Análise crítica de comentários sobre o livro de Rute

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Análise crítica de comentários sobre o livro de Rute

  1. 1. DILEAN BAPTISTA DE MELO SOUZAANÁLISE CRÍTICA DE COMENTÁRIOS SOBRE O LIVRO DE RUTE Monografia apresentada ao Prof. Dr. Carlos Osvaldo Cardoso Pinto em cumprimento parcial dos requisitos da matéria Trabalho de Conclusão de Curso CURSO DE BACHAREL EM TEOLOGIA SEMINÁRIO BÍBLICO PALAVRA DA VIDA Atibaia 2008 1
  2. 2. SUMÁRIO Páginas1. INTRODUÇÃO ............................................................................... 12. O LIVRO DE RUTE – BASES INTRODUTÓRIAS PARA UMAAVALIAÇÃO CONSERVADORA. ............................................................. 5 2.1. Contexto Histórico ................................................................................... 5 2.2. Data de Composição e Autoria ................................................................. 6 2.3. Estrutura Literária ................................................................................. 12 2.4. Propósito e Mensagem .......................................................................... 163. ABORDAGEM PRAGMÁTICA ......................................................... 18 3.1. Carlos Mesters ...................................................................................... 18 3.2. Panorama da obra................................................................................. 19 3.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-teológica do autor ...... 20 3.4. Influência da posição hermenêutico-teológica na abordagem pragmática . 314. ABORDAGEM EXEGÉTICA ............................................................ 33 4.1. Joyce Elizabeth W. Every-Clayton ........................................................... 33 4.2. Panorama da obra................................................................................. 34 4.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-teológica do autor ...... 36 4.4. Influência da posição hermenêutico-teológico na abordagem exegética .... 40 2
  3. 3. 5. ABORDAGEM DEVOCIONAL ......................................................... 42 5.1. Ricardo Gondim Rodrigues..................................................................... 42 5.2. Panorama da obra................................................................................. 44 5.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-teológica do autor. ..... 46 5.4. Influência da posição hermenêutico-teológico na abordagem devocional. . 486. ABORDAGEM TIPOLÓGICA .......................................................... 50 6.1. Norbert Lieth ........................................................................................ 52 6.2. Panorama da obra................................................................................. 52 6.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-teológica do autor. ..... 54 6.4. Influência das pressuposições na abordagem tipológica .......................... 607. CONCLUSÃO ............................................................................... 628. BIBLIOGRAFIA ............................................................................ 65 3
  4. 4. 1. INTRODUÇÃO Não é difícil encontrar em uma livraria evangélica ou na internet umcomentário bíblico. Existem dos mais variados, desde os comentários versículo porversículo, que oferecem ao leitor os resultados de um trabalho profundo de críticatextual, até aos mais simples, que dão somente uma visão superficial e panorâmicados livros bíblicos. Outros dois fatores que influenciam diretamente os comentáriosbíblicos são a posição teológica do autor e o propósito do autor ao oferecer seu textoaos leitores. A situação não é diferente com o livro de Rute, que escolhemos comotema para o trabalho. É possível encontrar comentários inseridos em grandes obrasexegéticas, mas também livretos com comentários sucintos e superficiais. Com este trabalho queremos oferecer ao leitor uma contribuiçãopara ajudá-lo a avaliar de forma crítica a grande variedade de publicaçõesevangélicas disponíveis no mercado. Queremos que o leitor se desperte para filtraras informações à luz do conhecimento advindo da boa interpretação da Palavra.Interpretar corretamente o texto bíblico é importante para todos os que desejamaplicá-lo devidamente à sua vida e é essencial aos ministros de Deus, que devemoferecer alimento sólido da Palavra àqueles que Deus confiou em suas mãos. 1
  5. 5. Muito tem sido escrito sobre o livro de Rute. Por ser uma novela, suahistória é usada para ilustrar e dar força a movimentos que visam ações sociais epolíticas. Também é usado para o encorajamento de pessoas que se encontram emdiversas situações de sofrimento, e ainda para ilustrar o plano salvífico de Deus aolongo da história. Certamente há obras que têm trazido boas contribuições.Encontramos também obras com aplicações para a atualidade, mas muitas vezes acusta de um trabalho regido somente por ideais sócio-políticos ou em defesa deposicionamentos teológicos, sem levar em conta a historicidade do livro e amensagem de Deus para o leitor de Rute. Escolhemos avaliar os comentários do livro de Rute escritos porquatro autores com posições hermenêutico-teológicas e propósitos diferentes. Paravalidar a posição hermenêutico-teológica em cada abordagem, são aplicadas quatroregras gerais de hermenêutica: (1) literalidade da interpretação – a busca porcompreender o texto de forma natural, na tentativa de identificar o sentido primáriodo texto para seu compositor e seus leitores originais, sem alegoria ou busca por umsentido oculto; (2) contexto histórico-cultural – determinação dos valores e costumesda época em que foi escrito o livro bíblico; (3) gramática – estudo da língua original,valendo-se do estudo de vocábulos e análise sintática do livro; (4) interpretaçãoteológica – a procura por encaixar o livro estudado no todo da Escritura Sagrada,mostrando como o livro se insere no desenvolvimento progressivo da revelaçãodivina. Para um dos comentaristas escolhidos, é preciso considerar umainterpretação específica denominada hermenêutica tipológica, que tem por objetivo 2
  6. 6. traçar correlatos entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento com base emprefiguração (tipo) e seu cumprimento (antítipo). Nas quatro críticas, toma-se o texto do capítulo três do livro de Rutepara uma análise crítica mais detalhada, embora nem todos os autores preocuparam-se em fazer uma exegese do texto. O corpo do trabalho divide-se em cinco capítulos. O primeiro capítulodá uma introdução conservadora ao livro de Rute e oferece as bases para umaavaliação crítica dos comentários, levando em conta os princípios hermenêuticosacima citados. O segundo capítulo analisa a abordagem pragmática proposta pelateologia da libertação, revelando os pressupostos teológicos e seu uso nahermenêutica bíblica. No terceiro capítulo, avaliamos a abordagem exegética, que sevale dos princípios hermenêuticos, e mostramos como um bom trabalho dehermenêutica faz um comentário ser atual e aplicativo para o leitor contemporâneo.O quarto capítulo avalia uma abordagem devocional, em que o autor impõe ao livrode Rute suas impressões pessoais, sem se valer de um estudo dedicado da Palavrade Deus. No quinto e último capítulo, analisamos a tendência comum a muitosinterpretes de criar uma ponte entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento peloestudo tipológico, um princípio hermenêutico válido, mas que possui regras quedevem ser observadas quando usado. 3
  7. 7. Auxiliado pelo exemplos apresentados no decorrer deste trabalho,espera-se que o leitor encontre percepções úteis para a análise crítica de outrasobras. 4
  8. 8. 2. O LIVRO DE RUTE – BASES INTRODUTÓRIAS PARA UMA AVALIAÇÃO CONSERVADORA. O livro tem como título o nome da personagem principal, umamoabita chamada Rute. A etimologia do nome é incerta, mas sugere-se umaassociação à palavra hebraica tW[r> que significa “amizade, companheirismo,associação” e tem sua raiz na palavra h[r .2.1. Contexto Histórico A história inicia com um casal efrateu de Belém de Judá, Elimelequee Noemi. Para fugir da fome que assola a sua terra no período em que os juízesjulgavam Israel, eles emigram com a família para Moabe, território ao sul de Israel.Lá seus dois filhos se casam com as moabitas Rute e Orfa. Após um tempo, morremElimeleque e seus dois filhos. Na narrativa bíblica, o período dos juízes nos revela que o povo deIsrael enfrentava um constante ciclo de apostasia, que gerava desordem religiosa e,conseqüentemente, desordens sociais e morais. Mantendo-se fiel à Aliança, Yahwehcastigava o povo pela rebeldia e, após o castigo, levantava um juiz que livrava osisraelitas da opressão e das desordens. 5
  9. 9. O livro de Juízes nos conta que, após a morte de Josué, os israelitasficaram sem liderança nacional. Depois de morrer toda a geração que viu os feitosrealizados pelo Senhor com Josué, o texto sagrado nos diz que “... surgiu uma novageração que não conhecia o Senhor ...” (Jz 2. 10). O início do livro de Rute retrataum dos períodos de rebeldia desse povo. Porém, diferente do livro de Juízes, quedestaca as lutas armadas do povo contra os inimigos, Rute mostra osacontecimentos no núcleo familiar. Estabelece também um contraste, mostrandojudeus fiéis à Aliança de Yahweh e até mesmo uma moabita que se mantém fiel àsua família e ao Deus da sua família durante um tempo de rebeldia. Joice Every-Clayton nos diz que o livro ... tem a ver com a ação de Deus durante o período dos Juízes. Foi um período político um tanto confuso, permeado de idolatria, violência, fome e imoralidade. Nesse contexto, o livro de Rute relata a história de uma pequena família. Mas uma família é a célula na qual age o Deus da história; como conseqüência, o livro e a história da família de Rute também abordam assuntos de vida nacional e vida religiosa.12.2. Data de Composição e Autoria Uma das maiores dificuldades encontradas para a datação do livro éo intervalo de tempo entre os primeiros três capítulos, que nos apresentam os fatossucessivos da vida de Rute até o nascimento de seu filho Obede − fatosdeclaradamente datados do período dos juízes de Israel − e o final do quartocapítulo, onde encontramos a genealogia de Davi, bisneto de Rute. O início do livro1 EVERY-CLAYTON, Joyce W. Rute. Curitiba: Encontrão, 1993. p.11 6
  10. 10. determina o período em que aconteceram os fatos narrados, mas não a data final decomposição do livro. É difícil estabelecer com exatidão a data dos acontecimentos, massabemos que é “Nos dias em que julgavam os juízes” (cf. 1.1). Os fatos ocorrem,portanto, em algum momento dentro de um período de aproximadamente 330 anos,aproximadamente de logo após a morte de Josué (c. 1387 a.C.) até o começo do 2reinado de Saul (c. 1050 a.C.). Como no começo do primeiro capítulo encontramos um período defome, entendemos que os acontecimentos iniciais deram-se em um dos intervalos deapostasia do povo de Israel, enquanto que a volta para Belém e os capítulossucessivos deram-se em tempo de paz. Uma das possibilidades é que osacontecimentos sejam da época entre Jefté e Sansão.3 Reese, em sua BíbliaCronológica, situa o livro de Rute entre Eúde e Débora. Reese nos dá uma dataprovável para os acontecimentos, entre 1268 e 1251. 4 Na tentativa de datar os acontecimentos do livro, alguns cálculos têmsido feitos também de acordo com a seqüência das gerações do capítulo quatro. Não2 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e desenvolvimento no Antigo Testamento: estruturas e mensagens dos livros do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006. p. 220-223.3 WALTON, John H. Comentário bíblico Atos: Antigo Testamento. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003. p. 285.4 REESE, Edward. The Reese chronological Bible. Minneapolis: Bethany House Publishers, 1980. p. 395 7
  11. 11. temos, porém, uma data conclusiva, apenas suposições e tentativas de encontraruma data que seja condizente com a historicidade do livro. A genealogia no fim do livro nos deixa claro que, apesar de narrarum acontecimento da época dos juízes, a data de composição do livro de Rute écertamente posterior ao nascimento de Davi e, possivelmente, posterior à suacoroação como rei de Israel. Considerando que Davi começou a reinar em Judá porvolta de 1010 a.C., e sobre todo o Israel por volta de 1004 a.C., a composição finaldo livro não deve ser anterior a essa data. É mais provável que a composição final dolivro date do inicio do reinado de Davi em todo Israel. Archer diz que se a composição final do livro fosse posterior aoreinado de Davi, Salomão, seu filho tão famoso, deveria ter sido mencionado5, o quenão ocorre. Pratt concorda com Archer e acrescenta que “Parece mais provável queas genealogias de Rute se estendessem até o rei que governava na época daredação final. Se esse é o caso, o livro chegou à sua forma final antes da ascensãode Salomão ao trono”.6 Carlos Osvaldo Pinto nos dá outro argumento a favor de umadata mais recuada, “... a atmosfera amistosa nas relações entre Israel e Moabe, algoimpensável depois da cruel servidão imposta aos moabitas pelo reino do Norte”.75 ARCHER, Gleason L. Jr. Merece confiança o Antigo Testamento: panorama e introdução. São Paulo: Vida Nova, 1974. p. 3146 PRATT, Richard L. Jr. Ele nos deu histórias: um guia completo para a interpretação de histórias do Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 3357 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Op. Cit. p. 242 8
  12. 12. Outro argumento para a datação é a posição do livro na LXX. Apesarde na Bíblia hebraica estar entre os cinco megillôt, motivo que leva alguns teólogos anão considerarem o livro como histórico8, na LXX ele aparece logo depois de Juízes,entre os livros históricos. Morris nos diz que, quanto à data da ordem dos livros naLXX, ... é bem antiga. A maioria concorda em que é nossa evidencia mais antiga. Nesta ordem, Rute é colocado entre os livros históricos, imediatamente após Juízes. Gerleman observa que o mesmo acontece com outras antigas versões; ele vê nisto a comprovação da antiga tradição judaica segundo a qual Rute tem íntima relação com os livros históricos.9 Mas não só a LXX coloca o livro de Rute entre os livros históricos doAntigo Testamento. A lista hebraico-aramaica dos livros do Antigo Testamento dadano MS.54 da Biblioteca do Patriarcado Grego em Jerusalém ordena os livros daseguinte forma: Gênesis, Êxodo, Levítico, Josué, Deuteronômio, Números, Rute, Jó eJuízes.10 Outro argumento é o estilo literário.11 Morris diz que Myers classificaRute “...entre as narrativas ... do Pentateuco ... e afirma: ‘A simplicidade da própriahistória, as frases curtas mas impressionantes, usadas como seu veiculo, e as figuras8 Veremos essa argumentação no capítulo Abordagem Pragmática. Os outros quatro livros são: Ester, Cânticos de Salomão, Eclesiastes e Lamentações.9 MORRIS, Leon. Rute: introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1986. p. 214.10 Idem, p. 21511 Trataremos a questão do estilo literário mais adiante. Por hora, citaremos apenas como argumento para uma datação mais antiga. 9
  13. 13. e imagens gerais criadas na mente do leitor levam-nos a classificar a obra entre aliteratura antiga de Israel’”.12 Os teólogos liberais tentam defender uma data mais recente usandoargumentos baseados na linguagem do livro. Eles creditam ao livro aramaísmos epalavras características de época posterior: ... näSä näšîm (1:4), lähën (1:13), o verbo `äGan (1:13), märä em lugar de märâh (1:20), `änâh B• (1:21), miqreh (2:3) Ta`ªbûrî (2:8), yiqcörûn (2:9), TidBäqîn (2:21), yäradTy (3:3) šäkäbTy (3:4), Ta`ªSîn (3:4), marG•löt (3:7, 8, 14), Tëd•`in (3:18), P•lönî ´almönî (4:1), qayyëm (4:7), šälap na`ªlô (4:7).13 Porém, isso não é de forma alguma um argumento conclusivo parauma data mais recente. No verso 13 do capítulo 1 temos a palavra !hel que emaramaico significa “portanto”14, mas a mesma palavra existe em hebraico e significa“pois, por isso”15. Archer ainda diz que poderia ser “... ‘para elas’, no sentido de‘para estas (coisas)’”.16 Quanto a palavra märä´ em lugar de märâh Archer afirma oseguinte: Embora seja verdade que mara ‘amarga’ tenha sido soletrada pela maneira aramaica, o equivalente hebraico, com som idêntico, só teve uma leve diferença de ortografia. Além disto, têm surgido a lume inscrições que12 MORRIS, Leon. Op. Cit. p. 22013 Idem, p. 216.14 HARRIS, R. Laird; ARCHER, Gleason L. Jr.; WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Tradução: Márcio Loureiro Redondo; Luiz A. T. Sayão; Carlos Osvaldo Cardoso Pinto. São Paulo: Vida Nova, 1998. Verbete !hel p. 170615 HARRIS, R. Laird; ARCHER, Gleason L. Jr.; WALTKE, Bruce k. Op.Cit. Verbete !hel p. 77316 ARCHER, Gleason L. Op. Cit. p. 315 10
  14. 14. remontam até o nono século a.C., evidenciando ortografias hebraicas e aramaicas no mesmíssimo texto ...17 Contudo, o livro apresenta formas bem primitivas do hebraico. Myers faz uma lista de arcaísmos. Menciona como formas arcaicas dignas de nota as seguintes: tidBäqîn (2:8, 21), yiqcörûn (2:9), yiš´ªbûn (2:9), w•yäradTy (3:3), w•šäkäBty (3:4), ta`ªSîm (3:4), Tëd•`in (3:18), qänîtäy (4:5).18 Para Morris e Myers, é mais fácil explicar palavras mais recentes emdocumentos mais antigo do que o contrário, pois “... a Bíblia Hebraica toda passoupelas mãos de editores judeus ...”19 Visto que as expressões mais novas não formam a base dalinguagem do livro, mas prevalece uma forma mais primitiva, o fato de editoresconformarem algumas partes do livro a padrões ortográficos mais recentes explicariao uso de palavras recentes no livro de Rute. O livro é anônimo. Diante da autoria incerta, a tradição judaicaaponta para Samuel como autor do livro20. Outro fator que leva a creditar a autoria aSamuel é sua escrita muito similar à de Juízes e os livros de Samuel. Porém, aautoria de Samuel não parece ser a mais provável, pois a data da composição finaldo livro seria então do período em que Davi era fugitivo de Saul.21 Duas outrassuposições de autoria são levantadas. A primeira diz respeito aos cronistas-profetas17 ARCHER, Gleason L. Op. Cit. p. 315.18 MORRIS, Leon. Op. Cit. p. 22019 Idem. p. 22120 Idem, p. 21321 PINTO, Carlos Osvaldo C.Op. Cit. p. 241 11
  15. 15. Natã e Gade, mencionados em I Crônicas 29.29, que registraram os fatosrelacionados à vida do rei Davi22. A segunda é que um mestre narrador tenha sidoencarregado de registrar a história do rei Davi, tanto seus feitos como rei como os desua ascendência.2.3. Estrutura Literária O livro de Rute é uma novela breve. Uma poesia idílica “... altamenteartística em estilo e estrutura.”23 House acrescenta que “O livro inclui todos oselementos de uma excelente literatura: personagens fortes, desenvolvimento deenredo que inclui suspense e resolução, uso interessante do ambiente e técnicasutil.”24 O autor de Rute, embora desconhecido, deixou-nos uma obradestacada “... pela sua condensação, pela nitidez de seu vocabulário, pelaversatilidade de sua linguagem, pela proporção equilibrada de suas cenas e,sobretudo, pela vivacidade e integridade de suas personagens principais”.25Provavelmente, ele se preocupou com o fato de que o livro seria lido perante umagrande audiência, conforme o costume judaico e, portanto, deveria manter a atençãotanto do leitor como de seus ouvintes.22 Como seus escritos não foram preservados, torna-se impossível dar certeza quanto a essa hipótese.23 PINTO. Carlos Osvaldo C. Op. Cit. p. 24224 HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2005. p. 58225 SASSON, Jack M. Rute in: ALTER, R. e KERMODE, F. Guia literário da Bíblia. São Paulo: UNESP, 1997. p. 344 12
  16. 16. A narrativa de Rute flui de forma simples e objetiva, sem perder seuencanto e excelência literária. Toda a narrativa é serena e agradável, com diálogosem vez de somente descrições, dando cor e brilho ao livro. O diálogo predomina nolivro todo26. Alter, citado por Jang Ho Kim diz que “... quando um evento da narrativaparece importante, o escritor vai atribuir isso principalmente através de dialogo. Emmuitos casos, a narrativa vai avançar a linha de enredo não através de umadescrição detalhada de eventos, mas através de diálogos”.27 As técnicas literárias usadas são diversificadas. É notável como oautor fez uma perfeita simetria entre o primeiro e o ultimo capítulo, mantendo omesmo numero de palavras (71).28 Além da simetria, ele usa um grande jogo decontrastes tais como plenitude/esvaziamento, altruísmo/egoísmo,29esterilidade/fertilidade, fome/fartura, escape/retorno, isolamento/comunidade,recompensa/castigo, tradição/inovação, masculino/feminino, vida/morte.30 O autor consegue prender a atenção do leitor, mantendo um climade suspense até o fim. Segundo Carlos Osvaldo Pinto, ele consegue “... com rara26 Segundo SASSON, Jack M. Op. Cit p. 344, 55 dos 85 versos de Rute são diálogos.27 HO-KIM, Jang. Hebraico instrumental. Atibaia: Seminário Bíblico Palavra da Vida, 2008. (Apostila preparada para a disciplina Hebraico Instrumental). p. 328 PINTO. Carlos Osvaldo C. Op. Cit. p. 24229 Idem, Ibid.30 SASSON, Jack M. Op. Cit p. 344 13
  17. 17. felicidade, combinar narrativa, história e Heilsgeschichte, exaltando as virtudes delealdade pactual tanto em Yahweh quanto nos personagens principais”.31 Outro recurso para prender a atenção do leitor e do ouvinte são ascodas, utilizadas em cada cena do livro. Uma coda é um material utilizado paracomplementar o cenário da história. Sasson nos diz que ... Cada uma das quatro cenas de Rute, equivalentes aos quatro capítulos em nossa Bíblia, é provida de uma coda cuja finalidade é resumir as atividades passadas, bem como prefigurar outras por vir. A primeira delas contém uma unidade inicial (1:1-6) que serve como prólogo à história e a última tem uma unidade de lastro (4:14-17) que fornece um epílogo satisfatório. A última coda antecipa um futuro além da estrutura imediata da história e inclui uma genealogia ...32 Para Pratt, o livro é uma narrativa de resolução e está dividido emcinco partes e um apêndice:33 I. A amargura de Noemi (1.1-22) II. Rute descobre o possível parente resgatador (2.1-23) III. Boaz concorda em ser o parente resgatador (3.1-18) IV. Boaz adquire o direito de ser o parente resgatador (4.1-12) V. A bênção de Noemi (4.13-17) Apêndice genealógico (4.18-21) Gordon Johnston, citado por Jang Ho Kim, faz um gráfico simples34para apresentar o livro.31 PINTO, Carlos Osvaldo C. Op. Cit p. 24232 SASSON, Jack M. Op. Cit p 34533 PRATT, Richard L. Jr. Op. Cit. p. 335 14
  18. 18. Para ele o enredo de Rute é chamado “...enredo (plot) baseado [no]problema...”35. Nesse tipo de narrativa, um problema é apresentado e as ações vãoem busca de uma solução para o mesmo. Tudo acontece num clima de tensão e/oususpense, onde o clímax é atingido logo antes da resolução. 36 Uma divisão em quatro cenas, tal como encontramos em nossasBíblias (os quatro capítulos do livro), parece ser mais contundente apesar de maissimples.34 HO-KIM, Jang.Op. Cit. p. 535 Idem, Ibid.36 Idem, Ibid. 15
  19. 19. 2.4. Propósito e Mensagem Embora os comentaristas atribuam diferentes propósitos ao livro deRute37, na simples qualidade de uma novela Rute tem por bem relatar váriasnuances da vida cotidiana: casamento, viuvez, amizade, relacionamento familiar epreocupações com a subsistência e a descendência. É evidente que Yahweh é o personagem principal mesmo que ocultono clímax do enredo da narrativa. Para pensarmos em propósito do livro, nãopodemos ignorar Sua aliança com Seu povo, que se expressa ao longo de toda anarrativa. House lembra que, no inicio do livro, “... duas mulheres sem maridos efilhos apegam-se a Yahweh e uma à outra”.38 A fome que assolava a terra e fez comque Noemi saísse de sua terra por quase dez anos, terminou porque~x,l( ~h,Þl tteîl AMê[;-ta, ‘hw"hy> dq:Üp-yKi − Noemi ouve que hw"hy> (Yahweh) haviavisitado seu povo e novamente havia pão em ~x,l, tyBe (casa de pão, ou seja,Belém). No livro de Rute, uma tragédia nacional e individual transforma-seem bênção individual e nacional. Isso é o que acontece quando indivíduos e naçãoestão dispostos a perseverarem em sua fidelidade a Yahweh. No plano individual,temos duas mulheres e um judeu que devotam a Ele sua fé. A bênção nacional éevidenciada pela genealogia encontrada no fim do livro, em que Rute é ancestral do37 Veremos o assunto em mais detalhes nos capítulos 3 a 638 HOUSE, Paul R. Op. Cit. p. 583 16
  20. 20. grande rei de Israel, o rei Davi. Em todo o tempo e em quaisquer circunstancias, “...Deus está vigiando seu povo, fazendo com que aconteça a eles o que é bom. O livroé a respeito de Deus. Ele governa sobre todas as coisas e abençoa aos que confiamnEle.”39 Considera-se, portanto, que o propósito do livro de Rute leva emconta a fidelidade de Yahweh às Suas promessas pactuais em dq;P (visitar) seu povo,desde o menor núcleo familiar até a cidade como núcleo maior, trazendo novamentepão à ~x,l, tyBe (casa do pão) e preparando à nação como um todo o seu rei. Houseconcorda com Robert Hubbard quando afirma que “... Rute expressa como Deusabençoa a família e, por extensão, as multidões”.40 A mensagem do livro também leva em conta a aliança de Yahwehcom Seu povo. Da libertação individual à nacional, Deus age de acordo com Suaaliança. A genealogia davídica no final do livro demonstra a “... intervenção divina navida de indivíduos que são leais à aliança.”41 O que vimos até aqui dá-nos um ponto de partida para avaliar otrabalho dos comentaristas representantes de quatro diferentes expressões deinterpretação, que indicamos como abordagens pragmática, exegética, devocional etipológica.39 MORRIS, Leon. Op. Cit. p. 22640 HOUSE, Paul R. Op. Cit. p. 58341 PINTO, Carlos Osvaldo C. Op. Cit. p. 243 17
  21. 21. 3. ABORDAGEM PRAGMÁTICA Entende-se aqui por abordagem pragmática a práxis hermenêuticaadotada pelos teólogos da libertação. Na busca de uma práxis em prol dos pobres, aótica da hermenêutica da teologia da libertação é a realidade concreta dos excluídos,lutando contra o sistema que os está oprimindo. Sendo assim, a preocupação políticae sociológica se faz presente em toda sua forma de ler o texto bíblico e fazerteologia. Tais teólogos buscam “... uma síntese teológica e ideológica para mudar orumo da história. A palavra práxis tornou-se chave.”423.1. Carlos Mesters Carlos Mesters é frade carmelita, nascido na Holanda, mas reside hámuitos anos no Brasil, onde ajudou a criar o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos)43 .Sua formação em Teologia e Ciências Bíblicas foi em Roma e na Escola Bíblica deJerusalém. Também é doutor em especialidade em literatura apocalíptica. Éconferencista requisitado em toda a América Latina.42 CONN, Harvey; STURZ, Richard. Teologia da Libertação. São Paulo: Mundo Cristão, 1984. p. 5.43 Maiores informações em http://www.cebi.org.br, acessado em out/2008. 18
  22. 22. Sua obra analisada é Rute, lançado pelas editoras Vozes, ImprensaMetodista e Sinodal em 1986.3.2. Panorama da obra A obra é bem objetiva, tendo uma pequena introdução queapresenta os argumentos para as interpretações e aplicações que o livro de Rutepode oferecer às pessoas que hoje sofrem com problemas de falta de terra e defome. Após a introdução, o livro é bem dividido em capítulos que abrangem todo otexto de Rute. O livro levanta questões bem contemporâneas e nisso apresentaalgumas contribuições para o leitor. A primeira contribuição que se destaca é apreocupação com a aplicabilidade para os nossos dias. A visão de que precisamosaprender com o livro de Rute lições para o nosso dia-a-dia permeia todas as paginasdo livro. Isso nos leva a uma outra faceta importante, a contextualização que CarlosMesters propõe. Sua preocupação é que os leitores consigam tirar lições do livro, oque faz com que ele constantemente estabeleça correlatos entre a situação daspersonagens e as situações enfrentadas hoje pelos oprimidos. Outro fator é a fácillinguagem do livro. O desejo do autor de que seus leitores possam aprender com seutrabalho faz com que a linguagem seja acessível a todos. Nas palavras do próprioautor, 19
  23. 23. ... um comentário bíblico, qualquer que ele seja, só pode ter um único objetivo, a saber, fazer com que a Palavra de Deus possa atingir, para além das divergências dos estudiosos, o seu objetivo na vida do povo que nela acredita e confia.44 O desenvolvimento da obra é claro e a progressão do pensamento sefaz de forma coerente com a proposta e a posição hermenêutico-teológica do autor,a qual estudaremos no ponto que segue.3.3. Identificação e validação da posição hermenêutico- teológica do autor Conforme apresentado no ponto anterior, a obra de Carlos Mestersdesenvolve um pensamento contemporâneo e contextual para o livro de Rute. Deixa,porém, de levar em conta a historicidade do livro de Rute e as regras gerais dehermenêutica. Na introdução do livro, destacamos duas preocupações do autor: umacom respeito à datação e outra com respeito à mensagem. No comentário,destacamos a hermenêutica adotada por Mesters na situação do resgate, o ponto declímax da narrativa. Mesters faz um bom levantamento histórico da situação do povo naépoca da narrativa e destaca a data dos acontecimentos como sendo o tempo dosjuízes. No entanto, usa esse levantamento de forma confusa quando trata a questãoda data de composição do livro. Isso está evidente no seu capítulo introdutório44 MESTERS, Carlos. Rute. Petrópolis: Vozes, 1986. p. 17 20
  24. 24. quando, depois de mostrar os conflitos vividos pelo povo como a fome e adesintegração da família, ele diz que ... duas perguntas surgem e pedem uma resposta: 1. Qual a época desta situação conflitiva que acabamos de analisar? Ou seja: em que época foi escrito o livro de Rute? 2. Como a história de Rute toma posição frente a esta situação? Ou seja: qual a mensagem do livro de Rute?45 Visto que quanto à época da situação narrada em Rute não restaduvida, pois o próprio texto bíblico a especifica (Rt 1.1), não há justificativa para aprimeira parte da pergunta de Mesters. Quanto à datação, Carlos Mesters defende uma data pós-exílica. Oprimeiro argumento estabelece a posição de Rute no cânon hebraico (entre os~ybWtK.) e seu uso nos ritos judaicos em contraponto com sua posição no cânoncristão (livros históricos). Mesters diz que “Nesta diferença milenar entre a bíblia (sic)judaica e a bíblia (sic) cristã transparece a variedade de opiniões quanto àmensagem e o objetivo do livro de Rute”46. De acordo com Morris, esse argumento não vai além de nos deixarcom uma pergunta: “Quando foi Rute colocado, pela primeira vez, entre os ketubim?Nada existe para indicar que este arranjo era primitivo; ao contrario, muita coisademonstra o contrário”47. O argumento de Mesters de que o cânon hebraico éanterior ao da LXX não é conclusivo. Conforme mencionado no ponto 1.2, uma lista45 MESTERS, Carlos. Op. Cit.. p. 1046 Idem, p. 747 MORRIS, Leon.Op. Cit. p. 214 21
  25. 25. hebraico-aramaica dada no MS.54 coloca Rute entre os livros históricos. Outra provadada por Morris é Eusébio que cita Melito de Sardes que visitou a Palestina “... e aliesforçou-se ao máximo para certificar-se (e informar-lhe), a respeito dos ‘fatosprecisos concernentes aos escritos antigos: quantos eram, e qual sua ordem’. Istoresultou numa lista em que Rute vem imediatamente após Juízes.”48 O segundo argumento de Mesters mostra uma preocupação emestabelecer a época de escrita do livro de Rute como pós-exílica para, mais adiante,estabelecer uma correlação com a atualidade. Mesters apresenta três fatores paracomprovar essa tese. O primeiro fator são os problemas que o povo enfrenta, i.e.,um povo pobre e marcado pela fome, pela migração e pela desapropriação dasterras. As famílias estão desfeitas, sem garantia de continuidade e com umsentimento de culpa diante de Deus. A sociedade é basicamente agrária e “... a terraera objeto de negócios, pois ela podia ser comprada e vendida ...”49. Dentro disso,Mesters vê um total desinteresse do povo para com a observância da lei do resgate,problema também enfrentado em Neemias 5.8-11. A unidade familiar era o clã, “... agrande família patriarcal”.50 Porém, a família enfrentava alguns problemas dedesintegração (cf. Ne 7.4-5) e muitos haviam casado com mulheres estrangeiras (Ed9.1-2).48 MORRIS, Leon.Op. Cit. p. 21549 MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 950 Idem, Ibid 22
  26. 26. O segundo fator é que “... o rumo do pensamento do livro de Rute éo mesmo de outros livros da bíblia (sic!) escritos durante e depois do cativeiro ...”51 .Esse rumo de pensamento a que Mesters se refere está ligado ao universalismo eabertura da fé em Yahweh, ao desejo do povo de ter um novo rei como Davi, aosproblemas do sofrimento e retribuição, e ao tema do servo sofredor. Com relação ao universalismo, Carlos Mesters procura demonstrarque a aceitação de Rute pelo povo judeu é uma crítica às tendência que eleconsidera exclusivistas na época pós-exílica de Esdras e Neemias. Em suas própriaspalavras, “Transparece aqui uma defesa velada contra a acusação de relaxamento einfidelidade (Esd 9,1-2; 10,2; Ml 9,11). O texto deixa bem claro que Noemi, aopermitir a entrada de Rute ... não foi uma pessoa infiel nem relaxada.”52 Maisadiante, Mesters tenta reforçar seu argumento dizendo que um dos motivos quelevaram Boaz a acolher Rute foi também uma crítica a Esdras: “Transparece aqui apolêmica com Esdras em torno da aceitação ou expulsão das mulheresestrangeiras”.5351 MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 1152 Idem, p. 2953 Idem, p. 37 23
  27. 27. O terceiro fator refere-se à escrita do livro. Segundo Mesters, “ojeito de falar ou de escrever do livro de Rute é, na opinião dos entendidos noassunto, característico da época depois do cativeiro.”54 É difícil sustentar a hipótese de que a época da escrita do livro deRute é a do povo pós-exílico, conforme discorrido no capítulo 2. Quanto ao rumo dopensamento do livro, questões como o universalismo não encontram sustentação emRute. Se o propósito do autor fosse fazer polêmica ou se posicionar contra asdecisões de Esdras e Neemias, o livro daria maior ênfase ao casamento e à aceitaçãode Rute na comunidade judaica. Champlim, ao escrever sobre essa polêmica nos dizque ... há fortes razões para não se aceitar essa opinião. A Canonicidade do livro dependeu, em grande escala, de judeus que eram herdeiros espirituais de Esdras e Neemias, pelo que, se esse tivesse sido o propósito do livro, eles o teriam rejeitado. Conforme dizem alguns comentaristas, a possibilidade de uma guerra literária em torno de questões ideológicas é muito duvidosa naquele período tão remoto.55 Concordando com Champlim, Morris diz que “... se o livro fosserealmente uma polêmica contra Esdras e Neemias, a recusa do resgatador ... sebasearia, certamente, em que ela era uma moabita. Boaz teria replicado, repudiandotais preconceitos”.56 Não obstante, Mesters trata de forma leviana duas situaçõesdiferentes. Em Rute, Noemi adverte Rute a voltar para a casa de sua mãe, mas Rute54 MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 1155 CHAMPLIM, R.D. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 109356 MORRIS, Leon. Op. Cit. p. 225 24
  28. 28. decide ir com ela e viver entre seu povo e com seu Deus. Em Esdras, o povo docativeiro se casa com mulheres da terra, as quais não estavam como Rute decidindopela terra e pelo Deus de Israel. Mesters diz o que o texto não diz. Quanto à escritado livro de Rute ser parecida com a de escritores pós-exílicos, já foi dada no capítuloanterior uma lista de palavras arcaicas, que não se encaixariam com uma escritamais recente. Carlos Mesters propõe para o livro uma mensagem baseada emquatro fatores que mostramos a seguir. 1º. Os nomes dos personagens. Para Mesters, os nomes possuem um sentido escondido. Cada nomerevela o que a pessoa é e faz dentro da história, e isso é evidenciado, por exemplo,pelo nome Noemi. Mesters diz que “... dentro da história, Noemi é a imagem dopovo”.57 Sobre os nomes dos filhos de Elimelec e Noemi, Malon e Quilion, ele diz:“Israel e Judá ... eles se esqueceram que Deus era o seu Rei e Senhor, e andaramatrás de outros deuses e outros senhores. Por isso, foram ficando Doentes eFrágeis.”58 Os nomes judaicos revelavam algo do caráter da pessoa ou dealguma situação específica de sua vida. Segundo Atkinson, “... na maneira hebraica57 MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 2158 Idem, p. 22 25
  29. 29. de pensar, saber o nome de uma pessoa é conhecer o seu caráter, conhecer apessoa”.59 O próprio Deus mudou o nome de pessoas, como de Abrão para Abraão(Gn 17.5) e de Jacó para Israel (Gn 32.28). Em todos os casos, o nome foi mudadodepois de algum acontecimento que mudaria a vida e a forma de viver dopersonagem bíblico. Porém, dizer que o nome dos personagens do livro de Ruterepresentam o povo, como no caso de Noemi, é uma inferência ao texto bíblico, queanula as personagens e a historicidade do livro, reduzindo o livro como a um conto,uma fábula. Não obstante, não podemos saber exatamente a etimologia do nome deRute e Orfa por serem nomes moabitas e não hebreus. São feitas associações compalavras hebraicas, mas não são conclusivas. 2º. A geografia. Para Mesters, a geografia ajuda o leitor a memorizar a história etambém contribui para a dramatização. Mesters divide a história em quatro cenas,nas quais, segundo ele, a geografia revela o verdadeiro centro da história: o retornopara a terra, a casa e a família. As quatro cenas são: 1ª – a família sai de Belém evai para Moab e volta para Belém; 2ª – Rute sai de casa, de junto de Noemi, vai atéo campo e volta para cidade; 3ª – Rute sai de casa, de junto de Noemi, vai até oterreno e volta para casa; 4ª – Booz sai de casa e vai até a porta da cidade e, nofim, volta para casa. Agora tudo se passa dentro da casa de Booz, onde o povo sereúne para festejar o nascimento do filho.59 ATKINSON, David. A mensagem de Rute. São Paulo: ABU, 1991. p. 34 26
  30. 30. Dizer que a geografia ajuda o leitor na memorização e dramatizaçãoé correto, mas que ela revela o centro da história é atribuir ao ambiente geográficopeso que ele não tem. 3º. O uso do Antigo Testamento. Para Mesters, quando Rute foi escrito já havia “... uma grande partedo Antigo Testamento”60 e o povo o conhecia praticamente de cor, pois neleencontrava “... o retrato de sua vida e do seu passado”61. Sendo assim, ele presumeque o autor de Rute usa o Antigo Testamento para lembrar ao povo sua história,desde o tempo dos juízes (Rt 1.1) até evocar a esperança de um novo rei como Davi(Rt 4.17). Isso fica evidente nas associações que Mesters faz entre frases dospersonagens de Rute e a história do povo judeu, como no caso da frase de Boaz àRute “Você deixou pai e mãe; deixou a terra onde nasceu” (Rt 2.11). Ao comentaresse verso, Mesters diz que “Esta frase lembra Abraão (Gn 12.1). Escolhendo ficarcom Noemi, Rute imitou Abraão, tornando-se filha de Abraão, membro do povo deDeus”.62 Considerando que Rute foi escrito no período da monarquia63, o povojá possuía o Pentateuco64, mas não muitos livros bíblicos como Mesters argumenta.60 MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 1461 Idem, Ibid.62 Idem, p. 3763 Conforme ponto 2.2 deste trabalho64 Coleção dos cinco primeiros livros da Bíblia: Genesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. 27
  31. 31. Em Juízes 2.10, vemos que a geração posterior a Josué “... não conhecia ao Senhor,nem tão pouco a obra que fizera a Israel.” Embora não possamos negar que semprehouve um remanescente fiel no povo de Israel, exemplificado por Boaz que mostrouter conhecimento da Lei do resgate e das tradições de Israel quando foi à porta dacidade para tratar dos assuntos relacionados ao resgate, o texto de Juízes demonstraque Mesters está errado quando diz que o povo sabia quase de cor o texto bíblico65, 4º. As divisões do livro. Para Mesters, as divisões do livro demonstram “... a situação real docomeço e situação ideal do fim ...”66 , i.e., a descrição da opressão, da fome e damiséria em que o povo se encontrava e o desejo de libertação, de um final feliz, comum rei governando em Israel. Cada um das quatro cenas demonstra essedesenvolvimento para a reconstrução do povo. 1. O Quadro Inicial - descreve a situação real do povo 2. A Caminhada da Reconstrução do Povo 1º. Passo – atraída pela Boa Notícia da visita de Deus ... Noemi decide voltar para a terra65 MESTERS, Carlos. Op Cit. p. 1466 Idem, p. 15 28
  32. 32. 2º. Passo – Rute toma a iniciativa de catar a sobra da colheita 3º. Passo – Booz se compromete a cumprir a lei do resgate 4º. Passo – Booz cumpre a lei do resgate 3. O quadro Final – descreve o nascimento do filho ... nele o problema do povo começa a ser resolvido 4. Apêndice - genealogia de Davi. A crítica que fazemos não diz respeito ao esboço do livro em si. Aquestão é como Mesters usa esse esboço no seu comentário. Para cada parte doesboço, ele sugere uma associação ao povo pós-exílico. Em seguida, faz uma ponteentre os problemas do povo pós-exílico e os problemas do povo atual. Um exemplo do que acabamos de dizer está no terceiro passo do seulivro, quando Mesters comenta sobre o fato de Boaz cumprir a lei do resgate. Suarelação entre os fatos e a lei judaica é bem feita. Noemi não tinha outros filhos enem mais poderia ter para que se cumprisse a lei do levirato para Rute; precisavamportanto, da lei do resgate e Boaz se propõe a cumprir a lei. Mas sua aplicação dessefato bem colocado é que a “... família de Noemi era a imagem do povo sofredordaquele tempo [pós-exílico]. Como a família de Noemi, assim as famílias dos pobresviviam desintegradas, incapazes de se defender conta a ambição dos ricos. Eram 29
  33. 33. obrigados a vender suas terras, seus filhos e suas filhas (Ne 5,1-5)”.67 Conforme jámencionamos anteriormente, essa ligação do livro de Rute a uma resposta àssanções de Esdras e Neemias é insustentável. A ponte feita por Mesters entre Rute eEsdras/Neemias e sua aplicação aos pobres da época pós-exílica é fruto do sistemaideológico adotado previamente por ele, mas não encontra base contextual. Conforme mencionado anteriormente, a posição hermenêutica deMesters destaca-se em seu comentário sobre a trama de Noemi e Rute para mostrara Boaz que este deveria ser o resgatador de Noemi e, conseqüentemente, de Rute.Para Mesters, Noemi usa da história do povo para preparar seu plano. Em suaspalavras, Noemi “ ... se inspirou na história de Tamar ... esposa do filho mais velhode Judá [a qual] se fez por prostituta para obrigar o sogro a cumprir a lei ...”68. Comisso, Mesters invalida a ação de Deus na história. A essa altura, devemos lembrar que o texto bíblico não diz nada arespeito de relação sexual, como Mesters insinua ao estabelecer uma ligação entredo plano de Noemi e Rute com o plano de Tamar, que manteve relações sexuais comseu sogro para que a lei do levirato fosse cumprida (Gn 38). O pedido de Rute para que Boaz a cubra com seu manto (nohebraico @n"K “asa”), pode referir-se à expressão de Boaz no capítulo 2.12, quandoele diz para Rute que deseja que Deus a recompense, o Deus sobre cujas asas ela67 MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 43-4468 Idem, p. 45 30
  34. 34. procurou refúgio. A palavra hebraica nos dois versículos é a mesma. Carlos OsvaldoPinto, falando sobre a reputação de Rute, lembra que no capitulo 3.11 “… o caráterde Rute é vindicado e ela é identificada como uma lyIx:ß tv,aîe [´ëšet Hayil] (3.11)”. 69Fora isso, o fato de Boaz mandar embora Rute bem cedo é também para que aimagem e a moral da moça não ficassem manchadas. Uma outra possibilidade é queo pedido de estender o manto seja o próprio pedido de casamento que Rute fez aBoaz. Nessa linha de pensamento, Morris diz que essa metáfora também é usadaposteriormente, em Ezequiel 16.8 “... para tomar alguém em casamento”.703.4. Influência da posição hermenêutico-teológica na abordagem pragmática Conforme já dito acima, a obra de Carlos Mesters faz uma boacontextualização e seu objetivo de aplicar o texto bíblico ao povo brasileiro é dignode ser mencionado e de ser modelo para comentários que não o fazem. Contudo,suas pressuposições teológicas da libertação dirigem todo seu trabalho e deturpamsuas aplicações. Seu desejo de situar o livro no período pós-exílico faz com que seutrabalho transforme o livro de Rute num conto folclórico para debater ideologiaspolíticas e religiosas, perdendo o foco do livro de mostrar a soberana intervenção deDeus na vida de Seu povo. Mesmo que houvesse sustentação para o pensamento dedatação pós-exílica, a intervenção de Deus não é levada em conta de forma objetiva,69 PINTO, Carlos Osvaldo C. Op. Cit. p. 24770 MORRIS, Leon. Op. Cit. p. 273 31
  35. 35. pois a solução final de Mesters para o problema de Noemi e Rute deu-se por meiosilícitos, transformando Rute numa promíscua e deixando de considerar o valor moralque o próprio texto atribui a Rute, uma mulher de valor lyIx:ß tv,aîe Apesar das contribuições positivas, o livro deturpa o contexto, ahistoricidade, a hermenêutica e, conseqüentemente, a aplicabilidade para aatualidade. 32
  36. 36. 4. ABORDAGEM EXEGÉTICA Entende-se aqui por abordagem exegética a práxis hermenêutica quebusca o sentido original do texto valendo-se do contexto histórico, da língua originale de princípios hermenêuticos. De acordo com Zuck, “O objetivo da exegese bíblica édescobrir o que o texto diz e quer dizer, e não atribuir-lhe outro sentido”.714.1. Joyce Elizabeth W. Every-Clayton Joyce Elizabeth W. Every-Clayton nasceu em 1944 na Irlanda doNorte. É geógrafa e também formada em teologia pela Universidade de Londres epelo London Bible College (agora London School of Theology). Desde 1973, trabalhano Brasil como missionária da Latin Link (antigamente chamada União Evangélica SulAmericana). Reside em Recife e leciona Antigo Testamento e História Eclesiástica noSeminário Congregacional e no Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, ondeconcluiu mestrado e doutorado. Também leciona na Escola de Missões Transculturaisda JUVEP (Juventude Evangélica Paraibana) as matérias Missões no Antigo71 ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica: meios de descobrir a verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994. p.114 33
  37. 37. Testamento e História de Missões. É conferencista nas áreas de teologia e missõespor todo o Brasil. Sua obra analisada é Rute, da série Em Diálogo com a Bíblia, lançadapela editora Encontrão em 1993.4.2. Panorama da obra A autora faz um bom trabalho ao comentar cada parte do livro deRute. Sua preocupação não está em ser exaustiva, mas em mostrar odesenvolvimento da narrativa a cada nova cena. Para Every-Clayton, Deus estápresente em toda a história, de forma direta ou indireta. Ela diz que “Marcante ... é adescrição da maneira de Deus agir, ora direta, ora indiretamente. Cada capítulodestaca uma ação direta de Deus – às vezes não passa de uma mera coincidência –e uma indireta, mediada por seres humanos”.72 Every-Clayton faz uma pequena introdução no seu trabalho,abordando de forma sucinta questões como autoria, estrutura literária e contextohistórico do livro. Ela situa a história narrada no livro no período dos juízes, e diz queseu autor desconhecido é da época do início da monarquia. Sua obra é dividida em quatro capítulos e cada um deles discorresobre um capítulo do livro de Rute. Isso ajuda o leitor a fazer uma ponte entre o quea autora está comentando e o livro de Rute, pois mantém as divisões do texto72 EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 11-12 34
  38. 38. bíblico. Um recurso usado pela autora para ajudar na memorização e nodesenvolvimento do pensamento do livro é dividir os capítulos em trechos e, emalguns deles, criar quiasmas. Every-Clayton revela uma preocupação de que seu trabalho sejaaplicativo aos leitores brasileiros, em especial aos que moram no Nordeste, localonde ela reside e ministra. Contextualizando o problema da fome e migração doinício do livro de Rute, ela diz que “Ainda hoje, a fome freqüentemente obriga umgrupo a mudar-se – o nosso Nordeste que o diga! Fotografias de flagelados magros,retirantes doentes e encurvados fazem parte do cotidiano do nosso século”73. Outrafrase expressa essa preocupação: A dolorosa realidade descrita nesse prelúdio [os quatro versos iniciais do livro de Rute] já foi vivenciada muitas e muitas vezes por nosso povo, mais particularmente nas regiões sujeitas a secas periódicas. Temos Severinos e Severinas sem fim vivendo ‘vidas secas’ nos vastos sertões: e tentando a todo custo manter viva uma fé em Deus, apesar das dores e duvidas.74 Sua habilidade no fazer algumas perguntas orientadoras para norteara contextualização e a aplicabilidade do livro ajuda a manter o desenvolvimento doraciocínio de forma clara: Como é que nos relacionamos com Deus? Como entender os caminhos de Deus? Quais são os fatores que promovem relacionamentos interpessoais feliz e duradouros? Como é que se enfrenta problemas de miséria, de fome? É possível conhecer e fazer a vontade de Deus num mundo pecaminoso? É possível viver com integridade pessoal nesse mundo?7573 EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 1474 Idem, p.1775 Idem. p.11 35
  39. 39. Em algumas situações, a autora induz a imaginação do leitor combase em fatos que ela não afirma por não haver base textual. Um exemplo disso éseu comentário sobre o verso quatro do capítulo primeiro quando os filhos de Noemicasam-se com mulheres moabitas. “Há aqui um contraste com Gn 24, e podemosimaginar Noemi um tanto nervosa quando os jovens não seguiram a orientação deAbraão, que insistiu em buscar uma esposa para Isaque entre sua própriaparentela...”76 (grifo pessoal). Em outros momentos, ela levanta argumentos, comopor exemplo o de uma autoria feminina, mas nunca afirma aquilo para o qual não hábase textual ou histórica. No geral, embora a autora deixe algumas questões em aberto comoas acima mencionadas, a qualidade e fidedignidade do comentário é sustentada peloseu trabalho hermenêutico.4.3. Identificação e validação da posição hermenêutico- teológica do autor Na identificação da sua posição hermenêutico-teológica, ressaltamosa preocupação da autora com o sentido original do texto, considerando o contextohistórico da narrativa, o estudo da língua original e os princípios hermenêuticos. Buscar o sentido original do texto é identificar o significado do textopara o autor e para o seus leitores imediatos, i.e., as primeiras pessoas que teriam76 EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p.16 36
  40. 40. acesso ao escrito. Uma evidencia dessa preocupação é sua afirmação de que “nosdias em que os juízes governavam [que] sinaliza que no livro de Rute temos umaretrospectiva histórica.”77. Com isso, Every-Clayton procura situar, assim como fez oautor original, seus leitores num contexto e situação particular, possibilitando entrarna história como os primeiros leitores fizeram. Outra forma de percebermos essa busca é a investigação feita emdocumentos antigos como o Talmude e a citação de Campbell do manuscritoarmênio78 sobre o livro de Rute. Com isso, Every-Clayton procura saber como osrabinos e interpretes antigos entendiam o livro de Rute. Quando situa a narrativa no período dos juízes, Every-Clayton nãoatesta somente sua preocupação em buscar o sentido original, mas também emidentificar corretamente o contexto histórico. Desta forma, a autora pode criar umaponte hermenêutica entre a realidade dos leitores antigos e a dos leitores atuais.Conforme apresentado no ponto anterior, Every-Clayton faz um comentário simples,porém suficientemente completo, sobre todas as cenas e desdobramentos do livro deRute, preocupando-se, sempre que possível, com aplicar ao contexto do Nordestebrasileiro. Em resumo, sua obra leva em conta a historicidade do livro e vale-se dasregras gerais de hermenêutica para criar as pontes entre o texto bíblico, seu tempo eos leitores atuais.77 EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p.1378 Idem, p. 34 37
  41. 41. A preocupação com a boa hermenêutica reflete-se também naidentificação da mensagem do autor original afinal, como ela mesma diz, o tema deRute “...tem a ver com a ação de Deus durante o período dos juízes”.79 Com estafrase, Every-Clayton mostra considerar não somente o contexto histórico, mas a linhamestra de pensamento que o fundo histórico transmitiu ao leitor original e transmitea todos nós hoje. Quanto ao estudo da língua original, destacamos na obra de Every-Clayton duas situações em que se torna evidente o estudo da língua hebraica. Aprimeira diz respeito à ligação da estrutura literária da introdução à do epílogo dolivro de Rute. Every-Clayton comenta que “... esses versículos não somente levantamquestões angustiantes; eles abrem um cenário maior. Suas setenta e uma palavrasno hebraico são paralelas às setenta e uma palavras da narrativa final do livro (4.13-17). Comparando estas duas passagens percebemos um paralelismo ...”80. A segunda situação é o uso da frase em Rute 1.6 “...o SENHOR tinhavisitado ...” (grifo pessoal), que ocorre em textos onde que existe uma declaraçãoclara do poder de Deus. Ela ilustra isso com duas passagens. A primeira, Gênesis21.1, onde “O Senhor foi gracioso [hebr. Visitou] a Sara, como tinha dito, e fez por79 EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p 11.80 Idem, p. 17 38
  42. 42. ela o que havia prometido”, exemplifica o aspecto individual. A segunda, Êxodo 2.24quando Deus diz “... vos tenho visitado”81, exemplifica o aspecto nacional. Como exemplo do bom trabalho hermenêutico, ressalta-se o capítulotrês da obra de Every-Clayton, em que ela discorre sobre a trama de Noemi e Rutepara declarar a Boaz que este era resgatador. A autora começa explicando toda aorientação que Noemi dá a Rute, desde como se aprontar para o encontro comotambém o que fazer durante o encontro: Tem-se notado a semelhança entre as situações de Noemi quanto preparação de Rute com a preparação da noiva para o casamento naqueles dias. Mas as providências recomendadas não se limitavam necessariamente ao dia do casamento (apesar da ênfase nisso em Ez 16.8-13) e nem tampouco são, por si só, sinais de promiscuidade ou imoralidade.82 Every-Clayton procura demonstrar logo no inicio de seu comentáriosobre este texto as intenções de Noemi e Rute, valendo-se de como Rute é tratadacomo uma mulher virtuosa83. Mais adiante, diz que “Certamente, porém, justificarpromiscuidade ou prostituição a partir deste texto é não conseguir captar o que elepretende. E a menção explícita ao início do relacionamento sexual entre os dois só[aparece] em 4.13 ...”84.81 EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 1882 Idem, p. 5283 Já explicado no capítulo três deste trabalho.84 EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 53 39
  43. 43. 4.4. Influência da posição hermenêutico-teológico na abordagem exegética Ao longo de todo o comentário de Every-Clayton, podemos observarque o trabalho de situar o livro dentro de seu contexto, bem como a busca dainterpretação correta pelo uso da língua original e a pesquisa nos antigos interpretes,fazem com que a obra tenha um precioso valor tanto interpretativo como deaplicação atual. O estudo da genealogia no capítulo quatro é um exemplo de comoseu estudo hermenêutico influencia sua percepção teológica. Em lugar de umacontextualização histórica atual, a autora busca um entendimento focado na épocada narrativa. Falando sobre as bênçãos pronunciadas pelas testemunhas docasamento (Rt 4.11-12), ela escreve: “Como estas humildes testemunhas docasamento conheciam bem o Antigo Testamento, sabendo aplicá-lo à situaçãopresente!”.85 Em contraste com Carlos Mesters, cuja abordagem é fruto de umsistema ideológico-político, e com os autores que veremos a seguir, cujasabordagens são frutos de uma leitura interior e de sua posição escatológica, Every-Clayton defende a percepção histórica conservadora. Nas suas próprias palavras: Essa percepção histórica não deixa de ser uma percepção teológica pois esses versículos insistem na continuidade da revelação de Deus. O livro de Rute não é uma mera história bonita, de uma pobre estrangeira que85 EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 76. 40
  44. 44. encontrou seu príncipe encantado. Nem tampouco é uma simples parábola ensinando acerca de Deus e Seu amor e cuidado por Seu povo, e nem ainda um tratado político ou polêmico. O livro é, acima de tudo, o relato da ação salvífica do Deus que intervêm na história humana fazendo convergir vidas sim, mas, o que é mais importante, fazendo convergir em vidas Seu próprio propósito último, a salvação. O livro não é uma mera dramatização dessa salvação – é o próprio registro dela.86 Ao descobrir por meio da exegese o sentido original do texto, torna-se possível uma correta hermenêutica e uma aplicação relevante. Visto que paraEvery-Clayton a ação de Deus permeia todos os acontecimentos narrados no livro econstitui-se no próprio tema do livro, ela conduz o leitor a olhar suas situações à luzda perspectiva divina, e não da contextualização histórica atual.86 EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 76 41
  45. 45. 5. ABORDAGEM DEVOCIONAL Entende-se aqui por abordagem devocional a dedicação ao estudoda Palavra de Deus com a preocupação de ser aplicativo primeiramente a si e depoisaos seus leitores. A abordagem devocional tem sido muito mal utilizada e entendida,conforme nos diz Jay Adams: Quando as pessoas mencionam um estudo devocional da Bíblia, não sei o que estão querendo dizer. Receio que freqüentemente queiram dizer: ‘Vou fechar minha mente para aquilo que a passagem possa significar ou que todos os comentários possam me ajudar a entender. Vou me limitar a permitir que as palavras penetrem lentamente em meu ser, e então filtrar algo que possa ser útil para mim. Seja ou não aquilo que Deus tencionava de fato dizer, de alguma maneira me fará bem.(grifo próprio)875.1. Ricardo Gondim Rodrigues Ricardo Gondim Rodrigues é formado em administração deempresas. Estudou teologia no Genesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia.Pastoreou a Igreja Evangélica Assembléia de Deus Betesda em Fortaleza de 1982 a1991. Atualmente, pastoreia a Igreja Betesda em São Paulo e é também presidentenacional da Assembléia de Deus Betesda e presidente do Instituto Cristão de EstudosContemporâneos. É evangelista, conferencista e escritor.87 ADAMS, Jay E. A interpretação da Bíblia e o aconselhamento. In Coletâneas de aconselhamento bíblico. v.2 Atibaia: SBPV, 2000. p. 9. 42
  46. 46. Ricardo Gondim tem adotado uma posição hermenêutico-teológicaque é criticada por vários teólogos brasileiros, a teologia relacional, que considera aconcepção tradicional de Deus como inadequada. De acordo com AugustusNicodemus, seus pontos principais são: 1. O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas. 2. Deus não é soberano. Só pode haver real relacionamento entre Deus e suas criaturas se estas tiverem, de fato, capacidade e liberdade para cooperarem ou contrariarem os desígnios últimos de Deus. Deus abriu mão de sua soberania para que isto ocorresse. Portanto, ele é incapaz de realizar tudo o que deseja, como impedir tragédias e erradicar o mal. Contudo, ele acaba se adequando às decisões humanas e, ao final, vai obter seus objetivos eternos, pois redesenha a história de acordo com estas decisões. 3. Deus ignora o futuro, pois ele vive no tempo, e não fora dele. Ele aprende com o passar do tempo. O futuro é determinado pela combinação do que Deus e suas criaturas decidem fazer. Neste sentido, o futuro inexiste, pois os seres humanos são absolutamente livres para decidir o que quiserem e Deus não sabe antecipadamente que decisão uma determinada pessoa haverá de tomar num determinado momento. 4. Deus se arrisca. Ao criar seres racionais livres, Deus estava se arriscando, pois não sabia qual seria a decisão dos anjos e de Adão e Eva. E continua a se arriscar diariamente. Deus corre riscos porque ama suas criaturas, respeita a liberdade delas e deseja relacionar-se com elas de forma significativa. 5. Deus é vulnerável. Ele é passível de sofrimento e de erros em seus conselhos e orientações. Em seu relacionamento com o homem, seus planos podem ser frustrados. Ele se frustra e expressa esta frustração quando os seres humanos não fazem o que ele gostaria. 6. Deus muda. Ele é imutável apenas em sua essência, mas muda de planos e até mesmo se arrepende de decisões tomadas. Ele muda de acordo com as decisões de suas criaturas, ao reagir a suas próprias decisões. Os textos bíblicos que falam do arrependimento de Deus não devem ser interpretados de forma figurada. Eles expressam o que realmente acontece com Deus.88 Desde a década de noventa, Gondim vem sendo criticado por suaposição teológica, embora ele tenha se posicionado mais abertamente nos últimos88 http://www.teologiabrasileira.com.br/Materia.asp?MateriaID=140, acessado em out/2008. 43
  47. 47. anos. Talvez seu texto mais criticado seja Quem Deus ouviu primeiro?89, em que eledefende os pontos acima relacionados que caracterizam a teologia relacional. Sua obra analisada é Creia na Possibilidade de Vitória, publicado pelaeditora Abba em 1995.5.2. Panorama da obra Ricardo Gondim procura no livro de Rute “... princípios norteadorespara o homem enfrentar adversidades e reverter situações que, aparentemente,arrasariam qualquer vida. A despeito de qualquer dificuldade, o livro de Rute ensinaque, com a ajuda de Deus, o homem pode ser vitorioso”.90 Antes de iniciar asaplicações do texto, ele apresenta quatro princípios gerais: (1) Quando a sua visãodo todo estiver pessimista, tire os olhos do macro e ponha-os no micro; (2) A vidadas mulheres retratadas em Rute mostra a possibilidade do amor; (3) Deus é sábio,poderoso e bom o suficiente para transformar os desastres de nosso viver em vitória,e (4) Podemos viver, não apenas sobreviver, mesmo nas circunstancias maisadversas91.89 O texto pode ser lido na íntegra em HTTP://www.ricardogondim.com.br, acessado em out/2008. Um exemplo de crítica foi feita por Eros Pasquini e pode ser lida na íntegra no endereço http://www.monergismo.com/textos/sofrimento/tsunami_gondim_eros.htm#1n, acessado em out/2008.90 RODRIGUES, Ricardo G. Creia na possibilidade da vitória: o que o livro de Rute ensina sobre o sucesso. São Paulo: Abba, 1995. p. 5.91 Idem, p. 7-11. 44
  48. 48. Ricardo Gondim situa o livro no período dos juízes de Israel, umperíodo de anarquia, onde não havia rei. Ele destaca corretamente que a terra eraconstantemente invadida e os povos vizinhos escravizavam, roubavam e destruíamos israelitas. Os juízes não conseguiam congregar a nação e formar um governo deunião. Como povo destruído e sem líder, cada um fazia o que parecia correto aospróprios olhos. Num quadro caótico como o descrito acima, Rute surge como umaespécie de “... refrigério, de sopro suave, de calma e bonança, no meio de um delíriode tempestade”.92 Os capítulos da obra não seguem a ordem de divisão do livro deRute, mas decorrem do desejo de Ricardo Gondim salientar uma ou outra lição emum determinado trecho do texto bíblico. O autor subdivide cada capítulo de sua obraem princípios práticos, com frases curtas de fácil memorização. Ponto positivo é quea linguagem é clara e prática, com um português de fácil entendimento paraqualquer público. O terceiro capítulo de sua obra, que recebe o título do livro, resumetodo seu trabalho: Uma maneira de sintetizar o livro de Rute é apresentá-lo como a história de uma família que recomeçou das cinzas, de alguém que acreditou na possibilidade de reconstruir, de retornar a vida ... Como Rute retoma a caminhada, a partir dos pedaços, desponta como grande lição desta crônica bíblica.9392 RODRIGUES, Ricardo G. Op. Cit. p. 693 Idem, p. 35-36. 45
  49. 49. Aparentemente, a proposta de Ricardo Gondim é ilustrar a novela davida a partir da novela de Rute. Não negamos que a história de Rute revela umareviravolta na vida pessoal e familiar das personagens, uma caminhada pelosproblemas comuns à época da narrativa e à vida contemporânea. O que falta nasíntese de Gondim é a percepção teológica da atuação soberana de Deus intervindoem toda a história pessoal e nacional narrada e a resposta de fé dos personagens aesse Deus que expressa sua ds,x, (hesed) e nos chama a expressá-la em nossosrelacionamentos.5.3. Identificação e validação da posição hermenêutico- teológica do autor. Embora Ricardo Gondim situe o livro em seu contexto histórico, abase de seus comentários não leva em conta nem a historicidade do livro nem oestudo da língua original. Os versículos do livro de Rute são inseridos no comentáriode forma ilustrativa e não como base de desenvolvimento lógico para uma pontehermenêutica entre os acontecimentos narrados e a vida cotidiana do leitorcontemporâneo. Um exemplo do que foi dito acima é o capitulo quatro: Semeando ecolhendo bênçãos. O texto de Rute 2.8-23 é transcrito como introdução. Após atranscrição, Ricardo Gondim começa a contar três experiências pessoais: a primeirasua e de sua família, a segunda de um seminarista amigo seu e a terceira do pastorOttis Skinner. Os testemunhos pessoais são adequados, mas o texto bíblico não é 46
  50. 50. trabalhado em momento algum. Não há uma exposição da Bíblia, mas apenas quatroilustrações, sendo que a primeira é o próprio texto bíblico. Conforme já dito, o livrobíblico torna-se uma novela que ilustra a novela da vida. Após os três testemunhos,Ricardo Gondim desenvolve a Lei da semeadura e da colheita, fazendo umaparáfrase às palavras de Boaz a Rute no verso onze: “Tu plantaste, está na hora decolher, Rute”.94 Isso é tudo quanto podemos encontrar de comentário sobre o textodo livro de Rute. Ricardo Gondim levanta uma questão que abordaremos no capítuloseguinte deste trabalho: a questão da tipologia no livro de Rute. Para ele “Boaz é tãoextraordinário no Antigo Testamento que, todos concordam que Boaz é um símbolodo Antigo Testamento, da pessoa de Jesus Cristo.”95 Conforme feito nas duas abordagens anteriores, o texto escolhidopara uma analise da hermenêutica é o capítulo três de Rute, a trama de Noemi eRute para anunciar a Boaz que ele é o resgatador que as duas procuram. RicardoGondim trata desse texto no capítulo cinco de sua obra: Como ser extraordinário.Inicialmente, ele conta duas histórias e depois comenta o fato de que Boaz era umhomem “... cujo exemplo de vida, cujo testemunho de história, nos mostra essaqualidade [de alguém cujo o mundo não é digno conf. Hb 11.38] de gente”.96Ricardo Gondim passa então a explicar o que faz de Boaz uma pessoa extraordinária.94 RODRIGUES, Ricardo G. Op. Cit. p. 5095 Idem, p. 63.96 Idem, Ibid. 47
  51. 51. Alguns questionamentos naturais do texto são sanados, como o ato da noite na eirae a vindicação da integridade. Porém, não é vindicada a integridade de Rute, mas ade Boaz. Segundo Gondim, Boaz teria uma “... boa desculpa para ele passar as mãosnas pernas de Rute. Que boa desculpa para se aproveitar dela sexualmente. Bebeuvinho, que álibi poderoso! Mas ele age com integridade com aquela mulher, dentrode sua própria casa”.97 No trabalho de Gondim, não há referências ao estudo da línguaoriginal nem tampouco o contexto histórico é levantado como significativo para oscomentários práticos. Um exemplo disso é o fato de Gondim provar a integridade deBoaz ignorando, na situação que acabamos de citar, que a eira era um espaçopúblico e não a casa de Boaz. Ao longo de todo o livro, podemos perceber apenas atendência de usar as narrativas de Rute para estabelecer uma ponte com a vida doleitor.5.4. Influência da posição hermenêutico-teológico na abordagem devocional. Por usar o livro de Rute para ilustrar situações e promover emoçõesnos leitores de sua obra, Ricardo Gondim não revela uma posição hermenêutico-teológica clara. Podemos perceber em sua obra o reflexo de suas palavras: Redirecionei minha leitura bíblica. Mais do que saber os detalhes exegéticos ou técnicos, ansiei que a Palavra me levasse a uma relação mais íntima com97 RODRIGUES, Ricardo G. Op. Cit. p. 64. 48
  52. 52. Deus. Reli a Bíblia de capa a capa, procurando o coração paterno de Deus. Dialoguei com pessoas que tratam da Espiritualidade Clássica. Recompus minha vida devocional. Aprendi sobre oração contemplativa e redescobri a meditação bíblica. Devorei alguns clássicos como "A Imitação de Cristo" de Tomás de Kempis, "A Volta do Filho Pródigo" de Henry Nowen, "A Montanha dos Sete Patamares" de Thomas Merton e o "Schabat" de Abraham Joshua Heschel. Eles e outros se tornaram meus mentores nessa nova busca interior.(grifo pessoal)98 Quero tão somente que meu texto destile verdade, mesmo confusa, infantil, tosca, mas que espelhe a integridade de minha alma (grifo pessoal)99 No que se propõe a ser – um comentário devocional que procuramostrar, a partir de Rute, princípios para uma vida de vitória – o autor não distorce otexto, mas também não se dedica ao trabalho hermenêutico.98 http://palavrasdevida.wordpress.com/2006/02/25/quero-ser-mais-humano/, acessado em out/2008.99 HTTP://ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=65&sg=0&form_search=&pg=1&id=1 920, acessado em out/2008. 49
  53. 53. 6. ABORDAGEM TIPOLÓGICA Entende-se aqui por Abordagem Tipológica o estudo dos tipos eantítipos estabelecendo ligação entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Éevidente que alguns textos bíblicos estabelecem legitimamente este tipo de relação,mas os teólogos que enfatizam a abordagem tipológica costumam aplicá-la demaneira indiscriminada. Zuck nos dá um exemplo dos absurdos feitos por aquelesque valem-se dessa abordagem, mostrando como são interpretadas as dobradiçasdas portas do Templo de Salomão, as quais supostamente “... representam as duasnaturezas de Cristo”.100 O estudo tipológico é um princípio hermenêutico válido e essencialpara entendermos algumas passagens principalmente do Antigo Testamento. Zucknos diz que o estudo tipológico “... nos permite enxergar o traçado divino da história,pelo fato de ele [Deus] escolher pessoas, acontecimentos e elementos de Israel pararetratar e predizer aspectos de Cristo e seu relacionamento com os crentes dehoje”.101 O estudo da tipologia revela sombras deixadas no Antigo Testamento queforam reveladas de forma clara no Novo Testamento. Um exemplo disso são as100 ZUCK, Roy B. Op. Cit. p. 197101 Idem, p. 212 50
  54. 54. palavras de Jesus em João 3.14-15 “... do modo por que Moisés levantou a serpenteno deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo oque nele crê tenha a vida eterna”. A hermenêutica adota os seguintes critérios para validar a tipologia:(1) a semelhança entre o tipo e o antítipo; (2) a realidade histórica – o tipo devesurgir naturalmente do texto, cf. Hebreus 8.5; (3) a prefiguração, i.e., num tipoautentico, a correspondência ou semelhança precisa conter o aspecto de predição,prefiguração do antítipo; (4) elevação, i.e., o antítipo é superior ao tipo; (5) oplanejamento divino, i.e., não são meras analogias, mas são semelhanças planejadaspor Deus, fazendo que com os tipos tenham forte valor apologético; (6) os tiposdevem ser identificados como tais no Novo Testamento.102 Este último critério é de extrema importância para que não hajaexageros nas interpretações tipológicas. As vários personagens e as situaçõesnarradas no Antigo Testamento devem ser entendidas como tipos se o NovoTestamento assim o afirmar. Se isso não ocorrer, concordamos em encontrarsemelhanças, mas não podemos afirmar claramente que são tipos. Existe uma forte tendência em confundir a hermenêutica tipológicacom a alegorização. Contudo, “... a tipologia é a busca de vínculos entre os eventoshistóricos, pessoas ou coisas dentro da história da salvação; o alegorismo é a busca102 ZUCK, Roy B. Op. Cit. p 200-207. 51
  55. 55. de significados secundários e ocultos que sublinham o significado primário e óbvio danarrativa histórica”.1036.1. Norbert Lieth Norbert Lieth, suíço, é diretor da Chamada da Meia-NoiteInternacional. Suas mensagens têm como tema central a Palavra Profética, ou seja,as profecias escatológicas do Antigo e Novo Testamentos. Logo após sua conversão,estudou na Escola Bíblica da Chamada da Meia-Noite no Uruguai, onde ficou atéconcluir seus estudos. Por alguns anos, trabalhou como missionário na Bolívia. Maistarde, iniciou a divulgação da literatura da missão na Venezuela, onde permaneceuaté 1985. Nesse ano, voltou à Suíça e é o principal preletor nas conferências daMissão na Europa. É autor de vários livros publicados em alemão, português eespanhol. Sua obra analisada é Rute à Luz do Plano de Salvação, publicadapela editora Chamada da Meia Noite em 2000.6.2. Panorama da obra Na obra de Norbert Lieth não há uma introdução ao livro de Rute.Questões como contexto histórico, língua original ou debates a respeito do textobíblico não são sequer enunciadas. Norbert Lieth faz um prefácio onde explica sua103 VIRKLER, Henry A. Hermenêutica avançada: princípios e processos de interpretação bíblica. São Paulo: Vida, 1999. p. 142. 52
  56. 56. abordagem nas palavras abaixo, que comentaremos no início do ponto seguinte dotrabalho: Neste livro interpretei alegoricamente os personagens do livro de Rute e as circunstâncias em que viveram... A alegoria não leva em conta todos os aspectos do assunto, mas apresenta pensamentos de forma figurada para ensinar uma lição ou iluminar uma verdade, ou apenas um aspecto da verdade. ... o leitor, por sua vez, não deveria perder de vista que uma aplicação alegórica é simbólica e deve ser entendida como tal. Pois um símbolo não pode transmitir todas as facetas do original.104 Após esse prefácio, a obra começa a fazer aquilo a que se propõe:tratar de forma alegórica o texto bíblico. Para isso, Norbert Lieth divide seu trabalhoem cinco capítulos que tratam os seguintes temas: (1) a dispersão e restauração deIsrael, simbolizados pela família de Elimeleque; (2) a posição do cristianismo nominalem relação a Israel, simbolizado por Orfa; (3) a eleição da Igreja e sua posição emrelação a Israel, simbolizado por Rute; (4) o arrebatamento, simbolizado pelodescanso de Noemi, e (5) a vinda de Cristo para restaurar Israel, simbolizado pelaherança de Noemi. O livro permanece fiel à proposta inicial do autor. Seu pensamento edesenvolvimento são claros, e são usadas várias fotos ilustrativas para ajudar o leitora entrar na cena.104 LIETH, Norbert. Rute à luz do plano de salvação. Porto Alegre: Chamada da Meia Noite, 2000. p. 7 53
  57. 57. 6.3. Identificação e validação da posição hermenêutico- teológica do autor. Norbert Lieth anuncia de forma clara sua posição no prefácio que fazda obra. A sua intenção é criar uma alegoria com os personagens de Rute, usandoda hermenêutica tipológica para alcançar seu objetivo. Sendo assim, o sentidoautoral do texto não é buscado nem são levados em conta os princípioshermenêuticos como contexto histórico-cultural ou língua original. Usando o princípiohermenêutico da tipologia, Norbert Lieth chega a conclusões completamenteestranhas ao texto bíblico. Suas aplicações simbólicas, como ele mesmo adverte,impedem que o livro de Rute seja entendido pelo seu leitor em seu todo. Seutrabalho não é um comentário, mas uma tentativa de impor sua posição teológica àhistória narrada. Na primeira alegoria, o autor trabalha a saída de Elimeleque e suafamília da terra de Belém para as terras de Moabe. Segundo Norbert Lieth, “Napessoa de Elimeleque vemos figuradamente duas situações: (1) a queda e (2) adispersão de Israel”.105 Elimeleque saiu de Belém, a casa do pão, local onde maistarde nasceu o pão da vida, Jesus Cristo. O povo judeu rejeitou o pão da vida, quenasceu em Belém, a casa do pão, e por isso teve fome espiritual. Quanto à dispersãoe sofrimento, ele diz que “esse trecho [saída de Elimeleque de Belém] representa105 LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 11 54
  58. 58. simbolicamente a tragédia e o sofrimento dos judeus na Diáspora (Dispersão)”.106 Osjudeus andaram errantes por 1900 anos, sem terra, sem pátria, espalhados pelomundo. Elimeleque rejeitou a terra que Deus havia concedido ao Seu povoquando saiu de Belém para Moabe. Sua decisão foi pessoal, diferente dos judeus nadispersão, que saíram de sua terra pela atuação de Deus na história. Não faz sentidoa relação que Norbert Lieth faz da saída de Elimeleque com a história vivida pelosjudeus até 1948, quando Israel torna-se novamente um Estado. Essa história foivivenciada por toda a nação, diferente de Elimeleque que sai somente com suafamília. A segunda alegoria baseada na tipologia trabalha a figura de Orfa,que simboliza o cristianismo nominal. Norbert Lieth diz que “na vida dessas duasmoabitas, Orfa e Rute, o Senhor nos dá simbolicamente uma visão profunda doPlano de Salvação ... Rute e Orfa são, segundo o meu entendimento, representaçõesdo cristianismo verdadeiro e do falso cristianismo”107. Orfa, que segundo Liethsignifica nuca, demonstra a dureza e teimosia dos cristãos que não querem obedecera Cristo. Quando Noemi revelou as possíveis dificuldades do caminho e da vida emBelém, ela deu as costas e voltou para o seu povo e o seu deus. Assim, Orfa106 LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 18.107 Idem, p 28. 55
  59. 59. simboliza o cristianismo nominal, que constantemente dá as costas a Deus e andapor caminhos contrários ao cristianismo. Outra questão levantada por Norbert Lieth na alegoria de Orfa é queela só decide deixar Noemi quando esta resolve voltar para Israel. Com isso, o autordiscorre sobre o fato de muitas nações serem contrárias ao plano de Deus para comIsrael, incluindo as nações chamadas cristãs. Segundo o autor, “Grande parte dospovos considerados cristãos o são nominalmente. Por isso, eles são incapazes deentender o plano de Deus com Israel”.108 Mais adiante, ele diz que “da mesma forma[que Orfa deu as costas para Noemi], poucos cristãos permanecem decididamenteao lado de Israel desde a fundação do Estado e desde o início do retorno dos judeusà sua terra, e poucos reconhecem que é tempo de colheita”.109 Para ter o antítipo noNovo Testamento, Norbert Lieth usa a história do centurião romano em Lucas 7.1-6.Segundo ele, esse centurião romano “...atravessou a fronteira, posicionando-se demaneira positiva em relação a Israel”.110 Dizer que Orfa é um tipo do cristianismo nominal implica dizer queela havia se convertido ao Deus de Israel, o que o texto bíblico não afirma. NorbertLieth é confuso em esclarecer se as pessoas que desistem no caminho realmentetomaram uma decisão ao lado de Deus. Ele diz que Orfa “... representa os muitoscristãos que só chegam até a fronteira e, no momento do desafio decisivo, desviam-108 LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 31.109 Idem, p. 33.110 Idem, p. 35. 56
  60. 60. se e mostram a dureza do seu coração ...”111. Se assim for, essas pessoas que Orfarepresenta não chegaram a tomar uma decisão, apenas seguiram por certo tempo aspráticas cristãs, não podendo ser chamadas de cristãs. A terceira alegoria estabelece o contrário de tudo quanto Orfasimboliza: Rute representa simbolicamente a Igreja verdadeira e os amigos de Israel.No retorno de Noemi para Israel Rute representou o cristianismo verdadeiro. Comisso, segundo o autor, “... nós cristãos somos exortados a nos colocarmos ao lado deIsrael e acompanhá-lo abençoando-o. Os verdadeiros cristãos deveriam estar cientesde que se converteram ao Deus de Israel”.112 Para Lieth, o cristão verdadeiro deveriaservir a Israel, pois servimos ao Deus de Israel, ou seja, o cristianismo deveria fazero mesmo que Rute fez para com Noemi, tornando-se companheiro, deleite,refrigério, amigo. Ao deixar tudo e ir para Belém com Noemi, Rute pôde encontrar oresgatador. Segundo Norbert Lieth, o segundo capitulo do livro de Rute, que narra oencontro com Boaz no campo descreve “... alegoricamente a história da conversãoda Igreja dentre os gentios a Jesus Cristo, seu Salvador”.113 Rute estava à procura, eencontrou Boaz. Norbert Lieth diz que esta é a situação de um bom numero depessoas que estão em busca de encontrar “...Aquele aos olhos de quem há graça ebenevolência ...”.114111 LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 29.112 Idem, p. 43-44.113 Idem, p. 50.114 Idem, Ibid. 57
  61. 61. Rute decidiu favoravelmente ao Deus e ao povo de Israel. Suadecisão de seguir Noemi no caminho para Belém a fez participante do povo e dasbençãos prometidas por Deus a Israel. Não temos base bíblica para dizer que Ruterepresenta a Igreja. Sua história apenas mostra a benevolência de Deus ao permitirque pessoas passassem a fazer parte do povo de Israel ao decidirem pela devoção aEle, assim como também Raabe citada na genealogia em Rute quatro. A quarta alegoria diz respeito ao arrebatamento. O primeiro encontrode Rute com Boaz deu-se no campo em Belém. O segundo encontro acontece no larde Boaz, o que faz “uma representação impressionante do arrebatamento daIgreja”.115 Norbert Lieth faz um paralelo entre os acontecimentos do capítulo três deRute com os acontecimentos do arrebatamento descritos pelo Novo Testamento. Elediz que É profético o que Noemi incute no coração de Rute, pois Noemi simboliza o povo de Israel que volta para sua terra. Israel também já sabe hoje intuitivamente, como Noemi sabia, que Boaz (Jesus) é ‘nosso parente’. O Senhor Jesus é nosso redentor, e Ele também é o futuro redentor de Israel. Perguntamo-nos: quando a Igreja entrará no descanso eterno? O judeu Paulo o revelou: por ocasião do arrebatamento.116 Lieth procura estabelecer correlatos em tudo que é narrado noterceiro capítulo de Rute: (1) a ordem de Noemi para Rute para banhar-se, ungir-see por seu melhor vestido é o lavar através da Palavra de Deus, a unção do óleo doEspírito Santo e o andar na santificação respectivamente;(2) descer à eira é o115 LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 55.116 Idem, p. 57. 58
  62. 62. caminho para encontra-se com o Senhor; (3) o encontro de Rute com Boaz à meia-noite, o que representa um momento específico (cf. Mateus 25.6): “Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro!”. Na busca de estabelecer uma relação tipológica, Norbert Liethafasta-se totalmente da verdade bíblica, e chega a absurdos. O primeiro encontroaconteceu na propriedade de Boaz. O segundo, na eira, local onde os grãos de cerealeram separados e os talos moídos. A eira localizava-se perto da vila, em ponto alto eaberto. Como a vila de Belém situava-se no topo de uma colina, a eira estava poucoabaixo dela, o que explica o fato de Rute descer à eira. As melhores condições parao trabalho na eira, na primavera e no verão, se davam a partir das quatro ou cincohoras da tarde, quando o vento era favorável — não tão forte, mas suficiente.Durante a limpeza do cereal, os proprietários alternavam-se no uso da eira117, e otrabalho prosseguia até tarde da noite, sendo comum que os trabalhadoresacampassem na própria eira. Completada a tarefa do dia, tomavam uma refeição ese deitavam para dormir. O texto, portanto, não diz nada a respeito da casa de Boaz,como Lieth afirma. Também não há como deduzir que o primeiro encontrorepresenta a conversão dos gentios e o segundo encontro representa oarrebatamento ou volta para casa. Uma vez estabelecido isso, invalida-se oscorrelatos feitos por Norbert Lieth na seqüencia da narrativa.117 REED, John W. Ruth. In: WALVOORD, John, ZUCH, Roy B. The Bible knowledge commentary: an exposition of the Scriptures by Dallas Seminary faculty. Wheaton, Ill. : Victor, 1986. p. 424. 59

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