logo adiante do Largo da Graçaum chalezinho retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre árvo-res. Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depoispenetrava-se numa vereda larga, entre quintais, descendo pelopendor da colina, mas acessível a carruagens; e aí, num recanto,ladeada de muros, aparecia enfim uma casota de paredes enxova-lhadas, com dois degraus de pedra à porta e transparentes novosde um escarlate estridente. Nessa manhã, porém, debalde Carlos deu puxões desesperadosà corda da campainha, martelou a aldrava da porta, gritou a toda avoz por cima do muro do quintal e das copas das árvores o nome doEga: — a «Vila Balzac» permaneceu muda, como desabitada, no seu © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 121retiro rústico. E todavia pareceu a Carlos que, justamente antes debater, ouvira o estalar de rolhas de champanhe. Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com oscriados, que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeitode Torre de Nesle... — Vai lá amanhã; se ninguém responder, escala as janelas pegafogo ao prédio, como se fossem apenas as Tulherias. Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, já a «Vila Balzac» oesperava, toda em festa: à porta «o pajem», um garoto de feiçõeshorrivelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botõesde metal, com uma gravata muito branca e muito tesa; as duasjanelas em cima, abertas, mostrando o repes verde das bambinelas,bebiam à larga todo o ar do campo e o Sol de Inverno: e no topo daestreita escada, tapetada de vermelho, Ega, num prodigiosorobe-de-chambre, de um estofo adamascado do século XVIII, vestidode corte de alguma das suas avós, exclamou dobrando a fronte aochão: — Bem-vindo, meu príncipe, ao humilde tugúrio do filósofo! Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de repes verde,de um verde feio e triste, e introduziu o «príncipe» na sala ondetudo era verde também: o repes que recobria uma mobília denogueira, o tecto de tabuado, as listras verticais do papel daparede, o pano franjado da mesa e o reflexo de um espelho redondo,inclinado sobre o sofá. Não havia um quadro, uma flor, um ornato, um livro — apenassobre a jardineira uma estatueta de Napoleão I, de pé, equilibradosobre o orbe terrestre, nessa conhecida atitude em que o herói, comum ar pançudo e fatal, esconde uma das mãos por trás das costas eenterra a outra nas profundidades do seu colete. Ao lado uma gar-rafa de champanhe, encarapuçada de papel dourado, esperavaentre dois copos esguios. — Para que tens tu aqui Napoleão, John? — Como alvo de injúrias — disse Ega. — Exercito-me sobre elea falar dos tiranos.... Esfregou as mãos radiante. Estava nessa manhã em alegria eem verve. E quis imediatamente mostrar a Carlos o seu quarto decama; aí reinava um cretone de ramagens alvadias, sobre fundovermelho; e o leito enchia, esmagava tudo. Parecia ser o motivo, ocentro da «Vila Balzac»; e nele se esgotara a imaginação artística © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 122do Ega. Era de madeira, baixo como um divã, com a barra alta, umrodapé de renda, e de ambos os lados um luxo de tapetes de felpoescarlate; um largo cortinado de seda da Índia avermelhada envol-via-o num aparato de tabernáculo; e dentro, à cabeceira, como numlupanar, reluzia um espelho. Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho.Ega deu a todo o leito um olhar silencioso e doce, e disse, depois depassar uma pontinha de língua pelo beiço: — Tem seu chique... Sobre a mesinha-de-cabeceira erguia-se um montão de livros: aEducação de Spencer ao lado de Baudelaire, a Lógica de StuartMill por cima do Cavaleiro da Casa Vermelha. No mármore dacómoda havia outra garrafa de champanhe entre dois copos; o tou-cador, um pouco em desordem, mostrava uma enorme caixa de póde arroz no meio de plastrões e gravatas brancas do Ega, e ummaço de ganchos do cabelo ao lado de ferros de frisar. — E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte? — Ali — disse o Ega, alegremente, apontando para o leito. Mas foi mostrar logo o seu recantozinho estudioso, formado porum biombo, ao lado da janela, e tomado todo por uma mesa depé-de-galo, onde Carlos, assombrado, descobriu, entre o belo papelde cartas do Ega, um Dicionário de Rimas... E a visita à casa continuou. Na sala de jantar, quase nua, caiada de amarelo, um armáriode pinho envidraçado abrigava melancolicamente um serviçobarato de louça nova; e do fecho da janela pendia um vestuário ver-melho, que parecia roupão de mulher. — É sóbrio e simples — exclamou Ega — como compete àqueleque se alimenta de uma côdea de Ideal e duas garfadas de Filoso-fia. Agora, à cozinha!... Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas jane-las abertas; e entreviam-se árvores de quintal, um verde de terrenosvagos, depois lá em baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol;uma rapariga muito sardenta e muito forte sacudiu o gato do colo,ergueu-se, com o Jornal de Notícias na mão. Ega apresentou-a, numtom de farsa: — A Sr.a Josefa, solteira, de temperamento sanguíneo, artistaculinária da «Vila Balzac», e, como se pode observar pelo papel quelhe pende das garras, cultora das boas letras! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 123 A moça sorria, sem embaraço, habituada decerto a estas fami-liaridades boémias. — Eu hoje não janto cá, Sr. a Josefa — continuava o Ega nomesmo tom. — Este formoso mancebo que me acompanha, duquedo Ramalhete e príncipe de Santa Olávia, dá hoje de papar ao seuamigo filósofo... E, como quando eu recolher, talvez a Sr.a Josefaesteja entregue ao sono da inocência, ou à vigília da devassidão,aqui lhe ordeno que me tenha amanhã para o meu lunch duas for-mosas perdizes. E subitamente, numa outra voz, com um olhar que ela deviaperceber: — Duas perdizezinhas bem assadas e bem coradinhas. Frias,está claro... O costume. Travou do braço de Carlos, voltaram à sala. — Com franqueza, Carlos, que te parece a «Vila Balzac»? Carlos respondeu como a respeito do episódio da Hebreia: — Está ardente. Mas elogiou o asseio, a vista da casa e a frescura dos cretones.De resto, para um rapaz, para uma cela de trabalho... — Eu — dizia o Ega, passeando pela sala, com as mãos enterra-das nos bolsos do seu prodigioso robe-de-chambre — eu não tolero obibelot, o bricabraque, a cadeira arqueológica, essas mobílias dearte... Que diabo, móvel deve estar em harmonia com a ideia e osentir do homem que o usa! Eu não penso, nem sinto como umcavaleiro do século XVI, para que me hei-de cercar de coisas doséculo XVI? Não há nada que me faça tanta melancolia, como vernuma sala um venerável contador do tempo de Francisco I, rece-bendo pela face conversas sobre eleições e altas de fundos. Faz-meo efeito de um belo herói de armadura de aço, viseira caída e cren-ças profundas no peito, sentado a uma mesa de voltarete a jogarcopas. Cada século tem o seu génio próprio e a sua atitude própria.O século XIX concebeu a Democracia e a sua atitude é esta... — Eenterrando-se de estalo numa poltrona, espetou as pernas magraspara o ar. — Ora esta atitude é impossível num escabelo do tempodo Prior do Crato. Menino, toca a beber o champanhe. E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega acudiu: — É excelente, que pensas tu? Vem directamente da melhorcasa de Épernay, arranjou-mo o Jacob. — Que Jacob? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 124 — O Jacob Cohen, o Jacob. Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma súbitarecordação, e pousando a garrafa outra vez, entalando o monóculono olho: — É verdade! Então, noutro dia, que tal, em casa dos Gouvari-nhos? Eu infelizmente não pude ir. Carlos contou a soirée. Havia dez pessoas, espalhadas pelasduas salas, num zunzum dormente, à meia luz dos candeeiros. Oconde maçara-o indiscretamente com a política, admirações idiotaspor um grande orador, um deputado de Mesão Frio, e explicaçõessem fim sobre a reforma da instrução. A condessa, que estavamuito constipada, horrorizou-o, dando sobre a Inglaterra, apesarde inglesa, as opiniões da Rua de Cedofeita. Imaginava que aInglaterra é um país sem poetas, sem artistas, sem ideais, ocu-pando-se só de amontoar libras... Enfim, secara-se. — Que diabo! — murmurou o Ega num tom de viva desconsola-ção. A rolha estalou, ele encheu os copos em silêncio; e numa saúdemuda os dois amigos beberam o champanhe — que Jacob arranjaraao Ega, para o Ega se regalar com Raquel. Depois, de pé, com os olhos no tapete, agitando devagar o coponovamente cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar,naquela entoação triste de inesperado desapontamento: — Que ferro!... E após um momento: — Pois menino, pensei que a Gouvarinho te apetecia... Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe falaradela, tivera um caprichozinho, interessara-se por aqueles cabeloscor de brasa... — Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se... Ega sentara-se, com o copo na mão; e depois de contemplaralgum tempo as suas meias de seda, escarlates como as de um pre-lado, deixou cair, muito sério, estas palavras: — É uma mulher deliciosa, Carlinhos. E, como Carlos encolhia os ombros, Ega insistiu: a Gouvarinhoera uma senhora de inteligência e de gosto; tinha originalidade,tinha audácia, uma pontinha de romantismo muito picante… — E, como corpinho de mulher, não há melhor que aquilo deBadajoz para cá! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 125 — Vai-te daí, Mefistófeles de Celorico! E Ega, divertido, cantarolou: Je suis Mephisto... Je suis Mephisto... Carlos, no entanto, fumando preguiçosamente, continuava afalar na Gouvarinho e nessa brusca saciedade que o invadira, maltrocara com ela três palavras numa sala. E não era a primeira vezque tinha destes falsos arranques de desejo, vindo quase com asformas de amor, ameaçando absorver, pelo menos por algum tempo,todo o seu ser, e resolvendo-se em tédio, em «seca». Eram como osfogachos de pólvora sobre uma pedra; uma fagulha ateia-os, nummomento tornam-se chama veemente que parece que vai consumiro Universo, e por fim fazem apenas um rastro negro que suja apedra. Seria o seu um desses corações de fraco, moles e flácidos,que não podem conservar um sentimento, o deixam fugir, escoar-sepelas malhas lassas do tecido reles? — Sou um ressequido! — disse ele sorrindo. — Sou um impo-tente de sentimento, como Satanás... Segundo os padres da Igreja,a grande tortura de Satanás é que não pode amar. — Que frases essas, menino! — murmurou Ega. Como frases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver aspaixões falharem-lhe nas mãos como fósforos. Por exemplo, com acoronela de hussardos em Viena! Quando ela faltou ao primeirorendez-vous, chorara lágrimas como punhos, com a cabeça enter-rada no travesseiro e aos coices à roupa. E daí a duas semanas,mandava postar o Baptista à janela do hotel, para ele se safar, mala pobre coronela dobrasse a esquina! E com a holandesa, comMadame Rughel, pior ainda. Nos primeiros dias foi uma insensa-tez: queria-se estabelecer para sempre na Holanda, casar com ela(apenas ela se divorciasse), outras loucuras; depois os braços queela lhe deitava ao pescoço, e que lindos braços, pareciam-lhe pesa-dos como chumbo... — Passa fora, pedante! E ainda lhe escreves! — gritou Ega. — Isso é outra coisa. Ficámos amigos, puras relações de inteligên-cia. Madame Rughel é uma mulher de muito espírito. Escreveu umromance, um desses estudos íntimos e delicados, como os de MissBroughton: chama-se as Rosas Murchas. Eu nunca li, é em holandês... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 126 — As Rosas Murchas... em holandês! — exclamou Ega aper-tando as mãos na cabeça. Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monóculo no olho: — Tu és extraordinário, menino!... Mas o teu caso é simples, é ocaso de Don Juan. Don Juan também tinha essas alternações dechama e cinza. Andava à busca do seu ideal, da sua mulher, procu-rando-a principalmente, como de justiça, entre as mulheres dosoutros. E après avoir couché, declarava que se tinha enganado, quenão era aquela. Pedia desculpa e retirava-se. Em Espanha experi-mentou assim mil e três. Tu és simplesmente, como ele, umdevasso; e hás-de vir a acabar desgraçadamente como ele, numatragédia infernal! Esvaziou outro copo de champanhe, e a grandes passadas pelasala: — Carlinhos da minha alma, é inútil que ninguém ande àbusca da sua mulher. Ela virá. Cada um tem a sua mulher e neces-sariamente tem de a encontrar. Tu estás aqui, na Cruz dos QuatroCaminhos, ela está talvez em Pequim: mas tu, aí a raspar o meurepes com o verniz dos sapatos, e ela a orar no templo de Confúcio,estais ambos insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, mar-chando um para o outro!... Estou eloquentíssimo hoje, e temos ditocoisas idiotas. Toca a vestir. E, enquanto eu adorno a carcaça, pre-para mais frases sobre Satanás! Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto — enquantodentro o Ega batia com as gavetas, lançando, a todo o desafinadoda sua voz roufenha, a Barcarola de Gounod. Quando apareceu,vinha de casaca, gravata branca, enfiando o paletó — com o olhobrilhante do champanhe. Desceram. O pajem lá estava à porta perfilado, ao pé do coupéde Carlos, que esperara. E a sua fardeta azul de botões amarelos, amagnífica parelha baia reluzindo como um cetim vivo, as pratasdos arreios, a majestade do cocheiro loiro com o seu ramo na libré,tudo ali fazia, junto da «Vila Balzac», um quadro rico que deleitou oEga. — A vida é agradável — disse ele. O coupé partiu, ia entrar no Largo da Graça, quando uma cale-che de praça, aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito dechapéu baixo ia lendo um grande jornal. — É o Craft! — gritou Ega, debruçando-se pela portinhola. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 127 O coupé parou. Ega de um pulo estava na calçada, correndo,bradando: — Ó Craft! Ó Craft! Quando, daí a um momento, sentiu duas vozesaproximarem-se, Carlos desceu também do coupé, achou-se em facede um homem baixo, loiro, de pele rosada e fresca, e aparência fria.Sob o fraque correcto percebia-se uma musculatura de atleta. — O Carlos, o Craft — gritou o Ega, lançando esta apresenta-ção com uma simplicidade clássica. Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a mão. E Egainsistia para que voltassem todos à «Vila Balzac», fossem beberoutra garrafa de champanhe, a celebrar o advento do Justo! Craftrecusou, com o seu modo calmo e plácido; chegara na véspera doPorto, abraçara já o nobre Ega, e aproveitava agora a viagemàquele bairro longínquo para ir ver o velho Shelgen, um alemãoque vivia à Penha de França. — Então outra coisa! — exclamou Ega. — Para conversarmos,para que vocês se conheçam mais, venham vocês jantar comigoamanhã ao Hotel Central. Dito, hem? Perfeitamente. Às seis. Apenas o coupé partiu de novo, Ega rompeu nas costumadasadmirações pelo Craft, encantado com aquele encontro que davamais um retoque luminoso à sua alegria. O que o entusiasmava noCraft era aquele ar imperturbável de gentleman correcto, com queele igualmente jogaria uma partida de bilhar, entraria numa bata-lha, arremeteria com uma mulher ou partiria para a Patagónia... — É das melhores coisas que tem Lisboa. Vais-te morrer porele... E que casa que ele tem nos Olivais, que sublime bricabraque! Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga natesta: — Como diabo soube ele da «Vila Balzac»? — Tu não fazes segredo dela, hem? — Não... Mas também não a pus nos anúncios! E o Craft chegouontem, ainda não esteve com ninguém que eu conheça... É curioso! — Em Lisboa sabe-se tudo... — Canalha de terra! murmurou Ega. O jantar no Central foi adiado, porque o Ega, alargando poucoa pouco a ideia, convertera-o agora numa festa de cerimónia emhonra do Cohen. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 128 — Janto lá muitas vezes — disse ele a Carlos — estou lá todasas noites... É necessário repagar a hospitalidade... Um jantar noCentral é o que basta. E para o efeito moral, pespego-lhe à mesa omarquês e a besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente assim... Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquês partira paraa Golegã, e o pobre Steinbroken estava sofrendo de um incómodode entranhas. Ega pensou no Cruges e no Taveira — mas receou acabeleira desleixada do Cruges, e alguns dos seus ataques deamargo spleen que estragariam o jantar. Terminou por convidardois íntimos do Cohen; mas teve então de suprimir o Taveira, queestava de mal com um desses cavalheiros por palavras que tinhamtrocado em casa da «Lola gorda». Decididos os convidados, fixado o jantar para umasegunda-feira, Ega teve uma conferência com o maître d’hôtel doCentral, em que lhe recomendou muita flor, dois ananases paraenfeitar a mesa, e exigiu que um dos pratos do menu, qualquerdeles, fosse à la Cohen; e ele mesmo sugeriu uma ideia: tomatesfarcies à la Cohen... Nessa tarde, às seis horas, Carlos, ao descer a Rua do Alecrimpara o Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bricabraquedo tio Abraão. Entrou. O velho judeu, que estava mostrando a Craft uma falsafaiança do Rato, arrancou logo da cabeça o sujo barrete de borla, eficou curvado em dois, diante de Carlos, com as duas mãos sobre ocoração. Depois, numa linguagem exótica, misturada de inglês, pediu aoseu bom senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seubeautiful gentleman, que se dignasse examinar uma maravilhazi-nha que lhe tinha reservada; e o seu muito generous gentlemantinha só a voltar os olhos, a maravilhazinha estava ali ao lado,numa cadeira. Era um retrato de espanhola, apanhado a fortes bro-xadelas de primeira impressão, e pondo, sobre um fundo audaz decor-de-rosa murcho, uma face gasta de velha garça, picada dasbexigas, caiada, ressudando vício, com um sorriso bestial que pro-metia tudo. Carlos, tranquilamente, ofereceu dez tostões. Craft pasmou deuma tal prodigalidade; e o bom Abraão, num riso mudo que lheabria entre a barba grisalha uma grande boca de um só dente,saboreou muito a «chalaça dos seus ricos senhores». Dez tostõezi- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 129nhos! Se o quadrinho tivesse por baixo o nomezinho de Fortuny,valia dez continhos de réis. Mas não tinha esse nomezinho ben-dito... Ainda assim valia dez notazinhas de vinte mil réis... — Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! — exclamouCarlos. E saíram, deixando o velho intrujão à porta, curvado em dois,com as mãos sobre o coração, desejando mil felicidades aos seusgenerosos fidalgos... — Não tem uma única coisa boa, este velho Abraão — disseCarlos. — Tem a filha — disse o Craft. Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja. Então a pro-pósito do Abraão, falou a Craft dessas belas colecções dos Olivais,que o Ega, apesar do desdém que afectava pelo bibelot e pelo móvelde arte, lhe descrevera como sublimes. Craft encolheu os ombros. — O Ega não entende nada. Mesmo em Lisboa, não se podechamar ao que eu tenho uma colecção. É um bricabraque deacaso... De que, de resto, me vou desfazer! Isto surpreendeu Carlos. Compreendera das palavras do Egaser essa uma colecção formada com amor, no laborioso decurso deanos, orgulho e cuidado de uma existência de homem... Craft sorriu daquela legenda. A verdade era que só em 1872 elecomeçara a interessar-se pelo bricabraque; chegava então da Amé-rica do Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e além, acu-mulara-o nessa casa dos Olivais, alugada então por fantasia, umamanhã que aquele pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor,lhe parecera pitoresco, sob o sol de Abril. Mas agora, se pudessedesfazer-se do que tinha, ia dedicar-se então a formar uma colecçãohomogénea e compacta de arte do século XVIII. — Aqui nos Olivais? — Não. Numa quinta que tenho ao pé do Porto, junto mesmo aorio. Entravam então no peristilo do Hotel Central — e nessemomento um coupé da Companhia, chegando a largo trote do ladoda Rua do Arsenal, veio estacar à porta. Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correulogo à portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muitonegra, passou-lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escocesa, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 130de pêlos esguedelhados, finos como seda e cor de prata; depoisapeando-se, indolente e poseur, ofereceu a mão a uma senhora alta,loira, com um meio véu muito apertado e muito escuro que real-çava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afasta-ram-se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa,maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma clari-dade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar. Trazia umcasaco colante de veludo branco de Génova, e um momento sobre aslajes do peristilo brilhou o verniz da suas botinas. O rapaz ao lado,esticado num fato de xadrezinho inglês, abria negligentemente umtelegrama; o preto seguia com a cadelinha nos braços. E no silêncioa voz de Craft murmurou: — Très chic. Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava,sentado no divã de marroquim, e conversando com um rapaz baixote,gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plas-trão azul-celeste. O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o Sr.Dâmaso Salcede, e mandou servir vermute, por ser tarde, segundolhe parecia, para esse requinte literário e satânico do absinto... Fora um dia de Inverno suave e luminoso, as duas janelas esta-vam ainda abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, semuma aragem, numa paz elísia, com nuvenzinhas muito altas, para-das, tocadas de cor-de-rosa; as terras, os longes da outra banda jáse iam afogando num vapor aveludado, do tom de violeta; a águajazia lisa e luzidia como uma bela chapa de aço novo; e aqui e além,pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos paquetesestrangeiros, dois couraçados ingleses, dormiam, com as mastrea-ções imóveis, como tomados de preguiça, cedendo ao afago do climadoce... — Vimos agora lá em baixo — disse Craft indo sentar-se nodivã — uma esplêndida mulher, com uma esplêndida cadelinhagriffon, e servida por um esplêndido preto! O Sr. Dâmaso Salcede, que não despregava os olhos de Carlos,acudiu logo: — Bem sei! Os Castro Gomes... Conheço-os muito... Vim comeles de Bordéus... Uma gente muito chique que vive em Paris. Carlos voltou-se, reparou mais nele, perguntou-lhe, afável einteressando-se: — O Sr. Salcede chegou agora de Bordéus? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 131 Estas palavras pareceram deleitar Dâmaso como um favorceleste: ergueu-se imediatamente, aproximou-se do Maia, banhadonum sorriso: — Vim aqui há quinze dias, no Orenoque. Vim de Paris... Que euem podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordéus.Isto é, verdadeiramente, conheci-a a bordo. Mas estávamos todos noHotel de Nantes. Gente muito chique: criado de quarto, governantainglesa para a filhita, femme de chambre, mais de vinte malas...Chique a valer! Parece incrível, uns brasileiros... Que ela na voz nãotem sutaque nenhum, fala como nós. Ele sim, ele muito sutaque...Mas elegante também, Vossa Excelência não lhe pareceu? — Vermute? — perguntou-lhe o criado, oferecendo a salva. — Sim, uma gotinha para o apetite. Vossa Excelência não toma,Sr. Maia? Pois eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquiloé que é terra! Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todosos anos, acredite Vossa Excelência, até começo a andar doente.Aquele Boulevarzinho, hem!... Ai, eu gozo aquilo! E sei gozar, seigozar, que eu conheço aquilo a palmo... Tenho até um tio em Paris. — E que tio! — exclamou Ega, aproximando-se. — Íntimo deGambetta, governa a França... O tio do Dâmaso governa a França,menino! Dâmaso, escarlate, estoirava de gozo. — Ah, lá isso influência tem. Íntimo do Gambetta, tratam-sepor tu, até vivem quase juntos... E não é só com o Gambetta; é como Mac-Mahon, com o Rochefort, com o outro de que me esqueceagora o nome, com todos os republicanos, enfim!... É tudo quantoele queira. Vossa Excelência não o conhece? É um homem de bar-bas brancas... Era irmão de minha mãe, chama-se Guimarães. Masem Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran... Nesse momento a porta envidraçada abriu-se de golpe. Egaexclamou: «Saúde ao poeta!» E apareceu um indivíduo muito alto, todo abotoado numasobrecasaca preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, esob o nariz aquilino, longos, espessos, românticos bigodes grisa-lhos: já todo calvo na frente, os anéis fofos de uma grenha muitoseca caíam-lhe inspiradamente sobre a gola: e em toda a sua pes-soa havia alguma coisa de antiquado, de artificial e de lúgubre. Estendeu silenciosamente dois dedos ao Dâmaso, e abrindo os bra-ços lentos para Craft, disse numa voz arrastada, cavernosa, ateatrada: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 132 — Então és tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? Dá-mecá esses ossos honrados, honrado inglês! Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os: — Não sei se são relações. Carlos da Maia... Tomás de Alencar,o nosso poeta... Era ele! o ilustre cantor das Vozes de Aurora, o estilista deElvira, o dramaturgo do Segredo do Comendador. Deu dois passosgraves para Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a mão emsilêncio — e sensibilizado, mais cavernoso: — Vossa Excelência, já que as etiquetas sociais querem que eulhe dê excelência, mal sabe a quem apertou agora a mão... Carlos, surpreendido, murmurou: — Eu conheço muito de nome... E o outro com o olho cavo, o lábio trémulo: — Ao camarada, ao inseparável, ao íntimo de Pedro da Maia,do meu pobre, do meu valente Pedro! — Então, que diabo, abracem-se! — gritou Ega. — Abracem-se,com um berro, segundo as regras... Alencar já tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou,retomando-lhe as mãos, sacudindo-lhas, com uma ternura ruidosa: — E deixemo-nos já de excelências! que eu vi-te nascer, meurapaz! trouxe-te muito ao colo! sujaste-me muita calça! Cos diabos,dá cá outro abraço! Craft olhava estas coisas veementes, impassível; Dâmaso pare-cia impressionado; Ega apresentou um copo de vermute ao poeta. — Que grande cena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para terecuperares da emoção... Alencar esgotou-o de um trago, e declarou aos amigos que nãoera a primeira vez que via Carlos. Já o admirara no seu faetonte,muitas vezes, e aos seus belos cavalos ingleses. Mas não se quiseradar a conhecer. Ele nunca se atirava aos braços de ninguém, a nãoser das mulheres... Foi encher outro cálice de vermute, e com ele namão, plantado diante de Carlos, começou, num tom patético: — A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estavaeu no Rodrigues, esquadrinhando alguma dessa velha literatura,hoje tão desprezada... Lembro-me até que era um volume das Éclo-gas do nosso delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta daNatureza, esse rouxinol tão português, hoje, está claro, metido aum canto, desde que para aí apareceu o Satanismo, o Naturalismo © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 133e o Bandalhismo, e outros esterquilínios em ismo... Nesse momentopassaste, disseram-me quem eras, e caiu-me o livro da mão...Fiquei ali uma hora, acredita, a pensar, a rever o passado... E atirou o vermute às goelas. Ega, impaciente, olhava o relógio.Um criado, entrando, acendeu o gás; a mesa surgiu da penumbra,com um brilho de cristais e louças, um luxo de camélias em ramos. No entanto Alencar (que à luz viva parecia mais gasto e maisvelho) começara uma grande história, e como fora ele o primeiro quevira Carlos depois de nascer, e como fora ele que lhe dera o nome. — Teu pai — dizia ele — o meu Pedro, queria-te pôr o nome deAfonso, desse santo, desse varão de outras idades, Afonso da Maia!Mas tua mãe, que tinha lá as suas ideias, teimou em que havias deser Carlos. E justamente por causa de um romance que eu lheemprestara; nesses tempos podia-se emprestar romances a senho-ras, ainda não havia a pústula e o pus... Era um romance sobre oúltimo Stuart, aquele belo tipo do príncipe Carlos Eduardo, quevocês, filhos, conhecem todos bem, e que na Escócia, no tempo deLuís XIV... Enfim, adiante! Tua mãe, devo dizê-lo, tinha literaturae da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre, nesse tempo euera alguém, e lembro-me de lhe ter respondido... (Lembro-me ape-sar de já lá irem vinte e cinco anos... Que digo eu? Vinte e sete!Vejam vocês isto, filhos, vinte e sete anos!). Enfim, voltei-me paratua mãe, e disse-lhe, palavras textuais: «Ponha-lhe o nome de Car-los Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que é o verda-deiro nome para o frontispício de um poema, para a fama de umheroísmo ou para o lábio de uma mulher!» Dâmaso, que continuava a admirar Carlos, deu bravos estron-dosos; Craft bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava aporta, nervoso, de relógio na mão, soltou de lá um muito bemdesenxabido. Alencar, radiante com o seu efeito, derramava em roda um sor-riso que lhe mostrava os dentes estragados. Abraçou outra vez Car-los, atirou uma palmada ao coração, exclamou: — Caramba!, filhos, sinto uma luz cá dentro! A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-selogo da sua demora — enquanto Ega, que se precipitara para ele, lheajudava a despir o paletó. Depois apresentou-o a Carlos — a únicapessoa ali de quem o Cohen não era íntimo. E dizia, tocando o botãoda campainha eléctrica: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 134 — O marquês não pôde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coi-tado, está com a sua gota, a gota de diplomata, de lorde e de ban-queiro... A gota que tu hás-de ter, velhaco! Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suíçastão pretas e luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria,descalçando as luvas, dizendo que, segundo os ingleses, havia tam-bém a gota da gente pobre; e era essa naturalmente a que lhe com-petia a ele... Ega, no entanto, travara-lhe do braço, colocara-o preciosamenteà mesa, à sua direita: depois ofereceu-lhe um botão de camélia deum ramo: o Alencar floriu-se também — e os criados serviram asostras. Falou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impres-sionava Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado à navalha poruma companheira, vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfa-queando-se, toda uma viela em sangue — uma sarrabulhada comodisse o Cohen, sorrindo e provando o Bucelas. Dâmaso teve a satisfação de poder dar detalhes; conhecera arapariga, a que dera as facadas, quando ela era amante do vis-conde da Ermidinha... Se era bonita? Muito bonita. Umas mãos deduquesa... E como aquilo cantava o fado! O pior era que mesmo notempo do visconde, quando ela era chique, já se empiteirava... E ovisconde, honra lhe seja, nunca lhe perdera a amizade;respeitava-a, mesmo depois de casado ia vê-la, e tinha-lhe prome-tido que se ela quisesse deixar o fado lhe punha uma confeitariapara os lados da Sé. Mas ela não queria. Gostava daquilo, doBairro Alto, dos cafés de lepes, dos chulos... Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer umestudo, um romance... Isto levou logo a falar-se do Assommoir, deZola e do realismo: — e o Alencar imediatamente, limpando osbigodes dos pingos de sopa, suplicou que se não discutisse, à horaasseada do jantar, essa literatura latrinária. Ali todos eramhomens de asseio, de sala, hem? Então, que se não mencionasse oexcremento! Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes,tirados a milhares de edições; essas rudes análises, apoderando-seda Igreja, da Realeza, da Burocracia, da Finança, de todas as coi-sas santas, dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a lesão,como a cadáveres num anfiteatro; esses estilos novos, tão preciosos © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 135e tão dúcteis, apanhando em flagrante a linha, a cor, a palpitaçãomesma da vida; tudo isso (que ele, na sua confusão mental, cha-mava a Ideia Nova), caindo assim de chofre e escangalhando acatedral romântica, sob a qual tantos anos ele tivera altar e cele-brara missa, tinha desnorteado o pobre Alencar e tornara-se o des-gosto literário da sua velhice. Ao princípio reagiu. «Para pôr umdique definitivo à torpe maré», como ele disse em plena Academia,escreveu dois folhetins cruéis; ninguém os leu; a «maré torpe» alas-trou-se, mais profunda, mais larga. Então Alencar refugiou-se namoralidade como numa rocha sólida. O naturalismo, com as suasaluviões de obscenidade, ameaçava corromper o pudor social? Poisbem. Ele, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bonscostumes. Então o poeta das Vozes de Aurora, que durante vinteanos, em cançoneta e ode, propusera comércios lúbricos a todas asdamas da capital; então o romancista de Elvira que, em novela edrama, fizera a propaganda do amor ilegítimo, representando osdeveres conjugais como montanhas de tédio, dando a todos os mari-dos formas gordurosas e bestiais, e a todos os amantes a beleza, oesplendor e o génio dos antigos Apolos; então Tomás Alencar, que (aacreditarem-se as confissões autobiográficas da Flor do Martírio)passava ele próprio uma existência medonha de adultérios, lubrici-dades, orgias, entre veludos e vinhos de Chipre — de ora em dianteaustero, incorruptível, todo ele uma torre de pudicícia, passou avigiar atentamente o jornal, o livro, o teatro. E mal lobrigava sinto-mas nascentes de realismo num beijo que estalava mais alto, numabrancura de saia que se arregaçava de mais — eis o nosso Alencarque soltava por sobre o país um grande grito de alarme, corria àpena, e as suas imprecações lembravam (a académicos fáceis decontentar) o rugir de Isaías. Um dia, porém, Alencar teve uma des-tas revelações que prostram os mais fortes: quanto mais ele denun-ciava um livro como imoral, mais o livro se vendia como agradável!O Universo pareceu-lhe coisa torpe, e o autor de Elvira encavacou... Desde então reduziu a expressão do seu rancor ao mínimo, aessa frase curta, lançada com nojo: — Rapazes, não se mencione o excremento! Mas nessa noite teve o regozijo de encontrar aliados. Craft nãoadmitia também o naturalismo, a realidade feia das coisas e dasociedade estatelada nua num livro. A arte era uma idealização!Bem: então que mostrasse os tipos superiores de uma humanidade © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 136aperfeiçoada, as formas mais belas do viver e do sentir... Ega, hor-rorizado, apertava as mãos na cabeça — quando do outro lado Car-los declarou que o mais intolerável no realismo eram os seus gran-des ares científicos, a sua pretensiosa estética deduzida de umafilosofia alheia, e a invocação de Claude Bernard, do experimenta-lismo, do positivismo, de Stuart Mill e de Darwin, a propósito deuma lavadeira que dorme com um carpinteiro! Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente ofraco do realismo estava em ser ainda pouco científico, inventarenredos, criar dramas, abandonar-se à fantasia literária! A formapura da arte naturalista devia ser a monografia, o estudo seco deum tipo, de um vício, de uma paixão, tal qual como se se tratassede um caso patológico, sem pitoresco e sem estilo... — Isso é absurdo — dizia Carlos — , os caracteres só se podemmanifestar pela acção... — E a obra de arte — acrescentou Craft — vive apenas pelaforma... Alencar interrompeu-os, exclamando que não eram necessáriastantas filosofias. — Vocês estão gastando cera com ruins defuntos, filhos. O rea-lismo critica-se deste modo: mão no nariz! Eu quando vejo um des-ses livros, enfrasco-me logo em água-de-colónia. Não discutamos oexcremento. — Sole normande? — perguntou-lhe o criado, adiantando a tra-vessa. Ega ia fulminá-lo. Mas, vendo que o Cohen dava um sorrisoenfastiado e superior a estas controvérsias de literaturas, calou-se;ocupou-se só dele, quis saber que tal ele achava aquele St. Emilion;e, quando o viu confortavelmente servido de sole normande, lançoucom grande alarde de interesse esta pergunta: — Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimofaz-se ou não se faz? E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela ques-tão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verda-deiro episódio histórico!... O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respon-deu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar absolu-tamente. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma dasfontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 137imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta —cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de conti-nuar... Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, dessemodo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota. — Num galopezinho muito seguro e muito a direito — disse oCohen, sorrindo. — Ah! sobre isso, ninguém tem ilusões, meu carosenhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota éinevitável; é como quem faz uma soma... Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem! Etodos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice denovo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as pala-vras. — A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas paraela — continuava o Cohen — que seria mesmo fácil a qualquer, emdois ou três anos, fazer falir o país... Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: man-ter uma agitação revolucionária constante; nas vésperas de se lan-çarem os empréstimos haver duzentos maganões decididos quecaíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros comvivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jor-nais de Paris, de Londres e do Rio de Janeiro; assustar os merca-dos, assustar o brasileiro, e a bancarrota estalava. Somente, comoele disse, isto não convinha a ninguém. Então Ega protestou com veemência. Como não convinha a nin-guém? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! À bancar-rota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um país que vive dainscrição, em não lha pagando, agarra no cacete; e procedendo porprincípio, ou procedendo apenas por vingança — o primeiro cui-dado que tem é varrer a monarquia que lhe representa o calote, ecom ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise,Portugal, livre da velha dívida, da velha gente, dessa colecção gro-tesca de bestas... A voz do Ega sibilava... Mas, vendo assim tratados de grotescos,de bestas, os homens de ordem que fazem prosperar os bancos,Cohen pousou a mão no braço do seu amigo e chamou-o ao bomsenso. Evidentemente, ele era o primeiro a dizê-lo, em toda essagente que figurava desde 46 havia medíocres e patetas — mas tam-bém homens de grande valor! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 138 — Há talento, há saber — dizia ele com um tom de experiência.— Você deve reconhecê-lo, Ega... Você é muito exagerado! Nãosenhor, há talento, há saber. E, lembrando-se que algumas dessas bestas eram amigos doCohen, Ega reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar, porém,cofiava sombriamente o bigode. Ultimamente pendia para ideiasradicais, para a democracia humanitária de 1848: por instinto, vendoo romantismo desacreditado nas letras, refugiava-se no romantismopolítico, como num asilo paralelo: queria uma república governadapor génios, a fraternização dos povos, os Estados Unidos da Europa...Além disso, tinha longas queixas desses politicotes, agora gente doPoder, outrora seus camaradas de redacção, de café e de batota... — Isso — disse ele — lá a respeito de talento e de saber, histó-rias... Eu conheço-os bem, meu Cohen... O Cohen acudiu: — Não senhor, Alencar, não senhor! Você também é dos tais...Até lhe fica mal dizer isso... É exageração. Não senhor, há talento,há saber. E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitadodirector do Banco Nacional, o marido da divina Raquel, o donodessa hospitaleira casa da Rua do Ferregial onde se jantava tãobem, recalcou o despeito — admitiu que não deixava de havertalento e saber. Então, tendo assim, pela influência do seu banco, dos belosolhos da sua mulher e da excelência do seu cozinheiro, chamadoestes espíritos rebeldes ao respeito dos parlamentares e à venera-ção da Ordem, Cohen condescendeu em dizer, no tom mais suaveda sua voz, que o país necessitava reformas... Ega, porém, incorrigível nesse dia, soltou outra enormidade: — Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que pre-cisa é a invasão espanhola. Alencar, patriota à antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelesorriso indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitosdentes, viu ali apenas «um dos paradoxos do nosso Ega». Mas o Egafalava com seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia ele,invasão não significa perda absoluta de independência. Um receiotão estúpido é digno só de uma sociedade tão estúpida como a doPrimeiro de Dezembro. Não havia exemplo de seis milhões de habi-tantes serem engolidos, de um só trago, por um país que tem ape- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 139nas quinze milhões de homens. Depois ninguém consentiria em dei-xar cair nas mãos de Espanha, nação militar e marítima, esta belalinha de costa de Portugal. Sem contar as alianças que teríamos atroco das colónias — das colónias que só nos servem, como a pratade família aos morgados arruinados, para ir empenhando em casosde crise... Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma inva-são, num momento de guerra europeia, seria levarmos uma sovatremenda, pagarmos uma grossa indemnização, perdermos uma ouduas províncias, ver talvez a Galiza estendida até ao Douro... — Poulet aux champignons — murmurou o criado, apresen-tando-lhe a travessa. E enquanto ele se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elea salvação do país nessa catástrofe que tornaria povoação espanholaCelorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heróis, berço dos Egas... — Nisto: no ressuscitar do espírito público e do génio portu-guês! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tínhamos defazer um esforço desesperado para viver. E em que bela situaçãonos achávamos! Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, semesse tortulho da inscrição, porque tudo desaparecia, estávamosnovos em folha, limpos, escarolados, como se nunca tivéssemos ser-vido. E recomeçava-se uma história nova, um outro Portugal, umPortugal sério e inteligente, forte e decente, estudando, pensando,fazendo civilização como outrora... Meninos, nada regenera umanação como uma medonha tareia... Oh! Deus de Ourique,manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o St. Emilion. Agora, num rumor animado, discutia-se a invasão. Ah!,podia-se fazer uma bela resistência! Cohen afiançava o dinheiro.Armas, artilharia, iam comprar-se à América — e Craft ofereceulogo a sua colecção de espadas do século XVI. Mas generais? Aluga-vam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia estar barato... — O Craft e eu organizamos uma guerrilha — gritou o Ega. — Às ordens, meu coronel! — O Alencar — continuava Ega — é encarregado de ir desper-tar pela província o patriotismo, com cantos e com odes! Então o poeta, pousando o cálice, teve um movimento de leãoque sacode a juba: — Isto é uma velha carcaça, meu rapaz, mas não está só paraodes! Ainda se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa,ainda vão a terra um par de galegos... Caramba, rapazes, só a ideia © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 140dessas coisas me põe o coração negro! E como vocês podem falarnisso, a rir, quando se trata do país, desta terra onde nascemos,que diabo! Talvez seja má, de acordo, mas, caramba!, é a única quetemos, não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que rebenta-mos... Irra! falemos de outra coisa, falemos de mulheres! Dera um repelão ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de pai-xão patriótica... E no silêncio que se fez, Dâmaso, que desde as informaçõessobre a rapariga do Ermidinha emudecera, ocupado a observarCarlos com religião, ergueu a voz pausadamente, disse, com ar debom senso e de finura: — Se as coisas chegassem a esse ponto, se se pusessem assimfeias, eu cá, à cautela, ia-me raspando para Paris... Ega triunfou, pulou de gosto na cadeira. Eis ali, no lábio sinté-tico de Dâmaso, o grito espontâneo e genuíno do brio português!Raspar-se, pirar-se!... Era assim que de alto a baixo pensava asociedade de Lisboa, a malta constitucional, desde el-rei nossosenhor até aos cretinos de secretaria!... — Meninos, ao primeiro soldado espanhol que apareça à fron-teira, o país em massa foge como uma lebre! Vai ser uma deban-dada única na história! Houve uma indignação, Alencar gritou: — Abaixo o traidor! Cohen interveio, declarou que o soldado português era valente,à maneira dos turcos — sem disciplina, mas teso. O próprio Carlosdisse, muito sério: — Não senhor... Ninguém há-de fugir, e há-de-se morrer bem. Ega rugiu. Para que estavam eles fazendo essa pose heróica?Então ignoravam que esta raça, depois de cinquenta anos de cons-titucionalismo, criada por esses saguões da Baixa, educada na pio-lhice dos liceus, roída de sífilis, apodrecida no bolor das secretarias,arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o mús-culo como perdera o carácter, e era a mais fraca, a mais cobarderaça da Europa?... — Isso são os lisboetas — disse Craft. — Lisboa é Portugal — gritou o outro. — Fora de Lisboa não hánada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!... — A mais miserável raça da Europa! — continuava ele a berrar.— E que exército! Um regimento, depois de dois dias de marcha, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 141dava entrada em massa num hospital! Com seus olhos tinha elevisto, no dia da abertura das Cortes, um marujo sueco, um rapagãodo Norte, fazer debandar, a socos, uma companhia de soldados; aspraças tinham literalmente largado a fugir, com a patrona abater-lhes os rins; e o oficial, enfiando de terror, meteu-se parauma escada, a vomitar!... Todos protestaram. Não, não era possível... Mas se ele tinhavisto, que diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos falazes dafantasia... — Juro pela saúde da mamã! — gritou Ega furioso. Mas emudeceu. O Cohen tocara-lhe no braço. O Cohen ia falar. O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que osEspanhóis, porém, pensassem na invasão, isso parecia-lhe certo —sobretudo se viessem, como era natural, a perder Cuba. Em Madridtodo o mundo lho dissera. Já havia mesmo negócios de fornecimen-tos entabulados... — Espanholadas, galegadas! — rosnou Alencar, por entre den-tes, sombrio e torcendo os bigodes. — No Hotel de Paris — continuou Cohen — em Madrid, conhecieu um magistrado, que me disse com um certo ar que não perdia aesperança de se vir estabelecer de todo em Lisboa, tinha-lhe agra-dado muito Lisboa, quando cá estivera a banhos. E enquanto amim, estou que há muitos espanhóis que estão à espera desteaumento de território para se empregarem! Então Ega caiu em êxtase, apertou as mãos contra o peito. Oh!que delicioso traço! Oh! que admiravelmente observado! — Este Cohen! — exclamava ele para os lados. — Que finamenteobservado! Que traço adorável! Hem!, Craft? Hem!, Carlos? Delicioso! Todos cortesmente admiraram a finura do Cohen. Ele agrade-cia, com o olho enternecido, passando pelas suíças a mão onde relu-zia um diamante. E nesse momento os criados serviam um prato deervilhas num molho branco, murmurando: — Petits pois à la Cohen. À la Cohen? Cada um verificou o seu menu mais atentamente.E lá estava, era o legume: Petits pois à la Cohen. Dâmaso, entu-siasmado, declarou isto «chique a valer». E fez-se, com o champa-nhe que se abria, a primeira saúde ao Cohen. Esquecera-se a bancarrota, a invasão, a pátria — o jantar ter-minava alegremente. Outras saúdes cruzaram-se, ardentes e © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 142loquazes: o próprio Cohen, com o sorriso de quem cede a um capri-cho de criança, bebeu à Revolução e à Anarquia, brinde complicado,que o Ega erguera, já com o olho muito brilhante. Sobre a toalha, asobremesa alastrava-se, destroçada; no prato do Alencar as pontasde cigarros misturavam-se a bocados de ananás mastigado.Dâmaso, todo debruçado sobre Carlos, fazia-lhe o elogio da parelhainglesa e daquele faetonte que era a coisa mais linda que passeavaLisboa. E logo depois do seu brinde de demagogo, sem razão, Egaarremetera contra Craft, injuriando a Inglaterra, querendoexcluí-la de entre as nações pensantes, ameaçando-a de uma revo-lução social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com ace-nos de cabeça, imperturbável, partindo nozes. Os criados serviram o café. E como havia já três longas horasque estavam à mesa, todos se ergueram, acabando os charutos,conversando, na animação viva que dera o champanhe. A sala, detecto baixo, com os cinco bicos de gás ardendo largamente,enchera-se de um calor pesado, onde se ia espalhando agora oaroma forte das chartreuses e dos licores por entre a névoa alvadiado fumo. Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; eaí recomeçou logo, naquela comunidade de gostos que os começavaa ligar, a conversa da Rua do Alecrim sobre a bela colecção dos Oli-vais. Craft dava detalhes; a coisa rica e rara que tinha era umarmário holandês do século XVI; de resto, alguns bronzes, faiançase boas armas... Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto àmesa, estridências de voz, e como um conflito que rompia: Alencar,sacudindo a grenha, gritava contra a palhada filosófica; e do outrolado, com o cálice de conhaque na mão, Ega, pálido e afectandouma tranquilidade superior, declarava toda essa babugem líricaque por aí se publica digna da polícia correccional... — Pegaram-se outra vez — veio dizer Dâmaso a Carlos, aproxi-mando-se da varanda. — É por causa do Craveiro. Estão ambosdivinos! Era com efeito a propósito de poesia moderna, de Simão Cra-veiro, do seu poema A Morte de Satanás. Ega estivera citando, comentusiasmo, estrofes do episódio da Morte, quando o grande esque-leto simbólico passa em pleno sol no Boulevard, vestido como umacocotte arrastando sedas rumorosas: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 143 E entre duas costeletas, no decote, Tinha um «bouquet» de rosas! E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da Ideia Nova,o paladino do Realismo, triunfara, cascalhara, denunciando logonessa simples estrofe dois erros de gramática, um verso errado, euma imagem roubada a Baudelaire! Então Ega, que bebera um sobre outro dois cálices de conha-que, tornou-se muito provocante, muito pessoal. — Eu bem sei porque tu falas, Alencar — dizia ele agora. — Eo motivo não é nobre. É por causa do epigrama que ele te fez: O Alencar d’Alenquer, Aceso com a Primavera… — Ah!, vocês nunca ouviram isto? — continuou ele voltando-se,chamando os outros. — É delicioso, é das melhores coisas do Cra-veiro. Nunca ouviste, Carlos? É sublime, sobretudo esta estrofe: O Alencar d’Alenquer Que quer? Na verde campina Não colhe a tenra bonina Nem consulta o malmequer... Que quer? Na verde campina O Alencar d’Alenquer Quer menina! Eu não me lembro do resto, mas termina com um grito de bomsenso, que é a verdadeira crítica de todo esse lirismo pandilha: O Alencar d’Alenquer Quer cacete! Alencar passou a mão pela testa lívida, e com o olho cavo fitono outro, a voz rouca e lenta: — Olha, João da Ega, deixa-me dizer-te uma coisa, meu rapaz...Todos esses epigramas, esses dichotes lorpas do raquítico e dos queo admiram, passam-me pelos pés como um enxurro de cloaca... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 144O que faço é arregaçar as calças! Arregaço as calças... Mais nada,meu Ega. Arregaço as calças! E arregaçou-as realmente, mostrando a ceroula, num gestobrusco e de delírio. — Pois quando encontrares enxurros desses — gritou-lhe o Ega— agacha-te e bebe-os! Dão-te sangue e força ao lirismo! Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando oar: — Eu, se esse Craveirote não fosse um raquítico, talvez me entre-tivesse a rolá-lo aos pontapés por esse Chiado abaixo, a ele e à versa-lhada, a essa lambisgonhice excrementícia com que seringou Satanás!E depois de o besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o crânio! — Não se esborracham assim crânios — disse de lá o Ega numtom frio de troça. Alencar voltou para ele uma face medonha. A cólera e o conha-que incendiavam-lhe o olhar; todo ele tremia: — Esborrachava-lho, sim, esborrachava, João da Ega! Esborra-chava-lho assim, olha, assim mesmo! — Rompeu a atirar patadasao soalho, abalando a sala, fazendo tilintar cristais e louças. —Mas não quero, rapazes! Dentro daquele crânio só há excremento,vómito, pus, matéria verde, e se lho esborrachasse, porque lhoesborrachava, rapazes, todo o miolo podre saía, empestava acidade, tínhamos o cólera! Irra! Tínhamos a peste! Carlos, vendo-o tão excitado, tomou-lhe o braço, quis calmá-lo: — Então, Alencar! Que tolice... Isso vale lá a pena!... O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca,soltou o último desabafo: — Com efeito, não vale a pena ninguém zangar-se por causadesse Craveirote da Ideia Nova, esse caloteiro, que se não lembraque a porca da irmã é uma meretriz de doze vinténs em Marco deCanaveses! — Não, isso agora é de mais, pulha! — gritou Ega, arremes-sando-se, de punhos fechados. Cohen e Dâmaso, assustados, agarraram-no. Carlos puxara logopara o vão da janela o Alencar, que se debatia, com os olhos chame-jantes, a gravata solta. Tinha caído uma cadeira; a correcta sala,com os seus divãs de marroquim, os seus ramos de camélias,tomava um ar de taverna, numa bulha de faias, entre a fumaraçade cigarros. Dâmaso, muito pálido, quase sem voz, ia de um a outro: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 145 — Oh! meninos, oh! meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!...Aqui, no Hotel Central!... E, de entre os braços de Cohen, Ega berrava, já rouco: — Esse pulha, esse cobarde... Deixe-me, Cohen! Não, issohei-de esbofeteá-lo!... A D. Ana Craveiro, uma santa!... Esse calu-niador... Não, isso hei-de esganá-lo!... Craft, no entanto, impassível, bebia aos goles a sua chartreuse.Já presenciara, mais vezes, duas literaturas rivais engalfinhando-se,rolando no chão, num latir de injúrias: a torpeza do Alencar sobre airmã do outro fazia parte dos costumes de crítica em Portugal: tudoisso o deixava indiferente, com um sorriso de desdém. Além dissosabia que a reconciliação não tardaria, ardente e com abraços. E nãotardou. Alencar saiu do vão da janela, atrás de Carlos, abotoando asobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da sala, Cohenfalava ao Ega com autoridade, severo, à maneira de um pai: depoisvoltou-se, ergueu a mão, ergueu a voz, disse que ali todos eram cava-lheiros: e como homens de talento e de coração fidalgo os dois deviamabraçar-se... — Vá, um shake-hands, Ega, faça isso por mim!... Alencar,vamos, peço-lho eu! O autor de Elvira deu um passo, o autor das Memórias de UmÁtomo estendeu a mão: mas o primeiro aperto foi goche e mole. EntãoAlencar, generoso e rasgado, exclamou que entre ele e o Ega nãodevia ficar uma nuvem! Tinha-se excedido... Fora o seu desgraçadogénio, esse calor de sangue, que durante toda a existência só lhe trou-xera lágrimas! E ali declarava bem alto que D. Ana Craveiro era umasanta! Tinha-a conhecido em Marco de Canaveses, em casa dos Peixo-tos... Como esposa, como mãe, D. Ana Craveiro era impecável. E reco-nhecia, do fundo da alma, que o Craveiro tinha carradas de talento!... Encheu um copo de champanhe, ergueu-o alto, diante do Ega,como um cálice de altar: — À tua, João! Ega, generoso, também respondeu: — À tua, Tomás! Abraçaram-se. Alencar jurou que ainda na véspera, em casa deD. Joana Coutinho, ele dissera que não conhecia ninguém mais cin-tilante que o Ega! Ega afirmou logo que em poemas nenhuns cor-ria, como nos do Alencar, uma tão bela veia lírica. Apertaram-seoutra vez, com palmadas pelos ombros. Trataram-se de irmãos naarte, trataram-se de génios!... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 146 — São extraordinários — disse Craft baixo a Carlos, procu-rando o chapéu. — Desorganizam-me, preciso ar!... A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu maisconhaque. Depois Cohen saiu levando o Ega. Dâmaso e Alencardesceram com Carlos — que ia recolher a pé pelo Aterro. À porta, o poeta parou com solenidade. — Filhos — exclamou ele tirando o chapéu e refrescando larga-mente a fronte — então? Parece-me que me portei como um gentleman! Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade... — Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que éser gentleman! E agora vamos lá por esse Aterro fora... Masdeixa-me ir ali primeiro comprar um pacote de tabaco... — Que tipo! — exclamou Dâmaso, vendo-o afastar-se. — E acoisa ia-se pondo feia... E imediatamente, sem transição, começou a fazer elogios a Car-los. O Sr. Maia não imaginava há quanto tempo ele desejavaconhecê-lo! — Oh! senhor... — Creia Vossa Excelência... Eu não sou de sabujices... Maspode Vossa Excelência perguntar ao Ega, quantas vezes o tenhodito: Vossa Excelência é a coisa melhor que há em Lisboa! Carlos baixava a cabeça, mordendo o riso. Dâmaso repetia, dofundo do peito: — Olhe que isto é sincero, Sr. Maia! Acredite Vossa Excelênciaque isto é do coração! Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa,tivera ali, naquele moço gordo e bochechudo, sem o saber, uma ado-ração muda e profunda; o próprio verniz dos seus sapatos, a cor dassuas luvas eram para o Dâmaso motivo de veneração, e tão impor-tantes como princípios. Considerava Carlos um tipo supremo dechique, do seu querido chique, um Brummel, um D’Orsay, umMorny — uma «destas coisas que só se vêem lá fora», como ele diziaarregalando os olhos. Nessa tarde, sabendo que vinha jantar com oMaia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho experimen-tando gravatas, perfumara-se como para os braços de uma mulher— e por causa de Carlos mandara estacionar ali o coupé, às dezhoras, com o cocheiro de ramo ao peito. — Então essa senhora brasileira vive aqui? — perguntou Carlos,que dera dois passos, olhava uma janela alumiada no segundo andar. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 147 Dâmaso seguiu-lhe o olhar. — Vive lá do outro lado. Estão aqui há quinze dias... Gente chi-que... E ela é de apetecer, Vossa Excelência reparou? Eu a bordoatirei-me... E ela dava cavaco! Mas tenho andado muito presodesde que cheguei, jantar aqui, soirée acolá, umas aventurazitas...Não tenho podido cá vir, deixei-lhe só bilhetes; mas trago-a de olho,que ela demora-se... Talvez venha cá amanhã, estou cá agora a sen-tir umas cócegas... E se me pilho só com ela, zás, ferro-lhe logo umbeijo! Que eu cá, não sei se Vossa Excelência é a mesma coisa, maseu cá, com mulheres, a minha teoria é esta: atracão! Eu cá, é logo:atracão! Nesse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca.Dâmaso despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para queCarlos ouvisse, a adresse da Morelli, a segunda dama de S. Carlos. — Bom rapaz, este Dâmaso — dizia Alencar, travando do braçode Carlos, ao seguirem ambos pelo Aterro. — É lá muito dosCohens, muito querido na sociedade. Rapaz de fortuna, filho dovelho Silva, o agiota, que esfolou muito teu pai; e a mim também.Mas ele assina Salcede; talvez nome da mãe; ou talvez inventado.Bom rapaz. O pai era um velhaco! Parece que estou a ouvir o Pedrodizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e do grande: «Silvajudeu, dinheiro, e a rodo!...» Outros tempos, meu Carlos, grandestempos! Tempos de gente! E então por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzesdo gás dormente luzindo em fila de enterro, Alencar foi falando des-ses «grandes tempos» da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e,através das suas frases de lírico, Carlos sentia vir como um aromaantiquado desse mundo defunto... Era quando os rapazes aindatinham um resto de calor das guerras civis, e o calmavam indo embando varrer botequins ou rebentando pilecas de seges em galopa-das para Sintra. Sintra era então um ninho de amores, e sob assuas românticas ramagens as fidalgas abandonavam-se aos braçosdos poetas. Elas eram Elviras, eles eram Antonis. O dinheiro abun-dava; a corte era alegre; a Regeneração literata e galante iaengrandecer o país, belo jardim da Europa; os bacharéis chegavamde Coimbra, frementes de eloquência; os ministros da Coroa recita-vam ao piano; o mesmo sopro lírico inchava as odes e os projectosde lei... — Lisboa era bem mais divertida — disse Carlos. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 148 — Era outra coisa, meu Carlos! Vivia-se! Não existiriam essesares científicos, toda essa palhada filosófica, esses badamecos posi-tivistas... Mas havia coração, rapaz! Tinha-se faísca! Mesmo nessascoisas da política... Vê esse chiqueiro agora aí, essa malta de ban-dalhos... Nesse tempo ia-se ali à Câmara e sentia-se a inspiração,sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeças!... E depois, menino,havia muitíssimo boas mulheres. Os ombros descaíam-lhe na saudade desse mundo perdido. Eparecia mais lúgubre, com a sua grenha de inspirado saindo-lhe desob as abas largas do chapéu velho, a sobrecasaca coçada e malfeita colando-se-lhe lamentavelmente às ilhargas. Um momento caminharam em silêncio. Depois, na Rua dasJanelas Verdes, o Alencar quis refrescar. Entraram numa pequenavenda, onde a mancha amarela de um candeeiro de petróleo desta-cava numa penumbra de subterrâneo, alumiando o zinco húmidodo balcão, garrafas nas prateleiras, e o vulto triste da patroa comum lenço amarrado nos queixos. Alencar parecia íntimo no estabe-lecimento: apenas soube que a Sr.a Cândida estava com dores dedentes, aconselhou logo remédios, familiar, descido das nuvensromânticas, com os cotovelos sobre o balcão. E quando Carlos quispagar a cana branca zangou-se, bateu a sua placa de dois tostõessobre o zinco polido, exclamou com nobreza: — Eu é que faço a honra da bodega, meu Carlos! Nos paláciosos outros pagarão... Cá na taberna pago eu! À porta tomou o braço de Carlos. Depois de alguns passos len-tos no silêncio da rua, parou de novo, e murmurou numa voz vaga,contemplativa, como repassada da vasta solenidade da noite: — Aquela Raquel Cohen é divinamente bela, menino! Tuconhece-la? — De vista. — Não te faz lembrar uma mulher da Bíblia? Não digo lá umadessas viragos, uma Judite, uma Dalila... Mas um desses lírios poé-ticos da Bíblia... É seráfica! Era agora a paixão platónica do Alencar, a sua dama, a suaBeatriz... — Tu viste há tempos, no Diário Nacional, os versos que eu lhe fiz? «Abril chegou! Sê minha.» Dizia o vento à rosa. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 149 Não me saiu mau! Aqui há uma maliciazinha: Abril chegou, sêminha... Mas logo: Dizia o vento à rosa. Compreendes? Calhou bemeste efeito. Mas não imagines lá outras coisas, ou que lhe faço acorte... Basta ser a mulher do Cohen, um amigo, um irmão... E aRaquel, para mim, coitadinha, é como uma irmã... Mas é divina.Aqueles olhos, filho, um veludo líquido!... Tirou o chapéu, refrescou a fronte vasta. Depois noutro tom, ecomo a custo: — Aquele Ega tem muito talento... Vai lá muito aos Cohens... ARaquel acha-lhe graça... Carlos parara, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu umolhar à severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto deluz. — Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, queeu vou andando por aqui para a minha toca. E quando quiseres,filho, lá me tens na Rua do Carvalho, 52, terceiro andar. O prédio émeu, mas eu ocupo o terceiro andar. Comecei por habitar no pri-meiro, mas tenho ido trepando... A única coisa mesmo que tenhotrepado, meu Carlos, é de andares... Teve um gesto, como desdenhando essas misérias. — E hás-de ir lá jantar um dia. Não te posso dar um banquete,mas hás-de ter uma sopa e um assado... O meu Mateus, um preto(um amigo!), que me serve há muito ano, quando há que cozinhar,sabe cozinhar! Fez muito jantar a teu pai, ao meu pobre Pedro...Que aquilo foi casa de alegria, meu rapaz. Dei lá cama e mesa, edinheiro para a algibeira, a muita dessa canalha que hoje por aítrota em coupé da Companhia e de correio atrás... E agora, quandome avistam, voltam para o lado o focinho... — Isso são imaginações — disse Carlos com amizade. — Não são, Carlos — respondeu o poeta, muito grave, muitoamargo. — Não são. Tu não sabes a minha vida. Tenho sofridomuito repelão, rapaz. E não o merecia! Palavra, que o não mere-cia... Agarrou o braço de Carlos, e com voz abalada: — Olha que esses homens que por aí figuram embebedavam-secomigo, emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agorasão ministros, são embaixadores, são personagens, são o Diabo. Poisofereceram-te eles um bocado do bolo agora que o têm na mão? Não.Nem a mim. Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 150E que diabo, eu não queria que me fizessem conde, nem que me des-sem uma embaixada... Mas aí alguma coisa numa secretaria... Nemum chavelho! Enfim, ainda há para o bocado do pão, e para a meiaonça de tabaco... Mas esta ingratidão tem-me feito cabelos brancos...Pois não te quero maçar mais, e que Deus te faça feliz como tumereces, meu Carlos! — Tu não queres subir um bocado, Alencar? Tanta franqueza enterneceu o poeta. — Obrigado, rapaz — disse ele, abraçando Carlos. — Eagradeço-te isso, porque sei que vem do coração... Todos vocês têmcoração... Já teu pai o tinha, e largo, e grande como o de um leão! Eagora crê uma coisa: é que tens aqui um amigo. Isto não é palavreado,isto vem de dentro... Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto? Carlos aceitou logo, como um presente do Céu. — Então aí tens um charuto, filho! — exclamou Alencar comentusiasmo. E aquele charuto dado a um homem tão rico, ao dono do Rama-lhete, fazia-o por um momento voltar aos tempos em que nesseMarrare ele estendia em redor a charuteira cheia, com o seugrande ar de Manfredo triste. Interessou-se então pelo charuto.Acendeu ele mesmo um fósforo. Verificou se ficava bem aceso. Eque tal, charuto razoável? Carlos achava um excelente charuto! — Pois ainda bem que te dei um bom charuto! Abraçou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando eleenfim se afastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando umtrecho de fado. Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o péssimocharuto do Alencar estirado numa chaise-longue, enquanto Bap-tista lhe fazia uma chávena de chá, ficou pensando nesse estranhopassado que lhe evocara o velho lírico... E era simpático o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado,ao falar de Pedro, de Arroios, dos amigos e dos amores de então, eleevitara pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de umavez, pelo Aterro fora, estivera para lhe dizer: — Podes falar damamã, amigo Alencar, que eu sei perfeitamente que ela fugiu comum italiano! E isto fê-lo insensivelmente recordar da maneira como essalamentável história lhe fora revelada, em Coimbra, numa noite de © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 151troça, quase grotescamente. Porque o avô, obedecendo à carta tes-tamentária de Pedro, contara-lhe um romance decente: um casa-mento de paixão, incompatibilidades de naturezas, uma separaçãocortês, depois a retirada da mamã com a filha para a França, ondetinham morrido ambas. Mais nada. A morte de seu pai fora-lheapresentada sempre como brusco remate de uma longa nevrose... Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceadoambos; Ega muito bêbado, e num acesso de idealismo, lançara-senum paradoxo tremendo, condenando a honestidade das mulherescomo origem da decadência das raças: e dava por prova os bastar-dos, sempre inteligentes, bravos, gloriosos! Ele, Ega, teria orgulhose sua mãe, sua própria mãe, em lugar de ser a santa burguesa querezava o terço à lareira, fosse como a mãe de Carlos, uma inspi-rada, que por amor de um exilado abandonara fortuna, respeitos,honra, vida! Carlos, ao ouvir isto, ficara petrificado, no meio daponte, sob o calmo luar. Mas não pôde interrogar o Ega, que játaramelava, agoniado, e que não tardou a vomitar-lhe ignobilmentenos braços. Teve de o arrastar à casa das Seixas, despi-lo,aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, até que o deixou abra-çado ao travesseiro, babando-se, balbuciando «que queria ser bas-tardo, que queria que a mamã fosse uma marafona!...» E ele mal pudera dormir essa noite, com a ideia daquela mãe,tão outra do que lhe haviam contado, fugindo nos braços de um des-terrado — um polaco talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quartodo Ega, a pedir-lhe, pela sua grande amizade, a verdade toda... Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenço que tinhaamarrado na cabeça com panos de água sedativa: e não achavauma palavra, coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites decavaco, tranquilizou-o. Não vinha ali ofendido, vinha ali curioso!Tinham-lhe ocultado um episódio extraordinário da sua gente, quediabo, queria sabê-lo! Havia romance! Para ali o romance! Ega, então, lá ganhou ânimo, lá balbuciou a sua história — aque ouvira ao tio Ega — a paixão de Maria por um príncipe, a fuga,o longo silêncio de anos que se fizera sobre ela... Justamente as férias chegavam. Apenas em Santa Olávia, Car-los contou ao avô a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos,aquela revelação vinda entre arrotos. Pobre avô! Um momento nempôde falar — e a voz por fim veio-lhe tão débil e dolente como sedentro do peito lhe estivesse morrendo o coração. Mas narrou-lhe, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 152detalhe a detalhe, o feio romance todo até àquela tarde em quePedro lhe aparecera lívido, coberto de lama, a cair-lhe nos braços,chorando a sua dor com a fraqueza de uma criança. E o desfechodesse amor culpado, acrescentara o avô, fora a morte da mãe emViena de Áustria, e a morte da pequenita, da neta que ele nuncavira, e que a Monforte levara... E eis aí tudo. E assim, aquela ver-gonha doméstica estava agora enterrada, ali, no jazigo de SantaOlávia, e em duas sepulturas distantes, em país estrangeiro... Carlos recordava-se bem que nessa tarde, depois da melancó-lica conversa com o avô, devia ele experimentar uma égua inglesa:e ao jantar não se falou senão da égua, que se chamava Sultana. Ea verdade era que daí a dias tinha esquecido a mamã. Nem lhe erapossível sentir por esta tragédia senão um interesse vago e comoliterário. Isto passara-se havia vinte e tantos anos, numa sociedadequase desaparecida. Era como o episódio histórico de uma velhacrónica de família, um antepassado morto em Alcácer Quibir, ouuma das suas avós dormindo num leito real. Aquilo não lhe derauma lágrima, não lhe pusera um rubor na face. Decerto, prefeririapoder orgulhar-se de sua mãe, como de uma rara e nobre flor dehonra: mas não podia ficar toda a vida a amargurar-se com os seuserros. E porquê? A honra dele não dependia dos impulsos falsos outorpes que tivera o coração dela. Pecara, morrera, acabou-se. Res-tava, sim, aquela ideia do pai, findando numa poça de sangue, nodesespero dessa traição. Mas não conhecera seu pai: tudo o quepossuía dele e da sua memória, para amar, era uma fria tela malpintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moçomoreno, de grandes olhos, com luvas de camurça amarelas e umchicote na mão... De sua mãe não ficara nem um daguerreótipo,nem sequer um contorno a lápis. O avô tinha-lhe dito que era loira.Não sabia mais nada. Não os conhecera; não lhes dormira nos bra-ços; nunca recebera o calor da sua ternura. Pai, mãe, eram para elecomo símbolos de um culto convencional. O papá, a mamã, os seresamados, estavam ali todos — no avô. Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara; e ele con-tinuava na chaise-longue, como amolecido nestas recordações, ecedendo já, num meio adormecimento, à fadiga do longo jantar... Eentão, pouco a pouco, diante das suas pálpebras cerradas, umavisão surgiu, tomou cor, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tardemorria numa paz elísia. O peristilo do Hotel Central alargava-se, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 153claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no colo.Uma mulher passava, alta, com uma carnação ebúrnea, bela comouma deusa, num casaco de veludo branco de Génova. O Craft diziaao seu lado: Très chic. E ele sorria, no encanto que lhe davam estasimagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de coisasvivas. Eram três horas quando se deitou. E apenas adormecera naescuridão dos cortinados de seda, outra vez um belo dia de Invernomorria sem uma aragem, banhado de cor-de-rosa; banal peristilodo hotel alargava-se, claro ainda na tarde; o escudeiro preto vol-tava, com a cadelinha nos braços; uma mulher passava, com umcasaco de veludo branco de Génova, mais alta que uma criaturahumana, caminhando sobre nuvens, com um grande ar de Juno queremonta ao Olimpo: a ponta dos seus sapatos de vernizenterrava-se na luz do azul, por trás as saias batiam-lhe como ban-deiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia: Très chic.Depois tudo se confundia, e era só o Alencar, um Alencar colossal,enchendo todo o céu, tapando o brilho das estrelas com a sua sobre-casaca negra e mal feita, os bigodes esvoaçando ao vendaval daspaixões, alçando os braços, clamando no espaço: Abril chegou, sê minha! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós pág. 154 de 595 Capítulo VII N O Ramalhete, depois do almoço, com as três janelas doescritório abertas bebendo a tépida luz do belo dia de Março,Afonso da Maia e Craft jogavam uma partida de xadrez ao pé dachaminé já sem lume, agora cheia de plantas, fresca e festiva comoum altar doméstico. Numa faixa oblíqua de sol, sobre o tapete, o«Reverendo Bonifácio», enorme e fofo, dormia de leve a sua sesta. Craft tornara-se, em poucas semanas, íntimo no Ramalhete,Carlos e ele, tendo muitas similitudes de gosto e de ideias, omesmo fervor pelo bricabraque e pelo bibelot, o uso apaixonado daesgrima, igual diletantismo de espírito, uniram-se imediatamenteem relações de superfície, fáceis e amáveis. Afonso, por seu lado,começara logo a sentir uma estima elevada por aquele gentlemande boa raça inglesa, como ele os admirava, cultivado e forte, demaneiras graves, de hábitos rijos, sentindo finamente e pensandocom rectidão. Tinham-se encontrado ambos entusiastas de Tácito,de Macaulay, de Burke, e até dos poetas laquistas; Craft eragrande no xadrez; o seu carácter ganhara nas longas e trabalhadasviagens a rica solidez de um bronze; para Afonso da Maia «aquiloera deveras um homem». Craft, madrugador, saía cedo dos Olivaisa cavalo, e vinha assim às vezes almoçar de surpresa com os Maias;por vontade de Afonso jantaria lá sempre; — mas ao menos as noi-tes passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo enfim, comoele dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conver-sar bem sentado, no meio de ideias, e com boa educação. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 155 Carlos saía pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquelarevoada de clientela que lhe dera esperanças de uma carreiracheia, activa, tinha passado miseravelmente, sem se fixar; resta-vam-lhe três doentes no bairro; e sentia agora que as suas carrua-gens, os cavalos, o Ramalhete, os hábitos de luxo, o condenavamirremediavelmente ao diletantismo. Já o fino Dr. Teodósio lhe dis-sera um dia, francamente: «Você é muito elegante para médico! Assuas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem é o burguês quelhe vai confiar a esposa dentro de uma alcova?... Você aterra opater-famílias!» O laboratório mesmo prejudicara-o. Os colegasdiziam que o Maia, rico, inteligente, ávido de inovações, de moder-nismos, fazia sobre os doentes experiências fatais. Tinha-se troçadomuito a sua ideia, apresentada na Gazeta Médica, a prevenção dasepidemias pela inoculação dos vírus. Consideravam-no um fanta-sista. E ele, então, refugiava-se todo nesse livro sobre a medicinaantiga e moderna, o seu livro, trabalhado com vagares de artistarico, tornando-se o interesse intelectual de um ou dois anos. Nessa manhã, enquanto dentro prosseguia grave e silenciosa apartida de xadrez, Carlos, no terraço, estendido numa vastacadeira índia de bambu, à sombra do toldo, acabava o seu charuto,lendo uma revista inglesa, banhado pela carícia tépida daquelebafo de Primavera que aveludava o ar, fazia já desejar árvores erelvas... Ao lado dele, numa outra cadeira de bambu, também de cha-ruto na boca, o Sr. Dâmaso Salcede percorria o Figaro. De pernaestirada, numa indolência familiar, tendo o amigo Carlos ao seulado, vendo junto ao terraço as rosas das roseiras de Afonso, sen-tindo por trás, através das janelas abertas, o rico e nobre interiordo Ramalhete — o filho do agiota saboreava ali uma dessas horasdeliciosas que ultimamente encontrava na intimidade dos Maias. Logo na manhã seguinte ao jantar do Central, o Sr. Salcede foraao Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e visto-sos, tendo ao ângulo, numa dobra simulada, o seu retratozinho emfotografia, um capacete com plumas por cima do nome — DÂMASOCÂNDIDO DE SALCEDE, por baixo as suas honras — COMENDA-DOR DE CRISTO, ao fundo a sua adresse — Rua de S. Domingos, àLapa; mas esta indicação estava riscada, e ao lado, a tinta azul, estaoutra mais aparatosa — GRAND HÔTEL, BOULEVARD DESCAPUCINES, CHAMBRE N.° 103. Em seguida procurou Carlos no © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 156consultório, confiou ao criado outro cartão. Enfim, uma tarde, noAterro, vendo passar Carlos a pé, correu para ele, pendurou-se dele,conseguiu acompanhá-lo ao Ramalhete. Aí, logo desde o pátio, rompeu em admirações extáticas, comodentro de um museu, lançando, diante dos tapetes, das faianças edos quadros, a sua grande frase: «Chique a valer!» Carlos levou-opara o fumoir, ele aceitou um charuto; e começou a explicar, deperna traçada, algumas das suas opiniões e alguns dos seus gostos.Considerava Lisboa chinfrim, e só estava bem em Paris — sobre-tudo por causa do género «fêmea» de que em Lisboa se passavamfomes: ainda que nesse ponto a Providência não o tratava mal. Gos-tava também do bricabraque; mas apanhava-se muita espiga, e ascadeiras antigas, por exemplo, não lhe pareciam cómodas para agente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguém o pilhava semlivros à cabeceira da cama; ultimamente andava às voltas comDaudet, que lhe diziam ser muito chique, mas ele achava-o confu-sote. Em rapaz perdia sempre as noites, até às quatro ou cinco damadrugada, no delírio! Agora não, estava mudado e pacato; enfim,não dizia que de vez em quando não se abandonasse a um excesso-zinho; mas só em dias duples... E as suas perguntas foram terrí-veis. O Sr. Maia achava chique ter um cab inglês? Qual era maiselegante, assim para um rapaz da sociedade que quisesse ir passaro Verão lá fora, Nice ou Trouville?... Depois ao sair, muito sério,quase comovido, perguntou ao Sr. Maia (se o Sr. Maia não faziasegredo) quem era o seu alfaiate. E desde esse dia, não o deixou mais. Se Carlos aparecia no tea-tro, Dâmaso imediatamente arrancava-se da sua cadeira, às vezesna solenidade de uma bela ária, e pisando os botins dos cavalhei-ros, amarrotando a compostura das damas, abalava, abria de estaloa claque, vinha-se instalar na frisa, ao lado de Carlos, com a boche-cha corada, camélia na casaca, exibindo os botões de punho queeram duas enormes bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entraracasualmente no Grémio, Dâmaso abandonou logo a partida, indife-rente à indignação dos parceiros, para se vir colar à ilharga doMaia, oferecer-lhe marrasquino ou charutos, segui-lo de sala emsala como um rafeiro. Numa dessas ocasiões, tendo Carlos soltadoum trivial gracejo, eis o Dâmaso rompendo em risadas soluçantes,rebolando-se pelos sofás, com as mãos nas ilhargas, a gritar querebentava! Juntaram-se sócios; ele, sufocado, repetia a pilhéria; © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 157Carlos fugiu vexado. Chegou a odiá-lo; respondia-lhe só commonossílabos; dava voltas perigosas com o dog-cart, se lhe avistavade longe a bochecha, a coxa roliça. Debalde: Dâmaso Cândido deSalcede filara-o, e para sempre. Depois, um dia, Taveira apareceu no Ramalhete com umaextraordinária história. Na véspera, no Grémio (tinham-lhe contado,ele não presenciara) um sujeito, um Gomes, num grupo onde secomentavam os Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era umasno! Dâmaso, que estava ao lado mergulhado na Ilustração, levan-tou-se, muito pálido, declarou que, tendo a honra de ser amigo do Sr.Carlos da Maia, quebrava a cara com a bengala ao Sr. Gomes se eleousasse babujar outra vez esse cavalheiro; e o Sr. Gomes tragou, comos olhos no chão, a afronta, por ser raquítico de nascença — e porqueera inquilino de Dâmaso e andava muito atrasado na renda. Afonsoda Maia achou este feito brilhante: e foi por desejo seu que Carlostrouxe o Sr. Salcede uma tarde a jantar ao Ramalhete. Este dia pareceu belo a Dâmaso, como se fosse feito de azul eouro. Mas melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco inco-modado e ainda deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes...Daí datava a sua intimidade: começou a tratar Carlos por você.Depois, nessa semana, revelou aptidões úteis. Foi despachar àAlfândega (Vilaça achava-se no Alentejo) um caixote de roupa paraCarlos. Tendo aparecido num momento em que Carlos copiava umartigo para a Gazeta Médica, ofereceu a sua boa letra, letra prodi-giosa, de uma beleza litográfica; e daí por diante passava horas àbanca de Carlos, aplicado e vermelho, com a ponta da língua defora, o olho redondo, copiando apontamentos, transcrições de revis-tas, materiais para o livro... Tanta dedicação merecia um tu defamiliaridade. Carlos deu-lho. Dâmaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidadeinquieta, desde a barba, que começava agora a deixar crescer, até àforma dos sapatos. Lançara-se no bricabraque. Trazia sempre ocoupé cheio de lixos arqueológicos, ferragens velhas, um bocado detijolo, a asa rachada de um bule... E se avistava um conhecido,fazia parar, entreabria a portinhola como um ádito de sacrário, exi-bia a preciosidade: — Que te parece? Chique a valer!... Vou mostrá-la ao Maia.Olha-me isto, hem! Pura Meia Idade, do reinado de Luís XIV. OCarlos vai-se roer de inveja! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 158 Nesta intimidade de rosas havia todavia para Dâmaso horaspesadas. Não era divertido assistir em silêncio, do fundo de umapoltrona, às infindáveis discussões de Carlos e de Craft sobre arte esobre ciência. E, como ele confessou depois, chegara a encavacarum pouco quando o levaram ao laboratório para fazer no seu corpoexperiências de electricidade... «Pareciam dois demónios engalfi-nhados em mim», disse ele à senhora condessa de Gouvarinho; «eeu então que embirro com o espiritismo!...» Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando à noite,num sofá do Grémio, ou ao chá numa casa amiga, ele podia dizer,correndo a mão pelo cabelo: — Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, brica-braque, discutimos... Um dia chique! Amanhã tenho uma manhã detrabalho com o Maia... Vamos às colchas. Nesse domingo, justamente, deviam ir às colchas, ao Lumiar.Carlos concebera um boudoir, todo revestido de colchas antigas decetim, bordadas a dois tons especiais, pérola e botão-de-ouro. O tioAbraão esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos subúrbios; enessa manhã viera anunciar a Carlos a existência de duas preciosi-dades, so beautiful! oh! so lovely! em casa de umas senhoras Medei-ros que esperavam o Sr. Maia às duas horas... Já três vezes Dâmaso tossira, olhara o relógio — mas, vendoCarlos confortavelmente mergulhado na Revista, recaía também nasua indolência de homem chique, investigando o Figaro. Enfim,dentro, o relógio Luís XV cantou argentinamente as duas... — Esta é boa! — exclamou Dâmaso ao mesmo tempo com umapalmada na coxa. Olha quem aqui me aparece! A Susana! A minhaSusana! Carlos não despegara os olhos da página. — Ó Carlos — acrescentou ele — fazes favor? Ouve. Ouve estaque é boa. Esta Susana é uma pequena que eu tive em Paris... Umromance! Apaixonou-se por mim, quis-se envenenar, o diabo!... Poisdiz aqui o Figaro que debutou nas Folies-Bergères. Fala nela... Éboa, hem? E era rapariguita chique... E o Figaro diz que ela teveaventuras, naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo omundo sabia em Paris. Ora a Susana! Tinha bonitas pernas. E cus-tou-me a ver livre dela! — Mulheres! — murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundoda Revista. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 159 Dâmaso era interminável, torrencial, inundante a falar das«suas conquistas», naquela sólida satisfação em que vivia de quetodas as mulheres, desgraçadas delas, sofriam a fascinação da suapessoa e da sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico,estimado na sociedade, com coupé e parelha, todas as meninastinham para ele um olhar doce. E no demi-monde, como ele dizia,«tinha prestígio a valer». Desde moço fora célebre, na capital, porpôr casas a espanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mês; eeste fausto excepcional tornara-o bem depressa o D. João V dosprostíbulos. Conhecia-se também a sua ligação com a viscondessada Gafanha, uma carcaça esgalgada, caiada, rebocada, gasta portodos os homens válidos do país: ia nos cinquenta anos, quandochegou a vez do Dâmaso — e não era decerto uma delícia ter nosbraços aquele esqueleto rangente e lúbrico; mas dizia-se que emnova dormira num leito real, e que augustos bigodes a tinham lam-buzado; tanta honra fascinou Dâmaso, e colou-se-lhe às saias comuma fidelidade tão sabuja, que a decrépita criatura, farta, enojadajá, teve de o enxotar à força e com desfeitas. Depois gozou uma tra-gédia: uma actriz do Príncipe Real, uma montanha de carne, apai-xonada por ele, numa noite de ciúme e de genebra, engoliu umacaixa de fósforos; naturalmente daí a horas estava boa, tendo vomi-tado abominavelmente sobre o colete do Dâmaso, que chorava aolado — mas desde então este homem de amor julgou-se fatal! Comoele dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida, quase tre-mia, tremia verdadeiramente de fitar uma mulher... — Passaram-se cenas com esta Susana! — murmurou ele,depois de um silêncio em que estivera catando películas nos beiços. E, com um suspiro, retomou o Figaro. Houve outra vez umsilêncio no terraço. Dentro, a partida continuava. Para lá da som-bra do toldo, agora, o Sol ia aquecendo, batendo a pedra, os vasosde louça branca, numa refracção de ouro-claro em que palpitavamas asas das primeiras borboletas voando em redor dos craveiros emflor: em baixo, o jardim verde-java, imóvel na luz, sem um bulir deramo, refrescado pelo cantar do repuxo, pelo brilho líquido da águado tanque, avivado, aqui e além, pelo vermelho ou o amarelo dasrosas, pela carnação das últimas camélias... O bocado de rio que seavistava entre os prédios era azul-ferrete como o céu: e entre rio ecéu, o monte punha uma grossa barra verde-escura, quase negra noresplendor do dia, com os dois moinhos parados no alto, as duas © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 160casinhas alvejando em baixo, tão luminosas e cantantes que pare-ciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o bairro: e,muito alto, no ar, passava o claro repique de um sino. — O duque de Norfolk chegou a Paris — disse Dâmaso numtom entendido e traçando a perna. — O duque de Norfolk é chique,não é verdade, ó Carlos? Carlos, sem erguer os olhos, lançou para os céus um gesto,como exprimindo o infinito do chique! Dâmaso largara o Figaro para meter um charuto na boquilha;depois desapertou os últimos botões do colete, deu um puxão àcamisa para mostrar melhor a marca que era um S enorme sobuma coroa de conde, e de pálpebra cerrada, com o beiço trombudo,ficou mamando gravemente a boquilha... — Tu estás hoje em beleza, Dâmaso — disse-lhe Carlos, quedeixara também a Revista e o contemplava com melancolia. Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapa-tos, à meia cor de carne, e revirando para Carlos o bugalho azuladoda órbita: — Eu agora ando bem... Mas, muito blasé. E foi realmente com um ar blasé que se ergueu a ir buscar auma mesa de jardim, ao lado, onde estavam jornais e charutos, aGazeta Ilustrada, «para ver o que ia pela pátria». Apenas lhe deitouos olhos soltou uma exclamação. — Outro debute? — perguntou Carlos. — Não, é a besta do Castro Gomes! A Gazeta Ilustrada anunciava que «o Sr. Castro Gomes, o cava-lheiro brasileiro que no Porto fora vítima da sua dedicação por oca-sião da desgraça ocorrida na Praça Nova, e de que o nosso corres-pondente J. T. nos deu uma descrição tão opulenta de colorido rea-lista, acha-se restabelecido e é hoje esperado no Hotel Central. Osnossos parabéns ao arrojado gentleman». — Ora está Sua Excelência restabelecida! — exclamou Dâmaso,atirando para o lado o jornal. — Pois deixa estar que, agora, é aocasião de lhe dizer na cara o que penso... Aquele pulha! — Tu exageras — murmurou Carlos, que se apoderara viva-mente do jornal, e relia a notícia. — Ora essa! — exclamou Dâmaso, erguendo-se. — Ora essa!Queria ver, se fosse contigo... É uma besta! É um selvagem! E repetiu mais uma vez a Carlos essa história que o magoava. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 161Desde a sua chegada de Bordéus, logo que o Castro Gomes se insta-lara no Hotel Central, ele fora deixar-lhe bilhetes duas vezes — aúltima na manhã seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, Sua Exce-lência não se dignara agradecer a visita! Depois eles tinham par-tido para o Porto; fora aí que, passeando só na Praça Nova, vendo aparelha de uma caleche desbocada, duas senhoras em gritos, Cas-tro Gomes se lançara ao freio dos cavalos — e, cuspido contra asgrades, tinha deslocado um braço. Teve de ficar no Porto, no hotel,cinco semanas. E ele imediatamente (sempre com o olho namulher) mandara-lhe dois telegramas: um de sentimento, lamen-tando; outro de interesse, pedindo notícias. Nem a um, nem aoutro, o animal respondeu! — Não, isso — exclamava Salcede, passeando pelo terraço, erecordando estas injúrias — hei-de-lhe fazer uma desfeita!... Nãopensei ainda o quê, mas há-de amargar-lhe... Lá isso, desconsidera-ções não admito a ninguém! A ninguém! Arredondava o olho, ameaçador. Desde o seu feito no Grémio,quando o raquítico apavorado emudecera diante dele, Dâmaso ia-setornando feroz. Pela menor coisa falava em «quebrar caras». — A ninguém! — repetia ele, com puxões ao colete. — Desconsi-derações, a ninguém! Nesse momento ouviu-se dentro, no escritório, a voz rápida doEga — e quase imediatamente ele apareceu, com um ar de pressa,e atarantado. — Olá, Damasozinho!... Carlos, dás-me aqui em baixo umapalavra? Desceram do terraço, penetraram no jardim, até junto de duasolaias em flor. — Tu tens dinheiro? — foi aí logo a exclamação ansiosa do Ega. E contou a sua terrível atrapalhação. Tinha uma letra denoventa libras que se vencia no dia seguinte. Além disso, vinte ecinco libras que devia ao Eusebiozinho, e que ele lhe reclamaranuma carta indecente: e era isto que desesperava o Ega... — Quero pagar a esse canalha, e quando o vir colar-lhe a cartaà cara com um escarro. Além disso, a letra! E tenho para tudo istoquinze tostões... — O Eusebiozinho é homem de ordem... Enfim, queres cento equinze libras disse Carlos. Ega hesitou, com uma cor no rosto. Já devia dinheiro a Carlos. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 162Estava-se sempre dirigindo àquela amizade, como a um cofre ines-gotável... — Não, bastam-me oitenta. Ponho o relógio no prego, e a peliça,que já não faz frio... Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque —enquanto Ega procurava cuidadosamente um bonito botão de rosapara florir a sobrecasaca. Carlos não tardou, trazendo na mão ocheque, que alargara até cento e vinte libras, para o Ega ficararmado... — Seja pelo amor de Deus, menino! — disse o outro, embol-sando o papel, com um belo suspiro de alívio. Imediatamente trovejou contra o Eusebiozinho, esse vilão! Mastinha já uma vingança. Ia remeter-lhe a soma toda em cobre, numsaco de carvão, com um rato morto dentro, e um bilhete, começandoassim: Ascorosa lombriga e imunda osga, aí te atiro ao focinho, etc. — Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras respi-rando o teu ar, aquele ser repulsivo!... Mas era até sujo mencionar o Eusebiozinho!... Quis saber dostrabalhos de Carlos, do grande livro. Falou também do seu Átomo— e, por fim, numa voz diferente, aplicando o monóculo a Carlos: — Diz-me outra coisa. Porque não tens tu voltado aos Gouvari-nhos? Carlos tinha só esta razão: não se divertia lá. Ega encolheu os ombros. Parecia-lhe aquilo uma puerilidade... — Tu não percebeste nada — exclamou ele. — Aquela mulhertem uma paixão por ti... Basta que se pronuncie o teu nome,sobe-lhe todo o sangue à cara. E como Carlos ria, incrédulo, Ega, muito grave, deu a sua pala-vra de honra. Ainda na véspera, estava-se falando de Carlos, e eleespreitara-a. Sem ser um Balzac, nem uma broca de observação,tinha a visão correcta; pois bem, lá lhe vira na face, nos olhos, todaa expressão de um sentimento sincero... — Não estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra!Tem-la quando quiseres. Carlos achava deliciosa aquela naturalidade mefistofélica comque o Ega o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas,morais, sociais, domésticas... — Ah! bem exclamou Ega — se tu me vens com essa blague dacartilha e do código, então não falemos mais nisso! Se apanhaste a © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 163sarna da virtude, com comichões por qualquer coisa, então era umavez um homem, vai para a Trapa comentar o Ecclesiastes... — Não — disse Carlos, sentando-se num banco sob as árvores,ainda com uns restos da preguiça do terraço — o meu motivo não étão nobre. Não vou lá, porque acho o Gouvarinho um maçador. Ega teve um sorriso mudo. — Se a gente fosse a fugir das mulheres que têm maridosmaçadores... Sentou-se ao lado de Carlos, começou a riscar em silêncio ochão areado; e sem erguer os olhos, deixando cair as palavras, umaa uma, com melancolia: — Anteontem, toda a noite, a pé firme, das dez à uma, estive aouvir a história da demanda do Banco Nacional! Era quase uma confidência, e como o desabafo dos tédios secre-tos em que se debatia, naquele mundo dos Cohens, o seu tempera-mento de artista. Carlos enterneceu-se. — Meu pobre Ega, então toda a demanda? — Toda! E a leitura do relatório da Assembleia geral! E interes-sei-me! E tive opiniões!... A vida é um inferno. Subiram ao terraço. Dâmaso reocupara a sua cadeira de vime, e,com um canivetezinho de madrepérola, estava tratando das unhas. — Então decidiu-se? — perguntou ele logo ao Ega. — Decidiu-se ontem! Não há cotillon. Tratava-se de uma grande soirée mascarada que iam dar osCohens, no dia dos anos de Raquel. A ideia desta festa sugerira-a oEga, ao princípio com grandes proporções de gala artística, a res-surreição histórica de um sarau no tempo de D. Manuel. Depoisviu-se que uma tal festa era irrealizável em Lisboa — e desceu-se aum plano mais sóbrio, um simples baile costumé a capricho... — Tu, Carlos, já decidiste como vais? — De dominó, um severo dominó preto, como convém a umhomem de ciência... — Então — exclamou Ega — se se trata de ciência, vai derabona e chinelas de ourelo!... A ciência faz-se em casa e de chine-las... Nunca ninguém descobriu uma lei do Universo metido dentrode um dominó... Que sensaboria, um dominó!... Justamente a Sr.a D. Raquel desejava evitar, no seu baile, essamonotonia dos dominós. E em Carlos não havia desculpa. Não oprendiam vinte ou trinta libras; e, com aquele esplêndido físico de © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 164cavaleiro da Renascença, devia ornar a sala pelo menos com umsoberbo Francisco I. — É nisto — ajuntava ele com fogo — que está a beleza de umasoirée de máscaras! Não lhe parece, a você, Dâmaso? Cada um deveaproveitar a sua figura... Por exemplo, a Gouvarinho vai muitobem. Teve uma inspiração: com aquele cabelo ruivo, o nariz curto,as maçãs do rosto salientes, é Margarida de Navarra... — Quem é Margarida de Navarra? — perguntou Afonso daMaia, aparecendo no terraço com Craft. — Margarida, a duquesa de Angoulême, a irmã de Francisco I,a Margarida das Margaridas, a pérola dos Valois, a padroeira daRenascença, a senhora condessa de Gouvarinho!... Riu muito, foi abraçar Afonso, explicou-lhe que se discutia obaile dos Cohens. E apelou logo para ele, para o Craft, acerca donefando dominó de Carlos. Não estava aquele mocetão, com os seusares de homem de armas, talhado para um soberbo Francisco I, emtoda a glória de Marignam? O velho deu um olhar enternecido à beleza do neto. — Eu te digo, John, talvez tenhas razão; mas Francisco I, rei deFrança, não se pode apear de uma tipóia e entrar numa sala, só.Precisa de corte, arautos, cavaleiros, damas, bobos, poetas... Tudoisso é difícil. Ega curvou-se. Sim senhor, de acordo! Ali estava uma maneirainteligente de compreender o baile dos Cohens! — E tu, de que vais? — perguntou Afonso. Era um segredo. Tinha a teoria de que, naquelas festas, um dosencantos consistia na surpresa: dois sujeitos por exemplo que tendojantado juntos, de jaquetão, no Bragança, se encontram à noite, umna púrpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandidoda Calábria... — Eu cá não faço segredo — disse ruidosamente Dâmaso. — Eucá vou de selvagem. — Nu? — Não. De Nelusko na Africana. Ó Sr. Afonso da Maia, que lheparece? Acha chique? — Chique não exprime bem — disse Afonso sorrindo. — Masgrandioso, é, decerto. Quiseram então saber como ia Craft. Craft não ia de coisanenhuma; Craft ficava nos Olivais, de robe-de-chambre. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 165 Ega encolheu os ombros com tédio, quase com cólera. Aquelasindiferenças pelo baile dos Cohens feriam-no como injúrias pes-soais. Ele estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na biblio-teca, um trabalho fumegante de imaginação; e pouco a pouco elatomava aos seus olhos a importância de uma celebração de arte,provando o génio de uma cidade. Os dominós, as abstenções, pare-ciam-lhe evidências de inferioridade de espírito. Citou então oexemplo do Gouvarinho: ali estava um homem de ocupações, deposição política, nas vésperas de ser ministro, que não só ia aobaile, mas estudara o seu costume: estudara, e ia muito bem, ia deMarquês de Pombal! — Reclamo para ser ministro — disse Carlos. — Não o precisa — exclamou Ega. — Tem todas as condiçõespara ser ministro: tem voz sonora, leu Maurício Block, está encala-crado, e é um asno!... E no meio das risadas dos outros, ele, arrependido de demolirassim um cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acu-diu logo: — Mas é muito bom rapaz, e não se dá ares nenhuns! É umanjo! Afonso repreendia-o, risonho e paternal: — Ora tu, John, que não respeitas nada... — O desacato é a condição do progresso, Sr. Afonso da Maia. Quemrespeita decai. Começa-se por admirar o Gouvarinho, vai-se a genteesquecendo, chega a reverenciar o monarca, e quando mal se precatatem descido a venerar o Todo-Poderoso!... É necessário cautela! — Vai-te embora, John, vai-te embora! Tu és o próprio Anti-cristo... Ega ia responder, exuberante e em veia — mas dentro o tinirargentino do relógio Luís XV, com o seu gentil minuete,emudeceu-o. — O quê? Quatro horas! Ficou aterrado, verificou no seu próprio relógio, deu em redorrápidos, silenciosos apertos de mão, desapareceu como um sopro. Todos de resto estavam pasmados de ser tão tarde! E assimpassara a hora de ir ao Lumiar ver as colchas antigas das senhorasMedeiros... — Quer você então meia hora de florete, Craft? — perguntouCarlos. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 166 — Seja: e é necessário dar a lição ao Dâmaso... — É verdade, a lição... — murmurou Dâmaso, sem entusiasmo,com um sorriso murcho. A sala de esgrima era uma casa térrea, debaixo dos quartos deCarlos, com janelas gradeadas para o jardim, por onde resvalava,através das árvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados eranecessário acender os quatro bicos de gás. Dâmaso seguiu, atrásdos dois, com uma lentidão de rês desconfiada. Aquelas lições, que ele solicitara por amor do chique,iam-se-lhe tornando odiosas. E nessa tarde, como sempre, apenasse enchumaçou com o plastrão de anta, se cobriu com a caraça dearame, começou a transpirar, a fazer-se branco. Diante dele Craft,de florete na mão, parecia-lhe cruel e bestial, com aqueles seusombros de hércules sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros ras-param. Dâmaso estremeceu todo. — Firme! — gritou-lhe Carlos. O desgraçado equilibrava-se sobre a perna roliça; o florete deCraft vibrou, rebrilhou, voou sobre ele; Dâmaso recuou, sufocado,cambaleando e com o braço frouxo... — Firme! — berrava-lhe Carlos. Dâmaso, exausto, abaixou a arma. — Então que querem vocês, é nervos! É por ser a brincar... Sefosse a valer, vocês veriam. Assim acabava sempre a lição; e ficava depois abatido sobreuma banqueta de marroquim, arejando-se com o lenço, pálido comoa cal dos muros. — Vou-me até casa — disse ele daí a pouco, fatigado de tantocruzar o ferro. Queres alguma coisa, Carlinhos? — Quero que venhas cá jantar amanhã... Tens o marquês. — Chique a valer... Não faltarei. Mas faltou. E, como toda essa semana aquele moço pontual nãoapareceu no Ramalhete, Carlos, sinceramente inquieto, julgando-omoribundo, foi uma manhã a casa dele, à Lapa. Mas aí, o criado(um galego achavascado e triste, que, desde as suas relações com osMaias, Dâmaso trazia entalado numa casaca e mortalmente aper-reado em sapatos de verniz) afirmou-lhe que o Sr. Damasozinhoestava de boa saúde, e até saíra a cavalo. Carlos veio então ao tioAbraão; o tio Abraão também não avistara, havia dias, aquele bomSr. Salcede, that beautiful gentleman! A curiosidade de Carlos © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 167levou-o ao Grémio: no Grémio nenhum criado vira ultimamente oSr. Salcede. «Está por aí de lua-de-mel com alguma bela andaluza»,pensou Carlos. Chegara ao fim da Rua do Alecrim quando viu o conde de Stein-broken, que se dirigia ao Aterro, a pé, seguido da sua vitória apasso. Era a segunda vez que o diplomata fazia exercício depois doseu desgraçado ataque de entranhas. Mas não tinha já vestígios dadoença: vinha todo rosado e louro, muito sólido na sua sobrecasaca,e com uma bela rosa de chá na botoeira. Declarou mesmo a Carlosque estava «más forrte». E não lamentava os sofrimentos, porqueeles lhe tinham dado o meio de apreciar as simpatias que gozavaem Lisboa. Estava enternecido. Sobretudo o cuidado de S. M. — oaugusto cuidado de S. M. — fizera-lhe melhor que «todos os dro-gues de botique»! Realmente nunca as relações entre esses dois paí-ses, tão estreitamente aliados, Portugal e a Finlândia, tinham sido«más firmes, pur assi dizerre, más intimes, que durrante seu ata-que de intestinais»! Depois, travando do braço de Carlos, aludiu comovido ao ofere-cimento de Afonso da Maia, que pusera à sua disposição Santa Olá-via, para ele se restabelecer nesses ares fortes e limpos do Douro.Oh! esse convite tocara-o au plus profond de son cœur. Mas, infeliz-mente, Santa Olávia era longe, tão longe!... Tinha de se contentarcom Sintra, donde podia vir todas as semanas, uma, duas vezes,vigiar a Legação. C’était ennuyeux, mais... A Europa estava numdesses momentos de crise, em que homens de Estado, diplomatas,não podiam afastar-se, gozar as menores férias. Precisavam estarali, na brecha, observando, informando... — C’est très grave — murmurou ele, parando, com um pavorvago no olhar azulado. — C’est excessivement grave! Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Portoda a parte uma confusão, um gâchis. Aqui a questão do Oriente...além o socialismo; por cima o Papa, a complicar tudo... Oh!, trèsgrave! très grave!... — Tenez, la France, par exemple... D’abord Gambetta. Oh! je nedis pas non, il est très fort, il est excessivement fort... Mais... Voilà!C’est très grave... Por outro lado os radicais, les nouvelles couches... Era excessi-vamente grave... — Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 168 Mas Carlos não escutava, nem sorria já. Do fim do Aterro apro-ximava-se, caminhando depressa, uma senhora — que ele reconhe-ceu logo, por esse andar que lhe parecia de uma deusa pisando aTerra, pela cadelinha cor de prata que lhe trotava junto às saias, epor aquele corpo maravilhoso onde vibrava, sob linhas ricas de már-more antigo, uma graça quente, ondeante e nervosa. Vinha todavestida de escuro, numa toilette de serge muito simples que eracomo o complemento natural da sua pessoa, colando-se bem sobreela, dando-lhe, na sua correcção, um ar casto e forte; trazia na mãoum guarda-sol inglês, apertado e fino como uma cana; e toda ela,adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha, naquele caistriste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como orequinte claro de civilizações superiores. Nenhum véu, nessa tarde,lhe assombreava o rosto. Mas Carlos não pôde detalhar-lhe as fei-ções; apenas de entre o esplendor ebúrneo da carnação, sentiu onegro profundo de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivel-mente deu um passo para a seguir. Ao seu lado Steinbroken, semver nada, estava achando Bismarck assustador. À maneira que elase afastava, parecia-lhe maior, mais bela: e aquela imagem falsa eliterária de uma deusa marchando pela Terra prendia-se-lhe à ima-ginação. Steinbroken ficara aterrado com o discurso do chanceler noReichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o chapéu, numa forma detrança enrolada, aparecia o tom do seu cabelo castanho, quase loiroà luz; a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas direitas. — Evidentemente — disse Carlos — Bismarck é inquietador... Steinbroken, porém, já deixara Bismarck. Steinbroken agoraatacava Lord Beaconsfield. — Il est très fort... Oui, je vous l’accorde, il est excessivementfort... Mais voilà... Où va-t-il? Carlos olhava para o Cais do Sodré. Mas tudo lhe pareciadeserto. Steinbroken, antes de adoecer, justamente, tinha dito aoministro dos Negócios Estrangeiros aquilo mesmo: Lord Beaconsfieldera muito forte, mas para onde ia ele? O que queria ele?... E SuaExcelência tinha encolhido os ombros... Sua Excelência não sabia... — Eh, oui! Beaconsfield est très fort... Vous avez lu son speechchez le Lord-Maire? Épatant, mon cher, épatant!... Mais voilà... Oùva-t-il? — Steinbroken, não me parece que seja prudente deixar-se aquiestar a arrefecer no Aterro... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 169 — Deverras? — exclamou o diplomata, passando logo a mãorapidamente pelo estômago e pelo ventre. E não se quis demorar um instante mais. Como Carlos ia reco-lher também, ofereceu-lhe um lugar na vitória até ao Ramalhete. — Venha então jantar connosco, Steinbroken. — Charmé, mon cher, charmé... A vitória partiu. E o diplomata, agasalhando as pernas e o estô-mago num grande plaid escocês: — Pôs, Maia, fezemos um belo passêo... Mas este Aterro no édeverrtido. Não era divertido o Aterro!... Carlos achara-o nessa tarde omais delicioso lugar da Terra! Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entreas árvores, viu-a logo. Mas não vinha só; ao seu lado o marido, esticado,apurado numa jaqueta de casimira quase branca, com uma ferradurade diamantes no cetim negro da gravata, fumava, indolente e lânguido,e trazia a cadelinha debaixo do braço. Ao passar, deu um olhar sur-preendido a Carlos — como descobrindo enfim entre os bárbaros umser de linha civilizada, e disse-lhe algumas palavras baixo, a ela. Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e sérios: masnão lhe parecera tão bela; trazia uma outra toilette menos simples, dedois tons, cor de chumbo e cor de creme, e no chapéu, de abas grandesà inglesa, vermelhava alguma coisa, flor ou pena. Nessa tarde não eraa deusa descendo das nuvens de oiro que se enrolavam além sobre omar; era uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel. Voltou ainda três vezes ao Aterro, não a tornou a ver; e entãoenvergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanescoque o trazia assim, numa inquietação de rafeiro perdido, farejandoo Aterro, da Rampa de Santos ao Cais do Sodré, à espera de unsolhos negros e de uns cabelos loiros de passagem em Lisboa, e queum paquete da Royal Mail levaria uma dessas manhãs... E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abando-nado sobre a mesa! E que todas as tardes, antes de sair, se demoravaao espelho, estudando a gravata! Ah!, miserável, miserável natureza... Ao fim dessa semana, Carlos estava no consultório, já para sair,calçando as luvas, quando o criado entreabriu o reposteiro, e mur-murou com alvoroço: — Uma senhora! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 170 Apareceu um menino muito pálido, de caracóis loiros, vestidode veludo preto — e atrás uma mulher, toda de negro, com um véujusto e espesso como uma máscara. — Creio que vim tarde — disse ela, hesitando, junto da porta.— O Sr. Carlos da Maia ia sair... Carlos reconheceu a Gouvarinho. — Oh! senhora condessa! Desembaraçou logo o divã dos jornais e das brochuras; elaolhou um momento, como indecisa, aquele amplo e mole assento deserralho; depois sentou-se à borda e de leve, com o pequeno juntode si. — Venho trazer-lhe um doente — disse ela sem erguer o véu,como falando do fundo daquela toilette negra que a dissimulava. —Não o mandei chamar, porque realmente pouco é, e tinha hoje depassar por aqui... Além disso, o meu pequeno é muito nervoso; se vêentrar o médico, parece-lhe que vai morrer. Assim é como umavisita que se faz... E não tens medo, não é verdade, Charlie? O pequeno não respondeu; de pé, quedo ao lado da mamã,mimoso e débil sob os caracóis de anjo que lhe caíam até aosombros, devorava Carlos com uns grandes olhos tristes. Carlos pôs um interesse quase terno na sua pergunta: — Que tem ele? Havia dias, aparecera-lhe uma impigem no pescoço. Além disso,por trás da orelha, tinha como uma dureza de caroço. Aquiloinquietava-a. Ela era forte, de uma boa raça, que dera atletas evelhos de grande idade. Mas na família do marido, em todos osGouvarinhos, havia uma anemia hereditária. O conde mesmo, comaquela sólida aparência, era um achacado. E ela, receando que ainfluência debilitante de Lisboa não conviesse a Charlie, estavacom o vago projecto de lhe fazer ir passar algum tempo ao campo,em Formoselha, a casa da avó. Carlos, aproximando ligeiramente a cadeira, estendeu os bra-ços a Charlie: — Ora venha cá o meu lindo amigo, para vermos isso. Quemagnífico cabelo ele tem, senhora condessa!... Ela sorriu. E Charlie, seriozinho, bem ensinado, sem aqueleterror do médico de que falara a mamã, veio logo, desapertou deli-cadamente o seu grande colarinho, e, quase entre os joelhos de Car-los, dobrou o pescoço macio e alvo como um lírio. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 171 Carlos viu apenas uma pequena mancha cor-de-rosa desvane-cendo-se; do caroço não havia vestígio; e então uma ligeira verme-lhidão subiu-lhe ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa,como compreendendo tudo, querendo ver neles a confissão do senti-mento que a trouxera ali com um pretexto pueril, sob aquela toi-lette negra, aqueles véus que a mascaravam... Mas ela permaneceu impenetrável, sentada à borda do divã,com as mãos cruzadas, atenta, como esperando as suas palavras,num vago susto de mãe. Carlos abotoou o colarinho do pequeno, e disse: — Não é absolutamente nada, minha senhora. No entanto, fez perguntas de médico sobre o regime e a natu-reza de Charlie. A condessa, num tom pesaroso, queixou-se de quea educação da criança não fosse, como ela desejava, mais forte emais viril; mas o pai opunha-se ao que ele chamava «a aberraçãoinglesa», a água fria, os exercícios a todo o ar, a ginástica... — A água fria e a ginástica — disse Carlos sorrindo — têmmelhor reputação do que merecem... É o seu único filho, senhoracondessa? — É, tem os mimos de morgado — disse ela, passando a mãopelos cabelos loiros do pequeno. Carlos assegurou-lhe que, apesar do seu aspecto nervoso e deli-cado, Charlie não devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade deo exilar para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momentocalados. — Não imagina como me tranquilizou — disse ela, erguendo-se,dando um jeito ao véu. — Demais a mais é um gosto virconsultá-lo... Não há aqui o menor ar de doença, nem de remédios...E realmente tem isto muito bonito... acrescentou, dando um olharlento em redor aos veludos do gabinete. — Tem justamente esse defeito — exclamou Carlos rindo. —Não inspira nenhum respeito pela minha ciência... Eu estou comideias de alterar tudo, pôr aqui um crocodilo empalhado, corujas,retortas, um esqueleto, pilhas de in-fólios... — A cela de Fausto. — Justamente, a cela de Fausto. — Falta-lhe Mefistófeles — disse ela alegremente, com umolhar que brilhou sob o véu. — O que me falta é Margarida! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 172 A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu osombros, como duvidando discretamente; depois tomou a mão deCharlie, e deu um passo lento para a porta, puxando outra vez o véu. — Como Vossa Excelência se interessa pela minha instalação —acudiu Carlos querendo retê-la — deixe-me mostrar-lhe a outra sala. Correu o reposteiro. Ela aproximou-se, murmurou algumaspalavras, aprovando a frescura dos cretones, a harmonia dos tonsclaros; depois o piano fê-la sorrir. — Os seus doentes dançam quadrilhas? — Os meus doentes, senhora condessa — respondeu lenta-mente Carlos — não são bastante numerosos para formar umaquadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para uma valsa... Opiano está simplesmente ali para dar ideias alegres; é como umapromessa tácita de saúde, de futuras soirées, de bonitas árias doTrovador, em família... — É engenhoso — disse ela dando familiarmente alguns passosna sala, com Charlie colado aos vestidos. E Carlos, caminhando ao lado dela: — Vossa Excelência não imagina como eu sou engenhoso! — Já noutro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que eramuito inventivo quando odiava. — Muito mais quando amo — disse ele rindo. Mas ela não respondeu: parara junto ao piano, remexeu ummomento as músicas espalhadas, feriu duas notas no teclado. — É um chocalho. — Oh!, senhora condessa! Ela seguiu, foi examinar um quadro a óleo, copiado de Land-seer — um focinho de cão são-bernardo, maciço e bonacheirão,adormecido sobre as patas. Quase roçando-lhe o vestido, Carlossentia o fino perfume de verbena que ela usava sempre exagerada-mente; e, entre aqueles tons negros que a cobriam, a sua pele pare-cia mais clara, mais doce à vista, e atraindo como um cetim. — Este é um horror — murmurou ela, voltando-se. — Masdisse-me o Ega que há quadros lindos no Ramalhete... Falou-mesobretudo de um Greuze e de um Rubens... É pena que se não pos-sam ver essas maravilhas. Carlos lamentava também que uma existência de solteirõeslhes impedisse, a ele e ao avô, de receberem senhoras. O Ramalheteestava tomando uma melancolia de mosteiro. Se assim continuas- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 173sem mais alguns meses, sem que se sentisse ali um calor de ves-tido, um aroma de mulher, vinha a nascer a erva pelos tapetes. — É por isso — acrescentou ele muito sério — que eu vou obri-gar o avô a casar-se. A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram nasombra do véu. — Gosto da sua alegria — disse ela. — É uma questão de regime. Vossa Excelência não é alegre? Ela encolheu os ombros, sem saber... Depois, batendo com aponta do guarda-sol na sua botina de verniz, que brilhava sobre otapete claro, murmurou com os olhos baixos, deixando ir as pala-vras, num tom de intimidade e de confidência: — Dizem que não, que sou triste, que tenho spleen... O olhar de Carlos seguira o dela, pousara-se na botina de ver-niz que calçava delicadamente um pé fino e comprido: Charlie,entretido, mexia nas teclas do piano — e ele baixou a voz para lhedizer: — É que a senhora condessa tem um mau regime. É necessáriotratar-se, voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhedizer! Ela interrompeu-o vivamente, erguendo para ele os olhos,donde se escapou um clarão de ternura e de triunfo: — Venha-mo antes dizer um destes dias, tomar chá comigo, àscinco horas... Charlie! O pequeno veio logo dependurar-se-lhe do braço. Carlos, acompanhando-a abaixo à rua, lamentava a fealdade dasua escada de pedra: — Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora con-dessa volte a dar-me a honra de me vir consultar... Ela gracejou, toda risonha: — Ah! não! O Sr. Carlos da Maia prometeu-nos a todos asaúde... E naturalmente não espera que seja eu que venha cátomar chá consigo... — Oh!, minha senhora, eu quando começo a esperar, não ponholimites nenhuns às minhas esperanças... Ela parou, com o pequeno pela mão, olhou para ele, como pas-mada, encantada com aquela grandiosa certeza de si mesmo. — Então vai por aí além, por aí além...? — Vou por aí além, por aí além, minha senhora! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 174 Estavam no último degrau, diante da claridade e do rumor da rua. — Mande-me chegar um coupé. Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipóia. — E agora disse ela sorrindo — mande-o ir à Igreja da Graça. — A senhora condessa vai beijar o pé do Senhor dos Passos? Ela corou de leve, murmurou: — Ando fazendo as minhas devoções... Depois saltou ligeiramente para o coupé — deixando Charlie,que Carlos ergueu nos braços e lhe colocou ao lado, paternalmente. — Que Deus a leve em Sua santa guarda, senhora condessa! Ela agradeceu com um olhar, um movimento de cabeça —ambos tão doces como carícias. Carlos subiu: e, sem tirar o chapéu, ficou ainda enrolando umacigarette, passeando naquela sala sempre deserta, sempre fria,onde ela deixara agora alguma coisa do seu calor e do seu aroma... Realmente gostava daquela audácia dela — ter vindo assim aoconsultório, toda escondida, quase mascarada numa grande toilettenegra, inventando um caroço no pescocinho são de Charlie, para over, para dar um nó brusco e mais apertado naquele leve fio derelações que ele tão negligentemente deixara cair e quebrar... O Ega desta vez não fantasiara: aquele bonito corpo oferecia-se,tão claramente como se se despisse. Ah! se ela fosse de sentimentoserrantes e fáceis — que bela flor a colher, a respirar, a deitar foradepois! Mas não: como dizia o Baptista, a senhora condessa nuncase tinha divertido. E o que ele não queria era achar-se envolvidonuma paixão ciosa, uma dessas ternuras tumultuosas de mulher detrinta anos, de que depois se desembaraçaria dificilmente... Nosbraços dela o seu coração ficaria mudo: e apenas esgotada a pri-meira curiosidade, começaria o tédio dos beijos que se não desejam,a horrível maçada do prazer a frio. Depois, teria de ser íntimo dacasa, receber pelo ombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe avoz morosa destilando doutrina... Tudo isto o assustava... E, toda-via, gostara daquela audácia! Havia ali uma pontinha de roman-tismo, muito irregular, e picante... E devia ser deliciosamente bemfeita... A sua imaginação despia-a, enrolava-se-lhe no cetim das for-mas, onde sentia ao mesmo tempo alguma coisa de maduro e devirginal... E outra vez, como nas primeiras noites que os vira emS. Carlos, aqueles cabelos tentavam-no, assim avermelhados, tãocrespos e quentes... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 175 Saiu. E dera apenas alguns passos na Rua Nova do Almada,quando avistou o Dâmaso, num coupé lançado a grande trote, que ochamava, mandava parar, com a face à portinhola, vermelho eradiante. — Não tenho podido lá ir — exclamou ele, apoderando-se-lhe damão, apenas Carlos se aproximou, e apertando-lha com entusiasmo.Tenho andado num turbilhão! Eu te contarei! Um romance divino...Mas eu te contarei!... Tem cuidado com a roda! Bate lá, ó Calção! A parelha abalou; ele ainda se debruçou da portinhola agitou amão, gritou no rumor da rua: — Um romance divino, chique a valer! Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar,Craft, que acabava de bater o marquês, perguntou, pousando o tacoe acendendo o cachimbo: — E notícias do nosso Dâmaso? Já se esclareceu esse lamentá-vel desaparecimento?... Carlos então contou como o encontrara, afogueado e triunfante,atirando-lhe da portinhola do coupé, em plena Rua Nova doAlmada, a notícia de um romance divino! — Bem sei — disse o Taveira. — Como sabes?... — exclamou Carlos. Taveira vira-o na véspera, num grande landau da Companhia,com uma esplêndida mulher, muito elegante e que parecia estran-geira... — Ora essa! — gritou Carlos. — E com uma cadelinha escocesa? — Exactamente, uma cadelinha escocesa, uma griffon cor deprata... Quem são? — E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar ingle-sado? — Justamente... Muito correcto, um ar sport... Que gente é? — Uma gente brasileira, penso eu. Eram os Castro Gomes, decerto! Isto parecia-lhe espantoso.Havia apenas duas semanas que no terraço o Dâmaso, de punhosfechados, bramara contra os Castro Gomes e as suas «desconside-rações»! Ia pedir outros pormenores ao Taveira — mas o marquêsergueu a voz do fundo da poltrona onde se estirara, e quis saber aopinião de Carlos sobre o grande acontecimento dessa manhã naGazeta Ilustrada. — Na Gazeta Ilustrada?... Carlos não sabia, essamanhã não vira jornal nenhum. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 176 — Então não lhe digam nada — gritou o marquês. — Venha asurpresa! Cá há a Gazeta? Manda buscar a Gazeta! Taveira puxou o cordão da campainha — e quando o escudeirotrouxe a Gazeta, ele apoderou-se dela, quis fazer uma leiturasolene. — Deixa-lhe ver primeiro o retrato — berrou o marquês,erguendo-se. — Primeiro o artigo! — exclamava o Taveira, defendendo-se,com o jornal atrás das costas. Mas cedeu, e pôs o papel diante dos olhos de Carlos, larga-mente, como um sudário desdobrado. Carlos reconheceu logo oretrato do Cohen... E a prosa que se alastrava em redor, encaixi-lhando a face escura de suíças retintas, era um trabalho de seiscolunas, em estilo emplumado e cantante, celebrando até aos céusas virtudes domésticas do Cohen, o génio financeiro do Cohen, osditos de espírito do Cohen, a mobília das salas do Cohen; haviaainda um parágrafo aludindo à festa próxima, ao grande sarau demáscaras do Cohen. E tudo isto vinha assinado — J. da E. — asiniciais de João da Ega! — Que tolice! — exclamou Carlos, com tédio, atirando o jornalpara cima do bilhar. — É mais que tolice — observou Craft —; é uma falta de sensomoral. O marquês protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, ede velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta desenso moral?... — Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo o mundo acha istomuito natural. É íntimo da casa, celebra os donos. É admirador damulher, lisonjeia o marido. Está na lógica cá da terra... Você veráque sucesso isto vai ter... E lá que o artigo está lindo, isso está! Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoircor-de-rosa de Madame Cohen: «Respira-se ali (dizia o Ega) algumacoisa de perfumado, íntimo e casto, como se todo aquele cor-de-rosaexalasse de si o aroma que a rosa tem!». — Isto, caramba, é lindo em toda a parte! — exclamou o mar-quês. — Tem muito talento, aquele diabo! Tomara eu ter o talentoque ele tem!... — Nada disso impede — repetiu Craft, cachimbando tranquila-mente — que seja uma extraordinária falta de senso moral. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 177 — Pura e simplesmente insensato! — disse Cruges, desenros-cando-se do canto de um sofá, para deixar cair às sílabas estapesada opinião. O marquês investiu com ele. — Que entende você disso, seu maestro? O artigo é sublime! Esaiba mais: é de finório! O maestro, com preguiça de argumentar, foi-se enroscar emsilêncio ao outro canto do sofá. E então o marquês, de pé e bracejando, apelou para Carlos, equis saber o que é que Craft em princípio entendia por senso moral. Carlos, que dava pela sala passos impacientes, não respondeu,tomou o braço do Taveira, levou-o para o corredor. — Dize-me uma coisa: onde viste tu o Dâmaso, com essa gente?Para que lado iam? — Iam pelo Chiado abaixo; anteontem, às duas horas... Estouconvencido que iam para Sintra. Levavam uma maleta no landau,e atrás ia uma criada num coupé com uma mala maior... Aquilocheirava a ida a Sintra. E a mulher é divina! Que toilette, que ar,que chique! É uma Vénus, menino!... Como conheceria ele aquilo?... — Em Bordéus, num paquete, não sei onde! — Eu do que gostei foi dos ares que ele se ia dando por aqueleChiado! Cumprimento para a direita, cumprimento para aesquerda... A debruçar-se, a falar muito baixo para a mulher, comolho terno, alardeando conquista... — Que besta! — exclamou Carlos, batendo com o pé no tapete. — Chama-lhe besta — disse o Taveira. — Vem a Lisboa, poracaso, uma mulher civilizada e decente, e é ele que a conhece, e éele que vai com ela para Sintra! Chama-lhe besta!... Anda daí,vamos à partidinha do dominó. Taveira ultimamente introduzira o dominó no Ramalhete — ehavia agora ali, às vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apa-recia o marquês. Porque a paixão do Taveira era bater o marquês. Mas foi necessário que o marquês acabasse de bracejar, dedesenrolar o arrazoado com que estava acabrunhando o Craft —que do fundo da poltrona, de cachimbo na mão e com ar de sono,respondia por monossílabos. Era ainda a propósito do artigo doEga, da definição de senso moral. Já tinha falado de Deus, de Gari-baldi, até do seu famoso perdigueiro Finório; e agora definia aconsciência... Segundo ele, era o medo da polícia. Tinha o amigo © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 178Craft visto já alguém com remorsos? Não, a não ser no teatro daRua dos Condes, em dramalhões... — Acredite você uma coisa, Craft — terminou ele por dizer,cedendo ao Taveira, que o puxava para a mesa — isto de consciên-cia é uma questão de educação. Adquire-se como as boas maneiras;sofrer em silêncio por ter traído um amigo, aprende-se exactamentecomo se aprende a não meter os dedos no nariz. Questão de educa-ção... No resto da gente é apenas medo da cadeia, ou da bengala...Ah! vocês querem levar outra sova no dominó como a de sábadopassado? Perfeitamente, sou todo vosso... Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo doEga, aproximou-se também da mesa. E estavam sentados, reme-xiam as pedras quando à porta da sala apareceu o conde de Stein-broken, de casaca e crachat, grã-cruz sobre o colete branco, lourocomo uma espiga, esticado e resplandecente. Tinha jantado noPaço, e vinha acabar no Ramalhete a sua soirée, em família... Então o marquês, que o não via desde o famoso ataque de intes-tinos, abandonou o dominó, correu a abraçá-lo ruidosamente e semo deixar sequer sentar, nem estender a mão aos outros,implorou-lhe logo uma das suas belas canções finlandesas, uma só,daquelas que lhe faziam tão bem à alma!... — Só a Balada, Steinbroken... Eu também não me posso demo-rar, que tenho aqui a partida à espera. Só a Balada! Vá, salta lápara dentro para o piano, Cruges... O diplomata sorria, dizia-se cansado, tendo já feito música deli-ciosa no Paço com Sua Majestade. Mas nunca sabia resistir àquelemodo folgazão do marquês — e lá foram para a sala do piano, debraço dado, seguidos pelo Cruges, que levara uma eternidade adesenroscar-se do canto do sofá. E daí a um momento, através dosreposteiros meio corridos, a bela voz de barítono do diplomataespalhava pelas salas, entre os suspiros do piano, a embaladoramelancolia da Balada, com a sua letra traduzida em francês, que omarquês adorava, e em que se falava das névoas tristes do Norte,de lagos frios e de fadas loiras... Taveira e Carlos, no entanto, tinham começado uma grandepartida de dominó, a tostão o ponto. Mas Carlos nessa noite não seinteressava, jogando distraído, a cantarolar também baixo bocadostristes da Balada; depois, quando já Taveira tinha só uma pedradiante de si, e ele estava comprando interminavelmente as que res- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 179tavam, voltou-se para o lado, para o Craft, a perguntar se o hotelda Lawrence, em Sintra, estava aberto todo o ano... — A ida do Dâmaso para Sintra deu-te no goto — rosnouTaveira impaciente. Anda, joga! Carlos, sem responder, pousou molemente uma pedra. — Dominó! — gritou Taveira. E em triunfo, aos pulos, contou ele mesmo os sessenta e oitopontos que Carlos perdia. Justamente o marquês entrava, e a vitória de Taveira indignou-o. — Agora nós — exclamou ele, puxando vivamente uma cadeira.— Ó Carlos, deixe-me você dar aqui uma sova neste ladrão. Depoisjogamos de três... Como queres tu isto, Taveirete? A dois tostões oponto? Ah!, queres só a tostão... Muito bem, eu te ensinarei. Anda,desembaraça-te já desse doble-seis, miserável... Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma ciga-rette apagada nos dedos, o mesmo ar distraído: de repente, pareceutomar uma decisão, atravessou o corredor, entrou na sala demúsica. Steinbroken fora ao escritório ver Afonso da Maia, e a par-tida de whist; e Cruges só, entre as duas velas do piano, com osolhos errantes pelo tecto, improvisava para si, melancolicamente. — Dize cá, Cruges — perguntou-lhe Carlos — queres vir ama-nhã a Sintra? O teclado calou-se, o maestro ergueu um olhar espantado. Car-los nem o deixou falar. — Está claro que queres, não te faz senão bem vir a Sintra...Amanhã lá estou à porta, com o break. Mete sempre uma camisanuma maleta, que talvez passemos lá a noite... Às oito em ponto,hem?... E não digas nada lá dentro. Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de dominó.Agora havia um largo silêncio. O marquês e Taveira moviam lenta-mente as pedras, sem uma palavra, com um ar de rancor surdo.Em cima do pano verde do bilhar as bolas brancas dormiam juntas,sob a luz que caía dos abat-jours de porcelana. Um som de piano,dolente e vago, passava por vezes. E Craft, com o braço descaído aolongo da poltrona, dormitava beatificamente. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós pág. 180 de 595 Capítulo VIII N A manhã seguinte, às oito horas pontualmente, Carlosparava o break na Rua das Flores, diante do conhecido portão dacasa do Cruges. Mas o trintanário, que ele mandara acima bater àcampainha do terceiro andar, desceu com a estranha nova de que oSr. Cruges já não morava ali. Onde diabo morava então o Sr. Cru-ges? A criada dissera que o Sr. Cruges vivia agora na Rua deS. Francisco, quatro portas adiante do Grémio. Durante ummomento, Carlos, desesperado, pensou em partir só para Sintra.Depois lá largou para a Rua de S. Francisco, amaldiçoando o maes-tro, que mudara de casa sem avisar, sempre vago, sempre tene-broso!... E era em tudo assim, Carlos nada sabia do seu passado, doseu interior, das suas afeições, dos seus hábitos. O marquês, umanoite, levara-o ao Ramalhete, dizendo ao ouvido de Carlos queestava ali um génio. Ele encantara logo todo o mundo pela modés-tia das suas maneiras e a sua arte maravilhosa ao piano: e todo omundo no Ramalhete começou a tratar Cruges por maestro, a falartambém do Cruges como de um génio, a declarar que Chopin nuncafizera obra igual à Meditação de Outono do Cruges. E ninguémsabia mais nada. Fora pelo Dâmaso que Carlos conhecera a casa doCruges e soubera que ele vivia lá com a mãe, uma senhora viúva,ainda fresca, e dona de prédios na Baixa. Ao portão da Rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar umquarto de hora. Primeiro apareceu furtivamente ao fundo daescada uma criada em cabelo, que espreitou o break, os criados de © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 181farda, e fugiu pelos degraus acima. Depois veio um criado em man-gas de camisa trazer a maleta do senhor e um xale-manta. Enfim, omaestro desceu, a correr, quase aos trambolhões, com um cache-nezde seda na mão, o guarda-chuva debaixo do braço, abotoando ata-rantadamente o paletó. Quando vinha pulando os últimos degraus, uma voz esganiçadade mulher gritou-lhe de cima: — Olha não te esqueçam as queijadas! E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o ladode Carlos, rosnando que, com a preocupação de se levantar tãocedo, tivera uma insónia abominável... — Mas que diabo de ideia é essa de mudar de casa, sem avisara gente, homem? — exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dosjoelhos um bocado do plaid que o agasalhava, porque o maestroparecia arrepiado. — É que esta casa também é nossa — disse simplesmente Cru-ges. — Está claro, aí está uma razão! — murmurou Carlos rindo eencolhendo os ombros. Partiram. Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca, sem umanuvem, com um lindo sol que não aquecia, e punha nas ruas, nasfachadas das casas, barras alegres de claridade dourada. Lisboaacordava lentamente: as saloias ainda andavam pelas portas comos seirões de hortaliças: varria-se devagar a testada das lojas: no armacio morria a distância um toque fino de missa. Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar asluvas, estendeu um olhar à esplêndida parelha baia reluzindo comoum cetim sob o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seusramos nas librés, a todo aquele luxo correcto e rolando em cadência— onde fazia mancha o seu paletó: mas o que o impressionou foi oaspecto resplandecente de Carlos, o olhar aceso, as belas cores, obelo riso, o que quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob oseu simples veston de xadrezinho castanho, naquela almofada bur-guesa de break, lhe dava um arranque de herói jovial, lançando oseu carro de guerra... Cruges farejou uma aventura, soltou logo apergunta que desde a véspera lhe ficara nos lábios. — Com franqueza, aqui para nós, que ideia foi esta de ir a Sin-tra? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 182 Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melo-diosa de Mozart e pelas fugas de Bach? Pois bem, a ideia era vir aSintra, respirar o ar de Sintra, passar o dia em Sintra... Mas, peloamor de Deus, que o não revelasse a ninguém! E acrescentou rindo: — Deixa-te levar, que não te hás-de arrepender... Não, Cruges não se arrependia. Até achava delicioso o passeio,gostara sempre muito de Sintra... Todavia não se lembrava bem,tinha apenas uma vaga ideia de grandes rochas e de nascentes deáguas vivas... E terminou por confessar que desde os nove anos nãovoltara a Sintra. O quê! o maestro não conhecia Sintra?... Então era necessárioficarem lá, fazer as peregrinações clássicas, subir à Pena, ir beberágua à Fonte dos Amores, barquejar na Várzea... — A mim o que me está a apetecer muito é Seteais; e a man-teiga fresca. — Sim, muita manteiga — disse Carlos. — E burros, muitosburros... Enfim, uma écloga! O break rodava na estrada de Benfica: iam passando murosenramados de quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas,vendas com o seu maço de cigarros à porta dependurado de umaguita: e a menor árvore, qualquer bocado de relva com papoulas,um fugitivo longe de colina verde, encantavam Cruges. Há quetempos ele não via o campo! Pouco a pouco o Sol elevara-se. O maestro desembaraçou-se doseu grande cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletó — edeclarou-se morto de fome. Felizmente estavam chegando à Porcalhota. O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado — mascomo era cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito,por uma bela pratada de ovos com chouriço. Era uma coisa que nãoprovava havia anos e que lhe daria a sensação de estar na aldeia...Quando o patrão, com um ar importante e como fazendo um favor,pousou sobre a mesa sem toalha a enorme travessa com o petisco,Cruges esfregou as mãos, achando aquilo deliciosamente campestre. — A gente em Lisboa estraga a saúde! — disse ele, puxandopara o prato uma montanha de ovo e chouriço. — Tu não tomasnada?... Carlos, para lhe fazer companhia, aceitou uma chávena de café. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 183 Daí a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a boca cheia: — O Reno também deve ser magnífico! Carlos olhou-o espan-tado e rindo. A que vinha agora ali o Reno?... É que o maestro,desde que saíra as portas, estava cheio de ideias de viagens e depaisagens; queria ver as grandes montanhas onde há neve, os riosde que se fala na história. O seu ideal seria ir à Alemanha, percor-rer a pé, com uma mochila, aquela pátria sagrada dos seus deuses,de Beethoven, de Mozart, de Wagner... — Não te apetecia mais ir à Itália? — perguntou Carlos acen-dendo o charuto. O maestro esboçou um gesto de desdém, teve uma das suas fra-ses sibilinas: — Tudo contradanças! Carlos então falou de um certo plano de ir à Itália, com o Ega,no Inverno. Ir à Itália, para o Ega, era uma higiene intelectual:precisava calmar aquela imaginação tumultuosa de nervoso penin-sular entre a plácida majestade dos mármores... — O que ele precisava antes de tudo era chicote — rosnou o Cru-ges. E voltou a falar do caso da véspera, do famoso artigo da Gazeta.Achava aquilo, como ele dissera, pura e simplesmente insensato, ede uma sabujice indecorosa. E o que o afligia é que o Ega, com aqueletalento, aquela verve fumegante, não fizesse nada... — Ninguém faz nada — disse Carlos espreguiçando-se. — Tu,por exemplo, que fazes? Cruges, depois de um silêncio, rosnou enco-lhendo os ombros: — Se eu fizesse uma boa ópera, quem é que marepresentava? — E se o Ega fizesse um belo livro, quem é que lho lia? O maes-tro terminou por dizer: — Isto é um país impossível... Parece-me que também voutomar café. Os cavalos tinham descansado, Cruges pagou a conta, partiram.Daí a pouco entravam na charneca, que lhes pareceu infindável. Deambos os lados, a perder de vista, era um chão escuro e triste; e porcima um azul sem fim, que naquela solidão parecia triste também.O trote compassado dos cavalos batia monotonamente a estrada.Não havia um rumor: por vezes um pássaro cortava o ar, num voobrusco, fugindo do ermo agreste. Dentro do break um dos criadosdormia; Cruges, pesado dos ovos com chouriço, olhava, vaga emelancolicamente, as ancas lustrosas dos cavalos. Carlos, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 184no entanto, pensava no motivo que o trazia a Sintra. E realmente nãosabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que ele não avis-tava certa figura que tinha um passo de deusa pisando a Terra, e quenão encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixadonos seus: agora supunha que ela estava em Sintra, corria a Sintra.Não esperava nada, não desejava nada. Não sabia se a veria, talvezela tivesse já partido. Mas vinha: e era já delicioso o pensar nelaassim por aquela estrada fora, penetrar, com essa doçura no coração,sob as belas árvores de Sintra... Depois, era possível que daí a pouco,na velha Lawrence, ele a cruzasse de repente no corredor, roçasse tal-vez o seu vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ela lá estivesse, decertoviria jantar à sala, aquela sala que ele conhecia tão bem, que já lheestava apetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, osramos toscos sobre a mesa, e os dois grandes candeeiros de latãoantigo... Ela entraria ali, com o seu belo ar claro de Diana loira; o bomDâmaso apresentaria o seu amigo Maia; aqueles olhos negros, que elevira passar de longe como duas estrelas, pousariam mais devagar nosseus; e, muito simplesmente, à inglesa, ela estender-lhe-ia a mão... — Ora até que finalmente! — exclamou Cruges, com um sus-piro de alívio e respirando melhor. Chegavam às primeiras casas de Sintra, havia já verduras naestrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra. E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão.Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco umalenta e embaladora sussurração de ramagens e como o difuso evago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos deheras e de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechasde sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verdu-ras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilrea-vam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicadode manchas do sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidadedos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, atristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas deVerão... Cruges respirava largamente, voluptuosamente. — A Lawrence onde é? Na serra? — perguntou ele, com a ideiarepentina de ficar ali um mês naquele paraíso. — Nós não vamos para a Lawrence — disse Carlos, saindobruscamente do seu silêncio e espertando os cavalos. — Vamospara o Nunes, estamos lá muito melhor! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 185 Era uma ideia que lhe viera de repente, apenas passara as pri-meiras casas de São Pedro e o break começara a rolar naquelasestradas onde a cada momento ele a poderia encontrar. Tomara-ouma timidez, a que se misturava um laivo de orgulho, o receiomelindrado de ser indiscreto, seguindo-a assim a Sintra, ainda queela o não reconhecesse, indo instalar-se sob as mesmas telhas, apo-derando-se de um lugar à mesma mesa... E ao mesmo tempo repug-nou-lhe a ideia de lhe ser apresentado pelo Dâmaso: via-o já,bochechudo e vestido de campo, a esboçar um gesto de cerimónia, amostrar o seu amigo Maia, a tratá-lo por tu, afectando intimidadescom ela, cocando-a com um olho terno... Isto seria intolerável. — Vamos para o Nunes, que se come melhor! Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo como umaimpressão religiosa de todo aquele esplendor sombrio de arvoredo,dos altos fragosos da serra entrevistos um instante lá em cima nasnuvens, desse aroma que ele sorvia deliciosamente, e do sussurrodoce de águas descendo para os vales... Só ao avistar o Paço descerrou os lábios: — Sim senhor, tem cachet! E foi o que mais lhe agradou — este maciço e silencioso palácio,sem florões e sem torres, patriarcalmente assentado entre o casarioda vila, com as suas belas janelas manuelinas que lhe fazem umnobre semblante real, o vale aos pés, frondoso e fresco, e no alto asduas chaminés colossais, disformes, resumindo tudo, como se essaresidência fosse toda ela uma cozinha talhada às proporções de umagula de rei que cada dia come todo um reino... E apenas o break parou à porta do Nunes, foi-lhe ainda dar umolhar, tímido e de longe — receando alguma palavra rude da sentinela. Carlos, no entanto, saltando logo da almofada, tomou à parte ocriado do hotel, que descera a recolher as maletas. — Você conhece o Sr. Dâmaso Salcede? Sabe se ele está em Sin-tra? O criado conhecia muito bem o Sr. Dâmaso Salcede. Ainda navéspera pela manhã o vira entrar defronte, no bilhar, com umsujeito de barbas pretas... Devia estar na Lawrence, porque só comraparigas e em pândega é que o Sr. Dâmaso vinha para o Nunes. — Então, depressa, dois quartos! — exclamou Carlos, com umaalegria de criança, certo agora que ela estava em Sintra. — E umasala particular, só para nós, para almoçarmos. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 186 Cruges, que se aproximara, protestou contra esta sala solitária.Preferia a mesa redonda. Ordinariamente na mesa redonda encon-tram-se tipos... — Bem — exclamou Carlos, rindo e esfregando as mãos — põeo almoço na sala de jantar, põe-no até na praça... E muita manteigafresca para o Sr. Cruges! O cocheiro levou o break, o criado sobraçou as maletas. Cruges,entusiasmado com Sintra, rompeu pela escada acima, a assobiar —conservando aos ombros o xale-manta, de que se não queria sepa-rar, porque lho emprestara a mamã. E apenas chegou à porta dasala de jantar, estacou, ergueu os braços, teve um grito. — Oh! Eusebiozinho! Carlos correu, olhou... Era ele, o viúvo, acabando de almoçar,com duas raparigas espanholas. Estava no topo da mesa, como pre-sidindo, diante de uns restos de pudim e de pratos de fruta, amare-lado, despenteado, carregado de luto, com a larga fita das lunetaspretas passada por trás da orelha, e uma rodela de tafetá negrosobre o pescoço, tapando alguma espinha rebentada. Uma das espanholas era um mulherão trigueiro, com sinais debexigas na cara; a outra, muito franzina, de olhos meigos, tinhauma roseta de febre, que o pó-de-arroz não disfarçava. Ambas ves-tiam de cetim preto, e fumavam cigarro. E na luz e na frescura queentrava pela janela, pareciam mais gastas, mais moles, aindapegajosas da lentura morna dos colchões, e cheirando a bafio dealcova. Pertencendo à súcia havia um outro sujeito, gordo, baixo,sem pescoço, com as costas para a porta e a cabeça sobre o prato,babujando uma metade de laranja. Durante um momento, Eusebiozinho ficou interdito, com ogarfo no ar; depois lá se ergueu, de guardanapo na mão, veio aper-tar os dedos aos amigos, balbuciando logo uma justificação embru-lhada, a ordem do médico para mudar de ares, aquele rapaz que oacompanhara, e que quisera trazer raparigas... E nunca pareceratão fúnebre, tão reles, como resmungando estas coisas hipócritas,encolhido à sombra de Carlos. — Fizeste muito bem, Eusebiozinho — disse Carlos por fim,batendo-lhe no ombro. — Lisboa está um horror, e o amor é coisa doce. O outro continuava a justificar-se. Então a espanhola magritaque fumava, afastada da mesa e com a perna traçada, elevou a voz,perguntou ao Cruges se ele não lhe falava. O maestro afirmou-se © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 187um momento, e partiu de braços abertos para a sua amiga Lola. Efoi, nesse canto da mesa, uma grulhada em espanhol, grandesapertos de mão, e hombre, que no se le ha visto! e mira, que me heacordado de ti! e caramba, que reguapa estás... Depois, a Lola,tomando um arzinho espremido, apresentou o outro mulherão, laseñorita Concha... Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade — o sujeitoobeso, que apenas levantara um instante a cabeça do prato,decidiu-se a examinar mais atentamente os amigos do Eusébio:cruzou o talher, limpou com o guardanapo a boca, a testa e o pes-coço, encavalou laboriosamente no nariz uma grande luneta devidros grossos, e erguendo a face larga, balofa e cor de cidra, exa-minou detidamente Cruges, e depois Carlos com uma impudênciatranquila. Eusebiozinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigoPalma, ouvindo o nome conhecido de Carlos da Maia, quis logomostrar, diante de um gentleman, que era um gentleman também.Arrojou para longe o guardanapo, arredou para fora a cadeira; e depé, estendendo a Carlos os dedos moles e de unhas roídas, excla-mou, com um gesto para os restos da sobremesa: — Se Vossa Excelência é servido, é sem cerimónia... Que istoquando a gente vem a Sintra, é para abrir o apetite e fazer bem àbarriga... Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animavae gracejava com a Lola, fez também do outro lado da mesa a suaapresentação: — Carlos, quero que conheças aqui a lindíssima Lola, relaçõesantigas, e a senõrita Concha, que eu tive agora o prazer... Carlos saudou respeitosamente as damas. O mulherão da Con-cha rosnou secamente os buenos dias: parecia de mau humor, pesadado almoço, amodorrada para ali, sem dizer uma palavra, com os coto-velos fincados na mesa, os olhos pestanudos meio cerrados, orafumando, ora palitando os dentes. Mas a Lola foi amável, fez desenhora, ergueu-se, ofereceu a Carlos a mãozita suada. Depois reto-mando o cigarro, dando um jeito às pulseiras de ouro, declarou, comum requebro de olhos, que conhecia de há muito Carlos... — No ha estado usted con Encarnación? Sim, Carlos tivera essa honra... que era feito dela, dessa belaEncarnación? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 188 A Lola sorriu com finura, tocou no cotovelo do maestro. Nãoacreditava que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnación...Enfim, terminou por dizer que a Encarnación estava agora com oSaldanha. — Mas olhe que não é com o duque de Saldanha! — exclamouPalma, que se conservara de pé, com a bolsa do tabaco aberta sobrea mesa, fazendo um grande cigarro. A Lolita, com um modo seco, replicou que o Saldanha não seriaduque, mas era um chico muy decente... — Olha — disse o Palma lentamente, de cigarro na boca etirando a isca da algibeira — duas boas bofetadas na cara lhe deieu ainda não há três semanas... Pergunta ao Gaspar, o Gasparassistiu... Foi até no Montanha... Duas bofetadas que lhe foi logo ochapéu parar ao meio da rua... O Sr. Maia há-de conhecer o Salda-nha... Há-de conhecer, que ele também tem um carrito e um cavalo. Carlos fez um gesto indicando que não; e despedia-se de novo,saudando as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-omais um instante, enquanto satisfazia uma curiosidade: queriasaber qual daquelas meninas era a esposa do amigo Eusébio. Assim interpelado, o viúvo encordoou, rosnou com uma vozmorosa, sem erguer as lunetas da laranja que descascava, queestava ali de passeio, não tinha esposa, e ambas aquelas meninaspertenciam ao amigo Palma... E ainda ele mascava as últimas palavras, quando Concha, quedigeria de perna estendida, se endireitou bruscamente como sefosse saltar, atirou um murro à borda da mesa e, com os olhos cha-mejantes, desafiou o Eusébio a que repetisse aquilo! Queria que elerepetisse! Queria que dissesse se tinha vergonha dela, e de dizerque a tinha trazido a Sintra... E como o Eusébio, já enfiado, ten-tava gracejar, fazer-lhe uma festa — ela despropositou, atirou-lheos piores nomes, dando sempre punhadas na mesa, com uma fúriaque lhe torcia a boca, lhe punha duas manchas de sangue no carãotrigueiro. A Lolita, vexada, puxava-lhe pelo braço; a outra deu-lheum repelão; e, mais excitada com a estridência da própria voz,esvaziou-se de toda a bílis, chamou-lhe porco, acusou-o de forreta,usou-o como um trapo vil. Palma, aflito, debruçado sobre a mesa, exclamava num tomansioso. — Ó Concha, escuta lá!... Ouve lá!... Concha, eu te explico... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 189 De repente, ela ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e omulherão abalou pela sala fora, a grande cauda de cetim varreudesabridamente o soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. Nochão ficara caído um pedaço da mantilha de renda. O criado, que entrava do outro lado com a cafeteira, estacou,afiando o olho curioso, farejando o escândalo; depois, calado e seca-mente, foi servindo em roda o café. Durante um momento houve um silêncio. Apenas, porém, ocriado saiu — a Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz,atacaram o Eusebiozinho. Ele portara-se muito mal! Aquilo nãofora de cavalheiro! Tinha trazido a rapariga a Sintra, devia-a res-peitar, não a ter renegado assim, à bruta, diante de todos... — Esto no se hace — dizia a Lolita, de pé, gesticulando, com osolhos brilhantes, voltada para Carlos — ha sido una cosa muy fea!... E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involun-tária da catástrofe — ela baixou a voz, contou que a Concha erauma fúria, viera a Sintra com pouca vontade, e desde manhãestava de muy malo humor... Pero lo de Silbeira habia sido unagran pulhice... Ele, coitado, com a cabeça caída e as orelhas em brasa, remexiadesoladamente o seu café; não se lhe viam os olhos escondidospelas lunetas pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluço que lheafogava a garganta. Então Palma pousou a chávena, lambeu os bei-ços, e de pé no meio da sala, com a face luzidia, o colete desabo-toado, fez, num tom entendido, o resumo daquele desgosto. — Tudo provém disto, e desculpe-me você dizê-lo, Silveira: éque você não sabe tratar com espanholas! A esta cruel palavra o viúvo sucumbiu. A colher caiu-lhe dosdedos. Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refu-giando-se neles, vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade — edesabafou, estas palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos lábios: — Vejam vocês! Vem a gente a um sítio destes para gozar umbocado de poesia, e no fim é uma destas!... Carlos bateu-lhe melancolicamente no ombro: — A vida é assim, Eusebiozinho. Cruges fez-lhe uma festa nas costas: — Não se pode contar com prazeres, Silveirinha. Mas Palma, mais prático, declarou que era forçoso arranjarem-seas coisas. Virem a Sintra, para questões e amuos, isso não! Naquelas © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 190pândegas queria-se harmonia, chalaça, e gozar. Coices, não. Entãoficava-se em Lisboa, que era mais barato. Chegou-se a Lola, passou-lhe os dedos pela face, com amor: — Anda, Lolita, vai tu lá dentro à Concha, dize-lhe que se nãofaça tola, que venha tomar café... Anda, que tu sabe-la levar...Diz-lhe que peço eu! Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foidar um jeito ao cabelo diante do espelho, apanhou a cauda — esaiu, atirando a Carlos, ao passar, um olhar e um sorrisinho. Apenas ficaram sós, Palma voltou-se para o Eusébio, e deu-lhe con-selhos muito sérios sobre o sistema de tratar espanholas. Era necessá-rio levá-las por bons modos; por isso é que elas se pelavam por portu-gueses, porque lá em Espanha era à bordoada... Enfim, ele não diziaque em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de benga-ladas, não fossem úteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando sedevia bater? Quando elas não gostavam da gente, e se faziam ariscas.Então sim. Então, zás, tapona, que elas ficavam logo pelo beiço... Masdepois bons modos, delicadeza, tal qual como com francesas... — Acredite você isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiência. Eo Sr. Maia que lhe diga se isto não é verdade, ele que tem tambémexperiência e sabe viver com espanholas! E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito — que Crugesdesatou a rir, fez rir Carlos também. O Sr. Palma, um pouco chocado, compôs mais as lunetas, eolhou para eles — Os senhores riem-se? Imaginam que eu estou a mangar?Olhem que eu comecei a lidar com espanholas aos quinze anos!Não, escusam de rir, que nisso ninguém me ganha! Lá o que sechama ter jeito para espanholas, cá o meco! E vamos lá, que não éfácil! É necessário ter um certo talento!... Olhem, o Herculano écapaz de fazer belos artigos e estilo catita... Agora tragam-no cápara lidar com espanholas e veremos! Não dá meia... Eusebiozinho, no entanto, fora duas vezes escutar à porta. Todoo hotel caíra num grande silêncio, a Lolita não voltava. EntãoPalma aconselhou um grande passo. — Vá você lá dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim semmais nem menos, chegue-se ao pé dela... — E tapona? — perguntou Cruges, muito seriamente, gozandoo Palma. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 191 — Qual tapona! Ajoelhe e peça perdão... Neste caso é pedir per-dão... E como pretexto, Silveira, leve-lhe você mesmo o café. Eusebiozinho, com um olhar ansioso e mudo, consultou os seusamigos. Mas o seu coração já decidira: e daí a um momento, com opedaço de mantilha numa das mãos, a chávena do café na outra,enfiado e comovido, lá partia a passos lentos pelo corredor a pedirperdão à Concha. E, logo atrás dele, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se des-pedirem do Sr. Palma — que de resto, indiferente também, já seacomodara à mesa a preparar regaladamente o seu grogue. Eram duas horas quando os dois amigos saíram enfim do hotel,a fazer esse passeio a Seteais — que desde Lisboa tentava tanto omaestro. Na praça, por defronte das lojas vazias e silenciosas, cãesvadios dormiam ao sol: através das grades da cadeia, os presospediam esmola. Crianças, enxovalhadas e em farrapos, garotavampelos cantos; e as melhores casas tinham ainda as janelas fecha-das, continuando o seu sono de Inverno, entre as árvores já verdes.De vez em quando aparecia um bocado da serra, com a sua mura-lha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o Castelo daPena, solitário, lá no alto. E por toda a parte o luminoso ar de Abrilpunha a doçura do seu veludo. Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mos-trou-o ao Cruges. — Tem o ar mais simpático — disse o maestro. — Mas valeumuito a pena ir para o Nunes, só para ver aquela cena... E entãocom quê o Sr. Carlos da Maia tem experiência de espanholas? Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavamdaquela fachada banal, onde só uma janela estava aberta com umpar de botinas de duraque secando ao ar. À porta, dois rapazesingleses, ambos de knicker-bokers, cachimbavam em silêncio; edefronte, sentados sobre um banco de pedra, dois burriqueiros, aolado dos burros, não lhes tiravam o olho de cima, sorrindo-lhes,cocando-os como uma presa. Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancólico,saindo do silêncio do hotel, um vago som de flauta: e parou ainda,remexendo as suas recordações, quase certo de Dâmaso lhe ter ditoque a bordo Castro Gomes tocava flauta... — Isto é sublime! — exclamou do lado o Cruges, comovido. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 192 Parara diante da grade donde se domina o vale. E dali olhava,enlevadamente, a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só sevêem os cimos redondos, vestindo um declive da serra como omusgo veste um muro, e tendo àquela distância, no brilho da luz, asuavidade macia de um grande musgo escuro. E nesta espessuraverde-negra havia uma frontaria de casa que o interessava, bran-quejando, afogada entre a folhagem, com um ar de nobre repouso,debaixo de sombras seculares... Um momento teve uma ideia deartista: desejou habitá-la com uma mulher, um piano e um cãoterra-nova. Mas o que o encantava era o ar. Abria os braços, respirava atragos deliciosos. — Que ar! Isto dá saúde, menino! Isto faz reviver!... Para o gozar mais docemente, sentou-se adiante, num bocadode muro baixo, defronte de um alto terraço gradeado, onde velhasárvores assombreiam bancos de jardim e estendem sobre a estradaa frescura das suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Car-los lhe mostrava o relógio, as horas que fugiam para ir ver o palá-cio, a Pena, as outras belezas de Sintra — o maestro declarou quepreferia estar ali, ouvindo correr a água, a ver monumentos catur-ras… — Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas... Sintra éisto, uma pouca de água, um bocado de musgo... Isto é umparaíso!... E, naquela satisfação que o tornava loquaz, acrescentou, repe-tindo a sua chalaça: — E Vossa Excelência deve sabê-lo, Sr. Maia, porque tem expe-riência de espanholas!... — Poupa-me, respeita a Natureza — murmurou Carlos, queriscava pensativamente o chão com a bengala. Ficaram calados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo domuro em que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura,arbustos, flores e árvores, sufocando-se numa prodigalidade de bos-que silvestre, deixando apenas espaço para um tanquezinhoredondo, onde uma pouca de água, imóvel e gelada, com dois ou trêsnenúfares, se esverdinhava sob a sombra daquela ramaria profusa.Aqui e além, entre a bela desordem da folhagem, distinguiam-searranjos de gosto burguês, uma volta de ruazita estreita como umafita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de um gesso. Noutros © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 193recantos, aquele jardim de gente rica, exposto às vistas, tinha reto-ques pretensiosos de estufa rara, aloés e cactos, braçosaguarda-solados de araucárias erguendo-se de entre as agulhasnegras dos pinheiros bravos, lâminas de palmeira, com o seu artriste de planta exilada, roçando a rama leve e perfumada dasolaias floridas de cor-de-rosa. A espaços, com uma graça discreta,branquejava um grande pé de margaridas; ou em torno de umarosa, solitária na sua haste, palpitavam borboletas aos pares. — Que pena que isto não pertença a um artista! — murmurou omaestro. — Só um artista saberia amar estas flores, estas árvores,estes rumores... Carlos sorriu. Os artistas, dizia ele, só amam na Natureza osefeitos de linha e cor; para se interessar pelo bem-estar de umatúlipa, para cuidar de que um craveiro não sofra sede, para sentirmágoa de que a geada tenha queimado os primeiros rebentões dasacácias — para isso só o burguês, o burguês que todas as manhãsdesce ao seu quintal com um chapéu velho e um regador, e vê nasárvores e nas plantas uma outra família muda, por que ele é tam-bém responsável... Cruges, que escutara distraidamente, exclamou: — Diabo! É necessário que não me esqueçam as queijadas! Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descobertadesembocou a trote do lado de Seteais. Carlos ergueu-se logo, certode que era ela, e que ele ia ver os seus belos olhos brilhar e fulgircomo duas estrelas. A caleche passou, levando um ancião de barbasde patriarca, e uma velha inglesa com o regaço cheio de flores e ovéu azul flutuando ao ar. E logo atrás, quase no pó que as rodastinham erguido, apareceu, caminhando pensativamente, de mãosatrás das costas, um homem alto todo de preto, com um grandechapéu panamá sobre os olhos. Foi Cruges que reconheceu os lon-gos bigodes românticos, que gritou: — Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!... Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braçosabertos, no meio da estrada. Depois, com a mesma efusão ruidosa,apertou Carlos contra o coração, beijou o Cruges na face — porqueconhecia Cruges desde pequeno, Cruges era para ele como umfilho. Caramba! Eis aí uma surpresa que ele não trocava pelo títulode duque! Ora o alegrão de os ver ali! Como diabo tinham elesvindo ali parar? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 194 E não esperou a resposta, contou ele logo a sua história. Tiveraum dos seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e oMelo, o bom Melo, recomendara-lhe mudança de ares. Ora ele, bonsares, só compreendia os de Sintra: porque ali não eram só os pul-mões que lhe respiravam bem, mas também o coração, rapazes!...De sorte que viera na véspera, no ónibus. — E onde estás tu, Alencar? — perguntou logo Carlos. — Pois onde queres tu que eu esteja, filho? Lá estou com aminha velha Lawrence. Coitada! Está bem velha, mas para mim ésempre uma amiga, é quase uma irmã!... E vocês, que diabo? Paraonde vão vocês com essas flores nas lapelas? — A Seteais... Vou mostrar Seteais ao maestro. Então também ele voltava a Seteais! Não tinha nada que fazersenão sorver bom ar, e cismar... Toda a manhã andara ali, vaga-mente, pendurando sonhos dos ramos das árvores. Mas agora já osnão largava; era mesmo um dever ir ele próprio fazer ao maestro ashonras de Seteais... — Que aquilo é sítio muito meu, filhos! Não há ali árvore queme não conheça... Eu não vos quero começar já a impingir versos;mas enfim, vocês lembram-se de uma coisa que eu fiz a Seteais e deque por aí se gostou... Quantos luares eu lá vi? Que doces manhãs d’Abril? E os ais que soltei ali Não foram sete mas mil!Pois então já vocês vêem, rapazes, que tenho razão para conhecerSeteais... O poeta lançou no ar um vago suspiro, e durante um instantecaminharam todos três calados. — Diz-me uma coisa, Alencar — perguntou Carlos baixo,parando, e tocando no braço do poeta. — O Dâmaso está naLawrence? Não, que ele o tivesse visto. Verdade seja que na véspera, ape-nas chegara, fora-se deitar, fatigado; e nessa manhã almoçara sócom dois rapazes ingleses. O único animal que avistara fora umlindo cãozinho de luxo, ladrando no corredor... — E vocês onde estão? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 195 — No Nunes. Então o poeta, parando de novo, contemplando Carlos com sim-patia: — Que bem que fizeste em arrastar cá o maestro, filho!... Quan-tas vezes eu tenho dito àquele diabo que se metesse no ónibus,viesse passar dois dias a Sintra. Mas ninguém o tira de martelar opiano. E olha tu que mesmo para a música, para compor, paraentender um Mozart, um Chopin, é necessário ter visto isto, escu-tado este rumor, esta melodia da ramagem... Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhavaadiante, enlevado: — Tem muito talento, tem muita ideia melódica!... Olha queandei com aquilo às cabritas... E a mãe, menino, foi muitíssimo boamulher. — Vejam vocês isto! — gritou Cruges, que parara,esperando-os. — Isto é sublime. Era apenas um bocadito de estrada, apertada entre dois velhosmuros, cobertos de hera, assombreada por grandes árvores entrela-çadas que lhe faziam um toldo de folhagem aberto à luz como umarenda: no chão tremiam manchas de sol: e, na frescura e no silên-cio, uma água que se não via ia fugindo e cantando. — Se tu queres sublime, Cruges — exclamou Alencar — , entãotens de subir à serra. Aí tens o espaço, tens a nuvem, tens a arte... — Não sei, talvez goste mais disto — murmurou o maestro. A sua natureza de tímido preferiria, decerto, estes humildesrecantos, feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaçode muro musgoso, lugares de quietação e de sombra, onde se ani-nha com um conforto maior o cismar dos indolentes... — De resto, filho — continuou Alencar — , tudo em Sintra édivino. Não há cantinho que não seja um poema... Olha, ali tens tu,por exemplo, aquela linda florinha azul... E, ternamente,apanhou-a. — Vamos andando, vamos andando — murmurou Carlos impa-ciente, e agora, desde que o poeta falara do cãozinho de luxo, maiscerto de que ela estava na Lawrence, e que a ia brevemente encontrar. Mas, ao chegar a Seteais, Cruges teve uma desilusão diantedaquele vasto terreiro coberto de erva, com o palacete ao fundo,enxovalhado, de vidraças partidas, e erguendo pomposamente sobreo arco, em pleno céu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 196ideia, de pequeno, que Seteais era um montão pitoresco de rochedos,dominando a profundidade de um vale; e a isto misturava-se vaga-mente uma recordação de luar e de guitarras... Mas aquilo que eleali via era um desapontamento. — A vida é feita de desapontamentos — disse Carlos. — Andapara diante! E apressou o passo através do terreiro, enquanto o maestro,cada vez mais animado, lhe gritava a chalaça do dia: — E Vossa Excelência deve sabê-lo, Sr. Maia, porque tem expe-riência de espanholas!... Alencar, que se demorara atrás a acender o cigarro, estendeu oouvido, curioso, quis saber o que era isso de espanholas. O maestrocontou-lhe o encontro do Nunes e os furores da Concha. Iam ambos caminhando por uma das alamedas laterais, verde efresca, de uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. Oterreiro estava deserto; a erva que o cobria crescia ao abandono,toda estrelada de botões-de-ouro brilhando ao sol e de malmequer-zinhos brancos. Nenhuma folha se movia: através da ramarialigeira o Sol atirava molhos de raios de ouro. O azul pareciarecuado a uma distância infinita, repassado do silêncio luminoso; esó se ouvia, às vezes, monótona e dormente, a voz de um cuco noscastanheiros. Toda aquela vivenda, com a sua grade enferrujada sobre aestrada, os seus florões de pedra roídos da chuva, o pesado brasãorococó, as janelas cheias de teias de aranha, as telhas todas que-bradas, parecia estar-se deixando morrer voluntariamente naquelaverde solidão — amuada com a vida, desde que dali tinham desapa-recido as últimas graças do tricorne e do espadim, e os derradeirosvestidos de anquinhas tinham roçado essas relvas... Agora Crugesia descrevendo ao Alencar a figura do Eusebiozinho, com a chávenade café na mão, a ir pedir perdão à Concha; e a cada momento opoeta, com o seu grande chapéu panamá, se agachava a colher flo-rinhas silvestres. Quando passaram o arco, encontraram Carlos sentado num dosbancos de pedra, fumando pensativamente a sua cigarette. O pala-cete deitava sobre aquele bocado de terraço a sombra dos seusmuros tristes; do vale subia uma frescura e um grande ar; e algu-res, em baixo, sentia-se o prantear de um repuxo. Então o poeta,sentando-se ao lado do seu amigo, falou com nojo do Eusebiozinho. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 197— Aí está uma torpeza que ele nunca cometera, trazer meretrizes aSintra! Nem a Sintra, nem a parte nenhuma... Mas muito menos aSintra! Sempre tivera, todo o mundo devia ter, a religião daquelasárvores e o amor daquelas sombras... — E esse Palma — acrescentou ele — é um traste! Euconheço-o; ele teve uma espécie de jornal, e já lhe dei muita bofe-tada na Rua do Alecrim. Foi uma história curiosa... Ora eu taconto, Carlos... Aquele canalha! quando me lembro!... Aquela vilbolinha de matéria pútrida!... Aquele chouricinho de pus! Levantou-se, passando a mão nervosa sobre os bigodes, já exci-tado pela lembrança daquela velha desordem, vergastando o Palmacom nomes ferozes, todo numa dessas fervuras de sangue que erama sua desgraça. Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grandeplanície de lavoura que se estendia em baixo, rica e bem traba-lhada, repartida em quadros verde-claros e verde-escuros, que lhefaziam lembrar um pano feito de remendos assim que ele tinha namesa do seu quarto. Tiras brancas de estradas serpeavam pelomeio: aqui e além, numa massa de arvoredo, branquejava umcasal: e a cada passo, naquele solo onde as águas abundam, umafila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro, correndo ereluzindo entre as ervas. O mar ficava ao fundo, numa linha unida,esbatida na tenuidade difusa da bruma azulada: e por cima arre-dondava-se um grande azul lustroso como um belo esmalte, tendoapenas, lá no alto, um farrapozinho de névoa, que ficara ali esque-cido, e que dormia enovelado e suspenso na luz... — Tive nojo! — exclamava o Alencar, rematando fogosamente asua história. — Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos pés,cruzei os braços e disse-lhe: «Aí tem você a bengala, seu cobarde, amim bastam-me as mãos!». — Que diabo, não me hão-de esquecer as queijadas! — murmu-rou Cruges, para si mesmo, afastando-se do parapeito. Carlos erguera-se também, olhava o relógio. Mas antes de dei-xar Seteais, Cruges quis explorar o outro terraço ao lado: e, apenassubira os dois velhos degraus de pedra, soltou de lá um grito ale-gre: — Bem dizia eu! cá estão eles... E vocês a dizer que não! Foram-no encontrar triunfante, diante de um montão de pene-dos, polidos pelo uso, já com um vago feitio de assentos deixados ali © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 198outrora, poeticamente, para dar ao terraço uma graça agreste deselva brava. Então, não dizia ele? Bem dizia ele que em Seteaishavia penedos! — Se eu me lembrava perfeitamente! Penedo da Saudade, nãoé que se chama, Alencar? Mas o poeta não respondeu. Diante daquelas pedras cruzara osbraços, sorria dolorosamente; e imóvel, sombrio no seu fato negro,com o panamá carregado para a testa, envolveu todo aquelerecanto num olhar lento e triste. Depois, no silêncio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente: — Vocês lembram-se, rapazes, nas Flores e Martírios, de umadas coisas melhores que lá tenho, em rimas livres, chamada 6 deAgosto? Não se lembram talvez... Pois eu vo-la digo, rapazes! Maquinalmente tirara do bolso um lenço branco. E com ele flu-tuante na mão, puxando Carlos para junto de si, chamando dooutro lado o Cruges, baixou a voz como numa confidência sagrada,recitou, com um ardor surdo, mordendo as sílabas, trémulo, numapaixão efémera de nervoso: Vieste! Cingi-te ao peito. Em redor, que noite escura! Não tinha rendas o leito, Não tinha lavores na barra Que era só a rocha dura... Muito ao longe uma guitarra Gemia vagos harpejos... (Vê tu que não me esqueceu...) E a rocha dura aqueceu Ao calor dos nossos beijos! Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancasbatidas do Sol, atirou para lá um gesto triste, e murmurou: — Foi ali. E afastou-se, alquebrado sob o seu grande chapéu panamá, como lenço branco na mão. Cruges, que aqueles romantismos impres-sionavam, ficou a olhar para os penedos como para um sítio histó-rico. Carlos sorria. E quando ambos deixaram esse recanto do ter-raço — o poeta, agachado junto do arco, estava apertando o atilhoda ceroula. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 199 Endireitou-se logo, já toda a emoção o deixara, mostrava osmaus dentes num sorriso amigo, e exclamou, apontando para oarco: — Agora, Cruges, filho, repara tu naquela tela sublime. O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro de umapesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadromaravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustra-ção de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiroplano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botõesamarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com heranos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagemreluzente; e emergindo abruptamente dessa copada linha de bos-que assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigo-rosamente num relevo nítido sobre o fundo do céu azul-claro, ocume airoso da serra, toda cor de violeta-escura, coroada pelo Palá-cio da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque som-brio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhandoao Sol como se fossem feitas de ouro... Cruges achou aquele quadro digno de Gustavo Doré. Alencarteve uma bela frase sobre a imaginação dos Árabes. Carlos, impa-ciente, foi-os apressando para diante. Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir àPena. Alencar, por si, ia também com prazer. A Pena para ele eraoutro ninho de recordações. Ninho? Devia antes dizer cemitério...Carlos hesitava, parado junto da grade. Estaria ela na Pena? Eolhava a estrada, olhava as árvores, como se pudesse adivinharpelas pegadas no pó, ou pelo mover das folhas, que direcção tinhamtomado os passos que ele seguia... Por fim teve uma ideia. — Vamos indo primeiro à Lawrence. E depois, se quisermos ir àPena, arranjam-se lá os burros... E nem mesmo quis escutar Alencar, que tivera também umaideia, falava de Colares, de uma visita ao seu amigo Carvalhosa;acelerou o passo para a Lawrence, enquanto o poeta tornava aarranjar o atilho da ceroula, e o maestro, num entusiasmo bucólico,ornava o chapéu de folhas de hera. Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na boca,não tendo podido apoderar-se dos ingleses, preguiçavam ao Sol. — Vocês sabem — perguntou-lhes Carlos — se uma família,que está aqui no hotel, foi para a Pena? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 200 Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarre-tando-se: — Sim, senhor, foram para lá há bocado, e aqui está o burrinhotambém para Vossa Excelência, meu amo! Mas o outro, mais honesto, negou. Não, senhor, a gente que forapara a Pena estava no Nunes... — A família que o senhor diz foi agora ali para baixo, para opalácio... — Uma senhora alta? — Sim, senhor. — Com um sujeito de barba preta? — Sim, senhor. — E uma cadelinha? — Sim, senhor. — Tu conheces o Sr. Dâmaso Salcede? — Não, senhor... É o que tira retratos? — Não, não tira retratos... Tomai lá. Deu-lhes uma placa de cinco tostões; e voltou ao encontro dosoutros, declarando que realmente era tarde para subirem à Pena. — Agora o que tu deves ver, Cruges, é o palácio. Isso é que temoriginalidade e cachet! Não é verdade, Alencar? — Eu vos digo, filhos — começou o autor de Elvira — historica-mente falando... — E eu tenho de comprar as queijadas — murmurou Cruges. — Justamente! — exclamou Carlos. — Tens ainda as queijadas;é necessário não perder tempo; a caminho! Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palácio, emquatro largas passadas estava lá. E logo da praça avistou, saindo jáo portão, passando rente da sentinela, a famosa família hospedadana Lawrence e a sua cadelinha de luxo. Era, com efeito, um sujeitode barba preta, e de sapatos de lona branca; e, ao lado dele, umamatrona enorme, com um mantelete de seda, coisas de oiro pelopescoço e pelo peito, e o cãozinho felpudo ao colo. Vinham ambosrosnando o quer que fosse, com mau modo um para o outro, e emespanhol. Carlos ficou a olhar para aquele par com a melancolia de quemcontempla os pedaços de um belo mármore quebrado. Não esperoumais pelos outros, nem os quis encontrar. Correu à Lawrence porum caminho diferente, ávido de uma certeza: — e aí, o criado que © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 201lhe apareceu disse-lhe que o Sr. Salcede e os senhores CastroGomes tinham partido na véspera para Mafra... — E de lá?... O criado ouvira dizer ao Sr. Dâmaso que de lá voltavam a Lis-boa. — Bem — disse Carlos atirando o chapéu para cima da mesa — ,traga-me você um cálice de conhaque, e uma pouca de água fresca. Sintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta etriste. Não teve ânimo de voltar ao palácio, nem quis sair maisdali; e arrancando as luvas, passeando em volta da mesa de jan-tar, onde murchavam os ramos da véspera, sentia um desejodesesperado de galopar para Lisboa, correr ao Hotel Central, inva-dir-lhe o quarto, vê-la, saciar os seus olhos nela!... Porque o que oirritava agora era não poder encontrar, na pequenez de Lisboa,onde toda a gente se acotovela, aquela mulher que ele procuravaansiosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um cão per-dido: fizera peregrinações ridículas de teatro em teatro: numamanhã de domingo percorrera as missas! E não a tornara a ver.Agora sabia-a em Sintra, voava a Sintra, e não a via também. Elacruzava-o uma tarde, bela como uma deusa tansviada no Aterro,deixava-lhe cair na alma por acaso um dos seus olhares negros, edesaparecia, evaporava-se, como se tivesse realmente remontadoao Céu, de ora em diante invisível e sobrenatural: e ele ali ficava,com aquele olhar no coração, perturbando todo o seu ser, orien-tando surdamente os seus pensamentos, desejos, curiosidades,toda a sua vida interior, para uma adorável desconhecida, dequem ele nada sabia senão que era alta e loira, e que tinha umacadelinha escocesa... Assim acontece com as estrelas de acaso!Elas não são de uma essência diferente, nem contêm mais luz queas outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e seesvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbra-mento que deixam nos olhos é mais perturbador e mais longo... Elenão a tornara a ver. Outros viam-na. O Taveira vira-a. No Grémio,ouvira um alferes de lanceiros falar dela, perguntar quem era,porque a encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos osdias. Ele não a via, e não sossegava... O criado trouxe o conhaque. Então Carlos, preparando vagaro-samente o seu refresco, conversou com ele, falou um momento dosdois rapazes ingleses, depois da espanhola obesa... Enfim, domi- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 202nando uma timidez, quase corando, fez, através de grandes silên-cios, perguntas sobre os Castro Gomes. E cada resposta lhe pareciauma aquisição preciosa. A senhora era muito madrugadora, dizia ocriado: às sete horas tinha tomado banho, estava vestida e saía só.O Sr. Castro Gomes, que dormia num quarto separado, nunca semexia antes do meio-dia; e, à noite, ficava uma eternidade à mesa,fumando cigarettes e molhando os beiços em copinhos de conhaquee água. Ele e o Sr. Dâmaso jogavam o dominó. A senhora tinhamontões de flores no quarto; e tencionavam ficar até domingo, masfora ela que apressara a partida — Ah! — disse Carlos depois de um silêncio — foi a senhoraque apressou a partida?... — Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado emLisboa... Vossa Excelência toma mais conhaque? Com um gesto Carlos recusou, e veio sentar-se no terraço. Atarde descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem,cheia de claridade dourada, numa larga serenidade que penetravaa alma. Ele tê-la-ia pois encontrado, ali mesmo naquele terraço,vendo também cair a tarde — se ela não estivesse impaciente portornar a ver a filha, algum bebezinho loiro que ficara só com a ama.Assim, a brilhante deusa era também uma boa mamã; e istodava-lhe um encanto mais profundo, era assim que ele gostavamais dela, com este terno estremecimento humano nas suas belasformas de mármore. Agora, já ela estava em Lisboa; e imaginava-anas rendas do seu peignoir, com o cabelo enrolado à pressa, grandee branca, erguendo ao ar o bebé nos seus esplêndidos braços deJuno, e falando-lhe com um riso de oiro. Achava-a assim adorável,todo o seu coração fugia para ela... Ah! poder ter o direito de estarjunto dela, nessas horas de intimidade, bem junto, sentindo oaroma da sua pele, e sorrindo também a um bebé. E, pouco a pouco,foi-lhe surgindo na alma um romance, radiante e absurdo: umsopro de paixão, mais forte que as leis humanas, enrolava violenta-mente, levava juntos o seu destino e o dela; depois, que divina exis-tência, escondida num ninho de flores e de Sol, longe, nalgum cantoda Itália... E toda a sorte de ideias de amor, de devoção absoluta,de sacrifício, invadiam-no deliciosamente — enquanto os seus olhosse esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solenidadedaquele belo fim da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosacor de ouro pálido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe um branco © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 203indeciso e opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo cobria-setodo de uma tinta loira, delicada e dormente. Todos os rumorestomavam uma suavidade de suspiro perdido. Nenhum contorno semovia como na imobilidade de um êxtase. E as casas, voltadas parao poente, com uma ou outra janela acesa em brasa, os cimos redon-dos das árvores apinhadas, descendo a serra numa espessa deban-dada para o vale, tudo parecera ficar de repente parado num reco-lhimento melancólico e grave, olhando a partida do Sol, que mergu-lhava lentamente no mar... — Ó Carlos, tu estás aí? Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando porele. Carlos apareceu à varanda do terraço. — Que diabo estás tu aí a fazer, rapaz? — exclamou Alencar,agitando alegremente o seu panamá. — Nós lá estivemos à espera,no covil real... Fomos ao Nunes... Íamos agora procurar-te à cadeia! E o poeta riu largamente da sua pilhéria — enquanto Cruges,ao lado, de mãos atrás das costas, e a face erguida para o terraço,bocejava desconsoladamente. — Vim refrescar, como tu dizes, tomar um pouco de conhaque,que estava com sede. Conhaque? Eis aí o mimo por que o pobre Alencar estiveraansiando toda a tarde, desde Seteais. E galgou logo as escadas doterraço — depois de ter gritado para dentro, para a sua velhaLawrence, que lhe mandasse acima meia da fina. — Viste o Paço, hem, Cruges? — perguntou Carlos ao maestro,quando ele apareceu, arrastando os passos. — Então, parece-meque o que nos resta a fazer é jantar, e abalar... Cruges concordou. Voltava do palácio com um ar murcho, fati-gado daquele vasto casarão histórico, da voz monótona do ciceronemostrando a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. aRainha, «melhores que as de Mafra», o tira-botas de S. A.; e traziade lá uma pouca dessa melancolia que erra, como uma atmosferaprópria, nas residências reais. E aquela natureza de Sintra, ao escurecer, dizia ele, começavaa entristecê-lo. Então concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar oespectáculo torpe do Palma e das damas, mandar vir à porta obreak, e partir depois ao nascer do luar. Alencar, aproveitando acarruagem, recolhia também a Lisboa. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 204 — E, para ser festa completa — exclamou ele, limpando osbigodes do conhaque — enquanto vocês vão ao Nunes pagar aconta, e dar ordens para o break, eu vou-me entender lá abaixo àcozinha com a velha Lawrence, e preparar-vos um bacalhau à Alen-car, récipe meu... E vocês verão o que é um bacalhau! Porque, láisso, rapazes, versos os farão outros melhor; bacalhau, não! Atravessando a praça, Cruges pedia a Deus que não encontras-sem mais o Eusebiozinho. Mas, apenas puseram os pés nos primei-ros degraus do Nunes, ouviram em cima o chalrar da súcia. Esta-vam na antessala, já todos reconciliados, a Concha contente — einstalados aos dois cantos de uma mesa, com cartas. O Palma,munido de uma garrafa de genebra, fazia uma batotinha para oEusébio; e as duas espanholas, de cigarro na boca, jogavam langui-damente a bisca. O viúvo, enfiado, perdia. No monte, que começara miseravel-mente com duas coroas, já luzia ouro; e Palma triunfava, chala-ceando, dando beijocas na sua moça. Mas, ao mesmo tempo, faziade cavalheiro, falava de dar a desforra, ficar ali, sendo necessário,até de madrugada. — Então Vossas Excelências não se tentam? Isto é para passaro tempo... Em Sintra tudo serve... Valete! Perdeu você outro micono rei. Deve a libra mais quinze tostões, sô Silveira! Carlos passara, sem responder, seguido pelo criado — nomomento em que Eusebiozinho, furioso, já desconfiado, quis verifi-car, com as lunetas negras sobre o baralho, se lá estavam todos osreis. Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entreamigos, que diabo, tudo se admitia! A sua espanhola, essa sim,escandalizou-se, defendendo a honra do seu homem: então Palmitahavia de ter empalmado o rei? Mas a Concha zelava o dinheiro doseu viúvo, exclamava que o rei podia estar perdido... Os reis esta-vam lá. Palma atirou um cálice de genebra às goelas, e recomeçou abaralhar majestosamente. — Então Vossa Excelência não se tenta? — repetia ele para omaestro. Cruges, com efeito, parara, roçando-se pela mesa, com o olhonas cartas e no ouro do monte, já sem força, remexendo o dinheironas algibeiras. Subitamente um ás decidiu-o. Com a mão nervosa, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 205escorregou-lhe uma libra por baixo, jogando cinco tostões, e deporta. Perdeu logo. Quando Carlos voltou do quarto com o criadoque descia as malas, o maestro estava em pleno vício, com a libraentalada, os olhos acesos, o ar esguedelhado. — Então tu?... — exclamou Carlos com severidade. — Já desço — rosnou o maestro. E, à pressa, foi à paz da libra, num terno contra o rei. Cartadade cólicas, como disse o Palma: e foi com emoção que ele começou apuxar as cartas, espremendo-as uma a uma, num vagar mortal. Aaparição de um bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas umduque, Eusebiozinho perdia mais uma placa. Palma teve um suspi-rinho de alívio; e, escondendo com ambas as mãos o baralho,erguendo as lunetas faiscantes para o maestro: — Então, sempre continua toda a libra?... — Toda. Palma teve outro suspiro, de ansiedade; e, mais pálido, voltoubruscamente as cartas. — Rei! — gritou ele, empolgando o ouro. Era o rei de paus, a espanhola bateu as palmas, o maestro aba-lou furioso. Na Lawrence o jantar prolongou-se até às oito horas, com luzes;— e o Alencar falou sempre. Tinha esquecido nesse dia as desilu-sões da vida, todos os rancores literários, estava numa veia exce-lente; e foram histórias dos velhos tempos de Sintra, recordaçõesda sua famosa ida a Paris, coisas picantes de mulheres, bocados dacrónica íntima da Regeneração... Tudo isto com estridências de voz,e filhos isto! e rapazes aquilo! e gestos que faziam oscilar as cha-mas das velas, e grandes copos de Colares emborcados de um trago.Do outro lado da mesa, os dois ingleses, correctos nos seus fraquesnegros, de cravos brancos na botoeira, pasmavam, com um arembaraçado a que se misturava desdém, para esta desordenadaexuberância de meridional. A aparição do bacalhau foi um triunfo: — e a satisfação dopoeta tão grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que aliestivesse o Ega! — Sempre queria que ele provasse este bacalhau! Já que menão aprecia os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto éum bacalhau de artista em toda a parte!... Noutro dia fi-lo lá emcasa dos meus Cohens; e a Raquel, coitadinha, veio para mim e © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 206abraçou-me... Isto, filhos, a poesia e a cozinhola são irmãs! Vejamvocês Alexandre Dumas... Dirão vocês que o pai Dumas não é umpoeta... E então D’Artagnan? D’Artagnan é um poema... é a faísca,é a fantasia, é a inspiração, é o sonho, é o arrobo! Então, poço, jávêem vocês, e é poeta!... Pois vocês hão-de vir um dia destes jantarcomigo, e há-de vir o Ega, hei-de-vos arranjar umas perdizes àespanhola, que vos hão-de nascer castanholas nos dedos!... Eu,palavra, gosto do Ega! Lá essas coisas de realismo e romantismo,histórias... Um lírio é tão natural como um percevejo... Uns prefe-rem fedor de sarjeta; perfeitamente, destape-se o cano público... Euprefiro pós de marechala num seio branco; a mim o seio, e, lá vai àvossa. O que se quer é coração. E o Ega tem-no. E tem faísca, temrasgo, tem estilo... Pois, assim é que eles se querem, e, lá vai àsaúde do Ega! Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou maisbaixo: — E, se aqueles ingleses continuam a embasbacar para mim,vai-lhes um copo na cara, e é aqui um vendaval, que há-de aGrã-Bretanha ficar sabendo o que é um poeta português!... Mas não houve vendaval, a Grã-Bretanha ficou sem saber o queé um poeta português, e o jantar terminou num café tranquilo.Eram nove horas, fazia luar, quando Carlos subiu para a almofadado break. Alencar, embuçado num capote, um verdadeiro capote de padrede aldeia, levava na mão um ramo de rosas: e agora guardara o seupanamá na maleta, trazia um boné de lontra. O maestro, pesado dojantar, com um começo de spleen, encolheu-se a um canto do break,mudo, enterrado na gola do paletó, com a manta da mamã sobre osjoelhos. Partiram. Sintra ficava dormindo ao luar. Algum tempo o break rodou em silêncio, na beleza da noite. Aespaços, a estrada aparecia banhada de uma claridade quente quefaiscava. Fachadas de casas, caladas e pálidas, surgiam, de entre asárvores, com um ar de melancolia romântica. Murmúrios de águasperdiam-se na sombra; e, junto dos muros enramados, o ar estavacheio de aroma. Alencar acendera o cachimbo, e olhava a Lua. Mas, quando passaram as casas de São Pedro, e entraram naestrada, silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambémpara a Lua, e murmurou de entre os seus agasalhos: — Ó Alencar, recita para aí alguma coisa... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 207 O poeta condescendeu logo — apesar de um dos criados ir ali aolado deles, dentro do break. Mas, que havia ele de recitar, sob oencanto da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado dianteda Lua! Enfim, ia dizer-lhe uma história bem verdadeira e bemtriste... Veio sentar-se ao pé do Cruges, dentro do seu grande capo-tão, esvaziou os restos do cachimbo, e, depois de acariciar algumtempo os bigodes, começou, num tom familiar e simples: Era o jardim de uma vivenda antiga Sem arrebiques d’arte ou flores de luxo; Ruas singelas d’alfazema e buxo, Cravos, roseiras... — Com mil raios! — exclamou de repente o Cruges, saltando dedentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltarCarlos na almofada, assustou o trintanário. O break parara, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silêncioda charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou: — Esqueceram-me as queijadas! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós pág. 208 de 595 Capítulo IX O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim dessa semanatão luminosa e tão doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos,abrindo cedo a janela sobre o jardim, vira um céu baixo quepesava como se fosse feito de algodão-em-rama enxovalhado: oarvoredo tinha um tom arrepiado e húmido; ao longe o rio estavaturvo, e no ar mole errava um hálito morno de sudoeste. Decidiranão sair — e desde as nove horas, sentado à banca, embrulhado noseu vasto robe-de-chambre de veludo azul, que lhe dava o belo arde um príncipe artista da Renascença, tentava trabalhar: mas,apesar de duas chávenas de café, de cigarettes sem fim, o cérebro,como o céu fora, conservava-se-lhe nessa manhã afogado emnévoas. Tinha destes dias terríveis; julgava-se então «uma besta»;e a quantidade de folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, quelhe juncavam o tapete aos pés, davam-lhe a sensação de ser todoele uma ruína. Foi realmente um alívio, uma trégua naquela luta com asideias rebeldes, quando Baptista anunciou Vilaça, que lhe vinhafalar de uma venda de montados no Alentejo, pertencentes à sualegítima. — Negociozinho — disse o administrador, pousando o chapéu aum canto da mesa e dentro um rolo de papéis — que lhe mete naalgibeira para cima de dois contos de réis... E não é mau presente,logo assim pela manhã… © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 209 Carlos espreguiçou-se, cruzando fortemente as mãos por trásda cabeça: — Pois olhe, Vilaça, preciso bem de dois contos de réis, maspreferia que me trouxesse aí alguma lucidez de espírito... Estouhoje de uma estupidez! Vilaça considerou-o um momento, com malícia. — Quer Vossa Excelência dizer que antes queria escrever umabonita página do que receber assim perto de quinhentas libras? Sãogostos, meu senhor, são gostos... Ele é bom sair-se a gente um Her-culano ou um Garrett, mas dois contos de réis, são dois contos deréis... Olhe que sempre valem um folhetim. Enfim, o negócio é este. Explicou-lho, sem se sentar, apressado, enquanto Carlos, debraços cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete depeito que Vilaça trazia (um macacão de coral comendo uma pêra deouro) e distinguia vagamente, através da sua neblina mental, quese tratava de um visconde de Torral e de porcos... Quando Vilaçalhe apresentou os papéis, assinou-os com um ar moribundo. — Então não fica para almoçar, Vilaça? — disse ele, vendo oprocurador meter o seu rolo de papéis debaixo do braço. — Muito agradecido a Vossa Excelência. Tenho de me encontrarcom o nosso amigo Eusébio... Vamos ao Ministério do Reino, eletem lá uma pretensão... Quer a Comenda da Conceição... Mas esteGoverno está desgostoso com ele. — Ah! — murmurou Carlos com respeito e através de umbocejo. — O Governo não está contente com o Eusebiozinho? — Não se portou bem nas eleições. Ainda há dias, o Ministro doReino me dizia, em confidência: «O Eusébio é rapaz de mereci-mento, mas atravessado...». Vossa Excelência noutro dia, disse-meo Cruges, encontrou-o em Sintra. — Sim, lá estava a fazer jus à Comenda da Conceição. Quando Vilaça saiu, Carlos retomou lentamente a pena, e ficouum momento, com os olhos na página meio escrita coçando a barba,desanimado e estéril. Mas quase em seguida apareceu Afonso daMaia, ainda de chapéu, à volta do seu passeio matinal no bairro, ecom uma carta na mão, que era para Carlos, e que ele achara noescritório misturada ao seu correio. Além disso, esperava encontrarali o Vilaça. — Esteve aí, mas deitou a correr, para ir arranjar uma comendapara o Eusebiozinho — disse Carlos, abrindo a carta. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 210 E teve uma surpresa, vendo no papel — que cheirava a verbenacomo a condessa de Gouvarinho — um convite do conde para jantarno sábado seguinte, feito em termos de simpatia tão escolhidos queeram quase poéticos; tinha mesmo uma frase sobre a amizade,falava dos átomos em gancho de Descartes. Carlos desatou a rir,contou ao avô que era um par do Reino que o convidava a jantar,citando Descartes... — São capazes de tudo — murmurou o velho. E dando um olhar risonho aos manuscritos espalhados sobre abanca: — Então, aqui trabalha-se, hem? Carlos encolheu os ombros: — Se é que se pode chamar a isto trabalhar... Olhe aí para ochão. Veja esses destroços... Enquanto se trata de tomar notas, coli-gir documentos, reunir materiais, bem, lá vou indo. Mas quando setrata de pôr as ideias, a observação, numa forma de gosto e desimetria, dar-lhe cor, dar-lhe relevo, então... Então foi-se! — Preocupação peninsular, filho, — disse Afonso, sentando-seao pé da mesa, com o seu chapéu desabado na mão. — Desemba-raça-te dela. É o que eu dizia noutro dia ao Craft, e ele concor-dava... O português nunca pode ser homem de ideias, por causa dapaixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho,sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-laincompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgra-çado não hesita... Vá-se pela água abaixo o pensamento, massalve-se a bela frase. — Questão de temperamento — disse Carlos. — Há seres infe-riores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importanteque a exactidão de um sistema... Eu sou desses monstros. — Diabo! então és um retórico... — Quem o não é? E resta saber por fim se o estilo não é umadisciplina do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes anecessidade de uma rima que produz a originalidade de uma ima-gem... E quantas vezes o esforço para completar bem a cadência deuma frase, não poderá trazer desenvolvimentos novos e inespera-dos de uma ideia... Viva a bela frase! — O Sr. Ega — anunciou o Baptista, erguendo o reposteiro,quando começava justamente a tocar a sineta do almoço. — Falai na frase... — disse Afonso, rindo. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 211 — Hem? Que frase? O quê?... — exclamou Ega, que rompeu peloquarto, com o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletólevantada. — Oh! por aqui a esta hora, Sr. Afonso da Maia! Comoestá Vossa Excelência? Dize-me cá, Carlos, tu é que me podes tirarde uma atrapalhação... Tu terás por acaso uma espada que me sirva? E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, já impa-ciente: — Sim, homem, uma espada! Não é para me bater, estou empaz com toda a humanidade... É para esta noite, para o fato demáscara. O Matos, aquele animal, só na véspera lhe dera o costume parao baile: e, qual é o seu horror, ao ver que lhe arranjara, em lugar deuma espada artística, um sabre da Guarda Municipal! Tivera von-tade de lho passar através das entranhas. Correu ao tio Abraão,que só tinha espadins de corte, reles e pelintras como a própriacorte! Lembrara-se do Craft e da sua colecção; vinha de lá, mas aíeram uns espadões de ferro, catanas pesando arrobas, as durinda-nas tremendas dos brutos que conquistaram a Índia... Nada quelhe servisse. Fora então que lhe tinham vindo à ideia as panópliasantigas do Ramalhete. — Tu é que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina,com os copos em concha, de aço rendilhado, forrados de veludoescarlate. E sem cruz, sobretudo sem cruz! Afonso, tomando logo um interesse paternal por aquela dificul-dade de John, lembrou que havia no corredor, em cima, umas espa-das espanholas... — Em cima, no corredor? — exclamou Ega, já com a mão noreposteiro. Inútil precipitar-se, o bom John não as poderia encontrar. Nãoestavam à vista, arranjadas em panóplia, conservavam-se aindanos caixões em que tinham vindo de Benfica. — Eu lá vou, homem fatal, eu lá vou — disse Carlos,erguendo-se com resignação. — Mas olha que elas não têm bainhas. Ega ficou sucumbido. E foi ainda Afonso que achou uma ideia, osalvou. — Manda fazer uma simples bainha de veludo negro; issofaz-se numa hora. E manda-lhe coser ao comprido rodelas develudo escarlate... — Esplêndido! — gritou Ega. — O que é ter gosto! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 212 E apenas Carlos saiu, trovejou contra o Matos. — Veja Vossa Excelência isto, um sabre da Guarda Municipal!E é quem faz aí os fatos para todos os teatros! Que idiota!... E étudo assim, isto é um país insensato!... — Meu bom Ega, tu não queres tornar decerto Portugal inteiro,o Estado, sete milhões de almas, responsáveis por esse comporta-mento do Matos? — Sim senhor — exclamava o Ega passeando pelo gabinete, comas mãos enterradas nos bolsos do paletó. — Sim senhor, tudo isso seprende. O costumier com um fato do século XIV manda um sabre daGuarda Municipal; por seu lado o ministro, a propósito de impostos,cita as Meditações de Lamartine; e o literato, essa besta suprema... Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na mão, umafolha do século XVI, de grande têmpera, fina e vibrante, com copostrabalhados como uma renda — e tendo gravado no aço o nomeilustre do espadeiro, Francisco Rui de Toledo. Embrulhou-a logo num jornal, recusou à pressa o almoço quelhe ofereciam, deu dois vivos shake-hands, atirou o chapéu para anuca, ia abalar, quando a voz de Afonso o deteve: — Ouve lá, John — dizia o velho alegremente — , isso é umaespada cá da casa, que nunca brilhou sem glória, creio eu... Vêcomo te serves dela! Ao pé do reposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contrao peito do paletó o ferro, enrolado no Jornal do Comércio: — Não a sacarei sem justiça, nem a embainharei sem honra.Au revoir! — Que vida, que mocidade! — murmurou Afonso. — Muito felizé este John!... Pois vai-te arranjando, filho, que já tocou a primeiravez para o almoço. Carlos ainda se demorou uns instante a reler, com um sorriso, aaparatosa carta do Gouvarinho; e ia enfim chamar o Baptista parase vestir, quando em baixo, à entrada particular, o timbre eléctricocomeçou a vibrar violentamente. Um passo ansioso ressoou na ante-câmara, o Dâmaso apareceu esbaforido, de olho esgazeado, com aface em brasa. E, sem dar tempo a que Carlos exprimisse a surpresade o ver enfim no Ramalhete, exclamou, lançando os braços ao ar: — Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas daí,que me venhas ver um doente... Eu te explicarei... É aquela gentebrasileira. Mas, pelo amor de Deus, vem depressa, menino! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 213 Carlos erguera-se, pálido: — É ela? — Não, é a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos,veste-te, que a responsabilidade é minha! — É um bebé, não é? — Qual bebé!... É uma pequena crescida, de seis anos... Andadaí! Carlos, já em mangas de camisa, estendia o pé ao Baptista,que, com um joelho em terra, apressado também, quase fez saltaros botões da bota. E Dâmaso, de chapéu na cabeça, agitava-se, exa-gerando a sua impaciência, a estalar de importância. — Sempre a gente se vê em coisas!... Olha que responsabilidadea minha! Vou visitá-los, como costumo às vezes, de manhã... E vai,tinham partido para Queluz. Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meio vestida: — Mas então?... — Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficoucom a governanta... Depois do almoço deu-lhe uma dor. A gover-nanta queria um médico inglês, porque não fala senão inglês... Dohotel foram procurar o Smith, que não apareceu... E a pequena amorrer!... Felizmente, cheguei eu, e lembrei-me logo de ti... Foisorte encontrar-te, caramba! E acrescentou, dando um olhar ao jardim: — Também, irem a Queluz com um dia destes! Hão-de-se diver-tir... Estás pronto, hem? Eu tenho lá em baixo o coupé... Deixa asluvas, vais muito bem sem luvas! — O avô que não me espere para almoçar — gritou Carlos aoBaptista, já no fundo da escada. Dentro do coupé, um ramo enorme enchia quase o assento. — Era para ela — disse o Dâmaso, pondo-o sobre os joelhos. —Pela-se por flores. Apenas o coupé partiu, Carlos, cerrando a vidraça, fez a per-gunta que desde a aparição do Dâmaso lhe faiscava nos lábios. — Mas então tu, que querias quebrar a cara a esse CastroGomes?... O Dâmaso contou logo tudo, triunfante. Fora tudo um equívoco!Ah!, as explicações do Castro Gomes tinham sido de um gentleman.Senão, quebrava-lhe a cara. Isso não, desconsiderações, a ninguém!A ninguém! Mas fora assim: os bilhetes de visita que ele lhe dei- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 214xara conservavam a sua adresse do Grand Hôtel de Paris. E o Cas-tro Gomes, supondo que ele vivia lá, obedecendo à indicação, man-dara para lá os seus cartões! Curioso, hem? É de estúpido... E afalta de resposta aos telegramas fora culpa de madame, descuido,naquele momento de aflição, vendo o marido com o braço escava-cado... Ah!, tinham-lhe dado satisfações humildes. E agora eramíntimos, estava lá quase sempre... — Enfim, menino, um romance... Mas isso é para mais tarde! O coupé parara à porta do Hotel Central. Dâmaso saltou, cor-reu ao guarda-portão. — Mandou o telegrama, António? — Já lá vai... — Tu compreendes — dizia ele a Carlos, galgando as escadas —mandei-lhes logo um telegrama para o hotel em Queluz. Não estoupara ter mais responsabilidades!.. No corredor, defronte do escritório, um criado passava, com umguardanapo debaixo do braço. — Como está a menina? — gritou-lhe o Dâmaso. O criado encolheu os ombros, sem compreender. Mas Dâmaso já trepava o outro lanço de escada, soprando, gri-tando: — Por aqui, Carlos, eu conheço isto a palmos! Número 26! Abriu com estrondo a porta do número 26. Uma criada, queestava à janela, voltou-se. — Ah! Bonjour, Melanie! — exclamava Dâmaso, no seu extraor-dinário francês. — A criança estava melhor? L’enfant étaitmeilleur? Ali lhe trazia o doutor, monsieur le docteur Maia. Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que mademoi-selle estava mais sossegada, e ela ia avisar Miss Sara, a gover-nanta. Passou o espanador pelo mármore de uma console, ajeitouos livros sobre a mesa, e saiu, dardejando a Carlos um olhar vivocomo uma faísca. A sala era espaçosa, com uma mobília de repes azul, e um grandeespelho sobre a console dourada, entre as duas janelas: a mesaestava coberta de jornais, de caixas de charutos, e de romances deCappendu; sobre uma cadeira, ao lado, ficara enrolado um bordado. — Esta Melanie, esta desleixada — murmurava o Dâmaso,fechando a janela com um esforço sobre o fecho perro. — Deixarassim tudo aberto! Jesus, que gente! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 215 — Este cavalheiro é bonapartista — disse Carlos, vendo sobre amesa os números do Pays. — Isso, temos questões terríveis! — exclamou o Dâmaso. — Eeu enterro-o sempre... É bom rapaz, mas tem pouco fundo. Melanie voltou, pedindo a monsieur le docteur para entrar uminstante no gabinete de toilette. E aí, depois de apanhar uma toa-lha caída, de dardejar a Carlos outro olharzinho petulante, disseque Miss Sara vinha imediatamente, e retirou-se na ponta dossapatos. Fora, na sala, ergueu-se logo a voz do Dâmaso, falando aMelanie de sa responsabilité, et qu’il était très affligé. Carlos ficou só, na intimidade daquele gabinete de toilette, quenessa manhã ainda não fora arrumado. Duas malas, pertencentesdecerto a madame, enormes, magníficas, com fecharias e cantos deaço polido, estavam abertas: de uma trasbordava uma cauda rica,de seda forte cor de vinho: e na outra era um delicado alvejar deroupa branca, todo um luxo secreto e raro de rendas e baptistes, deum brilho de neve, macio pelo uso e cheirando bem. Sobre umacadeira alastrava-se um monte de meias de seda, de todos os tons,unidas, bordadas, abertas em renda, e tão leves que uma aragemas faria voar; e no chão corria uma fila de sapatinhos de verniz,todos do mesmo estilo, longos, com o tacão baixo, e grandes fitas delaçar. A um canto estava um cesto acolchoado de seda cor-de-rosa,onde decerto viajara a cadelinha. Mas o olhar de Carlos prendia-se sobretudo a um sofá ondeficara estendido, com as duas mangas abertas, à maneira de doisbraços que se oferecem, o casaco branco de veludo lavrado de Génovacom que ele a vira, a primeira vez, apear-se à porta do hotel. O forro,de cetim branco, não tinha o menor acolchoado, tão perfeito devia sero corpo que vestia: e assim, deitado sobre o sofá, nessa atitude viva,num desabotoado de seminudez, adiantando em vago relevo o cheiode dois seios, com os braços alargando-se, dando-se todos, aqueleestofo parecia exalar um calor humano, e punha ali a forma de umcorpo amoroso, desfalecendo num silêncio de alcova. Carlos sentiubater o coração. Um perfume indefinido e forte de jasmim, de mare-chala, de tanglewood elevava-se de todas aquelas coisas íntimas,passava-lhe pela face como um bafo suave de carícia... Então desviou os olhos, aproximou-se da janela, que tinha porperspectiva a fachada enxovalhada do Hotel Shneid. Quando sevoltou, Miss Sara estava diante dele, vestida de preto e muito © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 216corada: era uma pessoa simpática, redondinha e pequena, com umar de rola farta, os olhos sentimentais, e uma testa de virgem sobbandós lisos e loiros. Balbuciava umas palavras em francês, em queCarlos só percebeu docteur. — Yes, I am the doctor — disse ele. A face da boa inglesa iluminou-se. Oh! era tão bom ter enfimcom quem se entender! A menina estava muito melhor! Oh! o dou-tor vinha livrá-la de uma responsabilidade!... Abriu o reposteiro, fê-lo penetrar num quarto com as janelastodas cerradas, onde ele apenas distinguiu a forma de um grandeleito e o brilho de cristais num toucador. Perguntou para quemeram aquelas trevas. Miss Sara pensara que a escuridão faria bem à menina e aadormeceria. E trouxera-a ali para o quarto da mamã, por ser maislargo e mais arejado. Carlos fez abrir as janelas: e, quando a grande luz entrou, aoavistar a pequena no leito, sob os cortinados abertos, não conteve asua admiração. — Que linda criança! E ficou um instante a contemplá-la, num enlevo de artista, pen-sando que os brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sábiacombinação de luz, não igualariam a palidez ebúrnea daquela pelemaravilhosa: e esta adorável brancura era ainda realçada por umcabelo negro, tenebroso, forte, que reluzia sob a rede. Os seus doisolhos grandes, de um azul profundo e líquido, pareciam nesse ins-tante maiores, muito sérios, e muito abertos para ele. Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com osusto ainda da dor, perdida naquele vasto leito, e apertando nosbraços uma enorme boneca paramentada, de pêlo riçado, de olhostambém azuis e arregalados também. Carlos tomou-lhe a mãozinha e beijou-lha — perguntando se aboneca também estava doente. — Cricri também teve dor — respondeu ela muito séria, semtirar dele os seus magníficos olhos. — Eu já não tenho... Estava com efeito fresca como uma flor, com a linguazinhamuito rosada, e sua vontade já de lanchar. Carlos tranquilizou Miss Sara. Oh!, ela via bem que mademoi-selle estava boa. O que a assustara fora achar-se ali só, sem amamã, com aquela responsabilidade. Por isso a tinha deitado... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 217Oh!, se fosse uma criança inglesa saía com ela para o ar... Masestas meninas estrangeiras, tão débeis, tão delicadas... E o labiozi-nho gordo da inglesa traía um desdém compassivo por estas raçasinferiores e deterioradas. — Mas a mamã não é doente? Oh! não ! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, pareciamais fraco... — E, como se chama a minha querida amiga? — perguntouCarlos, sentado à cabeceira do leito. — Esta é Cricri — disse a pequena, apresentando outra vez aboneca. — Eu chamo-me Rosa, mas o papá diz que sou Rosicler. — Rosicler? realmente? — disse Carlos sorrindo daquele nomede livro de cavalaria, rescendente a torneios e a bosques de fadas. Então, como colhendo simplesmente informações de médico,perguntou a Miss Sara se a menina sentira a mudança de clima.Habitavam ordinariamente Paris, não é verdade? Sim, viviam em Paris no Inverno, no Parque Monceaux; deVerão iam para uma quinta da Turenne, ao pé mesmo de Tours,onde ficavam até ao começo da caça; e iam sempre passar um mêsa Dieppe. Pelo menos fora assim, nos últimos três anos, desde queela estava com madame. Enquanto a inglesa falava, Rosa, com a sua boneca nos braços,não cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Ele,de vez em quando, sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mãozinha. Osolhos da mãe eram negros: os do pai de azeviche e pequeninos: dequem herdara ela aquelas maravilhosas pupilas de um azul tãorico, líquido e doce? Mas a sua visita de médico findara, ergueu-se para receitar umcalmante. Enquanto a inglesa preparava muito cuidadosamente opapel e experimentava a pena, ele examinou um momento oquarto. Naquela instalação banal de hotel, certos retoques de umaelegância delicada revelavam a mulher de gosto e de luxo: sobre acómoda e sobre a mesa havia grandes ramos de flores: os travessei-ros e os lençóis não eram do hotel, mas próprios, de bretanha fina,com rendas e largos monogramas bordados a duas cores. Na pol-trona que ela usava, uma casimira de Tarnah disfarçava o medo-nho repes desbotado. Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a mesaalguns livros de encadernações ricas, romances e poetas ingleses: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 218mas destoava ali, estranhamente, uma brochura singular — oManual de Interpretação dos Sonhos. E ao lado, em cima do touca-dor, entre os marfins das escovas, os cristais dos frascos, as tarta-rugas finas, havia outro objecto extravagante, uma enorme caixade pó-de-arroz, toda de prata dourada, com uma magnífica safiraengastada na tampa dentro de um círculo de brilhantes miúdos,uma jóia exagerada de cocotte, pondo ali uma dissonância audaz deesplendor brutal. Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler; elaestendeu-lhe logo a boquinha fresca como um botão de rosa; ele nãoousou beijá-la assim naquele grande leito da mãe, e tocou-lhe ape-nas na testa. — Quando vens tu outra vez? — perguntou ela agarrando-opela manga do casaco. — Não é necessário vir outra vez, minha querida. Tu estás boa,e Cricri também. — Mas eu quero o meu lunch... Diz a Sara que eu posso tomar omeu lunch... E Cricri também. — Sim, já podeis ambas petiscar alguma coisa... Fez as suas recomendações à mestra, e depois, apertando amãozinha da pequena: — E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que és Rosi-cler... E não quis ser menos amável com a boneca, deu-lhe tambémum shake-hands. Isto pareceu cativar Rosa ainda mais. A inglesa, ao lado, sorria,com duas covinhas na face. Não era necessário, lembrou Carlos, conservar a criança nacama, nem torturá-la com cautelas exageradas... — Oh, no, sir! E se a dor reaparecesse, ainda que ligeira, mandá-lo logo cha-mar... — Oh, yes, sir! E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse. — Oh, thank you, sir! Ao voltar à sala, o Dâmaso saltou do sofá, onde percorria umjornal, como uma fera a quem se abre a jaula. — Credo, imaginei que ias lá ficar toda a vida! Que estiveste tua fazer? Irra, que estopada! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 219 Carlos, calçando as luvas, sorria sem responder. — Então, é coisa de cuidado? — Não tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordi-nário. — Ah!, Rosicler — murmurou Dâmaso, agarrando o chapéu commau modo. — Muito ridículo, não é verdade? A criada francesa apareceu outra vez a abrir a porta da sala —dardejando para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Dâmaso reco-mendou-lhe muito que dissesse aos senhores que ele tinha vindologo com o médico; e que havia de voltar à noite para lhes fazeruma surpresa, para saber se tinham gostado de Queluz — si ilsavaient aimé Queluz. Depois, ao passar diante do escritório, meteu a cabeça, paradizer ao guarda-livros que a menina estava boa, tudo ficava emsossego. O guarda-livros sorriu e cortejou. — Queres que te vá levar a casa? — perguntou ele a Carlos, embaixo, abrindo a porta do coupé, ainda com um resto de mauhumor. Carlos preferia ir a pé. — E acompanha-me tu um bocado, Dâmaso, tu agora não tensque fazer. Dâmaso hesitou, olhando o céu áspero, as nuvens pesadas dechuva. Mas Carlos tomara-lhe o braço, arrastava-o, amável e grace-jando. — Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero oromance... Tu disseste que tinhas um romance. Não te largo. Ésmeu. Venha o romance. Eu sei que os tens sempre bons. Quero oromance! Pouco a pouco Dâmaso sorria, as bochechas esbraseavam-se-lhede satisfação. — Vai-se fazendo pela vida — disse ele a estoirar de jactância. — Vocês estiveram em Sintra?... — Estivemos, mas isso não foi divertido... O romance é outro! Desprendeu-se do braço de Carlos, fez um sinal ao cocheiropara que os seguisse, e regalou-se pelo Aterro fora de contar o seuromance. — A coisa é esta... O marido daqui a dias vai para o Brasil, temlá negócios. E ela fica! Fica com as criadas e com a pequena, à © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 220espera, dois ou três meses. Diz que já andaram até a ver casasmobiladas, que ela não quer estar no hotel... E eu, íntimo, a únicapessoa que ela conhece, metido de dentro... Hem, percebes agora? — Perfeitamente — disse Carlos, arrojando para longe o cha-ruto, com um gesto nervoso. — E decerto a pobre criatura já estáfascinada! Já lhe deste, como costumas, um beijo ardente entreduas portas! Já a desgraçada se sortiu da caixa de fósforos, paramais tarde quando a abandonares! Dâmaso enfiava. — Não venhas já tu com o espírito e com a chufazinha... Nãolhe dei beijos que ainda não houve ocasião... Mas, o que te possodizer, é que tenho mulher! — Pois já era tempo — exclamou Carlos, sem conter um gestobrusco e atirando-lhe as palavras como chicotadas.— Já era tempo!Andavas aí metido com umas criaturas ignóbeis, uma ralé de lupa-nar... Enfim, agora há progresso. E eu gosto que os meus amigosvivam numa ordem de sentimentos decentes... Mas vê lá... Nãosejas o costumado Dâmaso! Não te vás pôr a alardear isso pelo Gré-mio e pela Casa Havanesa! Desta vez Dâmaso estacou, sufocado, sem compreender aquelemodo, semelhante azedume. E terminou por balbuciar, lívido: — Tu podes entender muito de medicina e de bricabraque, maslá a respeito de mulheres, e da maneira de fazer as coisas, não medás lições... Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E derepente, sentiu-o tão inofensivo, tão insignificante, com o seu arbochechudo e mole, que se envergonhou do surdo despeito que oatravessara, tomou-lhe o braço, teve duas palavras amáveis. — Dâmaso, tu não me compreendeste. Eu não te quis fazer zan-gar... É para teu bem... O que eu receava é que tu, imprudente,arrebatado, apaixonado, fosses perder essa bela aventura por umaindiscrição... E o outro ficou logo contente, sorrindo já, abandonando-se aobraço do seu amigo, certo que o desejo do Maia era que ele tivesseuma amante chique. Não, ele não se tinha zangado, nunca se zan-gava com os íntimos... Compreendia bem que o que Carlos dizia erapor amizade... — Mas tu, às vezes, tens essa coisa que te pegou o Ega, gostasdo teu bocadinho de espírito... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 221 E então tranquilizou-o. Não, por imprudência não havia ele de«perder a coisa». Aquilo ia com todas as regras. Lá nissosobrava-lhe experiência. A Melanie, já a tinha na mão; já lhe deraduas libras. — Isto demais a mais é uma coisa muito séria... Ela conhecemeu tio, é íntima dele desde pequena, tratam-se até por tu... — Que tio? — Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimarães, Mr. de Gui-maran, o que vive em Paris, o amigo de Gambetta... — Ah! sim, o comunista... — Qual comunista, até tem carruagem! Subitamente lembrou-lhe outra coisa, um ponto de toilette emque queria consultar Carlos. — Amanhã vou jantar com eles, e vão também dois brasileiros,amigos dele, que chegaram aí há dias, e que partem pelo mesmopaquete... Um é chique, é da Legação do Brasil em Londres. Demaneira que é jantar de cerimónia. O Castro Gomes não me dissenada; mas que te parece, achas que vá de casaca?... — Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapela. O Dâmaso olhou-o, pensativo. — A mim tinha-me lembrado o hábito de Cristo. — O hábito de Cristo... Sim, põe o hábito de Cristo ao pescoço, epõe a rosa na botoeira. — Será talvez de mais, Carlos! — Não, fica bem ao teu tipo. Dâmaso fizera parar o coupé que os tinha seguido a passo. E noúltimo aperto de mão a Carlos: — Tu sempre vais à noite, aos Cohens, de dominó? O meu fatode selvagem ficou divino. Eu venho mostrá-lo à noite à brasileira...Entro no hotel embrulhado num capote, e apareço-lhes de repentena sala, de selvagem, de Nelusko, a cantar: Alerta, marinari, Il vento cangia… Chique a valer!... Good bye! Às dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. Fora, anoite fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas de água, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 222que a cada instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinetede toilette, errava no ar tépido um vago aroma de sabonete e debom charuto. Sobre duas cómodas de pau-preto, marchetadas amarfim, duas serpentinas de velho bronze erguiam os seus molhosde velas acesas, pondo largos reflexos doces sobre a seda castanhadas paredes. Ao lado do alto espelho-psyché alastrava-se já, emcima de uma poltrona, o dominó de cetim negro com um grandelaço azul-claro. Baptista, com a casaca na mão, esperava que Carlos acabasse achávena de chá preto que ele estava bebendo aos goles, de pé, emmangas de camisa, e de gravata branca. De repente, o timbre eléc-trico da porta particular retiniu, apressado e violento. — Talvez outra surpresa — murmurou Carlos. — Hoje é o diadas surpresas... Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir — quando embaixo vibrou outro repique brutal, de uma impaciência frenética. Então Carlos, curioso, saiu à antecâmara: e aí, à meia luz daslâmpadas Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos veludos cor decereja, viu, ao abrir-se a porta por onde entrou um sopro áspero danoite, aparecer vivamente uma forma esguia e vermelha, com umconfuso tinir de ferro. Depois, pela escada acima, duas penasnegras de galo ondearam, um manto escarlate, esvoaçou — e o Egaestava diante dele, caracterizado, vestido de Mefistófeles! Carlos apenas pôde dizer: bravo! — o aspecto do Ega emudeceu-o.Apesar dos toques de caracterização que quase o mascaravam —sobrancelhas de Diabo, guias de bigode ferozmente exageradas — ,sentia-se bem a aflição em que vinha, com os olhos injectados, per-dido, numa terrível palidez. Fez um gesto a Carlos, arremessou-sepelo gabinete dentro. Baptista, logo, discretamente, retirou-se, cer-rando o reposteiro. Estavam sós. Então Ega, apertando desesperadamente asmãos, numa voz rouca e de agonia: — Tu sabes o que me sucedeu, Carlos? Mas não pôde dizer mais, sufocado, tremendo todo; e diantedele, devorando-o com os olhos, Carlos tremia também, enfiado. — Cheguei a casa dos Cohens — continuou Ega por fim comesforço e quase balbuciando — mais cedo, como tínhamos combi-nado. Ao entrar na sala, já estavam duas ou três pessoas... Ele vemdireito a mim, e diz-me: «Você, seu infame, ponha-se já no meio da © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 223rua... Já no meio da rua, senão, diante desta gente, corro-o a ponta-pés!». E eu, Carlos... Mas a cólera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momentomordendo os beiços, recalcando os soluços, com os olhos reluzentesde lágrimas. Quando as palavras voltaram, foi uma explosão selvagem: — Quero-me bater em duelo com aquele malvado, a cinco pas-sos, meter-lhe uma bala no coração! Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; ebatendo furiosamente o pé, esmurrando o ar, berrava, sem cessar,como cevando-se na estridência da própria voz: — Quero matá-lo! Quero matá-lo! Quero matá-lo! Depois, alucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabri-damente pelo quarto, às patadas, com o manto deitado para trás, aespada mal afivelada batendo-lhe as canelas escarlates. — Então descobriu tudo — murmurou Carlos. — Está claro que descobriu tudo! — exclamou o Ega, no seupassear arrebatado, atirando os braços ao ar. — Como descobriu,não sei. Sei isto, já não é pouco. Pôs-me fora!... Hei-de-lhe meteruma bala no corpo! Pela alma de meu pai, hei-de-lhe varar o cora-ção!... Quero que vás logo pela manhã com o Craft... E as condiçõessão estas: à pistola, a quinze passos! Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chávena de chá.Depois, disse muito simplesmente: — Meu querido Ega, tu não podes mandar desafiar o Cohen. O outro estacou de repelão, atirando pelos olhos dois relâmpagosde ira — a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas penas degalo ondeando na gorra, davam uma ferocidade teatral e cómica. — Não o posso mandar desafiar? — Não. — Então põe-me fora de casa... — Estava no seu direito. — No seu direito!... Diante de toda a gente?... — E tu, não eras amante da mulher diante de toda a gente?... O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado.Depois fez um grande gesto: — Não se trata da mulher!... Não se falou da mulher! É umaquestão de honra para mim, quero mandá-lo desafiar, queromatá-lo... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 224 Carlos encolheu os ombros — Tu não estás em ti. Tens só uma coisa a fazer; é ficar ama-nhã em casa, a ver se ele te manda desafiar a ti... — O quê, o Cohen! — exclamou Ega. — É um cobarde, é umcanalha!... Ou o mato, ou lhe rasgo a cara com um chicote.Desafiar-me! Olha quem... Tu estás doido... E recomeçou o seu passear desabalado do espelho para a janela,soprando, rilhando os dentes, com repelões para trás ao manto quefazia oscilar, nas serpentinas, as chamas altas das velas. Carlos não dizia nada, de pé junto da mesa, enchendo lentamentede novo a sua chávena. Tudo aquilo começava a parecer-lhe poucosério, pouco digno, as ameaças de pontapés do marido, os furoresmelodramáticos do Ega: — e mesmo não podia deixar de sorrir diantedaquele Mefistófeles esgrouviado, espalhando pelo quarto o brilhoescarlate do seu manto de veludo, e a falar furiosamente de honra ede morte, com sobrancelhas postiças, e escarcela de couro à cinta. — Vamos falar ao Craft! — exclamou de repente Ega, parando,com esta brusca resolução. — Quero ver o que diz o Craft. Tenho láem baixo uma tipóia, estamos lá num instante! — Ir agora à quinta, aos Olivais? — disse Carlos, olhando orelógio. — Se és meu amigo, Carlos!... Carlos imediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de sevestir. Ega, no entanto, ia preparando uma chávena de chá,deitando-lhe rum, ainda tão nervoso que mal podia segurar a gar-rafa. Depois, com um grande suspiro, acendeu uma cigarette. Car-los entrara na alcova de banho, ao lado, alumiada por um fortejacto de gás que assobiava. Fora, a chuva continuava seguida emonótona, as goteiras escoavam-se no chão mole do jardim. — Achas que a tipóia aguentará? — perguntou Carlos de dentro. — Aguenta, é o Canhoto — disse Ega. Agora reparara no dominó, fora erguê-lo, examinava-lhe ocetim rico, o belo laço azul-claro. Depois, tendo encontrado diantede si o grande espelho-psyché, entalou o monóculo no olho, recuouum passo, contemplou-se de alto a baixo — e terminou por pousaruma das mãos na cinta, apoiar a outra galhardamente sobre oscopos da espada. — Eu não estava mal, ó Carlos, hem? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 225 — Estavas esplêndido — respondeu o outro de dentro daalcova. — Foi pena estragar-se tudo... Como estava ela? — Devia estar de Margarida. — E ele? — A besta? De beduíno. E continuou ao espelho, gozando a sua figura esguia, as penasda gorra, os sapatos bicudos de veludo, e a ponta flamante daespada erguendo o manto por trás, numa prega fidalga. — Mas então — disse Carlos, aparecendo a enxugar as mãos —tu não fazes ideia do que se passou, o que ele diria à mulher, oescândalo... — Não faço ideia nenhuma — disse o Ega, agora mais sereno.— Quando entrei na primeira sala estava ele, de beduíno; estavaum outro sujeito de urso, e uma senhora não sei de quê, de tirolesa,creio eu... Ele veio para mim, e disse-me aquilo: «Ponha-se fora!»Não sei mais nada... Nem posso perceber... O canalha, se descobriu,naturalmente, para não estragar a festa, não disse nada a Raquel...Depois é que elas são! Ergueu as mãos para o céu, murmurou: — É horroroso! Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois numa outra voz,franzindo a face: — Não sei que diabo aquele Godefroy me deu para colar assobrancelhas, que me picam que tem diabo! — Tira-as... Diante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu sem-blante feroz de Satanás. Mas arrancou-as por fim — e a gorraemplumada, muito justa, que lhe escaldava a cabeça. Então Carloslembrou-lhe que, para ir a casa do Craft, se desembaraçasse domanto e da espada, se agasalhasse num paletó dele. Ega deu aindaum longo e mudo olhar ao seu flamejante traje infernal, e com umprofundo suspiro começou a desafivelar o talim. Mas o paletó eramuito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra nas man-gas. Depois Carlos meteu-lhe um boné escocês na cabeça. — Eassim arranjado, com as canelas vermelhas de diabo aparecendosob o paletó, a gargantilha escarlate à Carlos IX emergindo dagola, a velha casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha o arlamentável de um Satanás pelintra, agasalhado pela caridade deum gentleman, e usando-lhe o fato velho. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 226 Baptista alumiou, grave e discreto. Ega, ao passar por ele, mur-murou: — Isto vai mal, Baptista, isto vai mal... O velho criado teve um movimento triste de ombros, como sig-nificando que nada no mundo ia bem. Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabeça sob a chuva.O Canhoto, ao ouvir falar de uma gorjeta de libra, fez um grandeespalhafato, rompeu às chicotadas; e a velha traquitana lá partiu agalope, a escorrer de água, atroando a calçada. Por vezes um coupé particular cruzava-os, os casacos deguta-percha dos criados branquejavam à luz das lanternas. Então aideia da festa que devia agora resplandecer; Margarida ignorandotudo, valsando nos braços de outros, ansiosa, à espera dele; a ceiadepois, o champanhe, as coisas brilhantes que ele teria dito —todas essas delícias perdidas se vinham cravar no coração do pobreEga, arrancavam-lhe pragas surdas. Carlos fumava silenciosa-mente, com o pensamento no Hotel Central. Depois de Santa Apolónia a estrada começou, infindável, desa-brigada, batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra,cada um para o seu canto, arrepiados na friagem que entrava pelasgretas da tipóia. Carlos não cessava de ver o casaco branco develudo, com as duas mangas abertas, como dois braços que se ofere-ciam... Passava da uma hora quando chegaram à quinta: a sineta doportão, aos puxões do cocheiro encharcado, retumbou lúgubrenaquele silêncio escuro de aldeia. Um cão ladrou furiosamente:outros latidos ao longe responderam; e ainda esperaram muito,antes que um criado, sonolento e resmungão, aparecesse com umalanterna. Uma rua de acácias conduzia à casa: o Ega praguejava,enterrando os seus belos sapatos de veludo no chão lamacento. Craft, surpreendido com aquele tumulto, veio-lhes ao encontrono corredor, de robe-de-chambre, e a Revista dos Dois Mundosdebaixo do braço. Percebeu logo que havia desastre. Levou-os emsilêncio para o seu gabinete, onde um bom lume de carvão na cha-miné aquecia, alegrava o aposento todo estofado de cretones claros.Ambos foram direitos ao lume. Ega rompera logo a contar o seu caso — enquanto Craft, semespanto nem exclamações, ia preparando metodicamente sobre amesa três grogues de conhaque e limão. Carlos, sentado ao pé do © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 227fogão, aquecia os pés: e Craft veio acabar de ouvir o Ega, acomo-dando-se também na sua poltrona, do outro lado da chaminé, com oseu cachimbo na boca. — Enfim — exclamou Ega, de pé, cruzando os braços— que meaconselhas tu agora? — Tens a fazer só isto — disse Craft — : esperar amanhã emcasa que ele te mande os seus padrinhos... Que tenho a certeza quenão manda... E depois, se vos baterdes, deixar-te ferir ou matar. — Perfeitamente o que eu disse — murmurou Carlos, provandoo seu grogue. Ega olhou-os a ambos, sucessivamente, petrificado. E logo, numfluxo de palavras desordenadas, queixou-se de não ter amigos. Aliestava, naquela crise, a maior da sua vida: e em lugar de encon-trar, nos seus camaradas de infância e de Coimbra, apoio, solida-riedade, lealdade à tort et à travers, abandonavam-no, pareciamquerer enterrá-lo, e expô-lo a irrisões maiores... Ia-se comovendo;os olhos vermelhejavam-lhe sob as lágrimas. E quando algum delesia interrompê-lo, numa palavra de senso, batia o pé, persistia nasua teima — um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sidoinsultado. Não existia outra coisa. Não se tinha falado na mulher.Era ele que devia primeiro mandar padrinhos, lavar a sua honra.Havia pessoas na sala, quando o outro o insultou. Havia um urso, euma tirolesa... E enquanto a deixar-se varar por uma bala, não!Tinha mais direito a viver que o Cohen, que era um burguês, e umagiota... E ele era um homem de estudo e de arte! Tinha na cabeçalivros, ideias, coisas grandes. Devia-se ao país, à civilização!... Sefosse ao campo, era para fazer a sua pontaria, e abater o Cohen,ali, como uma besta imunda... — Mas o que é, é que não tenho amigos! — gritou ele exaustopor fim, caindo para o canto de um sofá. Craft bebia em silêncio, e aos goles, o seu conhaque. Foi Carlos que se ergueu, sério e áspero. Ele não tinha direitode duvidar da sua amizade. Quando lhe tinha ela faltado? Mas eranecessário não ser pueril, nem teatral... A questão estava simples-mente em que o Cohen o surpreendera amando-lhe a mulher. Logo,podia matá-lo, podia entregá-lo aos tribunais, podia escavacá-lo nasala a pontapés... — Ou pior — interrompeu Craft. — Mandar-te a senhora, comeste bilhetinho: «Guarde-a.» © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 228 — Ou isso! — continuava Carlos. — Não, senhor: limita-se aproibir-te a entrada em casa, um pouco asperamente, sim, masindicando que, depois de ter feito isto, não quer nada mais violento,nem mais dramático. Teve, portanto, um acto de moderação. E tuqueres mandá-lo desafiar por isso?... Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pelasala, sem paletó agora, esguedelhado, parecendo mais fantásticonaquele simples gibão escarlate, com os sapatos de veludo enla-meados, as longas pernas de cegonha cobertas de malha de sedavermelha. E teimava que se não tratava disso! Não, não se tratavada mulher! A questão era outra... Carlos então zangou-se. — Para que diabo te expulsou ele de casa então? Não dispara-tes, homem! Nós estamos-te a dizer o que faz um homem de senso.E é triste que te custe tanto a perceber o que manda o senso.Traíste um amigo teu... Nada de equívocos! Tu declaravas bem altoa tua amizade pelo Cohen. Traíste-lo, tens de aceitar a lei: se ele tequiser matar, tens de morrer. Se ele não quiser fazer nada, tens deficar de braços cruzados. Se ele te quiser chamar aí por essas ruasum infame, tens de baixar a cabeça, e reconhecer-te infame... — Então tenho de engolir a afronta? Os dois amigos explicaram-lhe que aquele fato de Satanás lheperturbava a lucidez do critério mundano — e que chegava a sertorpe falar ele, Ega, de afronta. Ega, outra vez acabrunhado sobre o sofá, conservou ummomento a cabeça enterrada nas mãos. — Eu já nem sei — disse ele por fim. — Vocês devem terrazão... Eu estou-me a sentir idiota... Então, vamos, que hei-de eufazer? — Vocês têm a tipóia à espera? — perguntou tranquilamenteCraft. Carlos mandara desaparelhar, recolher o gado esfalfado. — Excelente! Então, meu caro Ega, tens outra coisa a fazer,antes de morrer amanhã talvez, é cear esta noite. Eu ia cear, e pormotivos longos de explicar, há nesta casa um peru frio. E há-dehaver uma garrafa de Borgonha... Daí a pouco estavam à mesa — naquela bela sala de jantar doCraft, que encantava sempre Carlos, com as suas tapeçarias ovaisrepresentando bocados solitários de arvoredo, as severas faianças © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 229da Pérsia, e a sua original chaminé flanqueada por duas figurasnegras de núbios com olhos rutilantes de cristal. Carlos, que sedeclarara esfomeado, trinchava já o peru enquanto Craft desarro-lhava, com veneração, duas garrafas do seu velho Chambertin,para reconfortar Mefistófeles. Mas Mefistófeles, sombrio e com os olhos avermelhados, repeliuo prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar oChambertin. — Pois eu — dizia Craft empunhando o talher — quando vocêschegaram, estava a ler um artigo interessante sobre a decadênciado protestantismo em Inglaterra... — Que é aquilo, além, naquela lata? — perguntou Ega, comuma voz moribunda. Um paté de foie gras. Mefistófeles escolheu com tédio umatrufa. — Bem bom, este teu Chambertin — suspirou ele. — Anda, come e bebe com franqueza — gritou-lhe Craft. — Nãote romantizes. Tu o que tens é fome. Todas as tuas ideias esta noitese ressentem da debilidade! Então Ega confessou que devia estar fraco. Com aquela excita-ção do seu traje de Satanás nem jantara, contando cear bem emcasa do outro... Sim, com efeito, tinha apetite! Excelente foie gras... E daí a pouco devorava: foram talhadas de peru, uma porçãoimensa de língua de Oxford, duas vezes presunto de York, todasaquelas boas coisas inglesas que havia sempre em casa do Craft. Eele só bebeu quase toda uma garrafa de Chambertin. O escudeiro fora preparar o café: e, no entanto, ia-se discu-tindo, em todas as hipóteses, a atitude provável do Cohen com amulher. Que faria ele? Talvez lhe perdoasse. Ega afirmava que não:era vaidoso, e de rancores longos! Num convento também não afechava, sendo judia... — Talvez a mate — disse Craft, com toda a seriedade. Ega, já com os olhos brilhantes do Borgonha, declarou tragica-mente que ele então entrava num mosteiro. Os dois gracejaram,sem piedade. Em que mosteiro queria ele entrar? Nenhum era con-génere com o Ega! Para dominicano era muito magro, para trapistamuito lascivo, muito palrador para jesuíta, e para beneditino muitoignorante... Era necessário criar uma ordem para ele! Craft lem-brou a Santa Blague! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 230 — Vocês não têm coração — exclamou Ega, enchendo outrogrande copo. — Vocês não sabem, eu adorava aquela mulher! Então largou a falar de Raquel. E teve ali, decerto, os momen-tos melhores de toda aquela paixão — porque pôde, sem escrúpulo,fazer reluzir a sua auréola de amante, banhar-se no mar de leitedas confidências vaidosas. Começou por contar o encontro com elana Foz — enquanto Craft, sem perder uma palavra, como quem seinstrui, se erguera a abrir uma garrafa de champanhe. Dissedepois os passeios na Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes eplatónicas, trocadas entre folhas de livros emprestados, em queela se assinava Violeta de Parma; o primeiro beijo, o melhor, surri-piado entre duas portas, enquanto o marido correra acima a bus-car-lhe charutos especiais; os rendez-vous no Porto, no Cemitériodo Repouso, as pressões ardentes de mãos à sombra dos ciprestes,e os planos de voluptuosidade combinados entre as lápides fúne-bres... — Muito curioso! — dizia o Craft. Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o café.Enquanto se enchiam as chávenas, e Craft fora buscar uma caixade charutos, ele acabou a garrafa de champanhe, já pálido, com onariz afilado. O criado saiu, correndo o reposteiro de tapeçaria: e logo Ega,com o cálice de conhaque ao lado, recomeçou as confidências, con-tou a volta a Lisboa, a Vila Balzac, as manhãs deliciosas passadaslá com ela no calor de um ninho de amor... Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enter-rando um momento a cabeça entre os punhos. Depois lá vinhaoutro detalhe, os nomes lúbricos que ela lhe dava, uma certacoberta de seda preta onde ela brilhava como um jaspe... Duaslágrimas embaciaram-lhe os olhos, jurou que queria morrer! — Se vocês soubessem que corpo de mulher! — gritou ele derepente. — Oh! meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocêsum peito... — Não queremos saber — disse Carlos. — Cala-te, tu estásbêbedo, miserável! Ega ergueu-se, retesando a perna, arrimado de lado à mesa. Bêbedo! Ele? Ora essa!... Era coisa que não podia, era empitei-rar-se. Tinha feito o possível, bebido tudo, até aguarrás. Nunca!Não podia... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 231 — Olha, vou pôr aquela garrafa à boca, tu verás... E fico frio,fico impassível. A discutir filosofia... Queres que te diga o quepenso de Darwin? É uma besta... Ora aí tens. Dá cá a garrafa. Mas Craft recusou-lha; e, um momento, Ega ficou oscilando, aolhar para ele, com a face lívida. — Ou me dás a garrafa... ou me dás a garrafa, ou te meto umabala no coração... Não, nem vales a bala... Vou dar-te uma bolacha! De repente os olhos cerraram-se-lhe, abateu-se sobre a cadeira,daí sobre o chão, como um fardo. — Terra! — disse tranquilamente Craft. Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam João daEga. E enquanto o levavam para o quarto dos hóspedes e lhe des-piam o fato de Satanás, não cessou de choramingar, dando beijosbabosos pelas mãos de Carlos, balbuciando: — Raquelzinha!... Racaquê, minha Raquelzinha! Gostas do teubibichinho?... Quando Carlos partiu na tipóia para Lisboa, não chovia, umvento frio ia varrendo o céu, já clareava a alvorada. Ao outro dia, às dez horas, Carlos voltou aos Olivais. AchouCraft dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janelas tinham ficadoabertas, um largo raio de Sol dourava o leito; e ele ressonavaainda, no meio daquela auréola, deitado de lado, com os joelhoscontra o estômago, o nariz dentro dos lençóis. Quando Carlos o sacudiu, o pobre John abriu um olho triste, ebruscamente ergueu-se sobre o cotovelo, espantado para o quarto,para os cortinados de damasco verde, para um retrato de damaempoada que lhe sorria de dentro da sua moldura dourada. Decertoas memórias da véspera o assaltaram, porque se enterrou parabaixo, com os lençóis até ao queixo; e a sua face esverdeada, enve-lhecida, exprimiu a desconsolação de deixar aqueles fofos colchões,a paz confortável da quinta — para ir afrontar a Lisboa toda asorte de coisas amargas. — Está frio lá fora? — perguntou ele melancolicamente. — Não, está um dia adorável. Mas levanta-te, depressa! Se láfor alguém da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste... Ega deu imediatamente um pulo na cama, e atordoado, esguede-lhado, procurava a roupa, com as canelas nuas, tropeçando contraos móveis. Só achou o gibão de Satanás. Chamaram o criado, quetrouxe umas calças de Craft. Ega enfiou-as à pressa: e sem se lavar, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 232com a barba por fazer, a gola do paletó erguida, enterrou enfim nacabeça o boné escocês, voltou-se para Carlos, disse com ar trágico: — Vamos a isso! Craft, que se erguera, foi acompanhá-los ao portão, onde espe-rava o coupé de Carlos. Na alameda de acácias, tão tenebrosa navéspera sob a chuva, cantavam agora os pássaros. A quinta, frescae lavada, verdejava ao Sol. O grande terra-nova do Craft pulava emroda deles. — Dói-te a cabeça, Ega? — perguntou Craft. — Não — respondeu o outro, acabando de abotoar o paletó. —Eu ontem não estava bêbedo... O que estava era fraco. Mas, ao entrar para o coupé, fez, com um ar profundo e filosó-fico, esta reflexão: — O que é a gente beber bons vinhos... Estou como se não fossenada! Craft recomendou que, se houvesse novidade, lhe mandassemum telegrama; fechou a portinhola, o coupé partiu. Durante a manhã não veio telegrama à quinta; e quando Craftapareceu na Vila Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperavaà porta, já escurecera, duas velas ardiam na triste sala verde. Car-los, estirado no sofá, dormitava, com um livro aberto sobre o estô-mago: e Ega passeava de um lado para o outro, todo vestido depreto, pálido, com uma rosa na botoeira. Tinham estado ali na sala,naquela seca, esperando todo o dia as testemunhas do Cohen. — Que te dizia eu? Não há nada, nem podia haver — murmu-rou Craft. Mas Ega, agora agitado de ideias negras, temia que ele tivesseassassinado a mulher! O sorriso céptico de Craft indignou-o. Quemconhecia melhor o Cohen do que ele? Sob a aparência burguesa, eraum monstro! Tinha-lhe visto matar um gato, só por capricho dederramar sangue... — Tenho um pressentimento de desgraça — balbuciou ele ater-rado. E logo nesse momento a campainha retiniu. Ega acordou preci-pitadamente Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto decama. Craft ainda lhe disse que, àquela hora, não podiam ser osamigos do Cohen. Mas ele queria estar só na sala: e lá ficou, maispálido, rígido, muito abotoado na sobrecasaca, com os olhos crava-dos na porta. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 233 — Que maçada! — dizia Carlos dentro, tenteando a escuridãodo quarto. Craft acendeu no toucador um resto de vela. Uma luz tristeespalhou-se, tudo apareceu num desarranjo: no meio do chãoestava caída uma camisa de dormir; a um canto ficara a bacia debanho com água de sabão; e, no centro, o enorme leito, envolto nassuas cortinas de seda vermelha, conservava uma majestade detabernáculo. Um momento estiveram calados. Craft, metódico, e como quemse instrui, examinava o toucador, onde havia um maço de ganchosde cabelo, uma liga com o fecho quebrado, um ramo de violetasmurchas. Depois foi olhar o mármore da cómoda: aí ficara um pratocom ossos de frango, e ao lado uma meia folha de papel escrita alápis, toda emendada, decerto trabalho literário do Ega. Ele achavatudo isto muito curioso. Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e íntimo.Carlos, escutando, julgou sentir uma fala abafada de mulher...Impaciente, foi à cozinha. A criada estava sentada à mesa, com amão metida pelos cabelos, sem fazer nada, a olhar para a luz: opajem, espaparrado numa cadeira, chupava o seu cigarro. — Quem foi que entrou? — perguntou Carlos. — Foi a criada do Sr. Cohen — disse o garoto, escondendo ocigarro atrás das costas. Carlos voltou ao quarto, anunciando: — É a confidente. As coisas terminam amavelmente. — E como queria você que terminassem? — disse Craft. — OCohen tem o seu banco, os seus negócios, as suas letras a vencer, oseu crédito, a sua respeitabilidade, todo um arranjo de coisas a quenão convém um escândalo... É isto que calma os maridos. Alémdisso, já se satisfez, já lhe ofereceu pontapés... Nesse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violenta-mente a porta. — Não há nada — exclamou ele. — Deu-lhe uma coça, e vãoamanhã para Inglaterra! Carlos olhou para o Craft — que movia a cabeça, como vendotodas as suas previsões realizadas, e aprovando plenamente. — Uma coça — dizia o Ega, com os olhos chamejantes e numavoz que sibilava. — E depois fizeram as pazes... Vem ainda a serum ménage modelo! A bengala purifica tudo... Que canalha! © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 234 Estava furioso. Nesse momento odiava Raquel — não perdoandoao seu ídolo ter-se deixado desfazer à paulada. Lembrava-se justa-mente da bengala do Cohen, um junco da Índia, com uma cabeça degalgo por castão. E aquilo zurzira as carnes que ele tinha apertadocom paixão! Aquilo pusera vergões roxos onde os seus lábios tinhamavivado sinais cor-de-rosa! E tinham feito as pazes. E assim termi-nava, reles e chinfrim, o romance melhor da sua vida! Prefeririasabê-la morta, a sabê-la espancada. Mas não! Levava a sova, dei-tava-se depois com o marido, e ele mesmo, decerto arrependido, cha-mando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a fazer as aplica-ções de arnica! Aquilo acabava em arnica! — Entre vossemecê para aqui, Sr.a Adélia — gritou ele para asala — entre para aqui! Aqui só há amigos. O segredo acabou, opudor acabou! Isto são amigos! Somos três, mas somos um! Temvossemecê diante de si o grande mistério da Santíssima Trindade.Sente-se, Sr.a Adélia, sente-se... Não faça cerimónia... E pode con-tar... Aqui a Sr.a Adélia, meninos, viu tudo, viu a coça! A Sr.a Adélia, uma moça gordinha e baixa, de bonitos olhos, comum chapéu de flores vermelhas, veio logo da sala rectificando. Não,ela não vira... Então o Sr. Ega não tinha percebido bem... Ela sóouvira . — Aqui está como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a pé,naturalmente, até ao fim do baile, que estava que nem me tinhanas pernas. Era já dia claro, quando o senhor, ainda vestido demouro, se fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinhacom o Domingos à espera que eles tocassem a campainha. Derepente ouvimos gritos!... Eu fiquei estarrecida, pensei até queeram ladrões. Corremos, eu e o Domingos, mas a porta do quartoestava fechada, e os dois estavam por dentro, lá para o fundo daalcova. Eu ainda pus o olho à fechadura, mas não pude ver nada...Lá o estalar de bofetadas, e trambolhões, e sons de bengalada, issosim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu disse logo aoDomingos: «Ai que é uma questão, ai que lá se foi tudo.» Mas derepente, silêncio geral! Nós voltámos para a cozinha; daí a pouco oSr. Cohen apareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, adizer que nos podíamos deitar, que eles não precisavam nada, e queamanhã falaríamos!... Depois lá ficaram toda a noite, e pela manhãparece que estavam muito amiguinhos... Que eu não pus os olhosna senhora. O Sr. Cohen, apenas se levantou, veio à cozinha, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 235fez-me ele as contas, e pôs-me fora; muito malcriado, até me amea-çou com a polícia... Foi pelo Domingos que eu soube agora, quandofui buscar o baú com um galego, que o Sr. Cohen ia com a senhorapara Inglaterra. Enfim, um chinfrim... Eu até tenho estado todo odia com o estômago embrulhado. A Sr.a Adélia, com um suspiro, pondo os olhos no chão, calou-se.Ega, com os braços cruzados, olhava amargamente para os seusamigos. Que lhes parecia aquilo? Uma coça!... Se um cobardedaqueles não merecia uma bala no coração! Mas ela também, dei-xar-se tocar, não ter fugido, consentir ainda depois em dormir comele!... Tudo uma corja! — E a Sr.a Adélia — perguntava Craft — não tem ideia de comoele descobriu?... — Isso é que é prodigioso! — gritou Ega, apertando as mãos nacabeça. Sim, prodigioso! Não fora carta apanhada: eles não se escre-viam. Não podia ter surpreendido as visitas à Vila Balzac: as coisasestavam combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamenteimpenetráveis. Para vir ali, nunca ela cometera a indiscrição de seservir da sua carruagem. Nunca ela claramente entrara pela porta.Os criados dele nunca a tinham visto, não sabiam quem era asenhora que o visitava... Tantos cuidados, e tudo estragado! — Estranho, estranho! — murmurava Craft. Houve um silêncio. A Sr.a Adélia terminara por descansar fami-liarmente numa cadeira, com a sua trouxazinha no regaço. — Pois olhe, Sr. Ega — disse ela, depois de reflectir — creiaentão uma coisa, é que foi em sonhos. Já tem acontecido... Foi asenhora que sonhou alto com Vossa Excelência, disse tudo, o Sr.Cohen ouviu, ficou de pedra no sapato, espreitou-a, e descobriu amarosca... E eu sei que ela sonha alto. Ega, diante da Sr.a Adélia, percorria-a desde as flores do cha-péu até à roda das saias, com os olhos faiscantes. — Como é possível que ele ouvisse? Se eles tinham quartosseparados!... Eu sei que tinham. A Sr.a Adélia baixou as pálpebras, acariciou com os dedos calça-dos de luvas pretas a sua trouxazinha redonda, e disse mais baixoestas palavras: — Não tinham, não senhor. Nem a senhora consentia em talarranjo... A senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciúmes dele. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 236 Houve um silêncio embaraçado e desagradável. Sobre o touca-dor o resto da vela acabava, com uma luz lúgubre. E Ega, que afec-tara sorrir, encolher os ombros, dava pelo quarto passos lentos emurchos, triturando o bigode com a mão trémula. Então Carlos,enojado, cansado daquele episódio que durava desde a véspera, eonde constantemente se remexera em lodo, declarou que era neces-sário findar! Eram oito horas, e ele queria jantar... — Sim, vamos todos jantar — murmurou o Ega, com o ar con-fuso e embaçado. De repente fez um sinal à Sr.a Adélia, arrastou-a para a sala,fechou-se lá outra vez. — Você não está farto disto, Craft? — exclamou Carlos, deses-perado. — Não. Acho um estudo curioso. Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vela extinguiu-se.Carlos, furioso, gritou pelo pajem. E o garoto entrava com umimundo candeeiro de petróleo — quando Ega, mais composto, voltouda sala. Tudo acabara, a Sr.a Adélia partira. — Vamos lá jantar — disse ele. — Mas aonde, a esta hora? E ele mesmo lembrou o André, ao Chiado. Em baixo, além docoupé de Carlos, esperava a tipóia do Craft. As duas carruagenspartiram. A Vila Balzac ficava apagada, muda, de ora em dianteinútil. No André tiveram de esperar muito tempo, num gabinetetriste, com um papel de estrelinhas douradas, cortininhas de cassabarata sob sanefas de repes azul, e dois bicos de gás que silvavam.Ega, enterrado no sofá de molas gastas e lassas, cerrara os olhos,parecia exausto. Carlos ia contemplando as gravuras pela parede,todas relativas a espanholas: uma saindo da igreja; outra saltandouma pocinha de água; outra, de olhos baixos, escutando os conse-lhos de um canónico. Craft, já à mesa, com a cabeça entre ospunhos, percorria um Diário da Manhã, que o criado oferecerapara os senhores se entreterem. De repente o Ega deu um murro no sofá, que rangeu lamenta-velmente. — Eu o que não percebo — gritou ele — é como aquele malvadodescobriu!... — A hipótese da Sr.a Adélia — disse Craft erguendo os olhos dojornal — parece provável. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 237senhora descaiu-se. Ou talvez uma denúncia anónima. Ou talvezapenas um acaso... O facto é que o homem desconfiou, espreitou-a,e apanhou-a. Ega erguera-se. — Eu não vos quis dizer diante da Adélia, que não estava nosegredo todo. Mas vocês sabem a casa defronte da minha, do outrolado da viela, uma casa com um grande quintal? Aí mora uma tiado Gouvarinho, a D. Maria Lima, uma pessoa respeitável. A Raquelia vê-la de vez em quando. São íntimas, a D. Maria Lima é íntimade todo o mundo. Depois saía por uma portinha do quintal, atraves-sava a viela, e estava à porta da minha casa, à porta escusa, àporta da escada que vai ter ao cacifro de banho. Já vocês vêem... Oscriados nem a avistavam. Quando ela lá lanchava, o lunch estavajá posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguémvisse, era uma senhora com um véu preto, que vinha de casa daLima... Como podia o homem apanhá-la?... Além disso, em casa daLima, ela mudava de chapéu e punha um water-proof... Craft cumprimentou. — É brilhante! Parece de Scribe. — Então — disse Carlos sorrindo — essa respeitável fidalga... — A D. Maria, coitada... Eu te digo, é uma excelente velha,recebida em toda a parte, mas pobre, e faz destes favores... Àsvezes mesmo em casa dela. — Leva caro por esses serviços? — perguntou tranquilamenteCraft, que em todo aquele caso procurava instruir-se. — Não, coitada — disse o Ega. — Dão-se-lhe de vez em quandocinco libras. O criado entrava com uma travessa de camarões, os três emsilêncio acomodaram-se à mesa. Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega ia lá dormir,receando, com os nervos tão excitados, a solidão da Vila Balzac.Partiram, de charutos acesos, numa caleche descoberta, sob a noiteestrelada e doce. Felizmente não estava ninguém no Ramalhete; Ega, cansado,pôde retirar-se logo para o seu quarto, um aposento de hóspedes nosegundo andar, onde havia um belo leito antigo de pau-preto. Aí,apenas o criado o deixou, Ega aproximou-se do tremó onde ardiamas luzes, e tirou do pescoço, de sob a camisa, um medalhão de ouro.Tinha dentro uma fotografia de Raquel: — e a sua intenção agora © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 238era queimá-la, deitar ao balde das águas sujas as cinzas daquelapaixão. Mas, ao abrir o medalhão, a face bonita, banhada num sor-riso, sob o vidro oval, pareceu olhar para ele com uma tristeza noveludo das pupilas lânguidas... A fotografia mostrava apenas acabeça, com uma abertura de decote no começo do vestido: e asrecordações de Ega alargaram aquele decote uma vez mais,revendo o colo, o extraordinário cetim da pele, o sinalzinho sobre oseio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe de novo noslábios, sentiu na alma outra vez como o eco dos suspiros cansadosque ela soltara nos seus braços. E ela ia-se embora, nunca mais averia! Esta desolada amargura do nunca mais revolveu-o todo — ecom a face enterrada no travesseiro, o pobre demagogo, o grandefraseador soluçou muito tempo no segredo da noite. Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro diaDâmaso aparecera no Ramalhete, e por ele ouviram os rumores deLisboa. Já se sabia no Grémio, no Chiado, por toda a parte, que elefora expulso da casa dos Cohens. O urso, a pastora do Tirol, teste-munhas do episódio, tinham-no badalado com entusiasmo. Dizia-semesmo que o Cohen lhe dera um pontapé. Os amigos da casa,esses, sobretudo o Alencar, pregavam com fervor a inocência daSr.a D. Raquel. O Alencar contava publicamente que o Ega, provin-ciano inexperiente e leão de Celorico, tendo tomado por evidênciasde paixão os sorrisos de amabilidade de uma senhora que recebe —escrevera à Sr.a D. Raquel uma carta quase obscena, que ela, coita-dinha, toda em lágrimas, viera mostrar ao marido. — Então dão-me para baixo, hem, Dâmaso? — murmurou Ega,que, no gabinete de Carlos, embrulhado numa velha ulster e enco-lhido numa poltrona, escutava estas coisas com um ar cansado edoente. Dâmaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo. Ah, ele sabia-o bem! Tinha antipatias em Lisboa. Ninguém lheperdoara ainda a peliça. A sua verve, toda em sarcasmos, ofendia. Eera desagradável para muita gente que um homem, com esse espí-rito tão perigoso de ferro em brasa, tivesse uma mãe rica, e fosseindependente. Depois, no sábado seguinte, Carlos ao voltar do jantar dos Gou-varinhos — que fora excelente — contou-lhe a conversa que tiveracom a senhora condessa. A condessa falara-lhe muito livremente,como um homem, daquele desastre do Ega. Tinha-se afligido muito, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 239não só pela Raquel, coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, queela apreciava tanto, tão interessante, tão brilhante, e que saía detudo aquilo enxovalhado! O Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gou-varinho) que ameaçara o Ega de pontapés, por ele ter escrito a suamulher uma carta imunda. Os que não sabiam nada, como o Gou-varinho, acreditavam, apertavam as mãos na cabeça; e os quesabiam, os que havia seis meses sorriam da intimidade do Ega comos Cohens, afectavam também acreditar, cerravam os punhos deindignação. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa que vive entre oGrémio e a Casa Havanesa folgava em «enterrar» o Ega. Ega, com efeito, sentia-se «enterrado». E nessa noite declarou aCarlos que decidira recolher-se à quinta da mãe, passar lá um anoa acabar as Memórias de Um Átomo, e reaparecer em Lisboa com oseu livro publicado, triunfando sobre a cidade, esmagando osmedíocres. Carlos não perturbou esta radiante ilusão. Mas quando Ega, antes de partir, foi a recapitular os seus negó-cios de casa, de dinheiro, encontrou-se diante de coisas abomináveis.Devia a todo o mundo, desde o estofador até ao padeiro; tinha trêsletras a vencer; aquelas dívidas, se as deixasse, soltas e ladrando,juntar-se-iam, na tagarelice pública, ao caso dos Cohens — e eleseria, além do amante ameaçado de pontapés, o pelintra perseguidopelos credores! Que havia de fazer, senão valer-se de Carlos? Carlos,para regular tudo, emprestou-lhe dois contos de réis. Depois, tendo despedido os criados da Vila Balzac, surgiram-lheoutras complicações. A mãe do pajem veio daí a dias ao Ramalhete,muito insolente, gritando que o filho lhe desaparecera! E eraexacto: o famoso pajem, pervertido pela cozinheira, sumira-se comela para as vielas da Mouraria, a começar aí uma divertida car-reira de faia. Ega recusou-se a atender as reclamações da matrona. Quediabo tinha ele com essas torpezas? Então o amante da criatura interveio, ameaçadoramente. Eraum polícia, um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria fácilprovar como na Vila Balzac se passavam «coisas contra a Natu-reza», e que o pajem não era só para servir à mesa... Nauseado atéà morte, Ega pactuou com a intrujice, largou cinco libras ao polícia.Quando nessa noite, uma noite triste de água, Carlos e Craft oacompanharam a Santa Apolónia, ele disse-lhes na carruagemestas palavras, triste resumo de um amor romântico: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 240 — Sinto-me como se a alma me tivesse caído a uma latrina!Preciso um banho por dentro! Afonso da Maia, ao saber este desastre do Ega, tinha dito aCarlos, com tristeza: — Má estreia, filho, péssima estreia! E nessa noite, depois de voltar de Santa Apolónia, Carlos pen-sava nestas palavras, dizia também consigo: «Péssima estreia!...». Enem só a estreia do Ega era péssima; também a sua. E talvez, porpensar nisso, as palavras do avô tinham tido aquela tristeza. Péssi-mas estreias! Havia seis meses que o Ega chegara de Celorico,embrulhado na sua grande peliça, preparado a deslumbrar Lisboacom as Memórias de Um Átomo, a dominá-la com a influência deuma revista, a ser uma luz, uma força, mil outras coisas... E agora,cheio de dívidas e cheio de ridículo, lá voltava para Celorico, escor-raçado. Péssima estreia! Ele, por seu lado, desembarcara em Lisboa,com ideias colossais de trabalho, armado como um lutador: era oconsultório, o laboratório, um livro iniciador, mil coisas fortes... Eque tinha feito? Dois artigos de jornal, uma dúzia de receitas, e essemelancólico capítulo da Medicina entre os Gregos. Péssima estreia! Não, a vida não lhe parecia prometedora nesse instante, pas-seando na sala de bilhar com as mãos nos bolsos, enquanto ao ladoos amigos conversavam, e fora uivava o sudoeste. Pobre Ega, queinfeliz ele iria, encolhido ao canto do seu vagão! Mas os outros, ali,não estavam mais alegres. Craft e o marquês tinham começadouma conversa sobre a vida, soturna e desconsoladora. De que ser-via viver, dizia Craft, não se sendo um Livingstone ou um Bis-marck? E o marquês, com um ar filosófico, achava que o mundo seia tornando estúpido. Depois chegou o Taveira com a história horrí-vel de um colega dele, cujo filho caíra pela escada, se despedaçara,no momento em que a mulher estava a morrer de uma pleurisia.Cruges resmungou o quer que fosse sobre o suicídio. As palavrasarrastavam-se, melancólicas. Instintivamente, Carlos, de vez emquando, ia despertar as lâmpadas. Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando daí a instantesDâmaso chegou, e lhe disse que o Castro Gomes estava incomodadoe de cama. — Naturalmente — acrescentou o Dâmaso — mandam-te cha-mar, por teres já visto a pequena... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 241 Carlos ao outro dia não saiu de casa, esperando um recado,faiscando de impaciência. Nenhum recado veio. E, duas tardesdepois, ao descer para o Aterro — o primeiro encontro que teve, àsJanelas Verdes, foi o Castro Gomes, de caleche descoberta, com amulher ao lado, e a cadelinha no colo. Ela passou, sem o ver. E logo ali Carlos decidiu findar aquelatortura, pedir muito simplesmente ao Dâmaso que o apresentasseao Castro Gomes, antes de ele partir para o Brasil... Não podiamais, precisava ouvir a voz dela, ver o que os seus olhos diziamquando eram interrogados de perto. Mas toda essa semana achou-se constantemente, sem sabercomo, na companhia dos Gouvarinhos. Começou por encontrar oconde, que lhe travou do braço, arrastou-o à Rua de S. Marçal, ins-talou-o numa poltrona, no seu escritório, e leu-lhe um artigo quedestinava ao Jornal do Comércio sobre a situação dos partidos emPortugal: depois convidou-o a jantar. Na tarde seguinte eles tinhamuma partida de croquet. Carlos foi. E, a uma janela, aberta sobre ojardim, teve um momento de intimidade com a condessa, contou-lhe,rindo, como os cabelos dela o tinham encantado, a primeira vez quea vira. Nessa noite, ela falou de um livro de Tennyson, que não lera;Carlos ofereceu-lho, foi-lho levar ao outro dia, de manhã.Encontrou-a só, toda vestida de branco: e riam, baixavam já a voz,as duas cadeiras estavam mais juntas — quando o escudeiro anun-ciou a Sr.a D. Maria da Cunha. Era uma coisa tão extraordinária, aD. Maria da Cunha àquela hora! Carlos, de resto, gostava muito daD. Maria da Cunha, uma velha engraçada, toda bondade, cheia desimpatia por todos os pecados — e ela mesmo muito pecadoraquando era a linda Cunha. D. Maria era muito faladora, parecia terque dizer em particular à condessa; e Carlos deixou-as, prometendovoltar uma dessas tardes tomar chá, e falar de Tennyson. Na tarde em que ele se vestia para lá ir, Dâmaso apareceu-lheno quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e deferro. O telhudo do Castro Gomes mudara de ideia, já não ia aoBrasil! Ficava ali, no Central, até ao meado do Verão! De sorte queestava tudo estragado... Carlos pensou logo em falar da sua apresentação ao CastroGomes. Mas, como em Sintra, sem saber porquê, veio-lhe umarepugnância de a conhecer por meio do Dâmaso. E foi-se vestindoem silêncio. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 242 Dâmaso, no entanto, maldizia a sua chance: — E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse ocasião.Mas que diabo queres tu, assim?... Queixou-se então do Castro Gomes. Em resumo, era umtelhudo. E a vida daquele homem era misteriosa... Que diaboestava ele a fazer em Lisboa? Ali havia dificuldades de dinheiro... Eeles não se davam bem. Na véspera houvera decerto questão.Quando ele entrara, ela estava com os olhos vermelhos, e enfiada; eele, nervoso, a passear pela sala, a retorcer a barba... Ambos con-trafeitos, uma palavra cada quarto de hora... — Sabes tu? — exclamou ele. — Tenho minha vontade de osmandar à fava. Queixou-se também dela. Era sobretudo muito desigual. Orabom modo, ora regelada; e, às vezes, ele dizia qualquer coisa muitonatural, destas coisas de conversa de sociedade, e ela punha-se arir. Era de encavacar, hem? Enfim, gente muito esquisita. — Onde vais tu? — disse ele, com um suspiro de aborrecimento,vendo Carlos pôr o chapéu. Ia tomar chá com a Gouvarinho. — Pois olha, vou contigo... Estou de uma seca. Carlos hesitou um instante, terminou por dizer: — Vem, fazes-me até favor... A tarde estava lindíssima. Carlos ia no dog-cart. — Há que tempos que não damos assim um passeio juntos —disse Dâmaso. — Tu andas lá metido com estrangeiros!... Dâmaso deu outro suspiro, e não tornou a dizer mais nada.Depois, à porta dos Gouvarinhos, quando soube que a senhora con-dessa recebia, resolveu subitamente não entrar. Não, não entrava.Estava muito estúpido, incapaz de achar uma palavra... — Ah!, e outra coisa que me lembrou agora — exclamou ele,demorando ainda Carlos diante do portão. — O Castro Gomes, ontem,perguntou-me o que te havia de mandar pela visita à pequena... Eudisse que tu tinhas ido lá por favor, como meu amigo. E ele disse quete havia de vir deixar um bilhete... Naturalmente vens a conhecê-los. Não era, pois, necessário que Dâmaso o apresentasse! — Aparece à noite, Damasozinho, vai lá jantar amanhã!—exclamou Carlos, subitamente radiante, dando um ardente apertode mão ao seu amigo. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 243 Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir o chá.A sala, forrada de um papel severo, verde e oiro, com retratos defamília em caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre afolhagem do jardim. Em cima das mesas havia cestos de flores. Nosofá, duas senhoras de chapéu, ambas de preto, conversavam, coma chávena na mão. A condessa, ao estender os dedos a Carlos,ficara tão cor-de-rosa — como a seda acolchoada da cadeira em queestava recostada, ao pé de um velador de pau-santo. Notou logo,sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que lhe tinha acontecido de bom?Carlos sorriu também, disse que não era possível entrar ali comoutro ar. Depois perguntou pelo conde... O conde ainda não aparecera, detido decerto na Câmara dos Pares,onde se discutia o projecto sobre a Reforma da Instrução Pública. Uma das senhoras de preto fazia votos para que se aliviassemos estudos. As pobres crianças sucumbiam verdadeiramente àquantidade exagerada de matérias, de coisas a decorar: o dela, oJoãozinho, andava tão pálido e tão desfigurado, que ela às vezestinha vontade de o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhorapousou a chávena sobre uma console ao lado, e, passando sobre oslábios a renda do lenço, queixou-se sobretudo dos examinadores.Era um escândalo as exigências e as dificuldades que punham, sópara poder deitar RR... Ao pequeno dela tinham feito as perguntasmais estúpidas, as mais reles; assim, por exemplo, o que era osabão, porque lavava o sabão?... A outra senhora e a condessa apertaram as mãos contra o peito,consternadas. E Carlos, muito amável, concordou que era uma abo-minação. O marido dela — continuava a dama de preto — ficaratão desesperado que, encontrando o examinador no Chiado, oameaçou de lhe dar bengaladas. Uma imprudência, decerto; mas,enfim, o homem fora malvado!... Não havia verdadeiramente senãouma coisa digna de se estudar, eram as línguas. Parecia insensatoque se torturasse uma criança com botânica, astronomia, física...Para quê? Coisas inúteis na sociedade. Assim, o pequeno dela,agora, tinha lições de química... Que absurdo! Era o que o pai dizia— para quê, se ele o não queria para boticário? Depois de um silêncio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmotempo; e houve um murmúrio de beijos, um frufru de sedas. Carlos ficou só com a senhora condessa, que recuperara a suacadeira cor-de-rosa. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 244 Imediatamente ela perguntou pelo Ega — Coitado, lá está para Celorico. Ela protestou, com um lindo riso, contra aquela frase tão feia:«Lá está para Celorico.» Não, não queria... Coitado do Ega! Mereciauma melhor oração fúnebre. Celorico era horrível para um fim deromance... — Decerto — exclamou Carlos, rindo também — era mais belodizer-se: lá está para Jerusalém! Nesse momento o criado anunciou um nome, e apareceu oamigo Teles da Gama, um íntimo da casa. Quando soube que oconde devia estar ainda batalhando sobre a Reforma da Instrução,levou as mãos à cabeça como lamentando um tão feio desperdíciode tempo, e não se quis demorar. Não, nem mesmo o excelente cháda senhora condessa o tentava. A verdade era que estava tão aban-donado da graça de Deus, perdera de tal modo o sentimento dascoisas belas, que entrara, não para ver a senhora condessa — massimplesmente falar ao conde. Então ela teve um bonito ar de prin-cesa ofendida, perguntou a Carlos se uma tão rude sinceridade demontanhês não fazia saudades das maneiras polidas do AntigoRegime. E Teles da Gama, gingando de leve, declarava-se demo-crata, homem da Natureza, com um riso que lhe mostrava dentesmagníficos. Depois, ao sair, dando um shake-hands ao amigo Maia,quis saber quando o príncipe de Santa Olávia lhe dava enfim ahonra de vir jantar com ele. A senhora condessa indignou-se. Não,era realmente de mais! Fazer convites, na sua sala, diante dela —um homem que falava tanto da sua cozinheira alemã, e nem sequerlhe oferecera jamais um prato de chou-crôute! Teles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava aarranjar a sua sala de jantar para dar à senhora condessa umafesta que havia de ficar nos anais do Reino! Agora com o Maia eradiferente: jantavam ambos na cozinha, com os pratos sobre os joe-lhos. E abalou, gingando sempre, rindo ainda da porta, mostrandoos dentes magníficos. — Muito alegre, este Gama, não é verdade? — disse a condessa. — Muito alegre — disse Carlos. Então a condessa olhou o relógio. Eram cinco e meia, àquelahora ela já não recebia: podiam, enfim, conversar um momento, emboa camaradagem. E, o que houve, foi um silêncio lento, em que osolhos de ambos se encontraram. Depois Carlos perguntou por © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 245Charlie, o seu lindo doente. Não estava bem, com uma ligeira tosseapanhada no Passeio da Estrela. Ah!, aquela criança nunca dei-xava de lhe dar cuidado! Ficou calada, com o olhar esquecido notapete, movendo languidamente o leque: tinha nessa tarde uma toi-lette exagerada, de um tom de folha de Outono amarelada, de umaseda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge de folhassecas. — Que lindo tempo tem feito! — exclamou ela de repente, comoacordando. — Lindo! — disse Carlos. — Eu estive há dias em Sintra, e nãoimagina... Era de uma beleza de idílio. E imediatamente arrependeu-se, quis-se mal por ter falado dasua ida a Sintra, naquela sala. Mas a condessa mal o escutara. Tinha-se erguido, falando dealgumas canções que essa manhã recebera de Inglaterra, as novi-dades frescas da season. Depois, sentou-se ao piano, correu osdedos no teclado, perguntou a Carlos se conhecia aquela melodia —The Pale Star. Não, Carlos não conhecia. Mas todas essas cançõesinglesas se parecem, sempre do mesmo tom dolente, romanesco, emuito miss. E trata-se sempre de um parque melancólico, umregato lento, um beijo sob os castanheiros... Então a condessa leu alto a letra da Pale Star. E era a mesmacoisa, uma estrelinha de amor palpitando no crepúsculo, um lagopálido, um tímido beijo sob as árvores... — É sempre o mesmo — disse Carlos — e é sempre delicioso. Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquilo estú-pido. Começou a remexer entre os papéis de música, nervosa, e comum olhar que escurecia. Para quebrar o silêncio, Carlos gabou-lheas suas lindas flores. — Ah, vou-lhe dar uma rosa! — exclamou ela logo, deixando asmúsicas. Mar a flor que ela lhe queria dar estava no boudoir, ao lado.Carlos seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo douradode folhagem de Outono batida do sol. Era um gabinete forrado deazul, com um bonito tremó do século XV, e sobre um forte pedestalde carvalho, o busto em barro do conde, na sua expressão de ora-dor, a fronte erguida, a gravata desmanchada, o lábio fremente... A condessa escolheu um botão com duas folhas, e ela mesmo lheveio florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 246calor que subia do seu seio arfando com força. E ela não acabava deprender a flor, com os dedos trémulos, lentos, que pareciamcolar-se, deixar-se adormecer sobre o pano... — Voilà! — murmurou enfim, muito baixo. — Aí está o meubelo cavaleiro da Rosa Vermelha... E agora, não me agradeça! Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com oslábios nos lábios dela. A seda do vestido roçava-lhe, com um finoruge-ruge entre os braços; — e ela pendia para trás a cabeça,branca como uma cera, com as pálpebras docemente cerradas. Eledeu um passo, tendo-a assim enlaçada, e como morta; o seu joelhoencontrou um sofá baixo, que rolou e fugiu. Com a cauda de sedaenrolada nos pés, Carlos seguiu, tropeçando, o largo sofá, querolou, fugiu ainda, até que esbarrou contra o pedestal onde osenhor conde erguia a fronte inspirada. E um longo suspiro mor-reu, num rumor de saias amarrotadas. Daí a um momento estavam ambos de pé: Carlos, junto dobusto, coçando a barba, com o ar embaraçado, e já vagamente arre-pendido: ela, diante do tremó Luís XV, compondo, com os dedos tré-mulos, o frisado do cabelo. De repente, na antecâmara, ouviu-se avoz do conde. Ela, bruscamente, voltou-se, correu a Carlos, e, comos longos dedos cobertos de pedrarias, agarrou-lhe o rosto,atirou-lhe dois beijos faiscantes ao cabelo e aos olhos. Depois, sen-tou-se largamente no sofá — e estava falando de Sintra, rindo alto,quando o conde entrou, seguido de um velho calvo, que se vinha aassoar a um enorme lenço de seda da Índia. Ao ver Carlos no boudoir, o conde teve uma bela surpresa,esteve-lhe apertando as mãos muito tempo, com calor, assegurando-lheque ainda nessa manhã, na Câmara, se lembrara dele... — Então porque vieram tão tarde? — exclamou a condessa, quese apoderara logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amável. — O nosso conde falou! — disse o velho, ainda com o olho bri-lhante de entusiasmo. — Falaste? — exclamou ela, voltando-se com um interesseencantador. É verdade, falara — e desprevenido! Quando ouvira porém oTorres Valente (homem de literatura, mas um doido, sem sensoprático), quando o ouvira defender a ginástica obrigatória nos colé-gios — erguera-se. Mas não imaginasse o amigo Maia que ele tinhafeito um discurso. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 247 — Ora essa! — exclamou o velho, agitando o lenço.— E um dosmelhores que eu tenho ouvido na Câmara! Dos de arromba! O conde, modestamente, protestou. Não: tinha simplesmentelançado uma palavra de bom senso, e de bom princípio. Perguntaraapenas ao seu ilustre amigo, o Sr. Torres Valente, se, na sua ideia,os nossos filhos, os herdeiros das nossas casas, estavam destinadospara palhaços!... — Ah, esta piada, senhora condessa! — exclamou o velho. — Eusó queria que Vossa Excelência ouvisse esta piada... E como ele adisse! com um chique! O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lheaquilo. E, respondendo a outras reflexões do Torres Valente, que nãoqueria nos liceus, nem nos colégios, um ensino «todo impregnado decatecismo», ele lançara-lhe uma palavra cruel. — Terrível! — exclamou o velho num tom cavo, preparando olenço para se assoar outra vez. — Sim, terrível... Voltei-me para ele e disse-lhe isto: «Creia odigno par que nunca este país retomará o seu lugar à testa da civi-lização, se, nos liceus, nos colégios, nos estabelecimentos de instru-ção, nós outros, os legisladores, formos, com mão ímpia, substituira cruz pelo trapézio...» — Sublime! — rosnou o velho, dando um ronco medonho dentrodo lenço. Carlos, erguendo-se, declarou aquilo de uma ironia adorável. E o conde, quando ele se despediu, não se contentou com umsimples aperto de mão, passou-lhe o braço pela cinta, chamou-lhe oseu querido Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda húmido, umresto de palidez, movendo o leque languidamente, recostada emduas almofadas do sofá — debaixo do busto do marido que erguia afronte inspirada. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós pág. 248 de 595 Capítulo X T RÊS semanas depois, por uma tarde quente, com um céutriste de trovoada, e no momento em que estavam caindo algumasgotas grossas de chuva — Carlos apeava-se de um coupé de praça,que viera parar, devagar, à esquina da Patriarcal, com os estoresverdes misteriosamente corridos. Dois sujeitos que passavam sorri-ram-se, como se o vissem escoar-se desjeitosamente de uma porti-nha suspeita. E com efeito a velha traquitana de rodas amarelasacabava de ser uma alcova de amor, perfumada de verbena,durante as duas horas que Carlos rolara dentro dela, pela estradade Queluz, com a senhora condessa de Gouvarinho. A condessa tinha descido no Largo das Amoreiras. E Carlosaproveitara a solidão da Patriarcal para se desembaraçar docalhambeque de assento duro, onde durante a última hora sufo-cara, sem ousar descer as vidraças, com as pernas adormecidas,enfastiado de tantas sedas amarrotadas e dos beijos intermináveisque ela lhe dava na barba... Até aí, durante essas três semanas, tinham-se encontradonuma casa da Rua de Santa Isabel, pertencente a uma tia da con-dessa que fora para o Porto com a criada, deixando-lhe a chave dacasa e o cuidado do gato. A boa titi, uma velha pequenina, chamadaMiss Jones, era uma santa, uma apóstola militante da Igreja Angli-cana, missionária da Obra da Propaganda; e todos os meses faziaassim uma viagem de catequização à província, distribuindoBíblias, arrancando almas à treva católica, purificando (como ela © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 249dizia) o tremedal papista... Já na escada havia um cheirinho adoci-cado e triste a devoção e a virgem velha: e no patamar pendia umlargo cartão, com um dístico em letras de oiro entrelaçadas de líriosroxos, rogando aos que entravam que perseverassem nas vias doSenhor! Carlos entrou, tropeçando logo num montão de Bíblias. Oquarto todo era um ninho de Bíblias; havia-as às pilhas por cimados móveis, trasbordando de velhas chapeleiras, misturadas apares de galochas, caídas para o fundo da bacia de assento, todasdo mesmo formato, entaladas numa encadernação negra comonuma armadura de combate, carrancudas e agressivas! As paredesresplandeciam, forradas de cartonagens impressas em letras decor, irradiando versículos duros da Bíblia, ásperos conselhos demoral, gritos dos salmos, ameaças insolentes do Inferno... E nomeio desta religiosidade anglicana, à cabeceira de um leitozinho deferro, rígido e virginal, duas garrafas quase vazias de conhaque ede gin. Carlos bebeu o gin da santa; e o leito rígido ficou revoltocomo um campo de batalha. Depois a condessa começou a ter medo de uma vizinha, umaBorges, que visitava a titi, e era viúva de um antigo procurador dosGouvarinhos. Uma ocasião em que, no casto leito de Miss Jones,eles fumavam languidamente cigarrilhas, três enormes argoladas àporta atroaram a casa. A pobre condessa quase desmaiou; Carlos,correndo à janela, viu um homem que se afastava, com uma esta-tueta de gesso na mão, outras dentro de um cesto. Mas a condessajurava que fora a Borges quem mandara o italiano das imagens ati-rar-lhes para dentro aquelas aldravadas, como três avisos, trêsrebates da Moral... Não quisera voltar mais ao beatífico coté da titi.E nessa tarde, como não havia ainda outro esconderijo, tinhamabrigado os seus amores dentro daquela tipóia de praça. Mas Carlos vinha de lá enervado, amolecido, sentindo já naalma os primeiros bocejos da saciedade. Havia três semanas ape-nas que aqueles braços perfumados de verbena se tinham atiradoao seu pescoço — e agora, pelo passeio de S. Pedro de Alcântara,sob o ligeiro chuvisco que batia as folhagens da alameda, ele iapensando como se poderia desembaraçar da sua tenacidade, do seuardor, do seu peso... É que a condessa ia-se tornando absurda comaquela determinação ansiosa e audaz de invadir toda a sua vida,tomar nela o lugar mais largo e mais profundo — como se o pri-meiro beijo trocado tivesse unido não só os lábios de ambos um © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 250momento, mas os seus destinos também e para sempre. Nessatarde lá tinham voltado as palavras que ela balbuciava, caída sobreo seu peito, com os olhos afogados numa ternura suplicante: Se tuquisesses! Que felizes que seríamos! que vida adorável! ambos sós!...E isto era claro — a condessa concebera a ideia extravagante defugir com ele, ir viver num sonho eterno de amor lírico, nalgumcanto do mundo, o mais longe possível da Rua de S. Marçal! Se tuquisesses! Não, com mil demónios, não queria fugir com a senhoracondessa de Gouvarinho!... E não era só isto — mas ainda exigências, egoísmos, explosõestumultuosas de um temperamento cioso: já mais de uma vez, nes-sas duas curtas semanas, por pieguices, ela despropositara, falarade morrer, debulhada em lágrimas... Ah! nas lágrimas havia aindauma voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o cetim do seu colo!O que o inquietava eram certos clarões que lhe sulcavam o rosto,um dardejar nervoso dos olhos secos, revelando a paixão que seacendera naqueles nervos de mulher de trinta e três anos, e a quei-mava até às profundidades do seu ser... Certamente este amorpunha na sua vida um luxo mais, e um perfume. Mas o seu encantoestava em conservar-se fácil, sereno, sem penetrar mais fundo quea epiderme. Se ela, por qualquer coisa, tinha os olhos turvos deágua, e falava em morrer, e torcia os braços, e queria fugir com ele— então adeus! Tudo estava estragado; e a senhora condessa, coma sua verbena, os seus cabelos cor de brasa e o seu pranto, era ape-nas um trambolho! O chuveiro parara, um bocado de azul lavado apareceu entrenuvens. E Carlos descia a Rua de S. Roque — quando encontrou omarquês, saindo de uma confeitaria, tristonho, com um embrulhona mão, e o pescoço abafado num enorme cache-nez de seda branca. — Que é isso? Constipação? — perguntou Carlos. — Tudo — disse o marquês, pondo-se a caminhar ao lado delecom uma lentidão de moribundo. — Deitei-me tarde. Cansaço.Opressão no peito. Pigarreira. Dores no lado. Um horror... Levo jáaqui rebuçados. — Não seja piegas, homem! Você o que precisa é rosbife e umagarrafa de Borgonha... Não é hoje que você janta lá no Rama-lhete?... É, até tem lá o Craft e o Dâmaso... Então descemos poressa Rua do Alecrim, que já não chove, depois pelo Aterro fora, apasso ginástico, e em chegando lá você está curado. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 251 O pobre marquês encolheu os ombros. Apenas sentia o menorincómodo, uma dor, um arrepio, considerava-se logo, como ele dizia,liquidado. O mundo começava a findar para ele: tomavam-no terro-res católicos, uma preocupação angustiosa da Eternidade. Nessesdias fechava-se no quarto com o padre capelão — com quem àsvezes, todavia, terminava por jogar as damas. — Em todo o caso — disse ele, tirando cautelosamente o chapéuao passar pela porta aberta da Igreja dos Mártires — deixe-me vocêir primeiro ao Grémio... Quero escrever à Manueleta que não contecomigo esta noite... Depois, distraída e melancolicamente, perguntou notícias dessedevasso do Ega. Esse devasso do Ega lá estava em Celorico, naquinta materna, ouvindo arrotar o padre Serafim, e refugiando-se,segundo dizia, na grande arte: andava a compor uma comédia emcinco actos, que se devia chamar O Lodaçal — escrita para se vin-gar de Lisboa. — O pior — murmurou o marquês, depois de um silêncio e aba-fando-se mais no cache-nez — é se eu estou assim no domingo paraas corridas! — O quê! — exclamou Carlos. — Então as corridas são já nodomingo? O marquês foi-lhe explicando, enquanto desciam o Chiado, queas corridas se tinham apressado a pedido do Clifford, o grandesportman de Córdova, que devia trazer dois cavalos ingleses... Eraum bocado humilhante depender do Clifford. Mas enfim o Cliffordera um gentleman, e com os seus cavalos de raça, os seus jóqueisingleses, constituía a única feição séria do hipódromo de Belém.Sem o Clifford aquilo era uma brincadeira de pilecas e de abas... — Você não conhece o Clifford?... Belo rapaz! Um pouco poseur,mas oiro de lei. Tinham entrado no pátio do Grémio, o marquês estendeu obraço a Carlos. — Veja esse pulso! — O pulso está excelente... Vá você dar lá esse golpe à Manuela,que eu fico à espera. No domingo, pois, daí a cinco dias, eram as corridas... E elaestaria lá, ele ia conhecê-la, enfim! Durante essas três últimassemanas vira-a duas vezes: uma ocasião, estando a conversar com oTaveira à porta do Hotel Central, ela chegara a uma das varandas, © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 252de chapéu, calçando uma grande luva preta; de outra vez, haviadias, por uma tarde de chuva, ela viera parar à porta do Mourão,ao Chiado, num coupé da Companhia, e ficara esperando enquantoo trintanário levava dentro à loja um embrulho que tinha a formade um cofre, apertado com uma fita vermelha. De ambas as vezesela vira-o, demorara os olhos nele um momento: e parecera a Car-los que o último olhar se prolongara mais, como abandonando-se,humedecendo-se, numa leve doçura, ao pousar no seu... Era talvezuma ilusão; mas isto decidiu-o, na sua impaciência, a realizar aantiga ideia (ainda que desagradável) de ser apresentado peloDâmaso ao Castro Gomes. O pobre Dâmaso, ao princípio, diantedesta exigência, ficou perturbado; e com um ar de cão que defendeo seu osso, lembrou logo a Carlos o deplorável comportamento doCastro Gomes, que não viera, como lho anunciara, havia três sema-nas, deixar o seu cartão ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhavaessas formalidades estreitas entre rapazes: o Castro Gomesparecia-lhe um homem de gosto e de sport; nem todos os dias apa-recia em Lisboa quem soubesse dar com correcção o nó da gravata;e seria agradável, mesmo para ele Dâmaso, reunirem-se todos devez em quando, com o Craft, com o marquês, a fumar um charuto ea falar de cavalos. Isto decidiu Dâmaso, que terminou por propor aCarlos o levá-lo uma tarde ao Hotel Central. Carlos, porém, nãoqueria entrar pelo hotel dentro, de chapéu na mão, atrás doDâmaso. Resolveram então esperar pelas corridas, onde os CastrosGomes tencionavam ir. «Aí, no recinto da pesagem», disse oDâmaso, «a apresentação é mais chique... É mesmo podre de chi-que.» — Deus queira com efeito que não chova no domingo — mur-murou Carlos quando o marquês desceu, mais tristonho, mais aba-fado no seu cache-nez. Foram seguindo pelo meio da rua, em direcção ao Ferregial.Adiante do Grémio, encostado ao passeio, estava um coupé da Com-panhia, com um trintanário de luvas brancas, esperando junto aoportal. Carlos olhou, casualmente; e viu, debruçado à portinhola,um rosto de criança, de uma brancura adorável, sorrindo-lhe, comum belo sorriso que lhe punha duas covinhas na face.Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ela não se contentouem sorrir, com o seu doce olhar azul fugindo todo para ele — deitoua mãozinha de fora, atirou-lhe um grande adeus. No fundo do © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 253coupé, forrado de negro, destacava um perfil claro de estátua, umtom ondeado de cabelo loiro. Carlos tirou profundamente o chapéu,tão perturbado, que os seus passos hesitaram. Ela abaixou acabeça, de leve; alguma coisa de luminoso, um confuso rubor deemoção, espalhou-se-lhe no rosto. E fugitivamente foi como se, damãe e da filha, ao mesmo tempo, viesse para ele uma suave equente emanação de simpatia. — Caramba, aquilo pertence-lhe? — perguntou o marquês, quenotara a impressão de Madame Gomes. Carlos corou. — Não, é uma senhora brasileira a quem eu curei aquelapequerrucha... — Irra! que gratidão! — rosnou o outro de dentro das dobras doseu cache-nez. Caminhando em silêncio pelo Ferregial, Carlos revolvia umaideia que lhe viera de repente, ao receber aquele doce olhar. Porqueé que Dâmaso não levaria uma manhã o Castro Gomes aos Olivais,a ver as colecções do Craft?... Ele estaria lá, abria-se uma garrafade champanhe, discutiam bricabraque. Depois, muito natural-mente, ele convidava Castro Gomes a almoçar no Ramalhete, paralhe mostrar o grande Rubens, e as suas velhas colchas da Índia. Eassim, já antes das corridas existiria entre eles uma camaradagem,talvez um tratamento de você. No Aterro, temendo o ar do rio, o marquês quis tomar umatipóia; e, até ao Ramalhete, continuaram calados. O marquês, outravez inquieto, apalpava a garganta. Carlos discutia complicada-mente consigo aquela lenta inclinação de cabeça, o olhar dela, ovivo rubor fugitivo... Ela até aí não o conhecia talvez. Mas, depoisde atirar o seu grande adeus, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se paraa mãe, a dizer-lhe decerto que aquele era o médico que a curara, aela e à boneca... E então a linda cor que lhe enternecera o rostotomava uma significação mais profunda — era como a surpresafeliz, o enleio casto, ao saber que o homem que ela notara já dealgum modo tinha penetrado na sua intimidade, beijara a suafilha, se tinha mesmo sentado à beira do seu leito... Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivais, mais largoagora, mais brilhante. Porque não iria ela também ver as curiosi-dades do Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idílio!O Craft arranjava um lunch delicado no seu velho serviço de Wed- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 254gewood. Ele ficava à mesa junto dela, depois iam ver o jardim já emflor; ou tomavam chá no pavilhão japonês, forrado de esteiras. Mas,o que mais lhe apetecia era percorrer com ela as duas salas deCraft, parando ambos diante de uma bela faiança ou de um móvelraro, e sentindo, através da concordância dos seus gostos, subir,como um perfume, a simpatia dos seus corações... Nunca a vira tãoformosa como nessa tarde, dentro do coupé forrado de escuro, ondebrilhava mais puramente a brancura do seu perfil. Sobre o regaçodo vestido negro pousava o tom claro das suas luvas; e no chapéufrisava-se a ponta de uma pena cor de neve. A tipóia parara ao portão do Ramalhete, estavam agora entreas silenciosas tapeçarias da antecâmara. — Como é que ela conhece o Cruges? — perguntou de repente omarquês, com um tom desconfiado, desembaraçando-se do cache--nez. Carlos olhou para ele, como mal acordado. — Ela quem? Aquela senhora? Como conhece o Cruges?...Homem, sim, tem você razão!... Aquela era a casa do Cruges!... Acarruagem estava parada à porta do Cruges!... Talvez alguém quemore noutro andar. — Não mora ninguém — disse o marquês, dando um passopara o corredor. — Em todo o caso, é um mulherão. Carlos achou a palavra odiosa. Do corredor ouvia-se já no escritório de Afonso, através daporta aberta, a voz petulante do Dâmaso falando alto de handicape de dead-beat... E foram-no encontrar discursando sobre as corri-das, com convicção, com autoridade, como membro do Jockey Club.Afonso, na sua velha poltrona, escutava-o, cortês e risonho, com o«Reverendo Bonifácio» no colo. Ao canto do sofá, Craft folheava umlivro. E o Dâmaso apelou logo para o marquês. Não era verdade,como ele estivera dizendo ao Sr. Afonso da Maia, que iam ser asmelhores corridas que se tinham feito em Lisboa? Só para o GrandePrémio Nacional, de seiscentos mil réis, havia oito cavalos inscri-tos! E, além disso, o Clifford trazia a Mist. — Ah, é verdade, ó marquês, é necessário que você apareçasexta-feira à noite no Jockey Club, para acabarmos o handicap! O marquês arrastara uma cadeira para o pé de Afonso, para lhefazer a confidência dos seus achaques; mas como Dâmaso se metia © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 255entre eles, falando ainda da Mist , decidindo que a Mist era chique,querendo apostar cinco libras pela Mist contra o campo — o mar-quês terminou por se voltar, enfastiado, dizendo que o Sr. Damaso-zinho se estava a dar ares patuscos... Apostar pela Mist! Todo opatriota devia apostar pelo cavalos do visconde de Darque, que erao único criador português!... — Pois não é verdade, Sr. Afonso da Maia? O velho sorriu, amaciando o seu gato. — O verdadeiro patriotismo, talvez — disse ele — seria, emlugar de corridas, fazer uma boa tourada. Dâmaso levou as mãos à cabeça. Uma tourada! Então o Sr.Afonso da Maia preferia toiros a corridas de cavalos? O Sr. Afonsoda Maia, um inglês!... — Um simples beirão, Sr. Salcede, um simples beirão, e que fazgosto nisso; se habitei a Inglaterra é que o meu rei, que era então,me pôs fora do meu país... Pois é verdade, tenho esse fraco portu-guês, prefiro toiros. Cada raça possui o seu sport próprio, e o nossoé o toiro: o toiro com muito Sol, ar de dia santo, água fresca, efoguetes... Mas sabe o Sr. Salcede qual é a vantagem da tourada? Éser uma grande escola de força, de coragem e de destreza... EmPortugal não há instituição que tenha uma importância igual àtourada de curiosos. E acredite uma coisa: é que se nesta tristegeração moderna ainda há em Lisboa uns rapazes com certo mús-culo, a espinha direita, e capazes de dar um bom soco, deve-se issoao toiro e à tourada de curiosos... O marquês, entusiasmado, bateu as palmas. Aquilo é que erafalar! Aquilo é que era dar a filosofia do toiro! Está claro que a tou-rada era uma grande educação física! E havia imbecis que falavamem acabar com os toiros! Oh! estúpidos, acabais então com a cora-gem portuguesa!... — Nós não temos os jogos de destreza das outras nações —exclamava ele, bracejando pela sala e esquecido dos seus males. —Não temos o cricket, nem o foot-ball, nem o running, como os Ingle-ses: não temos a ginástica como ela se faz em França; não temos oserviço militar obrigatório que é o que torna o Alemão sólido... Nãotemos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos sóa tourada... Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derrea-dos da espinha, a melarem-se pelo Chiado! Pois você não acha,Craft? © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 256 Craft, do canto do sofá, onde Carlos se fora sentar e lhe falavabaixo, respondeu, convencido: — O quê, o toiro? Está claro! o toiro devia ser neste país como oensino é lá fora: gratuito e obrigatório. Dâmaso, no entanto, jurava a Afonso compenetradamente quegostava também muito de toiros. Ah, lá nessas coisas de patrio-tismo ninguém lhe levava a palma... Mas as corridas tinham outrochique! Aqueles Bois de Bologne, num dia de Grand Prix, hem!...Era de embatucar! — Sabes o que é pena? — exclamou ele, voltando-se de repentepara Carlos. — É que tu não tenhas um four-in-hand, um mail-coach.Íamos todos daqui, caía tudo de chique! Carlos pensou também consigo que era uma pena não ter umfour-in-hand. Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Joc-key Club da Travessa da Conceição irem todos dentro de um ónibus. Dâmaso voltou-se para o velho, deixando cair os braços, desco-roçoado: — Aí está, Sr. Afonso da Maia! Aí está porque em Portugalnunca se faz nada em termos! É porque ninguém quer concorrerpara que as coisas saiam bem... Assim não é possível! Eu cáentendo isto: que num país, cada pessoa deve contribuir, quantopossa, para a civilização. — Muito bem, Sr. Salcede! — disse Afonso da Maia.— Eis aíuma nobre, uma grande palavra! — Pois não é verdade? — gritou Dâmaso, triunfante, a estoirarde gozo. — Assim eu, por exemplo... — Tu, o quê? — exclamaram dos lados. — Que fizeste tu pelacivilização?... — Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasacabranca... E vou de véu azul no chapéu! Um escudeiro entrou com uma carta para Afonso, numa salva.O velho, sorrindo ainda das ideias de Dâmaso sobre a civilização,puxou a luneta, leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreuno rosto, ergueu-se logo, tendo depositado cuidadosamente sobre asua almofada o pesado «Bonifácio». — Isto é que é ter gosto, isto é que é compreender as coisas! —exclamava o Dâmaso, agitando os braços para Carlos, quando ovelho desapareceu através do reposteiro de damasco. — Este teuavô, menino, é podre de chique!... © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 257 — Deixa lá o chique do avô... Anda cá, que te quero dizer umacoisa. Abriu uma das janelas do terraço, levou para lá o Dâmaso, edisse-lhe aí, à pressa, o seu plano da visita aos Olivais, e a lindatarde que poderiam passar na quinta com os Castros Gomes... Elejá falara ao Craft, que estava de acordo, achava delicioso, ia enchertudo de flores. E agora só restava que Dâmaso amigo, como amabi-lidade sua, convidasse os Castros Gomes... — Caramba! — murmurou Dâmaso desconfiado. — Estás comfuror de a conhecer! Mas enfim concordou que era chique a valer! E via aí uma belaocasião para ele!... Enquanto Carlos e Craft andassem mostrandoas curiosidades ao Castro Gomes e lhe falassem de cavalos, ele,zás, ia para a quinta passear com ela... A calhar! — Pois vou amanhã já falar-lhes... Estou convencido que acei-tam logo. Ela pela-se por bricabraque! — E vens dizer-me se aceitaram ou não... — Venho dizer-te... Tu vais gostar dela; tem lido muito, entendetambém de literatura; e olha que às vezes a conversar atrapalha... O marquês veio chamá-los para dentro, impaciente, querendofechar a porta envidraçada, outra vez preocupado com a garganta.E desejava antes de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar comágua e sal... — E é isto um português forte — exclamou Carlos,travando-lhe alegremente do braço. — Eu sou piegas na garganta — replicou logo o marquês, des-prendendo-se dele e olhando-o com ferocidade. — E você é-o no sen-timento. E o Craft é-o na respeitabilidade. E o Damasozinho é-o natolice. Em Portugal é tudo Pieguice e Companhia! Carlos, rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entraremna antecâmara, deram com Afonso falando a uma mulher carregadade luto, que lhe beijava a mão, meio de joelhos, sufocada de lágrimas:e ao lado outra mulher, com os olhos turvos de água também, emba-lava dentro do xale uma criancinha que parecia doente e gemia. Car-los parara embaraçado; o marquês instintivamente levou a mão àalgibeira. Mas o velho, assim surpreendido na sua caridade, foi logoempurrando as duas mulheres para a escada: elas desciam, encolhi-das, abençoando-o, num murmúrio de soluços; e ele, voltando-se paraCarlos, quase se desculpou numa voz que ainda tremia: © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 258 — Sempre estes peditórios... Caso bem triste todavia... E o queé pior, é que por mais que dê nunca se dá bastante. Mundo muitomal feito, marquês. — Mundo muito mal feito, Sr. Afonso da Maia — respondeu omarquês comovido. No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu faetontede oito molas, levando ao lado Craft, que durante os dois dias de cor-ridas se instalara no Ramalhete, parou ao fim do Largo de Belém, nomomento em que para o lado do hipódromo estavam já estalandofoguetes. Um dos criados desceu a comprar o bilhete de pesagempara o Craft, numa tosca guarita de madeira, armada ali de véspera,onde se mexia um homenzinho de grandes barbas grisalhas. Era um dia já quente, azul-ferrete, com um desses rutilantes sóisde festa que inflamam as pedras da rua, douram a poeirada baça do ar,põem fulgores de espelho pelas vidraças, dão a toda a cidade essabranca faiscação de cal, de um vivo monótono e implacável, que na len-tidão das horas de Verão cansa a alma, e vagamente entristece. NoLargo dos Jerónimos, silencioso, e a escaldar na luz, um ónibus espe-rava, desatrelado, junto ao portal da igreja. Um trabalhador com o filhoao colo, e a mulher ao lado no seu xale de ramagens, andava ali, pas-mando para a estrada, pasmando para o rio, a gozar ociosamente o seudomingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programas dascorridas que ninguém comprava. A mulher da água fresca, sem fregue-ses, sentara-se com a sua bilha à sombra, a catar um pequeno. Quatropesados municipais a cavalo patrulhavam a passo aquela solidão. E àdistância, sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente. No entanto o trintanário continuava debruçado na guarita, sempoder arranjar lá dentro o troco de uma libra. Foi necessário Craftsaltar da almofada, ir lá parlamentar — enquanto Carlos, impa-ciente, raspando com o chicote as ancas das éguas, luzidias comoum cetim castanho, riscava no largo uma volta brusca e nervosa.Desde o Ramalhete viera assim governando, irritadamente, semdescerrar os lábios. É que toda aquela semana, desde a tarde emque combinara com o Dâmaso a visita aos Olivais, fora desconsola-dora. O Dâmaso tinha desaparecido, sem mandar a resposta dosCastros Gomes. Ele, por orgulho, não procurara o Dâmaso. Os diastinham passado, vazios; não se realizara o alegre idílio dos Olivais;ainda não conhecia Madame Gomes; não a tornara a ver; não a © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 259esperava nas corridas. E aquele domingo de festa, o grande Sol, agente pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa,enchiam-no de melancolia e de mal-estar. Uma caleche de praça passou, com dois sujeitos de flores aopeito, acabando de calçar as luvas; depois um dog-cart, governadopor um homem gordo, de lunetas pretas, quase foi esbarrar contrao arco. Enfim Craft voltou com o seu bilhete, tendo sido descom-posto pelo homem de barbas proféticas. Para além do arco, a poeira sufocava. Pelas janelas haviasenhoras debruçadas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outrosmunicipais, a cavalo, atravancavam a rua. À entrada para o hipódromo, abertura escalavrada num murode quintarola, o faetonte teve de parar atrás do dog-cart do homemgordo — que não podia também avançar porque a porta estavatomada pela caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor ao peitoberrava furiosamente com um polícia. Queria que se fosse chamaro Sr. Savedra! O Sr. Savedra, que era do Jockey Club, tinha-lhedito que ele podia entrar sem pagar a carruagem! Ainda lho disserana véspera, na botica do Azevedo! Queria que se fosse chamar o Sr.Savedra! O polícia bracejava, enfiado. E o cavalheiro, tirando asluvas, ia abrir a portinhola, esmurrar o homem — quando, tro-tando na sua grande horsa, um municipal de punho alçado correu,gritou, injuriou o cavalheiro gordo, fez rodar para fora a caleche.Outro municipal intrometeu-se, brutalmente. Duas senhoras, agar-rando os vestidos, fugiram para um portal, espavoridas. E atravésdo rebuliço, da poeira, sentia-se adiante, melancolicamente, umrealejo tocando a Traviata. O faetonte entrou — atrás do dog-cart, onde o homem gordo, aestourar de fúria, voltava ainda para trás a face escarlate, jurandodar parte do municipal. — Tudo isto está arranjado com decência — murmurou Craft. Diante deles o hipódromo elevava-se suavemente em colina,parecendo, depois da poeirada quente da calçada e das cruas rever-berações de cal, mais fresco, mais vasto, com a sua relva já umpouco crestada pelo Sol de Junho, e uma ou outra papoula verme-lhejando aqui e além. Uma aragem larga e repousante chegavavagarosamente do rio. No centro, como perdido no largo espaço verde, negrejava, nobrilho do Sol, um magote apertado de gente, com algumas carrua- © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 260gens pelo meio, donde sobressaíam tons claros de sombrinhas, ofaiscar de um vidro de lanterna, ou um casaco branco de cocheiro.Para além, dos dois lados da tribuna real forrada de um baetãovermelho de mesa de repartição, erguiam-se as duas tribunaspúblicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques dearraial. A da esquerda, vazia, por pintar, mostrava à luz as fendasdo tabuado. Na da direita, besuntada por fora de azul-claro, haviauma fila de senhoras quase todas de escuro encostadas ao rebordo,outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o resto das bancadaspermanecia deserto e desconsolado, de um tom alvadio de madeira,que abafava as cores alegres dos raros vestidos de Verão. Por vezesa brisa lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das bandeiro-las. Um grande silêncio caía do céu faiscante. Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume demadeira, havia mais soldados de infantaria, com as baionetas lam-pejando ao sol. E no homem triste que estava à entrada, recebendoos bilhetes, metido dentro de um enorme colete branco, reteso degoma, e que lhe chegava até aos joelhos — Carlos reconheceu o ser-vente do seu laboratório. Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira àporta do bufete onde se estivera reconfortando com uma cerveja.Tinha um molho de cravos amarelos ao peito, polainas brancas — equeria animar as corridas. Já vira a Mist, a égua do Clifford, edecidira apostar pela Mist. Que cabeça de animal, meninos, quefinura de pernas...! — Palavra que me entusiasmou! E está decidido, um dia não sãodias, é necessário animar isto! Aposto três mil réis. Quer você, Craft? — Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro ver o aspectogeral. No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia sóhomens, a gente do Grémio, das Secretarias e da Casa Havanesa; amaior parte à vontade, com jaquetões claros, e de chapéu-coco;outros mais em estilo, de sobrecasaca e binóculo a tiracolo, pare-ciam embaraçados e quase arrependidos do seu chique. Falava-sebaixo, com passos lentos pela relva, entre leves fumaraças decigarro. Aqui e além um cavalheiro, parado, de mãos atrás das cos-tas, pasmava languidamente para as senhoras. Ao lado de Carlosdois brasileiros queixavam-se do preço dos bilhetes, achando aquilouma «sensaboria de rachar». © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 261 Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardadapor soldados: e junto à corda, do outro lado, apinhava-se o magote degente, com as carruagens pelo meio, sem um rumor, numa pasma-ceira tristonha, sob o peso do Sol de Junho. Um rapazote, com umavoz dolente, apregoava água fresca. Lá ao fundo o largo Tejo fais-cava, todo azul, tão azul como o céu, numa pulverização fina de luz. O visconde de Darque, com o seu ar plácido de gentlemam loiroque começa a engordar, veio apertar a mão a Carlos e a Craft. Emal eles lhe falaram dos seus cavalos (Rabino, o favorito, e o outropotro) encolheu os ombros, cerrou os olhos, como um homem que sesacrifica. Então, que diabo, os rapazes tinham querido!... Mas ele,realmente, não podia apresentar um cavalo decente, com as suascores, senão daí a quatro anos. De resto não apurava cavalos paraaquela melancolia de Belém, não imaginassem os amigos que eleera tão patriota: o seu fim era ir a Espanha, bater os cavalos deCaldillo... — Enfim, vamos a ver... Dê você cá lume. Isto está um horror. Edepois, que diabo, para corridas é necessário cocottes e champanhe.Com esta gente séria, e água fresca, não vai! Nesse momento um dos comissários das corridas, um rapagãosem barba, vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob ochapéu branco deitado para a nuca, veio arrebatar o Darque, «queera muito preciso, lá na pesagem, para uma duvidazinha». — Eu sou o dicionário — dizia o Darque, tornando a encolher osombros resignadamente. — De vez em quando vem um destessenhores do Jockey Club, e folheia-me... Veja você Maia, em queestado eu fico depois das corridas! Há-de ser necessárioencadernar-me de novo... E lá foi, rindo da sua pilhéria — empurrado para diante pelocomissário, que lhe dava palmadas nas costas, e lhe chamavacatita. — Vamos nós ver as mulheres — disse Carlos. Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas norebordo, numa fila muda, olhando vagamente, como de uma janelaem dia de procissão, estavam ali todas as senhoras que vêm noHigh Life dos jornais, as dos camarotes de S. Carlos, as dasterças-feiras dos Gouvarinhos. A maior parte tinha vestidos sériosde missa. Aqui e além um desses grandes chapéus emplumados àGainsborough, que então se começavam a usar, carregava de uma © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 262sombra maior o tom trigueiro de uma carinha miúda. E na luzfranca da tarde, no grande ar da colina descoberta, as peles apare-ciam murchas, gastas, moles, com um baço de pó de arroz. Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas,loirinhas, ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois aviscondessa de Alvim, nédia e branca, com o corpete negro relu-zente de vidrilhos, tendo ao lado a sua terna inseparável, a Joani-nha Vilar, cada vez mais cheia, com um quebranto cada vez maisdoce nos olhos pestanudos. Adiante eram as Pedrosos, as banquei-ras, de cores claras, interessando-se pelas corridas, uma de pro-grama na mão, a outra de pé e de binóculo estudando a pista. Aolado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal, desar-ranjada, com um ar de ter lama nas saias. Numa bancada isolada,em silêncio, Vilaça com duas damas de preto. A condessa de Gouvarinho ainda não viera. E não estava tam-bém aquela que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente esem esperança. — É um canteirinho de camélias meladas — disse o Taveira,repetindo um dito do Ega. Carlos, no entanto, fora falar à sua velha amiga D. Maria daCunha que, havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque,com o seu sorriso de boa mamã. Era a única senhora que ousaradescer do retiro ajanelado da tribuna, e vir sentar-se em baixo,entre os homens: mas, como ela disse, não aturava a seca de estarlá em cima perfilada, à espera da passagem do Senhor dos Passos.E, bela ainda sob os seus cabelos já grisalhos, só ela parecia diver-tir-se ali, muito à vontade, com os pés pousados na travessa deuma cadeira, o binóculo no regaço, cumprimentada a cada instante,tratando os rapazes por meninos... Tinha consigo uma parenta queapresentou a Carlos, uma senhora espanhola, que seria bonita senão fossem as olheiras negras, cavadas até ao meio da face. ApenasCarlos se sentou ao pé dela, D. Maria perguntou-lhe logo por esseaventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava emCelorico, compondo uma comédia para se vingar de Lisboa, cha-mada O Lodaçal... — Entra o Cohen? — perguntou ela, rindo. — Entramos todos, Sr.a D. Maria. Todos nós somos lodaçal... Nesse momento, por trás do recinto, rompia, com um taran-tantã molengão de tambores e pratos, o Hino da Carta, a que se © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 263misturou uma voz de oficial e o bater de coronhas. E, entre doura-dos de dragonas, El-rei apareceu na tribuna, sorrindo, de quinzenade veludo, e chapéu branco. Aqui e além, raros sujeitos cumprimen-taram, muito de leve: a senhora espanhola, essa, tomou o óculo doregaço de D. Maria, e de pé, muito descansadamente, pôs-se a exa-minar o rei. D. Maria achava ridícula a música, dando às corridasum ar de arraial... Além disso, que tolice, o hino, como num dia deparada! — E este hino, então, que é medonho — dizia Carlos.— A Sr.aD. Maria não sabe a definição do Ega, e a sua teoria dos hinos?Maravilhosa! — Aquele Ega! — dizia ela sorrindo, já encantada. — O Ega diz que o hino é a definição pela música do carácter deum povo. Tal é o compasso do hino nacional, diz ele, tal é o movi-mento moral da nação. Agora veja a Sr.a D. Maria os diferenteshinos, segundo o Ega. A Marselhesa avança com uma espada nua.O God Save the Queen adianta-se, arrastando um manto real... — E o Hino da Carta? — O Hino da Carta ginga, de rabona. E D. Maria ria ainda, quando a espanhola, sentando-se erepousando-lhe tranquilamente o binóculo no regaço, murmurou: — Tiene cara de buena persona. — Quem, o rei? — exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos.— Excelente! No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indi-cador subiram os números dos dois cavalos que corriam o primeiroprémio dos Produtos. Eram o n.° 1 e o n.° 4. D. Maria da Cunhaquis-lhes saber os nomes, com o apetite de apostar e ganhar cincotostões a Carlos. E como Carlos se erguia para arranjar um pro-grama: — Deixe estar o menino — disse ela, tocando-lhe no braço. — Aívem o nosso Alencar, com o programa... Olhe para aquilo! Veja seainda hoje os há por aí com aquele ar de sentimento e de poesia... Com um fato novo de cheviote claro que o remoçava, de luvasgris-perle, o seu bilhete de pesagem na botoeira, o poeta vinha-seabanando com o programa, e já de longe sorrindo à sua boa amigaD. Maria. Quando chegou junto dela, descoberto, bem penteadonesse dia, com um lustre de óleo na grenha, levou-lhe a mão aoslábios, fidalgamente. © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 264 D. Maria fora uma das suas lindas contemporâneas. Tinhamdançado muita ardente mazurca nos salões de Arroios. Elatratava-o por tu. Ele dizia sempre boa amiga, e querida Maria. — Deixa ver os nomes desses cavalos, Alencar... Senta-te aí,anda, faz companhia. Ele puxou uma cadeira, rindo do interesse que ela tomavapelas corridas. E ele que a conhecera sempre uma entusiasta detoiros!... Pois os nomes dos cavalos eram Júpiter e Escocês... — Nenhum desses nomes me agrada, não aposto. E então quete parece tudo isto, Alencar?... A nossa Lisboa vai-se saindo da con-cha... Alencar, pousando o chapéu sobre uma cadeira e passando amão pela sua vasta fronte de bardo, confessou que aquilo tinharealmente um certo ar de elegância, um perfume de corte... Depois,lá em baixo, aquele maravilhoso Tejo... sem falar na importância doapuramento das raças cavalares... — Pois não é verdade, meu Carlos? Tu que entendes superior-mente disso, que és um mestre em todos os sports, sabes bem que oapuramento... — Sim, com efeito, o apuramento, muito importante...— disseCarlos, vagamente, erguendo-se a olhar outra vez a tribuna. Eram quase três horas, e agora decerto ela já não vinha: e acondessa de Gouvarinho não aparecia também... Começava ainvadi-lo uma grande lassitude. Respondendo, com um leve movi-mento de cabeça, ao sorriso doce que lhe dava da tribuna a Joani-nha Vilar, pensava em voltar para o Ramalhete, acabar tranquila-mente a tarde, dentro do seu robe-de-chambre, com um livro, longede todo aquele tédio. No entanto, ainda entravam senhoras. A menina Sá Videira,filha do rico negociante de sapatos de ourelo, passou pelo braço doirmão, abonecada, com o arzinho petulante e enojado de tudo,falando alto inglês. Depois foi a ministra da Baviera, a baronesa deCraben, enorme, empavoada, com uma face maciça de matronaromana, a pele cheia de manchas cor de tomate, a estalar dentro deum vestido de gorgorão azul com riscas brancas: e atrás o barão,pequenino, amável, aos pulinhos, com um grande chapéu de palha. D. Maria da Cunha erguera-se para lhes falar: e durante ummomento ouviu-se, como um gluglu grosso de peru, a voz da baro-nesa achando que c’était charmant, c’était très beau. O barão, aos © Porto EditoraBiblioteca Digital Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA
  • Os Maias Eça de Queirós 265pulinhos, aos risinhos, trouvait ça ravissant. E o Alencar, diantedaqueles estrangeiros que o não tinham saudado, apurava a suaatitude de grande homem nacional, retorcendo a ponta dos bigodes,alçando mais a fronte nua. Quando eles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tor-nou a sentar, o poeta, indignado, declarou que abominava alemães!O ar de sobranceria com que aquela ministra, com feitio de barrica,deixando sair o sebo por todas as costuras do vestido, o olhara, aele! Ora, a insolente baleia! D. Maria sorria, olhando com simpatia o poeta. E voltando-sede repente para a senhora espanhola: