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Os deuses da humanidade e o deus que se revela

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  • 1. LUCIANO JOSÉ DIASOS DEUSES DA HUMANIDADE E O DEUS QUE SE REVELA CENTRO CRISTÃO DE ESTUDOS JUDAICOS (CCEJ) São Paulo 2011
  • 2. LUCIANO JOSÉ DIASOS DEUSES DA HUMANIDADE E O DEUS QUE SE REVELA Trabalho de conclusão do curso de Pós-Graduação Lato-Sensu em Cultura Judaico-Cristã, História e Teologia. Exigido pelo Centro Cristão de Estudos Judaicos como Requisito parcial para conclusão do curso de Especialização. Orientador: Professor Ms. Ir. Elio Passeto. CENTRO CRISTÃO DE ESTUDOS JUDAICOS (CCEJ) São Paulo 2011
  • 3. LUCIANO JOSÉ DIAS OS DEUSES DA HUMANIDADE E O DEUS QUE SE REVELA Trabalho de conclusão do curso de Pós-Graduação Lato-Sensu em Cultura Judaico-Cristã, História e Teologia. Exigido pelo Centro Cristão de Estudos Judaicos como Requisito parcial para conclusão do curso de Especialização. Orientador: Professor Ms. Ir. Elio Passeto.Aprovado Nota_____________________________________________________________________________Orientador: Prof. Ms. Ir. Elio Passeto
  • 4. Dedico este trabalho a todos os apaixonados pelaPalavra de Deus que doam suas vidas na tarefa deelucidar a compreensão dos textos bíblicos levandoàs pessoas o bom entendimento da Palavrarevelada.
  • 5. Agradeço ao Prof. Ms. Pe. Manoel Ferreira deMiranda Neto, diretor do Centro Cristão deEstudos Judaicos por ter me concedidoparticipar como bolsista neste brilhante curso;ao prof. Dr. Jarbas Vargas Nascimento, quesempre se mostrou em prontidão para meescutar nos momentos de dúvidas, e agradeçoespecialmente ao Prof. Ms. Ir. Elio Passeto, queme orientou durante todo o tempo, até chegar àconclusão deste trabalho, mostrando-me omelhor caminho a seguir.
  • 6. Sumário INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 6CAPÍTULO I ................................................................................................................................ 8 A humanidade em busca de Deus ................................................................................... 8 1. Falar de Deus de diversas maneiras ........................................................................... 9 1.1. Como falar de Deus? ............................................................................................... 13 1.2. História ou teologia? ................................................................................................ 14 1.3. Unicidade de Deus ................................................................................................... 18CAPÍTULO II ............................................................................................................................. 27Compreendendo a religião de Israel ................................................................................. 27 1. A religião de Israel ........................................................................................................ 28 1.1. Eu sou aquele que é ................................................................................................ 29 1.2. Relacionamento entre Deus e a criatura .............................................................. 32 1.3. Oseías e a amargura de Deus diante da traição do povo ................................. 34CAPÍTULO III ............................................................................................................................ 37O Deus do Antigo e do Novo Testamento é um e único .............................................. 37 1. Jesus o judeu ................................................................................................................ 38 1.1. “Abba, Pai”: O Deus de Jesus ................................................................................ 41 1.2. O Deus dos cristãos ................................................................................................. 47 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 56 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 59
  • 7. 6INTRODUÇÃOO presente trabalho tem como conteúdo algumas das percepções acerca darepresentação divina realizada pela humanidade ao longo da história. Nele,também esta inserida a idéia do conceito de Deus para o povo judeu, descritonos livros bíblicos, e também para os cristãos. Este estudo tem por objetivomostrar que um mesmo tema, em nosso caso “Deus”, pode ser encarado dediversas formas através de diferentes visões, desta forma, Deus pode ser vistocomo um Ser amoroso ou mesmo destruidor.As várias concepções a respeito do significado e da atuação da divindade navida do individuo ou até mesmo dentro de um grupo são questões evidenciadasdesde a Antiguidade, na qual se insere o contexto bíblico, até os temposcontemporâneos. A depender da visão criada pelas pessoas acerca de um SerSupremo, pode-se perceber a influência que Ele é capaz de exercer em cadaindividuo. O conceito que a humanidade tem sobre divindades, se dá dentro docontexto cultural de cada povo e no contato entre as diversas culturas.Por meio de uma análise bíblica, percebemos que o povo de Israel também foiaprendendo sobre Deus ao longo de sua história, da mesma forma comocontinuamos a aprender até hoje. A experiência do Sagrado sempre levará emconta o contexto em que o ser humano está inserido, a bagagem cultural quetraz com sigo, tal como os conflitos que lhe cerca, por isso, a compreensão quefazemos de Deus depende da compreensão que o ser humano tem de simesmo. Esta compreensão nunca é absoluta, é sempre relativa.Por intermédio deste trabalho: “Os deuses da humanidade e o Deus que serevela”, apresentaremos como o ser humano fala de Deus de diversasmaneiras, nosso ponto de partida será a Suméria, como o povo compreendiaDeus em sua época, passando logo após pelo Egito, pela filosofia, pelouniverso bíblico, percorrendo trechos da Escritura Sagrada, mostrando que, omesmo e único Deus apresentado no Antigo Testamento é o mesmo Deusapresentado por Jesus no Novo testamento. Tentaremos oferecer umapossibilidade de resposta para a inquietude de vários corações que não
  • 8. 7conseguem aceitar a existência do mal com a existência de Deus, e seperguntam: Se Deus é bom, como pode permitir que o mal aconteça? Ou comopoderia ele mesmo fazer o mal a um povo? Já há tempos a filosofia tentouresponder a esta questão.Como compreender um Deus que destrói, aniquila matando adultos e crianças,expulsa moradores de sua Terra para dá-la a outros? (Deut 7,6; 14,2) Quemnunca se perguntou como pode Deus ser tal mal, matando todos osprimogênitos do Egito? (Ex 12,29-31) Crianças indefesas pagando pela culpade seus pais. Ou como ele pode destruir todos os soldados do faraó queentraram no mar dividido ao meio por Moisés em busca do povo hebreu?(Ex14,26-31). Não haveria nenhum justo entre os soldados que estavam somenteobedecendo a ordens?Acredito que a relevância deste trabalho esteja exatamente em esboçaralgumas possíveis respostas a estas e a tantas outras questões que surgiramno decorrer de nossa pesquisa, e agora se encontram registradas nas linhasque seguirão. A comunidade acadêmica, portanto, poderá ser enriquecida comas conclusões que juntos chegaremos, aprofundando-nos no mistério de Deusmilimetricamente, à medida que o próprio Deus permita, tendo visto que Ele équem inicia a busca pelo diálogo com o ser humano, revelando-se numa únicaface, que cada indivíduo ou grupo enxergará como múltiplas faces dependendodo momento cultural vivido. Daí elas variarem muito. Numa situação de guerracontra inimigos poderosos, enxerga-se um Deus guerreiro para animar aspessoas nos combates. Em momento de lutas internas religiosas, enxerga-seum Deus exigente no cumprimento de leis para evitar a desordem social.Em nossa abordagem de Deus no Antigo Testamento nos revelará a maneiracomo o povo foi criando uma compreensão de Deus através de uma intimaexperiência Dele.Percorramos juntos este trabalho, e façamos também a experiência de Deus.
  • 9. CAPÍTULO IA humanidade em busca de Deus
  • 10. 9 1. Falar de Deus de diversas maneirasJá no inicio da aventura humana sobre a terra, o homem pré-histórico tentavaimaginar quem teria criado as coisas existentes e como seria este Criador quenão podia ser visto1. A grande aventura de falar sobre Divindades perpassatodos os séculos da existência humana, desde quando se tem relatos. Osregistros mais antigos desta aventura vêm da Suméria2, região onde foiinventada a escrita, há cerca de quatro mil anos antes de nossa era.Através de tabletas de barro, hoje guardadas em museus, ficamos sabendoque os sumérios acreditavam em deuses com formas humanas e imortais.Também na Suméria, os deuses começaram a se preocupar com ocomportamento do povo.O “Pai dos códigos”, criado há cerca de três mil anos a.C. foi escrito por um rei,mas com o auxilio de Shamash3, um deus muito importante. Da Babilônia, noséc. 18 a.C., veio o “Código de Hamurabi4”, que permitiu ao rei informar a seussúditos que as leis foram transmitidas pelos deuses. A lei do talião, “olho porolho, dente por dente”, fazia parte desse código.1 BASTOS, Fernando, As várias faces de Deus. http://pensarporsi.zip.net/ acessado em 20/12/20102 ELIADE, Mircea, História das crenças e das idéias religiosas, volume I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010;p. 66-70.3 Era uma deidade mesopotâmica nativa e o deus sol no panteão acádico, assírio e babiloniano.Shamashfoi o deus da justiça na Babilônia e Assíria, correspondendo ao deus Utu sumeriano.4 O Código de Hamurabi é um dos mais antigos conjuntos de leis escritas já encontrados, e um dosexemplos mais bem preservados deste tipo de documento da antiga Mesopotâmia. Segundo os cálculos,estima-se que tenha sido elaborado pelo rei Hamurabi por volta de 1700 a.C.. Foi encontrado por umaexpedição francesa em 1901 na região da antiga Mesopotâmia correspondente a cidade de Susa, atualIrã. Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
  • 11. 10No Egito, séc. 14 a.C. apareceu o faraó Akenaton, que acabou com aproliferação de deuses em sua terra e adotou Aton, como único deus de seupovo5.Os homens da antiguidade, quando encontravam um novo deus para guiá-los,logo descobriam sua personalidade, que por coincidência, se parecia muitocom a personalidade dos próprios profetas. Aton, o deus de Akenaton, erapacífico, amante das artes e dos animais. Antes dele, o panteão egípcio eraformado por milhares de entidades, com qualidades e defeitos humanos. Haviadeuses protetores dos doentes, da agricultura, do casamento etc. Os deusesgregos eram chefiados por Zeus, que ora podia ser amável, ora violento com agente da Terra.O conceito sobre Deus é um aprendizado permanente da humanidade ao longodos séculos, dentro do contexto cultural de cada povo e no contato entre asdiversas culturas.Por meio da Bíblia, percebemos que o povo de Israel também foi aprendendosobre Deus ao longo da história, no desenrolar dos conflitos, das crises, dasvitórias e alegrias do cotidiano, assim, também nós continuamos econtinuaremos, no decorrer do tempo, fazendo experiências de Deus e estasexperiências sempre levarão em conta o contexto em que o ser humano estáinserido, sua cosmo-visão, a bagagem cultural que traz consigo, tal como osconflitos que o cercam.A compreensão que fazemos de Deus depende da compreensão que o serhumano tem de si mesmo, de como ele se compreende dentro do mundo e desuas relações com outros seres.O livro mais conhecido de todos os tempos, a Bíblia, que mostra a íntimarelação de Deus com um povo (neste caso, o povo de Israel), ao ser analisadopor olhares ocidentais e não semitas, coloca-nos de frente com um intrigantedilema: o mesmo Deus que é compreendido sendo salvador e misericordiosocom Israel é ao mesmo tempo colérico e destruidor junto a outros povos que se5 ELIADE, Mircea, História; p.110-112.
  • 12. 11opuseram a Israel, revelando-se algoz de sua própria criação, visto que tudo foicriado por Ele.Como compreender um Deus que destrói, aniquila, matando adultos e crianças,expulsando moradores de sua Terra para dá-la a outros? (Deut 7,6; 14,2)Quem nunca se perguntou como pode Deus ser tão mal, matando todos osprimogênitos do Egito? (Ex 12,29-31) Crianças estas, indefesas pagando pelaculpa de seus pais. Ou como ele pode destruir todos os soldados do faraó queentraram no mar dividido ao meio por Moisés em busca do povo hebreu? (Ex14,26-31). Não haveria nenhum ser justo entre os soldados que estariamsomente obedecendo a ordens?Estas questões reavivam no fundo do coração humano a pergunta sobre comocompaginar a existência do mal com a existência de Deus. Se Deus é bom,como pode permitir que o mal aconteça? Ou como poderia ele mesmo fazer omal a um povo? Já há tempos a filosofia tentou responder a esta questão.O filósofo pré-socrático Epicuro6, em síntese, colocava a questão da seguintemaneira: "Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ounão quer e nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o queé impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmomodo, é contrário a Deus. Se nem quer e nem pode, é invejoso e impotente:portanto nem sequer é Deus. Se pode e quer que é a única coisa compatívelcom Deus, donde provém então existência dos males? Por que razão é quenão os impede?Sábio Epicuro, que colocou uma pergunta: “desde que o mundo é mundo agitao coração humano. Se Deus é bom, como pode ser que exista o mal, que oser humano faça tantas coisas não boas, que a vida humana seja atravessadade tantos sofrimentos? Se Deus criou todo o bem, por que a desordeminstaura o mal e o medo na criação divina, que deveria conduzir somente aoBem e ao Amor?”6 Epicuro de Samos foi um filósofo grego do período helenístico. Seu pensamento foi muito difundido enumerosos centros epicuristas se desenvolveram na Jônia, no Egito e, a partir do século I, em Roma,onde Lucrécio foi seu maior divulgador.
  • 13. 12No século XIX, o filósofo Leibniz7 refletiu novamente sobre esta problemática eaté criou uma nova área do pensar filosófico e teológico: a teodicéia. Teodicéiavem de Theos (Deus) e dike (justiças). O nome quer dizer que a reflexãodesta área filosófica questiona justamente esta incompatibilidade entre aexistência de um Deus todo bom, todo amoroso e misericordioso e a existênciado mal. A solução de Leibniz foi dizer que o mal não é uma realidade, não temconsistência em si próprio, é apenas um vácuo, um vazio, uma carência: acarência do bem, do amor de Deus.Ainda neste mesmo século XIX, Karl Marx8 concluiu que a religião,considerando o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, “amortece acombatividade dos oprimidos e explorados porque lhes promete uma vidafutura feliz. Na esperança de felicidade e justiça no outro mundo, osdespossuídos, explorados e humilhados deixam de combater as causas desuas misérias neste mundo”9. Desta forma, Marx tinha a visão de que a figuradivina acendesse dentro de cada individuo a expectativa de uma vida posteriormuito mais gratificante do que esta, criando certo tipo de acomodação dosmesmos.Indo de encontro às concepções atuais, encontramos discursos como: “Umindividuo inflexível e inseguro, por exemplo, dificilmente terá uma percepçãoque não seja de um Deus guardião, normativo, caprichoso e intolerante; jáalguém que avançou no processo de autoconhecimento e está prestes asuperar as dualidades (bastante presente na visão maniqueísta 10 da vida),7 Gottfried Wilhelm von Leibniz foi um filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário alemão.8 Karl Heinrich Marx foi um intelectual e revolucionário alemão, fundador da doutrina comunistamoderna, que atuou como economista, filósofo, históriador, teórico político e jornalista. O pensamentode Marx influencia várias áreas tais como: Filosofia, História, Direito, Sociologia, Literatura, Pedagogia,Ciência Política, Antropologia, Biologia, Psicologia, Economia, Teologia, Comunicação, Administração,Design, Arquitetura, Geografia e outras.9 CHAUI, Marilena. “Convite à filosofia”. São Paulo: Ática, 1997; p. 309.10 O Maniqueísmo é uma filosofia religiosa sincrética e dualística que divide o mundo entre Bem, ouDeus, e Mal, ou o Diabo. A matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. Com a
  • 14. 13tende a perceber Deus como a expressão do absoluto, intangível,permanentemente compassivo no sentido da aceitação do que é”. Esta análisemostra que a noção do criador muda e se refina de acordo com oconhecimento que o homem vai adquirindo.Em meio a tantos conceitos relacionados a um único ser, pode-se verificarcomo uma única e só figura é capaz de se revelar em diversas formas,mostrando sua influência para um grupo, como foi o caso do povo de Israel emDeuteronômio, Êxodo e em tantos outros livros da Bíblia, ou para as maisvariadas mentes de filósofos de determinadas épocas. Essa visão eclética dediversos pensadores explicita que o período em que vivem, os contextos emque estão inseridos, interfere e muito na construção de suas influências,levando, de acordo com cada conclusão, à formação das múltiplas faces deDeus. 1.1. Como falar de Deus?Mas afinal, quem é Deus? Assim tem perguntado a tradição ocidental. E eladeu respostas que são a tentativa de compreender o Ser mais profundo deDeus por meio de uma lista inteira de qualidades eternas.Os homens da Bíblia costumavam falar de outra forma a respeito de Deus.Quando falavam de Deus, narravam, sobretudo, situações da vida deles nasquais tinham percebido quem era Deus e como ele os mudava ou queria mudá-los.A situação original, em que os homens bíblicos perceberam quem é Deus, erao caminho11. O caminho de um para o outro e de um com o outro. E, sobretudo,o caminho para o qual ele os chamou e no qual ele, junto com eles, andou. Éneste caminho que o homem é apreendido por Deus. Experiência de Deus naBíblia não significa que nós possamos decidir quando, onde e como estaremospopularização do termo, maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda doutrina fundada nos doisprincípios opostos do Bem e do Mal.11 ZENGER, Erich. O Deus da Bíblia. São Paulo: Paulinas 1989.
  • 15. 14inclinados ou com vontade de encontrar Deus, não somos nós que nosencontramos com ele, mas Ele é que se encontra conosco. “Senhormisericordioso e piedoso, paciente e rico de bondade e fidelidade, age combondade sem medida e perdoa as ofensas, as injúrias e o pecado, mas étocado pela injustiça e pelo pecado e não os aceita simplesmente, mas oscombate” (cf Ex 34,6-7).Este é o caminho a seguir para entender quem é Deus. Somente quem ébondoso sem medida, quem é tocado pela injustiça e pelo pecado e luta contraeles, quem vive o perdão compreende quem é este Deus. Não é nacontemplação ou no culto de uma imagem de Deus que se experimenta o Deusbíblico, mas sim, agindo como ele, pondo-se no caminho aberto por ele, noqual ele vai à frente. (Imitatio Dei).O Deus bíblico quer mostrar, neste mundo, quem ele é através de pessoasvivas. Os homens se tornam desta forma imagens de Deus quando tomados emodificados por ele a fim de seguirem seu caminho.O que fascina na história do povo de Deus na Sagrada Escritura é o fato de,mesmo tendo sido tentados a seguir seus próprios caminhos, os homens daBíblia nunca desistiram da tentativa e da ousadia de buscar e seguir a palavrade Deus. As muitas páginas da Bíblia dão testemunho de como eles sepuseram no caminho que Deus quis conduzi-los. Mas esta tentativa não foifácil, pois muitas vezes alguns ficaram no meio do caminho ou se desviavampara rotas que lhes pareciam mais confortáveis. Mas é neste peregrinar que ohomem bíblico foi descobrindo a unicidade de Deus, percebendo que nãoexiste outro. 1.2. História ou teologia?Hoje, nosso olhar Ocidental sobre os relatos bíblicos nos faz buscar ahistoricidade do texto e este, por sua vez, mostra-se contraditório exatamentepor não ser histórico, muito embora trate de dados concretos da vida de umpovo. Esta busca pela historicidade ludibria muitos autores que analisam o
  • 16. 15Antigo e o Novo Testamento acreditando encontrar um Deus totalmentediferente em um e noutro.Um exemplo do que dizemos seguirá abaixo, onde analisamos um texto deSOUZA, Vitor Chaves, estudante da Universidade Metodista de São Paulolocalizada em São Bernardo do Campo/SP, que, em 2007, desenvolveu emsua monografia o tema: As faces do Senhor, onde ele se propôs a demonstrara diversidade e profundidade dos nomes de Deus no Antigo Testamento e suasações através destes nomes. SOUZA nos convida a observar que Deus (nonosso caso o Senhor) é uma profunda reflexão ao invés de definições econceitos teológicos. Souza tenta demonstrar que as manifestações de Deusno Antigo Testamento são as mais diversas e, mesmo diferentes sem anularuma à outra, se complementam. Segundo ele, esta seria mais uma face doSenhor, a face pedagógica, que sofre mutações teológicas segundo suarevelação e transformação dentro da história.Sendo assim, o Senhor no Êxodo torna-se um Deus guerreiro, a começar pelosignificado do nome Israel: “Deus reto e fiel na luta”, um Deus de milagre naluta, Deus de sinais grandes e terríveis (Êx 6-22), que se referem à intervençãosalvifica, proporcionada pelo Senhor “com braço estendido e com grandeespanto” (Êx 6,6), pois o Senhor, na luta e na guerra, em que ele “combatiapara proteger os seus”, tem milagrosamente a face do “livramento” (ÊX 13s),um milagre, não para fazer lutar a guerra santa, mas que livra e salva o povode Deus de uma situação desonesta. Situação esta, registrada nasintervenções do Senhor quando, estando o faraó com seus carros de guerra eos hebreus quase desarmados, Esse “intervém em prol dos desarmadoshebreus”, equivalendo, pois, ao livramento e defesa dos mais fracos. Oproblema do Senhor guerreiro, aquele Deus que luta, é que foi através dasguerras “que se radicalizou a intransigência da fé no Senhor”, ou seja, a facedo Deus libertador pode ser, pelo entusiasmo e emoção de alguns,transformada em um Deus que combate para massacrar e salvar somente umpovo considerado eleito.O que SOUZA talvez não tenha levado em consideração em seu trabalho é ofato de que o Deus da luta ou lutador neste caso é uma conotação não bíblica,
  • 17. 16mas sim uma maneira de projetar valores recentes de análise da sociedade etentar explicar os textos que estão em outros contextos. Deus é um Deus daAliança e podemos dizer que até aí segue um costume dos outros povos,porém, aqui exige um engajamento de vida e uma correspondência sem igualem relação a Ele. Um mundo sem Deus é um mundo da morte. As mortes nãosão uma ação de Deus, mas uma ação do não Deus. Deus não age para quevenha a morte, é Ele que se apresenta como alguém que gera a vida diante depovos que vivem uma realidade de morte.O nome YHWH12 (nome inefável, O Senhor, assim traduzido para o Grego epara o Latim) é um equivoco desde sua maneira de se definir. Há na tradiçãouma maneira mais rica de ver a manifestação de Deus por atributos onde umrepresenta o atributo de justiça e o outro (Elohim), representa o atributo damisericórdia. É na harmonia destes dois atributos que o mundo se tornapossível. A linguagem usada para analisar o texto não pode fugir à linguagemda época, mas ela não deve ser entendida como nós a entendemos com oscritérios de hoje. O texto deve nos informar do passado e não o presente dizercomo era o passado13.Outro autor, MESQUITA14, em seu livro, destaca que o Deus do AntigoTestamento é ainda um Deus escondido (Is 45,15). Ele dirige os passos do12 Carta do cardeal Arinze às conferências episcopais sobre o nome de Deus. CIDADE DO VATICANO,quinta-feira, 11 de setembro de 2008 (ZENIT.org ). A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dosSacramentos enviou uma carta às conferências episcopais do mundo sobre o nome de Deus, na qualpede que não se use o termo «Javé» nas liturgias, orações e cantos. A carta se refere ao uso do nome«YHWH», que se refere a Deus no Antigo Testamento e que em português se lê «Javé». O texto explicaque este termo deve ser traduzido de acordo ao equivalente hebraico «Adonai» ou do grego «Kyrios»; epõe como exemplos traduções aceitáveis em cinco idiomas: Lord (inglês), Signore (italiano), Seigneur(francês), Herr (alemão) e Señor em espanhol. A carta está assinada pelo cardeal Francis Arinze e peloarcebispo Albert Malcom Rajith, respectivamente prefeito e secretário da congregação vaticana,seguindo uma diretiva de Bento XVI. Após comentar que o nome de Deus exige dos tradutores umgrande respeito, o cardeal explica que a palavra «YHWH» é uma expressão da infinita grandeza emajestade de Deus, que se manteve «impronunciável e por isso foi substituída na leitura das SagradasEscrituras com o uso da palavra alternativa ‘Adonai’, que significa ‘Senhor’.13 Idéias obtidas em conversação com Ir. Elio Passeto, Professor responsável pelo Centro de FormaçãoBíblica Nuestra Señora de Sion, em Jerusalém.14 MESQUITA, Luiz José de, Por Que Crer? A fé e Revelação. São Paulo: Ave Maria, 1990.
  • 18. 17homem sem que este compreenda o caminho (Pr 20,24). Antes mesmo que ohomem se volte para Deus, Ele mesmo toma a iniciativa e lhe fala primeiro.Analisando estas afirmações destacamos que sempre o principio bíblico é deque Deus toma a iniciativa, isso se dá mesmo no Novo Testamento. O homemo busca, mas é sempre Deus que se deixa encontrar.MESQUITA continua sua narrativa dizendo-nos que no meio oriental (onde seachava o povo bíblico) usava de artifícios puramente humanos para penetrarnos segredos do Céu (adivinhações, presságios, lançamentos de sortes,astrologia, sonhos, etc.), durante muito tempo conservaram-se no AntigoTestamento essas técnicas arcaicas, purificadas, porém, dos seuscondicionamentos politeístas.Assim, Deus confia sua revelação aos canais tradicionais, condescendendocom a mentalidade ainda muito imperfeita do povo bíblico.Porém, depois com os profetas, Ele vai afastando as magias e as sortes; osfalsos profetas são combatidos e escorraçados, até que a revelação pelaPalavra – “Davar”, (símbolo do “Logos” divino) predomina e vence.A partir daí, a revelação se faz, também, por meio dos dons divinos daInteligência, da Sabedoria e da Ciência, apelando para a reflexão bíblica (oslivros sapienciais).O que Deus revela é sempre de ordem sobrenatural. A revelação divina nãotem por objetivo as ciências e as artes humanas.Por sua natureza, o homem não sabe exatamente o que Deus quer dele.Então, Deus revela seus planos, a começar por lhe traçar normas de conduta,de orientação religiosa, de instituições políticas e sociais (cf. os livros doPentateuco, isto é, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento).Deus revela também o sentido da História e dos acontecimentos pelos quaisseu Povo deve passar. Históriadores, salmistas, profetas, sábios se aplicam aessa intelecção do sentido da História. Então, os fatos dão crédito à palavra econduzem os homens à fé.
  • 19. 18Enfim, Deus revela, progressivamente, os segredos dos “últimos tempos”. Suapalavra se torna uma promessa. Revela-lhe o Salvador que há de vir, oEmanuel, o Deus conosco, que há de ser um servidor servo sofredor (cf. oscapítulos 52 e 53 de Isaías).Assim, Deus que já se revelara a si mesmo nos fenômenos da natureza (notrovão da tempestade, na nuvem do céu, no fogo que abrasa, na brisa da tarde,etc.) culmina por dar aos homens um anúncio antecipado do Messias, que háde vir: “...a glória do Senhor se revelará e toda a carne há de vê-la...”(Is 40,5).MESQUITA faz uma afirmação simplista que não se sustenta. Que houve umaevolução, isso é lógico e normal, mas de forma alguma Deus é distante. Aocontrário, Deus intervém diretamente na história. Os relatos não são expressãoda história, eles refletem centenas de anos vividos e depois relatadosresumidamente que Deus estava presente com eles no percurso da história. ABíblia mostra muitas vezes a experiência de amor diante de Deus, deproximidade, de segurança15. 1.3. Unicidade de DeusLibanio16, em seu artigo, o Deus do Antigo Testamento, elucida nossacompreensão a este respeito, ele fala-nos que o judeu piedoso repetiafreqüentemente o ato de fé, o célebre “shemá”, que Jesus também rezava:“Escuta, Israel! O Senhor, nosso Deus, é o Senhor que é UM. Amarás oSenhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todo o teu ser, com todas astuas forças” (Dt 6, 4).Sim, o Deus do Antigo e o do Novo Testamento é um e o mesmo Deus.Verdade que pertence ao fundamento de nossa fé. Lá nos primórdios do15 Ir. Elio Passeto.16 LIBANIO, JB, O Deus do Antigo Testamento.http://www.jblibanio.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=36 acessado em 16/12/2010.
  • 20. 19Cristianismo, surgiu um herege chamado Marcião17, que se escandalizou coma enorme diferença da imagem de Deus do Antigo Testamento e a apresentadapor Jesus. Lá ele via um Deus demiurgo, criador do mundo visível. Suasintervenções na história pareciam contraditórias com paixões violentas deciúme, despotismo, crueldade, capricho. Tão diferente do Deus revelado porJesus: Deus de amor. Concluiu, portanto, que o Deus do Antigo Testamentonão é o mesmo do Novo: diverso e até mesmo oposto. Um nada tinha a vercom o outro.À primeira vista, tal posição parece uma dessas esquisitices que surgem, detempos em tempos, na história. Tem, porém, a vantagem de levantar um sérioproblema. Com efeito, se tomamos a Escritura ao pé da letra, como umarevelação-ditado de Deus, realmente ficamos perplexos diante da diferença demuitos traços de Deus do Antigo Testamento comparados com a imagem queJesus nos ofereceu de Deus seu Pai.O fato da afirmação unânime e constante da fé cristã de reconhecer em Deus oPai de Jesus não resolve as dificuldades que Marcião percebeu. Ele teve omérito de expressá-las de maneira contundente, exigindo uma respostaesclarecida por parte da fé.No fundo, subjaz a tal questão uma concepção de revelação de Deus. Semesclarecê-la, não temos condição de entender a unicidade de Deus. Umacomparação muito simples pode talvez ajudar-nos a compreender melhor oproblema. Imaginemos que não conhecemos pessoalmente a determinadoindivíduo. Encontramo-nos diante de uma série de fotografias que tiraram dele.Elas foram feitas com máquinas fotográficas e recursos técnicos bem diversos,desde os mais primitivos até os mais sofisticados. O resultado foi que algumasfotos nos oferecem traços bem confusos da pessoa a ponto de apenaspercebermos sua figura e outras são de enorme nitidez. Os escritos bíblicos17 Marcião de Sínope, 85 - 160 d.C. foi um dos mais proeminentes heresiarcas durante o Cristianismoprimitivo . Sua teologia (chamada marcionismo), que propunha dois deuses distintos, um no AntigoTestamento e outro no Novo Testamento, foi denunciada pelos Pais Padres da Igreja especialmenteIrineu e ele foi excomungado. Sua rejeição de muitos livros que seus contemporâneos consideravamcomo parte das escrituras mostrou à Igreja antiga a urgência do desenvolvimento de um cânon bíblico.
  • 21. 20são fotografias de Deus feitas em momentos culturais muito diferentes porpessoas e povos vivendo experiências extremamente diversas. Daí elasapresentarem tal variação. Desta sorte, o povo judeu numa situação de guerracontra inimigos poderosos, fotografou um Deus guerreiro para animar aspessoas nos combates. Em momento de lutas internas religiosas, oshagiógrafos desenharam um Deus exigente no cumprimento de leis para evitara desordem social.Em Oséias, Deus carrega ternamente em seus braços a Efraim como a umacriancinha de colo. (Os 11,3)Várias são as perguntas: De onde vem a diferença: de Deus ou das condiçõeshumanas, limitadas, diversas dos escritores sagrados? Como interpretar essasimagens: como traços independentes ou como um processo histórico de modoque a figura mais perfeita corrige as imperfeições das anteriores?Partindo do fato de que a revelação se dá na história que é progressiva e quechegou a Jesus Cristo a seu ponto mais elevado, devemos interpretar asimagens de Deus a partir da mais perfeita oferecida por Jesus. Em últimaanálise, podemos dizer que a figura de Deus encontrará sua expressão maisperfeita na revelação de Jesus. “Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único deDeus, que está junto ao Pai, foi quem no-lo deu a conhecer” (Jo 1, 18). Porisso, é muito perigoso tomar citações isoladas da Escritura e dardejá-las sobreas pessoas como se esta fosse a idéia definitiva e eterna de Deus e não reflexode uma experiência histórica de um povo.O encontro com o Deus do Antigo Testamento pode-nos ser benéficoprecisamente pela maneira como o Povo de Israel o vivenciou. Por muitasrazões históricas, criamos uma catequese sobre Deus que inverteu o processobíblico. Partíamos de uma definição de Deus, elaborada de maneira teórica eabstrata, e depois procurávamos vivê-la. Como os termos da definiçãopermaneciam fechados à compreensão das pessoas, eles simplesmentepovoaram a memória dos catequizandos sem nenhuma incidência sobre suavida pessoal. Em seu lugar, giravam concepções populares de Deus comdiferentes tonalidades.
  • 22. 21Uma primeira abordagem do Deus do Antigo Testamento nos revela a maneiracomo o povo foi criando uma compreensão dele. Não veio através deensinamentos formulados, mas a partir da experiência.Deus é um e único. Mas não no sentido filosófico do monoteísmo nem comocritério para excluir como falsas as religiões que cultuassem muitos deuses.Israel não iniciou por esse caminho sua longa viagem teológica. Antes mesmode Moisés, Akenaton, Faraó do Egito, tentou impor uma revolução monoteístaem seu país. Fracassou pela oposição dos sacerdotes e do povo.Israel, porém, vive o monoteísmo, não dessa maneira, pela imposição teóricade um personagem, nem por uma revelação do próprio Deus em forma deverdade dogmática a ser aceita. Foi processo lento de vida e de história. Ospatriarcas ainda foram adoradores de muitos deuses. As tradições, porém, quecircularam mais tarde no meio das tribos, já viam neles homens queexperimentaram a um Deus de maneira mais expressiva. Abraão se tornou, porisso, símbolo de homem de fé em Deus. A vocação de Abraão tornou-seprogramática para todas as vocações, ao seguir o apelo do Senhor: “Sai de tuaterra, de tua parentela, da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei.Farei de ti um grande povo e te abençoarei, engrandecendo teu nome, demodo que se torne uma bênção. Abençoarei os que te abençoarem eamaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Com teu nome serão abençoadas todasas famílias da terra”. A esse Deus, que vai fazendo alianças com seusdescendentes, ele ergueu um altar (Gên 12, 1-3.7).Moisés, a partir da experiência da escravidão e libertação do Egito, vinculou afé ao Senhor, ao lado do qual não admitiu outros deuses. Para traduzir essaligação profunda com um único Deus, o povo o experimentou como “ciumento”e qualquer infidelidade era vista como adultério. A imagem matrimonialexpressava bem a originalidade e o alcance da vivência do povo em relação aoSenhor.Não era o Senhor que era ciumento, mas o povo que o experimentava comoseu Deus próprio, único e guia através da longa caminhada para Canaã.Identificaram-no com o deus supremo dos cananeus: El. Lá encontraram
  • 23. 22também outros deuses e depois se defrontaram com os deuses fenícios,assírios, babilônios. Todos eles foram rejeitados por fidelidade ao Senhor. Aconfissão de fé do povo no Senhor, como Deus, encontrou expressãodramática no fato narrado no livro dos Reis. O profeta Elias questionou o povopela sua ambigüidade na vivência da fé e formulou-lhe o dilema: “Se o Senhoré o verdadeiro Deus, segui-o, mas se é Baal, segui a ele!” Depois armou o altarcheio de vítimas e desafiou os profetas de Baal a que invocassem seus deusese ele invocaria ao Senhor. As orações dos profetas de Baal permaneceraminatendidas enquanto a oração de Elias ao Senhor baixou o fogo do céu edevorou as vítimas do sacrifício. Diante dessa maravilha, o povo exclamou: “OSenhor é Deus, o Senhor é que é Deus!” (1 Rs 18, 39). A cena da degola detodos os profetas por parte de Elias, a qual se segue a esse ato de confissão,revela o caráter patético do processo de fé do povo.Desta sorte, por meio de longo caminho e a partir de sua experiência histórica,Israel professou o monoteísmo, primeiro de maneira prática, para depoisformulá-lo doutrinariamente. Nos tardios livros do Deutero-Isaías, o povoconfessa que o mesmo Senhor, que o salvou e livrou da escravidão do Egito, oDeus da Aliança, é também o Deus criador de todas as coisas. “Um Deuseterno é o Senhor, o criador dos confins da terra” (Is 40, 28).Termina-se assimesse longo processo numa confissão ampla de fé.Ao lado da unicidade, a relação com a vida define em profundidade o Deus doAntigo Testamento: é um Deus da vida; é uma característica que atravessatodo o Antigo Testamento. Nas primeiras páginas do Gênesis, o Senhoraparece como Senhor da vida. Pela palavra, cria todas as coisas (Gên 1, 1-31)e mais diretamente em relação ao ser humano, insufla-lhe o sopro da vida (Gên2, 7).Na ordem da experiência, os hebreus reconhecem ao Senhor como Deus davida por obra e graça da libertação da escravidão e da morte no Egito. Aí háduas cenas paradigmáticas da experiência de vida: o Senhor livra todos osprimogênitos hebreus da espada do Anjo exterminador, Ele é um Deus de vidapara os hebreus em oposição à realidade de morte dos egípcios; a outra cenaé toda a epopéia do êxodo. Ela é uma contínua luta contra a morte por causa
  • 24. 23do ataque dos egípcios, da fome, da sede, das serpentes e de todas as agrurasde uma longa travessia pelo deserto. Em todos os momentos críticos, o Senhoraparece como o Deus que lhes defende e conserva a vida. Para Israel, a vidatraduziu-se na experiência da libertação e da conquista da terra. Foi O Senhorque libertou o povo e que lhe deu a terra em que corre leite e mel.O povo de Israel sedentarizou-se. No início, as estruturas da sociedadeorganizaram-se ainda de uma maneira mais justa, pois a diferença entre ricos epobres não era tão grande. As autoridades eram do próprio povo, permaneciampróximas e o inimigo estava fora. Assim, o Senhor se manifestou como o Deusda vida, despertando homens dotados para defenderem o povo, que setornaram os juízes. Lendária ficou a figura de Sansão.Com o correr do tempo, mesmo na época dos juízes e mais fortemente depoisna monarquia, a injustiça social começou a crescer. A brecha entre pobres ericos aumentou. Israelitas passaram a oprimir e escravizar israelitas. Com adecadência da monarquia, a prática da injustiça foi crescendo. O Senhor, maisuma vez, apareceu como o defensor da vida, com a forma do pobre, da viúva,do órfão. Os profetas se fizeram porta-voz da luta pela vida dos desprotegidos.Assim, por exemplo, no reinado de Jeroboão II, imperava a injustiça. Os ricoslevavam uma vida de luxo e opulência. Para tanto, carregava-se o povo comimpostos, oprimiam-se os pastores e lavradores. Surgiu então o profeta Amós.Com expressões fortes, ele descreveu a situação de injustiça. “Vende-se ojusto por prata e o pobre por um par de sandálias. Esmaga-se sobre o pó daterra a cabeça dos fracos e torna-se torto o caminho dos humildes” (Am 2, 6-7).Sobre essa situação de injustiça pesou o juízo de Deus. As ameaças foramterríveis. A visão do profeta foi espantosa: “Vi o Senhor que estava de pé sobreo altar e ele disse: “Bate no capitel para que tremam os umbrais!” E seguiu-seuma série de malefícios: cortar a cabeça de todos sem exceção, não retirarnenhum do xeol, prender os que se esconderam em qualquer altura ouprofundidade que seja, passando-os em seguida ao fio da espada (Am 9 1-4).Mas no final, abriu-se uma réstia de esperança e de vida: “o Senhor prometeulevantar a tenda de Davi que está caindo, reparar-lhe as brechas, levantar-lhe
  • 25. 24as ruínas e reconstruí-la como nos dias antigos” (Am 9, 11). Assim é o oráculo,a Palavra de vida do Senhor.O Senhor é Deus de vida para o povo conduzido ao exílio da Babilônia.Quando tudo era treva, tudo era sofrimento, tudo era morte, a Palavra doSenhor soava como luz e futuro. Temos os cânticos utópicos e esperançososmais lindos da Escritura. É o livro da consolação. Iniciou-se com a belíssimaexclamação: “Confortai, confortai meu povo!” Terminou o tempo da provação,foi saldado o débito da culpa. E então uma voz clama: “Abri no deserto umcaminho para o Senhor, nivelai na estepe uma estrada para nosso Deus! Todovale seja entulhado e todo monte e colina sejam abaixados. O monte se torneplanície e as escarpas se transformem em amplo vale! Então a glória doSenhor se manifestará, e todos os homens juntos a verão” (Is 40, 1-5). É omesmo texto que o Novo Testamento aplica a João Batista, precursor doSenhor.Numa imagem vigorosa, o profeta Ezequiel descreveu a libertação do povo doexílio da Babilônia como uma dantesca cena de ressurreição das ossadas.Assim diz o Senhor Deus às ossadas: “Vou infundir-vos, eu mesmo, um espíritopara que revivais. Dar-vos-ei nervos, farei crescer carne e estenderei por cimaa pele. Incutirei um espírito para que revivais. Então sabereis que eu sou oSenhor”. (Ez 37, 1-14). As ossadas são todas as casas de Israel. Então seassistiu à cena do levantar-se dos ossos como um exército numeroso.E finalmente, O Senhor é Deus da vida eterna, retirando os mortos do xeol,ressuscitando-os. Este é o ponto alto da revelação veterotestamentária. A fé naressurreição dos mortos deriva diretamente da compreensão de que o Senhoré um Deus dos vivos e não dos mortos. Deus triunfa sobre o último inimigo, amorte. O profeta Daniel anuncia um tempo de angústia, escatológico, final.Então “muitos dos que dormem na terra poeirenta, despertarão; uns para a vidaeterna, outros para vergonha, para abominação eterna. Então os sábiosbrilharão como o firmamento resplandecente, e os que tiverem conduzido amuitos para a justiça brilharão como estrelas para sempre”(Dn 12, 2-3).
  • 26. 25Único e verdadeiro Deus. Deus da vida. Na experiência de sua unicidade e nadefesa da vida, o Senhor aparece frequentemente como um Deus vigoroso,punitivo que castiga as infidelidades do povo, que se ira e se impacienta porcausa da dureza de sua cerviz (Êx 32, 9; 33, 3.5) até as raias da cólera, dodesejo de exterminá-lo. Mas não se pode concluir a imagem de Deus no AntigoTestamento sem falar de sua infinita ternura.A severidade e o poder implacável são a fotografia de um Deus no momentoinicial da caminhada. Pouco a pouco, Israel foi descobrindo o lado infinitamenteterno de Deus, a imagem de um Deus amor. São traços mais raros, por issomesmo, mais expressivo. O gênio religioso de Israel afastou no início qualquertraço que pudesse mostrar um Deus fraco e manipulável pelas criaturas,tolhendo-lhe a infinita liberdade e decisão. Certos gestos de ternura, compaixãoe comoção poderiam macular essa imagem. Somente depois de ela estar bemassentada, sem perigo de cobri-la, outros traços foram emergindo atéexpressões de imensa ternura.No Êxodo, lê-se com surpresa que “o Senhor falava frente a frente com Moisés,como alguém que fala com seu amigo” (Êx 33, 11). Se compararmos comcenas anteriores em que Ele aparecia no meio de trovões e relâmpagos, essebreve toque revela muito de um retrato de Deus que lentamente se vaiconstruindo. Há uma cena estranha em que o próprio Senhor passou diante deMoisés e exclamou: “O Senhor, o Senhor Deus misericordioso e benevolente,lento para a cólera, cheio de fidelidade e lealdade” (Ex 34,6). Nos profetas essaimagem atinge seu ponto alto. No Segundo Isaías, Deus anima Jerusalém,revelando em relação a ela seu amor esponsal: “Teu esposo é quem te fez:Senhor Todo-poderoso é seu nome!” (Is 54, 5). O Senhor se delicia, se alegrade Israel, como o jovem esposo de sua donzela, o noivo de sua noiva (Is 62,5).Em Oséias, o Senhor deixa uma carta de amor a Israel. Amou-o desde quandoera um menino, chamou-o de filho, permaneceu amando-o nos seus desvios,tomou-o nos braços e colou-o a seu rosto de tanto carinho, ligou-se com laçosde amor, sentiu o coração palpitar-lhe e as entranhas comoverem-se. Apesarde todas as infidelidades de Israel, permanece amando-o. Termina dando arazão decisiva: Porque eu sou Deus e não homem” (Os 11, 1-9). Já está
  • 27. 26pintado o rosto do Senhor, Deus Pai, que chegará ao excesso de amorenviando o seu Filho Jesus!Para podermos compreender um pouco melhor esta relação entre Deus e suacriação, iremos, no próximo capítulo aprofundar alguns elementos da religiãode Israel, assim poderemos utilizar outros olhares para identificarmos aunicidade de Deus em toda a Escritura Sagrada, Antigo e Novo Testamento.
  • 28. CAPÍTULO IICompreendendo a religião de Israel
  • 29. 28 1. A religião de IsraelA religião de Israel é acima de tudo a religião do Livro. Esse corpo de escriturasé constituído de textos de idade e orientação diversas, que representamtradições orais bastante antigas, mas reinterpretadas, corrigidas e redigidasdurante vários séculos e em diversos meios. Ao escrever, os hebreus seinteressavam mais pela história santa, isto é, pelas suas relações com Deus,que pela história que narram acontecimentos míticos e fabulosos do primórdio.Ora, o gênio religioso de Israel transformou as relações de Deus com o povoeleito uma história sagrada de gênero até então desconhecido. A partir de certomomento, essa história sagrada, ao que parece exclusivamente nacional,revela-se um modelo exemplar para toda a humanidade.O começo da religião de Israel é relatado nos capítulos 46-50 do Gênesis, noÊxodo e no livro dos Números. Trata-se de uma série de acontecimentos, queem sua maioria são provocados diretamente por Deus. Recordemos os maisimportantes: as peripécias de Moisés (salvo miraculosamente da matança eeducado na corte do faraó) depois de haver matado um soldado egípcio quemoía de pancadas um de seus irmãos, especialmente sua fuga no deserto deMadiã, a aparição da sarça de fogo (seu primeiro encontro com o Senhor), amissão que lhe foi dada por Deus, de tirar seu povo do Egito e a revelação donome divino; as dez pragas provocadas por Deus para forçar o consentimentodo faraó; a partida dos israelitas e sua passagem do mar Vermelho, cujaságuas submergiram os carros e os soldados egípcios que os haviamperseguido; a teofania sobre o monte Sinai, a aliança estabelecida por Deuscom seu povo, acompanhada de instruções relativas ao conteúdo da revelaçãoe ao culto; finalmente, os 40 anos de marcha sobre o deserto até a conquistada Terra de Canaã.Há mais de um século, a critica tem-se esforçado por separar os elementos“verossímeis” e por conseguinte históricos, dessas narrativas bíblicas da massade excrescências e sedimentações mitológicas e folclóricas.
  • 30. 29Quanto à saída do Egito, parece certo que ela reflete um acontecimentohistórico18. Entretanto, não se trata do êxodo do povo inteiro, mas apenas deum grupo, e exatamente do grupo conduzido por Moisés. Outros grupos játinham iniciado a penetração mais ou menos pacífica em Canaã.Posteriormente o êxodo foi reivindicado pelo conjunto das tribos israelitas comoum episódio de sua história santa. O que interessa ao nosso objetivo é que asaída do Egito foi relacionada com a celebração da Páscoa. Em outraspalavras, um sacrifício arcaico, específico aos pastores nômades e praticadoshavia milênios pelos antepassados dos israelitas, foi revalorizado e integradona história santa do javismo. Um ritual solidário da religiosidade cósmica (festapastoral da primavera) foi interpretado como a comemoração de um eventohistórico. 1.1. Eu sou aquele que éEnquanto apascentava os carneiros de Jetro, seu sogro, Moisés chegou aomonte de Deus, o Horeb. Ali ele viu uma chama de fogo que saia do meio deuma sarça e ouviu alguém chamá-lo pelo nome. Pouco tempo depois, Deus sedeu a conhecer como o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, de Isaac e Jacó.(Êx 3,6) Moisés, porém, pressentiu que estava diante de um aspectodesconhecido da divindade, ou até de um novo deus. Ataca a ordem de ir aoencontro dos filhos de Israel e dize-lhes: “O Deus de vossos pais me enviou atévós; mas se eles perguntassem qual é o seu nome, que lhes havia deresponder?” (Êx 3,13). Então Deus disse-lhe: “Eu sou me enviou até vós.” (Êx13,14).Muitas têm sido as discussões em torno desse nome. A resposta de Deus ébastante misteriosa: ele alude ao seu modo de ser, mas sem revelar suapessoa. Tudo o que se pode dizer é que o nome divino sugere, para usarmosuma expressão moderna, a totalidade do ser e do existente. Entretanto,18 ELIADE, Mircea, História; p. 175.
  • 31. 30YHWH19 declara que Ele é o Deus de Abraão e dos outros patriarcas, e essaidentidade é aceita ainda hoje por todos aqueles que reivindicam a herançaabraâmica. De fato, pode-se descobrir certa continuidade entre o deus do pai eo deus que se revela a Moisés. Tal como o deus do pai, o Senhor não estaligado a um sítio especifico; de mais a mais, existe uma relação particular comMoisés na qualidade de chefe de um grupo.As diferenças, porém, são significativas. Enquanto o deus dos pais eraanônimo, o Senhor era um nome próprio que punha em evidencia seu mistérioe sua transcendência. As relações entre a divindade e seus fiéis sãoalternadas: já não se fala do “deus do pai”, mas do “povo do Senhor”. A idéiada eleição divina, presente nas promessas feitas a Abraão (Gênese, 12,1-3),tornava-se precisa: O Senhor chama aos descendentes dos patriarcas “meupovo”; eles são, segundo a expressão de R. de Vaux20, sua propriedadepessoal. Ao prosseguir o processo de assimilação do deus do pai a El, oSenhor também foi identificado com ele. Tomou emprestada a El a estruturacósmica e adquiriu seu título de rei. “Da religião de El, o javismo tirou também aidéia da corte divina, formada pelos benê‟ élohim”. Por outro lado, o caráterguerreiro do Senhor prolonga o papel do deus do pai, antes de qualquer coisaprotetor dos seus fiéis.O essencial da revelação está concentrado no decálogo (Êx 20,3-17; cf. Êx34,10-27). Em sua forma atual, o texto não pode datar da época de Moisés,mas os mais importantes mandamentos refletem com toda certeza o espírito dojavismo primitivo. O primeiro artigo do decálogo, “Não terás outros deusesdiante de mim!”, demonstra que não se trata de monoteísmo no sentido estritodo termo. A existência de outros deuses não é negada. No canto de vitoria19 O Tetragrama sagrado «YHWH» é uma expressão da infinita grandeza e majestade de Deus, que semanteve impronunciável e por isso foi substituída na leitura das Sagradas Escrituras com o uso dapalavra alternativa ‘Adonai’, que significa ‘Senhor’, sendo assim, todas as vezes que aparecer otetragrama no nosso texto, será substituído por: “o Senhor”.20 Roland Guérin de Vaux, Dominicano, que conduziu a equipe que trabalhou inicialmente no MarMorto. Ele era o diretor da Escola Bíblica, fez escavações de Qumran. Sua equipe escavou o sítio antigode Khirbet Qumran (1951-1956), bem como diversas cavernas perto de Qumran, a noroeste do MarMorto.
  • 32. 31entoado depois da passagem do mar, Moisés exclama: “Quem é igual a ti, óSenhor, entre os deuses?” (15,11). Pede-se, porém, a fidelidade absoluta, poiso Senhor é um “Deus Zeloso cioso” (20,5). A luta contra os falsos deusescomeça imediatamente depois da saída do deserto, em Baal Peor. Foi ali queas filhas dos moabitas convidaram os israelitas a participar dos sacrifícios aosseus deuses. “O povo comeu e prostrou-se diante de seus deuses” (Núm25,2s), provocando a ira do Senhor. Para Israel, essa luta, iniciada em BaalPeor, perdura.O sentido do segundo mandamento, “Não farás para ti imagem”, não é de fácilcompreensão. Não se trata de uma proibição ao culto dos ídolos. Sabia-se queas imagens, familiares aos cultos dos pagãos, não passavam de umreceptáculo da divindade. Provavelmente, a idéia subjacente nestemandamento implicava a proibição de representar o Senhor por um objetocultual. Assim como não tinha nome, o Senhor não devia ter imagem. Deusconsentia ser visto, diretamente, por alguns privilegiados; pelos outros homens,por seus atos. Ao contrário das outras divindades do Oriente Próximo, que semanifestavam ao mesmo tempo sob forma humana e animal ou cósmicas, poiso mundo inteiro é sua Criação.O antropomorfismo do Senhor possui um duplo aspecto. Por um lado,apresenta qualidades e defeitos especificamente humanos: compaixão, ódio,alegria, pesar, perdão e vingança. (Entretanto, não demonstra as fraquezas eos defeitos dos deuses homéricos, e não aceita ser ridicularizado, como certosdeuses do Olimpo.) por outro lado, o Senhor não reflete, como a maioria dasdivindades, a situação humana: não tem uma família, mas tão somente umacorte celeste. O Senhor é Um e Único. Devemos ver outro traço antropomórficono fato de ele solicitar aos fiéis uma obediência absoluta, como um déspotaoriental? Trata-se mais de um desejo inumano de perfeição e de purezaabsoluta.Da mesma forma, a violência do Senhor provoca um rompimento nos quadrosantropomórficos. Sua raiva revela-se às vezes de tal maneira irracional que se
  • 33. 32pôde falar do “demonismo”21 do Senhor. Sem dúvida alguns desses traçosnegativos serão endurecidos mais tarde, após a ocupação de Canaã. Mas ostraços negativos pertencem à estrutura original do Senhor. De fato, trata-se deuma expressão, e a mais impressionante, da deidade como absolutamentedistinta de sua Criação, como o outro por excelência (o ganz andere22 deRudolph Otto). A coexistência dos atributos contraditórios e a irracionalidade dealguns de seus atos distinguem o Senhor de todo ideal de perfeição na escalahumana. 1.2. Relacionamento entre Deus e a criaturaOs salmos de entronização exaltam o Senhor como rei. Ele é um rei grandesobre todos os deuses, (95,3) o Senhor é rei, os povos estremecem! O rei queama a justiça és tu; tu estabeleceste as normas da probidade, da justiça e dodireito, (99,1-5). Deus é senhor do mundo porque foi seu criador. O Senhordispensa o bem e o mal, tira e dá a vida, abate e eleva (I Samuel 2,6s). Suacólera é temível, mas ele é também compassivo e por excelência Santo, o quesignifica que é ao mesmo tempo inacessível e distinto, e que traz a salvação.Criador e rei do mundo, o Senhor é também o juiz da sua Criação, “Nomomento que eu tiver decidido, eu próprio vou julgar com retidão”. (Salmo75,3). Ele julga com equidade (Salmo 96,10). Sua justiça, a um só tempomoral, cósmica e social, constitui a norma fundamental do Universo.21 ELIADE, Mircea, História; p.178.22 “Ganz andere” é uma expressão inspirada pelas idéias do teólogo protestante Rudolf Otto (1869-1937) e que aparece na introdução do clássico “O Sagrado e o profano: a essência das religiões” deautoria de Mircea Eliade. O sentido da expressão aponta para aquilo que é grandioso e “totalmentediferente”. Em relação ao “Ganz andere”, o homem tem o sentimento de sua profunda nulidade, osentimento de não ser nada mais do que uma criatura, segundo os termos com que Abraão teria sedirigido ao Senhor – de não ser senão cinza e pó (Gen: 18:27). “Ganz andere” se identifica com aquiloque o homem religioso interpreta como a materialização extrema do sagrado. Uma experiência possívelde ser experimentada ao se observar durante a noite a imaginária esfera celeste com seus infinitospontos luminoso.
  • 34. 33O Senhor é um Deus vivo; ele se distingue dos ídolos que não falam e quedevem ser carregados, porque não podem caminhar. O homem é também umser vivo, uma vez que Deus lhe insuflou o sopro ou espírito; mas a suaexistência é de curta duração. O homem foi tirado do pó e ao pó retornará (Gên3,19). Uma vida longa é o seu maior bem. A morte é degradante, ela reduz ohomem a uma pós-existência larvar no túmulo ou no sheol. O Senhor não reinasobre o sheol, já que a morte é a negação de sua obra. Por conseguinte, omorto está privado de relacionar-se com Deus, o que constitui para o fiel, amais terrível das provações. Nesta afirmação, acredito que se encontra aexplicação para tantas passagens bíblicas na qual vemos a ação de Deustirando a vida de muitos, como no caso da morte dos primogênitos no Egito oumesmo da morte dos soldados do Faraó. Podemos compreender assim, queaqueles que estão mortos são os que não acreditam em Deus, não tem umrelacionamento com ele e, não que Deus tenha realmente tirado suas vidas. OSenhor é mais poderoso que a morte, se deseja, pode tirar o homem de suasepultura. Alguns salmos aludem a esse prodígio: “Do sheol tiraste a minhaalma; tu me reavivastes dentre os que baixam à cova” (30,4); “Jamais morrerei,eu vou viver;... O Senhor me castigou e castigou, mas não me entregou amorte” (118,17). Ao reconhecer O Senhor como Criador e soberano absoluto, ohomem chega a conhecer certos predicados de Deus. Uma vez que a Torahproclama com precisão a vontade divina, o essencial é seguir osmandamentos, isto é, comportar-se de acordo com o direito ou a justiça. Oideal religioso do homem é ser justo, conhecer e respeitar a lei, a ordem divina.Como lembra o profeta Miquéias (6,8) “Foi-te anunciado, ó homem, o que ébom, e o que O Senhor exige de ti: nada mais do que praticar o direito, gostardo amor e caminhar humildemente com o teu Deus.” O pecado leva à perda dabenção. Mas, como o pecado faz parte da condição humana, e porque oSenhor, apesar de duro, é misericordioso, a punição nunca é definitiva, ela temuma função pedagógica.
  • 35. 34 1.3. Oseías e a amargura de Deus diante da traição do povoIsrael foi a esposa do Senhor, mas ela lhe foi infiel, e se “prostituiu”, em outraspalavras, entregou-se aos deuses cananeus da fertilidade. “Ela disse: Querocorrer atrás de meus amantes, daqueles que me dão o meu pão e a minhaágua, a minha lã e o meu linho, o meu óleo e a minha bebida. Mas ela nãoreconheceu que era eu quem lhe dava o trigo, o mosto e o óleo, quem lhemultiplicava a prata e o ouro que eles usavam para Baal” (Os 2,7-10).Israel esqueceu-se de sua história: “Quando Israel era menino, eu o amei e doEgito chamei meu filho. Mas quanto mais eu os chamava, tanto mais eles seafastavam de mim” (Os 11,1-2). A ira provocada pela incorrigível ingratidãoexplode. O castigo será terrível: “E eu me tornei para eles como um leão, comouma pantera no caminho eu estava à espreita. Eu os ataco como uma ursadespojada de seus filhotes rasgo-lhes o peito e aí os devoro como uma leoa, osanimais do campo os despedaçarão” (Os 13,7-9). A única salvação é umretorno sincero ao Senhor. “Volta, Israel, ao Senhor, teu Deus, pois tropeçasteem tua falta. Tomai convosco palavras e voltai ao Senhor; dizei-lhe: Perdoatoda culpa aceita o que é bom...” (Os 14,2-3). Oséias esta consciente de que adecadência dos pecadores não lhes permite voltar para o seu Deus, (Os 5,4).No entanto, o amor do Senhor é mais forte que sua ira. “Não executarei o ardorde minha ira... porque eu sou um Deus e não um homem, eu sou Santo nomeio de ti, não retornarei com furor” (Os 11,9). Ele quer conduzir Israel aodeserto e falar ao seu coração... Lá ela responderá como nos dias dejuventude, como na época em que saiu da terra do Egito. E, naquele dia, mechamará „Meu marido‟... Eu te desposarei a mim para sempre, eu te desposareia mim na justiça e no direito, no amor e na ternura. (Os 2,16-21). Será umretorno aos primeiros tempos do casamento místico do Senhor e Israel. Esseamor conjugal já anuncia a crença na redenção: a graça de Deus não espera aconversão do homem, mas a antecede. Convém acrescentar que o simbolismoconjugal será utilizado por todos os grandes profetas posteriores a Oséias.O que mais surpreende nos profetas, é a critica que fazem ao culto e aferocidade com que atacam o sincretismo, ou seja, as influências cananeias, a
  • 36. 35que dão o nome de „prostituição‟. Mas essa prostituição, contra a qual investemsem descontinuar, representa uma das mais difundidas formas da religiosidadecósmica. Específica aos agricultores, a religiosidade cósmica prolongava amais elementar dialética do sagrado, especialmente a crença em que o divinose encarna, ou se manifesta, nos objetos e nos ritmos cósmicos. Ora, talcrença foi denunciada pelos fiéis do Senhor como idolatria por excelência, eisso desde a penetração na terra de Canaã. Mas nunca a religiosidade cósmicafoi tão selvagemmente atacada. Os profetas acabaram conseguindo esvaziar aNatureza de toda a presença divina. Setores internos do mundo animal, oslugares altos, as pedras, as fontes, as arvores, certas colheitas, serãodenunciados como „impuros‟, visto que maculados pelo culto das divindadescananeias da fertilidade. A religião pura e santa é apenas o deserto, pois foi láque Israel permaneceu fiel ao seu Deus.A dessacralização da Natureza, a desvalorização da atividade cultual, emsíntese, a rejeição violenta e total da religiosidade cósmica, e, sobretudo aimportância decisiva atribuída à regeneração espiritual do individuo peloretorno definitivo ao Senhor, eram a resposta dos profetas às crises históricasque ameaçavam a própria existência dos dois reinos judeus. A alegria de viversolidária de toda religião cósmica, era ilusória, condenada a desaparecer naiminente catástrofe nacional. Com efeito, a religião cósmica encorajava a ilusãode que a vida não se interrompe, e de que a nação e o Estado podemsobreviver, por muito grave que sejam as crises históricas. Contudo os profetasanunciavam não só a ruína do país e o desaparecimento do Estado;proclamavam ainda o risco do aniquilamento total da nação.A realização das pregações pronunciadas pelos profetas confirmava-lhes amensagem,e, de maneira precisa, que os acontecimentos históricos eram obrado Senhor. Em outras palavras, os acontecimentos históricos adquiriram umasignificação religiosa, transformavam-se em „teofanias‟ negativas, em „ira doSenhor‟. Dessa maneira, eles revelavam a sua coerência interna,manifestando-se como a expressão concreta de uma só, única, vontade divina.Assim, os profetas pré-exílicos, pela primeira vez valorizavam a história. Osacontecimentos históricos possuem desse momento em diante, um valor em si
  • 37. 36mesmo, na medida em que são determinados pela vontade de Deus. Os fatoshistóricos tornam-se, assim, situações do homem em face de Deus, e comotais adquirem um valor religioso que nada podia assegurar-lhes. Por isso, háverdade em afirmar que os judeus foram os primeiros a descobrir a significaçãoda história como epifania de Deus; é o povo através do qual Deus se revelou eque revelou Deus ao mundo. O cristianismo23, com sua base judaica e por seressencialmente missionário, visibilizou Deus em dimensão universal.Observemos, contudo, que a descoberta da história enquanto teofania não seráimediatamente e totalmente aceita pelo povo judeu, e que as antigasconcepções persistirão ainda por muito tempo.23 ELIADE, Mircea, Mito do eterno retorno. Sobre a salvação do tempo, sua valorização no âmbito dahistória santa israelita.
  • 38. CAPÍTULO IIIO Deus do Antigo e do Novo Testamento é um e único
  • 39. 38 1. Jesus o judeuNascido na Galiléia há mais de dois mil anos, Jesus de Nazaré foi, semmargem para dúvidas, um judeu. As escrituras cristãs confirmam a cada passoque Cristo – Yeshua ben Yosef, de seu nome hebraico – seguiu à risca astradições e mandamentos do judaísmo ortodoxo. Mesmo assim, duranteséculos, cristãos e judeus recusaram reconhecer as raízes judaicas dopregador da Galiléia, a quem chamaram rabinas, e que acabaria por tornar-seuma das mais influentes e emblemáticas figuras da História humana.24Abandonado, e mesmo combatido, pela Igreja Cristã (tanto católica comoprotestante) durante séculos, o judaísmo de Jesus, e o seu enquadramentocontextual, só começou a ser explorado recentemente.Esta corrente, nascida na reta final do século XIX, assumiu novas proporçõesnos finais do século XX, quando a busca do “Jesus Histórico” e das raízeshebraicas de Cristo começou a fascinar teólogos e históriadores cristãos ejudeus. Separados já do repetitivo anti-semitismo que levara os cristãosdurante séculos a negarem o judaísmo de Jesus, estes redescobriam agora oMessias cristão no seu contexto histórico, étnico e religioso.O judaísmo de Jesus foi, até 1900, praticamente posto de parte também pelospensadores judeus, em grande medida como reação às perseguições que ocristianismo principiara contra os hebreus. Recorde-se que até ao ConcílioVaticano II, em 1965, a própria Igreja Católica acusava os judeus de teremmorto Cristo – uma acusação que não só negava a verdade histórica,desculpabilizando o papel do governador romano Pôncio Pilatos enquantoexecutor máximos da pena (ver Who is Responsible for Jesus‟ Execution),como também escondia o fato de Jesus ser, ele próprio, um judeu. Esse eraum fato histórico inescapável, mas mesmo assim rodeado de uma polêmicaapenas explicável por um anti-semitismo latente.24 GUERREIRO, Nuno Josué. http://ruadajudiaria.com/?p=62 acessado em 09-03-2011.
  • 40. 39Muitos cristãos continuavam a recusar aceitar o fato de que Jesus era judeu,afirmando a pés juntos que ele era „cristão‟. Mas um cristão, por definição, éum seguidor de Cristo. Se assim fosse, Jesus seria um seguidor de si próprio.Contando com as poucas referências talmúdicas, as fontes históricas judaicassobre Jesus restringem-se a breves passagens de fragmentos deixados porhistóriadores hebreus, o mais famoso dos quais o Testimonium Flavianum,escrito por Flavius Josephus, que viveu entre o ano 37 e 100 da era comum.Agora, passados séculos após a morte de Jesus, aos poucos, rabinos epensadores humanistas judeus começaram a reclamar Jesus enquanto figurahistórica intimamente ligada ao judaísmo.Na verdade, os relatos das escrituras cristãs apontam para o fato de Jesus tercumprido a risca todos os preceitos da religião judaica. Contam que Jesus foicircuncidado oito dias após ter nascido (Lucas, 2:21), segundo regem as leisjudaicas; ainda bebê foi apresentado no Templo em Jerusalém (Lucas, 2:22),de acordo com o que mandava a tradição, e foi educado na Lei de Moisés(Lucas 2, 39 a 42). Aos 12 anos no Templo “ouvia e interrogava” os rabinos(Lucas 2:46). Mais tarde, os evangelistas relatam que Jesus celebrava osfestivais judaicos (Páscoa, Tabernáculos e Hanuká) além de guardar todos ossábados como dias santos.Qualquer estudo sobre Jesus, empreendido no quadro geral da especialidadedo Novo Testamento, mais cedo ou mais tarde é obrigado a se confrontar comas atitudes de Jesus quanto à “Lei”. Jesus observava ou não a Torah deMoisés?A Lei de Moisés não se restringe a detalhes ritualísticos, mas abrange toda aesfera da vida judaica. Determina regras para a agricultura, comércio e possede propriedades imóveis e móveis. Ocupa-se do casamento e suas implicaçõesfinanceiras; de compensações por danos materiais sofridos por uma pessoa oudo prejuízo físico infligido por homens ou por animais que a eles pertencem. ATorah legisla sobre roubo, violação, homicídio e muitas outras matérias civis oucriminais para as quais juízes e tribunais tinham competência. Resumindo, umroteiro de uma vida civilizada constitui grande parte das leis mosaicas. Jesus
  • 41. 40rejeitava estas Leis? Os Evangelhos Sinóticos, nossa principal testemunha,não oferecem apoio para esta teoria. Mais ainda, já que não está expresso nemsugerido nos Evangelhos que Jesus deixou de pagar suas dívidas, feriu seusoponentes ou cometeu adultério, é razoável concluir que ele aceitava,respeitava e observava as leis e costumes que regulavam a existência privadae pública vigentes entre seus compatriotas à sua época.25A legislação do Shabat pertence basicamente ao mesmo domínio cúlticoembora não esteja diretamente relacionada ao Templo de Jerusalém. Mesmoassim, representa uma categoria inteiramente diferente já que, de acordo coma Bíblia e com a lei pós-bíblica, os infratores do Shabat, melhor dizendo, algunsdeles, podiam incorrer em pena de morte.26Como Jesus distinguia entre o lícito e o ilícito no sétimo dia, podemos observarque, não existe nenhum registro de que ele tenha sido denunciado àsautoridades encarregadas da lei criminal judaica por mau comportamentopúblico a este respeito. Ele nem é criticado abertamente por operar curas noShabat. O comentário mais próximo relatado a este respeito é uma censuraendereçada pelo dirigente de uma sinagoga da Galiléia aos seus congregadosque pediam para ser curados no Shabat de preferência a qualquer outro dia dasemana (Lc 13,14).25 Enquanto a autenticidade histórica das polemicas do Evangelho com os fariseus e outros grupos sejamais que duvidosa é, mesmo assim, altamente significativa para a representação geral de Jesus que,quando perguntado se os judeus deveriam pagar impostos a Roma, ele é mostrado como defensor dasexigências imperiais (Mc 12,17; Mt 22,21; Lc 20,25).26 O Decálogo (Ex 20,8-11;Dt 5,12-15) proíbe simplesmente trabalhar no Shabat. Os atos proibidos sãoespecificados apenas incidentalmente na Bíblia: viajar (Ex 16,29), arar (Ex 34,21), acender fogo (Ex 35,3),apanhar gravetos (Nm 15,32-36) e comerciar (Ne 10,31). A penalidade por não guardar o Shabat éidêntica apenas uma vez, no caso particular do homem que recolhia gravetos no deserto (Nm 15,35-36).Temos de esperar até o Livro dos Jubileus (50,6-9), de meados do segundo século a.C. e os estatutos doDocumento de Damasco (10,14-12.6), meio século após, até encontrar as primeiras tentativas desistematização e até a seção relevante da Mishná (Shab. 7,2), antes de obter uma lista detalhada dastrinta e nove classes de ações proscritas. Tanto Jubileus (50.8) quanto a Mishná (Sanh. 7.4) declaramque a não observância do Shabat é passível de pena de morte, isto é, por apedrejamento ao fim de umjulgamento, de acordo com a Mishná.
  • 42. 41Mais positivamente, a representação geral de Jesus que surge dos EvangelhosSinóticos é a de um judeu que observa as principais práticas religiosas de suanação.De inicio, Jesus é regularmente associado com sinagogas, centros de culto ede ensino. Encontramos referencias gerais à sua presença nestes centros daGaliléia, por vezes especificamente no Shabat. Duas destas sinagogas, umaem Cafarnaum (Mc 1,21; Lc 4,31) e a outra em Nazaré (Lc 4,15), sãoespecialmente designadas. Ao que parece, ele era uma figura familiar nessescírculos, como mestre e pregador de grande originalidade muito solicito, bemcomo operador de curas, carismático e exorcista altamente admirado (Mc 1,39;Mt 4,23; Lc 4,44, ect.).Jesus aparece em todos os três Evangelhos como um homem que, emobediência à lei bíblica, vinha a Jerusalém no Pessah, um dos festivais deperegrinação obrigatória. Visitava o santuário, onde a atmosfera profana quereinava na área dos mercadores o incitou a uma intervenção violenta que podeter contribuído substancialmente para decidir seu destino. Entretanto, quandose acalmou, é relatado que ensinava todos os dias no pátio do Templo,aparentemente sem ser molestado, embora provavelmente vigiado pelasautoridades (Mc 11,15; 14,49; Mt 21,12; 26,55; Lc 19,45; 22,53, etc.).Além de freqüentar sinagogas e ser um peregrino do Templo, Jesus é retratadocomo observante de mandamentos particulares de importância ritual. Oprincipal entre eles é guardar, ou, falando mais corretamente, comer o Pessah(Mc 14,12-16; Mt 26,17-19; Lc 22,7-15). O Pessah era uma celebração familiar,embora à época do Segundo Templo estivesse também ligado ao santuárioonde era sacrificado o cordeiro de Pessah. 1.1. “Abba, Pai”: O Deus de JesusA idéia de um soberano celestial era fundamental para os judeus na idadebíblica, intertestamentária e rabínica.
  • 43. 42Este também era o conceito do Deus/Pai. Os dois títulos estão vinculados naprece litúrgica Avinu, malkenu (Nosso Pai, nosso Rei), cuja origem é atribuídapela tradição talmúdica (bTaan 25ª) à invocação de Rabi Akiba (135 d.C.)diante da arca da sinagoga, o que fez terminar uma severa estiagem: Nosso Pai, nosso Rei, pecamos diante de Ti. Nosso Pai, nosso Rei, não temos outro Rei além de Ti. Nosso Pai, nosso Rei, tem misericórdia de nós.Enquanto em pronunciamentos públicos e em preces, o divino epíteto “Rei”pareça predominar na antiga literatura judaica, como foi enfatizado, estásurpreendentemente ausente de pronunciamentos atribuídos a Jesus. Emcontraste, os Evangelhos Sinóticos o representam como se dirigindo a Deus,ou falando dele, como “Pai” em cerca de sessenta ocasiões e, ao menos umavez, proferindo o título aramaico Abba. Não é passível de discussão que estaidéia seja essencial para uma percepção precisa da religião de Jesus e, comode modo geral, não é necessário dizer que para perceber sua mensagem deforma dinâmica, a evidencia do Evangelho deverá ser considerada emperspectiva.O conceito de Deus como Pai de Jesus, de seus seguidores e de todo o mundocriado está profundamente implantado nos Evangelhos. Ao considerar aDeidade como um Pai atento, Jesus tenciona passar a seus discípulos aatitude apropriada para com Deus, e já que a noção de Pai e de filho sãocorrelatas, ele propõe um modelo para o comportamento dos “Irmãos e irmãs”.Comparada a freqüência do tema do Reino divino, a imagem do Pai érelativamente rara no gênero literário das parábolas, aparecendo apenas nasparábolas dos Dois filhos e na do Filho pródigo.Na primeira, MT 21,28-32, comparado ao papel desempenhado pelos filhos, opai é o personagem menos importante, limitando-se a dar ordens. Por outrolado, o principal traço paterno é o perdão não formulado ao filho rebeldequando este se arrepende. Na segunda, a Parábola do Filho Pródigo, Lc 15,11-32, o pai reconhece intuitivamente o arrependimento do filho antes que seja
  • 44. 43expresso, corre ao seu encontro, abraça-o e proclama publicamente seuregozijo por aquele que estava perdido e morto, mas que agora foi encontradoe está vivo.O imaginário restrito do conceito de Deus que sublinha estas parábolas refleteamor e paciência para com um filho verdadeiramente arrependido ecorresponde ao profundo anseio espiritual dos publicanos e dos pecadores,clientes preferidos de Jesus.Em linha com o ensinamento das parábolas, um dos traços salientes dapregação de Jesus é o pronto perdão a seus filhos transviados.Começando com uma rara máxima de Marcos 11,25, uma entre apenas as trêsocorrências neste Evangelho onde Deus é chamado de Pai, a versão maisbreve, que aparece em alguns dos códices mais antigos (Sinaítico e Vaticano),assim se apresenta:  E quando estiveres rezando, perdoa o que tiveres contra alguém, para que teu pai que 27 está no céu possa perdoar tuas faltas (11,25).O texto mais longo, que se segue a 11,26, inclui também uma formulaçãonegativa calcada em Mt 6, 14s., ela mesma acrescentada, como uma reflexãotardia, ao versículo relevante (Mt 6,12) do Pai Nosso.  Se perdoares aos homens as suas faltas, teu Pai celeste também perdoará as tuas; mas se não perdoares aos homens as suas faltas, teu Pai celeste também não 28 perdoará as tuas.De qualquer forma, subsiste pouca dúvida de que a noção do perdão é um dosingredientes centrais da imagem do Pai em Jesus.27 Deve-se notar que estas palavras, embora provavelmente independentes em sua origem, estãoanexadas a um texto de prece que aparece em Marcos 11,24.28 A máxima negativa é incluída também como sumário doutrinal da Parábola do Servo Cruel (Mt 18,35).O ensinamento relativo à reconciliação necessária, mesmo fazendo uma oferenda no Templo, éenfatizada igualmente em Mt 5,23s., sem referencia a um Pai celeste benevolente. A alusão aosantuário, que na opinião de Bultmann atesta a forma mais original porque “pressupõe a existência dosistema sacrificial, em Jerusalém, é mais provavelmente derivada de Mateus do que de Jesus, cujointeresse em assuntos do Templo parece ter sido um tanto periférico.
  • 45. 44Outra característica do Pai celestial é sua solicitude paternal, doutrina centraldo material “Q” e reforçada por outras instancias peculiares a Mateus. Maisuma vez, a costumeira falta de apreciação de Lucas quanto aos pontos maisfinos da mentalidade judaica de Jesus revela-se por várias vezes em suasubstituição de “Pai” por “Deus”.Na maioria dos exemplos, esta benevolente paternidade divina vincula-se aoambiente Judaico de Jesus e faz ecoar a perspectiva religiosa particular de suaépoca; assim, a preocupação por elementos essenciais tais como alimento,bebida e roupas é vista como a marca distintiva dos gentios (Mt 6,32).O ensinamento de Jesus a respeito de Deus, o Pai, reflete as idéias religiosasdo judaísmo bíblico, e particularmente as idéias de sua própria época.A imagem de Pai divino na Bíblia atestada na escritura é manifeta numavariedade de nomes teofóricos que contém o elemento Ab (Pai). Empregamtanto os títulos divinos do hebraico, YH(W) e EL e resultam em AbiYAH ou AbbiYAHU (Yah ou Yahu significam meu Pai), ou YoAB (Yo é o Pai). Do mesmomodo temos Abbi El e ELIab (Deus é o Pai) em nomes judaicos da era pré-exilica e do Segundo Templo. Abram e ABIram (Pai excelso e Meu Pai éexaltado), que podem ser rastreados à idade patriarcal, representam o mesmotipo. Enquanto as nuances exatas do termo “Pai” permanecem vagas, nãopode haver dúvida de que mesmo em nível individual o relacionamento entreDeus e os israelitas era visto de uma perspectiva de família.29Essa antiga atitude subjacente é explicitamente expressa, principalmente emtermos coletivos que se aplicam a membros da nação judaica. DescrevemDeus como seu Pai e Deus faz alusão a eles como seus filhos. A mais antigaatestação é a célebre passagem de Ex 4,22 onde, segundo a tradição “J”,Moisés se dirige ao Faraó:  Assim disse o Senhor, “Israel é meu filho, meu primogênito”.Em Dt 32,6, o Cântico de Moisés formula a seguinte pergunta:29 Cf. VERMES, Geza, A religião de Jesus, o Judeu, Rio de Janeiro: Imago, 1995; p. 158-159.
  • 46. 45  Não é ele teu Pai que te criou, te fez e te estabeleceu?Em outros exemplos do Deuteronômio, Moisés ora diz aos judeus, “Vós sois osfilhos do Senhor vosso Deus” (14,1), ora transmite a mesma mensagem pormeio de uma comparação:  Sabei pois, em vosso coração, que assim como o homem disciplina seu filho o Senhor vosso Deus vos impõe sua disciplina (8,5).O mesmo tipo de imagem é usado em Sl 103,13, em relação aos devotos:  Assim como o pai tem devoção de seus filhos, do mesmo modo o Senhor tem devoção daqueles que o temem.Na literatura profética, Deus é representado proclamando o vínculo Pai-filhoentre ele mesmo e Israel:  Gerei e criei filhos, mas eles se revoltaram contra mim (Is 1,2).  E onde lhes foi dito: “Não sois meu povo” lhes será dito: “Filhos do Deus vivo” (Os 2,1).  Pois sou um pai para Israel e Efraim é meu primogênito (Jr 31,9).Nos salmos, Deus proclama o rei seu filho no momento de sua entronização,declaração dotada de significado messiânico depois do desaparecimento dasoberania política:  Tu és meu filho, hoje eu te gerei (Sl 2,7).Entretanto, enquanto a metáfora parece familiar, a referência comunitária aDeus, em forma de prece, como “nosso Pai” ocorre relativamente tarde, empassagens da literatura pós-exílica:  Pois tu és nosso Pai, já que Abraão não nos conhece e Israel não nos reconhece, Tu, ó Senhor és nosso Pai, Nosso Redentor, este é teu nome desde a antiguidade. (Is 63,16).O paralelismo entre Deus e Abraão é do maior significado e a associação dePai e Redentor também é reveladora.  Ó Senhor, tu és nosso Pai; somos a argila e tu és nosso oleiro, somos o trabalho de tuas mãos (Is 64,7).
  • 47. 46Como mostra o contexto, “Pai” e “Oleiro” são intercambiáveis. Ao mesmotempo, não é ao poder supremo do Criador mas ao amor e à compaixão do“Pai” que o suplicante apela.Ainda num sentido coletivo, mas reduzido do nível nacional ao sacerdotal, oprofeta Malaquias escreve:  Um filho honra seu pai e um servo seu senhor. Se sou um Pai, onde está minha honra? E se sou um Senhor, onde está meu temor? – diz o Senhor dos exércitos a vós, ó sacerdotes (1,6).  Não temos todos um Pai? Não foi um único Deus que nos criou (2,10)?A compreensão de Deus como Pai celeste, típica da pregação de Jesus, seenquadra no desenvolvimento do pensamento religioso judaico num esboçoesquemático, que vai desde a Bíblia até os rabis, a idéia do Pai divino sedesloca para o nível coletivo a partir do Criador/Gerador do povo judeu (dentroda humanidade) em direção ao Protetor amante e afetuoso do membroindividual da família. À época dos sábios tanaíticos, até o século III d.C., o Paiceleste é o Deus providencial, distinto do Deus Rei-Juiz-Soberano, e a imagempaternal é nitidamente muito familiar no meio hassídico-carismático.30A representação de um Pai amante e solícito não se ajusta à experiênciahumana de um mundo duro, injusto e cruel. Naquela época como agora, osfilhotes implumes ainda caem do ninho, os pequeninos morrem e, como opróprio Jesus logo iria experimentar, os inocentes sofrem31. Mas o que seencontra no interior de sua intuição é a convicção de que o eterno, distante,dominador e terrível Criador é também primariamente um Deus próximo e quepode ser alcançado.Como vimos até agora, Jesus era judeu. Sua religião, o Judaísmo. No meio doseu povo, dentro de sua cultura religiosa, Jesus de Nazaré anunciou a BoaNotícia (Boa-Nova = do grego, Evangelho) de que “o Reino de Deus está30 Cf. VERMES, Geza, A religião de Jesus, o Judeu. p. 164.31 Cf. Idem, op. Cit., p. 165.
  • 48. 47próximo” (Mc 1, 15), tão próximo que se podem constatar os seus sinaisvisíveis e palpáveis no meio do povo.Dentro dessa perspectiva da irrupção do Reino de Deus na história, a imagemde um Deus próximo (que se pode encontrar no cotidiano da vida e naintimidade de um lar, no qual se pode confiar como a um pai e ou a uma mãe)está em perfeita sintonia com toda a pregação da Boa-Nova. 1.2. O Deus dos cristãosO Deus dos cristãos, fundamentalmente, é o Deus de Jesus de Nazaré, oCristo. De fato, a experiência cristã de Deus se dá na dinâmica da vida, nacaminhada do seguimento de Jesus. Na concepção cristã atual, podemoslevantar quatro elementos cujas características são, ao mesmo tempo,continuação e ruptura do que está contemplado nas etapas pré-cristãs dadescoberta de Deus32. 1. Deus, o Absoluto, é Amor 2. Somos colaboradores do Plano de Deus 3. O Plano de Deus é universal 4. A adesão ao Plano de Deus é fruto da liberdade humana1. Esse absoluto é percebido, descoberto em nosso mundo histórico.Por sua encarnação, Deus se uniu a todo ser humano: trabalhou com mãoshumanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amoucom coração humano (GS “Constituição Pastoral Gaudium et Spes”, nº. 22).Por isso “o Verbo de Deus, por Quem todas as coisas foram feitas e que seencarnou e habitou na terra dos humanos, entrou como homem perfeito na32 JUNIOR, João Luiz Correia, Do Deus distante para o Deus amor, o desenvolvimento da idéia sobre Deusna Bíblia, Pernambuco: Revista Symposium 2000; p. 19.
  • 49. 48história do mundo, assumindo-a em Si mesmo e em Si recapitulando todas ascoisas. Ele nos revela que Deus é amor” (1Jo 4, 8).2. Nessa colaboração, participamos de um grande desígnio histórico. “A féesclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre avocação integral do ser humano. E por isso orienta a mente para soluçõesplenamente humanas” (GS 11).3. O Plano é tão universal como o próprio Deus. “A Igreja, „assembléia visível ecomunidade espiritual‟, caminha juntamente com a humanidade inteira.Experimenta com o mundo a mesma sorte terrena; é como que o fermento e aalma da sociedade...” (GS 40).4. A liberdade do ser humano não consiste, pois, em estar à prova diante deuma lei, mas que se converta verdadeiramente em seres humanos novos ecriadores de uma nova humanidade, com o auxílio necessário da graça divina”(GS 30).Permanecerão o amor e sua obra... Depois que propagarmos na terra, noEspírito do Senhor e por Sua ordem, os valores da dignidade humana dacomunidade fraterna e da liberdade, todos estes bons frutos da natureza e donosso trabalho, nós os encontraremos novamente.... quando Cristo entregar aoPai o reino eterno e universal (GS 39).“Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele”(1Jo 4,16). Essas palavras, diz Bento XVI na sua encíclica “Deus é Amor”(DEA),exprimem, com clareza, o centro da fé cristã, isto é a imagem cristã de Deuse, conseqüentemente, a imagem do homem e do seu caminho. E o papacontinua citando o mesmo versículo joanino, que diz : “Nós conhecemos ecremos no amor que Deus nos tem”(DEA,1).De fato, Deus nos amou primeiro. Cremos que Deus nos ama. Antes deensinar que devemos amar a Deus, a Bíblia nos revela que Deus nos ama enos amou primeiro. João Paulo II, na “Familiaris Consortio”, diz que toda aBíblia não é senão a história de como Deus ama seu povo. Por que Deus nosamou e nos ama assim? Como viver e experimentar este amor em nossa vida?
  • 50. 49Como deixar-nos amar e, na missão, como proclamar a cada pessoa e àhumanidade que Deus nos ama? Pois, como diz Bento XVI, esta verdade é ocentro da fé cristã!O Deus dos cristãos também é o Logos, como anuncia o início do Evangelhode João. Esse Logos joanino é o princípio de todas as coisas criadas e existedesde sempre. Por Ele tudo foi feito e nele toda criação recebe inteligibilidade.Manifesta-se assim também que o Deus dos cristãos é o mesmo Deus deIsrael, que é o Criador de todas as coisas, no qual todas as coisas têm suaverdade, seu sentido e recebem sua inteligibilidade.O Deus dos cristãos é realmente o Ser – em - si, fundamento de tudo o queexiste, mas, já na história de Israel, Ele se revela também como totalmente umSer - para... Um Ser relação. Pois, Ele se mostra como um Deus para oshomens, um Deus que se aproxima dos seres humanos, entra na históriahumana e age nessa história, escolhe para si um povo, o povo hebreu, libertaeste povo da escravidão do Egito, ama e defende esse povo e o conduz à terraque Ele um dia havia prometido a Abraão, Isaac e Jacó, patriarcas desse povoeleito. Esse povo, que Ele elegeu para si, Ele o amou com amor esponsal,como podemos ler no livro do Cântico dos Cânticos e em textos dos profetas,especialmente Oséias e Ezequiel. É um Deus que tem uma relação de aliança,zelo e ciúme por seu povo e faz tudo para não perdê-lo.Esse é também o Deus de Jesus Cristo, o Deus dos cristãos, que é Ser- em- sie Ser- para..., que se aproxima do ser humano e o ama. Em Jesus Cristo vairevelar-se que Deus é acima de tudo Amor, primeiramente em si mesmo edepois também na sua relação com a criação, especialmente com ahumanidade.Este mesmo amor se manifesta, quando Deus decide criar o mundo, emespecial o ser humano. Deus cria por amor e desde o princípio mantém essarelação com suas criaturas, especialmente com a humanidade, um amorindestrutível e fiel. Este amor chega à sua manifestação maior em Jesus Cristo,o Filho de Deus feito homem e entregue a morte de cruz para a salvação dahumanidade. “Deus tanto amou o mundo, que entregou seu próprio Filho”.
  • 51. 50Mas “o que é o amor?” se pergunta Bento XVI na sua encíclica “Deus é Amor”.Para responder a essa pergunta o papa começa a partir do que já os gregosentendiam sobre o amor. De fato, os gregos distinguem três tipos de amor: 1 o.o “eros”, que é o amor sobretudo conjugal, instintivo e possessivo; 2 o. o“ágape”, que é o amor de doação, o amor oblativo; e 3 o. a “filia”, que é o amorde amizade. Qual deles se aplica a Deus, quando se diz que Ele é amor?À primeira vista, parece que deveríamos excluir do amor, que é Deus, o “eros”.“Eros” é paixão avassaladora e possessiva, força irracional e inebriante, diziamos gregos. Mas a Deus se aplica certamente o amor entendido como “ágape”,como doação, como capaz de dar tudo de si para tornar feliz o outro. Essarelação de amor nós vimos na relação mútua entre o Pai, o Filho e o EspíritoSanto. Também o vimos no amor que leva Deus a libertar o povo hebreu daescravidão do Egito e ainda mais quando Ele envia seu Filho ao mundo, esseFilho único, feito homem, Jesus Cristo, que doa sua vida na cruz para nossasalvação. É sempre o amor de doação.Contudo, afirma o papa, em Deus o “eros” não está de todo ausente, ainda quetotalmente puro e santo, a ponto de transformar-se totalmente em “ágape”, semdeixar de ser “eros”. De fato, o “Eros” sente-se atraído pelo amado, sentepaixão que atrai e quer o outro, não quer perder o amado. Ora, isto tambémocorre no amor entre as três Pessoas divinas que, além de se doarem semreservas umas às outras, sentem-se atraídas umas pelas outras e não queremperder umas as outras. O mesmo ocorre na relação de amor de Deus comsuas criaturas, em especial com os seres humanos. Deus sente-se atraído efeliz com sua criação, sente-se apaixonado por ela e faz tudo para não perdê-la. João Paulo II, no Rio de Janeiro, no II Encontro Mundial com as Famílias,disse que Deus ama as famílias com amor apaixonado. Mas este apaixonar-sepor sua criação e sobretudo pelos seres humanos, ao transformar-se em sercapaz de fazer tudo, até mesmo entregar seu Filho único, para não perder suascriaturas, manifesta que em Deus o “eros” é transformado em doação total deSi mesmo e se torna “ágape” em grau supremo.Na própria Bíblia, como já dissemos, o amor que Deus tem por seu povo édescrito em termos de amor esponsal, nupcial, que inclui “eros” e “ágape”.
  • 52. 51O mesmo ocorre no amor que Jesus Cristo manifesta em relação àhumanidade, a cada ser humano, especialmente em relação à sua Igreja.Jesus Cristo ama sua Igreja como o esposo ama sua esposa, escreve oapóstolo Paulo. Jesus Cristo sente-se apaixonado pelo ser humano, quem querque ele seja, não quer perder nenhum, vai em busca da ovelha perdida esente-se feliz e alegre ao encontrá-la, sente-se feliz em poder dar sua vida porsuas ovelhas no terrível suplício da cruz, quando então se manifesta em grausupremo que também em Jesus o “eros” se traduz em doação total, em“ágape”.Então, Bento XVI, em sua encíclica, resume tudo, dizendo: “Na visão daBíblia... Deus é absolutamente a fonte originária de todo o ser; mas esteprincípio criador de todas as coisas – o “Logos”, a razão primordial – é, aomesmo tempo, um amante com toda a paixão de um verdadeiro amor. Destemodo o “eros” é enobrecido ao máximo, mas ao mesmo tempo tão purificadoque se funde com o “ágape” (DEA, 10).Portanto, o amor é a lei fundamental do cristão. Esse amor é um deverindividual de cada cristão para com Deus e com o próximo, e, tudo que istoimplica, seja no culto a Deus e em seu relacionamento constante com Ele, sejano relacionamento com o próximo que vive em situações concretas e temcarências e aspirações concretas.Deus nos ama apaixonadamente, com amor eterno, infinito, incompreensível,sem limites. Criados à sua imagem devemos ser santos como ele é santo,misericordiosos como ele é misericordioso, capazes de amar à semelhança doamor dele, e isto podemos e devemos aprender em Jesus Cristo, o judeu quefoi fiel ao ensinamento religioso de seu tempo. Jesus nos disse: “Dou-vos umnovo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos amei:amai-vos uns aos outros. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos,se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 34-35).
  • 53. 52Vimos no inicio de nosso trabalho, como Marcião,33viveu aflito por acreditarexistir uma acentuada diferença entre Deus no Antigo Testamento e no NovoTestamento, sendo condenado desta forma por heresia.Acredito que no coração desta aflição se encontra um engano fundamental arespeito das revelações feitas sobre a natureza de Deus no Antigo e no NovoTestamento. Outra maneira de expressar este mesmo pensamento básico équando as pessoas dizem: “O Deus do Antigo Testamento é um Deus de ira,enquanto o Deus do Novo Testamento é um Deus de amor.” A Bíblia é aprogressiva revelação de Deus a respeito de Si mesmo a nós através deeventos históricos e através de Seu relacionamento com as pessoas através dahistória. Este fato poderia contribuir para a interpretação errônea sobre como éDeus no Antigo Testamento, se comparado com o Novo Testamento.Entretanto, quando se lê tanto o Antigo quanto o Novo Testamento,rapidamente se torna evidente que Deus não é diferente de um Testamentopara o outro e que tanto a ira de Deus como também Seu amor são reveladosnos dois Testamentos.Por exemplo, através de todo o Antigo Testamento, declara-se que Deus é“misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência everdade” (Êxodo 34:6; Números 14:18; Deuteronômio 4:31; Neemias 9:17;Salmos 86:5; Salmos 86:15; Salmos 108:4; Salmos 145:8; Joel 2:13). No NovoTestamento, a bondade, amor e misericórdia se manifestam de maneira aindamais abundante pelo fato de que “Porque Deus amou o mundo de tal maneiraque deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça,mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Ao longo do Antigo Testamento, tambémobservamos que Deus lida com Israel de um jeito bem parecido com o que umpai amoroso lida com um filho. Quando eles deliberadamente pecaram contraEle e começaram a adorar ídolos, Deus os disciplinou, mas mesmo assim oslivrava cada uma das vezes, quando se arrependiam de sua idolatria. É destaforma que vemos Deus lidando com os cristãos no Novo Testamento. Por33 Cf. nota 17.
  • 54. 53exemplo, Hebreus 12:6 nos diz que “porque o Senhor corrige o que ama, eaçoita a qualquer que recebe por filho.”De forma parecida, através do Antigo Testamento vemos o julgamento e a irade Deus derramados sobre pecadores que não se arrependeram. Sobre a irade Deus, vemos também no Novo Testamento: “Porque do céu se manifesta aira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm averdade em injustiça” (Romanos 1:18). Mesmo em uma leitura rápida do NovoTestamento, fica logo evidente que Jesus fala mais no inferno do que no céu.Então, claramente, Deus não é diferente no Antigo e no Novo Testamento.Deus, por Sua própria natureza, é imutável (Ele não muda). Mesmo quepossamos ver um aspecto de Sua natureza, mais do que outros, revelado emcertas passagens das Escrituras, Ele mesmo não muda.Quando se começa a ler e estudar a Bíblia, se torna evidente que Deus não édiferente no Antigo e no Novo Testamento. Apesar de ser a Bíblia um livrocomposto de setenta e três livros individuais, escritos em dois (oupossivelmente três) continentes, em três línguas diferentes, através de umperíodo de aproximadamente 1500 anos, por mais de 40 autores (vindos dediferentes atividades e ofícios), continua a Bíblia, mesmo assim, um livroconsistente em sua unidade, do começo ao fim, sem contradições. Nisto vemosquão amoroso, misericordioso e justo é Deus ao lidar com os homenspecadores, em todos os tipos de situação. Verdadeiramente, a Bíblia é a cartade amor de Deus para a humanidade. O amor de Deus por sua criação,especialmente pela humanidade, é evidente por todas as Escrituras. Por toda aBíblia podemos ver Deus chamando a todos, com amor e misericórdia, paraterem com Ele um relacionamento especial, não porque mereçam, mas porqueEle é um Deus de graça e misericórdia, tardio em irar-se e cheio de amor,bondade e verdade.Sendo assim, como ver aquelas pelas passagens do Êxodo que fala deLibertação, destruição dos egípcios, passagem do Mar Vermelho. Os textosbíblicos convidam o leitor a acompanhar o caminho feito pelos israelitas.Porém, sempre nos esquecemos daqueles que ficaram: o que aconteceu ao
  • 55. 54povo egípcio com todos aqueles castigos que lhe foram impostos por culpa deseus governantes? Os textos bíblicos nada falam!Diante desta constatação ficamos perplexos, pois, nos perguntamos: que Deusé este que destrói um povo numeroso em prol de um pequeno grupo eleito?Mas será este o real convite que a teologia judaica, através dos eventos dalibertação do Egito, está fazendo aos seus leitores? Quem são os egípcios? E,quem são os leitores a quem se destinam tais textos? Quando respondermos aestas questões terá a chave para entender o porquê do aparente esquecimentodos egípcios e do convite para caminhar com Moisés e os israelitas34.O duelo entre Moisés e o Faraó se inicia, convencendo o leitor de que o Deusdos israelitas é o verdadeiro Deus e que realmente tem poder e quer libertá-losda escravidão, por intermédio de Moisés (Ex. 1-4). O primeiro encontro entreMoisés e o Faraó ocorrerá somente no capítulo 5 do livro do Êxodo, onde oFaraó demonstra não conhecer o Deus de Moisés: "Quem é o Senhor para queeu escute a sua voz e deixe partir Israel? Não conheço o Senhor e não querodeixar partir." (Ex 5,2). Contrapondo-se à pretensão do Faraó, Moisésapresenta o projeto de Deus: que os israelitas saiam para cultuar ao Senhor(Ex 5,3). Assim, o Faraó passa a medir forças com o Senhor aumentando aescravidão sobre os israelitas (Ex 5,4-19), que por sua vez, se revoltam contraMoisés e o Senhor. A posição israelita reforça as pretensões do Faraó, o qualnão ouvirá Moisés (Ex 6,10-12). Afinal, nem os israelitas ouvem o Senhor (Ex6,9.12).O fracasso da missão de Moisés em 7,1-7 se apresenta como parte dos planosde Deus: o Faraó é usado por Deus (Ex 7,3) para a manifestação de suaautoridade: "Estenderei minha mão contra o Egito e com autoridade farei sairmeus exércitos, meu povo, os filhos de Israel, para fora da terra do Egito. Entãoos egípcios conhecerão que eu sou o Senhor, quando estender minha mãocontra o Egito; e farei sair do meio deles os filhos de Israel." (Ex 7, 4-5). Em Ex34 SIGNORINI, Ivanir ; LIMA, Flavio e SIGNORINI, Vanderlei Roque, Uma luta de Deuses.http://www.salvatorianos.org.br/textos_umalutadedeuses.htm acessado em 07-03-2011
  • 56. 557,8-13, a cobra que surge do bastão de Moisés, representando a força deDeus, engole todos os poderes e forças dominadoras do mal, que sepretendem absolutas. Estas duas passagens prefiguram o fracasso daspretensões do Faraó, que ocorrerá em Ex 12,29-14,31, e são as primeirasações divinas contra o Faraó que continuarão acontecendo no episódio dasdez pragas.Para compreender este belíssimo texto, temos que levar em conta a época emque ele foi escrito, final do sexto século, início do quinto, a.C., logo depois dofim do exílio babilônico. Com a queda da Babilônia ante o Império Persa, osexilados poderiam retornar para sua Terra e reconstruir seu país. Só queMuitos judeus, após meio século de estadia na Babilônia, não queriam maisvoltar, preferiam ficar na Babilônia. É neste contexto que os sacerdotesjudaicos começaram a produzir os textos bíblicos para convencê-los aretornarem. O Êxodo é simbólico e representa a volta dos exilados para suasterras; bem como o Egito é símbolo da Babilônia.Moisés, símbolo dos judeus que saíram da Babilônia, traz consigo um novoprojeto de sociedade, apresentado e avalizado pelo Senhor: uma nação santareunida ao redor do templo, sob os sacerdotes. Por isso, Deus está lutandojunto com os judeus que saem do "Egito" (Babilônia). Moisés é convite paraque cada judeu opte, radicalmente, pela sua cultura, suas tradições, seu povo,sua terra e seu DEUS, afogando e matando, completamente o Faraó (culturababilônica) que existe dentro de cada um.
  • 57. 56CONSIDERAÇÕES FINAISNestes tempos de profunda crise religiosa não basta crer em qualquer Deus;precisamos discernir qual é o verdadeiro. Parece-me muito importantereivindicar hoje, na sociedade contemporânea, o autêntico Deus bíblico, o Deusdos Patriarcas, Deus dos Profetas, Deus de Jesus Cristo, sem confundi-lo comqualquer outro “deus” elaborado por nós a partir de medos, ou ambições efantasmas que pouco, ou nada tem a ver com a experiência de Deus vivida ecomunicada no universo bíblico.Em nosso trabalho, conseguimos perceber como Deus se preocupa com aspessoas, é assim que ele olha os que sofrem, é assim que procura os perdidos,é assim que abençoa os pequenos, é assim que acolhe, é assim quecompreende, é assim que perdoa, é assim que ama. É difícil imaginar outrocaminho para aproximar-se desse mistério que chamamos Deus.Deus é uma presença boa que abençoa a vida. A solicitude amorosa doSenhor, quase sempre misteriosa e velada, está presente envolvendo aexistência de toda criatura.O Senhor é um Deus próximo. Sua bondade já está irrompendo no mundo soba forma de compaixão. Este Deus próximo busca as pessoas onde elas estão,mesmo que se encontrem perdidas, longe de sua Aliança. Este Deus é umDeus da mudança. Seu reino é uma poderosa força de transformação, umchamado à mudança.Deus esta sempre do lado das pessoas contra o mal, o sofrimento, a opressãoe a morte. O sofrimento, a enfermidade ou a desgraça não são expressão desua vontade; não são castigos, provas ou purificações que Deus vai enviando aseus filhos. É inimaginável encontrar em Deus uma destas naturezas, Ele querver seus filhos cheios de vida, não quer que se introduza a morte entre eles,mas não abençoa os abusos e as discriminações, e sim a igualdade fraterna esolidária; não separa nem excomunga, mas abraça e acolhe. Não se podejustificar em nome de Deus que alguém passe fome quando esta pode sersaciada, ou que um povo seja destruído para a edificação de outro.
  • 58. 57Nosso Deus é um Deus revelado, Deus que se comunica que procura o serhumano para dialogar, que não age por interesse, coloca-se ao lado do serhumano caminhando com ele, é fiel em sua amizade e vai permitindo a esteSer conhecê-lo no caminho que percorrem juntos, unidos pela Aliança feitaentre os dois; Deus coloca toda a natureza e toda a criação nas mãos do serhumano, e, só quer sua amizade, companhia, adotando-o como filho einiciando assim laços familiares com ele.Por meio da Sagrada Escritura, podemos perceber que o povo de Israel foiaprendendo sobre Deus ao longo da história, no desenrolar dos conflitos, dascrises, das vitórias e alegrias do cotidiano. Tal como Eles, também nóscontinuamos fazendo a experiência de caminhar com Deus dentro da história, eestas experiências sempre levam em conta o contexto em que o ser humanoestá inserido. A compreensão que fazemos de Deus depende da compreensãoque o ser humano tem de si mesmo, e de suas relações com outros seres.Fomos percebendo em nossa pesquisa que os homens da Bíblia costumavamfalar de outra forma a respeito de Deus, fazendo uso de diversas formas delinguagem. Quando falavam de Deus, narram, sobretudo, situações da vidadeles nas quais tinham percebido quem era Deus e como ele os mudava ouqueria mudá-los. Aprendemos que nosso olhar Ocidental sobre os relatosbíblicos buscam encontrar uma historicidade dentro do texto que não é possívelencontrar, e isso dificulta a nossa real compreensão, por se apresentaremcontraditórios, exatamente por não seres históricos, a Bíblia não é um livro deHistória ou de arqueologia, é um livro que trata da experiência de fé de umpovo, muito embora fale de dados concretos da vida. Chegamos à conclusãoque é exatamente esta busca pela historicidade que ludibria muitos autores aoanalisarem os relatos Bíblicos.Em nosso caminhar percebemos que o Deus do Antigo e o do NovoTestamento é um e o mesmo Deus e que esta verdade pertence aofundamento de nossa fé. Deus é um e único.Ele é um Deus de vida para os hebreus em oposição à realidade de morte dosegípcios, pois os que estão longe do Deus da vida já estão mortos. Não é Deus
  • 59. 58que fere mortalmente os egípcios ou qualquer outro povo ou pessoa, são Elesque se colocam contra o projeto vivificador de Deus, afastam-se do amormisericordioso que é o fio condutor que perpassam todas as paginas daSagrada Escritura. Deus é um Deus da Aliança, e, exige um engajamento devida e uma correspondência sem igual em relação a Ele. Concluímos que ummundo sem Deus é um mundo da morte. As mortes não são uma ação deDeus, mas uma ação do não Deus. Deus não age para que venha a morte, éEle que se apresenta como alguém que gera a vida diante de povos que vivemuma realidade de morte.Podemos afirmar que Deus nos ama apaixonadamente, com amor eterno,infinito, incompreensível, sem limites. Finalmente concluímos que Deus nuncacessa a sua vontade de falar ao homem, e o homem nunca cansa de procurara Deus.
  • 60. 59REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASBÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2004.BINGERMER, Maria Clara L. e FELLER, Vitor Galdino, Deus Trindade: a vidano coração do mundo, São Paulo: Siquem, 2002.Carta Encíclica do Santo Padre BENTO XVI, Deus é amor. São Paulo: Loyola,2006.CHAUI, Marilena, “Convite à filosofia”. São Paulo: Ática, 1997ELIADE, Mircea, História das crenças e das idéias religiosas, volume I. Rio deJaneiro: Jorge Zahar, 2010.ELIADE, Mircea, Mito do eterno retorno. Sobre a salvação do tempo, suavalorização no âmbito da história santa israelita.Gaudium et Spes, Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno,Concílio Vaticano II, 1965.GUTIÉRREZ, Gustavo, O Deus da Vida. São Paulo: Loyola, 1990.JEREMIAS, Joaquim, Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica,2004.JUNIOR, João Luiz Correia, Do Deus distante para o Deus amor, odesenvolvimento da idéia sobre Deus na Bíblia, Pernambuco: RevistaSymposium 2000.LATOURELLE, René, S.J., Teologia da revelação. São Paulo: Paulinas, 1972.MESQUITA, Luiz José de, Por Que Crer? A fé e Revelação. São Paulo: AveMaria, 1990.PAGOLA, José Antonio, Jesus, aproximação histórica, Petrópolis, RJ: Vozes,2011.SILVA, Bárbara Icila Areal, As Múltiplas Faces de Deus. Salvador: RevistaCienteFico, 2004.
  • 61. 60SOUZA, Vitor Chaves, As faces de Javé. São Bernardo do Campo, TCC(Bacharel em Teologia) Universidade Metodista de São Paulo, 2007.VERMES, Geza, A religião de Jesus, o Judeu, Rio de Janeiro: Imago, 1995.ZENGER, Erich, O Deus da Bíblia. São Paulo: Paulinas 1989.Sites:BASTOS, Fernando. As várias faces de Deus. http://pensarporsi.zip.net/acesso em 30 / 01/2011.BINGEMER, Maria Clara Lucchetti, As diversas faces do mal. wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/vida.../artigos/.../Asdiversasfacesdomal. Acessado em 16/12/2010.BRAGA, Alfredo, A escolha de Javé. http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/jave.html. Acessado em 16/12/2010.GUERREIRO, Nuno Josué, http://ruadajudiaria.com/?p=62. Acessado em09/03/2011.LIBANIO, João Batista. O Deus do Antigo Testamento.http://www.jblibanio.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=36. Acessado em16/12/2010.SIGNORINI, Ivanir ; LIMA, Flavio e SIGNORINI, Vanderlei Roque, Uma luta deDeuses. http://www.salvatorianos.org.br/textos_umalutadedeuses.htm acessado em07-03-2011.