O neoliberalismo e a geopolítica no mediterrâneo (1)

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1 - Panorama histórico global
2 - O neoliberalismo
3 – Notas sobre a globalização excludente
4 – Aplicações neoliberais na bacia do Mediterrâneo
5 - As clivagens demográficas e económicas. A posição de Portugal

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O neoliberalismo e a geopolítica no mediterrâneo (1)

  1. 1. O neoliberalismo e a geopolítica no Mediterrâneo (1)Sumário:1 - Panorama histórico global2 - O neoliberalismo3 – Notas sobre a globalização excludente4 – Aplicações neoliberais na bacia do Mediterrâneo5 - As clivagens demográficas e económicas. A posição de Portugal1 - Panorama histórico globalÉ meridianamente verdadeiro que a riqueza relativa de Europa seiniciou com o saque de recursos, baseado na guerra e na pirataria –esta, como forma redistribuidora do espólio entre as potênciaseuropeias. Curiosamente, a jurisdição da época distinguia entre piratas(iniciativa privada) e corsários (piratas com credenciais de um Estado,uma forma pioneira de parceria público-privada), sendo os maiscélebres, Drake e Surcouf); o que não era compreendido totalmentepor comerciantes e marinheiros de navios saqueados e afundados.Hoje, também não é fácil distinguir a cupidez de bancos privadas e ade bancos públicos.Mais tarde, no século XIX, na sequência do predomínio europeu nomundo, estabeleceu-se uma hierarquia entre as potências europeiaspara a efectivação da partilha colonial do planeta, especialmente emÁfrica (Conferência de Berlim, 1885) e na Ásia. No continenteamericano, para além dos EUA, vigoravam essencialmente fórmulas deneocolonialismo, sobre as antigas colónias ibéricas, dominadas desdeas independências por minorias oligárquicas de brancos e crioulos.Sobrevindo a descolonização, há pouco mais de meio século, alargou-se à África e à Ásia a forma neocolonial da exploração dos recursos,numa aliança entre o capitalismo ocidental e as suas multinacionais,por um lado. e as oligarquias corruptas do chamado Terceiro Mundo,de peles escuras e máscaras brancas.De toda a secular pilhagem e exploração de povos de além-marnasceu uma enorme acumulação de riqueza – rendimentos epropriedade – que permitiu aos capitalistas ocidentais amenizarem aslutas de classe e jugularem os ímpetos revolucionários da multidão.Feitas as contas, efectuada a análise dos custos e dos benefícios, owww.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 1
  2. 2. poder económico ocidental utilizou o bom pecúlio da exploraçãoneocolonial, do controlo dos preços e da troca desigual para favoreceras camadas trabalhadoras, em troca da paz social. Foram os aparelhosdos Estados que se encarregaram dessa mediação, criando sistemas deapoio na doença e na velhice, férias pagas e garantia de emprego.Bismark foi um dos primeiros a compreender as vantagens desse modelopacificador e, em 1933, Beveridge criou nos EUA o primeiro sistema desegurança social.O designado modelo social europeu, nas suas diversas configurações(escandinava, renana, japonesa, inglesa…), funcionou enquanto aseconomias cresciam em ritmo aceitável para suportar os custos sociaisinerentes que mantinham os trabalhadores mais ou menos serenosdentro dos seus redutos nacionais, com o apoio decidido e por vezesmusculado das burocracias sindicais. Foi o periodo dos conhecidos“gloriosos trinta anos” cujo fim foi selado politicamente pelas revoltas deMaio de 1968 em França e depois na Itália, pela capacidade da OPEPem aumentar o preço da energia e ainda, pela derrota americana noVietnam.O capitalismo ocidental inventou então a deslocalização da produçãopara locais no mundo onde os custos da gestão alargada da mão deobra eram mais baratos; o processo vulgarizou-se e a produçãosegmentou-se em diversos componentes que deixaram de estarintegrados em grandes conglomerados de empresas, para terem umaprodução individualizada e de massa, repartida por várias empresas emvários continentes.A liberalização dos movimentos das mercadorias processou-se emparalelo, pois as fronteiras, as alfândegas e os impostos ali cobradosconstituiam barreiras e encargos que tendiam a produzir custos, alongaro tempo de circulação das mercadorias e reduzir a rendabilidade dasmultinacionais.Recorde-se que o liberalismo económico havia renascido, após a IIgrande guerra, com o retomar da tese das vantagens comparativas eda criação, então, de mercados para as exportações dos EUA. Isso,porém, numa base geográfica limitada que servia os interesses dasmultinacionais norte-americanas, muito interessadas em participar nareconstrução da Europa, devastada pela guerra, em unificar o espaçoeuropeu naquilo que se veio a chamar, então, as Comunidades, comrelevo para a CEE.Voltando ao final dos “gloriosos trinta anos”, todo o processo descrito, aglobalização, acentuou as dificuldades de crescimento das economiaseuropeias, promoveu a pressão para que os níveis salariais nãoacompanhassem a inflação, nem os acréscimos de produtividade ewww.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 2
  3. 3. gerou desemprego. Entretanto, os bens de consumo produzidos,sobretudo na Ásia, chegavam a baixos preços, concentrando-se aEuropa nos serviços e na produção material não exportável ou, onde(por enquanto) existem qualificações impares que permitem umaexportação competitiva.2 - O neoliberalismoIniciou-se há cerca de quarenta anos (no Chile de Pinochet) aaplicação prática do modelo de gestão social e organizaçãoeconómica alicerçado nas teses de Hayek, a que se designou porneoliberalismo. Pretendia-se assim proceder a um remoçar doliberalismo económico, derivação do pensamento dos economistas doséculo XVIII, porém, despojado da inspiração iluminista, do pendorigualitário e moralista daqueles; derivação essa que mostrou os seuslimites, mesmo a sua estupidez, durante a recessão de 1929/33.Procurou contrapor-se o neoliberalismo ao keynesianismo reinantedesde o New Deal e dos finais da última grande guerra, acusado denão promover o investimento, de limitar a iniciativa privada, de assentarnum aparelho de Estado, omnipresente e ávido de impostos.Algumas das características nobres desta forma de gestão docapitalismo são a mercantilização, a competitividade, adesregulamentação e, mais recentemente, os aprofundamentoscriativos da financiarização e da flexibilização. Todos estes preceitospretendem-se como regras universais dos detentores de capitalaumentarem o que sempre foi o seu móbil essencial – o lucro.O lucro, a “criação de valor” é tomado como o motor da criação deriqueza, a base da poupança, geradora do investimento, que por suavez promove o crescimento e o desenvolvimento e de onde resulta obem-estar geral. Para tal é preciso reduzir ou eliminar custos, toda a“gordura”, para que os empreendedores possam promover a felicidadeglobal… um dia! Como ser empreendedor sem capital não é nada fácil– pesem embora as fábulas sobre os “self-made men” – é precisoenriquecer os capitalistas para cumprirem a pesada responsabilidadede promover o bem da Humanidade.Os problemas sociais, o desemprego, os despedimentos, os baixossalários, os desequilíbrios internacionais ou nacionais, o acesso acuidados médicos ou a um ensino decente, tudo tem resolução atravésdo mercado. O neoliberalismo apresenta-se como panaceia paratodas as maleitas.www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 3
  4. 4. Esta axiomática que também se designa por catecismo ou teologianeoliberal constitui portanto, um mecanicismo auto-suficiente, umarevelação. E é esta conversa fiada que é ensinada nas universidades,que é regurgitada pelo patronato, pelos mandarins de referência, pelosmedia e até repercutida no discurso das próprias vítimas da teologia.Mesmo quando a actual crise mundial, a incapacidade dos governos,da Comissão Europeia do BCE, do sistema financeiro apodrecido revelaque a ortodoxia neoliberal é uma patranha, as universidades nãoinovam, não revêem o que ensinam. Recentemente, ouvimos ummediático neoliberal, um tal João Duque, director do ISEG referir o seugrande feito: ter iniciado neste ano lectivo uma turma pioneira por teraulas só em inglês e que a coisa se vai expandir. Será que importa alíngua utilizada se o que se aprende é parvoice?3 – Notas sobre a globalização excludenteNo processo de inserção dos dogmas neoliberais a nível global, podem-se identificar duas fases.Numa primeira fase do processo de (des)montagem neoliberalprocedeu-se à transferência de actividades dos países ocidentais parapaíses e locais de baixo preço de mão de obra, associados a duras eextensivas condições laborais ou menosprezo pelos danos ambientais.As necessidades de funcionamento do modelo neoliberal pouco seperturbam com essas questões ou com a existência de ditaduras a queeufemisticamente designam por “deficits democráticos”, “regimesmusculados” e outros epítetos; desde que contribuam para a criaçãode lucros, a ausência de valores, a ética, os direitos humanos não causaperda de sono aos promotores da ordem económica global. Até semostram distraidos se lhes for apontado que a corrupção, a fuga fiscal,a burla, são factores de distorção da concorrência.Essa deslocalização e a liberdade de circulação de mercadorias ecapitais promoveram, a segmentação da produção em unidadesindependentes, localizadas um pouco por toda a parte e associadas apesadas cadeias logísticas, consumidoras de capital e geradoras deenormes consumos energéticos. E promoveram, como consequência, oabandono de equipamentos, terras, conhecimentos, gente,transformados em monos, improdutivos e inúteis, nos países ocidentais.Paralelamente, oferecendo a possibilidade de proceder ainvestimentos, as multinacionais incentivaram a concorrência entrepaíses e seus governos, regiões e seus autarcas, com as contagiosassequelas na mente dos povos, volúveis a cânticos nacionalistas, em quea minha pátria é melhor e mais gloriosa que a tua; regionalistas, em quewww.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 4
  5. 5. os nortenhos são melhores que os sulistas, os madrilenos melhores que os“lepes”, etc; xenófobos, segundo os quais a minha etnia ou religião émais civilizada e esperta que a tua, sobretudo se fores preto ou cigano.Como os gestores globais de multinacionais se devem divertir como seagitassem um osso, com uma matilha de cães ladrando e saltando àsua volta, cada qual disputando a refeição!Para aceder a essas benfeitorias das multinacionais, governos eautarquias competem entre si, oferecendo terrenos e benefícios fiscaisespecíficos e procurando que o trabalho seja remunerado de forma aagradar às multinacionais, que é como quem diz, com baixos níveis econdições laborais… competitivas. E as multinacionais sempre saberãoutilizar consultores e advogados, como intermediários para corromper osdecisores certos (ministros, autarcas e outros); os casos Freeport, dossubmarinos, em Portugal, estão aí para o confirmar. A escaladaneoliberal da concorrência e do empobrecimento relativo ou absoluto,encontra aí um decisivo elemento.Sem dúvida que as deslocalizações também vieram a gerar em algunscasos emprego ou a retirada da miséria de muitos trabalhadores nospaíses pobres para onde se transferiram fábricas e criaram novasactividades economicas. Os camponeses chineses queclandestinamente se mudaram para as cidades decerto não foi porquenaquelas encontrassem piores condições de vida, mesmo trabalhandosessenta horas semanais. Isto até poderia estar contido num discurso doStrauss-Khan!Mas, na realidade, a esmagadora maioria das populações dos paisespobres está longe de ter grandes benefícios com as deslocalizações. NaÍndia, apesar dos avanços realizados, 92% da população vive namiséria; no norte do México, o tráfego de droga coabita com asdesumanas “maquilladoras”; e, com os 40% de egípcios que vivem $ 2por dia, constituem outras tantas manchas negras no quadro idílico doneoliberalismo. E as multidões que se acolhem às metrópoles africanasem busca de sobrevivência, uma vez que a agricultura nos seus paísesnão é viável e a indústria não aparece? E os favelados do Brasil? E oscentro-americanos que morrem no muro da fronteira México-EUA parafugir à fome? E os africanos que se esmagam contra as redesfronteiriças em Ceuta ou se afogam no mar antes de chegarem àEuropa? E os roubos, as violações, os assassínios que os assolam pelocaminho?Em termos globais, da multidão mundial, a parcela que beneficiou daglobalização excludente não supera em quantidade e acréscimo derendimento a parcela daqueles que, no chamado Terceiro Mundo, sãovítimas da pobreza por obra do desnorte da economia mundial,somados aqueles que, na Europa e nos EUA vivem no desempregowww.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 5
  6. 6. continuado ou na pobreza. Nos opulentos e exemplares EUA, da WallStreet e dos Goldman Sachs, 42 M de pessoas recebe cupões paracomer nas instituições de caridade.Numa segunda fase, foram surgindo paises, nomeadamente comgrande dimensão territorial e demográfica onde, com um forte apoiodo Estado e utilizando mitologias socialistas ou nacionalistas, se foramconstruindo sectores de média e elevada tecnologia com uma lógicalaboral mais ou menos restritiva e sem abandono dos baixos níveissalariais, comparativamente aos praticados nos países desenvolvidos.Está-se a falar particularmente dos BRIC – Brasil, Rússia, Índia e Chinamas, também de outros como o Irão ou a Venezuela.Esses países, no seu conjunto, detêm imensas reservas energéticas, uns40% da população mundial, armas atómicas (Rússia e China), recursosfinanceiros apreciáveis, vão aumentando as trocas entre si e comterceiros e possuem competências técnicas e tecnológicas em quasetodas as áreas da produção.O surgimento destes poderes regionais fortes, com razoável margem demanobra para com as multinacionais ocidentais, nomeadamente o FMI,constitui um desafio enorme à supremacia política e económica doOcidente; e não existe uma solução militar disponível ou ganhadoraque possa ser lançada pelos EUA, pela UE e pelos seus instrumentos deguerra.Todo este processo de globalização não anulou as fronteiras no que serefere às normas laborais e salariais, à regulação social ou ambiental; asfronteiras continuam a ser imprescindíveis para a segmentação daprodução e da multidão, ao estabelecimento de hierarquiasinternacionais e intra-nacionais, dentro do velho preceito de “dividirpara reinar”. De facto, por um lado, defendem-se lógicasincentivadoras da constituição de mercados alargados, decoordenação de políticas e homogeneização ideológica (o talpensamento único); por outro, assiste-se, em paralelo, ao fomento deforças centrípetas, à implosão de estados, à sua reconstituição embases frágeis ou mesmo inviáveis, sempre que daí resultem clientelasdóceis, facilidades de implantação das multinacionais, vantagensgeoestratégicas, etc.Em nome da competitividade, da inserção nos “mercados” globais,também no que se refere aos paises ricos se tem vindo a consolidar umpendor para o rebaixamento dos níveis salariais e das condições devida, que está longe de ter terminado. Esse rebaixamento tem sido feitopara benefício do tripé em que assenta a estrutura do capitalismo – osector financeiro, as multinacionais e o capital mafioso – com evidentesligações aos Estados nacionais ou plurinacionais, com a utilizaçãowww.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 6
  7. 7. normativa e “exterior” das organizações internacionais (OMC, FMI,OCDE…).Finalmente, as possibilidades oferecidas pelo sistema financeiro, pelaespeculação, pelos ignotos, omnipotentes e omniscientes “mercados”constituem um destino o para encaminhamento dos capitais. Se umcapitalista investe na construção de uma fábrica, isso representaimobilização de capital, com recuperação em vários anos, problemastécnicos e de gestão, trabalhadores… tudo evitável perante asfacilidades, a liquidez e a rendabilidade dos “mercados” financeiros.Portanto, é mais prático, menos cansativo e mais rendável colocar odinheiro na especulação, emprestando, por exemplo, dinheiro aosEstados – a dívida soberana - os quais, obedientemente, exercerão osseus direitos de exercer a punção fiscal para abastecer aquelescapitalistas, absentistas e desligados de qualquer função socialmenteútil.4 - Aplicações neoliberais na bacia do MediterrâneoComo produto de toda esta reestruturação do poder económico epolítico mundial há um declínio político e económico do mundoocidental, de carácter “tectónico” com a ascensão da Ásia do sul eoriental e da América Latina. No que se refere à bacia doMediterrâneo, mais particularmente, verifica-se:Na Europa, • Um empobrecimento económico, com o surgimento de mais fundas clivagens entre o centro e a periferia do continente, entre o norte e o sul; no sul da Europa, há mesmo um processo de visível terceiromundialização, com a degradação acelerada das condições de vida; • Uma deriva anti-democrática nos métodos de escolha política e uma lógica concentracionária, em torno de mandarins autoritários e não-eleitos, nas decisões estruturantes na configuração política, social e militar da UE; • A criação de vastos segmentos da multidão, como excluidos, tomados como excedentes demográficos e verdadeiras excrescências sociais, como os desempregados, os trabalhadores precários, os reformados, os funcionários públicos, os pobres, no seu conjunto, agredidos, ostracizados ou ignorados pelos poderes estatais ou sindicais;www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 7
  8. 8. • A criação de novos alvos do chauvinismo e do racismo (ciganos, imigrantes, sobretudo africanos e muçulmanos) como polos de canalização e confluência de descontentamentos múltiplos. O anúncio do falhanço ou da inconveniência do multiculturalismo por Cameron, Sarkozy ou Merkel insere-se no mesmo objectivo; • A manutençaõ de alguma entrada de imigrantes do sul, por dois motivos. Por um lado, dada a situação de miséria e desespero vivida na margem sul, a entrada controlada de imigrantes constitui uma pressão contínua no sentido do abaixamento dos salários nos países europeus. Em segundo lugar, é preciso manter a ilusão junto dos deserdados do sul de que há uma saída para as suas vidas no lado norte do Mediterrâneo; mesmo que os bafejados com essa sorte sejam poucos e se passem a designar “sem-papéis”, forma crua de referir a ausência de direitos e de dignidade humana.Na África do Norte e na Ásia Ocidental, • Na orla sul e oriental do Mediterrâneo têm sido incentivados ou tolerados regimes políticos ditatoriais em torno de oligarquias monárquicas ou militares, gestoras da venda de recursos energéticos ou de centros de acolhimento de massas de turistas; • O grande crescimento demográfico e da população urbana em especial, acompanhado de um forte aumento das habilitações dos jovens, gera um conflito insanável para com as oligarquias nacionais e os seus apoiantes ocidentais, dadas as enormes taxas de desemprego, as fundas desigualdades na distribuição do rendimento e a generalizada corrupção; • Também para as populações do Maghreb e da Ásia ocidental está na agenda uma lógica virada para a supressão dos pobres para suprimir a pobreza, uma vez que aquelas populações são consideradas pouco interessantes do ponto de vista do capitalismo global; • Essas lógicas excludentes que incidem sobre estratos sociais ou etários assume formas de genocídio relativamente a algumas nacionalidades, despojadas e despejadas das suas regiões de ancestral permanência, como no caso dos palestinianos e dos saharauis; • Os palestinianos e os saharauis são os destacamentos mais avançados, os “eleitos” pela globalização excludente no genocídio lento que está dirigido aos povos das duas margens do Mediterrâneo, como produto da incapacidade do capitalismo dewww.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 8
  9. 9. promover o desenvolvimento e o bem-estar para a esmagadora maioria dos povos que vivem em torno do velho Mare Nostrum.5 - As clivagens demográficas e económicas. A posição de PortugalAs clivagens demográficas e económicas na bacia do Mediterrâneoestão em gestação há décadas e atingiram um ponto de desequilíbrionunca atingido no passado. Se, do ponto de vista económico asposições relativas entre os vários quadrantes geopolíticos doMediterrâneo se têm mantido, com algumas alterações, no capítulo dademografia regista-se uma mudança qualitativa essencial.As regiões geopolíticas aqui definidas são as seguintes: • Europa Sul-Ocidental • África do Norte • Europa Sul-Oriental • Ásia OcidentalEm 1889, no rescaldo da Conferência de Berlim, de partilha da África, apopulação estimada para a bacia mediterrânica distribuia-se doseguinte modo(1): 1000 % Africa do Norte 31.468 16,5 Asia Ocidental 22.176 11,6 Europa Sul-Oriental 33.762 17,7www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 9
  10. 10. Europa Sul-Ocidental 103.718 54,3 Total 194.124 100,0Pese embora que o cálculo da população nos paises colonizados nãotenha sido rigoroso, pois não se realizavam aí recenseamentos, ocolonialismo ou o semi-colonialismo de que era objecto o ImpérioOtomano, tinha na base uma grande superioridade militar, económicae, como se observa, demográfica, das potências coloniaisrelativamente aos povos submetidos. Isto, sem prejuizo das resistênciaspassivas ou activas, pacíficas ou armadas dos colonizados contra asuserania europeia, impante, autoritária e racista, para a qual oscolonizados eram incivilizados, brutos, animalizados.Em finais da segunda guerra mundial e antes do início dadescolonização, demonstra-se que a população da Europa Sul-Ocidental já não constituia a maioria da população da baciamediterrânica mas, apenas 46.7% do total.Actualmente, a Europa Sul-Ocidental representará apenas 28.2% dototal, o que passou a representar menos do que qualquer uma daspopulações do Norte de África e da Ásia Ocidental. Para o periodo2025/2050 é prevista uma estagnação da população daquela regiãoeuropeia, com a continuação da perda de quota no total da baciamediterrânica.www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 10
  11. 11. Mediterrâneo - Distribuição da população 100% 80% 60% 40% 20% 0% 1950 1970 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2025 2050 Africa do Norte Asia Ocidental Europa Sul-Oriental Europa Sul-Ocidental Israël Fonte primária : CNUCED/UNCTADPor outro lado, a população da Europa Sul-Oriental que cresce até1995, entrou em declínio desde então e terá em 2050 uma populaçãoaproximada à que tinha oitenta anos antes.O número de habitantes do Norte de África é hoje o quádruplo da queregistava em 1950 e projecta-se que cresça 50% até 2050. Na ÁsiaOcidental a população quase quintuplica o número atingido em 1950 ecrescerá 70% nos próximos quarenta anos. Em 1950, a Europa Sul-Ocidental tinha mais 40 M de habitantes que o conjunto das partes deÁfrica e da Ásia aqui consideradas; actualmente, tem menos do queapenas uma daquelas regiões!Finalmente, na fortaleza ocidental designada por Israel, o crescimentovem-se manifestando regular devendo-se isso, como é sabido,parcialmente, ao aumento verificado nos súbditos de origempalestiniana, cidadãos de segunda.Não se pretende, de modo algum, subscrever teses malthusianistas,uma vez que a espécie humana sempre se soube adaptar às condiçõesnaturais e socio-económicas dos espaços; e, por outro lado,www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 11
  12. 12. imaginando uma estagnação das capacidades tecnológicas deprodução de alimentos nos níveis actuais, o planeta seria, hoje, capazde alimentar 12000 M de seres humanos, pouco menos do dobro dosseus actuais 7000 M de habitantes. Naturalmente, portanto, nadajustifica que não seja apenas decorrente das estruturas económicas esociais próprias do capitalismo e dos “mercados”, o aumento dospreços dos bens alimentares ou o recrudescimento do número deindivíduos em situação crónica de fome.A distribuição do rendimento entre as regiões consideradas comodistintas para o periodo 1970/2010 revela, a despeito de algumasvariações, uma relativa estabilidade. Mediterrâneo - Distribuição do PIB 100% 80% 60% 40% 20% 0% 1970 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 Africa do Norte Asia Ocidental Europa Sul-Oriental Europa Sul-Ocidental Israel Fonte primária : CNUCED/UNCTADA parcela da Europa do Sul-Ocidental decresce até 1985, atingindo nadécada de 90 mais de três quartos dos rendimentos gerados em toda abacia do Mediterrâneo, voltando a reduzir-se até ao momentopresente, revelando claramente as baixas taxas de crescimento quevêm marcando a conjuntura na Europa do sul. No entanto, ultrapassaos três quartos do rendimento regional, actualmente… para umapopulação que só representa 28.2% do total.www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 12
  13. 13. A Europa Sul-Oriental reduz a sua participação no rendimento globalpara cerca de metade, de 1950 para 2000, fruto das dificuldades decrescimento no seio do antigo Comecon, da sua transição para alógica neoliberal e ainda da pulverização do antigo espaço jugoslavo.No Norte de África, o peso no rendimento da bacia cresce até 1985,não voltando a atingir o mesmo nível desde então, situando-se em 2010na situação em que se achava há quarenta anos; isto é, 5.4% para umapopulação que representa 30.4% do total.Na Ásia Ocidental há um aumento substancial da suarepresentatividade na década de 70 do século passado, consequênciaevidente das grandes subidas do preço do petróleo então registadas,decaindo depois, para retomar a ascensão do seu peso, já no actualséculo. Embora tenha uma população que representa 28.6% da baciamediterrânica a parcela do rendimento global não ultrapassa 15.5%.Note-se ainda a redução do peso de Israel na ultima década.A comparação dos dois gráficos anteriores revela as enormesdesigualdades existentes na bacia do Mediterrâneo e justifica, de ummodo global e claro, as actuais clivagens políticas e económicas entreas duas margens do mar e indicia as causas das dificuldades damultidão, causadas pelos seus respectivos mandarinatos, bem comodos levantamentos populares em curso. E, como em todas as médias,oculta as enormes desigualdades dentro das diversas fronteirasnacionais, sobretudo dada a pequena dimensão das classes médias,nas margens sul e oriental.Apesar das desigualdades que se vão acentuando na Europa comoresultado das lógicas da competitividade e do primado dos mercados,a situação não é comparável com a observada nos outros paises dabacia, onde grande parte da produção e das exportações seconcentra em bens energéticos cujos rendimentos se acumulam nascontas das castas governamentais.Quando se revela que Mubarak terá roubado, no seu longo consuladoditatorial cerca de $ 70000 M, correspondendo a um terço daeconomia egípcia, percebe-se a miséria, o desemprego e a revolta dosegípcios. E quanto terão roubado os generais que ainda estão nopoder? Com tais possibilidades de enriquecimento que levaria osgenerais a solidarizarem-se com os povos da região no extirpar do quistoisraelita? Claro que preferiram o abrigo fofo do tio Sam e o conforto dasluxuosas mansões no deserto e os rendimentos de centros comerciais.Generais sentados à beira do Nilo.A comparação revela também as causas profundas da crispaçãoexistente na UE relativamente aos outros povos ribeirinhos; a razão pelawww.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 13
  14. 14. qual a UE apoia todo e qualquer regime autoritário e corrupto, comoguarda das suas fronteiras, das condutas de petróleo ou gás e do Suez.E ainda a razões do armamento e das acções militar-policiais levadas acabo pelo dispositivo militar-estratégico ocidental no Mediterrâneo.Para sintetizar com maior clareza as desigualdades descritas, compare-se a distribuição actual da população e do rendimento. Mediterrâneo - Distribuição da população e do PIB - 2010 - 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% População PIB Europa Sul-Ocidental RestantesConsiderando que o índice 100 corresponde à capitação média dorendimento no Mediterrâneo, o quadro seguinte revela pequenasvariações nos níveis relativos dos vários quadrantes, excepto no que serefere à Europa Sul-Ocidental que, contudo vem estabilizando asdistâncias relativamente à média global, desde 1990. Apesar dessasituação, aquela região é a única verdadeiramente ganhadora nosquarenta anos estudados.Neste contexto, notem-se as perdas, ainda que ligeiras, do Norte deÁfrica, a partir de 1990 e que contribuem para que a região seposicione como a mais pobre do Mediterrâneo. Salientam-se tambémas alternâncias entre a Europa Sul-Oriental e a Ásia Ocidental, sempreclaramente aquém da média global, afectadas pelo peso da EuropaSul Ocidental no conjunto.www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 14
  15. 15. Capitação regional (capitação média na bacia mediterrânica=100) 275 250 225 200 175 150 125 100 75 50 25 0 1970 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 Africa do Norte Asia Ocidental Europa Sul-Oriental Europa Sul-Ocidental Israel Total Fonte primária : CNUCED/UNCTADO gráfico que se vai seguir estabelece o quociente entre a capitaçãomédia na Europa Sul-Ocidental e as capitações das outras regiões.O rendimento médio de um habitante da Europa Sul-Ocidentalcorrespondia em 1970 ao de 7.3 norte-africanos mas já 13.6actualmente. Na Ásia Ocidental era preciso somar o rendimento de 3.7habitantes de 1970 para alcançar a capitação de um europeu dosudoeste e esse indicador subiu para 4.5, quarenta anos depois, apesarde algumas melhorias nos anos noventa.Na Europa Sul-Oriental o indicador também evolui desfavoravelmentenos anos noventa e fixa-se em 3.1 em 2010.Globalmente, a capitação de um habitante da Europa Sul-Ocidentalvalia o correspondente à de 1.8 cidadãos da bacia mediterrânica, em1970 e evoluiu para 2.4 no tempo que corre. Em suma, a redistribuiçãodos rendimentos beneficiou, nos últimos quarenta anos, a Europa Sul-Ocidental.Entre as heterogeneidades dentro de cada uma das regiõesidentificadas, sublinha-se a que se observa na Europa Sul-Ocidental,www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 15
  16. 16. sensivelmente um primeiro quadrante da bacia mediterrânica (vermapa) e oculta as grandes desigualdades que existem entre os países epovos aí enquadrados. E, na parte que interessa aos residentes emPortugal revela-se o grande equívoco quanto à Europa.Destaca-se, para além de algumas quedas registadas nos países maisdesenvolvidos, o facto de Portugal evidenciar, tal como a Espanha umaevolução muito favorável nos dois primeiros lustros que se seguiram àintegração na UE (1986). No caso português a estagnação,comparativamente à média da bacia mediterrânica, é bastante visívelnos últimos quinze anos; bem como o distanciamento relativamente aovizinho ibérico. Capitação relativamente à capitação média na bacia mediterrânica (=100) 550 525 500 475 450 425 400 375 350 325 300 275 250 225 200 175 150 125 100 75 50 1970 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2009 Espanha França, incl depart. Ultramar. Itália Malta Portugal Suiça/Liecht. Fonte primária : CNUCED/UNCTADNo que respeita a Portugal vão apresentar-se elementos tratados emtrabalho anterior (2) sobre a distribuição do rendimento, para um cotejomais detalhado sobre a posição do país na hierarquia regional. Disse-seaí que 5148 milhares de trabalhadores por conta de outrém ou dewww.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 16
  17. 17. conta própria, em 2008, teriam auferido 50.2% do rendimento nacional,cabendo a cada um o valor anual médio de € 16220 para fazer face àsua existência e dos seus familiares, nomeadamente crianças. Por outrolado, os 441 000 indivíduos que vivem essencialmente de lucros, juros erendas arrecadam 36.8% do rendimento nacional, o designadoexcedente bruto da produção; cabe a cada um, em média € 61277anuais, sem esquecer que a grande maioria daqueles tem tambémemprego e é remunerado pelo seu trabalho. São casos escandalososde rendimentos do trabalho, os proventos do célebre Mexia e dopresidente da TAP, Fernando Pinto que dificilmente se não podemdeixar de ser considerados capitalistas.Como é evidente e palpável, há um grande fosso entre trabalhadores ecapitalistas, sabendo-se que a chamada classe média, muito referidanos media, é bastante mais reduzida do que se julga; emboraideologicamente, seja comum encontrarem-se pessoas com parcosrendimentos, que se afirmam como pertencentes a essa classe média. O gráfico que se segue procede a um cotejo entre a capitação dorendimento para os países incluidos na região Europa Sul-Ocidental,incluindo Portugal, para 2008/2009 mas, apresentando também osrendimentos médios de um trabalhador português e de um lusocapitalista. Europa Sul-Ocidental - Capitação do rendimento (2008/09) Suiça/Liecht. Portugal - trabalhadores Portugal - capitalistas Portugal Malta Itália França, incl dep ultram. Espanha Europa Sul-Ocidental 1000 euros 0 10 20 30 40 50 60 70 Fonte primária : CNUCED/UNCTAD, INEwww.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 17
  18. 18. Conclui-se que um capitalista português padrão tem, vivendo emPortugal, um rendimento equiparado ao de um suiço médio, sabendo-se que inversamente, o rendimento de um trabalhador comum emPortugal só daria para uma semana em cada mês, se vivesse na Suiça.Esta situação escandalosa, é produto do modelo neoliberal e revelacomo é degradante para quem vive em Portugal, olhar-se ao espelho ever a imagem da sua apatia ou resignação. É escandaloso tambémque na divertida esquerda portuguesa, esta questão nunca tenha sidocolocada claramente e catapultada para propostas políticasmobilizadoras da multidão. Quem compreenderá que na esquerdaparoquial lusitana, nada se refira sobre as desigualdades existentes nadistribuição do rendimento?É urgente e imperioso que, na sequência das movimentações de massade 12 de Março último, as desigualdades no rendimento e nos impactosda pressão genocida exercida pelo sistema financeiro global sejamtidas em conta para uma transformação do cenário político e socialque vai doendo à esmagadora maioria da multidão; e que esta deixede se mostrar distraida para com os capitalistas e os ricos.(continua)Notas: (1) Com base em elementos recolhidos no Atlas de Geographie Moderne, Librairie Hachette, 1889 (2) Portugal, os “mercados” e o empobrecimento generalizado http://www.slideshare.net/durgarrai/portugal-os-mercados-e-o- empobrecimento-generalizadoEste e outros textos em: http://www.scribd.com/group/16730-esquerda-desalinhada http://www.slideshare.net/durgarrai/documents www.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.ptwww.esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt grazia.tanta@gmail.com 18

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