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Mídia, novas tecnologia e escola

From dpinotti, 3 months ago

Aula Ministrada pela psicóloga Daniela Pinotti Maluf.

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Slide 1: 2007

Slide 2: Tudo a jato!!!!!! Mudança na concepção de tempo devido ao contato com os novos meios - Comparações incontestáveis: • Orelhões (telefones públicos) – celulares • Correio – Correio-eletrônico (e-mail) • Imprensa – Livro – Rádio – TV – TV a cabo – Internet • Gramofones – Vitrolas – Aparelhos de CD – MP3........

Slide 3: • Re-criação da realidade • Imediatismo • A imagem como forma de expressão • A imagem é significativa • A imagem é afetiva • A imagem é simbólica Conseqüência: O aluno que senta pela primeira vez num banco da escola não é mais o mesmo do princípio do século passado, que tinha uma visão restrita e geograficamente determinada, hoje ele é um cidadão do mundo, hoje ele apresenta outras exigências

Slide 4:   

Slide 5: • Conhecimento e pensamento em rede • Entrelaçamento completo de informações textuais, visuais e auditivas que se intercomunicam e sempre conduzem a mais informações, “conhecimento sem limites e de acesso imediato” •Dificuldade de se determinar quais são as informações confiáveis, benefícios e complicações de um meio democrático • Consolidação da idéia de “Aldeia Global” – McLuhan • Linguagem própria que demanda e constrói uma nova visão de mundo

Slide 6: • Os conteúdos obtidos a partir da internet possuem uma diversidade que necessitam ser acolhidas dentro do contexto educacional • Liberdade de escolha e de construção de caminhos. Por ser uma rede as trajetórias podem ser as mais diversificadas •Novo modelo de linguagem : bjs, vc, blz, :), :( •Modelo dialógico, interativo • A internet não permite que se trabalhe com ela nos mesmos moldes do que se trabalha com outros meios de informação • “A internet não está no espaço, ela é o espaço” Pierre Lévy

Slide 7: Só elas deveriam ter acesso às salas de aula? Não, porque é importante que se abra espaço para aquilo que faz parte da vida do aluno. As TVs educativas constituem um instrumento valioso para a sala de aula por sua própria constituição: EDUCAÇÃO PROGRAMAÇÃO EDUCAÇÃO

Slide 8: Mudança na forma de se produzir os programas e no estabelecimento de prioridades: PÚBLICO PROGRAMAÇÃO AUDIÊNCIA “A realidade é o mundo lógico, mítico e os meios são míticos. A telenovela é ficção, mas demasiado real, porque a realidade da vida passa pelo mítico da novela” Francisco Gutiérrez

Slide 9: • O professor é um ser contemporâneo que está exposto aos mesmos meios midiáticos que os alunos • Necessidade de aceitar as mudanças tecnológicas, porque, afinal, toda a sociedade compartilha de tais meios e faz uso deles, por isso a educação não pode se negar a lidar com o mundo tal como ele está organizado na atualidade. • Quanto mais depressa os professores assumirem seu papel de consumidores da cultura de massa mais rapidamente se criará uma consciência crítica sobre ela.

Slide 12:  Destruição da natureza, da biodiversidade e da diversidade cultural.  Acumulo de poluentes e de lixo  Tecnologia extremamente avançada, mas com relações humanas extremamente retrógradas.  Desigualdade social  Consumo excessivo e desnecessário  Conflitos políticos, culturais, religiosos, etc.

Slide 14: Questões: 2. Onde se tem maior contato com o cotidiano? 3. Onde se valorizam atitudes ativas e participativas? 4. Onde se trabalha mais o afeto? 5. Onde se tem mais espaço para a criatividade? 6. Onde se questiona mais a realidade que se vive? 7. Onde se congregam mais pessoas? 8. Onde se fazem mais promessas referentes ao futuro? 9. Onde as crianças e os jovens se vêem mais contemplados?

Slide 15: Benefícios: 2. Diminuição da dicotomia escola, casa, grupo de amigos, família e comunidade 3. Possibilidade de desenvolvimento de comportamento crítico com relação ao ambiente 4. Ressignificação de conteúdos 5. Escola mais próxima do cotidiano 6. A informação está na escola, na vida, nos meios de comunicação, nas relações interpessoais, na vida cotidiana, portanto, se todas essas esferas andarem de mãos dadas a EDUCAÇÃO sairá beneficiada

Slide 16: Por que resistimos às inovações tecnológicas? \"A descoberta do alfabeto criará o esquecimento na alma dos aprendizes, porque não usarão suas memórias; eles confiarão nos caracteres escritos e não se lembrarão de si próprios.... E assim não se dá aos discípulos a verdade mas somente a aparência da verdade; serão heróis de muitas coisas, e nada terão aprendido; eles parecerão oniscientes e geralmente nada saberão.” Sócrates, “Fedra”

Slide 17: Por que resistimos às inovações tecnológicas? \"A descoberta do alfabeto criará o esquecimento na alma dos aprendizes, porque não usarão suas memórias; eles confiarão nos caracteres escritos e não se lembrarão de si próprios.... E assim não se dá aos discípulos a verdade mas somente a aparência da verdade; serão heróis de muitas coisas, e nada terão aprendido; eles parecerão oniscientes e geralmente nada saberão.” Sócrates, “Fedra” (470-399 a.C.)

Slide 18: •Crianças que vêem TV demais comem menos verduras •Crianças viciadas em TV desenvolvem problemas de atenção •Um terço dos jovens britânicos dorme mal por \"culpa\" de eletrônicos

Slide 19: •Como as formas simbólicas se entrecruzam com as relações de poder (sociais, grupos, gênero, etnias, comportamentos, consumo) •Os sentidos servem para estabelecer e sustentar relações de dominação •O simbólico não é ideológico em si, mas pode ser utilizado desta maneira Importante: Não se deixar cair na cegueira dos preconceitos.

Slide 20: Conceitos básicos para se compreender a aldeia global “O círculo familiar se ampliou. O fundo mundial de informações gerado pelos meios elétricos - cinema satélites, vôos - supera de muito qualquer possível influência que mamãe ou papai possam exercer. Agora todo mundo é um sábio.” “O nosso é o mundo novo do tudoagora. O “tempo” cessou o “espaço” desapareceu. Vivemos hoje numa aldeia global.... num acontecer simultâneo.”

Slide 21: “A imprensa, um artifício duplicador confirmou e prolongou a nova tensão. Forneceu a primeira “mercadoria” uniformemente duplicável, a primeira linha de montagem - a produção em massa. Criou o livro portátil, que os homens podiam ler em particular e isolados dos outros. O homem podia, agora, inspirar - e conspirar. Como a pintura de cavalete, o livro impresso muito contribuiu para o novo culto do individualismo. O ponto de vista fixo e particular tornou-se possível e a capacidade de ler e escrever conferiu o poder de alienar-se, de não envolver-se.”

Slide 22: “O poeta, o artista, o detetive - quem quer que aguce nossa capacidade de perceber tende a ser anti-social ; raramente “bem ajustados”, não podem seguir as correntes e tendências. Um estranho vínculo existe entre os tipos anti- sociais por sua capacidade de “ver” os meios ambientais como eles realmente são. Essa necessidade de contrapor, de confrontar os meios ambientais com uma certa força anti- social, é manifesta na famosa história “As novas roupas do rei”. Os cortesãos “bem ajustados”, por terem interesses a defender, viam o Rei belamente ataviado. O fedelho “anti-social”, não condicionado pelo antigo meio ambiental, viu claramente que o Rei estava nu. O novo meio ambiental era claramente visível para ele.”

Slide 23: “O passado foi embora naquela direção. Quando confrontados com uma situação inteiramente nova, tendemos a ligar-nos aos objetos, ao sabor de passado mais recente. Olhamos o presente através de um espelho retrovisor. Caminhamos de costas em direção ao futuro”.

Slide 24: \"A roda é um prolongamento do pé. O livro é um prolongamento do olho. A roupa é um prolongamento da pele. Os circuitos elétricos, um prolongamento do sistema nervoso central. Os meios, ao alterar o meio ambiente, fazem germinar em nós percepções sensoriais de agudeza única. O prolongamento de qualquer de nossos sentidos altera a nossa maneira de pensar e de agir - o modo de perceber o mundo. Quando essas relações se alteram, os homens mudam.\"

Slide 25: \"A televisão exige participação e comprometimento em profundidade de todo o ser. Não pode servir de fundo. Ela o compromete. Talvez seja por isso que tantas pessoas sentem que sua identidade está ameaçada. (...) Ela envolve uma população inteira em um ritual. Na televisão as imagens são projetadas em sua direção. Você é a tela. As imagens cercam você. Você é o ponto de fuga.\"

Slide 26: “A televisão abriu para nós todas as janelas do mundo. Está na hora de começar a fechar algumas.” “Diga-me os programas de televisão que você gosta que eu direi quem você é. ”

Slide 27: Qual o diferencial da sala de aula e do contato professor-aluno com os meios de comunicação e a produção de informação?

Slide 28: • Os membros de um grupo são ao mesmo tempo: comunicadores e receptores • É importante que a presença física dos demais seja vivida, sentida e compartilhada inclusive afetivamente. • As alterações de papéis dentro de um grupo podem ser facilitadas • A empatia é favorecida “Empatia é a capacidade para submergir-se no mundo subjetivo dos demais, (...) é a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro, de ver o mundo como o outro vê”. Carl Rogers

Slide 29: Os grupos são os lugares privilegiados do diálogo, no sentido abordado por Paulo Freire: “Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo. (...) O diálogo, como encontro dos homens para a tarefa comum de saber agir.”

Slide 30: 1. Educação da percepção ou leitura denominativa do signo 2. Educação da intuição ou leitura conotativa 3. Educação para o criticismo ou personalização 4. Educar para a criatividade ou auto- expressão

Slide 31: O que eles querem dizer com isso?

Slide 32: O que eles querem dizer com isso?

Slide 33: O que eles querem dizer com isso?

Slide 34: O que eles querem dizer com isso? A subjetividade assimila e se constitui de aspectos da cultura A cultura assimila e se constitui de práticas coletivas: contexto social, político, educacional e midiático

Slide 35: “ O homem atual acostumado a uma civilização racional e intelectualista, necessita capacitar-se, com toda urgência, para poder compreender uma cultura eminentemente sensorial, da qual vive e é transmitida através da linguagem visual e sonora dos meios de comunicação de massa”.

Slide 37: • A vida humana é constituída basicamente de incertezas • As instituições (família, Estado, escola, religião) tentam fornecer algumas certezas • Perigo: ilusão de certeza

Slide 38: •Princípios: •Educar para questionar de forma permanente a realidade de cada dia •Educar para localizar, reconhecer, processar e utilizar as informações •Educar para resolver problemas •Educar para saber reconhecer as propostas mágicas de certeza, para desmitificá-las e ressignificá-las •Educar para criar, recriar e utilizar recursos tecnológicos

Slide 39: • Gerar entusiasmo • Os participantes do processo educacional sentem-se vivos, partilham sua criatividade, geram respostas originais, divertem-se, brincam • Entram em contato com a riqueza dos sentidos, da imaginação e da criação coletiva • Prazer/felicidade: grande objetivo da vida, gozo como ponto de partida e de chegada.

Slide 40: • Dar sentido ao que fazemos • Incorporar o meu sentido ao sentido da cultura e do mundo • Compartilhar e dar sentido • Relacionar e contextualizar experiências e discursos • Impregnar de sentido as diversas práticas e a vida cotidiana

Slide 41: “Quem não se expressa reprimi-se, é suprimido, está sujeito que lhe imprimam o sentido como uma matéria frágil, a que o comprimam e o deprimam”. •Capacidade de dominar o tema que se está discutindo •Possibilidade de se expressar através de diversas linguagens: escrita, imagética, teatral, musical, digital, corporal, gestual, etc.

Slide 42: • Educar para a participação e cooperação coletiva • Construção grupal de conhecimento • Educar para viver com, para estar no mundo e com os outros • Toda aprendizagem é uma interaprendizagem

Slide 43: • História e cultura são produzidas a partir do cotidiano e de pessoas • Importância do processo • Alunos protagonistas do processo educativo • Apropriação da história e da cultura para desnaturalizá-la e desmitificá-la • Papel especialmente relevante dos meios de comunicação de massa para a apropriação da contemporaneidade

Slide 44: Frei Betto “Após uma existência de devassidão e indiferença, Viriato viu-se nas profundas do Inferno. Não se assombrou. A vida que levara, os pecados cometidos, os valores ignorados, já lhe haviam imprimido a convicção de que não mereceria, no encontro com a morte, o Céu e nem mesmo o Purgatório. Inquietava-lhe, porém, conhecer o tipo de castigo que deveria suportar por toda a eternidade. Em países em que vigoram a pena capital o crime nem por isso reflui. Aos condenados resta sempre a dúvida de como serão executados. Não é a morte que os assusta. É o modo como ela virá, na forma de uma descarga elétrica ou de uma injeção letal, a forca ou a guilhotina, o fuzilamento ou a empalação. O mesmo intrigava Viriato, curioso quanto ao modo como Asmodeu haveria de tratá-lo.

Slide 45: A primeira surpresa foi constatar que o Inferno era muito diferente do que imaginara. Isso sucede com os viajantes. Ansiosos por chegarem no porto almejado, nutrem a imaginação de múltiplas fantasias, criando na mente uma quimera bem distante da realidade. Assim como quem visita Veneza sem imaginar que a beleza daquela cidade flutuante às margens do Adriático é entrecortada de canais cujas águas cheiram a podridão, ou Manhattan, onde as sirenes de ambulâncias, bombeiros e carros de polícia impedem o sono tranqüilo. Viriato viu-se condenado à solidão. Nada de multidão de almas penadas, de caldeirões ferventes atulhados de hereges, de tridentes atravessados em quem transgrediu as leis dos homens e de Deus. Talvez tudo isso exista em alguma esfera da transcendência, até mesmo a fornalha ardente onde corpos lambidos pela chama queimem sem se consumir, mas não lhe tocaram nenhum desses castigos que vira em brochuras catequéticas. Ele estava só,

Slide 46: conduzido pelo Pé-Cascudo através de imensos corredores cujas paredes entrecortavam-se de portas. Tudo se assemelhava a um hospital, tamanha a brancura e a limpeza do edifício. Após longa caminhada, o Rabudo abriu uma das portas e convidou-o a entrar. Era um quarto de tamanho razoável, todo pintado de branco, mobiliado com apenas duas peças: uma cadeira e, à sua frente, um televisor. Viriato teve vontade de rir. Tudo aquilo lhe parecia infinitamente melhor do que esperava. -Funciona? – indagou de olhos no aparelho. -Funciona – respondeu o Cafuçu. – E capta todos os canais de entretenimento. Fique à vontade – disse o hospedeiro ligando o televisor. Entregou-lhe o controle remoto e convidou-o a sentar. Acrescentou o Coisa-Ruim que Viriato não se preocupasse com a falta de banheiro e cama. Por toda a eternidade ele jamais precisaria ingerir nutriente e expelir excessos, nem seria acometido pela fome e pelo sono, e sua única

Slide 47: ocupação seria a TV. Tão logo Viriato acomodou-se na cadeira, resignado à boa sorte, o Arrenegado retirou-se, batendo a porta. O falecido reparou, então, que não havia trinco nem fechadura pelo lado de dentro. Quis levantar-se para examinar um jeito de abri-la e deu-se conta de que seu corpo e a cadeira formavam, agora, uma só peça. Suspirou sem conseguir fechar os olhos. Suas pálpebras se recusavam a obedecer- lhe. Descobriu ainda que poderia mudar de um canal a outro, mas jamais desligar o aparelho e reduzir o volume do som. A TV o olhava continuamente, ad aeternum. Enfim, estava condenado a ficar com os olhos pregados no televisor por toda a eternidade. Não julgou cruel a sua pena. Afinal, escapara do fogo eterno e da chatice de companhias indesejadas. E tinha a seu dispor uma variada programação televisiva. Nas primeiras semanas Viriato chegou a achar graça da falta de imaginação do Tisnado. Que diabo de castigo era

Slide 48: aquele que lhe propiciava um atrativo cardápio de variedades? Havia o inconveniente de não poder desligar o aparelho nem fixá-lo numa emissora que estivesse fora do ar. As imagens estavam sempre ali, à vista, e os olhos e a mente não podiam ignorá-las, assim como os movimentos de Viriato eram todos observados pela TV. Foi ao fim de três meses que Viriato começou a perceber que a sua pena não era tão leve quanto pensara. Sua imaginação refluía. A TV não era uma mera transmissora de atrativos. Tratava-se de um ente real que imaginava por ele, pensava por ele, sonhava por ele, raciocinava por ele, seqüestrando- lhe a identidade. Um vazio instalara-se no âmago de seu ser. Ele estava hipnotizado pelo aparelho e o fluxo de imagens impregnava-lhe os olhos, a mente, o cérebro, as entranhas, descosturando-lhe a subjetividade. A sucessão infinita de clipes publicitários corroía-lhe a alma. Viriato tinha ânsias de consumo e, no entanto, estava impedido de acesso ao mercado. E o seu desejo desenrolava- se como um fio infinito. Seria menos doloroso

Slide 49: se a sua auto-estima não estivesse sendo minada dia a dia. Não possuir aqueles produtos que conferiam valor a seus proprietários acarretava-lhe um sofrimento que lhe parecia sempre mais insuportável. Sentia-se um faminto diante de farto banquete, mas com a boca irremediavelmente costurada. A programação saturava-o. embora variada, obedecia aos mesmos modelos repetitivos: o sorriso saúde-e-afeição dos apresentadores, a beleza esguia das mulheres, a ridicularização dos homossexuais e dos gordos, a apologia do adultério, a comicidade derivada da desgraça alheia, a prosperidade como fruto da sorte, a espetacularização da notícia, a nova embalagem de velhas piadas, velhas histórias e velhas imagens. Viriato entendeu o significado da eternidade: a televisão suprimia o tempo, já não havia passado, presente e futuro, e instalava a soberania do espaço, majestosamente ocupado por ela, não só no espaço das horas e dos dias,

Slide 50: das fantasias e das idéias, mas também no espaço subjetivo do telespectador, asfixiado por aquela profusão de signos que lhe roubavam a palavra e sonegavam o silêncio, dilacerando-o interiormente. Viriato não podia se ausentar, fugir daquele aluvião no qual se afogava sem perecer. A sucessão de anúncios incutia-lhe irremediável indigência, a infinidade de cores acinzentava- lhe o espírito, a velocidade fluida dos programas mergulhava-o numa vertigem irrefreável. Era pior que o fogo capaz de queimar sem consumir, pois todo ele era sugado indefinidamente, e a dor não era na carne, era no espírito, absorvido por aquele aparelho que o monitorava, transportando-o a um mundo virtual que escravizava o seu ser dominado pelas correntes invisíveis da sedução. Viriato sofria por não poder fechar os olhos diante do televisor que, incansável, jamais cerrava o olhar nem silenciava a fala, onipresente e onisciente, reduzindo-o a um exíguo e imponderável espaço que não admitia diálogo,

Slide 51: contestação, objeção ou resposta. O império imagético oprimia-o por toda a eternidade, esmagando-o sem destruí-lo na viscosidade daquela teia cuja aranha o prendia sem devorá-lo. O demônio modernizara-se. Conto extraído do livro Treze contos Diabólicos e Um Angélico

Slide 52: Daniela Pinotti Maluf e-mail:pinottimaluf@ig.com.br dpinotti@usp.br