Aindanaoseioquee

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livro que um dia pretendo escrever

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Aindanaoseioquee

  1. 1. Era sistemático. Sabia que seu processo embora exaustivo, o conduzia comprecisão a planos infinitos. Por isso guardava seu segredo tão cuidadosamente e deixarapara a última célula de seu corpo tal revelação. Eram habilidades inatas, gravadas para aeternidade na mais perfeita intimidade da vida, o genoma humano. Duas da manhã. Sem saber para onde olhar, baixou a cabeça e com a ponta doqueixo apoiada sobre o próprio peito, permitiu que a sensação lhe invadisse o corpo. Osangue nas veias apressado, avançava contra a cadeia interminável de capilares,entumecendo a polpa dos dedos e colorindo-as. O suor, vencendo os poros semi-abertos,emergia na pele ainda quente e gotejava sobre o tapete surrado. Lentamente, umturbilhão de imagens formava-se na tela improvisada pela mente atordoada e como nasoutras vezes, o desfile de vozes, cores e lugares, difundia-se gradualmente, saturandopouco a pouco sua alma. Em poucos segundos, sabia, o processo alcançaria o centro decomando de suas emoções, sua cerne. Lá, veria-se recolhido à sombra costumeira dagigantesca figueira, sentado entre folhas já secas e a grama verde, fresca. Estampadasem cartas de um imenso baralho, centenas de imagens espalhariam-se ao seu redor;poderia então desfrutar daquele instante, mergulhar profundamente naquelas cenas e tê-las novamente para si. Somente então, vasculharia cada pequena lembrança, separariaminutos de segundos e penetraria o espaço para desafiar a realidade ali esquecida.Naquele dia, certo de que seu esforço não seria desperdiçado, manteve os olhos fixos auma daquelas cenas que sempre lhe ocorriam e logo se misturavam. Num movimentopreciso e delicado, destacou-a das demais para como de costume, explorá-lameticulosamente. Nela, o calor era insuportável. Permeava com facilidade o solado deborracha desgastado que isolava a planta de seus pés da areia fina. A radiação,implacável, assaltava-lhe os tornozelos e o escalava em direção ao tórax. Incomodado,esticou o pescoço e contemplando o céu que estendia-se sobre sua cabeça, inspirouprofundamente recolhendo aos pulmões grande quantidade do ar fresco sutilmente
  2. 2. impregnado pela água salgada. Com a mão direita espalmada logo acima dos olhos,protegeu-se do brilho típico dos dias de verão e pode contemplar as dezenas de formasgeométricas coloridas agitando suas caudas de papel. Era época de pipas e a praiaestava lotada delas. De olhos semi-abertos e ainda incomodados pela claridadeexcessiva, lá permaneceu por alguns minutos, levando e trazendo sua atenção à todolado, buscando elementos que o ajudassem a compreender sua incomum natureza. Maso que realmente o conduzira até ali, movia-se de um lado para outro fingindo não notarseu observador. O menino da pele clara e cabelos desbotados, brincava de imprimir suaspegadas na areia molhada para em seguida vê-las desaparecer, levadas pela maré.Percebeu naquele vai-e-vem algo peculiar, como se aquilo tudo lhe pertencesse e aninguém mais. Sentou-se cuidadosamente sobre os calcanhares e pôs-se a observar.- Isso ainda vai terminar em tragédia! pensou rapidamente enquanto subitamente eraextraído dos corredores de sua mente e como uma aeronave guiada por mãosinexperientes, aterrissava aos solavancos naquele pequeno ambiente. Ainda assustado,gemeu baixinho levando uma das mãos à lateral do corpo. O cabo do esfregão acertara-lhe logo abaixo das costelas, despertando-o imediatamente. Eram cinco da manhã e afaxina no restaurante estava prestes a começar. O gosto forte do atum cru ainda rondavasua boca enquanto o corpo desidratado pelas doses de saquê pedia água. Sua reaçãonos dois minutos seguintes seria a de sempre: primeiro, erguer vagarosa e verticalmenteo próprio crânio; depois, dar-se conta de onde e com quem estava. No início daquelamanhã, após desculpar-se pela noite estirado sobre a mesa do estabelecimento, retiroualgum dinheiro do bolso e apressado, pagou o que haviam consumido. Informado que suacompanhia o deixara assim que a garrafa sobre a mesa chegara ao fim, dirigiu-se aindaconfuso à imensa porta de madeira e vidro, esquivando-se das poças de sabão quelavavam o chão e saiu. Na curta caminhada ao hotel, em meio a panfletos de boatesrecebidos na madrugada anterior e que ainda ocupavam seus bolsos, notou uma
  3. 3. pequena caixa de fósforos vermelha e branca com a inscrição “The YellowSun”. Ao abri-la,escrito em letras minúsculas e quase incompreensíveis, pode ler: Juliette Nardin,Niierobia Stennensis - Specialist. Por alguns segundos, fechou os olhos e tentou retornarao momento onde a recebera mas estava exausto demais para incursões mentais. Semresposta, contentou-se em guardar o objeto no bolso direito do sobretudo de lã e emseguida, inspecionando cada rua que cruzava, localizou o toldo vermelho de contornosluminosos que ornava a marquise da estalagem onde se hospedara. Com o frio cortando-lhe a pele do rosto e os dentes batendo freneticamente, concentrou-se para acertar afechadura que insistia esquivar-se da chave. Respirou aliviado quando por fim adaptouuma à outra, adentrou o quarto aquecido e atirou-se sobre a cama de lençóis brancos elimpos. Ainda ofegante, procurou organizar seus pensamentos de forma a alinhar asequência de eventos que o levaram a deixar sua férias em Amsterdam e partir rumo aTóquio em pleno inverno.A figura do Prof. Martinez logo lhe veio à cabeça juntamente com a maneira como lheconhecera, exaltado, num desses programas que preenchem as madrugadas na TV.Lembrou de quando novamente o reconhecera, desta vez recebendo duas das maiorescomendas da ciência, o Nobel de química e o prêmio Elsevier-Norman. Aos 36 anos eapós inúmeras tentativas frustradas de ingressar na Faculdade de Medicina daUniversidade da Califórnia, Esteban Garcia Martinez formou-se Químico na mesmaInstituição. Daqueles dias entregando pizzas, ou fazendo “tacos” e “burritos” namadrugada de Los Angeles, pouco havia restado. Com o término de seu PhD emGenética e Biologia Molecular, trocara seus eficientes olhos negros por um par de pupilascansadas e envoltas por uma fina gelatina opaca. Os óculos, acessórios agoraindispensáveis, embora delicados e construídos com levíssima armação de titânio,carregavam pesadas lentes multi-focais que feriam-lhe impiedosamente o dorso do nariz,trazendo-lhe um ar no mínimo, curioso. Quem o conhecia, diziam, sabia se estava prestes
  4. 4. a anunciar mais um de seus fantásticos achados apenas pela profundidade das marcaspróximas ao ângulo interno dos olhos. Segundo eles, as ulcerações riniformes que tanto otorturavam aprofundavam-se em períodos de longas vigílias sobre livros e experimentos,podendo assim predizer com alguma exatidão a chegada de uma nova descoberta.Verdadeiro ou não, do alto de seus 64 anos e dono de uma brilhante carreira até ali, oagora chefe do Laboratório Genoma do Tokyo Memorial Hospital, atraiu por algunsminutos a atenção do mundo ao anunciar na antevéspera de Natal e via satélite, a maiordescoberta de seu século. Tomado por um surto de vaidade e aproveitando suaparticipação num popular programa de entrevistas nos Estados Unidos, teceu durascríticas ao que chamou de retro-neoliberalismo e antes que partisse, resolveu anunciarseu achado ao mundo: o mapeamento e a caracterização dos segmentos Íntrons eÉxons, territórios outrora absolutamente desconhecidos, da molécula de DNA. Umenorme passo do homem em direção ao controle da vida. A poucas milhas dali, aindaincrédulo e paralisado, Rashi o assistia pela terceira vez. Aquelas palavras pareciamforjadas para ele. Chegavam como peças perdidas de um quebra-cabeças virtual que hámuito lhe acompanhava. Cada sílaba disferida moldava-se perfeitamente aos seusouvidos. Uma sensação fantástica invadiu-lhe o corpo, sentia-se finalmente em paz. Emsegundos, livrando-se do pseudo-transe pôs-se a revirar as gavetas da escrivaninha quesustentava a televisão em busca de uma caneta ou algo que escrevesse. Estavapreocupadíssimo com a possibilidade de esquecer os telefones para contato que forampassados ao término da entrevista. Com um longo e entediado suspiro, virou-se lateralmente e livrou-se doscobertores. Em seguida sentou-se na beiradinha do colchão de molas e ainda com ascostas doloridas pela noite estirado sobre a mesa do restaurante, arriscou uma espiadaatravés da janela entreaberta. O movimento nas ruas havia diminuído significativamente eum novo estrato civil começava a surgir juntamente à chegada da noite que se
  5. 5. descortinava. Achou o momento oportuno para iniciar suas buscas pelo geneticistamexicano.Com poucos minutos ao telefone, percebeu que sua investida nada teria desimples ou fácil.

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