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  • 1. 2 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE EDUCAÇÃODEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO, POLÍTICA E SOCIEDADEA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL COMO INSTRUMENTO DO ENSINO DE GEOGRAFIA VITÓRIA - ES 2010
  • 2. 3 DIEGO ZANETE BONETE ESTEVAN DO AMARAL MENEGUELLI FLÁVIO DA SILVA MARQUES RONALDO GARCIA DE ARAÚJOA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL COMO INSTRUMENTO DO ENSINO DE GEOGRAFIA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Educação, Política e Sociedade do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado Pleno em Geografia. Orientadora: Profª. Msc. Solange Lins Gonçalves. Co-orientadora:Prof.ª Marisa Terezinha Rosa Valladares VITÓRIA - ES 2010
  • 3. 4 DIEGO ZANETE BONETE ESTEVAN DO AMARAL MENEGUELLI FLÁVIO DA SILVA MARQUES RONALDO GARCIA DE ARAÚJO A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL COMO INSTRUMENTO DO ENSINO DE GEOGRAFIATrabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Educação,Política e Sociedade do Centro de Educação da Universidade Federal do EspíritoSanto, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado Pleno emGeografia. Aprovado, em 24 de junho de 2010. COMISSÃO EXAMINADORA Prof.ª Msc. Solange Lins Gonçalves Universidade Federal do Espírito Santo Orientadora Prof.ª Dr.ª Marisa Teresinha Rosa Valladares Universidade Federal do Espírito Santo Prof.ª Dr.ª Gisele Girardi Universidade Federal do Espírito Santo Prof.ª Rosa Rasuck Analista Cultural
  • 4. 5Dedicatória Dedico este trabalho a Deus e a minha família, razões do meu viver, e em especial a minha mãe, mulher forte e trabalhadora. E a todos os estudantes que migraram de suas cidades de origem em busca de uma esperança nesta universidade. Diego Z. Bonete A Deus, meu sustentador, por toda a força e direção dada em todos os momentos. A todos os que me encorajaram e incentivaram a enfrentar esta etapa estudantil tão relevante. Estevan do A. Meneguelli A Deus, por acreditar que nossa existência pressupõe uma outra infinitamente superior. A minha esposa, por acrescentar razão e beleza aos meus dias. Aos meus pais, pelo exemplo, amizade e o carinho. Flávio da S. Marques Deus pelo milagre da vida,... Aos meus pais, familiares e amigos pela dedicação, incentivo, compreensão... A minha esposa e a minha filha pelas minhas faltas... Ronaldo Garcia de Araújo
  • 5. 6Epígrafe O olhar geográfico sobre o passado possibilita compreender as paisagens culturais e naturais do presente, favorecendo o planejamento do espaço geográfico futuro. Ronaldo Garcia de Araujo
  • 6. 7 ResumoA Educação Patrimonial como instrumento no ensino de geografia tem por objetivopossibilitar ao professor do ensino fundamental o uso de mais uma ferramenta,capaz de tornar mais próximo do cotidiano escolar os conceitos chaves da geografiamediante a valorização do Patrimônio Cultural local, despertando nos alunos e nacomunidade, onde esse é parte integrante, a importância do fortalecimento damemória coletiva e individual. Constitui-se objeto deste trabalho, a ampliação dacapacidade dos alunos em compreender a existência dos patrimônios históricos eculturais diante das transformações geradas no tempo-espaço; perceber aimportância da memória como ferramenta da Educação Patrimonial paraaprendizagem dos conceitos geográficos; e elaborar material paradidáticodenominado “Guia do Professor” contendo descrições conceituais e atividades inter-relacionando o Patrimônio Cultural do Espírito Santo e os conceitos chavesgeográficos - lugar, paisagem e espaço geográfico -, permitindo ainda umaabordagem de diferentes temas da geografia. A metodologia foi baseada naapresentação avaliativa do material paradidático “Guia do Professor” paraprofessores e graduandos finalistas, do curso de licenciatura plena e bachareladoem geografia da Universidade Federal do Espírito Santo, que lecionam, oulecionaram, na rede pública ou privada de ensino. Esses participantes consideraramo material paradidático um instrumento valioso para ensino e aprendizagem dageografia, pois, permitiu aguçar o “olhar geográfico” sobre os objetos culturaispresentes nas paisagens geográficas, ocupantes de vários lugares na dimensãoespaço-temporal. Por fim, observamos a necessidade do fortalecimento da formaçãocontinuada para o professor de geografia, de modo a permitir um equilíbrio entreseus conhecimentos e as constantes transformações do mundo.Palavras-chave: conceitos chaves da geografia; educação patrimonial; patrimôniocultural; material paradidático.
  • 7. 8 LISTAS DE FOTOGRAFIASFotografia 1 – Dunas de Itaúnas, em Conceição da Barra/ES..................................29Fotografia 2 – Reserva Ecológica de Jacarenema, em Vila Velha/ES......................30Fotografia 3 - Av. Jerônimo Monteiro – Décadas de 1930 a 1950............................31Fotografia 4 - Cacos de cerâmica colonial coletados no sítio das ruínas do rioSalinas, emAnchieta/ES...............................................................................................................32Fotografia 5 – Congo.................................................................................................33Fotografia 6 - Parque Moscoso – Vitória/ES.............................................................40Fotografia 7 - Cidade de Vitória vista da Prainha – Vila Velha/ES...........................42Fotografia 8 - Viaduto Caramuru – Vitória/ES..........................................................43Fotografia 9. Palestra de capacitação......................................................................45Fotografia 10. Momento de discussão.....................................................................46
  • 8. 9 LISTAS DE TABELASTabela 1 – O objeto cultural como fonte primária do conhecimento - etapasmetodológicas.....................................................................................................................26
  • 9. 10 LISTAS DE ILUSTRAÇÕESFigura 1 - Fluxograma da Classificação do Patrimônio Cultural................................29
  • 10. 11 LISTA DE SIGLASDT – Designação Temporária.IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.LEAGEO - Laboratório de Ensino e Aprendizagem de GeografiaMEC - Ministério da EducaçãoPCN – Parâmetros Curriculares NacionaisUNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura(United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization).RMGV – Região Metropolitana da Grande Vitória.TCC – Trabalho de Conclusão de Curso.
  • 11. 12 SUMÁRIO1. INTRODUÇÃO.......................................................................................................132. NOVOS OLHARES NO ENSINO DA GEOGRAFIA..............................................152.1. UM BREVE PARECER SOBRE O ENSINO DA GEOGRAFIA.............152 .2. NO VAS P RÁTI CAS DE E NSI NO E M GE OG RA FI A E RE ALI DA DEESCOLAR..................................................................................................................172.3. PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS E NOVOS OLHARES NOENSINO DE GEOGRAFIA.........................................................................................203. A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL COMO INSTRUMENTO DO ENSINO DEGEOGRAFIA..............................................................................................................233.1. PLURALIDADE CULTURAL................................................................................233.2. A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E O ENSINO DE GEOGRAFIA.........................253.3. PATRIMÔNIO CULTURAL..................................................................................27 3.3.1. CLASSIFICAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL E SUA APLICAÇÃO NOENSINO DE GEOGRAFIA.........................................................................................28 3.3.1.1. Bens Naturais.......................................................................................29 3.3.1.2. Bens Materiais......................................................................................31 3.3.1.3. Bens Imateriais.....................................................................................333.4. DIVERSIDADE CULTURAL................................................................................343.5. PAISAGEM CULTURAL......................................................................................354. GEOGRAFIA E MEMÓRIA....................................................................................364.1. VISÃO GERAL....................................................................................................364.2. CONCEITUANDO LUGAR..................................................................................394.3. CONCEITUANDO PAISAGEM............................................................................414.4. CONCEITUANDO ESPAÇO GEOGRÁFICO......................................................425 . AP LI C ABI LI D ADE D A E DUC AÇ ÃO P ATRI MO NI AL NO E NS INO EAPRENDIZAGEM DA GEOGRAFIA – APRESENTAÇÃO E AVALIAÇÃO DO“GUIA DO PROFESSOR”.........................................................................................456. CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................497. REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO........................................................................50ANEXOS....................................................................................................................53
  • 12. 131. INTRODUÇÃOO ensino da geografia tem papel singular na formação dos alunos do ensinofundamental, pois proporciona instrumentos imprescindíveis para compreensão eintervenção na realidade social na busca da conquista da cidadania.Como forma de auxiliar na ampliação da capacidade e habilidade desses alunos oMinistério da Educação (MEC), mediante a instituição dos Parâmetros CurricularesNacionais (PCNs), reservou à disciplina de geografia o objetivo pedagógico detrabalhar diversos elementos essenciais ao fortalecimento da identidade individual ecoletiva, tendo dentre suas premissas a valorização do patrimônio sociocultural.Para alcançar esses objetivos é fundamental que os alunos aprendam a observar, aconhecer, a explicar, a comparar e a representar o espaço geográfico. Favorecendoo fortalecimento e preservação da memória coletiva e individual, com intuito deformar um aluno-cidadão.Assim, este trabalho tem como finalidade evidenciar a importância da aplicação dostemas transversais no ensino de geografia, em especial, a Pluralidade Cultural,tendo como instrumento a Educação Patrimonial, conceito e metodologia, buscandoevidenciar sua interface com os conceitos-chaves da geografia, tais como: lugar,paisagem e espaço geográfico. Abarcando-se os seguintes objetivos específicos:(a) compreender a existência dos patrimônios históricos e culturais diante dastransformações geradas no tempo-espaço;(b) perceber a importância da memória como ferramenta da Educação Patrimonialpara aprendizagem dos conceitos geográficos, como paisagem e lugar naconstrução da identidade;(c) elaborar material paradidático denominado “Guia do Professor”, contendodescrições conceituais e atividades inter-relacionando Patrimônio Cultural doEspírito Santo e os conceitos-chaves geográficos - lugar, paisagem e espaçogeográfico -, permitindo ainda uma abordagem de diferentes temas da geografia.
  • 13. 14O recorte Espacial adotado para esse trabalho foi a Região Metropolitana da GrandeVitória (RMGV), sendo direcionada aos professores que atuam no 7º ano do ensinofundamental, cujo PCN define no Eixo 3: O campo e a cidade como formaçõessocioespaciais – o espaço como acumulação de tempos desiguais, o qualpossibilita trabalhar a educação patrimonial, pois: A Educação Patrimonial é um instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal em que está inserido. Esse processo leva ao reforço da autoestima dos indivíduos e comunidades e à valorização da cultura brasileira, compreendida como múltipla e plural. (HORTA, M. de L. P.; GRUNBERG, E. ; MONTEIRO, A. Q., 1999, p. 6).Para plena utilização desse procedimento no ensino e aprendizagem da geografia, econsiderando a necessidade de capacitação dos professores para trabalharem essatemática em sala de aula, optou-se pela realização de um mini-curso de capacitaçãopara os professores de geografia que lecionam no ensino fundamental, em escolaslocalizadas nos municípios: Vitória, Vila Velha, Cariacica e Serra, os quais compõema RMGV. Utilizando-se da seguinte metodologia: palestra com exposição doconteúdo e abordagem sobre o desenvolvimento das atividades; intervalo “CaféGeopatrimonial” momento de descontração e troca de experiências; e por último umdebate avaliando a temática prestada.O resultado do curso de capacitação de professores foi positivo como podemosconstatar ao final desse trabalho. Afinal, trata-se de uma temática que permite aoprofessor trabalhar assuntos transversais - pluralidade cultural, meio ambiente eoutros - intrinsecamente com os conceitos-chaves da geografia, de uma formalúdica, e culturalmente aceita.
  • 14. 152. NOVOS OLHARES NO ENSINO DA GEOGRAFIASerão apresentados a seguir alguns dos dilemas do ensino da geografia, embasadonos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), onde se encontra presente aEducação Patrimonial, objeto do material paradidático, que auxiliará o professor degeografia em suas aulas sobre os conceitos-chaves dessa disciplina. Favorecendoaproximação desses conceitos no cotidiano escolar.2.1. UM BREVE PARECER SOBRE O ENSINO DA GEOGRAFIAEm 1782 na França começa a instrução pública, obra do iluminismo e foiproclamada: “universal, gratuita, laica e obrigatória” (PEREIRA, 1989, p.22). Antesda Revolução Francesa a educação era um privilégio que só os escolhidos de Deuspodiam desfrutar, assim, quem não era nobre continuava na inércia dos saberes, ese tornavam uma massa fácil de ser manipulada, com o medo do castigo da mão deDeus. A gratuidade da educação foi vista pela burguesia, como um caminho para aconquista da hegemonia, assim desestruturando a igreja e os senhores feudais.A burguesia quando se torna à classe dominante, subindo ao poder, começa aestruturar sistemas nacionais de ensino e escolas para todos, de acordo com aideologia burguesa essa era a forma de “servos serem convertidos em cidadãos”(PEREIRA, 1989, p. 21), e assim, “participassem do processo político” (PEREIRA,1989, p. 23) consolidando a democracia burguesa. A transformação de servos emcidadãos consiste como elemento marcante no rompimento do feudalismo, issosomente foi possível pela educação, assim a escola surge libertando os homens daignorância.Com a implantação dos sistemas de ensino para os cidadãos, surge o principio deque mediante a educação todos os indivíduos tornam-se iguais. Assim a burguesiavê que não basta mudar o rumo do poder vigente, é preciso tornar seus ideaispermanentes, desta forma ela muda de estratégia para perpetuar seus interesses,expande o sistema de ensino de forma que esse reproduza as relações de classe, eo capitalismo torna-se um sacro império.
  • 15. 16No século XIX a escola se afirma, assim como o capitalismo, e assume uma posturanacionalista, reforçando os valores burgueses apresentados como universais. Destaforma, a Geografia, assim como outras disciplinas que formam o currículo escolar,torna-se instrumento de uma classe que deseja que sua hegemonia nunca sejaquebrada.A partir da delimitação geográfica, dos costumes e línguas, surgem na Europa osEstados-Nações e, assim, a escola é usada como instituição que permitia aimposição da nacionalidade e do capitalismo burguês. O Estado que lutava para alibertação de mentalidades arraigadas a preceitos é o mesmo estado com o espíritoprotetor da burguesia, uma moeda e seus dois lados.Para implementar os ideais burgueses foi necessário deixar as diferenças de lado eutilizar-se da educação para trabalhar os verdadeiros propósitos e anseios da classeburguesa, dessa forma a sociedade capitalista florescia ao mesmo tempo em que anacionalidade, no sentido burguês, se afirmava.Diante deste cenário as disciplinas surgem nos currículos escolares, não apenascomo ciência, mas como ferramentas para consolidação dos valores burgueses.Segundo Pereira (1989, p. 26) “[...] A Geografia é incluída nos currículos por razõesgeopolíticas enquanto não só marca a naturalidade do homem no espaço, mastambém sustenta que o homem só é humano porque incluído num espaço politizadonacional [...]”.Desta forma a geografia entra nos currículos escolares com dupla intenção, aprimeira como ciência de grande importância para o mundo, seus feitos devem sermostrados para o pleno desenvolvimento das potencialidades de todos, e a segundacomo legitimadora de um ideal em que quanto mais nações, mais rotas de mercadose abrem ao capitalismo, fazendo com que o ensino da geografia seja limitante. Mase hoje, na contemporaneidade, a quanto andas o ensino e as práticas da geografia?
  • 16. 172.2. NOVAS PRÁTICAS DE ENSINO EM GEOGRAFIA E AREALIDADE ESCOLARA geografia, igualmente as outras ciências, quando inserida nos currículos escolarescomo disciplina trouxe consigo uma dualidade: a de ciência e a de mantenedora deum ideal. Mesmo com o passar das décadas podemos perceber vestígios dessadualidade. Podem-se observar ao longo do tempo várias fases da Geografia:nacionalista, abstrata, acrítica e física. Diante de tal cenário, é comum a existênciade algumas barreiras ao ensinar os conceitos-chave da geografia.Uma das primeiras dificuldades de ensino da ciência geográfica se configurou, logoapós da afirmação da geografia como disciplina escolar, com toda a carga dosdiscursos nacionalistas, o ensino acabou sendo direcionada para a descrição doselementos físicos, uma geografia sem vida, em que seu estudo baseava-se namemorização dos pontos naturais da terra.Com o passar do tempo, essa geografia foi reforçada com a era dos militares, ondeseu ensino era reduzido a dados topográficos e estatísticos. O final desse períodode ensino militarista, e com advento da tecnologia, da ciência e da velocidade emultiplicidades dos meios (veículos) de comunicação, os quais contribuíram deforma de vertiginosa na formação (complexa) das sociedades ocidentaisneocapitalistas puncionaram significativas mudanças sobre o saber geográfico.Essas alterações implicaram no surgimento de um olhar crítico no processo decompreensão e explicação do espaço geográfico, a partir dessa de uma leitura demundo onde os aspectos físicos e sociais devem ser analisados conjuntamente, demodo potencializar o nosso entendimento sobre a paisagem que nos circunda. Deacordo com PEREIRA (1989, p. 26) “[...] A geografia analisa o físico, mas o estudodo físico em si mesmo não tem sentido. Ele só o terá se for considerado comodominado pelo homem e ligado à idéia de um espaço em que se exerce umadeterminada cidadania [...]”.A geografia ensinada só pelo físico tende a se eliminar a compreensão e o raciocíniodo humano, fazendo com que a lógica desse raciocínio seja incompleta. Uma vezque o estudo do espaço geográfico parte da compreensão da “primeira natureza”
  • 17. 18(PEREIRA, 1989, p. 29) modificada pelo homem através dos arranjos sociaistransformando-a na “segunda natureza” (PEREIRA, 1989, p. 29), pois acompreensão unicamente da “primeira natureza” não é a realidade do espaçogeográfico e sim um “enciclopedismo” (BRABANT, 1988, p. 19).Quando falamos de Geografia abstrata e acrítica, não nos referimos à ciênciageográfica, pelo contrario, uma ciência que tem uma produção concreta e muitocrítica, nos referimos a um estado de dormência em que o ensino escolar dageografia como também de outras disciplinas vêm passando e que se detectando amais de uma década por autores da área, como podemos ver no depoimento deAriovaldo Umbelino de Oliveira, a “[…] grande maioria dos professores da rede deensino sabe muito bem que o ensino atual da geografia não satisfaz nem ao aluno enem mesmo ao professor que o ministra […]”, e que se repete em muitas conversascom professores e amigos do meio acadêmico que ministram aulas, e também comoprofessores por designação temporária (DT).Mediante a esses problemas do dia-a-dia escolar, o professor recorrendo aferramentas e práticas de ensino, que não fiquem somente no uso do livro didático,possa tornar o aluno mais participativo em suas aulas. Muito dos males se deve asó utilização do livro didático, que com o passar dos anos veio se transformando na“bíblia” dos professores, onde é recorrente livros com muitos erros e acríticos. Muitosdestes passam apenas uma descrição, ao invés da reflexão dos elementosgeográficos, e muitas vezes tais erros passam despercebidos por nós professoresresponsáveis pela sua utilização pois, “[...] os professores e os alunos são treinadosa não pensar sobre e o que é ensinado e sim, a repetir pura e simplesmente o que éensinado. O que significa dizer que eles não participam do processo de produção doconhecimento […]” (OLIVEIRA, 1994, p.28).Isto se deve muito a formação do professor enquanto universitário, pois não recebeorientação critica para questionar o livro didático, por isso nos sentimos incapazesde modificar tal situação. Neste sentido, assim como a instituição escolar, esterecurso continua sendo um poderoso meio de controle da classe dominante. Ondecom tal situação continuamos formando mão de obra barata, ao invés de, umaescola que forma trabalhadores críticos capazes de produzir e não apenasreproduzir.
  • 18. 19Mediante esta vulnerabilidade, o professor de geografia acaba sendo apenas umcoadjuvante diante do ator principal, o livro didático, pois o professor deposita todo oseu planejamento neste recurso, deixando de utilizar novas formas lúdicas deensinar. O professor não exercita, assim, o pensar, além de proporcionar umageografia “limitada e limitante” (OLIVEIRA, 1988, p.26), o professor vê o seu papelde mediador entre o aluno e o pensar desaparecer, e não explora práticasdiferenciadas de ensinar, onde traga no aluno um aprender mais lúdico aproveitandoa sua vivência.Em muitos dos relatos ouvidos por professores de geografia, vemos essasdificuldades em observações como: - “sinto a falta de interesse dos alunos, pois édifícil conseguir recursos didáticos diferenciados para elucidar questões da geografiafora do espaço físico restrito da escola” -, ou, - “difícil é criar métodos em que oaluno reconheça a geografia em seu espaço vivido, assim tirando a geografia daabstração”.Tanto alunos, como professores sentem a diferença quando se utiliza novosrecursos didáticos em sala de aula, ainda mais quando esses recursos possibilitamuma visão ampliada do conhecimento geográfico, onde o físico e o social sãoapresentados no mesmo patamar, e não de forma determinante. Os alunos queremum ensino em que a vida cotidiana esteja nas paginas dos livros, onde possam estare fazer parte do espaço, e assim identificar na realidade os elementos geográficos.Podemos refletir isto nestas palavras: [...] o professor deve estar consciente de que o espaço próximo para ser analisado precisa ser abordado em sua relação com outras instâncias espacialmente distantes. Nesse processo, a realidade é o ponto de partida e de chegada. De sua observação o aluno deve extrair elementos sobre os quais deve refletir e a partir disso ser levado à construção de conceitos [...]. (ALMEIDA e PASSINI, 1989, p. 12)Novas práticas de ensino ganham força com a criação das estruturas paraorientação dos professores, os chamados PCNs, onde através destes parâmetros os
  • 19. 20docentes podem melhor se instruir sobre o conteúdo de suas matérias e ver atéonde podem explorar tais conteúdos.Dentro destas orientações também há uma parte muito interessante chamada detemas transversais, que se desmembram em: Ética, Meio Ambiente, Saúde,Pluralidade Cultural, Orientação Sexual e Consumo e Trabalho. Todos essesassuntos podem ser trabalhados e fortalecidos pelo ensino da geografia, assimcomo das demais disciplinas, pois são questões freqüentes em nossa sociedade.A partir desses temas é possível transmitir um saber mais social, ensinando-osatravés de novas práticas que contribuam para a plena compreensão da Geografiae, dessa forma, o estudante tenha a consciência de que está inserido num espaçoainda em transformação, onde a geografia é uma ciência em movimento e não sepropõe ser estática.2.3. PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS E NOVOSOLHARES NO ENSINO DE GEOGRAFIAOs Parâmetros Curriculares Nacionais, PCNs, foram criados em 1998 pelo Ministérioda Educação para auxiliar os professores em suas disciplinas, orientando-os paraformas mais abrangentes de ensinar.O conteúdo do PCN de geografia, que tange nossa pesquisa, é o Terceiro Ciclo doensino fundamental, onde ele tem como metas - o ensino para a conquista dacidadania e o respeito às diversidades regionais e culturais - e objetivos tais como:compreender a cidadania como participação social e política; conhecer e valorizar apluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro; questionar a realidade formulandoe resolvendo problemas. Tais questões servirão de argumentos para a elaboraçãodessa pesquisa.A busca de práticas pedagógicas diferenciadas para o ensino da Geografia possuicomo função principal tornar o ensino mais prazeroso para o aluno, focando a suarealidade social, cultural, ambiental e econômica. Desse modo, encontramos nostemas transversais definidos nos PCNs a possibilidade de trabalhar Educação
  • 20. 21Patrimonial e sua inter-relação com categorias de análise da geografia (lugar,paisagem e espaço geográfico).Os temas transversais trazem a interdisciplinaridade, que acaba sendo um elo entreas diversas ciências que são ensinadas, a transversalidade e a forma de olhardiferente sobre algo, e é desta forma que olhamos a Educação Patrimonial: um olharsem a alienação de que ela só serve para ensinar a história. Não podemos negarque a história é importante, e que sempre vai estar vinculada ao símbolo, masatravés da análise da geografia podemos compreender e refletir as múltiplas formasda paisagem que contém um espaço.A Educação Patrimonial está contida dentro da Pluralidade Cultural, que é de grandeimportância para o ensino, pois é uma forma de sempre resgatar as produçõessocioculturais que as sociedades e grupos sociais nos deixaram, e que formaram onosso país e suas manifestações no espaço, que no caso dessa pesquisa, é oPatrimônio. Se tratando de patrimônio e transversalidade outro tema transversalpode ser trabalhado junto, o Meio Ambiente, pois o patrimônio se abrange aossímbolos e paisagens naturais que fazem parte da vida e do dia-a-dia de cada um.Segundo o PCN, o objeto central do ensinar geografia, no Ensino Fundamental,deve ser o espaço, e de acordo com nossas percepções, o momento propício de setrabalhar a Educação Patrimonial como ferramenta da Geografia é a partir do 7º ano.Possibilitando o aluno verificar no espaço/patrimônio estes conceitos e redefini-lossegundo suas percepções, seguindo as orientações do professor, deve, assim,forçá-lo a sempre estar num trabalho de questionar a realidade, formando umcidadão crítico e não passivo diante das problemáticas que iram aparecer em suavida privada e em sociedade.É de suma importância trabalhar a Educação Patrimonial a partir do terceiro ciclo,pois, é nesse momento em que o aluno começa a se aprofundar nos conceitos dageografia, com isso o aluno vai entender que ele faz parte do espaço que o circunda,e que este espaço não é imóvel, promovendo assim, um sentimento depertencimento aquela realidade ainda em construção, e com isto valorizar o seupapel de cidadão.
  • 21. 22Em nossa pesquisa nos limitamos ao eixo 3 do terceiro ciclo, onde é trabalhado: ocampo e a cidade como formações socioespaciais, onde a Educação Patrimonialpode ser ensinada de forma mais consciente e incisiva, para que o estudante possaperceber que, apesar das transformações, o antigo e o novo podem compor umaúnica paisagem geográfica.A fim de obter melhores resultados resolvemos trabalhar a aplicabilidade de nossapesquisa com professores do Ensino Fundamental da RMGV, pois, estão maispróximos da grande gama do Patrimônio Histórico que compõe a nossa realidade,propondo como ferramenta um Guia de Educação Patrimonial para ajudar o docentea tirar certos conceitos da abstração e transformar este patrimônio, às vezesesquecidos, em verdadeiros espaços não formais de educação.
  • 22. 233. A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL COMO INSTRUMENTO NOENSINO DA GEOGRAFIANeste tópico abordaremos a importância de se trabalhar em sala de aula os temastransversais, sobretudo a Pluralidade Cultural, tendo como instrumento para oensino e aprendizagem da geografia a Educação Patrimonial. Assim,apresentaremos de forma sucinta a historicidade da formação conceitual dovocábulo Patrimônio Cultural, como também os conceitos acerca de patrimôniosculturais (bens naturais, materiais e imateriais), paisagens culturais e diversidadecultural.3.1. PLURALIDADE CULTURALAs diretrizes contidas nos PCNs, para o ensino e aprendizagem da geografia noensino fundamental, estão voltadas para práticas pedagógicas apropriadas aodesenvolvimento da capacidade de identificar e refletir dos alunos sobre osdiferentes aspectos da realidade, compreendendo a relação sociedade e natureza,considerando, entretanto, suas experiências.Todavia, é importante lembrarmos, que compete ao corpo docente da escoladiscernir sobre a forma mais adequada de conduzir o ensino, em virtude do contextoeconômico e socioambiental do local onde encontra-se inserida a escola. Oprofessor é um dos principais pilares desse processo, em especial, quando exercesua autônomia (micro-poder) em sala de aula.A temática da Pluralidade Cultural, definida como tema transversal nos ParâmetrosCurriculares Nacionais, tem interface singular com os conteúdos da geografia paraos alunos do ensino fundamental. Em especial, os eixos relacionados à formaçãosocioespacial do campo e da cidade e o estudo da natureza e sua importância parao homem - destinado ao Terceiro Ciclo, constante nas diretrizes dos ParâmetrosCurriculares Nacionais de Geografia - são aqueles em que o professor poderátrabalhar com seus alunos a temática da Pluralidade Cultural, uma vez que, diz
  • 23. 24respeito ao conhecimento e à valorização de características étnicas e culturais dosdiferentes grupos sociais que convivem no território nacional.Essa discussão pode ter como base alguns dos elementos materiais da paisagem,como: a casa, a rua, as indústrias, os portos, dentre outros. Afinal, são componentesda organização espacial, que “por adquirir uma forma, manifestada no espaço, acultura possui uma grande relevância na organização sócio-espacial das cidades, detal maneira que seu estudo é imprescindível na sociedade contemporânea”(COLASANTE, 2009, p. 03).Para alcançar esses objetivos é fundamental que os alunos aprendam a observar, aconhecer, a explicar, a comparar e a representar o espaço geográfico, pois seconstituem em subsídios essenciais ao fortalecimento da identidade individual ecoletiva, imprescindíveis na construção do sentido de pertencimento e devalorização do Patrimônio Cultural.A abordagem sobre a pluralidade cultural, com ênfase ao Patrimônio Cultural,permite ao professor que trabalha com os alunos do Quarto Ciclo umaprofundamento dos seguintes eixos: “um só mundo e muitos cenários geográficos emodernização, modo de vida e a problemática ambiental”. Esses eixos facultam adiscussão sobre as desigualdades socioeconômicas e seus reflexos na paisagemgeográfica, e ao mesmo tempo favorece ao aluno a possibilidade de começar aconhecer o nosso país.Deste modo, a Educação Patrimonial configura-se como uma valiosa ferramentapara facilitar a ampliação da capacidade dos alunos do ensino fundamental deobservar, conhecer, explicar, comparar e representar as características do lugar emque vivem das diferentes paisagens e espaços geográficos presentes no seucotidiano.
  • 24. 253.2. EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E O ENSINO DE GEOGRAFIAAfinal o que é a Educação Patrimonial? Para (HORTA; GRUNBERG; MONTEIRO,1999, p. 6, grifo do autor) “Trata-se de um processo permanente e sistemático detrabalho educacional centrado no Patrimônio Cultural como fonte primária deconhecimento e enriquecimento individual e coletivo. [...]”.Segundo (HORTA, 1999, apud TEIXEIRA, 2006, p. 17) “O termo EducaçãoPatrimonial foi introduzido no Brasil, em “termos conceituais e práticos”, no início dosanos 80, tendo como referência o Heritage Education, trabalho pedagógicodesenvolvido na Inglaterra na década anterior”.Considerando (RANGEL, 2002, apud TEIXEIRA, 2006, 17) “educação patrimonialdeve ser entendida como todo processo de trabalho educacional que vai tratar dopatrimônio cultural, sendo este produto de uma comunidade que com ele seidentifica [...]”.A interdisciplinaridade da Educação Patrimonial se constitui em um valiosoinstrumento do ensino e aprendizagem da geografia, pois, [...] A Educação Patrimonial equipara-se em muitos sentidos à Educação Ambiental. Ambas enfatizam a formação do cidadão, favorecendo as economias locais através do desenvolvimento turístico e da sustentabilidade, fortalecendo ainda o sentimento de pertencimento e os laços afetivos entre os membros da comunidade [...]. (TEIXEIRA et al., 2006, p. 18)A Educação Patrimonial permite trabalhar de forma lúdica e investigativa oPatrimônio Cultural e a sua inter-relação com a geografia face sua transversalidadeou interdisciplinaridade. Portanto, aplicável ao ensino e aprendizagem de diversasdisciplinas, principalmente, a geografia, uma vez que, [...] A partir da experiência e do contato direto com as evidências e manifestações da cultura, em todos os seus múltiplos aspectos, sentidos e significados, o trabalho da Educação Patrimonial busca levar crianças e adultos a um processo ativo de conhecimento, apropriação e valorização de sua herança cultural, capacitando-os para um melhor usufruto destes bens, e propiciando a geração e a produção de novos conhecimentos, num
  • 25. 26 processo contínuo de criação cultural. (HORTA, M. de L. P.; GRUNBERG, E.; MONTEIRO, A. Q., 1999, p. 6, grifo do autor)Afinal, o ensino e aprendizagem de geografia têm papel singular na formação dosalunos do ensino fundamental, pois, proporciona instrumentos imprescindíveis paracompreensão e intervenção na realidade social na busca da conquista da cidadania.Esse processo também deve ter como objetivo a valorização da memória individuale coletiva, fortalecendo a relação dos indivíduos com suas heranças culturais, capazde despertar o compromisso de preservar o patrimônio cultural local, regional,nacional e mundial.Para melhor aplicação dessa ferramenta sugere-se adotar as etapas descritas naTabela 1.Tabela 1 – O objeto cultural como fonte primária do conhecimento - etapas metodológicas Etapas Recursos/Atividades Objetivos Exemplificação Exercícios de percepção É possível perguntar: visual/sensorial, por meio de Identificar o objeto/sua 1. Qual a sua composição? 2. Qual perguntas, manipulação, função/seu significado; era ou é a sua função? 3. Quando 1. Observação experimentação, mediação, foi construído (época)? 4. Qual era anotações, comparação, dedução, Desenvolvimento da percepção à base da economia? 5. Quais jogos de detetive,... visual e simbólica. meios de transporte disponíveis? Fixar o conhecimento percebido, Registre sua percepção sobre o aprofundamento da observação e Desenhos, descrição verbal ou objeto: análise crítica; escrita, gráficos, fotografias, 1. Descreva os detalhes do objeto 2. Registro Desenvolvimento da memória, maquetes, mapas e plantas cultural; 2. Reproduza (desenhe ou pensamento lógico, intuitivo e baixas. fotografe); 3.Compare com objetos operacional. semelhantes,... Análise do problema, Investigação/pesquisa: levantamento de hipóteses, 1. Qual o contexto histórico, social, Desenvolvimento das discussão, questionamento, tecnológico, econômico e político capacidades de análise e julgamento 3. Exploração avaliação, pesquisa em outras da época da sua criação? 2. Quem crítico, interpretação das evidências e fontes como bibliotecas, arquivos, o construiu? 3. Como se originou? significados. cartórios, instituições, jornais, 4. Como era a organização de entrevistas. social do trabalho? Utilize sua criatividade: Recriação, releitura, 1. Faça uma maquete. Envolvimento afetivo, dramatização, interpretação em 2. Dsenhe; 3. Crie uma charge; 4. internalização, desenvolvimento da diferentes meios de expressão Elabore um documentário; 5. 4. Apropriação capacidade de auto-expressão, como pintura, escultura, drama, Promova uma gincana cultural. A apropriação criativa, valorização do dança, poesia, texto, filme e partir de sua apropriação intelectual bem cultural. vídeo. e emocional sobre o objeto cultural “descoberto”.Fonte: Guia Básico de Educação Patrimonial. Brasília, IPHAN/Museu Imperial, 1999.Nota: Dados adaptados pelos autores.
  • 26. 27O ensino da geografia nesta etapa do processo de aprendizagem tem como foco oselementos presentes na paisagem rural e urbana, cuja, percepção e posteriorinterpretação e compreensão da relação entre sociedade e natureza por parte doaluno, deve ocorrer mediante a ampliação de sua capacidade de observação ecaracterização dos objetos que compõem o espaço geográfico. Ou seja, adotando-se um procedimento cognitivo capaz de tornar compreensiva a influência que ohomem exerce sobre a natureza, e vice-versa.3.3. PATRIMÔNIO CULTURALO conceito de Patrimônio Cultural envolve dois vocábulos: pater e nomo, o termoPater significa em latim “pai de família”, etimologicamente referindo-se à herançapaterna. A palavra Nomo deriva do grego Nomos, sendo esta ligada à origem.Portanto, o significado de Patrimônio Cultural refere-se ao conjunto de materiaismóveis e imóveis e imateriais, produzidos no tempo e no espaço, por diferentesetnias que compõem uma sociedade. “O patrimônio de um povo é o legado dacultura estabelecida desde o passado até as populações atuais” TRAZZI (Coord.),2009, p.02.Para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura(UNESCO), O patrimônio cultural de um povo compreende as obras de seus artistas, arquitetos, músicos, escritores e sábios, assim como as criações anônimas surgidas da lama popular e o conjunto de valores que dão sentido à vida. Ou seja, as obras materiais e não materiais que expressam a criatividade desse povo: a língua, os ritos, as crenças, os lugares e monumentos históricos, a cultura, as obras de arte e os arquivos e bibliotecas. (Declaração do México, 1982, Conferência Mundial sobre as Políticas Culturais). Disponível em: <http://www.unisc.br/universidade/estrutura_administrativa/nucleos/npu/npu _patrimonio/legislacao/internacional/patr_cultural/declaracoes/mexico_1982. pdf>. Acesso em: 04 abr. 2010).Assim, dispõe a Constituição Federal do Brasil de 1988, Capítulo III, Seção II, emseu Art. 216, incisos de I, II, III, IV e V, como sendo patrimônio cultural brasileiro,
  • 27. 28 Art. 216. Constitui patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão; II - os modos de criar, fazer e viver; III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. Acesso em: 04 abr. 2010.Para (RODRIGUES, 2001, apud TEIXEIRA, 2006, p. 05) “A consolidação dosEstados Nacionais durante o século XIX impôs a necessidade de fortalecer a históriae a tradição de cada povo, como fator gerador de uma identidade própria. [...]”.Portando, o conceito de Patrimônio Cultural encontra-se sujeito as constantestransformações.3.3.1. CLASSIFICAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL E SUA APLICAÇÃO NOENSINO DE GEOGRAFIAO patrimônio cultural pode ser classificado em três categorias: os bens naturais,que compreende os elementos da natureza, como rios, florestas, cachoeiras, picos,serras, montanhas e toda a biodiversidade. Os bens materiais estão subdivididosem móveis, tendo como representantes pinturas, esculturas, artesanatos e outros; eos imóveis, tais como templos, terreiros, igrejas, fábricas, praças, patrimônioarqueológico e paleontológico. Numa outra categoria, reúnem os bens imateriais,incluindo o folclore, os costumes, a linguagem, a música, entre outros.
  • 28. 29 Patrimônio Cultural Bens Naturais Bens Materiais Bens Imateriais Cachoeiras, montanhas, Música, danças e fauna e flora. manifestações folclóricas. Bens Móveis Bens Imóveis Quadros, pinturas, Igrejas, prédios, casarões esculturas e outros. entre outros. Figura 1 - Fluxograma da Classificação do Patrimônio Cultural3.3.1.1. Bens NaturaisOs bens naturais também podem ser chamados de patrimônio ambiental ou natural.São elementos da paisagem, tais como afloramentos rochosos, fauna, flora ouquaisquer outros componentes naturais, que despertem ou que tenham valorsimbólico para um grupo social. Incluem-se nesta categorização os “habitats” queabrigam espécies endêmicas, raras ou ameaçadas de extinção, ou ainda quepossuam um valor universal excepcional, do ponto de vista da ciência ou daconservação. Igualmente, integram-se a essa categoria, as feições geomorfológicasde relevante beleza cênica ou paisagística1. Fonte: http://br.olhares.aeiou.pt/dunas_de_itaunas_foto486929.html. Acesso em: 14 abr. 2010. Fotografia 1. Dunas de Itaúnas, em Conceição da Barra/ES.1 Ver Fotografia 1.
  • 29. 30Vale destacar a relação de identificação e de sobrevivência, presente na interaçãohomem – natureza (bens naturais). Sendo, que [...] As práticas sociais também são delimitadas pelo espaço, os tipos de atividades desenvolvidas pelos diferentes grupos humanos estão ligados aos recursos naturais existentes. Práticas como, caça, pesca, agricultura e muitas outras são resultado de como as comunidades lidam com seu meio e refletem diferentes culturas e para que elas continuem existindo é preciso que haja a preservação do meio ambiente, ou seja, do patrimônio natural. (TEIXEIRA, S. et al., 2006, p.09) Fonte: www.vilavelha.org/images/madalena2.jpg. Acesso em: 05 jun. 2010 Fotografia 2. Reserva Ecológica de Jacarenema, em Vila Velha/ESAplicação:Atividade. Aula de campo para análise do patrimônio naturalO professor poderá dividir a turma em grupos, e cada grupo levará uma máquinafotográfica para registrar este patrimônio. Após a revelação das fotografias, já emsala de aula, o professor discutirá com os alunos os aspectos relativos àstransformações corridas no local e os principais elementos presentes na paisagem(tipo de solo, relevo, vegetação e outros). Poderá, a partir do estudo, realizar umaexposição de fotos aberta à visitação.
  • 30. 31Abordagens Cognitivas: Domínios naturais (morfoclimáticos); recursos naturais(água, flora, fauna e outros), degradação ambiental, exploração de recursosnaturais, poluição ambiental (atmosférica, águas superficiais e subterrâneas).Sugestão: o professor poderá escolher uma unidade de conservação próxima a suaescola. Ex.: Reserva Biológica de Jacarenema, em Vila Velha2; o manguezal deVitória e outros.3.3.1.2. Bens MateriaisConstituem bens materiais alguns dos elementos presentes nas paisagens rurais eurbanas, resultantes das necessidades e das habilidades humanas no decorrer doprocesso de produção e de reprodução da relação entre o homem e a natureza.Dentre esses, são considerados patrimônios os conjuntos habitacionais, portos,solares, museus, prédios que retratam a evolução histórica, manifestada emdeterminado tempo e espaço3. Fonte: Disponível em:<http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://1.bp.blogspot.com/.>.Acesso em: 01 jun.2010. Postado por Carlos Henrique Gobbi. Fotografia 3 . Av. Jerônimo Monteiro – Décadas de 1930 a 1950.Esses bens materiais configuram-se em materialidades sociais. No entanto,2 Ver Fotografia 2.3 Ver Fotografia 3.
  • 31. 32 [...] Geralmente o que se considera patrimônio são alguns monumentos, prédios que mostram a evolução histórica, representando um determinado período ou manifestação cultural. O bem pode ser selecionado a partir de diferentes estilos, materiais utilizados, do próprio projeto de sua construção, assim como valores externos agregados à edificação como a sua forma de ocupação por grupos ou personagens de importância para a sociedade. (TEIXEIRA et al., 2006, p. 08 e 09)Entre os bens materiais imóveis podemos destacar o patrimônio arquitetônico, opúblico, o popular, o sacro ou religioso (igrejas, templos, terreiros). Destaqueespecial ao patrimônio arqueológico, composto de antigas moradias, artefatos deargila, osso, concha, madeira, que podem ser encontrados de diversas formas, taiscomo: ornamentos corporais, machados, pedras lascadas, pontas de flecha,cerâmicas (urnas, potes e outros), fragmentos de faiança, louça, moedas de prata edemais objetos, caracterizados como vestígios materiais deixados pelos grupos ecivilizações passadas, em locais denominados de sítios arqueológicos. Fonte: CTA, 2009. Programa de Educação Patrimonial – Guia do Professor. Fotografia 4. Cacos de cerâmica colonial coletados no sítio das ruínas do rio Salinas, em Anchieta/ES.A observação e análise dos bens materiais possibilitam deduzir as condiçõeseconômicas, culturais, tecnológicas e sócias da sociedade responsável pelaconstrução ou criação do patrimônio material4.Aplicação:Atividade. Inventariando a cidade.4 Ver Fotografia 4.
  • 32. 33O professor poderá solicitar dos alunos uma pesquisa sobre os bens materiais dacidade, separando a turma em dois grupos: bens móveis e imóveis. A pesquisadeverá conter informações sobre quem construiu/criou, época daconstrução/criação, função e outras informações relevantes, além de fotografias. Oprofessor, com os alunos, deverá utilizar a planta cadastral recente da cidade paraidentificar a localização espacial desses bens. Também poderá compará-la commapas ou pinturas antigas, chamando a atenção dos alunos para a localização e osarranjos atuais.Abordagens: espaço geográfico; organização espacial, lugar; migração; bensmateriais; crescimento populacional; setores produtivos.3.3.1.3. Bens ImateriaisOs bens imateriais podem ser definidos como aqueles que são transmitidosmediante a história oral, por indivíduos ou comunidades, resultando na perpetuaçãodas mais variadas manifestações culturais, sendo estas de cunho religioso, artístico,tecnológico entre outras formas de expressão integrante de uma identidade étnica5. Fonte: http://gazetaonline.globo.com/_midias/jpg/578.jpg. Acesso em: 10 abr. 2010. Fotografia 5. Congo5 Ver Fotografia 5.
  • 33. 34Assim, merecem destaque as lendas, os cânticos, os contos, as danças, astecnologias do artesanato decorativo e utilitário, pois, assim como os outrospatrimônios culturais também refletem o modo de criar, fazer e viver dos homens,capaz de revelar paisagens geográficas diversas.Aplicação:Atividade. Elaboração da árvore genealógica de cada aluno.O professor solicitará dos alunos a relização de uma entrevista com seus pais eavós para obter informações sobre suas origens, local onde moravam, as atividadespraticadas, os meios de comunicação e transporte utilizados, levando-os a percebera importância do lugar e a diversidade cultural brasileira. Essa atividade poderá serenriquecida quando realizada com fotos e objetos antigos (louças, porta retratos,utensílios domésticos) preservados pelas famílias.Abordagens: Patrimônio imaterial; identidade cultural; imigração; miscigenação eetnias.3.4. DIVERSIDADE CULTURALA geografia cultural nos permite estudar a diversidade cultural que compreendedesde a forma de falar, comer, rezar, trabalhar, brincar, estudar dos seres humanos,ou seja, surge a partir de um conjunto de informações e expressões transmitidas, deforma oral, gestual ou escritas, de um indivíduo para o outro, de uma cultura paraoutra, sendo essas passíveis de alterações no tempo, seja esse curto ou longo.Apesar da infinidade de elementos didático-pedagógicos, que o estudo da geografiacultural proporciona, “[...] poucos são os estudos que, efetivamente, podem sercaracterizados como focalizados fundamentalmente em um aspecto da cultura emsua dimensão espacial” (CORRÊA, 1995, p.16).
  • 34. 353.5. PAISAGENS CULTURAIS“A paisagem constitui para a geografia um de seus conceitos-chaves, a ela sendoatribuída, por parte de numerosos geógrafos, o papel de integrar a geografia,articulando o saber sobre a natureza com o saber sobre o homem”, segundo Capel(apud CORRÊA, 1995, p. 03).A paisagem cultural pode ser definida como: [...] um conjunto de formas materiais dispostas e articuladas entre si no espaço como os campos, as cercas vivas, os caminhos, a casa, a igreja, entre outras, com seus estilos e cores, resultante da ação transformadora do homem sobre a natureza. (Siegfried Passarge e Otto Schlüter apud CORRÊA, 1995, p.04)As paisagens culturais que agregam feições geológicas, hídricas, climáticas,paleontológicas, arqueológicas e históricas de extraordinário interesse científico erara beleza natural são requisitos para classificação de paisagens culturais emgeoparques (SEMINÁRIO Serra da BodoquenaMS – Paisagem Cultural eGeoparque, 2007, acesso em 20 abr. 2010).Esse conjunto serve de base para estudos sobre a formação da Terra e a existênciade formas de vidas pretéritas
  • 35. 364. GEOGRAFIA E MÉMORIAEste capítulo se dedica a um elemento de grande valia para a Educação Patrimonialno ensino de Geografia: a memória. Para fundamentar o significado da memória ditacultural foi utilizado o conceito de cultura, lugar, paisagem e espaço geográfico.Contrapondo ao seu conceito biomédico, a memória busca, através doconhecimento e análise do patrimônio histórico-cultural, o resgate de todo oprocesso de acumulação de tempos desiguais no espaço habitado e modificado pelasociedade por parte do docente e discente, além de sua valorização num contextoescolar.4.1. VISÃO GERALAntes de conceituar a memória em um viés geográfico é importante buscar adefinição de cultura: […] a cultura deve ser considerada como o conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrange, além das artes e das letras, os modos de vida, as maneiras de viver juntos, os sistemas de valores, as tradições e as crenças. (UNESCO, 2002, p. 2)A cultura se arraiga num espaço através da memória de um grupo humano. Comotrabalhado no capítulo anterior, bens móveis, imóveis e naturais possui um valoralém do material para o grupo humano, possui um valor afetivo.Em outros tempos, a educação tradicional transformou a memória unicamente emum banco de informações, desviando-se do objetivo principal de dar suporte àreconstrução criativa do passado tanto para o docente, quanto para o discente.
  • 36. 37Segundo Cury, devemos ensinar nossos alunos a serem não apenas pensadores,mas produtores de idéias, pois a nossa memória não desempenha a funçãosomente de deposito de dados.Ainda de acordo com Cury, “a memória humana é um canteiro de informações eexperiências para que cada um de nós produza um fantástico mundo de idéias”.Portanto, de acordo com o autor, a memória como “canteiro de experiências”contribuirá para o entendimento da inserção Educação Patrimonial no ensino daGeografia.O que nos interessa nesta reflexão é discutir a memória como elemento facilitadordo entendimento do processo de acumulação de tempos, usos e hábitos de formadesigual no espaço geográfico, não importando necessariamente a sua escala.Abreu (1998) discrimina a memória, num contexto histórico-cultural, em três tipos: Memória individual, que é o acúmulo de vivências de cada ser humano resultado da sua ação e interação com a natureza e sociedade. Memória coletiva, que é o compartilhamento de memórias individuais gerando uma memória social; Memória histórica, se registrando como uma memória social que se desintegrou pelo tempo;Estas memórias se influenciam e se interferem, tornando-se um meio de coesãosocial e de identidade cultural. Para muitos, o patrimônio cultural deixou de tersignificado, tornando-se somente memória histórica.Colasante (2009) atesta que memória viva é um dos elementos da educaçãopatrimonial onde se busca em relatos ou entrevistas informais de pessoas que, emtempos passados viveram nos locais identificados para realização de um estudo ehoje podem relatar sobre o modo de vida, economia, fatos marcantes acontecidosnaquela época, possibilitando nos dias atuais, o resgate e a reflexão sobre um
  • 37. 38patrimônio cultural. A memória viva é uma ferramenta que busca resgatar a memóriahistórica e integrar novamente a uma memória coletiva/cultural.Tomando todos os tipos de memória apontados pode-se destacar para este capítuloa memória coletiva, que se entrelaçando com a noção de cultura, pode sedenominar memória cultural, definido por Abreu (apud Halbwachs, 1998) como “umconjunto de lembranças construídas socialmente e referenciadas a um conjunto quetranscende o indivíduo”.Todo monumento ou construção antiga revela o tempo histórico da sua criação. Apermanência da paisagem antiga nos revela na atualidade, traços que permitemidentificar e explorar as mudanças espaciais ocorridas, dotando o lugar designificações.Portanto, a compreensão do espaço como “acumulação de tempos desiguais” nocurrículo da geografia, permite uma abordagem do patrimônio histórico-cultural,unindo o novo e o velho em uma mesma paisagem.Desta forma, a geografia escolar se utiliza da educação patrimonial contribuindopara a formação e aprimoramento de uma consciência cidadã em seus alunosconectando-os ao seu bairro, município, estado e nação.Partindo agora do pressuposto de que a cidade é uma construção social, Carlos(2007, p.13) menciona que “[…] a dinâmica da reprodução social na cidadedemonstra uma tendência de destruição da alguns referenciais urbanos na buscapela modernidade como imagem de progresso […]”. Tal fato está presente natotalidade das cidades do globo, através da substituição e sobreposição de velhasformas por novas formas urbanas no espaço.Além disso, o meio urbano é dotado de simbolismos que perpassam pelas cidadestrazendo várias leituras e ângulos de percepção, não esquecendo de que éresultado da produção do capital no espaço, o que na maioria das vezes, não produzformas espontâneas de ocupação e desenvolvimento. É importante notar que amemória está atrelada tanto as transformações ocorridas no meio rural quanto asque são ocorridas no meio urbano.
  • 38. 39No campo, muitas práticas, hábitos e costumes, ferramentas e objetos de utilidadecaíram no esquecimento, devido à modernização ter alcançado o espaço rural,desencadeando a desintegração de referenciais identitários por vezes pautados numciclo econômico que permaneceu por muitos anos.Quanto à valorização da pluralidade cultural, o professor de Geografia poderábuscar lugares ou construções que indiquem culturas desvalorizadas, se possível,apresentando aos alunos algum indivíduo remanescente deste modo de viver,novamente lançando mão do artifício da memória viva, a fim de promover a inclusão.4.2. CONCEITUANDO LUGARFerreira (2001) conceitua lugar como “1. Espaço ocupado; sítio. 2. Espaço. 3. Sítioou ponto referido a um fato. 4. Esfera, ambiente. 5. Povoação, localidade, região oupaís”. Uma definição que transcende ao indivíduo.Já Yi-Fu Tuan (1983), define lugar como “um centro de significados construído pelaexperiência”. E Santos (1997) fomenta um sentido mais geográfico ao afirmar que o"lugar constitui a dimensão da existência que se manifesta através de um cotidianocompartido entre as mais diversas pessoas, firmas, instituições–cooperação econflito são à base da vida em comum".O conceito de lugar aponta não para um local genérico, mas sim para um local ondeum grupo humano tem vínculos afetivos, ou seja, um local que possui muitosvalores, significados e sentimentos revelando a identidade - sentimento depertencimento - com o lugar.Esta concepção é formada visualmente pelas paisagens que observamos nos locaisonde vivemos ou regularmente visitamos6.6 Ver Fotografia 6.
  • 39. 40 Fonte: Disponível em: <http://farm1.static.flickr.com/36/77339932_d00ffd3ae5.jpg?v=0> acessado em 31 de maio de 2010. Fotografia 6. Parque Moscoso – Vitória/ES.Nossa relação com os elementos do espaço local por um tempo determinado ouindeterminado acontece a partir do momento que este espaço nos traz umaimplicação. Esta implicação pode ser positiva, afeição ao lugar - também chamadode “topofilia” - ou negativa, repulsão ao lugar – denominado “topofobia”.O lugar deve conter pessoas que partilhem da sua história de existência emantenham sua “memória cultural”. Sem esta compreensão uma cidade, porexemplo, possui moradores que não sabem como começou seu processo decrescimento desde a sua fundação, que proporcionou chegar ao seu estágio atual.Esta meta só será alcançada se for trabalhada desde a infância, incutindo, oumelhor, solidificando nas mentes dos residentes num local a noção de pertencimentoao lugar de vivência dos mesmos. Reforçando este fato: A experiência da topofilia „necessita de um tamanho compacto, reduzido às necessidades biológicas do homem e às capacidades limitadas dos sentidos‟ (TUAN, 1980, p. 116). Por conseguinte, verifica-se que a topofilia é vivida mais intensamente numa escala local e regional, onde o homem ou a coletividade apresente um conhecimento geral do lugar, e este lhe pareça bem familiar. Isso fortalece a promoção da topofilia, em que conta também o conhecimento e a consciência do passado como um elemento importante no amor pelo lugar. (CUNHA, 2007, p. 8)
  • 40. 41Conforme dito por CUNHA (apud TUAN, 1980), assim como existe a topofilia(afeição pelo lugar / implicações positivas na paisagem) existe a sensação inversa: atopofobia. Que é o medo ou aversão a certo lugar (é tornado lugar também paravínculos negativos com uma paisagem local). A mesma experiência que traz asensação de pertencimento ao lugar traz uma sensação de repulsa ao lugar poralgum ou vários elementos observados e interagidos pelo indivíduo.ExemplificandoUma praça onde os pais levam os filhos e ali fazem amigos; um parque municipal ouestadual, onde se preserva mais a natureza característica da região, que também éum resgate do lugar onde vivemos; uma construção, ou festa típica também trazemesta unidade de pessoas propiciando vínculos de afetividade que permanecem pormuitos anos naquele vivenciado espaço.Um local poluído ou com construções e estruturações que abrigam uma rede derelações que envolvem risco social por tráfico de drogas, prostituição, ou outraprática ilícita podem, por exemplo, repelir a permanência ou chegada de pessoal aolocal envolto nestas paisagens.4.3. CONCEITUANDO PAISAGEMNesta interface geografia-memória também se pode trabalhar com os alunos oconceito de paisagem, que é “o conjunto daquilo que os olhos podem abarcar”(Claval, 2001, p.29).Holzer (1996, p. 114) diz que “[…] a paisagem é uma expressão física da ação dohomem sobre a natureza, e por extensão, um receptáculo da memória”. Istodemonstra que a paisagem em si promove e armazena a transformação de um local.Ao estudarmos sobre determinado patrimônio histórico-cultural, o registro efetuadopelo olhar o qualifica apenas como um elemento da paisagem externo à dinâmica daeconomia e modernização.
  • 41. 42Para que este elemento da paisagem, neste caso o patrimônio, ganhe significadobusca-se inicialmente o registro histórico e geográfico e aprofunda-se a reflexão doprocesso de transformação realizado no espaço identificado7. Fonte: Disponível em: <http://static.panoramio.com/photos/original/4440828.jpg> Acesso em: 31 de mai. de 2010. Fotografia 7. Cidade de Vitória/ES vista da Prainha – Vila Velha/ESExemplificandoA fundação de uma cidade, onde se fará a análise da superfície construída eurbanizada que antes era coberta por vegetação; cursos d‟água e variada fauna.Após a fundação da cidade edificaram estradas e várias construções ao longo desuas feições geomorfológicas. Instala-se um processo de ocupação populacionaldesordenado e os problemas característicos da falta de planejamento urbanosurgirão.4.4. CONCEITUANDO ESPAÇO GEOGRÁFICOAlém de paisagem e lugar, deve-se levar em conta que a memória cultural, numcontexto de Educação Patrimonial, aponta para sua existência como parte doespaço geográfico. Segundo Suertegaray (2001), espaço geográfico se define daseguinte maneira:7 Ver Fotografia 7.
  • 42. 43 […] o espaço geográfico é a coexistência das formas herdadas (de uma outra funcionalidade), reconstruídas sob uma nova organização com formas novas em construção, ou seja, é a coexistência do passado e do presente ou de um passado reconstituído no presente. Fonte: Disponível em:http://farm3.static.flickr.com/2346/2043345635_554680138a.jpg?v=0. Acesso em: 31 de mai. de 2010. Fotografia 8. Viaduto Caramuru – Vitória/ES.Neste processo em constante andamento, o conceito abordado fornece subsídiospara que o indivíduo vivente em seu lugar pense sobre o que se produziu e estáproduzindo no espaço, ou seja, sobre a interação do homem com a natureza esociedade e os desdobramentos no mesmo8.Com isso, se deve valorizar este patrimônio a fim de que seja mantida a memóriacultural para as gerações seguintes, para começar, esta conscientização serconstruída nos docentes e, posteriormente, nos alunos das escolas. Sem esteresgate da memória cultural, o espaço geográfico tomaria formas diferentes quepoderiam trazer implicações negativas ao longo do tempo-espaço para a sociedadecomo um todo.ExemplificandoUma cidade hipotética em franco crescimento populacional e principalmenteeconômico possui construções muito antigas e edificações novas. Sem terconsciência de preservação e valorização do patrimônio histórico-cultural,construções antigas desprotegidas pelos órgãos responsáveis pela proteção destes8 Ver Fotografia 8.
  • 43. 44patrimônios haveria uma altíssima chance de serem transformadas em prédios altos,a mando da especulação imobiliária e da modernidade, perdendo toda a memóriaque aquele elemento expressa no modo de viver histórico/tradicional poderiaoferecer aos munícipes de um dado local.
  • 44. 455. APLICABILIDADE DA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL NO ENSINO EAPRENDIZAGEM DA GEOGRAFIA – APRESENTAÇÃO EAVALIAÇÃO DO “GUIA DO PROFESSOR”Para averiguar a funcionalidade e aplicabilidade da proposta de implementação daEducação Patrimonial no ensino e aprendizagem da geografia, mediante a utilizaçãodo material paradidático intitulado, “Guia do Professor”, o qual foi elaborado paraservir de subsídio aos professores do ensino fundamental, foi realizado no dia 27 demaio de 2010, no prédio do IC-IV da Universidade Federal do Espírito Santo, ummini-curso de capacitação com duração de três horas, com o apoio da orientadoraProf.ª Msc. Solange Lins, e da Prof.ª Dr.ª Marisa T. Rosa Valladares – Coordenadorado Laboratório de Ensino e Aprendizagem de Geografia - LEAGEO, sob acoordenação dos responsáveis pelo desenvolvimento e aplicação deste trabalho.Foram previamente selecionados, convidados, oito professores, que lecionam noensino fundamental da rede pública e privada, – escolas situadas na RMGV - paraparticiparem. Porém, em virtude das fortes chuvas no dia da apresentação, não foipossível o comparecimento de todos9.Assim, houve a necessidade de adequações, de modo a assegurar quorum mínimode participantes para validação da proposta, desse modo foram chamadosgraduandos finalistas do curso de geografia com licenciatura plena e debacharelado, que lecionam ou lecionaram a disciplina de geografia para alunos doensino fundamental. Portanto, estavam presentes oito participantes entreprofessores recém-formados e graduandos finalistas. Fonte: Diego Zanete Bonete, 2010. Fotografia 9. Palestra de capacitação9 Ver Fotografia 9.
  • 45. 46Utilizando-se do seguinte procedimento: palestra com exposição do conteúdo eabordagem sobre o desenvolvimento das atividades; intervalo com o “CaféGeopatrimonial”, momento de descontração e troca de experiências; e encerrando-se com um debate avaliado sobre a temática prestada, conforme mencionadoanteriormente10. Fonte: Diego Zanete Bonete, 2010 Fotografia 10. Momento de discussãoDiante do exposto, apresentamos a seguir algumas das considerações sobre atemática do mini-curso de capacitação a partir da abordagem do materialparadidático intitulado.Na discussão sobre o Guia do Professor houve diversas reações, positivas na maiorparte, onde se comentou por parte dos professores que este material trouxe umnovo olhar ao patrimônio cultural ou natural, além de realizar uma aproximação daGeografia Física com a Geografia Humana.Outro comentário foi este trabalho ter despertado uma visão holística da Geografiaem relação ao uso deste patrimônio para estudar esta disciplina escolar, buscandoevitar a memorização como único método de aprendizado e o ensino fragmentadodo conteúdo que se apresenta muitas vezes no livro didático.10 Ver Fotografia 10.
  • 46. 47Foi sugerida por um dos participantes a realização desta apresentação deste guiapara capacitação de professores de Geografia em atividade nas escolas queoferecem esta abertura, além do uso das oficinas pedagógicas com docentes ouestudantes.Também se acrescentou que todas as atividades propostas como exemplificação noGuia do Professor podem ser aplicadas em qualquer município onde o professorleciona. Para isso, se valoriza o perfil do professor-pesquisador em sua práticadidática, buscando qualquer projeto governamental que auxilie em seu trabalho compatrimônio cultural.O sentimento de pertencimento ao lugar, topofilia, e o aspecto multidisciplinar forampontos importantes para um componente do grupo de professores. Incentivou-se ausar outros recursos didáticos para tratar do patrimônio cultural como músicas eliteraturas poéticas para incrementar este processo de ensino-aprendizagem.Criticou-se a visão tecnicista das instituições de ensino, não tratando a fundo certasquestões relevantes para a formação escolar do aluno. Defendeu-se oaproveitamento de datas comemorativas que podem ser trabalhadas num contextode aula e aprendizado.Outro ponto de discussão levou em conta o título deste material apresentado aoaluno: Guia do Professor devido a sua conotação inflexível para o docente organizarsua aula. Guia denota a ideia de um caminho que deve ser seguido à risca, semnenhuma complementação ao seu desenvolvimento no contexto pedagógico ouescolar.A falta de acesso a alguns patrimônios culturais a todos os grupos sociais tambémfoi discutido. Certos lugares, que são classificados como patrimônios artísticos ouculturais não são divulgados ou incentivados ao seu uso pela sociedade como umtodo, reflexo da desigualdade social e das relações de trabalho e consumo.Surgiram ainda, críticas às aulas de campo que onde só se realiza um passeioturístico ao patrimônio natural ou cultural, sem tratar assuntos pertinentes àGeografia, bem como o estudo que envolve o mesmo, contextualização do processode globalização do espaço.
  • 47. 48Portanto, houve boa aceitação do material didático, que atua como norteador, porparte dos professores e colegas de turma.
  • 48. 496. CONSIDERAÇÕES FINAISApesar do curto intervalo de tempo para desenvolvimento e aplicação destetrabalho, podemos considerar que os objetivos estabelecidos foram alcançados deforma satisfatória, principalmente, em relação à receptividade dos professores egraduandos concluintes frente à temática apresentada como mais um instrumentopara o ensino e aprendizagem da geografia.Considerando que a Educação Patrimonial se constitui para maioria dos graduandose dos professores do curso de geografia, e até mesmo para os futuros bacharéis degeografia, um processo educacional relativamente novo. Podemos, afirmar que aescolha dessa metodologia didático-pedagógica foi bastante válida, tendo em vista opotencial de difusão aqui iniciado, cujos objetivos visam aproximar os conceitos-chaves da geografia do cotidiano escolar e valorizar o Patrimônio Cultural dasociedade local. Favorecendo o fortalecimento do respeito às diversidades culturaisque compõem a sociedade capixaba e brasileira.Cientes de que ainda é escasso o interesse sobre a geografia cultural pelosgeógrafos brasileiros, esperamos desse trabalho, como também dos anteriores, quenos inspirou e impulsionou futuramente motivem – que novos olhares recaiam sobreo Patrimônio Cultural – na ótica do seu potencial de ensinar geografia utilizando-seda observação e análise critica dos bens patrimônios visíveis no nosso cotidiano.Reforçando, desse modo a necessidade da educação continuada para formação doprofessor, em especial, o de geografia. Afinal, trata-se de uma ciência em constantetransformação e conflito.
  • 49. 507. REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO__________________. Conferência UNESCO, 1982. Declaração do México.Disponível em:<http://www.unisc.br/universidade/estrutura_administrativa/nucleos/npu/npu_patrimonio/legislacao/internacional/patr_cultural/declaracoes/mexico_1982.pdf>. Acesso em:04 abr. 2010._________________. Diversidade Cultural. Disponível em:<http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001271/127160por.pdf.>. Acesso em: 04abr. 2010.____________. Educação Patrimonial nas escolas: Aprendendo a resgatar opatrimônio cultural. Disponível em:<http://www.cereja.org.br/arquivos_upload/allana_p_moraes_educ_patrimonial.pdf.>.Acesso em: 04 abr. 2010.__________________. Seminário Serra da Bodoquena/MS – Paisagem Culturale Geoparque, 2007. Disponível em:http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=1112. Acesso em: 20 maio2010.ALMEIDA, R. D. de; PASSINI, E. Y. O Espaço Geográfico Ensino eRepresentação. 1º Edição, Coleção Repensando o Ensino. Editora: Contexto, SãoPaulo, 1989.ALVES, A. Q. de O. (Org.) Manual Diretrizes para a Educação Patrimonial.Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais. BeloHorizonte, 2009. Disponível em: <http://www.iepha.mg.gov.br/programas-e-projetos/educacao-patrimonial?format=pdf>. Acesso em: 04 abr. 2010.BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros CurricularesNacionais: Geografia. Brasília: MEC/SEF, 1998, p. 1 – 89. Disponível em:
  • 50. 51<http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12657%3Aparametros-curriculares-nacionais-5o-a-8o-series&catid=195%3Aseb-educacao-basica&Itemid=859>. Acesso em: 04 abr. 2010.CLAVAL, P. A Geografia Cultural. 2. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2001.COLASANTE, T. O patrimônio histórico-cultural no ensino de geografia: umaanálise dos parâmetros curriculares nacionais (PCNs). In: III ENCONTROCIDADES NOVAS – A CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PATRIMONIAIS: Mostra deAções Preservacionistas de Londrina, Região Norte do Paraná e Sul do País.Paraná, 2009. P. 01 – 03. Disponível em:<http://web.unifil.br/docs/semana_educacao/1/estendidos/1.pdf.>. Acesso em: 10abr. 2010.CORRÊA, R. L. A dimensão cultural do espaço: alguns temas. In: ROSENDAHL, Z.(Ed.). Espaço e Cultura. Ano I. RJ: NEPEC/UERJ, 1995. p. 01 – 21. Disponível em:http://www.nepec.com.br/revista_1.pdf#page=6. Acesso em: 31 maio 2010.CUNHA, S. A. Estudo da Percepção da Maritimidade no Município dePresidente Kennedy – ES. 2007. 68 f. Monografia (graduação em Geografia).Departamento de Geografia, Centro de Ciências Humanas e Naturais, UniversidadeFederal do Espírito Santo, Vitória, 2007.CURY, A. J. Pais brilhantes, professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante,2003.FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini-Aurélio século XXI escolar: Ominidicionário da língua portuguesa. 4ª edição. Coordenação: Margarida dosAnjos e Marina Baird Ferreira. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001. Disponível em:http://www.ivt-rj.net/sapis/2006/pdf/JulianadeSouza.pdf>. Acesso em: 27 mai. 2010.FILIPE, Carlos Henrique de Oliveira. Paleontologia: Definição, fundamentação eobjetivos. WebArtigos.com, Minas Gerais, 2008. Disponível em:<http://www.webartigos.com/articles/9201/1/PALEONTOLOGIA-DEFINICAO-FUNDAMENTACAO-E-OBJETIVOS/pagina1.html>. Acesso em 22 maio 2010.
  • 51. 52HORTA, M. de L. P.; GRUNBERG, E.; MONTEIRO, A. Q., Guia Básico deEducação Patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e ArtísticoNacional, Museu Imperial, 1999.OLIVEIRA, A. U. de (Org.). Para Onde Vai o Ensino de Geografia. Editora:Contexto. São Paulo, 1988,1° Edição, Coleção Repensando o Ensino.PEREIRA, R. M. F. do A. Da Geografia que se Ensina à Gênese da GeografiaModerna. Editora da UFSC. Florianópolis, 1989.TEIXEIRA, S. (Org.). Educação patrimonial: novos caminhos na açãopedagógica. Campos dos Goytacazes, RJ: EDUENF, 2006.TRAZZI, A.(Coord.). Programa de Educação Patrimonial – Gasoduto RamalGASCAV UTG – Sul: guia do professor. Vitória: CTA - Centro de Tecnologia emAquicultura e Meio Ambiente, 2009. p. 02. Guia.UNESCO. Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural. Disponível em:http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001271/127160por.pdf. Acesso em: 27 mai.2010.VLACH, V. R. F. Geografia em Debate. Editora Lê. Belo Horizonte/MG,1990.