Páginas Negras

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Páginas Negras

  1. 1. Revista TripSessão Páginas NegrasTEXTO GUILHERME WERNECKFOTOS LEANDRO PAGLIARO
  2. 2. Arnaldo (não)está aquiEle Vagou Do Rock À Mpb, do som à Imagem, semprepassando pela palavra; deslizou da Tropicália aoPós-Punk; fez ponte entre os sambistas dos 40, osconcretistas dos 60, Os bregas dos 70 e os Pós-Hippies dos00; escreveu artigos cabeça para adultos e canções de ninarpara os filhos. paulista apaixonado pela Bahia, brasileirocom um olho nos Eua, outro na África, Arnaldo Antunes faz,em seu novo trabalho, a viagem da eletroeletrônica de voltaao acústico – Tudo Para Devolver à palavra sua marca denascença: A voz. Pra Onde Vai Este Cara?POR GUILHERME WERNECK, DO RIO FOTOS LEANDRO PAGLIARO01
  3. 3. “Você tem de pararpara olhar umapaisagem, viver essetempo de contemplação,sair do mundo urbanode São Paulo, onde tudoé apertado, não háhorizonte. Os livros tedevolvem esse tempoda paisagem.”
  4. 4. OArnaldoémeiocubista,cheiodepontas;já o Branco [Mello] é mais placentário.”Essa foi a impressão do poeta Haroldode Campos depois de ter assistido a umaapresentação dos Titãs nos anos 80. Verdade:das oito cabeças dos Titãs, a de Arnaldo,com seu corte de cabelo arrepiado, sempresem costeletas, pulsava em freqüênciasque hipnotizavam toda e qualquer alma naplatéia. Postura epilética no palco, gestualquebrado, olhar feroz faziam parte de umaaglutinação visual a dar um sentido virulentoàs palavras — estas também sempreaglutinadas de forma original, grávidas desentidos múltiplos —, que seu cantofalaberroamplificava. Vê-lo à frente da banda, comotantas vezes vi durante a adolescência,era ser confrontado com o extremo, issoquando explorar a violência implícita no não-conformismo das extremidades era a únicacoisa que importava. Era tomar partido nummundo de críticas ao nosso torpor cordial,era agredir o medo paralisante dessa geraçãoa qual pertenço, que recém-começava aentender um mundo ainda anestesiadopela ditadura militar. Arnaldo e os Titãs nosdavam o pasto certo para ruminar contrapolícia, TV, Igreja, miséria. Nomes aos bois:AA-UU. Essa visão romântica do extremismorepresenta só um lado da personalidade eda persona pública de Arnaldo Augusto NoraAntunes Filho, o filho do meio de sete irmãos.Ao deixar os Titãs há 15 anos, embarcou emoutras viagens, que, como conta, não cabiamno consenso de oito da banda. Deixou issoclaro de cara, ao lançar o livro-disco Nome,em que explorava as interseções entremúsica popular, vanguarda, poesia e artesgráficas — paixões da vida inteira. Nome é umdisco radical. “Depois de fazer o Nome, todosos discos que lanço até hoje os jornalistasdizem: ‘Poxa, este veio mais pop, não?’.” Poisé: o Arnaldo experimental de livros como Oue (1982), Psia (1986), Tudos (1990), As coisas(1992), Palavra desordem (2002) e Et eu tu(2003, parceria com a atual namorada, MarciaXavier) há tempos convive bem com o Arnaldopop dos discos Ninguém (1995), O silêncio(1996), Um som (1998), Paradeiro (2001),Saiba (2004), Qualquer (2006) e do ultrapopTribalistas (2003), encontro com MarisaMonte e Carlinhos Brown que se tornou umdos maiores sucessos de venda desta décadaem que a indústria do disco banqueteiao pão que o diabo amassou, ou colhetempestades, ditados ao gosto do freguês.Arnaldo encontrou a Trip na sede da gravadoraBiscoito Fino, sua casa desde Qualquer, ondese sente acolhido como nunca. Fim de dia,meio de feriado, ele vinha tresnoitado apóster enfrentado uma viagem de noite inteira,Fortaleza–Rio, e uma maratona de noveentrevistas para falar de seu novo projeto: adupla disco e DVD Ao vivo no estúdio, gravadano lendário Mosh, que abrigou o pós-punkbrasileiro nos anos 80. Talvez pelo cansaço,talvez por temperamento, carioca não tinha amesma aspereza que aquele que acompanheimesmerizado na adolescência. Aos 47 anos,dois casamentos, quatro filhos, pareceestar feliz agora, namorando junto em casasseparadas. Calmo, por vezes doce, sossegadocomo o disco novo, que traduz toda a suacarreira em arranjos orgânicos de tecladose cordas, sem rodeios ele falou à Trip sobrepoesia, política, música, crianças, drogas —sempre mostrando o olhar original de quem(ainda) não vai se adaptar.FOTOARQUIVOPESSOAL04
  5. 5. Em que lugar do mundo você nunca tocou e gostariade tocar? No Japão. Nunca fui ao Oriente, adoraria irpara lá.Como era viajar com todos os Titãs? No início, quandoestourou o sucesso, a gente fazia cinco shows porsemana. Era desgastante, mas tudo o que a gentequeria. Foi uma época em que o rock nacional ficoubastante popular. Tinha muito investimento, casade shows abrindo pelo Brasil todo, convites paraentrevistas nas rádios, participação no programa doChacrinha...Chegou a fazer aqueles shows com playback dacaravana do Chacrinha? Sim, claro. Uma vez, fizemospela Baixada Fluminense. Estávamos em dois carros,quatro titãs em cada um. Um dos carros não chegou,furou um pneu, e na hora da apresentação só tinhametade da banda. Foi engraçado, com guitarrista nabateria [Risos]Você se dá bem hoje com seus antigos companheiros?Participei do encontro dos Titãs com os Paralamasagora; me dou bem com eles... Vejo um ou outrode vez em quando, queria ver mais, mas acabamosnos vendo pouco. Eu tenho saudades quando osreencontro, quando estou matando as saudades[risos], mas normalmente não fico pensando nissoQuando saiu dos Titãs, já sabia o seu rumo?Sabia. Eu tinha um desejo de mostrar coisas que nãocaberiam naquele consenso de oito pessoas e de termais espaço para experimentar outras soluções deinstrumentação, outros gêneros, jeitos de cantar. Saímuito motivado para fazer o Nome, um trabalho superdemorado, juntando música, poesia, animaçãoem vídeo...Você trabalha com som, palavra e imagem. Se con-sidera um renascentista? Não. Isso é herança damodernidade, que foi recriando esse link entrelinguagens que foram de certa forma separadaspela civilização. Em sociedades primitivas, não háseparação entre vida e arte. A música está semprerelacionada à dança, a um culto, e não há artesplásticas: o que tem é utilitário, uma panela, umtotem, tudo misturado. A civilização foi separando:música é pra ser ouvida, literatura é pra ser lida, e amodernidade misturou, você passa a ter trabalhosvisuais que usam palavra, poemas sonoros. Issotambém confundiu repertórios, alto e baixo: essacoisa de juntar música brega e música erudita —sempre tive gosto por essas pontas, nunca tive gostomédio. Gostava mais da música da AM e tambémde uma música esquisita, experimental, do que dacoisa bem-acabada, que eu acho insossa. Semprevi potência nas pontas. Conforme se desenvolveua tecnologia digital, isso se misturou ainda mais,criou-se um território propício a essa influência entrediferentes códigos.Na sua opinião, vivemos num tempo de excesso de in-formações? Eu gosto disso. Não gostei por exemplo doprojeto Cidade Limpa. Gosto da coisa urbana. Gostodaquele monte de anúncio e letreiro, daquela poluiçãovisual [risos]...Em um texto antigo, você negava o rótulo de rocknacional para bandas tão diferentes quanto Titãs eAbsyntho e que MPB era música pra boi dormir... Foiuma provocação. Nunca tive esse preconceito contraa MPB: ao mesmo tempo que ouvia Led Zeppelin,Jimi Hendrix, Beatles, Rolling Stones, ouvia CaetanoVeloso, Gilberto Gil, Jorge Benjor, Paulinho da Viola...Minha formação vem da convivência com reggae,funk, MPB, samba dos anos 20, 30, 40, bossa nova,jovem guarda. E o próprio rock é tão mutanteFalando em formação, como era ser moleque no Brasildos anos 70? Estudei no Equipe, um colégio muitoliberal, um oásis na ditadura, muitos professoresde esquerda. Era maravilhoso, havia um contextopropício à criação, um centro cultural onde muitasvezes passavam vídeos censurados, o SerginhoGroisman era o produtor cultural, levava shows...E tinha o movimento estudantil, cheguei a ir apasseatas, fugir de bombas de gás lacrimogêneo...Enfim, tinha uma participação política e umaefervescência cultural intensas.Não havia separação entre a turma da política ea turma da arte? Essas duas coisas faziam partedo repertório da minha adolescência. Eu já tinhainteresse pelo rock’n’roll, tropicália, Novos Baianos,Luiz Melodia, e, ao mesmo tempo que tinha o desejode participar politicamente, eu não queria mesubmeter àquele discurso engessado da esquerdaradical. Nas assembléias de alunos das quais a genteparticipava, tentava inserir uma coloquialidade..Foi no Equipe que você começou com a poesia? Foiantes, no colégio São Domingos, um colégio deaplicação da PUC, e no Luis de Camões, que era maistradicional.Eu desenhava também nesta época, etinha aula de violão em casa. Quando aprendi osprimeiros acordes, começava também a querer fazercanções. Não gostava de tirar a música dos outros.Ia meio que inventando uma harmonia pra que eupudesse cantar,experimentando...E quem foram os seus primeiros poetas? FernandoPessoa, os concretos... Fiquei encantado com aquelacaixa do Augusto de Campos, poemas soltos, e, éclaro, os poetas modernistas, Oswald [de Andrade],Mário [de Andrade], [Manuel] Bandeira, João Cabral[de Melo Neto], também foram uma descoberta...A poesia confessional, lírica, te cansa? Tempoetas confessionais maravilhosos, o HerbertoHelder, mesmo o Pessoa, o Vinicius [de Moraes],05
  6. 6. 06
  7. 7. fui apaixonado por esse lado também... Minhapoesia é associada à poesia concreta, vem de e. e.cummings, Maiakóvski, Mallarmé. Mas tem toda umatradição lírica que me encanta, a própria paixão pelorock’n’roll, Beatles. Era também muito interessadopelo [Paulo] Leminski e pelo Waly Salomão. Crescicomprando muitas revistas de poesia...cheguei aeditar três números de revistas de poesia nos anos80. Aquilo me formou muito, era uma coisa da poesiajunto com a linguagem gráfica.Design você estudou por conta? Sim. Editei meuprimeiro livro,um álbum com os poemas soltos, meiocaligráficos, em 81. Hoje em dia é um botão que vocêaperta. O primeiro livro com computador abriu outradimensão, você trabalha não só com mais facilidadeusando os recursos que tinha antes, mas tambémfaz coisas que não faria se não tivesse o filtro, oinstrumento, a distorção que os meios digitaisoferecem.Terminou a faculdade de letras? Não. Entrei em 78,e em 79 meus pais foram morar no Rio, fui com eles.Pedi transferência da USP pra PUC do Rio. Aí moreium ano no Rio, decidi voltar para São Paulo e já fuiviver sozinho, casado. Só que não queria continuarno mesmo curso básico, eu queria lingüística. Aí em80 voltei pra USP, mas em 82 começou a coisa dosTitãs, antes eu fazia parte da Banda Performática,morava na casa do [José Roberto] Aguilar. Aí acendeuum monte de coisas. Não tinha mais tempopara faculdade.Chegou a estudar chinês e iorubá mesmo? Sim,algumas aulas... Como você descobriu isso? [Risos.]Eu tinha interesse por línguas estranhas. Chinês porcausa de ideograma, associação analógica, caligrafia.E iorubá por causa da linguagem africana primitiva.Tem religião? Não [risos]. Eu tenho religiosidade.Mas e curiosidade? Já foi em um terreiro? Já. Eu tenhouma mãe-de-santo. Meus pais são católicos, quandoeu era criança fiz primeira comunhão, mas nunca meidentifiquei com uma instituição religiosa.Você vem de uma família numerosa, é o quarto filhode sete? Sim, sou o do meio, entre os três mais velhose os três mais jovens. Tenho boas lembranças de serde família grande, muita gente em casa, tudo muitoanimado. Morei em muitos lugares de São Paulo:Perdizes, Jardins, Butantã, Alto de inheiros. Gostavade mudança, achava muito interessante aquelabagunça de encaixotar tudo e ir pra outro lugar.Você acabou reproduzindo esse modelo de famíliagrande... Tenho quatro filhos, é bastante. Gosto decriança e isso foi acontecendo, não foi programado.Meus filhos têm um espaço longo entre eles: a maisvelha tem 19 e o mais novo tem 5. Eu tenho o maiorprazer de ser pai.Mas você é separado. Como convive com os filhos?Minhas filhas mais velhas, adolescentes, ficam nacasa da mãe, cada uma tem seu quarto. Na minha casatambém. Não tem muita regra. Os menores têm osdias certos. Dormem toda quartafeira em casa, ficamum fim de semana sim, um não. Segundas e terçassaem da escola, vão para minha casa, ficam até 10horas e depois vão dormir na casa da mãe. Então eu osvejo praticamente todo dia.Como é o rebelde sendo pai, tendo de colocarhorário, rotina...? Tem que ter limites. Não sou muitotalentoso pra isso,não. Sou meio... liberal. Rola umanegociação. A hora de tomar banho é daqui a pouco,então vou marcar meia hora, entendeu? Vamosescovar os dentes? Ah, não quero! Mas tem quê! É naconversa. Tento agir de maneira natural, obedecendoregras e respeitando desejos. Não sou inflexível, soumaleável em todas as minhas relações. O que garantea relação de pai e filho é amor. Cada criança precisade uma coisa diferente, depende da personalidade,umas você precisa incentivar a se soltar, outras vocêtem de segurar um pouco.E o que não pode faltar na educação? Tem que ler.Neste tempo de videogame, a leitura vai ficandode lado, e acho que ela oferece um tempo que vocêprecisa parar um pouco, pra viver esse outro tempoque o livro dá, sabe? A velocidade do mundo digital éuma coisa rápida demais. Você tem de parar pra olharuma paisagem, viver esse tempo de contemplaçãonuma fazenda, numa praia, um lugar onde vocêpossa ver a imensidão, sair do mundo muito urbanode São Paulo, onde tudo é apertado, não há espaçopra céu, horizonte.Os livros te devolvem esse tempoda paisapaisagem. Outra coisa é contato com anatureza, ter contato com bicho. Não tem experiênciaque substitua você ver o pintinho saindo do ovo, ver aplanta crescendo...E você tem um lugar pra isso? Eles têm. A Zaba[Moreau], mãe deles, tem uma fazenda. Eu vou prahotel fazenda, praia, casa de amigos. Mas tenho umacasa em São Paulo com três cachorros, pitangueiras,entendeu? E o Tomé, meu filho mais novo, na escola,está aprendendo a plantar feijão na terra. Acho issotudo muito legal...E você começou a escrever pra criança depois que tevefilho? Eu fiz duas coisas que me foram encomendadas.Uma foi a música do Castelo Rá-Tim-Bum, sobre lavaras mãos, e outras músicas que eu fiz com o Paulo[Tatit] e a Sandra [Peres], do Palavra Cantada, sobencomenda.Não é inspiração, então... Acredita em inspiração?Em partes. Não acho que, para você criar, tem quenecessariamente estar movido por inspiração. Tem07
  8. 8. “Minha prisão foiuma forma não sóde espantar osmaus-olhados mastambém as imagensturvas que fizeramda minha pessoa.Tive de tranfor-mar aquele sofri-mento em algumariqueza”A televisão me deixouburro demais: Arnaldo Titã,em 85
  9. 9. trabalho. Mas há momentos em que sua sensibilidadeé despertada de maneira mais intensa, tem unsmomentos mais inspirados, e que eles vão nutrir acriação talvez não naquela hora. Fiz essas coisasinfantis sob encomenda, mas, independentementede ser para crianças, tem muito do olhar infantil noque faço. Você se surpreende com as coisas que osfilhos falam. Tenho um livro chamado As coisas que éuma poética voltada a esse olhar virgem, de ver umacoisa óbvia que passa a ser estranha porque você nãohavia reparado nela antes.Falando em parceiros, como foi sua aproximação comCarlinhos Brown? Sou um admirador, acho ele umausina de criatividade absurda. As melodias, a coisarítmica, as letras têm uma espontaneidade! E temuma coisa de admiração e amizade mútuas.são.Quem fez a ponte foi a Marisa Monte? Marisa euconheci nos anos 80, Carlinhos, nos 90. Ele meconvidou pra participar do show da Timbalada,e eu fui pra Bahia. Me encontrei com ele numapartamento, “Ah, tô fazendo esta música”, e jácomecei a fazer um som com ele, a música “Doce domar”, que gravei no Um som.Esperava o sucesso dos Tribalistas? Essa coisa megaaconteceu da forma mais natural possível. Eu fuipra Ilha dos Sapos, porque, no Paradeiro, queriatrabalhar muito com os músicos da Bahia e que oCarlinhos desse sugestões de arranjos. Fui pra lá sócom as canções, sem nenhuma idéia preconcebida dearranjo. Foi maravilhoso. Estávamos gravando e tinhaesta canção “Paradeiro”, talvez uma das primeirasparcerias de nós três, e convidei a Marisa para cantá-la. Quando ela foi gravar na Bahia, a gente começoua compor juntos e tudo aconteceu de um jeito muitofértil, fácil. Fizemos umas 20 músicas num curtoperíodo. Chegou uma hora que vimos aquele mundode canções e achamos que deveríamos registraraquilo. Foi uma coisa meio mágica mesmo. Só depoisde um ano conseguimos abrir espaço na agendade cada um para fazer a gravação. A gente gravavauma música por dia. O sucesso do projeto se deve àespontaneidade com que ele foi concebido, ninguémtinha a meta de ser uma coisa grande.O que você acha da pirataria? A internet hoje é umveículo de divulgação muito presente. As gravadorasse desfizeram de grande parte do seu casting, ospequenos selos cresceram, não é preciso ir para umestúdio caríssimo gravar. E acho que não tem umanova ordem, não dá pra dizer que o CD vai acabar.Tudo está movediço e eu gosto disso. Vivemosuma época libertária, acessamos informações domundo todo. Não tenho tempo para baixar músicae filmes na internet, mas não tenho pudor comisso. Essa troca de informação via internet deveriaser permitida. Quando era criança, gravava fitacassete. Poder copiar é bem diferente de ganhardinheiro com produção artística alheia, que é quemvende CD pirata. É preciso encontrar um meio-termo,uma maneira equilibrada de pagar direito autoral,comprando downloads, ou o site de troca de músicatem um patrocinador que banca — enfim, a sociedadeque criou essa situação terá de encontrar umasolução. É uma conquista o artista viver de arte. Issodeve ser preservado. Não tem essa coisa de o artistaser vagabundo: “Ah, o cara é poeta, vive de arte!”.E como é trabalhar hoje com uma estrutura pequena,depois de ter sido de grandes gravadoras? Estougostando muito. Dão uma atenção diferenciadapara cada artista, e meu disco está muito mais bemdistribuído, muito bem divulgado.Você é amigo do Gilberto Gil. Como você vê a atuaçãodele no Ministério da Cultura? É difícil avaliar. Mas,pelo que tenho visto na imprensa, nunca se teve tantacredibilidade no Ministério da Cultura, muito pelapersonalidade ativa do Gil Sempre tem um projetonovo, aquilo tá vivo. Nunca vi um Ministério da Culturatão atuante, e isso já é um ponto positivo. O Gil é umapessoa íntegra, capaz e criativa.No livro Tropicália, a decadência bonita do samba, oPedro Alexandre Sanches tem uma tese de que, nosanos 80, os primeiros tropicalistas foram vampirosda sua geração. Eles estavam perdidos e viram nessaeração uma maneira de voltar à moda e gravaramdiscos de rock, se aproximaram do Cazuza, dos Par-alamas. Você sentiu isso também? Não li o livro, mas,para mim, que cresci estudando os primeiros discosde Gil, de Caetano, quilo era o rock’n’roll da minhaépoca. Junto com os Novos Baianos, era rock. Elesvêem o rock de uma maneira muito mais livre, porquemisturaram com sambacanção, baião. Um guitarristacomo o Lanny Gordin tinha a postura do rock, cabelocomprido, atitude. Nos anos 80 as bandas tinham umterreno de mídia muito favorável, mas não inventaramo rock. Já tinha tido Raul Seixas, jovem guarda.Os tropicalistas introduziram a guitarra na cançãopopular e sofreram uma reação muito mais violenta doque a gente. Teve passeata contra a guitarra elétrica,algo inconcebível hoje. Muito jovem você conseguiuchegar perto dos seus ídolos, tanto os da músicaquanto os da literatura. Como isso te influenciou? Égratificante trabalhar com alguém que você cresceuadmirando. Na hora que fiz uma parceria com o JorgeBenjor, com o Gil, foi uma felicidade total. Acabeide fazer a primeira parceria com o Caetano para ofilme novo do Guel Arraes [Romance], fiz uma letra, oCaetano musicou, ficou linda, fiquei numa felicidadeenorme. Com os poetas também, quando conheci osirmãos Campos, Décio Pignatari, o Waly Salomão, oLeminski, caras que eu lia com muita sede. Na horaque você tem um convívio pessoal, aquilo cresce.Como foi a primeira vez que você mostrou um poemaseu para o Augusto de Campos? Conheci o Augusto09
  10. 10. jovem, porque com uns 17 fiquei amigo do Cid,filho dele. Aí fui visitar o Cid na casa do Augusto,que eu admirava pra caralho como poeta e tal, e fuiincentivado pelo próprio Cid a mostrar meus poemas.O Augusto leu, comentou, foi muito bacana.E o contrário, como é sua relação com a nova ger-ação? Ganho muito livro, mal tenho tempo de olhartudo. Quando vou fazer um show ganho quatrolivros, cinco CDs, dois DVDs. Teve por exemplo oLourenço Mutarelli. Ele fazia já aqueles quadrinhosmaravilhosos, mas quando escreveu O cheiro do ralo,primeiro romance dele, esteve em casa com o Ferréz,me deu os originais e eu adorei. Daí escrevi um e-maildizendo que eu tinha gostado, ele pediu para colocaro e-mail na contracapa do livro. Mas me mandam umaquantidade muito grande, não dou conta...Você é solitário ou é daquelas pessoas mais gregári-as, que gostam de receber... Ah, cada coisa em seumomento. Adoro festa, mas também adoro ficar emcasa brincando com as crianças, vendo TV. Tem horaque você quer sossego. Eu tenho uns horários loucospor causa da atividade de shows, viagens...Você dorme tarde? Acabo dormindo três, quatro damanhã e acordando 11, meio-dia. Mas não sou de ira balada, rave, casa noturna. Gosto de ir a cinema,restaurante, receber as pessoas em casa.Como foi o episódio da prisão na sua vida, ter sidopego com heroína numa época em que o Brasil eramuito mais careta em relação às drogas? Ficou comfama de doidão? Essa fama eu já tinha, independenteda prisão. Muito mais pelo jeito como me comportono palco do que pela prisão. Claro, foi umacontecimento traumático em todos os sentidos, vocêtem de transformar aquela informação em riqueza,né? Eu tentava conviver com a situação e aprender omáximo com ela, mas sofrendo muito também.Ficou preso quanto tempo? Um mês, 28 dias... algoassim. Fiquei no que chamam de corró, o lugar paraquem não está preso definitivamente. Me puseramde uma maneira preservada, tinha só mais duaspessoas, de vez em quando entrava mais alguém.Apesar de ser cela comum. Não tinha direito a celaespecial porque não tinha diploma universitário.Como já tinha uma fama e eles me preservaram, achotambém que fui aos poucos cativando os policiaiscom uma certa doçura [risos]. Algumas coisas meforam permitidas: ter um violão para tocar, umgravador para ouvir música... Era uma cela separadade outra por só uma grade, eu via todo mundo queentrava e ficava convivendo através dessa grade.Recebia muitas visitas? Não, porque tinha uma certaregulagem. Mas recebia muitas flores. O Lulu Santosfoi me visitar, o João Gordo, muitos amigos, meusirmãos.Como foi a hora da prisão, você estava em casa, nomeio da madrugada... Horrível. Na hora me deu umacalma. O que vocês querem? Tá aqui, ó. Vamos?Vamos. Quer pôr algema? Põe. De cara percebi que,quanto mais receptivo eu fosse e tratasse as pessoascom doçura, fossem os outros presos os policiais, iaser melhor para mim. Mas aquilo era um sofrimentoenorme, eu chorava o tempo todo...Isso te atordoa até hoje? Não, não penso mais nisso.Claro que é uma informação formadora da suapersonalidade, assim como todas as coisas intensasboas ou más que você viveu. Minha prisão foi umaforma de espantar não só os maus-olhados mastambém os preconceitos, as imagens turvas que sefizeram da minha pessoa. Muita gente me defendeu,estava claro que aquilo era um equívoco. O tempotodo convivendo com esse estranhamento de saberque ali não era o meu lugar, que aquilo era um enganoe, ao mesmo tempo, tendo de me relacionar comaquilo, porque era uma realidade violenta, o jeitocomo as pessoas convivem ali... Tive de aprender comaquilo e transformar aquele sofrimento em algumariqueza.Você usou drogas por bastante tempo, como vê essaquestão hoje? Não vou falar da minha vida pessoal.Mas sou a favor da liberação de todas as drogas. Oque você faz com o seu corpo, seu espírito, sua alma,isso é problema seu e de mais ninguém. É claro queexiste toda a violência que cerca o comércio ilegalde drogas. Mas o uso não deveria jamais ser assuntode polícia. É ingênuo achar que as pessoas que usamPose da bandapara entrevistaem 8411
  11. 11. drogas estão compactuando com a violência donarcotráfico. Uma coisa é o que você faz consigo eoutra coisa é o que você faz com os outros. Se formospensar assim, então ninguém mais pode andar deautomóvel porque estará contribuindo para oaquecimento global. Ou então não pode maistomar Coca porque a empresa tem um histórico deexploração opressora de mão-de-obra. O mundomoderno implica esse paradoxo de uma sociedadeem que você vive diante de uma cena que gera aviolência e até guerras, ao mesmo tempo que vocêtem as suas deliberações íntimas, pessoais, que vocêescolhe o que quer usar. Não se trata de apologia àsdrogas, mas também não me sinto confortável emrecriminar qualquer tipo de atitude. Acho que asdrogas têm lado que pode ser bom para muita gente,de propiciar estados diferentes de consciência.Você pode ter curiosidade sobre sua sensibilidadesob ação de entorpecentes. Cada um deve sabersua medida, seu desejo; detesto qualquer tipo decondenação. Tem situações que são tão alteradorasde consciência quanto as drogas um gol no meiodo estádio, um orgasmo, uma relação afetiva, umapaisagem, uma música. Tudo isso pode ser tãosensibilizador à mente quanto um entorpecente.Pensa que “Nem tudo que se tem se usa”, umverso seu, pode representar bem o seu trabalho?É uma frase que pode ser representativa de umprocedimento comum, da maneira como eu crio,essa coisa de escolher a melhor palavra para dizero que você quer em um verso. Assim como, na horade compor, você escolhe uma linha melódica, umacorde... Costumo experimentar vários caminhos e,entre eles, achar o que me interessa mais.Quase ninguém fala, mas suas músicas guardam umacerta faceta de romantismo... Se sente um romântico?Hummm, acho que sim, ué [risos]. Tenho músicaslíricas como “Seu olhar”, “Beija eu”, “De maisninguém”... Tenho sim uma coisa apaixonada:quando me apaixono é pra valer. Já morei juntoduas vezes, a primeira por sete anos, a segunda por15 anos. Tenho quatro filhos com a Zaba. Agora sónamoro, cada um na sua casa, às vezes dormimosjuntos, um na casa do outro... Mas tenho um certohorror do jornalismo de celebridade. Descrever suasrelações pessoais como algo leviano é algo de quetenho horror...13Arnaldo, no canto esquerdo dafoto, com a Banda Performática,em 1982; no canto direito,Paulo Miklos

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