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Cronica metalinguistica
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Cronica metalinguistica

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  • 1. CRÔNICA METALINGUÍSTICA Como te encontro? Bendita inspiração! Bendita! Na salvadora busca por esta “entidade” o cronista põe-se a vasculhar os registrosde sua memória a fim de encontrar o mote, a fagulha, o fio da meada desencadeante dealgumas linhas que colocarão luz sobre um fato, um algo qualquer, redescobrindo umahistória sob ótica diferente e, esta, calcada na beleza do que existe além do olharcomum, possa vir a pousar e se estabelecer. Difícil encontrá-la! Ela é arredia e chegaquando quer, às vezes, quase sempre é bem verdade, quando o cronista já abandonou asua procura. E senta, levanta, coça a cabeça, digita, deleta, escreve, apaga, rabisca. Toma umcafé, um chá, olha pro céu, pro teto, pro lado. Fixa o olhar em algo, deixa-o se perder.Ouve uma música, vai pra TV e ela não vem. Assim é a vida do cara que se põe aescrever crônicas, sempre a procura da influência criacionista. E as pessoas quandoleem uma crônica acham que ela foi gerada de forma fácil, natural, espontânea... ah!Quem dera! Fazer crônica é se permitir por um dos pés, ou, os dois, na seara da fantasia, doextraordinário, que repousa nas entrelinhas de uma vida, de uma situação, de qualqueroutra coisa que seja. É ter o olhar apurado, o ouvido notavelmente captador e uma almasolta e liberta. Crônica tem a ver com descritiva analítica realística circunstanciada –caraca! Que doideira essa definição, hein? - de uma dada existência, seja ela, existênciahumana, animal, de um objeto, de um sentimento, enfim. O barato maior da crônica é ofato de não estar presa a nada, nem a ninguém e de se revestir de elementos carregadosde nuances ocultas. Mas estávamos falando de inspiração. Ela que por vezes teima em não surgir, emnão se manifestar conforme as nossas vontades, é generosa no fim de tudo. Apesar dasua recusa em se tornar refém do cronista ela nunca o abandona. Tem o seu tempo,simplesmente é isso. O cronista é que, como ávido fazedor, recolhedor, de histórias docotidiano que o é, abusa da boa vontade da bendita inspiração. Mas saiba que elasempre aparece. Tem vezes que se pensa que ela definitivamente irrompeu a relaçãocom o sujeito criador da crônica e foi para outros lados paquerar sujeitos menos
  • 2. complexos, e aí eis que para surpresa ela se manifesta na suposta falta dela. Deu praentender? E aquela velha conversa fiada de que o artista – ou pretenso artista - constróicom imensa facilidade um texto, uma letra de música, uma melodia, uma poesia? Sob opretexto de ser o artista um receptor de “dádiva”, alguns o veem como possuidor de umacapacidade criativa que se apresenta como se fosse a coisa mais natural do mundo.Balela! Essa mentalidade de se acreditar e de propagar que o cronista, o escritor, opoeta, o músico, cria tudo com dificuldade nula e que esses personagens assim o fazemporque a inspiração é um “dom” que possuem e que se manifesta sem forçação de barra,é papo furado. Parece que esses profissionais têm consigo um interruptor que aciona ainspiração a qualquer momento e dentro da vontade deles. Não é assim não! Afirmo que este interruptor até existe, mas é acionado por transpiração, trabalhoárduo, repetição intensa da referida prática artística. Especificamente para o cronista, eleprecisa de exercício permanente, de convívio íntimo com as palavras, de se pôr aescrever, escrever e escrever, sem deixar de exercitar a arte da observação também. Ainspiração é amiga da labuta e amante – não no sentido de ser a outra, no sentido deamar mesmo, de ser fiel – da obstinação de criação que se instaura no desenvolvimentoda ação permanente. Quando penso em “inspiração gratuita” me vem à mente a figura de um ex-jogador de basquete, famosíssimo, que falando sobre a sua história de vida destacou quea inspiração dele surgiu ao custo de muito treinamento. Falo de Oscar Schmidt,campeoníssimo por um monte de clubes e um dos maiores jogadores que vestiu acamisa verde e amarela. O “mão santa”, como era chamado por ter a “inspiração” deacertar com impressionante destreza e habilidade arremessos de três pontos, foi por suaeficiência, aclamado em todo o mundo e até pelos americanos, os papas do basquetebol,teve sua importância reconhecida. Oscar certa vez respondeu a um repórter que havialhe perguntado sobre o dom, e por assim dizer, sobre a inspiração para ser exímioarremessador de bolas de três pontos, que essa inspiração vinha na verdade era dosintermináveis momentos de treinamento isolado – após fazer o treinamento comum como grupo – onde suas únicas companhias eram a bola e, sua esposa, que ficavadevolvendo-a para ele prosseguir sua sequência quase que infinda de arremessos dalinha dos três pontos. Tinha a tenacidade de um Portinari. Sem o treinamento constante,intenso, tendo a pretensão de a cada dia melhorar, ser mais efetivo, não conseguiria terse tornado o “mão santa”. Algo muito interessante que o Oscar fazia questão de apontar
  • 3. é que poderia existir alguém que fosse melhor do que ele, mas nunca, que houvessetreinado mais. Por isso, o grande lance é querer fazer bem feito. E para isso, o que vale mesmoé, em primeiro lugar, gostar, curtir, saber despertar o interesse àquilo que se põe a fazer.Depois, é necessário estudar, observar, analisar e praticar muito. Manter uma atividadefirme e consistente e ter a vontade - e humildade - de sempre, sempre, querer aprender.Claro que nem todos chegarão a um patamar de Oscar Schmidt, mas em qualquer áreade atuação conseguirão, pelo menos, ser tornar bons profissionais – o que já é muito. Quero atestar que o cronista não é santo nem maldito. Não recebe dos céusnenhum tratamento especial. Ele é apenas um ser que mantém um namoro – casamento,é melhor – conturbado, porém, permanente e prazeroso com a inspiração. Ele sabeabsorvê-la e a verbaliza. Ele imprime a partir de um lápis, caneta, de um teclado, a suavisão aguçada de mundo – fruto de exercício também - e tem a percepção daimportância do outro, por mais simples que seja esse outro. O cronista é maculado pelabenevolência dessa força que emana do universo e que sabe agraciar a todos quedesenvolvem exaustivamente o ofício desse gênero. Salve esta força que não é gratuita esim desdobramento recompensatório da árdua ação repetidora de aprimoramento. Elanos encontra. Salve, a bendita inspiração!Daniel Freiredanielfreirerj@hotmail.com