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A VIDENTE A VIDENTE Document Transcript

  • A Vidente PorElvis José Alves
  • 1 SALA DE CONSULTA DO CONSULTÓRIO DA MADAME LOU - INT/DIA. Uma sala pequena com as janelas fechadas, por isso sem iluminação natural. A iluminação artificial é fraca dando um ar sombrio ao ambiente. Tem uma mesa redonda com uma cadeira de cada lado no centro e algumas prateleiras cheias de livros e objetos diversos próximos à parede. Madame Lou e Dona Teodora estão na sala, ambas sentadas, uma de cada lado da mesa redonda do centro, respectivamente à direita e à esquerda. DONA TEODORA Então Madame Lou, gostaria de... MADAME LOU Não, não, não. Não me diga nada Dona Teodora. Apenas deixe-me ver a sua mão. Madame Lou estende a mão para Dona Teodora com a palma virada para cima, imediatamente ela coloca sua mão sobre a da vidente, também com a palma virada para cima. MADAME LOU (...cont.) Vejamos... Madame Lou olha a mão de Dona Teodora, analisando-a cuidadosamente. MADAME LOU (...cont.) Hum, vejo que o que trás você até aqui são problemas com o amor. DONA TEODORA É verdade Madame Lou, problemas com a falta de um grande amor. (Pausa) Mas então, a senhora tem boas notícias para mim? MADAME LOU Sim, claro, Dona Teodora, mas deixe-me ver mais atentamente. (Pausa) Eu vejo um grande amor muito próximo de você. Dona Teodora solta um suspiro de felicidade. MADAME LOU (...cont.) E tudo indica que ele deve chegar de forma repentina e inesperada (Olhando para Dona Teodora) e a qualquer momento!
  • 2. DONA TEODORA Ai, meu Deus.Dona Teodora coloca a mão livre sobre o peito e olha parao braço. DONA TEODORA (...cont.) Olha só, fiquei até arrepiada.Ela estende o braço para que Madame Lou possa ver. MADAME LOU Isso porque a sua alma sente que é verdade Dona Teodora.Madame Lou solta a mão de Dona Teodora que a coloca juntoda outra, sobre a mesa. DONA TEODORA (Balançando a cabeça afirmativamente) Sente mesmo, Madame Lou, sente mesmo. MADAME LOU Fique tranquila querida, o seu amor está mais próximo do que você pode imaginar. Você só precisa ser paciente, e esperar, que tudo vai dar certo. DONA TEODORA (Levanta as mãos em forma de agradecimento) Ai, graças a Deus. MADAME LOU (Pausa) Mas me diga minha querida, tem mais alguma coisa que eu possa fazer por você hoje? DONA TEODORA Não Madame Lou, era só isso mesmo. (Levanta-se) É incrível como a senhora conhece tão bem todos os meus problemas.Dona Teodora abre a bolsa e começa a procurar por dinheiropara pagar a consulta. Madame Lou também se levanta. MADAME LOU O que é isso, esse é o meu trabalho, ora.
  • 3. DONA TEODORA São vinte reais a consulta, certo? MADAME LOU Certo. Dona Teodora entrega o dinheiro que acabou de catar na sua bolsa para Madame Lou que confere e coloca no bolso. Madame Lou avança até a porta que dá para a recepção abrindo-a, Dona Teodora sai, e Madame Lou sai logo atrás.2 RECEPÇÃO DO CONSULTÓRIO DA MADAME LOU - INT/DIA. Sala pequena, com duas portas, uma para o consultório e outra para a rua. Janelas grandes com as cortinas abertas deixam o ambiente bastante iluminado pela luz do sol. Um sofá e algumas cadeiras estão distribuídos ao redor de uma mesa de centro coberta por revistas e jornais. Carlos Alberto está sentado no sofá lendo o jornal com uma maleta repousando no acento ao seu lado. Dona Teodora sai do consultório, seguida por Madame Lou. MADAME LOU Então Dona Teodora, a senhora pode ficar despreocupada. Apenas tenha mais um pouco de paciência que o seu príncipe já está a caminho. Dona Teodora abraça Madame Lou repentinamente, prendendo os braços dela que acaba ficando um pouco espremida. DONA TEODORA Obrigada Madame Lou. (Solta) Voltarei com novidades. Em breve, eu espero. Dona Teodora cruza os dedos sorrindo. MADAME LOU Estarei torcendo por você, querida. Dona Teodora se vira e percebe a presença de Carlos Alberto na sala, olha para ele de forma insinuante. DONA TEODORA (Com voz sexy) Olá. Acena para ele, sorrindo. Tímida e lentamente ele levanta a mão e acena de volta com um sorriso amarelo no rosto. Dona Teodora olha para Madame Lou virando apenas a cabeça, pisca e acena para ela que acena com a cabeça, sorrindo. Dona Teodora então caminha até a porta e sai para a rua.
  • 4. MADAME LOU (Para Carlos Alberto) O senhor pode passar para o consultório agora. Madame Lou indica a porta com a mão e fica de lado esperando Carlos Alberto entrar. Ele acena com a cabeça, larga o jornal sobre a mesa de centro, pega a maleta e entra na porta indicada. Madame Lou olha a hora no relógio em seu pulso, vai até a porta que dá para a rua, vira a placa que diz aberto para fechado e tranca a porta. Depois entra na porta que leva ao consultório, fechando-a logo em seguida.3 SALA DE CONSULTA DO CONSULTÓRIO DA MADAME LOU - INT/DIA. Carlos Alberto está sentado no lugar destinado ao cliente, à esquerda, com a maleta sobre a mesa. Madame Lou se dirige ao seu lugar, no lado oposto da mesa. MADAME LOU Desculpe se a Dona Teodora te constrangeu de alguma forma, (Senta) ela está procurando um grande amor, e deve ter pensado que poderia ser você. CARLOS ALBERTO Tudo bem, eu nem me importei com ela. MADAME LOU Ótimo, ótimo. Mas então Senhor... CARLOS ALBERTO Carlos Alberto. MADAME LOU Carlos Alberto, em que posso ajudá-lo? CARLOS ALBERTO Vamos direto ao assunto Madame Lou. Eu sou o que a senhora pode chamar de cético. Eu não acredito em vidência, não sou supersticioso e nem nada do gênero. Pra ser sincero acho que eu nunca li nem o meu horóscopo. (Pausa) Enfim, não me leve a mal, eu só quero deixar tudo bem claro. Eu não acredito no seu dom, e não acho que a senhora possa realmente dizer alguma coisa (MAIS...)
  • 5. CARLOS ALBERTO (...cont.) concreta sobre o meu futuro ou de qualquer outra pessoa. MADAME LOU Se você tem tanta certeza de que eu não posso lhe ajudar, então, o que te trás ao meu consultório, Doutor Carlos Alberto? CARLOS ALBERTO Eu estou em um momento delicado na minha vida. Preciso tomar uma decisão de suma importância e não creio que tenha capacidade para decidir sozinho. E embora eu não acredite no seu trabalho, acho que talvez seja prudente da minha parte pelo menos considerar o seu parecer sobre o assunto. MADAME LOU Tudo bem então. Podemos começar a consulta? CARLOS ALBERTO Só mais uma coisa primeiro. MADAME LOU Sim? CARLOS ALBERTO Veja bem Madame Lou, eu sou um homem bastante orgulhoso, e como eu não acredito no seu trabalho, mas dei o braço a torcer vindo aqui, preciso que a senhora aceite uma pequena condição. MADAME LOU E o que é? CARLOS ALBERTO Bom, quanto a Senhora cobra por consulta? MADAME LOU Vinte reais.Carlos Alberto abre as travas da maleta e vira ela paraMadame Lou. CARLOS ALBERTO Eu te pago dez mil, (Abre a maleta) em dinheiro.
  • 6. MADAME LOU Santo Deus!Madame Lou se curva sobre a maleta, perplexa, para vermais de perto. CARLOS ALBERTO Mas com uma condição. MADAME LOU E qual é? CARLOS ALBERTO Para poder ganhar esses dez mil, a senhora precisa me convencer da veracidade da sua previsão. Me faça acreditar naquilo que você disser, do contrário... MADAME LOU Do contrário o que? CARLOS ALBERTO Do contrário, se eu não acreditar no que ouvir nessa consulta, acho justo que eu não te pague nada. MADAME LOU Nada? CARLOS ALBERTO Isso. Ou você ganha dez mil, ou não ganha nada, depende de você. MADAME LOU E que garantia eu tenho de que depois da consulta você não vai dizer que não acreditou em nada, mesmo tendo acreditado? CARLOS ALBERTO A senhora acha que eu teria a capacidade de ir até o banco, tirar dez mil reais e me prestar ao papel de vir até aqui pra lhe fazer esta proposta, só pra não pagar uma consulta de vinte reais? MADAME LOU É, faz sentido. CARLOS ALBERTO A senhora só precisa decidir se vale a pena arriscar vinte reais para poder ganhar dez mil. (Pausa) (MAIS...)
  • 7. CARLOS ALBERTO (...cont.) Então, o que me diz? MADAME LOU (Pausa) Eu aceito.Madame Lou estende a mão para Carlos Alberto, que aperta amão dela, selando o acordo. Em seguida ele fecha a maletae a coloca no cão. CARLOS ALBERTO Muito bem, então. Agora, podemos começar.Madame Lou puxa a mão de Carlos Alberto, analisando suapalma atentamente. MADAME LOU Bom, eu posso ver aqui que você trabalha com pessoas, todo tipo de pessoas. Deve ser um advogado, ou juiz. É inteligente, bem-sucedido pessoal e profissionalmente, mas vem perdendo o foco com um problema de fora do trabalho. Correto?Carlos Alberto recolhe a sua mão abruptamente. CARLOS ALBERTO Muito bem. A senhora percebeu que eu sou comunicativo, e que com bons argumentos consegui convencê-la a aceitar a minha proposta, ou seja, sou um advogado. Provavelmente viu meu carro, estacionado na rua, meu relógio, minhas roupas, sem falar na maleta com dez mil reais em dinheiro, então percebeu que tenho boas condições financeiras, ou seja, sou bem sucedido. E como resolvi deixar de lado minhas convicções e vir até aqui consulta-la, só posso ter um problema de difícil solução, que se tivesse a ver com o trabalho não me faria arriscar dez mil reais. Enfim, observação notável, mas vai ter que fazer bem melhor do que isso pra poder levar os dez mil, Madame Lou. MADAME LOU Muito bem, mas você esqueceu de falar sobre ser inteligente e bem sucedido na vida pessoal?
  • 8. CARLOS ALBERTO Ora, para ser bem sucedido um advogado precisa ser inteligente. E quanto à vida pessoal, sua cliente praticamente se atirou em cima de mim agora há pouco. Se não for isso, a senhora mesmo deve ter me achado bonito e charmoso. MADAME LOU E bastante modesto também.Carlos Alberto sorri e acena positivamente com a cabeça. CARLOS ALBERTO Obrigado. MADAME LOU Muito bem, acho que vou ter que utilizar métodos mais convincentes para persuadi-lo. O que você acha de tarô? CARLOS ALBERTO Sinceramente? Eu acho uma besteira. Mas se quiser tentar, vá em frente.Madame Lou olha para ele com um olhar insatisfeito,estende a mão e pega o baralho de tarô em uma mesinhapróxima de sua cadeira. MADAME LOU (Embaralhando as cartas) O tarô, Carlos Alberto, é uma ferramenta de autoconhecimento capaz de mostrar o que se passa no inconsciente das pessoas, ajudando-as, inclusive, a se conhecer melhor. O baralho é dividido em setenta e oito cartas, os arcanos, os quais são ainda subdivididos em vinte e dois arcanos maiores e cinquenta e seis arcanos menores. (Abrindo as cartas na mesa) O tarô funciona com base no princípio da aleatoriedade, ou seja, as respostas serão reveladas pela sua escolha aleatória das cartas do baralho. Agora eu peço que você feche os olhos, se concentre na sua dúvida e escolha três cartas. Estas cartas vão lhe mostrar a verdade e as respostas que você procura.
  • 9.Carlos Alberto imediatamente dirige sua mão para ascartas, pronto para escolher qualquer uma. MADAME LOU (...cont.) O que você está fazendo? CARLOS ALBERTO Não era pra escolher três cartas? MADAME LOU Sim, mas isso aqui não é sorteio da rifa da Igreja, onde você simplesmente coloca a mão numa caixa e pega o primeiro bilhete que conseguir pegar. (Pausa) É fundamental que você feche os olhos, se concentre na sua dúvida e só então escolha as cartas.Carlos Alberto respira fundo, fecha os olhos por algunsinstantes, se concentra na sua dúvida, e enfim abre osolhos e escolhe três cartas puxando-as levemente. MadameLou coloca as cartas uma ao lado da outra na ordem em queforam escolhidas. Em seguida começa a recolher as cortasque sobraram, agrupando-as em uma pilha no canto da mesa. MADAME LOU (...cont.) Muito bem Carlos Alberto. Vamos ver o que as cartas reservam para você. Vire a primeira carta.Carlos Alberto vira a primeira carta e olha para MadameLou. MADAME LOU (...cont.) A morte.Carlos Alberto se assusta. MADAME LOU (...cont.) Calma, no tarô nenhuma carta sozinha tem um significado completo. A morte, por si só, não anuncia necessariamente um falecimento, mas sim uma mudança. (Pausa) A não ser que as outras cartas... (Pausa) Enfim, vire a próxima carta.Assim como fez com a primeira carta, Carlos Alberto vira asegunda e olha para Madame Lou. MADAME LOU (...cont.) A Torre.
  • 10.Ambos se entreolham e ficam em silêncio por algunsinstantes. CARLOS ALBERTO E então, o que a torre quer dizer? MADAME LOU Você está doente Carlos Alberto? CARLOS ALBERTO Eu estou lhe oferecendo dez mil reais por um consulta de vinte reais, há pouco admiti ter uma vida pessoal bem sucedida. Logo, só poderia ser a saúde o meu problema, não é? MADAME LOU Não por isso. A Torre indica uma intervenção cirúrgica. (Olha para ele) Mas você não parece surpreso com isso.Carlos Alberto faz um breve aceno com a cabeça,confirmando que sabia. Madame Lou se inclina para a frentee olha fixamente para Carlos Alberto como se tentasse leros seus pensamentos. Fica assum por alguns segundos eentão, com um sorriso satisfeito, se recosta na cadeira. MADAME LOU (...cont.) Então Carlos Alberto. Você tem dúvidas sobre este procedimento cirurgico, certo? CARLOS ALBERTO Surpreendente óbvio, não? MADAME LOU Certamente. Mas então, você pretende me dar detalhes sobre o que seu médico lhe disse a respeito desta cirurgia ou quer que eu tente adivinhar o que te assusta tanto em um câncer benigno e operável?Carlos Alberto se recosta na cadeira com um olharsurpreso. CARLOS ALBERTO Devo dizer que desta vez fiquei impressionado. (Pausa) Bom acho que posso lhe poupar um pouco de esforço. Realmente, eu (MAIS...)
  • 11. CARLOS ALBERTO (...cont.) tenho um tipo de tumor, benigno e operável, no cérebro. Pode não parecer tão complicado por ser benigno e operável, mas, acredite é complicado. Meu médico disse que a cirurgia é de alto risco, podendo causar os mais diversos tipos de sequelas, e até mesmo a morte. MADAME LOU Hm...e se você não fizer a cirurgia? CARLOS ALBERTO Aí que está a parte mais complicada. Como o tumor é benigno, se eu não fizer a cirurgia eu posso ter uma vida longa e feliz, ou eu posso, morrer a qualquer momento. Não tem como dizer com certeza o que vai acontecer se eu não fizer a cirurgia.Ambos ficam em silêncio por alguns instantes. MADAME LOU Sabe Carlos Alberto, eu entendo o seu ceticismo. A vidência não é levada a sério nem mesmo pelos próprios videntes. Falo isso por mim mesma. Não que eu não tenha o dom, como você diz. Eu tenho. Mas nem sempre eu uso. A verdade é que todo vidente, sempre parte da premissa de que o cliente o procura por um motivo chave, e esse motivo é sempre saúde, finanças ou amor. E com isso, a observação é muito importante, e nos poupa um grande esforço. A minha última cliente, que você conheceu na recepção, por exemplo. Há um tempo ela chegou aqui visivelmente preocupada com sua vida amorosa. Não foi difícil perceber. Agora fazem quase seis meses que ela vem aqui toda semana, sempre pelo mesmo motivo. Eu nem preciso mais observar nada, é só falar pra ela que o seu amor está chegando que ela sempre sai daqui satisfeita, embora eu nunca tenha usado nada mais do que minha capacidade de (MAIS...)
  • 12. MADAME LOU (...cont.)observação e algumas palavrasconfortantes. Mas o seu casomerece, uma atenção especial. CARLOS ALBERTOA senhora pretende que euacredite na sua vidência merevelando a sua farsa? MADAME LOUCarlos Alberto, no decorrer destaconsulta, enquanto eu teobservava, aparentemente semfazer nada demais, eu pudedescobrir, a origem de toda a suaangústia, a sua doença, como lhedisse antes. CARLOS ALBERTOMas eu não lhe ofereci dez milreais pra ouvir algo que o meumédico já me disse. MADAME LOUEu sei, você veio aqui para saberse deve ou não fazer a operaçãopara evitar uma morte prematura. CARLOS ALBERTOExato! MADAME LOUEsta é uma decisão que só vocêpode tomar. Eu não posso dizerpara você fazer uma ou outracoisa. Tudo o que posso lhe dizeré que, após descobrir a suadoença, eu vi... (Pausa)...eu vi você morrendo! CARLOS ALBERTOIsso era de se imaginar, afinaleu tenho câncer. MADAME LOUO seu dilema não está na doença,está nas opções dadas por seumédico, fazer a operação,arriscando sua vida, ou convivercom o câncer, podendo morrer aqualquer momento. CARLOS ALBERTOExatamente.
  • 13. MADAME LOU Então, eu não apenas te vi morrendo, mas eu vi onde... CARLOS ALBERTO Onde? MADAME LOU Não conheço o lugar, mas não foi numa mesa de operação Carlos Alberto, foi na rua. CARLOS ALBERTO Então, o que eu devo fazer? MADAME LOU Carlos Alberto, você veio até aqui com uma dúvida: devo ou não devo fazer a cirurgia para remoção do meu tumor? Eu tive uma clara visão, de você morrendo, na rua. Você é inteligente o suficiente para fazer uma boa conclusão sobre isso tudo. CARLOS ALBERTO Então eu devo fazer a cirurgia? MADAME LOU Como eu disse, só você pode tomar esta decisão, mas se eu fosse você, procuraria o seu médico para marcar a cirurgia o quanto antes. Se possível ainda hoje.Carlos Alberto fica quieto por alguns instantes. Passa amão pelo rosto, pensativo. Então olha para Madame Lou. Ese levanta. MADAME LOU (...cont.) Aonde você vai? CARLOS ALBERTO Procurar o meu médico, como você sugeriu. Eu vou fazer essa cirurgia. Antes que seja tarde.Madame Lou acena com a cabeça e Carlos Alberto seencaminha para a porta. MADAME LOU Espera, e a sua maleta. CARLOS ALBERTO (Se vira) Madame Lou, eu ainda não acredito no seu trabalho. Mas se eu não (MAIS...)
  • 14. CARLOS ALBERTO (...cont.) morrer, vai ser graças ao seu conselho. E se eu morrer. Bom, se eu morrer, não vou precisar desse dinheiro, certo? MADAME LOU Então, você quer que eu... Carlos Alberto pega a maleta e coloca sobre a mesa. CARLOS ALBERTO Fique com o dinheiro Madame Lou. E obrigado. Madame Lou acena positivamente com a cabeça, abrindo a maleta. Olha para seu interior, e depois para Carlos Alberto. Ele acena com a cabeça, sorri e sai da sala. Madame Lou fecha a maleta com um sorriso satisfeito no rosto. Se levanta e coloca a maleta sobre uma prateleira. Retorna para a mesa e pega a pilha de cartas que não foi utilizada na consulta, completando-a com as cartas que estavam dispostas sobre a mesa, uma a uma. Quando chega na terceira carta percebe que esta não foi virada. Lentamente vira a terceira carta. Quando vê a carta fica com um olhar assustado. MADAME LOU Ai Meu Deus. Madame Lou apanha sua bolsa em uma prateleira e corre para a porta, saindo da sala de consulta.4 FACHADA DO CONSULTÓRIO DA MADAME LOU - EXT/NOITE. Uma rua pouco movimentada. Madame Lou abre a porta do consultório, saindo para a rua. Olha para os lados como se procurasse alguma coisa. Então vê o carro de Carlos Alberto dobrando a esquina. MADAME LOU Essa não. Espero que eu esteja enganada. Se vira para a porta que dá entrada ao consultório trancando-a. Em seguida abre a bolsa e retira uma chave. Se dirige a um carro velho estacionado em frente ao consultório, abre ele usando a chave, liga e sai.5 FACHADA DO CONSULTÓRIO DO MÉDICO DE CARLOS ALBERTO - EXT/NOITE. Rua razoavelmente movimentada, o carro de Carlos Alberto estaciona na frente a um prédio grande com uma placa indicando o consultório do seu médico. A porta do carro
  • 15.abre e Carlos Alberto sai. Após trancar o carro ele sedirige para o prédio, no meio da calçada ele para poralguns instantes, sorri nervoso olhando para a placa doconsultório, e respira fundo. Continua o seu caminho rumoà porta de entrada do prédio. CARLOS ALBERTO Espero que ele ainda não tenha ido para casa. LADRÃO Parado aí doutor!Carlos Alberto para e olha para o lado, vê um ladrão aoseu lado com uma faca em punho. CARLOS ALBERTO Fica calmo aí, amigo. LADRÃO Em primeiro lugar eu não sou teu amigo, e em segundo lugar eu tô calmo. Agora levanta as mãos! CARLOS ALBERTO Tudo bem,... (Levanta as mãos ) ...tudo bem. LADRÃO Agora me passa o celular e a carteira!Rapidamente Carlos Alberto leva a mão ao bolso interno dopaletó. LADRÃO (...cont.) Devagar!Carlos Alberto para por alguns instantes, então coloca amão no bolso interno do paletó bem devagar. Ele tira dobolso o celular e a carteira e os entrega para o ladrãoque se aproxima e coloca as mãos sobre os objetos. Umbarulho alto de buzina e freada de carro, respectivamente,interrompe o silêncio dos dois. O ladrão se assusta e,acidentalmente, esbarra em Carlos Alberto. Se afasta eobserva que a faca atingiu a vítima. Assustado ele olhapara a faca cheia de sangue, larga ela no chão, olha paraos lados e sai correndo com a carteira e o celular deCarlos Alberto, que põe a mão no ferimento, percebe osangue e cai no chão lentamente e senta ofegante. MadameLou, que estacionou o carro do outro lado da rua, chegacorrendo até onde está Carlos Alberto. MADAME LOU Carlos Alberto. Eu esperava chegar a tempo.
  • 16. CARLOS ALBERTO Você sabia que isso iria acontecer? MADAME LOU Depois que você saiu eu percebi que não havíamos virado uma carta do tarô. Então eu virei... CARLOS ALBERTO Pelo jeito não era algo muito bom, né. MADAME LOU Era O Carro, que na verdade é uma carta muito boa. CARLOS ALBERTO (Ironicamente) Estou vendo. MADAME LOU É que O Carro representa deslocação, fazendo assim com que A Torre tenha um significado todo diferente. Assim, ao invés de indicar a sua operação, ela indica um tipo de acidente...uma catástrofe.Carlos Alberto ri. MADAME LOU (...cont.) O que foi? CARLOS ALBERTO Eu nunca acreditei em nada, e quando resolvo dar o braço a torcer... (Pausa) ...no fim das contas vou acabar morrendo por vir até aqui, seguindo as suas indicações. MADAME LOU Eu sinto muito... CARLOS ALBERTO Tudo bem, mas eu fico pensando: quem sabe se eu não tivesse ido até o seu consultório isso não aconteceria. Ou aconteceria. Enfim, a verdade é que nunca saberemos, mas acima de tudo, sua visão se concretizou, Madame Lou, e com isso você conseguiu me convencer da seriedade do seu (MAIS...)
  • 17. CARLOS ALBERTO (...cont.) trabalho, fazendo por merecer cada centavo daqueles dez mil reais. Parabéns.Os dois se olham por alguns instantes. Aos poucos CarlosAlberto começa a fechar os olhos e cai morto nos braços deMadame Lou. MADAME LOU Carlos Alberto? (Pausa, gritando) Carlos Alberto?Madame Lou chora e se curva sobre Carlos Alberto. A câmerase afasta lentamente e a tela vai escurecendo até ficarcompletamente preta. FIM.