García Gutiérrez - Desclassificação

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  • 1. Desclassificação na organização do conhecimento:ensaio pós-epistemológico Antonio GARCÍA GUTIÉRREZ1ResumoO conteúdo da rede digital origina-se a partir de diferentes formas, lógicas e culturas de conhecimento.Uma vez na rede, no entanto, eles são todos submetidos para se unificarem em formatos e lógicasfornecidos pela própria tecnologia digital. Uma tecnologia é, em primeiro lugar, o produto de umadeterminada cultura. Toda cultura e identidade classificam e nomeiam todo tipo de material e objetossimbólicos. Nos dias de hoje, o ocidente é a cultura que tomou para si a tarefa da classificação globalsuportada por suas próprias redes digitais. A classificação é uma ferramenta epistemológica fornecida pelaracionalidade moderna, cujas estruturas internas e modos de inferência são derivados das reduçõesmetonímicas, dicotonímicas e analógicas da diversidade dos mundos atuais. Neste artigo, um tipo dehermenêutica prática, chamada “desclassificação”, é introduzido e proposto como um caminho para umconhecimento que supera a epistemologia organizacional. A desclassificação é um sistema aberto queinstala o pluralismo lógico no núcleo do entendimento e processos de enunciação, através de ferramentasmetacognitivas.Palavras-chave : Classificação. Rede digital. Epistemologia. Hermenêutica.Introdução Este artigo se propõe a rever a posição epistemológica dominante naOrganização do Conhecimento (OC) e propôr uma perspectiva alternativa depensamento – complementar ao invés de substitutiva – na qual poderemosconsiderar a OC diferentemente, através de outros caminhos, em relação adiferentes sensibilidades, reposicionando o lugar epistêmico a partir do qual asteorias e práticas de OC são geralmente enunciadas. Nosso campo de estudo requer uma “virada epistemológica” a fimde tratar os crescentes desafios de um mundo heterogêneo, convulsivo e emconstante mudança. Mas esta “virada” deveria ser tão complexa que aconcepção de Epistemologia por si só poderia ser superada. Talvez há pouco ase perder por se realizar uma tentativa, quando levamos em consideração, comoo pesquisador social português Santos (1989), que a epistemologia impõerequerimentos em disciplinas científicas que é incapaz de impor a si própria,razão pela qual sua confiabilidade deveria ser mantida sob vigilância. Dirigir-se aos problemas centrais da OC deveria não apenas sertentado por autores, escolas, tendências ou linguagens desta área doconhecimento, uma vez que as questões abordadas ultrapassam demarcaçõespositivistas, deslocalizam-se e então reaparecem com um aspecto diferente –1Professor, Universidad de Seville, Faculdade de Communicación. R. Américo Vespúcio, s/n., 41092,Servilla, España. E-mail: <algarcia@us.es>. Recebido em 16/2/2011 e aceito para publicação em 28/3/2011.
  • 2. tanto transgressivo quanto verdadeiramente renovador – aos olhos datransdisciplinaridade. No entanto é necessário começar a partir de um estudo abertofocando a atenção no próprio objeto científico, embora a partir da perspectivade outras alianças e divórcios. Mais especificamente, as teorias pós-coloniais(Bhabha, 1994; Mignolo, 2003), posições feministas (Olson, 2003), polivalentes(Peña, 1992) e paraconsistentes (Costa, 1997) lógica, sensibilidade racional ouaesthesia (Sodré, 2006), racionalidade imperfeita (Elster, 1989), hermenêuticadiatopical (Santos, 2005) e pensamento complexo (Morin, 1996), entre outrasabordagens críticas, seria preciso abrir um diálogo que promova uma revisãoaprofundada de conceitos, procedimentos, relacionamentos e ações que giramem torno da OC. Já instalada no psiquismo, a classificação – uma operaçãoepistemológica de natureza geral – afeta duplamente o trabalho de praticantesde OC devido ao fato de que uma de suas rotinas essenciais é precisamente umtipo específico de classificação. O ato de classificar não é apenas governado porum conjunto de regras organizacionais explícitas, mas também cognitivas,inconscientes e padrões comportamentais automáticos ligadas à ideologia,cultura, identidade e memória que confinam pluralismo e interpretação. Nas seções finais deste artigo, uma posição diferente e pós-epistemológica de enunciação é proposta para os problemas e questõesadvindos da OC em um mundo cada vez mais globalizado de crescentehomogeneização cultural, além de dois operadores específicos de OC2aplicáveis à gestão de discursos históricos, midiáticos, sociais e culturais, com oobjetivo de ilustrar o potencial de desclassificação do pensamento.Classificação como uma operação epistemológica e técnica A classificação é uma operação epistemológica e gnosiológica deprimeira ordem que impregna a totalidade e nosso relacionamento com omundo completamente. A mente percebe todos os tipos de objetos – materiaisou simbólicos – de acordo com categorias fornecidas por uma dada cultura –um paradigma científico, neste caso – de um modo que representações de taisobjetos são apenas re-semantizações elaboradas em processos complexos desemiose que habitualmente transcendem a cultura. Isso não deveria representarqualquer problema, uma vez que todas as culturas e identidades hiper-classificam o mundo como parte de seus “jogos de linguagem”, se não fossepelo fato de que, como Rorty (1983) colocou, a epistemologia ser um meroepisódio para a cultura ocidental, e o ocidente – no sentido cultural – é a forçamotriz mais poderosa já conhecida, não apenas atrás da classificação ereclassificação do presente, mas também de nosso próprio passado e futuro e2 Amplamente desenvolvido em García Gutiérrez (2005; 2007; 2008a; 2008b; 2011).
  • 3. aqueles de outros. Esta ressignificação foi reforçada e acelerada graças àtecnologia digital. A rede digital, juntamente com operações de classificação incessantese rotineiras promovidas pela cultura ocidental, age sobre um espaço aberto noqual outras civilizações e culturas – também produtores importantes deconhecimento e memória – tornem-se mais vulneráveis. A “digitalidade” jáimpõe uma certa ordem lógica no mundo, porque, como com qualquer outratecnologia, é primariamente um “tecnológico”, um instrumento com umalcance simbólico que imperceptivelmente transfere os códigos da cultura que ocriou. Deste modo, existem simultaneamente várias classificações globais:aquelas impostas por praticantes de OC através de regulamentações técnicas eepistemológicas; e aquelas do meio digital por si só, reforçando a anterior. Isto ocorre por que o ocidente, como uma “cultura” hegemônica, éprofundamente convencido de que suas categorias de organização local sãonecessariamente de interesse global, sem compreender as atitudes hostis,marginais ou atônitas demonstradas por outras culturas e minorias. Tal zelo“hetero-organizacional” apareceu unicamente no ocidente com o advento doIluminismo (Horkheimer; Adorno, 2006), uma matriz cognitiva e cultural naqual precisamente uma tentativa foi realizada para organizar todo “oconhecimento universal” em uma enciclopédia (Olson; Nielsen, 2002) e na qualcada vez mais se manteve uma interpretação metonímica, dicotômica e neo-colonial do mundo. Os argumentos expostos abaixo serão limitados a esteselementos constituintes os quais, empiricamente falando, são entendidos comoclassificação.Redução metonímica Metonímia é uma ferramenta epistemológica que identifica a partecom o todo. Classificações do dia a dia ou científicas da organização ocidentaldo mundo são expressões de uma racionalidade “metonímica” que é parte doraciocínio instrumental denunciado por Weber da própria Escola de Frankfurt.A redução metonímica é a redução das reduções, uma redução a qual o únicoobjetivo é reduzir, simplificar e fragmentar; uma redução esmagadoramentepresente nos processos de compreensão, enunciação e classificação favorecidapela forma dominante de racionalidade contemporânea. Culturas são construídas e mantidas na base de categorias imutáveis,preconceitos e suposições, e a metonímia facilita enormemente a constituição etransmissão desse mundo em oferecer isso em visões parciais e viesesmutilados. A metonímia segue o caminho progressivo de redução do mundo aoponto de convertê-lo em um punhado de slogans e clichês. É por esta razão quea linguagem metonímica da propaganda e do marketing, que já infiltrou osdiscursos produzidos em nossa cultura, desde o político ao puramentecientífico, é tão eficiente. A tal extensão, na verdade, que a excepcionalidade do
  • 4. uso de metonímias tem se tornado uma ferramenta cognitiva lugar-comum,automática e, no entanto, dificilmente detectável mas esmagadoramentepresente em nossos discursos diários, escolhas e ações. Em seu “Sociología de las ausencias” [A Sociologia de Ausências],Boaventura Santos considera que o raciocínio metonímico é uma forma deracionalidade que impõe “uma homogeneidade no todo e nas partes, que nãoexiste além do relacionamento com a totalidade” (Santos, 2005, p. 155).Portanto, as totalidades teriam que ser construções formando uma parte deoutras totalidades de modo que o mundo, a partir deste ponto de vista, serianão mais que uma casa gigante de cartas prontas para serem derrubadas pelomenor dos movimentos ou negligência de sua frágil estrutura. Para Santos, oraciocínio metonímico tem duas conseqüências. Por um lado, “é consideradoum raciocínio exaustivo, exclusivo e completo, embora seja apenas uma daslógicas de racionalidade existentes no mundo. Por outro, para o raciocíniometonímico nenhuma das partes pode ser considerada além de seurelacionamento com o todo […]. Então é incompreensível que alguma daspartes tenha sua própria vida além do todo […]. A modernidade ocidental,dominada pelo raciocínio metonímico, não apenas tem uma compreensãolimitada do mundo mas também de si mesma” (Santos, 2005, p. 156). A convicção, tão firmemente enraizada no ocidente, de atribuir umvalor universal a um estilo de vida estritamente local e contemporâneo tempenetrado não apenas no imaginário diário da população ocidental mastambém em culturas pró-ocidentais e marginais, em vários casos por meio daadoção silenciosa e gradual destes mesmos estilos de vida, tecnologias elinguagens ocidentais. Duas ações cognitivas imediatas são produzidas através doraciocínio metonímico: 1) A fragmentação e divisão de todas as instâncias para então serestudadas, dominadas e exploradas por partes como o corpo humano, culturasinvadidas, ou as próprias agências ocidentais a serviço de uma eficiência supra-ocidental essencialista, como ocorre no campo da ciência, política valores oudivisão do trabalho. 2) A promoção de uma lógica arbitrária e irresponsável que, muitoalém do princípio hologramático de Morin (1996), envolve a identificação dadivisão com o todo do qual era apenas uma parte. Assim, classes e partes sãoconsideradas em um processo não controlado como espécies e todos, e tal lógicacomeça a operar em práticas diárias como um fluxo epistemológicoincontrolável. Na floresta do conhecimento, cada árvore, tronco e galhoocuparia um lugar inquestionável. Estou bem ciente do abuso de usar ainda novamente uma metáforabotânica, que teve muita popularidade no domínio da ciência e na disseminaçãodo pensamento metonímico, desde que foi avançado por Porfírio. Masprecisamente por ser uma das metáforas que proveu conhecimento com o maior
  • 5. número de reduções, não quero evitá-la. O dano não será encontrado nametáfora mas no uso perverso do phoroi3 além da semântica. Na verdade,Deleuze e Guattari (1994) recuperaram e reabilitaram a metáfora botânica pormeio do rizoma, um conjunto de raízes anárquicas, descontínuas, caprichosas eemaranhadas, como aquelas dos mangues do sul, como uma figura dedesmantelamento epistemológico. Este é o nutriente a partir do qual brota ateoria de desclassificação apresentada neste artigo.Redução dicotômica Uma vez obtida a licença de produção metonímica, a classificação dopensamento se arma com duas propriedades afiadas: - Deslizamento: isto envolve um tipo de movimento incontrolávelque nos permite passar injustificadamente de uma instância a outra pelo merofato de possuir representações homônimas, homográficas e homofônicas. Lacansublinhou o efeito do deslizamento metonímico sobre a estrutura dos própriossignificantes. A situação discursiva é indubitavelmente responsável pelodeslizamento que ocorre em uma direção ou outra. Mas, apesar de ser geradana superfície do significado, os efeitos para isso (para compreensão ou paraenunciação) não poderia ser mais decisiva. - Dicotomização: a dicotomia oferece um mundo construído pormodos de pares opostos. Todas as instâncias são construídas sobre um oposto.A dicotomia também transfere uma ordem de prioridade no binomial, uma vezque a posição não é neutra. Na verdade, a instância ocupando a primeiraposição em uma dicotomia tende a ser favorecida pela ordem social, economiaou cultural: norte versus sul, branco versus preto, homem versus mulher, chefeversus trabalhador, rico versus pobre, centro versus periferia. A partir disto, opróprio Santos propôs “um procedimento rejeitado pelo raciocínio metonímico:considerar os termos de dicotomias fora das articulações e relacionamentos depoder que os unem, como um primeiro passo na direção de libertá-los dos ditosrelacionamentos e revelar outra alternativas que têm sido obscurecidas pelasdicotomias hegemônicas. Considerar o Sul como se o Norte não existisse,considerar a mulher como se homens não existissem, considerar o escravo comose o senhorio não existisse” (Santos, 2005, p. 160). Para Santos, o raciocíniometonímico não sabe como absorver os múltiplos elementos que permanecemvagando por fora das dicotomias, e que tem que se recuperar ou ganhar suaprópria voz: “O que existe no sul que foge da dicotomia norte/sul? O que existena medicina tradicional que foge da dicotomia medicina tradicional/medicinamoderna? O que existe nas mulheres que é independente de seurelacionamento com os homens? É possível ver o que é subordinado sem levarem consideração a subordinação?” (Santos, 2005, p.160).3 Do grego φοροι, imposto, tributo.
  • 6. Após as dicotomias segue uma ordem lógica esmagadora que pensoque, para diferenciar da opinião de Santos, não é exclusiva, ainda menos dacultura ocidental, mas ao invés disso é uma constante em qualquer cultura oupersonalidade que busca dominação e expansão. Mas em nossa cultura,dicotomia é raciocinar o que o átomo é para a matéria. E tal ordem impregnou amoral: bem/mal; o direito: inocente/culpado; a política: a favor/contra; atecnologia digital: 1/0. Em meu livro Desclasificados (2007), a partir da demoliçãodas dicotomias, desenvolvi uma construção provocada de oxímoros e oxímoroshiperbáticos (inversões), induzindo a cooperação dos elementos de váriasoposições automáticas, tais como centro/periferia, para então transformá-las emduas eficientes fontes epistemológicas e heurísticas: periferia central (Bangaloreou São Paulo, por exemplo) e centro periférico (seja o Bronx ou os distritos maispobres de Los Angeles). A construção calculada de oxímoros e contradições éuma ferramenta metacognitiva poderosa de desclassificação do pensamento.Redução analógica Como Umberto Eco colocou em Kant e o Ornitorrinco (1999), no qual,em minha opinião, é o seu melhor trabalho sobre teoria do conhecimento, comrepercussões que não podem ser ignoradas por experts em classificação,zoologistas britânicos passaram a melhor parte do século XIX debatendo sobrecomo classificar o ornitorrinco, um simpático animal descoberto pela biologiaocidental por colonizadores na Austrália e Nova Zelândia. Os aborígines jáfizeram esta descoberta milhares de anos antes e nunca discutiram sobre suaclassificação zoológica. O ornitorrinco tem bico de pato e bota ovos (pássaro),um rabo peludo e glândulas mamárias estranhas (mamífero), ele se arrasta etem garras (réptil), contando que passa metade de sua vida em ambientesaquáticos onde caça e obtém sustento (anfíbio). Após muito debate, osmastozoólogos, chegaram à conclusão de que o animal deveria ser consideradoum mamífero. Importante notar que ser um mamífero significava que eleocupava uma posição privilegiada na ordem animal. Eles tinham que fazer umaescolha e decidiram sobre esta taxonomia, embora como poderiam explicar,entre outras coisas, a questão dos ovos e do bico? Vários zoólogos, de acordo com Eco, fizeram comentáriosextravagantes no que se refere ao ornitorrinco, por exemplo em relação à suaposição na ordem animal: mamíferos com partes de outros animais ou umamutação excepcional. Descobertas recentes mostram que o ornitorrincopertence a uma espécie que, por milhões de anos, tem regredido em direção àsua involução. Por conseguinte, se ainda existir dentro de alguns milhões deanos, ele poderia eventualmente abandonar o reino dos mamíferos entrandonesta que seria uma diferente taxonomia, uma taxonomia que poderia terexistido antes dos mamíferos?
  • 7. Comparando as categorias Kantianas formais com o conceitoPeirceano de Terceiridade, Eco expõe sobre o imperativo cultural, comotaxonomias são reproduzidas através de mecanismos de reconhecimento,usando o famoso exemplo de Marco Pólo quando, vendo um rinoceronteasiático pela primeira vez em sua viagem ao oriente, classificou-o como umunicórnio por conta de sua semelhança a um animal conhecido que, por outracoisa, nunca existiu exceto em narrativas mitológicas e pinturas que o próprioPólo teve a chance de familiarizar-se em Veneza. Várias civilizações e culturas – por exemplo, subculturas que não sãonecessariamente territoriais, tais como a científica – têm se especializado na“heteroclassificação”, em resenharem listas de clichês com os quais os assuntose objetos classificados devem se adequar, sabendo muito bem que a inclusão detodos os assuntos e objetos na mesma categoria é geralmente forçada, ou que acategoria acaba por explodir devido à pressão interna ou por conta das própriasdinâmicas deste mundo incansável ao qual pretende subordinar-se. Categoriascientíficas e epistemológicas não são preparadas para assumirem mudançasconstantes de uma supra-ordenação totalista. Catalogar, classificar, separar e dividir: aqui estão algumas daspalavras-chave de nossa cultura classificatória. Na visão do panoramaapresentado pela classificação, deveríamos perguntar a nós mesmos queinfluências estão por trás de tal classificação desenfreada, quais são asvantagens de classificar o mundo deste modo e, sobretudo, o que uma teoriaalternativa pode fazer em relação a isto? A teoria psicológica de dissonânciacognitiva pode provavelmente prover uma resposta satisfatória à primeiraquestão. A segunda envolveria um debate sociológico, político e ético o qualnão tenho intenção de evitar neste artigo, mas ao invés disso utilizar-se delecomo base; e a terceira requere uma resposta teórica que, a partir de umaabordagem crítica e pós-colonial, irei tratar na seção seguinte.Uma nova posição de enunciação A posição a partir da qual consideramos o mundo tem muito a vercom epistemologia: é nossa posição epistemológica. A partir de ondegeralmente consideramos a classificação epistemologicamente? Na minhaopinião, fazemos isso a partir de uma posição aparentemente neutra e não-ideológica, onde conflitos são de uma natureza exclusivamente técnico-científica, apesar do fato de que operamos e produzimos cultura. Além disso, irei propor a construção de uma posição de enunciaçãopós epistemológica incondicionalmente presidida pela hermenêutica (Capurro,2000). A hermenêutica é a democracia do pensamento. A epistemologiaconvencional exclui a hermenêutica, mas a hermenêutica integra aepistemologia bem como qualquer outra interpretação. Minha solicitaçãoinflexível é, como resultado, a substituição do espírito, linguagem e
  • 8. procedimentos da epistemologia da classificação por uma hermenêutica de OCque chamaremos de “desclassificação”. Uma revisão que envolve tratarprocessos complexos de tradução, a suspensão de certas suposições ou a meratransformação formal de outros que se adaptam à liberalização de uma matrizcognitiva mais ampla e inclusiva. A partir daí, e em honra da própriahermenêutica, podem se originar adjetivações, nuances e opções. Entretanto, reconsiderar nosso campo de estudo envolveria estaraberto a posições pós-coloniais, àquelas de diferentes sensibilidades econtribuições, tais como as de Walter Mignolo (Mignolo, 2003; Mignolo;Schiwy, 2007) e Bhabha (1994), ou Santos (1989; 2005), ao longo das mesmaslinhas, quando eles propõem um pensamento do sul, como metáfora daqueleimenso espaço de diversidade, embora um sul não compreendidosimplesmente como um lugar geográfico mas como um local de sofrimento,discriminação e exploração em uma escala mundial, incluindo os territóriossupostamente “desenvolvidos” do hemisfério norte. “Outro-paradigma” e“outro-pensamento”, como esta outra-forma de considerar o mundo égeralmente chamado pelos teóricos supracitados. Outro-identidade, outro-memória (García Gutiérrez 2008a; 2009) seriam seus correlatos. Hermenêuticasem fronteiras epistemológicas, sem a necessidade de hierarquização, exclusão,fragmentação, disjunção; até a complexidade de Edgar Morin seria altamentecompatível com tal modo pós-colonial de pensamento. Nós temos uma objeção razoável à teoria pós-colonial: em vários deseus trabalhos, embora sobretudo no Empire (Hardt; Negri, 2002), Toni Negri seopõe ao fato de que o projeto emancipante promovido pela modernidade estáesquecido em parte por se tornar sobrecarregado pela discussão que gira emtorno de velhas categorias coloniais das quais nunca conseguiu se livrar.Levando em consideração a objeção de Negri, advogo por uma posição deenunciação cujo objetivo principal é uma descolonização permanente, uma vezque, no meu ponto de vista, a dominação é intrínseca à natureza humana e, comcada novo assunto e geração, seria necessário reabrir o caso paradescolonização. A informação científica, que em um primeiro momento teve de lidarcom a gestão e organização das ciências, mesmo que por meio de classificaçõesuniversais imprudentes, também terminou por organizar conhecimento social,cultural, midiático, artístico e estético. Através da gestão e organização dedocumentos arqueológicos, históricos e antropológicos, a informação científicaterminou por invadir e modificar nossa visão de várias culturascontemporâneas e identidades em dissolução e a imagem que têm de simesmas. Através de outras disciplinas hiper-classificantes, tais comoarquivologia e museologia, documentos não-científicos e objetos pertencentes àcultura contemporânea ou aquelas de eras passadas são tratadas, embora sejamremovidas dos interesses de seus classificadores e curadores. Este detalhe
  • 9. fundamental, classificar a imensidão da “alteridade”, deveria ser suficiente paraincorporar em nossos estudos novas visões e lógicas, um grande pluralismo esensibilidade para considerar novos objetos que devem ser protegidos eclassificados ou, ainda melhor, desclassificados para permitir que protejam a simesmos. O que estaria envolvido, entretanto, é não apenas a otimização denossos processos de informação em uma imensa quantidade de conhecimentosubordinado ou excluído por conhecimento hegemônico, mas especialmente oreforço de formas genuínas de informação e auto-narrativa destes setores e aincorporação de suas visões de mundo e lógicas na microfísica da digitalidade.A desclassificação na Organização do Conhecimento A desclassificação basicamente envolve a introdução do pluralismono núcleo lógico de classificação. É uma operação metacognitiva e nãoautomática que, em cada ação do classificador, requere uma completaconsciência de incompletude, vieses e subjetividade explícita. Com a tecnologiaatual, é possível elaborar procedimentos e sistemas de classificação baseadosem desclassificação. Mas tais técnicas e ferramentas também terão que passarpor uma revolução epistemológica em todos os seus protocolos e estratos. Se, para então pensarmos de modo a desclassificar, precisarmos deuma posição fixa a partir da qual podemos observar objetos fixos, estaríamosclassificando de acordo com a ordem convencional de classificação, paralizandoo mundo de uma perspectiva esclerosada. A desclassificação é uma formadinâmica de organização que, primariamente, deveria satisfazer uma razão demudança: aquela dos próprios objetos organizáveis simbólicos, uma vez que aredução da paralisia cognitiva tradicional do tipo de classificação quenormalmente praticamos foi superada. A lógica da mudança (Hegel, 2000) subjacente à desclassificação deveser compreendida em pelo menos dois universos, às vezes oposto e às vezescolaborativo: primeiramente, nós conceberíamos uma mudança de naturezaespontânea e arbitrária, mas não obstante uma mudança que, de algum modo,seria considerada como determinista, não por levar o mundo inexoravelmenteem direção ao seu destino, mas por encontrar o destino inexorável do mundona própria mudança. Concebemos este tipo de mudança como um movimentode impulso instantâneo. Em segundo lugar, nós deveríamos entender a mudança daperspectiva do universo da vontade, um universo transformativo. A mudançaseria então governada por um caminho duplo articulado em movimentos etransformações. Movimentos gerando novos movimentos que interagem,substituem e deslocam o significado de algumas transformações que, em umâmbito mínimo, mas com a única autoridade que conhecemos, a autoridade queo significado nos confere, produz desvios e trações nos movimentos.
  • 10. A classificação surgiria como um movimento espontâneo dentro damatriz cognitiva inicial, equipada desde o começo com uma vontade depotência, que orienta percepções e pretensões de todos os significados possíveisna única direção das percepções e pretensões da vontade de poder. Na verdade,apesar da atomização do poder que brota da concepção Foucauldiana(Foucault, 1979), o poder mantém sua totalidade em um microcosmo demanifestações diárias. E uma de suas fontes e manifestações é a classificação,uma poderosa e milenar classificação protegida pela tradição, sabedoria,conhecimento, memória, identidade, estabilidade, religião, cultura, ciência enosso modo de vida, como é normalmente dito, todos cooperando em busca deuma classificação idêntica e imutável que incessantemente divulga suasestruturas. Uma classificação concebida como a origem e o destino do mundo,sempre submissa e reforçando a ordem estabelecida em espaços que talveznenhuma ordem seja necessária. Em práticas culturais, na qual a linguagem e linguagens provêm umadimensão básica, a essência, os “ismos”, isto é, a purificação ontológicadecorrente do verbo ser, torna-se uma referência e fonte de prioridade paraperceber e transmitir o mundo simbólico. Em uma diversidade demanifestações, o conceito de “ser” existe em todas as linguagens e culturasconhecidas, permitindo que pensadores conversem sobre os atributos epropriedades de um objeto, ou de si mesmos ou de uma comunidade, damesma maneira como podem rejeitá-los. Relacionamentos conceituais partitivos ou classemáticos, distorcidospela metonímica, agem como uma fonte automática que clarifica a proposição,enquanto ao mesmo tempo entorpece o restante. As hierarquias do todo sobreas partes, e das espécies sobre as classes, organizam o mundo. A mesma lógicade hierarquização, seja ela anterior ou subsequente às microestruturas depoder, organizam os relacionamentos entre sujeitos e objetos, entre objetos eobjetos e entre sujeitos e sujeitos. Quando aludimos, com automatismo ouinocência, às partes de uma casa, um carro, uma instituição, uma cidade, umcomputador, ou às classes de qualquer tipo de sujeito ou objeto, estamosclassificando o mundo de modo essencialista. Explicitamente ou tacitamente, overbo “ser” conecta a parte com o seu todo, a classe com sua espécie: a roda (é)parte do carro; o monitor (é) parte do computador; a cozinha (é) parte da casa; acasa é uma habitação; sardinhas são peixes; e o computador é tecnologia.Operações essencialistas consistem em organizar o mundo a partir de umalógica unicista e redutiva. Chamamos esta lógica rudimentar de “classificação”e ela já impregna a ordo nuclear da própria linguagem natural. A desclassificação não nega a classificação, pois nunca paramos declassificar, mas envolve a suposição metacognitiva de uma lógica diferente,plural e não-essencialista. A desclassificação introduz ao pluralismo lógico,mundos possíveis, dúvida e contradição em proposições, justamente provendo
  • 11. um pensamento anti-dogmático, um pensamento fraco, alguém poderia dizer,invocando Vattimo (pensiero debole). Simples fórmula, desafiando o princípio de não-contradição, como“uma coisa é sempre outra coisa”, introduz o falibilismo, o perspectivismo, opluralismo lógico em pensamento e a argumentação classificativa. E mais, aafirmação factual (é) seria ainda mais mitigada pela enunciação contrafactual:“uma coisa sempre pode ser outra coisa”. O que decide um supra-ordenamento ou subordinação é a situação,uma posição envolvente e absorvente bloqueando outras alternativas eimpedindo a alternativa de insubordinação ou não-subordinação conceitual. Épossível inferir que, além da situação, relacionamentos são submetidos ainfinitas possibilidades e mundos arbitrários como critério de ordenação. Secomo um exemplo tomarmos outras funcionalidades das instâncias aludidas emoutras situações (de mundos reais possíveis), na lógica modal de Lewis (1986) afaca poderia ser uma arma de assassinato, uma relíquia ou uma antiguidade; ocachorro poderia ser um latidor enfadonho ou uma compania leal; o carvalhopoderia prover sombra ou ser também uma árvore desconhecida; o computadorpoderia também ser um resíduo poluente; a sardinha poderia ser saudável ounão. Algo fora de contexto é sempre e simultaneamente múltiplas coisas.Concepções infinitas aguardam por instâncias, formando e reformandoproposições. E confirmar várias proposições simultaneamente não écontraditório; é simplesmente uma declaração de incerteza. Entretanto, umainstância não é apenas, é também. Por meios de explicação “também é” nospermite ver como a desclassificação surpreendentemente interrompehierarquias conceituais, cancelando o privilégio de qualquer visãoclassificatória: a faca é também um tipo de talher; o cachorro também é ummamífero; o carvalho também é uma árvore. Estas instâncias “eles tambémsão”, isto é dizer, o critério supra-ordenado estabelecido por costume, discursoou cultura, se torna desonrado, degradado, por infinitos mundos pragmáticosprontos para tomar seu lugar. Afirmar que qualquer instância é também, implica na demissão datradição ou imposição de quem a perspectiva do conceito tem sido vista econsiderada, bem como seu supra-ordenamento e elementos subordinados, etransferir o pluralismo desclassificante ao próprio núcleo da refundaçãoconceitual a qual o pensamento democrático requere. Afirmar simultaneamente várias proposições não é contraditório,uma vez que trata-se de uma declaração de incerteza. Não há criticismo de suanatureza contraditória. Nós também podemos afirmar várias proposiçõesopostas e, no entanto, ainda assim estaríamos dizendo algo. Estaríamos sempredizendo algo e, se calcularmos a contradição, nós certamente estaríamosdizendo algo tremendamente diferente e criativo. A desclassificação seria um
  • 12. modo de garantir oportunidades iguais para a diversidade do conhecimento,lógicas e conversações em um outro-digitalmente.Operadores desclassificantes em sistemas de classificação4 Nesta seção, que é mais aplicada para e focada em setorestrabalhando com eventos e histórias nos mundos da mídia, político, social ecultural, gêneros que se movem a partir de e entre o jornalismo e a história, ireidescrever dois tipos de operadores que, hipoteticamente, ajudariam a quebraros esquemas unilaterais e homogeneizantes de dependência, os quais apresença é massiva e perturbadora. Em qualquer caso, o que está envolvido éuma proposta teórica de operadores que, de modo desclassificatório, organizammundos medidos pelas construções de história e memória, vários campos dehumanidades e ciências ou discursos de mídia. Tais operadores teóricos teriamque ser incorporados seja ao forçar ou substituir e eliminar as funçõeshierárquicas e redutivas dos operadores tradicionais das classificações, tesaurose ontologias. O que é compreendido aqui como um operador é uma ferramentalógico-semantica (e, não deveria ser esquecido, de uma naturezanecessariamente ética e política), a qual função primordial envolve estabelecerrelacionamentos entre registradores e servindo como link entre estes e osparticipantes em uma rede. Por exemplo, as ferramentas hierárquicas TG(Termo Genérico), TE (Termo Específico) e associativa TR (Termo Relacionado),que pertencem ao tesauro convencional, são operadores de organização quesatisfazem critérios epistemológicos precisos, inequívocos e simétricos. A diferença básica deste tipo de operador fechado e univalente, emrespeito à minha proposta, encontra-se na lógica na qual são baseados.Operadores desclassificatórios são precisamente fontes de intervenção efacilitação cujo objetivo é garantir a descolonização do pensamento e o fluxoigual de sistemas de informação, mas também alertar cidadãos sobre essesregistros que contravém decisões e acordos estabelecidos interculturalmente,tais como direitos humanos, para questionar certas presenças por meios decrítica legítima de produtores-mediadores e usuários-mediadores, e promoveruma transformação social com chave para emancipação e pluralidade deconhecimento. Sendo abertos, a lógica dos operadores aqui propostos inclui a lógicafechada dos operadores tradicionais relacionais TG, TE e TR ou qualquer outro,e como resultado ele não se opõe a eles uma vez que contém os princípios dedesclassificação. Então, por exemplo, sob desclassificação nós poderíamoscontinuar a utilizar operadores de hierarquias classivas e partitivas, todo/parte4O operador complexo é amplamente descrito em García Gutiérrez (2008a). Referente aooperador transcultural, veja García Gutiérrez (2011).
  • 13. e gênero/espécie, sujeito à extirpação de sua lógica de subordinação e supra-ordenação como uma lógica primária sistêmica, operando como meras fontesparciais de proximidade, uma vez que elas não brotam da reprodução dehierarquias políticas epistemológicas, sociais ou hegemônicas. De acordo com os postulados estabelecidos pelas consideraçõesteóricas colocadas nas seções anteriores, a desclassificação em sistemas de OCnos setores já mencionados teriam um operador anti-dogmático, hermenêuticoe descolonizante, isto é, baseado no imperativo da participação direta edemocrática de todas as posições possíveis e mundos que necessite – incluindotodas as oposições e contradições a respeito de um conceito – construídas demodo plural para então assegurar a presença de todas as visões de mundo epropiciar as diferenças até mesmo daquelas posições consideradas injustas ouanti-democráticas. Sobre a prioridade do pluralismo ideológico e lógico, mastambém facilitando parte disso estabelecido nos princípios de interação etransformação que orienta a promoção de mudança social, proponho ooperador complexo . Tal operador seria essencial, por exemplo, em mapasconceituais em que aparecem noções complexas como terrorismo, véu, pessoas“ilegais” ou aborto, para mencionar apenas alguns dos mais controversos. Ooperador  garantiria todas as interpretações ideológicas e oportunidadesiguais para estes conceitos. O operador complexo não é designado para intervirou controlar visões e significados em relação a uma questão. Além disso, um operador anti-relativista e crítico agiria de modocompensatório, isto é, ficaria do lado contra as injustiças e desigualdadesestabelecidas na exomemória, interveria nos conflitos de interesse entreposições locais e acordos inter-ideológicos, estabeleceria condições para diálogocom chave para consenso, e aplicaria os resultados do último. O operadortranscultural V seria responsável por estas questões. Vamos olhar para várias questões de classificação tocantes aosaspectos diferentes e compartilhados em dois operadores, operadores que nãose opõem, mas intersectam, supervisam e complementam um ao outro. Ooperador complexo , cuja função mais notável seria a de detectar confrontos,contradições, oposições, dicotomias e antônimos em busca de sua coexistência,inclui todos os meios possíveis de uma questão ou o significado de questõesnão compartilhadas, especificando-as para que então toda participação oubuscas na rede sejam reconhecidas pelas subjetividades compartilhadas de umacomunidade ou cultura ou por subjetividades individuais. É entretanto umoperador mais próximo ao multiculturalismo de facto, a uma co-presença inicialde posições em condições iguais e com a mesma chance de visibilidade. Em relação ao operador transcultural V, é o produto sintético de umdiálogo permanentemente aberto, democrático entre representações de diversasposições (políticas, culturais, discursivas, etc.) que negociam a homologação eintegração de certas questões que os afetam das premissas dos argumentos (enão meros argumentos) e topoi. Entretanto, este operador V implica na busca de
  • 14. um acordo com respeito a uma questão e sua formalização como categoriatransversal às posições como uma transcategoria, constituindo, a partir de talsanção, uma norma ética mundial que interferiria nos registros locais que ainfringem, não validando ou as censurando, uma vez que eles semprepossuiriam a proteção oferecida pelo operador complexo, mas avisando oscidadãos participantes de seu conteúdo. García Gutiérrez (2002b; 2008a; 2008b;2011) estabelece os princípios básicos do diálogo que deveria governar aconstrução plural de acordos interculturais no campo de OC, baseado na éticadiscursiva de Apel (1985). Ambos operadores são profundamente democráticos uma vez que é apoiado pela especificação de todas as posições e visões de mundo, semexclusão, como itinerários de representação e localização dos registros, isto é,garantindo a representatividade em pé de igualdade de todas as posiçõesiniciais em respeito a uma questão, e V é essencialmente regulativo e executivo,isto é, ele equilibra o possível tratamento injusto de algumas ou outras posiçõesna rede, até mesmo respeitando a presença de tais registros acomodando oprincípio anterior de emancipação, em termos de uma escala categorialtransculturalmente aceita de tal forma que abusos na rede não fiquem impunesse a comunidade transcultural pode evitá-los com alertas, avisos erecriminações. Como resultado, o operador transcultural é um operadoramplamente democrático como complexo, uma vez que sua aplicação seriaapenas autorizada por decisão democrática (síntese transcultural) endossadopela maioria das posições, um consenso que pode ser ampliado e deve serrevisado periodicamente. Enquanto o operador transcultural é o antídoto para o relativismo doqual o operador complexo seria acusado, o que não determina os méritosmorais ou culturais de um registro, conceito ou posição, o operador complexodo mesmo modo envolve o equilíbrio democrático ou hermenêutico de umoperador transcultural acusado de falta de apoio ou legimização suficiente. Se ooperador complexo leva todas as posições e perspectivas à fricção mútua apartir da qual emergem terceiros itinerários, conivências espontâneas edeliberadamente novas, o operador transcultural é uma substância deracionalidade dialógica em busca de convergência. Os operadores complexos são linkados em nível sistêmico, isto é, àuma “epistemografia” como conceito de rede ou sistema aberto (GarcíaGutiérrez, 2002a; 2002b; 2007; 2008a; 2008b). A completa visibilidade da funçãodemocrática deste operador aparece apenas ao nível do sistema e não em cadaregistro particular. Tracidionalmente, a OC centralizou uma de suas principaislinhas de pesquisa e desenvolvimento na construção de linguagens e sistemasque, a partir de perspectivas homogeneizantes ou altamente tendenciosas,comumente representam conteúdos e formas discursivas independentementede variáveis culturais e o total conglomerado de sensibilidades e singularidadesque opera tanto na conformação destes mundos complexos, simplisticamente
  • 15. representados e no acesso, apropriação e continuidade destas representações.Entretanto, o operador ˜ romperia a lógica e aparência de sistemasconvencionais de classificação e linguagens. Quanto ao operador transcultural V, mesmo atuando em nívelsistêmico também, sua completa realização é apenas alcançada quando éespecificamente atribuída a um registro afetando a descrição analítica fornecidapor meio de outras fontes usadas pela posição e interesse local. Contudo, suaeficiência reside em um constante ativismo por diálogos interculturais e o usoadequado a que se coloca por mediadores culturalmente e socialmentecomprometidos.ReferênciasAPEL , O. La transformación de la filosofía. Madrid: Taurus, 1985.BHABHA, H.K. The location of culture. New York: Routledge, 1994.CAPURRO, R. Hermeneutics and the phenomenon of information. In: Mitcham,C. (Ed.). Metaphysics, epistemology and technology: research in philosophy andtechnology. New York: Elsevier, 2000. v.19, p.79-85.COSTA , N.C.A. O conhecimento cientifico. São Paulo: Discurso, 1997.DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil mesetas: capitalismo y esquizofrenia.Valencia: Pretextos, 1994.ECO, H. Kant y el ornitorrinco. Barcelona: Lumen, 1999.ELSTER, J. Ulises y las sirenas: estudios sobre racionalidad e irracionalidad.México: FCE, 1989.FOUCAULT, M. Microfísica del poder. Madrid: Las Ediciones de la Piqueta, 1979.GARCÍA GUTIÉRREZ, A. La memoria subrogada: mediación, cultura y concienciaen la red digital. Granada: Editorial Universidad de Granada, 2002a.GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Knowledge Organization from a “Culture of theBorder”: towards a transcultural ethics of mediation. In: López Huertas, M.J.(Ed.). Proceedings of the Seventh International Isko Conference: advances inknowledge organization. Würzburg: Ergon Verlag, 2002b. v.8, p.516-522.GARCÍA GUTIÉRREZ, A. Fijaciones: estudios sobre tecnologías, culturas ypolíticas de la memoria. Madrid: Biblioteca Nueva, 2005.
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