O surgimento do homem
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    O surgimento do homem O surgimento do homem Document Transcript

    • O surgimento do homem, os primeiros agrupamentos sociais e oaparecimento das famílias.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume ago., Série 29/08, 2011, p.01-15.As teorias sobre a origem do homem são relativamente recentes, só apareceram no finaldo século XIX e até hoje estão em constante alteração, sobretudo, devido a descobertasque costumam alterar a opinião dos estudiosos do tema.Pensar a evolução das espécies só tornou-se possível depois da revolucionaria teoria doinglês Charles Darwin, publicada na obra A origem das espécies em 1859.Polêmica até os dias atuais, ainda combatida pelo chamado criacionismo, Darwinsustentou, com base em observações empíricas na ilha de Galápagos (Equador), que avida está em permanente adaptação com relação ao meio e a luta pela sobrevivência.Para ele, a lei do mais forte comanda o processo de evolução, aglomerando-se com oprocesso de seleção natural, dentro do contexto da teoria da evolução das espécies.Segundo a qual, somente os mais fortes, os mais adaptados, sobrevivem, enquantomutações genéticas garantem vantagens que alteram características físicas das espécies.Neste sentido, o estudo de fósseis e vestígios arqueológicos permitiu traçar uma linhaevolutiva da espécie humana.Os profissionais responsáveis por estes estudos são paleontólogos, arqueólogos eantropólogos, embora historiadores também contribuam com analises sobre os indíciosencontrados.Mais recentemente, geneticistas se juntaram a equipe de estudiosos do tema,colaborando com o rastreamento das origens do homem, chegando até a Eva Genética, amulher da qual todos descenderíamos, pertencente já aos Homo Sapiens.No entanto, antes dela a espécie humana teve outros ancestrais.O Ramapithecus e a polêmica da ramificação da espécie.
    • Até recentemente, acreditava-se que o ancestral mais antigo do homem era oAustralopitecus, cujo nome significa macaco do sul, um fóssil descoberto no sul daÁfrica em 1924.Segundo livros didáticos ainda em uso, este primata teria aparecido háaproximadamente 1 milhão de anos, caracterizando-se por possuir cérebro um poucomaior que seus parentes, postura ereta, melhor visão e maior habilidade com as mãos.O que teria permitido manipular instrumentos como varas para derrubar frutas, além dodesenvolvimento de habilidades sociais que possibilitaram a vida em grupo. No entanto, um fóssil encontrado em 1974, na África, começou aalterar este panorama.Trata-se de Lucy, um Australopitecus com 3 milhões de anos.Mudanças mais radicais ocorreram com descobertas no inicio do século XXI,originando outra teoria.A qual defende a idéia que o Australopitecus é um primo distante do homem moderno,uma ramificação a partir de um ancestral comum.Segundo esta hipótese, o Australopitecus não seria um ancestral do homem, até porqueencontraram ramificações que dividiram o dito Australopitecus em subespécies tal comoAfricanus e Boisei, as quais terminaram também extintas.Na realidade, o Australopitecus e o Homo Habilis, este último nosso ancestral diretomais antigo, conviveram na mesma época, há cerca de 3 milhões de anos atéaproximadamente 1 milhão de anos.Ambos descendem do Ramapithecus, um primata que surgiu há 12 milhões de anos, emdiferentes regiões da África, Europa e Ásia.
    • Trata-se de um primata de pouco mais de um metro de altura, que viveu em florestas esavanas e que foi se tornando bípede.Era dotado da habilidade de atirar objetos para espantar predadores e carregar as crias.Porém, conforme se adaptou para caminhar, perdeu a habilidade de agarrar com os pés,o que impediu os bebês de grudar na mãe com as quatro patas, fazendo desenvolver apostura ereta para liberar as mãos para o transporte das crias.Ocorreram mutações que, pelo processo de seleção natural, originaram oAustralopitecus e o Homo Habilis, muitas vezes confundidos nos livros didáticos comoa mesma espécie, utilizados erroneamente como sinônimos.Porém, existe mais de uma ramificação a partir do Ramapithecus que torna o quebracabeças mais complexo e desorganizado, pois, em 1891, foi descoberto na ilha de Java oPitecantropus.Um homínida que apareceu há cerca de 750 mil anos, cujo nome significa macaco empé, o qual antes acreditava-se descender do Australopitecus, mas que na realidade estáem uma linha evolutiva paralela.
    • Atualmente, a opinião mais aceita diz que o Pitecantropus é apenas mais um primo doHomo Habilis, tendo como ancestral comum o Ramapithecus.Um fóssil, descoberto na China em 1921, permitiu observar que o Pitecantropusevoluiu, originando o Sinantropo, um primata de postura ereta, cérebro maior que seuantecessor e que conhecia o uso do fogo.É provável que o Australopitecus, Pitecantropus, Sinantropo e Homo Habilisrepresentem mutações do Ramapithecus que conviveram em grupos rivais, disputandoespaço.A espécie mais apta sobreviveu e sobrepujou as demais, no caso o Homo Habilis, asdemais se extinguiram.Entretanto, por volta de 1 milhão de anos surgiu o Homo Erectus, descendente direto doHomo Habilis, um hominídea fisicamente não muito diferente de nós, de aspectorobusto e forte, com cabeça achatada e maxilar saliente.Este ser conhecia o fogo e vivia em grupos, possuindo noções de convivência socialmais elaboradas.Provavelmente foi empurrado por mudanças climáticas, iniciando uma migração emmassa para a África, onde os sobreviventes da jornada originaram o Homo Sapiens há500 mil anos.Nascia o homem moderno, com todas as características que temos hoje, mas sem osmesmos hábitos ou modos de se relacionar entre si e com a natureza.O Homo Sapiens sofreu uma mutação mal sucedida entre 100 e 65 mil anos, fazendosurgir na Europa o Neandertal. Um hominídeo com cérebro menorque o Homo Sapiens, mas maior que o Homo Erectus; porém com grande força física econhecedor do uso de lanças e machados de pedra lascada.Este realizava ainda um tipo de culto aos mortos, colocando enfeites e alimentos nostúmulos, para que o morto pudesse utilizar em outra vida.O Neandertal simplesmente desapareceu há 50 mil anos, possivelmente se misturoucom o Homo Sapiens, visto que alguns de nós possuem traços genéticos que remetem aeles.
    • Seja como for, o homem moderno se tornou uma praga, transformando a natureza comfins a sua sobrevivência, espalhando-se pelo planeta e se multiplicando.O povoamento do planeta pelo Homo Sapiens.Depois que o Homo Erectus migrou para a África, originando o Homo Sapiens há 500mil anos, segundo a teoria mitocondrial, permaneceu no continente por 300 mil anos.Só iniciou uma nova aventura migratória há 200 mil anos, quando o nível das águascomeçou a baixar, permitindo, inicialmente, ir para o sul do continente africano.Depois, por volta de 100 mil anos, atravessou o mar Vermelho, quando então erapossível cruzá-lo a pé, indo para o Oriente Médio e para a região da Índia.Há 55 mil anos navegou até a Oceania, chegando até a Austrália, ao mesmo tempo,espalhando-se pela Ásia Central.Até então, é provável que a última era glacial tenha impedido a migração para a Europa.Isto, a despeito da teoria eurocêntrica que afirma que a África é o berço da humanidadee que a primeira migração do continente teria sido para a Europa, ao invés da Ásia.Entretanto, vestígios arqueológicos e o estudo genético provaram que a migração para aEuropa é bem mais recente, remonta há 55 mil anos, em algumas regiões ocorreusomente há 30 mil anos.Já a migração para a América teria ocorrido entre 40 e 100 mil anos, coexistindo duasteorias que explicam como aconteceu.
    • Segundo a teoria do povoamento pela ponte do Estreito de Bering, entre 40 e 30 milanos, a passagem entre o norte da América e da Ásia era mais estreita.O nível do mar era pelo menos 120 metros mais baixo, além de existir uma provávelfaixa formada por água congelada.O que teria permitido cruzar a distância a pé ou navegando curtas distâncias.Outra teoria, defendida por cientistas do Museu do Homem em Paris e já recriada porarqueólogos, afirma que o homem teria migrado a partir da Oceania, navegando emembarcações primitivas, indo de ilha em ilha até chegar a América, um processo queteria demorado 6 mil anos.Atualmente, as duas teorias são aceitas, sendo provável que os dois processos ocorreramsimultaneamente, ao passo que o povoamento da América teria se dado tanto pelo nortecomo sul do continente.Posteriormente, migrações para o sul e norte terminaram de povoar toda a América.Neste sentido, o fóssil humano mais antigo do continente teria no máximo 20 mil anos,chamado pelos paleontólogos como Luzia, o qual foi encontrado na América do Norte.Por sua vez, segundo Pedro Paulo Funari, na América do Sul, o esqueleto mais antigoteria por volta de 12 mil anos.
    • Entretanto, a arqueóloga brasileira NèdeGuidon encontrou vestígios que não seenquadram neste grande quebra-cabeças na Serra Capivara, no Piauí.Trata-se de restos de uma fogueira (carvões e artefatos de rocha lascada) que datam de50 mil anos, além de pinturas rupestres com pelo menos 40 mil anos.Diante destas descobertas, todas as teorias, ou pelo menos sua datação, sobre opovoamento da América, poderiam ser contestadas.Alguns estudiosos passaram, inclusive, a defender o inicio da América há 100 mil anos,quando a última era glacial teria facilitado a passagem a pé. O que faz com que seja plausível achegada do homem à América por várias passagens, incluindo sua migração direto daÁfrica, passando pelo Atlântico, quando o nível do oceano estava mais baixo, comgrandes extensões de água solidificada pelo frio.Destarte, esta teoria é controversa, não podemos esquecer que existem questõespolíticas, ideológicas, sociais e culturais envolvidas.O predomínio de uma visão eurocêntrica, dificilmente permite aos pesquisadoresadmitir um povoamento da América quase ou mais antigo que o asiático ou europeu.É o mesmo tipo de questão que, por exemplo, faz as civilizações nativas da Américaserem tratadas como primitivas, embora, em vários aspectos, sejam superiores aoseuropeus do século XV e XVI.Em todo caso, seja qual for a datação ou percurso da migração do homem pelo planeta,cabe perguntar: o que teria motivado o deslocamento destes grupos humanos?Uma explicação convencional diz que mudanças climáticas, a migração da caça, teriamfeito os homens buscarem novos territórios.Outra explicação afirma que a explosão demográfica tornou alimento escasso e forçou amigração humana.No entanto, Jaime Pinsky forneceu uma hipótese mais original que não anula asanteriores, para ele a migração humana aconteceu devido ao espírito de aventura.A natureza humana, a curiosidade de explorar e saber o que está além, foi o que moveuo homem a migrar cada vez para mais longe.Os primeiros agrupamentos sociais.
    • Desde 1 milhão até 10 mil anos atrás, os grupos hominídeas foram basicamentecompostos por caçadores, pescadores e coletores.O que exigiu uma organização social para coordenar os esforços de caça, com umadivisão de tarefas pelo sexo e idade.As mulheres coletavam frutas e raízes, cuidando dos filhos, amamentando a criança atéque desse a luz ao próximo rebento, em um espaço estimado em quatro anos, tratandotambém do preparo dos alimentos.Os homens caçavam e pescavam, perseguindo animais em grupo, preparando artefatospara facilitar a caça, como lanças e machados de pedra.Aos caçadores cabia a distribuição da carne, feita através de longos rituais, influenciadapelo grau de parentesco, alianças e devolução de favores.O caçador mais forte liderava o grupo, enquanto os mais velhos formavam um conselhotambém destinado a ensinar os mais jovens, ou eram deixados para morrer quandorepresentava um fardo para o grupo, isto porque os homens eram nômades, migrandoatrás da caça e pesca.Estes primeiros grupos sociais, segundo vestígios arqueológicos, não eram superiores atrinta indivíduos, fixando-se provisoriamente em cavernas ou habitações construídascom material local.Sempre próximos a fontes de água doce, tal como rios, ou então em locais elevados parafacilitar a visualização de predadores e grupos rivais.Viveram na época que chamamos de pré-história, o período anterior a invenção daescrita, entre 4 e 3 mil anos antes de Cristo.Isto porque é um período considerado anterior a história propriamente dita, já que nãoexistem relatos escritos sobre a vida destes grupos, somente vestígios arqueológicos quepermitem a penas suposições.Dentro da pré-história, o espaço de tempo que vai da origem do homem até 12 mil anosé chamado de Paleolítico ou Idade da Pedra Lascada.
    • O inicio da sedentarização da humanidade e a invenção da agricultura é chamado deMesolítico ou Nova Idade da Pedra, a Idade Média da pré-história.Um período de transição com novas técnicas e instrumentos surgindo, convivendo come velhos hábitos e práticas, delimitado entre 12 até 10 mil anos, embora alguns autoresdelimitem seu fim nos 6 mil anos.Entre 10 e 4 ou 3 mil anos, acorreu a Revolução Neolítica (Período Neolítico), quando ohomem se tornou sedentário, fixando-se em aldeias próximas a fontes de água e terrasférteis.Iniciou-se então a domesticação de plantas e animais, com a agricultura e o pastoreio.As primeiras espécies vegetais domesticadas foram grãos, cereais e raízes; tal comomilho, trigo, cevada, arroz e batata-doce.Ao passo que os primeiros animais domesticados foram cães, cabras, bois, camelos edromedários.Em pouco tempo, o homem aprimorou técnicas de construção de moradias, criandopeças de cerâmicas para armazenar alimentos e servir como decoração.Simultaneamente, começou a aperfeiçoar instrumentos agrícolas, o que gerou excedentee possibilitou o inicio do comércio, forçando o aparecimento de novas tecnologias parao transporte das mercadorias.Foi dentro deste contexto que a roda foi inventada há cerca de 5 mil anos, apesar de noinicio sua utilização se restringir para fazer cerâmica, portanto usada na horizontal.De qualquer forma, durante o Neolítico, também chamado Idade da Pedra Polida, asedentarização trouxe mudanças significativas na organização social, cultura e religião.Os agrupamentos humanos se tornaram mais numerosos, comportando uma explosãodemográfica que originou as primeiras cidades e, posteriormente, as primeirascivilizações.Este aumento das populações humanas criou rivalidade entre grupos humanos, fazendonascer a figura do guerreiro e organizações militares para proteger ou tomar recursos eterras.
    • Neste sentido, a divisão de tarefas continuou obedecendo uma dinâmica conforme sexoe idade.Onde aos homens cabia preparar a terra para o cultivo e ará-la, cuidando também dacaça e pesca, servindo como guerreiros.As mulheres, além das tarefas domésticas e do cuidar dos filhos, passou a caber a rotinada lavoura e a colheita.Aos mais jovens, principalmente do gênero masculino, era atribuída a tarefa depastoreio de animais de pequeno porte.Os mais velhos deixaram de ser abandonados para morrer, passaram a gozar de maiorprestigio, compondo conselhos que decidiam os destinos do grupo e guardando epreservando a memória oral.No aspecto cultural e religioso, mitologias nasceram para tentar explicar os fenômenosda natureza e padronizar comportamentos, quando apareceram, primeiro, o culto dosantepassados e, depois, a figura dos deuses.As mulheres passaram a ser vistas como seres sagrados, detentoras do dom da vida.Para cultuar e simbolizar a religião e a política, começaram a ser esculpidas estatuas,inicialmente, ligadas ao culto da fertilidade.Igualmente, foi aperfeiçoado o culto funerário e a preservação da memória dosantepassados, algo vinculado com o surgimento do sentimento de família.O conceito de família.Embora, em geral, a família tenha origem em um fenômeno biológico de conservação ereprodução da espécie, o conceito envolve questões vinculadas a aspectos sociais queinterferiram diretamente na evolução humana.
    • A família sofreu consideráveis modificações ao longo da história, regulando asinterações sociais e cunhando preceitos morais e éticos, fomentando leis e normas.No entanto, o conceito de família, independente de suas variações, é basicamente omesmo desde os primórdios da humanidade.Segundo Murdack, família é “um grupo social caracterizado pela residência em comum,com cooperação econômica e reprodução”, um conceito bastante elástico.Para Mair, família é “um grupo doméstico no qual os pais e filhos vivem juntos”, umaconcepção mais restrita e hoje colocada de lado pela maioria dos antropólogos.Para Beals e Hoijer, família é “um grupo social cujos membros estão unidos por laçosde parentescos”.Outro conceito aparentemente estreito, mas que, diante da elasticidade doestabelecimento de graus de parentescos artificiais, admitidos como possíveis pelaantropologia, esta concepção torna-se ampla.Em outras palavras, qualquer que seja a linha teórica, a verdade é que todos os conceitosse encaixam na seguinte definição de família:Família é todo conjunto de pessoas unidas por interações sociais com certo grau decoesão entre seus membros, com graus de parentesco artificiais ou concretos,declarados ou ocultos, com ou sem ligação genética.Hoje, apesar de no passado já terem sido registrados casos semelhantes ao longo dahistória da humanidade, a família pode tanto ser constituída por pais e filhos, como porum conjunto de amigos, onde cada membro assume uma função social perante osdemais.Tipos de família.Dentro do âmbito da amplitude do conceito de família, para a antropologia existemalgumas classificações tipológicas que visam ajudar o estudo.
    • Assim, pensando nas diferentes maneiras como se organizam ou estruturam os grupos,variáveis no tempo e espaço, a família pode ser classificada em cinco tipos:1. Elementar.Também chamada de nuclear, natal-conjugal, simples, imediata ou primaria; é aquelaformada por pai e mãe, homem e mulher ou aqueles que assumem a vida conjugalmonogâmica, podendo ser um casal de dois homens ou duas mulheres.Fazem parte deste tipo de família, além do casal, também os filhos, quer sejam geradosbiologicamente ou agregados ao grupo.A despeito de, até pouco tempo atrás, só ser considerado como pertencente a este tipode modelo a família patriarcal tradicional com laços sanguíneos.Não obstante, a família elementar, do ponto de vista antropológico, é consideradaefêmera, pois à medida que os filhos crescem, constituindo novas famílias, o grupodiminui e, eventualmente, tende a desaparecer com a morte dos pais.Sobrevive, com raras exceções, não mais que duas ou três gerações.2. Extensa.Também chamada grande, é uma unidade formada por duas ou mais famílias de tipoelementar, com grau de parentescos mais complexos, envolvendo avós, tios, sobrinhos,primos, afilhados e até agregados.No entanto, a unidade nuclear, com pai e mãe, ou aqueles que exercem a função, é bemdefinida e nítida, admitindo apenas relações monogâmicas entre cônjuges.3. Composta.Também chamada complexa ou conjunta, é uma unidade formada por três ou maiscônjuges e seus filhos, com estrutura poligâmica.É um modelo oriental de família, existente desde os primórdios da humanidade e muitocomum em sociedades matriarcais4. Conjugada Fraterna. Refere-se a uma unidade composta por membros que compartilham funções, nãoexistindo a presença rígida de pai e mãe.Ora um membro do grupo exerce o papel de pai, ora de irmão ou filho, tudo depende docontexto e do momento.Um bom exemplo são as sociedade indígenas, onde a criança é de responsabilidade detoda a tribo, embora existam funções delimitadas por sexo e idade.Nas sociedades modernas, diante da ausência do real ocupante da função exercendo amesma, existe uma tendência a sempre alguém ocupar o lugar vago, mesmo quetemporariamente.
    • 5. Fantasma.Consiste em uma unidade formada por apenas um elemento nuclear, pai ou mãe, e ochamado fantasma, além dos filhos.Isto, mesmo no caso de pai ou mãe vivos, mas ausentes, pois quando a função não édesempenhada, pelo menos em um aspecto, o elemento torna-se um fantasma.Funções da família.Dentre as diversas funções da família, as quais tem variado através dos séculos, osestudiosos apontam quatro básicas e quatro subsidiárias.As funções básicas, também chamadas de fundamentais, são encontradas em todos osgrupos humanos, sendo elas:1. Sexual.Atende as necessidades sexuais permitidas por meio da institucionalização da união oucasamento.2. Reprodução.Visa perpetuar a espécie, mesmo em sociedades onde há liberdade sexual, a procriaçãoé regulada com normas e sanções que legitimam a família.3. Econômica.Assegura o sustento e proteção do grupo, conduzindo a divisão de tarefas e aestratificação, com status diferenciados entre os membros.4. Educacional.O grupo, através da coesão, arca com a responsabilidade de transferir os conhecimentosacumulados pela humanidade de geração em geração, criando condições para que existauma cooperação entre os membros.O que torna, teoricamente, a vida em sociedade possível.Portanto, as funções básicas da família podem ser desempenhada de várias maneiras,dentro dos mais diversos sistemas culturais, moldando as personalidades individuais.Como agente educador, a família pode combinar duas funções especificas:1. Socializadora.
    • Na medida em que transmite a herança cultural e social durante os primeiros anos devida (linguagem, usos, costumes, valores e crenças), a família é peça essencial noprocesso de endoculturação, preparando a criança para o ingresso na sociedade.2. Social.Proporciona a conquista de diferentes status dentro da estratificação social, tal como oposicionamento étnico, nacional, religiosa, político, educacional e até de classe.Além destas divisões, alguns autores classificam quatro funções subsidiárias, apesar deoutros afirmarem que perderam sentido na sociedade moderna.No entanto, cabe ressaltar que, diferente das funções básicas, as subsidiarias nãoexistem em algumas sociedades.Estas funções subsidiarias podem ser assim divididas:1. Religiosa.Une seus membros através de uma rede de direitos e proibições morais, estabelecendolaços afetivos e sentimentais.2. Jurídica.Impõem obrigações definidas entre os membros, mas também direitos.O que garante a reprodução do sistema econômico e político vigente, assim como amanutenção do status individual.3. Política.Propicia proteção potencializando apoio emocional para a resolução de problemas econflitos, podendo formar uma barreira defensiva contra agressões externas.Neste sentido, reforça a saúde física e mental do individuo, constituindo um recursopara lidar com situações associadas à vida em comunidade.4. Recreativa.Constitui uma válvula de escape para as tensões fora do grupo, um elemento de fuga dostress.Embora esta válvula de escape, desvinculada da função religiosa e associada a outrosfatores, possa conduzir a violência domestica.Casamento e família.
    • Freqüentemente associada ao casamento, para entender a família integralmente, énecessário discutir o união entre cônjuges.Na sociedade, em geral, existem duas formas de relação, do ponto de vistaantropológico, entre seres humanos: união e casamento.Tradicionalmente, a união consiste no ajuntamento de indivíduos do sexo oposto sobinfluencia do impulso sexual.Modernamente, a união também pode ser caracterizada pelo ajuntamento também entreindivíduos do mesmo sexo, contanto que exista influencia de impulso sexual.De qualquer forma, a união não estabelece necessariamente direitos e obrigações e, doponto de vista antropológico, não constitui obrigatoriamente uma família.Para que isto aconteça é necessário o reconhecimento dos envolvidos e da sociedade.Entretanto, a união pode conduzir ao matrimonio ou casamento, quer seja reconhecidoou não religiosamente ou pelo Estado.O que caracteriza o casamento é, justamente, a união orientada para a constituição dafamília, implicando em costumes complexos e o estabelecimento de laços afetivos maisestreitos, quer dentro da monogamia ou da poligamia.Assim, o casamento ou a união é a base para a construção da família e seu principalelemento agregador, podendo comportar múltiplas soluções e/ou problemas que afetamtodos os seus membros.Família e escola.Existe, em quase todas as sociedades, uma tendência para que certos aspectos doadestramento das crianças sejam assumidos por agentes externos à família, tal como aescola.O grande problema é que o saber escolar, muitas vezes, distancia-se da realidade,impedindo a assimilação democrática do conhecimento, excluindo e limitando o acessoao saber.
    • A escola é uma instituição, como tal possui normas e padrões, impostos por aqueles quecontrolam o sistema educacional, dentro do âmbito do fordismo, acarretando emproblemas como a questão da “violência simbólica”, discutida por Bourdieu e Passeron.Portanto, embora a sociedade transfira, cada vez mais, responsabilidades da família paraa escola, cabe lembrar que somente a primeira constitui um grupo primário.A escola é um grupo secundário e nunca poderá substituir a família na educação dascrianças.Concluindo.A história da humanidade remonta aos seus antepassados mais remotos há 12 mil anosatrás, desde então um longo caminho foi percorrido até os nossos dias.Entretanto, a aceleração material e cultural humana só começou com a invenção daescrita, cerca de 4 ou 3 mil anos antes de Cristo, embora a evolução tecnológica sótenha assumido um ritmo mais rápido a partir do século XVIII e ainda mais desenfreadona segunda metade século XX.Entretanto, a despeito deste fato, o sentimento de família sempre foi o mesmo desde osprimórdios da origem da instituição, mas no século XXI passou a sofrer constantemodificação.O que remeteu o que antes era considerado papel da família para dentro da escola,gerando inúmeros problemas, já que instituições educacionais não estão preparadas paracumprir o que a sociedade erroneamente espera dos profissionais da educação.Seja qual for o problema, a resolução não está apenas no tratamento do educando, massim na orientação familiar, principalmente para que assuma suas responsabilidades.O vinculo dos sujeitos com a família é essencial para um desenvolvimento coerente.O problema do individuo pode ser, na realidade, um problema de sua família, podendo,inclusive, agravar situações em um efeito em cascata transposto para a sociedade.Por outro lado, trabalhar com a família, permite ao profissional da educação realizarverdadeiramente uma profilaxia, uma prevenção do agravamento de problemas jáexistentes.
    • Para solucionar as questões que diariamente se colocam aos educadores, dentro daescola, talvez devamos pensar em retomar alguns aspectos do ensino tradicional, sóassim será possível auxiliar o educando na passagem da heteronomia para a autonomia.Conceitos básicos da Sociologia: algumas considerações.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 12/03, 2011, p.05-08.Existem três conceitos básicos em sociologia: formas de organização social; cultura;estrutura e papéis sociais.Para entender várias discussões sociológicas é necessário dominar estes conceitos, poristo abordaremos aqui brevemente cada um deles.Formas de organização social.A unidade fundamental para a sociologia é o grupo social, um conjunto de pessoas queinteragem formando padrões, unidas em torno de interesses em comum ou aglutinadassegundo a identidade que tentam reproduzir.Os grupos sociais se dividem em primários e secundários.Grupos primários são aqueles em que os indivíduos possuem laços mais estreitos, maispróximos, propiciando maior intimidade e coesão, dentro dos quais os interessescomuns se estendem por longos prazos e, por vezes, são substituídos pela afetividade.Um bom exemplo de grupo primário é a família, onde se um membro modificar seusinteresses, nem por isto deixa de pertencer ao grupo.O interesse em comum que existe dentro da família pode ser simplesmente o bem estardo outro, quer seja consciente ou não.Grupos secundários são formados por indivíduos com interesses em comum que, depoisde satisfeitos, dentro de certo prazo, terminam com a dissolução do grupo.Colegas de faculdade exemplificam perfeitamente um grupo secundário, pois existe ointeresse em comum de concluir o curso, o que, uma vez realizado, dissolve o grupo,embora ele possa se tornar um ou vários grupos primários.Conforme os grupos crescem podem se tornar formais e informais, ou seja, com regras enormas explicitas ou implícitas.Um grupo pode se tornar uma organização, um aglomerado de pessoas unidas em tornode objetivos, formando uma combinação de esforços individuais em prol de propósitoscoletivos.
    • Neste sentido, assim como os grupos, as organizações podem ser voluntárias oucoercitivas.Grupos ou organizações voluntários são aqueles onde os membros se reúnemespontaneamente.Coercitivas são aqueles em que os membros são forçados a se reunirem, a estaremjuntos.Diferente de uma organização, uma instituição pode ser definida como um conjunto depessoas que, não tendo necessariamente objetivos coletivos, é unificado pelo conjuntode tradições que segue.A cultura e sua formação.A cultura pode ser definida como um conjunto de valores que une e confere identidade aum grupo, ditando parâmetros de conduta que unificam comportamentos e ações,fornecendo modelos que podem compor estereótipos.Estereótipos são modelos nos quais os indivíduos são encaixados conforme asaparências, nem sempre correspondendo a realidade.A dinâmica de formação e modificação da cultura leva em consideração influenciasinternas e externas, sendo integrado pela cultura ideal, a cultura real e a contracultura,além de subculturas.A cultura ideal ode ser definida como o conjunto de valores fixados pela elite,vinculado, portanto, com a cultura erudita, o saber cientifico e escolar.A cultura real corresponde aos valores fixados pelo senso comum ou cultura popular ede massa, respondendo pelos valores em voga na prática.Aqui cabe uma distinção, pois a cultura popular é aquela que nasce espontaneamente,enquanto a cultura de massa é fabricada pela mídia de grande circulação e, em geral,possui objetivos mercadológicos.As subculturas pertencem à cultura real, constituindo variações da culturaregionalizadas, que não contrariam, necessariamente, a cultura ideal, como por exemploa cultura nordestina ou gaucha, ambas pertencentes a cultura brasileira.
    • Em meio ao processo de constante modificação da cultura, alguns indivíduos que nãoconcordam com aquilo que é imposto pela cultura ideal e real, não conseguindo adequaros parâmetros oficiais, terminam optando por defender novas idéias.Estes indivíduos acabam criando movimentos de contracultura que, com o tempo,podem modificar a cultura.Estrutura e papeis sociais.Ao contrário do que poderíamos imaginar, nem sempre os indivíduos controlamtotalmente se comportamento.Para facilitar o convívio, a sociedade está organizada segundo uma hierarquia,compondo uma estrutura social.Cada individuo, conforme suas inclinações pessoais e sua formação social, tende aocupar um lugar na estrutura, exercendo um papel social especifico que fará com que secomporte conforme as expectativas do grupo, independente de sua vontade.O comportamento das pessoas envolve o que se espera delas ou aquilo que ela mesmaimagina que é esperado, determinando papéis sociais que conferem status.Por exemplo, um diretor de uma empresa jamais irá usar gírias em uma reunião dediretoria, pois considera que não atenderá as expectativas do grupo e diminuirá seustatus.Entretanto, quando alguém ocupa mais de uma posição ou está presente em mais deuma estrutura, desempenhando múltiplos papéis, podem surgir conflitos de papéis.A esposa, por exemplo, sendo ao mesmo tempo mãe, devendo desempenhar funçõesdistintas, pode confundir papéis.Tratando o marido como filho e criando uma tensão sexual com o filho, a esposa podedeixar os outros membros da família desorientados.Quando a mãe parece ter mais status para o marido que a esposa, a dita esposa podetentar compor a expectativa que pensa que o marido tem para com ela.Resultado, a esposa passa a tratar o marido como mãe, buscando o status que julga nãoter como esposa.Assim, o fator que faz com que as pessoas confundam papeis é o status, a busca peloreconhecimento dentro da estrutura social.Quando um papel é considerado pelo individuo como estando abaixo do respeito eadmiração almejado, o individuo tende a transferir seus desejos de reconhecimento paraoutra parte da estrutura ou outra estrutura onde pensa que terá maior probabilidade desucesso.
    • De qualquer forma, os conflitos de papeis desarticulam as relações e desest5ruturam osgrupos sociais, causando inúmeros problemas para o individuo e o conjunto dacoletividade.Concluindo.Esperamos que as breves descrições apresentadas neste artigo modesto possamcontribuir para o entendimento das relações sociais.Entretanto, sugerimos que os leitores aprofundem seus estudos pesquisando mais sobreo assunto e consultando a bibliografia indicada.Comte e a construção do método sociológico: o positivismo.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 12/03, 2011, p.01-05.Considerado o pai da sociologia, a motivação do pensamento do francês August Comte(1798-1857) repousa no estado de anarquia de desordem de sua época, caracterizadopela crescente urbanização, o imperialismo dos países industrializados e a luta declasses que estava desestruturando a pirâmide social.Em sua visão, as idéias religiosas haviam perdido sua força, desorganizando asociedade, culpa da revolução francesa e dos “doutores da guilhotina” com seu ideal deliberdade, igualdade e fraternidade.
    • Comte chamava os iluministas de “doutores da guilhotina” pejorativamente parademonstrar que tudo que a Revolução Francesa havia feito era cortar cabeças,desmerecendo suas idéias.Em sua opinião os iluministas tinham desestruturado as instituições sociais, base dofuncionamento ordenado da sociedade.Porém, suas opiniões não eram originais, bebiam em uma fonte: Saint-Simon.O verdadeiro pai da sociologia.As concepções de Comte que originaram a sociologia e o positivismo não eram novas,tinham sido herdadas de Henri de Saint-Simon (1760-1825), de quem ele havia sidosecretário particular até um desentendimento intelectual.Durkheim, por exemplo, como um dos fundadores do positivismo e o propagador eperpetuador da nova área no meio acadêmico e cientifico, considerava Saint-Simoncomo o verdadeiro pai do positivismo e da sociologia. Foi Saint-Simon que cunhou o termo filosofia negativapara designar o iluminismo, pois achava que os pensadores ilustrados tinham uma visãonegativa da sociedade, enxergando as instituições como uma ameaça a liberdadehumana.O termo positivismo foi, posteriormente, cunhado justamente para se opor a filosofianegativa, como afirmação das instituições como base da sociedade, tendo, portanto, umavisão positiva sobre a organização social.
    • Para Saint-Simon era justamente o contrário do que defendiam os iluministas, asinstituições, calcadas na tradição, que regulariam as relações e tornando possível a vidaem sociedade.Além disto, ele achava que a industrialização era a única forma de satisfazer ascrescentes necessidades humanas e constituía a única maneira de obter riqueza eprosperidade.O progresso industrial acabaria com os conflitos sociais e traria segurança para oshomens, ou seja, ordem.Neste sentido, o progresso do mundo acabaria com as diferenças e guerras.É claro que na época, inicio do século XIX, ele não levou em consideração a escassezde recursos naturais, o que torna impossível uma completa igualdade em termos deconsumo destes.Embora tenha admitido a possível existência de conflitos entre possuidores edespossuídos, mas achava que a ciência estabeleceria verdades que seriam aceitas portodos, o que iria diluir os conflitos.Para que a nova sociedade pudesse funcionar, Saint-Simon afirmava que serianecessário existir uma elite dirigente, formada por industriais, comerciantes, banqueirose cientistas; os novos senhores feudais, sendo os cientistas comparados com o clerofeudal.Comte e a sociologia.Na concepção de Comte, havia a necessidade de uma ciência que possibilitasseconhecer e estabelecer as leis imutáveis da vida social, “sem considerações críticas oudiscussões, permitindo prever e regular as ações”.Ele chamou a nova ciência de “física social”, separando a filosofia e a economia políticado conhecimento da realidade social.
    • A idéia era criar uma ciência semelhante à física que fosse aplicada ao estudo dasociedade.Assim, Comte criou a sociologia com a intenção prática de interferir no rumo dacivilização, alterando o funcionamento da sociedade.Inserindo-se na tradição conservadora dos chamados “profetas do passado”, grupocontrário as idéias iluministas, para fundamentar a sociologia como ciência; Comteelaborou uma metodologia.Esta pretendia fornecer uma visão otimista da sociedade, criando o positivismo.O positivismo de Comte.Embora exista controvérsia, Comte é considerado oficialmente o pai da sociologia e dopositivismo.Para se opor a “filosofia negativa” que negava a importância das instituições sociaiscomo reguladoras das inter-relações, em nome da liberdade; nasceu o positivismo.O pressuposto básico era a positividade, a crença na importância das instituições sociaiscomo reguladoras da ordem, à medida que criadoras de um conjunto de crenças comunsa todos os homens.Sem instituições como a religião, por exemplo, a sociedade entraria em um estado deanômia, ausência de normas, um estado de confusão em que as pessoas perderiam seusreferenciais e ficariam sem saber como e comportar.
    • A orientação básica do positivismo é a investigação da “física social”, através dosmesmos procedimentos das ciências naturais (física, química e biologia).A observação, a experimentação e a comparação deveriam ser utilizadas em conjuntocom ciências auxiliares como filosofia, história e estatística. Para o positivismo, a sociologia deveria se ocupar do estudo dos acontecimentosconstantes e repetitivos, a exemplo da física.Desvendando estes mecanismos, o cientista social poderia manipular o funcionamentoda sociedade para trazer ordem e progresso.Palavras que não por acaso estão na bandeira do Brasil, já que a República foiproclamada por militares no século XIX, os quais eram de orientação positivista.Em todo caso, colocando ordem na sociedade, segundo os positivistas, o progresso seriaalcançado, beneficiando a coletividade.Concluindo.Apesar de herdeiro das tendências conservadoras lideradas por Saint-Simon, Comte foitambém um critico desta concepção, pois achava um erro valorizar e tentar imitar oantigo sistema feudal.Dentro da sua visão, a ordem não poderia se sobrepor ao progresso, devendocaminharem juntos.Este o ponto de discórdia intelectual de Comte com Saint-SimonSimultaneamente, Comte achava que o principal erro dos iluministas não era se opor asinstituições, mas sim valorizar o progresso em detrimento da ordem.No entanto, para ele, a sociologia e o positivismo deveriam construir uma novasociedade, controlada por uma elite dirigente, cuja conseqüência natural, gradual esuave, seria a ordem e progresso.Spencer e o Darwinismo Social.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 28/03, 2011, p.01-09.Herbert Spencer (1820-1903) foi um filosofo e sociólogo inglês, responsável pela teoriado darwinismo social, considerado um seguidor de Comte e representante dopositivismo na Grã-Bretanha.
    • Acreditava que a evolução seria um principio universal, sempre operante.Muito conhecido na sua época, Spencer fez parte do circulo de amigos de CharlesDarwin, autor de A origem das espécies, obra publicada em 1859.Este último foi responsável pelo conceito de seleção natural e pela teoria da evolução apartir da lei do mais forte.Spencer seguiu esta linha de pensamento e tentou aplicar as idéias de Darwin aocontexto da vida do homem em sociedade, originando o dito darwinismo social.O qual influenciou o pensamento sociológico, o planejamento organizacional e osistema educacional.Influencias teóricas.Além do contato direto com Darwin, Spencer sofreu influência das idéias deeconomistas como John Stuart Mill, Adam Smith e Thomas Malthus. Para Mil, o sistema capitalista gera poder, este gera mais poder edinheiro, ao passo que as energias da humanidade são canalizadas para a luta porriquezas.Assim, dentro da ótica capitalista, as pessoas pensam prioritariamente em obter recursosmonetários, o qual confere poder e se multiplica com ele, fazendo do dinheiro e dopoder objetivos de vida.
    • Não significa que os indivíduos não tenham outras prioridades, mas sim que, para obteroutras metas, necessitam primeiro buscar dinheiro e poder.Para Smith, o governo deveria interferir o menos possível no desenvolvimento docapitalismo, pois a lei da oferta e da procura regula a economia. Conforme existe uma grande oferta de determinado produto, seupreço tende a cair; inversamente, caso a oferta seja pequena, seu preço sobe.Igualmente, sendo a demanda por um produto com pequena, seu valor cai; enquanto oaumento da procura faz os preços subirem.Portanto, a dinâmica do mercado auto-regula preços e salários, não sendo necessário àinterferência do Estado.Um conceito que não considera o bem estar social das pessoas, somente as necessidadesdo sistema capitalista de se perpetuar.Já para Malthus, as causas de todos os problemas da humanidade está na própria espéciehumana.O grande problema do mundo é o excesso de gente, o que faz os recursos naturais seremescassos e insuficientes para suprir a humanidade, forçando o sistema econômico aestratificar a sociedade.Não existindo recursos que possibilitem um alto consumo por parte de todahumanidade, pois eles se esgotariam rapidamente, o capitalismo divide as pessoas emclasses sociais.Uma elite dirigente, com numero de pessoas limitado, tem acesso a um alto padrão deconsumo, enquanto a maioria da população vive em condições precárias.
    • Neste sentido, guerras e epidemias seriam um mecanismo regulador da economia,fazendo diminuir a população, elevando os salários dos sobreviventes e o poder deconsumo em geral, girando a economia, sem o risco de inflação e incapacidadeindustrial e agrícola de suprir as necessidades da sociedade.As idéias de Spencer.Spencer aplicou o darwinismo ao contexto social, partindo do pressuposto que ouniverso evolui e que a evolução é progresso, considerando, a exemplo de Comte, aordem necessária para o progresso.Para ele, todas as transformações possuem um caráter comum, compondo uma lei que,uma vez desvendada, permite prever as futuras transformações, embora esta previsãoseja apenas parcial.Acontece que toda causa produziria mais de um efeito, portanto, mais de umamodificação, constituindo novas causas e novos efeitos, multiplicados indefinidamente.Dentro deste contexto, Spencer aplicou a lei do mais forte às estruturas sociais.Chegou à conclusão que a seleção natural se aplicaria a sociedade quando pensada emtermos de cooperação entre indivíduos em prol da supremacia de um grupo.Assim, não se trata somente do individuo mais forte prosperar, mas do grupo maiscoeso e forte tornar-se hegemônico, formando a elite dirigente de uma civilização.Spencer explicitou estas concepções em várias obras, dentre as quais:Princípios de sociologia (1879).
    • Lei e causa do progresso (1889).Estatística social.Sistemas de filosofia sintética.Além destes livros, uma obra publicada em 1861, mas que ganhou destaque somente em1927, após a morte do autor, influenciou decisivamente a educação britânica e mundial.Trata-se de Educação intelectual, moral e física, onde Spencer defendeu a idéia de queera necessário preparar os indivíduos para serem uteis a sociedade, ao mesmo tempo,possibilitando uma formação adequada a sua sobrevivência no âmbito do sistemacapitalista.O que implicaria em desenvolver conhecimentos técnicos e científicos junto com umaformação moral doutrinadora do patriotismo, além de condições físicas saudáveis paraos futuros operários e soldados da nação.A partir de onde surgiram duas disciplinas ainda não integradas aos currículos escolares:Educação Moral e Cívica; e Educação Física.A influência do darwinismo social no Brasil.O darwinismo social influenciou fortemente os intelectuais brasileiros no século XIX einicio do XX.As idéias de Spencer foram incorporadas na obra Os sertões de Euclides da Cunha e nosestudos do médico legista Nina Rodrigues, a reboque, influenciando a historiografiabrasileira que analisou a Guerra da Canudos.O jornalista Euclides da Cunha, representando o jornal O Estado de São Paulo,participou como correspondente de guerra da campanha do exército brasileiro, em 1897,contra Canudos.Observou tudo e registrou suas impressões em um livro que depois se tornou umclássico da literatura.
    • Canudos era o nome de uma comunidade que foi originada a partir de um movimentopopular, liderado por um beato chamado Antônio Conselheiro, que durou de 1893 a1897.Conselheiro andou pelo sertão da Bahia, pregando contra a recém proclamadaRepública.Para ele o anticristo, defendendo que os sertanejos deixassem de pagar os exorbitantesimpostos e não aceitassem a autoridade do governo federal, inclusive considerando umpecado o casamento civil.A verdadeira autoridade residiria somente na igreja e na monarquia.O beato obteve um sucesso tão grande em sua pregação que chegou a ter 25.000seguidores, foi quando fundou o arraial do Bom Jesus de Belo Monte, nos arredores dafazenda Canudos.O povoado cresceu rapidamente, praticando os preceitos do cristianismo primitivo,dividindo tudo igualmente entre seus moradores e formando uma guarda católica paraproteger seus moradores.Muitos jagunços das fazendas vizinhas; os quais faziam parte da chamada guardanacional, braço armado dos latifundiários e, teoricamente, representantes do exércitobrasileiro na região; abandonaram seus coronéis para se juntar a Antônio Conselheiro.Obviamente, o movimento irritou os fazendeiros da Bahia e repercutiu no Rio deJaneiro, então capital do Brasil.Os sertanejos de Canudos foram considerados rebeldes monarquistas que lutavamcontra a República, embora tão somente estivessem se colocando contra as mazelas docoronelismo e buscando apenas uma vida mais digna.
    • O governo federal enviou quatro expedições militares contra Canudos.A primeira composta por efetivos da policia locais, foi facilmente derrotada pela guardacatólica de Conselheiro.A segunda, comandada pelo major Febrônio de Brito, agregando soldados das milíciaslocais, também foi derrotada, tendo seus equipamentos, armas e munições tomadaspelos sertanejos.Melhor armados, a comunidade de Canudos conseguiu resistir à terceira expedição,liderada pelo coronel Antônio Moreira Cesar, considerado um herói na repressão aomovimento separatista Farroupilha no Rio Grande do Sul, apelidado “o corta cabeças”,pois tinha fama de mandar degolar os inimigos capturados.A tropa federal, vinda diretamente do Rio de Janeiro, contando com 1.300 soldados,abusou do excesso de confiança e avançou, após longa marcha, sem analisar atopografia do terreno.Foi derrotada pelos habitantes da Canudos, ajudando a deixá-los fortemente armados.A quarta expedição foi formada quando as derrotas repercutiram fortemente na Capital,sendo composta por 4.000 soldados de infantaria e artilharia pesada, comandados pelogeneral Artur Oscar Guimarães.
    • Ocasião em que Euclides da Cunha se juntou as tropas como correspondente de guerra.Após denuncias de corrupção, desvio de verbas e uma crise de abastecimento das tropasfederais, os habitantes de Canudos foram derrotados depois de sete meses de combates.Antônio Conselheiro já estava morto e enterrado, em decorrência de uma crise dedisenteria, quando, em 5 de outubro de 1897, o arraial se rendeu sob promessa de que asua população não sofreria represarias.O cadáver de Conselheiro foi exumado e sua cabeça decepada com uma facada, a qualfoi enviada para analise de Nina Rodrigues no Rio de Janeiro.Os sobreviventes do sexo masculino foram sumariamente executados, mulheres ecriança, feitos prisioneiros, tiveram que marchar a pé até o Rio de Janeiro, onde foramliderados e entregues a própria sorte.O episódio impressionou fortemente Euclides da Cunha, que sob influencia das idéiasde Spencer, passou a conceber a história como uma área do conhecimento linear, semrupturas, voltada para um futuro industrial que iria acabar com as características ruraisdo Brasil.Baseado em suas observações sobre Canudos, Euclides da Cunha assimilou osensinamentos de Spencer, remetendo a análise da realidade brasileira em Os sertões.Para ele, o episódio de Canudos representava o evolucionismo darwiniano, o sertanejoseria um aprimoramento da raça brasileira, em oposição ao negro e ao índio do litoral.
    • As três primeiras expedições a Canudos teriam fracassado porque eram compostas,primordialmente, por descendentes de negros e indígenas, enquanto os mais fortes, ossertanejos teriam triunfado.O sertanejo seria forte porque é miscigenado, a miscigenação seria para Euclides daCunha a força da nação.A mistura de raças deveria constituir uma prioridade e um projeto nacional que levaria oBrasil a alcançar a sonhada ordem e progresso positivista e republicana. Uma opinião totalmente oposta a de Nina Rodrigues, outrorepresentante do darwinismo social no Brasil.O médico legista que analisou o crânio de Antônio Conselheiro, publicou aobra Mestiçagem, desgenescência e crime, inclusive citando o caso de Canudos comoexemplo.Professor de Antropologia e psiquiatra, ele afirmava que a presença de negros emestiços era a causa do atraso brasileiro, sendo a elite constituída naturalmente pelosbrancos de origem ariana.Em termos civilizacionais, os brasileiros seriam fracos, não tendo coesão internaenquanto grupo, compondo uma sociedade patológica, doente, daí o predomíniohegemônico de outros países guiando o Brasil.Com base nesta concepção, nasceu no final do século XIX uma tendência que defendiao branqueamento da população brasileira e a marginalização de negros e mestiços.Um tipo de pensamento que causou um grande estrago na mentalidade brasileira, queencontra absurdamente ainda hoje seguidores, sobrepondo-se a proposta de Euclides daCunha, depois retomada por Gilberto Freire na década de 1930, com a publicaçãodeCasa Grande e Senzala.Nina Rodrigues revestiu teorias racistas de uma pseudo cientificidade, vinculando odarwinismo social com o conceito de raça, um erro teórico grosseiro, já que a coesãodos grupos não está relacionada nem sequer com etnia.A coesão grupal, na acepção pensada por Spencer envolve aspectos culturais e nãoraciais.
    • Aliás, diga-se de passagem, o conceito de raça é atualmente considerado ultrapassado,pois estudos recentes indicaram que todos descendemos de uma Eva genética que viveuno leste da África há 150.000 anos.Trata-se uma mulher negra da qual todos os seres humanos descendem, não quehouvesse apenas esta única mulher sobre a terra, mas em virtude de seus descendentesterem sido aqueles que prosperaram e sobreviveram.Educação e darwinismo social.Aplicadas a educação, as idéias de Spencer estão vinculadas como uma critica ao ensinoclássico.Pelo prisma do darwinismo social, seria necessário introduzir nos currículos escolaresconhecimentos uteis, entendidos como voltados à formação dos homens de negócios e aorganização de uma vida dita civilizada.Para Spencer não seria possível estudar tudo que a humanidade já desenvolveu, emtermos de conhecimento, tornando-se necessário estabelecer os conteúdos mais valiosose uteis.Dentre estes estariam incluídas as verdades sobre a saúde humana, a biologia, oscostumes que possibilitassem uma vida regrada, a psicologia e as ciências exatas.A idéia era formar o cidadão, o que fazia com que a sociologia fosse incluída comoconhecimento útil.As artes e humanidades, tal como a literatura, deveriam ser dispensadas em favor do queSpencer considerava a verdadeira ciência.Entretanto, em concordância com a tendência dominante entre os ingleses desde oséculo XVII, o empirismo, junto com o ensino voltado a construção de conclusõesindividuais via observação e experiência, seria necessário disciplinar e moralizar.Como positivista, Spencer acreditava que os indivíduos deveriam ser doutrinados pelaeducação.
    • A escola deveria preparar as pessoas para enfrentar a difícil concorrência com o outro,ao mesmo tempo, ensinando que só a cooperação garante a sobrevivência do grupo e,assim, dos indivíduos inseridos em grupos.O que ele chamou de organicismo, um conceito bem próximo ao desenvolvido porDurkheim, segundo o qual o funcionamento da sociedade se assemelha a um organismovivo.Um conceito que insere Spencer entre os funcionalistas.Concluindo.A semelhança de Comte e Durkheim, Spencer queria preservar a sociedade burguesa daqual fazia parte, conservando a reprodução do sistema capitalista através da educação, oque no seu extremo acabou originando os regimes totalitariosfacistas, dentre os quais onazismo.Porém, diferente de Comte, era contra o oferecimento de uma educação publica egratuita custeada pelo Estado.O darwinismo social ditava que o papel do Estado deveria ser limitado, tal comodefendia Adam Smith, cabendo a lei da oferta e da procura regular a sociedade, cabendoaos socialmente mais aptos procurarem oportunidades de ensino.Aos mais fracos caberia perecer, uma idéia malthusiana.
    • Esta concepção reafirmava a crença nas instituições sociais como reguladoras da ordem,mas revela uma descrença no potencial humano.Para Spencer, o problema da humanidade estava na natureza defeituosa dos indivíduos,que não conseguindo se adaptar, corrompe as tradições.Para resolver esta natureza defeituosa, inerente a todo ser humano independente da etniaou de fatores culturais, seria necessário moralizar através das instituições sociais.No entanto, embora a educação fosse uma instituição com papel importante namoralização humana, devido aos custos, não era a única escolha.Outras instituições como o poder judiciário, a policia e legislação, em concordância coma teoria funcional, deveriam auxiliar na moralização.Uma idéia que chegou ao Brasil pelas mãos de Rui Barbosa, para quem, não obstante, aeducação deveria ser o principal mecanismo de disciplinar.O mesmo jurista que, quando por ocasião da abolição da escravatura, mandou queimartodos os certificados de propriedade de escravos, evitando que, futuramente, processosfossem movidos pedindo reparação dos danos aos escravizados e seus descendentes.Ele pensou o sistema educacional brasileiro enquanto formador de indivíduos aptos parao trabalho, com hábitos de consumo e poupança.Por isto introduziu nos currículos a educação moral e cívica, destinada a formar umespírito patriótico e, a reboque, maior coesão interna.Os estudos de Durkheim.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 21/03, 2011, p.01-07.Apesar de Comte ser considerado o pai da sociologia, a participação de Émile Durkheim(1858-1917) não foi menor.
    • Ele foi responsável pela introdução da área nos currículos das universidades, quando setornou de fato uma disciplina reconhecida como cientifica.Escreveu várias obras e pesquisou temas diversos, incluindo o estudo sobre o suicídio,dentre as quais podemos destacar:Da divisão social do trabalho.As regras do método sociológico.O suicídio.Formas elementares da vida religiosa.Educação e Sociologia.Os fatos sociais.Na obra As regras do método sociológico, Durkheim definiu o objeto de estudo dasociologia como os fatos sociais.Um fato social, que não deve ser confundido com um padrão social, seria umacontecimento ou ação relevante para o funcionamento da sociedade.O fato social seria determinado pela coerção social, fazendo os indivíduos seconformarem com as regras impostas pela sociedade, independente de sua vontade.
    • O grau de coerção dos fatos sociaisseria determinado pelas sanções, os impedimentos que o individuo está sujeito quandotenta se rebelar contra a coerção.Neste sentido, as sanções seriam legais ou espontâneas.Sanções legais são aquelas impostas pela sociedade através das leis, colocandopenalidades institucionalizadas aos infratores.Quando um indivíduo comete um ato considerado criminoso, ele nada mais faz queinfringir uma regra imposta pela sociedade e transformada em lei.Sanções espontâneas são impostas pela estrutura do grupo ao qual o individuo pertenceou pela sociedade como um todo, isolando o individuo e conduzindo ao suicídio no seuextremo.Neste caso, não precisam existir nem ao menos regras explicitas de convivência, bastaque fique subentendido, por exemplo, que para pertencer a determinado grupo, oindividuo deve se vestir de determinada maneira.O simples fato de se vestir diferente ou não falar as mesmas gírias gera o isolamento doinfrator.Portanto, o fato social é o registro do comportamento que é imposto pela coletividade,podendo ou não constituir um padrão.Embora, com o tempo, um fato social repetido constantemente conduza a formação deum padrão social.Dentro deste contexto, a educação age como elemento de coerção, tanto na varianteformal como informal, internalizando e transformando regras e hábitos, interferindo naformação de padrões sociais.
    • A crítica ao positivismo.Apesar de Durkheim, nos seus estudos iniciais, seja identificado como positivista; apósidentificar os fatos sociais, procurou definir o método de conhecimento da sociologia.Ao fazê-lo estabeleceu uma critica ao positivismo, mantendo, contudo, característicasmuito próximas a metodologia desenvolvida por Comte.Para Durkheim, a explicação cientifica exige que o pesquisador mantenha distância eneutralidade em relação aos fatos, deixando de lado a afetividade e os valoresparticulares.O sociólogo deveria abraçar a objetividade em sua análise.Características que, na concepção de Durkheim, o positivismo não tinha, já que atendência defendia um envolvimento do pesquisador com seu objeto de estudo paramanipular os padrões sociais.Entretanto, semelhante ao positivismo, Durkheim reafirmou a idéia de que ametodologia sociológica deveria englobar a medição, observação e comparação.A sociologia deveria identificar os acontecimentos gerais e repetitivos relevantes para oentendimento da sociedade, ou seja, os fatos sociais.A sociedade como organismo vivo.Semelhante a Comte, Durkheim achava que a finalidade da sociologia seria encontrarsoluções para os problemas verificados na vida social.Para ele, a sociedade funcionaria como um organismo vivo, apresentando estadosnormais (saudáveis) e patológicos (doentios).
    • Diferente do positivismo, Durkheim não pensava em imporordem à sociedade, já que a organização estrutural da sociedade seria natural,funcionando ordenadamente por si só.É neste sentido que a sociedade funciona como um organismo vivo, onde, semelhanteaos órgãos, cada função social depende das outras para existir.O que faz a “consciência individual” dar lugar a “consciência coletiva” que, por sua vez,gera os padrões sociais.Esta concepção originou a Teoria Funcional, segundo a qual, funcionando a sociedadecomo uma máquina, as engrenagens defeituosas devem ser excluídas da sociedade,sendo substituídas por novas peças.Em outras palavras, em concordância com o sistema capitalista, o funcionalismo afirmaque os indivíduos que não se encaixam devem ser excluídos da sociedade, para istoexiste o sistema judiciário e penitenciário.Dentro deste contexto, Durkheim pensou em estágios de evolução social, definindo associedades como inferiores ou superiores.Tendo evoluído a partir da horda, a forma mais simples e igualitária de organização, asociedade pré-capitalista teria sido organizada através da solidariedade mecânica.A dita solidariedade mecânica é constituída pela coerção exercida pela família, religiãoe tradição dos costumes, formando a consciência coletiva.O individuo seria compelido a se comportar em concordância com que o grupo esperadele simplesmente pela pressão exercida por aqueles próximos, evidenciando umcomportamento involuntário e automático.
    • A partir do desenvolvimento do capitalismo, a solidariedade mecânica teria evoluídopara a solidariedade orgânica.Portanto, uma divisão do trabalho que possibilita o funcionamento da sociedade asemelhança de um organismo vivo.Através da solidariedade orgânica, interesses individuais seriam suprimidos em favordas necessidades coletivas, pois, para realizar seus interesses, ele teria que ceder àsnecessidades de outros.Haveria na solidariedade orgânica maior autonomia do que na mecânica, mas a própriaestrutura social reduziria a consciência individual, fazendo o sujeito adotar valores dedeterminado grupo, anulando sua individualidade.Para Durkheim, os conflitos sociais seriam transitórios e poderiam ser resolvidos apartir do momento em que os indivíduos aceitassem ocupar sua função e seu lugar nasociedade, o que seria imposto pela solidariedade orgânica.O estudo do suicídio.Durkheim se interessou pelo tema por enxergar nas altas taxas de suicídio, registradasna Europa no final do século XIX, um amplo campo que poderia fornecer material paraconsolidar a sociologia como ciência.O culto a morte chegou a ser tão difundido no século XIX, glorificado na literatura peloromantismo gótico, que o suicídio ficou conhecido como mal do século.
    • Estudando a elevação da taxa de suicídio em determinados anos, Durkheim observouque o principal fator que conduzia ao ato era a solidariedade social.A solidariedade pode ser caracterizada como um sentimento de simpatia e identificação.Enquanto, por um lado, o fracasso individual conduz o sujeito a sentir que falhou com ogrupo, quando sua vida perde a razão de ser; por outro, níveis de interação social muitoelevados também conduzem ao suicídio.Neste ultimo caso, estes níveis de interação originam o chamado suicídio altruísta,como é o caso dos pilotos japoneses kamikazes na segunda guerra mundial, fazendo avida do individuo, igualmente, perder sentido frente aos interesses da sociedade.O altruísmo se refere ao sentimento que um individuo dá ou outro, importando-se maiscom a coletividade ou com os outros do que com ele próprio, gerando atosdesinteressados de beneficio a sociedade.No entanto, segundo Durkheim, o caso mais comum de suicídio é aquele em que osujeito não sente corresponder aquilo que o grupo espera dele, refletindo em umasensação de exclusão social.
    • Ao mesmo tempo, o suicídio poderia ser motivado pelo fato do sujeito sentir que ogrupo espera seu sacrifício, neste caso a exclusão aconteceria se o suicídio não fosseefetivado, a morte é que matéria o vinculo.É o caso dos homens bomba.Assim, tanto uma ausência de integração quanto uma integração intensa poderiam geraro suicídio.Os estudos de Durkheim inspiraram outros a continuarem o seu trabalho em torno dosuicídio.Viktor Frankl, por exemplo, aprofundou a pesquisa, dando origem a logoterapia,segundo a qual somente o sentimento de que outros dependem de dado individuo podeimpedir tendências suicidas.A palavra logoterapia, a partir do grego, significa terapia do mundo.Um termo em concordância com o método de Frankl para testar se seu paciente estavacurado.Ele perguntava ao paciente o porquê ele se considerava curado, caso a resposta fosse deencontro a qualquer outra que não a relação de dependência e vinculo com o mundo,com outros indivíduos, o argüido não era liberado do tratamento.Concluindo.Em seus estudos, Durkheim termina admitindo que, embora a ordem seja natural, asrápidas mudanças provocadas pelo sistema capitalista, acabam gerando um estado deanomia, a ausência de norma.
    • Os indivíduos ficam desorientados frente esta característica da vida moderna.Pensando na questão, afirmou que seria necessário estabelecer um sistema educacionalque incentivasse a noção de disciplina, dever, respeito as leis e hierarquia.Somente assim seria possível ajudar os indivíduos a se inserirem na sociedade,estruturando a coletividade a partir da exclusão dos elementos considerados doentessocialmente.Porém, valorizando o funcionalismo, Durkheim esqueceu de avaliar o papel dosconflitos no interior da sociedade, também necessários para sua evolução, uma analiseque seria iniciada por KarlA teoria técnico-funcional da educação e os estudos deAlthusser.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 14/05, 2011, p.01-05.Quando pensamos a educação pelo prisma da sociologia, duas tendências de analisefornecem importante contribuição: a teoria técnico-funcional e os estudos de Althusser.São visões distintas que se complementam, pois enquanto uma se encaixa no paradigmado consenso, a outra está vinculada ao paradigma do conflito e a tendência marxista.
    • A teoria técnico-funcional da educação é um desdobramento da teoria funcional deDurkheim, estando dentro, portanto, do paradigma do consenso.Já os estudos de Althusser pertencem a um conjunto teórico conhecido comoneomarxismo, ambientado pelo paradigma do conflito.Ambos estabelecem criticas ao sistema educacional formalizado, explicando muitos dosproblemas registrados nas escolas.A teoria técnico-funcional.O conjunto teórico técnico-funcional poderia ser definido como uma tendência queenxerga no desenvolvimento técnico um fator que altera a organização social,remetendo ao conceito funcionalista de sociedade funcionando como organismo vivo.Portanto, a sociedade seria semelhante a um organismo vivo, com papéis sociais bemdefinidos e necessários para o bom funcionamento da coletividade, porém, as estruturassociais seriam definidas pelos avanças técnicos subordinados a educação.A título de exemplo, grosso modo, uma função social relacionada a uma profissão,como operador de maquinas, poderia ser eliminada por uma maquina automática quenão necessitasse de ninguém para operá-la.Porém, neste caso, poderia criar outra função associada àquele que faria a manutençãoda dita maquina ou que detém o conhecimento para produzi-la.No âmbito da teoria técnico-funcional da educação, do funcionalismo e do paradigmado consenso, Clark (1962) e Kerr (1960) chegaram à conclusão que a importância daeducação cresce na mesma medida que o conhecimento se expande e fica maiscomplexo.A evolução tecnológica modifica o mercado de trabalho, exigindo da mão de obra maiorqualificação educacional.Para eles, a industrialização constrói sociedades democráticas e abertas, reguladas pelaeducação, meio efetivo de seleção e mobilidade social, baseado no mérito e status.Segundo Collins (1971), as mudanças tecnológicas exigem mais habilidades para otrabalho, gerando maior demanda por educação, construindo sociedades baseadas nomérito.Entretanto, ele salientou que a educação não aumenta necessariamente a produtividadeno mundo do trabalho, nem garante a competência.
    • Outros fatores interferem no sucesso profissional, tal como o grupo étnico, o statussocioeconômico, a influência da família ou a atitude.Neste sentido, segundo Collins, a educação termina funcionando como critério deseleção, mas não fornece apoio real ao sucesso individual baseado no mérito.Em outras palavras, o individuo precisa atingir determinado nível educacional paraingressar no mercado de trabalho, mas o fato de possuir o diploma ou mesmo oconhecimento não garante seu sucesso profissional. Contrariando de certa forma a opinião de Collins, Blau e Duncan(1967), consideram o sucesso como sendo fortemente influenciado pelas origensfamiliares.No entanto, este fator não seria inteiramente responsável pelo sucesso profissional, poisdependeria, além da educação ligada ao âmbito escolar e familiar, também daexperiência.Um indivíduo sem acesso a educação escolarizada, oriundo de uma família humilde,buscando se aprimorar empiricamente, poderia atingir um alto grau de sucesso nomundo do trabalho.É o caso de autodidatas como o empresário Silvio Santos ou o ex-vice-presidente daRepública José de Alencar.Porém, estudando as origens familiares de profissionais bem sucedidos, Karabel eHalsey (1978) não encontraram correlação entre sucesso e influencia da família,estabelecendo uma critica as afirmações de Collins, Blau e Duncan.Para Karabel e Halsey, a partir de um estudo tendo como objeto soldados enviados aguerra do Vietnã, a escola seria essencial para conferir mérito profissional, tornando osindivíduos com maior grau de escolarização, melhor vistos pela sociedade epredispostos a serem reconhecidos como bem sucedidos na vida.
    • Hurn (1978) reexaminou a questão e chegou a uma conclusão diferente.Para ele, apesar da origem familiar não garantir o sucesso, a escola também não garantemobilidade social, já que reproduz o nível de status do qual o individuo é originário.Quando um indivíduo tem acesso a determinados níveis educacionais, ele só o temgraças a sua origem social.Por outro lado, Folger e Nam (1964), comprovaram que, embora a escolaridade nãogaranta o sucesso profissional, garante maiores salários, comparativamente quandoexiste ausência de escolarização.Os estudos de Althusser.Louis Althusser (1918-1990), filosofo francês, uniu o marxismo com o estruturalismo,chegando a ser considerado um dos maiores representantes desta ultima tendência aolado de Foucault e Lacan.O autor pertence ao conjunto teórico conhecido como neomarximo, fazendo uso dadialética e do materialismo histórico, juntamente com outras bases teóricas.Acabando por constituir um ecletismo que, muitas vezes, ao invés de rejeitar ocapitalismo, parece querer aprimorá-lo.Em todo caso, Althusser foi membro do Partido Comunista francês, filiado em 1948,além de professor da ÉcoleNormaleSupérieure.Em 1980, ele teve um surto psicótico e estrangulou a esposa, não sendo condenado peloassassinato.A justiça o considerou inimputável, não responsável pelo ato em virtude do surto.Apesar de passar a não ser bem visto pelos colegas acadêmicos, cinco anos depoisescreveu a obra“L´avenir dure longtemps”, onde refletiu sobre o fato e procuroujustificar o ato.Como Althusser faz largo uso do estruturalismo, antes de prosseguir é interessanteexplicar a tendência.
    • O termo estruturalismo surgiu no curso de lingüística geral, ministrado pelo francêsFerdinand Saussure, em 1916.Conceitualmente pode ser definido como um método de estudos que propõem analisarsistemas, portanto, estruturas, como base da língua e da cultura.A cultura e a língua seriam definidas segundo um conjunto de significadoscontextualizados em um espaço e tempo, influenciando a estrutura sócio-cultural epadronizando comportamentos.Dentro deste contexto, a preocupação central de Althusser é tentar entender a estruturado sistema capitalista.Mais especificamente, tenta entender como as condições de produção, no âmbitocapitalista, conseguem se reproduzir, já que o sistema seria injusto e prejudicial àmaioria.Pensando na questão, o autor chegou à conclusão que a dinâmica de trabalho,assegurada pelo salário, seria o principal fator a reproduzir o sistema, comprando alealdade do individuo para com a ideologia capitalista.Para sobreviver, o individuo precisa de capital, sendo necessário abrir mão de suasconvicções pessoais para conseguir seu salário, essencial a sobrevivência no mundocapitalista.Superestrutura, Infraestrutura e Aparelhos de Estado.Para garantir a subordinação do individuo ao sistema capitalista, segundo Althusser,existiria uma relação recíproca entre superestrutura e infraestrutura.A superestrutura constitui o conjunto de estruturas ou instituições e sua inter-relação edependência.Onde, por exemplo, o judiciário depende da polícia e ambos do sistema carcerário paraefetivar suas funções.A infraestrutura compõe as condições materiais, as instituições em si, que garantem ofuncionamento da sociedade.O Estado, como parte da superestrutura faria uso de infraestruturas especificas paraexercer controle sobre a massa, usando os seguintes elementos:1. Aparelhos de Estado, composto pelo gerenciamento dos demais parelhos, tal comogoverno, administração publica, etc.2. Aparelhos Ideológicos de Estado, os meios que são usados para exercer controleideológico, vender ou impor idéias, através de instituições como igreja, escolas,sindicatos, meios de comunicação e até livros didáticos; mascarando a realidade eimpondo a vontade das elites.
    • 3. Aparelhos Repressivos de Estado, instituições que exercem domínio por meio daviolência, tal como policia, tribunais, prisões, forças armadas; segregando aqueles quenão aceitam as idéias impostas pelas elites.Pensando nestes três elementos, Althusser defendeu a tese de que o mais eficiente eutilizado pelas elites dominantes é o conjunto de Aparelhos Ideológicos, do qual aescola faz parte.Embora no período pré-capitalista a igreja tenha sido de fundamental importância paraexercer controle sobre a massa, a evolução do capitalismo tornou a escola uminstrumento de reprodução do sistema.A função da escola seria assegurar à existência e sobrevivência do capitalismo,condicionando os indivíduos a submissão, beneficiando uma minoria.Daí o sistema ter criado mecanismo que exigem a escolarização e que torna a educaçãoformalizada obrigatória. O controle dos Aparelhos de Estado pela elite terminagarantindo que o grupo controle também os Aparelhos Ideológicos e Repressivos,criando uma harmonia entre ambos.Diante deste cenário, Althusser não conseguiu enxergar na escola uma via demodificação das infraestruturas e da superestrutura.Chegou até mesmo a negar a possibilidade de mudança, sem, entretanto, apontar umasaída para o problema.Um ponto de seu trabalho visto pelos críticos como uma grande debilidade.Além disto, apesar de sua postura anticapitalista, sendo Althusser considerado poralguns como um marxista e não um neomarxista, devido a sua vinculação com oestruturalismo, ele foi acusado de idealista.Outro marxista, Caio Prado Jr., por exemplo, afirmou que Althusser ficava apenasteorizando de forma subjetiva, que suas teorias só eram aplicáveis no mundo das idéiase não serviam para nada.Destarte, hoje, as idéias de Althusser são essenciais para entender a escola, servindo desuporte a inúmeras outras teorias.Concluindo.
    • Enquanto a teoria técnico-funcional da educação discutiu o mérito da escola no sucessodos indivíduos dentro do sistema capitalista.Althusser tentou desmontar a estrutura do sistema capitalista, demonstrando como aeducação está a serviço da reprodução social, mantendo a ordem estabelecida.Contrapondo as duas tendências, podemos observar que nem sempre a escola garantepossibilidades de mobilidade social, já que toda sua estrutura é pensada para ordenar asociedade.Porém, a questão é mais complexa, o que fez outros autores a retomarem a discussão, talcomo Bourdieu, Passeron, Bowles e Gintis.Uma coisa é certa, o acesso a educação formalizada de fato não garante o sucessoindividual em uma sociedade consumista, sendo a própria escola um produto a serconsumido.No entanto, sem acesso a educação de qualidade, as pessoas têm sua potencialidade dedesenvolvimento diminuída.Ruim com a escola, pior ainda sem ela.A questão do poder disciplinar em Foucault.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 17/05, 2011, p.01-06.O presente trabalho pretende fazer uma breve análise sobre a teoria do poder disciplinarpresente no livro “Vigiar e Punir” de Michel Foucault.O filósofo francês nos trás de forma polêmica e inovadora o nascimento de uma novaforma de poder coercitivo que fora o poder disciplinar que surgiu no Ocidente no séculoXVIII.De acordo com a teoria de Foucault, esta forma de poder nasce a partir de uma novaconcepção da sociedade com a queda do chamado poder soberano predominante nosregimes absolutistas da Europa.
    • A nova sociedade, filha das revoluções liberais, governada pela ideologia burguesa, vê opoder disciplinar como a forma mais cabível e eficaz de garantir a ordem, substituindoos suplícios e espetáculos de execução pública.A teoria de Foucault sobre o poder.A proposta filosófica de Michel Foucault é com certeza revolucionária e original, tendocomo objeto de estudo o poder e suas formas de manifestação.Este filósofo de nosso tempo concebe o poder não de maneira vertical ou mesmomaniqueísta em uma dialética entre “opressores” ou aqueles que exercem o poder e“oprimidos” aqueles que sofrem com a coerção do mesmo.A polêmica teoria sobre o poder proposta por Foucault torna-se original, pois para ofilósofo, não existe uma teoria geral ou mesmo axiomática do poder, suas análises não oconsideram a realidade com característica universal.De acordo com Roberto Machado, para Foucault não existe algo unitário ou global quechamamos de poder, mas sim, formas díspares, heterogêneas em constantetransformação, o poder é uma prática social e, como tal, constituída historicamente,logo, as práticas ou manifestações de poder variam em cada época ou sociedade.Para Foucalt toda teoria é provisória, acidental e dependente do estado dedesenvolvimento da pesquisa, aceitando seus limites.Poderíamos entender que as teorias propostas anteriormente sobre o exercício do podernão são falsas ou errôneas, mas deram conta de explicar a sociedade de seu tempo.O próprio filósofo aceita que suas teorias também são provisórias e possíveis de seremrefutadas ou mesmo derrubadas.Segundo Foucault, o poder não emana unicamente do sujeito, mas de uma rede derelações de poder que formam o sujeito, dentre outros elementos, tal como o discurso, aarquitetura ou mesmo a própria arte.O poder é concebido como uma rede, não nasce por si só, mas de relações sociais.Outro aspecto inovador da teoria de Foucault é observar este mesmo poder como algomuitas vezes positivo, inerente a natureza humana, manifestado em pequenas coisas,através de pequenos dispositivos.Em seu livro “Vigiar e Punir”, que trata sobre o nascimento da prisão e outrasinstituições disciplinares, o filósofo discorre de forma minuciosa e instigante sobre aquestão do poder disciplinar.Na terceira parte de sua obra, Foucault explica que a partir dos séculos XVII e XVIII opoder foi exercido através de dispositivos disciplinares, o Estado ou mesmo a sociedadese utilizou do corpo, da vigilância e do adestramento para garantir a obediência edisciplinar os indivíduos.
    • O desaparecimento dos suplícios e a disciplina sobre o corpo.Foucault analisa e discute uma profunda metamorfose quanto à forma de punição econdenação dos presos e criminosos na Europa.Anteriormente, o espetáculo de execução publica de condenados a morte era utilizadocomo instrumentos disciplinar.A execução em praça pública, desde a Idade Média, com os Atos de Fé da Inquisição,gerava nos expectadores não somente o terror, mas também o medo de cometer algumtipo de crime contra a fé.Tais formas de punição estão estreitamente ligadas ao chamado poder de soberania queconsiste no exercício do poder de um governante sobre um território.Modelo comum aos déspotas e monarcas da Europa entre os séculos XV a XVIII.O poder era, portanto, exercido e representado através dos suplícios, da força e daviolência.Aos poucos, esta forma de condenação desapareceu cedendo espaço a uma nova formade punição.Uma nova concepção filosófica, a partir do iluminismo e das revoluções liberais, bemcomo as novas teorias sobre o direito, fizeram a morte em público começar despertarterror e repúdio na população.O que levou a novas formas de condenação, o espetáculo da execução passou a sercondenado pela grande parte da sociedade.O novo modelo disciplinar de punição do criminoso consistia em não tocar ouaproximar-se do corpo do individuo.Obviamente, algumas práticas ainda persistiram como o uso do chicote ou do cassetete.A condenação dos indivíduos passou a se dar de forma mais velada e sutil.A violência não foi assumida como carro chefe da justiça, porém utilizada em últimocaso de forma decorosa e indesejável.O poder de soberania cedeu espaço ao chamado poder disciplinar.Discorrendo sobre a questão do poder disciplinar, Foucault identificou o corpo comoobjeto e alvo de poder.Citou o exemplo do soldado que reflete sua disciplina através de sua postura e dopróprio corpo, como percebemos no fragmento abaixo:O poder sobre o corpo, por outro lado, tampouco deixou de existir totalmente atemeados do século XIX. Sem dúvida, a pena não mais se centralizava no suplicio comotécnica de sofrimento; tomou como objeto a perda de um bem ou de um direito. Poremcastigos como trabalhos forçados ou prisão - privação pura e simples da liberdade –nunca funcionaram sem certos complementos punitivos referentes ao corpo: reduçãoalimentar, privação sexual, expiação física, masmorra. Conseqüências não
    • tencionadasmas inevitáveis da própria prisão? Na realidade, a prisão, nos seusdispositivos mais explícitos, sempre aplicou certas medidas de sofrimento físico.A critica ao sistema penitenciário, na primeira metade do século XIX (a prisão não ebastante punitiva: em suma, os detentos tem menos fome, menos frio e privações quemuitos pobres ou operários), indica um postulado que jamais foi efetivamentelevantado: e justo que o condenado sofra mais que os outros homens? A pena sedissocia totalmente de um complemento de dor física. Que seria então um castigoincorporai? Permanece, por conseguinte, um fundo "suplicante" nos modernosmecanismos da justiça criminal - fundo que não esta inteiramente sob controle, masenvolvido, cada vez mais amplamente, por uma penalidade doincorporal.(FOUCAULT, 2004, p.18)Nos perguntemos qual seria o objetivo de se disciplinar o corpo?Foucault responde ao tratar dos chamados corpos dóceis.A disciplina sobre o corpo tem por finalidade produzir indivíduos dóceis e submissos adeterminados sistemas, ao mesmo tempo, estes devem oferecer uma mão-de-obra dequalidade que ajude o desenvolvimento econômico da sociedade.A disciplina tem seu aspecto político ao produzir indivíduos submissos ao poder doEstado, garantindo o “equilíbrio” e a “ordem”.O poder e a disciplina sobre o corpo possibilitam o funcionamento de instituições egrupos sociais.Desta forma, Foucault nos mostra que o corpo passa a ser considerado um objetopossível do controle disciplinar.A nova organização política e social, exige também novas formas de disciplina.A experiência decorrente dos movimentos de revolução ocorridos na Europa,demonstrou que o exercício do poder através da violência se tornou ineficaz.O controle sobre o corpo e sobre o modo de vida dos indivíduos, de forma sutil, evitavapossíveis levantes e protestos, mostrando-se mais eficiente.A organização do espaçoOutro aspecto do poder disciplinar se relaciona também com o espaço através dasdisposições e organizações do mesmo.
    • Através da disposição dos objetos e estrutura dos prédios, o poder disciplinar éexercido através da observação vigilante e a sensação de estar sempre sob apresença do poder maior coercitivo.A prisão não mais será um ambiente escuro e sombrio, mas sim um espaçoiluminado que possibilite a vigilância da vida e das atitudes dos detentos.Um simples olhar ou mesmo a vigilância sobre os presos garantem a disciplina e asubmissão dos indivíduos.O novo modelo de construção utilizado nas prisões acabou servindo para outrasinstituições que pretendiam obter a disciplina e obediência como foi o caso dasfábricas, a começar pela Inglaterra no século XVIII estendendo-se pela Europa noséculo XIX.De acordo com Michele Perrot, o espaço de produção era organizado de formacircular, no centro situava-se, geralmente, as peças ou a matéria prima para aconfecção de produtos.Desta forma, o indivíduo que tivesse a responsabilidade de cuidar do andamento daprodução poderia ver todos os operários a sua volta, evitando possíveis furtos ouindisciplina.A dinâmica do novo modelo de organização espacial, como já fora dito, foiestendida outras instituições e espaços, como escolas, hospitais, dentre outros.Os espaços fechados eram, ao mesmo tempo, arejados e amplos, permitindo avigilância dos diversos indivíduos ali presentes.O nascimento de uma nova sociedade, a partir dos ideais iluministas e dasrevoluções burguesas, a privação da liberdade que se tornara tão preciosa asociedade contemporânea, tornou-se uma forma de punição mais incisiva,substituindo os suplícios, uma vez que os direitos do homem e do cidadão passama ser centrais na organização social.A detenção em prisões priva o indivíduo da liberdade e de seus direitos colocando -o a margem da sociedade.A punição, novamente, se daria sem o recurso da violência contra o corpo.O controle do tempoAssim como o espaço será determinante para a formação de uma sociedadedisciplinar, outro aspecto analisado por Foucault será a nova concepção de tempobem como a sua organização. A nova sociedade regida pelo poder disciplinar utiliza-sedo tempo como um de seus mecanismos de controle.A começar novamente pelo exemplo dos presídios, em um modo de vida quasemonástico, todas as horas do dia dos detentos são preenchidas com diversasatividades como refeições e trabalho.Oração com horários bem delimitados e previamente determinados.
    • Tais horários são anunciadas por algum tipo de sinal sonoro, desta forma osindivíduos voltam suas mentes para as atividades impostas pela instituição da qualestão ligados.O controle de todas as horas do dia, enquanto dispositivo do poder disciplinar,evitava qualquer tipo de organização ou mesmo de um pensamento rebelde.Uma vez que o foco eram as tarefas a serem realizadas.A possibilidade de uma ação de resistência deste modo é coibida, da mesma forma,os indivíduos que estiverem em tal situação estavam sob constante vigilância, oque inibia levantes.A vigilância por seu turno é acompanhada de rigorosas punições, o que exerce omedo sobre o indivíduo, na maioria das vezes sem o apelo da violência, utilizando -se de outras formas de castigo, como a chamada solitária.Isolando o indivíduo dos outros, além da diminuição da alimentação ou daatividade sexual, o indivíduo é conduzido a momentos de forte pressãopsicológica.A prisão nada mais é do que um local de privações, a perda da liberdade e dodireito de ir e vir tornam-se agora os maiores receios da sociedade.Concluindo.A partir das teorias sobre o poder disciplinar de Foucault, percebemos como oexercício deste poder se deu através de diversos dispositivos e elementos queelencamos.Primeiramente, o poder sobre o corpo representou o controle sobre o indivíduos esuas necessidades biológicas.Uma vez adestrado, este será útil e submisso ao sistema que se impõe,contribuindo para o equilíbrio e a ordem.O aspecto da construção se mostrou como forma de punição eficaz através daprivação dos direitos de liberdade, bem como o ir e vir, excluindo o sujeito de umdeterminado grupo social.
    • Estendendo-se para outros espaços que não necessariamente pretendem punir, estaforma de poder também se manifesta através da vigilância e eminência de formasde punição que castigam o corpo não de forma física, mas psicológica e biológica.Por fim, o controle do tempo garante a disciplina dos indivíduos e seuadestramento, evitando atitudes de rebeldia.Tais dispositivos essenciais para o funcionamento do poder disciplinar estãopresentes em nossa sociedade até os nossos dias, muitas vezes de forma sutil, masque ainda garantem a ordem e a manutenção do meticuloso funcionamento dasociedade ocidental contemporânea.Através da disposição dos objetos e estrutura dos prédios, o poder disciplinar éexercido através da observação vigilante e a sensação de estar sempre sob apresença do poder maior coercitivo.A prisão não mais será um ambiente escuro e sombrio, mas sim um espaçoiluminado que possibilite a vigilância da vida e das atitudes dos detentos.Um simples olhar ou mesmo a vigilância sobre os presos garantem a disciplina e asubmissão dos indivíduos.O novo modelo de construção utilizado nas prisões acabou servindo para outrasinstituições que pretendiam obter a disciplina e obediência como foi o caso dasfábricas, a começar pela Inglaterra no século XVIII estendendo-se pela Europa noséculo XIX.De acordo com Michele Perrot, o espaço de produção era organizado de formacircular, no centro situava-se, geralmente, as peças ou a matéria prima para aconfecção de produtos.Desta forma, o indivíduo que tivesse a responsabilidade de cuidar do andamento daprodução poderia ver todos os operários a sua volta, evitando possíveis furtos o uindisciplina.A dinâmica do novo modelo de organização espacial, como já fora dito, foiestendida outras instituições e espaços, como escolas, hospitais, dentre outros.Os espaços fechados eram, ao mesmo tempo, arejados e amplos, permitindo avigilância dos diversos indivíduos ali presentes.O nascimento de uma nova sociedade, a partir dos ideais iluministas e dasrevoluções burguesas, a privação da liberdade que se tornara tão preciosa
    • asociedade contemporânea, tornou-se uma forma de punição mais incisiva,substituindo os suplícios, uma vez que os direitos do homem e do cidadão passama ser centrais na organização social.A detenção em prisões priva o indivíduo da liberdade e de seus direitos colocando -o a margem da sociedade.A punição, novamente, se daria sem o recurso da violência contra o corpo.O controle do tempoAssim como o espaço será determinante para a formação de uma sociedadedisciplinar, outro aspecto analisado por Foucault será a nova concepção de tempobem como a sua organização. A nova sociedade regida pelo poder disciplinar utiliza-sedo tempo como um de seus mecanismos de controle.A começar novamente pelo exemplo dos presídios, em um modo de vida quasemonástico, todas as horas do dia dos detentos são preenchidas com diversasatividades como refeições e trabalho.Oração com horários bem delimitados e previamente determinados.Tais horários são anunciadas por algum tipo de sinal sonoro, desta forma osindivíduos voltam suas mentes para as atividades impostas pela instituição da qualestão ligados.O controle de todas as horas do dia, enquanto dispositivo do poder disciplinar,evitava qualquer tipo de organização ou mesmo de um pensamento rebelde.Uma vez que o foco eram as tarefas a serem realizadas.A possibilidade de uma ação de resistência deste modo é coibida, da mesma forma,os indivíduos que estiverem em tal situação estavam sob constante vigilância, oque inibia levantes.A vigilância por seu turno é acompanhada de rigorosas punições, o que exerce omedo sobre o indivíduo, na maioria das vezes sem o apelo da violência, utilizando-se de outras formas de castigo, como a chamada solitária.Isolando o indivíduo dos outros, além da diminuição da alimentação ou daatividade sexual, o indivíduo é conduzido a momentos de forte pressãopsicológica.A prisão nada mais é do que um local de privações, a perda da liberdade e dodireito de ir e vir tornam-se agora os maiores receios da sociedade.Concluindo.
    • A partir das teorias sobre o poder disciplinar de Foucault, percebemos como oexercício deste poder se deu através de diversos dispositivos e elementos queelencamos.Primeiramente, o poder sobre o corpo representou o controle sobre o indivíduos esuas necessidades biológicas.Uma vez adestrado, este será útil e submisso ao sistema que se impõe,contribuindo para o equilíbrio e a ordem.O aspecto da construção se mostrou como forma de punição eficaz através daprivação dos direitos de liberdade, bem como o ir e vir, excluindo o sujeito de umdeterminado grupo social.Estendendo-se para outros espaços que não necessariamente pretendem punir, estaforma de poder também se manifesta através da vigilância e eminência de formasde punição que castigam o corpo não de forma física, mas psicológica e biológica.Por fim, o controle do tempo garante a disciplina dos indivíduos e seuadestramento, evitando atitudes de rebeldia.Tais dispositivos essenciais para o funcionamento do poder disciplinar estãopresentes em nossa sociedade até os nossos dias, muitas vezes de forma sutil, masque ainda garantem a ordem e a manutenção do meticuloso funcionamento dasociedade ocidental contemporânea.História e identidades: uma filosofia sobre a representação dasdiversidades.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 12/09, 2010, p.01-07.A questão das identidades, o modo como os indivíduos e grupos enxergam a si mesmos,constroem referenciais culturais e defendem seus valores, criando espaços de negociação comoutros grupos ou sustentando conflitos, é hoje uma discussão essencial.
    • Em um cenário em que a globalizaçãomassificou o acesso à informação, padronizando comportamentos e referenciais, aconscientização acerca do convívio com as diferenças, paradoxalmente, adquiriu umaimportância impar.A razão é obvia, diante dos antagonismos, a diversidade saltou aos olhos, os mais diferentesgrupos voltaram seu olhar para si mesmos tentando manter viva, entre outras, a identidadeétnica ou regional.Por outro lado, a integração econômica, no âmbito do capitalismo neoliberal, fomentou anecessidade de conhecer o outro, entender seus anseios e desejos, o que passa pelo estudodas identidades.Esta preocupação não é nova, desde o século XVII, a filosofia discuti o tema, enquanto oséculo XIX trouxe a temática para o campo de estudo de ciências nascentes como a psicologia,a sociologia e a antropologia.Posteriormente, a interdisciplinaridade dos estudos culturais, nas ciências humanas e sociais,questionou a formação das identidades.Foi quando lingüistas e teóricos da comunicação somaram esforços, abordando o tema atravésde uma infinidade de métodos de análise, cunhando uma enorme gama de significados,fragmentando as pesquisas em volta da identidade nacional, étnica e social.Entretanto, a preocupação com as identidades é relativamente recente para os historiadores.A temática veio à tona somente no final do século XX, com o surgimento dos debates sobre após-modernidade e o multiculturalismo.Para a história existe uma vinculação estreita entre as identidades e a memória que os gruposmantêm de si mesmos.Segundo André Lalande, a memória seria uma reminiscência do passado, uma leitura feita apartir daquilo que é almejado como tendo sido e não como realmente foi, espelhando uma
    • representação que serve de sustentação a criação de identidades.Neste sentido, é obvio o interesse da história pela construção das identidades, já que otrabalho do historiador consiste em abordar a memória dos grupos como fonte.Na realidade, a história realiza um duplo movimento.Ao tentar entender a construção das identidades, estudando a memória, como afirmouMassimoMastrogregori, expressa uma tradição de lembranças, ordenadas com o apoio derelatos e visões particularizadas.Por outro lado, forja uma memória coletiva que, não correspondendo exatamente como ascoisas foram, na maior parte das vezes, legitima a ordem política e ideológica estabelecida e,simultaneamente, cria ou reforça identidades construídas.Inserido neste contexto, no Brasil, ao mesmo tempo em que, recentemente, grupos depesquisa surgiram nas universidades para tentar entender a formação das identidades, hádécadas a história já tinha servido à construção de identidades que atendiam aos interessesdos grupos no poder, uma discussão também relevante dentro do âmbito da temática.Seja como for, abordar as identidades, atreladas à história, tornou-se essencial não só paraentender quem somos, como nos vemos e porque nos identificamos com referenciaisespecíficos, os quais nem sempre correspondem as nossas origens concretas; como tambémpromove a conscientização sobre a diversidade, auxiliando na compreensão do mundocontemporâneo.O conceito de identidade.Muito antes da história demonstrar interesse pela questão das identidades, o contexto daformação dos Estados Nacionais, durante a passagem do feudalismo para a modernidade,fomentador do sentimento de pátria, iniciou os estudos em torno do conceito de identidade noséculo XVII.Na filosofia ortodoxa européia, René Descartes, o pai do racionalismo, criou subsídios para queo tema se tornasse central nos estudos culturais.Ao concluir que a única coisa que não poderia duvidar era que existia enquanto substancia
    • pensante, admitiu a idéia de sujeito autônomo, portanto, comportando uma identidadeindividual bem definida, isenta de influencias externas.Uma conceituação que passaria a ser dominante na psicologia e também um fundamentocentral do liberalismo.A visão cartesiana de identidade despertou o questionamento de David Hume, um empiristaque, no século XVIII, observou que os conteúdos da consciência incluíam imagens sensoriaisexternas ao sujeito.Assim, a identidade seria formada internamente através de impressões externas que reativama memória, formando novas imagens e reformulando a consciência de si mesmo.Para Hume, conforme o individuo tivesse novas experiências, por meio do contato com outros,comporia novas memórias, alterando as lembranças antigas e o modo de perceber o mundo,isto porque sua identidade também sofreria alterações.O que conduziria ao conceito de identidade coletivamente construída, em oposição aoindividualismo liberal de origem cartesiana.O pensamento liberalista pressupunha a primazia do individuo, unido a sociedade por umcontrato social.Um conceito que, a partir das idéias de Jean Jacques Rousseau, afirmava a sobreposição dasindividualidades sobre o coletivo.No final do século XIX, Emile Durkheim deu prosseguimento à contestação da identidadeliberal, afirmando que a sociedade seria composta sim por indivíduos, mas não seria frutodestas individualidades cruzadas, pois, ao inverso, as identidades seriam produto dacoletividade.Segundo esta concepção, nas sociedades pré-industriais, com nenhuma ou poucaespecialização econômica, todos os membros da sociedade seriam similares em atitudes,valores e normas.Uma homogeneidade mantida pelo que Durkheim chamou de solidariedade mecânica, umaconsciência coletiva sustentada por uma identidade única que suprime as individualidadesatravés da punição dos sujeitos que se desviam das normas estabelecidas pelo grupo.Em contraposição, nas sociedades industriais imperaria a solidariedade orgânica, umacomplexa divisão de trabalho, exigindo que cada membro da sociedade seja um especialista,incapaz de suprir suas necessidades sem a cooperação do outro.Neste sentido, nas sociedades modernas não haveria mais necessidade de punição para ossujeitos desviantes, já que a coesão seria mantida pela própria estrutura social, a qual, por suavez, seria garantida por uma identidade coletiva.O que não significa que a sociedade contemporânea não seja individualista, muito pelocontrário, o alto nível de especialização geraria indivíduos com vidas e experiências distintas,com valores e atitudes que podem divergir, mas que, mesmo assim, possuem elementosagregadores e comuns, unificados em torno de identidades pertencentes se não a sociedade
    • ao menos a determinados grupos.A despeito da discussão sobre o conceito de identidade ter se estendido, passando por GeorgeHerbert Mead, ErvingGoffman, Sigmund Freud e Jacques-Marie Émile Lacan, entre outros.No século XX, Michel Foucault reformulou sua definição.A partir de seus estudos sobre a exclusão dos insanos da sociedade, ele concluiu que aloucura é socialmente construída através de práticas variáveis historicamente re-inventadas, asquais dependem sempre do outro.Esta reformulação, somada ao questionamento do “eu” pelos estruturalistas e pós-estruturalistas, remeteu a uma identidade forjada coletivamente, embora construída tambémem oposição ao outro, abrindo espaço para a discussão teórica sobre grupos marginalizados eoprimidos, como homossexuais, negros ou mulheres.Assim, no âmbito de uma identidade nacional, por exemplo, existiriam identidades regionais,étnicas e uma infinidade de outras variantes e subcategorias.Todas, social e historicamente formuladas, carecendo de estudos que abordassem tentativasde entendimento de sua configuração, principalmente, visando possibilitar a compreensão daconsciência histórica e da construção das memórias.Identidades e consciência histórica.Para JörnRüsen e Agnes Heller, a consciência histórica é uma constante antropológica,expressa um processo mental capaz de estabelecer linhas de ação.Possibilita perceber a passagem do tempo da própria vida do individuo, de seu grupo e dahumanidade.O sujeito atribui, através da sua consciência histórica, um sentido e um significado àsmudanças, criando e recriando sua identidade frente ao outro.Este elemento organiza memórias, vivencias e valores.Articula o conhecimento histórico, uma opinião partilhada por teóricos como Ecléa Bosi,
    • Michael Pollak e Miriam Sepúlveda dos Santos.Para os autores, a memória da qual a história se apropria para compor suas narrativas éproduto de identidades construídas e, simultaneamente, reconfigura estas identidades.Portanto, a consciência histórica lança luzes sobre a constituição de saberes que mobilizamprojeções coletivas e individuais, conjugando contextos vividos e imaginados.Fatores que interferem na maneira como os sujeitos elaboram significados, a partir daatribuição de sentido ao seu próprio tempo por meio de um vislumbre do passado.Para Heller, esta conjuntura se forma porque o homem tem necessidade de responder sempreas mesmas questões básicas: “Quem somos, de onde viemos e para onde vamos”.Perguntas que englobam a elaboração de um conhecimento histórico e, a reboque, amanutenção ou transformação das identidades.Para a filosofa, a formação de uma consciência histórica que conduz a criação de umaidentidade passaria por estágios, necessariamente não lineares, envolvendo a compreensãomitológica, com generalizações e particularismos acerca da origem identificada dos grupos,transformada em memória e decomposta pela ciência.O tempo seria eternizado e categorizado em narrativas de cunho cientifico pelos historiadores,os quais tem por base os documentos que expressam a consciência histórica daqueles que osproduziram, adquirindo novos significados adaptados.Entretanto, a identidade, implícita na consciência histórica dos sujeitos produtores da matéria-prima da história, as fontes, por imitação, tenderia a perpetuar-se nas reminiscências queadquirem novos significados, mas que também mantém pressupostos antigos, mitológicos esem fundamentação cientifica concreta.O que não significa que deixe existir um direcionamento intencional da composição dasidentidades, já que, como lembrou o português José Machado Pais, este elemento terminapermeando decisões políticas.Na realidade, a consciência histórica pode assumir características de um fenômeno coletivo,sendo forjada, interiorizada em processos culturais controlados pelos grupos hegemônicos.Partindo desta constatação, a consciência histórica seria um fenômeno individual, conectadocom o coletivo, gerador das identidades e gerado por elementos mitológicos, estabelecendouma relação dialética.Por isto as identidades se destacam como aquilo que “pode nunca ter sido” e o que “nuncaserá”, apesar dos historiadores tratarem o tema como aquilo que “já foi” e o que “pretendeser”.A história estabelece sentido para o que é “agora”, categorizando identidades organizadas nassuas narrativas, operacionalizadas, consciente e inconscientemente, simplesmentesintetizadas.
    • O historiador e a construção das identidades.O historiador não é um observador do passado que permanece fora de seu próprio tempo, nãoé um individuo isento de influencias as mais diversas.Antes, ele é fruto de seu próprio tempo, sendo contaminado por uma visão particularizada dopassado, inclusive pelos referenciais de sua própria identidade.Toda análise histórica, obviamente, a partir do século XIX, sendo tecnicista, ao buscar umaabordagem profissional, termina sendo reflexo e sustentáculo da ideologia capitalista,perpetuando identidades que servem a manutenção do sistema.Talvez por este motivo, desde o século XIX, os limites da história sempre foram questionados.Dentro desta acepção, as identidades, debatidas pelos historiadores, não passam de umaconstrução imaginativa, uma criação ficcional da mente, individualizada mesmo quandopartilhada e discutida, já que existe uma multiplicidade de interpretações.A história seria, portanto, uma ficção de uma ficção ou uma ficção do fazer ficção,representação da identidade que quem produz as fontes e escreve o que se torna históriaoficial, em meio a uma luta pela prevalência de versões diferentes para o mesmo fato, cadaqual simbolizando os interesses de um grupo.Concluindo.O conceito de identidade, abordado por uma infinidade de saberes científicos diferentes,insere-se no modo como cada sujeito vê a si mesmo e a maneira como pretende que o outro oenxergue.
    • Serve aos vínculos que se estabelecem entre os indivíduos,agregando as pessoas em torno de grupos sociais menores ou mais amplos.No entanto, as identidades não passam de um sistema de representações que permitem aconstrução do “eu” através da observação do outro, ressaltando semelhanças ou diferenças.Exatamente por isto, os indivíduos terminam entendendo e desempenhando papéis sociais aluz da consciência histórica que possuem de sua identidade.Estabelecem relações e criam expectativas por meio de suas próprias referências, algo ligado,inclusive, as posturas etnocêntricas.Acontece que os referenciais são moldados por um mecanismo complexo, englobando amemória, conduzindo os sujeitos a posicionarem-se social e politicamente, expressandoopiniões sobre situações cotidianas, o casamento, a sexualidade, a moral, as artes, as leis euma infinidade de outras questões.Constituída como ciência, a história percebeu que toda identidade é uma construção histórica,não existindo de forma absoluta e nem tampouco isolada, sendo constituída em oposição aooutro.A identidade é forjada para distinguir as pessoas umas das outras e, simultaneamente,fortalecer laços no interior de grupos que se formaram para tentar sobrepor-se a outros gruposou proteger-se da imposição ou submissão ao padrão hegemônico.Ao trabalhar com as memórias individuais e coletivas, a história precisou necessariamenteabordar as identidades.Ao fazê-lo, sem perceber, terminou integrando-se ao mecanismo de construção dasidentidades.Até porque, como defendeu Kathryn Woodward: história, memória e identidades sãoindissociáveis.É desta perspectiva que, estudando a formação das identidades, a história passou a entendermelhor o papel da consciência histórica e da memória, mescladas a imaginação e outrosfatores externos aos sujeitos e grupos, na criação de mitologias fundadoras de referenciais.Porém, poucos historiadores conseguiram perceber que, ao construir o saber histórico,acabaram criando, eles próprios novas, mitologias fundadoras das identidades.Esquecem que a história é subjetiva, repleta de espaços preenchidos pela imaginaçãodaqueles que registraram as fontes e que os profissionais da história apenas fornecem uma
    • dentre tantas outras interpretações.No âmbito do mundo globalizado, em que o hibridismo enfraqueceu as identidades nacionais,ao invés de unificar, fragmentando e fortalecendo o ressurgimento de outras identidades, comoo gênero, o étnico ou o regional.A discussão da temática tornou-se essencial para compreender a contemporaneidade.Destarte, antes de aceitar as conclusões já formuladas sobre o assunto, ao invés de acatarexplicações prontas para a formação das identidades, seria pertinente rediscutir a contribuiçãoda história, intencional ou não, na construção destas identidades.Estas tiveram uma nova configuração a partir de valores instituídos após o iluminismo e aRevolução Industrial e que, agora, renascem em uma sociedade de consumo repleta decontradições, cabendo a filosofia da história iniciar os debates.Etnocentrismo e historiografia: a distorção do outro na história.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume ago., Série 24/08, 2010, p.01-12.Dentro do âmbito dos estudos sobre as questões culturais, emerge o etnocentrismo comoponto de debate, com obras representativas de visões de mundo fundamentadas rigidamenteem valores e modelos específicos, com autores que julgaram o outro a luz de seus própriosreferenciais.O que é compreensivo, já que quando um determinado grupo entra em contato com práticasculturais distintas da sua, o estranhamento e o medo são reações comuns, forjando conclusõesequivocadas e preconceitos.Esta situação terminou cunhando uma historiografia na qual a diferença foi transformada emhierarquia, onde o outro foi reduzido a um inferior, categorizado como bárbaro, selvagem ounão humano.Cabe recordar que quando mencionamos historiografia, fazemos referência ao registro escritoda história, ao oficio do historiador e o resultado de sua produção cientifica, ou seja, aostrabalhos produzidos pelos historiadores, quer sejam teses, dissertações, monografias, artigos,etc, no âmbito da área.
    • Neste contexto, a tendência etnocêntrica privilegiou um universo de representações,catalogando a insignificância das demais culturas.Na realidade, cometendo uma violência que serviu e continua trabalhado a favor das diversasformas de colonialismos, sobretudo, disfarçadas por meio daquilo que Pierre Bourdieu definiucomo "violência simbólica".Trata-se da imposição de valores pertencente a um grupo hegemônico sobre outros, visandoobviamente o favorecimento daqueles que dominam, a velha lógica da sobreposição da versãodos vencedores sobre os derrotados, quer seja no campo ideológico, político, social,econômico, etc.Poderia ser definido também como uma imposição de uma referencia teórica e prática que,como afirmou Lévi-Strauss, segue o padrão da racionalidade técnica, escolhendo-se comoúnico tipo de cultura compatível com a dita vida civilizada, declarando as outras culturas comoorientações incompatíveis com o referencial adotado como padrão.Em suma, o etnocentrismo procurou reduzir as especificidades e diferenças, tornando-as maisdiferentes do que são, exorcizando os referenciais do outro para torná-los nulos e indignos deconsideração, desviando o olhar em prol de uma versão dos fatos distante de uma leitura queseria realizada pelos reais envolvidos naquilo que se tornou objeto da história.O grande problema é que a historiografia, em suas mais diversas tendências e escolas, nãoestá isenta de uma visão etnocêntrica. No caso do contexto colonial brasileiro, por exemplo,refletindo um eurocentrismo evidente.Entretanto, como demonstrou Michel de Certeau, hoje, mais do que nunca, em um mundo deguerras e conflitos, gerados pelo não entendimento de referenciais diversos do próprio; ohistoriador precisa adentrar as zonas silenciosas, o que ele chamou de “geografia doeliminado”, despojando-se de seus conceitos pré-concebidos, deslocando-se pela religião,feitiçaria, loucura, festa, o mundo do esquecidos.O que exige retomar um tema que não é novo, mas que se torna cada vez mais prioritário: adiscussão em torno da produção historiográfica e sua vinculação com o etnocentrismo.
    • Este debate serve também a uma crítica sobre a visão historiográfica centrada no “si mesmo”,estando inserida na necessária aproximação entre Ocidente e Oriente, em um ambientecontemporâneo polarizado entre a cultura judaico-cristã e os valores islâmicos, bem comodividido por outras múltiplas dicotomias maniqueístas, geradas e geradoras da incompreensãodos referenciais do outro.Como se não bastasse, pesando na micro-história e no foco da história da América e do Brasil,desconstruir a presença do etnocentrismo na historiografia, no âmbito ideológico do resgatedos excluídos, envolvendo o estudo do choque cultural entre indígenas e europeus, atendendoa crescente demanda pelo convívio com a diversidade.Tudo, em um momento em que historiadores são chamados a dar conta de objetos depesquisa que ajudem a entender as mudanças aparentemente cada vez mais rápidas e que naverdade ainda são lentas, fornecendo dados amplamente partilhados pela mídia e a Internet,em uma sociedade globalizada que tem como meta padronizar, mas que precisa,antagonicamente, conviver com as diferenças.Escolas historiográficas e etnocentrismo.Ao contrário do que se imagina, embora as teorias racistas tenham surgido há pouco mais detrês séculos, o etnocentrismo está presente na historiografia desde o inicio da história. Naantiguidade, entre sumérios, judeus, chineses, gregos e romanos; os estrangeiros foramretratados como inferiores, relegados a condição de bárbaros e assim descritos ecategorizados pelos historiadores.Na idade Média, apesar das peregrinações à Terra Santa e de contatos comerciais, o mundoOcidental, o etnocentrismo continuou incorporando a narrativa da história que trilhou o caminhodo “eu” ao invés do “tu”, diabolizando os muçulmanos.Depois, com a expansão européia em além-mar, a partir do século XVI, converteu os povos daÁfrica e da América em selvagens.
    • O outro, o indígena, no caso do continente americano, foi retratado como um antropófagopreguiçoso, sem fé, sem rei, nem lei.Exatamente o pretexto que seria usado para promover a imposição dos referenciais europeus,permitindo criar justificativas para que portugueses, espanhóis, ingleses, franceses eholandeses pudessem dizimar populações nativas, impondo uma dominação cultural que fezdesaparecer até mesmo a língua de muitos destes povos.É neste sentido que a historiografia iluminista, no século XVIII, inaugurou o conceito deprogresso civilizacional.Para esta Escola, o tempo seria linear, ao passo que sua passagem seria marcada pormudanças qualitativas, sempre para melhor.Pensadores ilustrados, como Turgot e Condorcet, iniciaram uma tradição Ocidental de análiseda história da humanidade classificada em estágios culturais, fixados entre sociedadesprimitivas e civilizações complexas, como se existissem degraus pelos quais os povosdevessem escalar para atingir a modernidade.A visão etnocêntrica iluminista reduziu toda a espécie humana a parâmetros únicos quedeveriam servir obrigatoriamente de referência, tendo a Europa e sua história como modelo aser adotado, o que originou também o eurocentrismo.Ainda no século XVIII, o conceito de evolução ganhou contornos naturalistas com o francêsLamark, popularizando-se no século XIX com Charles Darwin e sua teoria da evolução dasespécies através da seleção natural, o que terminou transposto para positivismo histórico e aescola metódica.O positivismo de Comte procurou encontrar, no estudo da história, leis que regulassem odesenvolvimento humano, permitindo contextualizar os fatos do presente, originando umahierarquia para justificar o colonialismo cultural.Enquanto a escola metódica, encabeçado por Leopold Von Ranke, supervalorizou o Estado
    • Nacional, defendendo a idéia de objetividade do conhecimento histórico, acrescentando axenofobia nas narrativas históricas.Inserem-se nesta tradição cientificista as obras do historiador francês Jules Michelet, nas quaiso chamado “Espírito da Nação” animava uma narrativa que tinha um sentido próximo dodarwinismo, centrada no conceito de evolução das civilizações, tendo o europeu e sua culturacomo maior realização da humanidade.Um dos pressupostos que sustentaram o colonialismo do século XIX, quando a África e parteda Ásia foram partilhadas entre as nações hegemônicas da Europa, servindo de fonte dematéria-prima; enquanto a América Latina, em plenos processos de independências dasmetrópoles, além de sua função primária agrícola, consolidou-se como mercado consumidordos produtos manufaturados pelos europeus.Algo que o marxismo pretendeu criticar, ao enxergar a história como a luta de classes,oposição entre oprimidos e opressores; sem, no entanto, conseguir se desvencilhar da visãoetnocêntrica.Mesmo a escola historiográfica marxista, extremamente preocupada com as questões teóricas,visto que para Marx uma teoria não podia ser pensada sem correspondência com o contextohistórico; compôs analises evolucionistas, baseadas nos valores europeus, estudando aeconomia para entender a sociedade e sugerir transformações que deveriam percorrerestágios.As idéias desenvolvidas por Karl Marx e Friedrich Engels, preocupados em demonstrar que ocapitalismo seria um acontecimento transitório, diante do aparecimento de uma classerevolucionária, para o surgimento de uma sociedade comunal; terminaram sendo adotadas etranspostas para o contexto teórico da história, reforçando a falsa noção da necessidade dapassagem de um ponto ao outro para que uma sociedade pudesse atingir seu ápice.No século XX, a escola francesa de Annales, tentando se isentar do componente ideológico,fugindo da visão etnocêntrica, uniu diversos pressupostos das ciências sociais e enfatizou ainterdisciplinaridade; mas, com raras exceções ao longo de suas três gerações, conseguiutraçar uma análise imparcial, embora tenha obtido consciência deste fato, onde residejustamente um dos seus maiores méritos.Como lembrou JörnRüsen, os historiadores, ao olharem para outras culturas, continuaram a
    • fazê-lo por meio da idéia de historiografia de sua própria cultura.O que possui uma implicação política e, também, uma conseqüência teórica e metodológicacalcada em uma dificuldade epistemológica, fazendo com que a narrativa histórica não revelenada além da incapacidade de real compreensão do outro.Entretanto, Annales desdobrou-se em várias linhas teóricas e campos de pesquisa,notadamente servindo de base para fomentar debates acerca da natureza teórica doconhecimento histórico, dando novo fôlego a critica ao etnocentrismo, isto a partir da terceirageração, na década de 1970, representada, entre outros, por Peter Burke.A historiografia brasileira em perspectiva.Pensando a historiografia na perspectiva brasileira, também entre nós o etnocentrismo sempreesteve presente na narrativa histórica. O projeto de construir uma identidade nacionalseparada de Portugal, após a independência em 1822, nem por isto deixou de trazer inseridonas obras historiográficas uma visão etnocêntrica européia.Embora a historiografia sobre o Brasil se inicie com Pero de Magalhães Gandavo no séculoXVI, ou, quiçá, antes, em 1828 surgiu o primeiro livro brasileiro abordando a história do novopaís recém independe.Na realidade, tratava-se de uma tradução de uma obra escrita em francês em 1822.Era na visão da época o primeiro passo para a construção da unidade nacional, contudo,estava inspirada na história européia, contendo uma forma de narrar às origens do Brasilrepleta de conceitos etnocêntricos, os quais já estavam contidos em uma série de obrasanteriores, publicadas entre 1810 e 1819, pensadas por um inglês.Alguns anos depois, em 1838, a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro estimulouo surgimento de diversos estudos sobre o período colonial, todos apontando para umasupervalorização da Europa em detrimento da América portuguesa.
    • Isto porque, embasada no modelo de livros e manuais franceses, a historiografia brasileiratentava encontrar o lugar do Brasil na civilização Ocidental cristã, dominada pela Europa.Exatamente por esta razão, somente mais de uma década após a separação da colônia de suaex-metrópole, a disciplina de História do Brasil, então ministrada no Colégio Pedro II, chamadana ocasião de História da Pátria; separou-se da História Geral (História Universal), ganhandoautonomia.O etnocentrismo continuou dominante, apesar das reformas educacionais de Francisco deCampos em 1930 e da Lei de Diretrizes e Bases de 1961, assim como das mudanças nanarrativa histórica produzida a partir da década de 1960, quando foram registradas as primeirastentativas de construção de uma historiografia abordando o Brasil de forma mais integrada coma história da América Latina.Destarte, foi na década de 1970 que a descentralização do ponto de vista etnocêntrico europeucomeçou realmente a ganhar força, quando historiadores de linha marxista passaram aquestionar a hegemonia norte-americana sobre o mundo, clamando por uma identidade latino-americana.Depois, nos anos 1980 e 1990, novas tendências historiográficas, como a História da Cultura, aNova História, o estudo das Mentalidades; trouxeram consigo novos objetos, fomentando omulticulturalismo, a discussão em torno das identidades múltiplas e da diversidade.No entanto, apesar da historiografia brasileira inserir-se na critica global ao etnocentrismo, averdade é que o discurso dos historiadores no Brasil continua ainda hoje repleto de vinculaçõescom uma visão que relega o outro a um plano inferior, servindo aos interesses das elitesculturais dominantes.Por que isto acontece? A Resposta é simples, porque nossa historiografia segue uma tradiçãoeurocêntrica que tem como modelo obras clássicas, em grande parte imbuídas do resgate daherançaeuropéia.O eurocentrismo na historiografia brasileira.Em sentido amplo, o eurocentrismo continua presente na historiografia mundial, mas no Brasilse perpetua com ainda mais força.
    • As escolas metodológicas francesas dominam o panoramaacadêmico, trazendo consigo análises estereotipadas disfarçadas sobre um vernizmodernizante pós Annales e suas variantes.Não temos entre nós, brasileiros, concepções teóricas próprias, isentas de termos eperiodizações européias.Adotar a Europa como centro de irradiação do saber, assumindo posturas dominantes entrealguns grupos de intelectuais europeus, tornou-se uma característica comum nas pesquisas naárea.A narrativa histórica brasileira esteve, desde o seu inicio, marcada por uma série de conceitosequivocados, repleta de afirmações etnocêntricas, onde o outro foi relegado a um planoinferior.Grande parte dos historiadores brasileiros assumiram a postura de herdeiros dos valores e daidentidade européia, deixando de lado o viés miscigenado de nossa cultura, abandonando aherança indígena e africana, simplesmente minimizadas em favor da visão eurocêntrica.Um exemplo valioso deste fato é fornecido por Petrônio Domingues, em meio a 250 obrasabordando o tema Revolução Constitucionalista de 1932, ele lembra a ausência do negro,atribuindo a constatação ao etnocentrismo racial presente na produção acadêmica brasileira.Retrocedendo mais no tempo e pensando pelo viés da questão indígena, ao invés de abordar achegada dos portugueses ao Brasil como inicio de uma invasão e do genocídio dos povosnativos, a historiografia brasileira adotou a palavra descobrimento, dando uma falsa idéia deprogresso.
    • Igualmente, caracterizar a carta de Pero Vaz de Caminha como uma "certidão de batismo" tempressupostos etnocêntricos, evidenciando uma expressão que reflete a visão do conquistador,do vencedor, categorizando os portugueses como agentes da história e os índios, os"descobertos", como protagonistas passivos do episódio.Uma visão mais contemporânea para o fato, a qual tenta isentar-se do eurocentrismo, aborda opseudodescobrimento de Pedro Álvares Cabral como “achamento”, uma vez que os lusosteriam encontrado terras que já eram conhecidas e que estavam povoadas por povos nativosque seriam, posteriormente, expropriados.Este eurocentrismo estava fortemente presente no inicio da historiografia brasileira e continuouinfluenciando as narrativas dos historiadores no Brasil por um longo período, pautando asmentalidades. Na História Geral do Brasil (1854), de Francisco Adolfo deVarnhagen, obra tida como marco da formação da identidade nacional brasileira após aindependencia em 1822, a ótica do colonizador português, que conquistou índios e terras esubmeteu à escravidão os povos africanos, é dominante.Segundo José Carlos Reis, embora Varnhagen tenha tomado para si a tarefa de "inventar oBrasil", para ele o colonizador representava o progresso, as luzes e a civilização.O que fica evidenciado através de uma história heróica do português e de suas contribuiçõespara a construção da identidade da "nova nação".Mais do que eurocêntrico, o etnocentrismo em Varnhagen fica claro pelo atrelamento daconstrução da nação, legitimada pelo poder do Estado e do colonizador, com o encontro dastrês etnias (o índio, o branco e o negro), ocasião na qual aborda a miscigenação sob aperspectiva da defesa do branqueamento.
    • Depois, com o advento da República, na década de 1930, Gilberto Freyre contribuiu parasedimentar o "reelogio da colonização portuguesa".Em obras clássicas como Casa grande e senzala (1933), Sobrados e mocambos(1936)e Ordem e progresso (1959), Freyre entende a modernidade e a civilização brasileira comoresultado de uma forma específica da "reeuropeização" que transformou cultural eestruturalmente o país a partir de 1808, com a vinda da família real portuguesa e a chega doEstado moderno, instituições transformadoras das relações sociais.Ao lado do sociólogo pernambucano, Caio Prado Junior e Sérgio Buarque de Holanda,formando com Freyre a chamada “tríade fundadora” da historiografia profissionalizada noBrasil; ao estudarem a temática das origens da sociedade brasileira, seguiram a mesmaorientação eurocêntrica.Caio Prado Junior não tinha formação acadêmica em história, era bacharel em direito, livre-docente em economia política, mas produziu uma rica gama de trabalhos que se tornaramreferencia para gerações de historiadores. Entre outros textos, o clássico a Formação do BrasilContemporâneo, publicado em 1942, inserido dentro da tradição marxista.Ao analisar quatro séculos do período colonial, inaugurou a busca por um sentido dacolonização.
    • Na obra, o autor propôs a tese de que o Brasil teria sido o quintal da colônia, a gênese dosubdesenvolvimento brasileiro.No entanto, nem por isto deixou de construir uma visão eurocentrista estereotipada,considerando “a contribuição do escravo preto ou índio para a formação brasileira, (...) quasenula”, classificando o Brasil dentro da noção de estágios necessários para o progresso, tendo aEuropa como ápice da humanidade civilizada.Igualmente, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros, autor de dois grandes clássicos dahistoriografia, Raízes do Brasil (1936) e Visão do Paraíso (1959), ao traçar uma macro-análiseda formação do Brasil, a partir do período colonial, também demonstrou prestar tributo à origemcultural européia do povo brasileiro.Isto, apesar de exaltar a "plasticidade social" dos portugueses como uma virtude cultural,descrevendo-os como um povo de mestiços, quase sem orgulho racial, tendo eles seaproveitado dos benefícios da miscigenação para conquistar.Mais adiante, na década de 1970, os trabalhos de Fernando Novais continuaram a buscar umsentido para colonização em uma tentativa totalizante.O clássico Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial, publicado originalmente em1979, tentou romper com o eurocentrismo, mas também não obteve êxito, já que os conceitosque serviram de base para Novais são eurocêntricos.Estes e outros clássicos da historiografia brasileira, os quais continuam servindo de referênciapara formar levas e mais levas de novos historiadores, amplamente citados nos meiosacadêmicos; perpetuaram visões eurocêntricas da história, ajudando a compor no Brasil umahistoriografia que, com raras e louváveis exceções, não consegue perceber as falhas em simesma e realizar uma autocrítica.
    • Entretanto, justiça seja feita, na década de 1980, paradoxalmente atendência monográfica iniciada pela mesma altura, influenciados pela “Nova História Cultural”de Roger Chartier, começaram a surgiram nomes na historiografia brasileira que de fatoiniciaram discussões em torno de parâmetros nacionais, com valores desvinculados doseuropeus.Entre os quais podemos incluir: Laura de Mello e Souza, Mary Del Priore, Ronaldo Vainfas eIstvánJancsó, entre outros.A critica ao etnocentrismo e a busca pelo outro.A despeito da miopia reinante na historiografia acerca de sua vinculação com conceitosetnocêntricos que servem de referência, o interesse de alguns historiadores pelo outro,inaugurou o debate sobre o multiculturalismo.Esta tendência, por sua vez, nasceu fora do Brasil e muito antes da década de 1980.Entre os franceses, a critica ao etnocentrismo foi iniciada, como definiu Peter Burke quando “ahora da antropologia histórica” chegou, no final dos anos 1950, sendo gradualmenteincorporada à historiografia circunscrita a História Cultural.Foi quando os historiadores começaram a se dar conta que dissertar acerca do encontro entrepovos, cujo referencial cultural parece diverso, constitui sempre uma tarefa árdua, onde o riscode uma análise falseada é enorme.Um momento em que, como lembrou Julio Caro Baroja, os perigos da automação passaramser notados, uma vez que conduz a historiografia a uma redução esquemática de culturasdistintas, com problemas e referenciais diversos.Até então, “os conceitos e vocábulos empregados no estudo das comunidades insulares[,] (...)
    • ou povos da África negra[,] eram usados no estudo (...) da América mestiça” sem que asdiferenças culturais fossem observadas.Os estudos de Claude Lévi-Strauss sobre a mitologia ameríndia, publicados entre 1964 e 1971,a partir do conceito de oposição binária, atraíram historiadores como Jacques Le Goff eEmmanuel Le Roy Ladurie, os quais incorporaram a abordagem estruturalista, descobrindo queela resistia à apropriação pela história.Estes historiadores tentaram combinar as estruturas com os eventos, examinando biografias ea vida cotidiana para entender valores, atitudes, crenças e comportamentos populares.Traçaram narrativas que buscavam elucidar a história a luz dos sujeitos que vivenciaram osfatos, procurando fugir dos conceitos pré-concebidos pela cultura erudita.A década de 1970, com o advento da micro-história, associada a um pequeno grupo dehistoriadores italianos, como Carlo Ginzburg, Giovanni Levi e EdoardoGrendi; assistiu ainda aoaparecimento de uma série de trabalhos que procuravam valorizar as especificidades dasculturas locais.Os marginalizados e esquecidos foram ganhando voz sob o microscópio que procurava se oporao telescópio, modelos diferentes de explicação para a história apareceram, fugindo dodeterminismo social e econômico estereotipado pelo etnocentrismo.Entretanto, embora a narrativa histórica Ocidental tenha despertado para o que havia deixadode fora até então, o outro se encontrava ainda oculto na historiografia que começava a criticaras narrativas etnocêntricas, das quais, no entanto, não conseguia se desvencilharcompletamente.A luta pela emancipação do Terceiro Mundo, o debate marxista sobre a exploração econômicados países ricos sobre os pobres, no final dos anos 1970, chamou a atenção sobre ospreconceitos colonialistas.
    • Foi quando Edward Said, com a obraOrientalismo (1978), mostrou, através da oposição entre oOriente e Ocidente, como a leitura destas relações era prejudicada pelos estereótipos doatraso.Mais impactante, porém, foi a obra de Tzvetan Todorov, A conquista da América: a questão dooutro, publicada em 1983, a qual terminou por acirrar a discussão sobre o confronto cultural edos valores dispares lidos como únicos pelo etnocentrismo.É claro que, antes dele, outros, a exemplo de Edward Said, tentaram realizar o mesmo tipo deanálise, porém esbarraram sempre no reducionismo esquemático, mesmo sem perceber, demodo que a grande inovação de Todorov foi dar mais atenção à questão da leitura dos signostanto pelo prisma dos conquistadores espanhóis quanto dos ameríndios.Uma novidade que iria evoluir até o aparecimento de nomes como Frank Lestringant ouMichelle Perrot, quando a leitura dos signos do outro pelos próprios referenciais dele foiincorporada à historiografia, multiplicando os estudos sobre as mulheres, as crianças, oshomossexuais, os negros, os índios e muitos outros antes invisíveis.No entanto, este novo olhar também não conseguiu se desvencilhar completamente doetnocentrismo.Ao ganhar voz pela boca de seus próprios membros, o outro iniciou a composição de umahistoriografia voltada ao segmentado, espelhando igualmente analises etnocêntricas.Concluindo.O etnocentrismo, normalmente associada apenas a valores de povos e nações, é mais amplodo que isto.Diz respeito a práticas culturais e sistemas de valores dominantes, responsáveis igualmentepela criação de identidades de grupos menores, com indivíduos associados por afinidades,
    • etnia e outros tantos laços.Através destes sistemas de valores compartilhados, o próprio ponto de vista termina servindode parâmetro para julgar outras culturas, uma atitude em conexão com estereótipos, imagenssimplificadas e carregadas de significados distorcidos sobre o outro.O que, na maioria das vezes, conduz aos preconceitos, ao racismo, a violência sem propósito edesproporcional.No âmbito historiográfico, inicialmente, os particularismos geraram leituras etnocêntricas,simultaneamente sendo reforçadas pelos nacionalismos e ajudando a forjar o sentimento denação através da interpretação da história.Desde o século XVI, reivindicações etnocêntricas foram incorporadas à historiografia,cunhando o eurocentrismo que se apropriou da memória, o que Jack Goody chamou de “rouboda história” pelos europeus.Posteriormente, as mais diversas escolas historiográficas aderiram aos conceitos e modeloseurocêntricos, as referencias para tempo e espaço passaram a espelhar os valores dos gruposque “escrevem a história”, embora o termo mais preciso talvez seja que “descrevem a história”.A antiguidade greco-romana foi inventada como berço da humanidade, desconsiderando ascontribuições de outras culturas.A Idade Média na Europa apareceu como marco divisor de águas e caminho para a passagemà Idade Moderna, o próprio calendário cristão foi tomado como ponto de referência parademarcar a história.A partir do século XIX, o historiador de oficio continuou pelo mesmo caminho sem se dar conta,as narrativas etnocentristas, repletas de carga emocional e afetiva, foram apenas revestidas deuma intelectualidade pseudoracional.Ao longo do século XX, o foco de atenção deslocou-se da tendência mais abrangente para omicro, dando voz aos excluídos e as minorias, mas nem por isto deixando de abordar asdiversidades através de um etnocentrismo involuntário, uma tendência inclusive presente nahistoriografia brasileira.Todavia, apesar das inúmeras criticas as narrativas históricas etnocêntricas,contemporaneamente, cada grupo tenta ainda contar sua versão da história a partir de seus
    • próprios valores, sem cruzar olhares com o outro.Vemos hoje ativistas negros, judeus, palestinos, árabes, muçulmanos compondo umahistoriografia engajada.Enquanto mulheres ou homossexuais tentam resgatar seu passado sob o viés de uma análisecentrada no si mesmo.Neste sentido, cabe aos profissionais da história discutir e desconstruir a historiografia,alertando para os perigos do etnocentrismo, tão precarizantes como o anacronismo, visandocolaborar para amenizar conflitos ao chamar a atenção de todos para os outros, permitindo quede fato as diversidades sejam respeitadas e valorizadas.Somente assim poderemos, no futuro, ter espaços de convivência pacifica em um mundo que,à medida que torna-se mais globalizado, paradoxalmente, apresenta-se mais fragmentado edividido entre grupos antagônicos com referenciais fundamentalistas.Onde o outro é considerado um ser de segunda categoria, mesmo quando o discurso parecedizer o contrário daquilo que a atitude velada demonstra.Os estudos de Bourdieu, Passeron, Bowles e Gintis.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 16/05, 2011, p.01-06.Pertencentes ao conjunto teórico neomarxista, que une pressupostos marxistas comoutros referenciais, Bourdieu, Passeron, Bowles e Gintis realizam grande contribuiçãopara a sociologia da educação.Bourdieu e Passeron concentraram sua atenção sobre a mesma questão trabalhada porAlthusser: o entendimento da reprodução da estrutura social e do sistema de poder noâmbito capitalista.Bowles e Gintis adotaram outro caminho, utilizando amplamente métodos quantitativospara entender as relações entre trabalho, educação e o desenvolvimento do Q.I.
    • Bourdieu e Passeron.Pierre Bourdieu (1930-2002), filósofo francês de origem camponesa, foi professoruniversitário no “Collége de France”, tradicional e conceituada universidade localizadaem Paris. Atuou nas mais renomadas universidades do mundo, comoHarvard, Chicago e Frankfurt.É autor de mais de trezentos trabalhos abordando o tema reprodução do sistemacapitalista.Jean-Claude Passeron, também francês, foi professor de sociologia na “Escola de AltosEstudos em Ciências Sociais”.É considerado um discípulo de Bourdieu, com quem escreveu “Os herdeiros” (1964) e“A reprodução” (1974).Os autores são considerados neomarxistas, mesclando o marxismo com o estruturalismoconstrutivista, uma tendência que considera o mundo social dirigido pelas estruturasobjetivas, coagindo a ação dos indivíduos.Violência Simbólica e Capital Cultural.Para Bourdieu e Passeron, a escola seria a principal estrutura objetiva que moldamentalidades e comportamentos. Neste sentido, o ensino superior transmitiria privilégios, alocandorespeito pelo status conferido, hierarquizando relações sociais.
    • Ao invés da escola representar a possibilidade da passagem da heteronomia para aautonomia, efetivamente faria justamente o contrário, manipulando o educando eocultando uma violência simbólica.A violência estaria no fato da escola se revestir de uma aparência de neutralidade,quando na realidade condiciona o educando de acordo com os interesses das elites quecontrolam o sistema educacional.Esta violência seria simbólica devido ao seu caráter não material, circunscrito a esferamental.Dentro deste contexto, insere-se o capital cultural, a competência cultural e lingüísticaherdada, sobretudo, da família, facilitador do bom desempenho escolar.Usando uma linguagem e cultura pertencente à elite, o padrão culto, a escola cometeriauma violência simbólica ao impor, ao conjunto da sociedade, valores que pertencem aum único grupo, impedindo o acesso daqueles que não possuem o necessário capitalcultural.Ao invés da escola democratizar, seria sua função reproduzir hábitos de classe, amaneira de se comportar e pensar de um grupo social, representado pelo capital cultural.Portanto, dentro desta visão, a escolarização condena aqueles que carecem de capitalcultural ao fracasso social.Embora possa não existir sincronia entre o mercado de trabalho e o processoeducacional, o capital cultural é semelhante a uma moeda de troca, por meio do qual oindividuo seu sucesso ou fracasso escolar.Assim, o capital cultural funcionaria como uma moeda de troca para que as pessoascomprem uma posição na estrutura social.A sociedade seria hierarquizada conforme o sucesso ou fracasso escolar, determinadopelo capital cultural.Estudando a sociedade francesa depois da 2º. Guerra Mundial, Bourdieu e Passeronchegaram à conclusão de que adquirir capital cultural tornou-se importante para a classemédia.
    • O capital cultural foi convertido em meio de acesso a boas posições sociais, fato queexplica os investimentos da categoria em educação.Ao mesmo tempo, para fazer frente aos investimentos em capital cultural pela classemédia, a elite também investe em educação para manter seu status, já que o nível deescolaridade também confere status.A crítica as idéias de Bourdieu e Passeron.Apesar da importância das idéias de Bourdieu e Passeron, eles sofreram pesadascríticas, acusados de funcionalistas e weberianos.O motivo foi a não aceitação dos marxistas do viés estruturalista da sociedade aplicadoao entendimento do processo de escolarização. Alguns autores marxistas, tal como Laval e Swartz, criticaram asteorias de Bourdieu e Passeron, afirmando que ignoram o poder da ideologia proletária.Alem disto, a questão do capital cultural foi vista pelos críticos como muito especifica econtextualizada, já que Bourdieu e Passeron usaram a França após a 2º. Guerra Mundialcomo amostragem, não permitindo a generalização da teoria.Entretanto, as teorias da violência simbólica e do capital cultural tem se mostradoaplicáveis em diferentes situações ao longo das décadas.No caso do Brasil mostraram-se perfeitamente aplicáveis, permitindo entender arealidade educacional.O que conduz a uma questão, pensada pelos autores: por que os professores nãorompem com o sistema?Pensando nisto, Bourdieu e Passeron chegaram a fazer um apelo para que osprofessores, ao entenderem os mecanismos de reprodução do sistema capitalista, adotemuma ação pedagógica que fuja da política, quebrando com o reprodutivismo.
    • Bowles e Gintis e o uso dos métodos quantitativos.Representantes contemporâneos do neomarxismo, os norte-americanos Bowles e Gintisiniciaram, na década de 1970, a discussão em torno da correspondência entre hierarquiano trabalho e sistemas de relações sociais na educação. Esta discussão levou a um debate em volta do Q.I. e desua relação com o sucesso econômico e social dos indivíduos.Uma reflexão que foi alvo de inúmeras críticas.Samuel Bowles é economista, com formação em matemática, filho de um ricopublicitário norte-americano, que foi embaixador na União Soviética, onde o autorestabeleceu seu primeiro contato com o marxismo.Herbert Gintis também é economista, mas de origem mais humilde, seus paispertenciam à classe média norte americana.Ele esteve envolvido com o movimento hipp na década de 1970 e estabeleceu umaestreita parceria com Bowles.Ainda vivos, Bowles e Gintis mesclam o marxismo com o estruturalismo e o métodoquantitativo.Fazem amplo uso da estatística, levantando e tabulando dados para comprovar suasteses, embora sejam acusados de funcionalistas.A principal preocupação dos autores está centrada na correspondência entre as relaçõessociais de produção com a educação.Tentam entender até ponto as desigualdades econômicas distorcem o desenvolvimentopessoal, discussão iniciada na obra “Escola na América Capitalista” (1977).As idéias de Bowles e Gintis.O interesse de Bowles e Gintis pelo papel da escola no sucesso profissional e social dosindivíduos nasceu a partir da guerra do Vietnã.
    • Quando a imensa maioria dos alistados pertencia à etnia negra e latina, fato queconduziu os autores a investigar a realidade das escolas de periferia nos Estados Unidosda América, de onde os alistados eram egressos.Estudando este conceito, Bowles e Gintis chegaram à conclusão que o sistemacapitalista conduziu a hierarquização social.Valendo-se do processo de escolarização para alienar e produzir pessoas passivas,criando personalidades adequadas às necessidades do mundo do trabalho.A escola ensina pontualidade e organização, características necessárias aofuncionamento das estruturas capitalistas, servindo ao reprodutivismo do sistema.Pensando no fato da sociedade ser estratificada, os autores concluíram que a escolatermina criando padrões diferenciados de socialização para preencher colocaçõessociais.Existiriam varias escolas, com padrões diferenciados de ensino, cada qual destinada aformar um tipo de mão de obra diferente.As pessoas seriam educadas de acordo com funções e papeis sociais que vedem ocupardepois de formados, compondo a chamada sociedade da meritocracia.O sistema capitalista se encarregaria de convencer os educandos que a escola selecionapara o mundo do trabalho, adotando como critério o mérito individual.Na realidade um falso critério utilizado para alienar.Os autores defenderam a idéia de que o mérito possui critérios falsamente objetivos,como Q.I. e notas, servindo apenas a legitimação da ordem, pois na realidade o principalfator que conduz ao sucesso profissional é a classe social.Bowles e Gintis não encontraram correspondência entre Q.I. e notas, comprovando istoestatisticamente.Por outro lado, provaram que também não existe relação entre Q.I e notas com osucesso profissional.
    • Demonstraram que existia grande numero de indivíduos com alto Q.I. e bomdesempenho escolar que tinham fracassado profissionalmente.Inversamente, os indivíduos bem sucedidos economicamente e socialmente nãopossuíam, necessariamente, um alto Q.I. ou tinham sido bons alunos na escola. Esta visão conduziu a chamada teoria da correspondência, segundo a qual algunsgrupos são preparados para comandar a superestrutura, enquanto outras categoriassociais devem permanecer na infraestrutura.A escola seria o grande filtro, socializando os indivíduos de modo diferenciado.Em uma mesma sala de aula, o tratamento diferenciada do professor produz a elite e oproletariado.O professor, sem perceber, sendo também produto do sistema, estratifica a sala de aulae, com isto, contribui para reproduzir a ordem capitalista.Em 2002, pensando no caso brasileiro da eleição do presidente Lula, de origemhumilde, Bowles e Gintis reformularam suas teorias.Foram obrigados a admitir que a classe social não é o único fator que garante o sucessosocial, uma fez que, para além da herança cultural, os traços individuais dapersonalidade também exerceriam forte influencia no lugar a ser ocupado peloindividuo na sociedade.Sendo assim, vários fatores exerceriam influencia no sucesso social e econômico, pois aformação da personalidade está relacionada com as relações sociais do individuo compessoas de gerações anteriores, incluindo as relações estabelecidas entre professores ealunos.Em outras palavras, com quem o individuo se relaciona, a sua rede de contatos,influencia no sucesso ou fracasso profissional.As critica as idéias de Bowles e Gintis.Antes da reformulação teórica de 2002, Bowles e Gintis receberam algumas criticas.
    • Os sociólogos norte-americanos Karabel e Halsey, na obra “Poder e ideologia naeducação” (1978), chamaram a atenção para o fato da sociedade pós-fordista ser maiscomplexa do que enxergaram Bowles e Gintis.Karabel e Halsey acusaram os colegas de terem realizado um trabalho distorcido pelomarxismo, pois as raízes da desigualdade estariam além do capitalismo, tal comodemonstrado no caso da URSS.Em “Teoria social e educação” (1995), Murrow e Torres foram ainda mais longe,acusando Bowles e Gintis de defenderem uma visão determinista, deixando de lado aslições aprendidas com o colapso da URSS.O qual demonstrou como as personalidades individuais podem ser influenciadas pelasnecessidades coletivas.As pessoas não seriam reflexo da classe social da qual são originarias, mas sim dasnecessidades coletivas da sociedade.Todos seriamos aquilo que a sociedade faz de nós, conforme a necessidade que asociedade tem para funcionar, independente do sistema capitalista.Concluindo.Bourdieu e Passeron demonstraram como a escola é um elemento que cometediariamente uma violência simbólica, enquanto o capital cultural garante umdesempenho educacional melhor.Unindo as teorias de Bowles e Gintis com as criticas as suas concepções, podemosperceber que a escola é um espaço de contradições.O sistema educacional reproduz as desigualdades, mas é também um elemento queajuda construir uma sociedade mais justa.Religião e religiosidade no Brasil.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume ago., Série 29/08, 2010, p.01-06.
    • A religião e religiosidade expressam, mais que as crenças ou práticas, a culturacontemporânea, um emaranhado de significados simbólicos que permite entender o universodas idéias e mentalidades, os ritos do cotidiano, as relações sociais e as instituições políticas;enfim, permite entender a alma do povo brasileiro.Neste sentido, a análise do período colonial alcança as raízes da formação deste sistema decrenças.Uma realidade estudada com maestria através de ângulos, concepções teóricas emetodologias diversificadas, entre outros, por João José Reis, Anita Novinsky, Caio CésarBoschi e Ronaldo Vainfas.A miscigenação cultural, durante a constituição colonial, criou no Brasil um conjunto deelementos religiosos polissômicos, comunicando vários sentidos que deixam transparecer oeconômico, o social, o lúdico e o étnico.Um sistema cultural que espelha o sincretismo e a extrema capacidade adaptativa do povobrasileiro, capaz de absorver características externas e transformá-las.O papel da igreja católica.Em certo sentido, o achamento do Brasil esteve inserido dentro do ideal de cruzada presenteem Portugal.
    • Os lusos desbravaram os oceanos em busca de cristãos e especiarias, pretendendo encontrarriquezas que pudessem ser comercializadas e cristianizar o mundo.Portanto, a origem do processo de ocupação territorial da Terra de Santa Cruz, serviu, de certaforma, as intenções da igreja católica.Os portugueses que vieram para o Brasil estiveram inseridos no universo mental de seu tempoe espaço, partilharam o ideal de cruzada, adotando o catolicismo como insígnia do poder dacoroa.Diante desta concepção, todo o não católico foi considerado um inimigo em potencial, a nãoaceitação da fé em cristo foi considerada como contestação do poder do rei e afronta direta atodo português, uma motivação que incentivou, dentre outros fatores, o extermínio dosindígenas, vistos como pagãos e infiéis.Os verdadeiros donos da América foram diabolizados, ao contrário do que levaria supor oestereótipo do bom selvagem em voga ainda hoje, e que tantas vezes falseou a retratação dosameríndios quinhentistas.Uma imagem difundida por Rousseau no Discurso sobre a origem e os fundamentos dadesigualdade entre os homens, obra publicada na França em 1755.Uma posição adotada até mesmo por muitos jesuítas, tal como o padre Manuel da Nóbrega,conhecido por defender o direito de liberdade dos nativos cristianizados.Para ele, “se o gentio fosse senhorado ou despejado” de sua terra, “com pouco trabalho egasto”, a coroa portuguesa “teria grossas rendas nestas terras”; sendo necessário reduzir osíndios a “vassalagem”.Aqueles que resistissem deveriam ser exterminados, posição defendida por Nóbrega em cartaescrita na Bahia, endereçada ao padre Miguel Torres, presente em Lisboa, datada em 8 demaio de 1558.Dentro deste contexto, a construção de igrejas passou a delimitar a conquista territorial,garantindo a soberania do Estado perante os gentis, criando mecanismo de conversão forçadados nativos e aculturação em prol dos valores europeus.
    • Pelo prima dos indígenas, a alternativa foi partir rumo ao interior, entregando-se a movimentosmessiânicos como a busca da terra sem mal, abrindo espaço para a penetração lusitana.Uma outra saída, adotada principalmente pelos africanos, depois da introdução da escravidãonegra, foi maquiar suas crenças, disfarçando-as no culto de imagens e signos cristãos,compondo irmandades, nominalmente católicas, com intuito de facilitar a vida social.A religiosidade africana.Vigiados de perto por seus senhores e fiscalizados pelos eclesiásticos católicos, na qualidadede escravos, considerados utensílios de trabalho a semelhança de uma ferramenta, osafricanos foram obrigados a aceitar a fé em cristo como símbolo da submissão aos europeus ea coroa portuguesa.No entanto, a despeito da documentação existente sobre os ritos africanos ter sido produzida,quase sempre, por autoridades policiais ou da igreja, interessadas em desqualificar areligiosidade negra, reduzida a feitiçaria; a verdade é que elementos das religiões africanassobreviveram se ocultando em meio à simbologia cristã.Associações de caráter locais, as irmandades negras contribuíram para forjar a polissemia esincretismo religioso brasileiro.Impedidos de freqüentar espaços que expressavam a religião católica dos brancos, asirmandades representavam uma das poucas formas de associação permitidas aos negros nocontexto colonial.As irmandades negras surgiram como forma de conferir status e proteção aos seus membros,sendo responsáveis pela construção de capelas, organização de festas religiosas e pelacompra de alforrias de seus irmãos, oficialmente auxiliando a ação da igreja e demonstrando aeficácia da cristianização da população escravizada.Entretanto, ao organizarem-se, geralmente, em torno da devoção a um santo especifico, a qualassumiu múltiplos significados, incorporando ritos e cultos aos deuses africanos, permitiu onascimento de religiões afro-brasileiras como o acontundá, o candomblé e o calundu.
    • Muitos indivíduos que oficialmente cultuavam, por exemplo, São José, na capela erguida pelairmandade negra, dentro do âmbito do acontundá, clandestinamente dançavam em frente auma imagem semelhante ao som do tambor em casas simples com paredes de barro cobertasde capim, utilizando palavras extraídas de textos católicos, mescladas a um dialeto da Costada Mina (atual Gana).Um sincretismo que se tornaria típico do povo brasileiro, também presente no candomblé, ondeo rito do deus africano Coura e a devoção a Nossa Senhora do Rosário se fundiram,fornecendo um valioso exemplo da simbiose religiosa no Brasil.A aculturação da santa católica permitiu aos africanos cultuarem seus próprios santos comoutros nomes, forjando novas práticas religiosas.Foi este também o caso do calundu, um rito religioso de origem jeje, uma tribo do atual Benin,responsável por dar aos seus participantes um sentido para a vida e um sentimento desegurança e proteção em um mundo que parecia aos escravos incerto e hostil, o qualsobreviveu convertido ao culto a divindades católicas que foram incorporadas com outrosnomes ao candomblé.Não obstante, não foram apenas religiões africanas ou praticas religiosas indígenas quecontribuíram para a formação do sincretismo religioso brasileiro e sua simbologia polissêmica.É interessante lembrar que outros credos estiveram presentes no contexto colonial, tambémcolaborando para formar a cultura brasileira.Outros ritos e credos.Dentre uma das crenças que mais exerceu influencia na formação do sincretismo religiosobrasileiro, cabe destacar o papel desempenhado pelo judaísmo.
    • Perseguidos pelo Tribunal do Santo Oficio na Europa, os judeus sempre estiveram em situaçãode perigo iminente, sendo obrigados a converterem-se ao cristianismo em Portugal.Aos olhos do Estado os convertidos passaram a ser considerados cristãos-novos, vigiados deperto pela Inquisição, sofrendo preconceitos e perseguições esporádicas.Em muitos casos, judeus mantiveram suas crenças na esfera privada, adotando o catolicismocomo fé publica em oposição à prática oculta da religião de Abrão.Nenhuma lei obrigou os judeus a investirem na expansão ultramarina, todavia, quando se faziapatente à falta de recursos do Estado e a perseguição aos judeus era acirrada, os judeusdetentores de capital investiram tudo ou quase tudo que possuíssem nas novas rotas que eramabertas, ao que muitos migravam para as novas possessões a fim de escapar de perseguiçõesmais violentas.Em uma breve carta, um tanto danificada pelo tempo, endereçada a “El Rei”, datada apenasem 18 de maio, sem referência ao ano, tratando-se provavelmente de correspondência emitidana primeira metade do século XVI, D. Alvaro de Noronha, “Capitão Mor de Azamor”, fazreferência a um contrato feito com judeus, no qual a coroa havia se comprometido a doar “novemil alqueirez dentro em tresannos, tres mil cada anno”, no norte da África, em troca deinvestimentos.O Brasil se transformou na terra prometida para os cristãos-novos portugueses, compelidos amigrarem para novas terras em além-mar.
    • Foi uma saída viável à recusa da aceitação de sua fé no reino, tendo em vista o fato daInquisição nunca ter se instalado por aqui, embora tenham sido instituídas visitações do SantoOficio em 1591, 1605, 1618, 1627, 1763 e 1769.Alojados sobretudo na Bahia, em Pernambuco, na Paraíba e no Maranhão; os cristãos-novosrecém-chegados integraram-se rapidamente, ocupando cargos nas Câmaras Municipais, ematividades administrativas, burocráticas e comerciais, destacando-se também como senhoresde engenho, algo impensável em Portugal.Sem a Inquisição em seus calcanhares, os cristãos-novos continuaram a exercer práticasjudaicas no interior de seus lares, mantendo vivos os laços familiares e comunitáriosclandestinamente, ao mesmo tempo, adotando uma postura publica católica, respondendo auma necessidade de adesão, participação e identificação.Uma situação diversa dos cristãos-novos em Pernambuco ocupada pelos holandeses, quandoo exercício do judaísmo passou a ser aberto, com pessoas influentes freqüentando as duassinagogas de Recife e ocupando cargos de destaque na administração da cidade.Seja como for, para além dos judeus, há ainda a questão da influencia dos protestantes nosincretismo cultural brasileiro, um tema ainda pouco estudado e que merece maior atenção.
    • Existem dois momentos marcados pela presença de protestantes no período colonial.O primeiro circunscrito entre 1555 e 1560, com a fundação da França Antártida, na baía doGuanabara, por calvinistas huguenotes franceses que fugiam da perseguição na sua terra.O segundo, entre 1630 e 1654, justamente quando parte do nordeste esteve ocupada pelosholandeses, também calvinistas.O caldeirão religioso brasileiro.A expansão territorial portuguesa, durante o período colonial, foi acompanhada pela insígnia docatolicismo, símbolo da submissão dos indígenas e, posteriormente, dos escravos africanos aopoder da coroa portuguesa.Um processo que não aconteceu sem conflitos entre autoridades civis e eclesiásticas, entrecolonos e jesuítas, entre fiéis e infiéis, forjando um sincretismo religioso impar e representativoda cultura brasileira contemporânea.Sendo a fé em cristo imposta, indígenas foram exterminados sob pretexto de seremcatequizados, outros iniciaram uma fuga em busca de movimentos messiânicos que, séculosdepois, ainda estariam enraizados na mentalidade dos homens do povo, sempre dispostos aseguirem eremitas e milagreiros.Também não possuindo outra opção, os africanos escravizados foram obrigados a aceitaroficialmente os preceitos e dogmas da igreja católica, mas encontraram meios de ocultar seuspróprios ritos e credos dentro do sistema simbólico cristão, originando práticas religiosas afro-brasileiras.Compelidos a migrarem para o Brasil, os judeus adotaram uma estratégia um pouco diferente,aderiram a uma vida dupla, oficialmente aceitando o cristianismo, praticado perante os olhosalheios, voltando-se para a sua verdadeira fé no interior do lar, uma maneira de manter acoesão das famílias e comunidades hebréias através da tradição.Desta mistura rica de crenças, da qual fez parte até mesmo o protestantismo, nasceu àreligiosidade brasileira, apegada ao tradicionalismo católico e, simultaneamente, aberta etolerante a novas religiões.
    • Uma religiosidade dogmática, em certo sentido, perante a esfera publica geral, mas empírica esujeita a transformações de ordem mil dentro da privacidade individualizada de gruposmenores.A cultura brasileira e sua capacidade adaptativa é, sem dúvida, tributária do caldeirão religiosocolonial, efervescente e contendo em seu interior ingredientes paradoxais que, misturados,forjaram o sincretismo contemporâneo polissêmico típico da mentalidade brasileira.A distinção entre Ética, Moral, Direito e Justiça.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Volume mar., Série 03/03, 2012, p.01-06.Embora sejam conceitos distintos; Ética, Moral, Direito e Justiça; oferecem concepçõesestreitamente relacionadas, influenciando-se mutuamente.No entanto, o entendimento destas relações carece de clareza para com suas diferençasbásicas.A Ética e o Direito pretendem garantir a Justiça; apesar da Moral, em alguns contextostambém alardear este principio, a despeito de sua relação com o que é considerado justoser muito relativa, quase nunca atendendo o referenciado pelo conceito.O que configura um grande problema, porque o Direito deveria garantir a Justiça, mas éfortemente influenciado pela Moral estabelecida.Igualmente, racionalizando e tentando padronizar o comportamento humano, a éticapretende efetuar uma critica da Moral e, em certos casos, avança no campo do Direito.Porém, quase nunca garante que a Justiça se concretize, já que não tem poder decoerção, somente de coerção relativa.Portanto, qualquer que seja o referencial, a questão inicial e central remete ao queentendemos por Justiça.O conceito de Justiça.
    • Definir o que é justo não é uma tarefa fácil, vários filósofos e juristas já discutiram otema ao longo da história, sem chegar a um consenso.Até hoje, cotidianamente, magistrados se deparam com a problemática, em muitoscasos, tomando decisões que não correspondem necessariamente ao correto em termoséticos ou morais.O que acontece porque o conceito de Justiça pretende ser pautado pelo Direito, nemsempre vinculado com a Moral e, menos ainda, com a Ética.Em qualquer caso, para que a Justiça seja efetivada, para que o justo possa sergarantido, é necessário entender a concepção em sentido amplo e suas ramificações,respondendo a pergunta: afinal o que é a Justiça?A Justiça pode ser definida como a equidade, o equilíbrio de condições entre as pessoas;mas é também a garantia de participação na distribuição do poder entre os indivíduos.O que remete a origem de sua concepção nos primórdios da humanidade e às primeirascivilizações.A palavra Justiça deriva do sânscrito yòh, correspondendo à ideia religiosa de salvação;a partir de onde vem o radical, no mesmo idioma, ju (yu), significando ligar, evocar aproteção divina.Uma concepção em concordância com a subjetividade inicial da Justiça, pois osprimeiros agrupamentos humanos tiveram um viés igualitário entre seus membros, sem,no entanto, deixar de possuir uma hierarquia interna, comportando um paradoxoexistencial.A máxima do senso comum - “alguns são mais iguais que outros” - sempre existiudesde os primórdios da humanidade, já que a Justiça sempre foi relativizada,circunscrita à vontade dos deuses e seu teor metafísico, não concreto ou palpável.Razão que explica o fato da Justiça não ser pautada por normas escritas, mesmo quandoexistente, entre vários povos da antiguidade; sendo relativizada, aderente a Moralvigente e aos interesses das elites dirigentes.Problema que, em dados momentos, causou a revolta da população atingidadesfavoravelmente pela flexibilização da Justiça, cunhando o que, depois, seriachamado de Direito.É neste sentido que, entre os romanos, surgiu a Lex, a norma, a regra claramentedefinida, que deveria servir de padrão para as decisões que visam a Justiça.A própria origem da palavra regra simboliza o que a lei passa a representar; o termovem do latim reg, determinando a ideia de comando; de onde nasceu à expressãoregula;o fez derivar as palavras regra e régua, transmitindo a acepção de direção, referencialpara o comportamento.Portanto, a Justiça é, antes de tudo, garantia da possibilidade de convivência entredesiguais, tentando equiparar e padronizar respostas a problemas que se apresentam,forçosamente, na vida em sociedade.Entretanto, repleto de contradições, tornou-se necessário pautar parâmetros para balizaro julgamento do justo e injusto, raiz da Ética, da Moral e do Direito.O que suscita perguntar pela questão da felicidade.
    • É fato que a Justiça deveria estar atrelada a felicidade, o problema é que o Direito nãoestá preocupado em este elemento em âmbito geral ou individual.Muito menos a Moral está preocupada com a felicidade, embora tenha uma falsaaparência de preocupação com a harmonia coletiva.Portanto, cabe investigar o conceito de Direito e sua relação, não só com a Justiça, comotambém com a Moral e a Ética.O conceito de Direito.Ao pensar no Direito, um jurista definiria o termo como expressão do conjuntosistematizado de regras obrigatórias, de normas, de leis, de comandos, que determiname padronizam comportamentos.O Direito é uma Ciência interpretativa da lei, mas também normativa, impondo práticase atos, inserindo-se no contexto perpetuo da heteronomia, sem espaço algum para aautonomia do sujeito.Uma vez que o decidir fica circunscrito apenas ao magistrado, ou quando muito a umpequeno grupo de pessoas que, teoricamente, representariam o conjunto da sociedade, ochamado júri popular.É por isto que, do ponto de vista sociológico, o Direito, como apreciação do fato oufenômeno social, está subordinado a Moral, a imposição de parâmetros nem sempreracionalizados; vinculados com pressupostos de senso comum, míticos, religiosos,políticos, etc.Em suma, o Direito pretende ser Ciência, mas termina subordinado a critériossubjetivos, distantes da razão.Tendo como objeto a Justiça, pretende sistematizar o comportamento humano,fornecendo equidade entre os indivíduos, equilibrando a participação da distribuição dopoder, em vista da desigualdade entre as pessoas, principalmente sob a ótica do sistemacapitalista.Ocorre que, pertencendo ao Estado, não se isenta da influencia ideológica dos gruposhegemônicos; não atendendo sequer a meta de trazer felicidade coletiva, sob a desculpade harmonizar os conflitos de interesses entre os indivíduos.No Brasil, o Direito segue a tradição romana, implicando no fato de imputar aoindividuo a responsabilidade pela busca da felicidade.Na Roma antiga, quando alguém considerava que seu direito não estava sendorespeitado, tinha a incumbência de ele arrastar o infrator, por seus próprios meios, até oFórum e apresentar o caso ao magistrado para aguardar a sentença.O que fazia com que os cidadãos mais poderosos, com maior número de clientes -agregados sustentados por ele - detivesse em mãos a justiça, a capacidade de fazer valera lei.Concepção, dentro do capitalismo, transferida para o poder monetário que é capaz depagar os melhores advogados, peritos, detetives particulares, enfim, o suporte paraprovar a verossimilhança que sustenta a verdade.
    • O Direito é coercitivo, pune o infrator da norma estabelecida, porém, a lei não serve aocritério da felicidade ética, atendendo os interesses dos mesmos indivíduos que possuemrecursos para fazer cumpri-la, em detrimento do que seria considerado justo pelo prismaético.Destarte, o Direito atende também aquilo que é imposto pela Moral, complementandoas sanções que utilizam a coação, para coercitivamente obrigar o individuo a seguir anorma; colocando-se com centro do Pacto Social que permite a vida em sociedade.Por isto mesmo, a Moral, conforme se modifica, altera a legislação e a interpretação dasleis.A questão é que, hoje, a Moral é formada principalmente através dos meios decomunicação, que alteram e fixam mentalidades coletivas, transformando os hábitos desenso comum e compondo novas tradições.Uma tarefa que, em um passado não tão distante, já foi da religião e do sistemaeducacional.Não que estes tenham deixado de exercer influência, inclusive utilizando os meios decomunicação, mas na sociedade contemporânea perderam força para as mídias que semultiplicam e popularizam.Assim, os indivíduos que controlam os meios de comunicação acabam pautando,gradualmente, a Moral; exercendo direta e indiretamente influencia sobre o Direito,manipulado em favor dos interesses dos grupos hegemônicos.Portanto, será que o Direito de fato garante a Justiça? Será que propicia a efetivação doque é justo?Qualquer que seja a resposta, não garante a felicidade ética sob nenhum ângulo.É neste sentido que, filosoficamente, o Direito é expressão normativa do moralmenteinstituído, seguindo a tradição romana e vinculando-se com o positivismo.Tanto que, enquanto Ciência Humana, o Direito é Positivista, circunscrito ao poder dacoerção que resulta da força das leis, dos costumes institucionalizados.Opondo-se ao Direito Natural, aquele que é considerado como resultante da naturezados homens e suas relações, considerando as necessidades coletivas e individuais,independente das convenções morais ou interpretações do Direito Positivo.Estando mais vinculado com a Ética do que com outras esferas.Apesar do vinculo estreito entre Moral e Direito, devemos notar que são conceitosdistintos.A própria origem da palavra denota que o Direito - aquilo que não é torto, é legitimo ereto - pretende determinar objetivamente o que é certo, teoricamente, objetivando aobservância dos valores de convivência para harmonizar a sociedade.A Moral encontra grande proximidade com este conceito, porque também pretendeharmonizar, mas utiliza a coação para impor comportamentos padronizados, a puniçãonão passa de desaprovação e isolamento social; enquanto a norma, por não ser escrita, émais elástica.A Ética apresenta-se diante das duas concepções como possibilidade de repensarposturas.
    • Deveria servir de parâmetro para ajudar alcançar a justiça e, assim, a felicidade.No entanto, em uma sociedade que não sabe o que é Ética e não cultiva seuspressupostos básicos: será que consegue fazê-lo?Concluindo.Os juristas afirmam que o Direito é norma, forma, fato e costume; pretendendo fixa-lacomo garantia de Justiça.Porém, a amplitude conceitual do que pode ser considerado justo não é atendidaplenamente pelo Direito.A coerção exercida pela força das leis garante a observância do que, supostamente, éconvencionado pelo Pacto Social, em uma tentativa de harmonizar a sociedade e a vidacoletiva.A Moral utiliza a coação para, através da simples expectativa de punição social, fazer aspessoas se encaixarem em um padrão de comportamento público, não considerando ojusto ou a busca da felicidade.Já o Direito, embora também não considere a meta individual ou coletiva de busca dafelicidade, ao menos tenta efetivar a Justiça.Entretanto, para concretizar esta intenção, carece da Ética como instrumental.O problema é a influencia enorme exercida pela Moral, com a Ética sendo colocada emsegundo plano ou simplesmente ignorada.O real conceito de Justiça, fator de equilíbrio que une coesamente a sociedade e osindivíduos, está mais próximo da Ética do que do Direito, distanciando-se da Moral.Portanto, para que decisões e posturas justas sejam possíveis, antes é necessário terclaro os preceitos e a reflexão ética.Teoria e Práxis: o bem e o mal.Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. mar., Série 24/03, 2012, p.01-07.Embora pareçam termos que expressam conceitos antagônicos, teoria e práxis secomplementam no âmbito da ética.
    • A despeito de Ciência normativa, a ética não é tão maniqueísta como moral,comportando um relativismo que carece da relação dialética entre teoria e práxis paradeterminar o que é bom e o considerado mal.A moral, condicionada pelo tempo e espaço de forma mais evidente, possui fronteirasentre bem e mal, paradoxalmente, bem delineadas; sobretudo devido a seu vinculo como senso comum e dogmas religiosos.Razão pela qual Nietzsche propôs o conceito de niilismo libertador, voltar à estaca zero,eliminando concepções pré-concebidas, para determinar o certo e o errado, seminterferência do não racional.O pensador não matou Deus, como se costuma normalmente afirmar, tentou eliminar areligião enquanto instituição social, normatizadora da vida dos indivíduos, propondouma ética niilista, vinculada ao que, depois, seria a junção da teoria com a práxis.Práxis contemporânea.Contemporaneamente, Hegel resgatou o conceito de práxis grega, no século XIX,acompanhado por Feuerbach, quando o absoluto e a ideia de Deus foi substituída pelohomem real, dotado não só de razão, como também de vontade e sentimentos.A ética tornou-se relativa, sofrendo interferência dos aspectos humanos, carecendo deteorização e da racionalidade, mas também da práxis.Concepção amplamente desenvolvida pelos teóricos marxistas ao abordarem o conceitode consciência de classe, organizada pela práxis revolucionária.É neste sentido que, pra Karl Marx, a relação entre teoria e práxis é expressa comoteoria e prática, com a primeira servindo de guia para a ação e a segunda comofomentadora da atividade revolucionária.Para ele, a teoria, ao estudar a realidade, pode mostrar as contradições do sistemacapitalista.Porém, uma revolução só acontece quando os indivíduos vivem a contradição.Nada adianta teorizar sobre o causa a pobreza e a fome, sem que as pessoas sintam osseus efeitos, pois somente a vivencia da prática gera revolta.Esta dita revolta, sem orientação teórica, não surtiria efeito, a ausência de teoria deixa aspessoas sem saber o que fazer e para onde ir para tentar resolver o problema.
    • A teoria depende da prática e vice e versa.No entanto, no âmbito da ética, entender como a prática altera a teoria e como estaorienta a prática, pautando o relativismo da fixação do certo e errado, carece de umadiscussão mais ampla, passando inicialmente pelo conceito de teoria e de práxis.A concepção de teoria.Antes de entender o que é práxis, é preciso compreender pormenorizadamente aconcepção de teoria.O termo vem do grego, significando, originalmente, “visão de um espetáculo”, uma“visão intelectual”, que pode ser resumido pela palavra “propriamente” ou“especulação”; a partir do que adquiriu o sentido de “construção especulativa”, que ligaprincípios e consequências.Na antiguidade, quando um grego usava a palavra theoria referia-se a contemplaçãoreflexiva de um conjunto, uma visão geral sobre o que era observado e entendido pelosujeito.A origem mais remota do termo designava uma festa solene, uma espécie de procissãoque seguia de algumas cidades gregas para a sede dos jogos olímpicos ou para consultaro oráculo.Os jogos olímpicos simbolizavam resolução de disputas entre interesses das cidadesrepresentadas, através de resultados nos esportes.A theoria era o ato de se fazer representar para provar que determinada cidade eramelhor que as outras.O oráculo era um intermediário com o divino, respondendo dúvidas humanas.A theoria era o rito de fazer-se representar para resolver as inquietações.Portanto, teoria significava uma representação de parte do conjunto da sociedade,envolvendo disputa de opiniões.A theoria grega simboliza uma opinião que busca resolver uma inquietação, umproblema; demonstrando uma visão de conjunto que é tributário da reflexão estimuladapela observação da realidade.Segundo André Lalande, a teoria opõe-se a prática na ordem dos fatos, sistematizandoconhecimento desinteressado, independente de sua possível aplicação; constituindo umaconcepção metódica e organizada do mundo.É também uma construção hipotética que tenta explicar a realidade, sintetizando fatospor meio de hipóteses verossímeis, sustentando uma opinião que é válida até que outrateoria demonstre sua incoerência.Dentro do contexto da normatização de comportamentos, a teoria é o que caracteriza odireito puro, o bem ideal, distinto do que é considerado correto pelo senso comum e amoral estabelecida.
    • Concepção que comporta uma acepção pejorativa, qualificando a teoria como umaconstrução artificial, que pode não passar de uma disputa bem articulada que convenceo maior número de interlocutores, mas que poderia estar desvinculada do concreto.Outro sentido pejorativo nomeia a teoria como uma simplificação do observado, quecorresponde ao imaginado ou percebido, não aquilo que é de fato.Respondendo as objeções, o aprimoramento do entendimento do significado de teoria,que começou no século XVIII e intensificou-se nos séculos XIX e XX; passou adefender a ideia de hipótese verificada depois de submetida ao raciocínio e a criticaexperimental.Vinculada com a Ciência, a teoria é entendida como sistematização rigorosa dosfenômenos, comprovada pela prática ou indícios de aplicação concreta.O que exigiria constante readequação para corresponder com as novas descobertas,resistindo a verificações e aquilo que se entende como real ou possível.Ponto de intersecção da teoria com a práxis; pois no âmbito da ética enquanto Ciência,para que as concepções teóricas sejam uteis ao individuo e a coletividade, aplicáveis naprática; seria necessário estabelecer um dialogo permanente entre as duas esferas,permitindo a readequação do considerado correto de acordo com o sentido de bem emoposição ao mal.A concepção de práxis.Segundo André Lalande, a despeito do termo práxis, etimologicamente, significar“ação” ou “atividade”; contemporaneamente, o uso da palavra é conhecido pela acepçãohegeliana e, principalmente, marxista; correspondendo a uma ação coletiva, técnica,econômica, social ou ideológica fundamentada na prática que modifica a teoria ouconfirma hipóteses.Em um sentido especifico, a práxis, como construção cientifica que se opõe aoembasamento teórico ou especulativo filosófico, é tida como teoria verificada pelaprática e que pode ser reproduzida através de experimentos.Entretanto, a práxis, mesmo aplicada ao contexto marxista, é mais complexa, não seresume a teoria que pode ser concretamente verificada ou pura e simplesmente comosinônimo de prática.Segundo Adolfo Sánchez Vasquez, o termo práxis transcende seu significado gregopertinente à antiguidade, evoluindo até compor uma concepção complexa.O sendo comum conhece a expressão “é de praxe”, significando o que se praticahabitualmente, aquilo que é usado, faz parte da rotina ou tradição.A palavra praxe tem a mesma origem etimológica e guarda relação com a ética e amoral, mas não possui o mesmo significado que o termo práxis.São palavras distintas, com acepções, igualmente, diferentes.Uma definição de dicionário diria que práxis corresponde a uma visão filosófica,utilizada na linguagem marxista, significando um conjunto de atividades que podemtransformar o mundo.
    • Seria sua função informar os indivíduos sobre as causas e condicionantes das estruturassociais, mostrando na prática as contradições e conduzindo a um processorevolucionário em beneficio da implantação do socialismo, uma vida coletivizada emdetrimento do individualismo capitalista.A origem do termo é muito mais remota do que comporta esta definição simplista epontual.Na antiguidade, para os gregos, a práxis designava a ação propriamente dita, motivopelo qual fez surgir em língua portuguesa à palavra prática.No entanto, o sentido de prática em português não expressa à práxis filosófica, poisdesigna uma ação que caracteriza algo pensado e que possui um caráter utilitário.Algo sempre é considerado prático porque é útil, direto, concreto, resolve o problema deimediato, fornece uma resposta na hora.A práxis grega vai além do que é prático, significa a ação de levar a termo, concretizarum pensamento.Configura um ato que tem seu fim em si mesmo, não cria ou produz um objeto externo.Um exemplo de práxis é o comportamento ético que cultiva a virtude pela virtude, pelosentimento de satisfação do sujeito consigo mesmo, sem ser gerada por motivaçõesexternas, a exemplo da moral, ou pretendendo externalizar um efeito virtuoso.A grosso modo, a práxis determinaria que andar deveria ser motivado unicamente peloprazer de caminhar, não para chegar a algum lugar ou desenvolver uma melhor formafísica.É neste sentido que Adolfo Sánchez Vázquez afirma que o trabalho de artesão não épráxis, mas sim prática, já que o objeto produzido existe fora do agente e da ação.Para o grego, o artesão fabrica algo usando a técnica e não a práxis.A ação que produz algo fora do agente e da ação, para a filosofia, é a poésis, palavraque significa “produção” ou “fabricação”.Em sentido amplo, hoje, a práxis vai além de seu significado original grego e transcendeo que entendemos por prática.A práxis designa uma atividade consciente e objetiva, não produtora ou voltada àfabricação, mas transformadora de ideias, caracterizando uma operação intelectual ativae fomentadora.Práxis Ética e Teoria.Entendendo a práxis como atividade interpretativa sobre a realidade que, ao efetivar-se,termina em si, transformando o objeto de analise; a sua relação com a teoria podeparecer distante, mas não é.Devemos lembrar que a práxis é uma ação que está em si mesma, que se desdobra dedentro para fora, possuindo forte vinculo com a ética.Um exemplo de práxis ética é cultivar a verdade, não pelo efeito que possui para osujeito ou a sociedade, mas pela sua natureza reveladora e seu desdobramento interior.
    • Uma verdade pode ser prejudicial ao outro ou para a sociedade, em primeiro momento,prejudicando o sujeito que reflete, porém, deixa a consciência limpa, faz bem aocoletivo em sentido amplo e a própria pessoa.Ao mesmo tempo, uma mentira leva a outras e tem consequências imprevisíveis,compondo uma teia que prende o sujeito e força a se comportar de forma não racional.Assim, cultivar a práxis ética da verdade, por ela mesma, simplifica a vida e aproxima oindividuo da eudaimonia.Neste sentido, a práxis deveria acompanhar a teoria, condicionando sua base desustentação e as concepções éticas em voga.Isto porque a práxis também é relativa, respondendo as necessidades do sujeito, dooutro e do coletivo; atendendo o ideal de liberdade e responsabilidade por si só.A questão é que o conceito de liberdade ou responsabilidade também é relativo econdicionado pelo tempo e espaço, relativizando a práxis.Cultivar a liberdade por ela mesma implica em responder o que é considerado ser livre,algo relativo e, conforme a interpretação, condicionando à práxis.O que remete a conceituação de bem e mal no âmbito da ética, já que a dita liberdade eresponsabilidade conduz às ações éticas, pautando a relação entre teoria e práxis.Em outras palavras, a teoria serve de guia para a práxis, tentando contornar suasubjetividade e relativismo.A concepção de bem e mal.Nem sempre, ao longo da história da humanidade, as ações forma julgadas como sendoboas ou más, comportando uma dualidade que esteve presente nas religiões primitivas,com entidades que representam, simultaneamente, o bem e o mal.Neste contexto, o ato tinha maior proximidade com a práxis, pois não pretendia alcançarum fim fora de si mesmo, não tencionava satisfazer um juízo de valor.É por isto que o conceito de ética grego estava vinculado com a práxis, não atendendo aimposição do socialmente desejado, perseguindo a eudaimonia.Porém, a humanidade tornou-se governada por um dualismo que não comporta supostascontradições, em grande parte tributário do maniqueísmo, termo que iria se tornarsinônimo desta nova forma de pensar.No século III d.C., o persa Manes - nome latinizado-, vivendo no que atualmente é o Irã,criou uma religião que, apesar de não existir mais, influenciou fortemente a lógica depensamento humano.Influenciado por Zoroastro, fundador da primeira religião monoteísta da história, noséculo VII a. C, que possuía todos os elementos que, posteriormente, seriam assumidospelo cristianismo; tal como o conceito de paraíso, juízo final, ressurreição e a espera porum messias.Manes propôs a dualidade entre luz e trevas como centro da espiritualidade.
    • Incorporou supostos ensinamentos de Buda e Jesus Cristo, estabelecendo uma religiãonova dentro do seio do cristianismo, então já sob controle do Império Romano em suafase de decadência política e militar.Uma tendência que foi considerada herética e perseguida até desaparecercompletamente na Idade Média, mas que, conhecida como maniqueísmo, enquantoextensão de seu fundador Manes, dividiu a valoração, necessariamente, entre boa ou má.Em termos ético, pautando decisões em volta de uma finalidade especifica: normatizarcomportamentos em torno da prática do bem em oposição ao mal.O que criou um problema para a práxis ética, uma vez que pretende transformar emsentido evolutivo, sem possuir finalidade externa, ao passo que a busca de padrões deboas ações constitui um objetivo a parte do ato em si mesmo.Concluindo.A práxis é essencial para ética, pois permite garantir a racionalização das ações,independente da valoração entre bem e mal, em grande medida imposta pela moral. No entanto, não consegue fugir totalmente do relativismo, respondendo anseios éticosmaniqueístas, marcados pela dualidade que força o sujeito a escolher sempre entre doiscaminhos: o bem ou o mal.O que é diferente do certo e errado, dualidade que acaba sofrendo também influência domaniqueísmo, não permitindo enxergar que existem ações que podem ser boas e más aomesmo tempo, assim como certas ou erradas simultaneamente.Um bom exemplo poderia ser o caso de um soldado que é ensinado a obedecer ordens,valoradas como seu dever para com a pátria e a coletividade; enquanto esta premissapode exigir o cumprimento de ordens que configuram atos contrários ao que o sujeitoconsidera ético, opondo-se a ação correta como ser humano, membro de umacoletividade maior.Centro de um conflito interno do sujeito, que a ética tenta resolver através da práxis,mas que nem sempre consegue solucionar quando entrelaçado com a moral ou o Direito.Em outras palavras, a práxis ética, somada ao contexto teórico, serve de guia para que oindivíduo possa balizar suas ações, no entanto, a racionalização sozinha não consegueatender aos anseios e responder as perguntas no interior do sujeito.Dotado de sentimentos, o sujeito não é só guiado pela racionalidade transformada pelapráxis ética.