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001 mateus Document Transcript

  • 1. INTRODUÇÃO O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS Autoria Desde o segundo século da era cristã, a tradição da Igreja atribui ao apóstolo Mateus a autoria do Evangelho que aparece em primeiro lugar nas várias edições da Bíblia (Mt 9.9 e 10.3). Eusébio, em sua obra História Eclesiástica, no início do século IV, já trazia citações de Papias, bispo do século II, de Irineu, bispo de Leão e de Orígenes, grande pensador cristão do século III. Todos os “pais da Igreja” (como ficaram conhecidos os notáveis discípulos de Cristo e teólogos dos primeiros séculos), concordam em afirmar que este Evangelho foi escrito (ou narrado a um amanuense, pes- soa habilidosa com a escrita), primeiramente em aramaico (hebraico falado por Cristo e pelos jovens judeus palestinos de sua época) e depois, traduzido para o grego. Apesar das muitas evidências sobre a existência do original em aramaico, todas as buscas e pesquisas arqueológicas somente en- contraram fragmentos e cópias em grego. Entretanto, os principais estudiosos e teólogos do mundo não duvidam que o texto grego que dispomos hoje em dia é o mesmo que circulou entre as igrejas a partir da segunda metade do século I d.C. Ainda que não apresentando explicitamente o nome do autor, o Evangelho Segundo Mateus, fornece pelo menos uma grande evidência interna que confirma sua autoria defendida pelos pais da Igreja. A história da narrativa de um banquete ao qual Jesus compareceu em companhia de grande número de publicanos e pecadores (pagãos e judeus que não guardavam a Lei e as determinações dos líderes religiosos da época) é descrita na passagem que começa com as seguintes palavras em grego original transliterado: kai egeneto autou anakeimeou em te(i) oikia(i). Ou seja: “E aconteceu que, estando Jesus em casa,...” (Mt 9.10). Considerando que os últimos três vocábulos significam “em casa”, o trecho sugere que o banquete fosse oferecido “na casa” de Jesus. Contudo, a passagem paralela em Mc 2.15 revela que essa festa aconteceu “na casa” de Levi, isto é, Mateus Levi. O texto em Marcos aparece assim transliterado: en te(i) oikia(i) autou, “na casa dele”. O sentido alternativo de Mt 9.10 esclarece que “em casa” quer dizer “na minha casa”, ou seja, “na casa” do autor, e isto concorda perfeitamente com Marcos e com os fatos apresentados em todos os Quatro Evangelhos. Mateus, que tinha por sobrenome Levi (Mc 2.14), e cujo nome significa “dádiva do Senhor”, era um cobrador de impostos a serviço de Roma, mas que abandonou uma vida de avareza e desonestidade para seguir Jesus, o Messias (Mt 9.9-13). Em Marcos e Lucas é chamado por seu outro nome, Levi. Propósitos O principal objetivo do Evangelho Segundo Mateus é relatar seu testemunho pessoal sobre o fato de Jesus Cristo ser o Messias prometido no Antigo Testamento, cuja missão messiânica era trazer o Reino de Deus até a humanidade. Esses dois grandes temas: o caráter messiânico de Jesus e a presença do Reino de Deus são indissociáveis e devem ser analisados sempre como um todo harmônico. Cada qual representa um “mistério” – uma nova revelação do plano remidor de Deus (Rm 16.25-26). Antes do grande evento da vinda do Messias, como o Filho de Deus (também chamado no AT e pelo próprio Jesus de “o Filho do homem”), em triunfo e grande glória entre as nuvens do céu, a fim de estabelecer Seu Reino sobre o planeta todo, terá em primeiro lugar, de vir sob a mais absoluta humildade entre os homens na qualidade de Servo Sofredor, cônscio de que sua missão será dedi- car a própria vida em sacrifício voluntário a favor da humanidade, especialmente dos que, crendo em Seu Nome, se arrependerem dos seus pecados, nascendo para uma nova vida (Jo 1.12; 3.16). Esse é o mistério da missão messiânica. Era um ensino completamente desconhecido para os judeus do primeiro século da nossa era. Hoje, a maior parte dos cristãos que lêem o capítulo 53 de Isaías não sentem qualquer dificuldade em identificar a pessoa de Jesus Cristo com o Messias prometido. Entretanto, os judeus não observaram com cuidado a descrição do Servo Sofredor e deram mais atenção às promessas de um Messias que viria com grande poder e glória, o que realmente está registrado no contexto dessa passagem (Is 48.20; 49.3). Por esse motivo, os judeus do primeiro século esperavam ansiosamente pelo Filho de Davi, um Rei divino (uma vez que os reis humanos já haviam provado sua incompetência e limitação). O Filho deMT_B.indd 1 14/8/2007, 14:05
  • 2. Deus e Rei governará o Reino messiânico (Is 9 e 11 com Jr 33). Nesse Dia, todo pecado e mal serão extirpados da terra; e a paz e a justiça prevalecerão. O Filho do homem é um ser celestial a Quem está entregue o governo de todas as nações e reinos da terra. O mistério do Reino é semelhante e está intimamente ligado ao mistério messiânico. No segundo capítulo do livro do profeta Daniel temos a descrição da vinda do Reino de Deus em pinceladas vigorosas e impressionantes. Todo poder que fizer resistência à vontade do Senhor será aniquilado. O Reino virá todo, completo, de uma só vez, varrendo da sua frente todas as hostes do mal e todo império contrário a Jesus Cristo. A terra será toda transformada e uma nova ordem, universal e perfeita será instaurada. Portanto, tanto a mensagem de Cristo como a Sua pessoa foram totalmente incompreendidas pelos Seus compatriotas e contemporâneos em geral, incluindo os próprios discípulos. Todavia, a nova revelação sobre o propósito de Deus é que o Reino deveria vir em humildade e doação: poder espiritual, antes de vir em plena glória triunfante. Mateus deixa claro que deseja apresentar, em ordem histórica, o nascimento, ministério, paixão e ressurreição de Jesus Cristo. Para tanto, ele reúne os fatos em cinco grandes discursos proferidos pelo Senhor: o chamado, Sermão da Montanha (Mt 5.1 a 7.27); a comissão aos apóstolos (Mt 10.5- 42); as parábolas (Mt 13.1-53); o ensino sobre humildade e perdão (Mt 18.1-35), e a palavra profética (Mt 24.1 a 25.46). Mateus cita várias passagens e profecias extraídas do Antigo Testamento e, de fato, interpreta essas profecias como tendo absoluto e certeiro cumprimento em Jesus Cristo; tudo é escrito e ensinado de um modo que seria para o judeu do século I prova irrefutável, a qual a Igreja cristã adota até nossos dias. Data da primeira publicação Embora alguns estudiosos considerem a forte possibilidade de o Evangelho Segundo Mateus ter sido escrito na Antioquia da Síria, as evidentes características judaicas do texto original apontam sua geração para alguma parte da antiga Palestina. Considerando o fato de a terrível destruição de Jerusalém, ocorrida por volta do ano 70 d.C., ser ainda considerada um acontecimento futuro (Mt 24.2), e que Mateus, assim como Lucas, terem sido beneficiados pela leitura dos escritos de Marcos, podemos entender que as primeiras cópias do livro de Mateus circularam entre os irmãos da recém igreja cristã (chamada de igreja primitiva), quando a Igreja era em grande parte judaica e o Evangelho pregado quase que exclusivamente aos judeus (At 11.19), por volta dos anos 50 e 60 da nossa era. Esboço Geral de Mateus 1. Nascimento e infância do Cristo, o Messias (caps. 1,2) A. A genealogia de Jesus (1.1-17). B. O anúncio do seu nascimento (1.18 – 25) C. A adoração ao bebê, filho do Homem, o Salvador (2.1-12) D. A permanência de Jesus no Egito (2.13-23) 2. Prelúdio do ministério de Jesus Cristo (caps. 3.1 – 4.25) A. João Batista e seu ministério preparatório para Jesus (3.1-12) B. O batismo de Jesus Cristo (3.13-17) C. A grande tentação de Jesus (4.1-11) D. A investidura do Senhor (4.12-25) 3. O ensino do Rei Jesus Cristo (caps. 5.1 – 7.29) A. A proposta da Vida no Reino (5.1-16) B. Os princípios espirituais para se viver no Reino (5.17-48) C. A Torá e a Lei de Moisés (5.17-20) D. A lei sobre o assassinato (5.21, 22) E. A lei sobre o adultério (5.27-30) F. A lei sobre o divórcio (5.31, 32) G. A lei sobre os votos (5.33-37) H. A lei da não resistência (5.38-42) I. A lei do amor (5.43-48) 4. Aspectos práticos da vida no Reino (caps. 6.1 – 7.12) A. Sobre as esmolas e ajudas (6.1-4) B. Sobre a oração (6.5-15)MT_B.indd 2 14/8/2007, 14:05
  • 3. C. Sobre a disciplina espiritual do jejum (6.16-18) D. Sobre o dinheiro (6.19-24) E. Sobre a ansiedade e preocupações (6.25-34) F. Sobre o Juízo (7.1-5) G. Sobre a prudência (7.6) H. Sobre a oração (7.7-11) I. Sobre o trato com outras pessoas (7.12) J. Sobre o caminho estreito do Reino (7.13-29) 5. Demonstrações da soberania de Jesus (caps. 8.1 – 9.38) A. Poder sobre a impureza (8.1-4) B. Poder sobre a distância (8.5-13) C. Poder sobre as enfermidades (8.14-17) D. Poder sobre os discípulos (8.18-22) E. Poder sobre a natureza (8.23-27) F. Poder para perdoar pecados (9.1-13) G. Poder sobre a lei e as doutrinas (9.14-17) H. Poder sobre a morte (9.18-26) I. Poder sobre as trevas (9.27-31) J. Poder sobre os demônios (9.32-34) K. Poder sobre doenças da alma e do corpo (9.35-38) 6. A grande missão do Rei Jesus (10.1 – 16.12) A. A missão é anunciada (10.1 – 11.1) B. A missão é comprovada (11.2 – 12.50) C. O consolo aos discípulos de João (11.2-19) D. A condenação das cidades infiéis (11.20-24) E. A convocação dos discípulos para Si (11.25-30) F. As controvérsias sobre o uso do sábado (12.1-13) G. O pecado imperdoável da incredulidade (12.14-37) H. Alguns sinais extraordinários (12.38-45) I. Relacionamentos transformados (12.46-50) 7. A missão tem seu objetivo ampliado (13.1-52) A. A parábola do semeador (13.1-23) B. A parábola do trigo e o joio (13.24-30) C. A parábola do grão de mostarda (13.31, 32) D. A parábola do fermento (13.33) E. A parábola do trigo e do joio é explicada (13.34-43) F. A parábola do tesouro escondido (13.44) G. A parábola da pérola de grande valor (13.45, 46) H. A parábola da rede (13.47-50) I. A parábola do pai de família (13.51, 52) 8. A missão sofre fortes ataques (caps. 13.53 – 16.12) A. Pelos conterrâneos do Rei (13.53-58) B. Por Herodes – seguido de milagres (14.1-36) C. Pelos escribas e fariseus – seguido de milagres (15.1-39) D. Pelos fariseus e saduceus (16.1-12) 9. A teologia prática de Jesus, o Messias (caps.16.13 – 20.28) A. Quanto à Sua Igreja (16.13-20) B. Quanto à Sua morte (16.21-28) C. Quanto à Sua glória (17.1-21) D. Quanto à Sua traição (17.22, 23) E. Quanto a impostos (17.24-27) F. Quanto à humildade (18.1-35) G. Alimentar uma fé pura e simples (18.1-6) H. Sincera preocupação com os perdidos (18.7-14) I. Disciplina e restauração entre os crentes (18.15-20) J. Disposição para perdoar tudo e sempre (18.21-35) K. Quanto aos dramas humanos (19.1-26)MT_B.indd 3 14/8/2007, 14:05
  • 4. L. Problemas físicos (19.1, 2) M. Divórcio e novo casamento (19.3-12) N. Quanto às crianças e os pequenos na fé (19.13-15) O. Quanto ao acúmulo de riquezas (19.16-26) P. Quanto ao Reino (caps.19.27 – 20.28) Q. Recompensas no Reino (19.27-30) R. Reconhecimento no Reino (20.1-16) S. Graduação e promoções no Reino (20.17-28) 10. A proclamação do Rei Jesus (caps. 20.29 – 23.39) A. O poder do Rei Jesus (20.29-34) B. A aclamação do Rei Jesus (21.1-11) C. A purificação realizada pelo Rei Jesus (21.12-17) D. A maldição da figueira (21.18-22) E. O desafio ao Rei Jesus (21.23-27) F. As parábolas do Rei Jesus (21.28 – 22.14) G. Quanto à rebeldia de Israel (21.28-32) H. A retribuição a Israel (21.33-46) I. A rejeição de Israel (22.1-14) J. Os pronunciamentos do Rei Jesus (caps. 22.15 – 23.39) K. Em resposta aos herodianos (22.15-22) L. Em resposta aos saduceus (22.23-33) M. Em resposta aos fariseus (22.34-40) N. Questionando os fariseus (22.41-46) O. Contra os doutores da lei e fariseus (23.1-36) P. Contra a cidade santa: Jerusalém (23.37-39) 11. As terríveis profecias do Rei Jesus (caps. 24.1 – 25.46) A. A destruição do Templo (24.1, 2) B. As indagações dos discípulos (24.3) C. Os grandes sinais sobre o final dos tempos (24.4-28) D. O sinal do glorioso retorno de Jesus (24.29-31) E. Parábolas ilustrando as profecias (24.32 – 25.46) F. A figueira (24.32-35) G. Os dias de Noé (24.36-39) H. Os companheiros (24.40, 41) I. O pai de família atento (24.42-44) J. O servo leal (24.45-51) K. As dez virgens (25.1-13) L. Os talentos (25.14-30) M. O grande julgamento dos gentios (25.31-46) 12. O sacrifício do Rei Jesus por nossa Salvação (caps. 26.1 – 27.66) A. A preparação da Paixão (26.1-16) B. A Páscoa da Paixão (26.17-30) C. A traição predita (26.31-56) D. Os interrogatórios e julgamentos (26.57 – 27.26) E. Diante do sumo sacerdote (26.57-75) F. Perante o Sinédrio (27.1-10) G. Respondendo a Pilatos (27.11-26) H. A crucificação (27.27-66) I. Martírio e humilhação (27.27-44) J. Jesus entrega sua vida (27.45-56) K. O sepultamento (27.57-66) 13. A ressurreição e a comissão do Rei Jesus (28.1-20) A. O triunfo de Jesus sobre a morte (28.1-10) B. A conspiração alegada (28.11-15) C. A grande comissão dos discípulos (28.16-20)MT_B.indd 4 14/8/2007, 14:05
  • 5. O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS A linhagem real de Cristo 15 Eliúde gerou Eleazar; Eleazar gerou (Lc 3.23-28) Matã, Matã gerou Jacó; 1 Livro da genealogia de Jesus Cristo, Filho de Davi, Filho de Abraão: 2 Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacó, 16 Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, denominado o Cristo.2 17 Portanto, o total das gerações é: de Jacó gerou Judá e seus irmãos, Abraão até Davi, quatorze gerações; de 3 Judá gerou Perez e Zera, de Tamar; Pe- Davi até o exílio na Babilônia, quatorze rez gerou Esrom; Esrom gerou Arão. gerações; e do exílio na Babilônia até 4 Arão gerou Aminadabe; Aminadabe ge- Cristo, quatorze gerações. rou Naassom; Naassom gerou Salmom, 5 Salmom gerou Boaz, de Raabe, e Boaz ge- A linhagem divina de Cristo rou Obede, de Rute; Obede gerou a Jessé. (Lc 2.1-7) 6 Jessé gerou o rei Davi, e o rei Davi ge- 18 O nascimento de Jesus Cristo ocorreu rou a Salomão, daquela que foi mulher da seguinte maneira: Estando Maria, sua de Urias1; mãe, prometida em casamento a José, 7 Salomão gerou Roboão; Roboão gerou antes que coabitassem, achou-se grávida Abias; Abias gerou Asa, pelo Espírito Santo. 8 Asa gerou Josafá; Josafá gerou Jorão; 19 Então, José, seu esposo3, sendo um Jorão gerou Uzias; homem justo e não querendo expô-la à 9 Uzias gerou Jotão; Jotão gerou Acaz; desonra pública, planejou deixá-la sem Acaz gerou Ezequias; que ninguém soubesse a razão. 10 Ezequias gerou Manassés; Manassés 20 Mas, enquanto meditava sobre isso, gerou Amom; Amom gerou Josias; eis que, em sonho, lhe apareceu um anjo 11 Josias gerou Jeconias e a seus irmãos do SENHOR, dizendo: “José, filho de Davi, no tempo em que foram levados cativos não temas receber a Maria como sua para a Babilônia. mulher, pois o que nela está gerado é do 12 Depois do exílio na Babilônia, Je- Espírito Santo. conias gerou Salatiel; Salatiel gerou 21 Ela dará à luz um filho, e lhe porás o Zorobabel; nome de Jesus, porque Ele salvará o seu 13 Zorobabel gerou Abiúde; Abiúde ge- povo dos seus pecados”.4 rou Eliaquim, e Eliaquim gerou Azor; 22 Tudo isso aconteceu para que se cum- 14 Azor gerou Sadoque; Sadoque gerou prisse o que o SENHOR havia dito através Aquim; Aquim gerou Eliúde, do profeta: 1 A expressão “daquela que foi mulher” não se encontra nos originais em grego; entretanto, desde 1611, a Bíblia King James traz, junto ao texto bíblico, essa explicação rabínica, cujo emprego passou a se observar na maioria das traduções e versões posteriores, em diversas línguas. 2 A expressão grega christos é o adjetivo verbal semita, equivalente a Messias, que, em hebraico, significa “o Ungido”. No AT, essa forma designava o rei de Israel (o ungido do Senhor, como em 1 Sm 16.6), o sumo sacerdote (o sacerdote ungido – Lv 4.3). No plural, essa expressão se refere aos patriarcas em seu ministério de profetas (“meus ungidos” – Sl 105.15). Jesus cumpriu a profecia messiânica, desempenhando essas três funções. 3 O noivado judaico da época era um compromisso tão solene, que os noivos passavam a se tratar como marido e mulher. A Lei, contudo, proibia qualquer relação sexual antes do casamento formal. O noivado só poderia ser desfeito por infidelidade, que era punida com repúdio público e apedrejamento (Gn 29.21; Dt 22.13-30; Os 2.2). 4 Jesus (em hebraico Yehoshú’a) significa Yahweh Salva ou “O SENHOR é a Salvação”. Yahweh é o nome judaico impronunciável, sagrado e sublime de Deus, na maioria das vezes traduzido por: SENHOR. Em hebraico: (Êx 6.3; Is 41.4). Em grego Egô Eimi.MT_B.indd 5 14/8/2007, 14:05
  • 6. MATEUS 1, 2 6 23 “Eis que a virgem conceberá e dará à perguntou-lhes onde havia de nascer luz um filho, e Ele será chamado de Ema- o Cristo.3 nuel”, que significa “Deus conosco”.5 5 E eles lhe responderam: “Em Belém da 24 José, ao despertar do sonho, fez o que Judéia, pois assim escreveu o profeta:4 o Anjo do SENHOR lhe tinha ordenado e 6 ‘Mas tu, Belém, da terra de Judá, de recebeu Maria como sua mulher. modo algum és a menor entre as prin- 25 Contudo, não coabitou com ela en- cipais cidades de Judá; pois de ti sairá o quanto ela não deu à luz o filho primogê- Guia, que como pastor, conduzirá Israel, nito. E José lhe colocou o nome de Jesus. o meu povo’”.5 7 Então Herodes, chamando secretamen- A visita dos sábios do Oriente te os sábios, interrogou-os exatamente 2 Após o nascimento de Jesus em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, eis que alguns sábios vindos do Oriente che- acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera. 8 Mandou-os a Belém e disse: “Ide, e garam a Jerusalém.1 perguntai diligentemente pelo menino, e 2 E, indagavam: “Onde está aquele que é quando o achardes, comunicai-me, para nascido rei dos judeus? Pois do Oriente que também eu vá e o adore”. vimos a sua estrela e viemos adorá-lo”.2 9 Após terem ouvido o rei, seguiram 3 Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou o seu caminho, e a estrela que tinham perturbado e toda a Jerusalém com ele. visto no Oriente foi adiante deles, até 4 Tendo reunido todos os príncipes que finalmente parou sobre o lugar onde dos sacerdotes e os escribas do povo, estava o menino. 5 Mateus demonstra de forma clara e inquestionável que Jesus Cristo é o Messias prometido nas diversas profecias do AT, como nesse texto de Is 7.14. (Mt 2.15-23; 8.17; 12.17; 13.25; 21.4; 26.54-56; 27.9; cf. 3.3; 11.10; 13.14, etc.) O próprio Jesus usa as Escrituras para comprovar sua identidade e ministério (Mt 11.4-6; Lc 4.21; 18.31; 24.44; Jo 5.39; 8.56; 17.12, etc.) Capítulo 2 1 O primeiro calendário foi elaborado por Dionísio Exíguo, de Roma (no século VI) e adotado em todo o mundo predominan- temente cristão. Com o surgimento de novas e mais precisas tecnologias para a medição do tempo, constatou-se que Dionísio errou em pelo menos 4 anos em relação ao mais antigo calendário romano. Herodes, chamado “O Grande”, recebeu, do Senado romano, o título de “rei da Judéia” e, por isso, ficou conhecido como “rei dos judeus”. Durante seu reinado (de 39 a.C. a 4 a.C.) mandou matar todas as crianças de Belém, de até 2 anos de idade. Nessa época Jesus estaria em seu segundo ano de vida. E os cálculos demonstram que teria nascido quase 5 anos antes do “Anno Domini” (ano oficial do nascimento do Senhor). Quanto à expressão “sábios”, como traduzida pela Bíblia King James, refere-se a um grupo de sacerdotes babilônios, gentios, reconhecidos entre os povos medo-persas como mestres, cientistas, astrônomos, e que se dedicavam ao estudo da medicina e da astrologia. Algumas versões trazem a expressão “magos”, mas em nossos dias essa palavra tem uma conotação estritamente mística e ocultista. A tradição das igrejas cristãs acrescenta que eles eram três reis, devido aos três presentes de alto valor mone- tário oferecidos a Jesus, mas isso não tem comprovação bíblica. 2 Séculos mais tarde, o astrônomo Kepler calculou que essa imagem de estrela reluzente se tratava da conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, em 7 a.C. Na China, o mesmo fenômeno foi observado no ano 4 a.C. e interpretado como o aparecimento de uma estrela variável, com surgimento e desaparecimento periódicos. 3 Herodes convoca os responsáveis pela vida religiosa e moral da nação judaica. Os sumos sacerdotes eram os membros das grandes famílias sacerdotais de Jerusalém. Os escribas geralmente pertenciam ao partido político dos fariseus; eram também doutores da Lei e estudantes profissionais, pagos para estudar e ensinar, ao povo, a Lei e as tradições rabínicas. Também fun- cionavam como advogados públicos, sendo-lhes confiada à administração da lei e da ordem, como juízes no Sinédrio (22.35). Esses dois grupos se unem contra Jesus, em 21.15. Mateus associa com mais freqüência os sumos sacerdotes aos anciãos do povo (26.3,47; 27.1). O sentido em ambos os casos é o mesmo: os principais responsáveis pelo drama de um povo são seus líderes e chefes. 4 A palavra “profeta” deriva do grego “pro” que significa “para adiante” ou “à frente” e “phemi” que quer dizer “o que fala”. O profeta é aquele que traz a mensagem de Deus, o servo que anuncia prioritariamente, antes de tudo, a Palavra do Senhor. Esse ministério pode incluir a previsão de futuros eventos. Deus continua a falar através de seus profetas nas igrejas de hoje. Os arautos de Deus nos orientam e ensinam a ouvir o Espírito Santo e a obedecer à Palavra. Entretanto, a Bíblia também nos adverte quanto aos “falsos profetas”, pessoas que são lideradas por um espírito diferente do Espírito Santo e causam confusão à comunidade e grande dano a si próprios (Jr 7.4, Jr 14.14, Lm 2.4, Ez 13.6, Mt 7.15, Mt 24.11-24, 2Pe 2.1, Ap 19.20). 5 Mq 5.2; Jo 7.42; Ap 2.27MT_B.indd 6 14/8/2007, 14:05
  • 7. 7 MATEUS 2, 3 10 E vendo eles a estrela, alegraram-se O retorno para Israel com grande e intenso júbilo. 19 Após a morte de Herodes, eis que um 11 Ao entrarem na casa, encontraram o anjo do SENHOR apareceu em sonho a menino com Maria, sua mãe, e prostran- José, no Egito, e disse-lhe: do-se o adoraram. Então abriram seus 20 “Dispõe-te, toma o menino e sua mãe, tesouros e lhe ofertaram presentes: ouro, e vai para a terra de Israel; porque já incenso e mirra.6 estão mortos os que procuravam tirar a 12 E, sendo por divina revelação avisados vida do menino”. em sonhos para que não voltassem para 21 Então, José se levantou, tomou o meni- junto de Herodes, retornaram para a sua no e sua mãe, e foi para a terra de Israel. terra, por outro caminho. 22 Mas, ao ouvir que Arquelau estava reinando na Judéia, em lugar de seu pai A fuga para o Egito Herodes, teve medo de ir para lá. Con- 13 Depois que partiram, eis que um anjo tudo, tendo sido avisado em sonho por do SENHOR apareceu a José em sonho e divina revelação, seguiu para as regiões lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e da Galiléia. sua mãe, e foge para o Egito. Permanece 23 Ao chegar, foi viver numa cidade lá até que eu te diga, pois Herodes há de chamada Nazaré. Cumpriu-se assim o procurar o menino para o matar”. que fora dito pelos profetas: “Ele será 14 José se levantou, tomou o menino e sua chamado Nazareno”.9 mãe, durante a noite, e partiu para o Egito. 15 E esteve lá até a morte de Herodes. E João Batista prepara o caminho assim se cumpriu o que o SENHOR tinha (Mc 1.2-8; Lc 3.1-18; Jo 1.6-8,19-36) dito através do profeta: “Do Egito cha- mei o meu filho”.7 16 Quando Herodes percebeu que havia 3 Naqueles dias surgiu João Batista pre- gando no deserto da Judéia; e dizia: 2 “Arrependei-vos, porque o Reino dos sido iludido pelos sábios, irou-se ter- céus está próximo”.1 rivelmente e mandou matar todos os 3 Este é aquele que foi anunciado pelo meninos de dois anos para baixo, em profeta Isaías: “Voz do que clama no Belém e em todas as circunvizinhanças, deserto: Preparai o caminho do SENHOR, de acordo com as informações que havia endireitai as suas veredas”. obtido dos sábios. 4 João tinha suas roupas feitas de pêlos 17 Então se cumpriu o que fora dito pelo de camelo e usava um cinto de couro na profeta Jeremias: cintura. Alimentava-se com gafanhotos e 18 “Ouviu-se uma voz em Ramá, pranto mel silvestre. e grande lamentação; é Raquel que chora 5 A ele vinha gente de Jerusalém, de toda por seus filhos e recusa ser consolada, a Judéia e de toda a província adjacente pois já não existem”.8 ao Jordão. 6 Sl 72.10-11; Is 60.6 7 Os 11.1 8 Jr 31.15 9 A expressão hebraica traduzida por “nazareno” significa: desprezível ou desprezado. Nazaré era o lugar mais improvável para o surgimento ou a residência do Messias, o Ungido de Deus e libertador do povo de Israel (Sl 22.6; Is 11.1; Is 53.3; Mc 1.24). Capítulo 3 1 João começa seu ministério no deserto da Judéia, uma região árida e estéril, ao longo da margem ocidental do mar Morto. O Reino dos céus sinaliza o domínio do céu e dos seus valores sobre a terra e o sistema econômico, político, social e religioso mundial. O povo judeu da época de Cristo esperava esse Reino messiânico (ou davídico) e seu estabelecimento. Foi exatamente esse o Reino que João anunciou como “próximo”. A rejeição de Cristo pelo povo adiou sua plena concretização até a segunda e iminente vinda de Cristo (Mt 25.31). O caráter atual do Reino está descrito na série de parábolas (histórias com objetivo didático) contadas por Jesus em Mt 13.MT_B.indd 7 14/8/2007, 14:06
  • 8. MATEUS 3, 4 8 6 Confessando os seus pecados, eram 15 Jesus, entretanto, declarou: “Deixe batizados por João no rio Jordão. assim, por enquanto; pois assim convém 7 E, vendo ele muitos dos fariseus e dos que façamos, para cumprir toda a justiça”. saduceus que vinham ao seu batismo, E João concordou. dizia-lhes: “Raça de víboras, quem vos 16 E, sendo Jesus batizado, saiu logo da ensinou a fugir da ira futura?2 água, e eis que se abriram os céus, e viu o 8 Produzi, sim, frutos que mostrem vosso Espírito de Deus descendo como pomba arrependimento! e vindo sobre Ele. 9 Não presumais de vós mesmos, dizen- 17 Em seguida, uma voz dos céus disse: do: ‘Temos por pai a Abraão’; porque eu “Este é meu Filho amado, em quem mui- vos digo que mesmo destas pedras Deus to me agrado”. pode gerar filhos a Abraão. 10 O machado já está posto à raiz das Jesus é tentado pelo Diabo árvores, e toda árvore, pois, que não (Mc 1.12,13; Lc 4.1-13) produz bom fruto é cortada e lançada no fogo. 11 Eu, em verdade, vos batizo com água, 4 Jesus foi então conduzido pelo Espí- rito, ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. para arrependimento; mas depois de 2 Depois de jejuar quarenta dias e qua- mim vem alguém mais poderoso do que renta noites, teve fome. eu, tanto que não sou digno nem de levar 3 O tentador aproximou-se então dele e as suas sandálias. Ele vos batizará com o disse: “Se tu és o Filho de Deus, manda Espírito Santo e com fogo. que estas pedras se tornem em pães”. 12 Ele traz a pá em sua mão e separará 4 Jesus, porém, afirmou-lhe: “Está es- o trigo da palha.3 Recolherá no celeiro o crito: ‘Nem só de pão viverá o homem, seu trigo e queimará a palha no fogo que mas de toda a palavra que sai da boca de jamais se apaga”. Deus’”.1 5 Então o Diabo o conduziu à Cidade O batismo de Jesus Santa, e colocou-o sobre a parte mais (Mc 1.9-11; Lc 3.21,22; Jo 1.32-34) alta do templo e desafiou-lhe: 13 Então Jesus veio da Galiléia ao Jordão 6 “Se tu és o Filho de Deus, joga-te daqui para ser batizado por João. para baixo. Pois está escrito: ‘Aos seus 14 Mas João se recusava, justificando: anjos dará ordens a teu respeito, e com “Sou eu quem precisa ser batizado por ti, as mãos eles te susterão, para que jamais e vens tu a mim?” tropeces em alguma pedra’”.2 2 Os fariseus eram a mais influente das seitas do judaísmo no tempo de Cristo. Embora apegados às doutrinas e à ortodoxia, seu zelo, sem o entendimento espiritual da Lei de Moisés levara-os, ao longo dos séculos, a uma observância estrita das normas e regras da Lei e das tradições rabínicas. Eram justos aos próprios olhos e inimigos implacáveis de Jesus Cristo (Mt 9.14; 23.2; 23.15; Mc 12.40; Lc 18.9). Os saduceus, que pertenciam à elite econômica e às famílias sacerdotais, eram anti-sobrenaturalistas (não criam em milagres e no poder sobrenatural de Deus). Opunham-se às tradições dos ensinos e interpretações dos fariseus e colaboravam abertamente com os governantes romanos. Uniram-se aos fariseus apenas em suas perseguições a Cristo (Mt 16.1-4,6). 3 Algumas versões trazem a expressão: “...e limpará a sua eira”. A Bíblia King James optou por uma tradução mais clara dessa frase, a partir do original grego; pois a “pá”, que Jesus traz em sua mão, tem a ver com uma pá de madeira usada para lançar o cereal triturado ao ar, de modo que a palha, mais leve, fosse carregada pelo vento, e os grãos se amontoassem no solo. Isso significa “limpar a eira” e reforça o cumprimento da profecia de Malaquias (Ml 3.1-6 e 4.1). Capítulo 4 1 O objetivo do Diabo era levar Cristo, o Ungido, Filho de Deus, a pecar. Apenas um pecado seria o suficiente, desqualificando o Salvador, frustrando assim, o plano de Deus para a redenção humana. O objetivo de Deus foi provar que seu Filho – perfeitamente divino e perfeitamente humano – viveu, contudo, isento de qualquer pecado; sendo, portanto, um Salvador perfeitamente digno e suficiente (2Co 5.21; Hb 4.15, Rm 8.3; 1Jo 2.16; Tg 1.13). Jesus escolhe uma passagem das Sagradas Escrituras (Dt 8.3) para responder ao tentador e a todos quantos têm seus valores invertidos por ganância, egoísmo e inveja. 2 O orgulho, arrogância e empáfia do Diabo não lhe permitiram compreender, muito menos aceitar, a resposta que Cristo lhe dera. O Diabo tenta, então, replicar, usando também uma passagem bíblica (Sl 91.11-12), mas omitindo parte do texto sagradoMT_B.indd 8 14/8/2007, 14:06
  • 9. 9 MATEUS 4, 5 7 Contestou-lhe Jesus: “Também está Galiléia, viu Jesus dois irmãos: Simão, escrito: ‘Não tentarás o SENHOR teu chamado Pedro e André que lançavam a Deus’”.3 rede ao mar, pois eram pescadores. 8 Tornou o Diabo a levá-lo, agora para 19 Então, disse-lhes Jesus: “Vinde após mim, um monte muito alto. E mostrou-lhe e Eu vos farei pescadores de homens”. todos os reinos do mundo em todo o seu 20 Eles, imediatamente deixaram suas esplendor. redes e seguiram Jesus. 9 E propôs a Jesus: “Tudo isso te darei se, 21 Seguindo adiante, viu Jesus outros prostrado, me adorares. dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu e 10 Ordenou-lhe então Jesus: “Vai-te, Sata- João, seu irmão, que estavam no barco nás, porque está escrito: ‘Ao SENHOR, teu com Zebedeu, seu pai, consertando as Deus, adorarás e só a Ele servirás’”.4 redes; e chamou-os. 11 Assim, o Diabo o deixou; e eis que 22 Eles imediatamente deixaram o barco vieram anjos, e o serviram. e seu pai para seguirem a Jesus. 23 E percorria Jesus toda a Galiléia, Jesus inicia seu ministério ensinando nas sinagogas, pregando o (Mc 1.14-20; Lc 4.14-32; 5.1-11) evangelho do Reino e curando todas as 12 Jesus, entretanto, ouvindo que João enfermidades e males entre o povo. estava preso, voltou para a Galiléia. 24 E sua fama correu por toda a Síria; e 13 E, deixando Nazaré,5 foi habitar em trouxeram-lhe, então, todos aqueles que Cafarnaum, situada à beira-mar, nos sofriam, acometidos de várias enfermi- confins de Zebulom e Naftali. dades e tormentos, os endemoninhados, 14 Assim cumprindo-se o que fora dito os lunáticos e os paralíticos. E Jesus os pelo profeta Isaías: curava. 15 “Terra de Zebulom e terra de Naftali, 25 E uma grande multidão da Galiléia, caminho do mar, além do Jordão, Gali- Decápolis, Jerusalém, Judéia e de além léia dos gentios!6 do Jordão seguia a Jesus. 16 O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz; e aos que estavam detidos O sermão do monte na região e sombra da morte, a luz (Lc 6.20-29) raiou”. 17 Daquele momento em diante Jesus passou a pregar e dizer: “Arrependei-vos, 5 Jesus, vendo as multidões, subiu a um monte e, assentando-se, os seus discípulos aproximaram-se dele. porque é chegado o Reino dos céus!”. 2 E Jesus, abrindo a boca, os ensinava, 18 E, caminhando junto ao mar da dizendo: que não se ajustava a seus intentos. Esse mesmo método de interpretação inescrupulosa da Bíblia tem-se repetido ao longo dos séculos, na criação e desenvolvimento de diversas seitas heréticas em todo o mundo. 3 Veja Dt 6.16 4 Somente uma análise profunda e detalhada dos diálogos aqui travados entre Satanás e Jesus pode revelar a magnitude dessa batalha espiritual vencida por Cristo por meio da Palavra de Deus (Dt 6.13; 10.20), bem como a astúcia e o poder do Diabo para iludir seus oponentes. Satanás, como príncipe do sistema econômico, político e social do nosso planeta (em grego, Kosmos, que significa: mundo), estava em seu direito ao ofertar a Jesus as glórias de todos os reinos da terra, pois de fato estes lhe foram entregues por algum tempo (Jo 12.31; 1 Jo 2.15; 5.19; Jo 3.19; Tg 1.27; 4.4). Jesus manteve-se, porém, íntegro e fiel, resistindo e vencendo a tentação e o tentador. 5 Conforme Lc 4.16-30, Jesus foi expulso de Nazaré, terra onde fora criado, por ter se apresentado ao povo (em um sábado, na sinagoga) como sendo o Filho de Deus e aquele que veio cumprir as profecias sobre a vinda do Messias, registradas no AT (Is 61.1-2 a. Veja também Is 9.1-2 e 42.6-7). 6 Os melhores originais em grego trazem a palavra “gentios” (todos aqueles que não são judeus) em vez de “nações” como consta em várias versões em português.MT_B.indd 9 14/8/2007, 14:06
  • 10. MATEUS 5 10 3 “Bem-aventurados1 os pobres2 em espí- 12 Exultai e alegrai-vos sobremaneira, rito, pois deles é o Reino dos Céus. pois é esplêndida a vossa recompensa 4 Bem-aventurados os que choram, por- nos céus; porque assim perseguiram os que serão consolados. profetas que viveram antes de vós. 5 Bem-aventurados os humildes, porque herdarão a terra.3 O cristão deve ser sal e luz 6 Bem-aventurados os que têm fome e 13 Vós sois o sal da terra. Mas se o sal per- sede de justiça, porque serão fartos. der o seu sabor, com o que se há de tem- 7 Bem-aventurados os misericordiosos, perar? Para nada mais presta, senão para porque alcançarão misericórdia. se lançar fora e ser pisado pelos homens. 8 Bem-aventurados os limpos de cora- 14 Vós sois a luz do mundo. Uma cidade ção, porque verão a Deus. edificada sobre um monte não pode ser 9 Bem-aventurados os pacificadores, escondida. porque serão chamados filhos de Deus. 15 Igualmente não se acende uma candeia 10 Bem-aventurados os que sofrem per- para colocá-la debaixo de um cesto. Ao seguição por causa da justiça, porque contrário, coloca-se no velador e, assim, deles é o Reino dos Céus. ilumina a todos os que estão na casa. 11 Bem-aventurados sois vós quando vos 16 Assim deixai a vossa luz resplandecer insultarem, e perseguirem e, mentindo, diante dos homens, para que vejam as disserem todo o mal contra vós, por vossas boas obras e glorifiquem o vosso minha causa. Pai que está nos céus. 1 A KJ de 1611 traz a expressão inglesa blessed (abençoado, bendito, muito feliz) que foi adotada pela maioria das traduções em todo o mundo, inclusive pelas mais modernas. “Bem-aventurados” transmite melhor a idéia do original grego makarios refe- rindo-se a uma felicidade que excede às circunstâncias, que tem a ver com o profundo sentimento de paz e alegria que todos os que foram “abençoados” com a Salvação em Cristo e Seu Reino devem sentir e desfrutar, mesmo em meio às aflições cotidianas. Esse discurso, conhecido como Sermão do Monte, é o primeiro dos cinco grandes temas tratados por Jesus (Mt 5 a 7; Mt 10; 13; 18 e em Mt 24 e 25). São ensinos primeiramente dirigidos aos discípulos (convertidos, que desejam proclamar ao mundo sua fé em Jesus Cristo). A expressão original: “abre a boca”, significa que Jesus passou a falar mais alto para que pudesse ser ouvido pelas demais pessoas ao redor. A proclamação do “Reino dos Céus” é o ponto central da pregação de Jesus. Essa expressão vem do hebraico malekhüth shãmayim. A KJ traduz como “Reino do Céu” mas tanto a palavra grega ouranos como a hebraica shãmayim estão no plural (céus) e têm o mesmo sentido de “Reino de Deus”. Os judeus, por respeito, não mencionavam o nome de Deus e por isso, Mateus, sensível a esse dado cultural, chamou o Reino de Deus de Reino dos Céus. O ser humano não tem em si mesmo força moral e ética para viver como Deus ordena. Por isso Jesus Cristo, que viveu essa plenitude de vida espiritual na terra e venceu o mundo, vem na forma do Espírito Santo habitar na alma humana para ajudar-nos a viver uma nova vida, com uma nova mentalida- de, como cidadãos do Seu Reino, dirigidos por Deus.A plenitude dessa vida espiritual se dará no futuro (Ap 21.1-4). 2 A primeira estocada de Jesus atinge diretamente o coração arrogante e presunçoso. Jesus conhecia bem os ensinos dos escribas e fariseus: “Quem cumpre toda a Lei com exatidão é rico no Altíssimo. Quem, além disso, observa literalmente a Halachá (série de tradições judaicas transmitidas pelos pais de geração a geração) será ainda mais rico”. Jesus não estava dizendo que não há bênção em obedecer a Lei, mas sim que um coração soberbo e orgulhoso por cumprir ordenanças e preceitos, não pode- rá “entrar” (viver com amor, paz, alegria e liberdade) no Reino de Deus. Assim, “pobres em espírito” não é uma contradição nem se refere a pessoas tímidas ou sem poder econômico. Significa sim, que o discípulo (seguidor) de Jesus, aquele que ama a Deus sobre todas as coisas, conhece suas limitações e fraquezas e reconhece que sem a graça do Senhor é impossível viver a vida cristã e que por isso não tem qualquer motivo para se orgulhar, pois o Reino dos Céus é também uma dádiva aos quebrantados, humildes e arrependidos (Jo 3), e não pode ser alcançado através de qualquer esforço, barganha ou talento humano. Reino dos Céus é o domínio de Deus sobre toda a criação, as pessoas e o mundo; tanto no presente como no futuro (Mt 5.3; 12.28 e Rm 14.17). Às vezes refere-se também a um lugar e uma vida futura com Deus (2 Tm 4.18). 3 A KJ traz aqui a palavra inglesa meek que pode ser traduzida como: pacífico, gentil, brando, suave, amável, manso, dócil, submisso, resignado. Entretanto, a palavra: “humilde” é mais fiel ao sentido original do termo em grego e comunica melhor, em português, a idéia dessa qualidade cristã: defender a justiça com paciência e sem amargura, entregando lutas e desafios ao Senhor que tudo julga retamente. Esse caráter cristão, moldado pelo Espírito Santo, nos capacita a perseverar na fé em Cristo ainda que em meio às injustiças, ofensas e falta de reconhecimento neste mundo. A promessa é nada menos do que a terra por herança. Aqueles que aceitam perder algumas coisas nesta terra e neste tempo, mantendo uma fé serena no Senhor, serão os reis de toda a terra no futuro (Ap 5.9-14), pois já vivem no presente como cidadãos do Reino. Seres humanos esses cujas vidas estão sendo transformadas pelo Espírito Santo e cujos frutos de caráter lhes conferem a bênção de serem conhecidos como “bem-aventurados” (muito felizes).MT_B.indd 10 14/8/2007, 14:06
  • 11. 11 MATEUS 5 A Lei se cumpre em Cristo 22 Eu, porém, vos digo que qualquer que 17 Não penseis que vim destruir a Lei ou se irar contra seu irmão estará sujeito a os Profetas. Eu não vim para anular, mas juízo. Também qualquer que disser a seu para cumprir. irmão: Racá, será levado ao tribunal. E 18 Com toda a certeza vos afirmo que, até qualquer que o chamar de idiota estará 4 que os céus e a terra passem, nem um i sujeito ao fogo do inferno.6 ou o mínimo traço se omitirá da Lei até 23 Assim sendo, se trouxeres a tua oferta que tudo se cumpra. ao altar e te lembrares de que teu irmão 19 Qualquer, pois, que violar um destes tem alguma coisa contra ti, menores mandamentos e assim ensinar 24 deixa ali mesmo diante do altar a tua aos homens será chamado o menor no oferta, e primeiro vai reconciliar-te com Reino dos Céus; aquele, porém, que os teu irmão, e depois volta e apresenta a cumprir e ensinar será chamado grande tua oferta. no Reino dos Céus. 25 Entra em acordo depressa com teu ad- 20 Porque vos digo que, se a vossa justiça versário, enquanto estás com ele a caminho não exceder a dos escribas e fariseus, de do tribunal, para que não aconteça que o modo nenhum entrareis no Reino dos adversário te entregue ao juiz, o juiz te en- Céus. tregue ao carcereiro, e te joguem na cadeia. 21 Ouvistes que foi dito aos antigos: “Não 26 Com toda a certeza afirmo que de ma- matarás; mas quem assassinar estará su- neira alguma sairás dali, enquanto não jeito a juízo”.5 pagares o último centavo.7 4 A Lei e os Profetas representavam a totalidade do AT, que incluía os Escritos (Sl 78.12-16 é um exemplo desses Escritos e se refere a Êx 7-12 e Nm 13.22, que fazem parte da terceira seção da Bíblia Hebraica). Jesus é o cumprimento das profecias sobre a vinda do Messias e Seu Reino. Ao mesmo tempo, Ele foi o único ser humano a cumprir de maneira plena e fiel a essência da vontade de Deus, não se limitando a uma obediência apenas religiosa, formal e exterior. Jesus levou seu amor pelo Pai e pela humanidade às últimas conseqüências e enfatizou que toda a Palavra de Deus se cumprirá. Nem a menor letra do alfabeto hebraico: (yod); em grego: i(iôta) que corresponde à letra “i” em português; nem mesmo o menor sinal gráfico (pequeno traço) que serve para distinguir certas letras hebraicas, e que pode alterar o sentido de uma expressão, serão suprimidos das Sagradas Escrituras. Jesus usa essa bem elaborada hipérbole para evidenciar a veracidade e autoridade da Palavra de Deus até o final dos tempos. As próprias Escrituras testemunham acerca de Jesus de Nazaré como Filho de Deus, Messias (Cristo), Rei dos Reis, Senhor do Universo, nosso Salvador para toda a eternidade (Mc 14.49; Lc 24.27; Jo 10.35; At 18.24; 2Tm 3.16, 2Pe 1.20-21). Jesus desejava que os doutores da Lei observassem essa verdade nas Escrituras, uma vez que o povo já estava aceitando que Jesus Cristo era o Messias, pelas obras que realizava e o poder de suas palavras. 5 Jesus toma como exemplo a situação mais drástica da Lei: a morte (Êx 20.13; Dt 5.17) para demonstrar o que significa compreender e obedecer ao espírito da Lei e não apenas à letra. Ou seja, uma vida no sentido mais amplo e saudável dos man- damentos de Deus, em vez da interpretação meramente externa e restrita feita pela tradição rabínica. A KJ traz a palavra murder (assassinar), pois os verbos em hebraico e grego usados nesse texto e em Êx 20.13 têm especificamente esse sentido claro. 6 Jesus demonstra como entender o sentido mais abrangente da Lei, ao relacionar o pecado de tirar a vida de alguém (assassinato) com erros, aparentemente menos graves, como irar-se contra um irmão ou insultar alguém. A KJ e as versões de Almeida acrescentam “sem motivo se irar”. Entretanto, os mais antigos e melhores originais gregos não trazem essa expressão. Jesus revela que a ofensa verbal está no mesmo nível de um assassinato. Racá era uma antiga expressão aramaica rêqâ’ que originou a palavra hebraica rêquïm usada no tempo dos juízes (Jz 11.3) para indicar pessoas de mau caráter, levianas e traidoras. De maneira curiosa, essa era uma expressão freqüentemente usada na tradição rabínica, associada ao vocábulo nãbhãl (néscio), para se referir aos insensatos e sem sabedoria. Já a palavra grega more, traduzida, em algumas versões, como “louco”, tem sua origem na expressão hebraica moreh (desgraçado), alguém que por não crer em Deus merecia o inferno. O cerne do ensino de Jesus está em que o pecado que leva alguém a ofender outra pessoa é o mesmo que motiva o assassinato. O vocábulo grego synedrio cujo correspondente hebraico é sanhedrïn refere-se ao mais alto tribunal dos judeus, que se reunia em Jerusalém. A KJ traduziu o termo para o inglês council (conselho), por se tratar da reunião dos sábios que julgavam as causas do povo. Synedrion deu origem à expressão grega presbyterion que significa “corpo de anciãos” (Lc 22.66; At 22.5) e gerousia “senado” (At 5.21). A expressão “fogo do inferno” tem a ver com o vale de Hinom em hebraico ge’hinnom que deu origem ao nome grego do lugar: geena. Durante o reinado dos perversos Acaz e Manassés, sacrifícios humanos ao deus amonita Moloque foram realizados em geena. Josias profanou o vale por causa das oferendas pagãs que realizou naquele lugar (2Rs 23.10; Jr 7.31,32; 19.6). Com o passar do tempo, esse vale se transformou num grande depósito de lixo, constantemente em chamas, o que fez a palavra geena significar o lugar dos perdidos, imprestáveis e destinados ao fogo que nunca se apaga. 7 Graças a Jesus temos a bênção do perdão à nossa disposição. Não fosse essa graça seríamos todos consumidos pela Lei. Os cristãos devem, então, perdoar tudo e a todos, pedir perdão e procurar a paz com todos aqueles que se sentirem ofendidosMT_B.indd 11 14/8/2007, 14:06
  • 12. MATEUS 5 12 Adultério no coração 34 Entretanto, Eu vos afirmo: Não jureis 27 Ouvistes o que foi dito: ‘Não comete- de forma alguma; nem pelos céus, que rás adultério’. são o trono de Deus; 28 Eu, porém, vos digo, que qualquer que 35 nem pela terra, por ser o estrado onde olhar para uma mulher com intenção repousam seus pés; nem por Jerusalém, impura, em seu coração, já cometeu porque é a cidade do grande Rei. adultério com ela. 36 E não jures por tua cabeça, pois não 29 Se o teu olho direito te leva a pecar, tens o poder de tornar um fio de cabelo arranca-o e lança-o fora de ti; pois te branco ou preto. é mais proveitoso perder um dos teus 37 Seja, porém, o teu sim, sim! E o teu membros do que todo o teu corpo ser não, não! O que passar disso vem do lançado no inferno. Maligno.8 30 E, se tua mão direita te fizer pecar, corta-a e atira-a para longe de ti; pois te Jamais use a vingança é melhor que um dos teus membros se 38 Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho perca do que todo o teu corpo seja lança- e dente por dente”. do no inferno. 39 Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso; mas se alguém te ofender com O casamento é sagrado um tapa na face direita, volta-lhe tam- 31 Foi dito também: ‘Aquele que se divor- bém a outra. ciar de sua esposa deverá dar a ela uma 40 E se alguém quiser processar-te e ti- certidão de divórcio’. rar-te a túnica, deixa que leve também 32 Eu, porém, vos digo: Qualquer que se a capa. divorciar da sua esposa, exceto por imo- 41 Assim, se alguém te forçar a andar uma ralidade sexual, faz com que ela se torne milha, vai com ele duas. adúltera, e quem se casar com a mulher 42 Dá a quem te pedir e não te desvies de divorciada estará cometendo adultério. quem deseja que lhe emprestes algo.9 Votos e juramentos Ame os que o odeiam 33 Também ouvistes o que foi dito aos an- 43 Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu tigos: ‘Não jurarás falso, mas cumprirás ri- próximo e odiarás o teu inimigo’. gorosamente teus juramentos ao Senhor’. 44 Eu, porém, vos digo: Amai os vossos com alguma de suas atitudes. Jesus não entra no mérito se o cristão está certo ou não, apenas ordena que a reconciliação seja promovida o mais rápido possível e que a iniciativa seja sempre da parte daquele que crê em Deus. Jesus usa o exemplo do judeu religioso e temente ao Senhor em um de seus atos mais sublimes — o sacrifício oferecido a Deus de acordo com a lei mosaica, para ensinar que não pode haver culto, oração ou oferta maior do que um coração limpo, sincero, humilde, perdoador e em paz com Deus e com os semelhantes. Em seguida, por meio de uma parábola, Jesus exorta os cristãos que estão em demanda com alguém a que se apressem a negociar um acordo e estabeleçam a paz, antes que a questão se prolongue demais e acabe na justiça onde não há misericórdia, apenas a lei. 8 No AT juramentos em nome do Senhor eram obrigatórios em determinadas ocasiões: quando a palavra necessitava de um fiador idôneo ou mesmo diante de um voto. A quebra da palavra empenhada era um ato sujeito às penas da Lei (Êx 20.7; Lv 19.12; Dt 19.10-19). Deus era (e é) o juiz onisciente de toda a falsidade. “...tão certo como o Senhor vive” (1Sm 14.39). Essa ênfase na santidade dos votos ocorria devido à falsidade costumeira entre as pessoas em seus acordos cotidianos. Jesus ensina que o verdadeiro cristão deve ser autêntico e sincero em suas afirmações; afastando-se de toda a ambigüidade e falsidade comuns neste mundo controlado pelas forças do Diabo. 9 Jesus trabalha as questões universais do direito. De fato toda a humanidade participa de um grande julgamento, envolvendo todos os povos de todos os tempos, no qual Cristo é nosso Advogado e garantia absoluta. Jesus começa citando a antiga Lei da Retaliação (Lv 24.20). Entre os judeus, na época de Jesus, o ato de bater na face direita de alguém, com as costas da mão, era um insulto e uma provocação; não exatamente uma agressão. O insultado poderia revidar ou ir ao tribunal pleitear uma punição, em dinheiro, pela ofensa. Jesus exorta seus discípulos a oferecer a outra face, em sinal de paz e disposição para um acordo. A próxima ilustração tem a ver com as leis dos fariseus: um credor tinha o direito de exigir a túnica do devedor por uma dívida não paga. Quando não a recebia por bem, tinha o direito de exigi-la por meio de um processo jurídico. Mas, de acordo com Dt 24.10- 13, deveria ceder a roupa ao dono, conforme suas necessidades diárias de uso. Diante dessas questões jurídicas mesquinhas,MT_B.indd 12 14/8/2007, 14:06
  • 13. 13 MATEUS 5, 6 inimigos e orai pelos que vos perse- 4 Para que a tua obra de caridade fique guem; em secreto: e teu Pai, que vê em secreto, 45 para que vos torneis filhos do vosso Pai te recompensará. que está nos céus, pois que Ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama A oração modelo chuva sobre justos e injustos. 5 E, quando orardes, não sejais como 46 Porque se amardes os que vos amam, os hipócritas, pois que apreciam orar que recompensa tendes? Não fazem os em pé nas sinagogas e nas esquinas das publicanos igualmente assim?10 ruas, para serem admirados pelos outros. 47 E, se saudardes somente os vossos ir- Com toda a certeza vos afirmo que eles já mãos, que fazeis de notável? Não agem os receberam o seu galardão. gentios também dessa maneira? 6 Tu, porém, quando orares, vai para teu 48 Assim sendo, sede vós perfeitos como quarto e, após ter fechado a porta, orarás perfeito é o vosso Pai que está nos céus. a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará ple- Como viver no Reino namente. 6 Guardai-vos de fazer a vossa caridade e obras de justiça diante dos homens, com o fim de serem vistos por eles; caso 7 E, quando orardes, não useis de vãs repetições, como fazem os pagãos; pois imaginam que devido ao seu muito falar contrário, não tereis qualquer recom- serão ouvidos. pensa do vosso Pai que está nos céus. 8 Portanto, não vos assemelheis a eles; 2 Por essa razão, quando deres um do- porque Deus, o vosso Pai, sabe tudo de nativo, não toques trombeta diante de ti, que tendes necessidade, antes mesmo como fazem os hipócritas, nas sinagogas que lho peçais. e nas ruas, para serem glorificados pelos 9 Por essa razão, vós orareis: homens. Com toda a certeza vos afirmo Pai nosso, que estás nos céus! que eles já receberam o seu galardão. Santificado seja o teu Nome. 3 Tu, porém, quando deres uma esmola 10 Venha o teu Reino. ou ajuda, não deixes tua mão esquerda Seja feita a tua vontade, saber o que faz a direita. assim na terra como no céu. Jesus exorta os discípulos a serem altruístas. Se credores, a desistir do penhor; se devedores, a dar além do devido, entregando também a capa que era vestida sobre a túnica. Para o discípulo de Jesus, o direito jurídico já foi abolido na Cruz, a nova ordem é a Lei do Amor em Cristo. Outra metáfora de Jesus reforça essa idéia. Tem a ver com o costume judaico de se pedir a companhia de alguém numa viagem pelas perigosas estradas da época. Quando alguém se negava, e acontecia um crime, essa pessoa era responsabilizada pela sua comunidade local, por não ter atendido ao pedido do viajante. O verbo grego traduzido aqui por “forçar” advém de uma antiga palavra persa que significa “recrutar à força”. Curiosamente, é a mesma palavra que aparece no final deste livro, em Mt 27.32, quando os soldados romanos “recrutam à força” Simão, para ajudar Jesus a carregar sua cruz. Os fariseus haviam imposto uma lei: “devemos acompanhar somente a outro fariseu, não devemos caminhar com os incrédulos”. Jesus, entretanto, vai além, e ensina que seus discípulos, ao serem solicitados por qualquer viajante a andar 1.609 metros (uma milha), devem graciosamente estar prontos para caminhar em sua companhia por mais de três quilômetros (duas milhas). Ou seja, exceder em amor, graça e misericórdia ao que pede a Lei. 10 O termo publicano (palavra latina com origem no grego telõnês) denominava um coletor de impostos a serviço do império romano. Esses homens eram odiados por causa da impiedade com que exploravam o povo. Para os judeus, o publicano era imundo, pois estava sempre em contato com os gentios. A palavra “publicano” tornou-se sinônimo de egoísmo, desonestidade, falsidade, impiedade e incredulidade. Gentios (em hebraico gôyïm e do grego ethnikoi ou Hellênes traduzido pela Vulgata, em latim, como gentiles) era um termo geral para significar “nações”. Entretanto, na época de Jesus, esse termo era usado pelos judeus para se referir, em tom discriminatório e preconceituoso, a todas as pessoas que não fossem israelenses. Para os mestres e doutores da Lei, os “gentios” eram idólatras, imorais e pecadores. Um judeu chamado de gentio significava um publicano; ou seja, uma pessoa impura, incrédula, mau-caráter, inescrupulosa, impiedosa e digna de todo o desprezo. Jesus resgata o valor real dos “gentios” (das nações) e convida a todos para Seu Reino (Rm 1.16; Cl 3.11; Gl 2.14; Ap 21.24; 22.2). Jesus conclui essa parte do seu ensino revelando o segredo da ética cristã: o amor deve fazer muito mais do que a obrigação. Este foi o testemunho de Cristo e este deve ser o objetivo maior dos cristãos: buscar o amor perfeito do Pai e agir assim, como filhos amados de Deus, para que outros vejam a luz de Cristo e sejam libertos das trevas deste mundo.MT_B.indd 13 14/8/2007, 14:06
  • 14. MATEUS 6 14 11 Dá-nos hoje o nosso pão diário. Investir os recursos no céu 12 Perdoa-nos as nossas dívidas, 19 Não acumuleis para vós outros tesouros assim como perdoamos aos na terra, onde a traça e a ferrugem destro- nossos devedores. em, e onde ladrões arrombam para roubar. 13 E não nos conduzas à tentação, 20 Mas ajuntai para vós outros tesouros mas livra-nos do Maligno.1 no céu, onde a traça nem a ferrugem Porque teu é o Reino, o poder podem destruir, e onde os ladrões não e a glória para sempre. Amém. arrombam e roubam. 14 Pois, se perdoardes aos homens as suas 21 Porque, onde estiver o teu tesouro, aí ofensas, assim também vosso Pai celeste também estará o teu coração. vos perdoará. 15 Entretanto, se não perdoardes aos ho- Um corpo iluminado mens, tampouco vosso Pai vos perdoará 22 Os olhos são a lâmpada do corpo. as vossas ofensas. Portanto, se teus olhos forem bons, teu corpo será pleno de luz. Jejuar é adorar a Deus 23 Porém, se teus olhos forem maus, todo 16 Quando jejuardes, não vos mostreis o teu corpo estará em absoluta escuridão. com aspecto sombrio como os hipócritas; Por isso, se a luz que está em ti são trevas, pois desfiguram o rosto com a intenção de quão tremendas são essas trevas!SSE mostrar às pessoas que estão jejuando. 17 Tu, porém, quando jejuares, unge tua Servir somente a Deus cabeça e lava o rosto. 24 Ninguém pode servir a dois senhores; 18 Pois, assim, não parecerá aos outros que pois odiará um e amará o outro, ou será jejuas; e, sim, ao teu Pai em secreto; e teu leal a um e desprezará o outro. Não po- Pai, que vê em secreto, te recompensará. deis servir a Deus e a Mâmon.2 1 Jesus ensina a seus seguidores o caminho da verdadeira adoração e comunicação com Deus. O primeiro passo é a humildade, em contraste com o estilo dos fariseus, escribas, publicanos e gentios, que viviam uma religiosidade apenas de aparência, formal e estéril. Os discípulos deveriam também evitar as “vãs repetições”, pois essa era a maneira como os pagãos (aqueles que não passaram pelo batismo, também chamados de “gentios”) tentavam sensibilizar seus deuses para obter favores. Nessa época, os adoradores de Baal (1Rs 18.26-28) estavam cativando até judeus fiéis com suas hipocrisias (encenações teatrais, do grego hupokrites, ator). Por isso Jesus oferece um modelo de oração: O nascimento espiritual dá ao cristão o direito de ser filho de Deus (Jo 3) e, portanto, pode orar a Deus como quem conversa com seu pai amado (em aramaico: Abba, Mc 14.36; Rm 8.15, Gl 4.6). Devemos desejar e trabalhar pelo estabelecimento do Reino de Deus, em nossas vidas e comunidades, ao receber pessoalmente o Espírito Santo, que traz salvação, paz, alegria, e a justiça de Cristo. Reino esse que será estabelecido de forma plena no futuro iminente, quando Jesus voltar, e o último Inimigo for vencido definitivamente (2Ts 2.8; 1Co 15.23-28). Assim a terra usufruirá a mesma glória de Deus que há nos céus (2Pe 3.13). O cristão reconhece que é o Senhor quem supre diariamente todas as nossas necessidades, e é grato por isso. A fome, as guerras e outros sofrimentos sociais não ocorrem por indiferença da parte de Deus, mas pelos pecados dos indivíduos (malignidade) e das nações. Devemos nos lembrar de perdoar as pessoas que nos devem (bens materiais ou justiça) com a mesma misericórdia e generosidade com que Deus nos perdoa sempre (1Jo 1.5-9). Observemos como Jesus ressalta a importância do perdão no Reino de Deus (6.14,15). O servo do Senhor é o alvo favorito dos ataques e artimanhas do Diabo. Mas Deus tem o poder de nos livrar de todo o mal e levar-nos, para lugar seguro, longe do alcance dos demônios. Não há amargura, decepção, fraqueza, vício, perda ou dor maiores do que o amor e o poder de Deus (Tg 1.13; 1Co 6.18; 10.14; 1Tm 6.11; 2Tm 2.22). A maioria das versões da Bíblia em português inclui a frase: “...e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal...”. A KJ apresenta a expressão inglesa: “...and do not lead us into temptation...” (...e não nos induzas à tentação...). Os melhores originais gregos nos permitem traduzir: “...e não nos conduzas à tentação...”. A palavra grega peirasmos aqui significa “tentação”, podendo significar também: “teste ou provação” em outros trechos. Assim, a tentação, que do ponto de vista do Diabo é sempre uma cilada para nos destruir, do ponto de vista de Deus é uma oportunidade para fortalecimento da fé e crescimento espiritual (Lc 22.32). Deus controla o universo visível e invisível, incluindo o Maligno e seu reino; por isso, é ao Senhor que devemos pedir livramento das tentações e forças para vencer as provações (1Co 10.13). Jesus deixa bem claro em sua oração-modelo, que o cristão somente consegue a vitória, vigiando e orando. O próprio Jesus venceu sua grande batalha contra Satanás, com jejum (4.2), e recomendou que seus discípulos também usassem essa arma ao lado das orações, e do contínuo louvor a Deus, contra os desígnios do Inimigo (9.15; 17.21). 2 Jesus escolhe uma palavra aramaica Mâmon para personificar um dos mais poderosos deuses pagãos de todos os tempos: o Dinheiro. O adjetivo Mâmon, deriva do verbo aramaico amân (sustentar) e significa amor às riquezas e dedicação avarenta aosMT_B.indd 14 14/8/2007, 14:06
  • 15. 15 MATEUS 6, 7 Descanso na providência divina 32 Pois são os pagãos que tratam de obter 25 Portanto, vos afirmo: não andeis preo- tudo isso; mas vosso Pai celestial sabe cupados com a vossa própria vida, quanto que necessitais de todas essas coisas. ao que haveis de comer ou beber; nem 33 Buscai, assim, em primeiro lugar, o pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de Reino de Deus e a sua justiça, e todas vestir. Não é a vida mais do que o alimen- essas coisas vos serão acrescentadas. to, e o corpo mais do que as roupas? 34 Portanto, não vos preocupeis com o 26 Contemplai as aves do céu: não se- dia de amanhã, pois o amanhã trará suas meiam, não colhem, nem armazenam próprias preocupações. É suficiente o em celeiros; contudo, vosso Pai celestial mal que cada dia traz em si mesmo. as sustenta. Não tendes vós muito mais valor do que as aves? Amar mais e julgar menos 27 Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar algum tempo à jornada da sua vida?3 7 Não julgueis, para que não sejais julgados.1 2 Pois com o critério com que julgardes, 28 E por que andais preocupados quanto ao sereis julgados; e com a medida que que vestir? Observai como crescem os lírios usardes para medir a outros, igualmente do campo. Eles não trabalham nem tecem. medirão a vós. 29 Eu, contudo, vos asseguro que nem 3 Por que reparas tu o cisco no olho de Salomão, em todo o esplendor de sua teu irmão, mas não percebes a viga que glória, vestiu-se como um deles. está no teu próprio olho? 30 Então, se Deus veste assim a erva do 4 E como podes dizer a teu irmão: Per- campo, que hoje existe e amanhã é lan- mite-me remover o cisco do teu olho, çada ao fogo, quanto mais a vós outros, quando há uma viga no teu? homens de pequena fé? 5 Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu 31 Portanto, não vos preocupeis, dizendo: olho, e então poderás ver com clareza Que iremos comer? Que iremos beber? para tirar o cisco do olho de teu irmão.2 Ou ainda: Com que nos vestiremos? 6 Não deis o que é sagrado aos cães, nem interesses mundanos. Jesus orienta seus seguidores a investir suas vidas na conquista de bens espirituais agradáveis ao Senhor e adverte para a impossibilidade de se servir com lealdade a Deus e ao mesmo tempo amar o deus Dinheiro. Isso não quer dizer que Jesus seja contra os ricos e prósperos, mas, sim, que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (Gn 13.2; Ec 3.13; 5.10- 19; 10.19; 1Tm 6.10). O dinheiro é para ser usado e as pessoas, amadas. A inversão desses valores tem sido a razão de muitas desgraças (Is 52.3; 55.1; Rm 4.4; 1Tm 5.18). 3 A palavra grega psyche (alma) significa: “vida”, pois nas Escrituras, “alma” tem um sentido de algo diferente do atual, derivado da filosofia grega, especialmente a partir de Platão. Na Bíblia, a palavra “alma” vem da expressão hebraica nephesh que significa “personalidade” e indica o centro das emoções e apetites. Por isso, em toda a Bíblia, o comer e o beber são considerados como funções da alma. Algumas vezes pode também se referir à vida natural em contraste com a vida espiritual (Hb 4.12). Jesus usa uma figura de linguagem para ensinar duas verdades: “Deus existe, e você não é Ele”. As preocupações tentam minimizar o poder de Deus e colocar um peso insuportável sobre nossas costas. A versão de Almeida traduz a expressão grega helikia por “estatura”; po- rém, melhores originais e estudos mais acurados, mostram que o termo se refere a tempo e idade. Em certo sentido, essa expressão de Jesus poderia ser traduzida assim: “Ninguém ultrapassa, nem por meio metro, o ponto final da sua existência na terra”. Por isso, Jesus recomenda um estudo (análise, consideração filosófica) sobre a maneira cuidadosa, generosa e particular com que Deus trata cada um dos seres mais simples da terra, e os reveste de grande glória (1Rs 1-11; 1Cr 28; 2Cr 9; 1Rs 10.4-7). Concluindo: temos uma visão distorcida da vida e de nossas prioridades. Somente a busca do Reino de Deus vai nos colocar em harmonia com o Criador, e, assim, descobriremos a tão almejada paz, justiça e real felicidade (Jo 6.52-59; Jo 10.10, Rm 3.21-31 e 14.17-18). Capítulo 7 1 Jesus mostra que é possível ajudar nosso semelhante com conselhos e críticas (v. 5 e 23.13-39), bem como devemos estar sempre dispostos a aprender, avaliar e ensinar (Rm 2.1; 1Co 5.9; 2Co 11.14; Fp 3.2; 1Jo 4.1; 1Ts 5.21).Entretanto, como cristãos, nosso dever é amar antes de julgar. Um coração repleto do amor de Deus não será acusador, mesquinho, invejoso, crítico con- tumaz ou difamador. A marca do cristão deveria ser seu amor irrestrito e altruísta pelo próximo, em especial por seus irmãos em Cristo (Jo 13.5; Jo 14.15; Rm 12.10; 1Pe 1.22). 2 Jesus usou muitas histórias (parábolas) e figuras de linguagem para ensinar. Em 19.24, por exemplo, Ele fala de um camelo passando pelo fundo de uma agulha. Nesta outra hipérbole, Ele compara uma partícula de serragem ou pedaço de qualquerMT_B.indd 15 14/8/2007, 14:06
  • 16. MATEUS 7 16 jogueis aos porcos as vossas pérolas, para Pelo fruto se conhece a árvore que não as pisoteiem e, voltando-se, vos 15 Acautelai-vos quanto aos falsos profe- façam em pedaços. tas. Eles se aproximam de vós disfarçados de ovelhas, mas no seu íntimo são como Perseverança na oração lobos devoradores. 7 Pedi, e vos será concedido; buscai, e 16 Pelos seus frutos os conhecereis. É encontrareis; batei, e a porta será aberta possível alguém colher uvas de um espi- para vós. nheiro ou figos das ervas daninhas? 8 Pois todo o que pede recebe; o que bus- 17 Assim sendo, toda árvore boa produz ca encontra; e a quem bate, se lhe abrirá. bons frutos, mas a árvore ruim dá frutos 9 Ou qual dentre vós é o homem que, ruins. se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma 18 A árvore boa não pode dar frutos ruins, pedra? nem a árvore ruim produzir bons frutos. 10 Ou se lhe pedir peixe, lhe entregará 19 Toda árvore que não produz bons fru- uma cobra? tos é cortada e atirada ao fogo. 11 Assim, se vós, sendo maus, sabeis dar 20 Portanto, pelos seus frutos os conhe- bons presentes aos vossos filhos, quanto cereis. mais vosso Pai que está nos céus dará o 21 Nem todo aquele que diz a mim: ‘Se- que é bom aos que lhe pedirem!3 nhor, Senhor!’ entrará no Reino dos céus, 12 Portanto, tudo quanto quereis que mas somente o que faz a vontade de meu as pessoas vos façam, assim fazei-o Pai, que está nos céus. vós também a elas, pois esta é a Lei e os 22 Muitos dirão a mim naquele dia: Profetas.4 ‘Senhor, Senhor! Não temos nós profe- tizado em teu nome? Em teu nome não Os dois únicos caminhos expulsamos demônios? E, em teu nome, 13 Entrai pela porta estreita, pois larga é não realizamos muitos milagres?’ a porta e amplo o caminho que levam à 23 Então lhes declararei: Nunca os co- perdição, e muitos são os que entram por nheci. Afastai-vos da minha presença, esse caminho. vós que praticais o mal. 14 Porque estreita é a porta e difícil o ca- minho que conduzem à vida, apenas uns O sábio e o insensato poucos encontram esse caminho!5 24 Assim, todo aquele que ouve estas material com uma grande trave (viga) de madeira usada na estrutura de construções, para destacar a humildade, carinho e sen- sibilidade que devemos ter para com nosso semelhante, quando tivermos de emitir um juízo, criticar ou aconselhar. Pois somos sujeitos a erros, fraquezas e dificuldades iguais ou maiores que os de qualquer pessoa. 3 Jesus explica que o bem e o mal têm, às vezes, certa semelhança inicial, podendo enganar alguém ingênuo ou desinformado. A pedra a que Jesus se refere era parecida com os pães orientais da época: redondos, achatados e endurecidos (por isso o pão suportava longas viagens e era quebrado para ser servido). A cobra peçonhenta é semelhante às enguias comestíveis, apreciadas pela culinária da época. O Senhor é Pai bondoso e fica feliz em dar os presentes (dádivas) que seus filhos lhe pedem, mas só Ele sabe o que é realmente bom para cada um de nós. 4 Este versículo é conhecido em todos os continentes como “A Regra de Ouro”, a manifestação prática do amor cristão. Orienta-nos Jesus aqui quanto ao procedimento diário: o amor, sem egoísmos, deve ser a força motriz das nossas ações (1Co 13.4-8), concedendo ao próximo o que buscamos para nosso próprio bem. Devemos chegar ao ponto máximo do amor e da fé em Deus, que é retribuir com o bem a qualquer pessoa que, por algum motivo, nos ferir ou fizer qualquer mal. Foi assim que Deus respondeu à rebelião e indiferença da humanidade, oferecendo-se em sacrifício, para nos salvar pela Graça (Ef 2.8-9). A “Lei e os Profetas” é uma referência a toda a Escritura Sagrada, tanto em sua letra como em seu pleno conteúdo (Rm 13.8-10; Mt 5.17). 5 Jesus denomina o caminho para o céu de “porta estreita” ou “caminho difícil”, em algumas versões “caminho apertado”. Não porque Deus tenha diminuído sua generosidade, graça e desejo de salvar a todos (2Pe 3.9), ao contrário, estamos vivendo a “Época da Graça” onde todos – mais do que nunca – são bem-vindos ao Reino de Deus. Entretanto, poucos permanecerão no Caminho, porque jamais foram dele realmente, e não suportam o negar-se a si mesmo, as renúncias do “Eu” nem os apelos de uma sociedade cada vez mais hedonista e materialista. A idéia e a figura dos dois caminhos é muito anterior a Cristo, data de 400 a.C e foi difundida através do trabalho filosófico de Sócrates. O mesmo pensamento reaparece em duas grandes obras do primeiro século depois de Cristo: Didaquê e Epístola de Barnabé.MT_B.indd 16 14/8/2007, 14:06
  • 17. 17 MATEUS 7, 8 minhas palavras e as pratica será compa- 4 Em seguida, disse-lhe Jesus: “Veja que rado a um homem sábio, que construiu a não digas isto a ninguém, mas segue, sua casa sobre a rocha. mostra teu corpo ao sacerdote, e faze a 25 E caiu a chuva, vieram as enchentes, oferta que Moisés ordenou, para que sirva sopraram os ventos e bateram com vio- de testemunho.”1 lência contra aquela casa, mas ela não caiu, pois tinha seus alicerces na rocha. Um comandante romano crente 26 Pois, todo aquele que ouve estas mi- 5 Entrando Jesus em Cafarnaum, dirigiu- nhas palavras e não as pratica é como se a ele um centurião, suplicando:2 um insensato que construiu a sua casa 6 “Senhor, meu servo está em casa, para- sobre a areia. lítico e sofrendo horrível tormento”. 27 E caiu a chuva, vieram as enchentes, 7 Então, Jesus lhe disse: “Eu irei curá-lo”. sopraram os ventos e bateram com vio- 8 Ao que respondeu o centurião: “Se- lência contra aquela casa, e ela desabou. nhor, não sou digno de receber-te sob o E grande foi a sua ruína”. meu teto. Mas dize apenas uma palavra, 28 Quando Jesus acabou de pronunciar e o meu servo será curado. estas palavras, estavam as multidões atô- 9 Porque eu também sou homem de- nitas com o seu ensino. baixo de autoridade e tenho soldados às 29 Porque Ele as ensinava como quem minhas ordens. Digo a um: Vai, e ele vai; tem autoridade, e não como os mestres e a outro: Vem, e ele vem. Ordeno a meu da lei.6 servo: Faze isto, e ele o faz”. 10 Ao ouvir isto, Jesus maravilhou-se, e Jesus purifica o imundo disse aos que o seguiam: “Com toda a cer- 8 Quando Ele desceu do monte, gran- des multidões o seguiram. 2 E eis que um leproso, tendo-se apro- teza vos afirmo que nem mesmo em Israel encontrei alguém com tão grande fé. 11 Digo-vos que muitos virão do Oriente e ximado, adorou-o de joelhos e clamou: do Ocidente e tomarão lugares à mesa com “Senhor, se é da tua vontade podes pu- Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus. rificar-me!” 12 Entretanto, os herdeiros do Reino se- 3 Então, Jesus, estendendo a mão, to- rão lançados para fora, nas trevas, onde cou-lhe, dizendo: “Eu quero. Sê limpo!” haverá choro e ranger de dentes”.3 E no mesmo instante ele ficou purifica- 13 Então disse Jesus ao centurião: “Vai-te, do da lepra. e da maneira como creste, assim te su- 6 Os doutores da lei (em grego grammateis, nomikoi) e os mestres da lei (em grego nomodidaskaloi) eram técnicos no estudo da lei de Moisés (Torah). Em princípio era uma função reservada aos sacerdotes. Esdras, um homem de Deus, acumulou as fun- ções de sacerdote e escriba (em hebraico sôpherïm). Veja Ne 8.9. Com o passar do tempo, os escribas se tornaram extremamente formais e espiritualmente estéreis. Além disso, muitos se envolveram com o partido político dos fariseus e deixaram de ser impar- ciais em relação ao ensino da lei. Jesus, entretanto, ensinava com “exousia”, em grego, “poder sobrenatural” que a todos deixava maravilhados, pasmos, atônitos (1Co 2.4-5). Isso despertou a inveja e o ódio de muitos “líderes religiosos” contra Jesus Cristo. Capítulo 8 1 A lei de Moisés (Lv 13,14) ordenava que em casos de doenças de pele, especialmente a lepra, somente um sacerdote ou seu filho poderia realizar a cerimônia de purificação. O conceito de quarentena (para isolamento e tratamento de doenças infecciosas) teve início naquela época. Para os judeus, a çãra’ath, palavra hebraica para um dos tipos de hanseníase, simbolizava o pecado, por ser nojento, contagioso e incurável. Além disso, o sacerdote que tocava no leproso tornava-se cerimonialmente imundo. Je- sus ao curar um homem da mais terrível doença de sua época, revela ao mundo parte de sua natureza e ministério. As instruções mosaicas para o cerimonial de purificação dos imundos tipificam a nossa redenção em Cristo (Lv 14.2-32). 2 A centúria era uma divisão do exército romano, formada por cem homens e comandada por um centurião. Cornélio, um outro centurião gentio, convertido, foi notável exemplo de cristão (At 10). 3 A tradição rabínica considerava o judaísmo como uma garantia herdada e absoluta de entrada no Reino de Deus, e por isso também se dizia: “filhos do reino” (Is 41.8). Embora, os judeus sejam de fato o povo escolhido, Jesus está comemorando a entrada dos gentios (todos os que não são judeus) no Reino do Pai, como verdadeiros filhos (Sl 107.3; Is 49.12; 59.19; Ml 1.11). Jesus demonstra seu lado humano ao ficar admirado (surpreso) com a fé e a compreensão que aquele homem, não-judeu, demonstrouMT_B.indd 17 14/8/2007, 14:06
  • 18. MATEUS 8 18 cederá!” E naquela mesma hora o servo suas tocas e as aves do céu têm seus ni- foi curado. nhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. Jesus salva, cura e liberta 21 Outro de seus discípulos lhe disse: “Se- 14 Tendo Jesus chegado à casa de Pedro, nhor, permite-me ir primeiro sepultar viu a sogra deste acamada, enferma e meu pai”. com febre. 22 Ao que Jesus lhe respondeu: “Segue- 15 Então, Jesus tocou a mão dela e a febre me e deixa que os mortos sepultem os a deixou. Em seguida, levantou-se ela e seus próprios mortos”. passou a servi-lo. 16 No início da noite, trouxeram-lhe mui- Jesus domina as circunstâncias tos endemoninhados; e Ele, com apenas 23 Entrando Jesus no barco, seus discípu- uma palavra, expulsou os espíritos e los o seguiram. curou todos os que estavam doentes. 24 De repente, sobreveio no mar uma 17 Assim se cumpriu o que fora dito por violenta tempestade, de tal maneira que intermédio do profeta Isaías: “Ele tomou as ondas encobriam o barco. Ele, contu- sobre si as nossas enfermidades e pesso- do, dormia. almente levou as nossas doenças”.4 25 Então, seus discípulos vieram des- pertá-lo, clamando: “Senhor, salva-nos! A prioridade do discipulado Vamos todos perecer!” 18 Quando Jesus viu que uma multidão o 26 Mas Jesus disse a eles: “Por que estais rodeava, ordenou que atravessassem para com tanto medo, homens de pequena fé? o outro lado do mar. E, levantando-se, repreendeu os ventos e 19 Então, aproximando-se dele um escri- o mar, e houve plena calmaria. ba, disse-lhe: “Mestre, seguir-te-ei para 27 Então, os homens maravilhados, excla- onde quer que fores”. maram: “Quem é este que até os ventos e 20 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm o mar lhe obedecem?”. ter acerca do seu poder e autoridade divina. Aproveita o evento para proclamar a salvação para todos os povos e raças (22.1-14; Lc 14.15-24), ao mesmo tempo em que adverte duramente aos judeus quanto ao fato de que a herança da vida eterna e do Reino está em crer em Deus e na aceitação de Seu Filho que veio ao mundo para salvar todos os seus. De agora em diante a humanidade não seria mais dividida entre judeus e gentios (os próximos e os distantes de Deus); mas, sim, entre crentes e descrentes. O padrão de reconhecimento da herança não repousa mais sobre a nacionalidade ou linhagem judaica, mas numa fé sincera e absoluta no Senhor (Sl 147.13,20; Mt 4.17; 9.28; Mc 4.40; 11.22; Lc 5.20; Jo 5.37-47; 8.45; At 14.16). Por isso acontecerá que do oriente e do ocidente (de todo o mundo) virão gentios para o Reino (Is 49.12) e terão o direito de se assentar ao lado dos grandes pais da fé, pois aceitaram a Graça da Salvação (Ef 2.8). Jesus conclui duramente, que muitos judeus, “herdeiros do Reino” (sacerdotes ou filhos do reino) tornaram-se “filhos da desobediência” (piores dos que os pagãos e gentios), razão pela qual serão expulsos para o “reino dos mortos” (sheol, em hebraico e hades, em grego), onde haverá tanto remorso e tristeza que se ouvirá o som do bater dos queixos das pessoas aterrorizadas. Nesse estado intermediário entre a morte e a ressurreição (sheol ou hades), os salvos gozarão de paz e descanso, enquanto os incrédulos estarão na escuridão (um lugar chamado: inferno) e sob tormentos. Na ressurreição, os salvos habitarão plenamente o Reino, e os incrédulos (judeus ou não) sofrerão a segunda morte e serão banidos para o lugar de punição e fogo eterno ou lago de fogo (em grego ten geennan tou pyros). Onde até mesmo o inferno será lançado (Ap 20). 4 Ao contrário do que alguns céticos e críticos afirmam, Jesus não andava com o AT nas mãos procurando cumprir profecias. Mas, a cada instante, um evento admirável ocorria e seus discípulos, e todos os que conheciam a Lei e os Profetas testemunhavam, na pessoa de Jesus o cumprimento de várias profecias messiânicas do AT. Tudo isso diante dos olhos atônitos de todos. Algumas dessas profecias haviam sido escritas há mais de 1.000 anos antes que Jesus começasse a andar pelas terras da Palestina pregando a Nova Aliança, como é o caso do Salmo 22 e outros (Sl 2,8,16,40,41,45,68,69,89,102,109,110 e 118). A profecia de Isaías 53.4 (cerca de 750 a.C segundo os melhores estudos sobre os Papiros do Mar Morto) nos revela que Jesus, o Messias (Palavra hebraica que sig- nifica: Rei Ungido, e que foi traduzida para o grego como: Cristo), refere-se ao ministério de cura e libertação de Jesus, cuja obra lhe custou caro fisicamente (Mc 5.30, Lc 8.46). Os cristãos, hoje em dia, podem ter uma idéia desse desgaste físico e emocional quando participam ativamente de qualquer dos ministérios da Igreja: exposição da Palavra, evangelização, louvor, adoração, missões, cura, libertação, aconselhamento, administração, contribuição, ação social e outros, pois a verdadeira obra cristã requer do Espírito Santo (que é o próprio Jesus habitando na vida de cada indivíduo que crê) o mesmo poder demandado da pessoa de Jesus Cristo.MT_B.indd 18 14/8/2007, 14:06
  • 19. 19 MATEUS 8, 9 Jesus domina as forças do mal deitado em sua maca. Observando-lhes 28 Quando Ele chegou ao outro lado, à a fé, disse Jesus ao paralítico: “Tem bom província dos gadarenos, foram ao seu ânimo, filho; os teus pecados estão per- encontro dois endemoninhados, saindo doados”. dentre os sepulcros. Eram tão agressivos 3 Diante disso, alguns escribas diziam que ninguém podia passar por aquele consigo mesmos: “Este homem blasfe- caminho. ma!” 29 E, de repente gritaram: “Que temos 4 Mas Jesus, conhecendo-lhes os pensa- nós contigo, ó Filho de Deus? Vieste aqui mentos, questiona: “Por que cogitai o para nos atormentar antes do devido mal em vossos corações?” tempo?” 5 Pois o que é mais fácil dizer: ‘Os teus 30 Não muito longe deles estava pastando pecados estão perdoados1’, ou: ‘Levanta- uma grande manada de porcos. te e anda?’ 31 Então, os demônios imploravam a Ele: 6 Entretanto, para que saibais que o Filho “Se nos expulsas, permite-nos entrar do homem1 tem na terra autoridade para naquela manada de porcos!” perdoar pecados – disse então ao paralí- 32 E Jesus lhes disse: “Ide!” Assim que tico: “Levanta-te, toma a tua maca, e vai saíram entraram nos porcos. De repen- para tua casa”. te, toda a manada correu em disparada 7 Levantando-se, o homem partiu para e atirou-se violentamente precipício sua casa. abaixo, em direção ao mar, e nas águas 8 Ao ver isso, a multidão se encheu de pereceram. temor e glorificava a Deus, pois dera aos 33 Aqueles que cuidavam dos porcos fu- homens tamanha autoridade. giram, foram para a cidade e contaram tudo, inclusive o que ocorrera com os Jesus veio para os necessitados endemoninhados. 9 Saindo, viu Jesus um homem chamado 34 Então toda a cidade saiu ao encontro Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: de Jesus; e assim que o viram, suplica- “Segue-me!” Ele se levantou e o seguiu. ram-lhe que se retirasse da sua região. 10 E aconteceu que, estando Jesus em casa, à mesa, muitos publicanos e peca- Jesus perdoa e cura dores vieram para cear com Ele e seus 9 E, entrando Jesus num barco, atraves- sou o mar e foi para a sua cidade. 2 E eis que lhe trouxeram um paralítico discípulos.2 11 Quando os fariseus viram isso, per- guntaram aos discípulos dele: “Por que 1 Freqüentemente Jesus refere-se a si mesmo como Filho do Homem (Mc 8.38; 13.26, 14.62; Lc 17.24; 21.27). Ele usou essa expressão do AT para descrever seu caráter e missão em termos da visão de Daniel (Dn 7.13). O Filho do Homem se humilhou como verdadeiro ser humano, sendo ao mesmo tempo, o Eterno Vitorioso (Mt 24.30). Além disso, Jesus revestiu essa expressão com a necessidade e o profundo significado dos seus sofrimentos, morte e ressurreição expiatória (Mc 8.31; 9.31; 10.33; 14.21- 41; Lc 18.31-33; 19.10; Mt 20.18-28; 26.45; Lc 21.25-28; 22.29-30; Mc 13.26-27; 14.24-25,62; Jo 13.31-32). 2 Cafarnaum foi a cidade onde Jesus permaneceu mais vezes e por mais tempo, por isso era chamada de a “cidade de Jesus” (Mt 4.12,13; 9.9; Mc 2.1; Lc 4.13, 23, 31, 38). Mas, apesar de Cafarnaum ter sido um grande centro comercial, presenciado mais sinais e recebido mais da presença e da Palavra de Cristo do que qualquer outra localidade, Jesus encontrou ali apenas uns poucos seguidores. Por isso o Senhor exclama seu “ai” sobre a cidade (Mt 11.23). Hoje Cafarnaum é um campo de entulhos, chamado Tel Hum. Mateus era um cobrador de impostos a serviço de Roma. Os judeus se referiam a eles como “publicanos e pecadores”, pois os consideravam “amaldiçoados” como os gentios (Jo 7.49). Jesus viu, porém, em Mateus, um discípulo e o autor deste Evangelho o chamou, em aramaico akolutheo (Segue-me!), que é uma expressão que significa: “ir atrás de”. Na época, essa expressão era um convite de honra. O aluno do profeta, em sinal de respeito, passaria a caminhar atrás do seu mestre (rabino) e, por dois anos, aprenderia as leis do judaísmo. Mateus (Matias, em hebraico), deixa tudo e começa uma nova vida com Cristo (Lc 5.28). Oferece uma ceia, em sua casa (Lc 5.27), para Jesus, os discípulos e seus muitos amigos pecadores. No Oriente e naquela época, convidar alguém para cear em casa era uma grande demonstração de amizade e intimidade e por isso recebia o nome de: “comunhão de mesa”. Isso foi o suficiente para provocar a ira de um grupo de fariseus (hassïdïns – leais a Deus - em hebraico; eram os sacerdotes e doutores da Lei, temidos por seu rigor e poder político).MT_B.indd 19 14/8/2007, 14:06
  • 20. MATEUS 9 20 ceia o vosso mestre com publicanos e Jesus tem poder sobre a morte pecadores?” 18 Enquanto, Ele estava falando, um dos 12 Mas Jesus, ouvindo, responde: “Os dirigentes da sinagoga aproximou-se e, sãos não necessitam de médico, mas sim, ajoelhando-se diante dele, rogou: “Mi- os doentes. nha filha acaba de morrer; mas vem, 13 Portanto, ide aprender o que significa impõe a tua mão sobre ela, e viverá”. isto: ‘Misericórdia quero, e não sacrifí- 19 Jesus então levantou-se e seguiu com cios’. Pois não vim resgatar justos e sim ele, e seus discípulos os acompanharam. pecadores’”.3 20 De repente, uma mulher que há doze anos vinha sofrendo de hemorragia, al- O novo e definitivo vinho cançou-o por trás e tocou na borda do 14 Então, chegaram os discípulos de João seu manto. e lhe perguntaram: “Por que jejuamos 21 Pois dizia essa mulher consigo mesma: nós, e os fariseus, muitas vezes, e os teus “Se eu conseguir apenas lhe tocar as ves- discípulos não jejuam?” tes, serei curada”. 15 Respondeu-lhes Jesus: “É possível que 22 Então Jesus voltou-se e assim que viu os amigos do noivo fiquem de luto en- a mulher lhe disse: “Anime-se grande- quanto o noivo ainda está com eles? Dias mente, filha, a tua fé te salvou!” E, desde virão, quando o noivo lhes será tirado; aquele momento, a mulher ficou sã.5 então jejuarão. 23 Quando Jesus chegou à casa do diri- 16 Ninguém coloca remendo novo em gente da sinagoga e viu os flautistas fúne- roupa velha; porque o remendo força o bres e a multidão em alvoroço, ordenou: tecido da roupa e o rasgo aumenta. 24 “Retirai-vos daqui! Esta menina não 17 Nem se põe vinho novo em odres está morta, mas adormecida”. E todos velhos; se o fizer, os odres rebentarão, o zombavam dele. vinho derramará e os odres se estragarão. 25 Assim que a multidão foi retirada, Mas, põe-se vinho novo em odres novos, Jesus entrou, tomou a menina pela mão e assim ambos ficam conservados”.4 e ela se levantou. 3 O maior e mais agradável sacrifício (holocausto) para Deus é o nosso amor sincero, sem restrições e em plena fé. A enfermidade da qual todos padecemos, inclusive muitos religiosos e líderes cristãos, é a distância do mais verdadeiro e puro amor (em grego: agape) ao Senhor (1Jo 4.16) e aos nossos semelhantes. Jesus pede que os doutores em teologia, filosofia, direito e ética da época, voltem às Escrituras, leiam atentamente Oséias 6.6, especialmente na edição grega do AT, a Septuaginta (cerca de 260 a.C.), e entendam que Ele não estava pactuando com o pecado, mas salvando todos aqueles que reconhecerem nele o Messias, o Filho de Deus. 4 Segundo a lei mosaica, apenas o jejum do Dia da Expiação era obrigatório (Lv 16.29,31; 23.27-32; Nm 29.7). Após o exílio na Babilônia, outros quatro jejuns deveriam ser feitos durante o ano (Zc 7.5; 8.19). Na época de Jesus, os fariseus jejuavam duas vezes por semana (Lc 18.12). Os casamentos judaicos eram grandes celebrações familiares, cujas festas chegavam a durar uma semana e, nessas ocasiões, os convidados eram dispensados da obrigação do jejum, uma vez que esse ato era sempre associado à tristeza. Jesus então faz uma analogia entre as festividades das bodas e seu relacionamento com seus discípulos (os amigos do noivo), dispensando-os do jejum enquanto o noivo (Ele) estiver presente. Jesus jejuava em particular, mas rejeitava a observação da Lei de forma legalista e para autoglorificação (Is 58.3-11). O jejum seria praticado por seus discípulos, após sua ascensão, voluntariamente e para edificação pessoal (Mt 4.2; 6.16-18). Jesus veio estabelecer uma nova ordem para o relaciona- mento das pessoas com Deus. A lei deve ceder lugar à graça (o novo vinho, a nova aliança). Os odres eram bolsas feitas de pele de cabra, onde se conservava o vinho (Gn 27.28; Êx 29.40; Lv 10.9; Sl 104.15; Ec 10.19; 1Tm 5.23; 1Tm 3.8; Tt 2.3; Rm 13.13; Rm 14.21). À medida que o suco de uvas frescas fermentava, o vinho se expandia. Os odres novos tinham maior resistência e flexibilidade, e se esticavam. Mas os odres usados e envelhecidos não suportavam a pressão e estouravam, colocando o vinho a perder. Jesus usa essa metáfora para revelar que seu novo, puro e poderoso ensino não pode ser recebido pelas antigas formas do judaísmo, nem pelo legalismo religioso. 5 Jesus se agrada da nossa fé e está sempre pronto para nos socorrer em qualquer necessidade. Basta que o procuremos com sinceridade. O verbo grego sõzein significa “salvar e curar”. A mulher pensou em salvar-se, livrar-se de uma doença horrível e antiga. Mas Jesus deu-lhe a cura integral, da alma e do corpo, quando a abençoou com a tradicional bênção dos rabinos da época: “a tua fé te salvou”. Jesus demonstrou que essa não era apenas uma frase religiosa, mas a indicação de que o Reino de Deus havia chegado para todos aqueles que nele cressem, pois que as palavras de Jesus são acompanhadas de poder.MT_B.indd 20 14/8/2007, 14:06
  • 21. 21 MATEUS 9, 10 26 Então a notícia desse acontecimento expulsar espíritos imundos e curar todas espalhou-se por toda aquela região. as doenças e males. 2 E são estes os nomes dos doze apósto- Os cegos passam a ver los: primeiro, Simão, chamado Pedro, e 27 Partindo Jesus dali, dois homens André, seu irmão; Tiago, filho de Zebe- cegos o seguiram, clamando: “Filho de deu, e João, seu irmão; Davi, tem misericórdia de nós!” 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, 28 Entrando Ele em casa, aproximaram- o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e se os cegos, e Jesus lhes perguntou: “Cre- Tadeu; des que Eu seja capaz de fazer isto?” E, 4 Simão, o zelote, e Judas Iscariotes, o responderam-lhe: “Sim, Senhor!” mesmo que traiu a Jesus. 29 Então, lhes tocou os olhos, dizendo: 5 Assim, a esses doze homens, enviou Jesus “Seja-vos feito conforme a vossa fé”. com as seguintes recomendações: “Não 30 E os olhos deles foram abertos. Jesus vos encaminheis aos gentios, nem entreis os advertiu, então, severamente: “Cuidai em cidade alguma dos samaritanos. para que ninguém saiba disto”. 6 Antes, porém, buscai as ovelhas perdi- 31 Contudo, ao partirem, propagaram os das da casa de Israel. feitos de Jesus por toda aquela região. 7 E, à medida que seguirdes, pregai esta mensagem: O Reino dos Céus está a Os endemoninhados são libertos vosso alcance! 32 Após terem se retirado, algumas pes- 8 Curai enfermos, purificai leprosos, res- soas trouxeram a Jesus um homem, mu- suscitai mortos, expulsai demônios. Gra- do e possuído por um demônio. ciosamente recebestes, graciosamente dai. 33 Assim que o demônio foi expulso, 9 Não vos provereis de ouro, nem prata o mudo passou a falar; e as multidões ou cobre em vossos cinturões. admiradas exclamavam: “Jamais se 10 Não leveis sacolas de viagem, nem viu algo assim em Israel!”. uma túnica a mais, segundo par de 34 Por outro lado, os fariseus maldiziam: sandálias ou um cajado; pois digno é o “Ele expulsa os demônios pelo príncipe trabalhador do seu sustento. dos demônios”. 11 Em qualquer cidade ou povoado em que entrardes, procurai alguém digno Todos os enfermos são curados de vos receber; ficai nesta casa até vos 35 E Jesus ia passando por todas as cidades retirardes. e povoados, ensinando nas sinagogas, pre- 12 E, quando entrardes na casa, saudai-a. gando as boas novas do Reino e curando 13 Se a casa for digna, que a vossa paz todas as enfermidades e doenças. repouse sobre ela; se, todavia, não for digna, que a paz retorne para vós. Jesus pede mais discípulos 14 Porém, se alguém não vos receber, nem 36 Ao ver as multidões, Jesus sentiu gran- der ouvidos às vossas palavras, assim que de compaixão pelas pessoas, pois que sairdes daquela casa ou cidade, sacudi a estavam aflitas e desamparadas como poeira dos vossos pés. ovelhas que não têm pastor. 15 Com toda a certeza vos afirmo que 37 Então, falou aos seus discípulos: “De haverá mais tolerância para Sodoma e fato a colheita é abundante, mas os tra- Gomorra, no dia do juízo, do que para balhadores são poucos. aquelas pessoas. 38 Por isso, orai ao Senhor da seara e pedi 16 Observai! Eu vos envio como ovelhas que Ele mande mais trabalhadores para a entre os lobos. Sede, portanto, astutos sua colheita”. como as serpentes e inofensivos como as pombas. Jesus envia seus apóstolos 17 E, acautelai-vos dos homens; pois que 10 Jesus, tendo chamado seus doze discípulos, deu-lhes poder para vos entregarão aos tribunais e vos açoita- rão nas suas sinagogas.MT_B.indd 21 14/8/2007, 14:06
  • 22. MATEUS 10 22 18 Sereis levados à presença de governa- luz do dia; e o que se vos diz ao ouvido, dores e reis por minha causa, para teste- proclamai-o do alto dos telhados. munhardes a eles e aos gentios. 28 E, não temais os que matam o corpo, 19 Todavia, quando vos prenderem, não mas não têm poder para matar a alma. vos preocupeis em como, ou o que deveis Temei antes, aquele que pode destruir no falar, pois que, naquela hora, vos será mi- inferno tanto a alma como o corpo. nistrado o que haveis de dizer. 29 Não se vendem dois pardais por uma 20 Isso porque, não sois vós que estareis moedinha de cobre? Mesmo assim, falando, mas o Espírito de vosso Pai é nenhum deles cairá sobre a terra sem a quem se expressará através de vós. permissão de vosso Pai. 21 Um irmão entregará à morte seu irmão, 30 E quanto aos muitos cabelos da vossa e o pai ao filho, e os filhos se rebelarão cabeça? Estão todos contados. contra seus pais e lhes causarão a morte. 31 Por isso, não temais! Bem mais valeis 22 E, por causa do meu Nome, sereis vós do que muitos passarinhos. odiados de todos. Contudo, aquele que 32 Assim sendo, todo aquele que me decla- permanecer firme até o fim será salvo. rar diante das pessoas, também eu o decla- 23 Quando, porém, vos perseguirem num rarei diante de meu Pai que está nos céus. lugar, fugi para outro; pois com toda a 33 Entretanto, qualquer que me negar certeza vos asseguro que não tereis pas- diante das pessoas, também Eu o negarei sado por todas as cidades de Israel antes diante de meu Pai que está nos céus. que venha o Filho do homem. 34 Não penseis que vim trazer paz à terra; 24 O pupilo não está acima do seu men- não vim trazer paz, mas espada. tor, nem o escravo acima do seu amo. 35 Pois Eu vim para ser motivo de discór- 25 Basta ao discípulo ser como seu mestre, dia entre o homem e seu pai; entre a fi- e ao servo ser como seu senhor. Se chama- lha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. ram de Belzebu ao cabeça da Casa, quanto 36 Assim os inimigos do homem serão os mais aos membros da sua família! da sua própria família.1 26 Entretanto, não os temais! Nada há 37 Quem ama seu pai ou sua mãe mais do escondido que não venha a ser revelado, que a mim não é digno de mim; e quem nem oculto que não venha a se tornar ama o filho ou a filha mais do que a mim conhecido. não é digno de mim. 38 E aquele que não toma a sua cruz e não A entrega do temor a Deus me segue, também não é digno de mim. 27 O que vos digo na escuridão, dizei-o à 39 Quem encontra a sua vida a perderá. 1 Jesus não veio trazer a paz no sentido de uma religiosidade cômoda e inconseqüente. O verdadeiro cristianismo é uma mudança radical de vida com implicações conflituosas, inadequações e até perseguições cruéis. Algumas vezes na própria família (Mq 7.6) e, com certeza, neste mundo secularizado, materialista e agnóstico. A paz do cristão está em sua plena comunhão com Deus (Jo 14.27) e a terra só verá paz completa na volta do Rei Jesus (Is 2.4). Uma das ofensas que mais feriram o coração de Cristo foi ouvir dos teólogos da época (seu povo e família) que realizava milagres e sinais no poder de Belzebu (9.34; 12.24-29; Mc 3.22; Lc 11.15- 19; Jo 8.52). Chamar o Filho de Deus – o cabeça da raça humana – de Diabo, foi uma das maiores blasfêmias já ditas na história do mundo. Belzebu é a forma grega da expressão hebraica Baal-Zebub que se refere a Satanás, o “príncipe dos demônios” e significa: “senhor das moscas” (2Rs 1.2). Por isso, é preciso muito cuidado ao julgar e expressar publicamente opiniões dessa natureza con- tra qualquer pessoa ou movimento cristão. Em 10.38, pela primeira vez em Mateus, aparece a palavra “cruz”. Os cristãos não devem buscar o sofrimento, nem se desesperar diante dele, mas ter a atitude de Jesus: enfrentar as circunstâncias com fé, humildade e coragem. O império romano obrigava seus condenados à morte a caminhar com a trave de suas cruzes nas costas até o local da execução. Os discípulos já haviam visto milhares de judeus serem crucificados, por isso essa ilustração (metáfora) de Jesus foi tão significativa. O crente, salvo por Cristo, deve carregar consigo a mesma cruz: renunciar a si mesmo, para servir com total dedicação ao Senhor Jesus, como mortos para as demandas do sistema mundial e do nosso “eu” (Gl 2.20). Por isso, quem busca frenetica- mente se dar bem nesta vida, acabará perdendo as bênçãos inerentes à condição dos salvos, agora e eternamente (2Co 5.17). Em 10.42, Jesus conclui esse trecho bíblico fazendo menção notável de recompensa a todos aqueles que ajudam e cooperam com os servos do Senhor no estabelecimento da nova ordem: o Reino de Deus (1Co 15.58; Gl 6.9; Mt 25.35-36).MT_B.indd 22 14/8/2007, 14:06
  • 23. 23 MATEUS 10, 11 Mas quem perde a vida por minha causa começou Jesus a falar às multidões a res- a achará. peito de João: O que fostes ver no deser- 40 Quem vos recebe, a mim mesmo rece- to? Um caniço agitado pelo vento? be; e quem recebe a minha pessoa, recebe 8 E então? O que fostes ver no deserto? aquele que me enviou. Um homem vestido com roupas finas? 41 Quem recebe um profeta por reconhe- De fato, os que usam roupas finas estão cê-lo como profeta, receberá a recom- nos palácios reais. pensa de profeta; e quem recebe um justo 9 Mas, afinal, o que fostes ver? Um pro- por suas qualidades de justiça, receberá a feta? Sim, Eu vos afirmo. E mais do que recompensa de justo. um profeta! 42 E quem der, mesmo que seja apenas 10 Este é aquele a respeito de quem está um copo de água fria a um destes peque- escrito: “Eis que Eu enviarei o meu men- ninos, por ser este meu discípulo, com sageiro à frente da tua face, o qual prepa- toda a certeza vos afirmo que de modo rará o teu caminho diante de Ti”.1 algum perderá a sua recompensa”. 11 Com toda a certeza vos afirmo: Entre os nascidos de mulher não se levantou João. O arauto de Jesus ninguém maior do que João, o Batista; 11 Havendo, pois, terminado de ins- truir seus doze discípulos, partiu Jesus dali para ensinar e pregar nas cida- entretanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele. 12 Desde os dias de João Batista até agora, des da Galiléia. o Reino dos céus é tomado à força, e os 2 Assim que, no cárcere, João ouviu falar que usam de violência se apoderam dele. sobre o que Cristo estava realizando, 13 Porque todos os Profetas e a Lei profe- enviou dois dos seus discípulos para lhe tizaram até João. perguntarem: 14 E, se desejarem aceitar, este é o Elias 3 “És tu Aquele que haveria de vir ou que havia de vir. devemos aguardar outro?” 15 Aquele que tem ouvidos para ouvir, que 4 Jesus, respondendo, disse-lhes: “Ide e con- ouça! tai a João o que estais ouvindo e vendo: 16 Mas, a quem hei de comparar esta ge- 5 Os cegos enxergam, os mancos cami- ração? São como crianças que, sentadas nham, os leprosos são purificados, os nas praças do mercado, ficam gritando surdos ouvem, os mortos são ressuscita- uma às outras: dos, e as Boas Novas estão sendo prega- 17 ‘Nós vos tocamos músicas de casa- das aos pobres. mento, mas vós não dançastes; entoamos 6 E, abençoado é aquele que não se es- lamentos fúnebres e não pranteastes!’ candaliza por minha causa”. 18 Assim, veio João, que jejua e não bebe 7 Enquanto saíam os discípulos de João, vinho, e dizem: ‘Este tem demônio’. 1 João Batista foi o último dos profetas do AT e o precursor de Cristo. O mensageiro do Rei (arauto) que veio anunciar a che- gada do Filho de Deus à terra (Ml 3.1; 4.5-6). João estava preso em Maqueros, uma fortaleza inóspita, nas proximidades do mar Morto (14.3-12; Lc 7.18-35) e desejava confirmar se Jesus era mesmo o Messias profetizado no AT. Jesus manda sua resposta de maneira inequívoca, assim João poderia descansar e se alegrar no Senhor, pois sua missão estava cumprida: “os cegos enxergam” e os demais milagres profetizados por Isaías (730 a.C.) sobre as obras que o Messias realizaria quando chegasse (Is 35.5; 61.1). Quem saiu para ver algo tão comum e simples como um pé de cana balançando ao vento, viu e ouviu o maior dos profetas do AT, parente e amigo amado do Senhor (Lc 1.36; Jo 3.29). Entretanto, aqueles que têm o privilégio de ouvir o Filho de Deus foram contemplados com bênção ainda maior que João (Ef 5.25-32). Jesus ainda registra o comportamento infantil dos seres humanos em relação à vinda dos profetas de Deus - são como crianças: se ouvem uma música alegre, tocada com flautas, nos casamentos (da época), não ficam contentes. Se ouvem uma melodia mais triste, como as executadas nos enterros, não se emocionam. Ou seja, para muitos, infelizmente, não há como comunicar o Evangelho de modo a que este seja bem compreendi- do. Por isso, muito felizes (bem-aventurados) são os que ouvem e aceitam a Palavra de Deus. A KJ de 1611 traz a expressão: “a sabedoria é justificada por seus filhos” e significa que os frutos (obras) do ensino de João e Jesus são visíveis, palpáveis, práticos e têm a ver com uma nova e abençoada maneira de viver.MT_B.indd 23 14/8/2007, 14:06
  • 24. MATEUS 11, 12 24 19 Então chega o Filho do homem, comen- dos céus e da terra, pois escondeste estas do e bebendo, e dizem: ‘Eis aí um glutão e coisas dos sábios e cultos, e as revelaste bebedor de vinho, amigo de publicanos e aos pequeninos. pecadores!’ Todavia, a sabedoria é compro- 26 Amém, ó Pai, pois assim foi do teu vada pelas obras que são seus frutos”. agrado! 27 Todas as coisas me foram entregues Ai dos povos incrédulos por meu Pai. Ninguém conhece o Filho 20 Então, começou Jesus a admoestar se- senão o Pai; e ninguém conhece o Pai a veramente as cidades nas quais realizara não ser o Filho, e aquele a quem o Filho numerosos feitos prodigiosos, porque o desejar revelar. não se arrependeram: 28 Vinde a mim todos os que estais cansa- 21 “Ai de ti Corazim! Ai de ti Betsaida! dos de carregar suas pesadas cargas, e Eu Porque se os milagres que entre vós vos darei descanso. foram realizados tivessem sido feitos em 29 Tomai vosso lugar em minha canga Tiro e Sidom, há muito que elas se teriam e aprendei de mim, porque sou amável arrependido, vestindo roupas de saco e e humilde de coração, e assim achareis cobrindo-se de cinzas. descanso para as vossas almas. 22 Entretanto, Eu vos afirmo que no dia 30 Pois meu jugo é bom e minha carga do juízo haverá menos rigor para Tiro e é leve”.2 Sidom, do que para vós outros. 23 E tu, Cafarnaum, te arrogas subir até os O Senhor do sábado céus? Pois serás lançada no inferno. Por- que se as maravilhas que foram realizadas em ti houvessem sido feitas em Sodoma, 12 Naquela época, Jesus passou pe- las lavouras de cereal, em dia de sábado. Seus discípulos estavam com teria ela permanecido até o dia de hoje. fome e começaram a colher espigas e 24 Eu, contudo, vos afirmo que haverá comê-las. mais tolerância para com o povo de So- 2 Assim que os fariseus viram aquilo, doma no dia do julgamento, do que para disseram-lhe: “Vê! Teus discípulos estão contigo”. fazendo o que não é lícito em dia de sábado!” Vinde a Cristo, os cansados 3 Mas Jesus lhes respondeu: “Não lestes 25 Naquela ocasião, em resposta, Jesus o que fez Davi quando ele e seus compa- proclamou: “Graças te dou, ó Pai, Senhor nheiros estavam com fome? 2 Corazim, mencionada apenas duas vezes nas Escrituras (aqui e em Lc 10.13) distava cerca de quatro quilômetros ao norte de Cafarnaum. Betsaida ficava na extremidade ao norte do mar da Galiléia. Tiro e Sidom eram cidades pagãs da Fenícia. Jesus con- clui esse trecho bíblico com uma “resposta” emocionada às graves circunstâncias descritas anteriormente. A expressão: “Graças te dou” (em grego exomologoumai), significa: “reconheço”. A expressão: “Amém” (em hebraico transliterado amen) vem de uma raiz que significa “digno de fé” ou “verdade” (Is 65.16), por isso a palavra grega é mera transliteração do hebraico, usada por algumas versões na forma poética: “em verdade, em verdade”. No AT era, também, uma expressão de concordância (assim seja) com uma doxologia ou bênção (1Cr 16.36; Sl 41.13). Jesus fez uso dessa expressão com autoridade messiânica, algo incomum aos rabinos e mestres de sua época (2Co 1.20). Em certo sentido, Jesus pode ser chamado de “o Amém de Deus” (Is 65.16; Ap 3.14). Muitas sinagogas usaram essa expressão, que passou para as primeiras igrejas cristãs (1Co 14.16). Nos versos 28 a 30 Jesus faz menção às Escrituras (Jr 6.16) e usa mais uma notável ilustração para mostrar como o cristão pode encontrar descanso para as suas aflições: Jesus aponta para a canga dos bois. Uma trave de madeira robusta, quase sempre ocupada por dois animais, colocados lado a lado, presos pelo pescoço e ligados ao arado ou carro que deveriam puxar. Jesus considerou sua cruz (canga), útil e boa (no original grego chrestos). Algumas versões usam a palavra: “suave”. Jesus considerou seu “fardo” leve, não pesado ou difícil de transportar até seu destino. Para alcançar o pleno descanso devemos ocupar nosso lugar ao lado de Jesus e partilhar da sua canga; que não era um instrumento de tormento para os animais, mas um meio útil e cômodo de levar mais carga com menos esforço, evitando os sofrimentos das antigas cordas amarradas pelo corpo. Jesus quer partilhar sua força conosco. Além disso, bondade, paciência, mansidão, humildade são qualidades que nos possibilitam trabalhar e descansar com fé no amor e na soberania do Senhor. Uma pessoa assim será querida e amável, e isso a ajudará a vencer muitos problemas e descansar diariamente em paz.MT_B.indd 24 14/8/2007, 14:06
  • 25. 25 MATEUS 12 4 Como entrou na casa de Deus, e come- “Estende a tua mão”. Ele a estendeu e ela ram os pães da Presença, os quais a lei foi restaurada, ficando sã como a outra. não lhes permitia comer, nem a ele nem 14 Diante disso, saíram os fariseus e co- aos que com ele estavam, mas exclusiva- meçaram a conspirar sobre como pode- mente aos sacerdotes?1 riam matar Jesus. 5 Ou não lestes na Lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado Eis meu Servo amado! e, contudo, são desculpados? 15 Mas, Jesus, sabendo disto, afastou-se 6 Pois Eu vos afirmo que aqui está quem daquele lugar. Uma multidão o seguiu e é maior do que o templo. a todos Ele curou. 7 Entretanto, se vós soubésseis o que 16 Contudo, os advertiu para que não significam estas palavras: ‘Misericórdia divulgassem suas obras. quero, e não holocaustos’, não teríeis 17 Ao acontecer isso, cumpriu-se o que condenado os que não têm culpa. fora dito pelo profeta Isaías: 8 Pois o Filho do homem é o Senhor do 18 “Eis o meu Servo, que escolhi, o meu sábado!”. amado, em quem tenho alegria. Farei repousar sobre Ele o meu Espírito, e Ele Jesus cura no sábado anunciará justiça às nações. 9 Tendo Jesus saído daquele lugar, foi 19 Não contenderá nem gritará; nem se para a sinagoga deles. ouvirá nas ruas a sua voz. 10 Encontrava-se ali um homem que 20 Não esmagará a cana rachada, nem tinha uma das mãos atrofiada. Mas, pro- apagará o pavio que fumega, até que faça curando um motivo para acusar Jesus, vencer a justiça. eles o questionaram: “É lícito curar no 21 E em seu Nome os gentios colocarão sábado?” sua esperança”. 11 Ao que Jesus lhes propôs: “Qual de vós será o homem que, tendo uma ovelha, e, O pecado imperdoável num sábado, esta cair em um buraco, não 22 Depois disso, aconteceu que lhe trouxe- fará todo o esforço para retirá-la de lá? ram um endemoninhado, cego e mudo; Ele 12 Assim sendo, quanto mais vale uma o curou, de modo que pôde falar e ver. pessoa do que uma ovelha! Por isso, é 23 Então, toda a multidão ficou atônita lícito fazer o bem no sábado”. e exclamava: “É este, porventura, o Filho 13 Então, dirigiu-se ao homem e disse: de Davi?” 1 O sábado (em hebraico shabbãth) é estabelecido nas Escrituras como princípio: um em cada sete dias deveria ser separado (santificado) para o descanso. A raiz hebraica da palavra “sábado” é shãbhath, que significa “cessar”. Na Criação, o próprio Deus legou à humanidade o exemplo da santificação do sábado (Gn 2.2; Êx 20.8-11). Em Êx 16.21-30 há uma menção explícita sobre o sábado em relação à provisão do maná. O sábado (dia do descanso em homenagem ao Criador) nesse contexto, é representado como um dom de Deus, visando o repouso e o benefício do povo. Não era necessário trabalhar no sábado (juntar o maná), pois dupla porção era provida no sexto dia da semana. Os fariseus, no entanto, haviam acrescentado à Lei e ao sábado uma série imensa de minuciosas regras e observâncias não prescritas por Moisés. Ao entrar pelos campos de trigo, Jesus e seus discípulos estavam usufruindo um direito concedido pela Lei a todo viajante: comer para satisfazer a fome, sem levar nada (Dt 23.25), mas os fariseus implicaram com o ato de debulhar no sábado (Lc 6.1). Jesus então faz referência a 1Sm 21.1-6, lembrando que em caso de necessidade, alguns detalhes da lei cerimonial podiam ser suprimidos. Os pães da Presença ou Proposição, como em algumas versões, referem-se à presença do próprio Deus (Êx 33.14,15; Is 63.9). Os doze pães (cada um simbolizando uma tribo) representavam uma oferta perpétua, de pão, ao Senhor, mediante a qual Israel declarava consagrar a Deus os frutos do seu trabalho que, por sua vez, era uma bênção do Senhor (Lv 24.5,9). Esses pães eram colocados na mesa do lugar santo do tabernáculo, todos os sábados, e depois da cerimônia podiam ser comidos pelo sacerdote e sua família. Ocorre que os sacerdotes preparavam os pães e os sacrifícios no sábado, mesmo sob a proibição geral do trabalho nesse dia. Jesus então argumenta que se as necessidades do culto no templo permitiam que o sacerdote profanasse o sábado, com muito mais razão a missão de Cristo (o Messias) merece a mesma liberdade. Jesus ensina que a ética é mais importante que o ritual, e o espírito da Lei maior que as letras e os mandamentos. Jesus declara que Ele é Deus, ao afirmar que é Senhor do sábado (Jo 5.17) e enfatiza que o sábado foi dado à humanidade para o seu bem e não como uma obrigação prejudicial.MT_B.indd 25 14/8/2007, 14:06
  • 26. MATEUS 12 26 24 Mas os fariseus, ao ouvirem isso, mur- 32 Qualquer pessoa que disser uma pa- muraram: “Este homem não expulsa lavra contra o Filho do homem, isso lhe demônios senão pelo poder de Belzebu, o será perdoado; porém, se alguém falar príncipe dos demônios”. contra o Espírito Santo, não lhe será 25 Entretanto, Jesus compreendia os pen- isso perdoado, nem nesta época, nem no samentos deles, e lhes afirmou: “Todo tempo futuro. reino dividido contra si mesmo será 33 Ou fazei a árvore boa e o seu fruto arruinado, e toda cidade ou casa dividida bom, ou a árvore má e o seu fruto mau; contra si mesma não resistirá. pois uma árvore é conhecida pelo seu 26 Se Satanás expulsa Satanás, está divi- fruto. dido contra ele próprio. Como poderá 34 Raça de víboras! Como podeis falar então subsistir o seu reino? coisas boas, sendo maus? Pois a boca 27 E se Eu expulso demônios por Belze- fala do que está cheio o coração. bu, por quem os expulsam vossos filhos? 35 Uma boa pessoa tira do seu bom te- E, por isso, eles mesmos serão os vossos souro coisas boas; mas a pessoa má, tira juízes. do seu tesouro mau, coisas más. 28 Mas, se é pelo Espírito de Deus que 36 Por isso, vos afirmo que de toda a pa- Eu expulso demônios, então, verdadei- lavra fútil que as pessoas disserem, dela ramente, é chegado o Reino de Deus deverão prestar conta no Dia do Juízo. sobre vós! 37 Porque pelas tuas palavras serás ab- 29 Ou ainda, como pode alguém entrar solvido e pelas tuas palavras serás con- na casa do homem forte e roubar-lhe denado”.2 todos os bens sem primeiro amarrá-lo? Só depois disso será possível saquear a O sinal da ressurreição sua casa. 38 Então alguns dos mestres da lei e fari- 30 Quem não está comigo, está contra seus lhe pediram: “Mestre, queremos ver mim; e aquele que comigo não colhe, de tua parte algum milagre”. espalha. 39 Ao que Jesus respondeu: “Uma gera- 31 Portanto, Eu vos assevero: Todos os ção perversa e adúltera pede um sinal pecados e blasfêmias serão perdoados miraculoso! Todavia, nenhum sinal lhe às pessoas; a blasfêmia contra o Espírito será dado, exceto o sinal miraculoso do Santo não será, porém, perdoada! profeta Jonas.3 2 Filho de Davi era um título exclusivo do Messias (Mc 3.22-30; Lc 11.14-22). A vinda e a vida de Jesus eram o evidente cumpri- mento das profecias, especialmente de Isaías 42.1-4. Deus, assumindo a forma humana em Jesus, tratou os seres humanos com misericórdia e delicadeza: como caniços (varas de pesca) que podem ser quebrados ou esmagados com facilidade; ou ainda como pequenas chamas que podem ser apagadas com um simples movimento. Jesus percebeu, compreendeu (no original gre- go eidôs) o que de fato os fariseus estavam tramando. Os judeus já praticavam o exorcismo (At 19.13-16) e Jesus os questionou sob qual autoridade exerciam essa prática. Jesus já havia vencido Satanás em seus quarenta dias no deserto (4.1-11) e agora estava invadindo o reino do Maligno (1Jo 3.8), para tirar das trevas as almas de todos aqueles que nele cressem, e para destruir a “casa do homem forte” (Is 49.24-26; Lc 11.21). Por isso não pode haver neutralidade no Reino de Deus: quem não serve a Cristo está servindo ao Diabo que é o diretor-geral do sistema (econômico, político, social e religioso) deste mundo. O único pecado sem perdão é a rejeição consciente e sistemática da salvação graciosa em Cristo e a alegação de que Jesus e o Diabo são a mesma pessoa ou as duas faces da verdade (o bem e o mal), como pensam algumas correntes filosóficas (Hb 6.4-6; 10.26-31). Jesus acrescenta que o caráter de uma pessoa será sempre revelado por meio de suas palavras (Tg 3.2) e que essas palavras pesam na balança da terra e do céu (Pv 18.21). Há três palavras gregas para designar milagres: 1) teras – algo portentoso; 2) du- namis – poder maravilhoso; 3) semeion – uma prova ou sinal sobrenatural. No passado, muitos líderes de Israel haviam concedido ao povo provas de sua missão por parte de Deus. Assim, para autenticar a obra de Moisés, o Senhor enviou o maná; para Josué, o Senhor fez parar o Sol e a Lua; para Samuel, enviou o Senhor, trovões, de um céu claro e limpo, sem tempestades; para Elias, mandou Deus, fogo do céu; para Isaías, fez recuar a sombra do relógio (da época) do Sol. Mas, para confirmar a obra de Jesus Cristo, o Messias, seria realizado o maior milagre de todos: Deus ressuscitaria a Seu Filho Jesus da sepultura e esse seria um sinal ainda maior do que aquele realizado para a conversão de toda a antiga cidade de Nínive (39-41). 3 O AT usa freqüentemente a metáfora: “adúltera” para significar “infiel a Deus”. Os três dias e três noites de Jonas e de JesusMT_B.indd 26 14/8/2007, 14:06
  • 27. 27 MATEUS 12, 13 40 Portanto, assim como esteve Jonas A mãe e os irmãos de Jesus três dias e três noites no ventre de um 46 Enquanto, Jesus estava pregando à grande peixe, assim o Filho do homem grande multidão, do lado de fora, sua estará três dias e três noites no coração mãe e seus irmãos procuravam falar da terra. com Ele. 41 O povo de Nínive se levantará no Dia 47 Então alguém o avisou: “Tua mãe e do Juízo com esta geração, e a condenará; teus irmãos estão lá fora e desejam fa- pois eles se arrependeram com a prega- lar-te”. ção de Jonas. E eis que aqui está quem é 48 Jesus, entretanto, respondeu ao que lhe maior do que Jonas. trouxera a informação: “Quem é minha 42 A rainha do Sul se levantará no Juízo mãe e quem são os meus irmãos?”4 com esta geração e a condenará, pois ela 49 E, estendendo a mão na direção dos veio dos confins da terra para conhecer discípulos, afirmou: “Eis minha mãe e os sábios ensinamentos de Salomão. E meus irmãos. eis que aqui está quem é maior do que 50 Pois todo aquele que faz a vontade de Salomão. meu Pai que está nos céus, este é meu 43 Quando um espírito imundo sai de irmão, minha irmã e minha mãe”. uma pessoa, passa por lugares áridos procurando descanso, mas não encontra A parábola do semeador onde repousar. (Mc 4.1-20; Lc 8.1-15) 44 Então diz: ‘Voltarei para a minha casa de onde saí’. E, retornando, encontra a casa desocupada, varrida e arrumada. 13 Naquele mesmo dia Jesus saiu de casa e foi assentar-se à beira-mar. 2 Uma grande multidão reuniu-se ao seu 45 Diante disso, vai e leva consigo outros redor e, por esse motivo, entrou num sete espíritos, piores do que ele, e, en- barco e assentou-se. E todo o povo esta- trando, passam a morar ali. E o estado va em pé na praia. final daquela pessoa torna-se pior que o 3 Jesus ensinou-lhes então muitas coisas primeiro. Assim também ocorrerá com por meio de parábolas, como esta: “Eis esta geração má!”. que um semeador saiu a semear.1 (Jn 1.17) referem-se ao período que vai da sexta-feira à tarde até o domingo de manhã. A expressão hebraica traduzida por algumas versões como “baleia”, significa no original: “grande monstro marinho”. A rainha do Sul (também chamada de rainha do meio-dia) é a mesma rainha de Sabá (1Rs 10) cujo reino ficava a sudoeste da Arábia, onde é hoje o Iêmen. Jesus recorre à história de Israel para fazer referência ao processo de purificação da idolatria, entre os judeus, durante o cativeiro babilônico, mas cujo estado atual – de incredulidade e dureza de coração – era muito pior que antes do exílio (Lc 11.24-26). 4 Jesus tinha quatro irmãos (mencionados os seus nomes em Mc 6.3) e mais um número de irmãs não especificado nas Escrituras. Alguns teólogos defendem a idéia de que esses seriam primos de Jesus, filhos de Alfeu com a irmã da mãe de Jesus que também se chamava Maria. Mas, Jo 7.5 e At 1.14 os distinguem claramente dos filhos de Alfeu. Jesus aproveita o que seria uma interrupção do seu discurso para ilustrar a verdadeira fraternidade: uma nova família espiritual à qual todos os cristãos pertencem e a quem devem amar como à própria mãe e aos irmãos. Em nenhum momento Jesus tem a intenção de divinizar sua mãe, muito menos de tratá-la sem o devido carinho e respeito. Capítulo 13 1 Jesus saiu da casa de Simão e André, em Cafarnaum (8.14), e dirigiu-se às margens do “mar da Galiléia”, chamado também de “o grande lago”. Os hebreus não tinham apreço pelo mar, pois as antigas crenças semíticas diziam que a profundidade (abismo) personificava o poder do mal que combatia contra Deus. Para Israel, entretanto, Deus era o criador do mar e seu controlador, fazendo que o mar coopere para o bem da humanidade (Gn 1.9; Gn 49.25; Êx 14,15; Dt 33.13; Sl 104.7-9; Sl 148.7; Mt 14.25-33; At 4.24). O triunfo final de Deus será acompanhado pelo desaparecimento total do mar (Ap 21.1). A expressão “parábola” vem do original grego paraboles, que significa, colocar coisas semelhantes, lado a lado, para estabelecer comparação, estudo e tirar um ensinamento. Em nossa língua, a parábola é uma figura de linguagem em que uma verdade moral ou espiritual é ilustrada por uma analogia derivada da experiência cotidiana. Com essa parábola, conhecida como “do semeador” Jesus inicia o primeiro grupo de histórias didáticas sobre o Reino de Deus, registradas em Mateus. Os evangelhos sinóticos contêm cerca de trinta parábolas. O evangelho segundo João não apresenta parábolas, mas emprega outras figuras de linguagem.MT_B.indd 27 14/8/2007, 14:06
  • 28. MATEUS 13 28 4 Enquanto realizava a semeadura, parte olhos; para evitar que enxerguem com os dela caiu à beira do caminho e, vindo as olhos, ouçam com os ouvidos, compre- aves, a devoraram. endam com o coração, convertam-se, e 5 Outra parte caiu em terreno rochoso, sejam por mim curados’. onde havia uma fina camada de terra, 16 Mas abençoados são os vossos olhos, e logo brotou, pois o solo não era pro- porque enxergam; e os vossos ouvidos, fundo. porque ouvem. 6 Porém, quando veio o sol, as plantas 17 Pois com certeza vos afirmo que mui- se queimaram; e por não terem raiz, tos profetas e justos desejaram ver o que secaram. vedes, e não viram; e ouvir o que ouvis, e 7 Outra parte caiu entre os espinhos. Es- não ouviram. tes, ao crescer, sufocaram as plantas. 8 Contudo, uma parte caiu em boa terra, Jesus explica essa parábola produzindo generosa colheita, a cem, 18 Portanto, atentai para o que significa a sessenta e trinta por um. parábola do semeador: 9 Aquele que tem ouvidos para ouvir, 19 Quando uma pessoa escuta a mensa- que ouça!”. gem do Reino, mas não a compreende, vem o Maligno e arranca o que foi O propósito das parábolas semeado em seu coração. Estas são as 10 Então, os discípulos se aproximaram sementes que foram semeadas à beira dele e perguntaram: “Por que lhes falas do caminho. por meio de parábolas?” 20 O que foi semeado em terreno rocho- 11 Ao que Ele respondeu: “Porque a vós so, esse é o que ouve a Palavra e logo a outros foi dado o conhecimento dos aceita com alegria. mistérios do Reino dos céus, mas a eles 21 Contudo, visto que não tem raiz em isso não lhes foi concedido.2 si mesmo, resiste por pouco tempo. E, 12 Pois a quem tem, mais se lhe dará, e quando por causa da Palavra chegam os terá em abundância; mas, ao que quase problemas e as perseguições, logo perde não tem, até o que tem lhe será tirado. o ânimo. 13 Por isso lhes falo por meio de pará- 22 Quanto ao que foi semeado entre os bolas; porque, vendo, não enxergam; e espinhos, este é aquele que ouve a Pala- escutando, não ouvem, muito menos vra, mas as preocupações desta vida e a compreendem. sedução das riquezas sufocam a mensa- 14 Neles se cumpre a profecia de Isaías: gem, tornando-a infrutífera. ‘Ainda que continuamente estejais ouvin- 23 Mas, enfim, o que foi semeado em do, jamais entendereis; mesmo que sem- boa terra é aquele que ouve a Palavra e pre estejais vendo, nunca percebereis. a entende; este frutifica e produz grande 15 Posto que o coração deste povo está colheita: alguns, cem; outros, sessenta; e petrificado; de má vontade escutaram ainda outros trinta vezes mais do que foi com seus ouvidos, e fecharam os seus semeado”. 2 A expressão original grega, aqui traduzida por “mistérios”, refere-se a revelações especiais a que somente os devotos (cren- tes, consagrados) a Jesus Cristo têm acesso. O v.12 anuncia um princípio básico do mundo espiritual: quem aceita a Palavra de Deus, com humildade e reverência, receberá muitas outras bênçãos do Senhor, mas aos arrogantes e incrédulos, até a parcela de fé e bênçãos que lhes foi concedida será retirada. Veja os exemplos do “filho pródigo” (Lc 15.17-24) e o que aconteceu com o Faraó do Egito depois de ter feito pouco caso do aviso de Moisés (Êx 8.1-32; 9.1-12). As coisas de Deus não fazem sentido para aqueles dotados apenas de crítica racional. Precisam ser iluminados em sua compreensão espiritual e isso é dom de Deus (Rm 5.15,16; 1Co 2.14-16; Ef 2.8). Os versos 14 e 15 são copiados, palavra por palavra, da Septuaginta (Is 6.9,10), que descreve o chamado do profeta Isaías, a mensagem que deveria pregar e o estado de calamidade espiritual do povo. Como no tempo de Isaías, assim também na época de Cristo, os judeus fecharam os olhos à verdade (Mc 4.12). Jesus e Sua Igreja são as últimas grandes luzes a brilhar neste mundo para todo aquele que quiser abrir os olhos (Ef 3.2-5; 1Pe 1.10-12).MT_B.indd 28 14/8/2007, 14:06
  • 29. 29 MATEUS 13 O trigo e o joio safra, e, no tempo da colheita, direi aos 24 Jesus lhes contou outra parábola: “O ceifeiros: ‘Primeiro ajuntai o joio e amar- Reino dos céus é semelhante a um ho- rai-o em feixes para ser queimado; mas o mem que semeou boa semente em seu trigo, recolhei-o no meu celeiro’”. campo. 25 Entretanto, quando todos dormiam, O grão de mostarda chegou o inimigo dele, lançou o joio 31 Outra parábola ainda lhes propôs Je- no meio do trigo, e seguiu o seu ca- sus, dizendo: “O Reino dos céus é como minho.3 um grão de mostarda, que um homem 26 Assim, quando o trigo brotou e for- tomou e plantou em seu campo. mou espigas, o joio também apareceu. 32 Embora seja a menor dentre todas as 27 Os servos do dono da plantação fo- sementes, quando cresce chega a ser a ram até ele e perguntaram: ‘Senhor, não maior das plantas, e se torna uma árvore, semeaste boa semente no teu campo? de maneira que as aves do céu vêm ani- Então, de onde vem o joio?’. nhar-se em seus ramos”. 28 Ele, porém, lhes respondeu: ‘Um inimigo fez isso’. Então os servos lhe O fermento propuseram:‘Senhor, queres que vamos 33 E contou-lhes mais outra parábola: “O e arranquemos o joio?’ Reino dos céus é semelhante ao fermento 29 Ao que o senhor respondeu: ‘Não, pois que uma mulher pegou e misturou em ao tirar o joio, podereis arrancar junta- três medidas de farinha, até que toda a mente com ele o trigo. massa ficou levedada”. 30 Deixai-os, pois, crescer juntos até à 34 Todas essas coisas falou Jesus à mul- 3 O propósito desta parábola é revelar o método por meio do qual Deus está agindo no mundo durante a era (tempo) do Evangelho (das Boas Novas de Cristo). Jesus raramente interpretava suas histórias enigmáticas (parábolas). Isso porque sabia que todas as pessoas que verdadeiramente amavam a Deus entenderiam sua mensagem. Mas, para que nada faltasse aos discípulos, ele explica algumas delas (18-23; 36-43). O joio é uma erva daninha, também chamada de cizânia ou centeio falso, que enquanto está crescendo é muito semelhante ao trigo. Apenas quando as espigas se formam é que é possível fazer uma distinção correta. A farinha de trigo feita com a mistura desse centeio falso é venenosa. A semente de mostarda era a menor semente que os agricultores da Palestina, na época de Cristo, costumavam semear. Em condições favoráveis, essas “plantas” (no original grego lachanôn) podiam alcançar cerca de três metros de altura. Jesus aproveita essa ilustração da árvore para lembrar as Escrituras (Ez 17.23, 31.5; Sl 104.12; Dn 4.12,21). Em Ez 17, por exemplo, a “árvore” é o “Novo Israel”, mas em Ez 41 e Dn 4, a árvore representa os impérios dos gentios: Assíria e Babilônia (região onde hoje se situa o Iraque). Dessa maneira, a parábola antecipa o desenvolvimento da Igreja de Cristo. Entretanto, as aves (v.19), como figura do Maligno, completam o quadro da Igreja visível (na terra) em sua apostasia (tempo de frieza espiritual da Igreja) e revelam aos discípulos que o Reino de Deus, tendo um início tão humilde quanto a menor das sementes, se expandiria até atingir domínio mundial, envolvendo pessoas de todas as nações (Dn 2.35-45; 7.27; Ap 11.15). Nas Escrituras, o fermento quase sempre é um símbolo de algo perverso ou impuro. Nesta parábola, entretanto, significa: crescimento, progresso. A expressão “uma medida” vem do hebraico seah (no original grego: sata) e corresponde a cerca de seis litros. Ou seja, assim como o bom fermento se alastra pela massa, dessa mesma maneira, o Reino de Deus envolve a alma da pessoa que recebe o Espírito Santo, e vai moldando seu caráter à imagem de Cristo (2Co 4.1-15). No v.35, a citação bíblica vem do Sl 78.2-3, sendo que a primeira parte é tirada da Septuaginta (tradução grega do AT) e a segunda parte, do hebraico. Mateus interpreta esse texto como mais uma profecia sobre Jesus Cristo. A palavra “filhos” neste contexto e no original significa: “aqueles que pertencem”. No v.41 há uma alusão ao texto hebraico de Sf 1.3, sendo que a palavra grega anomian, traduzida algumas vezes por “iniqüidade”, e aqui por “mal”, também significa: “ilegalidade”. A expressão “consumação do século” como aparece em algumas versões, aqui traduzida por “final desta era”, como base a tradução dos melhores origi- nais; nos quais, a palavra grega, éon, significa mais propriamente: um período de tempo marcante na história da humanidade, ou seja, uma era. Literalmente: “finalização do éon” ou do período que vai do nascimento de Cristo à sua volta triunfante (Mt 24; 25; Mc 13). A expressão: “fornalha ardente”, mencionada muitas vezes nos textos apocalípticos (Ap 19.20; 20.14), ocorre mais cinco vezes em Mateus (8.12; 13.50; 22.13; 24.51; 25.30) e em nenhuma outra parte do NT. Não compete à Igreja de Jesus Cristo arrogar-se o direito de julgar e condenar pessoas antes do Dia do Juízo (a grande colheita). Essa parábola não se aplica às questões da disciplina comunitária que é tratada em Mt 18; mas, sim, da necessária e inevitável convivência que deve haver entre cristãos e descrentes enquanto estivermos neste mundo, até a segunda vinda do Senhor (1Co 4.5; 2Co 10.4). Não devemos nos preocupar em destruir o joio, mas em levar a todos a Palavra da graça salvadora de Jesus Cristo e assim brilharemos por toda a eternidade (Dn 12.3).MT_B.indd 29 14/8/2007, 14:06
  • 30. MATEUS 13 30 tidão por meio de parábolas e nada lhes A pérola de grande valor dizia sem usar palavras enigmáticas. 45 Da mesma forma, o Reino dos céus é 35 E assim cumpriu-se o que fora dito por como um negociante que procura péro- meio do profeta: “Abrirei em parábolas a las preciosas. minha boca; proclamarei coisas ocultas 46 E, assim que encontrou uma pérola va- desde a fundação do mundo”. liosíssima, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou. Jesus explica a parábola do joio 36 Então, Jesus se despediu da multidão e Os bons e os maus peixes foi para casa. Seus discípulos aproxima- 47 O Reino dos céus é ainda semelhante ram-se dele e pediram: “Explica-nos a a uma rede que, lançada ao mar, recolhe parábola do joio na plantação”. peixes de toda espécie. 37 E Jesus explicou: “Aquele que semeou a 48 E, quando está repleta, os pescadores boa semente é o Filho do homem. a puxam para a praia. Então se assentam 38 O campo é o mundo, e a boa semente e juntam os bons em cestos, mas jogam são os filhos do Reino. O joio representa fora os ruins. os que pertencem ao Maligno. 49 Assim também ocorrerá no final desta 39 O inimigo que semeou o joio é o Diabo. era. Chegarão os anjos e irão separar os A colheita é o final desta era, e os ceifeiros maus dentre os justos. são os anjos. 50 E lançarão os maus na fornalha arden- 40 Da mesma maneira que o joio é colhi- te; e ali haverá grande lamento e ranger do e jogado ao fogo, assim será no fim de dentes”. desta era. 41 O Filho do homem mandará os seus O mestre é um pai de família anjos, e eles ceifarão do seu Reino tudo 51 Então lhes perguntou Jesus: “Enten- o que causa tropeço e todos os que pra- destes todas estas parábolas?” Ao que eles ticam o mal. responderam: “Sim, Senhor”. 42 Eles os lançarão na fornalha ardente e 52 E Jesus lhes disse: “Portanto, todo ali haverá pranto e ranger de dentes. mestre da lei, bem esclarecido quanto ao 43 Então os justos reluzirão como o sol Reino dos céus, é semelhante a um pai no Reino de seu Pai. Aquele que tem ou- de família que sabe tirar do seu tesouro vidos para ouvir, que ouça! coisas novas e coisas velhas”.4 O tesouro escondido O profeta não é honrado pelos seus 44 O Reino dos céus assemelha-se a um 53 Havendo terminado de contar essas tesouro escondido no campo. Certo ho- parábolas, retirou-se Jesus dali. mem, tendo-o encontrado, escondeu-o 54 Chegando à sua cidade, começou novamente. Então, transbordando de ale- a ensinar o povo na sinagoga, de tal gria, vai, vende tudo o que tem, e compra maneira que as pessoas se admiravam, aquele terreno. e exclamavam: “De onde lhe vem tanta 4 Depois que os judeus blasfemaram contra o Espírito Santo (12.24-30) e começaram a tramar seu assassinato (12.14), Jesus passa a revelar aspectos mais profundos sobre o Reino de Deus, apenas aos seus discípulos, preparando-os para continuar sua obra. O termo grego grammateus (escriba), significa “escrivão” ou “letrado”. Poucos sabiam ler e escrever naquela época e lugar. Os escribas eram responsáveis por copiar e arquivar as leis e tradições judaicas, e assim se tornaram mestres, doutores e advogados (Lc 5.21), pois não havia distinção entre a lei de Deus e a dos homens. A sinagoga era a principal instituição religiosa judaica daqueles dias e podia ser estabelecida em qualquer cidade com mais de dez judeus casados. Teve origem no exílio e servia de local onde os judeus podiam estudar as Escrituras e adorar a Deus. Jesus, como também Paulo (At 13.15; 14.1; 17.2; 18.4), aproveitou o costume judaico de convidar mestres visitantes para pregar nas sinagogas locais e lhes anunciou a chegada do Reino de Deus: O Evangelho de Cristo. No original grego, a palavra aqui traduzida por “carpinteiro” é a mesma usada para identificar o trabalho do “pedreiro”. Jesus, como filho mais velho da família, era o principal ajudante do pai nos trabalhos com madeira e alvenaria, ofício que desempenhou para cooperar com o sustento da família, após a morte de José (Mc 6.3; Lc 8.19).MT_B.indd 30 14/8/2007, 14:06
  • 31. 31 MATEUS 13, 14 sabedoria e estes poderes para realizar do aniversário de Herodes, a filha de He- milagres? rodias dançou diante de todos, e muito 55 Ora, não é este o filho do carpinteiro? agradou a Herodes. O nome de sua mãe não é Maria, e o de 7 Por conta disso, ele lhe prometeu, sob seus irmãos: Tiago, José, Simão e Judas? juramento, conceder qualquer pedido 56 Não vivem entre nós todas as suas que ela desejasse fazer. irmãs? Portanto, de onde obteve todos 8 Foi então que ela, influenciada por sua esses poderes?”. mãe, pediu: “Dá-me aqui, num prato, a 57 E ficavam escandalizados por causa cabeça de João Batista”.1 dele. Entretanto, Jesus lhes afirmou: 9 O rei ficou angustiado; contudo, por “Não há profeta sem honra, a não ser em causa do juramento e da presença dos sua própria terra, e em sua própria casa”. convidados, ordenou que lhe fosse dado 58 E Jesus não realizou ali muitos mila- o que ela pedira. gres, por causa da falta de fé daquelas 10 Então mandou decapitar João na prisão. pessoas.5 11 Sua cabeça foi levada num prato e en- tregue à jovem, que a entregou à mãe. João Batista é decapitado 12 Os discípulos de João vieram, levaram 14 Por aquele tempo Herodes, o tetrarca, ouviu os relatos sobre os feitos de Jesus. seu corpo e o sepultaram. E foram contar a Jesus o que havia acontecido. 2 E disse aos seus servos: “Este é João A multiplicação dos pães Batista; ele ressuscitou dos mortos e, 13 Assim que Jesus ouviu essas coisas, re- por isso, nele operam poderes para fazer tirou-se de barco, em particular, para um milagres. lugar deserto. As multidões, entretanto, 3 Porque Herodes tinha mandado pren- ao saberem disso, saíram das cidades e o der João, amarrar suas mãos e jogá-lo seguiram a pé. na prisão. Isso por causa de Herodias, 14 Quando Jesus deixou o barco, viu mulher de Filipe, seu irmão. numerosa multidão; sentiu-se movido 4 Pois João o havia advertido, dizendo: de grande compaixão pelo povo, e curou “Não te é lícito esposá-la”. os seus doentes. 5 Herodes, portanto, queria matá-lo, mas 15 Ao final do dia, os discípulos se apro- temia o povo, pois este o considerava ximaram de Jesus e disseram: “Este é um profeta. lugar deserto, e já está entardecendo. 6 Mas, tendo chegado o dia da celebração Manda embora, pois, as multidões, para 5 Existe uma clara correlação entre a fé e a realização dos milagres de Jesus em Mateus (8.10,13; 9.2,22,28,29). A arrogância dos teólogos e líderes religiosos e a presunção dos que pensavam conhecer a Jesus desde criança, fizeram com que eles perdessem a maravilhosa oportunidade de receber as preciosas revelações e bênçãos do Messias, o Filho de Deus em pessoa: Jesus Cristo. Capítulo 14 1 Herodes Antipas, que reinou de 4 a.C. a 39 a.D., era o tetrarca (em grego tetrarches), ou seja, “aquele que rege uma quarta parte do império”, no caso, a quarta parte da Palestina, mais a Galiléia e a Peréia, que foi herança de seu pai Herodes, o Grande (Mt 2.1,22), quando dividiu seu reino entre quatro de seus muitos filhos. Depois das maravilhosas viagens de Jesus pela Galiléia, muito cresceu sua fama em todas as regiões vizinhas, originando muitas idéias sobre sua pessoa e missão (16.13-14). A consciência pagã, supersticiosa, culpada e amedrontada de Herodes, o fez criar a teoria de que Jesus seria a encarnação do espírito de João Batista que ele mandara decapitar (Mc 6.16). Herodias era ex-esposa do meio irmão de Herodes, Filipe, tio de Herodias. Ela fora persuadida a abandonar o marido para casar-se com Herodes Antipas, cometendo assim, incesto (Lv 18.16; 20.21). João Batista falou francamente com o tetrarca e o chamou ao arrependimento; e Herodes sabia que João era homem de Deus e estava certo em sua denúncia (Mc 6.20). Salomé, filha de Herodias, tinha cerca de 20 anos e dançou de forma lasciva diante de muitas autoridades, agradando a todos, em especial a Herodes. O grande historiador judeu Flávio Josefo, que viveu entre os séculos I e II, conta que Salomé veio a se casar com um tio-avô, também chamado Filipe (filho de Herodes, o Grande), que reinou sobre as terras do norte (Lc 3.1). O prato (v.11), no qual a cabeça de João é apresentada, era uma peça de madeira onde serviam as carnes nas festas. João permanecera por mais de um ano no cativeiro, devido à indecisão de Herodes, que além de permitir a visita dos discípulos de João, também gostava de ouvir o profeta (11.2).MT_B.indd 31 14/8/2007, 14:06
  • 32. MATEUS 14 32 que possam ir aos povoados comprar Jesus anda sobre o mar comida”. 22 Imediatamente após, Jesus insistiu com 16 Jesus, porém, lhes respondeu: “O povo os discípulos para que entrassem no bar- não precisa ir embora; dai-lhes vós mes- co e fossem adiante dele para o outro lado, mos algo para comer”. enquanto Ele despedia as multidões. 17 Ao que eles replicaram: “Tudo o que 23 Assim que mandou o povo embora, temos aqui são cinco pequenos pães e subiu sozinho a um monte para orar. Ao dois peixes!” chegar da noite, lá estava Ele, só. 18 Mas Jesus lhes disse: “Tragam-nos aqui 24 Todavia, o barco já estava longe, no para mim”. meio do mar, sendo fustigado pelas on- 19 E mandou que as multidões se assen- das; pois o vento era contrário. tassem sobre o gramado. Tomou, então, 25 Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter os cinco pães e os dois peixes e, olhando com eles, andando por sobre o mar.3 para o céu, os abençoou. Em seguida, 26 Quando os discípulos o viram andan- tendo partido os pães, deu-os aos discí- do sobre as águas, ficaram aterrorizados pulos, e estes serviram às multidões.2 e exclamaram: “É um fantasma!” E gri- 20 Todos comeram até ficar satisfeitos, tavam de medo. e os discípulos recolheram doze cestas 27 Mas, imediatamente, Jesus lhes disse: cheias de pedaços que sobraram. “Tende bom ânimo! Sou Eu. Não temais!”. 21 Os que se alimentaram foram cerca de 28 Ao que Pedro exclamou: “Senhor! Se cinco mil homens, sem contar as mulhe- és tu, manda-me ir ao teu encontro por res e as crianças. sobre as águas”. 2 Jesus, triste pela morte do grande amigo João, e não querendo ser confundido com o líder militar que muitos esperavam que fosse, busca a solitude, um tempo a sós para orar e refletir. Atravessa o mar da Galiléia, deixando Cafarnaum e os territórios de Herodes Antipas, e segue em direção a Betsaida Júlia. A multidão, entretanto, o vê partir só e caminha cerca de 8 km por uma região deserta até se encontrar com Cristo nos planaltos do território de Felipe. Era alta primavera na Palestina (que começa no meio de fevereiro), os campos estavam cobertos de relva e a Páscoa dos judeus estava próxima (Jo 6.4). Jesus se coloca entre a multidão como o pai no meio de sua família. Esse é o único milagre de Jesus, registrado por todos os evangelistas (Mc 6.30-46; Lc 9.10-17; Jo 6.1-15). Mateus, entretanto, não tem uma preocupação cronológica em relação aos fatos, narra a história no passado (vv. 1,2,13), pois deseja apresentá-la de modo que as pessoas a gravem na memória. De acordo com a tradição judaica, o chefe da família proferia, no início de cada refeição, sobre o pão que ele partia, uma “oração de agradecimento” que era chamada de “bênção” e, por isso, na KJ de 1611, esse termo aparece como blessed (abençoou). Jesus estava revelando ao povo que, assim como o Pai libertou seu povo do Egito e os alimentou no deserto, Ele estava novamente no meio do seu povo para os salvar, curar e alimentar. A palavra grega original kophinous, traduzida no vv.20 como “cestas” refere-se a uma pequena cesta de vime ou folhas de palma, usada para compras domésticas. A “bênção” não acontece por ser costume, mas porque por meio de Jesus, a fórmula é preenchida com um novo conteúdo: a presença do Cristo, que abre o acesso ao Pai (Jo 1.51). O povo e especialmente os discípulos viram que a ação de graças de Jesus produziu milagres, e aprenderam que um método milagroso que traz bênçãos é agradecer pelo pouco que temos, e dividi-lo com o próximo. 3 Jesus “insistiu” para que os discípulos saíssem depressa. A palavra grega usada aqui é enfática e significa “compeliu”, sugerindo uma forte transição. João registra que depois do milagre dos pães e peixes, as multidões pretendiam proclamar Jesus rei dos judeus, à força (Jo 6.15), o que indicava uma compreensão totalmente errada da missão de Cristo; nesse momento os discípulos também haviam sido influenciados por essas idéias e Jesus precisou ser enérgico com eles e enviá-los para o outro lado do mar. O dia judaico, isto é, o intervalo entre a aurora e o crepúsculo, era dividido em três partes: manhã, meio-dia e tarde (Sl 55.17). Os judeus distinguiam duas tardes no dia: a primeira começava por volta das três horas, e a segunda ao pôr-do-sol (Êx 12.6, literalmente: entre as tardes). Portanto, os judeus contavam apenas três vigílias. No v. 13, trata-se da primeira tarde; no v. 23 refere-se à segunda. Mateus faz registro de Jesus orando apenas aqui e no Getsêmani (26.36-46). Para os romanos, entretanto, a noite era dividida em quatro vigílias: 1) das 18 às 21h. 2) das 21h à meia noite. 3) da meia noite às 3h e 4) das 3h às 6h. O estádio (em grego stadion), termo que aparece em algumas versões, equivalia a 1/8 de milha romana, ou cerca de 185 metros. Durante a madrugada, Jesus se aproxima do barco sobre o mar revolto e lhes pede para ter bom ânimo (na KJ de 1611 Be of good cheer!). Literalmente: “tenham coragem”. E, em seguida, revela a razão de se ter ânimo (coragem) e esperança no meio das aflições: Sou Eu, mas que no original vem grafado: Eu Sou (em grego egô eimi), o nome e o caráter de Deus (Êx 3.14). A proximidade do Senhor lança fora todo temor, destrói o mal e enche a alma de paz, alegria e vontade renovada de viver. Por isso, no Reino de Deus, ser é mais importante que ter.MT_B.indd 32 14/8/2007, 14:06
  • 33. 33 MATEUS 14, 15 29 Então Jesus lhe responde: “Vem!” E Pe- Jesus, as tradições e a Lei dro, deixando o barco, andou por sobre (Mc 7.1-23) as águas e foi na direção de Jesus. 30 Todavia, reparando na força do vento, teve medo, e começando a afundar, gri- 15 Então alguns fariseus e escribas, vindos de Jerusalém, foram até Jesus e questionaram: tou: “Senhor! Salva-me!” 2 “Por que os seus discípulos transgridem 31 Jesus estendeu imediatamente a mão, a tradição dos anciãos? Visto que eles segurou-o e lhe disse: “Homem de pe- não lavam as mãos antes de comer!”. quena fé, por que duvidaste?”. 3 Ponderou-lhes Jesus: “E porque trans- 32 Assim que ambos entraram no barco, gredis vós também o mandamento de cessou o vento. Deus, por causa da vossa tradição? 33 Então os que estavam no barco adora- 4 Pois Deus ordenou: ‘Honra a teu pai e a ram-no, exclamando: “Verdadeiramente tua mãe’, e ainda, ‘Quem amaldiçoar seu Tu és o Filho de Deus”.4 pai ou sua mãe seja punido com a morte’. 34 Depois de atravessarem o mar, chega- 5 Contudo, vós dizeis que se alguém disser ram a Genesaré. a seu pai ou a sua mãe: ‘Oferta é ao Senhor a ajuda que de mim devias receber’; Jesus curou a todos que o tocaram 6 esse jamais estará obrigado a honrar 35 Quando os homens daquele lugar re- seu pai ou sua mãe com seus bens. E conheceram Jesus, divulgaram a notícia assim invalidastes a Palavra de Deus, por em toda aquela região e lhe trouxeram causa da vossa tradição.1 todos os enfermos. 7 Hipócritas! Bem profetizou Isaías sobre 36 Suplicavam então a Ele que ao menos vós, denunciando: pudessem tocar na borda do seu manto. 8 ‘Este povo me honra com os lábios, mas E todos os que nele tocaram ficaram seu coração está longe de mim. plenamente sãos. 9 Em vão me adoram; pois ensinam dou- 4 Apenas Mateus registra esse episódio na vida de Pedro. A expressão em aramaico, usada pelos discípulos para concluir tudo o que se passou naquela madrugada no meio do mar da Galiléia, aqui traduzida como Verdadeiramente Tu és o Filho de Deus, significa que aqueles homens haviam reconhecido, sem sombra de dúvida, que Jesus de Nazaré e Deus (Yahweh) são a mesma pessoa. Genesaré, também conhecida como Planície Estreita, ficava do lado ocidental do mar da Galiléia, ao norte de Magdala. Essa planície era um grande jardim na Palestina, fértil e todo irrigado, com cerca 6,5 km de extensão e 3 km de largura. As pessoas receberam a Jesus com grande fé, e muitas maravilhas Ele realizou ali (Mc 5.28; At 19.12). Capítulo 15 1 Os escribas e fariseus chegaram de Jerusalém para reforçar o grupo dos inimigos de Jesus, que já estava se estruturando, como no caso dos fariseus com os herodianos (Mc 3.6). Mais tarde, até os saduceus, tradicionalmente rivais dos fariseus, se juntariam aos perseguidores do Senhor (Mt 16.6). A “tradição dos anciãos” era a interpretação oral e escrita da Lei de Moisés, mas com muitas outras doutrinas e preceitos que foram sendo adicionados com o tempo; e que tinha autoridade quase igual a da própria Lei, entre os fariseus (5.43). Todas essas orientações deram origem, mais tarde (200 a.D.) à Mishná, a parte mais importante do Talmude, que é a fonte da lei judaica. O legalismo e o volume de pequenos preceitos haviam crescido tanto que a simples tradição, por motivos higiênicos, de se lavar as mãos antes das refeições, tornou-se um ritual de purificação para afastar a mínima possibilidade de um judeu ter sido contaminado pela poeira vinda de algum pagão (10.14). A ocupação romana intensificou esse estado de “guerra contra a impureza” mediante o cumprimento de inúmeras doutrinas e obrigações religiosas. A intenção por traz dessas práticas, entretanto, era conseguir o favor de Deus para a expulsão dos pagãos (romanos). Jesus passa a citar os mandamentos (Êx 20.12; Dt 5.16; Êx 21.17; Lv 20.9), mostrando como a tradição dos judeus e muitas interpretações e práticas religiosas estavam em desacordo com a própria Lei e, portanto, se constituíam em maior pecado contra Deus. Por exemplo, se alguém desejava livrar-se da responsabilidade judaica de cuidar dos pais idosos, era só fazer uma declaração falsa de que havia doado seus bens ao templo (em hebraico korban, quer dizer, oferta). Assim, os bens dessa pessoa seriam registrados em nome do templo como uma oferta ao Senhor, até a morte dos pais, quando então se “negociaria” com os escribas, um valor a ser pago para reavê-los. Jesus censura esse tipo de amor às regras, maior do que o amor devido a Deus e às pessoas (Is 29.13). Adverte que a comida que não foi preparada segundo as tradições dos antigos mestres não prejudica o corpo ou traz pecado sobre a alma (At 10.10-15). Jesus usa um vocábulo raro (em grego aphedrôna), que significa: esgoto, privada, latrina. O que profana (em grego koinein), ou seja, torna uma pessoa comum, impura e, portanto, sem direito a participar do culto público ou, sequer, aproximar-se de Deus em oração, é o mal concentrado no íntimo do ser humano e que é expresso por meio das palavras da boca (Tg 3.6-12).MT_B.indd 33 14/8/2007, 14:06
  • 34. MATEUS 15 34 trinas que não passam de regras criadas 22 E eis que uma mulher cananéia, natural por homens’”. daquelas regiões, veio a Ele, clamando: 10 Então, Jesus conclamou a multidão a “Senhor! Filho de Davi, tem compaixão aproximar-se e pregou: “Ouvi e entendei! de mim! Minha filha está horrivelmente 11 Não é o que entra pela boca o que tor- tomada pelo demônio”. na uma pessoa impura, mas o que sai da 23 Ele, porém, não lhe respondeu qual- boca, isto sim, corrompe a pessoa”. quer palavra. Então, os seus discípulos, 12 Então, aproximando-se dele os discí- aproximando-se, pediram-lhe: “Manda pulos, avisaram: “Sabes que os fariseus essa mulher embora, pois vem gritando se ofenderam quando ouviram essas tuas atrás de nós”. palavras?”. 24 Ao que Jesus replicou: “Eu não fui en- 13 Mas Ele respondeu: “Toda planta que viado, senão às ovelhas perdidas da casa meu Pai celestial não plantou será arran- de Israel”.2 cada. 25 Chegou então a mulher e o adorou de 14 Deixai-os! Eles são guias cegos guian- joelhos, suplicando: “Senhor, ajuda-me!” do cegos. Se um cego conduzir outro 26 Ao que Jesus lhe respondeu: “Não é cego, ambos cairão no buraco”. justo tirar o pão dos próprios filhos para 15 Então, pediu-lhe Pedro: “Explica-nos a alimentar os cães de estimação”. outra parábola?”. 27 Ela, porém, replicou: “Sim, Senhor, mas 16 Ao que Jesus replicou: “Também vós até os cães de estimação, comem das miga- não compreendeis até agora? lhas que caem das mesas de seus donos”. 17 Não entendeis ainda que tudo o que 28 Então Jesus exclamou: “Ó mulher, entra pela boca desce para o estômago, e grande é a tua fé! Seja feito a ti conforme mais tarde é lançado no esgoto? queres”. E naquele exato momento sua 18 Entretanto, as coisas que saem da boca filha ficou sã. vêm do coração e são essas que tornam uma pessoa impura. Outra multiplicação de pães 19 Porque do coração é que procedem os (Mc 8.1-10) maus intentos, homicídios, adultérios, 29 Partiu Jesus dali e foi para a orla do imoralidades, roubos, falsos testemu- mar da Galiléia; e, subindo a um monte, nhos, calúnias, blasfêmias. assentou-se ali.3 20 Essas coisas corrompem o indivíduo, 30 Então, multidões dirigiram-se a Ele, mas o comer sem lavar as mãos não o levando consigo mancos, aleijados, cegos, torna impuro”. mudos e muitos outros doentes, e os colo- caram aos pés de Jesus; e Ele os curou. Jesus atende ao clamor dos gentios 31 O povo ficou atônito quando viu os (Mc 7.24-30) mudos falando, os aleijados curados, os 21 Deixando aquele lugar, Jesus retirou- mancos andando e os cegos enxergando. se para a região de Tiro e de Sidom. E louvaram o Deus de Israel. 2 A expressão “cananéia” ocorre muitas vezes no AT, mas no NT, apenas aqui. Tem a ver com os descendentes dos cananeus que Josué expulsou de Canaã, a Terra Prometida, cuja civilização ficou estabelecida na cidade de Tiro. Marcos chamava essa senhora de “grega” (gentia), quer dizer, helênica, por causa de sua origem sírio-fenícia (Mc 7.26). A palavra “cães de estimação” ou “cachorrinhos”, como em algumas versões, vem do grego original kunarion, que significa: pequenos cães de colo. Jesus precisava deixar claro que a prioridade máxima de sua missão era salvar os judeus. Por algum motivo, aquela senhora grega e gentia compreendeu perfeitamente a mensagem de Jesus, e reverentemente, usou a própria metáfora do Senhor para reivindicar seu espaço no coração compassivo de Cristo. A fé daquela mulher humilde mostrou-se maior, mais verdadeira e pura que a fé de- monstrada pelos mestres e líderes religiosos que haviam contestado a santidade (pureza religiosa) de Jesus e seus discípulos. 3 O monte era uma subida para a planície atrás de Cafarnaum, no sentido de quem sobe do mar da Galiléia. Nesse lugar Jesus costumava pregar, ensinar e curar as muitas pessoas que sempre o procuravam; o mesmo local onde pregou o Sermão do Monte (5.1). Ao contrário do que pensam alguns teólogos, esse milagre não é apenas outra versão do mesmo fato ocorrido em 14.15-21. O próprio Jesus destaca claramente os dois acontecimentos (16.9 e10), além do que, essa segunda multiplicação ocorreu emMT_B.indd 34 14/8/2007, 14:06
  • 35. 35 MATEUS 15, 16 32 Chamou Jesus os seus discípulos para não podeis interpretar os sinais dos dizer-lhes: “Tenho compaixão destas mui- tempos? tas pessoas, pois há três dias permanecem 4 Esta geração perversa e infiel pede um comigo e não têm o que comer. Não que- sinal; mas nenhum sinal lhe será conce- ro mandá-las embora em jejum, porque dido, a não ser o sinal de Jonas”. Jesus se podem desfalecer no caminho”. afastou, então, deles e partiu dali. 33 Mas os discípulos lhe disseram: “Onde poderíamos, encontrar, neste lugar deser- O fermento dos religiosos to, pães suficientes para alimentar tantas (Mc 8.14-21) pessoas?” 5 Indo os discípulos para o outro lado do 34 Perguntou-lhes Jesus: “Quantos pães mar, esqueceram-se de levar pães. tendes?” Ao que eles responderam: “Sete, 6 E Jesus lhes falou: “Estejais alerta, e e mais uns pequenos peixes”. acautelai-vos do fermento dos fariseus 35 Ele mandou, então, que o povo se as- e saduceus”. sentasse no chão. 7 Entretanto, eles discutiam entre si, di- 36 Tomou os sete pães e os pequenos pei- zendo: “É porque não trouxemos pães”. xes e deu graças. Em seguida os partiu e 8 Percebendo a desavença, Jesus indagou: os entregou aos discípulos, e estes distri- “Por que discordais entre vós, homens de buíram à multidão. pequena fé, sobre o não terdes pães? 37 Todas as pessoas comeram até se far- 9 Não compreendeis até agora? Nem tarem. E foram recolhidos sete grandes sequer lembrais dos cinco pães para cestos, cheios de pedaços que haviam cinco mil homens e de quantas cestas sobrado. recolhestes? 38 E assim, os que comeram eram quatro 10 Nem dos sete pães para aqueles outros mil homens, sem contar as mulheres e as quatro mil e de quantos cestos recolhestes? crianças. 11 Como não entendeis que não vos fala- 39 A seguir, Jesus se despediu da multi- va a respeito de pães? E, sim: tende, pois, dão, entrou no barco e foi para a região cuidado com o fermento dos fariseus e de Magadã. saduceus”. 12 Compreenderam, então, que não lhes Religiosos pedem um sinal dissera que se guardassem do fermento (Mc 8.11-13) dos pães, mas que se acautelassem da 16 Os fariseus e os saduceus apro- ximaram-se de Jesus e, para o provar, pediram que lhes mostrasse um doutrina dos fariseus e saduceus. Deus revela Jesus Cristo a Pedro sinal vindo do céu. (Mc 8.27-30; Lc 9.18-21) 2 Então Ele lhes ponderou: “Quando 13 Quando Jesus chegou à região de Ce- começa a entardecer, dizeis: ‘Haverá bom saréia de Filipe, consultou seus discípu- tempo, pois o céu está avermelhado’. los: “Quem as pessoas dizem que o Filho 3 Ou, pela manhã, dizeis: ‘Hoje haverá do homem é?”1 tempestade, porque o céu está de um 14 E eles responderam: “Alguns dizem que vermelho nublado’. Sabeis, com certe- é João Batista; outros Elias; e ainda há za, discernir os aspectos do céu, mas quem diga, Jeremias ou um dos profetas”. outro lugar (Decápolis, Mc 7.31), com um número diferente de pães e peixes, uma multidão menor, menos sobras recolhidas, os “cestos” (no original grego spyridas), mencionados aqui eram usados nos mercados da época e maiores do que as alcofas, pequenas “cestas” de vime ou folhas de palma, usadas na primeira multiplicação (14.20). Jesus toma um rumo diferente, após a segunda multiplicação, desta vez segue com seus discípulos para Magadã, também conhecida como Magdala e Dalmanuta (Mc 8.10), a cidade de Maria Madalena, que ficava entre Tiberíades e Cafarnaum. Capítulo 16 1 A cidade de Cesaréia de Filipe ficava ao norte do mar da Galiléia, perto das encostas do monte Hermom. Seu nome antigo eraMT_B.indd 35 14/8/2007, 14:06
  • 36. MATEUS 16 36 15 Então Jesus interpelou: “Mas vós, 19 Eu darei a ti as chaves do Reino dos quem dizeis que Eu sou?”. céus; o que ligares na terra haverá sido li- 16 E, Simão Pedro respondeu: “Tu és o gado nos céus, e o que desligares na terra, Cristo, o Filho do Deus vivo”.2 haverá sido desligado nos céus”.4 17 Ao que Jesus lhe afirmou: “Abençoado 20 E, então, ordenou aos discípulos que a és tu, Simão, filho de Jonas! Pois isso não ninguém dissessem ser Ele o Cristo. foi revelado a ti por carne ou sangue, mas pelo meu Pai que está nos céus. Jesus prediz seu sacrifício 18 Da mesma maneira Eu te digo que tu (Mc 8.31-9.1; Lc 9.22-27) és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a 21 A partir daquele momento Jesus co- minha igreja, e as portas do Hades não meçou a explicar aos seus discípulos que prevalecerão contra ela.3 era necessário que Ele fosse para Jerusa- Panéias (em homenagem ao deus grego Pan). O filho de Herodes, Filipe, reconstruiu essa cidade, como parte de sua tetrarquia, e lhe deu um novo nome, em homenagem a Tibério César e a si mesmo. Essa era, portanto, uma região extremamente pagã. Jesus costumava se intitular de “o Filho do homem”, expressão que aparece mais de 80 vezes no NT, jamais se referindo a qualquer outra pessoa. No AT, em Dn 7.13,14, esse título é usado para retratar a personalidade celestial a quem, no final dos tempos, Deus confiou toda a sua glória, honra e poder (soberania divina). 2 Havia muitas lendas e superstições nessa época e lugar. O próprio Herodes cria na reencarnação de João Batista, que foi um profeta muito estimado pelo povo e até pelo rei. A volta de Elias foi profetizada em Ml 4.5 e muitos judeus ligavam o nome de Jeremias ao profeta prometido em Dt 18.15. Contudo, em meio a tantas idéias e correntes religiosas, Pedro (Bar-Jonas ou, melhor traduzido, filho de Jonas), que falou em nome dos discípulos (v. 20), é agraciado com a maior das revelações que uma pessoa pode receber de Deus: a compreensão de que Jesus de Nazaré (o Jesus histórico) é o Filho Unigênito de Deus, o Cristo prometido (Messias, em hebraico), que significa,Ungido. Palavra que, no original hebraico, transmite a idéia de uma pessoa escolhida por Deus, separada (consagrada, santificada), e revestida de poder para a realização de uma missão divina e específica na terra (Êx 29.7,21; 1Sm 10.1,6; 16.13; 2Sm 1.14,16). No final do AT, essa palavra passou a ter uma conotação particular: referia- se a um rei ideal, ungido e capacitado por Deus para libertar os judeus dos inimigos pagãos e estabelecer um reino de justiça e paz (Dn 9.25,26). Por isso, na época de Cristo, o título Messias tendia a uma compreensão política, nacionalista, revolucionária e militar e isso fez que Jesus evitasse usar o termo em relação à sua pessoa e missão (Mc 8.27-30; 14.61-63). Pedro obteve de Deus a revelação de que Jesus é o Messias prometido desde a antiguidade, o Cristo. Essa é a pedra (o alicerce) sobre a qual a Igreja seria construída e nada poderia deter o seu avanço e o cumprimento da sua missão até o Dia do Senhor. 3 Jesus comemora a bênção da revelação de Deus a Simão (nome comum em Israel, com origem no AT) conferindo-lhe um sobre- nome marcante. Jesus conviveu com várias pessoas com o nome de Simão: um dos filhos de José e Maria, seu irmão (Mt 13.55; Mc 6.3), um amigo leproso, na casa do qual foi ungido (Mt 26.6; Mc 14.3), um homem de Cirene, compelido a ajudá-lo a levar sua cruz e que, mais tarde, tornou-se cristão (Mc 15.21; At 13.1), um fariseu em cuja casa os pés de Jesus foram ungidos (Lc 7.40), Simão Iscariotes, pai de Judas (Jo 6.71; 12.4; 13.2). Na época dos apóstolos, houve um outro Simão, samaritano, ilusionista, feiticeiro e enganador, que misturava elementos de magia com ensinos helenísticos e judaicos. Foi o criador da doutrina gnóstica e alegava ser o principal representante de Deus na terra. Dizia-se convertido ao cristianismo, mas desejou comprar o poder dos apóstolos e recebeu enérgica repreensão de Simão Pedro (At 8.9-24). Em Pedro, temos o exemplo de que Jesus nos concede um novo nome, a marca espiritual da salvação e da bravura cristã. O nome Pedro (em grego Petros) significa “pedra separada” ou “homem-pedra”. Na frase seguinte, Cristo usou a palavra grega petra (“sobre esta rocha”), que significa “leito de rocha resistente” e que não era um nome próprio. Jesus utilizou a arte dos significados das palavras para ampliar o poder do que desejava comunicar aos seus discípulos, e não apenas para aqueles dias. Ele não disse “sobre ti, Pedro” ou “sobre teus sucessores”, mas sim “sobre esta rocha” – sobre esta revelação de Deus e sobre este seu testemunho de fé em Jesus. O uso do tempo futuro do verbo demonstra que a formação da Igreja ainda estava por acontecer. E, de fato, a Igreja – como a conhecemos hoje – teve início no dia de Pentecostes (At 2). Nos Evangelhos a palavra Igreja (em grego ekkesia ou ekklesia; e em latim ecclesia) é usada somente por Mateus, aqui e duas vezes em 18.17. Na Septuaginta (o AT em grego), é usada para identificar a congregação (sinagoga) de Israel. Entre os gregos, nos tempos de Jesus, significava a assembléia dos cidadãos livres e votantes da cidade (At 19.32,39,41). Hades (em grego haidês, e no hebraico Sheol) é a palavra grega que consta nos originais das Escrituras neste texto e significa o lugar onde estão os espíritos dos que morreram. Onde, também, os salvos desfrutam de paz e os descrentes de aflições. Todos, no entanto, aguardam a volta de Jesus, quando os cristãos desfrutarão plenamente das bênçãos da vida eterna e os incrédulos (os que, na terra, rejeitaram a salvação) o Juízo e a pena da segunda morte: o afastamento eterno de Deus (Gn 37.35; Jó 17.16). Assim sendo, “as portas do Hades” significam “os poderes da morte” e todas as forças opostas a Cristo. Algumas versões usam a palavra “inferno” (em grego geena que deriva do hebraico gê’ hinnõm, e significa: lugar de punição para pecadores), como sinônimo de Hades. 4 A partir daquele momento, Jesus estava concedendo a Pedro e aos demais discípulos, poder e autoridade para abrir as portas da cristandade aos judeus, prosélitos e mais tarde a todos os gentios e pagãos em todo o mundo. Pedro usou essas chaves com os judeus no dia de Pentecostes (At 2) e para os gentios na casa de Cornélio (At 10). Deus, e não os apóstolos ou discípulos, é quem inicia o “ligar” e o “desligar” nos céus. Os apóstolos devem proclamar tais fatos (At 5.3,9). Em Jo 20.22-23 Jesus fala deMT_B.indd 36 14/8/2007, 14:06
  • 37. 37 MATEUS 16, 17 lém e sofresse muitas injustiças nas mãos 27 Mas o Filho do homem virá na glória dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e de seu Pai, com os seus anjos, e então dos escribas, para então ser morto e res- recompensará a cada um de acordo com suscitar ao terceiro dia. suas obras. 22 Pedro, porém, chamando-o à parte, 28 Com toda a certeza vos afirmo que começou a admoestá-lo, dizendo: “Deus alguns dos que aqui se encontram não seja gracioso contigo, Senhor! De modo experimentarão a morte até que vejam o algum isso jamais te acontecerá”. Filho do homem vindo em seu Reino”.6 23 E virando-se Jesus repreendeu a Pedro: “Para trás de mim, Satanás! Tu és uma A transfiguração de Jesus pedra de tropeço, uma cilada para mim, pois tua atitude não reflete a Deus, mas, sim, os homens”.5 17 Passados seis dias, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, ir- mão de Tiago, e os levou, em particular, a 24 Então Jesus declarou aos seus dis- um alto monte.1 cípulos: “Se alguém deseja seguir-me, 2 Ali Ele foi transfigurado na presença deles. negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e Sua face resplandeceu como o sol, e suas me acompanhe. vestes tornaram-se brancas como a luz. 25 Porquanto quem quiser salvar a sua 3 De repente, surgiram à sua frente Moi- vida, a perderá, mas quem perder a sua sés e Elias, conversando com Jesus. vida por minha causa, encontrará a 4 Expressando-se Pedro, disse a Jesus: verdadeira vida. “Senhor, é bom estarmos aqui. Se dese- 26 Pois que lucro terá uma pessoa se jares, farei aqui três tendas: uma para ti, ganhar o mundo inteiro, mas perder a uma para Moisés e outra para Elias”. sua alma? Ou, o que poderá dar o ser 5 Enquanto ele ainda estava falando, uma humano em troca da sua alma? nuvem resplandecente os envolveu, e pecados; aqui ele está falando de práticas. Veja um exemplo dessas práticas determinativas em At 15.20. Jesus pede aos discí- pulos sigilo quanto à confissão pública de Pedro. Isso porque uma multidão dos seus seguidores queria proclamá-lo libertador nacional e iniciar logo uma revolução contra Roma. Crescia a inveja dos doutores da lei e líderes religiosos, contra Jesus, e já planejavam sua morte. O Senhor queria completar sua missão, mas o entusiasmo de Pedro e dos apóstolos poderia precipitar os acontecimentos (9.30; 12.16; Mc 1.44; 5.43; 7.36; 8.4; Lc 8.56). 5 O Senhor reconheceu nas palavras de Pedro a influência de Satanás; a mesma artimanha que o Inimigo usou no deserto para tentar persuadi-lo a ter compaixão de si mesmo e trocar o alto custo da sua missão pela glória e os prazeres deste mundo. Jesus usa a palavra aramaica Enganador, não para dizer que Pedro estava endemoninhado, mas para alertar a todos que é muito fácil cairmos na ilusão do Diabo e começarmos a pensar com os valores, conceitos e argumentos do pai da mentira. Jesus recorre à força da linguagem (palavra) e usa a metáfora: “pedra de tropeço”, que no original significa: “rocha de ofensa” ou “motivo de escândalo” (Rm 9.33), para admoestar Pedro quanto à sua recente revelação, nova posição no Reino de Deus e missão. Assim como a palavra hebraica traduzida por “Satanás”, a palavra grega “Diabo” significa “Acusador” ou “Caluniador”. Em Jó, essa expressão (Jo 1.6), no original hebraico, vem sempre acompanhada do artigo definido (o Acusador, o Caluniador, ou ainda, o Enganador), mas com o passar do tempo essa palavra virou o nome próprio do Inimigo (1Cr 21.1 com 2Sm 24.1; 1Sm 16.14 com 2Sm 24.16; 1Co 5.5; 2Co 12.7; Hb 2.14; Ap 2.9). 6 Uma semana depois desses acontecimentos, Pedro, Tiago e João presenciam o cumprimento dessa profecia na experiência da transfiguração de Cristo (17.1-8), que foi também uma antevisão da plenitude do Reino, com o Senhor aparecendo em glória (Dn 7.9-14). A passagem bíblica de 16.13 a 17.8 trata do ministério do discipulado cristão. Os versículos de 13-20 falam da obra do Messias; de 21-23 tratam da expiação; 24-26 advertem para o custo da missão; 27-17.8 dizem respeito à escatologia com suas recompensas. Juntos, esses textos, tratam das verdades fundamentais da teologia bíblica do NT. Capítulo 17 1 Lucas fala em “cerca de oito dias” em seu texto paralelo (Lc 9.28), pois indica os seis dias de intervalo mais o dia em que Jesus falou e o dia em que a transfiguração aconteceu em algum ponto do monte Hermom (com cerca de 3000 metros de altura), a 20 km de Cesaréia de Filipe. Como prometera, Jesus oferece a alguns discípulos (mais íntimos), uma antevisão da exaltação futura do Senhor e do pleno estabelecimento do seu Reino. Jesus foi visto em sua forma glorificada. Moisés comparece representando a antiga aliança e a promessa da salvação (que dentro em breve seria cumprida no sacrifício de Jesus). Elias representa os profetas e o cumprimento da Palavra de Deus. Lucas acrescenta que conversavam a respeito da iminente morte de Cristo (Lc 9.31). Jesus é revelado como a realidade gloriosa à qual a totalidade do AT apresenta como o cumprimento de toda a história da redençãoMT_B.indd 37 14/8/2007, 14:06
  • 38. MATEUS 17 38 dela emanou uma voz dizendo: “Este é o 17 Então Jesus exclamou: “Ó geração sem meu Filho amado em quem me regozijo: fé e perversa! Até quando estarei convos- a Ele atendei!”. co? Até quando vos terei de suportar? 6 Ao ouvirem isso, os discípulos prostra- Trazei-me aqui o menino”. ram-se com o rosto em terra e ficaram 18 E Jesus repreendeu o demônio; este atemorizados. saiu do menino, que daquele momento 7 Então Jesus, aproximando-se deles, em diante ficou são. tocou-osedisse:“Levantai-vos,enãotemais!”. 19 Então os discípulos chegaram-se a 8 Ao erguer os olhos, a ninguém mais Jesus e, em particular, lhe perguntaram: viram, senão somente a Jesus. “Por qual motivo não nos foi possível 9 Enquanto desciam do monte, Jesus lhes expulsá-lo?”. ordenou: “A ninguém conteis a visão que 20 E Ele respondeu: “Por causa da peque- tivestes, até que o Filho do homem res- nez da vossa fé. Pois com toda a certeza suscite dentre os mortos”. vos afirmo que, se tiverdes fé do tama- 10 E os discípulos lhe perguntaram: “En- nho de um grão de mostarda, direis a tão, por que os escribas ensinam que é este monte: ‘Passa daqui para acolá’, e ele preciso que Elias venha primeiro?”. passará. E nada vos será impossível! 11 Ao que Jesus lhes respondeu: “Elias, com 21 Contudo, essa espécie só se expele por certeza, vem e restaurará todas as coisas.2 meio de oração e jejum”. 12 Eu, todavia, vos afirmo: Elias já veio, mas eles não o reconheceram e fizeram Jesus prediz novamente seu martírio com ele tudo quanto desejaram. Da mes- 22 Ao se reunirem na Galiléia, compar- ma forma, o Filho do homem irá sofrer tilhou com eles, dizendo: “O Filho do nas mãos deles”. homem está prestes a ser entregue nas 13 Os discípulos entenderam, então, que mãos dos homens. era a respeito de João Batista que Ele 23 Eles o matarão, mas no terceiro dia havia falado. Ele será ressuscitado”. Então, profunda tristeza abalou os discípulos. A cura do menino possesso 14 Ao chegarem onde se reunia a multi- Jesus paga o imposto secular dão, um homem aproximou-se de Jesus, 24 Quando Jesus e seus discípulos che- ajoelhou-se diante dele e clamou: garam a Cafarnaum, os cobradores do 15 “Senhor, compadece-te do meu filho, imposto de duas dracmas abordaram a pois tem sofrido horrivelmente com ata- Pedro e questionaram: “O vosso mestre ques epiléticos. Muitas vezes cai no fogo, não paga o imposto das duas dracmas, e outras tantas, na água.3 ao templo?”. 16 Apresentei-o aos teus discípulos, mas 25 “Sim, paga”, respondeu Pedro. Mas eles não conseguiram curá-lo”. quando ele entrou em casa, Jesus se humana, desde o dia em que Abraão foi chamado para obedecer a Deus e abandonou tudo o que tinha, para receber a herança prometida (Gn 12.2,3; 15.4,5). Na experiência da transformação de Jesus, Deus Pai intervém na história para consolar o Filho, que já estava a caminho da crucificação (22-23 com 16-21), e também aos discípulos, a fim de darem toda a atenção às palavras de Jesus e continuarem firmes na fé após sua morte e ascensão. Bem mais tarde, Pedro vai citar esse evento em suas pregações, como uma das provas irrefutáveis da divindade de Jesus, o Messias (2Pe 1.16-18). 2 Os mestres da lei (escribas) defendiam, com base em Ml 4.5-6, que Elias deveria reaparecer em Israel para anunciar a vinda do Messias. Contudo, Jesus demonstrou que foi João, o Batista, a pessoa que cumpriu essa missão profética, pois até suas vestes, maneira de viver e personalidade revelavam o caráter de um Elias, e esse era o sentido da profecia. 3 A expressão grega original, em algumas versões traduzida por “lunático”, significa: “epilético”. Evidentemente nem todo ataque epilético tem a ver com possessão demoníaca; mas, neste caso, o menino estava mesmo possuído por um demônio muito poderoso. Todavia, qualquer discípulo que tivesse fé e comunhão com Deus (jejum e oração) poderia expulsá-lo e curar o menino.MT_B.indd 38 14/8/2007, 14:06
  • 39. 39 MATEUS 17, 18 antecipou e perguntou-lhe primeiro: melhor lhe seria amarrar uma pedra “Simão, qual a tua opinião? De quem de moinho no pescoço e se afogar nas cobram os reis da terra impostos e profundezas do mar. tributos? Dos seus filhos ou dos estranhos?”. 7 Ai do mundo, por causa das suas cila- 26 “Dos estranhos”, respondeu Pedro. das! É inevitável que tais ofensas ocor- Ao que Jesus concluiu: “Logo, estão, os ram, mas infeliz da pessoa por meio da filhos, livres dessa obrigação”.4 qual elas acontecem! 27 Entretanto, para que não os escan- 8 Sendo assim, se a tua mão ou o teu pé te dalizemos, vai ao mar, lança o anzol, fizerem cair em pecado, corta-os e lança- e o primeiro peixe que fisgar, tira-o, os fora de ti; pois melhor é entrares na e, abrindo-lhe a boca, acharás um es- vida, mutilado ou aleijado, do que, tendo táter. Retira aquela moeda e entregue a as duas mãos ou os dois pés, seres atirado eles para pagar o meu imposto e o teu no fogo eterno. também. 9 Se um dos teus olhos te faz pecar, ar- ranca-o, e lança-o fora de ti, pois melhor Quem é o maior no Reino? é entrares na vida com um olho só, do (Mc 9.33-37,42-26; Lc 9.46-48) que, tendo os dois, seres lançado no fogo 18 Naquele momento os discípulos aproximaram-se de Jesus e per- guntaram: “Quem é o maior no Reino do inferno. A parábola da ovelha perdida dos céus?”.1 (Lc 15.3-7) 2 E Jesus, chamando uma criança, colo- 10 Tende todo cuidado para que não des- cou-a no meio deles. prezeis a qualquer destes pequeninos; 3 E disse: “Com toda a certeza vos afirmo pois Eu vos asseguro que seus anjos nos que, se não vos converterdes e não vos céus vêem continuamente a face de meu tornardes como crianças, de modo al- Pai celestial.3 gum entrareis no Reino dos céus.2 11 Porque o Filho do homem veio para 4 Portanto, todo aquele que se tornar hu- salvar o que se havia perdido. milde, como esta criança, esse é o maior 12 Que opinião tendes? Se um homem no Reino dos céus. tiver cem ovelhas, e uma delas se desgar- 5 E quem recebe uma destas crianças, em rar, não deixará ele as noventa e nove nos meu nome, a mim me recebe. montes, indo procurar a que se perdeu? 13 E se conseguir encontrá-la, com toda a Jesus adverte sobre as ciladas certeza vos afirmo que maior contenta- 6 Entretanto, se alguém fizer tropeçar um mento sentirá por causa desta do que pelas destes pequeninos que crêem em mim, noventa e nove que não se extraviaram. 4 O imposto das duas dracmas era cobrado anualmente de todos os homens de 20 anos para cima, sendo destinado à manuten- ção do templo. Havia cobradores para outros valores e tipos de impostos (Êx 30.13; 2Cr 24.9; Ne 10.32). Valia meio estáter ou siclo, por pessoa (valor que correspondia a dois dracmas ou dois dias de trabalho braçal). Jesus se antecipa à confusão mental de Pedro, ao demonstrar que os membros da família real ficam isentos de pagar os impostos do Reino. Assim, Jesus, o Filho de Deus (dono do templo) não estaria pessoalmente obrigado a arcar com parte do sustento da casa do seu Pai (Lc 2.49). Como Pedro ainda não tinha entendido a amplitude desse conceito e, além disso, já havia se comprometido com o pagamento, Jesus ilustra para ele, e para nós, mais esse ensino sobre a Sua pessoa, Reino e Missão, além dos nossos deveres civis e religiosos (Rm 13.7). Capítulo 18 1 Este é o último grande discurso de Jesus antes de ir para Jerusalém (Mc 9.33 com 17.25). Estavam todos reunidos na casa de Pedro e Jesus notou que havia se manifestado entre seus discípulos o mal do ciúme, da inveja e da competição por proeminência no ministério. 2 A expressão grega straphete significa “virar”, “mudar completamente” e está relacionada a uma nova vida voltada (consagrada) para Deus e não apenas a adoção de certa religiosidade formal. Ser como as crianças, é admitir um novo começo e dispor-se humildemente a aprender a viver como cidadão do Reino. 3 A referência aos pequeninos pode ser tanto às crianças quanto ao novos (neófitos) na fé cristã. O escândalo e o desprezoMT_B.indd 39 14/8/2007, 14:06
  • 40. MATEUS 18 40 14 Da mesma maneira, vosso Pai, que está dois dentre vós concordarem na terra em nos céus, não deseja que qualquer desses qualquer assunto sobre o qual pedirem, pequeninos se perca.4 isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus. Como tratar o pecado de um irmão 20 Porquanto, onde se reunirem dois ou 15 Se teu irmão pecar contra ti, vai e, em três em meu Nome, ali Eu estarei no meio particular com ele, conversem sobre a deles”.6 falta que cometeu. Se ele te der ouvidos, ganhaste a teu irmão. Quantas vezes se deve perdoar 16 Porém, se ele não te der atenção, leva (Lc 17.3-4) contigo mais uma ou duas pessoas, para 21 Então, Pedro chegou perto de Jesus e que pelo depoimento de duas ou três lhe perguntou: “Senhor, até quantas ve- testemunhas, qualquer acusação seja zes meu irmão pecará contra mim, que confirmada.5 eu tenha de perdoá-lo? Até sete vezes?”. 17 Contudo, se ele se recusar a considerá- 22 E Jesus lhe respondeu: “Não te direi los, dizei-o à igreja; então, se ele se negar até sete vezes; mas, sim, até setenta vezes também a ouvir a igreja, trata-o como sete”.7 pagão ou publicano. 18 Com toda a certeza vos asseguro que A parábola do servo que não perdoou tudo o que ligardes na terra terá sido li- 23 “Portanto, o Reino dos céus pode ser gado no céu, e tudo o que desligardes na comparado a certo rei, que decidiu acer- terra terá sido desligado no céu. tar contas com seus servos. 19 Uma vez mais vos asseguro que, se 24 Quando teve início o acerto, foi trazi- por essas pessoas teriam o efeito de uma cilada (uma armadilha provocada pelo Diabo), afastando-as da verdadeira vida em Cristo. O provocador de escândalos receberá o mais severo julgamento de Deus. Quanto aos anjos, são seres criados por Deus para Sua adoração e serviço. Há várias classes de anjos com diversas especialidades. Aqui, Jesus se refere aos anjos guardiões, destacados pelo Senhor para cuidar das crianças e do povo de Deus em geral (Sl 34.7; 91.11; At 12.15; Hb 1.14). 4 A história da ovelha perdida também se acha em Lc 15.3-7. Ali é aplicada aos incrédulos, mas aqui aos cristãos. O v.14 não exclui a possibilidade da perdição, mas ressalta que a vontade de Deus é que todos sejam salvos. A pessoa que vai para o inferno, desde já recusa a salvação e aceita – direta ou indiretamente – a condição de perdido, não porque Deus queira (25.41;1Tm 2.4). Jesus usou a mesma parábola para ensinar verdades diferentes em situações específicas. 5 Jesus orienta seus discípulos quanto aos passos que devem ser observados para resolver os problemas de relacionamento interpessoal, pecados evidentes, e casos de excomunhão da igreja (congregação local): 1) Como primeiro passo (muitas vezes ignorado), o crente que se sente vítima de alguma ofensa ou que descobre um pecado em seu irmão de fé, deve convidá-lo para uma conversa a sós (ninguém mais deve saber desse assunto) e tentar estabelecer um diálogo honesto, sincero e cordial com o ofensor, a fim de “ganhar o seu irmão”; ou seja, que haja acertos e reparações (se necessário) para que os dois obtenham paz e alegria, e sigam servindo ao Senhor, dando bom exemplo ao mundo. 2) No caso da recusa ou indiferença do ofensor, a pessoa ofendida deve convidar um ou mais irmãos maduros na fé, que chamarão o ofensor para uma conversa em grupo, onde se buscará o Conselho de Deus, as reparações necessárias e a celebração da paz em Cristo (Gl 6.1-5). Jesus cita o texto de Dt 19.15, da Septuaginta (o AT em grego), incorporando esse justo e sábio princípio da lei mosaica para benefício da Igreja Cristã. 3) No caso de total indiferença ou falta de arrependimento por parte do ofensor, os líderes espirituais da igreja devem ser informados pelo grupo que tentou trazer o irmão faltoso ao bom senso e à perfeita comunhão em Cristo. Os líderes devem fazer o possível para “não perder” o irmão faltoso. No caso de claro desrespeito à Palavra de Deus e à liderança da igreja, então esse pecador obstinado deve ser afastado da comunhão cristã, ao menos até que recobre a sensatez, reconheça suas faltas e se disponha sinceramente a viver de acordo com os princípios da Palavra de Deus (1Co 5.4-5; 1Tm 1.20). 6 Essas são promessas dirigidas a todos os discípulos de Cristo (cristãos totalmente consagrados ao Senhor), pois saberão agir com sabedoria celestial. O v.19 é uma das grandes promessas do Evangelho, em relação à oração. Entretanto, é preciso observar a conexão desse versículo com o seu contexto imediato e o conteúdo do capítulo. Ou seja, a promessa é dada aos discípulos reunidos, tendo Jesus Cristo em seu meio (v. 20), com o objetivo de restaurar um irmão que esteja vivendo no erro (pe- cado – v. 17). Jesus confirma a autoridade dos discípulos para o exercício dessa função (v. 18 e 16.19), e a promessa é cumprida porque agem da parte do Pai, em nome do Filho (v. 20). O verdadeiro entendimento e unidade entre os seres humanos é algo raro, mesmo entre os cristãos. Deus só exige um acordo entre as pessoas: que Jesus Cristo, seu Filho, seja a grande paixão da humanidade e o ponto comum e central da fé. Jesus é o fator básico da unidade (Jo 17.19-21). É possível discordar e viver em comunhão, respeito e cooperação no Reino. 7 Os rabis e mestres judaicos ordenavam perdoar até três vezes. Pedro sugeriu um salto espiritual: sete vezes! O númeroMT_B.indd 40 14/8/2007, 14:06
  • 41. 41 MATEUS 18, 19 do à sua presença um que lhe devia dez padecer-te do teu conservo, assim como mil talentos.8 eu me compadeci de ti?’ 25 Porém, não tendo o devedor como 34 E, sentindo-se insultado, o rei entre- saldar tal importância, ordenou o seu se- gou aquele servo impiedoso aos carras- nhor que fosse vendido ele, sua mulher, cos, até que lhe pagasse toda a dívida. seus filhos e tudo quanto possuía, para 35 Assim também o meu Pai celestial vos que a dívida fosse paga. fará, a cada um, se de todo o coração não 26 O servo, então, com toda a reverência, perdoardes cada um a seu irmão”. prostrou-se diante do rei e lhe implorou: ‘Sê paciente comigo e tudo te pagarei!’ Casamento e Divórcio 27 E o senhor daquele servo, teve compai- (Mc 10.1-12) xão dele, perdoou-lhe a dívida e o deixou ir embora livre. 28 Entretanto, saindo aquele servo, en- 19 E aconteceu que, concluindo Jesus essas palavras, partiu da Galiléia e dirigiu-se para a região da Judéia, no ou- controu um dos seus conservos, que lhe tro lado do Jordão. estava devendo cem denários. Agarrou-o 2 Grandes multidões o seguiam e a todos e começou a sufocá-lo, esbravejando: curava ali.1 ‘Paga-me o que me deves!’ 3 Alguns fariseus também chegaram até 29 Então, o seu conservo, caindo-lhe aos Ele e, para prová-lo, questionaram-lhe: pés, lhe suplicava: ‘Sê paciente comigo e “É lícito o marido se divorciar da sua tudo te pagarei’. esposa por qualquer motivo?”.2 30 Mas, ele não queria acordo. Ao con- 4 E Jesus lhes explicou: “Não tendes lido trário, foi e mandou lançar seu conservo que, no princípio, o Criador ‘os fez ho- devedor na prisão, até que toda a dívida mem e mulher’, fosse saldada. 5 e os instruiu: ‘Por este motivo, o homem 31 Quando os demais conservos, compa- deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, nheiros dele, viram o que havia ocorrido, e os dois se tornarão uma só carne’? ficaram indignados, e foram contar ao 6 Sendo assim, eles já não são dois, mas rei tudo o que acontecera. sim uma só carne. E, portanto, o que Deus 32 Então o rei, chamando aquele servo lhe uniu, não o separe o ser humano”.3 disse: ‘Servo perverso, perdoei-te de toda 7 Replicaram-lhe: “Então por qual razão aquela dívida atendendo às tuas súplicas. mandou Moisés dar uma certidão de 33 Não devias tu, da mesma maneira, com- divórcio à mulher e abandoná-la?”. perfeito, completo. Mas, Jesus lhe respondeu com uma expressão matemática e filosófica que tende ao infinito. Ou seja: sempre! O cristão, por sua fé no Senhor, deve perdoar todas as vezes que o ofensor arrependido lhe pedir perdão. Só assim será possível ao crente compartilhar do amor, misericórdia e generosidade de Deus. 8 Jesus ilustra por que devemos perdoar sem limites. O perdão que Deus nos concedeu, ao nos abençoar com o dom da salva- ção, é tão grandioso, que qualquer ofensa que outro ser humano venha a praticar contra nós torna-se irrisória, embora possa nos fazer sofrer por algum tempo. Perdoar sempre dará mais espaço à plenitude divina em nossa alma. O “talento” era uma medida de peso, usada para pesar ouro e prata, equivalente, a cerca de 35 quilos. Cada talento valia cerca de 6.000 denários. O “denário” era uma moeda de prata que equivalia a um dia de trabalho braçal. Deus, finalmente, julgará a todos conforme seu amor longânimo e justiça severa; e espera de nós o mesmo senso de misericórdia (Tg 2.13). Capítulo 19 1 Jesus entrou na região da Peréia, em direção a Jerusalém, onde hoje se situa a Jordânia. Na época fazia parte das terras (tetrar- quia) de Herodes Antipas, ficava a leste do rio Jordão, estendendo-se do mar da Galiléia até próximo ao mar Morto (Lc 13.22). 2 Mateus escreveu com o propósito de evangelizar os judeus, por isso, usa a expressão “Reino dos céus” significando “Reino de Deus”, respeitando o cuidado extremo que os judeus tinham ao pronunciar o nome de Deus. Assim também, Mateus adiciona a frase “por qualquer motivo” a esse versículo, que não consta do texto paralelo escrito por Marcos (Mc 10.2). Isso, para esclarecer ao leitor quanto ao ensino de duas escolas rabínicas: Hillel, que permitia ao marido repudiar (rejeitar, mandar embora, abandonar, divorciar), sua esposa por qualquer motivo que o desgostasse, até mesmo pelo sabor ou preparo de uma refeição. E a escola Shammai, a qual pregava que o único motivo suficiente para um homem divorciar-se de sua esposa era a infidelidade conjugal comprovada. 3 Mais uma vez os doutores da Lei procuram desmoralizar Jesus, pois o assunto estava dividido, há muitos anos, entre duasMT_B.indd 41 14/8/2007, 14:07
  • 42. MATEUS 19 42 8 Ao que Jesus declarou: “Moisés, por cau- capaz de aceitar esse conceito, que o sa da dureza dos vossos corações, vos con- receba”.5 cedeu separar-se de vossas mulheres. Mas não tem sido assim desde o princípio”. Jesus abençoa as crianças 9 Eu, porém, vos afirmo: “Todo aquele (Mc 10.13-16; Lc 18.15-17) que se divorciar da sua esposa, a não 13 Então, trouxeram-lhe algumas crian- ser por imoralidade sexual, e se casar ças, para que lhes impusesse as mãos e com outra mulher, estará cometendo orasse por elas. Os discípulos, contudo, adultério”.4 os repreendiam. 10 Então os discípulos consideraram: “Se 14 Mas Jesus lhes ordenou: “Deixai vir a estes são os termos para o marido e sua mim as crianças, não as impeçais, pois o esposa, não é vantagem casar!”. Reino dos céus pertence aos que se tor- 11 Mas Jesus ponderou-lhes: “Nem todos nam semelhantes a elas”. conseguem aceitar essa palavra; somente 15 E, depois de ter-lhes imposto as mãos, aqueles a quem tal capacidade é dada. partiu dali.6 12 Pois há alguns eunucos que nasceram assim do ventre de suas mães; outros Dificilmente os ricos serão salvos foram privados de seus órgãos reprodu- (Mc 10.17-31; Lc 18.18-30) tores pelos homens; e há outros ainda 16 Eis que alguém chegou perto de Jesus que a si mesmos se fizeram celibatários, e consultou-o: “Mestre, que poderei fazer por causa do Reino dos céus. Quem for de bom para ganhar a vida eterna?”.7 grandes e respeitadas correntes de pensamento. Mas Jesus apela, novamente, para o espírito da Lei e não apenas para a letra. Jesus leva sua audiência para o princípio da criação e para o pensamento originário de Deus – O Criador – e cita a Septuaginta (AT em grego), defendendo assim a doutrina da inspiração das Escrituras (Gn 1.27; 2.23-24). Portanto, o propósito divino na criação é de que marido e esposa se unam de forma a se tornarem a mesma carne, sendo os corpos (o sangue) o meio para a unidade indissolúvel do parentesco e comunhão, fazendo, assim, do casamento, a mais profunda forma de unidade física e espiritual. Esse conceito vital deve ser ensinado às pessoas na época do namoro. Elas precisam aprender a namorar (se conhecer bem) segundo a vontade de Deus. Isso evitaria muitos problemas no casamento. 4 A intenção dos fariseus não era compreender a verdade, mas achar um pretexto para destruir Jesus. Eles recorrem, assim, à lei de Moisés (Dt 24.1). Mas Jesus demonstra que certas concessões, na história, não foram feitas por serem o plano original de Deus para a humanidade, mas em atenção aos pedidos insistentes da sociedade; da alma dos homens, dos seus corações arrogantes, vaidosos e egoístas. Características que acompanharam o ser humano após a sua Queda e que se relacionam com a influência do Diabo na terra (Gn 3.8-13; 22-24). 5 A palavra “eunuco” (em hebraico sãrïs) é derivada de um termo assírio que significa “aquele que é cabeça” ou “o braço direito”. No NT, o vocábulo grego eunouchos, é uma derivação de eunen echõ, que pode significar “conservar o leito” ou “manter a padrão”. Nos escritos de Heródoto aprendemos que nos países orientais os eunucos eram contratados especialmente para tomar conta dos haréns dos monarcas, sendo, entretanto, reputados como dignos de confiança em todos os sentidos. Em todos os casos, a palavra refere-se a pessoas da mais alta confiança do rei e pode ser usada no sentido de: “oficial da corte” ou “castrado”. Em At 8.27 ambos os sentidos estão em foco. Aqui, porém, a expressão original é clara e refere-se ao homem castrado. O judaísmo conhecia apenas duas categorias de eunucos: Os “feitos pelo homem” (em hebraico sãrïs ’ãdhãm), e aqueles que nasceram congenitamente incapazes ou sem libido (instinto e desejos sexuais) chamados de “natural” ou “eunuco do sol” (em hebraico sãrïs hammâ). Jesus usou uma metáfora para mostrar o radicalismo do amor: na união com Deus e com o próximo, na aliança do matrimônio e no ministério cristão. Jesus surpreende seus inquiridores com uma terceira classe de eunucos: os celibatários, aqueles que, de forma livre e espontânea, sacrificaram seus desejos naturais e legítimos por amor ao Senhor e para melhor e maior dedicação ao Reino de Deus. Em nenhum momento Jesus defendeu o asceticismo (doutrina dos primeiros séculos que exigia dos líderes cristãos a total abstinência sexual e punia severamente os pensamentos impuros). Jesus e Paulo (dois celibatários) deixam claro que não é necessário que um homem ou uma mulher se privem do casamento para serem bons obreiros ou líderes espirituais da Igreja de Cristo, isso é dom de Deus; e, portanto, é graça e não maldição. Pessoas com esse dom devem ser orientadas a dedicar-se exclusivamente ao Senhor e à Igreja; caso contrário, Satanás poderá se aproveitar disso e tentar recrutá-las para servir ao reino do mal (1Co 7.7,8,26,32-35). Orígenes, um dos pais da Igreja do século II, interpretando erradamente essa palavra de Jesus, entendendo-a de forma literal, mutilou a si mesmo. 6 Era costume dos judeus levar as crianças para serem abençoadas por um rabino que fosse mestre comprovado da Lei. Ao ouvirem o ensino de Jesus, as pessoas não tiveram dúvidas em enviar seus filhos para receberem a dádiva real (Gn 27). Entretan- to, Jesus aproveitou o evento para pregar sobre a chegada e a disponibilidade do Reino de Deus para todos que o recebessem com a humildade, sinceridade, fé e alegria das crianças (Mt 6.9; Rm 8.14). 7 Os judeus, no tempo de Cristo, criam que a realização de um grande e único ato digno podia garantir-lhes um lugarMT_B.indd 42 14/8/2007, 14:07
  • 43. 43 MATEUS 19 17 Questionou-o Jesus: “Por que me per- que um rico entrar no Reino dos céus”.9 guntas a respeito do que é bom? Há so- 25 Ouvindo isso, os discípulos ficaram mente um que é bom. Se queres entrar na atônitos e exclamaram: “Sendo assim, vida eterna, obedeça aos mandamentos”. quem pode ser salvo?”. 18 Ao que ele perguntou: “Quais?”. E 26 Mas Jesus, fixando o olhar neles, re- Jesus lhe respondeu: “Não matarás, não velou-lhes: “Isso é impossível aos seres adulterarás, não furtarás, não darás falso humanos, mas para Deus todas as coisas testemunho, são possíveis”. 19 honra a teu pai e a tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. As recompensas no Reino 20 Replicou-lhe o jovem: “A tudo isso 27 Então Pedro manifestou-se dizendo: tenho obedecido. O que ainda me falta?”. “Veja! Nós deixamos tudo e te seguimos; 21 Jesus disse a ele: “Se queres ser perfeito, o que será, pois, de nós?”. vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos 28 Jesus lhes respondeu: “Com toda a pobres, e terás um tesouro no céu. De- certeza vos afirmo que vós, os que me pois, vem e segue-me”. seguistes, quando ocorrer a regeneração 22 Ao ouvir essa palavra, o jovem afas- de todas as coisas, e o Filho do homem se tou-se pesaroso, pois era dono de muitas assentar no trono da sua glória, também riquezas.8 vos assentareis em doze tronos, para jul- 23 Então disse Jesus aos seus discípulos: gar as doze tribos de Israel.10 “Com toda a certeza vos afirmo que 29 Também todos aqueles que tiverem dificilmente um rico entrará no Reino deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, dos céus. filhos ou terras, por causa do meu Nome, 24 E lhes digo mais: É mais fácil passar receberão cem vezes mais e herdarão a um camelo pelo fundo de uma agulha do vida eterna. privilegiado no céu. Outros acreditavam que a completa e restrita observância da Lei os levaria ao Reino de Deus. Lucas revela que esse jovem ocupava posição de grande prestígio (Lc 18.18). Marcos salienta que, ao aproximar-se de Jesus, correu e ajoelhou-se (Mc 10.17). O jovem possuía tudo o que alguém pode desejar, mas lhe faltava a certeza da vida eterna. Entretanto, ele não pensou na incompatibilidade que existe entre o mundanismo e o Reino de Deus (6.33). A riqueza gera soberba e arrogância, provocando rejeição à simplicidade e humildade que existe na fé em Cristo. Após a Queda, o ser humano perdeu a capacidade de ser bom e fazer o bem (continuamente). Por isso, Deus fez da Salvação um presente (dádiva), não podemos adquiri-lo, só nos é possível aceitá-lo (Ef 2.8). 8 Jesus mostra que o jovem em questão (assim como algumas pessoas) imaginava obedecer a todos os mandamentos da Lei: ele não matava, não roubava e não era um mau filho. Acontece que a própria Escritura garante que ninguém é capaz de cumprir a Lei e, por isso, precisamos desesperadamente da Graça do Senhor. O rapaz tinha tudo, e queria também ser perfeito (em grego teleios, aperfeiçoado, tendo alcançado a meta). Jesus, contudo, ao relacionar os mandamentos (Êx 20.12-16; Dt 5.16-20; Lv 19.18) omitiu “não cobiçarás”. Esse era, pois, justamente, o grande obstáculo para que o rapaz recebesse, de graça, a tão almejada vida eterna. Jesus não está ensinando que todo cristão deva ser pobre, muito menos que todo pobre vai para o céu. Ele estava provando o coração daquele homem para revelar a ele (e a nós) a necessidade de arrependimento e conversão dos pecados que, muitas vezes, pensamos que não temos. 9 Jesus recorre a outra metáfora: o maior animal na Palestina em contraste com a menor passagem conhecida pelo povo na época: o buraco de uma agulha. A expressão também se refere, curiosamente, a uma pequena entrada, situada ao lado da porta principal da cidade de Jerusalém, por onde (por motivos de segurança) um camelo não podia passar carregado e, mesmo assim, somente conseguia atravessá-la de joelhos (Mc 10.25). A salvação não é possível pelo esforço humano. É um ato sobrenatural de Deus, que busca corações humanos onde receba amor incondicional e tenha prioridade absoluta. Ele acrescentará todas as demais coisas necessárias (6.33-34). O amor ao dinheiro e às riquezas pode escravizar uma pessoa, exacerbando seu egoísmo e desviando-a do Reino (1Tm 6.9-10). Jesus faz ainda uma alusão ao AT e reafirma que para Deus nada é impossível (Gn 18.14; Jó 42.2; Zc 8.6-7). 10 A expressão grega palingenesia, aqui traduzida por “regeneração” refere-se ao mundo renovado do futuro (o novo céu e a nova terra de Ap 21.1). As doze tribos, com as dez tribos do norte (Israel), perdidas séculos antes de Cristo (pela mistura com po- vos gentios), serão restauradas para o julgamento (25.31; At 3.20-21; Ap 7.4-8). O outro único uso da palavra “regeneração” tem a ver com a renovação espiritual das pessoas (Tt 3.5). Jesus ensina que o Reino de Deus não é uma competição, como em quase tudo nas sociedades humanas. Jesus tranqüiliza Pedro e promete que todos os que tomarem parte em sua batalha, comparti-MT_B.indd 43 14/8/2007, 14:07
  • 44. MATEUS 19, 20 44 30 Entretanto, muitos primeiros serão os trabalhadores e paga-lhes o salário, últimos, e muitos últimos serão primei- começando pelos últimos contratados e ros”. terminando nos primeiros’.4 9 Chegaram os que haviam sido contra- A parábola dos pagamentos tados em torno das cinco horas da tarde, 20 “Portanto, o Reino dos céus é se- melhante a um proprietário que saiu ao raiar do dia para contratar traba- e cada um deles recebeu um denário. 10 Quando vieram os que haviam sido contratados primeiro, deduziram que lhadores para a sua vinha.1 receberiam mais; contudo, também estes 2 Depois de combinar com cada traba- receberam um denário cada um. lhador o pagamento de um denário pelo 11 No entanto, assim que o receberam, dia, os enviou ao campo das videiras.2 começaram a se queixar do proprietário 3 Por volta das nove horas da manhã, ao da vinha, sair, viu na praça do mercado, outros que 12 dizendo-lhe: ‘Estes últimos homens estavam parados, sem ocupação.3 trabalharam apenas uma hora; apesar 4 Então lhes disse: ‘Ide vós também tra- disso o senhor os igualou a nós que su- balhar na vinha, e Eu vos pagarei o que portamos o peso do trabalho e o calor for justo’. E eles foram. do dia’. 5 Tendo saído outras vezes, próximo do 13 Mas o dono da vinha, explicando, meio dia e das três horas da tarde, agiu falou a um deles: ‘Amigo, não estou da mesma maneira. sendo injusto contigo. Não combina- 6 Ao sair novamente, agora em torno das mos que te pagaria um denário pelo dia cinco horas da tarde, encontrou outros trabalhado? que estavam sem trabalho, e indagou 14 Sendo assim, toma o que é teu, e vai-te; deles: ‘Por qual motivo estivestes aqui pois é meu desejo dar a este último tanto desocupados o dia todo?’ quanto dei a ti. 7 E lhe informaram: ‘Porque não houve 15 Porventura não me é permitido fazer o alguém que nos contratasse’. Então lhes que quero do que é meu? Ou manifestas falou: ‘Ide igualmente vós para o campo tua inveja porque eu sou generoso?’5 das videiras’. 16 Portanto, os últimos serão primeiros, e 8 Ao pôr-do-sol, o senhor da vinha or- os primeiros serão últimos. Pois muitos denou ao seu administrador: ‘Chama serão chamados, mas poucos escolhidos”.6 lharão igualmente das bênçãos de sua vitória completa e eterna. Entretanto, em 20.1-16, Ele adverte os seus seguidores sobre o perigo de julgar o assunto das recompensas divinas por um padrão meramente político, econômico e financeiro (terreno). Capítulo 20 1 A declaração de Jesus feita em 10.30, é explicada por meio desta história e repetida em 20.16, enfatizando a soberana gene- rosidade de Deus Pai. Essa parábola foi registrada apenas em Mateus. 2 O denário ou dinheiro (em latim denarius) era uma moeda romana, de prata. Tinha o mesmo valor de um dracma (em grego drachma), ou meio shekel judaico. Correspondia a um dia de trabalho de um soldado romano na época de Jesus. Um escrivão de documentos altamente qualificado, na Palestina daquele tempo, ganhava dois denários por dia. 3 A contagem das horas começava às 6h da manhã. Portanto, a terceira hora correspondia às 9h da manhã e assim por diante. Nos originais gregos, assim como na tradução KJ de 1611 constam as expressões: “da hora terceira; sexta; nona e da décima primeira hora”. Entretanto, o Comitê Internacional de Tradução da Bíblia King James decidiu, para melhor compreensão dessa parábola, pelo uso do atual sistema de divisão do dia natural em 24 horas. Tempo que a Terra leva para fazer uma rotação completa sobre si mesma. 4 A Lei de Moisés garantia aos trabalhadores pobres (que ganhavam salário mínimo, ou um denário por dia) que fossem pagos por seus contratadores até o fim do dia ou até que o brilho das primeiras estrelas pudesse ser observado no céu (Lv 19.13; Dt 24.14,15). 5 A parte final deste versículo no original grego é: “...ou o olho teu mau é porque eu bom sou?” Essa expressão está relacionada ao suposto poder de amaldiçoar que existe nos olhos de uma pessoa que inveja (não apenas do invejoso compulsivo). Desde o AT (1Sm 18.6-16), havia uma associação entre o olhar perverso e a inveja (daí a expressão popular: mau-olhado). 6 Esta parábola está repleta de ensino e sabedoria. Não é possível um comentário extenso aqui, mas é importante dizer que Jesus usou uma história bem conhecida dos judeus para esclarecer um pouco mais sobre como é a vida no Reino de Deus.MT_B.indd 44 14/8/2007, 14:07
  • 45. 45 MATEUS 20 Outra vez Jesus prediz seu sacrifício 21 “O que desejas?” - perguntou Jesus. Ela (Mc 10.32-34; Lc 18.31-34) respondeu: “Ordena que no teu Reino 17 Jesus estava, então, pronto para subir a estes meus dois filhos se assentem um à Jerusalém, quando chamou à parte seus tua direita, e o outro à tua esquerda”. doze discípulos e lhes falou: 22 “Não sabeis o que pedis!”, contestou- 18 “Agora estamos subindo para Jerusa- lhes Jesus. “Podeis vós beber o cálice que lém, e o Filho do homem será entregue Eu estou prestes a beber e ser batizados aos chefes dos sacerdotes e aos escribas. com o batismo com o qual estou sendo Eles o condenarão à morte. batizado?”. E eles afirmaram: “Podemos!”. 19 E o entregarão aos gentios para ser 23 Então Jesus lhes declarou: “Certamen- zombado, torturado e crucificado; mas te bebereis do meu cálice; mas quanto ao ao terceiro dia Ele será ressuscitado!”.7 assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não cabe a mim outorgá-lo. É preciso sabedoria para pedir Esses lugares pertencem àqueles a quem (Mc 10.35-45) foram reservados por meu Pai”.9 20 Naquele momento, aproximou-se de 24 Ao ouvirem isso, os outros dez ficaram Jesus a esposa de Zebedeu, com seus filhos injuriados contra os dois irmãos. e, prostrando-se, fez um pedido a Ele.8 25 Então Jesus os chamou e explicou: Desde o AT, muitos mestres e rabinos usavam parábolas para comunicar seus ensinos. Acontece que essa história, em várias versões, era contada para realçar a doutrina das recompensas divinas, e seguia a mesma linha moral da conhecida fábula de La Fontaine: “A Cigarra e a Formiga”. A história rabínica, em síntese, era assim: “Um rei recrutou muitos trabalhadores, mas um deles trabalhou muitos dias para o reino. No dia do pagamento, o rei pagou pouco aos que tinham trabalhado pouco e recompensou regiamente ao que fora fiel o tempo todo”. Ou seja: muito trabalho, muita recompensa; nenhum trabalho, punição ou nenhuma recompensa. Jesus, porém, dá um desfecho novo, inusitado e ameaçador ao recontar essa parábola tradicional. Jesus declarou que Deus dá recompensas aos seus filhos (Mt 5.12,46; 6.1; 5.16; 10.41). Mas, da mesma maneira inequívoca, ensinou que todos os que servem a Deus com a principal intenção de com isso “merecer” bênçãos e favores, perderão a verdadeira felicidade, aqui e na eternidade. Quem realiza boas obras contando com as recompensas, vai se aborrecer com a misericórdia e a bondade de Deus. É por isso que os judeus, especialmente os que mais se esforçavam (escribas e fariseus), começaram a odiar a Jesus. Eles tinham um lema na época: “A Torá (a Lei) foi dada a Israel para mostrar como adquirir méritos”. É até compreensível que eles se irritassem com o novo ensino e com a generosidade de Deus; e que muitos deles, como na parábola, de “primeiros” se tornaram “últimos”, ou como o irmão mais velho, que na história do “filho pródigo” irou-se e excluiu-se da alegria de reaver o irmão perdido (Lc 15.11-32). Jesus ensina também, através dessa parábola, que os judeus, os primeiros a receber a gloriosa chamada divina, não serão os primeiros a receber o galardão final (recompensa, prêmio), pois a Salvação não vem da herança racial, nem do legalismo religioso, mas da generosidade e graça divinas. Assim também, a Salvação é a maior gratificação que um ser humano pode receber em toda a sua vida e vale por toda a eternidade. Portanto, não existem “salvos de segunda classe”. Uma vez salvo; salvo de primeira classe e para sempre. Deus é soberano e, absolutamente tudo depende dele. O ser humano não pode fazer nada para salvar-se, a não ser aceitar humildemente a vontade do Senhor e andar segundo a Palavra. Entretanto, a graça de Deus pode transformar qualquer fariseu em um dos “primeiros” (novamente), como aconteceu com Saulo de Tarso, nosso irmão Paulo (At 9.1-31). A frase: “Pois, muitos serão chamados, mas poucos escolhidos”, não consta de alguns manuscritos gregos, embora faça referência às palavras de Jesus em 19.23-26 e refíra-se a parte de todas as revisões da KJ desde 1611 até hoje. 7 Esta é a última viagem de Jesus a Jerusalém. Teve início na cidade de Efraim (Jo 11.54), passando pela Galiléia (Lc 17.11), seguindo mais para o sul, chegando a Jericó, passando pela Peréia (Lc 18.35), por Betânia (Lc 19.29), até chegar a Jerusalém (Lc 19.41). Jesus desejou muito celebrar sua última Páscoa com seus discípulos; uma multidão de peregrinos os acompanhava. Jesus seria o Cordeiro Pascal da humanidade; mas nem seus discípulos mais chegados conseguiam entender por que o Messias haveria de ser humilhado e morto se as profecias apontavam para um grande libertador, maior que Moisés. Nesta terceira predição sobre o seu sacrifício, Jesus acrescenta que Ele não seria executado pelos judeus, que o apedrejariam, mas pelos gentios (romanos). Todos esses detalhes proféticos só fariam sentido na mente dos discípulos após a morte e ressurreição de Jesus (28.6). 8 Marcos nos revela que esses filhos de Zebedeu e Salomé (irmã de Maria, mãe de Jesus) eram os primos do Senhor: Tiago e João. O pedido foi feito numa reunião com Jesus, solicitada pela mãe dos dois apóstolos (27.56; Mc 10.35; 15.40; Jo 19.25). Tanto o pedido como a indignação dos outros discípulos revela que todas aquelas pessoas aguardavam para breve o estabelecimento do poderoso reino do Messias na terra, apesar da clara profecia sobre a Paixão do Senhor. 9 Jesus usa uma metáfora bastante conhecida dos judeus, especialmente no AT (Sl 75.8; Is 51.17-23; Jr 25.15-28; 49.12; 51.7), quase sempre associada ao juízo e à ira de Deus contra o pecado. A expressão hebraica: beber o cálice significava compartilhar do destino de alguém. Assim, o cálice refere-se ao castigo divino que Jesus teria de receber em lugar de cada ser humano. O batismo é outra figura de linguagem que, assim como o cálice, explica o sentido do sofrimento e morte do Senhor (Lc 12.50; Rm 6.3,4). Jesus demonstra mais uma vez sua absoluta divindade ao revelar que conhecia o destino dos discípulos, mas que não podia usurpar aMT_B.indd 45 14/8/2007, 14:07
  • 46. MATEUS 20, 21 46 “Sabeis que os governadores dos po- perguntou: “O que quereis que Eu vos vos os dominam e que são as pessoas faça?”.11 importantes que exercem poder sobre 33 “Senhor! Que se abram os nossos as nações. olhos”, responderam eles. 26 Não será assim entre vós. Ao contrário, 34 Jesus sentiu compaixão e tocou nos quem desejar ser importante entre vós olhos deles. No mesmo instante os cegos será esse o que deva servir aos demais. recuperaram a visão e o seguiram. 27 E quem quiser ser o primeiro entre vós que se torne vosso escravo. Jesus é aclamado pelas multidões 28 Assim como o Filho do homem, que (Mc 11.1-11; Lc 19.28-40; Jo 12.12-19) não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como único resgate por muitos”.10 21 Ao se aproximarem de Jerusalém, chegaram a Betfagé, no monte das Oliveiras. Então, Jesus enviou dois discípulos,1 Os cegos recuperam a visão 2 e recomendou-lhes: “Ide ao povoado (Mc 10.46-52; Lc 18.35-43) que está adiante de vós e logo encon- 29 Ao saírem de Jericó, uma grande mul- trareis uma jumenta amarrada, com seu tidão acompanhava Jesus. burrico ao lado. Desamarrai-os e trazei- 30 De repente, dois cegos, que estavam os para mim.2 assentados à beira do caminho, tendo 3 Se alguém vos questionar algo, deveis ouvido que Jesus passava, puseram-se a dizer que o Senhor necessita deles e gritar: “Senhor! Filho de Davi, tem mise- sem demora os devolverá”. ricórdia de nós”. 4 No entanto, isso ocorreu para que se 31 Entretanto, a multidão os repreendeu cumprisse o que fora dito por meio do para que se calassem, mas eles clamavam profeta: ainda mais: “Senhor! Filho de Davi! Tem 5 “Dizei à filha de Sião: ‘Eis que o teu rei misericórdia de nós!”. chega a ti, humilde e montado num bur- 32 Jesus, parando, chamou-os e lhes rico, um potro, cria de jumenta’”. autoridade do Pai. Assim, Tiago foi o primeiro dos apóstolos a ser martirizado (At 12.2). A última parte da pergunta de Jesus não consta de alguns originais gregos, mas é clara em Mc 10.38 e consta de todas as revisões textuais da KJ desde 1611. 10 Não é aconselhável rejeitar a ajuda e o serviço dos nossos companheiros, mas “ser servidos” não deve ser a nossa ambição. Devemos seguir o exemplo de Jesus que, sendo Deus, entregou “a sua vida” ou “a sua alma” (em grego ten psychen autou) para pagar toda a punição imposta à humanidade pela quebra da ordem (Lei) de Deus no Éden: a morte eterna. Todo pecado demanda indenização, expiação e pagamento. A Lei de Deus jamais ordenou sacrifícios humanos; mas, em relação ao pecado original, era necessário que um ser humano sem pecado fosse imolado. Jesus se ofereceu para pagar nosso “resgate” (em grego lytron), palavra derivada do verbo grego luo que significa “libertar” e usada na época ao se tratar da alforria de escravos. Jesus usou outra forte me- táfora para comparar seu sacrifício ao ato de pagar o preço pedido pela venda de um escravo muito caro, comprado, todavia, para ganhar a liberdade. Por isso, os cristãos estão livres, de uma vez por todas, do poder e da escravidão do pecado (do erro) e da pena da morte eterna. Essa frase de Cristo é uma das poucas ocasiões em que a doutrina da redenção vicária é citada nos Evangelhos sinóticos (1Tm 2.6). A salvação é oferecida de graça a todos, mas apenas os “muitos” a recebem em seus corações (1Jo 1.12-14). 11 Mateus cita dois cegos, enquanto os demais sinóticos destacam apenas um (Mc 10.46-52; Lc 18.35-43). Realmente eram dois cegos, ocorre que Bartimeu, devido à sua personalidade, ganhou proeminência. A cura ocorreu durante a saída da Velha Jericó para a Nova Jericó. Capítulo 21 1 Betfagé, em hebraico significa “Casa dos Figos” (Lc 19.29). Segundo o Talmude, era uma pequena vila situada a cerca de um quilômetro a leste de Jerusalém, na encosta sul do monte das Oliveiras. Aqui tem início a última semana da vida humana de Jesus Cristo. 2 Jesus decide entrar em Jerusalém, desta vez, montado em um jumentinho (Jo 12.15). E isso, sob as homenagens das multi- dões, para demonstrar claramente que Ele era o Messias prometido há séculos (Zc 9.9). O Filho de Davi, escolhido para ocupar seu trono (1Rs 1.33,44). Os potros ou burricos (crias de jumenta), antes de serem submetidos a qualquer trabalho secular, eram especialmente considerados para trabalhos religiosos (Nm 19.2; Dt 21.3; Sm 6.7), e simbolizavam humildade, paz, e a majestade de Davi. Mateus revela o cuidado de Jesus em não apartar o jumentinho de sua mãe e levar ambos consigo para sua procissão triunfal como Rei de Israel.MT_B.indd 46 14/8/2007, 14:07
  • 47. 47 MATEUS 21 6 Então os discípulos foram e fizeram o 13 E repreendeu-os: “Está escrito: ‘A mi- que Jesus lhes havia mandado.3 nha casa será chamada casa de oração’; 7 Trouxeram-lhe a jumenta com o vós, ao contrário, estais fazendo dela um jumentinho, os selaram com mantas ‘covil de salteadores’”.5 para cavalgar, e sobre as mantas Jesus 14 Então levaram a Jesus, no templo, ce- montou. gos e aleijados, e Ele os curou. 8 Então, uma grande multidão estendia 15 Entretanto, quando os chefes dos suas capas pelo caminho, muitos outros sacerdotes e os escribas viram as mara- cortavam ramos de árvores e os espalha- vilhas realizadas por Jesus, e as crianças vam pela estrada. exclamando no templo: “Hosana ao Fi- 9 E as multidões, tanto as que iam adi- lho de Davi!”, revoltaram-se e indagaram ante dele, quanto as que o seguiam, pro- dele: clamavam: “Hosana ao Filho de Davi! 16 “Não ouves o que estas crianças estão ‘Bendito seja Ele que vem em o Nome do proclamando?”. Ao que Jesus lhes res- Senhor!’ Hosana nas alturas!”4 pondeu: “Sim. E vós, nunca lestes: ‘Dos 10 Assim que Jesus entrou em Jerusalém, lábios das crianças e dos recém-nascidos toda a cidade ficou alvoroçada, e comen- suscitaste louvor’”. tavam: “Quem é este?” 17 E, deixando-os, saiu da cidade em di- 11 Então as multidões exclamavam: “Este reção a Betânia, onde passou a noite.6 éoprofetaJesus,vindodeNazarédaGaliléia!”. A figueira que não deu fruto O templo é casa de oração! (Mc 11.12-14; 20-25) (Mc 11.15-19; Lc 19.45-48) 18 Ao amanhecer, quando retornava para 12Tendo Jesus entrado no pátio do tem- a cidade, Jesus teve fome. plo, expulsou todos os que ali estavam 19 Avistando uma figueira à beira da comprando e vendendo; também tom- estrada, aproximou-se dela, porém nada bou as mesas dos cambistas e as cadeiras encontrou, a não ser folhas. Então decre- dos comerciantes de pombas. tou-lhe: “Nunca mais se produza fruto 3 O próprio Jesus usa a expressão: “Senhor” (Senhor de Israel) como seu título divino (16.18). Mateus usou as profecias regis- tradas na Septuaginta (AT em grego), em Is 62.11 e Zc 9.9 para mostrar que a maioria do povo havia compreendido que Jesus era mesmo o Rei-Messias prometido. 4 Hosana é uma expressão grega (hõsanna), que significa “Salva-nos!” e vem do hebraico transliterado (hôshi´â nã´), que quer dizer: “Salva, Senhor, por misericórdia!” Mateus revela que expressões de júbilo emanavam da multidão, e não que fosse uma frase só a ser repetida indefinidamente. Essa aclamação do povo é baseada em 2Sm 14.4, Sl 118.25-27 e Sl 148.1-2, cantada na Festa dos Tabernáculos e, em Mateus, aplicada a Jesus. Como um ato de homenagem régia, o povo pavimentou, com seus próprios mantos (capas), o caminho por onde passou o Senhor. Com o passar do tempo, a palavra “hosana” tornou-se uma exclamação de louvor e alegria espiritual. 5 O termo grego original (to hieron), que significa “o templo”, indica toda a área sobre o monte Moriá, ocupada pelos diversos re- cintos e a corte do templo. No domingo, após a entrada triunfal, Jesus continua sua obra de purificação da Casa do Senhor, iniciada três anos antes (Jo 2.14). Uma atitude para demonstrar o quanto os judeus haviam ofendido ao Senhor, permitindo que seus cora- ções fossem corrompidos pela ganância, dominados pelo pecado, e faltos de amor sincero para com Deus e com seu próximo. Isso ocorre infelizmente ainda hoje em alguns templos cristãos, e entre seus membros. Jesus citou as Sagradas Escrituras, usando, da versão Septuaginta (AT em grego), os textos de Is 56.7 com Jr 7.11. As ofertas, taxas e compras de animais para sacrifícios no templo só podiam ser pagas com moeda hebraica (siclo hebreu), pois as demais moedas eram cunhadas com a imagem de divindades pagãs ou do imperador, considerado pelos romanos e outros gentios como um deus. Entretanto, esse serviço de troca de moedas (câmbio), compra e venda de animais, e produtos para os sacrifícios, deveria ser realizado com dignidade, no “grande átrio exterior dos gentios”, um espaço reservado para essas atividades com mais de 50.000 m2. Todavia, os cambistas estavam explorando os romeiros que vinham de muito longe e com dinheiro gentio para ofertar e sacrificar no templo. Além disso, a venda dos animais cul- tualmente aceitáveis transformara-se apenas em lucrativo comércio, tanto que a área antes reservada já não comportava os estandes de vendas e haviam invadido até o recinto sagrado. Vários sacerdotes lideravam a corrupção institucionalizada no templo, posto que ao receberem os animais para holocausto, em vez de efetuarem o ritual do sacrifício, matavam apenas alguns deles, e repassavam todos os demais para comerciantes fraudulentos, que os revendiam sucessivas vezes. 6 Os líderes dos sacerdotes e os doutores da lei viram os milagres de Cristo e temeram por suas vidas e negócios. Tentaram enredar o Senhor num sofisma, ao alegar que um mestre tão zeloso como Jesus, não deveria deixar que crianças o adorassemMT_B.indd 47 14/8/2007, 14:07
  • 48. MATEUS 21 48 em ti!”. E, no mesmo instante, a figueira nos indagará: ‘Sendo assim, por que não ficou completamente seca. acreditastes nele?’ 20 E quando viram o que ocorrera, muito 26 Porém, se alegarmos: humano, teme- se admiraram os discípulos e exclamaram: mos o povo, pois todos consideram João “Como foi possível esta figueira secar tão como profeta”. depressa?”. 27 Por isso disseram a Jesus: “Não sa- 21 Então Jesus explicou-lhes: “Com bemos!”. Ao que Jesus afirmou-lhes: certeza vos asseguro que, se tiverdes fé “Nem Eu vos direi com que autoridade e não duvidardes, podereis fazer não procedo.9 apenas o que foi feito à figueira, mas da mesma forma ordenardes a este monte: A parábola do pai e dois filhos ‘Ergue-te daqui e lança-te no mar’, e 28 Agora, qual a vossa opinião? Um ho- assim acontecerá. mem tinha dois filhos. Aproximando-se 22 E tudo o que pedirdes em oração, se do primeiro, pediu: ‘Filho, vai trabalhar crerdes, recebereis”.7 hoje na vinha’. 29 Mas este filho lhe disse: ‘Não quero ir’ . Líderes religiosos duvidam de Jesus Todavia, mais tarde, arrependido, foi. (Mc 11.27-33; Lc 20.1-8) 30 Então chegou o pai até o segundo filho 23 Tendo Jesus chegado ao templo, en- e fez o mesmo pedido. Então este lhe res- quanto ensinava, acercaram-se dele os pondeu: ‘Sim, senhor!’ Mas não foi. chefes dos sacerdotes e os anciãos do 31 Qual dos dois fez a vontade do pai?”. povo e o questionaram: “Com que auto- Ao que eles responderam: “O primeiro”. ridade fazes estas coisas aqui? E quem te Então Jesus lhes revelou: “Com toda a deu essa autorização?”.8 certeza vos afirmo que os publicanos e 24 Jesus, porém, replicou-lhes: “Eu igual- as prostitutas estão ingressando antes de mente vos lançarei uma questão. Se me vós no Reino de Deus. responderdes, também Eu vos direi com 32 Porquanto João veio para vos mos- que autoridade faço o que faço. trar o caminho da justiça, mas vós não 25 De onde era o batismo de João? Divino acreditastes nele; em compensação, os ou humano?”. E eles discutiam entre si, cobradores de impostos e as meretrizes avaliando: “Se respondermos: divino, Ele creram.Vós, entretanto, mesmo depois como se fosse Deus. Entretanto, Jesus citou novamente as Escrituras e revelou que mais uma profecia acerca dele se cumpria naquele momento (Sl 8.2). Jesus foi, então, para a casa dos seus queridos amigos Lázaro e suas irmãs, Marta e Maria, que ficava em Betânia, uma aldeia no declive oriental do monte das Oliveiras, uns dois quilômetros a leste de Jerusalém. 7 Mateus condensava suas narrativas, em contraste com o texto dos demais autores sinóticos (Marcos e Lucas). Marcos situa a maldição da figueira na manhã de segunda-feira, mas na terça-feira pela manhã foi que os discípulos, passando por ela outra vez, a observam completamente aniquilada (Mc 11.12-14, 20-25). Mateus, mais tarde, ao escrever seu Evangelho (testemunho ocular da vida, mensagem e sinais de Jesus), segundo a inspiração do Espírito Santo, enfatiza o caráter imediato do Juízo de Deus. Diversas podem ser as inferências teológicas acerca dessa passagem, especialmente em relação a Israel (Os 9.10; Na 3.12). Con- tudo, a única aplicação que o próprio Senhor Jesus faz, tem a ver com a eficácia da oração que não duvida do poder de Deus. 8 Aqui começa a terça-feira da chamada “Semana Santa”. O Sinédrio (supremo juiz da corte de Israel) decide apelar para o legalismo e pede credenciais autorizadas a Jesus por estar realizando um ato oficial no templo. Eles já haviam usado essa estratégia com João Batista (Jo 1.19-25) e, em outra ocasião, com o próprio Jesus (Jo 2.18-22). Os líderes religiosos sentiam em Jesus uma forte ameaça à sua posição, privilégios e lucros financeiros ilícitos. Por isso, procuravam apresentá-lo como um revolucionário, fora da lei, e inimigo de Roma. 9 Grandes oradores e conhecedores do poder da palavra, os líderes religiosos procuram comprometer a Jesus por meio de um questionamento ardiloso. Jesus é levado a declarar publicamente que era o Messias (como o povo aclamava). Assim poderiam prendê-lo e entregá-lo aos romanos. A outra opção seria negar sua autoridade divina, passando então a ser totalmente desacre- ditado pela multidão que o acompanhava. Jesus apelou para o testemunho de João Batista acerca dele e lhes propôs também uma questão (Jo 1.32-34).MT_B.indd 48 14/8/2007, 14:07
  • 49. 49 MATEUS 21 de presenciardes a tudo isso, não vos arre- para fora da plantação de videiras e o pendestes para acreditardes nele.10 assassinaram.12 40 Sendo assim, quando vier o dono da A parábola dos vinicultores maus vinha, o que fará com aqueles lavradores?”. (Mc 12.1-12; Lc 20.9-19) 41 Diante disso, responderam-lhe: “Ele 33 E mais, atentai a esta parábola: Havia destruirá esses perversos de forma ter- um certo proprietário de terras, que rível e arrendará seu campo de videiras plantou um campo de videiras. Ergueu para outros cultivadores que lhe enviem uma cerca ao redor delas, construiu um a sua parte no devido tempo das colhei- tanque para prensar as uvas e edificou tas”.13 uma torre. Finalmente, arrendou essa 42 Então Jesus lhes inquiriu: “Nunca vinha para alguns vinicultores e foi lestes isto nas Escrituras? ‘A pedra que viajar.11 os construtores rejeitaram, tornou-se 34 Chegando a época da safra, enviou a pedra angular; e isso procede do seus servos até aqueles lavradores, para Senhor, sendo portanto, maravilhoso receber os seus dividendos. para nós’. 35 Porém os lavradores atacaram seus 43 Por isso, Eu vos declaro que o Reino servos; a um espancaram, a outro mata- de Deus será retirado de vós para ser ram, e apedrejaram o terceiro. entregue a um povo que produza frutos 36 Então lhes mandou outros servos, em dignos do Reino. maior número do que da primeira vez, 44 Todo aquele que cair sobre esta pedra mas os lavradores os trataram da mesma se arrebentará em pedaços; e aquele sobre maneira. quem ela cair ficará reduzido a pó!”.14 37 Por fim, decidiu enviar-lhes seu pró- 45 Depois que os chefes dos sacerdotes e prio filho, considerando: ‘Eles respeita- os fariseus ouviram as parábolas que Je- rão o meu filho’. sus lhes havia contado, compreenderam 38 Contudo, assim que os lavradores que era sobre eles próprios que Jesus viram o filho, tramaram entre si: ‘Este estava falando. é o herdeiro! Então vamos, nos unamos 46 E por causa disso procuravam um para matá-lo e apoderemo-nos da sua motivo para prendê-lo; mas tinham herança’. receio das multidões, porquanto elas o 39 E assim, eles o agarraram, jogaram-no consideravam profeta. 10 As versões de Almeida invertem a posição dos versículos 29 e 30. Entretanto, a Bíblia King James e a NVI seguem a mesma ordem original. Jesus resolve o debate com os sacerdotes, propondo duas histórias (as respostas parabólicas de Jesus). A autoridade maior vem da obediência amorosa e sincera a Deus; não de uma liderança autoritária, maquiavélica e despótica, que depende apenas de títulos e diplomas e, ainda mais, corrompida pela falta de dignidade. Como podem os eleitos para cuidar da Casa do Senhor (autoridades eclesiásticas), rejeitar o dono da Casa e o Evangelho do Reino? 11 Segundo a tradição rabínica, uma “torre” deveria ser construída na vinha, para abrigar o responsável pelo campo, que vigiava a plantação, especialmente quando chegava o tempo da colheita e as uvas ficavam maduras. Era, normalmente, uma plataforma elevada feita de madeira, com cerca de 5m de altura por 2m de lado. 12 Assim como seria um absurdo que os agricultores de um campo arrendado pudessem herdar essa terra ao assassinar seu dono, maior loucura foi os líderes espirituais e teólogos da época imaginarem que a incriminação e a crucificação de Jesus Cristo, o Filho de Deus, lhes garantiria a herança e o domínio de Israel. 13 Ao se escandalizarem com o erro dos outros, sem atentarem para seus pecados, e julgarem severamente os lavradores da parábola de Jesus, os sacerdotes estavam decretando sua própria punição: os judeus que não aceitassem a verdadeira men- sagem de Deus em Cristo ficariam sem a herança espiritual. No ano 70 d.C. o Templo e toda a cidade de Jerusalém sofreram a mais arrasadora destruição até hoje registrada em sua história. Uma vez que o Evangelho foi rejeitado pelos judeus, Deus dirige sua graça salvadora aos gentios, salva e convoca Paulo para ser seu apóstolo (em grego apostellõ, enviado por Deus com uma missão específica). Já no segundo século da era cristã, a Igreja era composta, quase que totalmente, por não judeus (gentios). 14 Jesus é o alicerce seguro, a pedra fundamental, para todos aqueles que confessam o seu nome e edificam suas vidas nele, passando assim a fazer parte do grande edifício de Cristo, como pedras vivas (16.18; 1Pe 2.4-5). Entretanto, para os que rejeitam o Senhor, recusando-se a crer em Jesus, o Cristo (o Messias prometido), Ele se torna em pedra de tropeço e de condenaçãoMT_B.indd 49 14/8/2007, 14:07
  • 50. MATEUS 21, 22 50 A parábola do banquete nupcial encontrar, gente boa e pessoas más, e a (Lc 14.15-24) sala do banquete das bodas ficou repleta 22 Jesus continuou a pregar-lhes por meio de parábolas, dizendo: 2 “O Reino dos céus é semelhante a um de convidados. 11 Entretanto, quando o rei entrou para saudar os convidados que estavam à rei que mandou realizar um banquete mesa, percebeu que um homem não nupcial para seu filho.1 trajava as vestes nupciais. 3 E, por isso, enviou seus servos a concla- 12 E indagou-lhe: ‘Amigo, como aden- mar os convidados para as bodas do fi- traste este recinto sem as suas vestes lho; mas estes rejeitaram o chamamento. próprias para as bodas?’ Mas o homem 4 Uma vez mais, mandou outros servos, não teve resposta. com esta ordem: ‘Dizei aos que foram 13 Então, ordenou o rei aos seus servos: convidados que lhes preparei meu ban- ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai- quete; os meus bois e meus novilhos o para fora, às trevas; ali haverá grande gordos foram abatidos, e tudo está pre- lamento e ranger de dentes’.4 parado. Vinde todos os convidados para 14 Portanto, muitos são chamados, mas as bodas do meu filho!’2 poucos, escolhidos!”. 5 Mas os convidados nem deram atenção ao chamado dos servos e se afastaram: Dai a César o que é de César um para o seu campo, outro para os seus (Mc 12.13-17; Lc 20.20-26) negócios. 15 E, assim, se afastaram os fariseus, tra- 6 E outros ainda, atacando os servos, mando entre si como fariam para enre- maltrataram-nos e os assassinaram. dar a Jesus em suas próprias afirmações. 7 O rei indignou-se sobremaneira e, en- 16 Então, mandaram-lhe seus seguidores viando seu exército, aniquilou aqueles juntamente com alguns herodianos, que criminosos e incendiou-lhes a cidade.3 lhe questionaram: “Mestre, sabemos que 8 Então, disse o rei a seus servos: ‘O ban- és íntegro e que ensinas o caminho de quete de casamento está posto, contudo Deus, de acordo com a verdade, sem te os meus convidados não eram dignos. deixares induzir por quem quer que seja, 9 Ide, pois, às esquinas das ruas e convi- pois não te seduzes pela aparência das dai para as bodas todas as pessoas que pessoas. encontrardes. 17 Sendo assim, dize-nos: que te pareces? 10 E, assim, os servos saíram pelas estra- É correto pagar impostos a César ou não?”.5 das e reuniram todos quantos puderam 18 Contudo, Jesus percebeu a má inten- eterna (Is 8.14-15; Lc 20.17; Rm 9.32; 1Pe 2.6-8). Assim como um vaso de barro se despedaça ao ser arremessado contra uma rocha, ou é esmagado ao ser atingido por uma enorme pedra, da mesma forma virá a destruição sobre todos aqueles que rejei- tarem o senhorio de Cristo (Is 8.14; Dn 2.34,35,44; Lc 2.34). É importante notar que, mais tarde, o apóstolo Pedro fez questão de salientar que Jesus era a sua Pedra, Rocha Principal, seu Sustentador, e que cada indivíduo deve aceitar a Pedra (Jesus), para ser salvo e ganhar a vida eterna (At 4.8-12). Capítulo 22 1 Jesus apresenta o Reino dos céus em outras parábolas, veja no capítulo 13. 2 A proclamação do Evangelho é o doce e insistente convite do Rei do Universo a todo ser humano, para tomar parte em seu maravilhoso banquete de núpcias. Ainda assim, muitas pessoas estão de tal forma iludidas com suas exigências presentes e materiais que se recusam a dar atenção à generosidade divina. 3 Todos aqueles que se apresentam como inimigos declarados do Evangelho, assim como os falsos cristãos, serão destruídos. Da mesma forma como a cidade de Jerusalém foi completamente arrasada e queimada pelos romanos, no ano 70 d.C. 4 Era costume, naquela época e região, o anfitrião fornecer roupas adequadas ao casamento, para os convidados que não pudessem comprá-las. Como esse grupo de pessoas veio diretamente das ruas, todos ganharam suas roupas cerimoniais. Entretanto, um daqueles novos convidados, rejeitou também a hospitalidade e a generosidade do rei. A veste nupcial simboliza a justificação com a qual Cristo veste todas as pessoas que aceitam o dom gratuito da Salvação (Rm 13.14; Ap 19.8). 5 Os fariseus, como nacionalistas radicais, eram contra o domínio romano. Os herodianos, entretanto, como a própria denomi- nação revela, apoiavam o império romano de Herodes. Mas, diante de uma ameaça maior, fariseus e herodianos se unem numa cilada dialética contra Jesus. Os maus se juntam no ataque ao Sumo Bem. Se a resposta de Jesus fosse “Não”, os herodianosMT_B.indd 50 14/8/2007, 14:07
  • 51. 51 MATEUS 22 ção deles e replicou-lhes: “Por que me 27 Finalmente, após a morte de todos, a tentais, hipócritas? mulher também faleceu. 19 Deixai-me ver a moeda com a qual se 28 Sendo assim, na ressurreição, de qual pagais os tributos”. E eles lhe mostraram dos sete ela será esposa, considerando um denário. que todos foram casados com ela?” 20 Então lhes indagou: “De quem é esta 29 Então Jesus lhes esclareceu: “Vós estais figura e esta inscrição?”. equivocados por não conhecerdes as Es- 21 Responderam-lhe: “De César!”. Então, crituras nem o poder de Deus! lhes afirmou: “Portanto, dai a César o que 30 Na ressurreição, as pessoas não se ca- é de César, e a Deus o que é de Deus!”. sam nem são dadas em matrimônio; são, 22 Ao ouvirem tal resposta, ficaram per- todavia, como os anjos do céu. plexos e, afastando-se dele, se retiraram.6 31 E, com relação à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou: Os saduceus e a ressurreição 32 ‘Eu Sou o Deus de Abraão, o Deus de (Mc 12.18-27; Lc 20.27-40) Isaque e o Deus de Jacó’? Por isso, Ele 23 Naquele mesmo dia, os saduceus, que não é Deus de mortos, mas sim, dos que pregam a inexistência da ressurreição, vivem!”.8 aproximaram-se de Jesus com uma 33 Ao ouvir tudo isso, as multidões fica- questão:7 ram estupefatas com o ensino de Jesus. 24 “Mestre, Moisés ensinou que se um homem morrer sem deixar filhos, seu O maior dos mandamentos irmão deverá casar-se com a viúva e dar- (Mc 12.28-34) lhe descendência. 34 Assim que os fariseus ouviram que 25 Entre nós havia sete irmãos. O primei- Jesus havia deixado os saduceus sem pa- ro casou-se e morreu. Como não teve lavras, reuniram-se em conselho. filhos, deixou a mulher para seu irmão. 35 E um deles, juiz perito na Lei, formulou 26 Da mesma maneira ocorreu com o uma questão para submeter Jesus à prova: segundo, com o terceiro, até chegar ao 36 “Mestre, qual é o maior mandamento sétimo. da Lei?”9 o delatariam ao governador romano, que teria o direito de executá-lo por traição. Se respondesse “Sim”, então os fariseus o denunciariam diante do povo judeu, por deslealdade a Israel e ao judaísmo. 6 O dinheiro usado no império romano para pagar os impostos chamava-se “denário”. Uma moeda romana, cujo valor corres- pondia a um dia de trabalho braçal, criada no governo de Tibério, e que trazia, em um dos lados, o retrato do imperador, e do outro, a inscrição em latim: “Tibério César Augusto, filho do divino Augusto”. Jesus explana sua tese de forma magistral e deixa todos atônitos diante de sua devoção ao Pai, sabedoria, simplicidade e coerência. Foi Deus quem deu a César poder e autoridade (Rm 13.1-7). Todos os governos deste mundo, em todas as épocas, vivem de tributos recolhidos do povo. Entretanto, o governo espiritual tem sua moeda própria e eterna: fé, amor, bondade, compaixão, misericórdia (Lc 20.20-25; Gl 5.22-26). O Reino de Deus não é deste mundo. Seu modus vivendi (estilo de vida) é espiritual e visa o benefício de todos os seres e não a exploração do ho- mem pelo homem. Jesus reconheceu a distinção entre responsabilidades políticas e espirituais. Ao governo devemos impostos e obediência, política justa. No tributo às autoridades cívicas, apenas retribuímos parte daquilo que oferecem. Para Deus, devemos nossa adoração, louvor, gratidão, obediência, serviço e a dedicação de todo o nosso ser. 7 Os “saduceus” formavam um partido aristocrático que dominava a vida política dos judeus, inclusive a posição do sumo sa- cerdote. Não acreditavam na ressurreição, nem na existência dos anjos e, muito menos, na imortalidade da alma. Para eles, a vida era apenas um “aqui e agora” e nada mais. Esse era um dos aspectos que mais lhes causava divergências com os fariseus. 8 Os saduceus apresentaram uma questão fechada para Jesus. Eles aceitavam apenas os primeiros cinco livros da Bíblia como autoridade divina, e há séculos estudavam o assunto sobre o qual interrogaram Jesus. Reivindicaram a lei do levirato (do latim levir, cunhado), promulgada a fim de proteger as viúvas, garantir as propriedades e a continuidade da linhagem familiar (Dt 25.5,6; Gn 38.8), para zombar da doutrina da ressurreição defendida por Cristo e com isso desmoralizá-lo. Entretanto, Jesus usou o próprio Pentateuco para mostrar que eles não estudavam as Escrituras com o devido amor a Deus e por isso erravam. Nos céus não há casamentos e re- ceberemos novos corpos, como os de anjos, entre os quais não há macho ou fêmea. Portanto, debater esse assunto não faz sentido. Além disso, os crentes ressuscitados viverão eternamente, uma verdade firmada no caráter de Deus (Êx 3.6; Lc 20.28). 9 Os fariseus eram muito legalistas, tanto que se emaranhavam em suas próprias leis e decretos. Discutiam sempre sobre quais, dentre suas muitas ordenanças, eram prioritárias para que um judeu alcançasse o Reino dos céus e o Shabbãth (o grandeMT_B.indd 51 14/8/2007, 14:07
  • 52. MATEUS 22, 23 52 37 Asseverou-lhe Jesus: 46E ninguém foi capaz de oferecer-lhe “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o uma só palavra em resposta à questão; teu coração, de toda a tua alma e com tampouco ousou alguém mais, a partir toda a tua inteligência.10 daquele dia, dirigir-lhe qualquer outra 38 Este é o primeiro e maior dos manda- pergunta. mentos. 39 O segundo, semelhante a este, é: Os doutores da Lei falam, mas não agem ‘Amarás o teu próximo como a ti (Mc 12.38-40; Lc 11.37-52; 20.45-47) mesmo’. 40 A estes dois mandamentos estão sujei- tos toda a Lei e os Profetas”. 23 Então, Jesus pregou às multidões e aos seus discípulos: 2 “Os escribas e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés.1 Jesus é o Senhor de Davi 3 Fazei e obedecei, portanto, a tudo (Mc 12.35-37; Lc 20.41-44) quanto eles vos disserem. Contudo, não 41 Estando reunidos os fariseus, Jesus façais o que eles fazem, porquanto não lhes indagou: praticam o que ensinam. 42 “Qual a vossa opinião acerca do Mes- 4 Eles atam fardos pesados e os colocam sias? De quem Ele é filho?”. Ao que eles sobre os ombros dos homens. No entan- lhe afirmaram: “É filho de Davi”. to, eles próprios não se dispõem a levan- 43 Contestou-lhes Jesus: “Então, como se tar um só dedo para movê-los. explica que Davi, falando pelo Espírito, o 5 Tudo o que realizam tem como alvo trata de ‘Senhor’? Pois ele afirma: serem observados pelas pessoas. Por isso, 44 ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Assen- fazem seus filactérios bem largos e as ta-te à minha direita, até que Eu ponha franjas de suas vestes mais longas.2 os teus inimigos debaixo dos teus pés’. 6 Amam o lugar de honra nos banquetes 45 Considerando que Davi o chama e os primeiros assentos nas sinagogas. ‘Senhor’, como pode ser Ele seu filho?”.11 7 Gostam de ser cumprimentados nas Sábado, ou o descanso eterno). Eles haviam interpretado e abstraído do AT um total de 248 preceitos afirmativos. E mais 365 negativos, que acreditavam ser da vontade de Deus, pois o número coincidia com o número de dias do ano. Além disso, o total desses mandamentos: 613, era o mesmo que o número de letras contidas no Decálogo. 10 Jesus mais uma vez aproveita a oportunidade para mostrar àqueles líderes religiosos e a seus muitos discípulos ao redor, res- ponsáveis pela continuação do ensino das Escrituras ao povo, que a mentalidade divina e o modo espiritual de raciocinar dife-riam em muito da limitada e egoísta dialética humana. Jesus então cita Dt 6.5, uma parte do Shema, orações e reflexões diárias dos judeus. Na Septuaginta (o AT em grego) a palavra aqui traduzida por “inteligência” é, literalmente, “mente” (Mc 12.30). O verbo grego traduzido aqui por “amarás” não é phileõ, como em algumas versões, que significa uma afeição entre amigos; mas, sim, o verbo agapaõ: uma obrigação de dedicação absoluta a alguém, determinada pela vontade (Mq 6.8; Am 5.4; Is 33.15; Hc 2.4). Jesus foi o primeiro líder espiritual judeu a combinar os dois mandamentos de amor, para formar o mais sintético resumo da Lei (Lv 19.18), revelando aos fariseus, e a todos nós, que não são os muitos regulamentos e leis que tornam uma pessoa santa; mas, sim, seu genuíno e sincero amor a Deus e a seu próximo mais achegado (familiares), e a seus próximos e vizinhos (comunidade, sociedade). 11 Finalmente, é Jesus quem questiona. Os fariseus eram profundos estudiosos sobre o Messias e sua vinda, como Libertador de Israel. Entretanto, há séculos interpretavam erroneamente a pessoa e a obra do Messias. Imaginavam um rei, pleno de poderes divinos, que viria como guerreiro invencível, para libertar Israel do império gentio e conceder saúde, paz e riqueza ao povo judeu. Conheciam o Messias como Filho de Davi, mas não como o Senhor de Davi (Sl 110.1), tampouco seu domínio espiritual em amor e humildade (Lc 20.42-44). Jesus desejava que os seus compreendessem que ele era o Messias prometido: o descendente humano de Davi e o seu divino Senhor. Capítulo 23 1 Os escribas, doutores e mestres da Lei, bem como os fariseus, partido político religioso que defendia a observância literal da Torah (Lei) e mais uma série de ordenanças e preceitos por eles criados para situações não diretamente cobertas pela Torah. Convencidos de que possuíam a correta interpretação da vontade de Deus, afirmavam que a tradição dos anciãos, a lei oral (tôrâ shebe‘al peh) vinha de Moisés e desde o monte Sinai. Fariseus e escribas eram, portanto, os sucessores autorizados da tradição de Moisés como mestres da Lei. 2 Os filactérios ou tefilins eram pequenos rolos ou caixinhas de couro que os judeus religiosos usavam presos à testa, perto do coração, e no braço esquerdo. Essas pequenas cápsulas continham quatro passagens da Torah: Êx 13.1-10 e 11-16; Dt 6.4-9 e 11.13-21. Com o passar do tempo, os judeus começaram a respeitar e honrar esses pequenos recipientes, tanto quantoMT_B.indd 52 14/8/2007, 14:07
  • 53. 53 MATEUS 23 praças e de serem, pelas pessoas, chama- terras para fazer de alguém um prosé- dos: ‘Rabi, Rabi!’.3 lito. No entanto, uma vez convertido, o 8 Vós, todavia, não sereis tratados de tornais duas vezes mais filho do inferno ‘Rabis’; pois um só é vosso Mestre, e vós do que vós! todos sois irmãos. 16 Ai de vós, guias cegos! Porque ensinais: 9 E a ninguém sobre a terra tratai de vos- ‘Se uma pessoa jurar pelo santuário, isso so Pai; porquanto só um é o vosso Pai, não tem significado; porém, se alguém aquele que está nos céus. jurar pelo ouro do santuário, fica obriga- 10 Também não sereis chamados de líde- do a cumprir o que prometeu’. res, pois um só é o vosso Líder, o Cristo.4 17 Tolos e cegos! Pois o que é mais impor- 11 Porém o maior dentre vós seja vosso tante: o ouro ou o santuário que santifica servo. o ouro? 12 Portanto, todo aquele que a si mesmo se 18 E mais, dizeis: ‘Se uma pessoa jurar pelo exaltar será humilhado, e todo aquele que altar, isso nada significa; mas, se alguém a si mesmo se humilhar será exaltado. jurar pela oferta que está sobre ele, fica, 13 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, assim, comprometido ao seu juramento’. hipócritas! Porque fechais o reino dos 19 Embotados! O que é mais importante: céus diante dos homens. Porquanto vós a oferta, ou o altar que santifica a oferta? mesmos não entrais, nem tampouco dei- 20 Portanto, a pessoa que jurar em nome xais entrar os que estão a caminho!5 do altar, jura pelo altar e por tudo o que 14 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, está sobre ele. hipócritas! Porque devorais as casas das 21 E quem jurar pelo santuário, jura pelo viúvas e, para disfarçar, encenais longas santuário e em nome daquele que nele orações. E, por isso, recebereis castigo habita. ainda mais severo! 22 E aquele que jurar pelos céus, jura pelo 15 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, trono de Deus e em nome daquele que hipócritas! Porque viajais por mares e nele está assentado.6 as Escrituras, e seu tamanho era considerado um sinal de zelo espiritual de quem os ostentava. Os fariseus acreditavam que o próprio Deus usava filactérios. Por isso, eram considerados como amuletos de boa sorte e proteção contra o mal. As “franjas” eram as borlas descritas em Nm 15.37-41 que todo judeu deveria usar. Jesus também as usava nas quatro pontas de seu manto (em Mt 9.20 são chamadas de “orla”), essas borlas eram um tipo de madeixas de lã, branca e azul, e tinham a singela função de declarar o amor de quem as usava a Yahweh (o Senhor) e a vontade do seu coração de cumprir a Torah (ou Torá, a Lei) da maneira mais fiel possível. As borlas tinham o tamanho médio de até 10 cm; entretanto, os fariseus as alongavam muito mais em sinal de maior espiritualidade. O que Deus criou para ser apenas um lembrete de fé e marca de devoção, tornou-se objeto de adoração e ostentação (fetiche). 3 Os mestres da Lei e os fariseus gostavam de ocupar os melhores e mais importantes assentos na sinagoga, aqueles que ficam defronte à representação da arca e que continha os rolos das Escrituras Sagradas. Além disso, os que se assentavam ali podiam ser facilmente vistos por toda a congregação. Eles também apreciavam muito ouvir as pessoas os chamarem, insistentemente, aos gritos e em público (nas praças do mercado) de Rabbei (em grego), que significa literalmente em hebraico: “meu professor, meu mestre!” 4 A expressão “pai” ou “padre” (em hebraico ’abh) não deve ser usada como título de qualquer autoridade religiosa. Jesus faz uma séria advertência quanto à busca desenfreada por reconhecimento e prestígio, coisas que alimentam a soberba humana. Entretanto, devemos ter cautela com possíveis aplicações de literalismo insensato dessas passagens. Jesus está ensinando princípios de vida espiritual a quem só conseguia enxergar regras exatas de comportamento religioso. Os cristãos, líderes (em grego kathegetai, guias ou dirigentes) ou não, devem ser conhecidos por um espírito e atitudes diaconais (em grego diakonos, servo). 5 “Ai” é uma expressão de profunda tristeza e indignação da parte de Deus, expressa através dos lábios do seu Filho contra a falsidade (hipocrisia) dos maiores conhecedores das Sagradas Escrituras da época e líderes religiosos dos judeus, o povo do Cristo (Messias). Essa atitude apenas legalista, arrogante, soberba e desprovida de sincero amor a Deus e às pessoas, fazia que os “prosélitos” (pagãos e gentios que se convertiam ao judaísmo) se tornassem ainda piores que seus mestres e não tivessem verda- deira comunhão com Deus, o Pai (em aramaico: abba). Esses líderes religiosos e juízes de direito, eram tão dissimulados que chega- vam a usar suas posições como juristas para processar viúvas ricas ou para fazer que elas lhes legassem suas propriedades. 6 Com relação aos juramentos, Jesus argumenta com os mestres fariseus, com seus próprios pressupostos em relação à Lei, para lhes revelar o verdadeiro espírito da Lei e a vontade de Deus (5.33-37).MT_B.indd 53 14/8/2007, 14:07
  • 54. MATEUS 23 54 23 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, 30 E declarais: ‘Se tivéssemos vivido na hipócritas! Porque dais o dízimo da hor- época dos nossos antepassados, não tería- telã, do endro e do cominho, mas tendes mos tomado parte com eles no assassina- descuidado dos preceitos mais impor- to dos profetas!’ tantes da Lei: a justiça, a misericórdia e 31 Dessa forma, porém, testemunhais a fé. Deveis, sim, praticar estes preceitos, contra vós mesmos que sois filhos dos sem omitir aqueles!7 que mataram os profetas. 24 Líderes insensíveis! Pois coais o peque- 32 Acabai, pois, de encher a medida do no mosquito, mas engolis um camelo!8 pecado de vossos pais! 25 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, 33 Cobras venenosas, ninho de víboras! hipócritas! Porque limpais o exterior do Como escapareis da condenação do copo e do prato, mas por dentro, estes inferno? estão repletos de avareza e cobiça. 34 Por isso, eis que Eu vos envio profe- 26 Fariseu que não enxerga! Limpa, an- tas, sábios e mestres. A uns assassinareis tes de tudo, o interior do copo e do pra- e crucificareis; a outros açoitareis nas to, para que da mesma forma, o exterior vossas sinagogas e perseguireis de cida- fique limpo! de em cidade. 27 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, 35 E, dessa maneira, sobre vós recairá todo hipócritas! Porque sois parecidos aos o sangue justo derramado na terra, desde túmulos caiados: com bela aparência o sangue do justo Abel, até o sangue de por fora, mas por dentro estão cheios Zacarias, filho de Baraquias, a quem ma- de ossos de mortos e toda espécie de tastes entre o santuário e o altar.10 imundície!9 36 Com toda a certeza vos asseguro, que 28 Assim também sois vós: exterior- tudo isso ocorrerá a esta geração”. mente pareceis justos ao povo, mas vosso interior está repleto de falsidade O lamento sobre Jerusalém e perversidade. (Lc 13.34-35) 29 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, 37“Ó Jerusalém, Jerusalém, que assassi- hipócritas! Porque construís os sepul- nas os profetas e apedrejas os que te são cros dos profetas, adornais os túmulos enviados! Quantas vezes Eu quis reunir dos justos. os teus filhos, como a galinha acolhe os 7 Oferecer ao Senhor a décima parte (o dízimo) de diversas ervas era uma prática religiosa baseada em Lv 27.30. Embora o dízimo dos grãos, frutos, vinho e azeite fosse o exigido, dos judeus, pela Lei (Nm 18.12; Dt 14.22-23), os escribas e fariseus haviam ampliado a lista dos itens especificados na Lei, para incluir o dízimo das menores e mais simples hortaliças. A hortelã era usada como tempero e para adornar o chão das casas e sinagogas. O endro era usado como medicamento e para perfumar ambientes. O cominho, que são as sementes de erva-doce, tinha vários usos culinários. Entretanto, o valor comercial dessas ervas era mínimo; mas os fariseus desejavam mostrar ao povo um zelo religioso que, na verdade, não fazia parte de suas vidas com Deus e com seus próximos. 8 Os escribas e fariseus coavam com muito cuidado toda água que bebiam através de um pano branco, bem tecido, para ter certeza de não engolir nenhum pequeno mosquito; considerado pelos religiosos como o menor ser vivo impuro. Entretanto, figuradamente, engoliam um camelo inteiro, um dos maiores animais impuros para os judeus, ao praticarem uma série de fraudes, atrocidades e pecados. 9 Por ocasião da celebração da Páscoa, época em que os peregrinos de várias partes da Palestina iam a Jerusalém, e momento no qual Jesus está falando, era costume pintar, várias vezes, toda a parte exterior dos sepulcros (túmulos) com cal. Isso para que os túmulos pudessem ser vistos inclusive à noite, uma vez que, pela Lei, se alguém pisasse sobre um túmulo ou área de sepultura tornava-se instantaneamente impuro (Nm 19.16). Por isso, todos pareciam iguais, limpos, belos e puros; mas em seu interior jazia a morte, o mau cheiro e a podridão. 10 Os líderes religiosos judaicos no tempo de Jesus estavam acrescentando pecados sobre pecados à longa lista de seus pais (antepassados) históricos. Jesus também seria um dos profetas martirizados. Seus apóstolos não seriam igualmente aceitos (10.17,23). E Jesus resume a história dos martírios no AT citando o assassinato de Abel (Gn 4.8; Hb 11.4) e o martírio do profeta Zacarias registrado no livro de Crônicas. Na Bíblia Hebraica, o último livro do AT (2Cr 24.20-22).MT_B.indd 54 14/8/2007, 14:07
  • 55. 55 MATEUS 23, 24 seus pintinhos debaixo das suas asas, mas ram mais perto dele para lhe apontar as vós não o aceitastes!11 construções do templo. 38 Eis que a vossa casa ficará abandona- 2 Ele, entretanto, lhes observou: “Estais da!12 vendo todas estas coisas? Com toda a 39 Pois eu vos declaro que, a partir de certeza Eu vos afirmo que não ficará aqui agora, de modo algum me vereis, pedra sobre pedra, pois que serão todas até que venhais a dizer: ‘Bendito é o que derrubadas”.1 vem em o Nome do Senhor!’”13 O princípio das dores Jesus prediz o final dos tempos (Mc 13.3-13; Lc 21.7-19) (Mc 13.1-2; Lc 21.5-6) 3Tendo Jesus se assentado no monte das 24 Então, Jesus saiu do templo e, ao caminhar, seus discípulos chega- Oliveiras, os discípulos chegaram até Ele em particular e lhe pediram: “Dize-nos 11 O próprio Jesus reconhece que os seus próprios irmãos não o receberam. Deus tem feito tudo para seu povo, mas a rejeição de Israel ilustra o coração empedernido da raça humana, em relação ao seu Criador (Jo 1.11). 12 Jesus faz referência a 1Rs 9.7-8; Jr 12.7, 22.5 e adverte seu povo. No ano 70 d.C. toda a nação de Israel e, em especial, a cidade de Jerusalém, foram assoladas e profanadas pelos exércitos pagãos de Roma. 13 Jesus se despede de Jerusalém e do seu povo, declarando que não os ensinaria mais em público até sua volta em glória no final dos tempos, quando Israel o receberá como o Messias que fora rejeitado (Zc 12.10). De agora em diante a salvação dos judeus, como de qualquer outra pessoa sobre a face da terra, do mais alto líder religioso ou político ao mais simples ser humano, só tem uma única possibilidade: a confissão do Senhor Jesus Cristo, como Salvador, Senhor e Filho de Deus (21.9, Sl 118.26). Capítulo 24 1 O primeiro Templo foi idealizado por Davi (2Sm 7.2; 1Cr 22.8,3; 2Sm 24.18-25). Entretanto, coube a Salomão (em hebraico transliterado shelômõh, homem de paz), seu filho com Bate-Seba (2Sm 12.24), a honra da sua construção, que teve início no quarto ano do seu reinado e foi concluída sete anos mais tarde. Mas o filho de Salomão, Reoboão, não deu a mesma atenção ao Templo e sucessivas pilhagens ocorreram desde Sisaque, do Egito (1Rs 14.26), até a invasão de Nabucodonosor em 587 a.C. (2Rs 25.9,13-17). Mesmo depois de sua destruição, alguns fiéis ainda iam oferecer sacrifícios entre suas ruínas (Jr 41.5). Hoje em dia não há qualquer estrutura do antigo Templo de Salomão acima do nível do chão. Porém, curiosamente, sobre os seus escombros foi construída a mesquita mulçumana, conhecida como “Cúpula da Rocha”, destaque na maioria dos cartões postais de Israel (2Cr 3.1; 2Sm 24.24). O segundo Templo foi erguido por ocasião do retorno dos exilados da Babilônia, cerca de 537 a.C, conforme autorização e ajuda de Ciro, rei da Pérsia, e do ministério de Neemias e Esdras (Nm 2.11-20). Toda a área teve de ser limpa do entulho do primeiro Templo destruído (Ed 1; 3.2-10). A arca havia desaparecido no tempo do exílio e jamais foi encontra- da. No lugar do candelabro de Salomão, com dez lâmpadas, foi colocado um novo, com sete hastes, juntamente com uma mesa de ouro para os pães da proposição e o altar do incenso. Esses e outros objetos sagrados foram tomados como despojos pelo rei da Síria, Antíoco IV Epifânio (entre 175 e 163 a.C.), o qual colocou um altar e uma estátua pagã no lugar santo, no dia 15 de dezembro de 167 a.C. Os macabeus venceram os sírios e purificaram o Templo (1Macabeus 1.54; 4.35-59), substituindo todos os seus móveis e transformando o Templo numa fortaleza que lhes permitiu resistir durante três meses ao cerco de Pompeu (63 a.C.) quando foi, então, destruído (os livros dos Macabeus, com alguns outros, não são considerados canônicos, por isso não fazem parte da maioria das Bíblias evangélicas em língua portuguesa, entretanto, muitos de seus relatos históricos são dignos de crédi- to). A terceira construção, chamada de Templo de Herodes, começou no ano 19 a.C., mas seu motivo principal não foi glorificar a Deus, e, sim, reconciliar os judeus com o seu rei gentio (idumeu). Mesmo assim, o rei teve grande cuidado com a reverência ao Templo, convocou mil sacerdotes que foram treinados como pedreiros para conduzir a edificação do santuário, e procuraram construir uma cópia do Templo de Salomão. Em uma área com mais de 144.000 m2, ergueu-se uma magnífica estrutura de pedras creme, adornadas de ouro. Um muro feito com blocos de pedras com 60 cm de largura por até 5 metros de comprimento circundava o Templo. Contudo, alguns anos após o término da construção, exatamente 40 anos depois da profecia de Jesus, durante as celebrações da Páscoa judaica, as tropas do comandante romano Tito tomaram posição de combate, às portas de Jerusalém. A cidade estava em festa e repleta de judeus de todas as partes. Os dois mais poderosos partidos judaicos, que deve- riam estar atentos à defesa da cidade contra Roma, achavam-se em violenta guerra interna, a ponto de incendiarem os estoques de alimentos um do outro. Somente quando os enormes aríetes dos romanos arrebentaram o primeiro portão de Jerusalém foi que os políticos decidiram se unir contra o invasor. Tarde demais. Tito incendiou tudo, e até as pedras foram separadas para colher o ouro derretido que se infiltrara nas junções. O comandante romano deixou apenas um resto da muralha, como símbolo do aniquilamento de Israel, conhecido em nossos dias como ‘Muro das Lamentações’. Mais de um milhão de judeus morreram naquela época. Todas as estradas que passavam por Jerusalém estavam tomadas por judeus crucificados. Os sobreviventes fo- ram vendidos ou negociados como escravos. Israel desapareceu como nação e os judeus foram espalhados pelo mundo inteiro, sob a maior humilhação já sofrida por um povo até nossos dias. Em homenagem à marcha triunfal de Tito, foi construído o arco do triunfo, o “Arco de Tito”. Esse monumento persiste em Roma até hoje e mostra, em seus trabalhos de escultura, cenas dasMT_B.indd 55 14/8/2007, 14:07
  • 56. MATEUS 24 56 quando ocorrerão estas coisas?2 E qual mutuamente. será o sinal da tua vinda e do final dos 11 Então, numerosos falsos profetas sur- tempos?”. girão e enganarão a muitos. 4 Então Jesus lhes revelou: “Cuidado, que 12 E, por causa da multiplicação da mal- ninguém vos seduza. dade, o amor da maioria das pessoas se 5 Pois muitos são os que virão em meu esfriará. nome, proclamando: ‘Eu sou o Cristo!’, e 13 Aquele, porém, que continuar firme desencaminharão muitas pessoas. até o final será salvo. 6 E vós ouvireis falar de guerras e rumo- 14 E este evangelho do Reino será pre- res de guerras, todavia não vos deses- gado em todo o mundo habitado, como pereis, porque é preciso que tais coisas testemunho a todas as nações, e então ocorram, mas ainda não será o fim. chegará o fim. 7 Porquanto, nação se levantará contra nação, e reino contra reino. Haverá fo- A grande tribulação mes e terremotos em vários lugares. (Mc 13.14-23; Lc 21.7-19) 8 Contudo, esses acontecimentos serão ape- 15 E, assim, quando virdes a profanação nas como as primeiras dores de um parto. horrível da qual falou o profeta Daniel, no 9 Então eles vos entregarão para serem Lugar Santo (ao ler o profeta entendereis afligidos e condenados à morte. E sereis isso),3 odiados por todas as nações por serem 16 então, os que estiverem na Judéia fu- meus seguidores. jam para os montes.4 10 Nessa época, muitos ficarão escandali- 17 Quem estiver sobre o telhado de sua casa, zados, trairão uns aos outros e se odiarão não desça para retirar dela coisa alguma. legiões romanas carregando os objetos sagrados e valiosos do Templo, e os mais valorosos guerreiros judeus algemados. Tito profanou o Templo, entrando no santo lugar, despojando todo o tesouro e utensílios preciosos, tais como o grande candelabro de ouro maciço, uma réplica dourada da arca com os preciosos rolos sagrados da Lei, a mesa de ouro e muitos outros objetos preciosos. Finalmente, o imperador Vespasiano, pai de Tito, declarou toda a nação de Israel como sua propriedade particular e doou grandes propriedades a seus amigos e colaboradores, entre eles o conhecido historiador judeu e fariseu, Flávio Josefo, cujo carisma e poder intelectual haviam conquistado a amizade do rei e a cidadania romana. 2 Jesus se retira do Templo e sobe com os discípulos em direção ao monte das Oliveiras - uma cordilheira, a leste de Jerusalém, do outro lado do vale Cedrom, com quase dois quilômetros de extensão e cerca de 70 metros acima do nível da cidade (Mc 11.1). De agora em diante, nunca mais entrará no Templo. Tudo é parte da grande visão profética de Ezequiel, que viu a glória do Senhor abandonar a cidade de Jerusalém e o Templo, mais precisamente em direção ao monte das Oliveiras (Ez 8.4-6). Naquele momento estava se cumprindo a Palavra do Senhor que veio a Ezequiel em 592 a.C. Ao chegar ao alto do monte, Jesus lança um último olhar sobre a cidade amada que o rejeitou. Ao pôr-do-sol, senta-se com seus discípulos e ficam observando a noite chegar sobre o Templo e o povo de Jerusalém. Jesus não revela quando sucederão essas coisas, mas responde, em forma de profecia, às demais questões: O fim dos tempos entre os versículos 4-14; a destruição de Jerusalém entre 15-22 (Lc 21.20), e o glorioso retorno de Jesus Cristo entre 23-31. 3 A expressão grega, aqui transliterada por bdelugma tes eremoses vem do hebraico shiqquçe shõmem e significa: “a profanação horrível”, “o sacrilégio terrível”, ou ainda, como em versões antigas: “o abominável da desolação”. Essas são formas de traduzir o significado literal da frase original: “a coisa abominável que causa horror e repulsa” (Dn 9.27; 11.31; 12.11). Jesus ressalta que os leitores do livro escrito pelo profeta Daniel poderão compreender melhor o que ele está dizendo. Jesus faz referência a um tipo de idolatria tão perversa e antagônica a todos quantos crêem no Pai de Cristo, como ocorreu no ano 168 a.C., quando o rei Antíoco Epifânio erigiu um altar a Zeus no lugar do altar de Jeová (em hebraico  transliterado por Yahweh – 1Macabeus 1.54-59; 6.7; 2Macabeus 6.1-5). Assim também aconteceu no ano 70 d.C., quando os romanos ofereceram sacrifícios pagãos em Jerusalém, no lugar sagrado, ao proclamar Tito imperador supremo (2Ts 2.4; Ap 13.14-15). A história registra que muitos cristãos e judeus, pouco antes do ano 70 d.C., lembraram-se das palavras de Jesus, cumpriram à risca as orientações proféticas e tiveram suas vidas salvas daquelas catástrofes e perseguições. O Grande Retorno de Jesus, em glória, marca o final da ordem mundana, na qual vivemos. Porém, antes disso, surgirão muitos enganadores, falsos messias (cristos), o tema guerra e terrorismo dominará a mídia mundial, tribulações, terremotos, vulcões, tempestades, alterações na atmosfera, no clima, falsos profetas por toda parte, multiplicação da iniqüidade (maldade) e da arrogância cientifica, lascívia, bestialidades, esfriamento do amor e das virtudes morais e éticas. Todos esses são apenas sinais que criam o ambiente para a manifestação do maior dos sinais: a pregação do Evangelho até os confins da terra (28.18-20). Então virá o fim. 4 A história registra que muitos cristãos, pouco antes do ano 70 d.C., fugiram de Jerusalém e se refugiaram nas montanhasMT_B.indd 56 14/8/2007, 14:07
  • 57. 57 MATEUS 24 18 E aquele que estiver no campo, não 28Onde houver um cadáver, aí se reuni- volte para pegar sua túnica. rão os abutres. 19 Serão dias terríveis para as mulheres grávidas e para as que estiverem ama- O retorno de Cristo em glória mentando. (Mc 13.24-27; Lc 21.25-28) 20 E orai para que a vossa fuga não ocorra 29 Imediatamente após o tormento da- durante o inverno nem no sábado.5 queles dias, o sol escurecerá e a lua não 21 Porquanto haverá nessa época grande dará a sua luz; e as estrelas cairão do céu, tribulação, como jamais aconteceu desde e os poderes celestes serão estremecidos. o início do mundo até agora, nem nunca 30 Então surgirá no céu o sinal do Filho mais haverá.6 do homem, e todos os povos da terra 22 E, se aqueles dias não tivessem sido prantearão e verão o Filho do homem abreviados, nenhuma carne seria salva. chegando nas nuvens do céu com poder Mas, por causa dos eleitos, aquele tempo e majestosa glória.10 será encurtado.7 31 Ele enviará os seus anjos, com podero- 23 Então, se alguém vos anunciar: ‘Vede, so som de trombeta, e estes reunirão os aqui está o Cristo!’ ou ‘Ei-lo ali!’ Não seus eleitos dos quatro ventos, de uma a acrediteis. outra extremidade dos céus. 24 Pois se levantarão falsos cristos e falsos profetas e apresentarão grandes milagres A lição da figueira: o Dia do Senhor e prodígios para, se possível, iludir até (Mc 13.28-37; Lc 21.29-36) mesmo os eleitos.8 32 Portanto, aprendei com a parábola da 25 Vede que Eu o preanunciei a vós! figueira: quando, pois, os seus ramos se 26 Portanto, se vos disserem: ‘Eis que Ele renovam e suas folhas começam a brotar, está no deserto!’- não saiais. Ou ainda: sabeis que está próximo o verão. ‘Ele está ali mesmo, nos cômodos de 33 Da mesma forma vós: quando virdes uma casa!’- não acrediteis. todos esses acontecimentos, sabei que 27 Pois, da mesma maneira como o re- Ele está muito próximo, às portas.11 lâmpago parte do oriente e brilha até no 34 Com toda a certeza Eu vos afirmo, que ocidente, assim também se dará a vinda não passará esta geração até que todos do Filho do homem.9 esses eventos se realizem. da Transjordânia, onde se localizavam as terras de Pella. Fuga semelhante haverá num período futuro de tribulação conhecido como a 70a Semana de Daniel (Dn 9.27). Entretanto, aquelas pessoas que verdadeiramente crêem no Senhor (os salvos, a Igreja), serão arrebatadas da terra no exato momento em que Cristo cruzar a atmosfera da terra. Os cristãos não precisarão fugir, apenas devem perseverar até o Dia do Senhor. 5 Gestantes, idosos e pessoas com deficiência física terão maior dificuldade naqueles dias de tribulação e perseguição. Mateus, como escreve principalmente aos judeus, observa os detalhes do inverno e do sábado, dia em que os judeus somente podiam caminhar 800 metros. 6 O historiador judeu-romano Flávio Josefo foi testemunha ocular desta terrível tribulação e narra o episódio com palavras pareci- das às de Jesus. Entretanto, aquela grande tribulação foi apenas mais um sinal da maior das tribulações ainda por vir (Dn 12.1). 7 Este último e terrível tempo de aflição será abreviado em relação ao que já havia sido pré-determinado nas profecias (como a 70a Semana de Daniel – Dn 9.27, ou os 42 meses mencionados em Ap 11.2; 13.5). Os eleitos são o povo de Deus em todo o mundo, a Igreja de Jesus Cristo. 8 Compare esta descrição com a pessoa do anticristo revelada em 2Ts 2.9-10. 9 Que ninguém se iluda. A segunda e definitiva volta de Jesus Cristo será um evento portentoso. Em segundos, a glória e o brilho da sua presença varrerão o planeta, e os salvos (sua Igreja) serão arrebatados, sumindo instantaneamente de toda a terra. (27, 31, 1Co 15.12; 1Ts 4.16,17). Jesus cita um antigo provérbio para explicar que seu glorioso retorno será tão certo quanto o es- voaçar dos urubus (abutres: aves falconiformes e vulturídeas comuns no Oriente e Europa) sobre um cadáver. Ou seja, o mundo está moribundo e os urubus já sobrevoam aqueles que morrerão e lhes servirão de banquete (Lc 17.37). 10 Fenômenos cósmicos acompanharão a volta triunfal do Filho do homem (Mc 8.31, Ap 1.7). O brilho, como um relâmpago, que o mundo inteiro verá, é a Shekinah: a glória do Senhor (Is 13.10; 24.21-23; 34.4; Ez 32.7-8; Jl 2.10,31; 3.15; Am 8.9, 2Ts 1.6-10; Ap 19.11-16). 11 No Oriente as figueiras anunciam o início do verão, quando renovam seus ramos e novas folhas brotam. Esse evento é tão certo e esperado quanto o será a volta de Cristo, e por isso todos os cristãos devem estar preparados para não serem apanhadosMT_B.indd 57 14/8/2007, 14:07
  • 58. MATEUS 24 58 35 O céu e a terra passarão, mas as minhas 44Portanto, ficai igualmente vós alertas; palavras jamais passarão. pois o Filho do homem virá no momento em que menos esperais.14 Só Deus sabe o dia e a hora exatos (Mc 13.32-37) O destino do bom e do mau servo 36 Entretanto, a respeito daquele dia e (Lc 12.42-46) hora ninguém sabe, nem os anjos dos 45 Sendo assim, quem é o servo fiel e céus, nem o Filho, senão exclusivamente sábio, a quem o senhor confiou os de o Pai.12 sua casa para dar-lhes alimento no seu 37 Como aconteceu nos dias de Noé, devido tempo? assim também se dará por ocasião da 46 Feliz aquele servo a quem o seu senhor, chegada do Filho do homem. quando voltar, o encontrar agindo dessa 38 Porque nos dias que antecederam ao maneira. Dilúvio, o povo levava a vida comendo 47 Com certeza vos afirmo que o senhor e bebendo, casando-se e oferecendo-se confiará a seu servo todos os seus bens. em matrimônio, até o dia em que Noé 48 Entretanto, supondo que esse servo, entrou na arca, sendo mau, diga a si mesmo: ‘Meu se- 39 e as pessoas nem notaram, até que nhor está demorando muito’, chegou o Dilúvio e levou a todos. Assim 49 e, por isso, passe a agredir os seus ocorrerá na vinda do Filho do homem. conservos e a comer e beber com be- 40 Dois homens estarão na lavoura: um berrões. será arrebatado, mas o outro deixado. 50 O senhor daquele servo virá num dia 41 Duas mulheres estarão trabalhando inesperado e numa hora que o servo num moinho: uma será arrebatada, a desconhece. outra ficará pra trás. 51 E o senhor o punirá com toda a seve- 42 Por isso, vigiai, porquanto não sabeis ridade e lhe dará um lugar ao lado dos em que dia virá o vosso Senhor.13 hipócritas, onde haverá grande lamento 43 Contudo, entendei isto: se o proprie- e ranger de dentes.15 tário de uma casa soubesse a que hora viria o ladrão, se colocaria em sentinela As virgens sábias e as tolas e não permitiria que a sua residência fosse violada. 25 Portanto, o Reino dos céus será semelhante a dez virgens que pe- de surpresa, como acontecerá com o mundo descrente. Jesus ainda afirma que a geração que presenciar o início dos sinais também verá sua volta triunfal. A expressão “geração” (em grego antigo genea), também podia significar “raça” ou “família” e, por certo, Jesus fez referência à profecia de que o povo judeu não seria exterminado da terra por mais que seus muitos inimigos, em todas as épocas, tenham se empenhado nesse objetivo (Mc 13.30; Lc 21.32). As palavras de Jesus são todas mais verdadeiras e duradouras que o Universo. 12 O Dia do Senhor é uma expressão que se refere ao AT como o dia em que Jesus voltará em glória para levar seu povo (a Igreja) para a Nova Jerusalém (Am 8.3,9,13; 9.11; Mq 4.6; 5.10; 7.11). Mas o dia exato desse evento a ninguém foi revelado, e Jesus, enquanto esteve na terra, também não pretendeu saber, pois decidiu em tudo obedecer ao Pai e viver pela fé como todo ser humano deveria. 13 Jesus dedica seis parábolas para enfatizar a extrema necessidade da vigilância, enquanto estamos vivos na terra e ele não retorna: O porteiro (Mc 13.35-37). O pai de família (Mt 24.43-44). O servo fiel (24.45-51). As dez virgens (25.1-13). Os talentos (25.14-30). As ovelhas e os bodes (25.31-46). A vida passa, e passa muito rápido. É preciso estar com a consciência tranqüila de que amamos ao Senhor e buscamos praticar sua vontade em todas as áreas de nossa vida íntima e relacional. 14 Jesus nos adverte de que perto da sua volta, o mundo estará descrente, religioso talvez, mas sem a convicção da salvação nem da militância evangélica. O poder do sistema mundial forçará muitos religiosos a se afastarem de Deus e de sua Palavra. Intérpretes de um “evangelho” que não é o de Cristo conduzirão milhões de pessoas à perdição. Até os cristãos fiéis correrão o risco de ser enganados por um estilo de vida massificado pelo sistema (globalização do pensamento humanista, cético e hedonis- ta) e serão apanhados de surpresa pela iminente volta do Senhor. Não é sábio tentar calcular a data do retorno de Jesus. É mais errôneo, porém, negligenciar esse evento fatal. A expectativa da volta de Cristo confere senso de urgência e dinâmica à missão evangélica em toda a terra. A parábola do “bom e mau servos” ensina como o filho de Deus deve viver sua vida cristã (45-51). 15 O contexto revela que “hipócrita” é aquele cuja vida prática não corresponde à sua alegada fidelidade a Cristo. A expressãoMT_B.indd 58 14/8/2007, 14:07
  • 59. 59 MATEUS 24, 25 garam suas candeias e saíram para encon- 12 Contudo ele lhes respondeu: ‘Com trar-se com o noivo.1 certeza vos afirmo que não vos conheço’. 2 Cinco delas eram sábias, mas outras 13 Portanto, vigiai, pois não sabeis o dia, cinco eram inconseqüentes. tampouco a hora em que o Filho do 3 As que eram inconseqüentes, ao pega- homem chegará.4 rem suas candeias, não levaram óleo de reserva consigo. O investimento dos talentos 4 Entretanto, as prudentes, levaram óleo 14 Digo também que o Reino será como em vasilhas, junto com suas candeias.2 um senhor que, ao sair de viagem, con- 5 O noivo demorou a chegar, e todas fica- vocou seus servos e confiou-lhes os seus ram com sono e adormeceram. bens. 6 À meia-noite, ouviu-se um grito: ‘Eis 15 A um deu cinco talentos, a outro, dois que vem o noivo! Saí ao seu encontro!’ e a outro, um talento; a cada um con- 7 Então, todas as virgens acordaram e forme a sua capacidade pessoal. E, em foram preparar suas candeias.3 seguida, partiu de viagem.5 8 As insensatas recorreram às sábias: ‘Dai- 16 O que havia recebido cinco talentos nos um pouco do vosso azeite, porque as saiu imediatamente, investiu-os, e ga- nossas candeias estão se apagando’. nhou mais cinco. 9 Porém as sábias responderam: ‘Não po- 17 Da mesma forma, o que recebera dois demos, pois assim faltará tanto para nós talentos ganhou outros dois. quanto para vós outras! Ide, portanto, 18 Entretanto, o que tinha recebido um aos que o vendem e comprai-o’. talento afastou-se, cavou um buraco na 10 Mas, saindo elas para comprar, chegou terra e escondeu o dinheiro que o seu se- o noivo. As virgens que estavam prepara- nhor havia confiado aos seus cuidados. das entraram com ele para o banquete de 19 Após um longo tempo, retornou o se- núpcias. E a porta foi fechada. nhor daqueles servos e foi acertar contas 11 Mais tarde, todavia, chegaram as vir- com eles. gens imprudentes e clamaram: ‘Senhor! 20 Então, o servo que recebera cinco ta- Senhor! Abre a porta para nós!’ lentos se aproximou do seu senhor e lhe “ranger de dentes” só é usada em Mateus (8.12; 13.50; 22.13; 24.51; 25.30) e tem a ver com o profundo, doloroso e eterno arre- pendimento que os incrédulos e os falsos cristãos (hipócritas) sentirão a partir do Dia do Senhor. Capítulo 25 1 Havia duas fases nos casamentos judaicos típicos da época de Cristo. Na primeira, o noivo ia à casa da noiva e participava da cerimônia de entrega da noiva. Na outra fase, o noivo voltava e a levava para um grande banquete em sua casa. As virgens eram damas-de-honra e tinham o dever cerimonial de preparar a noiva para o encontro com o noivo. 2 Essas candeias eram grandes tochas, capazes de permanecer acesas ao ar livre, feitas com longas varas, com trapos enrolados numa das pontas, embebidos em azeite de oliva. Pequenas candeias de barro eram comumente usadas no interior das residências. 3 Quando o azeite era consumido pelo fogo cortavam-se as pontas chamuscadas dos trapos e adicionava-se mais óleo para um novo período médio de iluminação de 15 minutos. 4 Essa parábola é continuação da mensagem de Jesus sobre a necessidade do cristão estar sempre preparado e vigilante, pois a volta do Senhor é certa, repentina e iminente. Essa expectativa quanto ao glorioso retorno de Jesus confere ética, dinamismo e senso de urgência à evangelização e ao estilo de vida cristão. A mensagem de Cristo é também um forte apelo aos israelitas em todo o mundo, para que coloquem sua esperança no Noivo Eterno: O Senhor Jesus. Ele é o Messias prometido. A parábola das dez virgens, como é conhecido este trecho das Escrituras, não está ensinando que Cristo arrebatará os atentos e preparados es- piritualmente e deixará para trás “crentes” distraídos ou negligentes. Se cinco virgens ficaram sem óleo (o Espírito) é porque nun- ca creram verdadeiramente no Senhor, pois todo o que crê – recebe o Espírito Santo – e será salvo (24.13; Jo 1.12; Hb 3.13-14). 5 Um talento correspondia à cerca de 35 quilos de prata pura, o equivalente a 6.000 denários (o denário, como já vimos, era uma moeda de prata e valia um dia de trabalho de um soldado romano). Deus concede, aos cristãos, fé e capacidades espirituais para, em primeiro lugar, compreenderem a pessoa e a obra do Seu Filho Jesus, e, em seguida, para servirem no Reino: testemunhando, anunciando a Salvação e cooperando com o Corpo de Cristo, a Igreja. Curiosamente, o uso atual da expressão portuguesa “talento”, significando o conjunto de dons, capacidades e habilidades de uma pessoa, originou-se com base nessa parábola (Lc 19.13). Jesus não está ensinando que o julgamento das pessoas em geral e dos cristãos em particular tem algo a ver com o esforço pessoal e o pleno uso dos dons e capacidades, pois o caminho da Salvação é bem diferente. O uso dos talentos éMT_B.indd 59 14/8/2007, 14:07
  • 60. MATEUS 25 60 entregou mais cinco talentos, informan- quem não tem, até o que tem lhe será do: ‘O senhor me confiou cinco talentos; tirado. eis aqui mais cinco talentos que ganhei’. 30 Quanto ao servo inútil, lançai-o para 21 Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, fora, às trevas. Ali haverá muito pranto e servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, ranger de dentes’.7 muito confiarei em tuas mãos para ad- ministrar. Entra e participa da alegria do O juízo final teu senhor!’. 31 Quando o Filho do homem vier em 22 Assim também, aproximou-se o que sua glória, com todos os anjos, então, recebera dois talentos e relatou: ‘Senhor, se assentará em seu trono na glória nos dois talentos me confiaste; trago-lhe céus. mais dois talentos que ganhei’. 32 Todas as nações serão reunidas diante 23 O senhor lhe disse: ‘Muito bem, servo dele, e Ele irá separar umas das outras, bom e fiel! Foste fiel no pouco, muito con- como o pastor separa os bodes das ove- fiarei em tuas mãos para administrar. En- lhas. tra e participa da alegria do teu senhor!’. 33 E posicionará as ovelhas à sua direita e 24 Chegando, finalmente, o que tinha os bodes à sua esquerda. recebido apenas um talento, explicou: 34 Então, dirá o Rei a todos que estiverem ‘Senhor, eu te conheço, sei que és um ho- à sua direita:‘Vinde, abençoados de meu mem severo, que colhe onde não plantou Pai! Recebei como herança o Reino, o e ajunta onde não semeou. qual vos foi preparado desde a fundação 25 Por isso, tive receio e escondi no chão do mundo. o teu talento. Aqui está, toma de volta o 35 Pois tive fome, e me destes de comer, que te pertence’. tive sede, e me destes de beber; fui es- 26 Sentenciou-lhe, porém, o senhor: trangeiro, e vós me acolhestes. ‘Servo mau e negligente! Sabias que co- 36 Quando necessitei de roupas, vós me lho onde não plantei e ajunto onde não vestistes; estive enfermo, e vós me cui- semeei? dastes; estive preso, e fostes visitar-me’. 27 Então, por isso, ao menos devíeis ter 37 Então, os justos desejarão saber: ‘Mas, investido meu talento com os banquei- Senhor! Quando foi que te encontramos ros, para que quando eu retornasse, o com fome e te demos de comer? Ou com recebesse de volta, mais os juros.6 sede e te saciamos? 28 Sendo assim, tirai dele o talento que 38 E quando te recebemos como estran- lhe confiei e dai-o ao servo que agora está geiro e te hospedamos? Ou necessitado com dez talentos. de roupas e te vestimos? 29 Pois a quem tem, mais lhe será con- 39 Ou ainda, quando estiveste doente ou fiado, e possuirá em abundância. Mas a encarcerado e fomos ver-te?’. apenas uma conseqüência natural na vida diária de quem já foi contemplado, abraçou a fé em Jesus e agora vive a alegria da Salvação, mesmo em meio aos sofrimentos deste mundo. É um julgamento semelhante àquele pronunciado contra o convidado que comparece à festa eterna sem vestir-se da justificação (salvação) em Cristo (22.12-14). 6 A palavra “banqueiro” vem do grego trapeza (mesa), e ainda hoje é comum ver essa palavra nas fachadas das instituições financeiras na Grécia. Na época de Jesus, os “banqueiros” eram pessoas que ficavam sentadas atrás de pequenas mesas e trocavam dinheiro (21.12). Outra palavra interessante é “juro”, que tinha o sentido de “prole”, ou seja, os juros eram considerados “filhotes” do principal emprestado ou investido. 7 Os escravos foram libertos e elevados à posição de servos (mordomos), aos quais aquele senhor confiou todos os seus bens. O servo que não fez uso do talento concedido, agiu assim porque não gostava do seu senhor e desconfiava dele. Não queria trabalhar e se arriscar apenas para tornar o senhor mais rico. Preferiu a conveniência e a tranqüilidade de uma aparente isenção de responsabilidade. Os dons e talentos de Deus multiplicam-se quando os utilizamos, pois transformam nossas vidas e ficamos preparados para receber ainda mais da plenitude do Espírito Santo. O amor de Cristo em nós gera mais amor, a fé mais fé, o caráter mais caráter de Deus nos crentes, e a obediência à Palavra do Senhor produz uma fonte de virtudes que influencia todo o ambiente (2Pe 1.3-7).MT_B.indd 60 14/8/2007, 14:07
  • 61. 61 MATEUS 25, 26 40 Então o Rei, esclarecendo-lhes respon- A trama para matar Jesus derá: ‘Com toda a certeza vos asseguro (Mc 14.3-9; Lc 22.1-2; Jo 11.45-53) que, sempre que o fizestes para algum destes meus irmãos, mesmo que ao me- nor deles, a mim o fizestes’.8 26 Tendo Jesus concluído esses en- sinamentos, declarou aos seus discípulos: 41 Mas o Rei ordenará aos que estiverem 2 “Como sabeis, daqui a dois dias, a Pás- à sua esquerda: ‘Malditos! Apartai-vos de coa será celebrada; e o Filho do homem mim. Ide para o fogo eterno, preparado será entregue para ser crucificado”.1 para o Diabo e os seus anjos. 3 Enquanto isso, os chefes dos sacerdo- 42 Porquanto tive fome, e não me destes tes e os anciãos do povo se reuniram no de comer; tive sede, e nada me destes de palácio do sumo sacerdote, cujo nome beber. era Caifás.2 43 Sendo estrangeiro, não me hospedas- 4 E fizeram um acordo para prender Je- tes; estando necessitado de roupas, não sus por meio de traição e matá-lo. me vestistes; encontrando-me enfermo e 5 Porém recomendaram: “Que isso não aprisionado, não fostes visitar-me’. seja feito durante a festa, para que não 44 E eles também perguntarão: ‘Mas Se- ocorra grande alvoroço entre o povo”. nhor! Quando foi que te vimos com fome, sedento, estrangeiro, necessitado de rou- Jesus é ungido para o sacrifício pas, doente ou preso e não te auxiliamos?’ (Mc 14.3-9; Jo 12.1-8) 45 Então o Rei lhes sentenciará: ‘Com 6 E aconteceu que, estando Jesus em Be- toda a certeza vos asseguro que, sempre tânia, na casa de Simão, o leproso, que o deixastes de fazer para algum des- 7 chegou próximo dele uma mulher tes meus irmãos, mesmo que ao menor portando um frasco de alabastro, repleto deles, a mim o deixastes de fazer’. de perfume caríssimo, e lhe derramou 46 Sendo assim, estes irão para o sofri- sobre a cabeça, enquanto ele estava mento eterno, porém os justos, para a reclinado à mesa. vida eterna”. 8 Diante daquela cena, os discípulos se 8 Jesus ensina que o grande pecado do ser humano é a falta do exercício do amor verdadeiro: primeiro em relação ao seu Criador e depois para com seu semelhante e próximo (Tg 4.1-17). Há duas interpretações escatológicas mais aceitas, sobre esse aspecto do Julgamento: 1) Vai acontecer no início de um reino milenar na terra e definirá quem terá o direito de fazer parte do Reino (vv.31,34), com base no tratamento dispensado ao povo israelense (“meus irmãos, mesmo que ao menor deles” – vv.40-46) no período anterior à Grande Tribulação (vv.35-40, 42-45). 2) Para muitos estudiosos, o Julgamento ocorrerá diante do Trono Branco no final dos tempos (Ap 20.11-15). Seu objetivo será identificar as pessoas de todas as épocas, culturas, povos e nações que poderão ingressar no reino eterno dos salvos e aqueles que serão condenados a viver em punição eterna no inferno (vv.34,36). A base desse julgamento definitivo será a atitude de amor com a qual, aqueles que afirmam crer em Deus, trataram seus irmãos e semelhantes (1Jo 3.11-24). Capítulo 26 1 Jesus deixou o templo para nunca mais voltar a ele (24.1). Com a saída de Jesus o templo perdeu sua característica de habitação de Deus. Em frente ao templo, contemplando Jerusalém, Jesus prediz o futuro e seu glorioso retorno. Depois de um período de grande atividade, chega o momento do silêncio e do sacrifício maior. Os Evangelhos não relatam quase nada sobre a juventude de Jesus. Entretanto, narram a história do martírio e do holocausto do Salvador, praticamente, hora a hora. A Paixão (o sacrifício) e a ressurreição, que inicialmente eram fatos enigmáticos e incompreensíveis para os apóstolos, tornam-se agora o significado absoluto de suas vidas e obras. A Paixão de Cristo corresponde à Páscoa dos judeus (em hebraico Pêssach que significa “passar por cima” ou “passar ao lado”): celebração do livramento do povo hebreu do jugo egípcio ocorrido há mais de 35 séculos (Êx 12.13,23,27). Os cordeiros (simbolização de Jesus Cristo) e os cabritos eram sacrificados, em penitência (arrepen- dimento) pelos pecados cometidos, no dia 14 de Nisã (mês judaico por volta de março e abril). A refeição da Páscoa era comida no fim dessa mesma tarde. Como o dia judaico começava após o pôr-do-sol do dia anterior, a Festa da Páscoa foi celebrada no dia 15 de Nisã, uma quarta-feira. Em seguida ocorria a Festa dos Pães sem Fermento (ou Pães Asmos), durava mais sete dias, e fazia parte das comemorações da Páscoa (Êx 12.15-20; 23.15; 34.18; Dt 16.1-8). 2 Os chefes dos sacerdotes, chamados de “principais” e os anciãos (sábios e líderes religiosos do povo), reuniram-se como Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) no palácio de Caifás, saduceu, eleito sumo sacerdote (de 18 a 36 d.C), genro e sucessor de Anás (Jo 18.13), que ocupou o cargo entre os anos de 6 a 15 d.C.MT_B.indd 61 14/8/2007, 14:07
  • 62. MATEUS 26 62 indignaram e comentaram: “Por que este gue?”. E lhe pagaram o preço: trinta moe- desperdício? das de prata. 9 Porquanto esse perfume poderia ser 16 E, desse momento em diante, procu- vendido por alto preço e o dinheiro dado rava Judas uma ocasião apropriada para aos pobres!”. entregar Jesus. 10 Percebendo isso, Jesus repreendeu-os: “Por que molestais esta mulher? Ela pra- A Ceia do Senhor ticou uma boa ação para comigo. (Mc 14.12-26; Lc 22.7-23; Jo 13.18-30) 11 Pois, quanto aos pobres, sempre os 17 No primeiro dia da festa dos Pães tendes convosco, mas a mim nem sem- Asmos, os discípulos aproximaram-se de pre me tereis. Jesus e o consultaram: “Onde desejas que 12 Ao derramar sobre o meu corpo esse preparemos a refeição da Páscoa?”. bálsamo, ela o fez como que preparando- 18 Ao que Jesus os orientou: “Ide à me para o sepultamento.3 cidade, procurai um certo homem e 13 Com toda a certeza vos afirmo: Em falai a ele: ‘O Mestre manda dizer-te: É todos os lugares do mundo, onde este chegada a minha hora. Desejo celebrar evangelho for pregado, igualmente será a Páscoa em tua casa, juntamente com contado o que essa mulher realizou, meus discípulos.’” como um memorial a ela”. 19 Os discípulos fizeram como Jesus lhes havia instruído e prepararam a O pacto da traição Páscoa.4 (Mc 14.10-11; Lc 22.3-6) 14 E aconteceu que um dos Doze, chama- Jesus revela o traidor do Judas Iscariotes, foi ao encontro dos (Mc 14.17-21; Lc 22.21-23; Jo 13.21-30) chefes dos sacerdotes e lhes propôs: 20Ao pôr-do-sol, estava Jesus reclinado, 15 “O que me dareis caso eu vo-lo entre- próximo à mesa, com os Doze.5 3 Era costume, no antigo Oriente, ungir a cabeça dos convidados em dias festivos, que praticamente deitavam-se sobre um tipo de almofada ou divã, ao redor de uma mesa bem mais baixa do que as nossas. Com o braço esquerdo se apoiavam sobre as al- mofadas e com o direito se serviam dos alimentos. Davi escreve um poema em louvor a Yahweh (O nome impronunciável de Deus, em hebraico: ), no qual descreve a felicidade que há na comunhão com Deus usando a metáfora de uma ceia preparada pelo Senhor (Sl 23.5). Jesus foi visitar alguns amigos em Betânia, uma aldeia que distava cerca de 3 km de Jerusalém. O anfitrião, Simão, fora curado de lepra por Jesus (Mc 14.3). Lázaro estava presente, Marta servia e Maria, irmã de Lázaro e Marta, assume a responsabilidade da hospitalidade amorosa e reverente (Lc 7.46), mas realiza o ato tradicional à sua maneira. Um escravo ungiria a cabeça do hóspede do seu senhor com óleo e lavaria seus pés com água. Maria ofereceu a mais preciosa e cara essência de plantas (nardo, palavra persa nard que em sânscrito nalàdá significa “óleo perfumado”) importada da Índia (em grego Myrón). Marcos (Mc 14.5) informa que o valor daquele alabastro (frasco de mármore lacrado e com gargalo longo, o qual era quebrado no instante do uso, e cujo conteúdo devia ser todo consumido em uma só aplicação para não perder suas propriedades químicas e aromáticas) era de 300 denários, o que correspondia ao salário anual de um trabalhador ou soldado romano (20.2; Jo 6.7). Maria ungiu a cabeça e os pés de Jesus (Mc 14.3-9; Jo 12.1-8) realizando a cerimônia completa de honra e hospitalidade com a qual os judeus deveriam acolher seus irmãos e amigos, numa demonstração de temor a Deus, humildade e amor ao próximo, princípios básicos da Torá (os primeiros cinco livros da Bíblia, a Lei de Deus) e dos ensinos de Jesus (Lc 7.44; Jo 13.1-17). Considerando que Judas traiu Jesus por cerca de 120 denários, é fácil imaginar sua irritação ao ver a atitude de Maria em relação unicamente à pessoa de Cristo (Jo 12.4-5). Na época da Páscoa era um costume judaico presentear os pobres. Jesus aproveita para esclarecer os discípulos e amigos quanto à proximidade do seu martírio, salientando que Maria havia compreendido verdadeiramente quem é Deus, qual o sentido da adoração (que é consagrar a Deus os nossos mais caros afetos), e que estava cuidando da preparação (somente os nobres tinham seu corpo embalsamado ou mumificado) do seu corpo para o sepultamento. Jesus ainda faz uma alusão à Lei e afirma que a ajuda e o acolhimento aos mais necessitados é tarefa contínua do povo de Deus todos os dias do ano (Dt 15.11). Jesus ergue um memorial a Maria, uma pessoa desconhecida na história, mas cujo ato inspira gerações e gerações em todo o mundo, a ter uma visão correta e prática do que significa amar a Deus. 4 Os discípulos prepararam a Ceia conforme a orientação de Jesus e as prescrições da Lei (Êx 12.1-11) e tiveram de imolar o cordeiro pascal. Jesus celebrou sua última Páscoa judaica com seus discípulos na véspera da data oficial, pois no dia do feriado religioso e nacional que marca a Páscoa, Ele mesmo estaria sendo retirado, morto, da Cruz. O Cordeiro Pascal Imolado para a Salvação de todo aquele que nele crer (Jo 1.12). 5 É interessante notar a ordem dos acontecimentos daquela noite: a refeição pascal; o ato de lavar os pés dos discípulos (JoMT_B.indd 62 14/8/2007, 14:07
  • 63. 63 MATEUS 26 21 E, durante a refeição, Jesus revelou: 29 E vos afirmo que, de agora em diante, “Com toda a certeza vos afirmo que um não mais tomarei deste fruto da videira dentre vós me trairá”. até aquele dia em que beberei o novo 22 Essa declaração consternou a todos e vinho, convosco, no Reino de meu Pai”. começaram a indagar, um após outro: 30 E assim, após terem cantado um hino “Senhor! Porventura, serei eu?”. de louvor, saíram para o monte das Oli- 23 Indicou-lhes Jesus: “Aquele que comeu veiras.7 juntamente comigo, do mesmo prato, este é o que vai me trair. Jesus prediz a traição de Pedro 24 O Filho do homem vai, como de fato (Mc 14.27-31; Lc 22.31-34; Jo 13.36-38) está escrito a respeito dele. Mas ai daque- 31 Então Jesus lhes revelou: “Ainda esta le que trai o Filho do homem! Melhor noite, todos vós me abandonareis. Pois lhe seria jamais haver nascido”. assim está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as 25 Então Judas, que haveria de consumar ovelhas do rebanho serão afugentadas’.8 a traição, disse: “Acaso, seria eu, meu 32 Todavia, depois de ressuscitar, seguirei Mestre?”. E Jesus afirmou-lhe: “Sim, tu o adiante de vós rumo à Galiléia”. declaraste!”.6 33 Respondeu-lhe Pedro: “Ainda que venhas a ser motivo de escândalo para A Ceia do Senhor todos, eu jamais te abandonarei!”. (Mc 14.22-26; Lc 22.14-20; 1Co 11.23-25) 34 Replicou-lhe Jesus: “Com certeza te asse- 26 Enquanto comiam, Jesus pegou um guro que, ainda nesta noite, antes mesmo pão, deu graças, quebrou-o, e o deu aos que o galo cante, três vezes tu me negarás”. seus discípulos, recomendando: “Tomai, 35 Então Pedro lhe declarou: “Mesmo que comei; isto é o meu corpo”. seja necessário que eu morra junto a ti, de 27 Em seguida tomou um cálice, deu graças modo algum te negarei!”. E todos os discí- e o entregou aos seus discípulos, procla- pulos fizeram a mesma afirmação. mando: “Bebei dele todos vós. 28 Pois isto é o meu sangue da aliança, Jesus ora no Getsêmani derramado em benefício de muitos, para (Mc 14.32-42; Lc 22.39-46) remissão de pecados. 36 Seguiu Jesus com seus discípulos e 13.1-20); a revelação de Judas como o traidor (Mt 26.21-25); a deserção de Judas (Jo 13.30); a instituição da Ceia do Senhor (Mt 26.26-29); os discursos no Cenáculo e a caminho do Getsêmani (Jo 14, 15 e 16); a oração sacerdotal de Jesus (Jo 17); a angústia de Cristo no Getsêmani (Mt 26.36-46); o desfecho da traição e a prisão de Jesus (Mt 26.47-56). 6 Jesus não foi vítima involuntária das artimanhas do Diabo nem da inveja ou da avareza dos homens. Jesus não foi surpre- endido pelos ardis do inferno nem pelas fraquezas da humanidade. Ele, por sua livre e espontânea vontade, se ofereceu em obediência ao Pai e em sacrifício (holocausto) para resgate de todo o mundo. Jesus respondeu, decerto, a Judas em voz baixa, para que os demais discípulos não ouvissem e viessem a impedir o intento do traidor. 7 O NT apresenta quatro relatos sobre a Ceia do Senhor (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24; Lc 22.19,20 e em 1 Co 11.23-25). Lucas e Paulo registraram a ordem de Jesus para que a Igreja continuasse a celebrar a Ceia, como um memorial, até a Sua volta iminente. Jesus escolheu o pão sem fermento e o vinho comum para serem apenas símbolos (metáforas físicas) do que Ele é para os crentes (todos os que crêem em Cristo) e do seu ato de sacrifício, para pagar o preço do pecado de todo ser humano. Por isso, todos os seguidores de Jesus (discípulos) são convidados e devem participar da Ceia do Senhor todas as vezes em que for celebrada, comendo do pão e tomando do vinho; com consciência pura diante de Deus (1 Co 11.28), louvor e esperança no coração. A palavra “eucaristia” vem de um termo grego que significa “dar graças”. A primeira “Aliança” foi estabelecida pela aspersão do sangue de animais sacrificados (Êx 24.8; Jr 31.31; Zc 9.11; Hb 9.19-28). A nova e derradeira “Aliança” foi instaurada pelo próprio sangue do Filho de Deus, vertido sobre a verga e umbral da Cruz (Hb 8.7-13). Depois de cearem, Jesus e seus discípulos cantaram um hino tradicional de louvor a Deus, baseado nos salmos 115 a 118, chamado em hebraico Hallel (Louvor) da Páscoa. Em seguida partiram para o Getsêmani (nome que significa em hebraico “prensa de azeite”), espécie de grande pomar localizado na encosta inferior do monte das Oliveiras, também chamado de “Jardim das Oliveiras”, um dos locais preferidos de Jesus para oração e meditação (Lc 22.39; Jo 18.2) e onde se esmagava o fruto das oliveiras para a produção de azeite. 8 Todos os seguidores de Jesus, inclusive os discípulos mais chegados, abandonariam o Senhor antes do final daquela noite (verso 56) conforme já havia sido profetizado (Zc 13.7).MT_B.indd 63 14/8/2007, 14:07
  • 64. MATEUS 26 64 chegando a um lugar chamado Getsê- 44 Então, retirou-se novamente, e foi orar mani disse-lhes: “Assentai-vos por aqui, pela terceira vez, proferindo as mesmas enquanto vou ali para orar”. palavras. 37 Levou consigo a Pedro e aos dois filhos 45 Passado algum tempo, voltou aos de Zebedeu, e começando a entristecer- discípulos e indagou: “Ainda dormis e se ficou profundamente angustiado. descansais? Eis que a hora é chegada! 38 Então compartilhou com eles dizendo: Agora o Filho do homem está sendo “A minha alma está sofrendo dor extre- entregue nas mãos de pecadores. ma, uma tristeza mortal. Permanecei 46 Levantai-vos e sigamos! Eis que meu aqui e vigiai junto a mim”. traidor está se aproximando”.10 39 Seguindo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: Jesus é traído e preso “Ó meu Pai, se possível for, passa de mim (Mc 14.43-50; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11) este cálice! Contudo, não seja como Eu 47 E, estando Ele ainda a falar, eis que desejo, mas sim como Tu queres”. chegou Judas, um dos Doze, e trazia 40 Mas, ao retornar à presença dos seus consigo uma grande multidão armada discípulos os encontrou dormindo e de espadas e porretes, vinda da parte questionou a Pedro: “E então? Não pudes- dos chefes dos sacerdotes e dos líderes tes vigiar comigo durante uma só hora? religiosos do povo.11 41 Vigiai e orai, para não cairdes em tenta- 48 Mas o traidor havia combinado um ção. O espírito, com certeza, está prepara- sinal com eles, informando-lhes: “Aquele do, mas a carne é fraca”.9 a quem eu saudar com um beijo, esse é 42 E afastando-se uma vez mais, orou quem procurais, prendei-o!”. dizendo: “Ó meu Pai, se este cálice não 49 Então, aproximando-se rapidamente puder passar de mim sem que eu o beba, de Jesus, disse-lhe Judas: “Eu te saúdo, ó seja feita a tua vontade”. Mestre!”. E lhe deu um beijo. 43 Quando voltou, entretanto, surpre- 50 Jesus, contudo, lhe perguntou: “Amigo, endeu novamente seus discípulos dor- para que vieste?”. os homens avaçaram mindo, pois não suportaram os olhos sobre Jesust?”. No mesmo instante sobre pesados de sono. Jesus e o prenderam.12 9 Este é um dos trechos bíblicos onde a completa humanidade de Jesus é retratada com mais evidência (Hb 5.7). Jesus demons- tra que o verdadeiro caráter de uma pessoa se revela nos momentos mais difíceis e dramáticos. Aprendemos também a aceitar que haverá ocasiões em nossa vida em que teremos de enfrentar o sofrimento sem o apoio, conforto ou companhia dos amigos. O Senhor, porém, estará sempre presente. Por isso Jesus pede que os discípulos vigiem com Ele. Não apenas para seu consolo, posto que se afasta dos discípulos à distância de um arremesso de pedra (como se relata nos originais), mas para que eles pudessem se preparar espiritualmente para a grande batalha. Jesus clama por seu Abba (em aramaico “pai querido”). Experimenta a fraqueza humana ao extremo, mas sem pecar. Cita Sl 43.5. Busca a orientação e o consolo do Pai. Sente quão terrível é ficar sem o amparo de Deus, ainda que por instantes, e assume sobre si todo o pecado que a raça humana deveria pagar por sua infidelidade para com Deus, desde os primórdios (Gn 2.15-17; 3.22-24; 4.1-8). O ato de obediência amorosa e aceitação espontânea de Jesus no Getsê- mani corresponde à tentação no deserto, quando Jesus rejeitou governar o mundo sem Deus. Agora Ele concorda em morrer por nós com Deus. Por isso, sua morte e ressurreição foram ainda mais relevantes que sua vida de testemunho e milagres, ao contrário de todos os líderes que a terra já conheceu (1Co 2.2). Contudo, o Pai não responde. O Filho, em agonia, insiste por três vezes (Lc 22.44). Deus fica em silêncio na imensidão da noite; os amigos dormem. Jesus compreende que a resposta às suas aflições já havia sido dada (Hb 5.8; 12.2). O Pai tinha de permitir o cumprimento da história. Jesus se levanta da batalha, liberto dos seus temores e aflições; consciente do alto preço a pagar, mas resoluto quanto à sua missão (Lc 22.22; Hb 9.14). 10 A frase de Jesus, nos melhores originais, indica não que ele tenha procurado fugir, mas, sim, que partiu e convocou seus discípulos para se encontrarem com os oficiais que o procuravam. 11 Judas organiza sua emboscada contra Jesus acompanhado dos mais importantes sacerdotes, mestres da Lei e líderes religio- sos do povo. E cerca de 500 policiais armados e serventes do Sinédrio (Tribunal), destinados a manter a ordem pública; soldados especiais da corte romana (Jo 18.3), vindos da fortaleza de Antônia, equipados com armas e lanternas (apesar da forte lua cheia da época), pois conheciam e temiam os poderes sobrenaturais de Jesus, embora Ele nunca os tenha usado em benefício próprio. 12 A palavra grega usada para descrever o beijo de Judas é kataphilein, o mesmo tipo de saudação calorosa com que o paiMT_B.indd 64 14/8/2007, 14:07
  • 65. 65 MATEUS 26 51 Eis que um dos que estavam com Je- 58 Contudo Pedro seguiu a Jesus de longe sus, estendendo a mão, puxou a espada até o pátio do sumo sacerdote, entrou e e ferindo o servo do sumo sacerdote, sentou-se junto aos guardas, para sondar decepou-lhe uma das orelhas. qual seria o fim daquela ocorrência. 52 Mas Jesus lhe ordenou: “Embainha 59 Mas os líderes dos sacerdotes e todo a tua espada; pois todos os que lançam o Sinédrio estavam tentando suscitar mão da espada pela espada morrerão! um falso testemunho contra Jesus, para 53 Ou imaginas tu que Eu, neste momen- que tivessem o direito de condená-lo à to, não poderia orar ao meu Pai e Ele co- morte.14 locaria à minha disposição mais de doze 60 Todavia, nada encontraram, apesar legiões de anjos? de se terem apresentado vários depoi- 54 Entretanto, como então se cumpririam mentos inverídicos. Ao final, entretanto, as Escrituras, que afirmam que tudo deve compareceram duas testemunhas que acontecer desta maneira?”. alegaram: 55 E naquele mesmo instante Jesus se dirige 61 “Este homem afirmou: ‘Tenho poder às multidões indagando-lhes: “Lidero Eu para destruir o santuário de Deus e re- algum tipo de rebelião, para que venham construí-lo em três dias’”.15 contra mim com espadas e porretes e me 62 Então o sumo sacerdote levantou-se e prendam? Pois todos os dias estive ensinan- interrogou a Jesus: “Não tens o que res- do no templo e vós não me prendestes! ponder a estes que depõem contra ti?”. 56 Todavia, esses fatos todos ocorreram 63 Mas Jesus manteve-se em silêncio. em cumprimento às Escrituras dos Diante do que o sumo sacerdote lhe inti- profetas”. E assim, todos os discípulos mou: “Eu te coloco sob juramento diante abandonaram a Jesus e fugiram.13 do Deus vivo e exijo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus!”.16 Jesus diante do tribunal 64 “Tu mesmo o declaraste”, afirmou- (Mc 14.53-65; Lc 22.63-71; Jo 18.12-14, 19-24) lhe Jesus. “Contudo, Eu revelo a todos 57Então, os que prenderam Jesus o con- vós: Chegará o dia em que vereis o duziram à presença de Caifás, o sumo Filho do homem assentado à direita do sacerdote, em cuja residência estavam Todo-Poderoso, vindo sobre as nuvens reunidos os mestres da lei e os anciãos. do céu!”. recebeu o filho pródigo (Lc 15.20). Apesar de Judas estar cometendo uma ofensa terrível, Jesus consegue ver na pessoa de Judas a figura do ser humano distante de Deus: avarento, invejoso, arrogante, iludido, tresloucado e perdido; mas, ainda assim, alguém a quem Jesus amava e considerava como membro da sua família de discípulos. Da mesma maneira o Senhor amou os seus próprios algozes (Lc 23.34) e pela salvação de todos nós se entregou (Lc 15.1-2; Jo 3.16). 13 O discípulo amado, João, escrevendo seu Evangelho, após a morte dos protagonistas, esclarece que foi Pedro quem, num golpe de espada, cortou fora a orelha de Malco, um dos servos do sumo sacerdote (Jo 18.10). Jesus declara que poderia receber de Deus uma ajuda imediata, com mais de 72.000 anjos (considerando que, naquela época, uma legião era formada por até 6.000 soldados). Lembremos que apenas um anjo foi suficiente para ferir todo o Egito (Êx 12.23-27) e libertar o povo de Israel do cativei- ro. Jesus estava consciente de que a vontade do Pai deveria ser cumprida em todos os detalhes (Zc 13.7). Aceitou tomar o cálice do sacrifício histórico e servir de holocausto para a libertação do crente (toda pessoa que crê em Sua obra vicária e Palavra). 14 O julgamento de Jesus foi injusto e ilícito por vários motivos, especialmente por ter ocorrido durante a noite e com testemunhas e acusações forjadas, contrariando as leis judaicas (Dt 19.15) e romanas da época. Jesus foi levado primeiro para uma audiência perante Anás, ex-sumo sacerdote (Jo 18.12-14, 19.23); depois para julgamento diante de Caifás, sumo sacerdote em exercício e genro de Anás, e do Supremo Concílio Judaico, chamado de Sinédrio (26.57-68; 27.1). Em seguida, levado ao julgamento romano, diante de Pilatos (Mc 15.2-5), depois levado à presença de Herodes Antipas (Lc 23.6-12), retornando à presença de Pilatos (Mc 15.6-15) para conclusão e condenação final. 15 Obrigar um réu a declarar algo sob juramento diante de Deus era uma atitude ilícita, claramente expressa na jurisprudência israelita, que não tolerava qualquer tipo de tortura ou coação moral e religiosa. 16 Jesus jamais fez tal afirmação. As falsas testemunhas distorceram as palavras de Jesus (Jo 2.19), para forjar uma acusação de blasfêmia, cuja pena era a morte.MT_B.indd 65 14/8/2007, 14:07
  • 66. MATEUS 26, 27 66 65 Diante disso, o sumo sacerdote rasgou 74 Então, ele começou a jurar e a pedir as suas vestes denunciando: “Ele blasfe- a Deus que o amaldiçoasse caso não es- mou! Por que necessitamos de outras tivesse dizendo a verdade, e exclamou: testemunhas? Eis que acabais de ouvir tal “Não conheço esse homem!”. No mes- blasfêmia!”.17 mo instante um galo cantou. 66 “Que vos parece?”. Responderam eles: 75 E naquele momento, Pedro se lembrou “Culpado e merecedor de morte é!”. da palavra de Jesus que lhe advertira: 67 Neste momento, alguns cuspiram em “Antes que o galo cante, tu me negarás seu rosto e o esmurravam, enquanto ou- três vezes.” E, deixando aquele lugar, tros lhe desferiam tapas, vociferando: chorou amargamente.20 68 “Profetiza-nos, pois, ó Cristo, quem é que te bateu?”.18 Jesus é levado a Pilatos (Mc 15.1; Lc 23.1-2; Jo 18.28-32) Quando Pedro negou a Jesus (Mc 14.66-72; Lc 22.54-62; Jo 18.15-18, 25-27) 69 Pedro encontrava-se assentado do lado 27 Assim que o dia amanheceu, to- dos os chefes dos sacerdotes, e os líderes religiosos, anciãos do povo, cons- de fora da casa, no pátio, quando uma piraram para condenar Jesus à morte.1 criada, aproximando-se dele, afirmou: 2 Então, amarrando-o, levaram-no e o “Tu também estavas com Jesus, o galileu!”. entregaram a Pilatos, o governador.2 70 Ele, entretanto, negou a Jesus perante todos os presentes, declarando: “Não sei Judas com remorso suicida-se! do que falas.”. 3 E sucedeu que Judas, seu traidor, ao ver 71 E, saindo em direção à entrada do que Jesus havia sido condenado, sentiu pátio, foi ele reconhecido por outra terrível remorso e procurou devolver criada, a qual o denunciou a todos que ali aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos as se achavam, exclamando: “Este homem trinta moedas de prata. estava com Jesus, o Nazareno!”. 4 E declarou: “Pequei, pois traí sangue 72 Mas Pedro, sob juramento, o negou inocente”. Mas eles alegaram: “O que uma vez mais, afirmando: “Não conheço temos a ver com isso? Esta é tua ques- tal indivíduo”.. tão!”. 73 Algum tempo mais tarde, os que esta- 5 Judas atirou então as moedas de prata vam ao redor aproximaram-se de Pedro dentro do templo e, abandonando aque- e o acusaram: “Com toda a certeza és le lugar, foi e enforcou-se. igualmente um deles, porquanto o teu 6 Entretanto, os chefes dos sacerdotes modo de falar o denuncia”.19 ajuntaram as moedas e comentaram: “É 17 O sumo sacerdote era proibido pela lei de agir dessa maneira e com tamanha força emocional (Lv 10.6); mas, para caracterizar seu horror diante do suposto pecado de infâmia e jogar o público presente contra Jesus, ele se permitiu o chamado “ato extremo”. 18 Marcos informa que vendaram os olhos de Jesus (Mc 14.65), o que explica a provocação em tom de zombaria. 19 Pedro, como Jesus, tinha um sotaque indiscutivelmente galileu, facilmente identificado pelos naturais de Jerusalém. 20 A seqüência de erros cometidos por Pedro tem muito a nos ensinar: 1) Demasiada autoconfiança e falta de humildade (v.33). 2) Desobediência ao pedido de Jesus para dedicar-se à vigilância e oração (vv.40-44). Esquecimento quanto às advertências e conselhos de Jesus (v.75; conforme v.34). Conclusão: grandes quedas na vida cristã são conseqüência da prática de pequenos erros despercebidos ou tratados com displicência. Capítulo 27 1 Como a Lei não permitia que o Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) tivesse reuniões juridicamente válidas, durante a noite, for- mou-se um outro conselho logo ao nascer do dia com o propósito de oficializar a acusação de “traição” perante a autoridade civil (Lc 23.1-14), mais incriminadora para os romanos do que “blasfêmia” para os juízes judeus; e assim, levar Jesus à sentença de morte. 2 O Sinédrio tinha sido destituído pelo governo romano do seu poder de condenar qualquer cidadão à pena de morte. Por esse motivo, Jesus só poderia ser executado por ordem expressa de Pilatos, o governador romano da Judéia (26 a 36 d.C.). Sua residência oficial ficava em Cesaréia, no litoral do Mediterrâneo. Quando visitava Jerusalém, especialmente nas festas nacionais, para garantir a ordem e ostentar o domínio de Roma, hospedava-se no deslumbrante palácio erguido por Herodes, o Grande, localizado a oeste do Templo, onde presidiu o julgamento romano de Jesus.MT_B.indd 66 14/8/2007, 14:08
  • 67. 67 MATEUS 27 contra a lei depositarmos este dinheiro tume do governador dar liberdade a um no cofre das ofertas, pois foi obtido a prisioneiro escolhido pelo povo. preço de sangue”. 16 Detinham eles, naqueles dias, um 7 Mas concordaram em usar aquelas criminoso muito conhecido de todos, moedas de prata para comprar o Campo chamado Barrabás. do Oleiro, e formar um cemitério para 17 Então, Pilatos dirigiu-se à multidão estrangeiros. que ali se havia reunido e lhes propôs: 8 Por esse motivo ele se chama Campo de “A quem desejais que eu vos solte, a Bar- Sangue até estes dias. rabás ou a este Jesus, que é chamado de 9 E assim se cumpriu o que fora anuncia- Messias?”. do pelo profeta Jeremias: “Então eles to- 18 Isso porque tinha conhecimento de maram as trinta moedas de prata, o valor que o haviam entregado por inveja. que lhe atribuíram os filhos de Israel.3 19 E aconteceu que estando Pilatos senta- 10 E as usaram para comprar o Campo do no trono do tribunal, sua esposa lhe do Oleiro, assim como o Senhor me ha- enviou a seguinte mensagem: “Não faças via indicado”. nada contra este homem inocente; pois hoje, em sonho, muitas coisas sofri por Pilatos lava as mãos causa dele”.5 (Mc 15.1-15; Lc 23.1-5, 13-25; Jo 18.33-19.16) 20 Todavia, os chefes dos sacerdotes e os 11 Jesus foi conduzido à presença do go- anciãos influenciaram a multidão para vernador; e este o interrogou: “És tu o exigir o livramento de Barrabás e a exe- rei dos judeus?”. Afirmou-lhe Jesus: “Tu cução de Jesus. o dizes”.4 21 Então, o governador entregou à mul- 12 Então, passou a ser acusado pelos che- tidão o dilema: “Qual dos dois homens fes dos sacerdotes e pelos anciãos, mas quereis que eu vos deixe livre?” Exclama- Ele nada respondeu. ram eles: “Barrabás!”. 13 Foi quando lhe questionou Pilatos: 22 Pilatos ainda questionou-lhes: “Se assim “Não ouves a acusação que todos levan- é, que farei de Jesus, que é chamado de tam contra Ti?” Messias?” Bradaram todos: “Crucifica-o!”. 14 Jesus, entretanto, mantinha-se em ab- 23 Outra vez insta Pilatos: “Por quê? Que soluto silêncio; e, por isso, ficou o gover- crime cometeu este homem?”. Apesar de nador fortemente impressionado. tudo, a multidão esbravejava ainda mais 15 Contudo, por ocasião da festa, era cos- furiosa: “Crucifica-o!”. 3 Lucas (At 1.18) informa que Judas comprou um terreno argiloso (Campo de Sangue ou Vale da Matança de Jr 19.1-13 com Zc 11.12,13 e Jr 18.2-12 com Jr 32.6-9), pois pela lei judaica considerava-se a aquisição em nome da pessoa da qual provinha o dinheiro, mesmo no caso de falecimento. Enforcou-se e foi empalado (suplício persa usado algumas vezes pelos exércitos israelenses, Gn 40.19; Et 2.23, e que consistia em espetar o condenado em uma estaca, pelo ânus, deixando-o assim até morrer). Quando seu corpo caiu apodrecido sobre a terra, partiu-se ao meio. Mateus faz alusão a dois textos do AT para revelar o cumpri- mento desta terrível profecia (Jr 32.6-9 e Zc 11.12-13). Era comum citar-se o profeta maior quando se combinavam seus escritos com profetas menores (assim como Marcos 1,2,3 cita Ml 3.1 e Is 40.3, mas atribui todo o texto a Isaías). Judas sempre teve olhos somente para si mesmo e seus interesses. Por isso, em vez de chorar e se arrepender como Pedro, não consegue tirar os olhos de si mesmo e do seu pecado e só viu a morte como solução. Exatamente o que o Diabo espera que todo ser humano faça. 4 Flávio Josefo, historiador judeu que viveu em Roma entre os séculos I e II d.C.; narra vários atos de impiedade e falta de sabedoria de Pilatos, cujo principal registro na história está ligado exclusivamente à sua atuação na condenação de Jesus. Pilatos desviava fundos do templo, massacrou alguns samaritanos sem um julgamento justo, foi deposto pelos romanos e suicidou-se entre os anos 31 e 41d.C. 5 Pilatos era muito supersticioso e pesou-lhe o sonho de sua esposa pagã. Além disso, o nome “Barrabás” em aramaico significa “filho do pai” e Jesus era conhecido como “Filho do Pai” em relação a Deus. Pilatos percebeu a divindade de Jesus (Jo 19.11-12). Tentou aproveitar a tradição do indulto de Páscoa para influenciar a multidão a pedir a libertação de Jesus. Mas o povo, atiçado pelos sacerdotes e anciãos, sedento pela volta do bandido zelote (Mc 15.7,27; Jo 18.40) às suas atividadesMT_B.indd 67 14/8/2007, 14:08
  • 68. MATEUS 27 68 24 Percebendo Pilatos que não conseguia 28 Despojaram-no de suas vestes e o co- demover o povo, mas, ao contrário, um briram com um manto vermelho vivo. princípio de tumulto já era visível, or- 29 Trançaram uma coroa de espinhos e a denou que lhe trouxessem água, lavou forçaram sobre sua cabeça. Puseram em as mãos diante da multidão e exclamou: sua mão direita um caniço e, ajoelhando- “Estou inocente do sangue deste homem se diante dele, escarneciam exclamando: justo. Esta é uma questão vossa!”. “Salve! Salve! Ó Rei dos Judeus!”. 25 E todo o povo respondeu: “Caia sobre 30 Cuspiram nele e, tirando o caniço de sua nossas cabeças o seu sangue, e sobre nos- mão, espancavam-lhe com ele a cabeça. sos filhos!”.”6 31 Depois de haverem zombado dele, 26 Diante disso, Pilatos soltou-lhes Bar- despiram-lhe o manto e o vestiram com rabás, mandou que Jesus fosse flagelado suas próprias roupas. Em seguida, o leva- e o entregou para ser crucificado.7 ram para ser crucificado. Jesus é humilhado e agredido A crucificação do Rei (Mc 15.16-20) (Mc 15.22-32; Lc 23.32; Jo 19.17-24) 27E sucedeu que os soldados do gover- 32Assim que saíram, encontraram um nador conduziram Jesus ao Pretório e homem da cidade de Cirene, chamado agruparam toda a tropa ao redor dele.8 Simão, e o obrigaram a carregar a cruz.9 subversivas contra Roma, rejeita o “Filho de Deus” e aclama o “filho do homem pecador”. A humanidade, narcisista e hedonista, tende a ignorar o verdadeiro Deus e seus profetas e se entrega nas mãos de sua própria imagem e caráter, de um seu semelhante induzido pelo Diabo. 6 Pilatos, de sua cátedra (trono, cadeira, estrado) de juiz, evoca uma tradição judaica de obediência à Lei de Moisés (Dt 21.1-9), numa tentativa de esquivar-se da responsabilidade de condenar um justo à pena de morte, ainda mais sendo o “Filho de Deus”. Entretanto, uma pequena multidão ensandecida tomou para si e para seus descendentes todo o ônus daquele julgamento injusto. Alguns líderes justos se manifestaram contra, mas não foram ouvidos (Lc 23.51). Cerca de 40 anos mais tarde, mesmo antes do cerco a Jerusalém, o sangue dos judeus jorrava por todo país. Ao final do ano 66 foram trucidados mais de 20.000 judeus em Cesaréia, por seus próprios concidadãos gentios. Em Citópolis os sírios massacraram 13.000 judeus. Em Alexandria, mais de 50.000 judeus foram chacinados por cidadãos gregos e soldados romanos, e suas casas, reduzidas a cinzas. O massacre em Je- rusalém não poupou nem os bebês. O próprio pátio do templo virou um lago de sangue. Durante o sítio, os poucos sobreviventes esfomeados eram forçados a roer as próprias sandálias e cintos de couro. Diariamente mais de 500 judeus morriam crucificados, até que não houvesse mais madeira para confeccionar cruzes. Segundo o historiador Flávio Josefo, mais de um milhão de judeus foram mortos durante todo o período do sítio romano. Cerca de 97.000 homens jovens que sobreviveram foram vendidos como escravos, transformados em gladiadores ou morreram na arena do anfiteatro, lutando contra animais ferozes. 7 Pilatos tenta evitar a morte “do divino”, como teria se referido ao Senhor mais tarde, e saciar a sede sanguinária da multidão, submetendo Jesus a uma terrível sessão de açoites. Esse tipo de castigo era tão cruel que fora proibido aos cidadãos romanos, sob qualquer motivo. Apenas escravos e provincianos eram chicoteados como preparação para a crucificação. Os chicotes eram feitos de finas tiras de couro duro, trançadas com pedaços de osso, chumbo e espinhos agudos e venenosos. O martírio de Policarpo, por exemplo, é descrito nos documentos da comunidade de Esmirna como: “dilacerado pelos açoites, a ponto de ser possível ver os vasos sanguíneos interiores e a estrutura do seu corpo”. Eusébio relata sobre o flagelo do cristão Doroteu, sob Diocleciano: “até seus ossos ficaram expostos”. Por isso, eram comuns os flagelados morrerem antes da crucificação. Mas Jesus suportou tudo em silêncio (Is 53). Muito sacrifício foi oferecido para que os discípulos de hoje possam servir a Cristo com liberdade e alegria. 8 O Pretório era a fortaleza de Antônia, residência de Pilatos quando estava em Jerusalém. Dizia-se que uma “tropa” ou “coorte” era composta de um décimo dos soldados que formavam uma “legião”, algo entre 360 e 600 homens. 9 Tem início a via crucis ou via-sacra, o caminho da cruz. O Talmude relata que era costume oferecer ao condenado, antes da crucificação, uma bebida anestesiante, que algumas mulheres piedosas de Jerusalém mandavam preparar às suas custas. Entretanto (v.34), Jesus nega-se a aceitar esse tipo de alívio (Sl 69.19-21; Pv 31.6; Mc 15.23). A cruz era composta de duas peças de madeira, uma viga vertical staticulum e outra horizontal antenna. Na primeira, mais ou menos no centro, era fixado um pino de madeira, chamado de cornu chifre, sobre o qual o crucificado ficava montado. Os crucificados viviam em média cerca de doze horas. A febre que logo se manifestava causava um tipo de sede ardente. A crescente inflamação das feridas nas costas, mãos e pés, o ataque dos insetos e aves carniceiras que se aproximavam devido ao odor de sangue e dos excrementos, assim como a pressão do fluxo sanguíneo contra a cabeça, o pulmão e o coração, e o inchaço de todas as veias provocavam a mais horrível agonia e dor. Cícero dizia: “A crucificação é o mais cruel e terrível dos castigos”. A execução tinha de ocorrer fora da cidade (LvMT_B.indd 68 14/8/2007, 14:08
  • 69. 69 MATEUS 27 33 Chegaram a um lugar conhecido como dadeiramente por ele tem piedade, pois Gólgota, que significa Lugar da Caveira.10 afirmou: ‘Sou Filho de Deus!’”. 34 Deram-lhe para beber uma mistura 44 Igualmente o ultrajavam os ladrões de vinho com absinto; mas ele, depois de que ao seu lado haviam sido também prová-la, negou-se a beber. crucificados.11 35 E aconteceu que após sua crucificação, dividiram entre si as roupas que lhe per- A morte de Jesus na cruz tenciam, jogando sortes. (Mc 15.33-41; Lc 23.44-49; Jo 19.28-30) 36 E se acomodaram ali, para o vigiar. 45 Então, profundas trevas caíram por 37 Acima de sua cabeça fixaram por es- sobre toda a terra, do meio-dia às três crito a acusação forjada contra ele: “ESTE horas da tarde daquele dia.12 É JESUS, O REI DOS JUDEUS”. 46 E, por volta das três horas da tarde, Jesus 38 Dois ladrões foram crucificados com ele, clamou com voz forte: “Eloí, Eloí, lamá um à sua direita e outro à sua esquerda. sabactâni?”, que significa “Meu Deus, Meu 39 As pessoas que passavam lançavam- Deus! Por que me abandonaste?”. lhe impropérios, balançando a cabeça. 47 Mas alguns dos que ali estavam, ao 40 E exclamavam: “Ó tu que destróis o ouvirem isso, comentaram: “Ele chama templo e em três dias o reconstróis! Ago- por Elias”.13 ra salva-te a ti mesmo. Desce desta cruz, 48 Sem demora, um deles correu em se és o Filho de Deus!”. busca de uma esponja, embebeu-a em 41 Do mesmo modo, os chefes dos sa- vinagre, colocou-a na ponta de um cerdotes, os mestres da lei e os anciãos caniço, ergueu-a até Jesus e deu-lhe a zombavam dele, vociferando: beber. 42 “Salvou a muitos, mas a si mesmo não 49 Entretanto, os outros o censuraram: pode salvar-se. É o Rei de Israel! Desça “Deixa! Vejamos se Elias vem livrá-lo”. agora da cruz, e passaremos a crer nele. 50 Então Jesus exclamou, uma vez mais, 43 Pregou sua confiança em Deus. Então em alta voz e entregou o espírito.14 que Deus o salve neste instante, se ver- 51 No mesmo instante, o véu do santu- 24.14), como um sinal da exclusão da sociedade humana (Hb 13.12). João relata que Jesus saiu da cidade (Jo 19.17) e, segundo o costume (Mt 10.38), carregou pessoalmente sua cruz. Um seu discípulo africano, chamado Simão, de Cirene (região localizada na Líbia, onde viviam muitos judeus), foi constrangido (em grego, engareusan – palavra que tem a ver com o costume militar romano de obrigar os civis a entregar cartas) a seguir o caminho do Calvário, carregando a cruz de Jesus. Mais tarde, Simão e sua família serviram à comunidade cristã que se formava (Mc 15.21; At 6.9; Rm 16.13). 10 A palavra Gólgota é a tradução latina do nome em aramaico da nossa palavra Calvário. Um monte fora dos muros de Jeru- salém, que, visto de longe, se assemelha a uma caveira humana. 11 Jesus, Deus encarnado, foi cravado e erguido numa cruz entre o céu e a terra, fora da sua cidade amada, como sinal de vergonha e horror, com uma acusação escrita nas três principais línguas da sua época. Posto entre dois criminosos, foi escar- necido principalmente pelos mais religiosos e conhecedores das Escrituras. Cumpriram-se todas as profecias sobre o Messias, notadamente as descritas por Davi no Salmo 22 (mil anos antes do nascimento de Jesus). Cristo morreu pelos nossos pecados (1Co 15.3-4). Felizes são os que, humildemente, reconhecem esse fato. 12 Jesus foi crucificado às 9 horas da manhã (a terceira hora dos judeus da época, contada desde o raiar do sol). Ao meio dia (12 horas), densas trevas cobriram a terra. Às três da tarde Jesus expirou. As sete frases que Jesus pronunciou durante essas seis horas de martírio, estão registradas na seguinte ordem: Lc 23.34; Jo 19.26-27; Lc 23.43; Mt 27.46; Jo 19.28; Jo 19.30 e em Lc 23.46. 13 Jesus, num último fôlego, brada em seu dialeto de família, aramaico nazareno, o início do Salmo 22. Chegamos ao mais profundo do mistério da redenção. O Filho de Deus e Filho do homem experimenta a terrível e momentânea separação do Pai, para que seu sacrifício pudesse ser aceito e consumado em resgate de todos os que nele cressem em todas as eras (2Co 5.21). Os circunstantes não compreenderam bem essas palavras e deduziram que Jesus chamava por Elias. 14 Cristo não foi morto diretamente por alguém ou vencido por qualquer infecção (comum aos crucificados na época). Ele, vo- luntariamente, e no auge do seu poder espiritual entregou a sua vida humana (Jo 19.31-37). Depois do seu brado de vitória, Jesus explode seu próprio coração. Especialistas afirmam que foi por isso que, ao perfurarem seu lado com uma lança, imediatamente verteu uma mistura de sangue coagulado e soro (este tem aparência de água). Esse quadro clínico ocorre nos casos de rupturaMT_B.indd 69 14/8/2007, 14:08
  • 70. MATEUS 27 70 ário rasgou-se em duas partes, de alto a qual ele próprio havia mandado cavar na baixo. A terra estremeceu, e fenderam-se rocha. E, fazendo rolar uma grande pedra as rochas.15 sobre a entrada do sepulcro, retirou-se. 52 Os sepulcros se abriram, e os corpos 61 Estavam ali, assentadas em frente ao se- de muitos santos que haviam morrido pulcro, Maria Madalena e a outra Maria. foram ressuscitados. 53 E, deixando as sepulturas, logo após a Pilatos manda vigiar o sepulcro ressurreição de Jesus, entraram na cidade 62 No dia seguinte, isto é, no sábado, santa e apareceram para muitas pessoas. reuniram-se os principais sacerdotes e 54 E aconteceu que o centurião e os que os fariseus e foram até Pilatos e argu- com ele vigiavam a Jesus, vendo o terremo- mentaram: to e tudo o que se passava, foram tomados 63 “Senhor, recordamo-nos de que aque- de grande pavor e gritaram: “É verdade! É le enganador, enquanto vivia, prometeu: verdade! Este era o Filho de Deus!”. ‘Passados três dias ressuscitarei’. 55 Estavam presentes várias mulheres, 64 Manda, portanto, que o sepulcro dele observando de longe; eram discípulas, seja guardado até o terceiro dia, para que que vinham seguindo Jesus desde a Ga- não venham seus discípulos e, raptando liléia, para o servirem.16 o corpo, proclamem ao povo que ele 56 Entre as quais estavam Maria Mada- ressuscitou dentre os mortos. E esta der- lena; Maria, mãe de Tiago e de José; e a radeira fraude cause mais dano do que a mãe dos filhos de Zebedeu. primeira”. 65 Ao que ordenou Pilatos: “Levai con- O sepultamento do corpo de Jesus vosco um destacamento! Ide e guardai o (Mc 15.42-47; Lc 23.50-56; Jo 19.38-42) sepulcro como melhor vos parecer”. 57 Ao pôr-do-sol chegou um homem rico, 66 Seguindo eles, organizaram um siste- de Arimatéia, por nome José, o qual havia ma de segurança ao redor do sepulcro. E se tornado discípulo de Jesus. além de manterem um destacamento em 58 Teve ele uma audiência com Pilatos plena vigilância, lacraram a pedra.17 para pedir-lhe o corpo de Jesus, e Pilatos ordenou que lhe fosse entregue. Jesus foi ressuscitado! 59 Então, José tomou o corpo e o envol- (Mc 16.1-8; Lc 24.1-12; Jo 20.1-9) veu com um lençol limpo de linho. 60 E o colocou em um sepulcro novo, o 28 Tendo passado o sábado, ao raiar do primeiro dia da semana, Maria do pericárdio (o tecido celular que reveste o exterior do coração). Esse episódio anula uma teoria surgida no século XIX, a qual tentando explicar a ressurreição, alegava que Jesus desmaiou nesse momento, para então despertar no túmulo. 15 Desde Moisés sempre houve, no santuário, uma cortina (véu) de tecido que separava o ambiente do Santo dos Santos (Êx 26.37; 38.18; Hb 9.3). Lugar sagrado onde ninguém podia entrar a não ser o sumo sacerdote, e este apenas no Dia da Expiação. Este acontecimento foi trágico para os judeus, mas um grande sinal para os cristãos de todos os povos, culturas e épocas: Em Cristo ficou abolida toda e qualquer separação entre o pecador arrependido (adorador) e Deus, nosso Pai (Jo 14.6). O fato de o véu ter-se partido de alto a baixo, sem contato humano, demonstra que o próprio Senhor abriu um novo e vivo caminho para Sua Santa presença (Hb 10.20; Ef 2.11-22). E muitos vieram a ser reconciliados para sempre com Deus (At 6.7). 16 Jesus sempre tratou as mulheres com o respeito e a dignidade que Deus requer, diferentemente da forma como os homens as tratavam em sua época. Era proibido às mulheres aproximarem-se do crucificado. Aquela cena foi um escândalo. Várias dis- cípulas seguiram o Senhor desde o início do seu ministério, na Galiléia, e permaneceram servindo até sua morte e novo começo (28.1; Jo 20.11-18). O perfeito amor lança fora o medo (1Jo 4.18). 17 Dois juízes e membros do Sinédrio, que não compactuaram com a condenação de Jesus, José, da cidade de Arimatéia (uma próspera aldeia montanhosa a cerca de 32 km ao noroeste de Jerusalém) e Nicodemos (Jo 19.38-39), cuidaram do sepul- tamento de Cristo. Trataram das formalidades civis, das despesas, e proveram um túmulo novo (Is 53.9), nunca antes usado, que pertencia a José de Arimatéia e localizava-se no monte do Calvário (Jo 19.41). Os líderes civis e religiosos, para evitar qualquer tentativa de remoção do corpo e possível versão sobre a ressurreição do Mestre, violaram o sábado de Páscoa para tomar todas as providências necessárias e vigiar a área do túmulo.MT_B.indd 70 14/8/2007, 14:08
  • 71. 71 MATEUS 27, 28 Madalena e a outra Maria foram visitar Os sacerdotes subornam os guardas o túmulo.1 11 E sucedeu que enquanto as mulheres 2 E eis que aconteceu um forte terremoto, estavam a caminho, alguns dos guar- pois um anjo do Senhor desceu dos céus das foram à cidade e contaram aos e, chegando ao túmulo, rolou a pedra da chefes dos sacerdotes tudo o que havia entrada e assentou-se sobre ela. ocorrido. 3 O anjo tinha o aspecto de um relâm- 12 Então, os chefes dos sacerdotes reu- pago, e suas vestes eram alvas como a niram-se em conselho com os anciãos neve.2 e tramaram outro plano. Deram aos sol- 4 Os guardas foram tomados de grande dados vultosa quantia em dinheiro. pavor e ficaram paralisados de medo, 13 E lhes recomendaram que declaras- como mortos. sem a todos: “Os discípulos dele vieram 5 Contudo, o anjo dirigiu-se às mulheres durante a noite e raptaram o corpo, en- e lhes anunciou: “Não temais vós! Sei que quanto cochilávamos. viestes ver a Jesus, que foi crucificado. 14 Se isso chegar ao conhecimento do 6 Mas aqui Ele não está. Foi ressuscitado, governador, nós o persuadiremos a vosso como havia dito. Vinde e vede vós onde favor e vos livraremos de qualquer repri- Ele jazia. menda”.3 7 Ide caminhando depressa e anunciai 15 Os soldados receberam o dinheiro e aos seus discípulos: Ele ressuscitou den- fizeram como haviam sido orientados. tre os mortos e está seguindo adiante de E, por isso, essa versão dos aconteci- vós rumo à Galiléia. Lá o vereis. Atentai mentos se conta entre os judeus até o para o que vos disse!”. dia de hoje. 8 As mulheres abandonaram o túmu- lo correndo, amedrontadas, mas com A Grande Comissão grande júbilo, e foram imediatamente 16 Os onze discípulos rumaram para a anunciá-lo aos seus discípulos. Galiléia, em direção ao monte que Jesus 9 De repente, Jesus veio ao encontro delas lhes determinara. e as saudou: “Alegrai-vos!” Elas se apro- 17 Assim que o viram, prostraram-se ximaram dele, jogaram-se aos seus pés e o adoraram, mas alguns ficaram em abraçando-os, e o adoraram. dúvida. 10 Então Jesus lhes declarou: “Não te- 18 Então, Jesus aproximando-se deles mais! Ide e dizei aos meus irmãos que lhes assegurou: “Toda a autoridade me sigam para a Galiléia, lá eles me verão”. foi dada no céu e na terra. 1 Conforme o horário judaico, o domingo começava logo após o pôr-do-sol do sábado. Lucas nos informa que Maria Madalena e Maria, mulher de Clopas (Lc 24.1; Jo 19.25) saíram de madrugada, ainda escuro (Jo 20.12), para visitar o corpo de Jesus, lamentar e ungi-lo com mais especiarias. Chegaram ao túmulo com os primeiros raios da aurora na esperança de que lhes fosse autorizada a entrada para a continuação do ritual fúnebre (período de luto) judaico da época (Mt 28.1; Mc 16.2-3). 2 Deus manda seus anjos anunciarem o nascimento e a ressurreição de Jesus. Ele é concebido e ressuscitado pelo poder do Altíssimo (Lc 1.35; Rm 6.4; Ef 1.20). Essas mensagens são comunicadas em primeiro lugar a mulheres devotas e humildes e que receberam um nome simples, mas conhecido em todo o mundo: Maria (forma helenizada do nome hebraico Miriã, que foi derivado de um antigo vocábulo egípcio Marye, e que significa: princesa, amada, mulher de esperança). O anjo não rolou a pedra para que Jesus saísse do sepulcro, a pedra foi rolada para que as mulheres e, mais tarde, outras pessoas, entrassem e verificassem o túmulo vazio, o selo (lacre estatal feito com cordas que envolviam a pedra e eram atadas ao sepulcro com as marcas de Roma e do Sinédrio) rompido e nenhum outro sinal ou dano. Séculos mais tarde, expedições arqueológicas, como as organizadas pelo General Christian Gordon, localizaram esse túmulo e confirmaram algumas alterações para acomodar um corpo maior do que o de José de Arimatéia (segundo a tradição de baixa estatura). Contudo, análises físicas e químicas jamais atestaram qualquer vestígio de restos mortais na sepultura. O túmulo era novo quando foi oferecido para sepultar o corpo do Senhor e continuou novo após sua ressurreição. 3 Agostinho (354-430 d.C.) observou: “Se acordados, por que permitiram a alguém raptar o corpo de Jesus? E, se dormindo, como podiam declarar que foram os discípulos?” De qualquer modo seriam todos condenados à morte, não fosse o interesse dosMT_B.indd 71 14/8/2007, 14:08
  • 72. MATEUS 28 72 19 Portanto, ide e fazei com que todos os 20 ensinando-os a obedecer a tudo quanto povos da terra se tornem discípulos, ba- vos tenho ordenado. E assim, Eu estarei tizando-os em nome do Pai, e do Filho, e permanentemente convosco, até o fim do Espírito Santo; dos tempos”.4 líderes religiosos judaicos em divulgar uma falsa versão sobre o desaparecimento do corpo de Cristo e levar a população a não crer na intervenção divina, presenciada por soldados e discípulos, nas primeiras horas daquele domingo no monte Calvário. 4 Jesus recebeu todo o poder de Deus (em grego ) e do Senhor Ressuscitado parte a ordem plenipotenciária: Ide! (lite- ralmente “indo”, em grego ~). Agora esse “envio” não é provisório, limitado e transitório como em Mt 10, mas definitivo, ilimitado e permanente. Rompeu-se o estreitamento étnico das sinagogas e abriu-se a Salvação (comunhão com Deus) para todos os povos, raças e culturas. A comunidade de Jesus que abrange o mundo inteiro substituiu a “velha aliança” pela “nova aliança”, que congrega toda e qualquer pessoa cujo coração creia no Senhor para ser convertido em discípulo. Jesus ensinou e demonstrou com a sua própria vida o que significa ser um discípulo do Senhor (obediência a Deus). A tríplice ordem missionária (discipular, batizar e ensinar a discipular) é emoldurada pela garantia da onipresença de Jesus na alma daquele que crê (o crente). A essência da Igreja de Jesus é que o Ressuscitado continua vivo e atuante no indivíduo e na comunidade. Ao orarmos, não é mais necessário buscarmos a Deus nos céus, mas, sim, em nossos corações. A promessa da presença contínua de Deus é a chave de ouro com a qual vários livros da Bíblia são concluídos (Êx 40.38; Ez 48.35; Ap 22.20). Jesus, após ressuscitar, apareceu a várias pessoas em diversas ocasiões: a Madalena (Jo 20.11-18), a algumas discípulas (28.9-10), aos discípulos a caminho de Emaús (Lc 24.13-33), a Pedro (Jo 21.15-19; Lc 24.34-35), a dez discípulos no Cenáculo (Jo 20.19), aos onze discípulos (Jo 20.24-29), a sete discípulos na Galiléia (Jo 21.24-29), aos onze no monte, na Galiléia (Mt 28.16-17), a Tiago e a todos os apóstolos (1Co 15.7), a uma multidão no monte das Oliveiras (Lc 24.44-49), ao apóstolo Paulo (At 9.3-8).MT_B.indd 72 14/8/2007, 14:08