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capaz de discernir sobre verdades ou mentiras. Nesse caso, Nelson Fernando apresenta-se, de
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na máquina transformada em barquinho...” A conclusão que os editores da legenda chegaram
tem muito mais haver com as...
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características de desconfiança (predicado que se contrapõe à inocência e à ingenuidade,
atributos mais próximos das...
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díspares, fornecia aos seus leitores uma determinada dimensão da sociedade que era
preestabelecida por uma elite que...
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políticos, por exemplo, mostrando o que realmente é importante para assegurar o bem-estar
das crianças.
       Enfim...
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CRUZ, Heloísa de F. São Paulo em papel e tinta: periodismo e vida urbana – 1890-1915. São
Paulo: EDUSC, FAPESP; Arqu...
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MAUAD, Ana Maria. “Através da Imagem: Fotografia e História Interfaces”. In: Tempo, Rio
de Janeiro, vol. 1, n.º 2, 1...
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Álbum de criança: imagens da infância nas fotografias da Revista do Globo 1929-39

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  1. 1. ISSN 1983-9685 www.revistahistoriar.com julho de 2009 Álbum de criança: imagens da infância nas fotografias da Revista do Globo (1929-1939) Fábio Bastos Rufino∗ Resumo Nesta investigação procuro descobrir que visão de mundo era projetada sobre e para as crianças no Rio Grande do Sul durante a década de 1930, a partir da análise e interpretação das imagens fotográficas de crianças veiculadas na Revista do Globo, publicadas entre os anos de 1929 a 1939. Assim, tento verificar como foram construídas as representações da criança e da infância calcado num imaginário social de “criança ideal”, percebida através das fotografias dos filhos dos homens da alta sociedade sul-rio-grandense que, além de criar um estereótipo de criança, podia atuar como “regulador social” cuja principal função era a inclusão/exclusão, pois, ao se integrarem ou se apropriarem das revistas, as pessoas espontaneamente introjetavam imagens que iriam nutrir o imaginário da sociedade de pertencimento. Por meio da seleção de determinadas imagens e da reunião delas, por vezes numa única página, outras vezes ao longo de diversas páginas das revistas, os editores da Revista do Globo agiam como mediadores entre grupos, agentes, estruturas econômicas, simbólicas e míticas, aparentemente díspares, fornecendo aos seus leitores uma dimensão da sociedade preestabelecida por uma elite que lhe atribuía sentido. Dessa forma, colaborou para a construção e a veiculação de um imaginário infantil, ao mesmo tempo em que contribuiu para registrar em suas imagens traços de uma sociedade que se pretendia moderna. É nessa conjuntura de transformação social e de afirmação de novos valores que busco perceber o espaço destinado às crianças do Rio Grande do Sul. Palavras-chave: Revista do Globo, representação, crianças. Abstract In this inquiry I look for to discover that world vision was projected on and for the children in the Rio Grande Do Sul during the decade of 1930, from the analysis and interpretation of the photographic images of children propagated in the Magazine of the Globe, published between the years of 1929 the 1939. Thus, I try to verify as the representations of the child and imaginary infancy had been constructed paved in a social one of “ideal child”, perceived through photographs of the children of the men of the high society south-river-grandense that, beyond creating one estereótipo of child, could act as “regulating social” whose main function was the inclusion/exclusion, therefore, to if to integrate or if to appropriate of the magazines, the people spontaneously introjetavam images that would go to nourish the imaginary one of the belonging society. By means of the election of determined images and the meeting of them, for times in an only page, other times throughout diverse pages of the magazines, the publishers of the Magazine of the Globe acted as mediating between groups, agents, economic, symbolic and mythical structures, apparently you go off, supplying to its readers a dimension of the society preset for the elite who atribuía felt to it. Of this form, he collaborated for the construction and the imaginary propagation of an infantile one, at the same time where he contributed to register in its images traces of a society that if intended modern. He is in this conjuncture of social transformation and affirmation of new values that I search to perceive the space destined to the children of the Rio Grande do Sul. Key-words: Magazine of the Globe, representation, children. ∗ Graduando em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; membro do grupo de pesquisa Memória, cultura e identidade do Centro Universitário La Salle – UNILASALLE; Bolsista BIC/UFRGS no projeto de pesquisa “Estado e Representação: agentes político-partidários no contexto histórico contemporâneo do Rio Grande do Sul”. Contato: fabiobastosrufino@gmail.com .
  2. 2. 2 Este artigo é uma adaptação condensada de alguns itens da minha monografia de conclusão do curso, de mesmo título, no qual, pelo número de páginas possíveis em um artigo científico como este, optamos por não tratar especificamente das teorias e métodos através dos quais a história com fonte fotográfica tem sido abordada. 1 No entanto, eles comparecem, implicitamente, na forma e nos conteúdos trabalhados no texto. Além disso, ressalva-se que o trabalho empírico realizado – o mapeamento e catalogação das fotografias, bem como a totalidade das tabelas quantitativas – é apenas referenciado ao longo do texto, tendo em vista a inviabilidade de apresentação de todos os elementos abordados na investigação. A Revista do Globo tem se revelado uma interessante fonte de pesquisa2 para os interessados em diversos temas compreendidos entre os anos de 1929-1967, período de circulação da revista. Além de crônicas, artigos, poesias e demais conteúdos verbais, possui uma inestimável variedade imagética (fotografias, caricaturas, charges, retratos pintados, etc.) permitindo que em suas páginas os leitores de outrora vislumbrassem uma auto-imagem da sociedade sul-rio-grandense de seu tempo. No entanto, essa auto-imagem decalcada nas edições da Revista do Globo não corresponde fidedignamente à realidade social vivida por todos esses leitores, especialmente pelos não-leitores. Em outras palavras, as imagens reproduzidas revelam apenas a visão de mundo de um pequeno grupo social, dotado de grande capacidade de articulação, capaz de criar “as figuras graças às quais o presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se inteligível e o espaço pode ser decifrado” (CHARTIER, 1991:17). Nesse sentido, explora-se a Revista do Globo, sobretudo as fotografias de crianças, como fonte de produção de sentidos e significados que objetivam construir uma “idéia de sociedade moderna”. Especificamente, focaliza-se o estudo nas representações3 da criança e da infância dentro de um contexto de modernização da sociedade sul-rio-grandense na década de 1930, buscando perceber, através das fotografias, como a revista representava as crianças e, nesse aspecto, analisar quais as mensagens e as intenções intrínsecas nessas representações, 1 Sobre a teoria e metodologia utilizadas para o desenvolvimento desta investigação ver: RUFINO, Fábio Bastos. Entre a evidência e a representação: imagens da infância na Revista do Globo (1929-1939). In: XIX Salão de Iniciação Científica – XVI Feira de Iniciação Científica – II Salão UFRGS Jovem. Porto Alegre: UFRGS, 2007. 2 Nos últimos anos, são consideráveis os estudos (teses e dissertações) que utilizaram-se da Revista do Globo como fonte de pesquisa e/ou como o próprio objeto de suas pesquisa: Alice Dubina Trusz. A publicidade nas revistas ilustradas: o informativo cotidiano da modernidade. Porto Alegre – Anos 1920. Elaine Beatriz Ferreira Dulac. Beleza, Sedução e Juventude: A Revista do Globo ensinando Feminilidade. Maria Helena Steffens de Castro. A publicidade na Revista do Globo: intercorrência da literatura na construção do discurso. Elisabeth Wenhausen Rochadel. Editora Globo: Uma Aventura Editorial nos anos 30 e 40. 3 Por representação adotaremos o conceito formulado por Roger Chartier que, em síntese, consiste no “modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler”. CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1991.
  3. 3. 3 procurando averiguar possíveis tensões na caracterização dessas crianças, enquanto grupo de indivíduos, passíveis de serem inclusas e/ou exclusas de um modelo de sociedade considerado ideal por uma elite que estava se estabelecendo – urbana e “moderna”. 1 - A infância, a criança e o contexto histórico da década de 1930 1.1 A invenção da infância Até pouco tempo atrás, parecia muito claro para a maioria dos adultos que as crianças deveriam desfrutar ou viver um período determinado de suas vidas denominada infância. Essa etapa da vida poderia variar de região para região, mas, em geral, se calculava sua duração desde o nascimento até aproximadamente quatorze anos de idade. Porém, nos últimos anos tem-se observado um fenômeno inverso, as crianças estão cada vez mais cedo tendo contato com o “mundo” adulto e antecipando vertiginosamente situações de vida que, até pouco tempo, eram exclusivas dos adultos. Um exemplo pode ser constatado nas questões atinentes as relações sexuais, de fato, pesquisas estatísticas apresentadas diariamente em revistas, jornais e telejornais, mostram a precocidade com que os jovens (muitos deles crianças) iniciam suas relações e denunciam a problemática social, sobretudo das camadas mais pobres, de tornarem-se pais e mães despreparados física e mentalmente. Deixando um pouco de lado as questões sociais e encaminhando-se para as questões conceituais, aquele sentimento de infância que constatei preponderante até pouco tempo atrás não foi sempre assim percebido na história da humanidade. De acordo com Phillipe Ariès, a infância foi descoberta ao longo da história, pois, conforme suas análises da arte medieval, até meados do século XII não havia referências à infância, o que parecia constatar a ausência de um lugar para infância naquele mundo medieval. 4 Segundo Ariès foi por volta do século XIII que surgiram alguns tipos de crianças (imagens) um pouco mais próximos do sentimento moderno, no entanto, foi no século XIV com a representação da “infância religiosa”, infância do menino Jesus, que o autor pode evidenciar sinais mais consistentes da primeira infância: “a 4 O trabalho de Phillipe Ariès gerou muita polêmica, as principais críticas feitas a ele são três: a) questiona-se a tese de que a infância é uma invenção moderna, que ela não existisse na Idade Média e na Renascença; b) critica- se seu romantismo, seu olhar nostálgico do passado; c) objeta-se sua metodologia de trabalho, em particular seu tratamento dos registros artísticos, literários e culturais utilizados como base empírica. Entretanto, os críticos de Ariès não negam o seu pioneirismo, tampouco não o superaram em duas dimensões: 1) a idéia de que a percepção, a periodização e a organização da vida humana são variantes culturais e que a forma como uma sociedade organiza “as etapas da vida” deve ser sempre objeto de pesquisa histórica. 2) na modernidade européia, senão há invenção, pelo menos uma fortíssima intensificação de sentimentos, práticas e idéias em torno da infância ocorreram como em nenhum outro período anterior da história humana. Cf. KOHAN, Walter O. Infância. Entre educação e filosofia. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
  4. 4. 4 criança procurando o seio da mãe ou preparando-se para beijá-la ou acariciá-la; a criança brincando com os brinquedos tradicionais da infância, com um pássaro amarrado ou uma fruta; a criança comendo seu mingau; a criança sendo enrolada em seus cueiros” (ARIÈS, 1978: 53-54). Esta historicidade da infância almejada por Ariès tem desdobramentos importantes durante os séculos XV e XVI, pois foi nesse período que ele identificou uma destacada iconografia leiga, somando-se a iconografia religiosa já existente. Não obstante, ressalta que ainda não era a representação da criança sozinha, mas apenas “o fato de que a criança se tornou uma das personagens mais freqüentes dessas pinturas anedóticas: a criança com sua família; a criança com seus companheiros de jogos, muitas vezes adultos; a criança na multidão, mas ressaltada no colo de sua mãe ou segura pela mão, ou brincando” (ARIÈS, 1978: 55). A questão dos altos índices de mortalidade infantil até o século XVII conjugada juntamente com as imagens funerárias, com as pinturas, e com os textos literários, levam Phillipe Ariès a concluir que a infância era apenas uma fase sem importância, que não fazia sentido fixar na lembrança, porque de acordo com o seu pensamento havia um sentimento muito forte de que se faziam várias crianças para conservar apenas algumas (ARIÈS, 1978: 56). Além disso, Ariès aponta para as diferenças entre as mentalidades contemporânea e medieval: “Não se pensava, como normalmente acreditamos hoje, que a criança já contivesse a personalidade de um homem. Elas morriam em grande número” (ARIÈS, 1978: 57). Esse sentimento de indiferença com relação à infância começa a se alterar no final do século XVI e durante o século XVII, com o aparecimento, cada vez mais freqüente, do retrato de crianças mortas que, inicialmente, tinham a função de efígie funerária sobre o túmulo de seus pais. Conforme o Ariès, esse costume tornou-se comum durante esses dois séculos e modificou-se um pouco em relação à sua função inicial de efígie funerária, justamente, quando autor percebeu que “cada família agora queria possuir retratos de seus filhos, mesmo na idade em que eles ainda eram crianças. Esse costume nasceu no século XVII e nunca mais desapareceu. No século XIX, a fotografia substituiu a pintura: o sentimento não mudou” (ARIÈS, 1978: 51). No rastro das origens do sentimento da infância, Phillipe Ariès, verificou que no século XVII os retratos de crianças sozinhas se tornaram habituais e, além disso, identificou que durante esse século os retratos de família “tenderam a se organizar em torno da criança, que se tornou o centro da composição” (ARIÈS, 1978: 65). Assim, suas conclusões informam que a descoberta da infância foi um processo que teve seu inicio no século XIII e “sua
  5. 5. 5 evolução pode ser acompanhada na história da arte e na iconografia dos séculos XV e XVI. Mas os sinais de seu desenvolvimento tornaram-se particularmente numerosos e significativos a partir do fim do século XVI e durante o século XVII” (ARIÈS, 1978: 65). Os estudos de Phillipe Ariès revelam um panorama da percepção da infância historicamente, embora seja duramente criticado por algumas de suas conclusões e pela sua metodologia de análise dos registros artísticos e literários. Além disso, algumas análises posteriores identificaram que já existia entre os Gregos da Antigüidade um sentimento de 5 infância, algo negligenciado por Ariès. Todavia, importa registrar que a infância não é, e nem foi, um conceito inexorável que se manteve inalterado ao longo dos séculos, pelo contrário, ela é uma contínua construção que varia com as transformações de seu tempo, e o que Phillipe Ariès fez foi apenas “descobrir” o começo do processo de construção da infância mais próxima do conceito moderno. Por infância entendo a primeira etapa da vida, “o começo, que adquire sentido em função de sua projeção no tempo: o ser humano está pensado como um ser em desenvolvimento, numa relação de continuidade entre o passado, o presente e o futuro” (KOHAN, 2004:53). Entretanto, o filósofo argentino Walter Kohan, para além desse modelo cronológico, assinala outro modo de pensar a infância: como uma condição da experiência humana. Assim, Kohan escreve que “infância é tanto ausência, quanto busca de linguagem; só um infante se constitui em sujeito da linguagem e é na infância que se dá essa descontinuidade especificamente humana entre o dado e o adquirido, entre a natureza e a cultura” (KOHAN, 2004:54). Para esse trabalho adotamos o conceito de infância majoritário, qual seja o do seguimento cronológico, que segundo W. Kohan é o “da história, das etapas do desenvolvimento, das maiorias e dos efeitos; é a infância que, pelo menos desde Platão, se educa conforme um modelo” (KOHAN, 2004:62). Opto por essa concepção por entender a infância como um aspecto indissociável das crianças, imanentes às atitudes e aos comportamentos que as crianças desenvolvem nesta etapa da vida. 1.2 Crianças, uma realidade. Desde o inicio da colonização portuguesa no Brasil, e também antes dela, não há como negar a existência das crianças em meio aos processos, conflitos e tensões sociais cujos principais atores foram os adultos. Dessa maneira, a história das crianças no Brasil está 5 Sobre essa perspectiva ver KOHAN, Walter O. “O mito pedagógico dos gregos”. In: Infância. Entre educação e filosofia. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
  6. 6. 6 amalgamada com a história dos adultos, ela é feita à sua sombra. Historicamente os homens construíram e narraram suas histórias, porém durante séculos omitiram a participação das mulheres, dos escravos, dos índios, dos operários e das crianças nos diversos processos que culminaram com acontecimentos considerados importantes para serem eternizados pela história. Nas cartas-relatório de Pero Vaz de Caminha ou nas pinturas artísticas de Jean Baptiste Debret6 podemos constatar a existência de crianças tanto no momento da chegada dos portugueses ao Brasil (através da narrativa lusitana), quanto podemos enxergar a presença delas durante a época imperial (através do olhar registrador francês). Observam-se, duas maneiras de resgatar o passado infantil mediante um olhar estrangeiro e adulto. Esses dois exemplos são merecedores de destaque porque apresentam, além da presença das crianças no passado, crianças que jamais teriam uma projeção sequer de estatísticas, pois não estavam registradas (através do batismo) nas Igrejas. Caminha e Debret, talvez involuntariamente, registraram a existência da criança índia e da criança escrava, respectivamente, duas parcelas da população brasileira que mesmo entre os adultos encontra-se discriminada até os dias de hoje. Para o período de 1930, a Revista do Globo fez questão de trazer à luz as crianças, deu-lhes um espaço importante na revista, às vezes uma página inteira com fotografias ou reportagens, outras vezes uma capa ou fotos distribuídas ao longo do periódico. Porém, ao contrário de Caminha ou Debret, as crianças merecedoras desse espaço não eram quaisquer crianças. Índios, negros ou pobres não eram retratadas, não tinham reportagens ou artigos especiais. As crianças vinculadas à Revista do Globo eram, em geral, filhos dos grandes proprietários rurais, dos políticos e da burguesia que estava se consolidando neste período. Desse modo, a tarefa de reconstituir uma história das crianças no Rio Grande do Sul passa por uma investigação de como a Revista do Globo representava essas crianças “elitizadas”? Quais os sentidos, os signos e os códigos contidos nestas imagens fotográficas? O que ocultavam? Por fim, através da visão de mundo projetada pela revista tentar inferir um pouco sobre o não retratado, o não relatado, sobre as crianças excluídas deste “mundo infantil” criado pelos editores da Revista do Globo. 1.3 O Rio Grande do Sul de 30 6 Veio para o Brasil junto com a missão artística francesa de 1816. Nomeado pintor da Casa Imperial fez alguns retratos da família real e ajudou a decorar o Rio de Janeiro para a festa de aclamação de D. João VI.
  7. 7. 7 O Rio Grande do Sul da década de 1930 apresentava-se como um estado em franco desenvolvimento político, econômico e social, e de acordo com Paul Singer ao analisar-se a industrialização sul-rio-grandense, se destaca a questão da formação de um mercado interno para produtos agropecuários no Brasil, no qual o Rio Grande do Sul aparecia como fornecedor de banha, fumo, feijão e farinha de mandioca. Nesse sentido, foi a região da colônia que se tornou a principal fornecedora agrícola e, por isso, progressivamente entrou num processo de monetarização que pode, a partir de então, adquirir manufaturas do exterior (SINGER, 1968:170). Conforme Singer: O processo de industrialização, no Rio Grande do Sul, consiste na substituição paulatina destes artigos importados por produtos manufaturados localmente. A indústria rio-grandense penetra, assim, num mercado já existente, formada graças à superioridade competitiva da indústria estrangeira sobre o artesanato local. (SINGER, 1968:170) Assim, essa produção voltada para atender as demandas do mercado interno, somada com a monetarização da economia a partir da venda de produtos coloniais, com a aquisição de máquinas no exterior e com o enriquecimento do comerciante que podia fazer uma inversão de capitais em outros setores como as indústrias, foram fatores que caracterizaram o processo da industrialização sul-rio-grandense (PESAVENTO, 1979:201). Paul Singer revela que, entre 1920 e 1940, a indústria do Rio Grande do Sul acompanhava o ritmo de industrialização do Brasil – sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo – obtendo no final da década de 1930 o primeiro lugar na produção de carne e vinho; o segundo lugar na produção de manteiga, tecidos de lã e calçados; e o terceiro lugar na produção de vidros, fumo produtos químicos (SINGER, 1968:182). Ao lado da industrialização, foi expressivo, a partir de 1920, o crescimento populacional do Rio Grande do Sul, principalmente de Porto Alegre. Segundo Elisabeth Torresini, que analisou as mensagens do presidente do Estado do Rio Grande do Sul (de 1923 a 1940), essa crescente população era alvo da política educacional do governo estadual e, de acordo com um recenseamento federal de 1920, o Rio Grande do Sul aparecia em primeiro lugar entre os estados brasileiros com relação à alfabetização dos seus habitantes. 7 Ainda de acordo com essa autora, através dos dados analisados constata-se que “as condições da industrialização e do ensino no Rio Grande do Sul são, nesse momento, fatores que favorecem o surgimento e o desenvolvimento de uma empresa editorial” (TORRESINI, 1999:37). 7 Mensagem do presidente do Estado do Rio Grande do Sul, 1927, p.21. Em relação à freqüência escolar no Rio Grande do Sul, os dados apresentados pela presidência do Estado são os seguintes: 1922 – 139.233; 1923 – 140.884; 1924 – 155.849; 1925 – 168.001; 1926 – 170.232. In: TORRESINI, Elisabeth Rochadel. Editora Globo: Uma Aventura Editorial nos anos 30 e 40. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999, p.42.
  8. 8. 8 A época é de realizações práticas. Não cabem, nos dias vertiginosos que vivemos, nestas horas inquietas em que todos se exacerbam no refinamento do senso de realidades objectivas e immediatas, os surtos de idealismo romântico, as aventuras lyricas a D. Quixote. Por isso, quando pensamos no lançamento desta revista não nos limitamos a deitar, panoramicamente um golpe de vista breve ao ambiente em que ela iria actuar. Todos os elementos de êxito com que contávamos foram medidos e pesados com rigoroso cuidado, com meticulosa solicitude. Compreendemos, assim, que Porto Alegre, graças ao desdobramento incrível de todas as actividades, não apenas supportaria uma iniciativa desta natureza, mas que a sua falta já se fazia sentir por uma impaciência geral indissimulável. Nestas circunstancias, não nos surpreendeu a rapidez com que se esgotou o nosso primeiro número, cuja repercussão, nesta capital e no interior, ainda perdura. Esperemo-la, visto que a receptividade ambiente nos prognosticava a sua Victoria que registrada pela imprensa em suas captivantes referencias ao numero inicial da “Revista do Globo”. Si, entretanto, desvaneceu-nos e – aqui o consignamos com prazer e com orgulho – nos confortou sobremaneira o prompto, expontaneo movimento de solidariedade que se estabeleceu em torno do nosso gesto, que alguns qualificaram de ousado, mas que nós sabíamos oportuno. 8 O editorial da Revista do Globo de n.º2, do ano de 1929, fragmento acima exposto, descreve o sentimento dos editores em relação ao tempo de transformações e afirmações socioeconômicas pelo qual passava o Rio Grande do Sul. Assim é possível perceber nas entrelinhas desse editorial a convicção dos editores que esta sociedade industrializada e alfabetizada necessitava de um periódico capaz de retratar e anunciar a instauração da modernidade que vinha associada ao fenômeno urbano-industrial, desenvolvendo novos hábitos e costumes: “Compreendemos, assim, que Porto Alegre, graças ao desdobramento incrível de todas as actividades, não apenas supportaria uma iniciativa desta natureza, mas que a sua falta já se fazia sentir por uma impaciência geral indissimulável”. Essa contextualização da sociedade sul-rio-grandense das décadas de 1920-1930 serve para a visualização histórica do cenário em que a Revista do Globo estava inserida no momento de sua fundação e durante os primeiros anos de sua circulação. Assim, tem-se um parâmetro para a compreensão da Revista do Globo como “uma fonte que ajudou a construção e a transformação da sociedade e da vida urbana” (IORES, 2003:16) proporcionando a “visibilidade dos projetos de uma elite letrada” (IORES, 2003:16). Pois, de acordo com a própria revista: O quinzenário do Globo é a melhor publicação illustrada do Sul do Brasil. Tem uma tiragem de 10.000 exemplares. É lida por todas as camadas sociaes. Entra nos colégios, na sociedade, nos estabelecimentos comerciaes... em toda a parte.9 8 Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, Edição da Livraria do Globo, Ano I (1929), n.º 2, pp.10-11. 9 Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, Edição da Livraria do Globo, Ano IV (1932), n.º 82, p.capa04.
  9. 9. 9 A expressiva tiragem de 10.000 exemplares, para a década de 30, revela a dimensão que a Revista do Globo alcançara naqueles anos, mas mais significativa é a concepção dos editores de que seu quinzenário era acessado por “todas as camadas sociaes”, pois nesse sentido haveria por parte dos organizadores da revista uma espécie de consciência de estarem propagando os valores e os novos padrões urbano-industriais inerentes aos circuitos da cultura letrada. A pesquisadora Fabiana Iores afirma que: No intuito de registrar o que houver e doravante for digno de registro e divulgação, a revista apontou claramente para a importância da articulação e aproximação da cultura impressa, incorporando novos sentidos e práticas no processo de redefinição e popularização da cultura letrada, correspondendo a emergência de novos interesses para a incorporação de novos leitores (IORES, 2003:113 – grifos do original). Emerge dessa afirmação a idéia de homogeneização cultural, a partir da cultura letrada, desenvolvida pela revista buscando disseminar uma unidade social, com uma linguagem e práticas comuns, onde por intermédio da educação poderiam ser criados laços de pertencimentos, incorporando as camadas mais baixas em um novo sistema de identificação que se projetava pelo acesso à cultura difundida pela revista. Ao mesmo tempo, não oferecia espaço em suas páginas para a divulgação das camadas mais populares tornando-se assim elitista e excludente. Enfim, por meio da seleção de determinadas imagens e/ou da reunião delas, por vezes numa única página, outras vezes ao longo de diversas páginas das revistas, os editores da Revista do Globo agiam como mediadores entre grupos, agentes, estruturas econômicas, simbólicas e míticas, aparentemente díspares, fornecendo aos seus leitores uma dimensão da sociedade preestabelecida por uma elite que lhe atribuía sentido. Dessa forma, colaborou para a construção e a veiculação de um imaginário infantil, ao mesmo tempo em que contribuiu para registrar em suas imagens traços de uma sociedade que se pretendia moderna. É nessa conjuntura de transformação social e de afirmação de novos valores que busco perceber o espaço destinado às crianças do Rio Grande do Sul. 2 – O olhar sobre as fontes: o que retratam as imagens das crianças na Revista do Globo Neste item, convém advertir sobre o modo como foi procedida a seleção das imagens fotográfica. Em primeiro lugar, executou-se um mapeamento de todas as fotografias das crianças dentro do período de dez anos propostos para o estudo. Em segundo lugar,
  10. 10. 10 processou-se a seleção das imagens fotográficas que eram veiculadas com um título que, de certa maneira, remetiam para um lugar/espaço para a infância ou para a criança. Nessas duas etapas lidou-se com um quantitativo elevado para uma análise rigorosa de todos os elementos que podiam estar implícitos nas imagens selecionadas (na primeira etapa apurou-se aproximadamente 3.122 fotografias, já na segunda, esse número caiu para 1.041 fotografias). Justamente, a partir do critério de seleção por títulos realizou-se uma indiciação das fotografias tendo por objetivo não uma seriação com finalidade de generalização, mas um número referencial que, assumindo um caráter auxiliar, orientasse a interpretação das imagens. Após esses procedimentos, selecionaram-se cinco fotografias com o objetivo de estudá-las profundamente entrecruzando seus dados constitutivos e representativos com os dados quantitativos extraídos do conjunto maior. Nesse sentido, privilegiou-se um grupo consideravelmente menor de fotografias que, em contrapartida, possuíam uma legenda estendida, especificamente, uma legenda distinta do grande conjunto fotográfico por conter uma espécie de micro-texto narrativo, atribuindo à imagem em questão uma significação mais ampla que sua própria aparência externa e interna. Esclarecido os critérios de seleção passa-se a expor os elementos abordados quantitativamente para após realizar a análise qualitativa das imagens selecionadas. 2.1 Quantificação, o número como referência. A seleção das imagens fotográficas por títulos (que acompanham as fotografias) pressupõe que a Revista do Globo pensava e organizava um lugar para as crianças e para a infância que deveria ser compreendido por seus leitores como um universo paralelo ao universo adulto. Assim, sucedeu-se, ao longo dos dez anos analisados, uma série de títulos atinentes ao espaço a ser ocupado pelas crianças dentro da revista e, quiçá, na sociedade para a qual suas publicações eram destinadas. O quadro, abaixo, enumera os títulos que compõem o corpus fotográfico desta pesquisa: I. DISTRIBUIÇÃO DAS FOTOGRAFIAS POR TÍTULO Título Freqüência Percentual Jardim da Infância 194 18,6 Crianças 165 15,9 Graça Infantil 162 15,6 Página das crianças 28 2,7 Página Infantil 16 1,5
  11. 11. 11 Infância 14 1,3 Mundo Infantil 410 39,4 Outros e/ou sem titulo 52 5,0 TOTAL DE FOTOGRAFIAS 1041 100 Os títulos que aparecem nessa tabela não foram necessariamente se sucedendo de forma linear, ao contrário, iniciaram como “Jardim da Infância” e a partir daí alternaram-se entre todos os títulos mapeados até constituírem-se, no final da década analisada, no “Mundo Infantil” criado pela Revista do Globo. Sugestão de um universo distinto do “Mundo Adulto”, talvez? A meu ver, parece que sim. A próxima tabela corrobora para essa interpretação na medida em que traz dados sobre a composição das fotografias que, majoritariamente, retratavam apenas as crianças e, em geral, individualizado-as, seja em relação aos seus pais, seja em relação às outras crianças: II. COMPOSIÇÃO DAS FOTOGRAFIAS = 1038 [fotos] (99,7%) Freqüência Percentual Fotografias com apenas uma criança 826 79,3 Fotografias com mais de uma criança 212 20,4 A representatividade de quase 80% de fotografias com apenas uma criança parecem anunciar, já na década de 30, o fenômeno contemporâneo da “divinização” das crianças, em geral, filhos únicos criados sem a presença dos pais que, em busca de uma compensação e de uma maneira de conquistar seus filhos, suprem suas ausências com presentes, guloseimas e realização de todos os desejos. Porém, para o período de 1930 a idéia mais recorrente é a individualização da criança, merecedora de um espaço social separado do adulto, todavia, organizado e delimitado por este. Esta perspectiva de enquadramento das crianças dentro de um espaço preestabelecido pelo universo adulto, convencionando princípios e conceitos norteadores do seu crescimento e educação, pode ser averiguada em uma interessante propaganda veiculada na Revista do Globo sob o slogan “Vista bem os seus filhos. Com uma máquina PFAFF, isso é facilismo”. 10 Nessa propaganda, além de uma série de doze figuras de crianças com modelos de vestimentas infantis, encontra-se uma legenda das figuras com o título “A moda infantil” onde se constata a orientação – incluindo medidas, cor de tecido e faixa etária recomendada por 10 Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, Edição da Livraria do Globo, Ano IV (1932), n.º 93, p.32.
  12. 12. 12 modelo – para uma indumentária própria para as crianças. 11 Foi a partir desta propaganda que se estabeleceu um parâmetro para a execução da próxima tabela onde se quantifica a indumentária com que as crianças eram fotografadas, ou seja, com base nos dados de época da própria revista obteve-se as informações necessárias para saber se as roupas que as crianças estavam utilizando eram caracteristicamente adultas ou infantis: III. INDUMENTÁRIA DAS CRIANÇAS = 1038 [fotos] (99,7%) Freqüência Percentual Roupas infantis 694 66,8 Roupas adultas 289 27,7 Fantasias 55 5,2 É possível observar, a partir da tabela, que as crianças em geral foram fotografadas com vestimentas consideradas infantis, porém o percentual de quase 30% não deve ser de todo desconsiderado, uma vez que se sabe, desde os estudos de Ariès, da tendência dos adultos em representar seus filhos como jovens homens e mulheres prontos para “entrarem” no universo adulto – os denominados “adultos em miniaturas”, ou mesmo o fato de perenizar uma imagem da criança idealizada – saudável, serena e respeitável – o que, talvez, seja uma possibilidade, haja vista a própria caracterização infantil promovida pela revista. No que diz respeito à cena retratada, a próxima tabela, revela um dado surpreendente, sobretudo quando relacionamos a infância e as crianças às brincadeiras infantis: IV. CENA RETRATADA = 1041 [fotos] (100%) Freqüência Percentual Crianças brincando 121 11,3 Crianças tomando banho 13 1,4 Pose 907 87,3 Em geral, conforme esse levantamento, a preocupação mais presente nos adulto que organizavam a cena e o cenário a serem retratados era a pose individual das crianças, sem brinquedos ou objetos que os relacionassem com a infância, o que me parece uma contradição com a organização discursiva e imagética da Revista do Globo em torno de um lugar e um espaço bem definido para as crianças, mas que talvez se explique pela idéia de eternização de um momento singular: mostrar a criança para a sociedade. Mais do que isso, dependendo da 11 Como exemplo, transcrevo os itens dois e seis da referida legenda para ilustração desse argumento: 2. Roupa para menino de 7 a 9 anos, em fazenda nappé cor de chumbo. Casaco de cinto, sem colete. Calças lisas e curtas. (1m,70 x 1m,30); 6. Casaco à marinheira, com gorra, em fazenda azul-marinho. Para menina de 2 a 4 anos (1m,15 x 1m,30).
  13. 13. 13 posição social da família, tal exposição poderia, num futuro próximo, macular a imagem da criança, ridicularizando-a perante seus pares. Ou seja, talvez os adultos de agora já projetassem os adultos de amanhã e, assim, a imagem de uma criança brincalhona poderia prejudicar a “carreira brilhante” de um adulto bem sucedido. As demais tabelas relacionadas à quantificação por descritores formais e à quantificação por descritores informativos tendem a indicar como se dava a organização das fotografias, mostrando dados acerca do enquadramento, da articulação dos planos, dos cenários e do arranjo geral das fotografias para as questões formais; e, revelando a partir das legendas dados informativos como nomes das crianças, fotografias com nome dos pais e/ou com nome das cidades das crianças. Sucintamente, os resultados apontam para a projeção de um “Mundo Infantil”, como a própria revista viria a definir, onde as crianças são retratadas no primeiro plano, de maneira central e em cenários internos; onde a freqüência de crianças identificadas pelo nome é de 95,9% e a identificação do pai de cada criança se sobressai sobre a identificação da mãe. Assim, tem-se uma criança identificada pelo primeiro nome avalizada pelo nome completo do pai, muitas vezes, passando a sensação de uma apresentação da criança para a sociedade. Para além dessa sensação, nas legendas onde constam o primeiro nome da criança e o nome completo do pai parecem indicar mais: ao recorrer essas fotografias tem-se a impressão de que os homens da década de 1930, ao retratarem seus filhos bem vestidos e saudáveis, estavam afirmando um status perante a sociedade e apresentando uma condição econômica capaz de incluí-los num determinado grupo social que se auto- representava. Conforme Nelson W. Sodré, a incorporação da linguagem fotográfica, com a veiculação de ilustrações e retratos da elite, a imprensa, neste caso a Revista do Globo, firmou-se como um veículo de comunicação de massa (SODRÉ, 1983:350). Igualmente, segundo Heloísa Cruz, as colunas sociais agiam como autênticos álbuns da vida social das elites dirigentes, seduzindo leitores que compunham seu repertório de personagens e situações, projetando para outras camadas sociais os padrões de viver e pensar o mundo internacional, projetando para as classes médias e populares os padrões de vida das elites, fazendo-os vivenciar um sentimento de pertencimento àquele mundo, dando visibilidade a sociedade, demarcando assim práticas, espaços e hábitos (CRUZ, 2000:142-143). Assim, as fotografias constituíram-se como ampliadoras da visão de mundo desta sociedade, uma vez que contribuíam para a exposição de novos comportamentos e representações da elite dominante, além de poderem atuar como eficiente meio de controle social, através da educação do olhar. Para Fabiana Iores, “o uso expressivo de fotografias
  14. 14. 14 acabaram por contribuir para a institucionalização dos novos modelos e padrões modernos” (IORES, 2003:114). Ao fim e ao cabo, este subitem privilegiou a análise quantitativa das imagens fotográficas na tentativa de identificar padrões de recorrência icônica e formal, procurando ofertar para a análise qualitativa uma referência segura a partir do conjunto. Entretanto, a aplicação da grade interpretativa (apresentada em forma de Tabelas – Anexo A) não esgotou as possibilidades de identificação de todas as variáveis que compreendem os atributos constitutivos das imagens fotográficas, uma vez que um novo aspecto sempre pode ser apontado por alguém que olhar para essas imagens de uma forma diferenciada desta que foi adotada. 2.2 “O Mundo Infantil” “Ver precede as palavras. A criança olha e reconhece, antes mesmo de poder falar”. Com essas palavras Johm Berger inicia sua argumentação acerca da maneira como vemos as coisas, da influência daquilo que sabemos e acreditamos sobre o nosso modo de ver (BERGER, 1999:9-11). Essa percepção que temos sobre como enxergamos as crianças no passado não pode sobrepor-se ao modo como a Revista do Globo enxergava-as, pois descaracterizaria toda a historicidade que ao fim buscamos. Para tanto, selecionamos cinco imagens – dentre as 1041 analisadas quantitativamente – para um aprofundamento analítico no intuito de captar o olhar da revista sobre e para as crianças de sua época. Essa seleção não foi a esmo, pois buscamos as fotografias que apresentavam uma legenda diferenciada das demais: uma legenda com um pequeno texto anexado às imagens. A primeira fotografia deste pequeno grupo (fotografia nº1) compreende a imagem de uma criança vestida conforme os padrões considerados ideais pela própria revista: calça curta, camisa de botão, boina e calçados nos pés. Além disso, esta criança foi fotografada de acordo com os dados majoritários do nosso levantamento quantitativo: a criança no primeiro plano, de forma vertical e centralizada, legenda com nome da criança e do pai. Fotografia n.1
  15. 15. 15 As demais expressões da imagem não parecem revelar muita coisa: a criança apresenta uma expressão fechada, esta apoiada com uma das mãos numa espécie de corrimão e com a outra na altura da cintura, ou seja, numa pose que para nós não significa nada de mais. Entretanto, esta cena foi arquitetada pelos adultos que cercavam essa criança, pelo pai ou a mãe e pelo fotógrafo que a registrou. Certamente, a legenda ajudará compreender um pouco da imagem que se queria perenizar através da fotografia: Fotografia 1 – Este cavalheiro sério é Francisco José. Tem um nome sizudo como ele só. Mas no fundo é boa pessoa. Às vezes implica com o gato, puxa-lhe o rabo, ou move uma guerra de extermínio às formiguinhas do jardim. Às vezes... Mas em geral é um cavalheiro bem humorado, que sorri para todos e gosta muito de ouvir as historias do Mickey Mouse. (Francisco José, filho do dr. José Correa da Silva). (legenda original). 12 Agora algumas atitudes parecem mais claras, por exemplo, a expressão fechada e a pose pouco infantil de uma criança apoiada ao corrimão buscavam transparecer a expressão de um jovem “cavalheiro sério”, possivelmente apoiado no corrimão por não ser capaz de sustentar-se sozinho em pé, devido a pouca idade. Contudo, a revista fez questão de atribuir à imagem elementos infantis que na fotografia não aparecem: brincadeiras com o gato, brincadeiras com as formigas do jardim, bom humor e sorriso fácil da criança, além do gosto pelas histórias do Mickey Mouse. Neste caso do Francisco José a revista procurou mesclar a sisudez e a seriedade do jovem cavalheiro (ou será pequeno adulto?) com os atributos considerados infantis que na composição geral da imagem não aparecem. Há nesse momento um paradoxo que perpassa a fotografia do pequeno Francisco: fotografa-se a criança com características do mundo adulto, mas através de significações imanentes às crianças remete-a para o “Mundo Infantil”. Em contrapartida, a próxima fotografia apresenta uma coerência mais harmônica entra imagem e legenda, pois ambas tratam de elucidar um lugar próprio para a criança: um mundo à parte do mundo adulto. Assim, a fotografia nº.2, presta-se melhor para a assimilação dos significados intrínsecos ao conjunto maior analisado quantitativamente. Nessa fotografia aparecem os atributos formais que se revelaram preponderantes durante a quantificação, tais como: a centralização da imagem da criança que está em primeiro plano, vestimenta infantil, cenário interno, além disso, uma criança retratada de maneira individualizada, chegando a ponto de na legenda que acompanha a fotografia não haver menção aos nomes dos pais, apenas o da criança. 12 Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, Edição da Livraria do Globo, Ano V (1933), n.º 104, p.13.
  16. 16. 16 Fotografia n.º2 Fotografia 2 – Jorge Otavio e o seu mundo... O alpendre da casa. O urso. O palhaço. A bola. Jorge Otavio não quer saber do “outro mundo”, o mundo sem graça dos grandes. Fica falando com os seus brinquedos. Resmunga. Sorri. Manda. Desmanda. Surra. É ditador. E os seus bonecos não sonham com fazer revoluções. Nem querem outra vida. Jorge Otavio vai vivendo o seu minutinho luminoso e colorido. Às vezes Papai ou Mamãe mete o bedelho. Só pra atrapalhar. Mas Jorge Otavio sorri e pensa: “Eles não sabem o que fazem...” E se volta todo para o urso, para o palhaço e para a bola, que lhe entendem a linguagem... (legenda original). 13 A legenda acima dá uma narratividade à imagem que apenas o olhar, por mais argucioso que fosse, não seria capaz de projetar. Evidencia-se, deste modo, a intencionalidade dos editores da revista em construir um “mundo” para as crianças que obrigatoriamente deveria ser diferente dos adultos. Além disso, é possível perceber um grau de inconformismo com o universo adulto, “o mundo sem graça dos grandes”, talvez seja essa insatisfação a prerrogativa primordial para o estabelecimento e a aceitação de uma “liberdade” infantil, onde a criança deve viver ao máximo “o seu minutinho luminoso e colorido” rodeado de seus brinquedos. Aliás, a legenda trata de uma questão muito presente no universo político da época: a ditadura e as revoluções. Evidentemente, aborda essa temática de maneira muito sutil, numa analogia entre a criança “autoritária” que manda, desmanda e surra os seus bonecos que, por sua vez, não expressam nenhuma reação: “Jorge Otavio /.../ É ditador. E os seus bonecos não sonham com fazer revoluções. Nem querem outra vida”. Outro aspecto interessante trabalhado pela legenda é de que as crianças teriam uma linguagem própria e um pensamento autônomo, por vezes, adulto, como na seguinte frase: 13 Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, Edição da Livraria do Globo, Ano V (1933), n.º 106, p.21.
  17. 17. 17 “Às vezes Papai ou Mamãe mete o bedelho. Só pra atrapalhar. Mas Jorge Otavio sorri e pensa: ‘Eles não sabem o que fazem...’ E se volta todo para o urso, para o palhaço e para a bola, que lhe entendem a linguagem...”. Esse superdimensionamento do pensamento das crianças parece ser um dos artifícios mais recorrentes da revista para sensibilizar seus leitores de como deveria ser mais adequado o tratamento para com seus filhos, ou seja, usa-se a imagem da criança graciosa, alegre e saudável, para através de uma legenda ou de uma associação de fotografias transmitirem signos e sinais que precisavam ser captados e entendidos como ideais para a vida das pessoas. A terceira fotografia (n.º3) analisada traz a imagem de um bebê gracioso, com um tímido sorriso, apoiado em uma almofada. Outros aspectos mais destacáveis da fotografia dizem respeito à condição física do bebê que pela robustez do corpo e pela grossura das pernas revelam uma alimentação privilegiada e, de acordo com os parâmetros da época, uma saúde invejável. Ademais, os atributos formais também seguem os números gerais dimensionados nas tabelas quantitativas: criança no primeiro plano, centralizada, cenário interno, sozinha, com roupas infantis. Além disso, consta na legenda o nome da criança e do pai, que conforme nosso levantamento era corriqueiro, e o nome da mãe, que não costumava ser citado. Fotografia n.º3 Fotografia 3 – Nelson Fernando, filho do dr. Francisco Jureana e de sua exma. esposa, d. Dionéa Furtado, está sorrindo desconfiado para o fotógrafo que lhe disse “Olha o passarinho!” Crianças de hoje não acredita mais em passarinho de máquina fotográfica. (legenda original). 14 Nesta fotografia, ou melhor, nesta legenda o dado mais significativo alude à ingenuidade infantil, aproximando-se da outra representação que constatava um pensamento 14 Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, Edição da Livraria do Globo, Ano IX (1937), n.º 209, p.08.
  18. 18. 18 capaz de discernir sobre verdades ou mentiras. Nesse caso, Nelson Fernando apresenta-se, de acordo com a revista, desconfiado da fala do fotógrafo que lhe disse “olha o passarinho” para poder chamar a sua atenção. Pelo olhar caborteiro e pelo sorriso comedido os editores da revista deduziram que “Crianças de hoje não acredita mais em passarinho de máquina fotográfica”, o que poderia parecer muito precipitado afirmar. Talvez, a idéia fosse atentar para a rápida transformação social que, da mesma maneira que estava transformando o cenário urbano, necessitava ser acompanhada da adesão de novas práticas culturais pelos adultos em detrimento de antigas convenções que já não funcionavam nem com as crianças que, ao contrário dos adultos, já estavam inseridas no contexto da modernidade. Na fotografia seguinte (nº.4) é possível observar uma das principais características do 15 período: a relação tripartite entre infância, higiene e saúde. Tem-se nessa imagem a presença de uma criança, ainda bebê, dentro de uma banheira sendo banhada por uma mulher, presumivelmente sua mãe, que aparece discretamente no canto direito da fotografia, cortada em virtude do enfoque central que é a criança. Fotografia nº.4 Essa imagem de higiene infantil aparece na Revista do Globo reforçada por uma legenda estendida que descreve a importância da aceitação da água pela criança, como a primeira de muitas outras “cousas” que ela deverá aderir quando crescer: Fotografia 4 – O Emilio aderiu à água. Mais tarde deverá aderir a uma porção de outras cousas. Por enquanto tem apenas quatro meses e meio. Tudo se reduz num olhar suave, ameno, simples. Faz pouco tempo que apareceu para a vida. Mas já aprendeu a única atitude admirável: sorrir... Tem uma cabeça encantadora. Poderá ser poeta. Tristíssimo destino. Mas compreenderá um sonho e um mundo. Filho d’uma pianista de grande sensibilidade e d’um jovem médico psiquiatra. Os 15 Sobre esse aspecto ver BRITES, Olga. “Infância, higiene e saúde na propaganda (usos e abusos nos 30 a 50)”. Revista Brasileira de História. São Paulo, v.20, nº39, pp.249-278. 2000.
  19. 19. 19 pais de Emilio são o casal Nilda Guedes e Luiz Rothfuchs. O pequeno olha com inteligência o fotógrafo. Parece uma pose. Esqueceu-se um momento de brincar com a água para namorar a câmara. Em que pensará Emílio? Talvez na máquina transformada em barquinho... (legenda original). 16 Continuando a questão da higiene infantil, Olga Brites revela que as instituições, em geral, forjavam imagens da criança ideal, ou seja, “ao elaborar a imagem do futuro cidadão como saudável, forte e robusto, tentava-se romper com um presente vivido principalmente pelas crianças pobres, em especial o da fragilidade e da ausência de higiene e sucesso, destruindo uma imagem que não se queria cristalizar como memória” (BRITES, 2000:254- 255). Indubitavelmente, essa parece ser a posição assumida pela Revista do Globo que, como agente criador e registrador dos valores de sua época, não fez nenhuma questão de mostrar a criança pobre, a criança negra, a criança operária, enfim, qualquer tipo de criança que destoasse do modelo ideal, notadamente, imposto de cima para baixo pela elite dominante. De acordo com Judite Trindade, que realizou um estudo sobre o abandono de crianças no centro do país no início do século XX, o Estado tem a maior influência sobre as práticas controladoras de higiene e saúde pública, utilizando-se de recursos como propagandas em jornais e revista para disseminar seus projetos: A influência dos higienistas se fará sentir, desde então, nos vários campos da vida e mais especificamente nas práticas de higiene e saúde pública, /.../ mudanças no trato com a infância. Tratar a criança inspirando-se nas práticas médicas implica lembrar também o papel do Estado, outra instância de intervenção na vida privada. O Estado, em sua moderna preocupação com a produção industrial e o decorrente viver urbano, buscou controlar a população e encontrou na família um meio eficaz no qual “buscava disciplinar a prática anárquica da concepção e dos cuidados físicos dos filhos, além de no caso dos pobres, prevenir as perigosas conseqüências políticas da miséria e do pauperismo”. No caso brasileiro, essas práticas controladoras coincidem com a implantação do Estado Nacional, quando a higiene médica conquista seu lugar. (TRINDADE, 1999:01) Para além das questões atinentes à higiene, a legenda que acompanha a fotografia do pequeno Emilio divaga sobre o futuro profissional do bebê de apenas quatro meses de idade, partindo de algumas características físicas da criança e, principalmente, das profissões dos pais para especular a futura profissão da criança. Além disso, a curiosidade da criança em relação ao que acontecia ao seu redor – por exemplo, a presença de um estranho (o fotógrafo) no momento de seu banho – é colocada pela revista como um momento de profunda reflexão pela criança: “O pequeno olha com inteligência o fotógrafo. Parece uma pose. Esqueceu-se um momento de brincar com a água para namorar a câmara. Em que pensará Emílio? Talvez 16 Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, Edição da Livraria do Globo, Ano VII (1935), n.º 174, p.03.
  20. 20. 20 na máquina transformada em barquinho...” A conclusão que os editores da legenda chegaram tem muito mais haver com as percepções do adulto em relação à modernidade do que da imaginação de uma criança de quatro meses e meio, que para poder processar uma transformação da máquina em barquinho pressuporia uma experiência ao menos visual da existência de barquinhos. Em outras palavras, eram os adultos que percebiam que tudo podia se transformar rapidamente e queriam transmitir essa idéia para seus pares, talvez, por isso, caricaturando a transformação da máquina fotográfica em barquinho através da suposta imaginação da criança. A última fotografia examinada (n.º5) traz a imagem de uma criança tímida, com as mãos na boca, como se estivesse comendo as unhas, com roupa infantil simples, em pé nos degraus do que parece ser a entrada de uma casa. O que mais poderíamos inferir sobre esta imagem? Fotografia n.º5 Fotografia 5 – Sebastião José é um menino muito desconfiado, de tal forma que nunca podiamos convecê-lo a posar para nossa revista. Mas, faz pouco, Sebastião fez uma arte qualquer e vinha fugindo muito quietinho quando nós o surpreendemos e o ameaçamos de descobri-lo. Foi como ele consentiu numa posezinha. Mas teve o cuidado de nos advertir: “Vamos ver agora o que vão fazer com meu retrato, hein. Fico desconfiado. Só se fala de comunismo e outros ismos violentos. Em todo caso, já sabem – meu partido é o do trabalho construtor e pacífico”. Sebastião José é filho do sr. Armando Brito, Diretor da Cia. Geral de Industrias, e de sua exma. esposa, d. Dolores Brito. (legenda original). 17 É através de contradições tão imensas como essa, encontrada entre a imagem da criança retratada e a legenda que lhe atribuía sentido, que se constata o poder exercido pelos editores da revista em criar representações que visavam “educar o olhar” e doutrinar a sociedade que retratava. O exemplo desta legenda pode servir para ilustrar uma narratividade característica da revista onde, a partir da possível timidez da criança, lhe foi atribuída 17 Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, Edição da Livraria do Globo, Ano VIII (1936), n.º 178, p.01.
  21. 21. 21 características de desconfiança (predicado que se contrapõe à inocência e à ingenuidade, atributos mais próximos das crianças da época) para, após o consentimento de ser fotografado, levantar dúvidas sobre a utilização da sua fotografia pela revista: “Vamos ver agora o que vão fazer com meu retrato, hein. Fico desconfiado. Só se fala de comunismo e outros ismos violentos. Em todo caso, já sabem – meu partido é o do trabalho construtor e pacífico”. A segunda parte da “fala” da criança é totalmente desproporcional às preocupações de uma criança, evidenciando-se nesse momento um dos artifícios dos editores para advertir seus leitores (adultos) sobre questões políticas presentes no período, mandando um recado direto sobre o “perigo do comunismo” através do olhar e do raciocínio desconfiado do pequeno Sebastião José. Relacionando as cinco imagens selecionadas para essa análise qualitativa com suas respectivas legendas, evidencia-se que, à semelhança do que ocorria nas propagandas18, textos e fotografias eram linguagens distintas, autocomplementando-se para transmitir suas mensagens, num diálogo entre a visualidade e o verbal. Assim, os novos valores e os novos padrões da modernidade eram inculcados e disseminados para a população sul-rio-grandense: introduzidos em doses homeopáticas, mas carregadas de persuasão e moralidade. Por fim, constatou-se a ausência de representações de crianças desfavorecidas socialmente, não havendo nas fotografias sequer menção para a existência de crianças negras, índias, trabalhadoras, exploradas, magras, desnutridas, enfim, que recebessem um mau tratamento seja de seus pais, seja de seus patrões. Essa faceta da sociedade a Revista do Globo não relatava, não fotografava, nem ao menos noticiava. As preocupações com a saúde e a higiene foram temas recorrentes no período, indício que nem tudo era como foi retratado nas imagens das crianças, onde a graça, a beleza e as brincadeiras eram preponderantes sobre qualquer possibilidade de desleixo e mau-trato com as crianças. Considerações Finais Nesta investigação tive por objetivo resgatar as imagens fotográficas da criança e da infância veiculadas na Revista do Globo na década de 1930, verificando de que maneira foram construídas as representações dessas crianças, ou seja, como a revista, enquanto agente mediadora entre grupos, agentes, estruturas econômicas, simbólicas e míticas, aparentemente 18 Cf. Olga Brites “A ilustração não se constituía em simples confirmadora da mensagem verbal, representando uma outra leitura que se queria atingir a população”. In: BRITES. Op. Cit., p.256.
  22. 22. 22 díspares, fornecia aos seus leitores uma determinada dimensão da sociedade que era preestabelecida por uma elite que lhe atribuía sentido. Como premissa dessa investigação, tentei estabelecer a existência de um imaginário social disseminado a partir da idéia de um modelo de “criança ideal” vinculado às fotografias da Revista do Globo que, de certa forma, confirmou-se na exposição recorrente dos filhos dos homens da alta sociedade sul-rio-grandense, criando para além de um estereótipo infantil, uma regulação social cuja principal atribuição era a inclusão/exclusão. As fotografias de crianças na Revista do Globo durante o primeiro decênio de sua existência permitiram refletir tanto sobre os temas que eram retratados explicitamente como também sobre as temáticas que não diziam respeito à imagem retratada, nesse caso trazida à luz por uma legenda por demais tendenciosa. Assim, por exemplo, tocou-se no assunto do comunismo como um perigo à sociedade que até mesmo uma pequena criança já tinha consciência e fazia questão de advertir os adultos. Os editores da Revista do Globo embora não fossem os autores das fotografias as organizaram, as selecionaram e as vincularam de forma a passar uma mensagem. Em geral, atentaram para a importância da saúde, da higiene, da beleza e da graça infantil como merecedoras de cuidados e precauções para um crescimento saudável e um futuro próspero. Porém, quando havia oportunidade ou quando sentiam necessidade não hesitaram em utilizar a imagem das crianças para ludibriar mensagens políticas, econômicas ou sociais, que indiretamente deveriam ser transmitidas à sociedade. De um modo geral, a Revista do Globo expunha uma homogeneização das crianças que não condizia com a realidade que a circundava. Projetou um “Mundo Infantil” afastado do mundo adulto, onde as crianças deveriam preocupar-se apenas com seus brinquedos e com sua alimentação. Contudo, invariavelmente mesclavam idéias e atributos adultos aos pensamentos e comportamentos das crianças, contradizendo-se nas suas próprias recomendações. Talvez a realidade social e as cenas cotidianas – não registradas pela Revista do Globo de uma sociedade mais humilde e necessitada, onde as crianças tinham que trabalhar desde muito cedo para não morrerem de fome – tenham de alguma forma levado os editores a repensarem àquele “mundo encantado” que construíram a partir das crianças mais abastadas. O certo é que a institucionalização da vida da criança constitui-se num dos elementos mais significativos da infância hoje, processo que foi acompanhado pelo crescimento de novos grupos profissionais (professores de pré-escola, pediatras, psicólogos infantis e familiares). Assim, esses grupos desmistificam algumas verdades estabelecidas por interesses
  23. 23. 23 políticos, por exemplo, mostrando o que realmente é importante para assegurar o bem-estar das crianças. Enfim, cito uma passagem de Bengt Sandin que, de certa forma, encerra a idéia do “ser criança” na contemporaneidade: Cada criança tem direito a uma infância, o que também significa mudança profunda no sentido da infância: ser criança não é meramente uma questão de ser, de existir. Em vez disso, ser criança é transformar-se no maior projeto da vida, tanto para as próprias crianças quanto para seus pais. Nestes termos, detectam-se os contornos da infância hoje: maturidade precoce; compartilhamento das experiências adultas por meio da mídia; aprendizagem rápida dos comportamentos adultos e de seus códigos, propiciada pela participação em instituições para além da casa. Uma vida de brincadeiras e de lazer, porém destituída de inocência; agora a infância é um planejamento consciente para a vida urbana. Trata-se de uma infância plena de requisitos para obter realizações e preencher expectativas – a criança competente, interativa. Se as crianças devem ser bem sucedidas, elas têm que começar cedo. (SANDIN, 1999:29) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978. ________. História da Morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, arte e política: Obras escolhidas I. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1986. BERGER, Johm. Modos de Ver. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. BORGES, Maria Elizia Linhares. História e Fotografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. BRITES, Olga. “Infância, higiene e saúde na propaganda (usos e abusos nos 30 a 50)”. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, v.20, nº39, pp.249-278. 2000. BURKE, Peter. Testemunha Ocular: história e imagem. São Paulo: EDUSC, 2004. CANABARRO, Ivo; SCHNEIDER, Daniel. “Imagens do Mundo do Trabalho”. In: Revista Mouseion. Canoas, v.1, nº 01, junho/2007, pp. 42-52. CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1991. ________. À beira da falésia: a história entre certezas e inquietudes. Tradução Patrícia Chittoni Ramos. Porto Alegre: Editora da Universidade – UFRGS, 2002.
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