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Referências                                IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Es-                                 ...
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  1. 1. Contribuições da psicologia ao estudo e... Contribuições da psicologia aoestudo e à intervenção no campo da velhice Contributions of psychology to research and intervention in the field of aging Anita Liberalesso Néri* Resumo Introdução Frente ao crescimento da popula- Durante o século XX, o envelheci- ção idosa e às mudanças ideológicas mento populacional ocorrido na Euro- em curso, a atuação do psicólogo com os idosos constitui-se a partir da pa ocidental e nos Estados Unidos, re- interação da psicologia com outros giões onde a ciência do comportamen- campos da saúde e do atendimento so- to primeiro se estabeleceu, foi forte ra- cial. Boa formação científica e huma- zão social para a emergência do interes- nística e cultivo do trabalho multipro- fissional permitem bem atuar nos cam- se da psicologia pelo estudo da velhice pos trabalho, saúde, planejamento e pelo atendimento a idosos. O progres- ambiental, lazer, educação, sociabilida- so social desfrutado por vários países de, família, comunidade, reabilitação e deu origem ao aumento no número de tratamento, construção de instrumen- tos e técnicas de avaliação, pesquisa idosos ativos, saudáveis e envolvidos e ensino de psicologia do envelheci- socialmente, em lugar de idosos doen- mento, criando soluções apropriadas tes, apáticos, incapacitados e que mor- às várias realidades de velhice normal riam cedo, até então predominantes. Os e patológica no Brasil. princípios científicos vigentes não ex- Palavras-chave: velhice, psicologia, plicavam mais o fenômeno que se obser- campo de atuação profissional. vava nas ruas, nas instituições sociais, * Psicóloga. Professora Titular na Faculdade de Educação da Unicamp, onde pesquisa e ensina sobre psicologia da vida adulta e da velhice. 69 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004
  2. 2. nas universidades e entre os próprios Após realizar estudos isolados sobrepsicólogos mais velhos. Paralelamente, temas tais como atitudes em relação ào crescimento do contingente de idosos velhice e sobre o papel de eventos decom maior poder político criou condições transição na adaptação de adultos e depara que pesquisadores e praticantes de idosos, os cientistas começaram a per-várias profissões, entre as quais a psicolo- seguir as características e os determi-gia, passassem a investir mais na pesqui- nantes do envelhecimento bem-sucedi-sa e na intervenção com esse segmento. do. Com isso, a partir da década de 1960, A psicologia estava preparada para a psicologia foi aprimorando a descriçãomudar seus pressupostos, uma vez que e a explicação dos fenômenos do enve-as teorias de estágio, que não contempla- lhecimento (processo), da velhice (fasevam a velhice, já estavam sendo vistas da vida) e dos idosos (indivíduos desig-como superadas, em parte porque não nados como tal, a partir dos critérios datinham explicação satisfatória para as sociedade). Consulta à base de dadosfases do desenvolvimento ulteriores à Psychoinfo mostra 160 registros emadolescência. Surgiam novos paradig- 1966, 9 609 em 2001 e 3 651 no primei-mas, que abriam espaço à consideração ro semestre de 2002, bem como umada influência conjunta, interativa e his- produção acumulada de 151 151 títulos.tórica do contexto social e cultural e das A subárea mais desenvolvida é a dacondições genético-biológicas e psicoló- cognição, totalizando mais de 60% dosgicas sobre o desenvolvimento de indi- trabalhos publicados na literatura inter-víduos e de grupos etários. Neles, come- nacional, em parte por causa da impor-çou-se a considerar que desenvolvimen- tância dos processos intelectuais para oto e envelhecimento são processos bem-estar e a autonomia dos idosos, emmultidimensionais e multidirecionais parte para atender a demandas sociais,que englobam um delicado equilíbrio visto que são altos os custos sociais daentre vantagens e limitações. velhice disfuncional. Estudos longitu- A psicologia beneficiou-se da intera- dinais e de corte transversal trouxeramção com as ciências sociais, que avança- dados robustos sobre a importância davam na compreensão dos processos so- integridade dos processos intelectuais eciais subjacentes à construção das socie- da continuidade dos mecanismos dedades, dos grupos e das mentalidades. A auto-regulação da personalidade na de-tradição já estabelecida de realizar estu- terminação da longevidade e da boa qua-dos longitudinais sobre inteligência con- lidade de vida na velhice. Atividade,feria à psicologia boas condições para cri- envolvimento social e estilo de vida sau-ar estratégias e técnicas de investigação dável (ROWE e KAHN, 1998), além dee de intervenção sobre os processos evo- ter metas na vida, acreditar na capacida-lutivos na vida adulta e na velhice. de de controlar a própria vida e ser ca- 70 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004
  3. 3. Contribuições da psicologia ao estudo e...paz de investir no aperfeiçoamento da disciplina à solução de problemas emer-saúde, da capacidade cognitiva e das re- gentes. Eles se tornam mais evidentes àlações sociais (BALTES e MAYER, medida que está aumentando a popula-1999), são importantes antecedentes de ção idosa e em que o campo profissionaluma boa velhice. da gerontologia vai se delineando de for- Hoje em dia, a tendência a estudar ma mais clara no país, abrindo novos es-como e por que se envelhece bem soma- paços para os profissionais da psicologia.se à de estabelecer as razões e os padrões Este texto tem como objetivo oferecerde envelhecimento disfuncional, assu- informações e sugestões sobre as possibi-mido como uma das possibilidades do lidades de estudo e de atuação para a psi-envelhecer. Estudos com pessoas mui- cologia e para os psicólogos brasileiros,to idosas (acima de 75 anos) e centená- com relação à velhice e aos idosos. Temrias tornaram-se tendência comum na por base a literatura internacional e aliteratura, assim como se fortaleceu a observação da autora sobre as iniciativasinclinação para realizar estudos inter- que já estão ocorrendo nesse campo, asdisciplinares, num reconhecimento de quais representam o esforço pioneiro deque o tema é complexo. Esses conheci- profissionais brasileiros para resolver pro-mentos marcaram o início de uma nova blemas críticos da população, por meio doera na psicologia, na qual a disciplina estudo e da intervenção nas várias áreas dapassou a descrever e explicar sistemati- psicologia.camente as condições que presidem amudança e a continuidade do desenvol- O aumento da duração da vidavimento na velhice, as que contribuempara evitar ou adiar alterações patológi- humana e do número de idososcas e as que permitem reabilitar proces- na população: contexto para asos e desempenhos prejudicados. realização de estudos e de A psicologia brasileira não apresen- intervenções em psicologiata produção volumosa, de longo prazo,contínua, sistemática e característica No Brasil, nos últimos sessenta anos,sobre a velhice. A difusão da informa- houve expressiva evolução da expecta-ção científica e profissional ainda dei- tiva de vida por ocasião do nascimento:xa a desejar, em parte porque ainda não em 1900, girava em torno de 34 anos; emensinamos a disciplina sistematicamen- 1940, era de 39; em 1960, 41; em 1970,te na universidade. Parte dos profissio- 59; em 1980 e 1990, 61. Estima-se quenais acompanha a literatura internacio- será de 71 anos em 2010 e de 75 em 2020.nal de pesquisa e de intervenção; parte Em 1980, aos sessenta anos, os homenstrabalha de forma intuitiva, procuran- podiam esperar viver mais 14,2 anos edo adaptar conhecimentos básicos da as mulheres, 17,6; em 1991, essas taxas 71 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004
  4. 4. atingiram 15,3 para os homens e 18,1 e na geração de programas de promoçãopara as mulheres (Camarano et al., de qualidade de vida e de mudança de1999); em 2000 foi de 16 anos para os atitudes.homens e de 19,5 para as mulheres. Com o envelhecimento populacio-Nesse ano, a esperança de vida do brasi- nal, em todas as camadas sociais deveráleiro aos sessenta anos era de 17,8 anos; aumentar a necessidade de oferta de ser-aos 65, de 14,3; aos 70, de 11,1; aos 75, viços de reabilitação cognitiva e de apoiode 8,4 e, aos 80, de 6,1 (IBGE, 2000). psicológico a idosos, já que o avanço da O envelhecimento populacional é velhice está associado a um risco au-caracterizado por declínio da mortalida- mentado de vulnerabilidade e disfuncio-de infantil, por diminuição de mortes nalidade. Familiares e profissionaisde adultos por doenças infecciosas e encarregados de cuidar deverão buscarpelo declínio das taxas de natalidade. mais serviços psicológicos no âmbito daVem ocorrendo de forma relativamente informação, do desenvolvimento de ha-rápida no Brasil, tanto que nossa popu- bilidades e do restabelecimento do bem-lação de pessoas de 65 anos e mais cres- estar psicológico e físico. Instituiçõesceu de 2,8% em 1960 para 3,1% em prestadoras de serviços sociais, de saú-1970; 4,0% em 1980; 4,8 em 1991 e para de, bem-estar, beleza, entretenimento,5,1% em 2000. Prevê-se uma taxa de propaganda, lazer e educação necessita-5,9% em 2010 e de 7,7% em 2020. rão de serviços psicológicos de promo- Embora o crescimento do número de ção à saúde, educação, reabilitação eidosos na população total e o aumento planejamento ambiental. A diminuiçãoda expectativa de vida sejam indícios de da natalidade deverá contribuir paraprogresso social, sua ocorrência provo- deslocar, em parte, a atenção exclusivaca o aparecimento de novas demandas e dada à infância e à adolescência para osde novos problemas. Em países onde mais velhos. Com isso, deveremos terimpera forte desigualdade social e onde alterações no mercado de trabalho donão há políticas de atendimento das psicólogo, com repercussões sobre a suanecessidades evolutivas para cidadãos de formação.todas as idades, caso do Brasil, as neces-sidades decorrentes do envelhecimento A psicologia e o estudo daindividual e social costumam acarretarônus econômico, conflitos de interesses velhice dos idosose carências de todo tipo entre os cidadãos A psicologia do envelhecimento foca-e as instituições. Esse é um campo pri- liza as mudanças nos desempenhosvilegiado para a ação do psicólogo, que cognitivos, afetivos e sociais, bem como aspode atuar na orientação e no acompa- alterações em motivações, interesses, ati-nhamento a indivíduos e a instituições tudes e valores que são característicos dos 72 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004
  5. 5. Contribuições da psicologia ao estudo e...anos mais avançados da vida adulta e dos sos, à avaliação comportamental e à rea-anos da velhice. Enfoca as diferenças bilitação. No campo do tratamento e daintra-individuais e interindividuais que reabilitação, é comum hoje pensar emcaracterizam os diferentes processos psi- ações multiprofissionais. A fisioterapia,cológicos na velhice, levando em conta os a terapia ocupacional, a fonoaudiologiadesempenhos de diferentes grupos de ida- e a enfermagem são exemplos dessasde e sexo e de grupos portadores de dife- profissões, que, junto com a psicologiarentes bagagens educacionais e sociocul- clínica, podem oferecer ajuda e cuida-turais. Estuda também os processos e as do aos idosos em casos de dependênciacondições problemáticas que caracteri- física e cognitiva. As mesmas profissõeszam e que afetam o funcionamento psi- e, além delas, a psicologia educacionalcológico dos indivíduos mais velhos. Nes- e a psicologia comunitária podem ofe-se aspecto particular, o estudo da velhice recer alternativas de ajuda aos familia-beneficia-se da contribuição concorrente res de idosos acometidos de doenças quede várias disciplinas. Dentre essas se des- causam incapacidade física e cognitiva,tacam a neurologia, a psiquiatria e a bio- organizando grupos de apoio emocional,química, quando a questão é o declínio de informação e de auto-ajuda.em capacidades cognitivas, por causa de A psicologia interessa-se, igualmen-síndromes neurológicas típicas da velhi- te, por descrever e explicar as condiçõesce ou de acidentes vasculares cerebrais, sob as quais é possível ocorrer a preser-cuja probabilidade de ocorrência aumen- vação do potencial para o comportamen-ta com a idade. Juntamente com a biolo- to e o desenvolvimento. Já se sabe quegia, a medicina e as ciências sociais for- isso ocorre em alguns domínios do fun-mam a base de conhecimentos da geron- cionamento intelectual, manifestos emtologia (BIRREN e SCHROOTS, 1996). alta competência para a realização de O paradigma que presidiu a constitui- atividades da vida prática e para lidarção da psicologia do envelhecimento é o com complexos problemas existenciais,do desenvolvimento ao longo de toda a ambos dependentes do acúmulo de ex-vida (lifespan). Pressupõe que envelheci- periência de vida (NERI, 2001; 2002).mento e desenvolvimento são processos No Quadro 1, apresentamos os temascorrelatos e que, mesmo na presença das correntes em psicologia do envelheci-limitações de origem biológica, os proces- mento, baseado no sumário da quarta esos psicológicos já estabelecidos se man- da quinta edições do Handbook oftêm e, se o ambiente cultural for propí- psychology of aging, editado por J. E.cio, pode ocorrer desenvolvimento na Birren e K. W. Schaie, em 1996 e 2001.velhice (BALTES, 1987, 1997). São reconhecidos como representativos A psicologia oferece contribuições do status da área no âmbito internacio-importantes à compreensão dos proces- nal e contêm resenhas dos avanços nos 73 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004
  6. 6. assuntos mais importantes do campo nos tos e as sínteses de modo a dar uma vi-últimos cinco anos. Especialistas são são orientadora aos estudiosos.incumbidos de produzir os levantamen-Quadro 1 - Principais tópicos na atual psicologia do envelhecimento Influências biológicas e sociais sobre o comportamento na velhice1. Genética comportamental*2. A velhice e o sistema nervoso humano3. Mudanças cognitivas associadas à idade e relações entre o cérebro e o comportamento4. Saúde e comportamento;* Comportamentos de risco em saúde5. Influências ambientais sobre o comportamento na velhice Processos comportamentais, funções psicológicas e envelhecimento6. Mudanças na visão e na audição7. Atenção e envelhecimento cognitivo8. Velocidade e ritmo dos processos comportamentais9. Declínio em controle motor relacionado à idade10. Processos biológicos e comportamentais em memória11. Produção e compreensão de linguagem12. Solução de problemas* e inteligência prática*13. O curso do desenvolvimento intelectual*14. Emoções15. Relações sociais, redes de relações sociais e apoio social16. Diferenças de gênero e papéis de gênero17. Personalidade18. Sabedoria19. Criatividade20. Fragilidade, dependência e declínio*21. Terminalidade, morte e luto*22. A qualidade de vida e o fim da vida: questões tecnológicas e éticas23. Atividade e exercício e comportamento*24. Religião e espiritualidade*25. Cognição social e atitudes*26. Violência, abuso e vitimização27. Desempenho no trabalho e desenvolvimento da carreira*28. As mudanças tecnológicas e o trabalhador idoso29. Saúde mental e psicopatologia 74 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004
  7. 7. Contribuições da psicologia ao estudo e... Contribuições da psicologia à ou restrita, saudável ou patológica, na co- munidade ou em instituições. Esse elenco promoção e à recuperação do de procedimentos pode ser aplicado em bem-estar dos idosos várias áreas, entre as quais se incluem saú- de, relações sociais, família, instituições de Existe um conjunto de técnicas de diag- atendimento a idosos, educação, lazer e so-nóstico, de avaliação e de intervenção vol- ciabilidade, trabalho, ambiente físico etadas ao tratamento dos problemas compor- ambiente social; pode envolver construçãotamentais e psicológicos que afetam o fun- de instrumentos de medida, ensino e pes-cionamento e o bem-estar subjetivo dos quisa. No Quadro 2 são apresentados exem-idosos; visam à manutenção, ao aperfeiçoa- plos de atividades que os psicólogos podemmento ou à recuperação do bem-estar dos desenvolver nessas áreas.idosos que vivem de forma independenteQuadro 2 - Campos em que a psicologia pode contribuir para o bem-estar objetivo e subjetivo dos idosos Campos em que a pscicologia pode contribuir para o bem-estar objetivo e subjetivo dos idosos 1. Saúde. Ênfase em promoção em saúde; reabilitação cognitiva e psicomotora; aconselhamento, orientação e psicoterapia e cuidados paliativos; avaliação de capacidades funcionais; apoio psicológico em situação de reabilitação física e de cuidados paliativos; treino de memória; psicoterapias em desordens emocionais; treino de relaxamento; terapias expressivas e arte-terapia em demência. 2. Relações sociais. Por exemplo, envolver treino de habilidades sociais para programas de ação gerontológica em saúde e em defesa dos direitos sociais. 3. Família. Importante oferecer informação e apoio à promoção de boas relações e de relações de interdependência entre as gerações, atuar em situações de crise e oferecer apoio psicológico. 4.Instituições públicas e privadas de assistência social e à saúde dos idosos. Oferecer treinamento de habilidades profissionais e apoio psicológico a profissionais que trabalham com idosos, assessoria ao planejamento e à avaliação de serviços. 5. Educação, lazer e sociabilidade. Os psicólogos podem oferecer informação psicológica e atividades grupais visando ao aprimoramento de habilidades sociais, atuar no planejamento do currículo e fazer pesquisa, tendo em mente que a educação é um processo permanente e que os idosos devem ser tratados como participantes ativos com uma história de vida e conhecimentos a serem respeitados. Na educação não formal, as possibilidades se ampliam em programas veiculados pela mídia impressa e televisiva, pela internet, sobre qualidade de vida, saúde, relações sociais, cidadania, alfabetização. Também, pela organização e orientação de centros de memória, grupos de avós, de contadores de história e de voluntários, clubes recreativos, centros de convivência e programas de autogestão por idosos, no trabalho, no lazer ou na ação social. 6. Trabalho. Muitos idosos trabalham para sobreviver ou para ajudar os membros mais jovens da família. Outros o fazem por opção. O psicólogo pode ajudar com programas de capacitação e reciclagem para o trabalho, treino de atitudes e motivação. No contexto organizacional, ele pode operar em favor dos mais velhos, desenvolvendo instrumentos e técnicas de seleção, acompanhando providências no campo da ergonomia, trabalhando na prevenção de riscos e promovendo alterações na cultura organizacional de modo a favorecer o aproveitamento das competências dos idosos. Pode trabalhar atitudes e procedimentos de pessoal de recursos humanos para lidar com os trabalhadores mais velhos; pode ajudá-los a flexibilizar a carreira, a desenvolver papéis profissionais adequados aos ganhos da maturidade, a planejar uma segunda carreira ou a preparar-se para a aposentadoria. Os idosos podem desenvolver atividades profissionais e de prestação de serviços assumindo papéis de consultores, auditores e assessores especializados, transformando a experiência acumulada em serviços. 75 7. Ambiente ecológico. Os focos são a segurança, o conforto e a satisfação nas cidades, nos lares e nas RBCEH - Revista Brasileira de Ciênciasado Envelhecimentovida objetiva e subjetiva dos idosos. instituições, fatores que contribuem para boa qualidade de Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004 8. Situações de vulnerabilidade social. Os psicólogos têm muito a oferecer em programas de prevenção e de
  8. 8. aproveitamento das competências dos idosos. Pode trabalhar atitudes e procedimentos de pessoal de recursoshumanos para lidar com os trabalhadores mais velhos; pode ajudá-los a flexibilizar a carreira, a desenvolverpapéis profissionais adequados aos ganhos da maturidade, a planejar uma segunda carreira ou a preparar-separa a aposentadoria. Os idosos podem desenvolver atividades profissionais e de prestação de serviçosassumindo papéis de consultores, auditores e assessores especializados, transformando a experiência acumuladaem serviços. Quadro 2Continução7. Ambiente ecológico. Os focos são a segurança, o conforto e a satisfação nas cidades, nos lares e nasinstituições, fatores que contribuem para a boa qualidade de vida objetiva e subjetiva dos idosos.8. Situações de vulnerabilidade social. Os psicólogos têm muito a oferecer em programas de prevenção e deatendimento à pobreza; à violência, ao abandono e aos maus-tratos; à deficiência física, mental e sensorial; aidosos migrantes e sem-teto, trabalhos que podem desenvolver-se em instituições públicas, privadas e nãogovernamentais.9. Redação de material informativo, utilizando os mais variados suportes (livros, folhetos, artigos ou entrevistasem jornais, TV, rádio, CD-ROM, videocassete) e dirigidos às mais variadas audiências (idosos, crianças,comunidade, políticos, professores, estudantes de psicologia).10. Desenvolvimento ou validação de instrumentos de medida psicológica apropriados à realidade brasileira,por exemplo, nos campos da personalidade, da cognição, das capacidades funcionais e das atitudes.11. Pesquisa, visando à geração de conhecimento relevante do ponto de vista teórico e social, o que significapesquisar tendo em vista os progressos acumulados da ciência, bem como os problemas da vida real dosbrasileiros.12. Ensino de psicologia do envelhecimento em cursos de psicologia, educação e medicina, quebrando velhostabus sobre a velhice como período de declínio, sobre a impossibilidade de educar idosos e da velhice comoproblema de saúde. Melhor será se esse ensino for teórica e empiricamente fundamentado, não baseado emteorias do senso comum sobre a velhice. Em todos esses contextos de atuação, tadas pela profissão, como podemos vero psicólogo pode desempenhar um am- no Quadro 3, inspirado em Carstensen,plo leque de funções que lhe são facul- Edelstein e Dornbrand (1996).Quadro 3 - Principais funções dos psicólogos especializados em oferta de serviços a idosos1. Avaliação psicológica2. Planejamento e execução de intervenção psicológica3. Orientação e aconselhamento4. Informação e mudança de atitudes em relação à velhice5. Psicoterapias individuais e grupais com idosos, voltadas para problemas de ordem emocional e psicossocia6. Tratamento de déficits e de distúrbios cognitivos e psicomotores, ou reabilitação cognitiva dos idosos7. Orientação, aconselhamento e psicoterapia, individuais e grupais, a familiares de idosos dependentes efragilizados8. Intervenções individuais e grupais em situações de crise9. Assessoria a instituições públicas, a organizações públicas e privadas que amparam e cuidam de idosos e afamílias de idosos10. Assessoria, planejamento e execução de programas de promoção em saúde na comunidade11. Assessoria, planejamento e execução de programas de promoção social para idosos12. Assessoria e planejamento de providências ecológicas e de programas de mudança de atitudes visando aobem-estar dos idosos, nas cidades, nas instituições e nas organizações13. Apoio psicológico a profissionais que cuidam de idosos14. Participação em equipes multiprofissionais 76 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004
  9. 9. Contribuições da psicologia ao estudo e... Embora não esgote o leque de opções de. No Quadro 4, vemos uma relação deda profissão, o campo central de formação campos de intervenção clínica específicose de identificação do psicólogo é o da saú- ao campo da velhice (Birren et al., 1992).Quadro 4 - Principais campos de intervenção clínica para os psicólogos que lidam com idosos 1. Fatores comportamentais e psicológicos de risco para a ocorrência de velhice patológica 2. Fragilidade e dependência: questões éticas e práticas que se propõem aos idosos e aos seus cuidadores profissionais e familiares 3. Avaliação e intervenção em distúrbios psicológicos e do comportamento, déficits comportamentais e problemas em 3.1. Capacidades funcionais 3.2. Emoção e afeto 3.3. Cognição 3.4. Motivação 4. Saúde física, como, por exemplo, distúrbios do sono, dor crônica, enxaqueca, osteoporose, problemas cardiovasculares e cerebrovasculares, vulnerabilidade ao estresse, depressão, incontinência, instabilidade e quedas 5. Doenças neuropsicológicas (por exemplo, doenças de Parkinson e mal de Alzheimer) 6. Intervenções baseadas em apoio social, com vistas a amortecer o impacto de situações de crise (ex.: morte ou doença grave do cônjuge) 7. Intervenções comportamentais (ex.: as que visam à adesão ao tratamentoa, ao enfrentamento de estresse, desamparo e ansiedade 8. Intervenções comportamentais em serviços de saúde e sociais (ex.: as que visam a melhorar o estilo de vida, a nutrição, a saúde bucal, a adesão a tratamentos médicos, o tratamento e a prevenção de hipertensão, da osteoporose e da catarata 9. Reabilitação cognitiva em síndromes neurológicas (ex.: treino de memória, de orientação temporal e espacial e de compreensão verbal) 10. Apoio psicológico (ex.: lidar com a fragilidade, a dependência e a morte) e treinamento (ex.: ensino, empatia) a profissionais de saúde que participam do sistema de cuidado formal a idosos fragilizados e dependentes (ex.: em asilos e hospitais) 11. Apoio e treinamento ao sistema de cuidado informal (familiares e voluntários) que apóiam idosos frágeis e dependentes (ex.: informações sobre as doenças e seu manejo em casa; habilidades práticas de cuidar; manejo de sentimentos e do estresse, cuidados com a própria saúde, atenção às relações familiares, como acionar recursos da comunidade, o que fazer em caso de episódio agudo ou morte do idoso) Contribuições da psicologia ao funcionalmente incapacitados. Progra- mar o ambiente residencial, o ambien- planejamento de ambientes te de trabalho, os asilos e casas de repou- físicos adequados a idosos so, o bairro e a cidade, os hospitais, A psicologia pode oferecer contribui- ambulatórios, centros-dia e centros deções ao planejamento e à reprogramação saúde e os locais de lazer e de convivên-ambiental para idosos independentes ou cia é vital para a prevenção da incompe- 77 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004
  10. 10. tência comportamental, da dependên- motivação e atitudes. Pode atuar direta-cia, da depressão, da insegurança, do mente no planejamento e assessoramentoisolamento, do abandono, da negligên- empresas, profissionais, familiares e ocia e dos maus-tratos (LAWTON, 1991). próprio idoso, para proporcionar condi- O psicólogo pode atuar sobre o am- ções para que o idoso possa viver bem nobiente do idoso com base em conheci- seu ambiente (SCHAIE e SCHOOLER,mentos oferecidos pela psicologia da per- 1998; NERI, 2000) (Quadro 5).cepção e por estudos sobre satisfação,Quadro 5 - Tópicos de interesse em psicologia ambiental e envelhecimento1. A avaliação dos contextos gerontológicos, como, por exemplo, o lar e os asilos, com base em teoriaspsicológicas e sociológicas2. O controle ambiental como base para a segurança e a competência física e psicossocial dos idosos3. Características psicossociais dos ambientes gerontológicos. O papel da organização, da beleza, do conforto eda novidade4. Os ambientes de lazer, educação e sociabilidade como contextos de desenvolvimento5. Fatores ambientais de risco para o abandono, maus-tratos e violência em relação aos idosos, na cidade, nasinstituições e em casa Considerações finais Os psicólogos que hoje estão traba- hoje poucas possibilidades de atuaçãolhando com idosos valem-se de informa- para os psicólogos uma vez que: a) ain-ções advindas de várias áreas da psico- da não existe opinião formada na clien-logia, estando afiliados especialmente a tela em relação à validade ou à possibi-serviços de saúde existentes em hospi- lidade de realizar intervenções psicote-tais e em centros de saúde. As iniciati- rapêuticas com idosos; b) os cursos devas em medicina da família, recente pro- psicologia não investem nessa faixagrama do Ministério da Saúde que en- etária nem estimulam os futuros psicó-volve parceria entre prefeituras e hospi- logos a melhor compreendê-la; c) preva-tais de referência, deverão abrir um lecem preconceitos a respeito da flexi-campo novo para o profissional de psi- bilidade dos idosos para a mudança, ocologia. Instituições asilares, casas de que tradicionalmente tem sido um en-repouso particulares, instituições públi- trave para o desenvolvimento de trata-cas, universidades abertas à terceira ida- mentos apropriados aos mais velhos; d)de, cursos de especialização e centros de a clínica exercida em moldes individuaisconvivência para idosos estão abrindo e privados é cara para uma populaçãooutros espaços para atuação. pobre, caso da maioria dos idosos; e) o No campo da psicologia clínica serviço público de saúde não presta aten-exercida nos moldes tradicionais, há dimento psicológico universal à popu- 78 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004
  11. 11. Contribuições da psicologia ao estudo e...lação em geral e, muito menos, a idosos. poder aquisitivo é geralmente baixo eIsso significa que os psicólogos precisa- têm pouco acesso à informação sobre osrão adaptar-se criativamente e aprender recursos da psicologia e sobre seu direi-a usar os conhecimentos clínicos em to a atendimento nessa modalidade deoutros contextos de cuidado à saúde, ajuda. Esse cenário dispõe condiçõesalém de aprenderem a trabalhar em gru- que prenunciam a construção gradualpos e em modalidades de intervenção do campo, que se constituirá com basefocais e breves. no diálogo constante entre a psicologia Do campo de conhecimentos sobre como ciência e a psicologia como pro-avaliação psicológica, cognição, trata- fissão, os profissionais brasileiros quemento individual e grupal a problemas atuam com idosos, a população idosa eafetivos e cognitivos de idosos, os psicó- as instituições sociais.logos brasileiros tirarão mais informa-ções úteis à atuação e à construção do Recebido para publicação em maio de 2003.campo de atendimento à saúde física emental dos idosos. Também poderão Abstractbuscar apoio teórico e tecnológico nocampo da psicologia, da psicologia social The increasing of aged populatione da psicologia da personalidade, para and the current ideological changesmelhor atuarem junto a pequenos gru- toward aging constitutes the scenery topos, famílias e comunidades. A psicolo- the building of psychology as scientificgia educacional poderá valer-lhes em and professional field. The interactionsituações em que o imperativo é reali- between psychology and other careers inzar intervenções de educação e de ensi- the social and health fields promotesno não formal, educação permanente e their mutual development. Goodeducação em saúde. scienific and humanistic education, and Cada vez mais a psicologia e os psi- multiprofessional work will allow tocólogos brasileiros serão solicitados a Brazilian psychologists to perform theirdar respostas à população idosa, a qual job in the fields of work, health,está crescendo de forma rápida. Num environment, leisure, education, familypaís de dimensões continentais, são vá- support, group management, community,rias as realidades econômicas, sociais, rehabilitation, treatment, building ofculturais, psicológicas e de saúde dos instruments and methods of assessment,idosos. Também são variadas as condi- researching and teaching of psychology ofções profissionais e as relativas à base de aging.informação dos psicólogos para o exer-cício da profissão frente a idosos, cujo Key words: aging, old persons, psychology, professional field, Brazil. 79 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004
  12. 12. Referências IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Es- tatística, 2000. Disponível em: http://BALTES, P. B. Theoretical propositions of the www.ibge.gov.br/home/estatistica/populaçao/life span developmental psychology: on the tabuadevida/textoambosossexos2000/shtmdynamics between growth and decline. LAWTON, M. P. A multidimensiol view ofDevelopmental Psychology, v. 23, p. 611-696, quality of life in frail elders. In: BIRREN, J. E.1987. et al. (Ed.). The concept and measure of quality ofBALTES, P. B. On the incomplete architecture life in the frail elderly. San Diego, Cal.: Academicof human ontogeny. Selection, optimization, Press, 1991. p. 4-26.and compensation as foundation of NERI, A. L. Qualidade de vida na velhice e aten-developmental theory. American Psychologist, v. dimento domiciliar. In: DUARTE, Y. A. de O.;4, n. 52, p. 366-380, 1997. DIOGO, M. J. D’Élboux (Org.). AtendimentoBALTES, P. B.; MAYER, K. U. (Ed.). The Berlin domiciliar: um enfoque gerontológico. Sãoaging study. Aging from 70 to 105. Cambridge: Paulo: Atheneu, 2000. cap. 5.Cambridge University Press, 1999. NERI, A. L. Paradigmas contemporâneos sobreBIRREN, J. E.; SCHAIE, K. W. (Ed.) Handbook o desenvolvimento e o envelhecimento. In:of psychology of aging. 4 th ed. San Diego: NERI, A. L. (Org.). Desenvolvimento e envelhe-Academic Press, 1996. cimento. Campinas: Papirus, 2001. cap. 1.BIRREN, J. E.; SCHAIE, K. W. (Ed.). Handbook NERI, A. L. Envelhecer bem no trabalho: pos-of psychology of aging. 5 th ed. San Diego: sibilidades individuais, organizacionais e so-Academic Press, 2001. ciais. A Terceira Idade/Sesc, São Paulo, v. 13, n. 24, p. 7-27, 2002.BIRREN, J. E.; SCHROOTS, J. J. F. Concepts,theory, and methods in the psychology of aging. ROWE, J. R.; KAHN, R. L. Successful aging. NewIn: BIRREN, J. E.; SCHAIE, K. W. (Ed.). York: Pantheon Books, 1998.Handbook of psychology of aging. 4th ed. San SCHAIE, K. W.; SCHOOLER, C. (Ed.). ImpactDiego: Academic Press, 1996. cap. 1. of work on older adults. New York: Springer, 1999.BIRREN, J. E. et al. (Ed.). Handbook of mentalhealth and aging. San Diego: Academic Press, Endereço1992. Avenida Bertrand Russell, 801CAMARANO, A. A. et al. Como vive o idoso Campinas - SPbrasileiro? In: CAMARANO, A. A. (Org.). Muitoalém dos 60. Os novos idosos brasileiros. Rio de CEP: 13083-970Janeiro: Ipea, 1999. Fone (19) 3788 5670/5595/5555.CARSTENSEN, L. L.; EDELSTON, B. A; E-mail: anitalbn@lexxa.com.brDORNBRANB, L. (Ed.). The practical handbookof clinical gerontology. Thousand Oaks, Cal.: Sage. 80 RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 69-80 - jan./jun. 2004

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