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    08 08 Document Transcript

    • Motriz, Rio Claro, v.17 n.2, p.292-302, abr./jun. 2011 doi: http://dx.doi.org/10.5016/1980-6574.2011v17n2p292 Artigo Original Revista do Globo: as mulheres porto-alegrenses nas práticas equestres Ester Liberato Pereira2 Carolina Fernandes da Silva3 Janice Zarpellon Mazo1 1 Programa de Pós-Graduação da Escola de Educação Física (ESEF) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e coordenadora do Núcleo de Estudos em História e Memória do Esporte e da Educação Física (NEHME) da ESEF-UFRGS, Porto Alegre, RS, Brasil 2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento Humano da UFRGS e integrante do NEHME da ESEF-UFRGS, Porto Alegre, RS, Brasil 3 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento Humano da UFRGS, bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e integrante do NEHME da ESEF da UFRGS, Porto Alegre, RS, Brasil Resumo: O turfe e o hipismo são assuntos veiculados pela Revista do Globo, editada em Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, de 1929 até 1967. O objetivo deste estudo histórico foi identificar que representações das mulheres nas práticas equestres em Porto Alegre foram produzidas pela Revista do Globo no período de sua publicação. Realizou-se uma análise de conteúdo das reportagens da revista acerca destas práticas. As reportagens sugerem duas imagens sobre as mulheres no contexto das práticas equestres: no turfe, a presença feminina é limitada à assistência, associada à elegância, à fragilidade; no hipismo, as mulheres competem com igualdade com os homens, alcançando vitórias. Este olhar remete à análise do contexto sociocultural e político-econômico porto-alegrense que sustentou tais práticas equestres, cada qual reservando à mulher distintas possibilidades de atuação. Tais representações construídas pela revista podem resultar das distintas origens históricas e étnico-culturais do turfe e do hipismo. Palavras-chave: Esporte. Turfe. Hipismo. História. Mulheres. Revista do Globo Magazine: Porto Alegre’s women in equestrian practices Abstract: Turf and show jumping are topics diffused by Revista do Globo magazine, edited in Porto Alegre, Rio Grande do Sul’s capital state, from 1929 until 1967. The aim of this study was to identify which women’s representations in equestrian practices in Porto Alegre were produced by Revista do Globo magazine in its publication period. A content analysis of the magazine´s reports about these practices was carried out. The reports suggest two images about women in equestrian practices context: in turf, feminine presence limited to assistance and to elegance and frailty. In show jumping, women, competing with equality with men, reaching victories. This magazine’s look remits to social cultural and political economical Porto Alegre´s context analysis which sustained both equestrian practices, each one reserving different possibilities of actuation to the woman. These representations constructed for women by the magazine can result from the different historical and ethnic-cultural origins of turf and show jumping. Key Words: Turf. Show jumping. History. Women. Introdução Em sua primeira edição, no mês de janeiro de O presente estudo trata das representações 1929, a RG já publicou, em suas páginas,construídas pela Revista do Globo acerca das reportagens sobre práticas esportivas. Estasmulheres nas práticas equestres em Porto Alegre, matérias eram ilustradas por interessantescapital do estado do Rio Grande do Sul, no imagens de atletas, dirigentes esportivos, clubes,período de 1929 a 1967, quando foram difundidas competições, além de informações sobre oreportagens sobre o turfe e o hipismo. A Revista mundo esportivo local, nacional e, inclusive,do Globo, que neste estudo será identificada pela internacional. Desde o primeiro número da RG, asigla RG, foi um quinzenário que perdurou por seção dedicada aos esportes foi, paulatinamente,quase quatro décadas (1929-1967) veiculando, conquistando mais espaço na revista e adquirindoprincipalmente, assuntos sobre a cultura e a vida destaque. Em 1933, a revista dedicou um númerosocial do Estado. especial aos esportes, tendo a capa ilustrada pela figura de um atleta segurando a bandeira do
    • Mulheres nas práticas EquestresBrasil, alinhavando a figura do esportista à sua anos. Somente em 1952, nos Jogos Olímpicos depátria. Tal imagem era representativa do período Helsinque, as mulheres passaram a ser admitidasem que havia um movimento de valorização em competições olímpicas de hipismo. Esta datadaquilo que era identificado como pertencente à foi um marco na conquista do espaço feminino“cultura brasileira”. Esta representação pode ser nesta prática esportiva equestre, que não apenasevidenciada no catálogo sobre o esporte e a permaneceu exclusiva dos homens por muitoseducação física produzido por Mazo (2004). anos, como também era de domínio absoluto dos militares, os quais tinham contato frequente com a Dentre os esportes que tiveram reportagens equitação, sempre objetivando melhorar aveiculadas na referida revista, encontram-se as montaria e atuar em eventuais batalhas com opráticas equestres, principalmente o turfe e o melhor desempenho possível (VIEIRA; FREITAS,hipismo. O turfe é uma prática esportiva que 2007).exerceu influência nos aspectos da formaçãosociocultural de Porto Alegre, bem como, Diante destas considerações, o objetivo daprovavelmente, do estado do Rio Grande do Sul. pesquisa foi identificar que representações dasSegundo os estudos de Roessler e Votre (2002) e mulheres nas práticas equestres do turfe e doMelo (2007a), o turfe constitui uma prática hipismo em Porto Alegre foram construídas pelaesportiva equestre que envolve corridas de Revista do Globo, no período de 1929 a 1967.velocidade de cavalos, estruturadas e Este estudo histórico buscou contemplar oorganizadas por clubes. Já o hipismo, objetivo proposto utilizando como apoio teórico-diferentemente é uma prática esportiva equestre metodológico, a História Cultural (CHARTIER,olímpica, em que é composto um conjunto entre o 1990; PESAVENTO, 2008; BURKE, 2005), tendoanimal e o atleta – cavaleiro, referindo-se ao sexo em vista que tal abordagem pressupõe que amasculino, ou amazona, tratando-se do sexo realidade social é culturalmente construída. Parafeminino (DUARTE, 2000). a análise historiográfica, concebeu-se o turfe e o hipismo como práticas das quais emergem As práticas esportivas equestres reconhecidas representações culturais, e a Revista do Globo,pela Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) e que perdurou por quase quatro décadas, sepela Federação Equestre Internacional (FEI) são: constituiu em um meio de difundir representaçõesrédeas, volteio, enduro, atrelagem, saltos, das práticas equestres. Sendo assim, procedeu-adestramento, concurso completo de equitação se a análise documental das reportagens sobre(CCE) e especial (paraolímpica). As quatro as práticas esportivas equestres do turfe e doúltimas práticas citadas consideradas olímpicas hipismo publicadas nos 943 exemplares daou pan-americanas. Nesta pesquisa, dentre as Revista do Globo por meio do catálogo “O Esportereportagens referentes ao hipismo, serão tratadas e a Educação Física na Revista do Globo”somente aquelas relacionadas à prática de saltos, (MAZO, 2004).uma vez que, além de ser olímpica e pan-americana, é a mais difundida de acordo com A utilização de reportagens da Revista comoVieira e Freitas (2007). fonte de pesquisa exige alguns cuidados metodológicos (DALMÁZ, 2002). Ao fazer uso da O salto consiste em uma prova realizada em imprensa, é necessário elaborar uma leiturapista de areia ou grama, onde o distinta daquela realizada pelo leitor ao qual ocavaleiro/amazona deve transpor obstáculos periódico se destina (ELMIR, 1995). Se o objetivomontando em seu cavalo (ROESSLER; VOTRE, deste é desenvolver uma leitura extensiva,2002). É de suma importância ressaltar o fato de priorizando a quantidade de informações, oque o hipismo constitui uma das poucas práticas pesquisador deve ler de forma intensa, ou seja,esportivas em que homens e mulheres competem privilegiando a qualidade da análise. Assim,entre si com igualdade. Esta prática equestre fez- debruçou-se sobre o método de análise dese presente pela primeira vez nos Jogos conteúdo de Bardin (1977) para buscar estaOlímpicos de 1900 em Paris; no entanto, só qualidade.passou a ser reconhecida oficialmente comoesporte olímpico no ano de 1912, em Estocolmo. Bardin (1977) afirma que a análise deDecorridos mais de 30 anos, a equipe brasileira conteúdo constitui-se em uma procura de outrasfez-se representar, pela primeira vez, em 1948, realidades através das mensagens. Foi atravésnos Jogos Olímpicos de Londres (ROESSLER; desta análise e de um vasto número de imagensVOTRE, 2002). e informações acerca do turfe e do hipismo – seus atletas, cavalos e competições – ao longo de Apesar de o hipismo ter sido incluído na 72 reportagens referentes ao turfe e 24 referentesprogramação olímpica, foi determinada a ao hipismo – que foram construídasparticipação apenas para homens por mais de 40 representações sobre estas práticas equestres.Motriz, Rio Claro, v.17, n.2, p.292-302, abr./jun. 2011 293
    • J. Z. Mazo, E. L. Pereira & C. F. SilvaDa mesma forma, foram produzidas contexto turfístico porto-alegrense; “Mulheresrepresentações culturais acerca de seu contexto e Assumindo as Rédeas no Hipismo Porto-da participação masculina e feminina em cada Alegrense”, retratando a imagem contrastante dauma destas práticas esportivas. mulher nesta prática equestre em comparação à sua atuação no turfe. Sob o olhar de Scott (1995), a emergência dotermo “gênero” se processa a partir dos estudos As Mulheres no Cenário Esportivofeministas contemporâneos, caracterizando-se Porto-Alegrensecomo uma tentativa de elaboração de uma teoria A Porto Alegre do final dos anos 1920 e inícioque proporcionasse formas de se analisar e, dos anos 1930 apresentava-se em plenaposteriormente, explicar as constantes modificação não somente de seu colorido e dedesigualdades entre homens e mulheres. Ao seu traçado, mas também de seus aspectosadotar a noção de “gênero” como parte do sociais e culturais. A população da capital cresciaaparato conceitual e linha analítico-interpretativa, rapidamente, inclusive com a chegada de muitosvislumbrou-se a oportunidade de desconstruir a imigrantes. Esta é a época em que a culturarepresentação engendrada de que homens e europeia e norte-americana passava a influenciarmulheres constroem-se masculinos e femininos os porto-alegrenses, favorecendo rupturas ebaseados nas diferenças corporais, as quais algumas mudanças na cultura local (JÁjustificariam determinadas desigualdades, EDITORES, 1997).atribuindo funções sociais, determinando papéis aserem desempenhados por cada sexo Diante de tal cenário, a elite dominante(GOELLNER, 2007). deparava-se com a necessidade de ordenar a heterogênea população, bem como seus valores Em razão de esta revista ser um dos meios de e costumes. Neste processo, dentre as diversascomunicação de massa que documentou a pedagogias que tomam parte, destaca-se acultura corporal e esportiva do Rio Grande do Sul, pedagogia corporal. É neste sentido que o esportetorna-se relevante este estudo, assim como a desempenhou um papel fundamental, pois foipossibilidade de recuperar a memória das inserido como parte de uma política ocidentalpráticas equestres do turfe e do hipismo sul-rio- aplicada a indivíduos provenientes de qualquergrandenses como práticas esportivas de destaque lugar. A prática esportiva, portanto, determinounas décadas de 1930 a 1960. Desta forma, a normas de beleza e saúde; no entanto, talprincipal colaboração deste estudo é uma aplicação restringia-se basicamente aos homenscompreensão da influência das práticas equestres (SCHPUN, 1999). Às mulheres, cabia a função depara os aspectos socioculturais ao longo da meras espectadoras das práticas culturais dosconstrução histórica da cidade de Porto Alegre, homens, observando discretamente dasvisto que, como Melo (1997, p. 58) afirma, “a arquibancadas dos hipódromos.História nos ajuda a entender que o homemtem/teve uma ação concreta: o que temos Era nestes locais que, nos domingos porto-atualmente foi construído e não fruto exclusivo do alegrenses, uma das principais atraçõesacaso, tão pouco estava escrito em um livro dos esportivas e de lazer ocorria: as corridas dedestinos’’. cavalos, um costume dos europeus. Neste ambiente, no entanto, a presença feminina Neste sentido, procurou-se contribuir para a restringia-se à assistência e ao embelezamentoconcepção de um mapeamento histórico cultural do espetáculo, atuando de forma elegante nodas práticas esportivas no Estado, uma vez que a acompanhamento dos pais ou maridos.presente pesquisa está inserida em um dos eixosdo projeto de pesquisa mais amplo, denominado Porém, com o começo da luta feminina pelosEsporte e Educação Física no Rio Grande do Sul: seus direitos, além da quebra de preconceitos,estudos históricos, do Núcleo de Estudos em ideias e transformações graduais emergiram emHistória e Memória do Esporte e da Educação alguns países desenvolvidos. Paulatinamente,Física (NEHME), da Escola de Educação Física hábitos e costumes passaram a ser modificados,da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. com o aceite do sexo feminino como parte integrante da sociedade porto-alegrense. Neste A seguir, a pesquisa assumirá a seguinte movimento, as mulheres conquistam novasdivisão, em três tópicos: “As Mulheres no Cenário posições na sociedade e a defesa de seusEsportivo Porto-Alegrense”, tratando da atuação direitos passou a ser uma constante em suasfeminina no contexto sócio-político-econômico da vidas. No governo de Getúlio Vargas, porcidade; “Imagens da Mulher no Turfe Porto- exemplo, as mulheres atingiram uma significativaAlegrense”, discorrendo sobre as possíveis vitória, conquistando o direito ao voto (SOARES,representações construídas sobre as mulheres no 2001).294 Motriz, Rio Claro, v.17, n.2, p.292-302, abr./jun. 2011
    • Mulheres nas práticas Equestres A tensão social que atravessava o universo de tivessem ido lutar na Força Expedicionáriamulheres e homens também foi refletida no Brasileira (FEB). Isto permitiu com que fossem,cenário do turfe. Um possível exemplo desta gradativamente, conquistando lugares ocupadospaulatina mudança observa-se em outro espaço pelos homens não somente na indústria, mas emde diversão e lazer de Porto Alegre, no momento: outros setores também.as hípicas. Destacam-se a seção hípica do Os anos 1940 e 1950 marcaram o auge dosCountry Club, a Sociedade Hípica Rio-Grandense bailes da elite porto-alegrense no Clube doe a Sociedade Hípica Porto-Alegrense. Nestes Comércio, nas festas de caridade na Sociedadeespaços sociais, realizavam-se muitas festas Leopoldina Juvenil, nos bailes de gala do clube decontando com a presença de destacados golfe – Porto Alegre Country Club, no Jockey Clubmembros da sociedade da época, ladeados por e nos clubes de vela da zona sul da cidade. Emautoridades. Estes eventos contavam também alguns destes salões, além de apresentar suascom a presença de militares do Exército e da debutantes, a sociedade promovia carnavaisBrigada Militar, além da significativa presença memoráveis (JÁ EDITORES, 1997). Além disto,feminina nas disputas a cavalo (FESTA..., 1932). muitas práticas esportivas foram introduzidas emA prática da equitação, portanto, a exemplo do Porto Alegre pela iniciativa dos clubes. A partirque já ocorria em São Paulo, admitia a daí, os eventos esportivos foram assumindo umaparticipação das mulheres em Porto Alegre dimensão essencial na vida urbana.(SCHPUN, 1999). Este interesse pelas práticas corporais No final dos anos 1930, o perfil dos bairros dedicava-se, na época, à importância particularcentrais da cidade sofreu mudanças por meio da que a sociedade atribuía à juventude. Aenergia e dos bondes elétricos, dos serviços de glorificação dos jovens, em âmbito mundial, surgeágua e esgoto. Estes são alguns indícios de que a como tentativa de ultrapassar o trauma causadourbanização da cidade acentuava-se (JÁ pela Segunda Grande Guerra (SCHPUN, 1999).EDITORES, 1997). Relacionado a este processo, Neste sentido, o esporte emerge como um campohá o desenvolvimento de uma demanda não excepcional para a consolidação deste ideal desomente de cultura física masculina e feminina, juventude. No entanto, neste âmbito,como também de diferentes atividades e formas estabeleceram-se diferenças entre as percepçõesde apresentação corporal características da sociais dos corpos masculinos e femininos, porcidadania que é estabelecida em uma cidade de meio da sexualização das práticas esportivas,grande porte (SCHPUN, 1999). Neste momento, a com base em determinações tidas como naturaisdiferença entre os gêneros, ou seja, a experiência (SCHPUN, 1999). Assim, a diferença existenteessencialmente distinta de homens e mulheres entre a preparação física feminina e masculinapassou a constituir o apelo mais recorrente à convinha ao interesse de fortalecer asexibição pública. características corporais e comportamentais que Desta forma, a RG, um dos espelhos da distinguem os gêneros.sociedade porto-alegrense da época, evidencia as Não obstante, apesar desta supostamudanças sofridas pela mulher no âmbito social separação esportiva, ao longo da primeira metadepor meio de suas reportagens e campanhas do século XX, as mulheres abandonaram opublicitárias, demonstrando tal processo por meio anonimato e, desta forma, atuaram de distintasde sua linguagem. Nesta revista, era destacada maneiras no contexto dos esportes vigentes nacomo a maior virtude da mulher a sua devoção ao época: assistindo às provas de turfe;lar. O aspecto da beleza constituía outro tema emprestando seu nome para batizar os barcos deconstante, com fascículos inteiros dedicados aos remo; participando das sessões de ginásticaconcursos de misses (SOARES, 2001). alemã e atletismo; acertando o alvo no bolão e no Foi na década de 1940 que a influência do tiro ao alvo; e acelerando no automobilismo;modo de vida norte-americano se acentuou sobre enfim, praticando esportes que, primeiramente,a população porto-alegrense, especialmente eram recomendados para os homens. Em umatravés do cinema (JÁ EDITORES, 1997). duplo movimento, as mulheres, no cenário dasContudo, Soares (2001) nos apresenta que o práticas esportivas na cidade de Porto Alegre,pensamento da sociedade com relação às oscilaram entre o lugar de espectadoras emulheres não apresentou significativas protagonistas (MAZO et al, 2009b).alterações, apesar do fato de que a Segunda Imagens da Mulher no Turfe Porto-Guerra Mundial havia obrigado a populaçãofeminina a trabalhar fora do ambiente doméstico Alegrensepara ajudar nas despesas ou substituir o A RG, muito além de simplesmentemarido/pai/irmão na força de trabalho, caso proporcionar informações sobre as corridas deMotriz, Rio Claro, v.17, n.2, p.292-302, abr./jun. 2011 295
    • J. Z. Mazo, E. L. Pereira & C. F. Silvacavalos, jóqueis, cavalos, hipódromos, semanais realizadas no Prado Moinhos de Vento.assistência, etc., produziu representações sobre Evidencia-se, desta forma, a importância que estaas mulheres neste domínio. No conjunto destas prática equestre possuía na sociedade porto-representações, eventualmente, uma imagem alegrense.acerca da mulher no turfe é construída. Incluída na relação dos meios de comunicaçãoConsiderando-se que, no âmbito da relação que noticiavam o turfe, está a RG. Nela, seinterativa entre as noções de “representações” e denota que, nas primeiras reportagens acerca do“práticas” é trabalhado o termo “cultura”, ou as turfe em Porto Alegre, datadas de 1929,diversas formações culturais, de acordo com destacam-se imagens de mulheres vestidasChartier (1990), tem-se que as práticas geram elegantemente, usando belos chapéus, colares,representações, e as suas representações geram longas saias e saltos altos (NAS CORRIDAS...,práticas, em um emaranhado no qual é complexo 1929). Além disto, sua presença parece estardefinir se o início está em assentadas práticas ou sempre condicionada à companhia de uma figuraem determinadas representações. masculina, como pai ou marido. (GRANDE..., Faz-se necessário destacar que, segundo 1931).Dalmáz (2002, p. 14), a produção de reportagens A partir disto, nota-se que, com relação àsobre um determinado assunto “sempre carrega presença feminina no campo esportivo brasileiro,uma alta dose de subjetividade”. Desta maneira, sempre existiram imprecisões e tensões (MELO,os meios de comunicação acabam por criar o 2007b). Corroborando com tal fato, Goellnerpróprio acontecimento, uma vez que selecionam o (2004) afirma que muitas vezes no passado, eque está passando no mundo, o que irá tornar-se ainda no presente, as condições de acesso enotícia ou não, o que será editado participação das mulheres neste campo, sedestacadamente ou com pouca relevância comparadas às dos homens, não foram e não são(BARBOSA, 1998). É neste sentido que, dentre iguais. Ao analisar como se processou tal aspectooutras formas de manifestação, as no cotidiano das corridas de cavalos, Melorepresentações sociais – entendidas como um (2007a) nos relata a significativa importância queconjunto de conceitos, proposições e explicações tal prática esportiva teve no que se refere àoriginadas na vida diária no curso de possibilidade de uma participação social femininacomunicações interpessoais - também são mais expressiva em cidades brasileiras no séculosignificativamente estabelecidas pela imprensa. XIX, principalmente naquelas de maior porte.As representações podem, assim, ser expressaspor normas, códigos, instituições, juízos, Aproximadamente na época em que o turfecerimônias, rituais, discursos e imagens atingiu seu período áureo em Porto Alegre, na(PESAVENTO, 2008). década de 1890, ocorreu a consolidação do principal e mais importante hipódromo da cidade A imprensa, de forma geral, costumava estar – o Hipódromo Independência – tornando-se ointimamente relacionada ao cotidiano turfístico. espaço preferencial da elite porto-alegrense,Seu papel foi de extrema importância, divulgando mobilizando, inclusive, o público femininoo esporte e atraindo a população porto-alegrense (BISSÓN, 2008). Também ratificando o aspectopara assistir às corridas de cavalos (PEREIRA, familiar que circundava este hipódromo, e2008). Estas eram noticiadas através dos jornais enfatizando a presença masculina, registra-se ume do rádio, sendo esta divulgação uma maneira trecho de uma reportagem que destaca o fato dedas sociedades turfísticas gerarem maior que seu pavilhão “regurgita nas tardes dequantidade de apostas e, como consequência, domingo, de excelentíssimas famílias eaumentar o ganho financeiro dos responsáveis cavalheiros que passam ali horas agradáveis epela organização das corridas (BENTO, 2002). divertidas” (A PROTETORA..., 1933, p. 45). Ainda com relação à imprensa, tem-se que as No entanto, conforme Melo (2007a), apesar decorridas de cavalos eram noticiadas o turfe ter se configurado como uma das práticasperiodicamente pela imprensa escrita. Alguns que possibilitou o começo da inserção da mulherjornais da época que destinavam espaço ao turfe na vida social, incentivada pelas inovaçõeseram: Correio do Povo; Folha da Tarde; Jornal do trazidas da Europa, a partir de meados do séculoCommercio; Gazeta da Tarde; A Reforma; A XIX, esta presença nos prados restringia-se àsFederação; A República; O Mercantil; Gazeta do arquibancadas, desfilando seus belos vestidos daPovo; A Nação. Dentre estas, destaca-se a última moda e penteados. Rodrigues (2006)publicação denominada A Voz do Turfe, revista acrescenta que as arquibancadas constituíam umespecializada em turfe editada em Porto Alegre, lugar elegante dos prados, uma vez que eramna primeira metade do século XX, que fornecia ocupadas por cavalheiros, senhoras, senhoritas einformações sobre as corridas de cavalos296 Motriz, Rio Claro, v.17, n.2, p.292-302, abr./jun. 2011
    • Mulheres nas práticas Equestresrapazes da elite da cidade. Já as camadas constituindo, na época, o maior da América do Sulpopulares ocupavam o pavilhão inferior dos (SOUZA, 1959). A partir disto, paulatinamente,prados. percebe-se a crítica nas páginas da RG acerca da mudança no visual feminino: cada vez se usavam Nas primeiras décadas do século XX, com o menos chapéus, ameaçando a elegância dosprocesso de modernidade em voga em Porto anos anteriores, apesar dos toaletes e jóiasAlegre, ainda podia-se testemunhar a presença utilizadas (CARNEIRO, 1965). Tal fato, refletidodas mulheres e com o mesmo objetivo no pela revista, pode denotar certa resistência emcotidiano dos hipódromos. Nota-se que, neste mudar, inovar em um contexto com suas origensperíodo, a natureza da mulher continuou sendo tão fortemente arraigadas ao rural. Dalmáz (2002)frequentemente identificada como muito frágil, já atentava para o fato de que a RG apresentavadefendendo a ideia de que a função da mulher no um estimulante tom opinativo em seu conjunto deconjunto das práticas esportivas corresponderia, artigos, aliando-se sempre à política da situação.predominantemente, à assistência (GOELLNER,2004). Tratadas por adjetivos como “lindas”, em A cidade rumava do rural para o urbano, ouma reportagem de 1936 (JOCKEY-CLUB..., moderno. Todavia, os hábitos patriarcais típicos1936), também já passam a ser consideradas da aristocracia rural luso-brasileira associada ao“aficionadas” por uma prática equestre em que turfe porto-alegrense, (MAZO et al, 2009a)representavam não mais do que parte da pareciam tentar resistir ao avanço do tempo,assistência, apesar de constituírem um grande encontrando no contexto desta prática equestrenúmero desta. Até mesmo, de acordo com um dos prováveis últimos resquíciosRozano e Fonseca (2005), mostravam-se predominantes desta forma de organização socialinteressadas pelos prognósticos para as corridas. em que o homem representa o sexo forte e a mulher a fragilidade elegante. Disto, Indo a este encontro, Melo (2007b) lembra possivelmente, decorrem as identidades deque, até meados do século XIX, não era permitida gênero hegemonicamente aceitáveis do homemàs mulheres uma movimentação significativa como um jóquei – forte e dominador de um animalalém do seu ambiente familiar e doméstico, -, como apostador, proprietário de cavalos eprincipalmente quando se tratava daquelas que treinador – detentor do saber – e da mulher comopertenciam às elites. O turfe, neste sentido, acompanhante embelezadora – frágil e submissa.passava a ser um dos primeiros locais decirculação e exibição destas mulheres, apesar da Mulheres Assumindo as Rédeas noconstante companhia e vigilância masculina por Hipismo Porto-Alegrenseparte dos familiares e da mera função a elas Tendo como base teórica a análise do trabalhodesignada e restrita da assistência e da elegância de representação em Chartier (1990), a qualdos ambientes turfísticos. O turfe, neste procura identificar as “classificações e asmomento, é considerado o “esporte da moda” (O exclusões que constituem, na sua diferençaTURF..., 1937, p. 28). radical, as configurações sociais e conceituais No entanto, apesar da evolução cultural, próprias de um tempo ou de um espaço” (p. 27),econômica, social e política de Porto Alegre, procurou-se identificar as possíveis imagenspercebe-se que a essência da imagem feminina construídas pela RG acerca da participaçãorepresentada pela RG não foi significativamente feminina na prática do hipismo porto-alegrense.alterada na segunda metade da década de 1960, Jovchelovitch (2000) acrescenta a ideia de que aquando a revista encerrou suas atividades, construção de representações sociais envolve,daquela construída nas primeiras edições no concomitantemente, a proposição de umaprincípio da década de 1930. No final da década identidade, além de uma interpretação dade 1940, observa-se o que já se poderia realidade. Nesta direção, como Dalmáz (2002)considerar uma conquista para as mulheres afirma, a interpretação de um determinado fatofrequentadoras dos hipódromos: elas passam a elaborada pelos autores das reportagens, bemestudar os prognósticos das disputas e algumas como a seleção dos acontecimentos e ajá se convertem em apostadoras (G.P. BENTO..., construção da informação, são os mecanismos1949). utilizados pela imprensa para criar uma realidade. Por conseguinte, faz-se necessário traçar as Outro aspecto que merece destaque é a características fundamentais de um determinadovariação da moda acompanhando a mudança do meio de comunicação, o qual se pretendeHipódromo Independência, localizado, consultar para uma dada pesquisa (ZICMAN,inicialmente, no Bairro Moinhos de Vento, para o 1985).Bairro Cristal. Neste local foi inaugurado umhipódromo de distinta arquitetura moderna,Motriz, Rio Claro, v.17, n.2, p.292-302, abr./jun. 2011 297
    • J. Z. Mazo, E. L. Pereira & C. F. Silva Uma vez cientes de que a RG caracterizou-se aristocráticas europeias, como as caçadas ecomo mecanismo formador de opinião, como já demais práticas de lazer das famílias nobres, dassalientava Dalmáz (2002), pode-se questionar o quais eram adeptos homens e mulheres (ROJO,porquê de não encontrarmos em suas páginas 2007).uma reportagem ou um comentário atentando A identificação do caráter aristocrático daspara o paradoxo. Se no contexto do turfe a práticas equestres permite uma aproximaçãoparticipação das mulheres não ultrapassava os entre ambas, turfe e hipismo: suas tribunaslimites da coadjuvante companhia elegante, como oficiais sempre contavam com a presença depôde não ser estranhado o protagonismo por elas autoridades e representantes da alta sociedade.assumido na prática do hipismo? Reportagens tratando do comparecimento do Desafiando a concepção hegemônica de Presidente do Estado – governador – nas festasfragilidade feminina, vigente na época, as hípicas e de competições destinadas amulheres praticantes de hipismo, como o próprio homenagear prefeitos ilustram e evidenciam estenome sugere, amazonas, conforme Adelman aspecto (QUINZENA..., 1939).(2006, p. 16), “exercitavam sua competência em Outro fato relevante é o de que as matériasatividades cujos riscos e desafios supostamente acerca do hipismo na RG trazem sobrenomes dedescaracterizariam um sujeito feminino”. No distintas etnias europeias, dentre os quais seentanto, por meio de cuidados com o corpo, com destacam a portuguesa e a alemã. Com relaçãoa beleza e com a indumentária, não deixavam de a este aspecto, cabe ressaltar a citação feita porproduzir e reproduzir normas vinculadas à Mazo e Frosi (2009, p. 62), destacando que, noconstrução do feminino. associativismo esportivo porto-alegrense, Já no início dos anos de 1930, em reportagem “contrastava o sedentarismo da herança culturaldatada de 1932, a Revista apresentava variadas lusitana com a atitude inovadora dos teuto-imagens de mulheres participando sobre seus brasileiros praticantes de esportes”, importantecavalos de uma festa hípica dominical realizada indício que auxilia a compreender ana extinta Sociedade Hípica Rio-Grandense, no caracterização do hipismo por influência destesCampo da Redenção (FESTA..., 1932). Nas grupos étnicos.décadas seguintes, outras matérias sobre o turfe Os teuto-brasileiros foram fundadores dee hipismo foram ilustradas pelas mulheres associações esportivas, em Porto Alegre, queexibindo sua marcante presença e apontando a abarcavam inúmeras práticas - como a ginástica,conquista de visibilidade no campo esportivo. o remo, o tiro, entre outras (MAZO, 2003) - eUma jovem amazona porto-alegrense, Bety incentivadores de uma participação mais ativaBelmonte, já é tratada como promessa desta nos esportes. Em função disto, provavelmente,prática esportiva no Estado em 1965 (OSÓRIO, podem ter influenciado as mulheres de forma1965). mais proeminente a arriscar os primeiros saltos a No Rio Grande do Sul, o ato de montar a cavalo na cidade.cavalo era um atributo exclusivamente reservado A presença participativa das amazonas éaos homens, por estes possuírem uma lida diária sempre realçada nas reportagens acerca doscom o cavalo – instrumento de guerra e de festivais hípicos em Porto Alegre pela RG, a qualtrabalho. As mulheres, inicialmente, utilizaram o destaca que as mulheres “dirigiam com habilidadecavalo por meio de charretes ou carroças. Tais suas montadas” (QUINZENA..., 1939, p. 48). Estafatos comprovam, portanto, que a prática do afirmação revela uma postura fundamentalmentehipismo carrega a longa tradição de constituir um oposta ao tratar da participação feminina entre oespaço acessível, pelo menos formalmente, a turfe e o hipismo: se uma mulher era hábil sobreambos os sexos (ROJO, 2007). Em 1951, vitórias um cavalo que salta, por que não poderia o serde amazonas em competições entre mulheres e sobre um cavalo que galopa velozmente? Umahomens já eram registradas pela RG, como a da possível explicação para isso são as distintassenhora Dóris Coelho de Souza (UMA TARDE..., características entre ambas as práticas: uma1951). poderia oferecer mais riscos que outra. Ainda Porém, esta característica de abertura a cabe referir outra distinção entre o turfe e ohomens e mulheres nas competições hípicas hipismo: enquanto o primeiro representa umpode ser devida a uma possível dupla origem trabalho, uma forma de subsistência para quem odesta prática esportiva equestre. O hipismo, além pratica (jóqueis), conforme declaram Adelman ede apresentar seus primórdios no contexto das Moraes (2008), o segundo está mais fortementepráticas militares associadas à cavalaria, também relacionado aos momentos de lazer das elites.encontra a sua origem nas atividades298 Motriz, Rio Claro, v.17, n.2, p.292-302, abr./jun. 2011
    • Mulheres nas práticas Equestres Nesta mesma linha, Melo (2007b) nos de seus pais ou maridos e embelezamento doapresenta que, no Rio de Janeiro, desde os espetáculo. Neste período, início do século XX, aprimórdios do esporte nesta cidade (primeira natureza da mulher era frequentementedécada do século XIX) até aproximadamente o identificada como muito frágil, difundindo-se ainício do século XX, o hipismo também constituía ideia de que a função da mulher no contexto dasuma prática na qual se podia perceber uma práticas esportivas corresponderia,participação feminina mais efetiva. Tal fato pode predominantemente, à espectadora.estar relacionado à concepção desta prática No entanto, apesar das mudanças no cenárioesportiva como um elemento do ensino das cultural, econômico, social e político de Portojovens das elites, além de consistir em um sinal Alegre, percebe-se que a essência da imagemde status e distinção, um saber, uma capacidade. feminina no turfe porto-alegrense representadaAo encontro desta ideia, Goellner (1999, p.124) pela RG não foi significativamente alterada emtambém aponta para laços mais igualitários entre 1967 daquela construída em 1929. A cidadeos sexos na prática do hipismo apresentada nas rumava do rural para o urbano, o moderno.páginas da Revista Educação Physica, do Rio de Todavia, os hábitos patriarcais típicos daJaneiro, publicada entre 1932 e 1945, em função aristocracia rural luso-brasileira associada ao turfede que o “[...] andar a cavalo é uma paixão antiga porto-alegrense, pareciam tentar resistir aoda oligarquia, tanto de homens como de mulheres avanço do tempo, encontrando no contexto desta[...]”. Ou, talvez, as diferentes origens históricas e prática equestre um dos prováveis últimosetno-culturais poderiam explicar as resquícios predominantes desta forma derepresentações tão distintas acerca das mulheres organização social em que o homem representa oem cada uma destas práticas em Porto Alegre. sexo forte e a mulher, a fragilidade. Considerações finais Possivelmente, deste entendimento, decorrem as Tendo em vista o objetivo da pesquisa, que foi identidades de gênero hegemonicamenteo de identificar que representações das mulheres aceitáveis do homem como um jóquei e danas práticas equestres do turfe e do hipismo mulher como acompanhante.foram construídas pela Revista do Globo em Já com relação ao hipismo, a presençaPorto Alegre no período de 1929 a 1967, por meio participativa das amazonas nesta prática éda análise de reportagens publicadas pela sempre realçada nas reportagens acerca dosRevista, apresentamos algumas considerações. festivais hípicos em Porto Alegre pela revista, a Porto Alegre, no período demarcado da qual destaca que as mulheres demonstravampesquisa, apresentava-se em plena modificação muita habilidade ao montar seus cavalos. A partirdo seu colorido e de seu traçado. A energia disto, evidencia-se uma posturaelétrica, os bondes elétricos e os serviços de água fundamentalmente oposta ao tratar da participação feminina entre o turfe e o hipismo. Noe esgoto foram mudando o perfil dos bairros hipismo, certo protagonismo é conferido àscentrais da cidade. A população da capital mulheres ao destacar, inclusive, suas vitórias emcresceu rapidamente, inclusive com a chegada de competições em que homens competiam commuitos imigrantes. Os porto-alegrenses eram elas igualmente.influenciados pela cultura europeia e, Uma possível explicação são as diferentesposteriormente, também norte-americana, origens históricas e etno-culturais de cada umafavorecendo uma modificação na cultura local. destas práticas, as quais poderiam explicar tais Neste contexto, a RG veiculava imagens de representações tão distintas acerca das mulheresmulheres no cotidiano turfístico de Porto Alegre no turfe e no hipismo em Porto Alegre. O turfe,vestidas elegantemente e usando adornos como em razão de sua origem aristocráticachapéus e colares. Além disto, sua presença patriarcalista rural luso-brasileira limitaria aparecia estar sempre condicionada à companhia participação feminina à assistência, ao passo quede uma figura masculina. o hipismo, associado a mais de uma etnia de origem europeia – trazendo os influentes ideais Nas primeiras décadas do século XX, com o das lutas femininas e apresentando novasprocesso de modernidade instalando-se em Porto perspectivas para as brasileiras – propunha umaAlegre, ainda podia-se testemunhar a presença nova perspectiva de protagonismo às mulheresdas mulheres da mesma forma e com o mesmo das elites, compondo parte de sua educação.objetivo no cotidiano dos hipódromos.Considerados ambientes aristocráticos e Esta identidade de gênero conferida àsfamiliares, estes espaços relegavam as mulheres mulheres no hipismo representada nas páginasa um segundo plano, de mero acompanhamento da Revista do Globo pela coragem e habilidadeMotriz, Rio Claro, v.17, n.2, p.292-302, abr./jun. 2011 299
    • J. Z. Mazo, E. L. Pereira & C. F. Silvatão distinta daquela oferecida a elas pela mesma CHARTIER, R. A História Cultural: entre práticasRevista no contexto do turfe – fragilidade -, parece e representações. Tradução Maria Manuelaevidenciar o salto almejado há muito tempo, não Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.somente no contexto esportivo e equestre. Talvez,poderia refletir uma iminente superação de um DALMÁZ, M. A imagem do Terceiro Reich naobstáculo mais amplo, de dificuldades e Revista do Globo (1933-1945). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.conquistas sócio-culturais. DUARTE, O. História dos Esportes. São Paulo: Referências Makron Books, 2000.ADELMAN, M. Mulheres no Esporte: ELMIR, C. Armadilhas do Jornal: algumasCorporalidades e Subjetividades. Movimento, considerações metodológicas de seu uso para aPorto Alegre, v. 12, n. 01, p. 11-29, jan./abr. 2006. pesquisa histórica. Cadernos PPG em HistóriaDisponível em: da UFRGS, Porto Alegre, n. 13, p. 21-22, dez.<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/Movimento/art 1995.icle/view/2889/1525>. Acesso em: 20 mar. 2010. FESTA Hípica. 02/07/1932, n. 90, p. 11. In:ADELMAN, M.; MORAES, F. Tomando as rédeas:um estudo etnográfico da participação feminina e MAZO, J. O Esporte e a Educação Física nadas relações de gênero no turfe brasileiro. Revista do Globo: Catálogo 1929-1967. PortoEsporte e Sociedade, Rio de Janeiro, n. 09, ano Alegre: FEFID/PUCRS: ESEF/UFRGS, 2004, CD-3, p. 01-29, jul./out. 2008. Disponível em: ROM.<http://www.uff.br/esportesociedade/pdf/es903.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2011. GOELLNER, S. V. Bela, maternal e feminina: imagens da mulher na Revista Educação Physica.A PROTETORA do Turf. 06/09/1933, n. 119, p. 1991. Tese (Doutorado)-Faculdade de Educação,45. In: MAZO, J. O Esporte e a Educação Física Universidade Estadual de Campinas, Campinas,na Revista do Globo: Catálogo 1929-1967. Porto 1999.Alegre: FEFID/PUCRS: ESEF/UFRGS, 2004, CD-ROM. GOELLNER, S. V. Mulher e Esporte em Perspectiva. 2004. Disponível em:BARBOSA, M. Jornalismo e história: um olhar e <http://www.cbtm.org.br/scripts/arquivos/esporte_duas temporalidades. In: MOREL, M.; NEVES, L. mulher.pdf>. Acesso em: 01 dez. 2008.(Org.). História e imprensa: homenagem aBarbosa Lima Sobrinho – 100 anos: anais do GOELLNER, S. V. Feminismos, mulheres ecolóquio. Rio de Janeiro: UERJ, IFCH, 1998, p. esportes: questões epistemológicas sobre o fazer87. historiográfico. Movimento, Porto Alegre, v. 13, n. 2, p. 174-196, maio/ago. 2007. Disponível em:BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: <http://www.seer.ufrgs.br/index.php/Movimento/artEdições 70, 1977. icle/view/3554/1953>. Acesso em: 21 fev. 2010.BENTO, T. Remanescentes do turfe na cidade G.P. BENTO Gonçalves. 10/12/1949, n. 497, p. 50-51. In: MAZO, J. O Esporte e a Educaçãode Porto Alegre. 2002. Monografia(Especialização em Pedagogias do Corpo e da Física na Revista do Globo: Catálogo 1929-Saúde)-Escola de Educação Física, Universidade 1967. Porto Alegre: FEFID/PUCRS:Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, ESEF/UFRGS, 2004, CD-ROM.2002. GRANDE Prêmio Bento Gonçalves. 21/11/1931,BISSÓN, C. Moinhos de Vento: histórias de um n. 75, p. 17. In: MAZO, J. O Esporte e abairro de elite de Porto Alegre. Porto Alegre: Educação Física na Revista do Globo: CatálogoSecretaria Municipal da Cultura: IEL, 2008. 1929-1967. Porto Alegre: FEFID/PUCRS: ESEF/UFRGS, 2004, CD-ROM.BURKE, P. O que é história cultural? Rio deJaneiro: Jorge Zahar, 2005. JÁ EDITORES, Equipe. História ilustrada de Porto Alegre. Projeto enquadrado na LeiCARNEIRO, P. Bento Gonçalves 65. 01/12/1965, Estadual 10.846, de estímulo à produção cultural.n. 912, p. 10-14. In: MAZO, J. O Esporte e a Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, 1997.Educação Física na Revista do Globo: Catálogo1929-1967. Porto Alegre: FEFID/PUCRS:ESEF/UFRGS, 2004, CD-ROM. JOCKEY-CLUB de Pelotas. 28/03/1936, n. 179, p. 24-25. In: MAZO, J. O Esporte e a Educação Física na Revista do Globo: Catálogo 1929-300 Motriz, Rio Claro, v.17, n.2, p.292-302, abr./jun. 2011
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