Romance - Um Mar De Rosas
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Madalena Soares e Jorge Albuquerque foram casados durante dezasseis anos e desse casamento nasceram duas crianças maravilhosas, Sara e Daniel.No entanto, três anos após o divórcio, os primeiros ...

Madalena Soares e Jorge Albuquerque foram casados durante dezasseis anos e desse casamento nasceram duas crianças maravilhosas, Sara e Daniel.No entanto, três anos após o divórcio, os primeiros sintomas da doença de Sara começam a manifestar-se. O desejo compulsivo por sexo, o ódio que sente pela mãe e a indiferença carinhosa do pai, levam-na a mergulhar no mundo obscuro da pornografia e da prostituição em busca de um afecto que julga perdido.
Quando confrontados com a dura realidade de terem uma filha ninfomaníaca que se prostitui em troca de nada, Madalena e Jorge são intimados a rever todos os erros que cometeram ao longo do seu casamento. Mas não será tarde demais para voltar atrás e começar de novo? Não será tarde para eles e também para Sara?

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Romance - Um Mar De Rosas Document Transcript

  • 1. R O M A N C E UM MAR DE ROSAS DIANA NEVES
  • 2. SINOPSE UM MAR DE ROSAS Madalena Soares e Jorge Albuquerque foram casados durante dezasseis anos e desse casamento nasceram duas crianças maravilhosas. Sara e Daniel. Mas a certa altura, cansada das muitas e mal disfarçadas traições do marido e de ter sido presa por um crime cometido por ele, Madalena surpreende Jorge com um pedido de divórcio. Uma decisão que afectará toda a família, nomeadamente Sara, que com doze anos, se recusa a compreender os motivos que levaram a sua mãe a expulsar o pai de casa. A relação entre mãe e filha deteriora-se gradualmente, e três anos após o divórcio dos pais, os primeiros sintomas da doença de Sara começam a manifestar-se. O desejo compulsivo por sexo, o ódio que sente pela mãe e a indiferença carinhosa do pai, levam-na a mergulhar no mundo obscuro da pornografia e da prostituição em busca de um afecto que julga perdido. Quando confrontados com a dura realidade de terem uma filha ninfomaníaca que se prostitui em troca de nada, Madalena e Jorge são intimados a rever todos os erros que cometeram ao longo do seu casamento. Mas aí impõe-se uma questão: Não será tarde demais para voltar atrás e recomeçar de novo? Não será tarde para eles e também para Sara? DIANA NEVES
  • 3. R O M A N C E UM MAR DE ROSAS DIANA NEVES
  • 4. Este romance é baseado em factos reais.
  • 5. O conteúdo desta obra, inclusive revisão ortográfica, é de responsabilidade exclusiva do autor. 1ª Edição/2013
  • 6. 2000 O sábado ensolarado deu lugar a uma noite carregada de nuvens que se adensaram ao longe no horizonte. Parecia que o Outono tinha chegado em força, ditando o fim de um ciclo que já se vinha arrastando há muitos anos. De olhos postos na janela, enquanto os primeiros pingos de chuva caíam sobre o tejadilho, Madalena susteve a respiração. Olhou o seu relógio de pulso e viu que nele estavam marcadas vinte e quatro horas. Nessa altura, o silêncio da rua foi interrompido pela chegada de um táxi. O veículo estacionou em frente à sua moradia, no separador central, por debaixo da mesma fileira de plátanos que durante anos esteve ali plantada. Dezasseis ao todo. O tempo em que ela esteve casada com Jorge. Madalena observou a sua saída do táxi. Jorge trazia, como sempre, o seu sobretudo cinzento nas mãos e uma pasta castanha por debaixo do braço. De longe, era possível perceber o seu cansaço. A viagem a Madrid naquele fim-de-semana não poderia ter vindo numa pior altura. O timing tinha sido péssimo, mas ainda assim, Jorge sabia que não iria conseguir fugir por muito mais. Era altura de enfrentar os problemas. Custasse o que custasse. O motorista ajudou-o com as malas. Ele pagou a corrida, oferecendo-lhe uma boa gorjeta, ao que o senhor agradeceu com um aperto de mão cordial. Pouco tempo depois, o advogado arrastou a bagagem e abriu os portões de casa sem saber que a sua mulher o vigiava por detrás dos cortinados da sala. Quando abriu a porta, já a noite ia alta, Jorge viu-se confrontado com uma escuridão avassaladora. O casarão parecia adormecido, ou pelo menos foi essa a sensação que obteve durante escassos segundos. Com certeza a mulher e os filhos já estariam a dormir. Mas não foi isso que aconteceu. No momento em que se largou as malas a um canto do corredor e colocou o sobretudo no bengaleiro, uma luz pálida do candeeiro acendeu-se junto à entrada. Jorge apanhou um susto de morte. Era Madalena. A sua mulher. - Não precisas subir – ela disse-lhe num tom de voz imperioso.
  • 7. - Pensei que já estivesses a dormir. - Não ouviste o que eu disse? - Lena! Nós precisamos conversar… - Eu já não tenho mais nada para falar contigo, Jorge. - Eu sei que deveria ter-te contado antes! Ou pelo menos antes que a polícia descobrisse. Mas a primeira fase das transacções já estava praticamente concluída. Faltava apenas mais uma remessa e depois íriamos transferir o dinheiro para uma outra conta. Fecharíamos aquela que estava em teu nome e caso ficaria encerrado. Mas a polícia descobriu tudo. Com certeza, deve ter sido alguma denúncia, alguma vingança, sei lá… - Jorge aproximou-se lentamente dela. – Mas o importante é que acabou tudo bem. Já falei com o Duarte esta tarde e ele garantiu-me que o caso será abafado e o teu nome ilibado desta história toda. Enquanto ouvia o discurso do marido, alguém a quem dedicou dezasseis anos da sua vida, Madalena não quis acreditar no que ele se tinha transformado. Um homem arrogante, presunçoso e cheio de si. Crente de que as suas acções não tinham consequências e de que poderia livrar-se das suas responsabilidades sempre que quisesse. Jorge não iria mudar. Nunca. Por mais anos que despendesse naquele casamento fracassado, ele não iria mudar. A luta estava perdida. Para Madalena, não existiam forças e nem vontade para salvar aquela relação doentia. - Tens as tuas malas ali na sala – ela disse por fim. - Que malas?! – Jorge afrouxou o nó na gravata sem acreditar no que tinha ouvido. - As malas que te fiz esta tarde. Enfiei lá dentro todas as tuas tralhas! Só tens que pegar nelas e sair desta casa. - Estás louca, Lena?! De onde é que foste tirar uma idiotice dessas? - O nosso casamento acabou, Jorge! Eu quero-te fora desta casa e quero-te também fora da minha vida! Para sempre… Jorge soltou uma risada seca como se não quisesse acreditar nas palavras da sua mulher. Aliás, recusava-se a acreditar naquela encenação feita por Madalena. Já a tinha visto inúmeras vezes sempre que ela lhe descobria uma traição ou outra
  • 8. mentira mal contada. Foram dezasseis anos do mesmo. Dezasseis anos em que ela o perdoou e o deixou voltar a um casamento que, apesar de não ser perfeito, conferia- lhes toda a segurança de que necessitavam. Então porque é que desta vez seria diferente? Não havia e nem nunca houve motivos para ser diferente. - Vou tomar um banho e dormir no quarto de hóspedes! Amanhã falamos… - Jorge tentou subir as escadas que ligavam o rés-do-chão ao primeiro piso. - Não estás a levar a sério aquilo que te estou a dizer, não é?! – Madalena impediu-o de subir. - Lena! Eu estou cansado, aliás, estou exausto! O congresso em Madrid não correu nada bem. Já disse que amanhã falamos… - E eu já disse que não vais subir – ela gritou, raivosa. – Será que ainda não percebeste, Jorge?! Será que vou ter que te dizer com todas as letras que o nosso casamento acabou? ACABOU – Madalena voltou a gritar-lhe aos ouvidos. – Chegou ao fim, aliás, a minha paciência contigo chegou ao fim. E o meu amor por ti também. Eu já não te amo mais! Há muito tempo que não te amo mais… Jorge fechou os olhos e balançou a cabeça sem querer acreditar que aquilo estava realmente a acontecer. Depois de um congresso de setenta e duas horas, de ter perdido um voo pela manhã e da notícia que obteve do seu escritório sobre as investigações da polícia judiciária às suas contas bancárias, ainda tinha que lidar com as crises sentimentais da sua mulher. - Eu sei que estás irritada por causa do que aconteceu. Assumo a minha culpa! Mas já passou, Lena! Já te disse que não vais ser acusada de nada. O Duarte e eu vamos tratar de tudo… Madalena sentiu uma lágrima cair-lhe no rosto. – Acabou, Jorge! Desta vez é a sério… - Tudo o que fiz foi para o teu bem e para o bem dos nossos filhos. - Não! Tudo o que fizeste foi para o teu bem. Nunca pensaste em mim, na Sara ou no Daniel! Durante todos estes anos, estiveste muito mais interessado nos teus negócios e nas tuas conquistas profissionais. Estiveste também muito mais interessado em arranjar várias amantes e em humilhar-me com elas… - os olhos de Madalena encheram-se de lágrimas. – E até ontem, eu engoli tudo porque achava que era
  • 9. preferível viver este casamento de fachada do que privar a Sara e o Daniel de terem um pai. Achei que era preferível abrir mão da minha felicidade, para que todos à minha volta fossem felizes. E eu até estava disposta a fazer isso, Jorge! Estava realmente disposta a viver miseravelmente para o resto da minha vida apenas para ver os meus filhos felizes. Mas ontem foi a gota de água. Acabou-se tudo! Acabou-se o pingo de respeito que eu ainda sentia por ti, o pingo de admiração e também o pingo de amor… - Pois eu ainda te amo. - Não! Não amas – Madalena disse-lhe num tom deveras calmo. – Agora sai da minha casa! Desaparece e não voltes mais, porque desta vez, eu não te vou aceitar de volta… - Eu não vou sair desta casa, ouviste bem?! – Jorge gritou pela primeira vez, acordando os filhos no piso de cima. – Sabes qual é o teu problema, Lena? Passares a vida enfiada no teu mundo de fantasia sem realmente saber o que se passa lá fora! Ou pensas o quê?! Pensas que teríamos metade das coisas que temos se eu continuasse a trabalhar naquela firma de advogados em Benfica onde me enfiei a ganhar o ordenado mínimo e a trabalhar como um condenado para que os outros advogados mais experientes me ficassem com os louros? Achas que teríamos esta casa? Diz lá! Achas que poderíamos pagar os colégios dos miúdos? As nossas férias? As roupas, as jóias e tudo o que compras com os cartões de crédito que te ofereço de mão beijada? Não! Nunca poderias ter a vida que tens se não fosse por minha causa. Ao contrário do que possas pensar, os bens materiais compram-se com dinheiro e não com honestidade. E hoje em dia, já não se ganha dinheiro com honestidade. Lá fora, no mundo real, as pessoas lutam com unhas e dentes por um ordenado ao final do mês porque sabem que o dinheiro não cai do céu. E tu devias dar graças a Deus por não ter que lutar por nada. Devias agradecer de joelhos a vida que eu te ofereço… - Uma vida que eu não quero mais – Madalena cortou-lhe as palavras com um grito agudo. - Até ontem querias – Jorge enfrentou-a perto das escadas. – Por isso pensa bem! Não faças nada do qual te possas vir a arrepender mais tarde. - Eu não me vou arrepender, Jorge! Até porque prefiro morrer do que continuar casada contigo.
  • 10. Jorge foi o primeiro a aperceber-se da presença da filha, já que Madalena, por estar de costas, não viu expressão assustada de Sara com as mãos suspensas sobre o corrimão das escadas. A jovem ouviu a discussão dos pais e a frase preemptória da mãe: Prefiro morrer do que continuar casada contigo. E não foi preciso mais nada para que Sara percebesse que o casamento dos pais estava irremediavelmente arruinado. Para sempre. - Sara… - Jorge tentou antecipar-se à filha, mas foi tarde demais. Sara desapareceu das escadas assim que os seus olhos se cruzaram com os da mãe. Trancou-se no quarto, batendo a porta com violência. O barulho que se ouviu foi absolutamente ensurdecedor e deixou Jorge e Madalena de olhos postos um no outro. Como chegaram àquele ponto, perguntaram-se em silêncio. O que aconteceu àquele casamento? Ao amor e ao respeito que um dia sentiram um pelo outro? O que foi feito a todos aqueles sentimentos que outrora pareceram tão reais? - Tens as tuas malas ali na sala! Quando saíres, fecha a porta e deixa a chave… Proferidas estas últimas palavras, Madalena subiu as escadas lentamente, levada por uma falsa sensação de liberdade. Estava livre, foi o que pensou. Finalmente livre. Anos e anos de desespero, angústia e sofrimento tinham sido deixados para trás, enquanto a sua figura se desvanecia perante o olhar perplêxo de Jorge. O advogado não soube muito bem porquê, mas subitamente um grande nó atravessou-lhe a garganta. Como se aquela fosse, de facto, a última vez que pisava aquele corredor.
  • 11. 2003 As chuvas torrenciais não a deixaram dormir naquela noite. Madalena ouviu por diversas vezes estouros violentos de trovões e relâmpagos a lacerar os estores das janelas. O despertador tocou ruidosamente as seis horas em ponto, assinalando o término do seu descanso. Chegara a hora de se levantar, tomar um banho, vestir-se e preparar os filhos para a escola. Era essa a rotina que mantinha há pelo menos três anos desde que se separou do marido. Intitulava-se agora uma mulher divorciada. A separação foi difícil e traumática, especialmente por causa das crianças que de uma hora para a outra viram o pai sair de casa com três malas na mão. Nunca mais voltou, ao contrário do que todos esperavam, e ao contrário do que ele próprio esperava. Madalena manteve-se resoluta em não aceitá-lo de volta. Passaram-se meses e os papéis do divórcio foram assinados citando diferenças irreconciliáveis. Um motivo muito torpe para todas as angústias e humilhações a que ela se viu submetida durante os dezasseis anos em que esteve casada com Jorge. Agora com quarenta anos restava-lhe recomeçar do zero. Os três anos que se seguiram ao divórcio não foram fáceis. Os filhos reagiram mal à separação. Sara especialmente. Desde o dia em que o pai saiu de casa, a jovem fechou-se em sete copas e destilou todo o seu ódio e rancor contra a mãe. Culpabilizava-a por tudo. Pelo término da família, por todos os fins-de-semana em que se via obrigada a fazer as malas e partir para a nova casa do pai, pelas estranhas comemorações no Natal, Ano Novo, aniversários e outras datas festivas. E por não saber realmente a quem pertencia. Tudo era motivo para implicações e discussões. A menina doce que vivia agarrada à saia da mãe transfornou-se numa jovem infeliz e amargurada. Um ano depois da assinatura do divórcio, a família sofreu um outro abalo. Leonor, a mãe de Madalena, recebeu o diagnóstico de que sofria de um cranco nos intestinos em estado avançado. Cancro, esse, que lhe permitiu desfrutar de apenas mais seis meses de vida. Afonso, o marido de Leonor, foi o que mais sofreu com a sua morte.
  • 12. Leonor deixou igualmente um outro problema quando faleceu. A sua floricultura. Um negócio que mantinha há mais de vinte anos e que se tornou na grande fonte de rendimento aquando da reforma do marido da carreira militar. Manter o negócio ou fechar a loja, foi este o grande dilema de Madalena durante as semanas que seguiram à morte da mãe. Ela pensava que não era capaz. Nunca dirigira nada em toda a sua vida e não estava sequer familiarizada com aquele negócio. Durante os anos em que esteve casada com Jorge e depois do nascimento dos filhos, Madalena deixou de trabalhar. Dedicou-se única e exclusivamente à casa e às crianças, passando a maior parte do tempo submersa nos afazeres domésticos. Esqueceu-se de que também poderia ter uma vida própria e fazer algo de útil à sociedade. Mediante o aconselhamento do pai, de resto uma das poucas pessoas que sempre acreditou nas suas capacidades, Madalena decidiu aceitar o desafio de reerguer a floricultura da sua mãe. Dotou-a de um novo fôlego e de uma nova acuidade visual graças à preciosa ajuda da sua melhor amiga, Alice Martins. O negócio corria bem. Em pouco tempo, foi possível contratar duas novas funcionárias e abrir uma segunda loja no centro da cidade, onde muitas vezes Madalena se revezava com Alice. Todos os dias surgiam aniversários, casamentos e outras datas comemorativas celebradas com a compra de flores. Não era um negócio fútil, ao contrário do que a maioria das pessoas poderia pensar, ou melhor, ao contrário do que o ex-marido de Madalena poderia pensar. Era um negócio sério que provinha o sustento de várias pessoas, incluindo o dela, que desde o seu divórcio com Jorge recusou-se a receber um cêntimo do dinheiro sujo que o ex-marido ganhava a defender banqueiros, empresários e políticos corruptos. Assim, o tempo foi passando e cicatrizou algumas feridas que pareciam incuráveis. Os cabelos castanhos de Madalena, ligeiramente aclarados, cresceram, e os olhos cor de mel voltaram a brilhar de uma forma diferente. Menos infelizes, decerto. Conseguiu igualmente manter a sua excelente forma física tamanho trinta e seis, com um ventre liso, braços tonificados e seios arrebitados. Madalena possuia todas as características de uma mulher atraente, embora não se considerasse especialmente bonita. Tinha dias. Dias em que se conseguia ver ao espelho e descobrir alguns traços que não se perderam durante a sua juventude, como as maçãs do rosto salientes, as sobrancelhas perfeitamente delineadas e os lábios finos. Apesar de tudo, o tempo tinha sido generoso consigo. Nunca engordou. Nem mesmo aquando do nascimento dos filhos. A amamentação encarregou-se de lhe retirar os dez e os quinze quilos ganhos nas suas duas gravidezes. Naquela manhã, tal como sempre, Madalena apressou-se a pôr a mesa do pequeno- almoço. Preparou um café para si, bebeu-o num só gole e aproveitou os minutos seguintes para servir os filhos, que arrastados pela lentidão matinal, sentaram-se à mesa e aguardaram pacientemente a chegada do leite, dos cereais e das torradas.
  • 13. Algum tempo depois, Madalena, Daniel e Sara saíram de casa às pressas em direcção ao carro estacionado na garagem. O céu continuava nublado com indícios de que provavelmente iria chover durante a manhã. As previsões metereológicas não apontavam melhorias nos próximos dias. Assim que Madalena tirou o carro da garagem em marcha atrás, Sara enfiou-se no banco da frente e Daniel entrou pela porta traseira, depois de sem querer ter pisado uma poça de água. A viagem foi feita em silêncio ao som das primeiras notícias na rádio, e quando deu por si, a chuva caía tão forte que já quase não era possível o limpa-pára-brisas varrer toda a água. Madalena abrandou então a marcha e manteve-se na via de trânsito mais à direita. Diminuiu o volume do rádio e olhou de soslaio para a filha. Sara encontrava-se mais uma vez com aqueles malditos auscultadores nos ouvidos. - Não era hoje que ias ter um teste? – Madalena interrompeu o silêncio constrangedor. – Ouviste-me!? - O que foi?! – Sara tirou os auscultadores. - Perguntei se não era hoje que ias ter um teste. - Sim – a jovem suspirou. - Estudaste? - Não sei! Acho que sim. - Como não sabes!? Ou se estuda ou não se estuda! Ninguém acha que não sabe se estudou. Sara voltou a brindá-la com um longo silêncio e um suspiro entediado. - Estudei. - Esta semana não te vi com um único livro na mão. - É natural! Não andamos juntas vinte e quatro horas por dia. Não te passou pela cabeça que talvez eu possa ter estudado enquanto não estavas em casa? - Sara! Não me respondas nesse tom! Eu não te admito.
  • 14. Madalena apoiou a mão sobre a caixa de velocidades com uma expressão contrariada, esperando que o sinal vermelho passasse a verde. Percebeu que estava a ser cada vez mais difícil manter um diálogo decente com a sua filha. Sara dirigia-se a si sempre com altivez, irritabilidade e com aquela expressão provocadora de quem tudo sabia. Era preciso uma paciência de santo para a aturar. - Mãe… – Daniel esgueirou o pescoço em direcção aos bancos da frente. – Vamos passar este fim-de-semana à casa do pai? - Ainda não sei – Madalena passou a mão pela nuca. – Ele ainda não ligou a dizer nada. - Deixei lá a minha Playstation! Preciso ir buscá-la. - Sabes que eu até acho que foi bom teres esquecido maldito jogo na casa do teu pai!? Assim pelo menos esta semana passaste menos tempo em frente à televisão e estudaste mais. Devias esquecê-la outras vezes para ver se me consegues levantar as notas a Português. - Se o pai não nos vier buscar, eu peço-lhe para me trazer a minha Playstation! Não passo mais uma semana sem ela, senão fujo de casa… - És mesmo parvo - Sara empurrou o irmão contra o banco de trás. – Foges de casa e vais para onde? Para debaixo da ponte!? Madalena seguiu caminho no meio do trânsito infernal da segunda circular. Por sorte, tinha tempo. Saíra de casa com antecedência prevendo que uma situação dessas pudesse acontecer. A primeira paragem, por ser a mais próxima, foi o colégio de Sara. - Boa sorte – ela disse quando a filha saiu do carro com a mochila às costas. - Para quê? - Oras, para quê?! Para o teste. - Não precisas desejar-me sorte. - Vou torcer por ti.
  • 15. - Já disse que não é preciso. Sara afastou-se do carro sem olhar para trás e entrou no colégio debaixo de uma chuva miudinha. Não abriu sequer o chapéu que a mãe obrigou a levar consigo. Em vez disso, atravessou o pátio da escola a correr, afundando propositadamente os pés em grandes poças de água. Ao vê-la entrar no pavilhão principal, Madalena encolheu os ombros e respirou fundo. De facto, ninguém a podia acusar de não tentar melhorar a relação com a sua filha. Talvez um dia Sara conseguisse reconhecer o seu esforço. De qualquer maneira, era bom poder continuar a sonhar com isso. Uma hora foi o tempo que Madalena precisou para deixar o filho mais novo na escola e dirigir-se até a uma das suas floriculturas. Foi a primeira a chegar ao local e fê-lo pontualmente quinze minutos antes das dez. Ao abrir a porta, surgiu-lhe como sempre a visão assustadora da correspondência acumulada ao longo do fim-de- semana. Abaixou-se e alinhou as cartas com um suspiro. Água. Seguro. Publicidade. Publicidade. Realmente nada a que já não estivesse habituada durante os três anos em que dirigia aquele negócio. O espaço era amplo e iluminado. Possuía dois pisos, um armazém e vários expositores que guardavam todo o tipo de plantas e flores, algumas medicinais e outras simplesmente decorativas. Encontrava-se localizada na Avenida de Roma, uma das avenidas mais nobres de Lisboa, e todos os dias recebia clientes de diversos extratos sociais. O nome MAR DE ROSAS chamava a atenção de todos os que por ali passavam. Madalena não se podia queixar do negócio. A sua mãe construíra uma reputação sólida na vizinhança, o que serviu como impulso para continuar e expandir a floricultura para outras zonas da cidade. - Olá Madalena! Como estás? Desculpa o atraso – uma das funcionárias entrou pela loja adentro, afogueada. Desfez-se imediatamente do impermeável que trazia consigo e também do guarda-chuva destruído pela forte ventania. - Não faz mal, Joana! Também cheguei há pouco – Madalena mostrou-lhe um sorriso compreensivo enquanto abria o caixa. - Está um temporal lá fora! Nem queiras saber como aqui cheguei. Olha para o meu chapéu! Do jeito como está mais vale pô-lo no lixo. - Vai-te secar lá dentro antes que apanhes uma constipação. - Está bem! Dás-me cinco minutos?!
  • 16. Joana correu ao armazém. Secou-se rapidamente com uma toalha e voltou à loja pronta para começar mais um dia de trabalho. – A Alice não vem hoje? - Vai ficar a manhã na outra loja no Areeiro! Só vem à tarde. O casamento de Sofia Dias estava marcado para dali a quatro meses, e tal como se era de esperar, foi a sua mãe, Beatriz Dias, a responsável por toda a organização do evento. O vestido de noiva fora adquirido numa viagem que fizeram a Paris, o local da boda reservado numa quinta em plena Vila de Sintra, e a igreja escolhida para os cerca de duzentos e cinquenta convidados do casal era, nada mais, nada menos, que o majestoso edifício situado em Belém. O Mosteiro dos Jerónimos. Seria o casamento do ano, ela bradava. Beatriz havia passado anos a sonhar com o dia em que a sua filha se iria casar. Sempre teve objectivos bem traçados relativamente ao tipo de genro que pretendia. Um homem educado, rico e de boas famílias. Alguém que pudesse equiparar-se ao seu nível social e oferecer uma vida desafogada à sua filha. Para Beatriz, apenas isso importava. Tudo o resto eram detalhes, como por exemplo, o facto de Sofia não estar apaixonada pelo noivo. Pormenores. Dizia. O amor vem com o tempo e nem sempre podemos ter tudo aquilo que queremos. Por vezes, somos obrigados a abrir mão de um grande amor em prol de uma certa posição social. Sofia compreendia a sua mãe melhor do que ninguém. Sempre esteve consciente das privações a que foram obrigadas a passar por culpa das irresponsabilidades do seu pai que perdeu toda a fortuna em casinos e salões de jogos. Por isso, não lhe queria seguir as pisadas. Ainda que não amasse o noivo, ela iria casar-se com um homem rico e ser feliz com os cartões de crédito que ele lhe oferecesse. No final daquela semana, ao fechar as janelas da sala, Madalena observou uma cena que já lhe era particularmente familiar. O ex-marido estacionou o carro em frente ao jardim. Tinham-se passado duas semanas desde a última vez que ele se comprometeu a buscar os filhos para passar o fim-de-semana. Muito trabalho, foi a desculpa. Naquela tarde, ele saiu do carro às pressas. Tentou abrigar-se da chuva miudinha, utilizando para isso o sobretudo que quase sempre o acompanhava em emergências como àquela. Depois disso, atravessou a rua e abriu os portões com o mesmo à vontade de outros tempos. Tempos em que aquela casa ainda continuava a ser sua. O divórcio não o tinha mudado. Jorge continuava presunçoso, arrogante e com a estúpida sensação de que tinha o rei na barriga. Mas apesar de todos os defeitos e dos seus quarenta e dois anos de idade, mantinha-se um homem bem-apessoado. Possuía cabelos castanhos religiosamente pintados sempre lhe surgiam os primeiros fios brancos em frente ao espelho, olhos escuros e estatura elevada. Para além disso, fazia questão de manter-se em forma com visitas regulares ao ginásio.
  • 17. - Chegaste cedo – Madalena abriu-lhe a porta minutos depois. - Oito horas! Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos – Jorge alcançou o relógio de pulso num gesto zombeteiro. – Como reclamas sempre que chego atrasado… - Entra! - Estou com pressa! Os miúdos ainda vão demorar muito? - Não sei. Antes de fechar a porta, Madalena voltou a lançar os olhos ao carro de Jorge. Viu que o motor ainda continuava a trabalhar. - Tens alguém dentro do carro? O advogado bem tentou esconder o seu constrangimento quando se viu confrontado com a perspicácia da ex-mulher, mas na altura não teve como negar. - Sim! Tenho. Madalena franziu o sobre olho. - Uma amiga – ele defendeu-se prontamente. - Uma amiga!? - Sim! Uma amiga. - Escuta Jorge! Eu não quero que ponhas os meus filhos a conviver com as tuas amigas. - Lena, não começes com as tuas cenas outra vez! Nós já não somos casados, lembraste? Não te devo satisfações da minha vida. - Que seja! Simplesmente, não quero. - Será que podes ir lá acima despachar os miúdos?
  • 18. O olhar de Madalena foi peremptório e não deixou outra escolha a Jorge a não ser sentar-se no sofá e aguardar impacientemente a chegada dos filhos à sala. Estava cansado de ouvir sermões e acusações sempre que lá ia buscar as crianças a casa. A ex-mulher nunca lhe facilitou a vida nesse sentido. E o pior é que as coisas não pareciam estar a melhorar com o tempo. - Estava a ver que nunca mais – ele disse, recebendo um beijo de Sara e de Daniel respectivamente quando ambos desceram à sala. – Então!? Já estão prontos? - Já – Sara colocou a mochila atrás das costas. – Podemos ir? - Sim! Claro. - Portem-se bem – Madalena ajudou o filho a vestir o casaco e a enfiar o gorro na cabeça. – Não fiquem acordados até tarde! Façam os trabalhos de casa e comam todas as refeições. Ou melhor, obriguem o vosso pai a fazer-vos todas as refeições… Jorge soltou um novo suspiro e revirou os olhos. Até quando iria continuar a aguentar aquela provação, foi o que se perguntou em silêncio. - Está bem, mãe – Daniel anuiu. - Ligo amanhã para falar com vocês. - Não precisas ligar – Sara saiu da sala sem olhar para trás. – O pai traz-nos no domingo à noite! São só dois dias… - Mesmo assim! Amanhã eu ligo. - Vamos, Daniel – Jorge desferiu um último olhar à ex-mulher. – Tchau, Lena! - Tchau, Jorge… Quando a porta se voltou a fechar, Madalena aproximou-se lentamente da janela da sala. Entrelaçou os dedos por entre os cortinados brancos, observando a caminhada do ex-marido e dos filhos em direcção ao carro. Iam animados e felizes. Jorge levava o braço sobre os ombros de Daniel e Sara encontrava-se abraçada à sua cintura contando-lhe entre risos e gargalhadas todas as peripécias que lhe aconteceram nas duas semanas em que não o viu.
  • 19. No interior da casa, Madalena tentou não sentir ciúmes da proximidade que os filhos pareciam ter com o pai, especialmente Sara. Em vez disso, forçou um pouco mais a vista para conseguir vislumbrar os traços físicos da mulher que se encontrava sentada no banco da frente do carro do ex-marido. Mas na altura foi inútil. A escuridão da noite impossibilitou-lhe tal tarefa e Jorge não teve cerimónias em arrancar o carro a alta velocidade depois de ter enfiado as mochilas dos filhos na bagageira. Nessa altura, a rua tornou a ficar deserta e Madalena deu-se por vencida. Não seria desta vez que iria conhecer a nova namorada do ex-marido. Passaram-se quatro meses e o Verão regressou em força. Jorge convidou os filhos para passar duas semanas no Algarve num novo apartamento que adquiriu, fruto de um acordo imobiliário bastante rentável. Tal como se era de esperar, Sara e de Daniel aceitaram o convite sem hesitações. E Madalena, por não ter tido outra alternativa, acedeu ao desejo das crianças em seguirem viagem com o pai. As súplicas tornaram-se cada vez mais incessantes com o passar das semanas, sobretudo por parte de Sara. Eram usuais as suas chantagens, a sua contrariedade e o seu mau-humor sempre que um desejo seu não era atendido. Por esse motivo, Madalena resolveu baixar as guardas. Permitiu a viagem e permitiu também, pela primeira vez, que os filhos convivessem com a nova namorada do pai por mais do que um fim-de-semana. Chamava-se Vanessa, era alta como uma torre, loira e com as curvas perfeitas de uma verdadeira top model. O zénite que todos os homens divorciados acima dos quarenta sonhavam apresentar às suas ex-mulheres. - Olá, muito prazer - Vanessa estendeu a mão a Madalena, mostrando-lhe um largo sorriso. A florista aceitou o cumprimento de uma forma muito menos efusiva. – Prazer! - Finalmente! Confesso que estava curiosa para a conhecer. - O sentimento era recíproco – Madalena mentiu. - O Jorge falou-me muito sobre si. - Bem, espero… - Claro que sim – Vanessa riu-se alegremente. – Sabe que eu até estive a dizer ao Jorge para a levar connosco nestas férias?! - Eu?!
  • 20. - Sim! Iria ser divertido passarmos as férias todos juntos. - A Madalena tem um negócio para gerir, Vanessa – Jorge adiantou-se, temendo que a sua namorada pronunciasse mais alguma loucura. – Eu disse-te que ela era dona de uma floricultura, lembraste!? - Hã, claro… - Não vou ter férias este ano! Já tinha dito isso ao Jorge – Madalena concluiu a resposta do ex-marido. - Não acredito! Bem, deve estar arrasada, não?! Um ano sem férias! Tenho a certeza absoluta que não aguentava. Iria bater com a cabeça nas paredes. - Imagino que sim – Madalena não conteve a observação sarcástica. Era a quinta vez que Madalena observava a entrada dos filhos, da namorada e do ex- marido no carro, mas era sem sombra de dúvidas a primeira em que não se sentia minimamente enciumada por ver aquela cena. Vanessa, a tal loira mais alta que uma torre e com as medidas perfeitas de uma top model, não passava de um corpo desprovido de cérebro ou qualquer outro sinónimo que pudesse fazer jus à inteligência humana. E sim. Ela fazia realmente o estilo de Jorge. - Estás a gozar?! Ela é assim tão burra? – Alice, a sócia e a melhor amiga de Madalena não resistiu a fazer a pergunta quando ambas jantaram juntas naquela noite. - Define-me burra. As duas amigas riram-se animadamente, deliciadas com uma maravilhosa refeição cozinhada por Madalena. Salmão grelhado e salada de ervas aromáticas a acompanhar. Em cima da mesa, encontrava-se também uma garrafa de vinho branco aberta especialmente para a ocasião. A televisão debitava as últimas notícias do dia, mas isso não foi suficiente para prender a atenção de Madalena e Alice. A conversa sobre a nova namorada de Jorge era muito mais interessante. Fazia-lhes bem ao ego gozar com ele, com as suas conquistas furadas e rirem-se às gargalhadas com alguns comentários menos agradáveis sobre o seu carácter. Não era de todo o melhor passatempo do mundo, mas pelo menos exigia a Madalena que se relembrasse de todos os motivos que a fizeram assinar os papéis do divórcio com Jorge. - Coitado! Será que ele está assim tão desesperado? – Alice perguntou.
  • 21. - Provavelmente! Mas lá diz o ditado que cada um tem aquilo que merece, não é!? Pois então! Ele só está a ter aquilo que merece. - E tu estás a adorar. - É assim tão evidente? – Madalena arrancou uma nova gargalhada à sua melhor amiga. - Mas tens razão! Aliás, tens toda a razão em ficar contente com a desgraça do teu ex- marido! Especialmente depois de tudo o que ele te fez. - Nem me digas. - Podias pelo menos ter ficado com algum dinheiro daquela conta no Chipre – Alice riu-se, animada. - Olha, nem com isso fiquei! Só fiquei com os chifres, com os filhos e com esta casa a cair aos bocados enquanto ele se pavoneia no Algarve com a Vanessa loira burra. Aliás, se queres realmente que te diga, eu é que sou burra… – Madalena largou a taça de vinho sobre a mesa. – Burra por ter aguentado tantas traições e ainda acabar com uma mão à frente e a outra atrás. - Eu bem te avisei que devias ter feito um negócio mais vantajoso quando assinaste os papéis do divórcio. Mas tu só quiseste ficar com esta casa! Não foste muito inteligente nesse aspecto. Infelizmente, Madalena foi obrigada a concordar com as palavras da sua amiga e também com a certeza de que tudo continuava igual naquela cozinha. Exactamente ao que sempre fora. - Estou sozinha – ela chegou a essa conclusão. - E eu?! Sou um fantasma? - Tu sabes bem o que eu quis dizer, Alice! Ele está lá no Algarve, até pode estar com a mulher mais burra do mundo, mas pelo menos está lá a divertir-se, a viver uma vida que eu também queria viver e a ser feliz… - Madalena bem tentou controlar as lágrimas que lhe teimaram em cair dos olhos, mas na altura foi impossível. - Não penses nisso – Alice tentou animá-la.
  • 22. - Nunca pensei que um divórcio fosse tão difícil. - A quem o dizes! Eles avançam com a vida e nós não… - Mas quando se tem filhos é mil vezes pior! Cheguei à conclusão que nunca me vou conseguir ver livre do Jorge. Nunca! Por mais que eu não queira, ele vai continuar a aparecer-me cá em casa todos os fins-de-semana para buscar a Sara e o Daniel. Vai continuar a fazer parte das nossas vidas. Vão existir sempre situações em que me vou ter que cruzar com ele por causa das crianças. E eu não pensei nisso quando resolvi pedir o divórcio. Acreditas que na noite que nos separámos eu cheguei a cometer a loucura de dizer que o queria fora da minha vida para sempre? Que nunca mais o queria voltar a ver? - Isso era um sonho, de facto. - E o pior de tudo nem é isso – Madalena levou um pedaço de salmão à boca. Estava frio e ela há muito que já havia perdido o apetite no jantar. - Ainda há coisa pior do que seres obrigada a conviver com o Jorge para o resto da tua vida? - Há! A Sara. - O que é que tem a Sara? - Desde que me divorciei do pai, sinto que ela guarda rancores de mim. Pensa que fui eu que o expulsei cá de casa. - Isso é porque não sabe o verdadeiro sacana que o pai dela é! Já lhe devias ter contado a verdade há muito tempo. - Não posso fazer uma coisa dessas. - Porque não?! - Porque não tenho o direito de destruir a boa imagem que ela ainda tem do pai. Não quero que ela acabe desiludida como eu. - Podes ficar descansada porque ela não se vai casar com um homem igual ao pai. Não existem dois Jorges no planeta terra.
  • 23. - Deus te oiça – Madalena e Alice riram-se alegremente. - Tu é que devias começar a pensar em refazer a tua vida. - Eu?! Estás louca, Alice! - Porque não?! Continuas uma mulher bonita, interessante, inteligente… - Queres acrescentar mais algum elogio? - Só não arranjaste ninguém porque ainda não quiseste! Eu bem vejo como o Srº António olha para ti. - Que Srº António?! - O nosso fornecedor do Porto Salvo. - Estás louca?! O homem tem quase idade para ser meu pai. - Se calhar é mesmo disso que estás a precisar! De um homem maduro, experiente… - Não, Alice – Madalena voltou a servir-se de um novo copo de vinho. – O que eu estou a precisar é de sexo tórrido e o Srº António nunca me vai poder dar um sexo tórrido. Aliás, como é que eu posso sequer pensar na possibilidade de ter sexo tórrido com um homem que usa suspensórios e meias brancas!? Alice não conteve a gargalhada ruidosa. - Pelo menos aquele idiota do Jorge era bom de cama – Madalena odiou-se por ter feito aquela confissão. – Raios! Porque é que todos os homens traidores, sem escrúpulos e miseráveis são bons de cama?! - Está-lhes no sangue – a resposta de Alice trouxe novas risadas à mesa.
  • 24. 1982 Madalena tinha acabado de sair do ginásio quando entrou numa pequena mercearia para comprar uma garrafa de água. Esteve duas horas nos treinos de ginástica acrobática. Uma modalidade que praticava desde os doze anos, em dias alternados, conjugando-as com aulas de Ballet e também com o curso de Contabilidade. Os seus dias eram agitados. Não tinha tempo para nada, nem sequer para sair com as suas amigas e tomar um copo numa esplanada. Mas ainda assim ela gostava de se manter activa. Com dezanove anos, um corpo escultural e bem definido, Madalena chamava a atenção de qualquer homem que passasse por si na rua, ainda que sempre saísse do ginásio com os cabelos desalinhados presos por um rabo-de-cavalo, umas leggins pretas e um velho pullover cinzento que habitualmente a acompanhava nos dias mais frios. Sempre que entrava na mercearia, o dono cumprimentava-a com um sorriso malicioso. Mexia no bigode e passava as mãos pelos poucos cabelos que ainda lhe restavam na careca oleosa. Madalena já havia coagitado deixar de lá ir. Incomodava- a os olhares lascivos daquele homem que tinha quase idade para ser seu pai. Normalmente conseguia vê-lo através do espelho do expositor de bebidas. Ficava de olhos fixos, a olhar para o seu rabo e a admirá-la de cima a baixo. Sempre que isso acontecia, ela puxava o pullover para baixo e abria o expositor às pressas, retirando uma garrafa de água de um litro e meio. Depois, enchia-se de coragem e dirigia-se até ao caixa. Ali, escolhia algumas pastilhas de menta para mastigar durante caminho. Mas naquela tarde de Verão, um outro cliente passou-lhe à frente. Fê-lo sem qualquer cuidado, evidenciando alguma pressa. Pagou um maço de cigarros e uma bebida energética. Era alto, corpulento e bastante atraente. Um rapaz vistoso não fosse o maldito vício do tabaco. Madalena observou-o de costas sem que ele se apercebesse da sua existência. Depois de pagar, ele saiu e ela foi então obrigada a encarar o rosto devasso do dono da mercearia. - Está toda suada, menina…
  • 25. - É só a água e as pastilhas, por favor – Madalena ignorou-lhe o comentário menos próprio. O eléctrico estava prestes a sair da paragem quando Madalena abandonou a mercearia, carregada com o seu saco de treinos e com a garrafa de água que comprara momentos antes. Desesperada, ela correu pela rua como uma louca, esbarrando-se numa senhora de idade que furiosamente bradou bem alto que os jovens já não tinham respeito por ninguém. Madalena desculpou-se sem olhar para trás, mas o eléctrico iniciou a marcha. Parecia uma causa perdida, até uma mão forte puxá-la para o interior do veículo em andamento. Ao vê-la pela primeira vez, o desconhecido sorriu e Madalena reconheceu-o de imediato. Era o rapaz da mercearia. - Estás bem? – ele perguntou. - Estou – ela respondeu algo afogueada pela corrida. – Obrigada. - Foi por pouco. - Obrigada. Madalena despediu-se do rapaz e procurou um lugar para se sentar. Caiu na cadeira com o saco de treinos sobre o colo, depois de ter limpado o suor do rosto e ajeitado os cabelos desalinhados. Minutos mais tarde, foi-lhe possível recuperar o fôlego e permitir a saída da senhora que se encontrava sentada ao seu lado. O lugar voltou a ser rapidamente ocupado pelo mesmo rapaz que a ajudara a apanhar o eléctrico. O rapaz da mercearia. Assim passou a ser conhecido. Em poucos instantes, enquanto observava aquela bela jovem de estatura média, o seu rosto angelical e os longos cabelos que lhe caíam nas costas presos por um rabo- de-cavalo volumoso, ele sorriu extasiado. Enredou-se nos seus próprios pensamentos, tentando adivinhar-lhe o nome, os motivos que a levaram a apanhar aquele eléctrico e o que ela escondia no interior daquele saco de treinos. Admirou igualmente a perfeição das suas unhas, muito bem arranjadas, pintadas de rosa clarinho. Não tinha brincos nas orelhas ou qualquer outro acessório no pescoço ou nas mãos. Apenas a limpidez de um sorriso que sem querer deixou escapar quando percebeu que ele não parava de olhar para si. - Sou o Jorge! E tu? - Madalena – ela respondeu timidamente com um esgar nos lábios.
  • 26. - Moras aqui perto? - Mais ou menos. - Costumas vir muitas vezes para estes lados? - Mais ou menos. Jorge esboçou um sorriso malandro perante a pouca vontade de Madalena em revelar mais detalhes acerca da sua vida pessoal. - Pois eu estudo aqui perto – ele disse. – Mais ou menos. Ela não resistiu a esboçar um sorriso encantador. - Estudas?! Trabalhas? – Jorge voltou a perguntar. - Estudo. - O quê?! - O primeiro ano de contabilidade. - Então quer dizer que és boa a matemática? A pergunta de Jorge obrigou-a a esboçar um novo sorriso e a desviar o rosto em direcção à janela. Madalena não sabia muito bem o porquê, mas a presença daquele rapaz atraente deixava-a nervosa. Como se ao olhar para ele, ela deixasse transparecer todos os seus segredos. Como se ao olhar para ele, tudo à sua volta deixasse de ter importância. - Pois eu estudo Direito… – Jorge mostrou-lhe o livro que tinha por debaixo do braço. – Estou quase a terminar o curso. - Muito bem. - E tu? Gostas de Contabilidade? - Sou boa a matemática.
  • 27. Jorge riu-se alegremente e observou pela primeira vez com atenção o rosto resplandecente de Madalena. Tinha olhos cor-de-mel, reparou. A pele era clarinha, sem qualquer borbulha ou ponto negro a apontar. Branca como a de uma boneca de porcelana. Além disso, os lábios encontravam-se ligeiramente pintados com um batom clarinho. Eram belos. Os lábios mais belos e perfeitamente delineados que ele alguma vez vira ao longo dos seus tenros vinte e dois anos de idade. Apesar de ter ficado bem longe do seu destino, Jorge resolveu descer na mesma paragem que Madalena. Acompanhou-a ao longo da rua numa conversa animada onde foi o principal interlocutor. Ele percebeu que Madalena era uma mulher de poucas palavras. Era tímida, reservada e pensava mil vezes antes de se atrever a abrir a boca para dizer qualquer coisa. Mas era isso que mais o agradava. O mistério e a curiosidade que ela despertava em si. - Não posso dar-me ao luxo de nunca mais te ver – ele afirmou quando cruzaram o Marquês de Pombal e ela disse que iria cortar caminho em direcção à Rua Gomes Freire, local onde morava com os pais. - Foi um prazer conhecer-te, Jorge! - Espera! Vais-te embora assim? – ele interceptou-a de braços abertos. - Assim como!? - Sem me dares um número de contacto. - Não te posso dar o número da casa dos meus pais. - Então diz-me onde estudas, ou então, onde é que te posso encontrar outra vez… Jorge não parecia disposto a deixar escapar a sua presa. Tinha demorado tanto tempo a esbarrar-se com uma mulher como Madalena, que seria uma loucura deixá- la fugir sem a certeza de que a tornaria a ver. Ela devia-lhe isso. O prazer de um novo encontro. - Faço aulas de ginástica todas as terças, quintas e sextas a uma paragem do local onde apanhámos hoje o eléctrico. - Tens a certeza que não me estás a mentir? – Jorge cerrou os olhos e isso provocou uma gargalhada jovial a Madalena.
  • 28. - Não! Não estou a mentir. - Juras?! - Juro. - Então vou lá aparecer na próxima terça-feira. - Está bem. - A que horas sais das aulas? - Às seis. No terceiro encontro que tiveram, Jorge levou Madalena a comer um gelado de manga e baunilha numa nova gelataria que abrira na Baixa da Cidade. Era um local frequentado por gente jovem, bem ao estilo anos oitenta, com música rock aos altos berros. O espaço amplo encontrava-se repleto de clientes, espalhados por dezenas de mesas decoradas com toalhas vermelhas. Havia uma juke box ligada e empregados movimentavam-se magistralmente em cima de patins de quatro rodas. Naquela magnífica tarde de Verão, Madalena trazia um lindo vestido às flores de alças grossas e calçava umas sandálias rasas. Foi também a primeira vez que Jorge a viu com os cabelos soltos. Longos, castanhos e volumosos que lhe caíam até o final das costas. Era Verão. O sol mostrava-se radioso lá fora, mas não havia nenhum outro lugar no mundo onde ele quisesse estar. - Conta-me mais coisas sobre ti – Jorge pediu. - Não tenho nada para contar – ela encolheu os ombros, levando a colher do gelado à boca. - Como não?! Toda a gente tem alguma coisa para contar. - O que é que queres saber? - O que gostas de fazer nos teus tempos livres? - Comer gelados – a resposta de Madalena fê-lo rir-se alegremente. - Só isso?!
  • 29. - Também gosto de dançar, ler, ir ao cinema… - Da próxima vez convido-te para irmos ao cinema. Pode ser? - Pode – ela ofereceu-lhe um doce sorriso. - Vamos ao São Jorge! E os teus pais?! O que fazem? - A minha mãe é dona de uma floricultura e o meu pai é militar na marinha. - O teu pai é militar?! Bem! Então tenho que me pôr a pau, não?! – Jorge fez uma careta engraçada e Madalena riu-se com ela. - Só se fizeres alguma coisa de mal. - Eu não pretendo fazer nada de mal – Jorge encontrou-lhe a mão sobre a mesa. Mexeu-lhe nos dedos, carinhosamente, e mais tarde brincou com eles. – Ou pelo menos nada que tu não queiras. - És tão parvo – Madalena corou de vergonha. - E tu és a miúda mais gira que já vi até hoje. Ela voltou a corar e os dois continuaram a comer o gelado, indiferentes aos ponteiros do relógio. No final, Jorge fez questão de acompanhar Madalena a casa. Subiram a avenida, envolvidos numa conversa animada. Ele fazia-a rir a gargalhadas com as suas piadas sem sentido e com o seu jeito brincalhão. Ela derretia-o com o seu sorriso radiante, com a delicadeza dos seus gestos e com a expressão de menina inocente que parecia nunca lhe sair do rosto. Eram o par perfeito, conjugavam-se na perfeição e isso ficou provado quando Jorge se atreveu a segurar-lhe a mão no meio da rua. Tinha os dedos suados e estava nervoso, mas isso não o impediu de cometer tal loucura. Queria-a, isso era um facto assente. Mas não de uma forma leviana, como desejava as outras mulheres com quem se tinha envolvido até então. Madalena era especial. Diferente de todas as outras raparigas. Não usava roupas malucas, pinturas berrantes ou unhas postiças, tal como a moda dos anos oitenta ditava. Também não gostava de sair à noite, fumar ou beber. Era doce. Inocente. Honesta. - Obrigada por me teres trazido – Madalena abriu a portaria do seu prédio sorrateiramente, não fosse a sua mãe estar à janela a estender a roupa.
  • 30. - Não precisas agradecer! Foi um prazer. - Agora tenho que subir! O meu pai já deve estar quase a chegar! Tchau… - Espera – Jorge impediu-a de fechar a porta. - O que foi?! Jorge ficou pela primeira vez sem fala. Nem se reconheceu. E logo ele que sempre era despachado com as mulheres. Se as queria, fazia de tudo para as ter. Se não, dava uma desculpa e ia-se embora. Contudo, com Madalena era diferente. Queria-a tanto, mas tanto, que as palavras teimavam em sair-lhe da boca. Quando as tentava dizer, atrapalhava-se todo. - Estou mesmo a gostar de ti – saiu-lhe essa frase estúpida. Madalena sorriu e baixou o rosto. A deixa perfeita para que Jorge lhe segurasse o queixo e o levantasse delicadamente. Observou-a durante vários segundos. Sentiu por ela um imenso carinho, e por fim, fez o inevitável. O que já deveria ter feito há muito tempo, nomeadamente desde a primeira vez que a viu naquele électrico. Beijou-a. Um longo beijo em frente à portaria do prédio, a ouvir os latidos irritantes da cadela da vizinha do rés-do-chão e a rezar para que o pai de Madalena não aparecesse ali naquela altura. No final, quando saciou o seu desejo e a abraçou com força, sentiu-lhe o calor do corpo. Foi então que ela lhe disse baixinho: - Também gosto de ti. Tornaram-se namorados oficiais ainda naquela tarde, e desde então nunca mais se largaram. Com o passar dos meses, Madalena foi descobrindo novas coisas sobre Jorge. Por ser brincalhão, quase nunca assumia os problemas que o atormentavam. A falta de dinheiro para pagar os estudos obrigava-o a trabalhar à noite a tempo parcial. Os pais não o podiam ajudar. Moravam em Braga, no norte do país, e eram raras as vezes que surgiam possibilidades de lhe enviar quantias monetárias. Jorge também não pedia. O seu orgulho falava sempre mais alto. Preferia passar fome a ter que depender de alguém. Aos poucos, Madalena passou a admirá-lo. Os seus pais também. Leonor foi a primeira a receber Jorge de braços abertos. Gostou da sua frontalidade e do seu jeito despachado. Pareceu-lhe um bom homem que nutria um sentimento sincero pela filha. Já Afonso, o pai de Madalena, mostrou-se reticente com a ideia da sua única filha ter arranjado um namorado. Para ele, Madalena continuava a ser a
  • 31. sua menina. Jamais homem algum seria suficientemente bom para ela. Mas a verdade é que com o tempo, Jorge conseguiu conquistar a confiança do temível militar. Eram constantes as suas visitas lá a casa. Quando trazia Madalena de algum passeio, fazia questão de subir e cumprimentar os seus futuros sogros. Chegou inclusive a brincar com esse facto da última vez que lá foi. Um facto que surpreendeu todos os presentes e deixou Afonso mais descansado relativamente às intenções daquele rapaz para com a sua filha. Quando fizeram um ano de namoro, Madalena recebeu a autorização dos pais para passar o primeiro fim-de-semana fora de casa. Jorge prometeu levá-la a Braga. A sua cidade natal. Queria que ela conhecesse os seus pais e queria também oficializar um compromisso que parecia duradouro. O encontro não poderia ter corrido melhor. Isabel e Henrique, os pais de Jorge, adoraram Madalena no minuto em que a viram. Mostraram-se aliviados por ela não ser uma típica rapariga da cidade dotada de modernismos. Madalena era simpática, simples, honesta e tinha sobretudo objectivos de vida. O filho soube escolher bem. Dois meses se passaram. Fazia um belo final de tarde. Algumas pessoas passeavam pela praia, aproveitando o final do dia para se exercitarem e colocarem a leitura em dia. Deambulavam também os cães, presos pelas coleiras. Ouviam-se os risos das crianças e o som maravilhoso das ondas a bater nas rochas da praia. O Verão estava quase a terminar. As férias também. E em pouco tempo o sol pôs-se ao longe no horizonte. Na escuridão da noite, já não restava vivalma. A praia encontrava-se deserta. Apenas Madalena e Jorge permaneciam deitados na areia, abraçados um ao outro, indiferentes ao adiantado das horas. - Queres-te casar comigo? – Jorge perguntou com os olhos postos na lua. - Estás louco – ela riu-se alegremente, retirando-lhe a cabeça do peito. - Nunca falei tão sério em toda a minha vida – ele sentou-se na areia e encarou a sua expressão surpresa. – Amo-te! Quero-me casar contigo! Quero que sejas a minha mulher! E foi então que Jorge retirou uma pequena caixinha aveludada do bolso. Nesse instante, os olhos de Madalena brilharam no meio da escuridão, tal como o lindo anel de noivado que Jorge fez questão de lhe colocar no dedo. - Aceitas casar-te comigo? - Sim – Madalena saltou-lhe para o pescoço. – Sim! Sim!
  • 32. - Amo-te! - Eu também te amo. Não havia nenhum outro homem no mundo que a pudesse fazer mais feliz, Madalena chegou a essa conclusão quando Jorge a tomou nos braços e a deitou na areia. Era certo. Era real. E parecia não ter fim. Ela viu-se espelhada no rosto dele dali a vinte anos e Jorge teve a mesma visão. - Prometo que hoje não vou fugir – Madalena disse-lhe em voz baixa, quase num tom de murmuro. - Não vais mesmo? – Jorge entrelaçou-lhe os dedos nos cabelos compridos. - Não. Corriam o risco de serem apanhados, ambos sabiam-no bem, mas o desejo falou mais alto que o bom senso. Sem esperar mais, Jorge desabotoou os primeiros botões da blusa branca de Madalena e viu-lhe o soutien de rendas. Percebeu que ela se encontrava nervosa. Tremia por todos os lados e não sabia muito bem o que fazer com as mãos. Por isso, ele conduziu-a. Do príncipio ao fim, sendo que não foi preciso muito tempo para que os seus corpos se conjugassem na perfeição. A partir dessa altura, tudo deixou de ter importância. A timidez de Madalena dissipou-se e veio ao de cima toda a sensualidade que ela havia escondido a sete chaves. Uma sensualidade a que apenas Jorge teve acesso naquela noite e que o deixou à beira da explosão por saber que tinha sido o primeiro homem da sua vida. E enquanto a manteve sentada sobre o seu colo, agarrado aos longos cabelos castanhos, sugando-lhe o pescoço como um louco, ele perdeu-se no tempo e no espaço. Pensou que se morresse ali, provavelmente, morria feliz.
  • 33. 2003 Madalena e Alice abandonaram o veículo da floricultura a menos de vinte e quatro horas do tão aguardado casamento da filha de Beatriz Dias. A viagem foi particularmente atribulada. Perderam-se pelo caminho, encontraram uma rua em obras, demoraram uma eternidade a livrar-se do trânsito, e para piorar a situação, naquela tarde viram-se mergulhadas num calor de quase quarenta graus. Alice foi a primeira a abrir as portas da carrinha, trajando uns corsários brancos, uma t-shirt branca às riscas vermelhas e umas sapatilhas confortáveis para a árdua tarefa que se adivinhava. Madalena seguiu-lhe os passos. Para aquele dia insólito, renunciou a arranjar-se. Nem sequer se maquilhou. Levou umas sabrinas rasas, calças de ganga azuís estreitas e uma blusa às flores algo amassada pela viagem. Os cabelos encontravam-se soltos e desordenados, com os óculos escuros colocados estrategicamente sobre a cabeça para os controlar. Ao saírem da carrinha, as duas floristas depararam-se com uma vista magnífica sobre o Mosteiro dos Jerónimos. Um dos edifícios mais emblemáticos da cidade de Lisboa que já contava com inúmeros anos de história. O vento mantinha-se praticamente inexistente, e o sol, magnífico, queimava os corpos dos turistas que por ali passavam em grupos extensos, ansiosos por saborear os tradicionais pastéis de Belém. - Era aqui onde gostaria de me ter casado – Alice guardou as chaves da carrinha no bolso das calças. - Sabes que este mosteiro nunca me disse nada? - Estás a gozar, não!? - Verdade – Madalena poisou o primeiro arranjo floral no chão. – Sempre o achei um pouco sombrio e cinzento.
  • 34. - E eu que me tive que contentar com uma capelinha em Alvalade. - Já não é mau – Madalena riu-se alegremente perante o infortunio da melhor amiga. - Sim! É óptimo! Tão bom que acho que foi por isso que o meu casamento não demorou muito – Alice limpou o suor na testa. – Bem! Vou lá dentro ver se encontro alguém minimamente prestável para nos ajudar a tirar estas flores da carrinha. - O.k. - Não saias daí! A demora de Alice levou Madalena a alcançar o seu relógio de pulso para ver as horas. Viu que nele estavam marcadas treze horas e quarenta e cinco minutos e que o sol continuava mais abrasador do que nunca. A florista não viu outro remédio a não ser sentar-se na parte traseira da carrinha, encontrando uma sombra mínima com a qual se abrigou. Diante da paisagem, embalada pelos Jardins de Belém e pela Torre imponente, Madalena cruzou os braços e pensou em tudo o que não deveria pensar. Pensou nos filhos, em como eles se deveriam estar a divertir no Algarve e nas saudades que sentia deles apesar de apenas se terem passado vinte e quatro horas desde a última vez que os vira. Era uma mãe galinha, não havia dúvidas. Uma mãe que não sabia quando dar espaço e privacidade aos filhos, que lhes vasculhava todas as gavetas numa tentativa desesperada de encontrar algo escabroso e que passava praticamente todas as horas do dia a pensar neles, isto para não falar da facilidade quase sobre humana em incluir os seus nomes em quase todas as conversas, até mesmo com o entregador do gás. - Trouxe ajuda – ouviu-se finalmente a voz de Alice. Os olhos de Madalena não conseguiram desviar-se da figura daquele homem. Era belo, extremamente belo, e trazia consigo um sorriso radiante que a encantou de imediato. Por instantes, quando o viu pela primeira vez diante de si, Madalena não acreditou que ele fosse real. Foi preciso algum esforço para se recompor e para fingir uma estúpida descontracção de quem há muito não sentia o coração disparar na presença de um ser do sexo masculino. Só Alice a trouxe de volta à realidade. - Encontrei este senhor simpático lá dentro! Foi o primeiro a oferecer-se para nos ajudar. O rapaz forçou-lhes um sorriso cordial.
  • 35. - Olá! - Olá – Madalena saltou da babageira e compôs os cabelos desalinhados. - Já vi que precisam mesmo de ajuda. - Nem sabe – Alice mostrou-lhe os inúmeros arranjos no interior da carrinha. – Acha que nos consegue ajudar a levar isto tudo lá para dentro? - Claro! Mas não me peçam para ajudar na decoração, porque não percebo nada do assunto! Só sou um dos fotógrafos contratados para a cerimónia. - Não se preocupe, porque nós também não percebemos nada de decoração. - Só viemos trazer as flores – Madalena concluiu a resposta de Alice, recuando dois passos quando o fotógrafo se aproximou da carrinha e levantou o primeiro arranjo do chão. - São bonitas – ele disse. - Obrigada – ela sorriu. Beatriz Dias recebeu prontamente as duas floristas à entrada da igreja. Vinham ambas carregadas com arranjos vários florais e suportes, mas não houve tempo para grandes conversas. Madalena e Alice estavam bastante atrasadas e as flores eram a parte fundamental da decoração. Sem elas, tudo estaria irremediavelmente perdido. No interior da igreja encontrava-se a equipa de decoração, em movimentos frenéticos e apressados, tentando ultimar desesperadamente todos os detalhes do casamento. Colocavam fitas, velas perfumadas em cantos estratégicos da capela, pedaços de tule a ligar os bancos do corredor e uma passadeira vermelha enorme até ao altar. Enquanto isso, na sacristia, a noiva e a mãe do noivo trocavam as últimas palavras com o padre que iria presidir à cerimónia. Faltavam menos de vinte e quatro horas para o grande evento. Nada poderia dar errado. - Trouxemos as flores tal como o combinado – Alice forçou um sorriso a Beatriz. - Ainda bem! Podem colocá-las junto ao altar que depois os responsáveis da decoração tratam do resto.
  • 36. As ordens de Beatriz foram imediatamente obedecidas, não só por Madalena e por Alice, mas também pelo fotógrafo que teve a amabilidade de as ajudar a tirar todos os arranjos da carrinha. Fê-lo sem pestanejar ou oferecer qualquer comentário menos agradável, apesar de aquela tarefa não fazer parte das suas funções. Enquanto caminhava em direcção à capela com dois grandes arranjos florais nas mãos, um pouco atrás, Madalena observou-lhe as costas formadas, os ombros largos e as pernas ligeiramente arqueadas. Chegou à conclusão de que ele não aparentava também ter mais do que trinta e cinco anos ou tão pouco muitas experiências para contar. O seu olhar era límpido, genuíno e sincero. A certa altura, quando o trabalho já ia a meio, uma voz louca e descontrolada entrou pela igreja adentro. Beatriz foi a primeira a reconhecê-la. Tratava-se da voz do seu futuro genro. - Rafael!? O que é que aconteceu contigo, querido? Estás todo desgrenhado, todo transpirado… - Aonde é que está a sua filha, Beatriz!? Quero falar com ela agora – ele gritou sem se importar com a presença das inúmeras pessoas que continuavam a ultimar os preparativos do seu casamento. - Tem calma! A Sofia está na sacristia com a tua mãe. As duas estão a falar com o padre. - Então vá chamá-la! - Para quê?! - Chame a sua filha agora antes que eu perca a minha paciência, Beatriz – ele gritou. Beatriz nunca vira aquela expressão nos olhos do genro e também nunca pensou que ele tivesse a coragem de lhe levantar a voz perante a presença de dezenas de pessoas. Mas para controlar o escândalo, ela resolveu acatar a ordem de Rafael e chamar a sua filha na sacristia. O noivo não arredou pé do local. Com as mãos nos bolsos das calças, um olhar raivoso e uma das pernas a tremer, aguardou impacientemente a chegada da sua noiva. Ninguém deixou de reparar nele. A sua expressão era assombrosa. Minutos depois, Sofia chegou ao altar. - O que é que se passa, amor!?
  • 37. - Não me chames de amor – o berro de Rafael ecoou por toda a capela, assustando todos os presentes. – Nunca mais te atrevas a chamar-me de amor, sua ordinária! - O que é que estás para aí a falar? - Que eu já descobri tudo. - Tudo, o quê? – Beatriz, a mãe da noiva, foi a primeira a manifestar-se. - Não sabia, D. Beatriz?! Por acaso não sabia que a sua filha andava a ter um caso com um dos nossos amigos? Com certeza que sabia! Até porque o seu único objectivo sempre foi casar a Joana com um homem rico. Com o primeiro otário que lhe aparecesse à frente e que tivesse uma conta bancária choruda. Não era esse o vosso plano? Diga lá! Só que o otário aqui abriu os olhos a tempo – Rafael não se deixou amolecer pelos olhos chorosos da sua noiva. – E podem crer que não me vão arrancar nem mais um tostão! Nem a mim e nem à minha família… - Rafael, tu só podes estar a brincar – Sofia barafustou. – Aliás, não podes estar a falar a sério! Não podes estar-me a fazer isso a vinte e quatro horas do nosso casamento. - Será que ainda não percebeste, Sofia!? Será que ainda não percebeste que a tua máscara caiu diante desta gente toda? Eu já descobri a verdade! Já sei de tudo e nem adianta sequer inventares mais uma das tuas milagrosas desculpas porque o Eduardo confessou o vosso caso quando eu o encostei à parede hoje à tarde. - A culpa foi dele! - A culpa foi tua – Rafael calou-lhe os argumentos com um berro. – A culpa foi toda tua! Foste tu que estragaste tudo e agora não adianta fazeres esse ar de arrependida porque eu já não acredito em mais nenhuma palavra que venha de ti. - Rafael… - Estás a ver tudo isto? – Rafael começou por arrancar todas as fitas decorativas presas nos bancos da capela. – É lixo! Isto tudo é lixo e não vai servir para mais nada. - Pára – Sofia tentou controlar-lhe os braços furiosos. – Pára com isso! - Acabou! Já não vai haver porcaria de casamento nenhum! Acabou!
  • 38. Rafael destruiu tudo o que lhe passou pelas mãos e destruiu também todo o esforço das pessoas que durante meses trabalharam para o seu casamento. Destruiu velas, fitas, suportes, arranjos, cartões e até mesmo as flores trazidas por Madalena e Alice. Possuído por uma fúria descomunal, tudo o que ele queria era extravasar a vergonha sentida quando descobriu que por cinco anos havia sido constantemente traído pela sua noiva. - Rafael, por favor – Sofia chorava desesperada. – Pára com isso! - Sabes qual era a minha vontade!? Queres realmente saber qual é a minha única vontade neste momento? Perante a sua própria incredulidade, Rafael retirou detrás das costas um objecto que cortou a respiração da sua noiva e a respiração de todas as pessoas que se encontravam presentes naquela igreja. Uma arma de fogo. Um revolver que foi apontado em direcção a Sofia e a deixou completamente petrificada. - A minha vontade é de te matar. - Rafael! Não… Tarde demais. Sem pensar nas consequências dos seus actos, Rafael apertou o gatilho com as mãos a tremer e disparou atabalhoadamente. Um tiro muito pouco certeiro que permitiu que Sofia se desviasse a tempo e se livrasse de um dos maiores azares da sua vida. Um azar que consequentemente acertou em cheio no braço de Alice, fazendo-a cair inanimada junto ao altar. - Meu Deus, Alice! Alice! Estás bem? – Madalena correu ao encontro da sua melhor amiga. – Alice! Nessa altura, um aglomerado de pessoas juntou-se à volta das duas floristas. - Alguém chame uma ambulância, por favor – Madalena voltou a gritar, desesperada. O fotógrafo contratado para a cerimónia foi o primeiro a fazer a chamada, enquanto Madalena, desesperada e com o rosto lavado em lágrimas, segurou a cabeça da sua melhor amiga numa tentativa aflita de a manter acordada. Rafael estava em estado de choque. Tentou aproximar-se da vítima e pediu desculpas. Nunca fora sua intenção magoar ninguém.
  • 39. - Você é louco, é o que é – Madalena gritou, insurgindo-se contra ele. – Saia! Saia daqui! Apesar dos inúmeros pedidos de desculpa que recebeu por parte dos noivos e das suas respectivas famílias, enquanto a sua melhor amiga era levada pela equipa de socorro, Madalena manteve-se resoluta em não aceitar nenhum. Acompanhou Alice até à entrada do mosteiro e desesperou-se por não poder ajudá-la a suplantar as terríveis dores que estava a sentir. - Para onde é que a vão levar? – Madalena perguntou aos socorristas de serviço quando estes colocaram Alice no interior da ambulância. - Para o hospital CUF – um deles respondeu, antes de fechar as portas da ambulância. – Se quiser pode seguir-nos até lá! Madalena apressou-se em direcção ao carro, apesar de estar mais nervosa do que nunca. Nem sequer pensou se teria condições de conduzir um automóvel, tamanho o desejo de estar ao lado de Alice. Por sorte, o fotógrafo que a ajudou a transportar as flores naquela fatídiga tarde de Julho, disponibilizou-se para digirir a carrinha no seu lugar. Vinte minutos depois, pararam à frente das portas das Urgências. Ele imobilizou o veículo e ela saiu esbaforida ao encontro da ambulância. Alice foi transportada numa maca até à sala de triagens e Madalena barrada pelo segurança. Era necessário preencher uma ficha de entrada nos serviços da recepção, ele disse-lhe, e assim, ela não teve outro remédio a não ser acatar as ordens do segurança. Preencheu os dados de Alice, pelo menos os que sabia, e aguardou que lhe fossem fornecidas quaisquer informações relativamente ao estado de saúde da sua amiga. Mas nada lhe foi dito. A única pessoa a aproximar-se de si na sala de espera foi o fotógrafo quando este conseguiu estacionar a carrinha da floricultura no parque do hospital. - E então? Ela já foi atendida? – ele perguntou. - Levaram-na há pouco lá para dentro – Madalena permitiu que ele se sentasse ao seu lado. – Mas ainda não sei de nada! Estou à espera que me digam alguma coisa. - Vai correr tudo bem! Vai ver! Tome as chaves da carrinha. - Obrigada. Madalena manteve-se nervosa, sentada numa cadeira perto da janela, de braços cruzados e com um olhar pensativo. Aguardou impacientemente notícias da sua
  • 40. melhor amiga. Temia pelo que lhe pudesse acontecer e responsabilizava-se em silêncio por ter aceitado fornecer as flores para aquele maldito casamento. Nunca o deveria ter feito. Se soubesse, jamais faria aquele negócio. O dinheiro ganho não compensava todo o susto e todo o transtorno. - Ainda não sei o seu nome – o fotógrafo proclamou após um longo silêncio. - Madalena Soares – ela respondeu. – E você? - Sérgio Almeida. - Prazer – apertaram cordialmente as mãos. – Foi muito amável da sua parte ter-me trazido até cá! Desculpe se ainda não tinha tido a oportunidade de lhe agradecer. - Não se preocupe com isso. - Mas se precisar ir embora, por favor… - Não a vou deixar aqui sozinha – a resposta de Sérgio fê-la esboçar um ligeiro sorriso. - Obrigada. - A sua amiga vai ficar boa, tenho a certeza. - É o que eu também espero. Raios! Lembrei-me agora! Tenho que fazer uma chamada. Madalena encontrou o telemóvel no bolso do casaco e digitou o número da loja. Precisava avisar à sua funcionária que não iria chegar a tempo do fecho. Durante o telefonema, também não adiantou muitos detalhes sobre o sucedido. Não quis assustar Joana ou dar informações erradas, visto os médicos ainda não se terem pronunciado sobre o estado clínico de Alice. A única coisa que fez foi pedir à sua funcionária que tratasse de tudo e que levasse a chave de loja, entregando-a na segunda-feira ao início da manhã. Quando Madalena desligou a chamada, um médico de serviço entrou na sala. Trouxe um pequeno bloco de notas nas mãos, e no peito, pendurado na bata, uma placa identificativa. Pedro Fonseca era o seu nome. - São os acompanhantes da Srª Alice Martins? – ele perguntou apressadamente.
  • 41. - Sim, somos – Madalena saltou da cadeira. Sérgio seguiu-lhe os passos. – Como é que ela está, Drº? É grave? - Não! Podem ficar descansados! Está tudo bem com a Srª Alice! Por sorte, a bala atravessou o braço direito de raspão, mas não ficou sequer alojada. Foi mais o susto e o choque. - Graças a Deus – Madalena respirou de alívio. - Já realizámos os primeiros exames e procedemos aos curativos com o devido enfaixamento do braço! A Srª Alice encontra-se bem agora. Está a descansar e deverá ter alta amanhã… O médico saiu da sala logo em seguida, levando consigo o mesmo bloco que trouxe nas mãos. Não parecia preocupado com o estado de saúde da sua paciente, o que de certa forma deixou Madalena bem mais aliviada. Era sinal de que estava tudo bem. De que tudo não tinha passado de um susto, tal como o próprio fizera questão de frisar. - Acho que agora podemos ir tomar um café, não?! – Sérgio interrompeu-lhe os pensamentos. – O pior já passou. Ela sorriu. - Sim! Já passou. Madalena e Sérgio entraram no bar do hospital em silêncio. Na altura, o recinto encontrava-se praticamente às moscas, com apenas três mesas ocupadas e o olhar distraído de uma empregada que assistia a um programa na televisão. Minutos depois, dois cafés e duas garrafas de água foram levados à mesa escolhida por Sérgio e Madalena. - Está mais calma? – ele perguntou. - Agora estou um pouco melhor. - Eu disse que a sua amiga iria ficar boa. Madalena sorriu ao ouvir a resposta de Sérgio e encontrou a mesma amabilidade de volta. Era a primeira vez que se encaravam de frente, menos tensos e com a certeza
  • 42. de que o final daquela história poderia ter sido muito pior. Sérgio abriu a garrafa de água num só gesto e Madalena fez o mesmo. Beberam um longo gole e em seguida degustaram o café. - Disse-me que era fotógrafo – Madalena poisou a chávena sobre a mesa. - Sim! Tenho um estúdio de fotografia. - Deve ser uma profissão interessante. - Eu acho que é! Ou pelo menos hoje tornou-se… A resposta de Sérgio arrancou uma leve risada a Madalena. A primeira desde que chegaram ao hospital. Foi só nesse instante que ele reparou o quanto o seu sorriso era belo e sincero. - Concordo. - E você? Para além de aparecer em casamentos recheada de flores, o que é que faz? - Digamos que a minha vida é recheada de flores. - Como assim?! - Sou proprietária de uma floricultura! Ou melhor, de duas… - Outra profissão interessante. - O quê? Vender flores? Nem tanto – Madalena riu-se, encabulada, voltando a beber um novo gole de café. – Não tem nada de interessante, garanto-lhe! - Tem a certeza? Se fosse assim tão desinteressante não estaríamos aqui neste hospital, não acha?! Madalena sorriu e manteve os braços apoiados sobre a mesa, enquanto as mãos brincavam com a chávena de café numa tentativa frustrada de fugir aos olhares insidiosos de Sérgio sobre si. Ele era um homem realmente muito bonito. - Tem razão – ela concordou após um minuto de silêncio. – A minha profissão é muito interessante, tal como a sua…
  • 43. Alice ainda se encontrava um pouco narcotizada pelos analgésicos, mas ciente de que tinha conseguido escapar de boa. Após uma breve conversa no quarto do hospital, Madalena despediu-se dela e prometeu uma nova visita assim que o dia amanhecesse. Já era tarde, Alice disse-lhe. Era melhor ir para casa e descansar pois o dia havia sido repleto de emoções. Minutos depois, as portas automáticas voltaram a abrir-se, e por elas, saíram Madalena e Sérgio no mais completo silêncio. Já passava das vinte e uma horas e a temperatura começava a baixar. Com o casaco de malha nos braços, Madalena caminhou lentamente em direcção ao carro. Estava exausta. Cheia de dores nas pernas e nos braços, para além da enxaqueca irritante que a tinha acompanhado desde o início da tarde. A única coisa que lhe apetecia na altura era chegar a casa e cair na cama, tal como Alice lhe aconselhara momentos antes. - Não precisa de nada? – foi a pergunta de Sérgio quando se aproximaram da carrinha. - Acredite que já fez muito por mim – Madalena abriu as portas do automóvel sem esconder o seu cansaço extremo. – Deixou aqui dentro o seu equipamento fotográfico. - Obrigado – ele recebeu a mochila, colocando-a atrás das costas. - Ai, desculpe! Que parva! Trouxe-me até aqui e eu nem sequer perguntei se queria uma boleia. Entre! Eu deixo-o em… - Não, não é preciso! Daqui sigo directamente para casa! Não moro muito longe. - Tem a certeza? Não me custa nada. - Está tudo bem! Não se preocupe. - Bem! Então assim sendo, agradeço-lhe mais uma vez! Fico-lhe a dever uma… - Quem sabe um dia não lhe venho a cobrar esse favor? - Sinta-se à vontade para o fazer. Foi um momento estranho e perturbador quando se despediram com dois beijos atabalhoados na face. Depois disso, Madalena enfiou-se no interior da carrinha e colocou o cinto de segurança perante o olhar atento de Sérgio. Sorriram pela última
  • 44. vez numa despedida não muito desejada. Ele afastou-se do veículo e Madalena retirou a carrinha do lugar de estacionamento ciente de que nunca mais o voltaria a ver. Podia pedir-lhe o número de telefone, de facto. Mas e daí? O que tinham eles em comum para além de terem assistido a um tiroteio em pleno Mosteiro dos Jerónimos? Nada. E nem valia a pena criar ilusões ou fazer conjecturas. Se ele não teve o desejo de lhe pedir o telefone era porque também pensava o mesmo. Alice abandonou o hospital na manhã seguinte acompanhada por Madalena e pela sua irmã mais nova. Ficou combinado que a florista ficaria em casa da irmã até se recuperar dos ferimentos e se sentir pronta para voltar ao trabalho. Madalena exigiu que a amiga não tivesse qualquer pressa. O importante era que ficasse boa. O trabalho na floricultura era o menos importante. Uma semana depois, quando regressou a casa ao final da tarde, Madalena atirou-se para debaixo do chuveiro sentindo-se exausta, tal como sempre. Os dias na floricultura tomavam-lhe todo o tempo e também todas as forças. Nunca lhe passou pela cabeça ser tão difícil gerir um negócio sozinha, e sem a ajuda preciosa de Alice, a tarefa tornava-se mil vezes mais penosa. Depois do banho e de vestir uma roupa confortável, Madalena desceu à cozinha. Confiscou o seu frigorífico, mas a sopa do dia anterior não lhe encheu as vistas. Também não tinha fome. Preferiu aproveitar aquela noite quente de Verão, descalça em frente à bancada da cozinha, para se deliciar com um saboroso chá de frutos silvestres e duas torradas de pão integral. Acompanhou-as com um paté e com uma revista de decoração de interiores. Um fetiche que a relaxava sempre que se sentia cansada. Contudo, o seu imaginário decorativo foi interrompido minutos depois quando o telefone tocou ao fim de três dias de um silêncio ensurdecedor. Ao reconhecer o remetente, Madalena largou a chávena sobre a bancada e sentiu o seu coração encher-se de alegria. Eram os seus filhos. Sara e Daniel. Daniel era o mais animado e também o único que falou sobre os banhos de piscina, os passeios pela vila e os presentes que a cada duas horas recebia do pai e de Vanessa Loira Burra – um apelido carinhoso que Madalena encontrou para caracterizar a nova namorada do ex-marido. Mas quando deixou escapar que os planos da viagem se tinham alterado graças aos bilhetes que o pai conseguira comprar para Marrocos, Madalena sentiu os seus olhos esbugalharem de estupefacção. - Mas não tinha ficado combinado que as férias iriam ser até ao Algarve? - O pai disse que havia uma promoção espectacular na agência de viagens e que podíamos prolongar as férias por mais alguns dias.
  • 45. Madalena passeou pela cozinha, esbaforida, tentando assimilar todas aquelas informações. – Vocês só podem estar a gozar comigo, não? Daniel! Passa-me o telefone ao teu pai! Ele está aí ao pé? - Está. - Então passa-lhe o telefone agora! Foram os cinco segundos mais longos da sua vida, mas ainda assim, enquanto esperava por eles, Madalena não desistiu dos seus intentos em falar com o ex- marido. - Sim… – a voz de Jorge veio acompanhada de um longo suspiro. - Será que eu ouvi bem o que o Daniel disse? Ou será que bati com a cabeça em algum móvel aqui da cozinha?! - Lena! Não queiras ser irónica porque isso não faz minimamente o teu estilo. - Por que raios queres tu levar os meus filhos para Marrocos? - Nossos filhos! A Sara e o Daniel também são os meus filhos, lembraste?! – Jorge corrigiu-a. - Ai agora é que te lembras disso? - Sinceramente, não percebo qual é o problema de irmos todos a Marrocos. É mesmo aqui ao lado! Vamos até Espanha e de lá apanhamos o barco… - Tinhas tudo planeado! Desde o primeiro minuto. - Não tinha nada planeado – Jorge mentiu. – Mas mesmo que tivesse, agora já não há como voltar atrás! Já comprei as passagens e não dá para devolver. - Quer dizer, isto já é um assunto tão resolvido, que nem sequer te passou pela cabeça pedir a minha autorização? Nem sequer te passou pela cabeça que eu pudesse estar contra a ideia de levares os meus filhos para um outro país? Por acaso foi a tua querida namorada quem deu essa ideia? Jorge riu-se com algum sarcasmo. – Hã, já percebi…
  • 46. - Percebeste o quê? - Estás a morrer de ciúmes. - Eu?! - Sim! Tu… - Não sejas ridículo, Jorge. - Pois eu falei com os nossos filhos e eles mostraram-se muito contentes com a ideia de conhecer Marrocos. - Só por cima do meu cadáver. - Cuidado! Olha que milagres acontecem – Jorge não resistiu a espicaçar a ex-mulher com uma gargalhada que não foi de todo correspondida. Nessa altura, ele percebeu que aquele não era o melhor caminho por onde deveria enveredar. – Lena! Eu só te estou a pedir para que sejas razoável. São só mais duas semanas para além do estipulado. Voltamos no final de Agosto. Além disso, se as crianças regressassem a Lisboa, o que é que iriam fazer para além de ficarem em casa sentadas em frente à televisão enquanto tu vais cuidar das tuas flores!? - Impressionante como não perdes uma única oportunidade para menosprezar o meu trabalho. - Desculpa… – Jorge riu-se num claro tom de deboche. – Não era essa a minha intenção. Mas pensa no que te estou a dizer! Conhecer Marrocos é uma oportunidade única que nem todas as crianças conseguem ter. Vá lá! Tu sabes que a Sara e o Daniel iriam adorar… Ouviu-se um longo silêncio no outro lado da linha. Era a primeira vez que Madalena equacionava a proposta do ex-marido. Pelos filhos. Fê-lo unicamente por eles. Não queria privá-los de desfrutarem de umas férias fantásticas. Algo que nunca poderiam ter caso voltassem a Lisboa antes da data prevista. - E quando é que voltavam de Marrocos? - No final de Agosto! Já te disse! São só mais duas semanas para além do que tínhamos combinado. Ninguém vai morrer por causa disso, nem mesmo tu! Aliás, acho que devias aproveitar essas férias para incrementar a tua vida social e esquecer
  • 47. um pouco o papel de mãe galinha. Aproveita para sair, conhecer novas pessoas. Aposto que te ia fazer muito bem… - E se fosses à merda, Jorge!? Já pensaste nisso? No dia seguinte, enquanto Joana atendia um dos inúmeros clientes que habitualmente passava pela floricultura, Madalena não deixou de meditar nas palavras que o seu pai lhe disse na noite anterior. Será que ele tinha razão? Será que ela não deveria baixar as guardas e tentar entender-se com o ex-marido para o bem das crianças? Jorge sempre foi um péssimo marido, isso era um facto, mas como pai fazia o que podia. Pagava religiosamente todos os meses a pensão de alimentos, telefonava duas a três vezes por semana para saber como estavam os filhos e sempre que o trabalho deixava ia buscá-los ao fim-de-semana. Diante de tudo isso, Madalena perguntou-se se não estaria a ser demasiado intransigente. Era o casamento dos dois que havia terminado, não a relação de Jorge com os filhos. Quando terminou de atender o último cliente da manhã, Joana interrompeu os pensamentos de Madalena e informou-a de que iria aproveitar a hora de almoço para passar pela farmácia. - Queres que te traga alguma coisa da rua? - Não! Não precisas preocupar-te – Madalena manteve-se concentrada na análise da tabela dos fornecedores. – Quando voltares eu como qualquer coisa ali no café da esquina. - Está bem! Vemo-nos daqui a uma hora. - Até já. As portas automáticas voltaram a fechar-se quando Joana saiu por elas, mas nem isso tirou a concentração de Madalena da frente do computador. Era urgente terminar a tabela dos fornecedores e também anotar os novos preços dos produtos da floricultura. Para isso, ela muniu-se de uma calculadora, dos seus óculos de leitura e agradeceu o silêncio que se apoderou da loja numa altura de pouco movimento. Porém, quando o relógio marcou treze horas e quinze minutos, as portas da loja voltaram a abrir-se trazendo um perfume inebriante da rua. Era a primeira vez que Madalena sentia aquele odor e também aquela presença. Levantou o rosto e reconheceu de imediato o novo cliente que entrou na sua loja. Era ele. Sim. Era ele. O fotógrafo com quem se cruzou dias antes. Vinha trajado com umas calças de ganga
  • 48. azuís e uma t-shirt preta, não trazendo mais nada a não ser um sorriso estampado no rosto e aqueles olhos verdes irresistíveis. - Olá – ele disse. – Tudo bem? - Olá… – Madalena desfez-se imediatamente dos óculos de leitura e saiu por detrás do balcão. - Ainda se lembra de mim? - É claro que me lembro! Como é que me poderia esquecer! Sérgio Almeida, não?! - Exactamente – ele sorriu. Sérgio lançou os olhos àquele espaço repleto de flores, luz e um encanto fora do normal. Era sem sombra de dúvidas um lugar admirável que seduzia quem quer que passasse por ali. Contudo, ao voltar-se novamente para a sua proprietária, o fotógrafo deu-se conta de que era Madalena quem tornava aquele recanto tão especial. - Então este é que é o MAR DE ROSAS? - Como é que descobriu…? - A loja?! – Sérgio voltou-se para ela com um sorriso. - Sim. - Na carrinha! Estava escrito o endereço e o telefone. - Claro – Madalena riu-se, envergonhada. - Então!? Como é que está a sua amiga? - A Alice? - Sim! Já saiu do hospital? - Sim! Ela está bem agora. Está em casa da irmã a recuperar-se e deve voltar ao trabalho dentro de algumas semanas.
  • 49. - Fico contente que não lhe tenha acontecido nada de grave. Sérgio e Madalena voltaram a sorrir de uma forma cúmplice. Ambos sabiam-no bem. A visita do fotógrafo não foi uma simples coincidência ou sequer a tentativa de saber como Alice tinha conseguido sobreviver ao tiro que levou no braço. Era muito mais do que isso. Era a necessidade de a voltar a ver. - Já almoçou? - Não – Madalena sorriu. – Estou à espera que a minha funcionária termine a hora de almoço. - E quando ela vier, vai almoçar em algum restaurante aqui perto? - Num café ali na esquina! Como não estou com muita fome, vou comer apenas uma sandes ou algo assim. - Então eu convido-a para almoçar comigo. O convite inesperado de Sérgio deixou-a surpreendida. – Almoçar consigo? - Sim! Porque não!? Eu ainda tenho que fazer umas compras de um material fotográfico aqui perto, mas devo estar despachado dentro de trinta minutos. O que é que me diz? Um almoço e escolhe você o restaurante… - Eu não sei. - É só um almoço. A proposta não poderia ser mais tentadora, de facto, assim como o sorriso que Sérgio lhe ofereceu em seguida. Raios. Como ele era sedutor e como a fazia sentir-se como uma verdadeira adolescente. No fundo, Madalena sabia que não deveria aceitar aquele convite. A atitude mais sensata seria recusá-lo, até porque era evidente que os dois não tinham absolutamente nada em comum. Sérgio parecia mais novo e livre de responsabilidades. Tudo nele gritava perigo e excitação. E realmente seria uma loucura cogitar um almoço de última hora com um homem do qual ela sabia pouco mais que o nome. - Posso escolher o restaurante? – Madalena cometeu a loucura de ignorar o seu sexto sentido.
  • 50. - Claro que sim. - Então está bem! Encontramo-nos daqui a trinta minutos num restaurante no final desta avenida! Chama-se O Sobreiro. - Acho que já sei qual é. - O único problema é que eu não me vou poder demorar muito. - Não faz mal! Contento-me com o tempo que me puder dar. - Combinado – ela sorriu. Joana atrasou-se na farmácia e os trinta minutos que Sérgio estipulou para o almoço rapidamente se transformaram em quarenta. Quando a sua funcionária entrou na loja, Madalena correu ao armazém para buscar o casaco e a mala. Tenho que ir, foram as últimas palavras que proferiu a Joana antes de sair disparada pelas portas automáticas. Depois disso, iniciou uma caminhada interminável pela avenida, sabendo bem que a sua pressa para almoçar prendia-se com tudo, menos com a fome que disse sentir. Quando chegou ao restaurante combinado, Madalena avistou a mesa escolhida por Sérgio. Ficava no fundo do salão, perto da janela. Ele já se encontrava à sua espera, mas a expressão séria que tinha no rosto enquanto falava ao telemóvel trouxe-lhe uma nova hesitação. Devia ou não avançar? Ou pelo contrário! Será que não era melhor desaparecer e fingir que nunca estivera ali? O dilema de Madalena teve fim quando Sérgio acenou de longe. Ela correspondeu de igual forma, forçando-lhe um ligeiro sorriso enquanto caminhava lentamente em direcção à mesa. Quando chegou ao seu destino, Sérgio apressou-se a desligar a chamada. Madalena vinha mais bonita do que nunca, ele reparou. Trajada com um simples vestido castanho um pouco acima dos joelhos e os cabelos soltos, o que mais saltava à vista era a sua pele tão branca como a de uma boneca de porcelana. - Espero não ter interrompido nenhuma conversa importante – ela sentou-se à mesa com alguma cautela. - Não, claro que não! Apenas trabalho. - Ainda bem.
  • 51. - Tinha combinado uma sessão fotográfica com uma modelo e ela telefonou-me para saber se a sessão ainda continuava de pé. - E continua? - Claro! Normalmente, não costumo voltar atrás quando dou a minha palavra. - É bom saber isso. - Bebe alguma coisa? – Sérgio exibiu um sorriso radiante que a contagiou de imediato. - Um sumo de manga, por favor! - Então eu também vou tomar o mesmo. O almoço com Sérgio revelou-se muito mais agradável do que à partida Madalena poderia supor. Embalados numa conversa animada, os dois desconhecidos degustaram a refeição trazida por um dos empregados do restaurante. Pediram Carpaccio de Vitela como entrada e finalizaram a refeição com uma deliciosa Carne de porco à Alentejana. E logo Madalena que durante a manhã já se tinha conformado com a ideia de uma simples sandes mista e de uma sopa no café da esquina. No entanto, naquela ensolarada tarde de quarta-feira, os seus intentos saíram furados. Sérgio conseguiu livrá-la da sua rotina entediante. - Há quanto tempo tem a sua floricultura? – ele perguntou. - Na verdade, a floricultura era da minha mãe e já existia há muitos anos. Eu apenas assumi o negócio. - Deve ser uma mina de ouro, não?! - Nem tanto! Mas tem um significado especial porque pertenceu à minha mãe. É uma das poucas lembranças que ainda tenho dela. - Morreu?! - Sim! Há dois anos. - E você ficou à frente do negócio?
  • 52. - A loja está no nome do meu pai, mas sou eu quem a dirige! Digamos que um ex- militar da marinha não teria muito jeito para tomar conta de um negócio relacionado com flores – Madalena e Sérgio riram-se alegremente sem conseguir tirar os olhos um do outro. – Por isso, resolvemos fazer uma sociedade. Eu tenho quarenta e cinco por cento, ele tem cinquenta, e a minha amiga, a Alice… - A que levou um tiro no braço. - Exactamente – riram-se novamente. – Ela tem cinco por cento. - E o nome da loja? Foi a sua mãe que escolheu? - Sim! UM MAR DE ROSAS! Eram as flores que ela mais gostava. - Deve sentir muita falta dela, não?! - Todos os dias – Madalena sorriu tristemente. – Mas e você?! Disse-me que tinha um estúdio fotográfico. - Sim! Há quatro anos! Com um grande amigo meu que também é meu sócio. Trabalhamos em parceria e no final dividimos os lucros. Tem sido uma boa experiência. Ele é um excelente fotógrafo. - Tenho a certeza que você também é. - Há quem diga que sim. Madalena regressou à sua floricultura quarenta minutos depois. Despediu-se de Sérgio e agradeceu o excelente almoço que este lhe proporcionou. Contudo, o fotógrafo não parecia disposto a deixá-la partir. Cada assunto, por mais desinteressante que fosse, era motivo de conversa. E ali permaneceram os dois, indiferentes ao adiantado das horas como se já se conhecessem há milhares de anos. Passaram inclusive a tratar-se por tu. No final, Sérgio encheu-se de coragem e pediu o número de telefone a Madalena. Ela hesitou por breves instantes, mas acabou por ignorar mais uma vez o seu sexto sentido. Três dias depois, ele voltou a surpreendê-la com um novo convite. Intimou-a para um jantar, a dois, num restaurante agradável que ele conhecia. Sábado. Às vinte horas. Disponibilizava-se para a ir buscar a casa e não aceitava um não como resposta. Madalena não teve outro remédio a não ser aceitar o convite. Com os filhos
  • 53. de férias, a sua agenda mantinha-se livre até o final de Agosto. E pela primeira vez, desde o nascimento das crianças, ela congratulou-se por ter um tempo só para si. - Comprei-te algumas coisas – Madalena abriu as portas do frigorífico quando o pai a visitou em casa a poucas horas do seu encontro com Sérgio. – Ponho-te tudo num saco para levares! - Não precisavas preocupar-te com isso! Já te disse que me arranjo. - Estou-te a achar muito magro! Tens a certeza que te estás a alimentar como deve ser? - Estou-me a alimentar muito bem se queres que te diga – Afonso acendeu um cigarro junto à marquise da cozinha. - De cigarros já estou a ver. - E existe algum alimento melhor? - Não brinques com coisas sérias – Madalena continuou a colocar as compras do pai em dois sacos de plástico. – Já te disse várias vezes que devias deixar de fumar, especialmente por causa da tua idade. - Só tenho sessenta e sete e tratas-me como se já tivesse passado dos oitenta. - Pelo contrário! Eu trato-te como trato o Daniel, porque psicologicamente, ainda nem chegaste aos dez. - Está bem – Afonso riu-se alegremente e voltou a levar o cigarro à boca. – Por falar nos miúdos, como é que eles estão lá de férias com o pai? - Falei ontem com eles e ainda estavam no Algarve! Só na segunda-feira é que vão para Marrocos. - Fizeste bem em deixá-los ir com o Jorge. - Sinceramente, pai?! Eu não sei. - A Sara e o Daniel também precisam de estar com o pai.
  • 54. - O Jorge não é uma boa influência para os miúdos. - Todo o pai é uma boa influência para os filhos – Afonso cerrou os olhos quando o fumo do tabaco lhe saiu pelo nariz. Madalena suspirou fundo e resignou-se à ideia de que o seu pai iria ser para sempre um eterno aliado de Jorge. Não havia nada a fazer. Apesar de todas as razões que ditaram o fim do casamento da sua filha e do seu genro, Afonso continuava a nutrir um carinho especial pelo advogado. Sentia muitas vezes saudades dos tempos em que partilhavam uma partida de xadrez, um licor nos almoços de família e a eterna rivalidade futebolística. Afonso torcia pelo Benfica, enquanto Jorge, por ter nascido no norte, não escondia a sua preferência pelo Futebol Clube do Porto. - Sabes uma coisa?! – Madalena sentiu-se tentada a revelar um segredo ao seu pai. - O quê? - Hoje tenho um jantar. - Com a Alice? - Claro que não! A Alice ainda continua com o braço enfaixado desde aquele maldito dia do casamento. Contei-te a história, não te contei? - Ela devia era processar o tipo que lhe deu o tiro. - Parece-me que conseguiram chegar a um acordo. - Que acordo? – Afonso perguntou, curioso. - O maluco do homem ofereceu-lhe cento e vinte mil euros apenas para que ela não apresentasse uma queixa formal à polícia. - Cento e vinte mil euros?! Bem! Diz-me onde é que este tipo anda para lhe poder oferecer o meu braço. - Não sejas parvo, pai! Todo esse dinheiro não compensa o susto e as dores por que a Alice passou naquele dia.
  • 55. - Eu sei! Estava a brincar! Mas diz-me lá, minha menina! Disseste que tinhas hoje um jantar. Posso saber com quem? - Com um homem – Madalena sorriu maliciosamente. - Homem!? Que homem?! - Um amigo! Mas por agora a única coisa que precisas saber é que vou jantar com uma pessoa muito simpática, inteligente e interessante. Tudo o que o Jorge não é e nem nunca foi… - Não estou a gostar nem um pouco dessa história. - Aqui tens a tuas compras da semana! Leva-as e deixa-me preparar para o meu grande jantar. - E onde é que vai ser esse tal grande jantar? - Ainda não sei! Ele ficou de escolher o restaurante. - Vê lá o que é que fazes, minha menina – Afonso puxou-lhe o nariz tal como fazia quando ela era pequena. – Juízo! Ao ver-se através do espelho do quarto depois de escolhido o centésimo vestido que lhe passou pelas mãos, Madalena chegou à conclusão que aquela realmente não era a melhor opção para si. O decote revelava o desespero de uma mulher que já não saía para jantar com um homem há pelo menos três anos, sendo que essa não era a primeira impressão que ela queria causar. Por isso, sem hesitações, Madalena voltou a abrir o roupeiro e encontrou um novo vestido. Branco. Com um decote à barco. Cintado. Um pouco acima dos joelhos. O vestido perfeito para uma noite que também prometia ser perfeita. Depois da roupa escolhida, seguiram-se os cabelos. Naquela noite permaneceram soltos, volumosos e ligeiramente cacheados. A maquilhagem primou pela simplicidade. Apenas um batom rosa clarinho, um blush tangerina, rímel e sombra. Foi nessa altura que a campainha tocou, e sabendo bem quem era a sua visita, Madalena desceu ao rés-do-chão mergulhada num nervoso miudinho. Ajeitou os cabelos novamente à frente do espelho da entrada e respirou fundo. Já não havia como voltar atrás. Era ele. - Olá! – Sérgio conseguiu desarmá-la com um sorriso.
  • 56. - Olá… As calças de ganga e a camisa branca de Sérgio contrastaram com a produção meticulosa de Madalena. - Estás lindíssima – ele não conteve o elogio. - Obrigada – ela disse, abrindo passagem. – Entra! - Dás-me licença? - Claro. Sérgio aceitou o convite e não demorou a chegar à sala, onde avistou uma decoração simples e sofisticada. Uma nova decoração que Madalena fez questão de produzir aquando do seu divórcio com Jorge. E sim. Dos antigos móveis comprados pelo ex- marido não restou absolutamente nada. - Quem são? – Sérgio alcançou um porta-retratos sobre a mesinha. Nele, encontrava- se uma fotografia de Sara e Daniel abraçados. - Os meus filhos – Madalena achou por bem não esconder a verdade. Sérgio analisou-os com atenção sem esboçar qualquer comentário. Não se apercebeu sequer do profundo nervosismo demonstrado por Madalena quando esta deixou escapar que era mãe de duas crianças. - O.k! Estás oficialmente autorizado a desistir do nosso jantar. - Porquê!? – Sérgio não percebeu a piada. - Por nada – ela reconheceu a gafe. – Quer dizer, desculpa! Estava a brincar. - São bastante parecidos contigo. - Obrigada! Partindo do pressuposto que isso seja um elogio… – riram-se os dois. - É claro que é um elogio.
  • 57. A resposta de Sérgio trouxe um novo silêncio e um sorriso cúmplice que fez Madalena corar sem querer. - Talvez fosse melhor irmos andando antes que se faça mais tarde, não?! O que é que achas? – ela indicou-lhe a saída. - Claro! Vamos. - Deixa-me só desligar o gás e as luzes na cozinha. O restaurante escolhido por Sérgio era simples e casual. Localizava-se numa das ruas mais movimentadas da cidade, e no seu interior podia-se ver uma quantidade exorbitante de clientes, o movimento frenético dos funcionários e a música ambiente em contraste absoluto com o barulho das conversas e da televisão ligada ao fundo do restaurante. Mas nada disso desviou a atenção de Sérgio. De Madalena, ele tudo queria saber, e dele, ela fez questão de dissecar todos os pormenores. Soube que morava sozinho um apartamento nos arredores de Lisboa, nunca fora casado, filhos não teve, pelo menos que soubesse, e passava a maior parte dos dias enfiado no estúdio de fotografia que abrira em sociedade com um colega e amigo de curso. Além disso, era órfão desde os dois anos de idade e o único familiar vivo que lhe restava era um avô que morava no Alentejo e que ele fazia questão de visitar sempre que podia. - Fico feliz por saber que te dás tão bem com o teu avô – Madalena poisou o guardanapo sobre o colo. - Só fomos obrigados a nos separar quando vim para Lisboa fazer o curso de fotografia. - E vocês vêem-se com muita frequência? - Não tanto quanto gostaria, mas sempre que tenho algum tempo faço questão de aparecer por lá… – Sérgio poisou os braços sobre a mesa após o término do jantar. Sorriu e apoiou o queixo sobre as mãos. – Ele mora numa casinha toda pintada de azul. É uma casa simples e ele até tem dinheiro para comprar uma melhor, mas o problema é que é demasiado apegado às lembranças do passado. Especialmente às lembranças da minha avó e da minha mãe. Diz que jamais seria capaz de abandonar uma casa onde a mulher deu à luz a própria filha. - Uau – Madalena exibiu um doce sorriso. – É realmente muito querido da parte dele.
  • 58. - Quem sabe um dia não te levo lá. - Eu?! - Sim! Porque não? - Confesso que me apanhaste de surpresa. - Tenho a certeza que irias gostar – Sérgio não se deixou distrair por nada mais naquele restaurante a não ser pelo sorriso dela. – Sempre que me sinto cansado do trabalho e quero descansar um pouco, fujo para lá e passo os dias a pescar com o meu avô. - Parece-me um programa interessante. - Podes crer que é! E quando voltamos da pescaria com… um peixe e meio nos baldes… – Madalena soltou uma gargalhada ruidosa. – Vamos para o quintal e assamos lá o nosso jantar. - Eu gostaria muito de conhecer o teu avô. A tua relação com ele parece-se um pouco com a relação que tenho com o meu pai. - Verdade?! - O meu pai também é o meu melhor amigo. Acho que não conseguiria imaginar a minha vida sem ele. - Tens ar de menina do papá. - E sou… – Madalena riu-se alegremente sem perceber o olhar de profundo fascínio que Sérgio lhe lançou do outro lado da mesa. – Sou mesmo! Confesso que sempre fui muito mimada pelo meu pai. Talvez por ser filha única, não sei… - Deve ter sido muito difícil para ele quando a tua mãe morreu, não?! - Foi a pior fase das nossas vidas. - Ela morreu do quê?! – Sérgio perguntou com alguma cautela. – Não me chegaste a contar da outra vez.
  • 59. - Foi-lhe descoberto um cancro nos intestinos já em fase terminal. Na verdade, ninguém estava à espera, até porque ela sempre foi uma mulher saudável, cheia de energia. Mas a doença já se tinha alastrado e não havia nada a fazer quando descobrimos. Tal como te disse, foi repentino… - Sinto muito. - Eu também! Já se passaram dois anos, mas acho que nunca me irei conformar. - E os teus filhos? – Sergio tentou mudar de assunto. – Como é que se chamam? - A mais velha chama-se Sara e tem quinze anos! Tem personalidade muito própria, nem queiras saber! O rapaz chama-se Daniel e tem dez! É pequenino ainda. - Um casal! Perfeito! E se não for muita indiscrição minha perguntar… és casada? A pergunta de Sérgio não a tomou de assalto e tudo porque Madalena já a aguardava. Era só uma questão de tempo e de sentido de oportunidade que o fotógrafo soube aproveitar na perfeição. Permitiu que se conhecessem, que conversassem sobre assuntos triviais e também que ela se sentisse suficientemente confortável para tocar numa ferida que ainda lhe causava um certo incómodo. - Divorciada - Madalena mostrou a mão esquerda desprovida de uma aliança que usou durante dezasseis anos. - Óptimo! A seguir ao golo que o Benfica marcou há bocado, essa foi sem dúvida a melhor notícia da noite – a resposta de Sérgio trouxe uma enorme gargalhada à mesa. Sérgio levou Madalena a casa perto da meia-noite depois de um serão perfeito como há muito não passava na companhia de alguém. Era fácil manter-se atento a tudo o que ela dizia. Admirar-lhe os gestos, o sorriso e perder-se nos olhos de uma mulher que parecia conter dentro de si toda a experiência do mundo. Se Madalena não era perfeita, estava bem perto disso. - Estás entregue – Sérgio desligou o motor do seu automóvel. - Obrigada pelo jantar – ela desfez-se do cinto de segurança. - Podemos repetir um dia destes?
  • 60. - O quê!? O jantar? - Um jantar, um almoço ou até mesmo um café. Ela anuiu com um doce sorriso. – Tudo bem. Madalena sentiu um estranho arrepio quando Sérgio se debruçou sobre ela e a beijou na face. Um beijo terno, carinhoso e que surpreendentemente se estendeu até aos seus lábios. Foram apenas dez segundos. Pouco tempo. Mas o suficiente para que ele percebesse que toda a espera havia valido a pena. O gosto da boca de Madalena era exactamente como imaginava. - Boa noite – ela abriu a porta algo atabalhoadamente. - Boa noite! Nos dias seguintes, contrariamente ao que esperava, Madalena não obteve quaisquer notícias de Sérgio. Desejou receber uma chamada, uma mensagem de texto ou até mesmo um toque que lhe trouxesse algum sinal da existência do fotógrafo, mas nada disso aconteceu. Na floricultura, enquanto atendia os seus clientes, eram muitas as vezes em que dava consigo a olhar para o visor do telemóvel. Durante a condução, deixava o aparelho sobre a caixa de velocidades e quase tinha acidentes na estrada sempre que tirava os olhos do pára-brisas. E em casa, qualquer ruído era suficiente para que pensasse que era o telefone a tocar. Mas nada. Nenhuma chamada importante a não ser a dos filhos a contar maravilhas das férias que estavam a viver em Marrocos. No fundo, Madalena sabia que se estava a comportar como uma verdadeira adolescente. Mas não podia fazer nada. O desejo de reencontrar Sérgio era mil vezes mais forte do que a maturidade emocional que julgava ter. No final da semana, após mais um dia exaustivo de trabalho onde foi obrigada a levar vários caixotes pesados ao armazém com a ajuda de Joana e do Srº António – o fornecedor de Porto Salvo – Madalena recebeu a agradável visita de Alice na loja. A última, cansada de estar em casa, resolveu sair para espairecer. O caminho que costumava fazer diariamente antes do acidente levou-a à floricultura, apesar das inúmeras recomendações de Madalena para que ela não aparecesse por lá sem estar totalmente recuperada. - Já estou quase boa – Alice dizia, mostrando o braço enfaixado. – Fui ao médico no outro dia e ele disse-me que dentro de uma semana já posso tirar os ligamentos.
  • 61. - Ainda assim! Nem penses que me voltas a trabalhar dentro de uma semana. Precisas ficar realmente boa – Madalena avisou-a. - Já estou a fazer sessões de fisioterapia, não te preocupes! Ponho-me nova num instante. - Como é que é levar um tiro, Alice? – Joana, a funcionária, não conteve a curiosidade. - Uma experiência que não recomendo a ninguém! Nem mesmo ao meu ex-marido! E a loja do Areeiro? Como é que está? - Temo-nos revezado! Ontem estive lá o dia todo com a Carolina. Hoje ela está lá sozinha, mas vai-me ligando para me manter a par de tudo. Se o movimento aperta, pego no carro e vou até lá – Madalena respondeu. - Olha só o transtorno que te estou a dar. - Não sejas parva, Alice! Já te disse que não precisas preocupar-te com o trabalho. Por enquanto, cuida-te bem para que não fiques com problemas no braço. Madalena encerrou a floricultura no horário habitual. Cinco minutos depois das oito. Nessa altura, Joana fechou o caixa e ela deu uma vista de olhos nas novas mercadorias que tinham ficado no armazém. Accionaram o alarme e saíram do edifício. Apesar de Madalena se ter oferecido para dar uma boleia à sua funcionária, Joana agradeceu o convite mas disse que o metro ficava mesmo ali ao pé. Não valia o esforço. Desta forma, despediram-se. Madalena cruzou a avenida em direcção ao carro, enfiou alguns sacos na bagageira e quando estava prestes a abrir as portas da frente, o seu telemóvel tocou ruidosamente. Finalmente. Após sete dias em silêncio, o visor mostrou-lhe o número com o qual ela havia sonhado a semana inteira. - Será que estou a ligar numa má hora? – a voz também lhe era familiar. - Não! Claro que não – Madalena apressou-se a entrar no carro. Sentou-se no banco da frente e passou as mãos pelos cabelos desalinhados. - Então?! Como estás? - Estou óptima! E tu?
  • 62. - Também! Acabei de chegar a Lisboa. - Não sabia que estavas fora. - Estive no Porto a fotografar um evento, depois passei pelo Algarve, voltei a Braga, e agora estou finalmente de regresso a Lisboa! Foi uma semana cheia… - Já vi que sim! Não sabia que eras um fotógrafo tão requisitado – ela brincou. - É quase sempre assim no Verão. - Deves estar cansado, não?! - Nem um pouco! Já estou habituado! Mas não foi para falar de trabalho que te liguei… - Não!? – Madalena sorriu ao telefone. - Sei que é meio em cima da hora, mas estava a pensar em convidar-te para sair hoje à noite. O que é que achas? - Sair!? Para onde? - Para dançar – Sérgio respondeu. - Dançar?! - Sim! Bairro Alto! O que é que te parece? - Tu sabes há quanto tempo eu não vou ao Bairro Alto? - Semanas? Meses? Anos? - Décadas – a resposta de Madalena arrancou uma gargalhada a Sérgio. - Pois hoje vamos dançar. - Não sei se é uma boa ideia.
  • 63. - Disseste-me que os teus filhos estavam a passar férias com o teu ex-marido, por isso não tens desculpas! Eu quero dançar e quero dançar contigo! Não aceito um não como resposta. - Deus… - ela riu-se, indecisa. Era insano pensar em sair para dançar no Bairro Alto, Madalena sabia-o melhor do que ninguém. Mas ainda assim houve qualquer coisa na voz de Sérgio que a fez hesitar e seguir em frente com aquela loucura. Ele era realmente muito envolvente. - A que horas? - Vou buscar-te assim que sair do estúdio! Por volta das dez! Pode ser? - Só espero não estar a dormir quando chegares. - Prometo que não me vou demorar muito. - Está bem. - Prepara-te – ele brincou. - Não te preocupes porque vou estar mais do que preparada. Quando se viu no interior do Bairro Alto a poucos minutos das vinte e três horas, Madalena respirou fundo e tentou absorver tudo o que lhe estava a acontecer. Era impressionante como tudo havia mudado em apenas três semanas. Sérgio conseguiu esse feito. Retirou-a do marasmo em que se encontrava a sua vida e mostrou-lhe que existia um mundo lá fora, repleto de coisas boas e pessoas interessantes. A perfeição do recinto onde escolheram passar a noite ficou marcada pela sua decoração retro, pelas mesas e cadeiras sofisticadas e por um ambiente relaxado. Era um local frequentado por pessoas mais velhas. Bem, não muito mais velhas. Maduras. Daí Madalena ter-se sentido no seu verdadeiro habitat natural. As músicas old school eram uma constante, transformando o espaço numa verdadeira cápsula do tempo. Para além disso, eram visíveis dezenas quadros e fotografias de actores de cinema dos anos quarenta e cinquenta. Vários candelabros, uma music box ao fundo do salão e o palco que acolhia diariamente actuações artísticas de bandas não muito conhecidas do grande público. Quando chegaram ao local elegido, Sérgio e Madalena sentaram-se numa das poucas mesas vazias. Ele perguntou-lhe o que ela queria beber, e mais tarde dirigiu-
  • 64. se ao balcão onde o barman conversava com alguns clientes habituais. Contudo, também Sérgio parecia ser um cliente habitual, ou pelo menos foi essa a conclusão tirada por Madalena quando o viu a dialogar com o barman e um outro senhor distinto que se encontrava atrás do balcão a recolher o dinheiro do caixa. Minutos depois, Sérgio despediu-se e voltou à mesa. Trouxe nas mãos as primeiras bebidas da noite. Uma Cosmopolitan para Madalena e um whisky sem gelo para ele. - Obrigada – ela aceitou a bebida com um sorriso radiante. - Gostaste do espaço? - Adorei. - Pertence a um grande amigo meu – Sérgio acenou de longe ao dono do bar. O mesmo senhor continuava ainda a recolher o dinheiro do caixa. Tempo depois, quando se livrou daquela tarefa enfadonha, dirigiu-se à mesa dos dois convidados. - Boa noite. - Olá, Nuno – o fotógrafo apertou-lhe a mão cordialmente. – Já agora apresento-te a Madalena. - Como está?! - Bem, obrigada – Madalena aceitou o aperto de mão com um largo sorriso. - Madalena! Este é o Nuno! Um amigo de longa data e o dono deste bar – Sérgio fez as apresentações. - Muito prazer, Nuno. - O prazer é todo meu! É a primeira vez que cá vem? - Sim! Por acaso é. - Espero que esteja a gostar. - O espaço é maravilhoso! Já tinha dito ao Sérgio.
  • 65. - Então, espero que se divirtam! Se precisarem de alguma coisa, por favor não hesitem em chamar-me. Todos os amigos do Sérgio são bem-vindos. Após uma breve conversa de circunstância, Nuno voltou a afastar-se da mesa e permitiu que Sérgio encarasse o rosto de Madalena sem se importar com nada mais à sua volta. Sorriram em silêncio e beberam o primeiro gole das suas bebidas. - O dono é muito simpático – ela fez a observação. - É um grande amigo! Nem sabes o esforço que fez para abrir este espaço. - Pois devia sentir-se orgulho porque é um local fantástico! Há muito que não via um lugar assim tão bem decorado e com um ambiente tão bom. - Então conta-me lá como é que foi o teu dia – Sérgio mudou radicalmente o tema de conversa. - Foi normal! Absolutamente normal. - Não acredito. - Pois podes acreditar – os dois riram-se alegremente. - Mesmo assim! Quero saber tudo! Quero saber o que te aconteceu desde que saíste da cama até à hora em que te telefonei a marcar este encontro. Sérgio parecia não querer desistir dos intentos em descobrir um pouco mais sobre a vida de Madalena. E ela, sem outro remédio, viu-se obrigada a contar-lhe todas as tarefas que realizou durante o dia. Abrir a floricultura, atender clientes, telefonar a fornecedores, pagar algumas contas, almoçar, atender novos clientes, receber as encomendas da carrinha que dia sim, dia não, surgiam à frente da loja, e por fim, encerrar o expediente com a nítida certeza de que faria exactamente a mesma coisa no dia seguinte. - A minha vida é uma seca, podes dizer – ela concluiu, entre risos. - Claro que não! Adorei saber o que fazes. - És um cavalheiro e é por isso que não dizes a verdade.
  • 66. - Para mim, só o facto de saber que respiras, já é o suficiente para achar a tua vida fascinante – ele encontrou-lhe o pulso sobre a mesa. – Vamos dançar? - Agora?! - Sim! Não quero desperdiçar esta música. O sorriso de Sérgio convenceu Madalena a oferecer-lhe a mão e a seguir com ele em direcção à pista, onde inúmeras pessoas já se encontravam a dançar a música “At Last” da cantora norte-americana Etta James. Naquele bar tão acolhedor, tudo deixou de ter importância para os dois. As mãos de Sérgio percorreram as costas desnudas de Madalena e enterraram-se nos seus cabelos soltos um pouco acima dos ombros. Madalena sentiu um estranho arrepio, mas ainda assim conseguiu manter-se calma. Sentiu também o doce aroma que o pescoço de Sérgio emanava. Um cheiro extasiante que a deixou com a sensação de estar a cometer um pecado inconfessável. Mas era bom estar ali. Aquele encontro fora de horas tinha sido o parentesis cor-de-rosa perfeito no texto cinzento em que se encontrava metida a sua vida. - Danço muito mal, não danço? – Madalena perguntou. – Podes dizer! - Nem por isso – ele segredou-lhe aos ouvidos. – Para mim danças muito bem! Onde é que aprendeste? - Costumava dançar ballet quando era mais nova. Muito mais nova – ela riu-se alegremente. – Talvez tenha aprendido aí, não sei… - Então quer dizer que tenho aqui nas minhas mãos uma verdadeira bailarina?! E querias tu convencer-me que não sabias dançar? Madalena não conseguiu conter os seus risos. - Claro que não. - Podes confessar! Perto de ti sou um verdadeiro aprendiz, não sou?! - Não! Nem um pouco. O rosto resplandecente de Madalena seduziu Sérgio de uma forma irrefutável e o impeliu a beijá-la no meio daquela pista a abarrotar de gente. Não pensou duas vezes. O desejo falou mais alto e pareceu recíproco quando Madalena fechou os olhos e mergulhou nos braços de um homem que lhe provocava verdadeiros
  • 67. espasmos de loucura. A dança conseguiu esse feito. O feito de livrá-la de todas e quaisquer inibições relativamente à sua idade e ao seu estado civil. - Por mim ficávamos aqui a noite inteira. - E não era esse o objectivo? – Madalena voltou a beijá-lo sem pensar em nada mais do que o prazer de o ter ali tão perto. A noite não podia ter corrido melhor. Embalados num som de jazz ao vivo tocado por uma banda pouco conhecida, Sérgio e Madalena permaneceram na mesma mesa, abraçados e a trocar todos os beijos que podiam. O tempo passou depressa sem que se tivessem dado conta do adiantado das horas. E já perto das três da manhã deram por terminada a noite. Despediram-se dos funcionários e do dono do bar, agradecendo o atendimento maravilhoso com o qual foram brindados. Vinte minutos depois, Sérgio estacionou o carro em frente à moradia de Madalena. A rua encontrava-se deserta e o relógio marcava as quatro horas. Não havia vivalma em todo o bairro, apenas uma brisa fresca de Verão que os acompanhou até aos portões da casa de Madalena. Nessa altura, percebendo que estavam a sós e de que ninguém iria aparecer ali, Sérgio roubou-lhe um novo beijo. Saboreou-lhe os lábios rosados e abraçou-a apertadamente como se não a quisesse largar mais. - Adorei a noite – ele confessou, retirando-lhe uma mecha de cabelo do rosto. Devia estar na cama há horas. Devia estar a pensar nos filhos. Devia estar a pensar na floricultura que teria que reabrir na segunda-feira seguinte. Enfim. Devia estar a pensar em tudo isso. Mas a verdade é que não estava, e a outra verdade é que à sua frente ainda se mantinha um dos homens mais fascinantes que alguma vez atravessou o seu caminho. Por esse motivo, sem hesitações, Madalena cometeu a loucura de se voltar a afundar na boca de Sérgio. Foi a primeira vez que tomou a iniciativa de se atirar para os braços de um homem que não o seu marido, e a verdade é que não se sentiu minimamente arrependida por isso. A sua idade já lhe permitia cometer loucuras sem pensar no dia seguinte. - Queres entrar? – Madalena perguntou ainda com os lábios colados aos de Sérgio. - Na tua casa? - Também! Mas não só… A resposta de Madalena arrancou uma ruidosa gargalhada a Sérgio, que ao ver o seu maior desejo concretizado, entrou com ela pela casa adentro aos beijos, abraços e
  • 68. tropeções. Nenhum dos dois se importou com a escuridão no corredor e nem sequer com o tapete que por pouco não os fez escorregar junto às escadas que ligavam o rés- do-chão ao primeiro piso. Foram subindo degrau a degrau. Pelo caminho ficaram as calças de ganga e a camisola de Sérgio e o vestido preto de Madalena, jogado à porta do quarto. - Isto é de doidos - ela suspirou quando os dois entraram na habitação. - O quê?! – Sérgio devorou-lhe o pescoço. - Nunca fiz isto… - Isto, o quê? - Ir para a cama com um homem que mal conheço às quatro da manhã – ela mordiscou-lhe a orelha. - Interessa-te assim tanto as horas? A resposta de Sérgio foi o impulso que Madalena necessitou para extinguir todas as suas dúvidas. Num quarto totalmente às escuras, ela permitiu que ele a deitasse na cama e lhe retirasse a roupa interior. Fechou os olhos, maravilhada. Sentiu os lábios de Sérgio percorrerem-lhe o corpo, e num momento sublime, quando finalmente se entregou a ele pela primeira vez, o tempo pareceu parar e o espaço reduzir-se apenas àquelas quatro paredes onde há três anos ninguém tivera a audácia de entrar. O milagre aconteceu. - Podes não acreditar, mas há muito que eu não sentia isto – Sérgio confessou quando os seus corpos sofreram finalmente algum descanso. Madalena sorriu, envergonhada. – É bom saber. Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser os inúmeros encontros fortuitos de Madalena e Sérgio, quase sempre ao final do noite, com um jantar que muitas vezes culminava com uma noite de prazer em casa dela. E assim, aos poucos, a liberdade obtida quando os filhos partiram de viagem com o pai foi-se esgotando no prazo de validade. Apenas dois dias. Restavam apenas dois dias para que Sara e Daniel regressassem de Marrocos cheios de histórias para contar. A partir dessa data, a vida de Madalena retomaria o curso habitual. Acordar cedo, preparar os filhos para a escola, abrir a
  • 69. floricultura, voltar a casa, fazer o jantar e adormecer com a nítida certeza que voltaria a repetir as mesmas tarefas no dia seguinte. No domingo de manhã, Madalena avistou a chegada dos filhos. Vinham animados, contentíssimos com as férias maravilhosas que passaram na companhia do pai. Ao vê-los atravessar a rua através das cortinas da sala, Madalena desligou o aspirador sem conseguir esperar que a campainha tocasse. Abriu a porta e abriu também os braços para que Daniel se aninhasse neles. Estavam de volta, ela congratulou-se. Após quatro semanas de uma ausência que pareceu insuportável, os seus filhos estavam finalmente de volta. Sãos e salvos. - Que saudades – ela apertou o filho contra si. - Também tive saudades tuas, mãe. - Estás todo bronzeado. - Fomos à praia e à piscina todos os dias – Daniel respondeu sem esconder a sua animação. – E vimos golfinhos, mãe! Fizemos mergulho, andámos de barco e foi bué fixe… A animação de Daniel constrastou com a cara amarrada de Sara, que ao contrário do irmão, não se dignou sequer a cumprimentar a mãe. Para ela, as férias teriam continuado. Mas longe de Lisboa. - E tu, Sara?! Não me vais dar um beijo? A jovem obedeceu ao pedido sem muito entusiasmo. - Estás bonita. - Obrigada. Sara desviou-se prontamente dos carinhos que a mãe lhe tentou fazer no rosto, e Madalena, sem outro remédio, permitiu que ela entrasse em casa com vários sacos e um carrinho na mão. Foi então que Jorge surgiu sobre o alpendre da porta trazendo a bagagem restante. Também ele vinha bronzeado, mas Madalena privou-se de fazer qualquer comentário. - Olá, Lena – ele disse com uma expressão visivelmente cansada.
  • 70. - Olá, Jorge! - Como vês correu tudo bem e já estamos de volta. - Ainda bem – Madalena ajeitou a sua camisa branca de algodão. – E a Vanessa? Não veio com vocês? - A Vanessa ficou no carro – Jorge apressou-se a levar as malas até à sala. - Porque é que não a convidaste para entrar? - Porque ela veio um pouco mal disposta da viagem. - Tivemos que parar duas vezes para ela vomitar no caminho – Daniel seguiu os seus progenitores em direcção à sala. - A sério? Ela sentiu-se mal? – Madalena afagou os cabelos lisos do filho. - Deve ser coisas de mulheres – Jorge adiantou. - Mesmo assim! Deviam ter passado por um hospital! Coisas de mulheres também são importantes. Jorge largou as malas a um canto da sala e tentou escapar aos olhares lancinantes que a ex-mulher lhe desferiu. Estava-lhe escrito na testa a palavra gravidez. Um facto que ele não conseguiu disfarçar. - Deve ter ficado enjoada da viagem no carro. - Tens a certeza que foi só isso?! - O pai já disse que não foi nada importante – Sara atacou furiosamente a mãe ao entrar na sala. – Que raiva! Porque é que tens sempre que te meter onde não és chamada? - Sara?! - Se soubesse tinha pedido ao pai para ficarmos mais uns dias no Algarve.
  • 71. Foram estas as últimas palavras de Sara antes de agarrar nas suas malas e subir com elas em direcção ao quarto. Um local onde pretendia trancar-se durante vinte e quatro horas e não sair de lá nem por decreto de lei. Não. Não iria almoçar, não iria jantar e nem iria sequer responder às perguntas da sua mãe que com certeza seriam as mesmas. Onde foram? O que fizeram? Comeram todas as refeições? Não. A sua paciência para responder a todas àquelas questões era nula. - Daniel! Sobe também e toma um banho antes do almoço – Madalena voltou a lançar um olhar aterrador ao ex-marido. – Preciso falar com o pai. - Está bem – o pequeno acedeu ao pedido da mãe. - Podes falar – Jorge preparou-se para mais uma vez ouvir um sermão. - Tu viste como é que a Sara falou comigo?! – Madalena cruzou os braços. - Como!? - Ainda perguntas?! Ela nunca me enfrentou dessa maneira. - E o que é que vais dizer, Lena? Que a culpa é minha? - É claro que é tua – Madalena tentou manter a voz baixa para que os filhos não ouvissem mais uma discussão. – Foi contigo que ela esteve estas últimas quatro semanas e olha só como é que ela voltou… - Lena! Eu não tenho a culpa que tu e a Sara nunca se tenham dado lá muito bem. - Nós sempre nos demos bem. - Tens a certeza!? Madalena engoliu seco. – Jorge! Eu estou a jogar limpo contigo, aliás, sempre joguei! Mas não queiras colocar os nossos filhos contra mim porque eu não vou admitir uma coisa dessas. - Eu nunca coloquei os nossos filhos contra ti – o advogado deixou cair os braços, furioso. – Que raios! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? - Só te estou a avisar!
  • 72. - Sabes qual é o problema da Sara contigo? Madalena manteve-se em silêncio, mas o seu queixo começou a tremer de raiva. - O problema é que tu a tratas como se ela fosse uma criança. - Ela só tem quinze anos! É claro que é uma criança. - Ela é uma adolescente, não uma criança! Será que não percebes que é essa tua mania de a quereres proteger de tudo, de a estares sempre a controlar, de enchê-la de mimos e de a sufocares com regras que a está a fazer afastar-se de ti? - Sai – Madalena apontou-lhe a saída. - Boa! Quando sentes que perdes a razão, reages sempre assim. - Eu não perdi a razão! Eu tenho razão! Agora sai! - Então continua assim para ver se a Sara não se afasta de ti de vez. - E tu irias adorar que isso acontecesse, não irias?! – a pergunta de Madalena impediu-o de sair pela porta. - Apesar de não acreditares, não… - Jorge voltou a aproximar-se dela. – Eu não iria adorar! Mas para que tenhas um rasgo de clarividência, deixa-me dizer-te que durante estas férias a nossa filha pediu para morar comigo. - O quê?! – Madalena mostrou-se incrédula com aquela revelação. - Isso mesmo que ouviste! A Sara quer morar comigo. - Jorge! Se tu me levares a Sara daqui, eu mato-te – Madalena soqueou-lhe o peito com todas as forças que possuía dentro de si. – Eu mato-te, ouviste bem?! - Eu não quero tirar a Sara de ninguém, já disse – ele conseguiu controlar-lhe os pulsos frágeis sem muito esforço. – Mas eu entendo o porquê de ela se querer ir embora cá de casa! Sabes porquê!? Porque tu és insuportável… - E eu odeio-te!
  • 73. - Podes crer que o sentimento é recíproco – Jorge respondeu, saindo porta fora. Sara passou a tarde toda trancada no quarto com uma música rock aos altos berros. Não se dignou sequer a responder ao chamamento de Madalena quando a última a interpelou para o almoço ou quando lhe bateu à porta para perguntar se queria lanchar. Passou o dia inteiro longe de tudo e de todos, só entrando na cozinha depois do jantar. A fome falou mais alto. Mais alto do que a vontade diminuta em dar-se de caras com a mãe. - Está bem, pai! Falamos depois… - Madalena desligou a chamada e observou a filha a abrir as portas do frigorífico com a máxima descontracção. Olhou-a atentamente. Percebeu que tinha crescido alguns centímetros e que os cabelos se encontravam mais claros, talvez por causa do sol ou pelo cloro da piscina. De resto, continuava igual. Com o seu ego elevado ao máximo, um olhar altivo e a tratá-la como uma inimiga. Exactamente os mesmos traços psicológicos do pai. Eram idênticos. - Ainda bem que te ponho os olhos em cima! Precisava esclarecer uma coisa contigo. - O quê? - Estive a conversar hoje com o teu pai. - Ai é?! – Sara lançou-lhe um olhar debochado. - E tu sabes bem qual foi o assunto. - Sei?! - Não te faças de desentendida, Sara! O teu pai contou-me que nestas férias pediste para ir morar com ele. - Sim! É verdade – a jovem serviu-se de um copo de sumo sobre a bancada da cozinha. - Achas bem aquilo que fizeste? - O que é que foi que eu fiz?
  • 74. - Tu sabes muito bem que sou eu quem tem a tua guarda e a guarda do Daniel. - Eu tenho todo o direito de escolher com quem quero morar – Sara fechou o pacote de sumo. – Lá porque decidiste que eu e o Daniel teríamos que ficar contigo, isso não significa realmente que nós queiramos ficar contigo. Podemos ter uma opinião contrária. Nunca te passou isso pela cabeça? - Que opinião?! - A opinião de que deve ser muito mais agradável viver com o pai do que viver contigo – Sara bebeu o primeiro gole de sumo. – Nem queiras saber o quanto nos divertimos nestas férias com ele e com a Vanessa. Foram as melhores quatro semanas da minha vida. Ela sim é espectacular! A mulher perfeita para o meu pai. Sabes, quando eles estão juntos é tão raro vê-los a discutir. A sério! Eles contam piadas, riem-se, divertem-se, não estão sempre a ditar ordens. Enfim! São pessoas normais… - Eu também sou uma pessoa normal. - Às vezes não parece. - Sara, tu não te atrevas a falar-me nesse tom – Madalena apontou-lhe o dedo. - Eu estou cansada de viver nesta casa, será que não entendes?! Eu quero ir viver com o meu pai. - Tu nunca vais viver com o teu pai. - Não me podes impedir de morar com ele! Ele é o meu pai – Sara gritou, furiosa. - Não me levantes a voz, Sara – Madalena imperou, batendo a mão violentamente sobre a mesa da cozinha. – Nunca mais na tua vida te atrevas a levantar-me a voz! Os olhos de Sara enrubesceram, apesar de terem acatado as ordens da mãe. - Eu quero ir viver com o meu pai – ela disse num tom muito mais calmo. - Qual é o teu problema, hã?! – Madalena aproximou-se bruscamente dela. – Diz lá! Não tens tudo aquilo que precisas aqui dentro? Não tens um tecto, comida, um quarto só para ti, roupas, sapatos, computadores!? O que é que queres mais? - Eu quero que morras.
  • 75. A resposta efusiva de Sara tomou Madalena de assalto, mas nem por isso a inibiu de lhe oferecer uma valente bofetada no rosto que a fez recuar dois passos e suster a face com a mão. - Se estás à espera de um pedido de desculpas, é melhor esperares sentada! - Não! Se tu estás à espera de um pedido desculpas, tu é que vais ter que esperar sentada, porque eu ainda continuo a querer que morras… Sara desapareceu da cozinha como um foguete sem sequer terminar o sumo que deixou sobre a mesa. Quando ouviu a porta do quarto fechar-se com uma enorme violência, Madalena sentiu-se o pior ser humano à face da terra. Sara odiava-a e ela não sabia o que tinha feito para merecer tanto rancor. Porquê, interrogou-se inúmeras vezes. Se tudo o que lhe dava era o melhor de si, porque é que a filha continuava a agir como se fossem inimigas? Por não conseguir encontrar respostas às suas perguntas, Madalena sentiu novas lágrimas brotarem-lhe dos olhos e um nó sufocante invadir-lhe a garganta. Alice Martins voltou à floricultura poucos dias depois. Estava praticamente curada do tiro que levou no braço e pronta a retomar o trabalho, ainda que o médico e o seu fisioterapeuta lhe tivessem recomendado alguma contenção no esforço físico. Para Madalena foi um alívio. Alice, para além de sua melhor amiga, era também o seu braço direito. Sem ela, a tarefa de gerir a floricultura tornava-se mil vezes mais difícil. - E a Sara e o Daniel? – Alice perguntou, quando almoçaram juntas naquela tarde num restaurante próximo da floricultura. – As férias com o pai foram boas ao menos? Chegaram vivos? - A Sara quer ir morar com o Jorge – Madalena não teve pudores em revelar o maior problema que a atormentava na altura. - O quê?! - Isso mesmo! A Sara quer ir viver com o pai, porque segundo ela, o Jorge é uma pessoa normal e eu não. - O Jorge? Uma pessoa normal? – Alice forçou uma gargalhada ruidosa antes de beber um gole de vinho. – Não! Essa foi a piada do ano. - Eu só queria saber o que é que se passa na cabeça da Sara! No inicío, pensei que fosse uma coisa passageira, uma raiva absolutamente normal por me ter separado do pai, mas a cada dia que passa parece que ela fica com mais ódio de mim. Ela odeia-
  • 76. me! Já me disse isso várias vezes. Olha-me com raiva. Com rancor. Parece que me quer matar. Eu não entendo… - A adolescência é assim, Lena! - Ela diz que quer que eu morra. Alice voltou a poisar a taça de vinho sobre a mesa, incrédula. – A sério!? Ela disse-te isso? - Com todas as letras! E eu dei-lhe um estalo. - Fizeste bem. - Achas que a culpa é minha? – Madalena largou os talheres sobre o prato. - Culpa do quê? - Culpa do comportamento da Sara. Achas que sou uma má mãe? - Claro que não, Lena! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? - Porque eu tenho medo que o Jorge tenha razão. Ele disse que a culpa era minha porque eu ainda não me tinha dado conta que a Sara já não era uma criança. Disse que os meus mimos, as minhas regras e o meu autoritarismo só faziam a Sara afastar- se de mim. Achas que ele tem razão? - O Jorge é um idiota – Alice não teve muita dficuldade em chegar a essa conclusão. No domingo seguinte, após a hora de almoço, Madalena rumou em direcção ao centro da cidade. O objectivo? Conhecer o apartamento de Sérgio. O convite surgiu a meio da semana e Madalena não hesitou em aceitá-lo. De qualquer maneira, os filhos iriam estar com o pai. Jorge comprometeu-se a ir buscá- los na sexta-feira e a trazê-los no domingo à noite. Por isso, ainda restavam algumas horas de liberdade e Madalena pretendia passá-las todas ao lado de Sérgio. Passar uma tarde inteira sem pensar em problemas, nos filhos ou sequer no trabalho. Apenas os dois, tal como Sérgio lhe prometeu ao telefone. Madalena precisou de quinze minutos para estacionar o carro em frente a um prédio envelhecido pelo tempo. Depois disso, abandonou o veículo e deliciou-se com a
  • 77. imagem de Sérgio debruçado sobre a varanda. Ele acenou e ela correspondeu de igual forma. Subidos três andares, a porta voltou a abrir-se. Madalena entrou assim num novo mundo que logo à partida lhe causou uma certa curiosidade. O apartamento de Sérgio era pequeno, mas aconchegante. Na sala, podiam-se ver inúmeras câmaras e outros objectos fotográficos espalhados por uma mesa de vidro enorme. Existia igualmente um sofá preto, de pele, no centro da habitação. Um candeeiro alto, perto da janela, desprovida de cortinados. Vários livros. CDs, e um televisor plasma. De resto, pouco mais havia a assinalar. Era a decoração típica de um homem solteiro. - Assustada? – ele brincou. - Nem um pouco – Madalena ofereceu um beijo apaixonado a Sérgio e deixou-se levar por ele em direcção ao quarto. Não se importou sequer com o barulho ensurdecedor das obras do vizinho do segundo andar. Naquele momento, tudo o que queria era senti-lo perto de si, excitar-se com a sua boca e com o toque das suas mãos que não escolhiam os locais por onde deveriam passar. Sempre com movimentos frenéticos e explosivos, Madalena permitiu que Sérgio a possuísse na cama. Deixou igualmente que os seus sentidos se perdessem naquela habitação minúscula dotada de poucos móveis, mas com uma simplicidade que lhe conferia todo o conforto pelo qual havia ansiado durante anos. - Era tão bom que pudesses ficar aqui comigo até amanhã – a proposta de Sérgio fê- la esboçar um doce sorriso. - Eu também gostava! Mas os meus filhos… - Eu sei! Já me disseste que eles estavam com o pai até ao final do dia. Mas quando é que os vou conhecer? A pergunta de Sérgio tomou Madalena de assalto. – Queres conhecê-los? - Claro! Porque não?! - Não achas cedo? - Tu achas cedo!? Madalena brindou-o com um longo beijo.
  • 78. - Não! Mas vamos esperar só mais um pouco! Preciso de algum tempo… Enquanto trocavam um novo beijo e se preparavam para recomeçar tudo de novo numa cama ainda desfeita, Madalena e Sérgio ouviram a campainha a tocar. Um ruído que lhes prendeu a atenção e os obrigou a parar tudo que estavam a fazer. - Estás à espera de alguém? – ela perguntou. Sérgio respondeu que não e em seguida apressou-see a encontrar as suas calças de ganga no meio das inúmeras roupas espalhadas pelo chão. - Seja quem for, não deixes essa pessoa entrar aqui dentro – Madalena enrolou-se no lençol. - Porquê?! - Porque não quero que ninguém me apanhe assim toda descascada – a resposta de Madalena arrancou uma leve gargalhada a Sérgio. Depois de se recompor das horas de sexo tórrido que teve com Madalena, Sérgio roubou-lhe um beijo antes de sair do quarto, prometendo-lhe que não iria demorar muito a livrar-se daquela visita inoportuna. O fotógrafo caminhou calmamente pelo corredor, e quando chegou ao seu destino, destapou a lente da porta. Infelizmente a surpresa não poderia ser mais desagradável. É que já não era a primeira vez que ela aparecia em sua casa sem avisar. Começava a tornar-se incómoda a sua insistência. – Vera! - Olá, Sérgio… – a jovem modelo esboçou um alegre sorriso assim que a porta lhe foi aberta. – Desculpa aparecer sem avisar, mas é que há dias tínhamos combinado ver aquelas fotos da sessão, lembraste?! Como nunca mais disseste nada, resolvi aparecer outra vez! Fiz mal? - Podias ter-me procurado no estúdio – Sérgio manteve a mão sobre a porta. - É rápido! Só queria umas cópias para colocar no meu book. Amanhã vou levar as fotos a uma agência. - Tudo bem! Entra…
  • 79. Sérgio cedeu a passagem em direcção à sala onde se encontrava o seu computador portátil e também uma Pen Drive repleta de fotografias que tirou a Vera semanas antes. Quando entrou na sala, a modelo voltou a esboçar um novo sorriso e largou a mala sobre o sofá. Manteve-se atenta aos movimentos do fotógrafo e também à casa. Parecia silenciosa. - Queres todas as fotos? – Sérgio sentou-se à secretária e ligou o computador com uma expressão visivelmente desagradada. Nessa altura, Vera debruçou-se sobre ele e sentiu-lhe um aroma adocicado nos ombros. – Queria escolher algumas. - São muitas! Vai demorar. - Não tenho pressa. Era a primeira vez que Vera tinha o privilégio de ver Sérgio em tronco nu. Estava suado, reparou. Os cabelos encontravam-se também um pouco desalinhados e as costas pareciam ter sido marcadas por unhas de uma mulher. Por tudo isso, Vera cerrou os olhos e não precisou de muito esforço para chegar à conclusão de que muito provavelmente tinha interrompido alguma coisa naquele apartamento. - Espero não ter vindo numa má hora. - Não! Já disse que não – Sérgio respondeu, sem tirar os olhos do computador. Enquanto esperava o regresso de Sérgio ao quarto, Madalena levantou-se da cama e sentiu-se tentada a inspeccionar a habitação onde tinha passado as três últimas horas. O quarto era pequeno, desprovido de muitos móveis. Apenas uma cama, uma mesinha de cabeceira e um roupeiro que ela resolveu não abrir por respeito à privacidade de Sérgio. Possuía também um quadro enorme, abstrato, pendurado na parede e uma cómoda repleta de rolos de fotografias, lentes, revistas e um porta- retratos. Madalena aproximou-se lentamente da cómoda e segurou o objecto nas mãos. Observou a imagem de um casal. Do lado esquerdo, uma senhora lindíssima, de cabelos claros, olhos redondos, trajada com um vestido às flores. Do lado direito, a imagem de um homem, igualmente distinto, de olhos verdes que em tudo fazia lembrar os traços físicos da criança que se encontrava sentada no seu colo. Madalena não precisou de muito esforço para perceber de quem se tratavam. Eram os pais de Sérgio, falecidos num terrível desastre de viação quando o filho tinha apenas dois anos de idade.
  • 80. Após ter analisado todos os detalhes que compunham o quarto, Madalena ouviu pela primeira vez duas vozes provenientes da sala. Reconheceu a voz de Sérgio, mas a outra, por ser feminina, fez com que o seu sexto sentido disparasse. Ainda tentou ouvir o que conversavam, mas após cinco minutos de uma espera interminável, Madalena resolveu vestir uma camisa de Sérgio e sair do quarto. Quando chegou à sala, tornou-se claro. A sua intuição não a tinha enganado. Havia realmente uma outra mulher no apartamento de Sérgio. - Olá… – Madalena surpreendeu-os junto ao computador. - Olá – Vera afastou-se instintivamente de Sérgio. – Peço desculpas! Não sabia que… - Tudo bem. - Sérgio, não me disseste que estavas ocupado! Eu pensei… - Madalena, esta é a Vera – Sérgio adiantou-se, temendo que aquela cena causasse algum mal-entendido. – Trabalhámos juntos há algumas semanas atrás. Ela veio buscar as fotografias da sessão que fizemos. Vera, esta é a Madalena… - Muito prazer – Vera esboçou um sorriso contrafeito. – Bem, acho que não apareci numa boa altura. É melhor ir andando… - Não vieste buscar as fotos? – Madalena percebeu de imediato o embaraço e o nervosismo da jovem. - Vim, mas… - Então?! Se vieste buscar as fotos, acho que o mínimo que devias fazer era levá-las contigo. Senão era um desperdício de tempo, não achas!? - Claro – Vera voltou-se para o ecrã do computador quando pressentiu que Madalena descobrira o seu disfarce em pouco menos de cinco segundos. A modelo bem tentou desviar o rosto numa tentativa desesperada de suprimir a vergonha que estava a sentir. Contudo, os olhares recriminadores de Madalena impediram-na de cometer tal acto. Minutos depois, Sérgio regressou à sala com um CD nas mãos. Vera escolheu o resto das fotos e esperou que ele as gravasse no mesmo CD. Um procedimento que demorou cerca de dez minutos e que manteve toda a sala em silêncio. Quando o
  • 81. computador concluiu a gravação, Vera despediu-se de Madalena e agradeceu a gentileza de Sérgio em oferecer-se para a levar à porta. A modelo saiu com a certeza de que nunca mais voltaria a uma casa sem ser convidada. - Desculpa – Sérgio regressou à sala poucos segundos depois. - Desculpa porquê?! – Madalena observou-o com alguma desconfiança. - Por essa visita inesperada. - Não te preocupes! Está tudo bem. - Tens a certeza? - Tenho – ela forçou-lhe um sorriso falso. – Bem! Acho que já está a ficar um pouco tarde. É melhor ir andando. - Lena… - Está tudo bem, Sérgio! A sério! Só me vou vestir – foram as últimas palavras de Madalena antes de abandonar a sala sob o olhar atento do fotógrafo. O calor de Setembro recusou-se a ir embora. Os dias continuaram quentes e longos. Na quarta-feira seguinte, Madalena chegou a casa depois de uma jornada de trabalho no mínimo extenuante. Atrasou-se a fechar a floricultura sem a ajuda de Joana, ficou presa no supermercado às voltas com as compras rotineiras da semana e ainda teve a grande sorte de apanhar um trânsito infernal durante o caminho. Quando se viu no corredor de casa, perto das oito da noite, Madalena arrastou quatro sacos pesados até à cozinha. Entrou silenciosamente na habitação e não deixou de se sentir surpreendida quando se deu de caras com Vanessa, a namorada do seu ex- marido, sentada à sua mesa a lanchar com a sua filha. As duas pareciam bastante animadas. Conversavam, rindo-se às gargalhadas, como se já fossem amigas de longa data. Apenas se remeteram ao silêncio quando Madalena entrou na cozinha carregada com as compras. - Boa tarde. - Olá, Madalena! Boa tarde… - Vanessa abriu um sorriso radiante e apressou-se a cumprimentar a florista com dois beijos na face.
  • 82. Um gesto efusivo que deixou Madalena sem jeito. Ela bem queria odiar aquela rapariga, mas infelizmente não conseguia. Apesar de tudo, ao contrário do ex- marido, Vanessa tinha ares de ser uma boa pessoa. - Que surpresa ver-te por aqui – Madalena depositou as compras sobre a bancada da cozinha. - É! Eu vim visitar a Sara! Ficámos muito amigas desde as nossas férias. - Já vi que sim. - E também vieste contar-me uma novidade, não foi Vanessa?! – Sara lançou um olhar desafiador à sua mãe. - Sim – a jovem mostrou-se constrangida pela falta de descrição da sua futura enteada. – Mas talvez seja melhor deixarmos que o teu pai conte à tua mãe num outro dia. - Não é segredo nenhum, não é?! Que mal é que tem contarmos agora? - O que é que me querem contar? – Madalena mostrou-se impaciente com aquela conversa. - A Vanessa está grávida do pai. Madalena pôde sentir o sarcasmo estampado no rosto de Sara quando esta lhe revelou a notícia. - Foi sem querer – Vanessa desculpou-se de imediato. – Não premeditámos nada! Juro! - Parabéns – Madalena afirmou depois de recomposta do susto. - Não ficou chateada? - Porque é que haveria de ficar? - Oras! Porque foi casada com o Jorge durante tantos anos. - Fui! Disseste bem! Já não sou mais.
  • 83. - O pai deve estar radiante – Sara elevou a voz para que a mãe a ouvisse. – Tal como eu! Afinal de contas vou ter mais um irmão. Ou se calhar uma irmã. Vanessa, o que é que preferes? Rapaz ou rapariga? - Ai, não sei! Acho que vou querer um rapaz! Os rapazes dão menos trabalho que as raparigas. A partir dos dezasseis já estamos despachadas – Vanessa terminou a sua fatia de bolo. – Com as raparigas não! Temos que andar sempre preocupadas quando saem à noite, gastar imenso dinheiro em roupas e sapatos, rezar para que não nos apareçam grávidas em casa! Enfim! É um horror! Acho que não iria ter paciência… - Tens toda a razão, Vanessa – Madalena começou a arrumar as compras no seu frigorífico. - Concorda comigo? - Categoricamente! Os rapazes dão muito menos trabalho do que as raparigas. O olhar trocado por Madalena e Sara foi absolutamente esmagador, mas ainda assim a jovem não desistiu de espicaçar a sua mãe com mais uma pergunta. - Vanessa! Já falaste com o meu pai sobre aquilo? - Sara! Não sei… - Sobre o quê?! – Madalena não conseguiu esconder a curiosidade. - É que a Sara queria passar uns tempos connosco – Vanessa respondeu. – Não sei se ela já lhe tinha dito alguma coisa? - Este assunto já está resolvido! A Sara não vai sair daqui. - Estás a ver?! – Sara gritou, furiosa, para Vanessa. – O que é que eu te tinha dito? Cá em casa toda a gente tem que se reger segundo as ordens do Srº General. Ninguém pode ter uma opinião contrária… - Sara! Tu podes gritar e espernear! Podes até manipular o teu pai e a Vanessa à vontade. Mas daqui não sais! Esta é a tua casa e é aqui que vais continuar a morar… Sara levantou-se esbaforida da mesa e arrastou a cadeira. Fê-lo propositadamente, provocando um ruído ensurdecedor que por pouco não furou os tímpanos de
  • 84. Madalena e Vanessa. Minutos depois, subiu ao quarto e bateu com a porta. A mãe soltou um longo suspiro de resignação. - Se calhar era melhor eu ir falar com ela… - Não – Madalena impediu os intentos de Vanessa. – A minha filha educo eu! Não era a primeira vez que Sara não descia para o jantar, e também não era a primeira vez que Madalena lhe guardava os restos da refeição no interior do microondas. A fome apertava sempre ao final da noite quando a cozinha já se encontrava às escuras e a jovem tinha a certeza absoluta de que não iria ser obrigada a olhar para de ninguém. Naquela noite, enquanto tentava desesperadamente adormecer, Madalena ouviu de novo o barulho do microondas no piso inferior. Mais tarde, sentiu os passos leves da filha atrás da porta. A luz apagou-se e a escuridão voltou a assombrar o corredor. Madalena ainda pensava na visita de Vanessa lá a casa. Na grande novidade que era a sua gravidez e nos sentimentos contraditórios que aquela notícia lhe causava. Sabia que não tinha direito de se sentir assim. Sabia que Jorge era livre para fazer o que quisesse da sua vida pois ofereceu-lhe essa liberdade quando resolveu assinar os papéis do divórcio ainda que contra a vontade dele. Por isso, a única coisa que lhe restava era resignar-se à ideia do ex-marido ter tido o desplante de engravidar uma outra mulher. E novas lembranças vieram-lhe à memória.
  • 85. 1988 Madalena e Jorge casaram-se em Junho de 1985. Uma cerimónia despretensiosa que contou apenas com a presença de familiares e amigos próximos. Os pais de Jorge deslocaram-se a Lisboa pela primeira vez. Eram pessoas simples, sem muita instrução, mas que pareciam nutrir um orgulho especial pelo único filho que conseguiram formar e fazer alguém na vida. Jorge era o mais velho dos três irmãos. Tinha uma irmã, três anos mais nova, com o nome de Carolina, e um outro irmão, cinco anos mais novo, chamado Paulo António. Nunca se deu especialmente bem com eles. Desde que veio para Lisboa estudar Direito, era raro Jorge subir ao Norte para visitar a família. Era também raro fazer um telefonema, escrever uma carta ou demonstrar qualquer tipo de interesse pelos pais e pelos irmãos. Madalena batalhou muito para conseguir conhecer a família do futuro marido. Tentou inclusive, embora falhando redondamente, aproximá-lo daquelas quatro pessoas. Mas Jorge era demasiado despistado nessa matéria. Apenas foram a Braga duas vezes. A primeira, quando completaram os primeiros doze meses de namoro, e a segunda, para comunicarem que se iriam casar. Os pais apreciaram a notícia, e os irmãos, numa indiferença total, apenas desejaram votos de felicidades. Até ao último momento, Madalena não sabia se podia contar com a família do marido para a cerimónia na igreja ou para a boda do casamento. Jorge também não fez questão de insistir no convite, e assim, a uma semana da grande data, somente os pais confirmaram a presença. Os irmãos desculparam-se com obrigações profissionais. A lua-de-mel durou apenas três dias. Um fim-de-semana no Douro oferecido pelos pais da noiva. Madalena e Jorge eram muito jovens na altura. Ele, recém-licenciado em Direito a trabalhar há poucos meses na primeira firma de advogados, passava a vida a contar os tostões no final do mês. Ganhava o ordenado mínimo e não via maneira de esticar o dinheiro para todas as despesas da casa. Madalena também terminara o curso em Contabilidade e trabalhava numa pequena empresa de exportação de alimentos. O que auferia era pouco, embora desse para ajudar a pagar algumas contas lá de casa.
  • 86. Com um dia-a-dia desgastante, horários desencontrados e uma lista interminável de tarefas para realizar, o casamento mostrou-se bastante diferente do que à partida haviam pensado. Não era um conto de fadas. Não havia todo o tempo do mundo para estarem juntos, para namorarem ou trocarem juras de amor. O casamento não era nada mais do que um contrato assinado entre duas pessoas ingénuas e sonhadoras que a longo prazo se revelava desgastante. Jorge trabalhava como um condenado na firma de advogados onde conseguiu o primeiro emprego. Passava várias horas fora de casa, sem tempo para almoçar e andando pela cidade inteira a entregar correspondências, redigir textos, actas, elaborar pareceres jurídicos e entregar tudo feito aos seus superiores apenas para que estes assinassem o nome da firma sobre o seu trabalho. Nessa altura, ele respirava fundo e engolia a cólera. Andava a trabalhar para os outros, era o que pensava. Trabalhar como um escravo e ainda ganhar uma miséria por isso. Durante as refeições, Madalena percebia que o marido não andava nem um pouco feliz, ainda que ele não se queixasse ou tecesse qualquer comentário sobre o assunto. Jorge nunca fora homem de se lamuriar. Remetia-se ao silêncio sempre que alguma coisa não corria bem e engolia os sapos que a vida lhe fazia questão de colocar no caminho. Em 1987 comemoraram o segundo aniversário de casamento. Os pais de Madalena convidaram a filha e o genro para um jantar especial. O convite não surpreendeu o casal, até porque eram frequentes as visitas entre eles. Afonso e Leonor ajudavam Madalena e Jorge em tudo o que podiam. Sabiam bem o quão era difícil para um jovem casal construir a vida do zero, encarar as responsabilidades e ainda se manterem unidos. Sabiam-no bem porque também haviam passado pelo mesmo. - Entrem – Afonso abriu a porta com um largo sorriso. Cumprimentou a filha com um beijo carinhoso no rosto e ao genro ofereceu um abraço caloroso e desajeitado. - Como estás?! – Madalena perguntou. - Rijo como um pêro. Madalena riu-se da resposta do pai e seguiu abraçada a ele pelo corredor estreito da casa, enquanto um pouco mais atrás, Jorge tentou tirar do rosto a expressão carregada que já o acompanhava há vários dias. Não estava nada bem. Não teria sequer aceitado o convite dos sogros para jantar se não fosse pela insistência da mulher. - A mãe está na cozinha? – Madalena perguntou ao pai.
  • 87. - Está sim! Está a acabar de preparar o jantar. - Então eu vou lá ajudá-la… Madalena saiu da sala com um sorriso e refugiou-se na cozinha ao lado da sua mãe. Surpreendeu-a com um longo abraço na cintura e um beijo na face. Leonor alegrou-se por a ver ali. Por vezes, tinha tantas saudades da filha que lhe chegava a doer o coração ainda que se vissem quase todos os dias. Mas já não era mesma coisa. Madalena já não morava naquela casa. Tinha a sua e era agora uma mulher casada submersa com suas próprias responsabilidades. - Então homem!? O que é que tomas? Um licor ou um vinho do Porto? – Afonso perguntou ao genro. - Pode ser vinho do Porto – Jorge caiu no sofá como um peso morto. - Está tudo bem? - Está. - Como é que estão a correr as coisas lá na firma? – Afonso serviu dois cálices sobre a mesa da sala. - Estão a correr bem. A resposta de Jorge não foi convincente, mas ainda assim, Afonso achou por bem não continuar a insistir naquele assunto. De qualquer maneira, já conhecia o genro. Jorge nunca falava dos seus problemas e também não permitia que ninguém se intrometesse neles. Na cozinha, Madalena queixou-se do mesmo. - Tem andado num mau humor que nem o aguento. - Discutiram outra vez?! – Leonor escorreu a água da massa no interior do lava-loiça. - E achas que o Jorge discute, mãe? Ele fecha-se a sete copas e espera que eu adivinhe o que se passa. Mas desde há uns dias para cá tem andado mais calado do que o habitual. - Deve ser algum problema lá no trabalho.
  • 88. - Nem isso me conta – Madalena tirou as loiças dos armários. - E tu? Já lhe contaste? Mãe e filha trocaram um sorriso cúmplice. - Ainda não tive coragem. - Não sei do que é que estás à espera! Mais cedo ou mais tarde, ele vai acabar por descobrir. - Só estou à espera do momento certo. - Não existe um momento certo para contarmos ao nosso marido que estamos à espera de um filho dele! Conta-se e pronto! Madalena soltou um longo suspiro. – Desta semana não passa! Prometo! - Olha! Fiz-vos umas compras no supermercado! Não te esqueças de me lembrar dos sacos quando se forem embora. - É melhor não levá-los hoje, mãe. - Porque não?! - Porque o Jorge não gosta quando compras comida para nós. - Lena?! Mas que parvoíce!? - Não é parvoíce! No outro dia, discutimos por causa disso! E não foi uma discussão qualquer. Ele até dormiu no sofá… - Tudo bem! Vens buscar as compras amanhã sem o casmurro do teu marido. O jantar decorreu de forma agradável. Leonor cozinhou leitão no forno com massa grossa e ainda teve tempo para preparar um delicioso arroz de pato.Mais uma vez, todos elogiaram a sua mão para a cozinha e ela agradeceu a gentileza. Afonso foi o principal interlocutor da conversa. Discutiu temas como política, futebol – um assunto tabu, visto ele ser do Benfica e o genro do Porto – trabalho e outros assuntos trivais.
  • 89. Foi um serão bem passado, e no final, Leonor surpreendeu os convidados com um delicioso bolo de morango e chantilly confeccionado por ela. Em cima da cobertura, colocou duas velas comemorativas que simbolizavam o segundo aniversário de casamento de Madalena e Jorge. Quando as acendeu, Jorge encarou a mulher com um sorriso carinhoso. Amava-a apesar de tudo. Apesar dos maus humores, do pouco tempo que conseguiam estar juntos, das dificuldades do dia-a-dia e das privações económicas. Apesar disso tudo, ele sabia que tinha feito a escolha certa quando resolveu casar-se com ela. A noite já ia longa quando o casal se despediu com a promessa de retribuir o jantar na semana seguinte. Desceram à rua, levando os restos do bolo e encontraram o carro estacionado a poucos metros da Rua Gomes Freire. Madalena fingiu não reparar na preocupação no rosto do marido, ainda que Jorge tivesse simulado uma relativa tranquilidade durante o jantar. Mas era perceptível que alguma coisa se estava a passar. O semblante por vezes carregado deixou-lhe poucas dúvidas. - O que é que se passa?! - Não sei – Jorge tentou dar o carro à chave, mas não conseguiu. Fê-lo três vezes seguidas até perceber qual era o problema. - Será do motor? - Não! Não é – ele suspirou, voltando a retirar a chave da ignição. - Não queres dar uma vista olhos lá à frente? - Não vale a pena. - Como assim não vale a pena?! Vamos ficar aqui parados sem fazer nada? Vai lá ver o que é que se passa! - Lena! Eu já disse que não vale a pena! Não é do motor. - És tão teimoso. Madalena saiu do carro, envolta no seu casaco de malha e apressou-se a abrir o capô. Não soube muito bem porque é que o fez, até porque não percebia nada de mecânica, mas talvez o seu real objectivo fosse mostrar ao marido que era preciso resolver os problemas em vez de se acomodar com eles.
  • 90. - Já te disse que não é do motor – Jorge afastou-a do carro e voltou a fechar o capô. - Então se não é do motor é do quê?! - Já alguma vez viste um carro andar sem gasolina? - Não acredito que te tenhas esquecido de pôr gasolina no carro – Madalena barafustou, furiosa. - O dinheiro não chegou para pôr gasolina. O que é que querias que fizesse? - Que me tivesses dito! Eu punha a maldita gasolina. - Agora não adianta fazer uma tempestade por causa disso. Madalena respirou fundo e tentou acalmar-se. De facto, Jorge tinha razão. Não adiantava fazer uma tempestade. Não adiantava ripostar, chamá-lo irresponsável ou qualquer outra coisa. A única coisa que ela devia fazer era manter-se calma. Manter- se calma e lúcida num casamento que todos os dias lhe consumia as forças. - Vou lá acima pedir o carro ao meu pai. - Vamos de táxi – Jorge impediu-a de atravessar a rua. - Estás louco?! Tu sabes quanto é que custa um táxi daqui até à nossa casa? - Paga-se a porcaria do táxi, porra – Jorge abriu os braços, furioso. – Sempre é melhor do que passarmos a vida a pedir favores aos teus pais. - Se não pedirmos aos meus pais, vamos pedir a quem? Eles preocupam-se connosco! Ao contrário do que possas pensar, pedir favores não é um acto de humilhação, mas sim de humildade. Humildade, Jorge! Sabes o que isso é? Claro que não! Até porque essa é uma palavra que nem sequer consta no teu dicionário. As acusações da mulher irritaram-no profundamente, e por não saber como extravazar toda a raiva que estava a sentir, Jorge deu um pontapé na roda do carro seguido de uma imprecação. Estava furioso. Mas mais do que o sentimento de fúria em si, o que ele sentia naquele momento era uma enorme frustração. Frustração de alguém que ainda não tinha conseguido realizar nenhum dos seus sonhos. Aos vinte
  • 91. e sete anos tudo o que possuía era um apartamento velho a cair aos bocados, dois contos no banco e um carro sem gasolina. - O que é que se está a passar contigo? – Madalena esperou que ele se acalmasse. - Ainda perguntas?! Já olhaste bem para a nossa vida? Já olhaste bem para a forma como temos vivido estes dois anos? Não temos nada! Não temos um tostão furado… - Mas pelo menos temo-nos um ao outro ou não?! - E achas que isso chega? – Jorge olhou-a com alguma amargura. - Para mim chega – os olhos de Madalena encheram-se de lágrimas. - Pois para mim não! Eu não quero viver esta vida medíocre! Não quero passar o resto dos meus dias a contar tostões e a depender dos outros para pagar as minhas contas. Não quero também vir comer à casa dos teus pais sempre que não temos nada no frigorífico… - Nós já sabíamos que iria ser assim no início! Mas as coisas vão mudar! Eu tenho grandes possibilidades de crescer no meu trabalho. O meu chefe já me disse isso. E tu lá na firma também vais conseguir o mesmo. És competente, és esforçado. Tenho a certeza que mais cedo ou mais tarde… - Fui despedido. As palavras de Jorge soaram como uma bomba aos ouvidos de Madalena. Um baque que a fez baixar os braços para melhor assimilar aquela informação. Nessa altura, na mesma rua, ela ouviu um carro a passar a alta velocidade. - Eu sei que deveria ter-te contado antes – Jorge baixou o rosto, envergonhado. – Mas não tive coragem. - Quando é que isso aconteceu? - Há duas semanas! A firma vai abrir falência. - Jorge! Isto assim não vai resultar – Madalena encostou-se ao carro, desolada. – Não podemos passar a vida a discutir, a esconder factos importantes da nossa vida, a não falar dos problemas que nos atormentam. Isto é um casamento. Se eu não puder
  • 92. contar contigo e tu não puderes contar comigo, então o que é que estamos a fazer juntos? - Eu sei! Tens razão. - Estou grávida. Jorge levantou o rosto, estupefacto. – O quê?! - Estava à espera da melhor altura para te contar, mas tal como a minha mãe disse, não existe melhor altura! E talvez esta seja realmente a pior altura para te dizer que vamos ter um filho… – Madalena encolheu os ombros com uma expressão imensamente triste. – Mas foi o que se arranjou… Jorge não se podia dizer mais surpreso com a notícia. E assustado também. Nunca lhe passou pela cabeça que a mulher pudesse estar à espera de um filho seu, ainda que já tivessem projectado esse desejo inúmeras vezes antes de se casarem. Chegaram a desejar cinco filhos, pensando que depois do casamento as coisas se tornariam mais fáceis. Contudo, isso nunca chegou a acontecer. Mas ainda assim, ainda que tivesse ficado petrificado com a ideia de dentro de nove meses ter um ser humano totalmente dependente de si, Jorge não deixou de se sentir feliz com a notícia. Segurou Madalena pelo braço e puxou-a até si, encontrando-lhe os olhos marejados de lágrimas e também um amor incondicional. Ela tinha razão. Sempre tivera. Pelo menos, tinham-se um ao outro. - Se for menina, estou tramado – Jorge riu-se baixinho ainda com os lábios colados aos dela. - Porquê!? - Porque se nascer tão bonita como tu, não a vou conseguir largar um só segundo. - Parvo – Madalena voltou a beijá-lo com todo o amor do mundo. E nesse instante, um outro carro passou a alta velocidade. Jorge não perdeu tempo à procura de um novo emprego. Levantava-se todos os dias às oito da manhã, descia à rua para comprar o jornal e regressava à cozinha com um café nas mãos atento às páginas dos classificados. Não era tarefa fácil. O país não se encontrava na melhor forma económica, as oportunidades eram escassas e as que sobravam não iam de todo ao encontro às suas reais expectativas. No entanto, diante
  • 93. das circunstâncias adversas, Jorge achou por bem tentar arranjar o primeiro emprego que lhe aparecesse pela frente. Os dias eram longos, cansativos e exigiam que percorresse a cidade de ponta a ponta. Com o tempo, as entrevistas foram-se revelando iguais. Não havia qualquer novidade ou surpresa, nem sequer nos míseros ordenados oferecidos por longas jornadas de trabalho. Jorge sabia da sua ambição, mas na altura não havia nada a fazer. Prestes a ser pai pela primeira vez e cheio de contas para pagar, não lhe restou outra alternativa a não ser aceitar uma proposta de emprego num escritório de advogados em Benfica. O mesmo trabalho que fazia na firma que faliu e o mesmo ordenado deplorável. Naquela tarde quente de final de Julho, Madalena regressou a casa mais cedo do que o habitual. Tinha passado o dia inteiro enjoada e a vomitar na casa de banho da empresa. As suas colegas desconfiaram, mas o chefe, que nutria um apreço especial por ela, liberou-a do turno da tarde. Madalena agradeceu e assim que chegou a casa fez um chá de ervas. Uma receita que a mãe lhe indicou e que se revelava tiro e queda para os enjoos de gravidez. Madalena tomou-o em silêncio, encostada à bancada da cozinha a pensar o que seria das suas vidas caso Jorge não conseguisse um emprego dentro de poucos dias. O dinheiro estava prestes a acabar, o que ela ganhava na empresa não era suficiente para todas as despesas e os seus pais já faziam muito em oferecer as compras do supermercado todas as semanas. Estavam num beco sem saída e era angustiante pensar que dentro de sete meses iriam ter uma nova vida para sustentar. - Já chegaste?! – Jorge avistou-a perto da janela. - Vim mais cedo! Não me estava a sentir nada bem no trabalho. - Mais enjoos? - A minha vida agora é só enjoos. Jorge sorriu ternamente a Madalena. Por estar de costas, junto à pia, a lavar a chávena que utilizara para beber o chá de ervas, ela não viu quando ele retirou do bolso das calças um pequeno embrulho. O advogado aproximou-se silenciosamente, e no momento em que a mulher estava menos à espera, surpreendeu-a com o toque de duas botinhas de lã na face esquerda. - O que é isto?! - Comprei no caminho.
  • 94. Madalena abriu um sorriso radiante ao ver aquele objecto tão delicado nas suas mãos. – São lindas – ela disse, emocionada. - Gostaste?! - Adorei. - E vais gostar ainda mais de saber que consegui um novo emprego. - Estás a falar a sério? – os olhos de Madalena brilharam de alegria. - Sim! Começo já na próxima semana. Era a felicidade completa. Madalena pendurou-se no pescoço de Jorge e permitiu que ele a levantasse do chão. Beijaram-se apaixonadamente, perderam-se naquela cozinha minúscula e deitaram-se sobre a mesa sem se importarem com absolutamente nada que não fosse saborear aquele momento. Quando terminaram, Jorge mergulhou nos olhos de Madalena e viu nela a mulher com quem queria viver o resto dos seus dias. A única mulher que o ajudaria a ultrapassar todos os problemas, todas as dúvidas e o tornaria num ser humano melhor. A única que para além do seu corpo, também detinha o seu coração. Passaram-se dias, semanas e meses. A barriga de Madalena cresceu, agravando os dez quilos que engordou sem querer. Eram igualmente frequentes as suas mudanças de humor, alternando na euforia de estar grávida para a angústia de não saber se seria capaz de cuidar de uma criança sozinha. Por vezes, enquanto se olhava ao espelho e admirava a sua enorme barriga, uma felicidade aguda cortava-lhe a respiração. Aquela felicidade estúpida de estar a gerar um ser humano dentro de si. De o amar com todas as forças ainda que não o conhecesse ou nunca tivesse visto o seu rosto. Na quinta ecografia, teve finalmente a confirmação. - É uma menina! Descruzou as pernas… - disse-lhe a médica. No último mês de gravidez, Madalena já tinha todo o enxoval preparado. Leonor, a sua mãe, ajudou-a nessa árdua tarefa. Estava a adorar o seu novo papel de avó e mal podia esperar para poder ter a sua neta nos braços. Quando Madalena surgia na floricultura, com uma barriga enorme e as pernas inchadas, Leonor fazia questão de dissecar todos os pormenores da gravidez da filha com as suas clientes. Trocavam histórias engraçadas, conselhos e truques. Todas tinham algo para dizer e a verdade é que muitas vezes Madalena se sentia confusa com tantas informações. A maternidade não iria ser tão fácil como pensava, chegou a essa conclusão. Ainda
  • 95. tinha tanto para saber e tão pouco tempo para aprender. Para Jorge, a história era diferente. Preocupava-se, decerto. Gostava de ouvir a mulher falar sobre os detalhes da ecografia quando estavam deitados na cama. De ver como os seus olhos brilhavam cada vez que lhe mostrava as últimas peças do enxoval. O nervosismo das últimas semanas. A incerteza de como seriam as coisas dali por diante. Se iria sentir muitas dores no parto. Se realmente iria nascer uma menina ou se a ecografia a tinha enganado. Nesses momentos de pura cumplicidade, Jorge ria-se alegremente e tentava acalmá-la. Vai correr tudo bem, era a frase que mais proferia. E isso era suficiente para que Madalena se aninhasse nos seus braços com a certeza absoluta de que ele estaria sempre ali para a apoiar. Jorge assumia o papel de homem da família. Preocupava-se com questões mais práticas. Preocupava-se com a insegurança no trabalho e com as ameaças de despedimento. O ambiente no novo escritório era horrível, os seus chefes intragáveis e os colegas de trabalho assemelhavam-se antes a uma matilha de lobos que se debatiam numa competição feroz. Por vezes, quando saía do escritório para tratar do expediente geral, a única vontade de Jorge era de desaparecer e nunca mais voltar lá voltar a pôr os pés. Odiava toda a gente que ali trabalhava. Desde o coordenador geral à empregada de limpeza. Ninguém escapava ao seu ódio. - Jorge – uma voz grossa, que por momentos lhe soou familiar, chamou a atenção do advogado. Ao ver uma mão levantada ao fundo do restaurante onde tinha feito uma pausa para o almoço, Jorge aproximou-se da mesa com alguma cautela e reconheceu de imediato quem o havia chamado. Duarte Perestrelo. Um grande amigo seu dos tempos da faculdade. Mudara radicalmente. A barba descontrolada foi aparada, os óculos garrafais foram substituídos por outros mais modernos, os cachos negros deram lugar a um corte formal, além de também se ter livrado daquelas horríveis calças castanhas de bombazine que pareciam acompanhá-lo para todo o lado. Naquela chuvosa tarde de Janeiro, Duarte encontrava-se impecavelmente vestido com um fato azul-escuro e uma gravata vermelha. - Não me reconheceste, não é!? – Duarte levantou-se da mesa e apertou a mão de Jorge efusivamente. Ao seu lado encontravam-se outros dois homens igualmente distintos e bem aprumados. - Claro que não! Estás um homem, pá!
  • 96. - No primeiro dia que comecei a trabalhar, o meu pai disse-me: ou mudas de visual ou bem podes começar a entregar o teu curriculum em abrigos comunitários. Jorge acompanhou as risadas dos três homens. - Mas e tu? Como é que estás? Há anos que não te via. - Estou bem – Jorge mentiu. – Estou a trabalhar na minha área. - Onde? - Num escritório de advogados em Benfica. - E ganhas bem lá?! A pergunta de Duarte não poderia ter sido mais incisiva. - Não tão bem quanto gostaria. - Estás a gozar?! Lembro-me que na faculdade eras um dos melhores alunos da nossa turma. - Pois! Mas nem sempre isso conta quando saímos cá para fora. - Eu tive sorte! Também o meu pai já era advogado, por isso não me foi muito difícil arranjar o primeiro emprego. Meti-me na firma dele e agora estamos a pensar em abrir uma nova filial na Avenida da Liberdade. Aliás… - Duarte encontrou prontamente um cartão no bolso do seu casaco. – Estamos neste momento a precisar de novos colaboradores. Advogados e consultores especializados em diversas áreas, especialmente na área de direito empresarial. - É a minha área – os olhos de Jorge incendiaram-se. - Eu sei! Procura-me na próxima semana – Duarte estendeu o cartão a Jorge. – É um desperdício um tipo como tu andar a matar-se num escritório de advogados qualquer. Quero que te juntes a nós… Jorge analisou o cartão com cautela. – É um caso a pensar.
  • 97. - Mas não penses muito que vem outro e passa-te a perna – os quatro homens voltaram a rir-se à mesa. – Acredita que na nossa empresa vais poder crescer profissionalmente e eu não te estaria a dar este cartão se não reconhecesse as tuas capacidades. - Obrigado. - Mas conta-me mais coisas sobre a tua vida! Sempre te chegaste a casar com aquela tua namorada… a… ai como é que ela se chamava?! - Madalena. - Exacto – Duarte apontou o dedo. – Madalena! Lembro-me dela! Muito gira. - Casámo-nos há dois anos e meio. . - A sério?! Boa! Foi uma pena não ter conseguido ir ao vosso casamento. - E vamos ter um filho dentro de um mês! Quer dizer, uma filha… - Mas isso é que é uma excelente notícia, homem! Vais ser pai – Duarte chamou o empregado de mesa com um sinal de dedos. – Isto merece uma comemoração como deve ser. - Pois não?! – o funcionário aproximou-se sem muita demora. - Traga-nos duas garrafas de champanhe Crystal, por favor! - É para já! - Não me posso demorar, Duarte – Jorge olhou o seu relógio de pulso. Descobriu que só tinha quinze minutos para voltar ao escritório. - Jorge! Tu é que não me podes fazer uma desfeita destas. Então não nos vemos há mais de cinco anos, acabo de saber que te casaste e que vais ser pai e tu não me deixas pagar uma garrafa de champanhe para comemorarmos a ocasião?! Jorge bem tentou resistir aos apelos do seu amigo, mas na altura foi-lhe impossível ainda que soubesse que iria chegar atrasado ao trabalho.
  • 98. - Ainda me fazes perder o emprego – o advogado sentou-se à mesa. - Esquece o teu emprego, pá! Manda o teu chefe à fava… Os quinze minutos que Jorge estipulou para voltar ao escritório rapidamente se transformaram em duas horas de uma agradável conversa com os três homens sentados à mesa. Duarte era o mais animado de todos, algo natural para um jovem de vinte e seis anos que nunca tivera que mexer uma palha para conseguir um bom emprego, uma boa casa e um bom carro. Não se podia queixar da vida, de facto. Mas também não se sentava à sombra da bananeira, já que tinha objectivos concretos de consolidar a firma de advogados do pai abrindo várias filiais em todo o país. A primeira meta do plano estava prestes a concretizar-se. Já tinham adquirido um novo espaço em plena Avenida da Liberdade, no coração da cidade de Lisboa. Foi um processo de arrendamento algo esquivo, conseguido com algumas negociações também elas esquivas. O pai de Duarte era um advogado conceituadíssimo e possuía ligações a algumas das personalidades mais importantes do sistema bancário e político do país. Enriquecera sem que ninguém soubesse como. De um simples empregado de escritório, passou a liderar uma equipa inteira de advogados e consultores. Depois disso, ninguém mais o parou. Defendia sobretudo casos mediáticos que envolviam políticos, banqueiros e gestores de grandes empresas. Não tinha muitos escrúpulos e também não cobrava honorários muito simpáticos. Talvez fosse essa a razão pela qual os seus funcionários eram os mais bem pagos do país. Jorge não voltou ao escritório naquela tarde. Estava atrasado. Três horas. E não lhe apetecia dar justificações aos seus superiores. Provavelmente no dia seguinte inventaria um acidente qualquer que o levou ao hospital e que o impediu de regressar ao trabalho. Se não acreditassem, azar. - Mexeu – a alegria de Madalena fê-lo acordar à mesa enquanto jantavam. - O quê?! - O bebé! Mexeu! Põe a mão… Jorge acedeu ao pedido de Madalena e poisou-lhe a mão esquerda sobre a barriga. Manteve-se atento. Expectante. Como se estivesse à espera do maior acontecimento do ano. - Mexeu outra vez – ele sorriu. – Olha para ela! Não pára quieta…
  • 99. - E tu ainda nem viste nada! Chutou-me o dia todo. - Vai ser uma peste, já estou a ver – Jorge encostou os ouvidos à barriga de Madalena e ela passou-lhe as mãos pelos cabelos aparados. – Estás ansiosa? - Ainda perguntas?! E tu? Estás ansioso? - Ainda perguntas? O casal riu-se alegremente e trocou um beijo cúmplice. - Já falta pouco, não é?! – Jorge acariciou-lhe a face rosada. - Duas semanas, segundo a médica! Está marcado para o dia dezoito de Fevereiro. - E se nascer antes? - Se nascer antes, nasceu… - Madalena levantou-se da cadeira a muito custo. Na altura, a sua barriga encontrava-se mais pesada do que nunca e os joelhos já não aguentavam tanto esforço. - Não faças nada – Jorge impediu-a de retirar a mesa do jantar. – Eu trato de tudo! - Só mesmo estando grávida para me ajudares cá em casa. - Tenho-me andado a portar bem ou não!? - Muito bem! Nem te reconheço – Madalena envolveu-lhe os braços à volta do pescoço e beijou-o sem se importar com a chuva que ainda caía lá fora. – Tens sido um marido fantástico. - Resta é saber se me safo como pai. - É claro que te safas! Vais ser um pai maravilhoso, tenho a certeza. - Sabes quem é que encontrei hoje à hora do almoço? – Jorge levou os pratos sujos até ao lava-loiça. - Quem?!
  • 100. - Um antigo colega meu da faculdade! Duarte Perestrelo. Não sei se te lembras dele… - Foi ao nosso casamento? – Madalena dobrou a toalha sobre a mesa. - Não! Não chegou a ir porque tinha ido passar o fim-de-semana fora. Mas mesmo que te lembrasses dele, nem sequer o irias reconhecer. Mudou completamente. Nem parece o mesmo. - Foram almoçar juntos? - Não! Encontrei-o por acaso e… ele está realmente muito bem na vida. - Está a trabalhar? - Na firma de advogados do pai! Parece que aquilo está a correr bem. - Que bom para ele. - Disse-me também que vão abrir uma nova filial na Avenida da Liberdade! Estão a precisar de mais advogados e consultores. - Não me digas que o teu amigo convidou-te para ires trabalhar com ele? - Deu-me um cartão e disse-me para o procurar na próxima semana. Madalena mostrou-se algo apreensiva com a notícia. – E isso é bom ou é mau? - Estou a pensar em aceitar o convite caso surja uma oportunidade de trabalhar nesse novo escritório – Jorge concluiu. - Jorge… - O que foi?! Era uma excelente oportunidade, além de que iria ganhar bem mais do que ganho agora. Já pensaste?! Podíamos mudar de vida, dar um futuro melhor à nossa filha… - Só que o emprego que tens agora é garantido. - Não estou a dizer que vou largar o emprego que tenho agora caso não tenha nada palpável. Mas era uma coisa a pensar, não achas?! Se o Duarte realmente me
  • 101. conseguisse arranjar uma vaga lá no escritório do pai, a nossa vida iria melhorar muito. Os advogados de lá recebem uma pipa de massa. - Não tomes nenhuma decisão precipitada! Tens que pensar que agora não somos só nós. - Eu sei, Lena! E é precisamente na nossa filha que eu estou a pensar! Tu sabes que eu sou ambicioso. Nunca te escondi isso, aliás, nunca escondi isso de ninguém… - Às vezes acho que és ambicioso até demais – Madalena murmurou. - Não quero passar o resto da minha vida a ganhar o suficiente para pagar as contas no final do mês. Quero dar-te uma vida boa, uma boa casa, carros, jóias, roupas caras… - Jorge! Tu sabes que eu não preciso de nada disso. - Eu sei que não! Mas não fazia mal nenhum deixarmos de ser uns tesos, não achas?! A expressão engraçada do marido fê-la esboçar um ligeiro sorriso. Não havia nada a fazer. Ele nunca iria mudar. Nem ele e nem a sua ambição. - E pensa na nossa filha! Não gostavas de a pôr a estudar num colégio privado? De pagar-lhe umas boas férias? Um curso universitário no estrangeiro? - E achas que iríamos conseguir tudo isso com os nossos salários? - Porque não?! Se me der bem no escritório do pai do Duarte, pode ser uma hipótese a considerar. E eu sei que vou conseguir, Lena! Não me perguntes como, mas sei que dentro de alguns anos vou ser um excelente advogado, e aí, até vais poder deixar de trabalhar. - E ficar em casa a ver navios? - Não! Ficas em casa a tomar conta dos nossos filhos. - Filhos?! Até já os pões no plural? - Quero cinco, tal como tínhamos planeado antes de nos casarmos – Jorge tomou-lhe o rosto com as mãos. – De uma assentada só.
  • 102. Madalena riu-se alegremente. – Se nem com um me aguento quanto mais com cinco. - Vais ser uma óptima mãe. Ela acariciou-lhe a face com um sorriso carinhoso. – Nós vamos ser óptimos pais. Jorge passou o fim-de-semana inteiro com o cartão de Duarte nas mãos. Tal como disse à mulher, aquela era realmente uma hipótese a considerar. Uma luz no final do túnel e a forma mais rápida de crescer profissionalmente. Ele sabia que possuía todas as capacidades para se tornar num grande advogado. A única coisa que lhe estava a faltar era um sopro de sorte. Um sopro que parecia finalmente ter chegado. E sim. Seria uma loucura virar a cara àquela brisa. Jorge chegou pontualmente às quinze horas da quarta-feira seguinte ao escritório Perestrelo&Associados. O escritório encontrava-se localizado Avenida da República, a poucos metros do Saldanha. Um edifício antigo, imponente, composto por duas portas automáticas de vidro com uma simbologia dourada na ranhura e um cartaz preto na parede. À entrada, Jorge observou uma decoração tradicional e sofisticada. Não era de todo igual a nenhum dos outros escritórios de advogados que se atrevera a pisar até então. As poltronas luxuosas em pele, o tapete vermelho persa que se estendia por toda a recepção, os quadros imponentes, as paredes em mármore e o segurança à porta do elevador, deixaram-no intimidado. Era uma loucura estar ali. Era uma loucura pensar que poderia conseguir um emprego só por ser um amigo do filho do chefe. Assim que voltou à realidade e aos motivos que o tinham levado ali, Jorge interpelou a recepcionista de serviço. - Boa tarde! Tenho uma reunião marcada com o Drº Duarte Perestrelo. A recepcionista, atarefada, fez-lhe um sinal para que aguardasse o término da sua chamada telefónica. - Sim, senhor! A sua audiência está marcada para o próximo dia quinze, mas o Drº Eduardo Castanheira entrará em contacto consigo ainda esta tarde para uma última reunião. Não se preocupe! Eu darei o recado… Enquanto aguardava o fim da chamada, Jorge avistou o seu relógio de pulso. Preocupou-se por estar a faltar novamente ao trabalho, até porque se não conseguisse o emprego no escritório do pai de Duarte, aquele seria com certeza o seu fim. O seu chefe não o iria perdoar e Madalena também não.
  • 103. - Pois não!? – a recepcionista voltou a interpelá-lo. - Boa tarde! Disse-lhe que tinha uma reunião marcada para as quinze horas com o Drº Duarte Perestrelo. Ele deve estar à minha espera… - O Drº Duarte ainda não chegou da hora do almoço. Foi almoçar com alguns clientes. Jorge lançou um suspiro pesado sem querer acreditar na sua pouca sorte. - Vai demorar muito? - Não lhe sei dizer! Mas se quiser aguardar na nossa sala de espera, pode ser que ele chegue entretanto. - Está bem! Eu espero. Jorge desapertou os botões do casaco, ajeitou o nó da gravata e escolheu uma cadeira vazia para se sentar. Nessa altura, as portas do elevador abriram-se e à sua frente passaram três homens e uma mulher elegantemente vestidos, numa conversa animada que se prolongou para lá da entrada do edifício. Os quatro funcionários permaneceram à frente das portas automáticas a fumar um cigarro, não parecendo particularmente apressados em regressar ao trabalho. Muito pelo contrário. Só o fizeram vinte minutos depois quando um BMW imponente estacionou junto ao passeio. O motorista apressou-se a abrir as portas, e do interior do veículo saíram dois homens distintos. O primeiro foi imediatamente reconhecido por Jorge. Era Duarte Perestrelo, mais uma vez trajado com um fato cinzento elegante e uma gravata azul. O segundo foi apenas uma suposição. Por parecenças físicas, Jorge adivinhou que aquele homem de barba branca, cabelos grisalhos e óculos transparentes era o pai do seu amigo. O ilustre Carlos Perestrelo. Um dos melhores e mais influentes advogados do país. - Boa tarde, Drº Carlos! Boa tarde, Drº Duarte… – a recepcionista pulou da cadeira assim que os viu entrar no atrium principal do escritório. - Boa tarde, Cristina – Carlos não parecia particularmente bem-humorado naquela tarde. – Algum recado importante? - Alguns! Mas já estão todos na sua sala! Por ordem de entrada, tal como pediu.
  • 104. - Obrigado. - Drº Duarte! Está aí um senhor para falar consigo! Disse que tinha uma reunião marcada para as quinze horas. - Uma reunião?! – Duarte parecia não se lembrar do compromisso. - Olá Duarte! Tudo bem? – Jorge encheu-se de coragem e resolveu interpelar o amigo junto à recepção. - Jorge! Então?! Como estás? - Estou bem – os dois advogados apertaram as mãos calorosamente. – Desculpa aparecer assim, mas como tínhamos combinado a reunião para hoje… - Não! Eu é que peço desculpas! Esqueci-me completamente. - Quem é este senhor? – Carlos interrompeu a conversa dos dois amigos. - Já agora faço as apresentações – Duarte adiantou-se. – Pai! Este é o Jorge! Um grande amigo meu dos tempos da faculdade. Também se formou em Direito… - Especializou-se em que área? – Carlos parecia não gostar de perder tempo. - Direito Empresarial – Jorge respondeu com alguma humildade. - Encontrei o Jorge na semana passada e falei-lhe sobre o novo escritório que vamos abrir na Avenida… – Duarte interferiu perante o olhar desconfiado do pai. – Pensei que talvez gostasses de o conhecer. Conversar um pouco com ele para ver se nos pode ser útil em alguma coisa. - E no que é que o Srº Jorge nos poderia ser útil?! A pergunta directa de Carlos deixou o advogado sem fala. - Bem! Eu tenho experiência em… - Não estou a falar de experiência – Carlos interrompeu-o abruptamente. – Quero saber o que é que você pode trazer à minha empresa que eu ainda não tenha. Qual é
  • 105. a sua mais-valia? O que é que o diferencia dos outros? Não lhe vou pagar um salário só porque tem experiência, não acha?! Jorge nunca foi confrontado com perguntas tão incisivas, e por momentos, sentiu como se tivesse sofrido uma branca. Não se lembrou de mais nada a não ser de uma característica que sempre o acompanhou desde a infância enquanto presenciava a vida miserável dos pais. De uma coisa tinha certeza. Não queria morrer como eles. Sem nada que pudesse chamar de seu. - Sou extremamente ambicioso e não olho a meios para atingir os fins. - Óptima resposta! Considere-se contratado – Carlos apertou a mão de Jorge com firmeza. – É de pessoas ambiciosas que preciso e não de experiência! A experiência adquire-se com o tempo, a ambição nasce connosco… Quando regressou a casa, três horas depois de ter conseguido o milagre de ser contratado sem mostrar sequer o seu curriculum, Jorge lançou as chaves contra a mesinha e soltou um berro de alívio. Tinha conseguido. Estava empregado e começaria a trabalhar na segunda-feira como um dos braços direitos de Duarte Perestrelo. Para comemorar a ocasião, e visto a mulher não estar em casa, Jorge serviu-se de um whisky barato guardado num dos muitos armários da sala. Fumou mais um cigarro e jurou a si mesmo que aquela iria ser a última vez que iria pôr uma bebida similar na sua boca. A partir daquela friorenta tarde de 12 de Fevereiro de 1988, a sua vida tinha atingido um novo patamar. O relógio da cozinha assinalou dezanove horas quando Jorge se debruçou sobre a varanda preocupado com a excessiva demora da mulher. Telefonou para a casa dos sogros, mas ninguém atendeu. Quinze minutos depois o telefone voltou a tocar, mas contrariamente ao que esperava, não foi a voz da mulher que ouviu. Ouviu sim a do sogro. Uma voz que fez o seu coração disparar. - Corre para o hospital homem! É hoje que vais ser pai. Jorge voou em direcção à porta como um louco. Esqueceu-se das chaves do carro e do casaco, mas logo voltou atrás, encontrando o que tanto procurava. Depois disso, saiu de casa. Foi por pouco que não caiu das escadas enquanto descia por elas, sendo que quando chegou à rua, enfiou-se no carro estacionado sobre o passeio e deu-o à chave. O carro pegou à primeira e ele realizou a manobra de marcha atrás sabendo bem que tinha muito pouco tempo para chegar à Maternidade Alfredo da Costa.
  • 106. Ao chegar ao hospital, o advogado passou por uma série de corredores até conseguir encontrar alguém que lhe pudesse dar alguma informação. Viu uma auxiliar de serviço. Questionou-a nervosamente e não precisou concluir as suas explicações pois o sogro chamou-o ao fundo do corredor. Abraçaram-se e logo subiram ao terceiro piso. O genro estava nervoso. Afonso pôde perceber isso enquanto subiam no elevador. Esfregava as mãos, coçava os cabelos e já não sabia o que fazer para acalmar a ansiedade. Por fim, as portas abriram-se e ele correu em direcção ao quarto indicado. Sentiu o coração saltar pela boca quando viu a mulher deitada na cama, a gritar de dores, assustada, tendo como único suporte as mãos firmes da sua mãe, Leonor. - O senhor quem é? – foi a pergunta da enfermeira quando viu a expressão petrificada de Jorge sobre o alpendre da porta. - É o pai – Leonor deu a resposta que o genro não conseguiu dar. - Vai ficar para assistir ao parto? Jorge manteve-se inerte, de olhos esbugalhados. - Vai assistir ao parto? – a enfermeira voltou a perguntar. - Vou – ele voltou à realidade. – Vou! O que é que eu tenho que fazer? - O senhor não tem que fazer nada – a enfermeira riu-se alegremente com Leonor, já que Madalena não estava claramente em condições de as acompanhar. – A sua mulher é que vai fazer o trabalho todo! Já volto… A enfermeira saiu do quarto com um tabuleiro nas mãos e Jorge aproximou-se da cama com alguma cautela. Encontrou Madalena de olhos fechados, inspirando fundo e expirando a cada cinco segundos como se tivesse sido transportada para uma outra dimensão. Uma dimensão onde só ela estava autorizada a entrar. - Cala a boca, Jorge – Madalena imperou ao pressentir que ele iria falar. Depois disso, ela sentiu uma nova contracção e apertou a mão de Leonor com todas as forças que possuía dentro de si. A noite já ia longa e Madalena começava a perder as esperanças de se conseguir livrar daquelas dores terríveis. Nem as palavras de incentivo da médica e das enfermeiras pareceram surtir efeito. Jorge ocupou o lugar de Leonor. Ofereceu as
  • 107. suas mãos à mulher e nem reclamou quando ela quase as esmagou no meio do parto. Também ele queria que tudo terminasse depressa. Sentia-se aflito cada vez que a ouvia gritar de dor, quando lhe passava a mão pelos cabelos encharcados e a beijava na testa, dizendo-lhe que tudo iria correr bem. - Só mais um último esforço, Madalena – a médica mostrava um sorriso radiante que em tudo contrastava com o sofrimento da sua paciente. – Já vejo a cabecinha! Falta só mais um pouco! Só mais dois empurrões e já está… Não foram apenas dois empurrões, mas ainda assim, quando sentiu aquele ser humano indefeso sair de dentro de si, Madalena soltou um último berro de alívio. Lançou os olhos ao tecto e chorou desesperada. Agradeceu a Deus por ter conseguido superar a maior prova da sua vida. Depois disso, ouviu o choro da sua filha. Veio a felicidade plena e a certeza de que a partir daquele instante, mãe e filha, tinham-se tornado dois seres distintos. - É linda – Madalena abriu um sorriso de orelha a orelha quando a menina lhe foi colocada no colo. – É a coisa mais linda do mundo! A minha filha… - Já escolheram o nome da nossa nova princesa? – a médica desfez-se das luvas descartáveis que utilizara para fazer o parto. Madalena e Jorge trocaram um sorriso cúmplice. O nome já se encontrava escolhido desde há muito. Pelo pai. Sara. Sara Soares Albuquerque. Afonso e Leonor foram as primeiras pessoas, para além de Madalena e Jorge, a privar da companhia do novo elemento da família. A pequena Sara, de cabeleira negra, carinha redonda e boca delineada igual à mãe, fez as delícias de todos. Não havia dúvidas de que aquela criança trouxera um novo sentido à vida dos pais e dos avós. Ao vê-la à sua frente, e mais tarde nos seus braços, Jorge sentiu-lhe o maior amor do mundo. Nunca pensou que pudesse amar tanto alguém. Jurou em silêncio que iria cuidar dela até à morte e que a iria proteger de todos os males. Iria também dar-lhe tudo o que pudesse. A melhor educação, os melhores brinquedos, as melhores roupas. Tudo. Em troca, a única coisa que ele queria era que ela fosse feliz. A família regressou a casa três dias depois, num friorento e chuvoso domingo de Fevereiro. Jorge precipitou-se a abrir a porta, trazendo nas mãos a alcofa e uma pequena sacola que abrigava os pertences da filha e da mulher. Madalena foi a primeira a entrar em casa. Levou Sara ao colo, envolta numa mantinha cor-de-rosa e apresentou-lhe todas as divisões da casa começando primeiramente pela sala. Falou com ela como se percebesse alguma coisa do que dizia.
  • 108. - Agora somos três – Jorge largou a alcofa sobre o sofá e as chaves sobre a mesinha. - Pois somos – Madalena sorriu-lhe carinhosamente. - E daqui para a frente as coisas vão melhorar. - Como assim!? - Ainda não te tinha dito por causa da confusão do parto, mas amanhã começo a trabalhar no escritório do pai do Duarte. Consegui o emprego. Madalena mostrou-se boquiaberta com aquela revelação. - Conseguiste?! - Sim! Vou receber o triplo do ordenado que recebia no outro escritório de advogados em Benfica. - O triplo?! - O triplo. - Bem, mas isso é… - É fantástico – Jorge correspondeu ao sorriso radiante de Madalena. – Já te tinha dito, amor! A nossa vida vai mudar! Não vamos mais ter que nos preocupar em contar tostões no final do mês e a nossa filha vai poder ter tudo o que ela quiser… Madalena não quis ouvir mais nada. Atirou-se para os braços de Jorge e beijou-o ainda com a filha ao colo. Estava feliz por ele. Não por ter conseguido um emprego de sonho onde ganhava o triplo do ordenado ou por estar a trabalhar num dos escritórios de advogados mais prestigiados do país. Madalena estava feliz por finalmente, e pela primeira vez, ver o marido feliz e realizado. E isso era o suficiente para que também ela se sentisse feliz e realizada.
  • 109. 2003 Passaram-se duas semanas e a rotina instalou-se na vida de Madalena. Naquela manhã, ela e Alice realizaram o inventário da loja do Areeiro. Carolina, uma das funcionárias, estava de folga e só voltava no dia seguinte. A outra floricultura na Avenida de Roma permanecia sob direcção de Joana, uma outra funcionária. A poucas horas do almoço, as duas floristas receberam novas encomendas do fornecedor de Porto Salvo. António fazia questão de entregar pessoalmente todas as semanas, as plantas e ervas medicinais encomendadas. Ainda que tivesse que percorrer vários quilómetros até Lisboa, o sacrifício valia a pena. Era sempre um prazer rever Madalena, apesar da florista não se mostrar particularmente entusiasmada com a sua presença. Madalena era um pouco reservada, ao contrário de Alice, que sempre puxava conversa e o fazia sentir-se à vontade. A carrinha partiu logo depois, deixando Alice e Madalena sozinhas na floricultura às voltas com os afazeres da loja. Atenderam o primeiro cliente, o segundo, o terceiro, e já perto da uma da tarde, quando Alice decidiu que seria a primeira a almoçar, as portas automáticas voltaram a abrir-se. Madalena saiu do armazém, carregada com um enorme vaso de madeira. O olhar que trocou com o novo cliente foi absolutamente esmagador. Tinham-se passado vários dias desde a última vez que se viram. - Boa tarde – Alice apressou-se a atender o cliente já que Madalena não teve forças para isso. – Acho que a sua cara não me é estranha… - Boa tarde – ele sorriu-lhe cordialmente. – Não, não é! Sou o Sérgio! Conhecemo-nos no tal casamento em que levou um tiro no braço. - Claro! O fotógrafo – Alice riu-se, animada. - Não sei se ainda se lembra de mim…
  • 110. - É claro que me lembro! Como está? - Estou bem! E você?! Vejo que já se recuperou daquele pequeno incidente. - Estou quase recuperada! Foi mais o susto do que as sequelas. Agora ando a fazer fisioterapia, mas já me sinto bastante melhor. - Fico contente! Eu fui à vossa outra loja na Avenida de Roma, mas a funcionária disse-me que estavam aqui. Espero não estar a interromper nada. É que eu precisava falar com a Madalena… – Sérgio lançou um olhar intenso à florista. – É um assunto importante. Alice rapidamente percebeu que estava ali a mais. – Bem! Por acaso já estava de saída para o almoço, ou preferes ir tu primeiro, Lena? - Não! Podes ir. - Então nesse caso vou andando, pois ainda preciso comprar algumas coisinhas lá para casa. Foi um prazer voltar a revê-lo, Sérgio! - Igualmente – o fotógrafo forçou-lhe um sorriso amigável. - Até já, Lena! - Até já. Alice abandonou a floricultura poucos segundos depois, permitindo que Madalena e Sérgio continuassem de olhos postos um no outro. Havia muita coisa para dizer, ambos sabiam-no bem. Desde aquela fatídiga tarde de domingo, Madalena deixou de atender os telefonemas de Sérgio. Recusou-se também a responder às suas mensagens, ainda que ele tivesse tentado insistentemente entrar em contacto com ela. Mas agora já não havia como fugir. Era preciso resolver aquela história. - Desculpa! Eu queria ter retornado as tuas ligações – Madalena adiantou-se. - E porque é que não retornaste? Tiveste dezoito oportunidades para isso. Ela baixou a cabeça, envergonhada. Na altura, não soube o que responder. - Fiz alguma coisa de errado? – Sérgio perguntou.
  • 111. - Não! Não fizeste nada de errado. - Então o que é que aconteceu para que tivesses desaparecido assim de repente? Madalena saiu por detrás do balcão, pronta a enfrentar uma conversa que se adivinhava difícil. Tinha tentado escapar a ela, mas não conseguiu. - Sérgio! Ambos sabíamos que isto não iria resultar. - Porquê? - Porque somos diferentes – ela olhou-o com imensa tristeza. – Porque temos vidas diferentes. Eu sou mãe, tenho um negócio para gerir e um ex-marido que até hoje me atormenta. Tenho muita bagagem, como se costuma dizer! E tu és jovem, livre e descomprometido. Nunca resultaria... - E não achas que eu deveria ter uma palavra a dizer sobre isso? Madalena permaneceu em silêncio. - Lena! Ao contrário do que possas pensar, o meu tipo de mulher não é uma modelo de 1,80m, tamanho 34 e escultural! Eu procuro bem mais do que isso e pensei que tinha encontrado em ti tudo o que há muito queria encontrar em alguém. Mas eu também não quero passar a minha vida inteira a tentar enfiar-te isso na cabeça e nem quero ver as tuas desconfianças sempre que me aparecer uma mulher de vinte anos à frente… - Sérgio mostrou-se surpreendentemente calmo. – Tu tens quarenta e eu tenho trinta e quatro! E daí? Será que a minha idade te importa assim tanto? Será que não consegues ver mais nada em mim para além do meu bilhete de identidade? Porque eu consigo ver muitas coisas em ti para além disso, para além dos dois fios de cabelo branco que tens aí à frente, das rugas que te aparecem no canto dos olhos quando sorris ou da celulite que tens nas pernas. Eu consigo ver a mulher com quem quero estar. E não me importa, ou pelo menos não me importava, que tivesses dois filhos adolescentes, um ex-marido que te atormenta ou um negócio para gerir. Eu estava realmente disposto a enfrentar tudo isto por tua causa... Madalena não soube o que dizer quando os seus olhos se voltaram a cruzar com os de Sérgio. - Tenho pena que não consigas perceber o quanto és especial! O quanto poderias ser feliz se deixasses de lado os teus preconceitos.
  • 112. - Eu não tenho preconceitos. - Tens a certeza?! Diante do olhar esmagador que ele lhe lançou, Madalena teve sim sérias dúvidas. - Mas pelos vistos, já tomaste a tua decisão, não já?! Não me resta outra alternativa a não ser respeitá-la… Madalena sentiu um aperto no coração quando Sérgio abandonou a sua floricultura sem olhar para trás. As portas automáticas fecharam-se e deixaram-na à mercê de uma angústia inexplicável. Perdeu-o de vez, pensou. Perdeu o que nunca teve, talvez pelos seus preconceitos e por achar que jamais em tempo algum um homem como Sérgio se interessaria por uma mulher como ela. Mas ao ver-se, por fim, sozinha, naquele grandioso espaço após três anos de uma reclusão sentimental absoluta, Madalena percebeu que era chegada a altura de terminar com todos os seus medos. De pelo menos uma vez na vida atirar-se de cabeça e pagar para ver onde é que aquela história a iria levar. Nem que por alguns dias, alguns meses ou quem sabe anos. Ela teria que pagar para ver. - Sérgio… – Madalena chamou-o, depois de ter corrido como uma louca pela rua. E não precisou de dizer mais nada depois disso. Rendida, caiu-lhe nos braços e beijou- o com toda a paixão do mundo. – Quero ficar contigo… Com o tempo, uma relação que parecia casual tornou-se num sentimento maravilhoso. Sérgio acalmava-a, livrava-a dos pequenos aborrecimentos do dia-a-dia e fazia-a sentir-se a mulher mais feliz do mundo. O acaso tinha-a feito encontrar um homem fantástico por quem se estava gradualmente a apaixonar. Alguém que chegou com vinte anos de atraso, mas que agora fazia parte da sua vida e a tornava muito melhor. - Quando é que me vais apresentar o teu novo amigo? – Afonso, o pai, questionou-a no domingo ao início da tarde quando aceitou o convite de Madalena para almoçar. - Que amigo?! – ela fingiu-se de desentendida. - Lena! Eu conheço-te há quarenta anos! Troquei-te as fraldas, lembraste? – Afonso acendeu um cigarro junto à marquise. – Podes-me dizer o nome ao menos? - Pai!
  • 113. - O que foi?! Um pai já não se pode preocupar com própria filha? Quero saber o nome do pelintra. - Sérgio Almeida – Madalena fechou a porta do frigorífico. - Sérgio Almeida?! - Sim, pai! Sérgio Almeida e ele não é um pelintra. - Faz o quê esse Sérgio? - É fotógrafo. - Fotografa o quê?! - Pai… As risadas de Afonso e Madalena foram interrompidas poucos minutos depois quando Sara chegou à cozinha. A jovem recusou-se a esconder a expressão desagradada que trouxe no rosto, fruto das últimas notícias recebidas do pai. - O que foi? – o avô perguntou. Sara fez um pequeno compasso de espera até responder: - A Vanessa perdeu o bebé. As notícias não eram de todo as melhores. Reinou um silêncio ensurdecedor na cozinha. Afonso tirou o cigarro da boca e Madalena depositou a garrafa de molhos em cima da mesa. Todos imprimiram expressões carregadas nos rostos, lamentando em silêncio a perda de uma vida humana. - Deves estar contente, não? – Sara não poupou a pergunta à mãe. - Estás parva, Sara?! Achas que iria ficar contente com uma coisa dessas? - Vou-me arranjar! O pai vem-me buscar daqui a pouco para irmos visitar a Vanessa ao hospital… – dito isto, Sara saiu da cozinha perante o olhar lancinante da sua progenitora.
  • 114. Madalena enviou um enorme arranjo de tulipas brancas a Vanessa durante a semana. Escreveu-lhe também um bilhete, curto, formal, com desejos de rápidas melhoras. Surpreendentemente, a namorada do seu ex-marido telefonou a agradecer a gentileza mostrando-se bastante fragilizada com a perda do bebé. Pediu igualmente que Madalena deixasse Sara passar uns dias lá em casa com a desculpa de que a enteada seria uma boa companhia para a ajudar nesta fase tão difícil. Quando Madalena desligou o telefone, veio-lhe uma pergunta à cabeça: Como era possível que uma adulta de vinte e oito anos se deixasse manipular por uma criança de quinze? O plano perfeito de Sara surtiu efeito quando Madalena resolveu acatar o pedido de Vanessa. Não porque acreditou na ideia estapafúrdia da filha ser uma boa companhia, mas sim porque mais uma vez não queria tomar para si o papel da má da fita. Assim sendo, Sara passou cinco dias no apartamento do pai e Jorge trouxe-a de volta no domingo ao final da tarde. Entraram no corredor em silêncio e repartiram as bagagens ainda à entrada. Nessa altura, Madalena saiu da cozinha. Depois de recolher os seus pertences, a filha subiu ao quarto e desviou-se dela sem sequer a cumprimentar. - Olá Lena! Tudo bem? – Jorge manteve-se sobre o alpendre da porta. - Tudo! E contigo? - Mais ou menos. - A Vanessa? Como é que ela está? – Madalena ajeitou a sua camisola de malha cinzenta. - Melhor. - Sinto muito o que aconteceu… - Talvez tenha sido melhor assim. A confissão do ex-marido deixou Madalena abismada. – Melhor?! O que é que queres dizer com isso? Jorge revirou os olhos. – Lena! Não tinha sido um filho planeado. Foi um acidente. - Nós também não tínhamos planeado a Sara e o Daniel.
  • 115. - Pois! Mas era completamente diferente… - Diferente como?! - Já estávamos casados! Tínhamos uma vida em comum. E além disso… - ele pareceu hesitar na resposta. – Eu tinha a certeza absoluta de que serias uma boa mãe. A Vanessa, enfim! É uma boa pessoa, mas é muito imatura. Ela ainda não tem estrutura emocional para cuidar de uma criança. E eu também confesso que já não estou com idade e nem com paciência para começar tudo de novo. - Pensei que tivesses ficado contente com a gravidez. - Eu não amo a Vanessa. - Não acredito nisto – Madalena abanou a cabeça, incrédula com a canalhice do ex- marido. – Ela acabou de perder de um filho teu. - E daí?! O que é que uma coisa tem a ver com a outra? – Jorge encolheu os ombros, indiferente ao olhar estupefacto da ex-mulher. – Escuta! Mudando de assunto. Queria conversar contigo sobre a Sara. - O que é que tem a Sara? - Ela tem pedido todos os dias para ir passar uns tempos lá a casa. - Jorge! Nós já falámos sobre isso… - É só por uns tempos, Lena! Só até ela tirar essa ideia fixa da cabeça. Um mês ou dois. - Eu não acredito que ela já tenha conseguido manipular. - Ela não fez nada! Além disso, eu também queria estar mais tempo com os meus filhos. Quando nos separámos e tu ficaste com a guarda da Sara e do Daniel, um dia chegaste-me a dizer que com o tempo podíamos tentar a guarda compartilhada. Não te lembras?! Madalena manteve-se em silêncio. - Um mês, Lena – Jorge fitou-a vorazmente. – Quatro semanas.
  • 116. - Vou pensar no assunto. - Já é alguma coisa. - Acho melhor ires-te embora agora! Ainda tenho o jantar para fazer. - O Daniel? - Saiu com o meu pai! Foram à natação… - Está bem! Dá-lhe um beijo meu quando ele voltar! Ligo-te durante a semana para saber dos miúdos. - O.k! Quando Jorge abandonou a sua casa, Madalena fechou a porta com um longo suspiro. Sentia-a exausta. Era assim que se sentia quando se via constantemente enredada nos problemas do ex-marido, quando não tinha um único minuto de paz perto dos filhos, quando queria ter uma vida normal sem ser arrastada pela maré. E finalmente, quando o seu maior desejo era assumir a sua relação com Sérgio. Será que era pedir demais que as coisas se tornassem mais fáceis? - Estás-me a dizer que posso ir morar com o pai? – Sara mostrou-se surpresa quando a mãe lhe informou sobre a sua decisão após uma longa semana a meditar sobre as palavras de Jorge. - Sim! Por uns dias. - E posso saber porque é que mudaste de ideias? - Pensei melhor – Madalena continuou a pôr a mesa do jantar. – Ou não me digas que já não queres ir? - É claro que quero! Já te tinha pedido isso há mais de dois meses, lembraste?! - Pois então! Fala com o teu pai e combinem um dia para ele te vir buscar. - O.k! Ligo amanhã – Sara não escondeu o seu sorriso radiante. – E quem sabe não me vá embora já esta semana.
  • 117. Jorge foi buscar Sara no final da semana. Combinou tudo com ela e acertou os últimos detalhes com a ex-mulher. Sara passaria quatro semanas em casa do pai, e se a sua mudança corresse bem, estaria autorizada a passar novas temporadas com ele. Uma mudança gradual. Embora Madalena ainda tivesse esperanças de que a filha mudasse de ideias e percebesse que o seu lugar era ali. Numa casa que a viu crescer. - Ela já está pronta? - Está lá em cima a terminar de fazer as malas – Madalena permitiu a entrada do ex- marido em sua casa. – É melhor esperares por ela na sala! Acho que vai demorar. Jorge acedeu ao pedido da ex-mulher e logo seguiu pelo corredor. Minutos depois, chegou à sala, onde Daniel, entediado, jogava em frente ao televisor indiferente aos trabalhos de casa que ainda tinha para fazer. - Porque é que eu também não posso ir? – o pequeno não poupou a pergunta ao pai. - Por enquanto vai só a Sara, filho. - Fogo! Eu também queria ir. - Venho-te buscar no próximo fim-de-semana – Jorge sentou-se ao lado do filho e tomou-lhe o telecomando da Playstation. – Vamos lá ver se não perdi o jeito nestas semanas! Comprei-te um novo jogo, sabias!? - Onde é que está? - Esqueci-me dele lá em casa! Mas quando fores passar o próximo fim-de-semana, logo to dou. - Daniel! Vai lavar as mãos que o jantar está quase pronto! - Mas mãe… - Vai e não discutas! E lava-me as mãos como deve ser! Com sabão… Daniel não teve outro remédio a não ser acatar as ordens da mãe, enquanto o pai, despreocupado, continuou a jogar em frente ao televisor. Não tinha mudado nada, Madalena chegou a essa conclusão. Jorge continuava um adolescente de dezoito anos preso num corpo de quarenta e três.
  • 118. - Podes ouvir-me por um minuto – ela pediu. - Claro! Diz lá… – ele respondeu sem tirar os olhos da televisão. - Queria que tivesses atenção à Sara! Que não a deixasses fazer tudo o que ela quer. Ela precisa de regras. - Que regras!? - Horas de chegar a casa. Comer todas as refeições. Fazer os trabalhos de casa. Dormir antes das onze. Também não queria que a deixasses demasiado tempo à frente do computador ou a falar ao telemóvel. - Tudo bem! Tu mandas. - Jorge, isto é muito importante! Queres fazer o favor de olhar para mim? - Está bem, Lena – ele encarou-a, impaciente. – Vou fazer tudo isso! Não te preocupes. Sara desceu à sala uma hora depois, carregada com duas malas e com a mochila que todos os dias levava à escola. Além disso, trouxe também um sorriso no rosto que em tudo contrastou com a expressão desolada da mãe por a ver partir. Quando viu o pai, a jovem abraçou-o com força e presenteou-o com um beijo na face. Saíram à rua pouco tempo depois. A Jorge coube a fácil tarefa de colocar as malas e a mochila de Sara no porta-bagagens. Enquanto a filha, cumpriu a tarefa igualmente enfadonha de se despedir da mãe e do irmão à frente dos portões de casa. - Vê se ligas – Madalena tentou controlar as lágrimas que sem querer lhe brotaram dos olhos. - Ligo daqui a uma semana. - Se não ligares, eu ligo. - Tchau! - Adeus…
  • 119. Sara despediu-se da mãe com um beijo frio na face e ao irmão ofereceu um ligeiro empurrão nos ombros. Depois disso, afastou-se sem olhar para trás e enfiou-se no carro do pai. Portas fechadas, cintos de segurança e o arranque do motor, foram algumas imagens vistas por Madalena enquanto o seu coração se apertava a cada minuto e a companhia de Daniel era a única coisa que não a deixava desmoronar naquela friorenta tarde de sexta-feira. Foi a primeira vez que conseguiu dormir até ao meio-dia. Não houve ninguém que a acordasse ou que entrasse pelo seu quarto adentro disposta a subir as persianas sem qualquer aviso prévio. Sara espreguiçou-se na cama, olhou à volta e observou as suas malas desfeitas junto ao guarda-roupa. Congratulou-se por finalmente se ter conseguido livrar das garras da mãe. Já não lhe devia satisfações, já não era obrigada a olhar para a sua cara e muito menos ouvir a sua voz irritante sempre repleta de ordens e castigos. Na casa do pai, ela sentia-se livre. Completamente livre. Sara levantou-se com algum custo e saiu do quarto sem sequer fazer a cama, depois de lavar o rosto e os dentes. Quando chegou à cozinha, crente de que iria encontrar um belíssimo pequeno-almoço à sua espera, tudo o que viu à frente foi uma imensidão de loiças sujas para lavar. A compôr aquele cenário desastroso, encontrou também migalhas de pão sobre a bancada, o fogão submerso de panelas vazias e um frigorífico às moscas. Naquele momento, a sua única vontade foi a de fugir. - Bom dia – Jorge entrou na cozinha, apressado. - Boa tarde – Sara respondeu ironicamente. – Pai! Tu não tens nada que se coma aqui dentro. - Eu sei! Não consegui ir ao supermercado esta semana. - Então o que é que eu vou comer? - Café – Jorge aproximou-se da máquina sobre a bancada. – Gostas dele forte ou com leite? - Tu sabes que eu não bebo café. - Então bebe sumo! E acho que também tens o resto do frango do jantar. Coloquei-o no microondas. - Vou comer o frango de ontem?! Não! Só podes estar a gozar! Pai, tu tens que ir ao supermercado ou pedir à Vanessa que vá.
  • 120. - Hoje não posso! E a Vanessa foi passar uns dias com a mãe! Não me parece que vá voltar tão cedo – Jorge retirou uma chávena de café de um dos armários. – Vou estar o resto do dia no escritório às voltas com uns processos que tenho para rever e não volto antes das dez. Por isso, vai tu ao supermercado! Deixo-te dinheiro… - E o que é que eu vou lá comprar? - Oras! O que é que se compra num supermercado? Comida! - Eu nunca lá fui sozinha. - Não acredito que a tua mãe nunca te tenha levado ao supermercado? – Jorge alcançou o pote de açúcar sobre a bancada. – Ir ao supermercado é a coisa mais fácil do mundo e tens um aqui mesmo ao pé. Em cinco minutos estás lá. - Mas pai… - Compra carne, peixe, massas, arroz e essas coisas todas. - E quem é que vai cozinhar isso? - Já olhaste para as tuas mãozinhas!? A resposta do pai irritou-a profundamente. – Eu não sei cozinhar. - Aprendes. - Mas pai… - Além disso, aproveita que hoje não tens aulas e arruma a casa! Também não tive tempo para fazer isso durante a semana. - Devias contratar uma empregada, sabias?! Não me vou tornar na tua escrava só porque estou aqui a morar. - Sara! Não sei se já reparaste, mas eu não tenho tempo para me armar em fada-do-lar ou para cozinhar uma bela refeição igual à da tua mãe. Se quiseres ficar aqui, vais ter que cooperar. E essa cooperação passa por limpar a casa, fazer as compras do supermercado e cozinhar. Se não estiveres satisfeita, sempre podes voltar para a casa da tua mãe. É isso que queres?!
  • 121. - Não – Sara engoliu seco. - Óptimo! Parece que nos estamos a entender. Jorge demorou três minutos a engolir o café que fizera, e depois de vestir o casaco às pressas, despediu-se da filha com um beijo na face. Deixou-lhe também o cartão de multibanco e a certeza de que só voltaria a casa depois do anoitecer. - E o que é que eu faço para passar o tempo? – Sara acompanhou o pai até à porta. - Podes fazer o quiseres . - Posso mesmo? - Sim. - Posso sair? Combinar alguma coisa com as minhas amigas? - Claro – Jorge voltou a beijar-lhe o rosto. – Depois do supermercado e de arrumar a casa, estás livre para fazeres o que quiseres. Sara fechou a porta com um largo sorriso e com a certeza de que a sua estadia em casa do pai iria ser no mínimo maravilhosa. Com Jorge, ela podia fazer tudo o que quisesse. O pai não lhe impunha regras ou tão pouco demonstrava excessivas preocupações. Ao contrário da mãe, ele parecia ter vida própria. A vontade de arrumar a casa era nula, mas ainda assim Sara fez um esforço. Limpou a cozinha tão bem quanto sabia, lavou as loiças sujas, passou um pano pelo fogão e tentou dar um jeito à sala que se encontrava em pantanas. Para amenizar a tarefa, ligou o leitor de CD e ouviu uma música rock aos altos berros. Estava tão feliz que nem sequer se preocupou com os vizinhos. Pulou para cima do sofá e dançou como uma louca. Era a liberdade total. A sua nova casa. Um local onde pretendia morar durante muito tempo. A última divisão que Sara resolveu limpar foi o quarto do pai. Com a pressa, Jorge esqueceu-se de fazer a cama. Esqueceu-se também de fechar as portas do roupeiro e de recolher as roupas espalhadas no chão. Sara lembrou-se de todas as vezes que a sua mãe barafustava, afligida com a falta de arrumação do marido. Onde quer que Jorge fosse, Madalena corria atrás para apagar os seus vestígios. Reclamava que ele era um despistado, capaz de esquecer a própria cabeça se ela não estivesse agarrada ao pescoço.
  • 122. E embora Sara concordasse em parte com as palavras da sua mãe, a verdade é que nunca admitiu que ela falasse mal do pai. Odiava quando Madalena lhe apontava defeitos como se fosse infinitamente melhor do que ele. Odiava o seu jeito de sabe- tudo. De dona da razão. Sara abriu uma série de portas e gavetas no roupeiro do pai. Não fazia ideia da quantidade exorbitante de camisas, fatos e gravatas que ele possuía. Quase todos em tons escuros e neutros. Tão sóbrios quanto a sua profissão. Ao ver-se no meio do quarto, apoiada sobre a vassoura, a jovem reparou pela primeira vez que aquela era a divisão mais espaçosa e iluminada da casa. Tinha uma vista previligiada sobre a ponte Vasco da Gama, motivo pelo qual Jorge se apaixonou por aquele apartamento. O quarto não tinha muitos móveis, ao contrário do de Madalena. Era simples e prático. Uma habitação cheia de testerona que exibia uma quantidade exorbitante de revistas, filmes pornográficos e inúmeras caixas de preservativos, jogadas pelas quatro gavetas da mesinha de cabeceira. Tesouros que Jorge demorou três anos a coleccionar após o seu divórcio com Madalena. Enquanto morava com ela, era impensável para ele ter aqueles objectos lá em casa. A mulher nunca compreenderia. Aliás, nenhuma mulher teria essa capacidade de compreensão. E um homem tinha as suas necessidades. A curiosidade foi aguçada quando Sara abriu uma das embalagens de preservativos do pai. Antes que desse por si, já tinha cheirado o objecto e sentido a sua oleosidade. Achou engraçado, nada mais do que isso. Por fim, desenrolou-o numa tentativa ingénua de perceber como funcionava. No entanto, nada se comparou com a curiosidade que os filmes pornográficos lhe despertaram. Cada filme era um vício. As cenas eram nojentas, violentas, mas nem por isso permitiam que ela desviasse os olhos do televisor. Foram quatro filmes devorados em menos de duas horas. Sara utilizava o telecomando para passar à frente, para voltar atrás e para perceber como era possível dois seres humanos praticarem actos sexuais sem quaisquer pudores à frente de uma câmara. Quando deu por si, já a noite havia irrompido as janelas. Apagou todos os vestígios da sua visita ao quarto do pai e saiu de casa às pressas, levando consigo apenas as chaves e o cartão de multibanco. Depois de uma rápida passagem pelo supermercado, regressou a casa. O pai ligou dizendo que chegaria mais tarde do que o previsto, mas ordenou que ela fizesse o jantar. Ela até o fez. Enfiou uma lasanha congelada no forno, mas Jorge não regressou na hora prometida. Por isso, ela comeu sozinha e assistiu a um outro filme pornográfico no televisor da sala. Quando terminou a refeição, já perto da meia-noite, deixou as loiças sujas sobre a bancada e dirigiu-se ao quarto sem a mínima paciência para as lavar. Estava cansada. Completamente exausta das horas que passou a limpar a casa. Na altura, a única coisa que queria era cair na cama e dormir.
  • 123. A porta da rua escancarou-se a poucos minutos das duas da manhã. Jorge entrou por ela, segurando nos braços uma mulher que conhecera horas antes num bar, enquanto a beijava como um louco e lhe descia o fecho do vestido. Já não era a primeira vez que visitas destas lhe surgiam no apartamento. Mas era a primeira com a sua filha lá em casa. - Shiuuuu – ele abafou os risos da rapariga com as mãos. – Não faças barulho que tenho a minha filha cá em casa. - Então leva-me para o quarto antes que ela acorde! Jorge sempre gostou de mulheres bonitas. Dava-lhe um certo prazer sair do trabalho, ir ao ginásio, tomar um copo num bar requintado e lançar olhares esquivos a todas as mulheres que passavam sem aliança no dedo. No fundo, fazia-lhe bem ao ego saber que apesar dos seus quarenta e três anos, continuava a ser um homem capaz de chamar a atenção de mulheres muito mais novas. Embora tivesse consciência de que a maioria apenas se interessava pelos seus cartões de crédito, Jorge não era parvo o suficiente para as manter por mais do que uma noite na sua vida. Era uma troca de favores, por assim dizer. Elas ofereciam-lhe sexo e ele retribuía o favor com uma jóia, dinheiro ou qualquer outro presente de valor. No fim, cada um ia à sua vida e ninguém guardava rancores. Já eram três anos do mesmo. Desde que se divorciou de Madalena, Jorge não pensava sequer na possibilidade de assumir uma relação séria com outra mulher. Vanessa foi apenas um acidente de percurso. Apegou-se a ela por causa do seu jeito doce e infantil. Era uma criança no corpo escultural de uma mulher adulta. Mas manter-se fiel a ela? Não! Isso sempre esteve fora de questão. - Não te preocupes que estou a tomar a pilula… - Gato escaldado tem medo de água fria, Patrícia! Jorge não foi na conversa daquela bela mulata de vinte anos e logo se apressou a abrir a terceira gaveta da sua mesinha de cabeceira. Mais tarde, encontrou a primeira caixa de preservativos que lhe passou pelas mãos e a abriu-a às pressas não fosse perder o pique da excitação. Mas a falta de uma embalagem deixou-o com uma pulga atrás da orelha. Jurava que ainda não tinha utilizado nenhum preservativo daquela caixa. - Algum problema? – Patrícia pressentiu-lhe a dúvida.
  • 124. - Não – ele largou a caixa no chão. – Problema nenhum! Onde é que íamos mesmo!? Na segunda-feira seguinte, Sara saltou da cama pouco depois das nove da manhã. Era a primeira vez que iria chegar atrasada às aulas e tudo porque o despertador se recusou a tocar. Depois de se vestir às pressas, arrumar a mochila e sair do quarto, a jovem esperou encontrar o seu pai na cozinha para que este a levasse à escola. Mas isso não aconteceu. Jorge já tinha saído de casa, deixando apenas um bilhete sobre a mesa: “ Tens aqui o dinheiro para o táxi e para o almoço. Tive que ir mais cedo para o escritório. Falamo-nos logo à noite. Beijos. O papá adora-te…” Sara abandonou a cozinha, furiosa. Saiu sem olhar para trás e atreveu-se também a espancar a porta. Mais tarde alcançou o elevador e desceu à rua, não para apanhar um táxi como o seu pai sugeriu, mas sim o primeiro autocarro que a pudesse levar ao destino pretendido. O colégio. Era lá onde deveria ficar as oito horas seguintes a aprender Inglês, Matemática, Geografia e Português, conversar com as suas amigas durante os intervalos e comportar-se como uma adolescente de quinze anos cujo maior erro foi ter pedido à mãe para ir morar com o pai. O autocarro demorou uma eternidade a chegar. Embora quase nunca andasse de transportes públicos, Sara escolheu um lugar recôndito para se sentar. Esperou que o motorista arrancasse e viu no visor do seu telemóvel uma chamada não atendida da sua mãe. Madalena teve a coragem de lhe telefonar às sete e um quarto da manhã. Realmente, ela não tinha vida própria. Ao passar de autocarro, Sara avistou a montra de uma loja. Uma montra não muito convencional que captou a sua atenção e incendiou o desejo de descer na paragem seguinte. Ao fazê-lo, Sara caminhou dez metros em sentido contrário e viu-se com os olhos postos na mesma montra. Tentou decifrar o que eram todos aqueles objectos e também para que serviam. Mais tarde, alheia ao movimento das pessoas na rua, entrou na loja e deparou-se com um novo mundo à sua frente. Vários homens de aspecto duvidoso deambulavam pelos expositores, duas mulheres de mãos dadas escolhiam alguns produtos afrodisíacos e ouvia-se uma música ambiente que em tudo fazia lembrar os filmes pornográficos que Sara vira durante todo o fim-de-semana em casa do pai. Pouco tempo depois, um dos funcionários da loja interceptou-a junto a um expositor. - O bilhete de identidade, menina! - Não o tenho comigo! Mas já tenho dezoito anos.
  • 125. Sara não era tão estúpida ao ponto de revelar a sua idade e nem o funcionário tão parvo ao ponto de acreditar naquela mentira. Eram às dezenas o número de adolescentes curiosos que lhe passavam todos os dias pela loja, especialmente rapazes. Normalmente vinham em grupos grandes com olhos brilhantes e acesos prontos a descobrir os primeiros prazeres sexuais. Divertiam-se nas salas privativas, gastando fortunas em moedas de um euro por dez minutos de filmes pornográficos. E ainda que fossem menores, no final do mês, tornavam-se numa excelente fonte de rendimento para a loja. Mas raparigas? Era raro vê-las por lá. - Vamos lá a sair! Anda! Isto não é para a tua idade. Sara assustou-se quando ouviu a ordem do funcionário e não esperou muito tempo para sair da loja. Tentou não olhar para trás e passar despercebida no meio da multidão enquanto os olhos do funcionário a seguiram ao longo da avenida. Adolescentes, ele murmurou, abanando a cabeça num claro sinal de reprovação. Naquela tarde, Sara faltou às aulas. Passou o dia inteiro a passear pelas ruas da cidade depois de ter ido às compras com o dinheiro do pai. Quando regressou a casa ao final do dia, trancou-se no quarto e visionou os restantes filmes pornográficos que Jorge escondia na última gaveta da mesinha de cabeceira. Foi também a primeira vez, enquanto os via, que ela atreveu-se a acariciar o seu orgão sexual por debaixo das cuecas. Experimentou um prazer que nunca pensou sentir nos seus tenros quinze anos de idade. Todavia, algo que deveria ser apenas um divertimento, transformou-se num vício demasiado perigoso que a perseguia para onde quer que fosse. Na casa de banho, na cama e até nas escadas de serviço do prédio do pai, todos esses lugares eram propícios para que Sara se masturbasse. Não o fazia por querer, mas simplesmente porque não conseguia controlar-se. Não conseguia controlar os seus impulsos, o desejo de tocar-se, o desejo de sentir uma felicidade que só a masturbação lhe conseguia proporcionar. Com o passar dos dias, ainda que ninguém tivesse descoberto o seu segredo, Sara tornou-se completamente viciada em sexo. Quase não ia ao colégio, ou quando ia, não se mantinha atenta às aulas. Pensava sempre em sexo. Queria sempre tocar-se e até lançava olhares lascivos aos rapazes da sua turma. Os professores começaram a notar grandes mudanças no seu comportamento e os colegas também. A mãe passava os dias a tentar ligar-lhe sem obter resposta, e o pai, sempre muito ocupado, era o único que ainda não tinha percebido nada. - Então? Como é que está o papá? - Jorge entrou na sua sala após duas horas a tentar escolher a melhor roupa, o melhor penteado e o melhor perfume para uma noite que prometia ser perfeita.
  • 126. - Normal – Sara fingiu estar mais interessada em folhear a revista que tinha nas mãos. – Com quem vais jantar hoje? Com a Sofia? A Bruna? Ou a Carla? - Então?! Isso é que são maneiras de falar ao pai? - E a Vanessa?! O que foi feito dela? - Filha! Eu já te disse que eu e a Vanessa já não estamos juntos. - Mas eu gostava dela. Jorge soltou um longo suspiro e rapidamente tentou mudar de assunto. Por mais que tentasse explicar à filha as razões que o levaram a terminar a sua relação com Vanessa, ela nunca iria compreender. - Bem! Vou andando! Qualquer coisa liga-me para o telemóvel! Vou mantê-lo sempre ligado pela via das dúvidas. Mas não te esqueças de ligar à tua mãe. Gritou hoje comigo ao telefone. Diz que tu não lhe atendes o telemóvel. - Se me lembrar, logo ligo. - Porta-te bem! - Tu também. - O pai porta-se sempre bem – Jorge piscou o olho à filha. A campainha tocou e Jorge apressou-se a abrir a porta. Estava tão atrasado para o jantar que tinha combinado com uma das suas inúmeras conquistas que nem sequer se lembrou de levantar a lente da porta. Quando viu a sua visita, soltou um longo suspiro. Vanessa entrou-lhe pela casa adentro completamente esbaforida e seguiu até a sala. Uma vez lá dentro, largou a mala sobre o sofá. Nem sequer conseguiu disfarçar que tinha passado a tarde inteira a chorar. Vinha com rímel esborratado e os olhos vermelhos. Também não teve paciência para cumprimentar Sara, a filha do seu ex-namorado. - Vanessa! O que é que estás aqui a fazer? – Jorge passou as mãos pelo rosto. - Eu é que quero saber porque é que deixaste de me atender o telemóvel!
  • 127. - Em primeiro lugar, fala baixo – Jorge imperou. – Em segundo, não sei se já reparaste, mas a minha filha está aqui na sala. Não me parece que essa seja a altura mais apropriada para falarmos sobre este assunto. - Estás com outra, não estás?! – Vanessa ignorou totalmente a presença de Sara na sala. – Fala! Estás com outra? - E se estiver!? Qual é o problema? - O problema, Jorge, é que até há bem poucas semanas eu estava à espera de um filho teu! Estava grávida de ti e tu não te mostraste nem um pouco triste quando soubeste que eu tinha perdido o bebé – Vanessa apontou-lhe o dedo à cara. – Muito pelo contrário! Foi um alívio, não foi? Uma boa desculpa para me despachares para a casa da minha mãe e nunca mais te dignares a atender um telefonema meu. - Vanessa! Eu não vou discutir contigo à frente da minha filha. - Pois é bom que a Sara saiba que tipo de pai ela tem! É bom que ela saiba que tu és um traidor, um sem vergonha e um vigarista que passa a vida a dar golpes e a ganhar dinheiro sujo… - Vanessa! Tu cala-me essa boca – Jorge gritou, assustando a própria filha. - Por acaso já contaste à Sara o verdadeiro motivo do teu divórcio com a mãe dela? O porquê da Madalena te ter posto para fora de casa? - Sai daqui – Jorge arrastou-a pelo braço até à porta. - Larga-me! Larga-me, seu idiota… - Desaparece da minha casa e não voltes a pôr cá os pés! - És um estupor – ela gritou quando ele a atirou porta fora. - E tu devias comprar um cérebro. Foram estas as últimas palavras de Jorge antes de fechar a porta na cara de Vanessa. Quando isso aconteceu, ela pontapeou a porta com força e continuou a insultar o ex- namorado até se dar por vencida. Minutos depois, ouviu-se um choro descontrolado e infantil.
  • 128. - Jorge… – ela chamou-o, desesperada, aos soluços. – Jorge! Abre a porta, por favor! Desculpa! Eu não queria dizer nada daquilo que disse. Desculpa! Abre-me a porta para conversarmos, por favor! Eu amo-te, Jorge… Infelizmente, o advogado não se deixou amolecer pelas palavras chorosas da jovem e regressou à sala com uma expressão irritada. - O que é que a Vanessa quis dizer com aquilo? – Sara levantou-se do sofá. - Com aquilo o quê? - Do teu divórcio com a mãe! O que é que ela quis dizer? - Sara! A Vanessa é louca ou ainda não tinhas percebido isso?! E já agora fica o aviso! Enquanto estiveres aqui, estás proibida de lhe abrir a porta. Seja por que motivo for… Quando o pai saiu de casa poucos minutos depois das vinte e uma horas, Sara saltou do sofá e apressou-se a encontrar o casaco, as chaves e a mochila. Tinha planeado tudo desde que soube que Jorge iria sair naquela noite. Durante semanas, tentou também controlar o seu impulso. Passou por aquele local inúmeras vezes, de longe, timidamente, só para que ninguém percebesse quais eram os seus intentos. Mas agora, finalmente, tinha ganhado coragem. O Intendente. Uma pequena localidade situada no centro de Lisboa, conhecida pela sua antiguidade, mas também pela sua degradação. Era ali onde se reuniam prostitutas, drogados e imigrantes ilegais numa estreita colaboração com o crime e a má vida. Ao ver-se à saída do metro, Sara teve a certeza que estava a cometer uma loucura. As ruas algo desertas, sujas e com intenso cheiro a urina e outros dejectos humanos, embrulharam-lhe o estômago e fizeram-na pensar em voltar para trás. Mas não. Tinha demorado tanto tempo a arranjar coragem para lá ir, que fugir naquele preciso momento seria um acto demasiado cobarde. Quando lhe surgiu diante dos olhos a visão de um aglomerado de pessoas em frente a um bar, a rir-se às gargalhadas, a beber e a fumar desregradamente, Sara deu os primeiros passos em direcção àquilo que todos consideravam o abismo. Aproximou- se do local, aturdida, e foi imediatamente interpelada por uma mulher de meia- idade. Essa mulher, que tinha idade para ser a sua mãe, encontrava-se vestida com uma mini-saia vermelha, meias de renda pretas e um top decotado a deixar transparecer propositadamente o seu soutien em tons de rosa choc.
  • 129. Ao seu lado, permaneciam igualmente outras duas mulheres. Eram muito mais novas, mas também elas apareciam intoxicadas de perfumes, maquilhagens berrantes e roupas baratas. - Tens cigarros? – uma delas perguntou. Sara hesitou. – Não! Mas tenho pastilhas! Querem? A prostituta mais nova lançou-lhe um olhar desafiador. – Por acaso estás a insinuar que temos mau hálito? - Não – Sara mostrou-se assustada com a sua rispidez. – Só ofereci porque não tenho cigarros. - Pastilhas também servem – a prostituta mais velha estendeu a mão e permitiu que Sara se aproximasse cautelosamente da porta onde se encontravam encostadas. A jovem entregou as pastilhas àquela que parecia ser a líder do grupo. - O que é que andas a fazer por estas bandas? Não és daqui – a velha voltou a perguntar. – Por acaso andas a tentar roubar o lugar aqui ao pessoal? - Só estava a passar – Sara respondeu à cautela. - Por aqui?! - Moro aqui perto. - Mentirosa – a prostituta mais nova interferiu novamente. – Desaparece daqui! - Milene! Não assustes a coitada da miúda, pá! - É bom que ela se assuste mesmo! Vaza daqui… Os gritos da prostituta mais nova, que se chamava Milene, permaneceram-lhe nos ouvidos durante largos minutos, e enquanto se afastava dela e lhe observava os traços físicos atraentes, Sara deu-se por vencida. Abandonou o bairro e enterrou a cara no chão, envergonhada pela humilhação a que tinha sido submetida momentos antes. Foi uma loucura aparecer ali, especialmente àquela hora da noite. Nunca o deveria ter feito.
  • 130. - Queres coca? - Não – Sara desviou-se de um dos inúmeros toxicodependentes que por ali habitavam. - Queres trabalhar para mim? - Não – ela voltou a responder. Sara subiu a avenida debaixo de um frio horripilante. Lembrou-se na altura de que faltavam poucas semanas para o Natal. As luzes alegres e cristalinas já se encontravam expostas na cidade, prontas a assinalar novamente aquela época festiva. Mas nem isso alegrou o coração de Sara. A jovem deixou de gostar do Natal quando os seus pais se divorciaram. Aquela data em especial, mais do que qualquer outra, lembrava-lhe o grande fracasso que era a sua família. Enquanto os seus colegas se gabavam de poder estar com o pai e com a mãe na ceia de Natal, Sara via a sua época festiva repartida em quarenta e oito horas na posse da mãe e de duas horas na companhia do pai quando este aparecia em casa como uma mera visita pronto a entregar os presentes que adquirira às pressas para ela e para o irmão. Não havia qualquer magia nisso. Até Daniel, com apenas dez anos, já não acreditava no Pai Natal. - Queres boleia? Uma voz suave, mas firme, vinda do interior de um carro estacionado a poucos metros do passeio, foi o impulso que Sara necessitou para se voltar para trás. Encontrou o sorriso paternal de um senhor de meia-idade, de cabelos grisalhos e olhos azuís. - Não, obrigada – ela respondeu. - Estás com frio! Já deu para reparar! Porque é que não entras? Entrar ou não, essa foi a questão que durante vários segundos atormentou a cabeça de Sara, enquanto tentava fugir à forte ventania da noite. Mas os olhares esguios, o virar do rosto e a sensação de que não estaria a fazer nada de mal caso aceitasse uma boleia de um perfeito desconhecido, fizeram com que ela retirasse uma das mãos do bolso e alcançasse a porta sem pensar nas consequências que aquele acto insano poderia trazer à sua vida. Mais tarde, devidamente instalada no banco da frente rasgou um olhar assustado ao senhor.
  • 131. - Meu nome é Paulo – ele estendeu-lhe a mão. - Sara – ela respondeu ao cumprimento. - Muito prazer, Sara! Posso saber o que fazes aqui sozinha a estas horas? - Vim visitar uma amiga – ela mentiu. - Nesta zona?! - Porquê?! O que é que tem? - Nada – Paulo enfiou a chave na ignição. – Diz-me! Para onde queres que te leve? - Pode ser para casa. - E onde é que moras? - Parque das Nações. Paulo Figueira tinha quarenta e cinco anos, era professor universitário, divorciado e pai de duas filhas com a mesma idade de Sara – facto que fez questão de salientar durante a condução. Parecia uma boa pessoa, bastante educado, cordial e seguro do que dizia. Tinha os dedos finos e compridos, um detalhe a que Sara prestou especial atenção quando lhe viu as mãos sobre o volante. Subitamente, por uma fracção de segundos, imaginou como seria o toque dos dedos de Paulo no seu rosto. Era insano pensar uma coisa daquelas tendo em conta a diferença abismal de idades que os separava. Era também insano pensar no toque de um homem que nem sequer conhecia. Mas enquanto o ouvia falar sobre assuntos absolutamente triviais, Sara sentiu um estranho calor percorrer-lhe as pernas. As suas mãos começaram a suar. De facto, Paulo era velho demais para si. Mas talvez tenha sido esse factor que mais a fascinou naquele homem de meia-idade que em tudo lhe fazia lembrar o seu professor de História. - Estás entregue. - Posso voltar a vê-lo? – Sara desfez-se do cinto de segurança.
  • 132. - Claro – Paulo encontrou o seu cartão de contactos no porta-luvas. – Toma! Tens aqui o meu número de telefone e também da Universidade onde dou aulas. - Está bem. - Podes ligar quando quiseres. - Ligo assim que puder. Havia pelo menos uma semana que Sara não punha os pés no colégio. A jovem encontrava sempre coisas mais interessantes para fazer. Passear pelas ruas da cidade sem se importar com as horas de chegar a casa, dormir até tarde, comer ou não as refeições que ela própria confeccionava e continuar a assistir filmes pornográficos comprados com o dinheiro que o pai lhe oferecia para o táxi e para o almoço na escola. Era o seu pequeno vício. Algo que adorava ver todas as horas do dia e do qual não se cansava. O passatempo perfeito para libertar todas as tensões e lembrar-se do professor universitário que conhecera dias antes. Numa das vezes em que pensou nele, imediatamente após se ter masturbado pela terceira vez consecutiva naquela tarde, Sara resolveu fazer algo há que muito se tinha predisposto. Telefonar. Telefonar sem remorsos a um homem que tinha idade para ser seu pai e tentar marcar um encontro com ele. A resposta não poderia ter sido mais positiva. Paulo atendeu-a ao segundo toque e combinou com ela um café para o dia seguinte. A faculdade onde leccionava ficava no Alto da Ajuda. Sara concordou encontrar-se com ele numa pequena esplanada perto de Algés onde a maioria dos clientes eram turistas. Apesar do sol, fazia uma brisa fresca de final de tarde. Dez minutos depois, Paulo chegou à esplanada. Veio trajado com um fato cinzento elegante, uma camisa branca e uma pasta debaixo do braço. Sorriu assim que se aproximou da mesa. - Espero não me ter demorado muito. - Não – Sara esboçou um outro sorriso ao vê-lo sentar-se à mesa. – Eu também cheguei quase agora. - Estás muito bonita. - Obrigada – ela corou, envergonhada. - Já pediste alguma coisa?
  • 133. - Não. - Então vou pedir dois cafés para nós. - Hã… eu não bebo café – Sara tentou acalmar as mãos nervosas, colocando-as por debaixo da mesa. - Então pedimos um sumo! Pode ser? - Pode – sorriram os dois. Ao sabor de um delicioso sumo de pêra, Sara e Paulo, que nada tinham em comum para além de serem dois seres humanos, conversaram durante horas a fio e esqueceram-se de tudo o que os rodeava. Paulo era um excelente conversador, demonstrando toda a sua inteligência através de um discurso claro e conciso. Era também bastante sedutor. Trazia um à vontade e um carisma difícil de explicar aos olhos de uma adolescente de quinze anos cujo maior desejo era continuar a ouvi-lo e perceber o que é que ele tinha de tão especial para a fascinar. Era bom estar com ele. Um homem maduro. Fazia-a sentir-se um pouco mais adulta e pensar sempre duas vezes antes de abrir a boca. - Gostas de ler? – ele perguntou a meio da conversa. - Gosto – ela abriu um sorriso radiante. - Então se quiseres posso emprestar-te alguns livros que tenho lá em casa. - Iria adorar. - Marcamos um novo encontro e eu trago-tos… Naquela mesma tarde, Madalena atrasou-se na sua hora de almoço. Em sessenta minutos, conseguiu apenas degustar uma sopa fria e uma sandes de carne assada num dos muitos cafés da avenida. Depois, seguiu-se uma rápida passagem pelo supermercado pois precisava comprar alguns produtos que lhe faziam falta lá em casa. Pão, iogurte, frutas e bolachas. Quando entrou na sua floricultura, trazendo dois sacos pesados nas mãos, Madalena sofreu uma surpresa admirável. De todas as pessoas no mundo aquela era a última que esperava encontrar ali. - Olá, Madalena…
  • 134. - Vanessa?! Tu por aqui? Aconteceu alguma coisa? A Sara?! - Não! Eu não vim aqui por causa da Sara – Vanessa acalmou o coração de Madalena. - Então o que é que aconteceu? Vanessa lançou um olhar fugidio a Joana, a única funcionária da loja, e logo em seguida voltou a encarar o rosto de Madalena. Na altura, não quis expôr os seus problemas pessoais em frente a uma estranha. - Será que podíamos falar… a sós? Madalena acedeu ao pedido com alguma hesitação. – Joana?! - Sim – a funcionária parou tudo o que estava a fazer. - Achas que me consegues ficar sozinha na loja só por mais alguns minutos? - Claro. - Não me demoro. - Está bem! Podes ir descansada. As mãos de Vanessa começaram a tremer quando Madalena se dirigiu ao armazém para deixar os sacos das compras. Minutos depois, a florista regressou à loja e apontou-lhe a saída. Caminharam em silêncio até ao café mais próximo e escolheram uma mesa em frente à janela. Vanessa pediu um sumo de manga e Madalena optou por um café sem açúcar. Precisava urgentemente acordar. - Peço desculpas por ter aparecido na sua loja sem avisar – Vanessa aguardou que o empregado abandonasse a mesa. - Não tem problema! Só fiquei preocupada! Pensei que tivesse acontecido alguma coisa com a minha filha. - Não! Não aconteceu nada com a Sara! Acho que ela está bem em casa do Jorge… - Achas?! Eu pensei que morasses lá – Madalena franziu a testa. Não estava a gostar nem um pouco daquela história.
  • 135. - Já não moro. As últimas palavras de Vanessa coincidiram com as lágrimas que não conseguiu esconder. A jovem chorou desalmadamente, tapando o rosto com as mãos e soluçando como uma criança assustada. Estava de rastos. Já nem conseguia disfarçar. Todos os dias caía numa depressão absoluta que a levava a chorar durante horas a fio. Para isso, bastava apenas lembrar-se de Jorge, da perda do bebé e do término de uma relação que julgava ser perfeita. - Vanessa! O que é que se passa? – Madalena entregou-lhe um guardanapo de papel, desejando que ela se acalmasse. - O Jorge terminou comigo – a jovem aceitou o guardanapo das mãos de Madalena e limpou os olhos esborratados. – Disse que já não gostava de mim! Que foi bom enquanto durou, mas que não tínhamos futuro. Perante todas aquelas revelações, que de resto não constituíram nenhuma surpresa para si, Madalena respirou fundo e cruzou os braços sobre a mesa. Nem sequer teve vontade de tocar no café que pediu ao empregado. - Sinto muito – foi tudo o que conseguiu dizer. - Eu preciso da sua ajuda. - Da minha ajuda?! - Sim! Preciso que fale com o Jorge e que o tente chamar à razão – Vanessa segurou o pulso de Madalena sobre a mesa. – Ele respeita-a! Ouve sempre o que diz! Está sempre a falar de si! Se você falar com ele, tenho a certeza que ele vai reconsiderar. Na verdade, a culpa foi minha. Eu sei. Não deveria ter engravidado. Devia ter tomado mais precauções, sei lá! Talvez tenha sido por isso que o Jorge tenha ficado tão chateado. Acho que ele pensou que eu tinha engravidado de propósito. Mas eu não engravidei prepositadamente. Juro! E também sei que ele ainda gosta de mim e que nós ainda podemos ser felizes juntos. Eu sei disso… - Vanessa… - Por favor, Madalena! Peça ao Jorge para voltar para mim!
  • 136. Ao ver o desespero estampado no rosto daquela jovem, Madalena sentiu-lhe a maior compaixão do mundo. Viu-se espelhada na inocência e na bondade de Vanessa quando tinha a sua idade. Aos vinte e oito anos, também Madalena achava ser possível mudar o homem por quem se dizia apaixonada. Tentava arranjar justificações injustificáveis para o seu comportamento canalha, perdoava traições e mentiras em prol de uma burrice a que chamava amor, só percebendo anos mais tarde que era impossível mudar alguém que não queria ser mudado. - Vanessa! Diz-me uma coisa! Porque é que queres ficar com o Jorge? A pergunta tomou a jovem de assalto. – Porque gosto dele. - E achas que isso é suficiente? - Não é?! – Vanessa bebeu o primeiro gole de sumo. Madalena sorriu perante aquela resposta tão ingénua. - Podes não acreditar, mas eu era só um pouco mais nova do que tu quando me casei com o Jorge. Casei-me porque era completamente apaixonada por ele e também porque pensei que nunca iria encontrar ninguém melhor. Durante os anos em que estivemos casados, cometi a grande loucura de pensar que não existia ninguém melhor do que ele. E sabes porquê? Vanessa manteve-se em suspenso à espera da resposta. - Porque estava habituada a receber menos do que merecia! Porque acostumei-me com o pouco, com o medíocre, com o mais ou menos. Achava que mais valia estar casada com um homem que não me amava do que ficar sozinha… Duas lágrimas caíram no rosto de Vanessa. - Eu tinha medo de ficar sozinha – Madalena continuou. – Tinha medo de envelhecer sem ninguém, de olhar para trás e arrepender-me da decisão de ter pedido o divórcio. Não te vou dizer que foi fácil. Muitas vezes, pensei sim em voltar para o Jorge. Seguir o caminho mais fácil. Dar uma enorme alegria aos meus filhos por terem o pai de volta. Mas depois destes três anos… depois de ter experimentado estar sozinha pela primeira vez em toda a minha vida, percebi que não precisava de nenhum homem para me sentir feliz e realizada. Cheguei à conclusão que era eu quem tinha que descobrir essa felicidade e essa realização. Sozinha.
  • 137. Vanessa limpou as lágrimas e acenou positivamente. - Eu sei que muito provavelmente deveria ser a última pessoa a dizer-te isto. Mas se queres a minha opinião, eu acho que mereces melhor! És jovem! És bonita! Tens a tua vida toda pela frente! Não cometas o mesmo erro que eu! Não entregues os melhores anos da tua vida a um homem como o Jorge… Vanessa sorriu tristemente e arranjou os cabelos loiros, desalinhados. Na altura, não soube muito bem o que dizer. Tinha chegado àquele café, pronta a suplicar à ex- mulher do seu ex-namorado que o obrigasse a voltar para ela. Mas depois de ouvir as palavras sábias de Madalena e tudo o que ela viveu ao longo do seu casamento com Jorge, Vanessa chegou à conclusão que o seu único desejo na altura era esquecer que um dia tivera a infelicidade de conhecer um homem como ele. - Obrigada! Acho que era isto que eu estava a precisar ouvir. Na semana seguinte, apesar das inúmeras tentativas da mãe, Sara recusou-se terminantemente a regressar a casa. Dizia que se encontrava bastante feliz a viver no apartamento do pai e de que não havia motivos para sair de lá. Contudo, o verdadeiro motivo prendia-se com Paulo Figueira. O professor universitário que conheceu dias antes. Se voltasse para a casa da mãe, com certeza deixaria de o ver. De resto, os telefonemas diários, as mensagens e troca de algumas confidências apenas fizeram Sara sonhar com um possível relacionamento entre os dois. Sonhou também em fazer amor com ele embora tivesse a plena consciência que a diferença de idades que os separava ia muito além de uma mera faixa etária. - Entra – ela atreveu-se a levá-lo ao apartamento do seu pai a poucos dias do início das férias de Natal. – Não repares na desarrumação! O meu pai é mesmo assim. - Não te preocupes! Já vi coisas piores! Não te esqueças que também moro sozinho. - Claro – ela sorriu. – Queres beber alguma coisa? - O que tiveres para me oferecer. - Tenho sumo, café ou chá… - Aceitava um chá. - Então vou fazer – Sara abandonou a sala sob o olhar atento de Paulo.
  • 138. Não era uma rapariga de poucas posses, ele reparou. A casa, além da excelente localização, possuía uma decoração refinada com móveis modernos e poucos objectos decorativos. Era um apartamento tipicamente masculino, daí ele não ter percebido muito bem o que é que Sara estava ali a fazer. O chá foi servido poucos minutos depois num pequeno tabuleiro e em duas chávenas de porcelana que Sara fez questão de escolher nos armários da cozinha. E não. Na verdade ninguém diria que àquela tinha sido a primeira vez que se atrevera a fazer um chá. Mas a verdade é que o fez, e a outra verdade é que os seus intuitos saíram na perfeição quando Paulo elogiou o sabor e a temperatura. Depois disso, seguiu-se uma conversa interessante sobre novos escritores contemporâneos e outros assuntos triviais que não lembravam a ninguém. - Não te achas bonita? – Paulo mostrou-se surpreso quando Sara lhe falou sobre as suas inseguranças relativamente à sua aparência física. Não compreendeu os motivos. Era uma jovem bastante bonita, alta e com um corpo definido que em nada fazia prever os seus tenros quinze anos de idade. Sara possuía cabelos escuros, compridos, com uma ligeira franja descaída. A pele era clarinha e macia. Paulo teve a certeza quando se atreveu a tocá-la no braço e mais tarde na mão direita. - És uma rapariga muito bonita – ele sorriu. – Aposto que todos os rapazes lá da tua escola devem andar atrás de ti. - Não me interesso por rapazes da minha idade. - Não?! - Não – Sara voltou a sentir o novo arrepio quando Paulo lhe encontrou os dedos e brincou com eles. - Gostas de homens mais velhos? – ele perguntou. - Mais ou menos – ela sorriu, envergonhada. - Quão mais velhos!? Ouviu-se um ligeiro silêncio. - Da minha idade? – Paulo insistiu.
  • 139. A resposta foi dada com um aceno positivo. - Fico contente por saber isso. O hálito de Paulo sabia a menta e as suas mãos não demoraram a percorrer as costas de Sara num movimento lento e contínuo. Ela tremia por todos os lados. Ele percebeu isso quando a deitou no sofá e lhe afagou os cabelos lisos. Seguiu-se um olhar absolutamente esmagador que só culminou com um novo beijo e a loucura de Sara em permitir que um homem trinta anos mais velho a tocasse como nenhum outro homem a havia tocado até então. Completamente despida, ela entregou-lhe algo que há muito sonhava entregar a alguém. A sua virgindade. Mas não foi um acto bonito e nem nada que se parecesse aos filmes pornográficos que passava horas a ver. Praticar sexo com um outro ser humano era bastante diferente. Era doloroso e nojento. Quando terminaram, contrariamente ao que Sara pensou, Paulo vestiu-se às pressas e desapareceu do apartamento, inventando uma desculpa relacionada com o trabalho. - De quem é este livro? – Jorge descobriu um exemplar do escritor Paulo Coelho sobre a mesinha da sala. Onze Minutos era o nome da obra. - Foi uma amiga que mo emprestou – Sara arrancou o livro das mãos do pai. - Este livro não é para a vossa idade, sabias!? - Ainda não o li. - Então não leias – Jorge serviu-se de uma dose de whisky. – Olha, a tua mãe ligou-me hoje lá para o escritório! Diz que amanhã passa por cá. - Pai, eu não quero voltar para casa! Já disse! - Eu sei! Mas não custa nada ouvir o que a tua mãe tem para dizer. Além de que pela voz parecia irritada. Para variar… Jorge refugiou-se no quarto levando nas mãos um copo de whisky. Estava tão cansado do trabalho que nem sequer reparou na expressão facial da filha. Deixou-a sentada no sofá, a olhar para o vazio, de lágrimas nos olhos, enquanto o seu telemóvel revelava que o número de Paulo, o professor universitário, já não se encontrava atribuído.
  • 140. Tinham-se passado cinco dias desde a última vez que se viram. Desde então, ele nunca mais atendeu nenhum telefonema seu. Sara desesperou-se e resolveu procurá- lo na universidade onde supostamente leccionava, mas os funcionários da secretária mostraram-se surpresos com o pedido de informação. Nunca nenhum professor de nome Paulo Figueira dera ali aulas. Na tarde seguinte, enquanto conduzia pelo trânsito caótico da cidade, Madalena odiou-se por não conseguido manter a sua palavra. Disse inúmeras vezes a si própria que nunca iria pisar o apartamento do ex-marido fosse por que motivo fosse. Contudo, a situação fugiu ao seu controlo. Após uma reunião no colégio da filha, a leitura de uma carta escolar que dava conta das suas sucessivas faltas e notas vergonhosas, Madalena percebeu que não lhe restava outra alternativa a não ser arrancá-la da casa do pai. Jorge sempre foi um pai irresponsável, ausente e sem quaisquer condições morais para educar os filhos. Não havia surpresas quanto ao rumo que daquela história. Mas vendo bem, a culpa não era só dele. A culpa também era sua. Uma culpa que carregou sozinha ao longo dos dezasseis anos em que estiveram casados. - Sabes o que isto é!? Jorge assustou-se com a expressão aterradora da ex-mulher quando lhe abriu a porta de casa. - Uma carta do colégio da tua filha – Madalena atirou-lhe o envelope ao peito. – Ou será que devo dizer antes, da tua companheira de quarto? - O que é que estás para aí a dizer? - O que eu estou a dizer Jorge… é que a Sara está prestes a ultrapassar o limite de faltas injustificadas do primeiro período e a culpa é tua! Inteiramente tua… - Tem calma! Olha os vizinhos aí do lado – Jorge puxou-a para o interior do seu apartamento. – Queres o quê? Que toda a gente oiça as tuas histerias? - Não são histerias! É um facto! E esse facto é de que a Sara está quase a chumbar de ano. - Eu nem sequer sabia que ela andava a faltar às aulas. - Porquê? Não a tens levado à escola?
  • 141. O silêncio de Jorge foi deveras constrangedor. - Meu Deus… – Madalena soltou uma gargalhada aflita a fim de acalmar os nervos que se apossaram de si. – Tu és ainda mais demente, mais mentecapto e mais irresponsável do que eu pensava! O que é que aconteceu contigo quando nasceste, hã? A tua mãe atirou-te contra a parede? - Hei… – Jorge não gostou nem um pouco da ironia. – Tem calma! Não venhas ofender-me aqui dentro da minha casa! Muitas vezes não fui levar a Sara à escola porque não podia. Eu trabalho… - Pois deixa-me que te diga que eu também trabalho! Só que ao contrário de ti, o meu cérebro permite-me fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo. - Já disse para não me ofenderes. - Onde é que está a Sara? - Saiu. - Com quem?! - Sei lá! Disse que ia sair com umas amigas. - E tu acreditaste? - Porque é que não haveria de acreditar? – Jorge abriu os braços. - Jorge! O meu maior erro foi ter deixado a Sara vir morar contigo e está-me a cheirar que ainda me vou arrepender muito mais desse erro daqui para a frente. - Ela também é minha filha. - Então porque é que não te comportas como pai dela, porra? – Madalena gritou, furiosa. - Porque ao contrário de ti, eu sei dar-lhe espaço… - Pois claro! Dás-lhe tanto espaço que ela nem sequer se sente na obrigação de ir às aulas. Ir às aulas para quê!? O único adulto responsável por ela nem sequer se
  • 142. importa com isso. Porque é que ela se iria importar? – Madalena gesticulou furiosamente os braços. – Por acaso já te deste conta que ainda nem sequer abriste a carta do colégio da tua filha, não já? Jorge lançou um pesado suspiro e encontrou o envelope no chão. Abriu-o com cuidado, destendendo as duas folhas que se encontravam no seu interior. Franziu a testa, mordeu o lábio inferior e chegou à conclusão que o caso era bem mais sério do que pensava. Sara tinha faltas a todas as disciplinas e as notas do primeiro período foram uma lástima. - Vamos esperar que ela volte da rua – Jorge engoliu seco e voltou a enfiar as folhas no envelope. – Quando ela vier, nós falamos com ela... - É só isso que tens para me dizer!? - E o que é que queres que diga mais? - Quero que assumas os teus erros pelo menos uma vez na vida! - Ficarias mais feliz se fizesse isso? Madalena balançou a cabeça, desolada. – Olha, Jorge! Eu juro-te que se não fosse por causa da Sara e do Daniel, eu jamais iria querer voltar a olhar para a tua cara outra vez. - E achas que eu tenho um enorme prazer em olhar para a tua!? Passaram-se horas e o telemóvel de Sara continuou desligado. Sentada no sofá, com uma expressão aterradora, Madalena tentou encontrar um único motivo plausível para não saltar para o pescoço do ex-marido e estrangulá-lo ali mesmo com as suas próprias mãos. Seria tão fácil. Seria a solução ideal para todos os seus problemas. Do outro lado da sala, enquanto se servia calmamente de uma dose de whisky, Jorge manteve-se indiferente aos pensamentos maléficos da ex-mulher. Bebeu um gole, inclinou-se sobre a janela e manteve-se expectante aguardando a chegada da filha. A fechadura sofreu uma ligeira pressão ao início da noite. Sara entrou em casa com a mochila às costas completamente encharcada da chuva que ainda caía lá fora, depois de ter passado uma tarde inteira a deambular sozinha pelas ruas da cidade. Quando chegou à sala, o seu coração gelou de medo. Encontrou a sua mãe sentada no sofá com o telefone nas mãos, provavelmente a tentar a vigésima quinta ligação para o seu telemóvel.
  • 143. - Podes agora mesmo começar a explicar – Madalena saltou do sofá, mostrando-lhe uma expressão aterradora. – Onde é que te meteste? - Fui passear com algumas amigas. - Onde? - À Baixa – Sara despiu o casaco de ganga totalmente encharcado. – Já tinha dito ao pai! Lembraste, pai?! - Sara! A tua mãe está chateada contigo e tem boas razões para isso. - Não digas que eu estou chateada com ela – Madalena voltou-se bruscamente para o ex-marido. – Nós estamos chateados com ela! Ou pelo menos, tu também deverias estar se te preocupasses minimamente com a tua filha. Porque é que tens sempre que me colocar como a má da fita? - Pronto! Vai começar… - Eu só quero que me apoies uma vez na vida, Jorge! Que não fujas com o rabo à seringa só para parecer bem na fotografia. - O que é que se passa? – Sara interrompeu a discussão dos pais. - O que se passa é que a tua directora informou-me ontem na reunião de pais que tu estás em perigo de chumbar o ano – Madalena atirou-lhe a carta ao rosto. – Lê! Lê e vê qual foi o resultado das tuas brincadeiras! A expressão de Sara não se alterou nem um pouco quando leu as informações expostas naquela carta. E talvez tenha sido isso que mais irritou Madalena. O facto de a filha não se mostrar minimamente preocupada com aquela catástrofe. - Não vais dizer nada em tua defesa? - Não tenho nada para dizer. - Sara, tu não brinques comigo – Madalena perdeu as estribeiras. - O.k – a jovem largou os braços. – Desculpa lá!
  • 144. - Desculpa lá?! – Madalena nem quis acreditar no sarcasmo da filha. – Tu achas que é só pedir desculpas e está tudo resolvido? - E o que é que queres que eu faça?! Que me ajoelhe aos teus pés e te peça perdão? - Caluda – o berro esmagador de Jorge calou os argumentos de Sara. – Não te atrevas a levantar a voz! Estás proíbida de faltar às aulas outra vez e estás proíbida de voltar a falar à tua mãe nestes termos! Se eu e a tua mãe estamos a trabalhar para vos dar a melhor educação, a ti e ao teu irmão, o mínimo que tens a fazer é ir às aulas e cumprir as tuas obrigações que são tirar boas notas e passar de ano. Nada mais do que isso! É inadmissível qualquer desculpa que tenhas a dar relativamente às tuas faltas e é inadmissível que ouses sequer levantar a voz a mim e à tua mãe quando te estamos a tentar chamar à razão. Ouviste bem!? Sara sentiu o queixo tremer de raiva. - Ouviste bem?! – Jorge tornou a berrar. - Sim! Já pedi desculpas – ela baixou o rosto, envergonhada. - Vai arrumar as tuas coisas ao quarto – Madalena interrompeu o silêncio que se instalou na sala. – Voltas hoje comigo para casa! - O quê!? – Sara reagiu intempestivamente. - Isso mesmo que ouviste! E nem adianta espernear porque eu já conversei com o teu pai e ele concordou. O teu lugar é lá em casa e é lá que vais ficar – Madalena não se deixou intimidar pelo olhar de ódio da filha. - Eu não vou. - Sara, eu já disse para não brincares comigo! Sara alcançou os braços de Jorge, desesperada, a fim de encontrar no pai um aliado contra a sua mãe. – Pai! Não deixes que ela me leve daqui! Não deixes! Será que não vês que ela só está a fazer isso para nos separar? Porque ela não gosta de ti e também não quer que eu goste de ti. É tudo um plano, não vês?! - Sara… - Não deixes que ela me leve daqui!
  • 145. - A tua mãe tem razão – a resposta de Jorge foi preemptória. – Eu não tenho condições para te ter cá em casa. - Pai! Se tu me deixares ir com a mãe, juro que nunca mais te falo. Jorge manteve-se em silêncio perante as ameaças da filha. - Ouviste, pai?! Nunca mais falo contigo. - É melhor ires com a tua mãe, Sara! Com ela vais ficar melhor… As palavras do pai soaram-lhe como uma bomba aos ouvidos, e por vários segundos, foi inevitável para Sara não derramar as últimas lágrimas de uma relação que julgava ser perfeita, mas que a havia traído no momento em que mais precisava. Jorge traiu-a. Mais uma vez. Traiu-a três anos antes quando aceitou ser expulso de casa por Madalena a meio da madrugada sabendo bem que nunca mais iria voltar. Traiu-a quando resolveu assinar os papéis do divórcio com a sua mãe sem ao menos ter feito um esforço para a convencer do contrário. Traiu-a quando prometeu que a iria proteger caso a sua mãe a tentasse tirar daquela casa. Jorge estava farto de a trair. Madalena também, e ela já estava farta de ser traída por eles. Farta de ver as suas expectativas constantemente defraudadas por aquelas duas pessoas que tiveram a infelicidade de a trazer ao mundo. - Vai arrumar as tuas coisas – a voz de Madalena trouxe-a de volta à realidade. Sara abandonou a sala como um foguete, indiferente ao olhar dilacerado que o pai lhe lançou. - Ela odeia-me – Jorge murmurou. - Bem-vindo ao clube – Madalena encontrou a sua mala sobre o sofá. A viagem de regresso a casa foi feita em silêncio. Nem Madalena e nem Sara trocaram qualquer palavra. A jovem manteve o rosto encostado à janela e recusou-se a manter qualquer tipo de contacto visual com a mãe, ainda que esta lhe tivesse disferido inúmeros olhares ao longo do caminho. Mas nenhum surtiu efeito. Para Sara, a partir daquela noite, Madalena tornou-se invisível.
  • 146. Quando a mãe estacionou o carro na garagem a poucos minutos das vinte e duas horas, Sara saiu e bateu com a porta. Deixou-a no interior do veículo a absorver a violência da batida, tentando porventura encontrar um único motivo plausível para que a sua filha a odiasse tanto. Pela porta, minutos depois, entraram mãe e filha no mais completo silêncio. Facto que despertou a atenção de Afonso, o pai de Madalena. O ex-militar tinha-se disponibilizado naquela noite para ficar em casa a tomar conta do neto. - Pai! Ajudas-me a trazer as malas que estão no carro? – Madalena pediu. - Claro! E tu, oh minha menina? – Afonso interpelou a neta quando ela passou por si como um furacão. – Achas bem aquilo que fizeste? Achas bem andares a faltar às aulas? - Não me chateies! Sara surpreendeu o avô com a sua resposta intempestiva. Mais tarde, alcançou o corrimão das escadas e voou em direcção ao quarto. Pelo caminho, os seus olhos encheram-se de lágrimas. Quando chegou à habitação, caiu na cama desesperada, derramando as últimas lágrimas que lhe restavam. Apertou a almofada com força, fechou os olhos e desejou morrer ali mesmo. A três dias do Natal, Sérgio convidou Madalena para um jantar em sua casa. O jantar que primou pela simplicidade e pelo maravilhoso soufflé de camarão que o fotógrafo fez questão de confeccionar pessoalmente. Passou dias a preparar a receita, sabendo bem que esse era um dos pratos preferidos de Madalena. Além disso, a surpresa ficou completa quando acendeu duas velas sobre a mesa. Madalena riu-se às gargalhadas e confessou-lhe não se lembrar da última vez que degustara uma refeição às escuras. Mas a verdade é que naquela chuvosa noite de quinta-feira, após ter degustado a refeição e os lábios de Sérgio, Madalena permitiu que ele a levasse até ao centro da sala. O fotógrafo embalou-a nos passos da música “At Last” – a primeira que dançaram juntos quando tudo ainda era recente. E enquanto mergulhavam naquela sensação avassaladora de se terem um ao outro, Madalena chegou à conclusão que aquilo tinha tudo para dar certo. Eram compatíveis, possuíam os mesmos príncipios e os mesmos objectivos. Sabiam exactamente o que o outro queria ainda que não o precisassem expressar verbalmente. Se o que sentiam não era amor, estava bem perto disso.
  • 147. - Estive a pensar… - Madalena envolveu-lhe os braços à volta do pescoço enquanto dançavam. - Pensar no quê?! – Sérgio colocou-lhe os cabelos atrás das costas. - Acho que chegou a altura de te levar a conhecer os meus filhos e o meu pai. - Finalmente – riram-se às gargalhadas. - Achas que vais conseguir? - O quê? – Sérgio continuou a mexer-lhe nos cabelos. - Ultrapassar a prova de fogo que vai ser conhecer as minhas três pestinhas!? - Por ti sou capaz de ultrapassar tudo. - Só tens que me prometer que não vais fugir. - Não te preocupes! Mesmo que queiras, eu nunca vou fugir de ti… Madalena sugou os lábios de Sérgio e a sensação maravilhosa de o ter só para si. Tê- lo perto, sentir-lhe a humidade, o calor e os braços fortes à volta da cintura. Não foram precisas palavras para que ele entendesse tudo o que ela queria fazer naquele momento, até porque os gemidos e suspiros que Madalena soltou quando caíram no tapete não deixaram dúvidas. Ela queria-o, ele queria-a e nada era mais importante do que isso. - Amo-te – Sérgio teve finalmente a coragem de revelar o maior segredo que alguma vez guardara dentro de si. - Eu também te amo. - Acho que nunca senti isto em toda a minha vida. Madalena sorriu, acariciando-lhe o rosto deslumbrante. - Eu também não.
  • 148. Naquela noite, Afonso não conseguiu esperar que a sua filha regressasse sã e salva a casa. Dormiu estendido no sofá, com um livro sobre o peito e os óculos de leitura na mão. Os seus hábitos nocturnos obrigaram-no a fechar os olhos um pouco depois das dez, altura em que a sua neta, Sara, saiu do quarto e desceu as escadas em bicos de pés. Quando chegou ao rés-do-chão, a jovem esgueirou o pescoço em direcção à sala e viu que o avô dormia profundamente. Sorriu satisfeita e encontrou assim a deixa perfeita para se aproximar da porta de saída. No bolso, levou as chaves e também a sua carteira. Uma hora depois, enquanto se tentava abrigar de um frio avassalador, viu-se no mesmo ponto de partida. O Intendente. Era quase meia-noite, os automóveis circulavam a uma velocidade feroz e os primeiros pingos de chuva começaram a cair sem aviso prévio. Sara andou pelas ruas, aconchegada no seu casaco, rezando para que um carro parasse e a tirasse dali. Minutos depois, foi o que aconteceu. Um Seat Ibiza estacionou junto ao passeio e do seu interior saiu o rosto de um homem mal-encarado a fumar um cigarro. - Quanto cobras? – ele perguntou rispidamente. Sara hesitou alguns segundos sem saber o que responder. Prestes a cair num abismo, faltou-lhe o discernimento para sair dele. – Cinquenta euros. - Dou-te trinta e cinco. - Cinquenta euros. O homem levou o cigarro à boca e exalou o fumo pelo nariz. Analisou Sara dos pés à cabeça e chegou à conclusão de que apesar de tudo o preço era razoável. Tinha boa figura, um bom corpo e um rosto angelical típico de uma menina de Cascais. Não era todos os dias que raparigas como ela passavam por ali. - Entra… Não foi bom, mas já estava à espera que assim fosse. Numa rua deserta, no banco de trás de um carro desconhecido, Sara prostituiu-se pela primeira vez. Entregou o seu corpo a um homem cujo nome desconhecia. Depois disso, recebeu o dinheiro acordado e abandonou o veículo completamente partida. Ainda naquela noite, ela atendeu mais dois clientes ao longo da avenida. Um português e um africano. E quando o relógio assinalou as duas horas e quarenta e cinco minutos, deu-se por vencida. Apanhou o primeiro táxi que lhe passou pela frente e regressou a casa com cerca de cento e trinta euros no bolso.
  • 149. 1993 Anos noventa. O país crescia graças à União Europeia. A vida corria bem a todos. Em apenas dois anos, Jorge Albuquerque passou de braço direito de Duarte a um dos advogados residentes do escritório “Perestrelo&Associados”. Fê-lo com distinção e ganhou um apreço especial de Carlos Perestrelo, o pai de Duarte. Nos primeiros tempos era difícil acreditar que tinha deixado de contar tostões ao final do mês. Mudou-se com a família para uma grandiosa moradia no centro da cidade, com dois pisos, duas salas enormes, vários quartos, um jardim à volta e um terraço onde recebia os seus amigos, colegas de trabalho e clientes para grandes jantaradas. Comprou dois carros, um para ele e outro para a mulher. Brindou-a com inúmeros presentes, jóias, viagens e cartões de crédito. Encheu a sua única filha de mimos satisfazendo-lhe quase sempre todas as vontades. O casamento com Madalena corria bem, apesar de os pesares. Tinha altos e baixos, tal como todos os outros casamentos, mas era uma relação feliz. O nascimento de Sara mudou tudo. Começaram a escassear as saídas à noite, as idas ao cinema e ao teatro. Na cama, já não eram apenas dois corpos, mas três. Sara continuava a dormir com os pais, no meio dos dois, impedindo que Jorge sequer cogitasse a ideia de se aproximar da mulher. Muitas vezes, antes de dormir, o advogado tomava um banho de água fria apenas para esfriar o ímpeto. Madalena não parecia muito preocupada com isso. Vivia vinte e quatro horas a cuidar da filha. Passou a tratar o marido como um mero acessório, embora Jorge nunca se tivesse queixado. Não era do seu feitio, mas irritava-lhe a excessiva atenção que a mulher oferecia à filha. Por vezes, quando se encontravam na sala, ele observava-a sentada no sofá a fazer totós nos cabelos de Sara. Mexia-lhe no vestido. Ajeitava as meias. Arranjava-lhe as unhas. Compunha os sapatos. Enfim. Era um suplício ver como ela cuidava de Sara como se de uma boneca se tratasse. Quando a filha completou três anos de idade, Jorge fez um ultimato a Madalena. Ela tem que sair da nossa cama, senão não aguento. A transição não foi tão fácil quanto isso, pois sempre que a mãe a deitava no novo quarto, Sara abria um berreiro não se calando até conseguir voltar para a cama dos pais. Era uma chantagem natural de uma criança sempre habituada a conseguir tudo o que queria.
  • 150. - Ela está tão bem aqui! Deixa-a ficar só esta noite – Madalena dizia ao marido. Ela está bem, mas eu não, Jorge respondia. Por isso, o advogado passou a encarregar-se da terrível tarefa de deitar Sara todas as noites. Brincava com ela, lia- lhe uma história, e quando ela adormecia, levantava-se da cama em bicos de pés. Mas antes de chegar à porta, Sara abria o berreiro. Foi então, numa noite milagrosa de Dezembro, após vários dias de desespero, que Jorge teve a brilhante ideia de colocar duas enormes almofadas ao lado da filha. Uma do lado esquerdo e outra do lado direito, simbolizando o seu corpo e o corpo de Madalena respectivamente. Foi remédio santo. Desde essa altura, Sara nunca mais voltou a dormir na cama dos pais. - És um génio – Madalena saltou para o pescoço do marido e cobriu-o de beijos. No final do ano de 1991, Duarte Perestrelo soube que iria ser pai. Tinha-se casado seis meses antes com uma das advogadas residentes do escritório após inúmeras idas e vindas, traições e devaneios de parte a parte. Chamava-se Sofia, não era uma mulher especialmente bonita, mas era profissional e competente. O seu único ponto fraco era o filho do patrão. Com Duarte, ela perdia todo o bom senso. Casaram-se no mês de Junho numa majestosa cerimónia na Vila de Cascais. Um acontecimento em que Jorge e Madalena estiveram presentes. Desde essa altura, os dois casais formaram um quarteto, embora Madalena e Sofia nunca se tivessem dado especialmente bem. Eram a antítese uma da outra. Madalena era uma mulher totalmente voltada para a família que deixou de trabalhar após o nascimento da primeira filha. Ainda tentou regressar à vida activa, mas os argumentos do marido revelaram-se convincentes. Não precisas disso. Dou-te tudo. A nossa filha precisa de ti. Diante de tudo isto, Madalena resignou-se à ideia de não voltar a trabalhar. Um acto bastante criticado por Sofia, uma advogada de sucesso que não conseguia compreender os motivos que levavam a uma mulher escolher ficar dependente do marido em vez de ir à luta e conquistar os seus direitos no mercado de trabalho. Logo após o seu casamento com Duarte Perestrelo, Sofia descobriu que estava grávida, mas decidiu que não iria seguir o mesmo caminho que Madalena. Assim que a criança nascesse, passaria por um curtíssimo período de amamentação, contrataria uma ama interna que pudesse tomar conta do filho e voltaria ao trabalho. Seis meses era o prazo máximo. Nem um dia a mais, nem um dia a menos. - Dá muito trabalho ser pai?
  • 151. A pergunta de Duarte não podia ser mais estapafúrdia. Jorge chegou a essa conclusão durante o almoço que tiveram num dos restaurantes mais requisitados de Lisboa. O LAPA PALACE. - Depende da ideia que tens de trabalho – ele respondeu. – Se não te importares de deixar de ter vida própria, ficar noites e noites sem dormir, ter sexo com a tua mulher só quatro vezes por mês, levar quase todas as semanas com consultas no pediatra e com as urgências no hospital… - O.k! O.k! Já percebi – Duarte engoliu o resto do vinho do almoço. – Ser pai é padecer no inferno! Esquece lá o paraíso. - Mas compensa. - Quero que nasça rapaz! - Olha que ser pai de uma menina não é assim tão mau. - Sim, mas é diferente! Com os rapazes dá para jogar à bola, ensinar a surfar, ensinar a engatar… Jorge soltou uma alegre gargalhada. Era impressionante como Duarte, apesar dos seus trinta e dois anos, continuava a comportar-se como um adolescente universitário. - Agora tens é que ganhar juízo, isso sim. - Tu sabes que eu nunca vou ser um homem fiel! Não sou tão puritano como tu. - Eu não sou puritano – Jorge defendeu-se. - Ai não?! Então posso saber porque é que continuas a ser o único advogado residente lá no escritório que ainda não comeu nenhuma das nossas estagiárias? - Eu sou casado, homem! - Então!? Eu também sou! O que é que isso tem a ver? Jorge balançou a cabeça e voltou a encher o seu copo de vinho.
  • 152. - O que eu sei é que a Madalena deve ter-te lançado algum feitiço. - Estás parvo! - Não estou a gozar – Duarte inclinou-se sobre a mesa. – Sabes o António Beirão? Aquele amigo do meu pai que não mata nem uma mosca mas que rouba milhões ao Estado? - Sei – os dois amigos riram-se alegremente. – O que é que tem ele? - O meu pai contou-me há tempos atrás que esse velho era o maior papão de estagiárias! No escritório dele só entravam loiras, de um metro e oitenta, boas como o milho. Dizem que a mulher andava tão farta daquilo que resolveu procurar um bruxo qualquer e fez-lhe um feitiço. Foi tiro e queda. Desde essa data, o homem nunca mais conseguiu… levantar o mastro, não sei se me entendes. Os dois advogados riram-se às gargalhadas, indiferentes aos olhares curiosos dos clientes no restaurante. - Tens a certeza? Não são boatos? – Jorge perguntou. - Não! É mesmo verdade! Ele até foi aos Estados Unidos fazer um tratamento. Engoliu uma data de comprimidos, continuou a pagar a prostitutas para lhe fazerem o serviço, fez tudo o que estava ao alcance para quebrar o feitiço, mas nada. Aos cinquenta e oito anos, fechou a loja. - Cinquenta e oito?! - Sim – Duarte acendeu um cigarro. – E hoje tem quase setenta. - Deus! Isto é o pesadelo de qualquer homem. - Eu já disse à Sofia que se ela me fizesse uma coisa dessas, eu fazia-lhe era um outro feitiço! O feitiço de ficarmos pobres… - A Sofia gosta de ti, pá! Não se casou contigo por causa do teu dinheiro – Jorge aproveitou o isqueiro do amigo para também ele acender um cigarro. - Dizes tu – a resposta de Duarte veio acompanhada de uma expressão séria.
  • 153. - Não! Não acredito nisso… - Jorge! Aprende uma coisa! Há dois tipos de mulheres nesta vida! Tu ficaste com uma e eu fiquei com outra. Há a mulher que gosta de ti, ainda que estejas na merda, que te levanta do chão e te ajuda a ser alguém na vida. Essa é a Madalena. Depois há a mulher que só se interessa por ti quando assinas o primeiro livro de cheques. Surge quando já estás bem na vida, mas nem sequer se preocupa em saber qual o dia do teu aniversário ou qual a cor da tua gravata. Essa é a Sofia… – Duarte engoliu o terceiro copo de vinho de uma só vez. Sofia deixou de trabalhar a partir do quarto mês de gestação. A gravidez não se revelou tão fácil como esperava. Fazia-a sentir-se constantemente cansada, enjoada e por vezes nem sequer a deixava levantar-se da cama. Pela primeira vez desde que se casaram, Duarte, o marido, mostrou-se compreensivo com ela. Pediu para que deixasse o escritório e ficasse em casa até se sentir melhor. Com certeza encontrariam alguém que a pudesse substituir enquanto estivesse de baixa. O que realmente não tardou a acontecer algumas semanas mais tarde. Carlos Perestrelo voltou a contratar uma nova advogada com o mesmo profissionalismo e rigor da nora. Chamava-se Eva Mendonça tinha trinta e dois anos e um curriculum invejável para a sua idade. Não tinha meias medidas quando o assunto era salvar a pele dos seus clientes. Defendia sobretudo casos relacionados com fraude fiscal, branqueamento de capitais ou outros crimes financeiros. Também não era conhecida por cobrar honorários baratos. Além disso, tinha um outro atributo extremamente importante que a diferenciava das suas restantes colegas de profissão. Era bonita e sensual. Uma autêntica bomba, eram as palavras pouco ortodoxas de Duarte sempre que se referia a ela. - Meus senhores! Apresento-vos a nossa nova advogada residente que irá substituir a Drª Sofia! A Drª Eva Mendonça… – Carlos Perestrelo iniciou o discurso após a chegada de Eva à sala de reuniões. - Bom dia – ela mostrou um sorriso contrafeito. - Bom dia – os seus colegas responderam em uníssono. Jorge bem tentou desviar os olhos da sua nova colega, assim como todos os homens presentes naquela sala, mas foi-lhe completamente impossível. Eva era sem sombra de dúvidas uma das mulheres mais sensuais e bonitas que ele alguma vez vira em toda a sua vida. Um contraste absoluto com as restantes advogadas do escritório que
  • 154. passavam a vida enfiadas em fatos escuros, óculos horríveis, sapatos quadrados e cabelos presos abaixo da nuca. Eva não. Eva era diferente. Trazia um vestido preto colado ao corpo de manga três quartos, usava lentes de contacto que evidenciavam os seus olhos castanhos e redondos, calçava um salto agulha de dez centímetros e apresentava-se quase sempre com os cabelos soltos, em tons de caramelo, volumosos, abaixo dos ombros. Os fios balançavam misteriosamente sempre que se movia para ouvir os colegas. Mas o que chamava realmente a atenção eram os seus lábios grossos. Grossos e exóticos. Uma característica que muitas vezes tirou a concentração de Jorge durante a reunião. Em poucas semanas, Eva conseguiu conquistar o respeito e admiração de todos os seus colegas no escritório. Não era vista como uma advogada simpática e nem se deixava deslumbrar pelos piropos que recebia dos homens que a rodeavam. Especialmente piropos vindos de Duarte, o filho do chefe. Contrariamente às outras advogadas residentes, Eva considerava-o um homem extremamente desagradável e deselegante. Por vezes, até intragável. Fazia um esforço sobre humano para o ouvir falar sobre as suas conquistas profissionais, o dinheiro que dava a ganhar ao escritório e os comentários machistas que proferia contra as mulheres. Era impossível considerar alguma conversa sua interessante. Num dos muitos almoços no restaurante do HOTEL LAPA PALACE, local onde os advogados residentes do escritório se encontravam, Duarte cometeu a audácia de afirmar que a carreira das mulheres estava confinada ao fracasso no momento em que se casavam e tinham filhos. Eva sorriu e balançou a cabeça. Jorge percebeu o seu desconforto. - Por mais que digam que não – Duarte continuou o seu discurso machista. – Por mais que se façam de modernas, as mulheres acabam sempre por cair no erro de casar e ter filhos. A minha mulher, por exemplo. É uma óptima advogada, disso não tenho dúvidas, até porque trabalhámos juntos durante muito tempo. Ela sempre disse que não queria ter filhos e que não pensava sequer nessa possibilidade por causa da carreira. Eu sempre a respeitei e nunca a obriguei a nada. Foi um acidente. Engravidou por acaso. Mas hoje, já não fala de outra coisa a não ser de roupas de bebé, fraldas, berços e ecografias. Duvido muito que volte a ser como era antes. Tornou-se mulher… - Não vejo mal nenhum nisso – Eva poisou a sua taça de vinho sobre a mesa. - No quê? - Em tornar-se mulher.
  • 155. - Eu também não, mas… - Duarte tentou desculpar-se. - Conheço vários homens que também se tornaram mulheres – Eva compôs os cabelos volumosos com uma descontracção fora do normal. – Alguns deixaram inclusive de trabalhar para ficar com os filhos em casa. - Não acredito nisso. - O meu marido toma conta do nosso filho! É freelancer e trabalha a maior parte do tempo em casa. Sempre foi assim. Nunca encontrámos motivos para fosse diferente. A confissão de Eva deixou Duarte e Jorge, boquiabertos. - Bem, eu… - Por isso, tal como vês, nem sempre a carreira das mulheres está destinada ao fracasso! É tudo uma questão de perspectiva e também do tipo de homem com quem nos casamos. - Vou pedir mais vinho – Jorge mudou rapidamente de assunto. – Alguém quer? A partir daquela tarde, Duarte moderou os seus comentários preconceituosos e machistas, pelo menos enquanto se encontrava na presença de Eva. Descobriu também que a advogada não fazia minimamente o seu estilo, por isso desistiu também da ideia de a tentar levar para a cama. Era demasiado autoritária, parecia trazer o rei na barriga e uma expressão arrogante que não lhe saía do rosto. Duarte chegou à conclusão que engatar estagiárias era muito mais fácil e exigia menos trabalho. Jorge, pelo contrário, passou a admirá-la. Não eram amigos, mas respeitavam-se o suficiente para conseguirem manter uma conversa civilizada e construtiva. Além disso, trabalhavam muitas vezes em conjunto na análise de processos, passando longas horas enfiados na mesma sala. De vez em quando, faziam algumas pausas, apenas para estender as pernas e fumar um cigarro na varanda aberta do edifício. Ao contrário da sua mulher, com Eva, Jorge podia fumar à vontade. Ela acompanhava-o sem tecer comentários moralistas acerca dos malefícios do tabaco, até porque também ela era uma fumadora compulsiva. Devorava dois maços por dia. Em Julho de 1992, Eva e Jorge foram os advogados residentes destacados para o Congresso PRO EUROPE que se iria realizar em Bruxelas. Não era a primeira vez que Jorge viajava a trabalho, mas ainda assim, Madalena odiava sempre que isso acontecia. Era sinal de que iriam passar pelo menos três dias afastados. A relação
  • 156. também não andava particularmente bem. Após seis anos de vida comum, a rotina instalou-se na vida do casal, tal como se instalava na vida de todos os outros casais. Começou a faltar cumplicidade, desejo e sexo. Antes de partir de viagem, Jorge despediu-se da sua família nos portões da casa. Ofereceu vários beijos e carinhos à filha e um longo beijo a Madalena. Partiu no táxi com a promessa de regressar dali a três dias assim que o Congresso terminasse. Eva Mendonça foi a primeira a chegar ao aeroporto. Fê-lo duas horas antes da partida do voo, sem quaisquer pressas para fazer o check-in ou para tomar o pequeno-almoço. Um café preto sem açúcar e duas torradas de pão integral. Ao seu lado manteve o jornal que comprou num dos muitos quiosques do aeroporto. Estava tão concentrada na leitura que nem se apercebeu da chegada de Jorge. De resto, a única pessoa que iria viajar consigo. Assim que se viram, os dois advogados trocaram um sorriso cúmplice. Mais um de entre muitos. Nos últimos meses tinham-se tornado amigos. Falavam de tudo. Trabalho, cinema, teatro, política e afins. Pareciam ter muito em comum, embora ainda existisse uma ligeira formalidade entre os dois. Chovia torrencialmente em Bruxelas quando o avião aterrou no aeroporto Zaventem minutos antes do meio-dia. As temperaturas amenas contrastaram com o calor abrasador de quarenta graus que se fazia sentir em Lisboa. Um motivo para que Eva se abrigasse numa leve gabardina e Jorge num casaco de meia-estação. Quando abandonaram o local das chegadas, um táxi já os aguardava para os levar ao hotel LE PLAZA, situado no centro da cidade. O Congresso iria iniciar-se naquela tarde, mas ainda havia tempo para descansar, tomar um banho e almoçar. Quando se encontraram no atrium do hotel, às quinze horas, Eva e Jorge saíram à rua levados por um motorista que os conduziu directamente ao Parlamento Europeu. A sessão demorou quatro horas e contou com a participação de profissionais dos mais diversos sectores. Eva e Jorge foram em representação dos escritórios “Perestrelo&Associados”, sabendo bem que não era o tema do Congresso que interessava, mas sim a procura e a consolidação de contactos, interesses e parcerias. O coffee&break era o momento perfeito para isso. Eva mostrava um à-vontade fora do normal e os seus atributos físicos eram muito bem utilizados em indivíduos do sexo masculino. Ela encarregava-se dos homens e Jorge prestava especial atenção às mulheres. Também ele não se podia queixar dos predicados que Deus lhe deu. Naquela noite dormiram cedo após um agradável jantar com um grupo de advogados iranianos e espanhóis. Despediram-se ainda no corredor e Eva seguiu caminho até ao seu quarto. Jorge avistou-a de longe, mantendo as mãos nos bolsos das calças. Quando ela passou o cartão electrónico pela ranhura da porta, os seus olharares voltaram a cruzar-se e ele sorriu. Estava a gostar imenso de a conhecer e de falar com ela. E o sentimento parecia recíproco.
  • 157. O segundo dia do Congresso foi extenuante. Não houve tempo algum para descansar. Jorge e Eva percorreram inúmeros pavilhões, dentro e fora do parlamento. Assistiram a palestras, workshops e apresentações. O único momento minimamente divertido ocorreu quando se sentaram nas escadarias externas de um edifício situado no GRAND PLACE, com um cheeseburger nas mãos prontos a assistir a um concerto de jazz improvisado por uma banda de rua. No final, agradeceram o espectáculo atirando algumas moedas para uma pequena caixa de cartão. Seguiram pela rua, envolvidos numa conversa amena e mais tarde regressaram ao trabalho. - O que achas de tomarmos um copo mais tarde no bar hotel? A pergunta de Eva tomou Jorge de assalto, mas o advogado foi incapaz de negar o convite. - Jantamos também? - Parece-me uma óptima ideia. Eram amigos, apenas isso. Jorge tentou convencer-se que não estava a fazer nada de errado ao aceitar jantar e beber um copo com uma colega de trabalho. Porque no fundo, Eva era apenas e somente uma colega de trabalho. Uma colega extremamente atraente, sedutora e interessante. Mas apenas uma colega de trabalho. - Desculpa o atraso – ele disse, chegando afogueado à mesa, depois de ter perdido a hora do jantar. - Não faz mal. - Já pediste alguma coisa? - Ainda só pedi um whisky. Eva encontrava-se especialmente bonita naquela noite, Jorge reparou. Trazia um vestido estampado em tons de vermelho e os cabelos presos por um rabo-de-cavalo abaixo da nuca. De resto, a maquilhagem primava pela simplicidade. Somente rímel, batom e blush. - Confesso que quando conheci o Drº Carlos morri de medo dele. Tremia por todos os lados – as palavras de Jorge fizeram Eva rir-se alegremente durante o jantar. – A
  • 158. primeira coisa que ele me perguntou foi: Porque é que acha que eu o devo contratar? O que é que o distingue dos outros? Qual é a sua mais-valia? - E tu? O que é que respondeste? – Eva enterrou os lábios na sua taça de vinho. - Que era bastante ambicioso! Que não olhava a meios para atingir os fins. - E isso é verdade? - Em parte sim – Jorge não desviou os olhos de Eva. – Quando quero realmente uma coisa, não costumo desistir facilmente dela. - Eu também sou assim! Talvez o Drº Carlos saiba escolher os seus funcionários a dedo. - Como é que o conheceste? - Como é que ele me conheceu, queres tu dizer… - Como foi? – Jorge continuou a degustar a sua vitela assada. - Há tempos atrás, ganhei uma causa contra um dos clientes dele! Já fui do outro lado da bancada, sabes?! Colocava criminosos atrás das grades. Hoje em dia, livro-os de lá. Provavelmente deve-lhe ter ficado na memória esse meu grande feito. Na altura, ficou com o meu cartão. O resto?! Não preciso contar. - Posso confessar-te um segredo? - Claro. - Quando entraste lá no escritório eu pensei sinceramente… - Pensaste que eu tinha dormido com o Drº Carlos para conseguir o cargo? – Eva soltou uma alegre gargalhada. - É que normalmente as advogadas e as estagiárias que passam por lá têm essa pequena mancha no curriculum. - E se eu te disser que dormi? – a expressão de Eva deixou sérias dúvidas no ar.
  • 159. - Seria legítimo da tua parte – Jorge fitou-a com alguma desconfiança. – Cada um luta com as armas que tem. Depois do jantar, Eva e Jorge seguiram até ao bar do hotel. Sentaram-se em frente ao balcão e pediram novas bebidas. Dois whiskys duplos sem gelo. Ao contrário da sua mulher, Eva aguentava bem o álcool. Parecia um homem. Bebia, fumava e mantinha- se em posição recta. O único traço feminino que Jorge lhe reconhecia era quando cruzava as pernas. Fazia-o num movimento lento e sensual. Naquela noite, quando ela voltou a cruzar as pernas, Jorge não conseguiu desviar os olhos um só segundo. O vestido tinha uma pequena abertura que lhe permitiu ver pela primeira vez as suas pernas acima dos joelhos. Uma visão que por pouco não o incendiou por dentro. - Nunca me falaste da tua mulher. O rosto de Jorge voltou a subir. – Nunca houve oportunidade para isso. - O que é que ela faz? - Desde que tivemos a nossa filha, deixou de trabalhar – Jorge bebeu o primeiro gole de whisky. – Mas antes era contabilista numa empresa de exportação de alimentos. - E porque é que ela deixou de trabalhar? - Decidimos assim. - Decidimos ou tu decidiste? – Eva parecia não querer mudar de assunto quando voltou a enterrar os seus lábios no copo de whisky. - Nunca a obriguei a nada. - Impressionante! Os homens nunca nos obrigam a nada, mas nós acabamos sempre por fazer o que eles querem – Eva e Jorge trocaram um sorriso cúmplice. - E o teu marido? Pelo que me disseste ele também fica em casa. - O João sempre foi um ser humano diferente dos outros! É bastante criativo, bastante inteligente e até seria o homem perfeito se não fosse um autêntico falhado. - Desculpa? – Jorge mostrou-se intrigado com aquela afirmação.
  • 160. - Sabes aquele tipo de homem que vive de sonhos e acha que vai salvar o mundo com as suas ideologias sem sentido? Pois então! Eu tive a infelicidade de me casar com alguém assim – Eva brincou com o copo que tinha nas mãos. – Não sei até quando vou ter paciência para o continuar a sustentar. - Ele vive às tuas custas? – Jorge engoliu o resto do whisky que tinha no copo a fim de processar tudo o tinha acabado de ouvir. - Isto estragou a imagem que tinhas de mim, não? Imaginaste que o meu casamento era perfeitinho e idílico igual ao teu? – Eva sorriu e apoiou-se sobre o balcão. - Só não sei o é que uma mulher como tu anda a fazer com um homem desses! Um homem que vive às custas de uma mulher devia ser fuzilado. Jorge fez um sinal ao empregado do bar para que este lhe servisse uma nova dose de whisky. Um gesto imediatamente copiado por Eva, que sem querer se viu de olhos postos no advogado. Era bonito. Atraente. Seguro de si e emanava um estranho odor a testesterona. Ela bem tentou ignorar os pensamentos pecaminosos que se implantaram na sua cabeça, mas na altura foi-lhe impossível praticar tal acto. O desejo e a luxúria falaram mais alto. - Já alguma vez traíste a tua mulher? A pergunta directa de Eva obrigou Jorge a sorrir e balançar negativamente a cabeça. - Serias capaz de a trair comigo? O advogado voltou a sorrir, mas desta vez, acenou que sim. - Eu também seria capaz de trair o meu marido contigo! Isto se quiseres, é claro! Queres? - O que é que achas?! Na altura, Jorge não mediu as consequências nefastas que aquelas palavras poderiam trazer à sua vida e ao seu casamento. Já se encontrava meio tocado pelo álcool e também pelo desejo de ter aquela mulher que durante meses preencheu o seu imaginário. A pele de Eva sabia a sabonete de jasmim e a boca exalava um odor intenso a álcool e tabaco que lhe inebriou os sentidos no momento em que entraram no quarto dela a poucos minutos da meia-noite.
  • 161. Jorge pôde ter o previlégio de lhe tocar em todas as partes do corpo. Ao contrário do que imaginou, nem por um minuto a imagem da mulher lhe invadiu o pensamento. O álcool encarregou-se de lhe retirar todas as culpas de cima. Obrigou-o a cometer uma das maiores locuras da sua vida. A carne era fraca. Ele também. Mas no dia seguinte provavelmente ninguém se lembraria de nada. Num impulso de paixão, Eva beijou-o afogueadamente, atirou-se-lhe ao casaco, à camisa, ao cinto e à braguilha. Jorge também teve a mesma eficiência em despi-la. Desceu o fecho e subiu o vestido sem lhe prender o rabo-de-cavalo, com uma habilidade tal que a deixou surpreendida. Por fim, deitou-se sobre o corpo de Eva e apoderou-se dele. Fê-lo num acto insano, enquanto a advogada gemia loucamente de prazer e lhe arranhava as costas com as suas unhas compridas. Quando terminaram, já a noite ia alta, Jorge saiu de cima de Eva e deitou-se na cama de olhos postos no tecto. Foi só então que a realidade lhe caiu em cima e o rosto de Madalena o assombrou. Merda, disse em voz baixa. Tinha acabado de trair a mulher pela primeira vez. No último dia do Congresso em Bruxelas, Eva e Jorge passaram a evitar-se. Nenhum dos dois conseguiu olhar para a cara um do outro sem se lembrarem da loucura cometida na noite anterior. Era um misto de sentimento de culpa, vergonha e embaraço. Ambos eram casados, sabiam-no bem. Mas pior do que a loucura de terem traído os seus respectivos cônjuges era saber que quando regressassem a Portugal as coisas também não seriam muito mais fáceis. Continuariam a cruzar-se no escritório, nas reuniões e nos almoços com os clientes. Continuariam a fingir a tudo e todos que nada havia acontecido durante aquela viagem de trabalho. E continuariam a desejar não ter cometido aquele erro. Fizeste-a bonita, Jorge chegou a essa conclusão quando viu Eva de costas a arrastar o carrinho pelo corredor que dava acesso directo ao avião. - Não precisas ficar assim – ela disse a poucos minutos do embarque. - Assim como!? - Como se tivesses cometido um crime. Jorge demorou alguns minutos a arranjar coragem para enfiar a chave na porta. Tinha chegado a casa trazido por um táxi, mas não sabia muito bem o que fazer para afugentar a sua culpa. Cada vez que fechava os olhos, imaginava a reacção de Madalena caso descobrisse a verdade. Ela não merecia e ele também não. Não merecia sentir-se o pior ser humano à face da terra. - Ainda bem que chegaste – Madalena caiu-lhe nos braços e beijou-o em seguida.
  • 162. - Então!? Como é que correram as coisas por aqui? - Correu tudo bem! Só estava a morrer de saudades tuas. - Eu também. A Sara? - Está na cozinha a ver os desenhos animados! Anda! Ela também está a morrer de saudades tuas. Não parou de perguntar por ti nestes dias… Durante o jantar, ao ver as duas mulheres mais importantes da sua vida sentadas à mesa, Jorge percebeu o grande erro que tinha cometido naquele maldito Congresso em Bruxelas. Percebeu também que não suportaria viver sem a sua mulher e sem a sua filha. Não cogitava sequer a ideia de as perder por causa de um deslize estúpido. O seu casamento com Madalena era mais importante do que uma noite de bebedeira terminada num quarto de hotel. Ela era a mulher que ele havia escolhido para passar o resto dos seus dias. A única que, para além do seu corpo, também detinha o seu coração. De regresso ao trabalho após o fim-de-semana, Jorge entrou no seu escritório com uma cara de poucos amigos. A manhã foi passada a rever alguns relatórios e pareceres jurídicos. Para completar o cenário infernal, o advogado ainda foi obrigado a enfrentar uma maldita reunião com o seu chefe Carlos Perestrelo. O único ponto positivo foi a ausência de Eva nos corredores. A advogada teve um julgamento naquela manhã. Só regressou ao escritório ao final da tarde. - Parabéns – Duarte não resistiu a congratular a sua colega quando ela entrou na sala de reuniões. - Já vi que as notícias correm depressa – Eva largou a pasta de trabalho e o seu casaco sobre a mesa. Em seguida, procurou a máquina de café e serviu-se de um cappuccino sem se deixar intimidar pelos olhos lascivos de Duarte, que do centro da mesa, admirou as suas curvas naquele vestido preto justo de alças grossas. Duarte estava tão concentrado naquela paisagem maravilhosa que nem se apercebeu da entrada de Jorge na sala. Quando isso aconteceu, tanto ele como Eva não conseguiram disfarçar o quanto se sentiram incomodados com a presença um do outro. Era a primeira vez que se viam desde o regresso a Lisboa. - Olá Jorge! A Eva ganhou o caso, sabias?! – Duarte colocou as mãos atrás da nuca e refastelou-se no cadeirão do seu pai. – Mais uma Câmara Municipal que não vai perder o seu rico presidente.
  • 163. - Parabéns – Jorge congratulou a sua colega num tom de voz sumido. - Obrigada – Eva desviou os olhos, terminando o seu cappuccino num só gole. - Mas então! Não me vão contar como é que correu o Congresso lá em Bruxelas? A pergunta de Duarte não poderia ter sido mais incisiva. Prova disso, foi a nova troca de olhares entre Eva e Jorge. - Correu bem – ele respondeu. - Divertiram-se muito? - Não fomos lá para nos divertirmos! Fomos trabalhar – Eva apressou-se a recolher a sua mala e o seu casaco sobre a mesa. – Bem, eu vou para a minha sala! Tenho trabalho à minha espera. Com licença… Jorge bebeu mais um café e fumou o terceiro cigarro da tarde no terraço aberto do escritório. Depois disso, seguiu pelos corredores, enchendo-se de coragem para acabar aquela história de uma vez por todas. Ao ver a porta do escritório de Eva entreaberta, ele bateu e aguardou resposta. A voz rouca da advogada autorizou-o a entrar. - Posso?! - Podes claro – ela encontrava-se de pé, atrás da secretária, a ordenar algumas pastas. - Espero que não estejas muito ocupada. - Fecha a porta! Jorge obedeceu ao pedido sem delongas. - Antes de mais… - ele tentou encontrar as palavras certas. – Queria pedir-te desculpas por aquilo que aconteceu lá em Bruxelas. Eu sei que estávamos meio tocados pelo álcool. Começámos a falar sobre temas demasiado pessoais. Mas isso não era motivo para termos feito o que fizemos. Foi um erro. - Eu já calculava que fosses dizer uma coisa dessas.
  • 164. - Já?! – Jorge mostrou-se surpreso com a reacção dela. - Claro! Os homens nunca pensam nas consequências dos seus actos quando têm a possibilidade de fazer sexo. - Então quer dizer que… estamos bem!? - Claro – Eva esboçou-lhe um sorriso confiante. – O que aconteceu não se vai repetir. Entraram aos beijos e encontrões no quarto de hotel. A promessa não se manteve. Não era a primeira vez que o faziam e não era a primeira vez que pisavam aquela habitação depois de uma extenuante jornada de trabalho no escritório. Fisicamente, Eva e Jorge estavam rebentados, mas as energias pareciam voltar aos seus corpos quando se despiam e se atiravam contra a cama sem pensar em absolutamente nada que os pudesse distrair. Terminado o acto, fumavam um cigarro, contavam algumas piadas e voltavam a despedir-se com a certeza que se encontrariam no dia seguinte. Quando Jorge estava no trabalho ou ligava a avisar que iria chegar mais tarde, Madalena sentia-se imensamente sozinha naquele casarão. Tentava fazer alguma coisa para preencher o vazio das horas. Cuidava da filha, brincava com ela, limpava a casa de uma ponta à outra, estendia a roupa, passava a ferro, experimentava novas receitas na cozinha. Enfim. Tudo era válido para manter a sua mente ocupada. Com passar dos anos, tornou-se na mulher que nunca pensou que iria ser. A perfeita dona- de-casa. A fada-do-lar. Submissa e dependente do marido. A vinte de Setembro de 1992, Sofia deu à luz um rapaz a quem o pai resolveu chamar de Rodrigo. Duarte estava radiante. Nunca pensou que fosse sentir aquela felicidade extrema quando segurou o filho ao colo pela primeira vez. Na altura, tinha as mãos trémulas, o coração a saltar pela boca e um sorriso estúpido nos lábios. Mas infelizmente, nas semanas que se seguiram, a alegria da parentalidade deu lugar à displicência total. Rodrigo era imprevisível, absorvente e não dormia mais do que duas horas por noite. Sofia encontrava-se exausta. Ainda que contasse com a ajuda de uma ama interna, todo o trabalho de amamentação recaía sobre si. O menino não lhe dava descanso. Chorava a noite toda e recusava-se a pegar o peito. Por vezes, Sofia sentia-lhe a maior raiva do mundo. Como se visse naquele pequeno ser de vinte centímetros a principal razão para o seu fracasso profissional. Duarte apenas cuidava da parte divertida da coisa. Apresentava e pavoneava o filho em frente à família e aos amigos como se fosse um troféu. Passado o primeiro mês, o advogado organizou um grande almoço em sua casa com cerca de trinta convidados em que não faltaram amigos como Jorge e Madalena. Foi a primeira vez que Sofia não olhou para Madalena com desdém. Não teve coragem de o fazer. Os seus olhos
  • 165. cansados, o rosto abatido e os quinze quilos que engordou após o parto, não lhe permitiram sentir-se superior a ela. No fundo, tinham-se tornado iguais. Mães e donas de casa a tempo inteiro. A meio do almoço, Jorge não quis acreditar quando Eva entrou no jardim acompanhada por Carlos Perestrelo, o pai de Duarte. Vinham numa conversa animada, muito bem-dispostos e sorridentes. Eva trazia um vestido vermelho cintado colado ao corpo. Os cabelos, contrariamente ao que era habitual, encontravam-se presos acima da nuca por um rabo-de-cavalo. Faziam-lhe uns anos mais nova e conferiam-lhe um aspecto fresco e jovial. Ninguém ficou indiferente à sua presença. Especialmente os homens. Era uma mulher demasiado bonita e uma ameaça constante para todas as mulheres casadas. - Outra galdéria – a esposa de Carlos Perestrelo não se escusou a comentar com as restantes mulheres que se encontravam sentadas à sua mesa. Eva cumprimentou todos os convidados de uma forma pouco efusiva e também não se mostrou particularmente entusiasmada por conhecer Rodrigo, o novo elemento da família. Apenas teceu apenas alguns comentários agradáveis, de circunstância. Depois, voltou a sair ao jardim e encontrou a figura da única pessoa que a levara ali. Jorge continuava sentado à mesa a beber um vinho na companhia de uma mulher. Pareciam muito íntimos e sorridentes. Eva adivinhou imediatamente de quem se tratava. Era Madalena. A esposa oficial. - Olá Jorge – Eva cometeu a loucura de se aproximar da mesa do advogado. Ao vê-la, Jorge gelou. – Olá… - Como estás? - Bem – Jorge respondeu com uma cara de poucos amigos. – E tu? - A fazer tempo para me ir embora. Na verdade, eu não queria vir! O Drº Carlos é que me intimou a aparecer neste almoço. Achei melhor não contrariar o meu chefe sob pena de perder o emprego. A resposta de Eva impeliu Madalena a esboçar um sorriso tímido. E a advogada, sem outro remédio, correspondeu igualmente à simpatia da mulher do seu amante. Era a primeira vez que a via de perto, trajada com um vestido branco discreto e umas sandálias prateadas quase rasas.
  • 166. Eva nunca a imaginou assim. Durante meses, tentou convencer-se de que Madalena não passava de uma mulher feia, desinteressante, algo obesa e desleixada – motivos que obrigavam todos os homens a traírem as suas respectivas esposas. No entanto, Madalena era o oposto de tudo o que concebera. Era bastante bonita, doce, magra e delicada. Tinha cabelos castanhos-claros ondulados pelos ombros e uma pele tão branca como papel. Os seus olhos eram vivos, mas inocentes. Sorria e era gentil com todas as pessoas que se aproximavam de si. Foi só nessa altura que Eva percebeu o quão diferentes eram uma da outra. Jorge conseguira a antítese perfeita entre duas mulheres. - Prazer! Eva Mendonça – a advogada estendeu a mão a Madalena perante o olhar aterrador de Jorge. - Prazer! Madalena Albuquerque… Ouviu-se um silêncio constrangedor. Jorge não soube onde enfiar a cara, Madalena continuou a sorrir inocentemente, e Eva, sentindo-se obviamente a mais naquela mesa, apressou-se a fazer as despedidas. - Bem! Tal como disse, foi um prazer! Vou apenas despedir-me do Drº Carlos e do Duarte. Ainda tenho que ir buscar o meu filho aos treinos de basket. No dia seguinte, quando voltaram a encontrar-se no escritório, Jorge e Eva discutiram pela primeira vez. Ele acusou-a de ter provocado uma situação constrangedora. Eva pediu desculpas, mas isso não acalmou a fúria de Jorge. A partir daquele momento, ele deixou de confiar nela. Percebeu que o melhor era afastar-se. Aos poucos, de uma forma suave e gradual, antes que o pior acontecesse. Mas para Eva já era tarde demais. A advogada encontrava-se demasiado envolvida e não se imaginava a viver sem ele. E o que era para ser apenas um caso sem pressões, envolvimentos ou cobranças, virou uma obsessão. Era usual enchê-lo de telefonemas, muitas vezes ignorados quando Jorge se encontrava na companhia da mulher e da filha. No escritório, arranjava todos os pretextos para se cruzar com ele. Sufocava-o com a sua presença, não admitia desmarcações à última hora, e como se não bastasse, passou a ameaçá-lo. Jorge estava farto. Já não a podia ver à frente sequer. Terminou com tudo a poucas semanas do Natal. Nessa altura, discutiram violentamente no quarto de hotel e ela atirou à parede uma garrafa de whisky que por pouco não lhe acertou na cabeça. Além de maníaca, era alcóolatra. Duas características que Jorge dispensava numa mulher.
  • 167. O ano de 1992 não terminou bem. A esposa de Carlos Perestrelo faleceu no dia vinte e três de Dezembro vítima de uma paragem cardíaca. O velório reuniu perto de duas centenas de pessoas e todos os funcionários da “Perestrelo&Associados”estiveram presentes. Ninguém se atreveu a faltar. Nem Jorge e nem Eva. Ele fez-se acompanhar da sua mulher, Madalena, e ela mais uma vez compareceu ao evento sozinha. No final do velório, Eva aproximou-se de um grupo de advogados. Jorge encontrava-se no meio, mas ficou imediatamente incomodado com a sua presença. Ainda tentou fugir, mas ela impediu-o a tempo, segurando-lhe o braço com alguma discrição. Do outro lado da capela, Madalena viu toda a cena e não gostou nem um pouco da proximidade dos dois. Tudo parecia correr bem no início do ano quando Jorge finalmente se livrou daquela relação doentia. Eva deixou de o procurar, de telefonar e de cercá-lo nos corredores do escritório. Parecia ter finalmente assimilado que ele já não queria mais nada com ela. Assim sendo, o advogado passou a dedicar mais tempo à família, talvez numa tentativa desesperada de compensar Madalena por uma traição que ela nunca chegou a descobrir. O casamento voltou à mó de cima. Fizeram um fim-de-semana romântico na Serra da Estrela e ele presenteou-a com um maravilhoso colar de diamantes. Disse que a amava e que ela era a mulher da sua vida. Ela acreditou. Regressaram a Lisboa no último fim-de-semana de Janeiro, altura em que Madalena começou a desconfiar que estava novamente grávida. Fez um teste de farmácia e deu positivo. Procurou a sua médica e teve a resposta final através de um exame de sangue. A gravidez de seis semanas confirmava-se. Não foi planeada, mas Jorge ficou radiante com a notícia. Desta vez rezava para que nascesse um rapaz. Todos os seus colegas foram unânimes em felicitá-lo, especialmente Duarte Perestrelo. Abriram uma garrafa de champanhe e brindaram a uma nova vida que aí vinha. Nessa altura, os quatro advogados convidados para a ocasião foram interrompidos pela entrada de Eva na sala de reuniões. Apesar de se ter juntado à festa, ela ainda não tinha percebido o motivo de tanta alegria. - Brinda connosco – Duarte estendeu-lhe uma taça de champanhe. - Porquê?! - Uma boa notícia! O Jorge acabou de saber que vai ser pai outra vez. Jorge não se soube muito bem porquê, mas a verdade é que a expressão vazia de Eva deixou-o alerta. O olhar que ela lhe lançou foi arrepiante. Um misto de ódio e de mágoa que não conseguiu esconder, ainda que soubesse que o caso de ambos já fazia parte do passado.
  • 168. - Parabéns, Jorge! Que este filho te traga imensa felicidade. - Obrigado – ele agradeceu à felicitação sem esboçar qualquer sorriso. O início da segunda gravidez não se revelou tão desgastante como a primeira. Madalena não teve tantos enjoos e nem se sentiu sonolenta. Continuou a realizar todas as tarefas domésticas e a cuidar da sua filha. Sara estava prestes a completar cinco anos. Já ia à creche e não dava tanto trabalho em casa. Agora era possível deixá- la sentada na mesa da cozinha a rabiscar os cadernos com os seus lápis de cor e canetas de feltro. Tinha-se tornado numa menina muitíssimo bonita, de cabelos volumosos como a mãe, olhos grandes como o pai e bochechas saídas. Todos a elogiavam pela sua beleza. Era irriquieta o quanto baste. Mexia em tudo o que via à frente, corria pela casa, passava a vida a gritar. Saltava para o colo do pai sempre que ele chegava a casa e não largava os braços da mãe um só segundo. Era uma criança feliz e Madalena sentia-se igualmente feliz por ter a família que sempre desejou. - Já vai – ela gritou quando ouviu a campainha tocar incessantemente naquela quarta-feira cinzenta de Fevereiro. Ao abrir a porta, submersa no barulho infernal dos gritos da sua filha, Madalena deparou-se com a figura de uma mulher distinta, mergulhada num fato preto formal. Não soube muito bem de onde, mas reconheceu-a de algum lado. - Acho que não se lembra de mim, mas nós já nos conhecemos… - Pois não?! – Madalena manteve a mão sobre a porta e impediu a filha de fugir para o jardim. - Eva Mendonça! Trabalho no mesmo escritório que o seu marido. O coração de Madalena sofreu um ligeiro tremor. - Aconteceu alguma coisa com ele? - Não! Mas eu gostaria de falar consigo por alguns minutos. Será que me podia deixar entrar? – Eva esboçou um sorriso maléfico. Naquela noite, Jorge regressou a casa mais tarde do que habitual. Um jantar chatíssimo com um cliente impossibilitou-o de chegar a casa antes das vinte e duas horas. Cansado, o advogado largou as chaves sobre a mesinha do corredor, despiu o
  • 169. sobretudo, pendurou-o no bengaleiro e seguiu até à cozinha. Mas contrariamente às suas expectativas, a habitação encontrava-se às escuras. Não havia vivalma e nem vestígios de que alguém havia estado ali durante o dia. Quando subiu aos quartos, a surpresa foi ainda maior. Jorge percebeu que nem Madalena e nem a filha estavam em casa. Por momentos, sentiu o seu coração desfalecer. Após vários telefonemas não atendidos à casa dos sogros, o advogado resolveu pegar nas chaves do carro e dirigir-se até lá. Subiu as escadas a correr e quando se viu diante da porta tocou à campainha sem hesitações. Ouviu um longo silêncio. Depois alguns passos a arrastarem-se ao longo do corredor, e no final, quando pensou que já não fosse aguentar mais, surgiu-lhe diante dos olhos a figura proeminente do sogro. Afonso vinha com uma cara de poucos amigos. - A Lena está aí? – Jorge não conteve a pergunta. - Está – Afonso manteve a porta encostada. – Mas ela não te quer ver. - Porquê?! Não estou a perceber o que se está … - Jorge! Eu acho melhor voltares para casa! Amanhã, vocês falam melhor! - Eu não vou sair daqui sem falar com a minha mulher – Jorge perdeu as estribeiras. - Estás demasiado nervoso. - E vou ficar pior ainda se não falar com a Lena! Porque é que ela veio para cá? O que é que aconteceu? Leonor surgiu por detrás do marido e esgueirou o pescoço. Viu no rosto do genro uma enorme expressão de angústia por não saber o que se estava a passar. - Deixa-o entrar, Afonso! - Leonor! A Lena já disse que não o quer ver… - Faz o que te digo e abre a porta, homem! A resposta preemptória da mulher obrigou Afonso a afrouxar o trinco da porta e a abri-la com alguma cautela. Não estava muito convencido de ter tomado a melhor decisão, mas na altura já não havia nada a fazer. Jorge saltou para dentro de casa e precipitou-se em direcção à sala. Encontrou a filha a brincar no tapete com a sua
  • 170. boneca preferida e não precisou de mais incentivos para a agarrar ao colo e enchê-la de beijos. Mais tarde, apertou-a contra o peito e sentiu-lhe o calor do corpo. Nunca se sentiu tão em paz. Madalena entrou na sala minutos depois. Trouxe no rosto uma expressão mortificada e os olhos inchados de tanto chorar. Não estava nada bem. Jorge pôde ter a certeza no minuto em que a viu. - Bem! Vamos deixar-vos a sós – Leonor retirou Sara do colo do pai. – Qualquer coisa e estamos na cozinha! Conversem com calma… Quando Afonso e Leonor levaram a neta até à cozinha, Madalena caiu no sofá, desolada. Na altura, não teve forças para encarar o rosto do marido. Também não tinha nada para lhe dizer. Qualquer explicação oferecida por Jorge seria vã e sem sentido, tal como vão e sem sentido era o casamento que mantinham há sete anos. - Lena! O que é que aconteceu? – Jorge ousou fazer a pergunta. Madalena manteve-se inerte sobre o sofá, com a cabeça enterrada no meio das pernas. - Eu cheguei a casa e não te vi lá! Pensei que tivesse acontecido alguma coisa contigo ou com a nossa filha. Fiquei preocupado. Quase enlouqueci… Madalena continuou sem responder. - Sentiste-te mal, foi isso?! Alguma coisa com a gravidez? A pergunta de Jorge foi o impulso que Madalena necessitou para erguer a cabeça e encará-lo com uma expressão de ódio. - Como é que foste capaz, Jorge? O advogado manteve-se em suspenso. – Capaz do quê!? - Eva Mendonça! Este nome não te diz nada? Pronto. Ali estava. A verdade que durante tantos meses conseguiu esconder. Jorge sentiu-se petrificado quando ouviu a mulher proferir o nome da sua ex-amante com uma expressão odiosa. Naquele momento, naquela fracção de segundo, daria tudo para que um buraco se abrisse por debaixo dos seus pés. Foi como se tivesse levado
  • 171. uma paulada atrás das costas sem qualquer aviso prévio. E nem valia a pena disfarçar, mentir ou negar um facto que parecia demasiado evidente. - Eu posso explicar… - foi tudo o que ele conseguiu dizer. - Explicar o quê, Jorge?! – Madalena levantou-se do sofá, esbaforida. – O que é que ainda tens para me explicar? Jorge foi incapaz de fornecer uma resposta coerente. - Fala – ela gritou. - Aquilo não significou nada para mim! Foi só sexo… - Pior ainda – Madalena gritou-lhe aos ouvidos. – Porque se te tivesses apaixonado por ela, se tivesses nutrido qualquer tipo de sentimento por ela, eu até podia compreender e aceitar os motivos que te levaram a trair-me com aquela mulher! Mas não! Tal como dizes, foi só sexo! O que quer dizer que nem para isso eu sirvo… - Não é nada disso, Lena – Jorge tentou alcançar-lhe os braços. - Eu só sirvo para limpar, cozinhar, tratar da casa e da nossa filha! Porque é só para isso que eu sirvo, não é Jorge? Uma barriga ambulante que carrega os teus filhos enquanto tens todo o tempo do mundo para andares a fornicar com as tuas colegas de trabalho. - Fala baixo, pelo amor de Deus! - Como fui burra… - ela levou as mãos à cabeça. – Burra! Burra! - Lena, eu já te disse! Aquela mulher não significou nada para mim. Foi um erro. Um estúpido erro do qual eu me arrependo amargamente. Mas acabou. Hoje jamais voltaria a pôr o nosso casamento em risco… - Agora já é tarde demais para pensares assim. - Não digas isso, Lena! Não me faças isto – o advogado tapou o rosto com as mãos.
  • 172. - Vou sair de casa – Madalena limpou as últimas lágrimas que lhe caíram do rosto. – Já falei com os meus pais! Eu e a Sara vamos ficar aqui por uns tempos até eu conseguir um outro lugar para moramos. - Isto não faz sentido nenhum! Não faz sentido saíres da tua casa para vir morar com os teus pais. - Aquela casa não é minha! Aquela casa foi comprada com o teu dinheiro. - Meu dinheiro?! Nosso dinheiro! Lena… - Jorge segurou-lhe a face com as duas mãos. – Nós vamos ter um outro filho! Não podes acabar com tudo agora! Não podes deitar fora todos estes anos só por causa de um… deslize meu! Eu sei que errei! Sei que fui um canalha, um filho da mãe, sei também que não mereço qualquer perdão pelo que fiz, mas eu não consigo viver sem ti. - Tivesses pensado nisso antes de me teres traído com outra. - Lena! Ouve-me… - Vai-te embora, Jorge! Por favor! Sai! - Lena… - Sai – ela gritou, esbaforida. Jorge colocou as mãos na cintura e levantou a cabeça em direcção ao tecto, apenas para que duas lágrimas não lhe caíssem no rosto. Estava tudo perdido, pensou. Por causa de um erro estúpido, de um acto irreflectido e de uma mulher vingativa e tresloucada, ele perdeu tudo o que lhe era mais importante na vida. A família que demorou anos a construir. No dia seguinte, chegou atrasado ao trabalho por não ter conseguido pregar olho durante a noite toda. Assim que saiu do elevador do escritório, Jorge apressou-se pelos corredores e só parou em frente ao escritório de Eva. Não esperou sequer ser anunciado. Abriu a porta de rompante e lançou-se contra ela, segurando-lhe o queixo com força e esmagando-a contra uma das paredes da sala. - Cabra – chamou-a com todo o ódio do mundo. – Se te voltas a meter no meu casamento outra vez, eu acabo com a tua raça! Eu mato-te, ouviste bem?!
  • 173. Eva bem tentou se livrar das mãos de Jorge sobre o seu queixo, mas na altura, foi-lhe impossível. – Só tiveste o que merecias. - E o que é que ganhaste com isso? - A felicidade de saber que ficaste na merda, tal como eu. - O meu casamento não vai acabar por tua causa – Jorge largou-a finalmente e apontou-lhe o dedo à cara. – Não te vou dar esse gostinho. - Pois era o que devias fazer – Eva encarou-o com altivez. – Acabar com o teu casamento e procurar uma mulher a sério! A tua querida esposa não passa de uma sonsa monga. Uma mulher submissa que vive em função de ti e que não tem sequer vida própria. Só faltou oferecer-me um chá quando lhe contei que tínhamos um caso. Nem sequer foi capaz de fazer um escândalo. Porque era isso que eu faria se a amante do meu marido me aparecesse lá em casa. - Podes dizer o que quiseres, Eva! Podes rebaixar a minha mulher à vontade, mas ela tem uma coisa que tu nunca vais ter… Eva manteve-se em suspenso com os olhos a faiscar de ódio. - Ela tem-me a mim – Jorge concluiu. – E nunca em tempo algum me passou pela cabeça largá-la para ficar contigo. Sabes porquê?! Porque ela dá-me coisas que tu nunca me irias dar, nem mesmo se nascesses de novo. E a reacção dela quando foste lá a casa destilar todo o veneno que guardas dentro de ti, muito por culpa dessa vida miserável que levas, apenas veio a confirmar o que eu já sabia. Que não podia ter escolhido outra mulher para me casar e ser a mãe dos meus filhos. Quando a porta do escritório se fechou violentamente, Eva sentiu uma onda de histeria invadir-lhe o corpo. Apeteceu-lhe gritar. Destruir tudo à sua volta. Mas não o fez. Em vez disso, deu um murro na mesa e atirou todas as pastas contra o chão, sabendo bem que aquilo era muito pouco para extravazar toda a raiva que estava a sentir naquele momento. Os dias que se seguiram não foram fáceis. Sempre que regressava a casa e se deparava com a escuridão no corredor, Jorge desesperava-se. A ausência da mulher e da filha estava aos poucos a matá-lo por dentro. Faltava o aroma aconchegante da cozinha, os gritos, risos e brincadeiras da sua filha pela casa inteira. O sorriso radiante de Madalena quando ele a surpreendia com um beijo atrás do pescoço. Os jantares em família. Os serões passados a ver televisão na sala. As manhãs
  • 174. prolongadas na cama aos fins-de-semana. Os almoços em casa dos sogros. Detalhes que sempre lhe pareceram sem importância mas que agora faziam todo o sentido. Até quando iria conseguir aguentar aquela prova de fogo, foi a pergunta que Jorge se fez a poucos minutos de enfiar mais uma lasanha congelada no forno. Na segunda semana de Março, Jorge recebeu um telefonema assustador. Estava no meio de uma audiência quando o primeiro telemóvel que comprara deu sinal de vida. Era um tijolo, pesado como tudo, mas dava imenso jeito para o trabalho quando não se encontrava no escritório. Carlos Perestrelo praticamente ordenou a todos os seus funcionários que adquirissem aquele aparelho de última geração. Os telemóveis estavam na moda, ainda que não fossem acessíveis a todas as bolsas. Quando saiu da sala de audiências, Jorge reconheceu o número no visor. Era o da casa dos sogros. Telefonou para lá e esperou alguns segundos. Afonso atendeu a chamada enquanto tentava acalmar o choro compulsivo da neta. Parecia nervoso, mas lá conseguiu explicar ao genro que Madalena havia sofrido um pequeno acidente. Leonor levou-a ao hospital e ele ficou em casa a tomar conta de Sara. A partir dessa altura, Jorge não quis ouvir mais nada. Voltou a telefonar para o escritório e avisou à recepcionista que não iria regressar ao trabalho naquela tarde. Depois, pegou no carro e dirigiu-se até ao hospital indicado pelo sogro. Felizmente não foi obrigado a aguardar por notícias. Uma auxiliar de saúde indicou-lhe prontamente o quarto onde Madalena se encontrava a descansar na companhia da mãe. - Que bom que chegaste, Jorge – Leonor beijou o genro na face. – Pensei que o Afonso não te fosse conseguir localizar. - Para alguma coisa serve essa engenhoca do telemóvel! Estava numa audiência e só consegui retornar a ligação uma hora depois – Jorge lançou um olhar assustado a Madalena e aproximou-se dela. – O que é que aconteceu? Estás bem? Ela não teve vontade de responder. - Foi um acidente sem gravidade – Leonor adiantou-se. – Caiu do banco da cozinha quando subiu ao armário para tirar algumas loiças. Só viemos ao hospital porque ela começou a sangrar. Jorge sentiu um baque no coração. – O bebé? Está tudo bem com ele? - Está – Madalena ajeitou os lençóis sobre o colo.
  • 175. - O médico que nos atendeu disse que foi apenas um susto – Leonor encontrou a sua mala e o seu casaco em cima da cadeira. – Bem! Vou deixar-vos a sós! Aproveito para beber um café lá em baixo. Até já! Leonor abandonou o quarto e permitiu que Jorge se sentasse perto da cama onde Madalena se encontrava deitada. - Como é que te sentes? - Estou melhor! Só foi o susto porque comecei a sangrar. - Isto tudo por minha culpa. - A culpa não foi de ninguém, aliás, a culpa foi minha por ter subido naquele banco. Fui uma idiota! Não o devia ter feito… Ouviu-se um longo silêncio até Jorge cair desesperado sobre o colo da mulher. - Lena! Eu já não consigo continuar assim! Morro de saudades tuas e da nossa filha. Não há dia que não me arrependa do que fiz. Ando desesperado. Por favor! Dá-me uma nova oportunidade! Juro que nunca mais te vou voltar a trair. Nunca mais vou olhar para outra mulher. Juro-te por tudo o que é mais sagrado! Por favor… Antes que dessem por si, Madalena e Jorge já se encontravam abraçados a chorar em silêncio todas as saudades que haviam sentido um do outro durante aquelas terríveis seis semanas de separação. Já não conseguiam esconder. Sentiam falta de tudo. Do calor, dos beijos e de uma vida que parecia entediante, mas que na verdade, era a melhor que podiam ter. Seis meses depois, Madalena voltou a dar à luz. Desta vez nasceu um rapaz, com cerca de três quilos, vermelho como tudo e chorão. Nasceu a chorar e assim continuou durante os três meses seguintes. Quando o pegou ao colo pela primeira vez, Jorge chegou à conclusão que já não lhe faltava absolutamente mais nada para ser um homem feliz. Tinha tudo. Dois filhos maravilhosos e a mulher que amava. - Qual o nome do nosso novo rapaz? – Afonso fez a pergunta ainda na maternidade. - Desta vez escolhes tu – Jorge voltou-se para a mulher.
  • 176. Madalena sorriu ao carinhosamente ao filho que tinha no colo e agraciou-o com um longo beijo na testa. Na altura, sentiu-lhe o maior amor do mundo. O mesmo amor que transbordou do seu coração quando Sara nasceu. - Daniel! Jorge regressou ao trabalho três dias após o nascimento do seu segundo filho. Entrou no escritório com um sorriso nos lábios e uma felicidade que não passou despercebida a ninguém. Mas infelizmente, o seu bom humor não chegou ao final do dia. Antes de dar por encerrado o expediente de trabalho, Jorge e os restantes funcionários do escritório foram chamados à sala de reuniões para um comunicado importante. Carlos Perestrelo fez questão que todos os seus funcionários estivessem presentes para ouvir o que ele tinha para dizer. Ao seu lado, manteve a figura diabólica de Eva Mendonça, que discretamente lhe segredou algumas palavras aos ouvidos e compôs a sua gravata azul com um à-vontade que a todos não passou despercebido. - Tal como todos sabem, no final do ano passado tive a infelicidade de perder a minha esposa de uma forma abrupta e repentina. Foi um período bastante difícil para mim e para toda a minha família, mas felizmente conseguimos superar esta perda. Assim, após quase um ano de luto, decidi que já era altura de recomeçar a minha vida ao lado de uma nova pessoa… – Carlos voltou-se para Eva e brindou-a com um sorriso carinhoso. – Decidi que me iria voltar a casar ainda este ano! Com a Drª Eva Medonça… Jorge sentiu como se tivesse levado um murro no estômago quando ouviu tamanha atrocidade. Procurou o rosto carregado de Duarte Perestrelo, que parecia estar a fazer um esforço sobre humano para não partir a caneta que tinha nas mãos. Ninguém quis acreditar naquela loucura. O chefe iria casar-se com uma mulher que tinha idade para ser a sua filha. E assim tornou-se oficial. Eva conseguiu a melhor promoção de sempre. O cargo de Senhora Perestrelo.
  • 177. 2004 Madalena resolveu assumir a sua relação com Sérgio no início do ano. Achou que não fazia qualquer sentido continuar a esconder-se, inventar desculpas descabidas aos filhos ou utilizar o seu pai como escudo de protecção para tomar conta dos netos sempre que ela se ia encontrar com o seu novo namorado. Não. Já era tempo de assumir uma relação que a fazia feliz, e pela primeira vez em toda a sua vida, não se preocupar com a opinião dos outros. Quando explicou aos filhos que encontrara uma pessoa especial, Madalena já contava com a reacção intempestiva de Sara e com o embaraço de Daniel. Afonso, o seu pai, incentivou-a a levar o novo namorado lá a casa. Também ele estava curioso para o conhecer. O jantar foi assim marcado para a terceira semana de Janeiro. Madalena realizou todas as compras e decorou a mesa da cozinha com algumas flores que trouxe da sua floricultura. Estava nervosa, não podia negar. Aquela seria a primeira vez que um novo homem iria entrar em sua casa. Desde o seu divórcio com Jorge, ninguém lhe conheceu um namorado ou nada que se parecesse. Por isso, era importante que os filhos e o pai morressem de amores por Sérgio. Se as coisas não corressem bem, ela não saberia o que fazer. No dia do jantar, Afonso alcançou seu relógio de pulso. Viu que nele estavam assinaladas vinte horas e doze minutos. Resmungou dizendo: o pelintra começa bem. - Pai… – Madalena fulminou o ex-militar com os olhos. – Comporta-te, por favor! - Olha lá! O Jorge por acaso sabe que estás a namorar com outro homem? - Porque é que ele haveria de saber? - Porque é o teu ex-marido e pai dos teus filhos. - O Jorge não tem nada a ver com a minha vida, pai!
  • 178. As suas mãos estavam trémulas e suadas. Sérgio pôde senti-las no momento em que abriu os portões da casa de Madalena e se preparou para aquela que iria ser a maior prova de fogo da sua vida. Durante o caminho, viu-se assombrado por várias questões. Será que os filhos e o pai da sua namorada iriam gostar de si? Como seriam? Como deveria comportar-se? Deveria ser simpático? Reservado? Ou pelo contrário, brincalhão? Eram demasiadas perguntas para tão pouco tempo de espera e isso ficou provado quando os seus dedos tocaram à campainha. Madalena apressou-se pelo corredor, ansiosa com aquela que parecia ser a chegada do seu convidado. Mais tarde, depois de um longo suspiro e de ter arranjado os cabelos em frente ao espelho, abriu a porta e encontrou a figura de Sérgio coberto com um sorriso, um ramo de rosas, duas caixas de chocolate e uma garrafa de vinho. - Estás todo carregado – ela riu-se alegremente, repartindo com ele o peso dos presentes. - Por pouco não comprava o supermercado todo. - Entra! - Obrigado. Sérgio acedeu ao pedido de Madalena, roubando-lhe antes um longo beijo junto à porta. Pouco tempo depois, seguiram de mãos dadas em direcção cozinha. Cheirava bem. Cheirava a pato assado, a arroz e batatas fritas. Para além disso, o calor do forno conferia um conforto especial em contraste com o frio que se fazia sentir na rua. Quando chegou à cozinha, Sérgio deparou-se com os filhos e o pai da sua namorada. Sara encontrava-se de olhos postos na televisão, Daniel continuava a jogar na sua Playstation portátil, enquanto Afonso, curioso, espreitava o pato trinchado sobre a bancada. Os três personagens só se aperceberam da presença do fotógrafo quando Madalena iniciou as apresentações. Nessa altura, Sérgio voltou a sentir as suas mãos suadas. O jantar foi servido às nove horas. À mesa sentaram-se todos, prontos a degustar a refeição confeccionada por Madalena. Sérgio ainda estava nervoso, ela reparou. Mas Afonso tentou acalmar o namorado da filha fazendo-lhe perguntas leves e humoradas. Quis saber tudo. Idade, profissão, pormenores sobre a família e curiosidades como o facto de andar sempre rodeado modelos profissionais. Um sonho de qualquer homem, diga-se de passagem, Afonso acrescentou. - Por acaso não – Sérgio respondeu-se, encabulado. – É trabalho! Não tem nada de divertido.
  • 179. - Bem que gostaria de ter tido um trabalho tão pouco divertido como o teu quando tinha a tua idade. - Pai – Madalena fulminou Afonso com os olhos. - O que foi? Só lhe estava a elogiar o trabalho… - Eu sei bem o que estavas a tentar fazer! Sérgio, não ligues ao meu pai! Tal como te disse, ele é um adolescente de dezoito anos preso num corpo de sessenta e oito. Todos se riram à mesa, menos Sara. Durante o jantar, ela observou o namorado da sua mãe com atenção. Era extremamente bonito, alto, com cabelos castanhos aparados, barba rasa e olhos verdes. Apreciou-lhe os gestos, o sorriso límpido e os dentes brancos. Era sexy, ainda que não tivesse consciência disso. Sara perguntou-se em silêncio: O que é que um homem como ele tinha visto numa mulher como a sua mãe? Madalena não tinha graça nenhuma, apesar de não ser feia. Não possuía qualquer atributo extraordinário que pudesse chamar a atenção de um homem como Sérgio. Então o que é que ele tinha visto nela? Enquanto a observava com atenção e reparava que Madalena não se coibia de tocar o namorado no rosto a cada cinco minutos, Sara sentiu uma enorme vontade de destruir tudo o que se encontrava naquela mesa. Saltar para o pescoço de mãe e sufocá-la até à morte. Vê-la morrer à sua frente. Seria normal uma filha desejar fazer isso a uma mãe? - Mas em breve vou deixar a área da moda – Sérgio retomou o assunto. – Este ano vou estar mais ligado ao fotojornalismo através de uma ONG. Um projecto interessante que me surgiu e que quero abraçar com força. - Mas que bem – Afonso notou. – Vejo que tem ambições profissionais. - O Sérgio é um excelente fotógrafo – Madalena voltou a mexer nos cabelos do namorado. – Tens que mostrar o teu trabalho ao meu pai um dia desses, amor… - É claro! Quando ele quiser. - Agora fiquei curioso – Afonso sorriu. Sara não conseguiu esconder o brilho nos olhos quando, a meio do jantar, Sérgio sorriu para si. Quando os seus olhos se voltaram a cruzar com os dele, a jovem sentiu
  • 180. inúmeros calores começarem-lhe a subir pelo corpo. Da ponta dos pés até ao último fio de cabelo. Eram calores estranhos que a acompanhavam desde há muito, nomeadamente desde que descobrira o sexo e a pornografia em casa do pai. Sara pensou por momentos que fosse enlouquecer naquela mesa. Só pensava nisso. Até o simples mastigar de alimentos era para ela um gesto erótico. Os seus olhos ficaram turvos e a pele começou a vermelhar. Ela observou as mãos de Sérgio sobre a mesa a agarrar gentilmente os talheres. Viu-lhe também os pelos dos braços a sair da manga da camisa. Tudo nele gritava novo e perigoso. Os lábios, os olhos verdes, o nariz esculpido na perfeição e os dentes afiados que devoravam o pato cozinhado pela sua mãe. E foi então, numa fracção de pura insanidade mental, que ela retirou o pé esquerdo do sapato e levou-o em direcção as pernas de Sérgio. Encontrou-lhe o sexo por debaixo da mesa, tocando nele ao de leve. O fotógrafo, que se encontrava entretido numa conversa animada com Afonso e Madalena, quase desmaiou de susto. Arrastou a cadeira num gesto brusco e derrubou o resto do vinho que ainda tinha no copo. No fim, lançou um olhar esmagador à filha da sua namorada numa tentativa desesperada de encontrar justificações para aquele acto leviano. - Estás bem? – Madalena perguntou. - Estou – Sérgio tentou ignorar os risos irritantes de Sara. – Desculpa! Aliás, desculpem! Não sei o que é que me aconteceu. Sujei a toalha toda. - Não faz mal! Está tudo bem – Madalena levantou-se prontamente da mesa. – Vou buscar um pano para não manchar a mesa. - Não fique assim, homem! Acidentes acontecem – Afonso tentou aliviar a culpa de Sérgio. O jantar terminou em silêncio apesar das inúmeras tentativas de Afonso em levantar o astral da mesa. Infelizmente, isso nunca chegou a acontecer. Depois do sucedido, Sérgio não conseguiu omitir o seu constrangimento sempre que os seus olhos se cruzavam com os de Sara. Quando isso acontecia, ela mostrava-lhe um sorriso debochado. Parecia não ter consciência e nem sequer limites. Sérgio não precisou de muito tempo para chegar à conclusão que a filha da sua namorada era completamente desiquilibrada. Algo de errado tinha acontecido naquele jantar. Madalena percebeu isso quando Sérgio se recusou a atender a sua quarta chamada telefónica. Passou-se uma semana e nada. Nem um sinal de vida. Por esse motivo, após uma intensa jornada de trabalho e de ter pedido ao seu pai para que fosse buscar os netos ao colégio, ela
  • 181. aventurou-se pelo trânsito caótico da cidade. Demorou vinte minutos a chegar ao estúdio de Sérgio, depois de ter estacionado o carro a poucos metros de um velho edifício. Mais tarde subiu ao segundo piso. Tocou à campainha e aguardou resposta. - Boa tarde – um homem desconhecido abriu-lhe a porta. O mesmo exibia um sorriso agradável. Trazia também uma camisa preta e umas calças de ganga amarrotadas. Os cabelos cacheados caíam-lhe um pouco sobre os olhos. Não era uma figura que Madalena conhecesse. - Boa tarde – ela respondeu ao cumprimento. – Eu gostaria de falar com o Sérgio Almeida. Ele está? - Saiu há algum tempo! Foi buscar uns materiais, mas não deve demorar. Alguma coisa em que lhe possa ser útil? - Não! Era mesmo com ele. - Entre – o homem abriu passagem. Era bastante simpático, Madalena reparou. – Sou o Tiago! O sócio do Sérgio e um amigo também. - Prazer, Tiago – Madalena apertou-lhe a mão. – Eu sou a Madalena. - O prazer é todo meu! Venha! Pode ficar à espera aí na sala… Madalena aguardou vários quartos de hora sentada sobre um cadeirão de pele. Olhou constantemente para o relógio e culpabilizou-se por estar mais uma vez a abusar da boa vontade do seu pai. Não era a primeira vez que o fazia, mas ainda assim sentia-se mal por isso. Na sala ao lado, Tiago continuou a revelar algumas fotografias, atarefado com os prazos de entrega de um álbum de casamento. Sempre que saía, esboçava um sorriso gentil a Madalena e ela correspondia de forma igual. Não era um homem de muitas palavras, foi fácil chegar a essa conclusão, mas pelo menos era simpático. Por fim, após uma hora e meia de espera, a porta do estúdio voltou a abrir-se. Sérgio entrou na sala, carregado com vários tripés, lentes e máquinas fotográficas. Trouxe também um cansaço no rosto que rapidamente desapareceu quando viu Madalena à sua frente. - Desculpa vir sem avisar – ela levantou-se do cadeirão.
  • 182. - Não! Eu é que peço desculpas – Sérgio largou os dois tripés que trouxe a um canto da sala. – Devia ter ligado. - Posso saber o que é que aconteceu? - Não aconteceu nada. - Desapareceste! Deixaste de atender os meus telefonemas, deixaste de me procurar também. Ainda achas que não aconteceu nada? Sérgio bem quis responder à pergunta, mas nesse instante a porta da sala de revelações voltou a abrir-se. - Chegaste – Tiago limpou as mãos a uma toalha branca. - Sim! Consegui trazer o que ainda faltava… – Sérgio entregou alguns recibos ao seu sócio. – Mas ficaram duas caixas lá em baixo! Achas que me consegues trazer? - Claro – Tiago percebeu imediatamente que o amigo queria ficar sozinho no estúdio. - Tens aqui as chaves do carro. - Está bem! Aproveito também para beber um café que tenho medo de adormecer ali naquela sala às escuras. Tiago despediu-se de Madalena com um breve aceno e abandonou o estúdio minutos depois. Ouviu-se um novo silêncio até Sérgio arranjar a coragem para falar. - Acho que te devo uma explicação, não?! - Talvez – Madalena manteve-se de braços cruzados. – Será que me podes dizer o que foi que aconteceu? - Lena… - Não gostaste dos meus filhos e do meu pai, foi isso? - É claro que gostei – ele pareceu hesitar na resposta. - Então diz-me o que é que aconteceu!
  • 183. Sérgio podia dizer tudo. Podia dizer que o único motivo para que se tivesse afastado daquela forma tão abrupta foi tão-somente por ter sido assediado pela filha da sua namorada. Podia contar que Sara teve o atrevimento de lhe tocar o sexo com os pés. Do medo e da vergonha que sentiu quando isso aconteceu. Da vontade nula em destruir a boa imagem que Madalena ainda tinha da filha. Enfim. Podia ter dito tudo isso e terminar de vez com todas as desconfianças, mas algo muito forte o impediu de falar. Talvez a expressão desolada de Madalena ou o amor incondicional que ainda nutria por ela. - Já vi que foi um erro – Madalena chegou a essa conclusão quando ele desviou mais uma vez o olhar. - Lena! Espera… - Sérgio tentou impedi-la de sair do estúdio. - Eu tinha-te avisado, lembraste?! Eu disse-te desde o início que tinha dois filhos, que tinha um pai que passava a vida em minha casa e que tinha acabado de sair de um casamento com um ex-marido que até hoje me atormenta. Não te menti em nenhum momento da nossa relação. Sempre joguei limpo contigo, e mesmo assim, disseste- me que estavas disposto a enfrentar tudo para ficar comigo. Enganaste-me! Fizeste- me acreditar que isto poderia dar certo! Fizeste-me contar tudo aos meus filhos e ao meu pai. Fizeste-me organizar aquele maldito jantar para depois desapareceres sem deixar rastro… – os olhos de Madalena encheram-se de lágrimas. – Tens a mínima ideia de como me sinto ridícula neste momento a olhar para ti? Tens a mínima ideia de como vou sentir ridícula quando chegar a casa e o meu pai ou os meus filhos me perguntarem o que foi feito de ti? Sérgio manteve-se em silêncio. - Não tens realmente a mínima ideia! Mas se queres saber, eu até acho que foi melhor assim! Não terias estofo para aguentar esta relação! Se não és capaz de enfrentar todos estes problemas comigo, se não és capaz de gostar dos meus filhos e do meu pai, então também não gostas de mim e não mereces que eu perca o meu tempo contigo… Naquela noite, apesar de ter feito o jantar para os filhos, Madalena não conseguiu engolir nenhum alimento sólido. Apenas serviu a refeição às crianças, arrumou a cozinha e refugiou-se no quarto a chorar em silêncio. Deitou-se na cama, desolada, odiando-se por ter acreditado nas palavras e nas juras de amor de Sérgio. Odiou-se também por ter pensado que porventura aquela relação iria resultar. Não deveria ter sido mais esperta? Será que a vida ainda não lhe tinha ensinado a lidar com as
  • 184. questões do amor? Será que já não lhe bastava um casamento fracassado de dezasseis anos? Porque é que quis complicar tanto a sua vida envolvendo-se com um homem que nunca chegou realmente a conhecer? - Mãe – Daniel bateu-lhe à porta do quarto. - Diz, amor! O que foi? – Madalena apressou-se a limpar as lágrimas apenas para que o filho não a visse a chorar. - O Sérgio está lá em baixo. Madalena demorou algum tempo a acreditar que aquilo fosse verdade, mas quando desceu à sala e observou a figura de Sérgio sentado sobre o sofá, as suas dúvidas dissiparam-se. Não foi preciso dizer nada. Ele abraçou-a no interior daquela sala gigantesca, beijou-a e perdeu-se nela durante longos minutos. Por fim, quando a segurou no rosto, sentiu por ela o maior amor do mundo. Amava-a, isso era um facto assente. E seria uma loucura desperdiçar todo aquele amor que crescia a cada segundo por causa de um acto irreflectido de uma adolescente de quinze anos encantada com o namorado da mãe. Não era a primeira vez que Sara faltava às aulas ou que colocava os pés naquele local e também não era a primeira vez que dava consigo a desviar-se de três toxicodependentes, um traficante à porta de um café e duas prostitutas de serviço, indiferentes ao tempo e ao espaço. O cenário repetia-se todos os dias e não trazia nada de novo para as centenas de pessoas que habitavam o bairro do Intendente. Apenas Sara parecia deslumbrada com todo aquele ambiente. Uma jovem de dezasseis anos acabados de fazer, que ainda continuava a ter sonhos eróticos, a masturbar-se no quarto, a ver filmes pornográficos e a prostituir-se sempre que conseguia sair de casa escondida a meio da noite. A vontade de ter sexo com todo e qualquer homem que mostrasse minimamente interessado em si crescia a cada semana. E sim. O Intendente era o local propício para encontrar homens assim, não precisando de ser especialmente bonito, inteligente, rico ou proveniente de uma certa raça. Na verdade, só precisava satisfazê-la. Retirar- lhe toda a angústia do peito e fazê-la sentir-se desejada nem que por breves instantes. Era meio-dia. Pelo largo, passeavam duas ou três raparigas, com saias curtíssimas, pernas escanzeladas e a beleza a sumir-se na magreza extrema. Transitavam pela prostituição e pelo tráfico de droga. Encostada a um muro, uma delas avistou Sara de longe. Lembrou-se que aquela não era a primeira vez que a via por ali. Tinham-se passado apenas dois meses, mas a prostituta continuava a recordar-se perfeitamente
  • 185. dos traços físicos daquela jovem distinta. Não era usual adolescentes como ela pisarem aquele local. A mesma prostituta acendeu um cigarro e levou-o à boca. Em seguida, enfiou o isqueiro na sua mala a tiracolo, ajeitou os cabelos e seguiu calmamente até ao outro lado da rua. O dia encontrava-se particularmente cinzento e chuvoso, mas isso não a inibiu de vestir uma mini-saia minúscula e uma camisola decotada. Na mão, levava um casaco de ganga velho e gasto. A maquilhagem, como sempre, era extravagante e berrante. - Tu por aqui outra vez!? - Lembra-se de mim? – Sara esboçou um sorriso nervoso quando a viu à sua frente. - É claro que me lembro! E tu?! Lembras-te do que eu te disse? - O quê? - Que este não era lugar para miúdas como tu. Sara sabia que a prostituta tinha razão. De facto, aquele não era o lugar indicado para si. Mas ainda assim, apesar de todos os riscos, era ali que ela queria estar. - Será que podíamos conversar num outro sítio? – a jovem perguntou. - Eu não tenho nada para conversar contigo, miúda! Estou a trabalhar. - Mas é exactamente sobre trabalho que eu quero falar consigo. - Que tipo de trabalho? - O mesmo que você faz. - Desculpa?! – a prostituta franziu o sobre olho. A pensão onde costumava encontrar-se com os seus clientes foi o local escolhido por Milene – assim se chamava a prostituta – para aquela conversa. E ao subir as barulhentas escadas daquele edifício a cair aos bocados, Sara sentiu-se prestes a cair num abismo. Estava ali. Finalmente tinha arranjado coragem para estar ali e a verdade é que não se sentia nem um pouco arrependida por isso. Durante semanas
  • 186. teve receio de perder o que na verdade já não tinha. Pudor e vergonha de admitir que era viciada em sexo. - Entra – Milene abriu a porta assim que chegaram ao quarto. Era pequeno, Sara reparou. Desprovido de muitos móveis ou outros objectos de decoração. Abrigava apenas uma cama desfeita, demonstrando não ter passado muito tempo desde a última vez que Milene se deitara ali com outro homem. Era visível também uma mesinha de cabeceira a cair aos bocados, uma cómoda com um espelho em cima e uma cadeira velha forrada a veludo. Para além disso, as paredes encontravam-se sujas e gastas tal como o tapete vermelho junto à cama. - Desculpa a desarrumação – Milene observou os olhos curiosos de Sara. – Não tive tempo para ajeitar as coisas. - Não faz mal. - Disseste que querias falar comigo sobre trabalho. - Sim – Sara largou a mochila no chão. - E o que é que queres falar sobre o meu trabalho para além do que já sabes? Sara pareceu hesitar por alguns instantes e Milene percebeu essa hesitação. - Fala – a prostituta imperou, impaciente. – O que é que queres saber? - Posso tratar-te por tu? - Bem! Tal como já deves ter reparado, não sou nenhuma lady, não é?! - Quero que me ajudes – Sara encheu o peito de coragem. - Ajudar-te?! - Sim! Quero que me ajudes a trabalhar aqui. - Trabalhar no quê? – Milene franziu o sobre olho. - Como prostituta.
  • 187. A resposta arrancou uma gargalhada ruidosa a Milene. Trabalhar como prostituta, ela repetiu, incrédula, enquanto se ria a bom rir e levava o cigarro à boca. Na verdade, a oferta de Sara era de tal maneira descabida que nem sequer deveria ser levada em consideração. E foi isso que Milene tentou fazer durante vários minutos. Não a levou em consideração, não quis acreditar nela e recusou-se a aceitar o facto de que uma jovem de dezasseis anos, que aparentemente tinha todas as regalias e todos os mimos dos pais, se quisesse submeter a uma profissão tão humilhante àquela. Mas quando os seus olhos se voltaram a cruzar com os Sara naquele quarto minúsculo e imundo, Milene percebeu que a jovem não estava de facto a brincar. - Tu estás mesmo a falar a sério? - Estou! Eu quero trabalhar aqui. - Como prostituta!? - Como prostituta. - Espera aí – Milene passeou pelo quarto, atordoada. – Deixa-me ver se estou a perceber! Tu, que nem sequer tens dezoito anos de certeza, que és rica a ver pelas roupas que trazes, com essa carinha de anjo, queres ser prostituta e queres trabalhar aqui no bairro! É isso? - Sim! Podemos fazer um acordo. - Que acordo!? – Milene sugou o cigarro que tinha nas mãos. - Eu já tinha começado a trabalhar como prostituta. Aqui perto, pela avenida e também ali na Praça da Figueira. Mas acontece que não consigo sair todos os dias à noite por causa da minha mãe. - Porquê? Ela não apoia a tua nova profissão? – Milene não resistiu à ironia. - Para mim seria muito mais fácil trabalhar durante o dia – Sara ignorou-lhe o comentário. – Das dez às cinco! É a altura onde supostamente deveria estar nas aulas. Assim ninguém desconfiava de nada. Eu vinha de manhã, ajudavas-me a arranjar clientes e no final do dia repartíamos os lucros… Milene nem quis acreditar naquela proposta descabida. – Estás-me a propor que eu me torne na tua chula, é isso?
  • 188. - Eu não preciso do dinheiro. - Então o que é que queres? Não estou a perceber… - Só quero fazer sexo. - Se queres fazer sexo porque é que não arranjas um namorado? Sara manteve-se em silêncio. Milene nunca iria compreender os seus motivos. - Escuta! Eu também já tive a tua idade, também já fui curiosa, mas não penses que esta profissão é pêra doce. Não penses que é divertido abrir as pernas o dia todo para o primeiro que aparece à frente ou então para àquele que pagar mais. É preciso ter-se muito estômago para aguentar certos homens que aqui aparecem, certas coisas que nos pedem para fazer e para não vomitares de nojo com o cheiro de alguns. Não vais encontrar por aqui nenhum Brad Pitt ou um George Clooney. Estás a ver os homens ali em baixo? – Milene tomou-a pelo braço e levou-a violentamente em direcção à janela. – É com essas coisas que vais ter que te deitar todos os dias! Percebes? Estás iludida! Andaste a enfiar coisas na tua cabeça que não correspondem à realidade. - Mesmo assim! Eu quero experimentar – Sara afirmou, resoluta. – Se gostar, continuo. Se não gostar, vou-me embora… Quando terminou o cigarro, Milene enterrou a beata no cinzeiro sobre a cómoda e lançou um olhar desafiador àquela jovem que parecia ter toda a experiência do mundo. Não seria muita pretensão sua achar que iria gostar de ser prostituta? Será que ainda não se havia dado conta dos perigos que estava a correr ao entrar numa vida completamente desregrada, sombria e desleal? Na verdade, Milene tinha algumas dúvidas, mas ainda assim quis desafiar Sara com uma pergunta: - E quando é que queres começar? - Pode ser amanhã. - O.k! Amanhã – Milene aproximou-se dela e atirou-lhe os cabelos para trás das costas. – Arranja-te bem! Depila-te! Trás uma roupa provocante! Trás também alguns produtos de higiene para te lavares… Sara acenou com a cabeça embora os seus olhos ainda demonstrassem algum medo.
  • 189. - Outra coisa! Enquanto estiveres a trabalhar, nada de beijos na boca mesmo que te peçam. Nada de sexo oral sem preservativo. Escusado será dizer que o mesmo se aplica a todo o tipo de sexo. Usa sempre preservativo e não te deixes ir naquela conversa de que sem ele é melhor. Quem não consegue manter uma erecção com preservativo, que vá para casa foder com a mulher porque nós não estamos aqui para apanhar as doenças deles. Elas que se casaram, elas que apanhem! Hã… e os encontros são sempre feitos em locais escolhidos por ti. Mesmo que te convidem para ir a hotéis luxuosos, não aceites! Este bairro é a nossa salvação e vais encontrar sempre alguém que te ajude caso aconteça alguma coisa… - Aconteça o quê? – Sara perguntou, assustada - Caso alguém tente espancar-te, violar-te, obrigar-te a consumir drogas ou simplesmente não te queira pagar. Nesta pensão, eles não se vão atrever a armar-se em engracadinhos porque temos alguns amigos especiais que tomam conta de nós na recepção. Para isso, basta ofereceres uns troquinhos antes de subires e tens a vida salva. As explicações de Milene continuaram durante largos minutos, e enquanto a ouvia com a máxima atenção, Sara deu-se consigo a pensar se não estaria realmente a cometer uma loucura. Tinha pensado tanto antes de lá ir, mas agora parecia que o medo se estava a apoderar de si. - Ainda estás a tempo de desistir – Milene pressentiu-lhe a dúvida. - Não! Eu não vou desistir. - Nunca te atrevas a atender um cliente na rua e também nunca te atrevas a denunciar-me à polícia, porque se fizeres isso, eu vou dizer que não te conheço de lado nenhum e que tu és louca! Sara despediu-se de Milene com a promessa de voltar no dia seguinte. Contrariamente a todas as outras prostitutas no bairro, não o estava a fazer por questões económicas. Não tinha filhos para sustentar, contas para pagar, não era desempregada ou toxicodependente e nem era sequer era explorada por nenhum chulo. Também não queria saber do dinheiro para nada, pois ficara acordado com Milene que juntas iriam repartir os lucros. Não esperava encontrar ali o seu príncipe encantado tão pouco. A única coisa que queria era ter alguém que lhe retirasse do peito aquele sentimento horrível de carência afectiva. E talvez ali, em pleno Intendente, ela conseguisse esse milagre.
  • 190. No dia seguinte, ao entrar na pensão onde tinha combinado encontrar-se com Milene, Sara foi interceptada por um homem mal-encarado, magro, de olhos e cabelos escuros. Na boca, trazia um palito, e no corpo, um fato de treino verde que em tudo lhe acentuava os ossos das pernas. Saiu de uma portinhola enferrujada e perguntou rispidamente. - O que é que queres? Sara recuou dois passos, assustada. – Vim ter com a Milene. - O que é que andam a tramar? - Nada! Só vim falar com ela! E então?! Posso subir ou não? - Podes! Mas é bom que não me tragas nenhuma confusão aqui dentro! Muito menos a bófia… Sara ignorou as ameaças do dono da pensão e o olhar desafiador que ele lhe lançou. Subiu as escadas a correr, levando a sua mochila às costas. Minutos depois, bateu à porta do quarto de Milene e aguardou resposta. - Sempre vieste – a prostituta abriu-lhe a porta. - Eu disse-te que vinha. - Entra lá! Sara acedeu ao pedido. – Fiz aquilo que me mandaste. - O quê!? - Depilei-me, trouxe sabonete, gel de banho, toalhas, preservativos e tudo o resto… Milene acendeu um cigarro. – És boa ouvinte! Mas eu também fiz aquilo que me pediste. - O quê? - Já te arranjei o primeiro cliente.
  • 191. - A sério?! - Sim! Está no segundo piso e é um dos meus melhores clientes! Paga bem, vem-se depressa e não pede para que lhe façam coisas muito estranhas. - Como é que ele se chama? – Sara perguntou à cautela. - Para quê que isso te interessa? Não precisas saber o nome, a profissão ou sequer o estado civil. É só um cliente. - Está bem. - Se ele quiser, ele diz-te o nome! Se ele não disser, também não perguntes… Milene apressou-se a calçar os seus saltos em frente ao espelho do quarto, ainda com o cigarro na boca. Sugou-o com voracidade e exalou o fumo pelo nariz. - Já falei com ele! Disse que só tinhas dezasseis anos e o gajo excitou-se todo. Depravados esses homens, pá! Só querem saber de carne fresca. - E aquela tua amiga… - Sara mostrou-se curiosa. - Quem!? - A mais velha! A que estava contigo na primeira vez que eu cá vim! Ela tem quantos anos? - Hã, essa… – Milene riu-se alegremente. – Cinquenta e dois. - E ainda continua a ser prostituta? - O que é que queres?! Quem entra nesta vida já não sai! E acredita que existem prostitutas aqui na zona muito mais velhas que ela. - Ela tem muitos clientes? - Uns gatos-pingados – Milene ajeitou os cabelos compridos em frente ao espelho, mantendo o cigarro na boca. – Essa Arlete armou-se em parva, apaixonou-se por um chulo e acabou sem nada. Dava-lhe o dinheiro todo para ele guardar e um dia o estupor desapareceu com tudo. É por isso que ela ainda anda nesta vida. Mas eu,
  • 192. quando chegar aos trinta, fecho a loja e pisgo-me daqui. Nunca mais ninguém me vê neste bairro. - Tens quantos anos? - Vinte e quatro. Enquanto observava Milene arranjar-se em frente ao espelho e a maquilhar-se primorosamente, Sara não soube porquê, mas subitamente desejou ser como ela. Queria ter aquele corpo escultural, aquela sensualidade que parecia transpirar-lhe por todos os poros e a confiança de uma mulher que apesar de saber que era prostituta, nunca perdia a pose e a dignidade. Assim era Milene e era assim que Sara um dia também gostava de ser. - Bem! Vou buscar o gajo lá fora! Estás pronta? - Acho que sim – Sara demonstrou alguma ansiedade na voz. - Não fiques nervosa! Já volto… Os minutos que se seguiram foram de alguma inquietação e tudo porque Sara não conseguiu controlar o seu coração que mais parecia querer saltar-lhe pela boca. Estava nervosa. Mais do que alguma vez pensou que iria ficar. O trinco sofreu uma ligeira pressão. A porta abriu-se e a primeira pessoa a entrar foi Milene. Logo em seguida entrou o cliente. Era extremamente alto, foi a primeira característica física que Sara reparou. Não era muito bonito, não parecia muito simpático, mas pelo menos encontrava-se bem vestido. Sara deu-lhe cinquenta anos no máximo. - Era desta rapariga que te estava a falar – Milene adiantou-se. - Interessante! É muito bonita – o cliente lançou um olhar intenso a Sara. – Como é que te chamas? Ouviu-se um longo silêncio. - Chama-se Luísa – Milene mentiu. - Tens quantos anos, Luísa?
  • 193. Sara voltou a rasgar um olhar aflito a Milene e respondeu. – Dezasseis. - Tens a certeza? - Queres o BI? – Milene atacou prontamente o cliente. – Ou vais-me dizer que não acreditaste quando te disse que a gaja ainda era menor? - Tem calma, princesa! Não estou a desconfiar de ti. - Hã pensei… - Só queria confirmar! A miúda parece ter mais idade do que aquela que me disseste. Onde é que a arranjaste? - Isso não é da tua conta! E então?! Queres ou não? - É claro que quero. Sim. Ele queria-a. Queria-a não só pela idade ou pelo corpo, mas também pelo rosto inocente que aparentava ter. Realmente não era todos os dias que uma rapariga daquelas lhe passava pelas mãos e desperdiçá-la seria uma burrice. Sara possuía todas as características físicas que o atraíam. Era alta, tinha com corpo bem definido, olhos castanhos e cabelos escuros. Podia ser facilmente confundida com uma miúda da secundária ou com uma rapariga de classe média alta devido aos seus traços finos e gestos delicados. Por momentos, relembrou-lhe a sua sobrinha. Uma outra adolescente que várias vezes cruzou o seu imaginário sexual. - Quanto é? - Duzentos! Ou melhor, duzentos e cinquenta euros – Milene respondeu. - Duzentos e cinquenta!? Estás a gozar com a minha cara? - Qual é?! Vais reclamar do preço? Estou-te a fazer uma oferta dessas e tu ainda reclamas? Já olhaste bem para a cara da miúda? Tens sorte é de te estar só a pedir duzentos e cinquenta, porque noutro lado, o preço duplicava ou triplicava. Ou se quiseres posso chamar a Arlete lá em baixo. Queres? - Tudo bem! Eu pago… – o cliente deu-se por vencido e alcançou a sua carteira no bolso interno do casaco. Pensava oferecer o dinheiro a Sara, afinal de contas era ela
  • 194. quem lhe iria prestar o serviço, mas assim que estendeu o braço, Milene adiantou-se dizendo: - Obrigada. - Agora viraste chula, é?! - Não te metas onde não és chamado – Milene enfiou as notas no decote do seu vestido. – E vê lá se tratas bem a minha colega, ouviste?! Se te portares mal, já sabes o que te acontece! O Nuno está lá em baixo. Quando a porta do quarto se fechou e Sara se viu sozinha naquele quarto ao lado de um desconhecido que tinha praticamente idade para ser seu pai, uma onda de nervosismo atravessou-lhe o corpo. Foi horrível do princípio ao fim, doloroso, e durante largos minutos, Sara viu-se metida num verdadeiro inferno sem tempo e sem hora para acabar. Por baixo do corpo do seu cliente, com os olhos postos no tecto e os braços estendidos na cama, Sara rezou para que aquele inferno terminasse o mais depressa possível. Pensou em tudo o que poderia pensar. Numa música, num filme, numa notícia escutada na rádio, no tempo que fazia lá fora ou até no que iria comer para o jantar. Perto do final, surgiu-lhe a visão do rosto da sua mãe e do seu pai. Foi a gota de água. Antes que desse por si, já duas lágrimas lhe caíam pela face. O cliente não foi nem um pouco cuidadoso consigo. Quanto terminou a tarefa, saiu da cama e voltou a vestir-se. Nem sequer tomou banho. Disse que estava com pressa e que precisava urgentemente regressar ao trabalho antes que o seu patrão desse pela sua falta. - Não podes deixar que te explorem – ele abotou o primeiro botão da camisa. – Essas putas são muito espertas e aproveitam-se de novatas como tu. - Ninguém me está a explorar – Sara enrolou-se no lençol e pela primeira vez reparou que o cliente trazia uma aliança no dedo. - Em todo o caso é um aviso que te dou! Se quiseres continuar nesta vida, tens que abrir os olhos – estendeu-lhe uma nota de cinquenta euros. – Toma! Guarda para ti. - Não é preciso! Já pagaste. - Não sejas parva – ele respondeu, enfiando-lhe a nota nas mãos. – Guarda para ti!
  • 195. A primeira coisa que Sara fez quando o cliente desapareceu do quarto foi enfiar-se debaixo do chuveiro e retirar do corpo todas as marcas e vestígios que ele lhe deixou durante os quarenta minutos em que a possuiu como se fosse apenas um pedaço de carne. Lavou os cabelos com um Shampoo que trouxera de casa, esfregou os braços, as pernas, o pescoço e atirou-se novamente para debaixo do chuveiro. Quando terminou o banho, enxugou-se com uma toalha. Calçou os chinelos apenas para não pisar o chão imundo daquela casa de banho e voltou rapidamente ao quarto com uma outra toalha enrolada na cabeça. - Ai! Que susto… - Sara deu um pulo quando se deparou com a figura de Milene, sentada sobre a cama, a devorar uma comida chinesa comprada num dos muitos restaurantes asiáticos do bairro. - Não sabia que era assim tão feia. - Não é nada disso! Só não estava à espera de te encontrar aqui. - És servida!? - Não, obrigada. - Como é que foi? - Como é que foi o quê!? - Estás a gozar comigo, não?! O que é que acabaste de fazer? - Foi normal – Sara encontrou a suas calças de ganga sobre a cadeira. - Ele foi muito bruto contigo? - Mais ou menos. - O.k – Milene conformou-se com a falta de pormenores. – Se não queres falar sobre o assunto, não fales. - Não vais trabalhar? - Daqui a pouco tenho um cliente. E tu? Preparada para mais uma ronda?
  • 196. - Já me arranjaste outro? - Clientes para aqui é que não faltam! És racista? - Como assim?! - Tens problemas em ir para a cama com homens de outras raças? - Não! Porquê? - O gajo é indiano. - Não há problema – Sara escovou os cabelos molhados em frente ao espelho da cómoda. - Amanhã é que não sei se vais poder vir! Vou tirar o dia de folga. - Não sabia que vocês tiravam folgas durante a semana. - Pelo menos essa é uma das vantagens de se ser puta – Milene bebeu um gole de cerveja pelo gargalo da garrafa. – Tu é que fazes os teus próprios horários. Não tens nenhum patrão chato para te dar ordens e também não tens que descontar para a segurança social… - Nunca tiveste um emprego a sério? - E achas que este não é um emprego a sério!? – Milene arrancou uma gargalhada a Sara. – Estares deitada numa cama de pernas abertas à espera que o teu cliente se venha?! Isto quando não é de pé num beco qualquer! A sorte é que a maioria não se aguenta mais que cinco minutos. - Não respondeste à minha pergunta. - Que pergunta?! - Nunca tiveste um emprego a sério? A miúda era esperta, Milene percebeu isso no minuto em que a viu. Percebeu também que por mais magistral que tivesse sido a sua desculpa para fugir àquela pergunta, Sara descobriu o seu disfarce sem muito esforço.
  • 197. - Já – a prostituta respondeu. - Trabalhaste no quê? - Num restaurante lá para os lados de Odivelas. - E porque é que saíste de lá? Milene continuou a comer a uma velocidade fantasmagórica. - Foste despedida? – Sara questionou. - Sim. - Porquê?! - És curiosa, hã?! - Se não quiseres não contes. - Fui despedida porque fiquei grávida. - Tiveste um filho? - Uma filha – Milene emendou, largando a cerveja sobre a mesinha de cabeceira. - Foste despedida só por causa disso? - O filho da mãe do meu patrão despediu-me quando descobriu que a miúda era dele. Não quis que a mulher soubesse, até porque ela também trabalhava no mesmo restaurante, e deu-me um pontapé no rabo. - E tu? - Eu, o quê? - O que é que fizeste? - Ele queria que eu fizesse um aborto – Milene continuou a devorar o seu almoço improvisado. – Até me deu dinheiro para que desaparecesse e nunca mais me
  • 198. pusesse a vista em cima. Nem ele e nem a mulher. Eu aceitei o cheque, é claro, e se queres que te diga, até estava disposta a fazer a porcaria do aborto só para me ver livre da criança. Mas… - Mas o quê?! - Na hora H, não tive coragem! Sei lá! Acobardei-me… - Onde é que ela está? - No Porto com a minha mãe. Chama-se Daniela e tem seis anos. A miúda é a minha cara… – Sara sorriu ao ouvir a resposta. – A sério! É toda espevitada, tem mania que sabe tudo e anda sempre a ver se me consegue sacar as roupas e os sapatos. - A tua mãe sabe que és…?! - Sabe – Milene não conseguiu esconder uma certa amargura na voz. – Mas para ela, desde que eu mande dinheiro todos meses para tomar conta da miúda, quer lá saber! Posso morrer com Sida, ser espancada ou parar à prisão, que o que importa é o dinheirinho na conta sempre no final do mês. Quando regressou a casa, após uma tarde inteira passada no Intendente, Sara lançou um longo suspiro e quase caiu no corredor de tão cansada que estava. Só tinha atendido seis clientes, mas ainda assim sentia como se um batalhão lhe tivesse caído em cima. E não era só isso. Era a sensação de que o cheiro de todos aqueles homens lhe estava entranhado na pele, mas não de uma boa forma. Era também a sensação de que tinha feito algo de errado, embora não soubesse muito bem o quê. E por fim, a estúpida sensação de querer repetir aquela experiência assim que possível. - Onde é que te meteste? Já viste que horas são? – a mãe interceptou-a junto às escadas. Ao seu lado, encontrava-se a figura exasperante de Sérgio. - Estive com amigas – a jovem mentiu. - Olá Sara – Sérgio teve a audácia de a cumprimentar. – Tudo bem? - Vou subir para o meu quarto – Sara ignorou-lhe o cumprimento. - Não demores a descer! O jantar já está pronto.
  • 199. - Não tenho fome. - Mas também não vais dormir sem comer – Madalena murmurou quando sentiu a porta do quarto da filha fechar-se violentamente. - Como é que ela se está a portar nestes dias? – Sérgio mexeu-lhe nos cabelos soltos. - Com a Sara tudo é imprevisível! Nunca sei o que ela está a pensar ou o que vai fazer! Enfim! É uma caixinha de surpresas. - A adolescência passa. - Espero bem que sim! E então?! Ficas para jantar? - Se for convidado. - Não precisas de convite – Madalena beijou-o nos lábios. – Já és cá de casa. A noite já ia longa quando Sara saiu do quarto e se refugiou na cozinha. Estava esfomeada e pronta a devorar o bacalhau com natas, cozinhado pela mãe. Depois de satisfazer o seu apetite, a jovem largou a loiça suja na pia e subiu ao piso dos quartos, pronta a recomeçar mais uma longa maratona de filmes pornográficos. Mas ao passar pelo quarto da mãe, duas vozes prenderam-lhe a atenção. Curiosa, Sara encostou os ouvidos à porta e ansiou auscultar alguma coisa. - Sabes! Estive a pensar… – Sérgio acariciou os braços desnudos de Madalena. - O quê!? – ela sorriu-lhe carinhosamente. - Em passarmos um fim-de-semana fora de Lisboa. - Fora de Lisboa? - Sim! Queria levar-te a conhecer o meu avô. - Falaste-lhe sobre mim? - Claro que falei! Desde que te conheci que não lhe tenho falado sobre outra coisa. - Eu adoraria conhecer o teu avô.
  • 200. - São só dois dias! No domingo estamos de volta! E vai ser divertido. Vou levar-te a conhecer a vila toda, vamos apanhar ar puro e o meu avô vai-te ensinar a pescar. Então?! O que é que me dizes? - Um fim-de-semana? – Madalena sentiu-se tentada a aceitar o convite. – No Alentejo? - Exactamente! Queres coisa melhor? - Não – ela riu-se alegremente. Jorge mordeu o lábio inferior quando ouviu o pedido de Madalena ao telefone. Tentou desesperadamente esconder os ciúmes que se apossaram de si. Era oficial. A ex-mulher tinha assumido uma relação com outro homem, coisa que pensou que ela jamais seria capaz de o fazer. Não porque não fosse uma mulher bonita e atraente. Muito pelo contrário. Madalena continuava com o mesmo corpo perfeito que lhe conheceu. O mesmo sorriso radiante. O brilho nos olhos. A risada jovial. E enquanto falava com ela pelo telefone, Jorge lembrou-se de todas estas características que durante anos lhe passaram despercebidas. Foi um choque tremendo quando Madalena lhe pediu o divórcio e foi também um choque encontrar as suas malas à porta de casa quando estava certo de que mais uma vez ela o iria perdoar. Mas isso nunca chegou a acontecer. Divorciaram-se um ano depois e cada um seguiu o seu caminho. Ele encontrou a felicidade na solteirice e ela remoeu a solidão do divórcio. Passados três anos, a situação parecia estar a reverter-se. Jorge já não era tão feliz a assediar todas as mulheres bonitas que lhe passavam pela frente. A excitação inicial da conquista começava agora a desvanecer-se. Era sempre mais do mesmo. A conversa do engate, uma saída para jantar, um copo pago num bar e uma ida a um quarto de hotel. Às que nem valiam esse esforço, ele tratava de despachar o assunto no carro. - Estás aí?! – Madalena interrompeu-lhe os pensamentos. - Hã! Sim… - Então sempre podes vir buscar os miúdos este fim-de-semana? - Na sexta-feira só posso depois das seis e meia. - Tudo bem! Não há problema – Madalena observou a entrada de duas clientes na loja. – Bem, vou ter que desligar! Fico à tua espera então! Até lá…
  • 201. Era sexta-feira, as luzes da casa encontrava-se acesas e à sua frente permanecia um veículo que ele nunca vira em toda a sua vida. Com certeza seria o carro do novo namorado de Madalena. Jorge voltou a lançar os olhos ao seu relógio de pulso e viu que nele estavam marcadas dezanove horas e quinze minutos. Não havia vivalma na rua ou um carro que passasse. Aquele era o momento ideal. Seria muito fácil desaparecer sem deixar rastro e dizer que nunca estivera ali. Esqueceu-se do que prometera à ex-mulher. Ninguém o poderia recriminar por isso. - Queres que comece já a levar as coisas para o carro? – Sérgio arrastou duas malas ao longo do corredor. - Se calhar era melhor – foi a resposta de Madalena. Madalena apressou-se a descer os estores das janelas da sala depois de ter desligado o contador da água e do gás. Ninguém estaria em casa durante o fim-de-semana. Sara acedeu ao pedido da mãe e aceitou passar o fim-de-semana com o pai. Não porque tivesse ficado especialmente entusiasmada com a notícia ou muito menos para facilitar a vida de Madalena naquela ridícula viagem ao Alentejo. Na verdade, Sara via naquele fim-de-semana a oportunidade rara de se ver livre das garras da mãe. Com o pai, ela podia fazer tudo o que quisesse. Até mesmo sair a meio da noite sem que ele desse conta. Ao contrário de Madalena, Jorge era demasiado despistado. - Mãe! O pai não vem? – Daniel entrou na sala, impaciente, trazendo a sua bola de futebol nas mãos. - Deve estar quase a chegar, querido! Tem só mais um pouco de paciência. - Ele chega sempre atrasado. - Escuta! Onde é que a tua irmã se meteu? Ela já arrumou as coisas dela? - Não sei – Daniel sentou-se no sofá. – Está trancada no quarto. A mochila encontrava-se pronta e o casaco mantinha-se sobre a cama. Depois de se ter masturbado pela terceira vez consecutiva naquela tarde, Sara utilizou o telemóvel para falar com Milene. A prostituta continuava a arranjar-lhe clientes para que ela pudesse satisfazer as suas vontades sexuais quase diárias. O acordo parecia lucrativo para ambas as partes. Sara entregava-lhe metade do dinheiro ganho e gastava a outra metade em filmes pornográficos e brinquedos sexuais. Era um vício. Algo que nunca
  • 202. ninguém descobriu e que ela guardava a sete chaves numa caixa de madeira escondida no seu roupeiro. - A minha mãe vai viajar este fim-de-semana! Vou ficar com o meu pai. - E daí? - Daí que estava a pensar em passar hoje à noite pelo bairro. Achas que me consegues arranjar algum cliente? - Fogo! Mas tu não te cansas?! Agora é todos os dias? – Milene observou com atenção o movimento dos carros não fosse um deles parar com um cliente lá dentro. – Hoje não vai dar! Tenho uma festa para ir. - Festa?! Que festa? - Nada de especial! É só uma festa num clube de streap lá para os lados de Alcântra. Todas as semanas vamos lá à cata de um ricaço qualquer que esteja disposto a pagar bem. Ouve-se boa música, temos bebidas de graça e os clientes são um pouco mais civilizados que os de cá. - Não me podes levar nessa festa? - Estás louca?! – Milene sugou o cigarro que tinha nas mãos. – Não tens idade para lá entrar. - Se for contigo tenho a certeza que ninguém vai desconfiar. Ouviste o que o outro gajo disse no outro dia? Que eu pareço muito mais velha do que sou. Pois então?! Leva-me contigo! Prometo que não te vou atrapalhar… - Tu já me atrapalhas. Madalena viu-se a espumar pela boca quando o relógio da sala marcou as vinte horas e quarenta minutos. Jorge, o seu ex-marido, estava duas horas atrasado e não se dignava sequer a atender aos seus telefonemas. Fora de área ou por vezes desligado. - Ainda achas que ele vem? – Sérgio sentou-se no sofá ao lado de Daniel, que entediado, fazia um zapping pelos canais de televisão sem esperanças de que o pai o fosse buscar.
  • 203. - Se ele não vier, eu mato-o – Madalena respondeu, furiosa. Ao contrário das suas próprias expectativas, e depois de ter passado duas horas sozinho num bar a beber, Jorge estacionou o carro em frente aos portões da sua antiga casa. O whisky ajudou-o a pensar melhor. Fê-lo a ganhar alguma coragem e cumprir o que havia prometido à ex-mulher. - Finalmente – Madalena abriu-lhe a porta com uma expressão furiosa. – Onde é que te meteste? Fartei-me de te ligar para o telemóvel e tinhas a porcaria sempre desligada! Tens noção das horas? São quase dez da noite. - Sei que estás louca para o teu fim-de-semana, mas também tens que compreender que eu trabalho e tenho compromissos… Jorge não conseguiu esconder o seu olhar de ódio quando entrou na sala e se deparou com a figura de Sérgio sentado no sofá. Foi a primeira vez que o viu. Não era um boato, nem tão-pouco uma imagem abstrata descrita pelos filhos e pelo ex- sogro. O novo namorado da sua ex-mulher era real. Existia. E isso foi o suficiente para que Jorge o quisesse estrangular ali mesmo com as suas próprias mãos. Por sorte, conseguiu controlar-se a tempo. – Eu sei que tens compromissos e que trabalhas, mas eu também tenho compromissos e também trabalho. Por tua causa, só vamos poder sair de Lisboa amanhã de manhã – Madalena protestou. - Os miúdos? - Já estão prontos à tua espera! Não estás a ver aí o Daniel? A Sara está lá em cima. - Então vai chamá-la, porque não me quero demorar muito por estas bandas – Jorge voltou a lançar um olhar aterrador ao namorado da ex-mulher. Naquela madrugada, nem a ameaça de uma possível tempestade impediu Sara de sair da casa do pai. Fê-lo um pouco antes da uma da manhã, sem que Jorge ou o seu irmão se apercebessem dos seus planos. Trajada com uma mini-saia, meias de renda pretas e um casaco que lhe cobria todo o corpo, a jovem apanhou o último metro da noite. Mais tarde, enfiou-se num táxi e chegou ao local combinado com Milene. A prostituta não demorou a aparecer na rua deserta. Veio acompanhada por quatro colegas de profissão visivelmente embriagadas, às gargalhadas, vestidas de uma forma vulgar e partilhando algumas ganzas pelo caminho. Não se importaram sequer com a buzinadela frenética de um condutor quando este se viu obrigado a
  • 204. parar o carro no meio da estrada para que elas pudessem passar. Quando as insultou, uma das prostitutas atreveu-se a levantar a saia num gesto claro de provocação. O condutor desviou o carro, insultando-as novamente com palavrões, ao que elas responderam com vários sinais de dedos e outras palavras menos simpáticas. - Trouxe-te um BI falso – Milene retirou o cartão da sua mala. - Para quê? – Sara compôs os cabelos soltos. - Ainda perguntas!? Com a tua idade não estás autorizada a entrar em clubes de streap, querida! Se a bófia faz uma rusga por lá estás lixada e eu também… O clube localizava-se numa das ruas mais recônditas de Alcântra, e mesmo Sara tendo passado por aquela zona várias vezes, acompanhada pelo pai ou pela mãe, nunca imaginou que aquele estabelecimento sempre fechado durante o dia tratava-se de um clube de streap frequentado por pessoas das mais variadas raças e extractos sociais. A fila para entrar estendia-se para lá dos dez metros e quase todos os clientes aguardavam a sua vez, animados pela noite e também pela música barulhenta que se ouvia no exterior do edifício. - Olha quem é ele – Milene abriu um sorriso radiante quando um homem se aproximou de si a surpreendeu um longo abraço. – Desaparecido! - Sabes como é, linda – o rapaz não resistiu a rasgar alguns olhares curiosos a Sara. Achou-a especialmente bonita. Destacava-se na multidão. – Agora ando mais lá para os lados do Algarve a tratar dos meus negócios. Só vim buscar as minhas mercadorias e vou-me embora no domingo de madrugada que é quando as estradas estão mais vazias. - A bófia é uma seca, não é?! – Milene levou o cigarro à boca. - Podes crer! E esta rapariga quem é? – o desconhecido não escondeu a sua curiosidade quando viu Sara ao lado das cinco prostitutas. Nunca lhe pusera os olhos em cima, por isso era natural que quisesse de quem se tratava. Para além disso,fisicamente, também o agradou bastante. - Uma amiga – Milene apertou Sara contra si. – É a Sarita! Sara, este é o Marco. - Olá – ele não hesitou em cumprimentá-la na face. – És nova por aqui?
  • 205. - Sim – Sara respondeu, tentando esconder a timidez que sentia cada vez que um homem se aproximava de si, especialmente se fosse bonito, como era o caso de Marco. Marco era um jovem alto, mulato e musculado. Tinha tatuagens nos braços e exibia dois brincos em cada orelha. Levava umas calças largas vestidas e uma t-shirt que lhe tapava grande parte das pernas. Porém, o que Sara realmente reparou nele foi na confiança que parecia transbordar-lhe por todos os poros. Marco demonstrava não ter medo de nada, algo perfeitamente natural para um homem de vinte e quatro anos cuja maior parte da adolescência fora passada em bairros degradados e esquemas criminosos longe do conhecimento da polícia. - Estão na fila para entrar? – ele perguntou. - Estamos – respondeu uma das prostitutas. - Então venham comigo! Ponho-vos lá dentro num instante. Era a primeira experiência de Sara num local nocturno. Adorou. Dançou como uma louca, muitas vezes embalada pelas bebidas pagas por Marco e submergiu-se naquela sensação única de se sentir livre da vida entediante que levava ao lado da sua mãe e do seu irmão mais novo. Ali, no meio da multidão, Sara não se sentia obrigada a obedecer a nada e nem a ninguém. Era livre, dona do seu próprio nariz e podia fazer tudo o que quisesse, até mesmo cair nos braços de Marco e permitir que ele a beijasse no meio da pista. O álcool retirou-lhe as inibições. Perto das quatro da manhã, ele convidou-a a sair do clube. Disse-lhe que deveriam terminar a noite num outro local onde pudessem estar a sós sem ninguém para atrapalhar. Sara aceitou o convite. Deu-lhe a mão, seguido de um longo beijo de língua. Tempo depois, entraram num do bairro degradado em Lisboa. Emaranharam-se por entre becos escuros e seguiram cautelosamente até a uma casa ao fundo da rua onde Marco guardava algumas mercadorias prontas para serem levadas ao Algarve. Nada de extraordinário. Apenas pequenas doses de cocaína, ecstasy, heroína e haxixe. Ao entrarem na habitação completamente alcoolizados, Marco atirou Sara contra a cama. A chuva continuou a cair cada vez mais forte no tejadilho da janela, mas isso pareceu não ter a mínima importância. Nem mesmo o cheiro a mofo das almofadas, ou a presença de uma arma de fogo sobre a mesinha de cabeceira, os impediram de se entregarem um ao outro como dois animais completamente irracionais. E foi ali, no interior daquele quarto minúsculo, que Sara sentiu o que nunca havia sentido. Não foi apenas sexo ou uma prestação de serviços enquanto prostituta. Com Marco foi
  • 206. diferente. Foi feito com gosto e com muitos beijos à mistura. Pela primeira vez em toda a sua vida, ela sentiu um prazer genuíno ao ir para a cama com alguém. - Há quanto tempo andas nisto? – Marco acendeu a terceira ganza da noite. - Dois meses. - E porque é que entraste na vida? Os teus pais expulsaram-te de casa? - Não – Sara respondeu. – Eles são divorciados! Moro com a minha mãe. - Então não estou a perceber. - Eu gosto. - Gostas do quê!? – Marco interrogou-a, incrédulo. – Gostas de ser prostituta? - Acho que sim – Sara encolheu os ombros. – Gosto de fazer sexo! Gosto de estar com homens. - Bem! A isso é que se diz ter amor à profissão! Queres uma passa? – Marco mostrou- lhe a ganza que tinha em punho. – Vais gostar! É bom para relaxar. Apesar da hesitação, Sara aceitou o charro das mãos de Marco e levou-o à boca sem pensar nas consequências que aquele acto irreflectido poderia trazer à sua vida. Na escola, várias amigas suas já fumavam, mas ela nunca se atreveu. No entanto, se já tinha experimentado realizar coisas tão bizarras como fazer sexo com desconhecidos em troca de dinheiro, qual seria o mal de fumar uma simples ganza? Quando os primeiros vestígios do dia surgiram no horizonte, Marco fez-lhe um favor que nunca fizera a nenhuma prostituta. Levou-a a casa. Apenas porque a achou diferente das outras. Tinha um ar doce e angelical. Era bonita e trazia nos olhos a inocência de uma menina que infelizmente se tinha perdido na vida. - Pronto! Estás entregue – ele desligou o motor depois de estacionar o carro em frente ao prédio indicado por Sara. – Parque das Nações, hã?! Granda prédio! Tens a certeza que moras aqui? - O meu pai é que mora aqui. - Em que andar?
  • 207. - Oitavo. - É rico? - Mais ou menos – Sara desfez-se do cinto de segurança. - Mais ou menos não! Já vi que é rico – os olhos de Marco incendiaram-se quando avistou o oitavo andar através da janela do carro. - Então? Quanto é que te volto a ver? - Porquê!? - Porque quero. - Eu não moro em Lisboa! Só venho de vez em quando. - Mesmo assim! Quando vieres, procura-me. O sorriso de Sara trouxe uma série de dúvidas a Marco, até porque ele não sabia até que ponto ela tinha levado aquela noite a sério. Praticaram sexo. Só isso. Sexo entre um cliente e uma profissional. Mas raios. Havia realmente qualquer coisa nela que o deixava intrigado e que o intimava a querer voltar a vê-la. - Vou dar-te um dos meus contactos – ele não resistiu à tentação. – Mas não me ligues a toda a hora, senão troco logo a porcaria do número. - Podes deixar. - Toma – Marco ofereceu-lhe o papel rasgado e logo em seguida um beijo na boca. Sérgio e Madalena partiram cedo de Lisboa. Apesar da alteração da viagem, muito por culpa do atraso propositado de Jorge, a viagem do casal até ao Alentejo ocorreu sem quaisquer sobressaltos. Terminou perto das dez da manhã quando Sérgio estacionou o carro em frente a uma pequena moradia pintada de azul e branco. Não era uma casa muito grande e nem luxuosa, mas ainda assim, ao ver-se diante dela, Madalena não conseguiu evitar o sorriso que lhe atravessou o rosto. Teve a sensação de ter acabado de chegar ao paraíso. O tempo mantinha-se ameno, as árvores não evidenciavam qualquer sinal de vento e o sol aparecia timidamente a cada cinco minutos. Parecia o início de um dia perfeito.
  • 208. Madalena seguiu os passos de Sérgio. O fotógrafo procurou as chaves no bolso do casaco e abriu a porta sem muito esforço. Veio então um agradável aroma a jasmim, aroma esse que enebriou as narinas de Madalena e a fizeram sorrir. Estava nervosa. Nunca em um milhão de anos imaginou estar ali naquela casa ou sequer cogitou a possibilidade de conhecer o avô de Sérgio. Ao ouvir uma voz grossa irromper o corredor, Sérgio abriu um sorriso radiante. Apressou-se a cumprimentar aquele senhor de idade, de barba branca e estrutura meio curvada com um longo abraço e um beijo carinhoso na face. Era o seu avô. - Vô! Esta é a Madalena! A pessoa de quem tanto te falei – Sérgio apressou-se a fazer as apresentações. – Madalena, este é o meu avô! O Sr. Luís Restelo… - Muito prazer, Sr. Luís – Madalena sorriu e estendeu-lhe a mão, desejando que Luís não a deixasse ali pendurada. No entanto, ao contrário do que estava à espera, o cumprimento do avô de Sérgio não veio com um aperto de mão, mas sim com um abraço inesperado que a surpreendeu. - Estava a ver que nunca mais a conhecia – ele disse. Luís levou os convidados até à sala. Passaram por um corredor longo e estreito até chegarem à habitação. Sérgio largou o casaco de cabedal sobre o sofá, enquanto Madalena apressou-se a dissecar discretamente a decoração conservada pelo dono da casa. Adorou tudo. Adorou os móveis antigos, os pequenos barquinhos de madeira sobre as estantes, os quadros pintados a óleo e as centenas de livros amontoados a um canto da sala. Não havia dúvida de que aquela casa era habitada por um homem ligado ao passado e às recordações de uma vida que nem sempre teve momentos felizes. E prova disso eram os dois porta-retratos que ele fazia questão de manter sobre uma mesinha de madeira junto à janela. Duas imagens femininas. Uma da sua falecida mulher e outra da sua falecida filha, a mãe de Sérgio. - Não querem beber um chá? – Luís interceptou os olhares perdidos de Madalena. - Queres um chá, amor?! – Sérgio adiantou-se. - Quero – ela respondeu com um doce sorriso. – Aliás, agradecia. - Vou pôr a chaleira ao lume! Já volto…
  • 209. Luís abandonou a sala poucos segundos depois, deixando o neto e a sua namorada de olhos postos um no outro. Quando se viram sozinhos no interior da habitação, Madalena e Sérgio trocaram um sorriso cúmplice. Era estranho estarem ali. Há um ano atrás isso seria impensável. - É esta a tua mãe? – Madalena encontrou o porta-retratos sobre a mesinha. - Sim – Sérgio aproximou-se dela. - Como se chamava? Nunca me disseste. - Ana Luísa. - É muito bonita. A cozinha cheirava bem. Sérgio e Madalena entraram de mãos dadas, enquanto Luís ultimava os preparativos do chá. Os três personagens conversaram durante longos quartos de hora e ali se deixaram ficar, embalados no sabor de um maravilhoso chá de frutos silvestres. Mais tarde, Luís disponibilizou-se a mostrar todas as divisões da casa a Madalena. Falou-lhe sobre os seus passatempos, sobre o seu gosto pela leitura, pela pesca e pelo artesanato tradicional, enquanto ela, gentilmente, ouviu tudo com a máxima atenção e um sorriso nos lábios. Luís era um bom homem, bastante culto e recto. Não havia dúvidas de que Sérgio havia puxado ao avô. A educação e os ensinamentos que ele lhe transmitiu ao longo de trinta e cinco anos surtiram efeito e transformaram-no num homem fantástico. Foi essa a conclusão tirada por Madalena quando observou os dois homens da família a conversar animadamente em frente ao alpendre da casa. O passeio pela vila tomou-lhes a tarde inteira. Madalena tirou inúmeras fotografias a fim de registar uma das viagens mais interessantes que alguma vez fizera pelo país. E logo ela que se considerava uma portuguesa de gema e conhecedora de quase todas as cidades que compunham o mapa, rapidamente percebeu que ainda lhe faltava conhecer tanta coisa em apenas um fim-de-semana relâmpago. Faltava conhecer a única igreja da região trabalhada em arte barroca, o mercado repleto de feirantes que vendiam de tudo um pouco, desde frutas, objectos de decoração, artigos religiosos, bijuterias e outros produtos artesanais. Faltava aventurar-se pelas ruelas estreitas, absorver a beleza das casas caiadas, muitas delas pintadas com cores alegres e suaves. Faltava cheirar a terra molhada, admirar as pessoas à volta, que ao contrário das que moravam em Lisboa, caminhavam sem pressa de chegar ao seu destino. E por fim, faltava também sonhar em um dia terminar os seus dias num lugar assim.
  • 210. Ao final da tarde, Madalena cometeu a loucura de se atirar para um lago onde Sérgio passou praticamente toda a sua infância. Fê-lo sem medos ou hesitações. Foi a primeira vez que se atreveu a fazer algo semelhante. E quando abriu os olhos debaixo de água, vislumbrou no interior do lago inúmeros peixes de várias cores e feitios. Parecia um sonho de onde não queria acordar. Sérgio trouxe-a de volta à superfície. Beijaram-se apaixonadamente, indiferentes ao adiantado das horas ou à possibilidade de serem surpreendidos por alguém. Ela entregou-se a ele no interior do lago, envolvendo-lhe as pernas à volta da cintura, e poucos minutos depois, os seus corpos conjugaram-se na perfeição. - Amo-te – ela disse, ofegante, durante o acto. - Eu também – ele respondeu, retirando-lhe os cabelos molhados do rosto. Sérgio e Madalena regressaram a casa ao início da noite. Encontraram à sua espera um delicioso cherne grelhado que Luís fez questão de preparar. Para além disso, Luís montou uma mesa improvisada no quintal, encarregou-se de fazer a salada, de retirar as loiças dos armários e de servir os seus convidados com o máximo aprumo. Há muito que não recebia visitas, por isso, esmerou-se. Contou também com o tempo ameno para servir o jantar ao ar livre. Depois de provar o primeiro pedaço de cherne, Madalena elogiou o tempero magnífico. Luís não poderia ter ficado mais contente com a gentileza. Adorou a simplicidade de Madalena no minuto em que a viu. Encantou-se igualmente pela sua beleza e candura. - Quem sabe um dia não nos vai visitar a Lisboa – Madalena mostrou-lhe um sorriso radiante. – Acredite que teria muito gosto em recebê-lo em minha casa e assim até poderia conhecer o meu pai. Aposto que histórias não vos iriam faltar. Ele também combateu no Ultramar. - Não me diga? - O pai da Madalena tem histórias incríveis para contar dessa época – Sérgio adiantou. – Tal como tu! Era uma óptima ideia! O que é que achas, Lena? Juntávamos os dois ex-combatentes num almoço? - Por mim, já está combinado – ela abriu um sorriso radiante. - Quem sabe um dia – Luís entrou na brincadeira. - Já conseguiste um milagre, amor – Sérgio voltou-se para Madalena.
  • 211. - Que milagre?! - Que o meu avô prometesse uma ida a Lisboa. Ela riu-se alegremente. – Nunca foi a Lisboa, Sr. Luís? - Fui! Mas há muitos anos. - Então está intimado a visitar-nos! Quero retribuir-lhe este jantar maravilhoso! Embora tenha medo de o decepcionar! Não me parece que vá conseguir superar o tempero deste peixe… – a resposta de Madalena trouxe novos risos à mesa. A noite terminou com um poema lido por Luís, cujo principal divertimento para ocupar as longas horas de solidão era a leitura e a escrita de vários sentimentos que guardava dentro de si. A morte da sua mulher e da sua única filha foi o pior acontecimento da sua vida. Morreram as duas num acidente de viação, num carro conduzido pelo seu genro, o pai de Sérgio, que infelizmente também teve o mesmo destino. Após uma breve ida da mãe a Lisboa para uma consulta médica, Ana Luísa e o marido disponibilizaram-se para a trazer ao Alentejo. Sérgio ia preso à cadeirinha no banco de trás, na companhia da avó. No entanto, a viagem teve um final trágico quando um camião desgovernado atravessou-lhes o caminho. Mãe e filha tiveram morte imediata, o genro morreu no hospital e o neto foi o único sobrevivente daquele terrível acidente. Luís mergulhou no mais profundo desespero por ter perdido as duas pessoas mais importantes da sua vida. Sobrou-lhe apenas o neto. Na altura, a única razão que o impediu de cometer suicídio. O dia seguinte amanheceu radiante, embora a correnteza do rio tivesse trazido um frio invulgar para aquela altura do ano. Madalena e Sérgio acompanharam Luís numa agradável pescaria. A poucos minutos das oito da manhã, enquanto Sérgio e o avô preparavam as iscas e as canas de pesca, Madalena manteve-se atenta, rindo-se alegremente das inúmeras peripécias daqueles dois homens que pareciam nunca concordar em nada. Pouco tempo depois, o fim-de-semana teve fim. Luís acompanhou os seus convidados até ao portão e despediu-se deles com vários beijos e abraços. Pediu igualmente para que voltassem mais vezes e para que o presenteassem com a sua companhia agradável. Em seguida, Madalena entrou no carro e Sérgio apressou-se a colocar as malas no porta-bagagens. A viagem ainda era longa. Finalmente, aquele maldito fim-de-semana tinha chegado ao fim, foi o primeiro pensamento de Jorge quando puxou o travão de mão e desligou o motor do carro. O advogado passou dois dias inteiros a remoer o facto de a ex-mulher ter ido passar um fim-de-semana romântico com o novo namorado. Perguntou aos filhos quem era
  • 212. aquele tal de Sérgio, o que fazia da vida e em que circunstâncias conheceu Madalena. Nem Sara e nem Daniel souberam responder a tantas perguntas. Jorge passou então a madrugada de domingo a imaginar situações. Um outro homem a beijar a sua mulher, a tocá-la e a fazer amor com ela. Foi por pouco que não deu em doido, e num momento de pura insanidade mental, bebeu meia garrafa de whisky com o intuíto de espantar todos aqueles maus pensamentos. Embebedou-se no silêncio da sala, percebendo finalmente o grande erro que tinha cometido ao destruir dezasseis anos de casamento. Não se tornou mais feliz por isso. Muito pelo contrário. A príncipio tentou convencer-se de que era bem melhor ser um homem solteiro. Chegar a casa à hora que lhe apetecesse, não ser obrigado a oferecer explicações a ninguém, ver-se completamente livre de responsabilidades. Enfim. Um rol infinito de vantagens que na altura lhe pareciam perfeitas. Contudo, volvidos três anos após o divórcio, Jorge chegou à conclusão que a euforia inicial da solteirice deu lugar a um vazio difícil de explicar. As relações fortuítas com várias mulheres já não lhe traziam qualquer prazer. Fazia-lhe falta a cumplicidade, o companheirismo, a amizade e o amor. Fazia-lhe igualmente falta aquele sentimento estranho de pertença quando chegava a casa e sentia o aroma delicioso das refeições cozinhadas pela sua mulher. Vê-la na companhia dos filhos, que pequenos, corriam desenfreadamente pela casa, enchendo-a de alegria. Eram essas algumas das muitas recordações que Jorge guardava dos dezasseis anos de casamento que manteve com Madalena. E eram estas mesmas recordações que ele sonhava um dia voltar a recuperar. - Pensei que viessem mais cedo – Madalena abriu a porta e deparou-se com a figura dos filhos e do ex-marido. Daniel foi o único a saltar-lhe para o pescoço, já que Sara, visivelmente entediada, passou por ela e subiu até ao quarto sem sequer lhe dirigir a palavra. - Nós é que pensámos que viesses mais tarde – Jorge levou as mochilas dos filhos até à sala. - Dani! Vai lavar as mãos e trocar de roupa! Mas não te demores porque senão o jantar arrefece! E também não corras, senão ainda cais… - Está bem – respondeu o pequeno já no piso de cima. Madalena voltou a encarar o rosto do ex-marido. Percebeu que ele continuava a olhar fixamente para si. Como se quisesse falar alguma coisa, mas talvez lhe faltasse coragem.
  • 213. - O que foi? – ela perguntou. - Nada – Jorge enfiou as mãos nos bolsos das calças. – Então?! Como é que foi o tal fim-de-semana romântico no Alentejo? Pensei que fosse encontrar o teu amiguinho por aqui. - Ele teve que ir trabalhar. - Trabalhar a estas horas? – Jorge franziu o sobre olho. – Não achas estranho? - Não! Não acho. - Tu é que sabes! Mas quando éramos casados e eu dizia-te que ia ficar no escritório a trabalhar até mais tarde, tu nunca acreditavas em mim… Madalena soltou um longo suspiro perante as insinuações maldosas do ex-marido. - Há quanto tempo tu e esse rapaz estão a namorar? - O Sérgio não é um rapaz. - É mais novo que tu, por isso é um rapaz. - Ele não é assim tão mais novo que eu. - O.k – Jorge riu-se debochadamente. – Já percebi que esse assunto te incomoda. - Não! Por acaso não me incomoda nem um pouco! O que me incomoda é o facto de estar a falar sobre esse assunto contigo. - Porquê?! - Porque é algo que não te diz respeito. A resposta de Madalena não poderia ter sido mais cruel. Mas mais do que a resposta em si, cruel foi o olhar que ela lhe lançou em seguida. Frio, severo e sem a mínima margem de manobra para que ele continuasse a fazer-lhe outras perguntas descabidas. - Boa noite.
  • 214. - Boa noite também para ti – ela apontou-lhe a saída. Foram raras as vezes desde o início do ano em que Sara colocou os pés numa sala de aula. Em poucas semanas, sem que ninguém soubesse, os novos amigos e os novos vícios tomaram conta da sua vida. Começou a beber, a fumar e a prostituir-se praticamente todos os dias. Intendente. Era lá onde passava várias horas e deambulava pelas ruas ao lado de Milene, de Arlete e das outras prostitutas do bairro. Era habitual para quem passava por lá observar-lhes as gargalhadas, as roupas extravagantes e também a procura de clientes. Com o passar do tempo, talvez pela sua idade e pela sua aparência distinta, Sara ganhou imensa popularidade na zona. Atendia cerca de dez homens por dia, sempre na mesma pensão, chegando inclusive a fidelizar alguns clientes que se recusavam a ser atendidos por outras prostitutas do bairro. Não eram todos malucos, tarados ou solitários como à partida se poderia supor. Alguns nem apareciam pelo sexo. Diziam apenas: “ Deita-te aqui ao pé de mim e deixa-me abraçar-te.” Os que diziam isso eram normalmente os homens mais velhos, idosos, que se afeiçoavam com alguma facilidade às prostitutas do bairro por não terem ninguém com quem falar. Gastavam com elas todo o dinheiro da reforma. Com muitos até dava para conversar e fazer amizades. Havia empresários, banqueiros, juízes, advogados, pedreiros, estudantes e até mesmo seminaristas. Os mais ricos passavam a vida a presenteá-la não só com dinheiro, mas também com jóias, flores, roupas e sapatos. Depois havia os imigrantes, os chulos e os drogados que muitas vezes nem sequer queriam pagar pelo serviço. Surgiam todos os dias os casados, os solteiros, os noivos, os divorciados e os viúvos. Do lado extremo, vinham os fetichistas que pediam coisas bizarras como urinar para cima deles, pisar-lhes o peito com salto agulha, queimar-lhes o corpo com a ponta do cigarro. Enfim. Tudo era permitido naquele bairro e as prostitutas divertiam-se horrores a contar histórias entre si. - Amanhã vou ao Porto – Milene saiu da casa de banho enrolada numa toalha. - Fazer o quê? - Vou ver a minha filha! A minha mãe ligou-me a dizer que a miúda está doente. - É alguma coisa grave? – Sara continuou a comer as suas batatas fritas sobre a cama. - Acho que não! Deve ser gripe! Mas sabes como é que a minha mãe é! Faz um bicho- de-sete-cabeças só para que eu vá ver a miúda. De certeza que deve estar a precisar de dinheiro, senão nem sequer me ligava.
  • 215. - Quando é que achas que voltamos a ver o Marco? - Que Marco? - O que esteve connosco naquela festa em Alcântra! Ele disse que morava no Algarve. - Hã…! Esse Marco?! Só podes estar a gozar, não?! Desse gajo quero mais é distância. - Porquê?! Vocês pareciam tão amigos. - Ele não te contou qual é a cena dele no Algarve? - Não! Só nos falámos duas vezes por telefone e foi assim meio rápido. - Ele é traficante de droga, querida! E não é um traficante qualquer. É um da pesada. Coisa para gente adulta, não sei se me entendes. - Como é que sabes?! - Toda a gente conhece a fama dele – Milene vestiu uma camisola de malha em frente ao espelho da cómoda. – Nunca foi flor que se cheire! Meteu-se com gente errada e acabou por fugir para o Algarve quando lhe mataram o irmão no bairro onde ele morava. Acho que a bala era para ele, mas como era de noite, confundiram os dois irmãos e o mais novo é que acabou por morrer no lugar dele. - Que horror! - Por isso é que ele só vem a Lisboa de vez em quando! Mas não pára muito tempo que é para não ser apanhado pela bófia e pelos traficantes que andam atrás dele. Sara sentiu-se atordoada quando ouviu o discurso de Milene. Depois de todas aquelas revelações, a jovem percebeu que Marco não era de facto o homem ideal para si. A vida cheia de actos criminosos e outras histórias escabrosas por contar não parecia conjugar-se com a sua. - Bem, deixa-me ir andando – Milene interrompeu-lhe os pensamentos. - Onde é que vais? - Vou-me encontrar com um cliente no hotel Ritz.
  • 216. - Uau! Que chique – as duas prostitutas riram-se alegremente. - Com este é só em hotéis de primeira categoria, minha! Mas também o velho é podre de rico. Conheci-o há dois anos numa festa e desde então nunca mais me largou. - É giro ao menos?! - Não muito – Milene escovou os cabelos molhados. – Tem quase idade para ser meu avô, mas pelo menos é simpático, paga muito bem, vem-se depressa e trata-me como uma verdadeira princesa. Até jóias já me deu e foi o primeiro cliente que me pagou champanhe francês. - Estás a gozar, não?! E logo eu que vou atender o Júlio daqui a bocado. Estou com tanta preguiça. - Até eu ficava com preguiça se tivesse que o atender – as duas prostitutas riram-se ruidosamente. – O gajo parece um mongolóide. - Oh pá! Não digas isso! Ele é meu amigo. - Mas tu és burra, pá! Já podes começar a escolher os teus clientes. Não precisas atender qualquer palhaço que te aparece pela frente. Escolhe os melhores. Os mais giros. Aqueles que pagam melhor. Abre o olho! E começa também a aumentar os preços, especialmente para os teus clientes habituais. Conheço gajas aqui que se sujeitam até a receber quinze euros. Olha, a Arlete é uma delas. - No outro dia estive a contar o dinheiro que já consegui juntar nestes três meses. Tenho quase dois mil euros. - A sério?! – Milene nem quis acreditar. - Não o gasto quase para nada. Os meus pais dão-me tudo, por isso… - Há gajas com sorte mesmo! Tomara eu ter uma mãe que me desse tudo! A minha pelo contrário, só me tira… - Dizes isso porque não vives com a minha mãe! A tua tira-te dinheiro, a minha tira- me liberdade! Vê lá o que é que é pior!? - Não te dás bem com a tua mãe?
  • 217. - Odeio-a – os olhos de Sara incendiaram-se. – Odeio-a a ela e ao novo namoradinho que resolveu enfiar lá em casa! Por mim, bem podiam morrer os dois. - Credo, rapariga! Até me assustas com essa conversa – Milene benzeu-se. Sérgio passou diariamente a frequentar a casa de Madalena. Pernoitava muitas vezes por lá, embora a relação dos dois ainda não fosse muito bem vista por certas pessoas da família. Afonso mantinha a sua opinião guardada a sete chaves, mas era-lhe um pouco difícil digerir a ideia de que a filha andava a dormir com outro homem que não o pai dos seus netos. Jorge nem conseguia disfarçar o ódio que sentia cada vez que ia lá a casa visitar as crianças. O rosto de Sérgio provocava-lhe náuseas. Daniel era o único que parecia dar-se verdadeiramente bem com o seu novo padrasto. Gostava de Sérgio. Vi-o como um companheiro com quem podia jogar playstation depois do jantar, alguém que o levava aos treinos da natação e um crânio que o ajudava nos trabalhos de casa mais difíceis. Por fim, existia a Sara. O furacão da família. A jovem não escondia de ninguém o ódio profundo que sentia, não só de Sérgio, mas também da sua mãe. Para ela, o único aspecto positivo das dormidas do fotógrafo lá em casa prendia-se essencialmente com a possibilidade de poder escapulir-se a meio da noite sem que a sua mãe se desse conta. Muitas vezes, a jovem saía a meio da noite para se encontrar com os seus novos amigos em bares nocturnos pouco apropriados para a sua idade, nos arredores do bairro ou em cafés da zona onde clientes e prostitutas se misturavam com o cheiro intenso de cigarros e de luxúria. Sexta-feira era o dia mais movimentado da semana. Era também usual os cafés e os bares encontrarem-se abarrotados de gente e também era usual a polícia fazer algumas rondas pela zona apenas para se certificar que tudo estava a decorrer dentro da normalidade. Sempre que apareciam, Sara conseguia a ajuda necessária para se esconder e só voltava a surgir quando os agentes de autoridade abandonavam o bairro. Aquela noite não foi excepção. Os polícias fizeram as rondas habituais, pediram a identificação de várias pessoas estranhas ao local e logo desapareceram do bairro trazendo de volta o alívio a quem não tinha sido apanhado. - Anda – Milene faz um sinal a Sara para que ela pudesse sair da pensão onde permaneceram escondidas durante trinta e cinco minutos. – Os gajos já se foram embora. - Não vejo a hora de fazer dezoito anos, pá! Já estou farta disto – a jovem resmungou.
  • 218. Milene e Sara atravessaram a rua em direcção a um dos bares mais movimentados da zona. Mais uma vez, o estabelecimento encontrava-se apinhado de gente. Na aparelhagem, soava uma música brasileira animada, e na única televisão do bar colocada na parede, passava um filme não muito conhecido. Aliás, o filme era tão pouco conhecido que quase ninguém se dignou a levantar o rosto em direcção ao ecrã. Todos se encontravam demasiado entretidos em conversas informais, a beber, a fumar e a confraternizarem entre si. Outros dançavam, riam-se às gargalhadas e tentavam esquecer alguns dos problemas que atormentavam as suas vidas. Sara era uma dessas muitas pessoas. - Ainda te lembras de mim? A voz não lhe era estranha e ao voltar-se para trás com uma garrafa de cerveja nas mãos, Sara abriu um sorriso radiante. Viu que era ele. Marco. Após várias semanas de ausência, onde apenas se comunicaram através do telefone, parecia quase um sonho tornar a vê-lo. - Nem acredito – ela sorriu, maravilhada. – És mesmo tu? - Em carne e osso – Marco levantou os braços. – Vim tratar de uns negócios! E tu? O que é que andas a fazer por estas bandas? - Eu sou destas bandas, lembraste?! - Ainda na vida? - E tem algum mal nisso? - Por mim não – Marco pediu uma imperial ao empregado do bar. – Só tenho pena que uma miúda como tu ande para aí a deitar-se com qualquer um. Especialmente com os gajos que aparecem neste bairro. Mereces melhor. És gira… O discurso de Marco mereceu um novo sorriso por parte de Sara. - Queres que te pague outra cerveja? – ele perguntou. - Claro! Pode ser – Sara terminou num só gole a cerveja que ainda estava a beber. Conversaram durante horas junto ao balcão, acompanhados pelas suas respectivas cervejas sem prestar atenção a ninguém. Obviamente não falaram sobre assuntos
  • 219. importantes. Não conversaram sobre a família, amigos e muitos menos sobre projectos futuros. Na verdade, nada disso lhes interessava. O que os unia era bem mais forte. Era uma atracção física estranha e magnética que os impelia a não tirar os olhos um do outro. - Queres ir para outro lado? Isto aqui está barulhento – Marco ignorou um telefonema inoportuno. - Tudo bem! Podemos ir. Marco pagou as bebidas e tomou Sara pela mão. Desviou-a do meio da multidão, só voltando a largá-la minutos depois quando Milene os interceptou junto à saída. - Onde é que vão? – a prostituta perguntou com uma expressão aterradora. - Vamos dar uma volta – Marco levou o cigarro à boca. – Porquê? - Vão dar uma volta aonde? - Qual é, Milene?! Resolveste adoptar a Sara como filha, foi? - Eu só não quero que ela se meta em confusões. - Não me vou meter em confusões – Sara enfrentou o olhar aterrador de Milene. – E pára de me controlar! Eu sei bem o que faço… - Não, não sabes! Sara, eu acho melhor ires para casa! Eu peço a um amigo meu para te levar. - Ela não vai a lado nenhum, muito menos com um amigo teu – Marco puxou Sara até si. – Ela vai comigo! E tu cala-me essa boca, antes que eu perca a minha paciência! - Sara! Ouve aquilo que te estou a dizer… - Eu vou com ele, Milene – a jovem respondeu, resoluta. – Depois falamos. O cheiro de tabaco entranhado nos estofos do carro de Marco apenas aumentou a excitação de Sara. Submersa na sua pele achocolatada e naqueles braços musculados devidamente marcados por duas tatuagens, ela entregou-se a ele sem pensar na loucura que estava a cometer. Com Marco era diferente, ambos sabiam-no bem. Não
  • 220. o fazia por dinheiro, por luxúria, mas sim por um sentimento estranho que nunca pensou sentir por alguém. Amor? Não. Ainda era demasiado cedo para proferir essa obscenidade. Mas havia realmente qualquer coisa nele que a deixava à sua mercê. Madalena acordou a meio da madrugada sentindo um estranho aperto no coração. Teve um pesadelo. Horrível. Sonhou com a filha completamente ensaguentada no interior de um carro preto O pesadelo obrigou-a a abrir os olhos e sentar-se numa das pontas da cama. Benzeu-se. Respirou fundo e passou as mãos pelo rosto suado. Seria aquilo uma premonição, perguntou-se. Um sinal de que nem tudo estava bem? De que havia realmente algo que lhe estava a escapar ao controlo? - Está tudo bem? – Sérgio acordou logo em seguida. - Não – Madalena limpou o suor da testa. – Tive um pesadelo horrível. - Que pesadelo?! - Com a Sara. - Queres que te vá buscar um copo de água lá abaixo? - Não! Deixa estar! Eu vou! Aproveito e tomo também mum comprimido. O relógio sobre a mesinha de cabeceira assinalou três horas e quarenta e cinco minutos, altura em que Madalena vestiu o seu robe de seda exposto sobre o cadeirão e saiu do quarto. Contudo, ao passar pelo corredor, a florista voltou a sentir o mesmo aperto no coração. A mesma premonição. Um motivo que a fez abrir a porta do quarto da filha e entrar lá dentro apenas para se certificar de que tudo estava bem. Aparentemente, Sara parecia estar a dormir por debaixo do édredon. O quarto às escuras e o computador a hibernar sobre a secretária, fizeram com que Madalena se dirigisse até à saída. Mas a visão de um vestido entalado no roupeiro, voltou a alertar os seus sentidos. Havia ali qualquer coisa estranha, ela pensou. Qualquer coisa que não batia certo e que não a deixava descansada. Por esse motivo, sem hesitações, Madalena avançou em direcção à cama e levantou o édredon de uma assentada só. A imagem que viu em seguida foi chocante. Três almofadas estendidas sobre a cama em vez do corpo da filha. - A Sara desapareceu – Madalena entrou no seu quarto como uma louca depois de a ter procurado pela casa toda. - O quê?! – Sérgio levantou-se, atordoado.
  • 221. - A Sara desapareceu! Ela não está em casa. Madalena efectuou inúmeras chamadas para o telemóvel de Sara, mas este manteve- se desligado e fora de área durante toda a noite. Subitamente os seus medos começaram a ganhar forma. A florista desesperou-se por não saber do paradeiro da filha. Passeou aflita pelo quarto, desceu à cozinha, bebeu um copo de água, ouviu as palavras de consolo de Sérgio, e por fim, quando faltavam poucos minutos para as seis da manhã, refugiou-se no quarto de Sara. Foi nessa altura que a porta das traseiras se abriu. Munida da sua chave, Sara entrou pela cozinha, descalçando os seus saltos altos sobre o alpendre da porta. Trouxe no rosto a maquilhagem esborratada e uma ressaca de uma noite inteira de bebedeira. Já os pés, estes, encontravam-se inchados. A roupa que levou para a festa cheirava terrivelmente a tabaco. Sara subiu ao quarto, desejosa de cair na cama e dormir como uma pedra. Ansiava também conseguir recuperar-se da ressaca antes do meio-dia, altura em que a sua mãe com certeza invadiria o seu quarto pronta a subir os estores das janelas. Contudo, ao abrir a porta, o coração da jovem gelou. Às seis e cinco da manhã, Madalena já aguardava junto à janela com os estores para cima. O seu queixo tremeu de raiva ao ver a figura lastimável da filha vestida com uma micro-minissaia, meias de renda pretas e um top vermelho que deixava transparecer o soutien em tons rosa choc. Sara assemelhava-se em tudo a uma prostituta. E isso foi o suficiente para que Madalena se lançasse contra ela e a esbofeteasse no rosto com todas as forças que possuía dentro de si. Não o fez apenas uma, mas sim três vezes, e quando finalmente conseguiu extravazar toda a raiva que estava a sentir, arrastou-a para fora do quarto e levou-a até à casa de banho, ignorando-lhe os gritos e as palavras de ódio. - Lena! Tem calma – Sérgio tentou apartar a luta entre mãe e filha. - Sérgio! Vai buscar uma toalha – Madalena gritou enquanto tentava a todo o custo enfiar Sara debaixo do chuveiro. – Vai-me buscar a toalha! Sérgio não viu outro remédio a não ser obedecer ao pedido da sua namorada. Enquanto se dirigia ao quarto, o pequeno Daniel saiu do seu esfregando os olhos ensonados. - Volta lá para dentro, Dani – Sérgio apressou-se a levá-lo para o interior da habitação. – Fica aqui e não saias! Fica aqui!
  • 222. Sara foi perdendo as forças à medida que a água fria lhe caiu sobre a cabeça. Perdeu também a vontade de lutar contra os braços de Madalena, de a insultar e de a agredir. Quando se viu totalmente molhada, tal como a sua mãe, a jovem caiu no poliban e fechou os olhos, exausta. Nessa altura, Madalena retirou-lhe as roupas encharcadas e permitiu que Sérgio lhe entregasse uma toalha da porta. Utilizou-a para enxugar o corpo de Sara e limpar-lhe o rosto esborratado de rímel. Terminada a tarefa, Sérgio levou Sara sobre os ombros até ao quarto enrolada numa toalha. Alguns metros atrás, ainda na casa de banho, Madalena enfiou as roupas da filha num saco de plástico com o intuíto de as deitar para o lixo assim que descesse à cozinha. Naquela manhã, durante o pequeno-almoço, a casa manteve-se silenciosa. Daniel divertiu-se a ver os desenhos animados na televisão, alheio ao rosto preocupado e abatido da mãe. Sérgio pôde perceber o quanto Madalena se encontrava transtornada com todos os acontecimentos ocorridos durante a madrugada. Ainda que não tivesse parado um só segundo na cozinha, sempre à volta com os afazeres domésticos, tais como preparar os cereais de Daniel, fazer o café, as torradas e os ovos mexidos, Madalena bem tentou esconder de tudo e de todos a noite terrível que passou por conta da filha. - Tens a certeza que estás bem? – Sérgio aproximou-se cautelosamente quando ela começou a lavar a loiça do pequeno-almoço. - Estou! Já te disse que sim. - Porque se quiseres falar, eu estou aqui. - Não te quero meter nos meus problemas. - Não são os teus problemas, são os nossos problemas – Sérgio tomou-lhe a face com as mãos e impediu-a de continuar a esfregar freneticamente o fervedor. - Às vezes sinto-me mal por te estar a meter nisto – Madalena passou as mãos pelo rosto a fim de esconder as lágrimas que sem querer lhe brotaram dos olhos. - Tu não me estás a meter em nada. - Já não sei o que é que hei-de fazer com a Sara. - É uma fase! Vai passar…
  • 223. - E se não passar? - Vai passar – Sérgio repetiu, aparando-lhe as lágrimas no rosto. – Tens que ter confiança nisso e tens que ter paciência também! Não podes desistir agora. - Eu sei – Madalena soltou um longo suspiro de resignação. - Agora deixa-me ir andando – Sérgio beijou-a nos cabelos. – Vou levar o Daniel à natação e depois aproveito para passar pelo estúdio. - O.k – Madalena limpou as últimas lágrimas que lhe caíram no rosto. – Obrigada. - Amo-te! Ouviste? - Eu também. - Vemo-nos logo à noite. Madalena acedeu com um sorriso triste e aceitou o beijo que Sérgio lhe ofereceu junto ao lava-loiça. Minutos depois, a casa voltou a silenciar-se. As horas passaram, o almoço começou a ser preparado, e Afonso, o pai de Madalena, trouxe o neto a casa depois de o ter ido buscar à natação. - Olá pai – Madalena abriu--lhes a porta. – Entra! - Olá! Estás com uma cara! O que é que aconteceu? - Não dormi bem. - Algum problema? – Afonso permitiu que o neto lhe retirasse a mochila e o casaco das mãos. Segundos depois, Daniel subiu ao quarto e deixou o avô na companhia da mãe. - É a Sara. - O que é que foi desta vez? - Saiu ontem a meio da noite e só me apareceu em casa hoje de manhã.
  • 224. - Não te pediu autorização para sair? – Afonso acompanhou Madalena até à cozinha onde o almoço já estava praticamente concluído. - Que autorização?! Eu é que descobri que ela não estava em casa quando me passou pela cabeça entrar-lhe no quarto. Nem sei porque é que fiz isso. Deve ter sido uma mão divina que me levou até lá, sei lá! Quando entrei percebi logo que alguma coisa não estava bem. Deixou três almofadas na cama a fingir que era o corpo dela. Nem sabes o susto que apanhei… - Esta rapariga está cada vez pior. - Mas o pior nem foi ela ter saído ontem à noite sem dizer nada a ninguém. O pior foi o estado em que me chegou aqui – Madalena levou a panela do arroz à mesa. - Que estado? - Completamente bêbada, a tresandar a tabaco e vestida como uma prostituta. - Isto não me está a cheirar nada bem! Acho que devias pedir ao Jorge para falar com ela. - O Jorge?! – Madalena soltou uma risada seca. – Nem a mim a Sara respeita, quanto mais o pai! Se ficar à espera do Jorge para fazer qualquer coisa que seja, bem posso esperar sentada. Ele nunca moveu uma palha para educar os filhos. Não vai ser agora que o vai fazer. - Onde é que ela está? No quarto?! - Sim! Ainda nem se levantou! Provavelmente deve estar de ressaca. - Eu vou lá falar com ela. - Não pai! Tranquei-a no quarto porque não a quero ver à frente nas próximas horas. - Dá-me a chave que quero falar com ela. - Pai… - Dá-me a chave – Afonso imperou perante o olhar lancinante da filha.
  • 225. Afonso subiu ao primeiro piso com as chaves na mão e ao aproximar-se do quarto de Sara abriu a porta sem muitas cerimónias. No entanto, o que o ex-militar não contava era ver a neta sentada sobre o parapeito da janela a fumar calmamente o cigarro que tinha nas mãos. Os seus olhos enrubesceram. - Apaga-me essa porcaria imediatamente – ele ordenou. Sara acedeu ao pedido com um longo suspiro entediado. - E senta-te aí na cama que eu quero falar contigo! Mais uma vez, a jovem obedeceu à ordenação do avô. - A tua mãe contou-me o que fizeste ontem à noite… - Bem, que surpresa! Não estava nada à espera que ela fizesse uma coisa dessas. Até acho estranho que ainda tenha colocado essa notícia no jornal. - Sara! O que é que se passa contigo? Porquê esse ódio todo contra a tua mãe? O que é que ela te fez? Sara virou o rosto e recusou-se a responder. - Achas bem o que andas a fazer à tua vida? – Afonso sentou-se ao lado da neta e encarou-a com alguma preocupação. – Achas bem andares a faltar às aulas? Sair à noite sem avisar a ninguém? Embebedares-te por aí? Fumares… - Tu também fumas – Sara defendeu-se, rispidamente. - Eu tenho sessenta e oito, e tu, dezasseis! Queres comparar? Além disso, os cigarros que compro são com o meu dinheiro. - Eu também compro cigarros com o meu dinheiro. - Que dinheiro?! Por acaso andas a trabalhar? Sara remeteu-se ao silêncio ao perceber que tinha falado demais. - Não.
  • 226. - Não podes continuar a comportar-te dessa maneira! Não é normal que uma filha levante a voz para uma mãe e a destrate à frente de toda a gente. Eu sei que ficaste abalada com a separação dos teus pais, mas já tens idade suficiente para entender que nem todos os casamentos resultam. Nem sempre as relações entre dois adultos sobrevivem ao tempo e aos problemas. O casamento do teu pai e da tua mãe não resultou. Foi uma pena. Mas tu sabes bem o quanto eles lutaram para que o divórcio não acontecesse. A tua mãe principalmente. Não foi possível… Sara não conseguiu conter as lágrimas perante discurso do avô. - Foi ela quem se quis separar do meu pai. - Isso não é verdade. - É sim! Toda a gente sabe que foi ela quem pediu o divórcio. O meu pai nunca quis sair cá de casa. - Ela teve as suas razões, Sara! Mas isso não é motivo para que te comportes dessa maneira. Foi a relação dos teus pais que acabou. Apenas isso. - Eu só queria que me entendessem – Sara limpou o rosto marcado pelas lágrimas. - Para que te entendam, primeiramente tens tu que entender os outros! Não podes fazer sempre tudo o que te apetece. Não podes dizer que odeias as pessoas e esperar receber amor em troca. - Toda a gente me odeia… - Estás tão enganada, Sara! Olha para mim! Achas que eu te odeio? A jovem encontrou o rosto complacente do avô. Não. De facto, ele não parecia odiá- la. - Achas que se eu não me preocupasse contigo, estaria aqui a tentar chamar-te à razão? Tu cresceste-me nas mãos, tal como o teu irmão. Eu só quero que sejas feliz, minha querida – Afonso beijou-lhe a testa. – Pensa no que te disse! Ao contrário do que muita gente acha, para sermos felizes, não precisamos de muito. Às vezes um simples sorriso pode resolver muitos problemas…
  • 227. Nos dias seguintes, Sara bem tentou levar em conta as palavras do avô, mas os seus vícios e o seu novo estilo de vida falaram mais alto. Era usual continuar a faltar às aulas para ir ao Intendente, ainda que soubesse que o que estava a fazer era errado. Era errado e incompreensível vender o seu corpo em troca de dinheiro.Utilizar esse mesmo dinheiro para comprar tabaco, bebidas, roupas, sapatos, brinquedos sexuais e filmes pornográficos E por fim, era errado esconder de toda a gente e também da sua família que estava doente e que precisava de ajuda. O consumo aumentou, assim como os clientes que recebia na pensão de Milene. Mas já não havia nada a fazer. Por mais que tentasse controlar a sua vontade, ela prevalecia sempre sobre a sua racionalidade. Numa friorenta tarde de Abril, o pior aconteceu. Sara gritou desesperada ao tentar livrar-se das garras de um dos clientes mais malucos que alguma vez atendeu. Depois do sexo, ele tentou sufocá-la até à morte. Foi por pouco que a jovem não desmaiou e foi também num precioso momento de distracção daquele homem insano que ela se levantou da cama e destrancou a porta do quarto, correndo a pedir ajuda. Quando chegou à recepção, Nuno, o dono da pensão, foi o primeiro a socorrê-la. Ouviu-lhe o discurso assustado e subiu ao quarto na companhia de dois amigos. Os minutos que se seguiram foram de extrema violência. O cliente de Sara foi brutalmente espancado e atirado pelas escadas a abaixo. Nessa altura, Milene, que estava a falar com uma amiga no outro lado da rua, apercebeu-se da cena e correu até à pensão. Encontrou Sara a chorar desalmadamente, ainda assustada com tudo o que tinha acontecido momentos antes. Quando a viu, Milene abraçou-a e acalmou-lhe os soluços. - Queres mais, oh meu filho da mãe?! – Nuno não teve piedade em voltar a pontapear aquele homem estendido no chão. – Isso é para aprenderes a tratar as mulheres como deve ser! Otário de merda… A Páscoa chegou poucos dias depois envolta num enorme temporal. Chovia torrencialmente desde o início da semana. Mas apesar do mau tempo, Madalena manteve os planos de organizar um grande almoço de família. Convidou o seu pai, a sua melhor amiga, Alice Martins, e tal como não poderia deixar, Sérgio, o seu namorado. Todos confirmaram a presença no evento deixando-a a cargo com os preparativos do almoço. Madalena começou desde cedo a preparar um delicioso arroz de pato. Uma receita da sua mãe que ainda continuava a ser uma das suas melhores especialidades. Enquanto a chuva caía ferozmente sobre o tejadilho da janela, ela desfiou o pato, cortou o bacon em tirinhas e cozeu o arroz. Mais tarde, ligou o forno e foi surpreendida pelo toque do seu telemóvel em cima da bancada da cozinha. Ao ver de quem se tratava, a florista abriu um largo sorriso.
  • 228. - Olá, amor – Sérgio abriu as portas do carro. – Era para te dizer que infelizmente vou chegar um pouco atrasado ao almoço. - O que é que aconteceu? - Atrasei-me a fotografar a sessão e não sei a que horas me consigo despachar. O pior é que depois ainda vou ter que passar pelo estúdio para deixar os materiais. - Raios! Achas que não vai dar tempo para ires buscar o meu pai, então?! Ele ligou- me ontem a dizer que tinha o carro na oficina. - Vou tentar, mas não prometo nada! Não podes ir tu? - Não! Tenho o almoço no forno! E também não tenho ninguém que me fique a tomar conta do Daniel. A Sara também ainda não chegou da rua. Já lhe tentei ligar várias vezes para o telemóvel e dá sempre fora de área… Sérgio deixou de ouvir o discurso de Madalena quando viu uma cena verdadeiramente chocante diante de si. O fotógrafo ainda tentou convencer-se que o que estava a ver era fruto da sua imaginação ou uma alucinação inconcebível, mas a verdade é que poucas dúvidas lhe restaram quanto à identidade daquela bela jovem acabada de sair de um hotel no centro da cidade, abraçada a um homem muito mais velho, enquanto se ria às gargalhadas com uma piada contada por ele. Era nada mais, nada menos, que Sara, a filha da sua namorada. - Estás aí? – Madalena perguntou quando confrontada com o longo silêncio que Sérgio lhe impôs ao telefone. - Hã… estou! Escuta! Eu já te ligo, está bem!? Sérgio desligou a chamada e atirou o telemóvel contra a caixa de velocidades pronto a tirar aquela história a limpo. Mas quando atravessou a rua a imagem de Sara evaporou-se. Apenas foi possível vê-la de novo alguns metros mais à frente no interior de um magestoso BMW, tendo como condutor o mesmo homem que saíra com ela do hotel. Minutos depois, ele arrancou o carro a alta velocidade perante o olhar incrédulo de Sérgio. Ao meio-dia e meia Madalena deu-se por vencida. Precisava urgentemente de alguém para ir buscar o seu pai a casa e Sérgio estava acidentalmente preso numa sessão fotográfica. Foi nessa altura que a campainha tocou. Daniel, que se encontrava na sala a jogar playstation, correu a abrir a porta e deu-se de caras com o pai.
  • 229. Jorge aproveitou a época comemorativa para ver filhos ainda que por alguns minutos. Estar com eles, desejar-lhes uma Páscoa feliz e quem sabe até conseguir um pouco da atenção da sua ex-mulher. - E aí, campeão? – o advogado simulou uma luta de punhos com o filho ao longo do corredor. – O que é que contas? - Estou a jogar aquele jogo que me compraste na semana passada – Daniel soqueou a barriga do pai em tons de brincadeira. – Já passei todos os níveis! Era super fácil. - Assim mesmo é que é! Não esperava outra coisa de ti! Para a semana trago-te outro. Comprei-o há dias, só não tive tempo ainda para jogar. A tua irmã? - Não está em casa. - Onde é que ela foi? - Não sei – Daniel encolheu os ombros. - E a tua mãe? - Está na cozinha a fazer o almoço. - Então eu vou até lá falar com ela – Jorge afagou os cabelos do filho. – Quando voltar, jogamos uma partida! Preciso desenferrujar as mãos. Não era a primeira vez que entrava naquela cozinha, mas ainda assim, sempre que o fazia, Jorge tentava lutar contra o frio na barriga que aquela sensação lhe provocava. Há quatro anos atrás, seria normal ver a sua mulher a fazer o almoço a toda a velocidade, a limpar a bancada da cozinha com um pano húmido, a colocar a mesa sempre com quatro lugares ou até mesmo a temperar a salada provando o vinagre na palma da mão. Nada tinha mudado. Nem sequer a vontade de a surpreender perto do lava-loiça com um beijo no pescoço. - Olá Lena… Madalena mostrou-se surpresa por o ver ali. – O que é que estás aqui a fazer? Não combinámos nada.
  • 230. - Oras! Vim ver os meus filhos! É Pascoa, lembraste?! – Jorge apontou o dedo em direcção ao forno. – Cheira bem! - Arroz de pato. - Já vi que não perdeste o jeito. - Olha, a Sara não está – Madalena não se deixou amolecer pelos elogios baratos do ex-marido. - Onde é que ela foi? - Disse que ia entregar um presente de aniversário a uma amiga. Mas entretanto já devia ter chegado. - Já lhe ligaste para o telemóvel? – Jorge apoderou-se de uma maçã sobre a fruteira. - Foi a primeira coisa que fiz – Madalena apressou-se a tirar as loiças dos armários. - Tantos pratos… - Tenho gente que vem cá almoçar. - Quem?! – Jorge trincou a maçã que tinha nas mãos. - O meu pai, a Alice, os miúdos e… o Sérgio… - O teu namorado?! - Sim, Jorge! O meu namorado! Porquê?! - Por nada – ele encolheu os ombros. – Já vi é que toda a gente foi convidada para este almoço, menos eu… - E porque é que haverias de ser convidado?! - Porque pensei que também fizesse parte da família. - Não da minha família. - A sério?! Pensei que a Sara e o Daniel fossem os nossos filhos.
  • 231. - Jorge, eu não vou discutir contigo agora! Tenho imensa de coisa para fazer! Por isso, se não te importares de sair da frente do armário, eu precisava de uma panela que está aí dentro… - Sabes uma coisa – ele desviou-se a tempo, permitindo que a mulher abrisse a porta do armário. - O quê?! - Assaltaram-me a casa no outro dia. - Estás a falar a sério? – Madalena franziu o sobre olho. - Quando cheguei, vi tudo do avesso! Levaram-me o plasma, a aparelhagem, garrafas de whisky, a playstation, o dinheiro. Tudo! Até a roupa sacaram dos armários. - Mas quem é que fez isso?! Não descobriram? - O porteiro disse à polícia que viu dois rapazes meio estranhos a entrar no prédio naquele dia. Dois pretos. Com certeza já andavam a rondar a zona há algum tempo. O pior é que só me calhou a mim. Não assaltaram mais nenhum outro apartamento. - Deve ter sido castigo divino – Madalena não resistiu à ironia enquanto tentava ligar novamente para o telemóvel da filha. – Desligado! Mais uma vez! Não sei o que faço com esta rapariga. - A quem andas a tentar ligar? - À Sara! Preciso que ela chegue para me tomar conta do almoço e do Daniel. Ainda tenho que ir buscar o meu pai a casa. Ele está sem carro esta semana. - Eu posso ir buscar o teu pai – a proposta de Jorge tomou-a de assalto. - Tu?! - Sim! Porque não?! Já é quase uma da tarde e tu sabes que o teu pai gosta de almoçar cedo. A proposta do ex-marido era deveras tentadora, mas ainda assim, Madalena hesitou em aceitá-la.
  • 232. - O que foi?! – Jorge riu-se com algum sarcasmo. – Até parece que nunca fiz isso antes. Quando éramos casados cansava-me de ir buscar o teu pai e a tua mãe a casa. Trago-o num instante… - Está bem – ela concordou após um longo período de meditação. – Mas não se atrasem, pelo amor de Deus! - Podes deixar! Aproveito e pergunto ao Daniel se não quer ir comigo. A visão através da janela da cozinha do ex-marido e do filho a entrar no carro fez com que Madalena voltasse a recordar os anos em que esteve casada com Jorge. Dezasseis ao todo. Muitos anos, mas que ainda assim não lhe traziam qualquer sentimento de saudade. Jorge fazia agora parte do passado. De um passado longínquo, repleto de discussões, traições e faltas de respeito. Mas também de um passado que dava mostras de não querer desaparecer. Jorge continuava a frequentar aquela casa como se fosse sua. Fazia questão de assinalar a sua presença em todas as ocasiões, e nos últimos tempos telefonava mais do que o habitual – nem sempre para falar dos filhos. Contudo, continuava o mesmo. Arrogante, presunçoso e irresponsável. Madalena pôde ter essa certeza quando lançou os olhos à bancada e viu sobre ela os restos da maçã que o ex-marido ali deixou poucos minutos antes de sair. Sem outro remédio, ela levou aquele maldito caroço em direcção ao caixote de lixo. A chuva parou às treze horas e quinze minutos, altura em que Madalena abriu a porta de casa à sua melhor amiga. Alice foi a primeira convidada a chegar, trazendo nas mãos duas sobremesas especialmente adquiridas numa pastelaria perto de sua casa. Assim que se viram, as duas amigas abraçaram-se com força e seguiram animadas em direcção à cozinha. Mais tarde, voltaram à sala onde Alice se disponibilizou para ajudar Madalena a colocar a mesa do almoço. - Nunca te vi tão feliz e animada. - Nota-se assim tanto? – Madalena estendeu a toalha sobre a mesa. - A quilómetros de distância! Não há dúvidas de que o Sérgio te está a fazer bem. Adoro ver-vos juntos! - Eu também – as duas amigas riram-se alegremente. Alice tinha razão. Há muitos anos que não via Madalena tão feliz ao lado de alguém. Conheceu-a quando ainda era casada com Jorge e não se lembrava de alguma vez lhe
  • 233. ter visto um sorriso estampado no rosto. Mas com Sérgio era diferente. A relação dos dois parecia mais sincera, límpida, honesta e apaixonada. Alice rezava para que tudo desse certo. Apesar da diferença de idades, Madalena e Sérgio faziam o casal perfeito. - Onde é que estiveste até agora? – Madalena perguntou à filha quando ela chegou a casa poucos minutos depois. - Já te tinha dito – Sara cumprimentou Alice no rosto. – Fui ter com uma amiga! Olá Alice! Estás boa?! - Sim, querida! E tu? - Também. - Saíste daqui às dez! Já viste que horas são? Uma e meia – Madalena não parecia querer dar tréguas à filha. – Para a próxima vê se cumpres o horário! Sabias muito bem que tínhamos convidados para o almoço. - Lena, coitada da rapariga – Alice tentou amenizar o ambiente hostil entre mãe e filha. – Também não se atrasou tanto. Com certeza deve ter ficado à conversa com a amiga e as duas perderam a noção das horas. - Posso subir? – Sara perguntou num tom de deboche. - Podes – Madalena respondeu com o mesmo sarcasmo. – Mas vê se me tomas um banho antes de descer para o almoço! Estás a tresandar a tabaco… Sara abandonou a sala sem proferir nenhum comentário. Ajeitou apenas os cabelos soltos e deu um nó no cinto da sua gabardina. Enquanto subia ao primeiro piso, o barulho dos saltos irritou Madalena. Detestava ver a filha vestida daquela maneira. - Ela anda a fumar? – Alice perguntou, intrigada. - A fumar e a beber! No outro dia, apanhei-lhe uma garrafa de vodcka debaixo da cama enquanto lhe aspirava o quarto. Alice abanou a cabeça, afligida com aquela situação. - Porque é que não falas com o Jorge?
  • 234. - E ele ia fazer o quê!? - Ele é o pai! Ele tem que fazer alguma coisa. - Por enquanto vou aguentando isto, sozinha! Tenho esperanças que esta fase passe depressa e que a Sara volte a ganhar juízo. - Ainda assim! Continuo a achar que devias incluir o Jorge na educação dos vossos filhos, especialmente na educação da Sara. Ele não pode continuar a pensar que é tudo muito fácil, que basta aparecer aos fins-de-semana para buscar os miúdos, telefonar de vez em quando, pagar uma boa pensão no final do mês. Ser pai é bem mais do que isso. E ser mãe então?! Bem! Acho que nem te preciso dizer… Jorge cumpriu exemplarmente a tarefa a que se tinha proposto quando foi buscar o ex-sogro a casa. Uma surpresa que Afonso recebeu de bom-grado, já que há muito não privavam da companhia um do outro. Durante a viagem, os dois homens aproveitaram para colocar a conversa em dia. Falaram sobre política, o tempo, e tal como não poderia deixar de ser, o Benfica e o Futebol Clube do Porto. A eterna rivalidade entre sogro e genro parecia não ter fim. Trinta minutos depois, Jorge estacionou o carro em frente à moradia de Madalena. Desligou o motor, desfez-se do cinto de segurança e aguardou que o filho saltasse do banco de trás desejoso de voltar a enterrar-se no jogo da playstation que deixou a meio. Quando Daniel entrou em casa, Afonso voltou-se para o ex-genro e sorriu-lhe carinhosamente. - Acha que é uma loucura da minha cabeça, não acha? – Jorge encarou Afonso com uma expressão mortificada. - O quê?! Quereres voltar para a minha filha? Jorge soltou um suspiro pesado. – É uma loucura, não é?! - Jorge! Eu não te vou mentir! Eu sempre gostei de ti! Sempre nos demos muito bem… - Eu sei. - Mas tu não agiste correctamente com a Lena nos últimos anos do vosso casamento. - Também sei disso – Jorge engoliu seco. – Fui um idiota.
  • 235. - E mesmo depois da vossa separação, também não te mostraste particularmente arrependido. Continuaste com a tua vida desregrada, continuaste com os teus negócios obscuros, engravidaste uma mulher… - Mais alguma coisa a acrescentar à lista?! – Jorge e Afonso riram-se alegremente no interior do carro. - Eu acho que deves pensar melhor sobre o assunto. Parece-me que estás confuso agora que soubeste que ela arranjou um novo namorado. - Não! Não é nada disso – Jorge defendeu-se, prontamente. – Eu gosto da Lena, Srº Afonso! Gosto muito! Sempre gostei! O problema é que… as coisas já não andavam bem entre nós. Desde que a traí pela primeira vez, ela perdoou-me, mas nunca mais voltou a ser a mesma coisa. Deixou de haver confiança e as discussões foram aumentando. Mesmo quando não a traía, quando ficava a trabalhar até tarde ou tinha viagens de negócios, ela acusava-me de estar com outras. Virou um inferno. Cansei-me, confesso! Depois, cansei-me da rotina. Voltei a trair. Voltei a pedir perdão, voltei a trair outra vez! E tudo foi-se acumulando como uma bola de neve. Quando dei por mim, já estávamos a dormir em quartos separados… - Pelo menos tens consciência que agiste mal. - E também não foi só isso – Jorge desabafou. – Ela odiava o meu trabalho! A forma como eu andava a ganhar dinheiro a rodos com os negócios que fazíamos lá no escritório. Dizia que se sentia mal por vivermos tão bem. Que era dinheiro sujo. - E não era?! - Era! Mas… eu só estava a fazer aquilo para o bem dos nossos filhos. Porque queria que eles tivessem a vida que eu nunca pude ter quando tinha a idade deles. Não queria dar-lhes pão com manteiga ao almoço e nem uma peça de fruta ao jantar por não haver mais nada no frigorífico. Será que sou um pai tão horrível por querer dar o melhor aos meus filhos? - Quem sou eu para te julgar, Jorge! Mas será que fizeste tudo isso apenas pelos miúdos? - Como assim?!
  • 236. - Será que não te deixaste cegar pelo dinheiro e pela ambição?! Não puseste a tua carreira à frente da tua família e do teu casamento com a minha filha? Jorge não soube o que responder. Nunca tinha pensado nisso. - Talvez! Mas se calhar já é tarde demais, não?! A Lena nunca me vai perdoar. - Nunca é uma palavra muito forte. - Eu sei que ela não vai! Então agora que arranjou um namorado novo. Está toda contente e apaixonada… - Apaixonada, ela está! Mas vamos ver como correm as coisas. - Porque é que diz isso? – Jorge encarou o rosto do ex-sogro com alguma esperança. - Eu gosto muito do Sérgio! Ele é um bom rapaz e trata a minha filha muito bem. Mas a diferença de idades vai acabar por pesar. Mais cedo, ou mais tarde, ele vai querer ter filhos e a Lena já não está a ir para nova…! Enfim! - Ela gosta dele? - Gosta. - E ele gosta realmente dela? - Acho que sim. - Seria muito mau confessar que me apetecia dar um tiro a esse gajo? – Jorge não conseguiu esconder os ciúmes que se apossaram de si. Afonso soltou uma gargalhada alegre. – Ai homem! Anda lá que eu vou-te ajudar! - Ajudar!? Como? - Vamos entrar. - Não, é melhor não… - Anda lá e deixa-te de coisas!
  • 237. Afonso e Jorge entraram em casa minutos depois, envolvidos numa conversa divertida e amigável. Mais tarde, seguiram pelo corredor e chegaram à sala, onde Madalena e Alice continuavam a ultimar os preparativos da mesa do almoço. Quando os viu, Madalena cerrou os olhos. Não gostou nem um pouco da excessiva cumplicidade entre os dois, mas resolveu cumprimentar o pai no rosto perguntando- lhe como estava. - Estou óptimo – Afonso despiu o casaco. – E tu? - Cansada, mas bem! O almoço já está pronto. Vieste na hora certa. - Então vamos almoçar que estou a morrer de fome. - O Sérgio ligou há pouco a dizer que já está a caminho! Mas pediu para que começássemos a almoçar sem ele. - Bem! Então nesse caso, eu já vou andando… – Jorge afirmou, percebendo que a sua presença não era muito bem-vinda. - Porquê?! – Afonso interceptou-o a tempo. – Fica para almoçar connosco. - Eu?! - Claro! Foste tão gentil em ter-me trazido! O mínimo que podias fazer era dar-nos o prazer da tua companhia, não achas? Madalena pensou por momentos que Afonso tivesse ficado senil quando se atreveu a convidar o seu ex-marido para almoçar. Será que ele tinha perdido totalmente a noção da realidade? Será que ele não a ouvira a dizer que o seu novo namorado estava prestes a chegar? - Bem… – Jorge mostrou-se encabulado com o convite. – Eu não sei se a sua filha concorda com o seu convite, Sr. Afonso. - É claro que ela concorda! É só pôr mais um prato na mesa! Não concordas, Lena?! O silêncio mantido por Madalena foi deveras constrangedor. - Não concordas? – Afonso fulminou-a com os olhos. – As crianças iriam gostar de passar a Páscoa com o pai.
  • 238. Nem Madalena e nem Alice conseguiram esconder as suas expressões carregadas à mesa. O almoço que tinha tudo para ser agradável, transformou-se num momento de pesar para as duas amigas. Apenas Daniel, Sara, Jorge e Afonso pareciam animados, conversando entre si, enquanto degustavam a refeição confeccionada por Madalena. A meio do almoço, a campainha tocou. Daniel foi o primeiro a saltar da cadeira e a correr em direcção à porta. Era o único membro da família que gostava de abrir a porta aos outros. E desta vez abriu-a de rompante, dando-se de caras com Sérgio, o namorado da sua mãe. Após um cumprimento amigável, Daniel levou o fotógrafo até à sala. Seguiu-se então um momento verdadeiramente constrangedor. Numa mesa composta para sete pessoas, Sérgio encontrou o seu lugar ocupado por Jorge, o ex- marido de Madalena, que protagonizava algumas das melhores piadas da tarde, mexia-se com um à-vontade fora do normal e servia-se à mesa como se ainda continuasse a ser o dono daquela casa. - Que bom que chegaste – Madalena correu ao encontro de Sérgio e tentou beijá-lo. - Olá! Peço desculpas pelo atraso – o fotógrafo afastou-se instintivamente. - Não faz mal! Ainda chegaste a tempo! Senta-te! - Não – Sérgio recuou dois passos em direcção à porta. – Eu só vim aqui dar-te um beijo. Nem sequer me vou demorar muito. Falamo-nos mais logo, está bem?! - Sérgio… - Almoça connosco, Sérgio – Afonso apontou-lhe uma cadeira ao lado da sua. - Sim! Nós estávamos à tua espera – Alice concluiu, desejosa que o fotógrafo aceitasse o convite. - Eu sei e agradeço-vos por isso, mas fica para uma outra altura. Fica. Os olhos de Madalena suplicaram, mas infelizmente Sérgio já havia tomado a sua decisão. Nunca seria capaz de se sentar à mesma mesa que o ex-marido da sua namorada, sabendo bem que o advogado ainda mantinha esperanças de voltar para ela. E ainda que se tivesse tentado convencer em diversas ocasiões de que aquele casamento estava terminado, a verdade é que, pela primeira vez, naquela tarde chuvosa de domingo, Sérgio começou a ter sérias dúvidas.
  • 239. - Não acredito que te estejas a ir embora – Madalena levou-o à porta. - É melhor assim, Lena! Só para evitar situações constrangedoras. - A culpa não foi minha! Não fui eu que convidei o Jorge. - Depois falamos – Sérgio largou a mão de Madalena. Quando regressou à sala, depois de ter limpado uma lágrima que sem querer lhe caiu dos olhos, Madalena deu-se conta que o seu pai e os seus filhos estavam demasiado entretidos com as piadas contadas por Jorge para perceberem o quanto ela se encontrava infeliz. Apenas Alice teve essa sensibilidade. Perguntou-lhe baixinho como é que estava, mas Madalena foi incapaz de responder. Horas depois, o maldito almoço de Páscoa teve fim. Alice foi a primeira convidada a despedir-se, sendo que vinte minutos mais tarde, Jorge disponibilizou-se para levar o ex-sogro a casa. O convite foi imediatamente aceite por Afonso. Mas antes que se pudesse despedir dos netos, Madalena, a filha, chamou-o à cozinha. - Como é que me pudeste fazer isso?! – ela fitou o pai furiosamente. - Isso, o quê?! - Ainda perguntas? Não tens noção do ridículo que foi este almoço? - Eu só queria… - Afonso tentou desculpar-se. - Querias o quê?! Embaraçar-me? Humilhar-me? Ou será que querias humilhar o Sérgio?! Pois deixa-me que te diga que se eram estes os teus intentos, parabéns! Conseguiste-os na perfeição. - Estás a fazer uma tempestade num copo de água. - Não, não estou – Madalena calou os argumentos de Afonso com um grito que chamou a atenção do ex-marido e o obrigou a esconder-se atrás da porta. – Mete uma coisa nessa tua cabeça e na cabeça do Jorge, pai! Eu não vou voltar para ele! Nunca! Sabes bem o quanto lutei para me livrar daquele casamento. Viste o quanto eu sofria cada vez que descobria uma traição dele. Viste o quanto eu sofria para criar a Sara e o Daniel sozinha porque não podia contar com o Jorge para nada, nem sequer para levar os miúdos ao médico. Viste-me ir presa por um crime que ele cometeu. Viste tudo isso, e ainda assim tiveste o desplante de o convidar para este almoço. Não me
  • 240. queres ver feliz, não é?! Depois de anos de sofrimento, de me sentir amargurada, de achar que era a mulher mais inútil do mundo, eu consigo finalmente encontrar alguém que parece gostar de mim, alguém que não me trai, que não me mente, que me faz sentir especial. Alguém que o Jorge nunca conseguiu ser. E o que é que tu fazes, hã? Em vez de me apoiares e de ficares feliz por mim, tentas estragar a melhor relação que tive até hoje. Que espécie de pai faz isso a uma filha? Madalena não conseguiu controlar as lágrimas que sem querer lhe brotaram dos olhos, e quando isso aconteceu, Afonso baixou a cabeça, envergonhado. - Desculpa – foi tudo o que o ex-militar conseguiu dizer. - Nunca te vou perdoar por isto, pai! Não te vou perdoar mesmo… Madalena não pregou olho naquela noite. Virou-se inúmeras vezes na cama, tomou um comprimido, bebeu vários copos de água, mas ainda assim, o sono teimou em não aparecer. Foi só nessa altura que ela percebeu a grande embrulhada em que estava metida a sua vida. Percebeu que por mais anos que passassem, o ex-marido estaria sempre por perto, pronto a assombrá-la e a assombrar todos os resquícios de felicidade que poderiam atravessar o seu caminho. E o pior de tudo era não saber o que fazer para o afastar da sua vida de uma vez por todas. Após quarenta e oito horas de um silêncio ensurdecedor, Madalena e Sérgio voltaram a encontrar-se. Ela conseguiu escapar durante a sua hora de almoço na floricultura e ele teve uma tarde livre para trabalhar nas fotografias que havia tirado durante a sessão de domingo. Combinaram um encontro no apartamento dele. Madalena tocou à campainha às catorze horas. Sérgio abriu a porta dois minutos depois. - Olá! - Olá… - ele largou a porta e ela entrou. - Estás ocupado? - Mais ou menos. Entraram em silêncio, levando nos rostos duas expressões carregadas. - Porque é que não me ligaste? – Madalena perguntou com alguma cautela.
  • 241. - Precisava de tempo – Sérgio respondeu, atirando um cabo contra a mesa de vidro. - Tempo para quê? - Para pensar! Para ficar sozinho… - E porque é que precisavas de tempo para ficar sozinho? - Porque eu pensei que também precisasses do mesmo – o olhar dele foi esmagador. - Eu não preciso de tempo – Madalena aproximou-se. – Acredita em mim quando te digo que não fui eu que convidei o meu ex-marido para àquele maldito almoço. Foi o meu pai… - Pode até ter sido o teu pai, mas a verdade é que não fizeste nada para o impedir. - O que é que eu podia fazer? - Tu sabes muito bem o que é que podias fazer – Sérgio calou-lhe os argumentos. – Só não fizeste porque não quiseste. - Isso não é verdade. - Tens a certeza? - O Jorge já não faz parte da minha vida. - Faz sim! E aquele maldito almoço, tal como dizes, apenas veio a confirmar o que eu já sabia. - Tu não estás a perceber… – Madalena balançou a cabeça, atordoada. - Não! Tu é que não estás a perceber, Lena – Sérgio encarou-a com toda a seriedade do mundo. – Eu gosto de ti, mas aviso-te desde já que não vou conseguir lidar com a ideia de ver o teu ex-marido constantemente em tua casa. Eu sei que vocês foram casados durante muitos anos. Sei também que têm filhos, mas isso não lhe dá o direito de passar a vida em tua casa, aparecer sem avisar, telefonar-te sempre com desculpas esfarrapadas e agir como se ainda continuasses a ser a mulher dele. Isto para não falar da vontade descomunal do teu pai em ver-vos juntos outra vez.
  • 242. - O que é que queres dizer com isso? – Madalena engoliu seco. - O que eu quero dizer é que tu vais ter que tomar uma decisão! Ou assumes a nossa relação de uma vez por todas, ou então… ficamos por aqui. - Mas eu já assumi a nossa relação. - Aos outros – Sérgio cortou-lhe as palavras. – Eu quero que a assumas para ti! Madalena encontrou na janela da sala o seu único local de refúgio. Manteve-se de pé, olhando os poucos carros estacionados sobre o passeio e algumas das pessoas que deambulavam pala rua indiferentes ao remoinho de ideias infiltradas na sua mente. Por fim, após um longo minuto de silêncio, ela voltou-se para trás e encarou o rosto de Sérgio. Tinha tomado uma decisão. - Tudo bem! Chega de medos! Eu quero que isto resulte. - E o que é que estás disposta a fazer para que isto resulte? - Afastar-nos de tudo o que nos faz mal. As palavras de Madalena pareceram surtir efeito quando Sérgio a tomou nos braços e lhe encontrou os lábios no interior daquela sala repleta de máquinas fotográficas. Depois disso, nada mais importou. Ele envolveu-a, ela deixou-se envolver e os dois caíram no chão, submersos um no outro, ansiando que as carícias pudessem apagar todas as dúvidas que surgiram momentos antes. Quando os seus rostos se cruzaram, Sérgio tomou-lhe a face com as mãos e viu em Madalena tudo o que sempre desejou numa mulher. Amava-a, isso era um facto assente. Amava cada pedacinho do seu corpo e da sua personalidade. Amava o jeito como ela lhe sussurrava aos ouvidos, como passava a língua na ponta do seu nariz e lhe cravava as unhas nas costas sem medo de as deixar marcadas. Do outro lado, sentada sobre o colo de Sérgio, Madalena permitiu que os seus sentidos se perdessem nele. Entregou-se inteira, deixou-se levar para todas as divisões da casa e caiu na cama do fotógrafo à espera que aquele momento sublime não mais tivesse fim. Quando terminaram, olharam-se hipnotizados. Nunca fora tão bom. - Amo-te – ele disse, retirando-lhe o cabelo molhado do rosto.
  • 243. - Eu também te amo – ela mergulhou-lhe na boca salgada sem se dar conta que há muito que o relógio sobre a mesinha de cabeceira havia marcado as dezasseis horas e trinta e oito minutos. Os dias seguintes trouxeram a calmaria perdida após aquele fatídico domingo de Páscoa. Madalena seguiu à risca a promessa que fez a Sérgio. As crianças passaram a encontrar-se com o pai no portão de casa, e na volta, Madalena fazia questão de lhes recolher as mochilas à entrada, não deixando qualquer margem de manobra para que Jorge se atrevesse a entrar. - Como estás? – ele perguntava. - Óptima – ela respondia, virando-lhe as costas e fechando-lhe a porta na cara. Com o tempo, as poucas dúvidas que ainda restavam, dissiparam-se. Era oficial. Madalena e Jorge já não tinham mais nada em comum a não ser os filhos. As suas vidas tomaram rumos diferentes, sendo Sérgio a razão principal para que as visitas do advogado lá a casa se tornassem indesejáveis. Era ele agora quem ocupava o seu lugar à mesa, quem ajudava Madalena a preparar o jantar e a arrumar a cozinha, quem lhe fazia companhia, brincava com o pequeno Daniel e tentava controlar o péssimo feitio de Sara sempre que se viam ou se esbarravam nos corredores da casa. A jovem odiava-o com todas as forças. Não escondia isso de ninguém, e na segunda vez que a observou a entrar na cozinha, Sérgio arranjou coragem para a confrontar. Ele foi beber um copo de água antes de dormir, e ela, varada de fome, preparou uma sandes mista sobre a bancada da cozinha. - Vi-te no outro dia – Sérgio depositou o copo no interior do lava-loiça. - Desculpa?! - Vi-te há duas semanas numa rua perto das Amoreiras! Estavas a sair de um hotel com um homem que tinha idade para ser teu avô. - E daí? - O que é que estavas a fazer com ele? - Não é da tua conta – Sara guardou a embalagem de manteiga nos armários.
  • 244. - Pensei que naquele dia tinhas dito à tua mãe que ias entregar um presente a uma amiga. Por acaso essa amiga morava naquele hotel? - Já disse que não é da tua conta. - Tu andas a relacionar-te com homens mais velhos, Sara?! - E se estiver? – a jovem encarou-o com altivez. – O que é que tu tens a ver com isso? Também não te andas a relacionar com mulheres mais velhas? - Não queiras distorcer as coisas. - O que eu sei é que devias preocupar-te mais com a tua vida e menos com a vida dos outros. - Eu só quero o teu bem. - Eu não preciso que queiras o meu bem! Só preciso que desapareças! Ou será que ainda não percebeste que estás aqui a mais!? Sara mordeu o primeiro pedaço da sua sandes e desapareceu da cozinha depois de lançar um olhar aterrador a Sérgio. Quando chegou ao quarto, trancou-se à chave e continuou a ver a uma maratona de novos filmes pornográficos que comprou no dia anterior. Era usual tocar-se enquanto os visionava, mas naquela noite em particular, não lhe apeteceu fazer nada disso. Foi apenas o prazer de ver. Um acto mecânico que já não lhe causava qualquer tipo de excitação. Via as cenas, puxava-as para a frente ou para trás e anotava novas posições sexuais para praticar com os seus clientes. Com o cair da madrugada, Sara adormeceu sobre a cama e esqueceu-se de desligar o computador. No ecrã, ainda continuava a passar o último filme pornográfico que escolheu, e sobre a mesinha de cabeceira, o seu telemóvel vibrava ruidosamente. Um ruído que a despertou alguns minutos depois. Quando viu no visor o remetente da chamada, Sara nem quis acreditar. Tinham-se passado várias semanas desde a última vez que falaram. Demasiadas. - Devo aparecer em Lisboa no final desta semana – Marco disse, submerso num barulho ensurdecedor no outro lado da linha. Parecia estar numa festa. - Vais passar pelo bairro para me ver?! – Sara sorriu ao telefone. - Claro! Mas estava também a pensar em fazer uma outra coisa.
  • 245. - O quê?! - Convidar-te para desceres comigo ao Algarve. - Sério?! Queres que vá contigo até ao Algarve? - Sim! Porque não?! Vínhamos na sexta de madrugada e eu levava-te para cima no domingo. O que é que achas? A proposta de Marco parecia realmente tentadora. - Está bem – Sara cometeu a loucura de a aceitar. – Eu vou. - Então prepara-te, miúda! Apanho-te sexta no bairro e seguimos para baixo. Vai ser um ganda fim-de-semana. O plano parecia perfeito, mas também arriscado. Sara sabia-o melhor do que ninguém e sabia também que quando voltasse do seu fim-de-semana no Algarve, provavelmente tudo iria desmoronar à sua volta tendo em conta a personalidade histérica da sua mãe. Contudo, a paixão que sentia por Marco fazia valer a pena o risco. Por ele, valia a pena aventurar-se a meio da madrugada pela auto-estrada e passar dois dias inteiros sem nada ou ninguém que os pudesse atrapalhar. Sara preparou todos os detalhes da fuga sem que a sua mãe desconfiasse de nada. Arrumou a mochila com antecedência, permitiu que Madalena a levasse ao colégio pela manhã, esperou que a mãe arrancasse o carro, saiu dos portões da escola em direcção à paragem de autocarro mais próxima, chegou ao bairro do Intendente perto das dez da manhã, atendeu vários clientes ao longo do dia, divertiu-se com as suas colegas de profissão, e por fim, desligou o telemóvel à primeira chamada da mãe. Horas depois, os últimos raios de sol desapareceram no horizonte. Madalena fechou a floricultura e efectuou uma rápida passagem pelo supermercado. Nessa altura, telefonou a Sérgio apenas para saber se estava tudo bem. O fotógrafo informou-a de que estava a preparar o jantar com a ajuda de Daniel depois de Afonso o ter trazido da natação. Madalena respirou de alívio, até se lembrar de Sara. Ela ainda não chegou, foi a resposta de Sérgio. As longas filas no supermercado prenderam-na mais tempo do que estava à espera e para terminar aquela terrível sexta-feira, Madalena apanhou um acidente rodoviário. Uma hora depois, estacionou o carro no interior da garagem. Tirou as compras da bagageira e entrou pelas portas traseiras da cozinha. Um cheiro delicioso fê-la sorrir. Sentiu-se finalmente em casa.
  • 246. - Desculpem a demora – ela entrou carregada com sacos de compras. – Atrasei-me! - Não faz mal – Sérgio ofereceu-lhe um beijo e entregou-lhe uma colher. – Prova o molho! Vê se está bom? - Hum! Está óptimo. - Esparguete à bolonhesa! Apresento-te a minha especialidade – o casal riu-se alegremente. - Já vi que sim – Madalena apressou-se a beijar o filho nos cabelos. – E tu, amor? Como é que foi a escola? - Normal. - E a natação? - Normal. - Estás com uma cara! O que é que foi? - Estou chateado – Daniel afastou o rosto da mãe. - Chateado porquê? - A Sara ligou há pouco a dizer que ia passar a noite em casa do pai – Sérgio ajudou Madalena com os sacos das compras. - O quê?! - Não sabias?! - Claro que não – Madalena franziu o sobre olho. – O Jorge não me disse nada. - Ele nem sequer me veio buscar – Daniel barafustou, saindo da cozinha, irritado. - Não sei porquê, mas isto está-me a cheirar mal…
  • 247. Madalena alcançou o telefone da cozinha sobre a bancada e digitou o número de Sara. Já o conhecia de cor e salteado, fruto das muitas preocupações que a filha lhe causava diariamente. Mas tal como sempre, o telemóvel encontrava-se desligado. - Tenta o número do teu ex-marido! Devem estar juntos. A ordem de Sérgio foi acatada em silêncio. Madalena marcou o número de Jorge, de cor e salteado, fruto das inúmeras vezes em que era obrigada a falar com ele por causa dos filhos. - A Sara está aí contigo? – ela perguntou sem demoras. - Desculpa?! – Jorge atendeu a chamada, saíndo da sala de reuniões. - Estou-te a perguntar se a Sara está aí contigo – Madalena repetiu, impaciente. - Ela não está contigo? - Jorge! Responde à minha pergunta, por favor! - Não, ela não está! Porque é que a Sara haveria de estar comigo? Não combinámos nada. - Porque ela telefonou há pouco a dizer que ia passar a noite em tua casa! Jorge, se ela estiver aí contigo e tu a estiveres a encobrir… - Qual encobrir?! – Jorge caminhou ao longo do corredor. – Alguma vez fui buscar a Sara e o Daniel sem o teu consentimento? Eu nem sequer estou em casa! Estou a trabalhar. Foi então que Madalena reflectiu pela primeira vez. Se a filha não estava com o pai, então com quem estava? - Já lhe tentaste ligar para o telemóvel? – Jorge perguntou. - Claro que sim! Mas está desligado como sempre! Tens a certeza que não sabes nada da Sara? - Já disse que não! Não falo com ela desde quarta-feira.
  • 248. - Então onde é que ela se meteu, meu Deus?! – Madalena desesperou-se. - Não sabes de alguma amiga com quem ela possa estar? Encontra um número! Olha, estou a ir para aí! Qualquer coisa, não hesites em ligar-me… Madalena desligou o telefone sem demoras e subiu ao quarto de Sara na companhia de Sérgio. Tinha em mente encontrar qualquer objecto ou qualquer número de telefone que pudesse fornecer uma pista de onde a sua filha se encontrava. Revistou todos os cantos da habitação, armários, gavetas e caixas, sendo que Sérgio se encarregou de vasculhar o roupeiro. E foi assim, num momento de distracção, perante o desespero da namorada, que o fotógrafo se deu conta da existência de um fundo falso no interior do guarda-roupa. Levantou a tampa e qual não foi o seu espanto quando descobriu uma caixa de madeira repleta de filmes e revistas pornográficas, brinquedos eróticos, preservativos, lingeries, maços de cigarros, pequenas doses de haxixe e vários outros objectos escabrosos que nenhuma rapariga de dezasseis anos deveria ter em sua posse. Nessa altura, Sérgio voltou a lembrar-se do dia em que viu Sara a sair de um hotel na companhia de um homem muito mais velho. Não restavam dúvidas. E o facto de ter encontrado mil euros em notas de vinte, cinquenta e cem, apenas veio a confirmar as suas desconfianças. - Encontrei – Madalena ergueu uma pequena agenda cor-de-rosa. – Graças a Deus encontrei! - O que é isso? – Sérgio apressou-se a tapar o fundo falso do roupeiro. - Uma agenda! Tem aqui o número da Mariana! Conheço-a! É da turma da Sara! Vou ligar… – Madalena correu em direcção à porta. – Não vens? - Já vou. Cinco minutos depois, Madalena utilizou o seu telemóvel para telefonar a Mariana – outrora uma das melhores amigas da sua filha. E a verdade é que as notícias não poderiam ser piores. Enquanto ouvia o discurso da jovem, contando todos os pormenores do terrível comportamento de Sara, as suas brigas com colegas de turma, a agressão ao professor de Matemática, os avisos sucessivos da directora de turma e a consequente expulsão do colégio, Madalena apenas teve forças para se encostar ao sofá e levar uma das mãos à cabeça. Aquilo era bem mais do que poderia suportar. Bem mais do que imaginou nos seus piores pesadelos. E uma realidade que, apesar de cruel, parecia também a mais provável.
  • 249. - Há dois meses que a Sara foi expulsa da escola – Madalena desligou a chamada telefónica, boquiaberta. – Chumbou por faltas a meio do segundo período. - Tem calma - Sérgio tentou alcançar os ombros de Madalena, mas ela desviou-se a tempo. - Como é que… como é que eu não percebi isso antes?! Eu não recebi nenhuma carta da escola! Nenhum telefonema da directora de turma… - Tens a certeza disso? - A Mariana acabou de me confirmar! A Sara chumbou de ano! Chumbou por faltas! E o pior é que eu não me posso dizer surpresa porque no primeiro período eu falei com a directora de turma e ela avisou-me que a Sara estava em perigo de chumbar de ano por causa das faltas. Mas eu pensei que tinha conseguido resolver esse problema quando a tirei da casa do pai. Meu Deus! Será que eu estava cega? – Madalena levou as mãos à cabeça. - Tem calma, Lena… - Porque eu ia levá-la à escola todas as manhãs, entendes?! Eu via-a a entrar pelos portões e ficava sempre uns dez, quinze minutos, só para ter a certeza que ela não voltava a sair. Daniel, tu por acaso sabias disso? A tua irmã disse-te alguma coisa? - Não – o pequeno assustou-se com o toque da campainha. - Eu vou lá atender. Sérgio abandonou a sala, enquanto Madalena, desesperada, tentou convencer-se de que tudo aquilo não passava de um terrível pesadelo. Minutos depois, o fotógrafo abriu a porta. - A minha filha já apareceu? – Jorge perguntou rispidamente. - Não! Ainda não. - Será que hoje posso entrar?! Sérgio ignorou o sarcasmo de Jorge e permitiu que este seguisse até à sala onde os passos nervosos e descontrolados de Madalena o deixaram imediatamente alerta.
  • 250. Mais tarde, ela sentou-se no sofá com a cabeça por entre as pernas e ele encarregou- se de percorrer todos os números da lista de contactos de Sara. Ninguém sabia do seu paradeiro ou a viu durante o dia. Foi então que o coração de Madalena se apertou e as primeiras lágrimas correram-lhe pela face. Estava absolutamente desesperada. Na altura, a única coisa que queria era que a sua filha aparecesse sã e salva. Tudo o resto não tinha a mínima importância. Jorge deu-se por vencido quando o relógio da sala assinalou vinte e duas horas e quarenta minutos. Ligou para um inspector que tão bem conhecia e explicou-lhe o sucedido. Uma hora depois, dois investigadores deslocaram-se à moradia de Madalena. Recolheram outras informações adicionais e algumas fotografias recentes da jovem desaparecida com a promessa de a encontrarem assim que possível. - Despacha-me isso depressa, Oliveira – Jorge pediu ao seu amigo. – Faz-me esse favor pessoal! - Podes deixar, Jorge! Encontramos-te a miúda num instante. - E o que é que fazemos agora? – Madalena perguntou ao ex-marido quando os policiais se foram embora. - Esperamos – Jorge continuou a passear pela sala. - Esperamos até quando?! - Até recebermos alguma informação da polícia. - E se não recebermos nenhuma informação da polícia?! - Lena! Não compliques pelo amor de Deus! Estamos todos nervosos, mas não vale a pena entrarmos em desespero antes da hora. - Eu já estou desesperada, não vês?! - E queres que faça o quê? – Jorge respondeu aos gritos dela. - Se fosses um pai presente, nada disto estaria a acontecer. - Ai agora a culpa é minha?! Por acaso fui eu que me expulsei cá de casa?
  • 251. - Tu foste expulso porque, para além de péssimo pai, eras também um péssimo marido – a discussão tornou-se cada vez mais violenta. - Lena! Não venhas meter as culpas todas para cima de mim, o.k? Tu também não és nenhuma santinha. Tens muitas culpas no cartório e nem vou entrar por aí que é para não escandalizar o teu novo namorado. - Idiota – Madalena tentou lançar-se contra o ex-marido, embora Sérgio a tivesse conseguido impedir a tempo. – Estupor! - A Sara ficou assim por tua causa! Porque eu lembro-me bem no dia em que me fui embora de vê-la implorar-te de joelhos para que mudasses de ideias. E tu disseste com todas as letras que preferias morrer do que aceitar-me de volta. Desde esse dia ela nunca mais foi a mesma e tu sabes disso. Agora o que é que queres? Fazer-me acreditar que a culpa é minha?! Eu sei bem que posso não ter sido um bom marido, aliás, tal como estás sempre a dizer, fui um péssimo marido. Mas o que não podes nunca em tempo algum insinuar é que eu não gosto dos meus filhos ou que não me preocupo com eles! Ouviste?! – a voz autoritária de Jorge encheu os olhos de Madalena de lágrimas. – Por isso, desce desse teu pedestal de óptima mãe e de mulher perfeita, porque tal como eu, também tu cometeste muitos erros na educação da Sara! O silêncio apoderou-se da sala e ali ficou durante longos quartos de hora. Por se ver sem forças para se manter de pé, Madalena caiu desolada sobre o sofá. De lágrimas nos olhos, desejou que um buraco se abrisse e a engolisse ali mesmo. Desejou também que todo aquele pesadelo terminasse. Que Sara voltasse para casa. E que Jorge desaparecesse da sua vida para sempre. Mas volvidas vinte e quatro horas sem pregar olho, nada disto aconteceu. Qualquer barulho crescia a expectativa de que Sara havia regressado sã e salva a casa, e cada toque do telefone, uma réstia de esperança de que ela tinha sido encontrada viva. - Localizaram-na – Jorge respirou de alívio quando desligou uma chamada no seu telemóvel no domingo de manhã. - Onde!? – Madalena saltou do sofá, descontrolada. - Algarve. - Mas o que é que ela foi fazer ao Algarve? – Afonso, que também se encontrava presente na sala, perguntou.
  • 252. - Jorge! Aconteceu alguma coisa com ela? Ela está bem? – Madalena não conteve as perguntas. - Ela está bem – o advogado tentou acalmar a ex-mulher. – Isso é o que importa. Era a primeira vez que passava três dias inteiros longe de casa sem nenhuma vontade de regressar a Lisboa. Sara passou duas noites fantásticas na companhia de Marco. Foram a inúmeras discotecas, passearam pela praia a meio da madrugada, caíram na água, fizeram amor, beberam, drogaram-se arduamente e tentaram esquecer as amarguras da vida. No final, ele presenteou-a com um magestoso colar de diamantes. Onde é que o arranjaste, ela perguntou. Não faças perguntas indiscretas, ele respondeu. No domingo de manhã, as estradas que ligavam o Algarve a Lisboa encontravam-se praticamente vazias, e enquanto seguiam por elas, Marco e Sara não resistiram a trocar vários beijos e algumas gargalhadas dignas de dois adolescentes, alheios a todos os problemas. Era assim que Sara se sentia sempre que se encontrava na presença de Marco. Ele levava-a ao extremo da alegria e da tristeza. Fazia-se sentir-se como uma rainha e no minuto imediatamente a seguir chamava-lhe nomes e a espancava sem piedade. No entanto, era o seu comportamento volátil e ignóbil que a excitava. Depois daquele fim-de-semana maravilhoso no Algarve, Sara já não se imaginava a viver sem Marco. – Pára – ele dizia cada vez que ela lhe tentava desviar o volante das mãos. - Tens que me ensinar a conduzir. - Ainda és muito nova para andar com uma máquina dessas. - Posso aprender. - Podes, podes! Vai sonhando com isso. Sara encostou-lhe a cabeça ao ombro. – Estavas a falar a sério ontem à noite… - O quê?! - Quando disseste que querias que eu saísse da vida. - Estava bêbado.
  • 253. - Já te disse que era capaz de deixar tudo por tua causa. - Sara, não inventes – ele empurrou-a para longe. – Eu não ando com putas. - Idiota! Vai-te foder… As últimas palavras de Sara coincidiram com uma travagem brusca efectuada por Marco em plena auto-estrada, seguida de uma inversão de marcha. A razão para ele ter cometido tal loucura? A presença de um contingente policial numa das portagens à entrada de Lisboa. - O que foi? – Sara perguntou, assustada. - Cala-te e mete-me a merda do cinto de segurança! Sara gritou petrificada ao ver-se metida num verdadeiro filme de terror. A morte parecia iminente quando o velocímetro do carro de Marco atingiu os duzentos quilómetros por hora, enquanto se desviava de outros automóveis que vinham em sentido contrário. Por fim, o último desvio culminou com um aparatoso capotamento no meio da estrada e com o alívio que Marco sentiu ao ver os carros da polícia desvanecerem-se perante os seus olhos depois de terem ficado presos no acidente. Estava feito, ele pensou. A saída em direcção a Santarém trouxe-lhe de volta a calma perdida. - Sai – ele ordenou a Sara quando abandonou o carro num descampado. - Aonde é que estamos? - Anda! Vou-te meter no primeiro táxi e vais para casa. - E tu? Como é que vais voltar? Vais deixar o teu carro aí? Marco apressou-se a encontrar um recipiente de gasolina no porta-bagagens e com um isqueiro incendiou o veículo. Fê-lo sem quaisquer medos ou remorsos. Sara era demasiado inocente em pensar que ele iria deixar aquele carro intacto. - Toma as tuas tralhas – Marco entregou-lhe a mochila. – Vamos! Apesar de ter jurado que não iria derramar uma única lágrima após o maior susto da sua vida, a verdade é que Sara viu-se por várias vezes obrigada a engolir o choro
  • 254. compulsivo que se estagnou na sua garganta. O taxista observou-a através do espelho retrovisor, perguntando-se em silêncio o porquê daquela bela jovem lhe ter entrado no táxi naquele estado. As suas perguntas obtiveram resposta quando chegaram à primeira portagem. Foram interceptados por duas patrulhas policiais que rapidamente identificaram Sara Soares Albuquerque como sendo a jovem desaparecida durante aquele fim-de- semana. Fizeram-lhe inúmeras perguntas, mas ela recusou-se a responder ao que quer que fosse. Assim, acabou por seguir o resto da viagem no carro da polícia. E ao passar pelo local onde a viatura havia capotado duas horas antes, lançou um olhar assustado à janela. A cena que viu deixou-a completamente aterrorizada. Uma longa fila de carros, inúmeros polícias à volta, duas ambulâncias, e no chão, coberto por um manto branco, o corpo do condutor que teve a infelicidade de atravessar o caminho de Marco. Algum tempo depois, Sara viu-se finalmente diante de casa. Veio acompanhada por uma pequena escolta policial após um fim-de-semana terminado da pior maneira. Por instantes, pareceu-lhe sentir o peso do mundo sobre os ombros e uma enorme vontade de desaparecer. Pareceu-lhe também ouvir uma voz interior confirmando toda a sua irresponsabilidade e falta de bom senso. Mas era tarde demais. Tarde demais para pensar em voltar atrás e apagar todos os erros que custaram uma vida humana. - Aqui está ela – foram as primeiras palavras do inspector Oliveira quando Jorge lhe abriu a porta. Jorge bem quis abraçar a filha, dizer-lhe o quanto estava feliz e aliviado por a ver ali, tomá-la nos braços e nunca mais a largar. Mas não conseguiu. A sua expressão dura impediu-o de cometer tal acto. Por isso, sem proferir qualquer palavra, ele abriu passagem e permitiu que Sara entrasse em casa com a mochila às costas. Atrás dela vieram dois polícias de serviço apenas por questões protocolares. - Jorge! Espera – o inspector interceptou o advogado a meio do corredor. - O que houve?! - Nem vais acreditar no que eu acabei de saber. - O quê?! - Sabes aquele assalto que te fizeram à casa…?!
  • 255. - Sim! O que é que tem? Já apanharam os ladrões? - Reconhecemos um. - Ai é?! – Jorge mostrou-se curioso. - Chama-se Marco Semedo, tem vinte e quatro anos e a ficha mais preta do que ele próprio! Tráfico de droga, assaltos à mão armada e roubo de carros! Foi ele quem levou a tua filha ao Algarve. Parece que são amigos. - Filho da mãe – Jorge sentiu o sangue ferver-lhe nas veias. - Estamos atrás dele para ver se o apanhamos, mas o miúdo é esperto! Há anos que nos anda a escapar. Quando chegou à sala envergando um aspecto desolador e assustado, Sara encontrou toda a sua família. O avô, o irmão, e tal como não poderia deixar de ser, a sua mãe. O primeiro momento em que se viram foi absolutamente arrepiante. No rosto, Madalena envergava as quarenta e oito horas que passou sem dormir, os olhos inchados de tanto chorar e a mesma roupa que trouxe vestida desde sexta-feira. Mas ainda assim, havia qualquer coisa no olhar da mãe que obrigou Sara a manter-se perto da porta de entrada. Algo maléfico, gélido e pérfido. Um olhar que se mostrava cada vez mais aterrador à medida que o tempo ia passando. A polícia abandonou o local pouco tempo depois. Partiram cordialmente, deixando toda a família em silêncio a tentar digerir alguns dos acontecimentos que fizeram parte daquele fim-de-semana. - Começa já a explicar-te, minha menina – Afonso foi o primeiro a encher-se de coragem para interpelar a neta. - Não tenho nada para explicar – Sara não conseguiu tirar os olhos de Madalena. - Como assim, não tens nada para explicar?! – Jorge sacudiu-lhe os ombros com força, tendo acordá-la para a realidade. – Desapareces desde sexta-feira com um delinquente qualquer, meteste-te com ele numa auto-estrada até ao Algarve, passas um fim-de-semana inteiro sem dar notícias, na volta matam um condutor inocente e tu ainda dizes que não tens nada para nos explicar? Sara manteve-se em silêncio.
  • 256. - Tu sabias que aquele estupor do teu amigo assaltou-me a casa há semanas atrás? - O quê?! – a jovem mostrou-se surpresa com a revelação do pai. - Isso mesmo! O teu amiguinho assaltou-me a casa! Mas o pior nem é isso! O pior é saber que andas metida com esse tipo de gente. Onde é que o conheceste? - Por aí – Sara recusou-se a responder a verdade. - E o que é que foste fazer com ele ao Algarve? - Eu só queria passar um fim-de-semana fora – Sara desviou-se dos braços do pai. - Se querias passar um fim-de-semana fora, porque é que não pediste autorização a mim e à tua mãe? - Porque eu sabia que se pedisse… - Sara voltou a lançar um olhar esmagador a Madalena. – Essa daí não ia deixar… As palavras de Sara coincidiram com a saída do cinto das calças de Madalena. Um gesto que a obrigou a recuar dois passos quando viu a mãe demasiado perto de si. E foi num instante de total insanidade mental, que Madalena se utilizou da fivela para lhe oferecer uma violenta chicotada. Um acto violento que fez cair Sara no chão e gritar de dor. - É hoje que te mato de pancada! Madalena bem tentou continuar a surra que queria dar à filha, mas os braços de Afonso impediram-na de cometer tal acto. Nessa altura, ainda no chão, Sara levantou a camisola e viu que estava a sangrar na cintura. - Eu não vou pedir desculpas se é disso que estás à espera – ela gritou com os olhos vermelhos de raiva. - Sei bem que não vais pedir desculpas! E sabes porquê!? Porque tu és completamente louca e desequilibrada. - Não sou mais louca e desequilibrada do que tu.
  • 257. - Sara! Cala-me essa boca – o pai imperou. – É melhor calares a boca antes que eu tome o cinto das mãos da tua mãe e continue a surra que ela te ia dar. O queixo de Sara tremeu de raiva e ela levantou-se do chão. - Sinceramente, não sei o que foi que eu te fiz… – Madalena largou os braços e tentou lutar contra as lágrimas que se apossaram de si. – O que foi que eu te fiz, Sara? – ela voltou a gritar. – Porque tudo o que te dei até hoje foi amor! Só amor! E olha o que é que eu recebo em troca! Olha para ti! Olha para as tuas roupas? Para a tua maquilhagem! Vê no que é que te transformaste… - Tens realmente a certeza que não sabes o que é que me fizeste?! – Sara não se deixou amolecer pelas lágrimas da mãe. – Tens mesmo?! Tu destruíste a minha vida, será que não entendes?! Foi por tua causa que eu e o Daniel deixámos de ter uma família É por tua causa que até hoje temos de andar de um lado para o outro sem saber aonde e a quem pertencemos! Porque tu não pensaste nem um segundo em nós quando te resolveste separar do pai. Só pensaste em ti. Só pensaste no teu bem-estar e na vontade enorme que tinhas em ser solteira outra vez para arranjares namorados mais novos e enfiá-los cá em casa… - Isso não é verdade – Madalena balançou a cabeça, desolada. - É sim! E tu sabes que é! Agora não adianta fazeres-te de coitadinha e muito menos de inocente porque só estás a pagar pelo que fizeste! E se queres que te diga, até acho que estás a pagar pouco. - Chega, Sara! Não fales de coisas que tu não sabes… – Jorge calou os gritos histéricos da filha. – A tua mãe e eu pensámos muito, antes de nos decidirmos a assinar os papéis do divórcio. Foi por vossa causa que estivémos casados durante tanto tempo, porque senão, já nos tínhamos separado muito antes. Eu traí a tua mãe! Várias vezes! E ela sempre me perdoou porque queria que tu e o teu irmão crescessem numa família minimamente estável. Nós já dormíamos em quartos separados. Escondemos isso de vocês porque não queríamos que soubessem. E não foi fácil manter essa farsa, até chegar a uma altura em que já não dava mais. Eu tive a culpa do divórcio. Falsifiquei a assinatura da tua mãe para um negócio que andava a fazer com alguns clientes meus na altura. O problema é que houve uma denúncia e a polícia judiciária descobriu uma conta offshore no nome da tua mãe. Uma conta que eu criei sem que ela soubesse. E ela foi presa por isso. Foi a gota de água. O fim. Portanto, tal como vês, e ao contrário do que possas pensar, não foi a tua mãe quem destruiu a nossa família. Fui eu…
  • 258. As lágrimas de Sara não pararam de cair enquanto ouvia o discurso do pai. Subitamente foi como se o mundo tivesse ruído sobre os seus ombros. Como se toda a sua vida não tivesse passado de uma mentira ou de uma piada de mau-gosto. - O que é que isso importa agora?! – ela largou os braços, desolada. – Está tudo destruído, não está?! - Com a tua ajuda está – Madalena esbarrou-se na filha antes de sair da sala. Entre mortos e feridos salvaram-se todos, foram as palavras de Afonso no final daquela tarde particularmente cinzenta e tumultuosa. E a verdade é que o ex-militar não poderia estar mais certo. Madalena conseguiu pela primeira vez engolir algo comestível e Jorge desapareceu lá de casa com a clara certeza de que já deveria ter contado a verdade à filha há muito tempo. Foi fraco ao não fazê-lo, talvez por medo que ela deixasse de o ver como um herói de capa e espada. Mas quem sabe um dia Sara não o entendesse. Quem sabe um dia ela não percebesse que nem sempre as relações entre adultos são fáceis, transparentes e vitoriosas. Nem sempre são como queremos que sejam, e nem sempre, por mais que tentemos, somos capazes de superar as nossas fraquezas interiores. Horas depois, após um dia intenso de trabalho onde não se conseguiu concentrar um só minuto, Sérgio regressou a casa de Madalena. Encontrou-a sentada no último degrau das escadas. A poucos minutos das onze da noite, a moradia permanecia silenciosa. Todos dormiam. O pior tinha passado. - Estás bem? - Não – ela permitiu que ele se sentasse ao seu lado. - Pelo menos acabou tudo bem. - Será que acabou mesmo!? - A Sara já está cá em casa! Não lhe aconteceu nada! Por isso, sim! Acabou tudo bem. - Ela odeia-me – Madalena sorriu amargamente. - Ela não te odeia. - Ela odeia-me sim! E não há nada que eu possa fazer para que deixe de me odiar.
  • 259. - É só uma fase, Lena! Vai passar… - Que fase, Sérgio?! Eu vejo as filhas de todas as minhas amigas e nenhuma delas se comporta da maneira como a Sara se comporta. Nenhuma chega a casa bêbada, a tresandar a tabaco, vestida e pintada como uma… - Prostituta?! – Sérgio tomou-lhe a palavra. - Nenhuma – Madalena balançou a cabeça, desolada. – E eu pergunto-me, o que foi que fiz de errado!? Em que momento falhei eu na educação da minha filha!? Eu eduquei-a da mesma forma que os meus pais me educaram. Eu era uma mãe carinhosa. Eu sempre fiz tudo pelos meus filhos. Eu sacrifiquei a minha vida inteira por eles… - Madalena voltou-se para Sérgio lavada em lágrimas. – Eu perdi a minha juventude, os melhores anos da minha vida enfiada num casamento fracassado e miserável só para que eles fossem felizes. Porque eu pensava que se eles fossem felizes, eu também seria! Entendes?! E agora olha para isto! De que valeu a pena todos estes sacrifícios? De que valeu a pena ter perdido dezasseis anos da minha vida a criar uma filha que nunca disse que me amava!? - Um dia ela vai dizer – Sérgio tomou-lhe o rosto lavado em lágrimas. - Temo que se esse dia algum dia chegar, provavelmente já vai ser tarde demais. A casa amanheceu silenciosa, num claro contraste com o fim-de-semana anterior. Madalena foi a primeira pessoa a levantar-se da cama para preparar o pequeno- almoço. Fê-lo sem vontade, até porque as suas forças na altura eram nulas. Tinha passado mais uma noite em branco, com os olhos inchados de tanto chorar e fortes dores de cabeça. Além disso, ainda tinha que ir abrir a floricultura e passar dez horas enfiada na loja quando a sua única vontade era ficar o dia inteiro numa cama sem olhar ou falar com vivalma. - Bom dia – Sérgio beijou-a nos cabelos quando entrou na cozinha e se deparou com a mesa do pequeno-almoço totalmente composta. - Bom dia. - Melhoraste da dor de cabeça? - Mais ou menos. - Mãe! Vais-me levar à escola? – Daniel perguntou, inocentemente.
  • 260. - Hoje a mãe está um pouco mal disposta, Dani – Sérgio serviu-se de uma chávena de café sobre a mesa. – Eu levo-te. As últimas palavras de Sérgio coincidiram com a entrada de Sara na cozinha e com o constrangimento que a jovem não conseguiu esconder quando viu a sua mãe diante de si. Olharam-se com alguma amargura, mas nem uma e nem outra foram capazes de pronunciar palavra. Estavam exaustas. Esgotadas. Não tinham absolutamente nada para se dizer. - Mãe…?! Madalena manteve-se de costas, perto do fogão, tentando arranjar forças para levantar o fervedor. - Desculpa! Ouviu-se um longo silêncio até Madalena responder. – Um dia quando tiveres os teus próprios filhos e eles te disserem a metade das coisas que tu me dizes, vais perceber que um simples pedido de desculpas não resolve nada. Sara percebeu que estava de castigo quando lhe foram retirados do quarto, o computador, o leitor de CD e a televisão. Para além disso, também não estava autorizada a sair de casa e muito menos a comunicar-se com qualquer pessoa através do telefone. Prisioneira era a palavra que melhor a definia. A primeira semana foi passada no interior de um quarto totalmente desprovido de tecnologia. Com o tempo, Sara começou a sentir-se confusa e ansiosa. Impaciente também. As horas custavam a passar e o seu vício aflorava-se a cada minuto. Passeava pelo quarto, submersa em pensamentos e sentia verdadeiros calafrios por não ter como sustentar o seu vício. Sexo. Era só nisso que conseguia pensar. Dia e noite. Tal como qualquer outro dependente, Sara entrou em ressaca. Era usual não sair do quarto e com o tempo tornou-se ríspida e violenta para com todas as pessoas que se aproximavam de si. A gota de água sobreveio quando descobriu que a caixa de madeira que mantinha escondida a sete chaves no fundo falso do roupeiro desapareceu sem deixar rastro. Uma caixa a qual só ela tinha acesso e que muitas vezes lhe trazia o prazer que ela não conseguia alcançar com indivíduos do sexo oposto. A procura desesperada continuou por todo o quarto, mas aos poucos, Sara começou a perder as esperanças de encontrar a sua preciosa caixa. Alguém a havia tirado dali, ela chegou a essa conclusão. Teria sido a mãe? Não. Com certeza, Madalena teria feito
  • 261. um escândalo caso a tivesse visto. Por isso, só podia ser outra pessoa. Mas quem? Quem? Sara desesperou-se. Numa tarde nublada de quarta-feira, Madalena alegrou-se genuinamente quando Sérgio se disponibilizou a passar em sua casa para certificar de que a sua filha não se tinha atrevido a sair do castigo. O fotógrafo necessitou de vinte minutos para estacionar o carro em frente à moradia da sua namorada. Quando isso aconteceu, saiu do veículo, fechou as portas com o comando automático e atravessou a rua, servindo-se de uma chave sobresselente para abrir a porta principal. Não havia ninguém no corredor. A casa encontrava-se silenciosa, motivo pelo qual ele subiu directamente até ao quarto de Sara rezando para que ela lá estivesse. Infelizmente isso não aconteceu. A habitação vazia gelou o coração de Sérgio e obrigou-o a pensar que Sara havia saído novamente de casa sem autorização. Não seria a primeira vez. A jovem já o tinha feito no início da semana, fugindo a meio da tarde sem que ninguém se desse conta. O pior só aconteceu quando Madalena regressou a casa mais cedo do que o previsto. A partir dessa data, todas as portas da moradia que davam acesso à rua passaram a estar trancadas. Sérgio procurou a filha da namorada em todas as divisões do primeiro piso. Desesperou-se por não a ver em nenhuma delas. Mais tarde, desceu ao rés-do-chão. Entrou na sala, no escritório e invadiu a cozinha. Foi só nesse instante que o seu coração voltou a bater. A visão de Sara a aquecer o almoço no microondas, vestida apenas com uma t-shirt vermelha que lhe cobria pouco mais que o rabo, ajudou-o a respirar de alívio. - Pensavas que não estava em casa, não era? – Sara lançou-lhe um olhar mordaz. - Só vim buscar uma coisa. - Mentiroso! Vieste espionar-me a mando da minha mãe que eu sei. - Ela preocupa-se contigo! E eu também me preocupo, se queres que te diga… - Eu quero a minha caixa – Sara fitou-o vorazmente. - Não sei do que é que estás a falar. - Sabes sim! Foste tu que andaste a mexer nas minhas coisas, não foi?! Roubaste-me a caixa.
  • 262. Sérgio não teve mais como continuar a mentir, e na verdade, nem queria. Há muito que o seu maior desejo era confrontar Sara com as suas desconfianças e tentar descobrir a verdade. - Eu só deitei fora aquela porcaria – ele admitiu. – Aquilo era nojento! Não devia sequer estar na posse de uma rapariga da tua idade. - Nojento ou não, era a minha caixa e tu não tens o direito de mexer em nada do que é meu – Sara apontou-lhe o dedo à cara. – Sabes quanto tempo demorei a comprar aquilo tudo? Quanto dinheiro tive que gastar? - Só gostava de saber onde é que arranjas tanto dinheiro! Não é estranho? Uma rapariga da tua idade, que ainda nem sequer trabalha, ter mais de mil euros em sua posse. - Isso não é da tua conta. - Um dia ainda me vais agradecer por ter jogado fora aquela caixa. - Eu nunca te vou agradecer por nada! Aliás, eu só vou agradecer quando não for mais obrigada a olhar para a tua cara. - Estás muito nervosa, Sara! Porque será? Por que é que estás tão irritada? Eram só alguns filmes pornográficos, vibradores e outras coisas. Podes muito bem viver sem isso ou não?! O queixo da jovem tremeu de raiva ao ver-se confrontada com as acusações do namorado da mãe. - Ou será que estás tão obcecada por sexo que a simples ideia de te veres sem a tua caixa te deixa assim?! Os olhos de Sara voltaram a incendiar-se. – O que é que estás para aí a falar? - Tu estás doente, Sara! Precisas tratar-te e eu estou a falar a sério! Precisas também deixar de te prostituir… - Cala-te – ela gritou completamente descontrolada.
  • 263. Sérgio não se conteve e alcançou os pulsos da jovem, sacudindo-os com força. – Já pensaste no desgosto da tua mãe quando descobrir a verdade? Quando descobrir que a filha se anda a prostituir, não porque precisa, mas porque quer?! Não pensas nem um pouco nela, no teu irmão, no teu pai e no teu avô? Não pensas nas doenças que podes apanhar ao ir para a cama com homens que nem sequer conheces? Já te deste conta na grande porcaria em que andas a transformar a tua vida? - Cala-te! Tu não sabes o que dizes… - Eu sei muito bem o que digo – Sérgio enfrentou-lhe pela primeira vez os olhos raivosos. – E tu também sabes! Só que ao contrário dos teus pais, eu consigo ver as coisas do lado de fora. E podes crer que não precisei de muito esforço para juntar todas as peças deste puzzle. No minuto em que vi aquela caixa, até mesmo quando te encontrei à saída daquele hotel com aquele homem muito mais velho que tinha idade para ser teu avô, eu percebi logo o que se estava a passar. Tu és dependente de sexo, tal como um toxicodependente é dependente de droga. Aliás, o sexo é a tua droga, não é verdade?! - Cala-te – Sara conseguiu livrar-se das mãos de Sérgio, disferindo-lhe um olhar de ódio. - É por isso que te andas a prostituir! Para conseguires sustentar o teu vício. Mas como não já não consegues sair cá de casa, já não tens a tua caixa, estás a começar a entrar em ressaca… - Eu odeio-te! - Tu és ninfomaníaca – Sérgio gritou-lhe aos ouvidos. Pronto. Ali estava. A verdade nua e crua da qual Sara não podia escapar. Apesar de nunca ter encontrado a verdadeira definição para o seu desejo sexual compulsivo, Sara sabia que ele existia e que aos poucos estava a controlar toda a sua vida. Sabia também que esses sintomas tinham começado muitos meses antes aquando da descoberta da pornografia em casa do pai. A príncipio, tudo começou por uma brincadeira. Uma curiosidade normal de uma adolescente de dezasseis anos à procura da sua sexualidade. Mas em muito pouco tempo, essa brincadeira e essa curiosidade apossaram-se não só da sua mente, mas também do seu corpo. Fizeram com que ela cometesse loucuras atrás de loucuras, que se deitasse com dezenas de homens e que vendesse o seu corpo, não por dinheiro, mas por um prazer que queria ver saciado. O problema é que esse prazer
  • 264. nunca era saciado. Por mais que praticasse sexo ou utilizasse a pornografia como base de apoio, ela queria sempre mais e mais. Como se estivesse a tentar provar a si própria que era capaz de ter qualquer homem que quisesse. Qualquer ser humano que a desejasse. Depois disso, vinha o sentimento de culpa e de repugnância. - Vais contar à minha mãe? – Sara perguntou por fim, muito mais calma. - Eu queria que fosses tu contar. - Eu nunca vou fazer isso. - Tens uma semana! Se não contares, conto eu… Sérgio voltou a sair da cozinha e permitiu que Sara se encostasse ao lava-loiça ainda atordoada com toda aquela conversa. O prazo era de cinco dias e o círculo começava a fechar-se. Ao longo da semana, sempre que se encontrava com Sérgio no corredor, nas escadas, na cozinha ou até mesmo na sala, o fotógrafo lançava-lhe olhares fulminantes. Olhares que traduziam uma única mensagem: O teu prazo está a acabar. Todavia, apesar das ameaças, Sara recusou-se a contar a verdade à sua mãe. Recusou também revelar o seu segredo, encarar a realidade e admitir que precisava urgentemente de ajuda para se livrar daquele vício. Talvez um dia viesse a fazê-lo. Mas na altura isso estava fora de questão. No último dia do prazo, Sérgio aceitou o convite de Madalena para passar a noite em sua casa. Jantaram na companhia de Daniel e mais tarde arrumaram a cozinha, envolvidos numa conversa agradável. A presença do fotógrafo ajudava Madalena a sentir-se feliz perante os problemas que a atormentavam. Era o seu porto-seguro, o seu melhor amigo e o namorado que estava sempre presente nos bons e nos maus momentos. Ao final da noite, o casal subiu ao quarto. Combinaram tomar um banho antes de dormir, sendo esse um ritual agradável que praticavam sempre que Sérgio passava lá a noite. A poucos minutos de abrir o chuveiro da casa de banho, Madalena lembrou-se de que ainda precisava desligar o gás. Ele pediu para que ela não se demorasse e ela acedeu ao pedido saíndo da habitação com a clara certeza de que assim que se despachasse daquela tarefa enfadonha iria a correr para os seus braços. Sérgio abriu assim o chuveiro e sentiu os primeiros pingos da água quente caírem- lhe sobre o corpo desnudo. Continuou ali, indiferente ao adiantado das horas, ansioso para que Madalena se juntasse a ele.
  • 265. A porta da casa de banho voltou a abrir-se. Com a pressão da água a cair no polibã, foi-lhe impossível ouvir o barulho de um robe de seda a cair sobre o tapete, os passos lentos, quase silenciosos, de um corpo esbelto e a abertura das portas da cabina pelas suas mãos delicadas. - Foste rápida – Sérgio abriu um sorriso de orelha e orelha quando dois braços lhe envolveram a cintura e percorreram o seu peito desnudo. - Pois fui – respondeu uma voz angelical que o fez gelar dos pés à cabeça. Nada pôde exemplificar o terror nos olhos de Sérgio quando este percebeu que a pessoa que tinha acabado de entrar na cabina não era Madalena, mas sim a sua filha. Ali estava Sara. Nua. Com uma expressão maquiavélica e sem demonstrar quaisquer remorsos por estar a cometer aquele acto insano. Ao vê-la, Sérgio abandonou a cabina aos tropeções e encontrou uma toalha sobre o lavatório com a qual se tapou. - O que é que estás aqui a fazer?! Estás louca? - Louca? Eu?! Claro que não! Eu só te queria fazer uma surpresa. - Veste-te – ele ordenou, entregando-lhe o robe caído no chão. - Não – Sara cruzou os braços com um sorriso debochado. - Sara, veste-me esse roupão agora! Para Sérgio, aquilo já tinha passado de todas as marcas. Sara chegou surpreendentemente ao limite da loucura. E enquanto tentava enfiar a filha da sua namorada à força no robe que ela havia retirado minutos antes, o fotógrafo tentou igualmente tapar-lhe os gritos agudos que se tornaram cada vez mais fortes com o passar o tempo. Gritos, esses, que não demoraram a ecoar por toda a casa. Quando os ouviu na cozinha, Madalena voou em direcção ao primeiro piso. - O que foi, mãe? – Daniel surpreendeu a sua progenitora no corredor. - Não sei – ela respondeu. – Mas fica aí no teu quarto, amor! Não saias! Ao ouvir as ordens da sua mãe, Daniel voltou a encostar a porta e ignorou os gritos de Sara que a cada minuto se tornavam mais fortes. Mãe, ela chamava com todas as forças como se estivesse a ser espancada ou violentada por alguém. E quando entrou
  • 266. na casa de banho, de rompante, Madalena sentiu o seu coração parar de bater. À sua frente estava a cena mais chocante que alguma vez pensou presenciar. A sua filha e o seu namorado, seminús, atracados, junto ao lavatório. - Lena! Não é nada disso que estás a pensar – Sérgio largou os braços de Sara e deixou-a cair nua sobre a sanita. – Eu posso explicar! Não sei como aconteceu, mas eu estava a tomar banho e de repente a Sara entrou na cabina. Acho que deve ter sido um engano! Eu assustei-me, ela também e eu estava a tentar a… - Sérgio, tu achas mesmo que a minha mãe vai acreditar numa coisa dessas? – Sara ensaiou as primeiras lágrimas. – Achas que ela vai acreditar que isto foi tudo um engano? Chega! Porque é que não lhe contas a verdade? - Essa é a verdade – Sérgio gritou, sentindo-se prestes a perder a sua sanidade mental. - Não! A verdade é que tu chamaste-me para vir ter contigo. - Estás louca!? - Porque é que não contas tudo à minha mãe, hã? Porque é que não lhe contas que me andaste a assediar durante este tempo todo?! - Eu nunca te assediei – Sérgio voltou-se para Madalena desesperado, ignorando as loucuras da jovem. – Lena! Tu tens que acreditar em mim! Eu nunca tive nada com a tua filha! Ela é louca… - Eu é que não queria ter nada a ver contigo – Sara levantou-se da sanita e vestiu o seu robe. – Obrigaste-me! Eu bem tentei fugir, disse que não podia ter nada contigo porque eras o namorado da minha mãe, mas tu não quiseste saber! Eu era só uma criança. Sabias muito bem disso quando me obrigaste a ir várias vezes para a cama contigo… - Isso não é verdade! Eu nunca tive nada contigo! Tu não passas de uma criança… - Eu era uma criança. Madalena tapou o rosto com as mãos e balançou a cabeça. – Eu não tenho estômago para continuar a ouvir isto – foram as suas últimas palavras antes de sair da casa de banho.
  • 267. - Viste o que acabaste de fazer, sua louca? – Sérgio agarrou o braço de Sara com força. - Eu disse-te para não te meteres no meu caminho, mas tu não me quiseste ouvir! Agora vamos ver em quem é que ela acredita. Não adiantava continuar a trocar palavras vãs e dementes com uma rapariga também ela vã e demente, foi a essa conclusão tirada por Sérgio quando a observou pela última vez e se deu conta que Sara realmente não conhecia a palavra limite. Por isso, sem perder tempo, ele abandonou a casa de banho ainda enrolado na toalha e correu ao encontro de Madalena. Encontrou-a no quarto tal como esperava. Permanecia de pé, em frente à janela, completamente imóvel. Como se tivesse sido atingida por um raio ou teletransportada para uma outra dimensão. Uma dimensão à qual só ela tinha acesso. - Lena… - Não me toques – foi a resposta que o fez recuar dois passos. - Lena, tu não podes acreditar naquilo que a Sara disse! Eu nunca tive nada com ela e nem nunca seria capaz de a tocar. Tu sabes disso! Tu conheces-me… - Será que conheço? – Madalena voltou-se para ele com uma expressão mortificada. - Como assim? O que é que estás para aí a dizer? - Porque vendo bem, o que é que eu sei sobre ti!? - Lena! Tu tens que acreditar em mim! Não é possível que tenhas levado em consideração aquela encenação da Sara. Diz-me! Tu achas-me capaz de ter alguma coisa com uma menor? De a estuprar? Ela olhou-o com amargura. – Vai-te embora, por favor! - Tu já sabes a verdade! Porque é que não a enfrentas? Porque é que não assumes algo que está à frente do teu nariz? - Vai – ela gritou, esbaforida, tentando lutar contra as lágrimas que se apossaram dos seus olhos. - Tens noção de que se eu cruzar aquela porta, é o fim! Tens essa noção, não tens?!
  • 268. Da janela do quarto, atrás dos cortinados, Sara observou a imagem de Sérgio a enfiar o seu equipamento fotográfico no carro. Viu também as suas mãos fecharem o porta- bagagem com força e mais tarde a sua entrada no banco da frente. Dois minutos depois, o veículo arrancou e a rua tornou a ficar deserta. Tudo correra como o planeado, ela pensou. A almofada ficou completamente encharcada com as lágrimas de Madalena. Quando isso aconteceu, ela agarrou-se à fronha com força numa tentativa desesperada de acalmar toda a dor que estava a sentir. Acabou. Foi também obrigada a repetir essa palavra vezes sem conta para que pudesse acreditar nela. Sérgio havia partido para sempre, e na altura não havia nada que ela pudesse fazer para reatar uma relação que se autodestruiu em apenas cinco minutos. Perto da meia-noite, Sara surgiu sob o alpendre da porta. Cruzou os braços e analisou atentamente o corpo da mãe estendido sobre a cama. Madalena manteve-se de olhos fechados, sem forças para erguer a cabeça ou para enfrentar o rosto da filha. - Era por isso que eu não gostava dele – a voz maquiavélica de Sara soou-lhe nítida aos ouvidos. – E ele também não gostava de ti! Foi melhor assim… - Deixa-me sozinha! - Já se passaram três semanas! O meu castigo já acabou? - Já! Podes fazer o quiseres… - Boa noite. Sara afastou-se da porta feliz com o término do seu castigo. Dirigiu-se ao escritório onde encontrou todos os pertences que lhe haviam sido retirados durante aquelas três semanas. O computador, o DVD, o telemóvel e a aparelhagem de som. Enquanto levava tudo para o quarto, a jovem permitiu que a sua mãe mergulhasse num silêncio ensurdecedor. Foi apenas num rasgo de coragem, mas quando a filha passou pelo corredor, Madalena conseguiu levantar-se da cama. Fechou a porta do quarto à chave e desligou a luz da mesinha de cabeceira. Na altura, a seu único desejo era que o comprimido que tomou fizesse efeito e a ajudasse a dormir. Na primeira vez que saiu de casa após três semanas de castigo, Sara escolheu um local muito especial para comemorar a sua liberdade. O bairro do Intendente. Foi lá onde encontrou muitos dos seus novos amigos e alguns conhecidos. Falou com toda a gente, acenou de longe e em pouco tempo retomou a sua rotina. - Desaparecida – Milene abriu-lhe a porta do quarto.
  • 269. - Posso entrar? - Claro. - Estive de castigo – Sara entrou na habitação com um largo sorriso. - Bem! O castigo deve ter sido óptimo, não?! – Milene voltou a fechar a porta sem esconder o rosto ressacado da noite anterior. - Nem por isso! Mas consegui livrar-me dele! Bem, tu nem sabes o que é que me aconteceu nestas três semanas… - Não me queres contar? E foi exactamente isso que Sara fez nos minutos seguintes. Contou a Milene todos os detalhes do seu louco fim-de-semana no Algarve ao lado de Marco, do acidente que provocaram na auto-estrada, da reacção dos pais quando regressou a Lisboa, e por fim, a forma magistral como se livrou da presença do namorado da sua mãe lá em casa. Mas para Milene o mais intrigante de tudo foi perceber que não havia um ínfimo de culpa ou de remorsos no olhar de Sara. - Tu és louca – foram as palavras que a prostituta murmurou vezes sem conta. - Porquê!? - Coitada da tua mãe! Não tens pena dela? - Pena porquê?! Eu até lhe fiz um favor! O namorado dela era um otário de primeira e estava a um passo de lhe contar que me ando a prostituir. O que é que querias que fizesse? Ele não me deu outra escolha. - Mesmo assim! Acabaste-lhe com o namoro. - A minha mãe é forte! Ela vai saber esquecer esse Sérgio num estalar de dedos… - Não devias ter feito isso – Milene cortou-lhe as palavras. – Não era mais fácil contares à tua mãe que te andas a prostituir? Não digo que ela fosse entender, mas pelo menos sempre era melhor do que a fazeres acreditar que o namorado dela te estuprou.
  • 270. - O mal já está feito – Sara acendeu um cigarro junto à janela. – Agora não vale a pena chorar sobre o leite derramado!Achas que a minha mãe iria entender? Se ela desconfia que me ando a prostituir, nunca mais me deixa pôr os pés fora de casa. - E achas que ela já não desconfia? - É claro que não. - Dizes tu! - Bem, com isso tudo nem te contei – Sara mudou de assunto. – Prometi ao Marco que iria deixar de me prostituir caso ele aceitasse namorar comigo. Espero que ele aceite… Milene soltou uma gargalhada ruidosa enquanto se penteava à frente do espelho. - Tu és completamente louca! Namorar com o Marco? Um gajo daqueles? - Eu gosto dele – Sara continuou. – Mas não sei se vou conseguir manter a promessa. Ele está sempre longe e… eu não consigo ficar muito tempo sem fazer sexo. - Tu só pensas nisso, já reparaste?! - Já – a jovem riu-se às gargalhadas. – O ex-namorado da minha mãe disse que eu era ninfomaníaca. Sabes o que isso é? - Já ouvi falar – Milene largou a escova sobre a cómoda. – Conheci uma gaja que também era assim como tu. Até tinha filhos e tudo. Vinha muitas vezes ao bairro porque dizia que o marido não a conseguia satisfazer na cama. Então um dia, ele seguiu-a e apanhou-a numa pensão aqui perto. Foi o maior escândalo! Houve tiros e tudo… - A sério? – Sara voltou-se para Milene, divertida. - A sério! A bófia veio, levou o pessoal todo para a esquadra e a gaja nunca mais apareceu por estas bandas. Mas há uns meses atrás, a Arlete encontrou-a na rua e ela disse-lhe que se tinha curado. Procurou um psicólogo e descobriu que era ninfomaníaca. Quer dizer, ele disse-lhe assim um nome meio estranho. Tipo! Transtorno, qualquer coisa, compulsivo! Sei lá…
  • 271. - Então se calhar também preciso de um psicólogo. - Não! O que tu precisas é de um colete-de-forças – Milene fê-la rir-se alegremente. Madalena despediu-se da segunda cliente da floricultura. Fê-lo com um sorriso triste sem conseguir tirar um só minuto da sua cabeça todos os problemas que a atormentavam. Tinham-se passado dois dias desde o término do seu namoro com Sérgio, mas ainda assim, as feridas continuavam por cicatrizar. - Tens mesmo a certeza que foi isso que aconteceu? – Alice perguntou. - O que mais pode ter acontecido? - Não sei! Que tal a Sara ter mentido!? Madalena manteve-se em silêncio perante o olhar inquisidor de Alice. Na altura, nem teve sequer vontade de terminar o arroz de marisco que escolheu para o seu almoço. - Lena… - Alice largou os talheres sobre o prato. – Tu sabes que o Sérgio não a tentou estuprar! Porquê?! Por que é que terminaste com uma história que tinha tudo para dar certo? Os olhos de Madalena encheram-se de lágrimas, mas ainda assim, ela foi incapaz de responder à pergunta de Alice. - Porque é que continuas a mentir-te a ti própria? - E o que é que querias que eu fizesse, Alice? – Madalena encarou-a com os olhos marejados de lágrimas. – Entre expulsar o Sérgio da minha casa ou expulsar a minha filha, o que é que querias que eu fizesse!? O Verão trouxe novamente dias de sol e calor. Contrariamente aos anos anteriores, Sara não teve direito a férias. O seu comportamento, as inúmeras saídas à noite, as fugas aos fins-de-semana, as discussões com os pais e vida totalmente desregrada que levava, fizeram com que Jorge e Madalena chegassem a um acordo. Apenas Daniel estava autorizado a partir de férias com o pai para Barcelona. A poucos dias do início de Julho, Jorge foi buscar o filho a casa. Daniel já estava pronto com as malas e a mochila preparadas pela mãe. Tal como sempre, Madalena
  • 272. não descurou de nenhum pormenor. Arrumou tudo com o máximo aprumo e aguardou a chegada do ex-marido. Jorge surgiu poucos minutos depois do meio-dia para levar as malas do filho. Nessa altura que rasgou alguns olhares à ex-mulher. Reparou que nos últimos tempos ela andava especialmente triste. Os seus olhos e a sua expressão não mentiam por mais que tentasse fingir que estava tudo bem. Desde que terminou o seu relacionamento com Sérgio, fazia precisamente naquela semana dois meses, Madalena nunca mais voltou a sorrir como antes. Fingia. Fingia muito bem, especialmente à frente dos filhos, mas Jorge continuava a conhecê-la melhor do que ninguém. - Era bom que pudesses vir connosco – ele fez a observação quando saíram à rua. - Não posso deixar a Alice a tomar conta da floricultura sozinha! E também tem a Sara. Alguém tem que ficar aqui com ela. - Como é que ela se está a portar? - Tem dias – Madalena não conseguiu mentir. – Este fim-de-semana por exemplo só saiu no Sábado e não veio muito bêbada, o que vendo bem, já é uma grande coisa. - Lena! Quando eu voltar desta viagem, vamos ter que falar sobre a nossa filha. - Eu sei. - Isto não pode continuar assim. - A quem o dizes – Madalena respondeu, tentando mudar rapidamente de assunto quando o filho saiu à rua com a mochila às costas. – Mas tenho a certeza absoluta que tu e o Daniel se vão divertir imenso sem mim. - Devias vir connosco – o pequeno sorriu à mãe. - Eu sei, querido! Mas a mãe já te explicou que não pode! Vais com o pai e depois contas-me tudo na volta, está bem?! - O.k – o pequeno acedeu. - Bem! É melhor irmos andando, campeão! Senão perdemos o voo… – Jorge interrompeu a conversa.
  • 273. Daniel despediu-se da mãe com um longo abraço, seguido de um beijo carinhoso na face. Ela fez de tudo para não chorar. - Tchau, mãe! - Tchau filho! Porta-te bem! Não faças asneiras e obedece ao teu pai. - Está bem. - Tchau, Lena – Jorge forçou-lhe um sorriso carinhoso. – Ligamos assim que chegarmos ao hotel. - O.k! Boa viagem. Depois de um breve aceno e de se ter certificado que o carro do ex-marido partira sem deixar rastro, Madalena voltou a entrar em casa com um longo suspiro. Duas semanas. Era o tempo que iria ter que aguentar a morar sozinha com a filha na mesma casa. Sara quase nunca parava. Nas primeiras vezes, a mãe tentou impor horários rígidos e perguntava sempre para onde ela ia. Mas com o passar das semanas e com a perca de forças, Madalena desistiu de tal coisa. Não valia a pena, pois a filha chegava a casa cada vez mais tarde, bêbada, ganzada e irreconhecível. Recusava-se também a passar os fins-de-semana na casa do pai desde que soube que tinha sido ele o principal responsável pelo fim do seu casamento com a mãe. Assim sendo, já não havia absolutamente nada a fazer. A batalha parecia à partida perdida. Só um milagre mudaria o seu comportamento destrutivo. Na primeira sexta-feira de Julho, Sara voltou a passar a noite no Intendente. Vítor, o dono da pensão onde trabalhava, ofereceu uma enorme festa aos seus amigos no dia em que comemorou o seu trigésimo sétimo aniversário. A festa contou com a participação de dezenas de pessoas, na sua maioria, prostitutas, chulos, toxicodependentes e outros cidadãos desregrados que passavam a vida a vaguear pelo bairro. Contudo, o que ninguém contava era com a chegada de Marco. Apareceu depois das duas da manhã, visivelmente embriagado e com uma cara de poucos amigos. Assim que estacionou o carro em frente ao bar onde decorria a festa, saiu a cambalear e bateu com a porta. - Olha quem é ele – Arlete surpreendeu-o à entrada do bar. – Desaparecido, hã?! Finalmente apareces por aqui. - Sai-me da frente, Arlete – Marco empurrou-a contra a porta.
  • 274. - Hei! Vê lá, puto! Tenho idade para ser a tua mãe. - Tens idade para ser minha avó, isso sim… A resposta trouxe a Marco o impulso que necessitava para entrar no bar. O traficante desviou-se de várias pessoas, empurrou algumas cadeiras e por fim encontrou a pessoa que desejava. Sara. Encontrou-a a dançar escandalosamente no colo de um outro homem e isso foi motivo suficiente para que os seus olhos vermelhassem de raiva. Num acto tresloucado, Marco partiu para cima do homem que estava com Sara e espancou-o violentamente sem que ninguém se tivesse atrevido a mexer uma palha para o ajudar. Terminada a tarefa, o traficante encarou o rosto assustado de Sara. - Marco – ela exclamou, surpresa por o ver ali. – Não devias estar no Algarve? A resposta à pergunta de Sara foi dada com um valente soco no estômago que a fez derrubar uma das inúmeras cadeiras posicionadas em frente ao balcão. Nessa altura, várias pessoas insurgiram-se contra Marco. Abominaram-no por aquele acto de violência gratuíta, sendo Milene a primeira a socorrer a sua amiga temendo que ela tivesse desmaiado com o impacto do golpe. - Animal – a prostituta voltou-se para Marco, esbaforida. - Levanta-te daí, Sara – Marco alcançou os braços da jovem e obrigou-a a levantar-se do chão. – Anda que ainda temos muito que conversar! - Não a vais levar daqui – Milene puxou Sara para trás. - Queres uma aposta como vou? - Se a levares, eu chamo a polícia… - Ai chamas?! Então chama que eu quero ver – Marco não hesitou em enfrentar a fúria da prostituta, apontando-lhe o dedo à cara. – Chama a bófia que eu tenho a certeza absoluta que todo o pessoal aqui dentro vai adorar. Mas não te esqueças de uma coisa! Se chamares, a primeira a ir em cana és tu… - Eu?! - Sim! Tu, oh minha cabra! Ou achas que ninguém vai contar que andas a chular uma miúda de dezasseis anos?
  • 275. - Eu não ando a chular ninguém – Milene não se deixou intimidar pelas palavras de Marco. - Andas a chular sim que eu sei! A miúda trabalha, abre as pernas e tu ficas com metade dos lucros dela. Ou ainda achas que isso não é chular? Fica quietinha mais é que é para não sobrar para ti. - Cabrão! Marco levou Sara pelo braço sem que ninguém o impedisse e saiu do bar perante o olhar de ódio de Milene. A prostituta sentiu o sangue fervilhar-lhe nas veias. Não pelas ameaças do traficante, mas por não ter sido capaz de salvar a sua amiga das garras daquele homem tão perigoso. - Eu avisei-te para afastares a miúda daqui – Arlete aproximou-se de Milene. – Agora ela vai apanhar e bem que é para aprender a não meter cornos num traficante de droga. - Cala-te! Só dizes merda tu – Milene encontrou a sua mala sobre a mesa. - Ai eu é que digo merda!? Tu melhor do que ninguém sabe do que é que esse Marco é capaz, lembraste?! Partiu-te toda há uns anos atrás e vai acabar por fazer o mesmo com essa pobre coitada! Se ela morrer, a culpa é tua… Arlete não podia estar mais segura das suas palavras, pois os seus cinquenta e dois anos de vida deram-lhe a sabedoria necessária para saber que com homens como Marco não era permitido brincar. Ele não conhecia limites, não tinha nada a perder e há muito que deixara de conhecer palavras como compaixão, perdão e humanidade. Num beco escuro do bairro, enquanto pontapeava e soqueava o corpo de Sara sem quaisquer remorsos, nada lhe pareceu importar. Nem sequer a remota possibilidade de ser apanhado por alguns dos seus inimigos ou então pela polícia. Tudo o que queria era extravasar o ódio que sentiu quando alguém lhe foi informou que Sara continuava a prostituir-se com qualquer homem que passasse pelo bairro ainda que ela lhe tivesse jurado fidelidade quando começaram a namorar. - Vaca – Marco encostou-lhe o rosto à parede. – Pensavas o quê?! Que eu não ia descobrir nada? Que não ia saber que me andavas a meter os cornos com outros? Pois fica sabendo que eu sei tudo o que se passa aqui dentro deste bairro …
  • 276. Impressão sua ou ela estava a rir-se, foi a pergunta que Marco se fez quando ouviu um risinho irritante proveniente da boca de Sara. Ainda pensou ter-se enganado, mas não. Ela estava realmente a rir e aquilo não era uma alucinação sua. - E ainda gozas comigo, minha cabra?! - Não – ela respondeu completamente marcada pela surra que levara momentos antes. – Só gostei de saber que tens ciúmes de mim. Ainda naquela noite, Sara entregou-se de corpo e alma a um homem que minutos antes a espancou. Os beijos, os abraços e o toque das mãos de Marco foram muito mais marcantes do que os murros e os pontapés que ele lhe ofereceu. Marco podia não ser o homem mais romântico do mundo, ela sabia-o bem, até porque tinha inúmeras nódoas no corpo que podiam comprovar essa teoria, mas era o único que a fazia sentir-se genuinamente especial. O único que parecia importar-se consigo. Passaram-se três semanas desde aquela fatídiga noite de sexta-feira. Jorge e Daniel regressaram das férias, trazendo vários presentes para toda a família. Madalena recebeu-os com um sorriso triste e permitiu que eles entrassem em casa numa enorme algazarra. Estava mais magra, foi a primeira impressão de Jorge enquanto a seguia pelo corredor. No entanto, o advogado manteve os seus pensamentos guardados a sete chaves. - Como é que estão as coisas por aqui? - Bem – Madalena mentiu, ajudando o filho a desfazer-se do casaco e da mochila. - A Sara? Como é que se portou nestas semanas? - Portou-se bem. - Tens a certeza? – Jorge encontrou uma certa hesitação na voz da ex-mulher. - Daniel! Vai lá para cima tomar um banho! Estás todo suado. O pequeno acedeu à ordem da mãe, abandonando a sala em seguida. - A Sara não está em casa? – Jorge perguntou quando se viu sozinho com Madalena. - Não! Ela saiu…
  • 277. - Lena! Eu disse-te que íamos ter que falar sobre a nossa filha quando eu voltasse de viagem – Jorge passou as mãos pelos cabelos aparados. – Eu estive a pesquisar… e encontrei um colégio onde acho que podíamos matricular a Sara. - E o que é que me queres dizer? - Que colégio? - Em Londres! Tem óptimas referências e é bastante conceituado! Tenho a certeza que lá as coisas poderiam correr melhor. - Correr melhor!? - Lena! O que é que achas que vai acabar por acontecer caso Sara continue em Portugal? Ela vai perder-se! Mesmo que volte para o antigo colégio onde estava, quem nos garante que para o próximo ano ela não vá continuar a faltar às aulas, a agredir professores e ser expulsa por mau comportamento? - Tu estás a querer enfiar a tua filha num colégio interno, é isso? - Que seja – Jorge tentou manter a voz baixa. – Tudo é melhor do que ela continuar a comportar-se como se comporta. E tu devias apoiar-me nisso! É para o bem da nossa filha, Lena! Só até ela ganhar algum juízo e as coisas voltarem a ser como antes. Quando isso acontecer, eu prometo que irei ser o primeiro a ir buscá-la e a trazê-la para ao pé de nós. Madalena encostou-se à mesa, sentindo-se bastante confusa. A proposta de Jorge era demasiado radical. Nunca lhe havia passado pela cabeça meter Sara num colégio interno, muito menos num país distante. Apesar de tudo, Madalena nunca desejou ver a filha longe de si. - Pensa nisso – Jorge aproximou-se de Madalena. – Se nos decidirmos depressa, ainda em Setembro consigo mandá-la para lá. - A Sara não vai querer ir. - A Sara não tem que querer nada! Nós somos os pais dela, nós decidimos o que é melhor para ela. Madalena desferiu um olhar dolorido ao ex-marido.
  • 278. - Olha para ti – ele observou-a com alguma pena. – Olha o que ela anda a fazer contigo! Estás muito mais magra, com um ar triste e miserável… - Eu só não quero desistir da Sara – Madalena tentou lutar contra as lágrimas. - Mas nós não estamos a desistir da nossa filha! Muito pelo contrário! Ao tirá-la daqui, só a estaremos a proteger. - Tudo bem – ela acedeu. – Eu vou pensar no assunto e para a semana digo-te alguma coisa. - Pensa bem! - Eu vou pensar. - Mas pensa com a cabeça e não com o coração. Na primeira manhã de Agosto, Sara acordou mal disposta. Sentiu a cabeça à roda, o estômago apertado e uma enorme vontade de vomitar. Algo que a fez saltar da cama e correr em direcção à casa de banho com a certeza absoluta de que nunca se tinha sentido tão mal em toda a sua vida. Minutos depois, quando arranjou forças para finalmente se levantar do chão, puxou o autoclismo e abriu a torneira do lavatório. Passou uma água fria no rosto. - Marquei uns exames para a semana – Milene disse-lhe ainda naquela tarde. - Exames de quê?! - Exames ginecológicos, ao sangue, à urina… ao HIV! - Para quê?! - Oras! Para saber se está tudo bem – Milene calçou as suas sandálias. – Faço sempre esses exames de seis em seis meses só para não ter nenhuma surpresa desagradável, estás a ver?! E tu também devias começar a fazer o mesmo. - Não me podes marcar os exames? Ao ouvir o pedido de Sara, Milene revirou os olhos e lançou um suspiro pesado. - Tenho sempre que fazer tudo por ti, já reparaste?!
  • 279. - Marca no mesmo dia! Eu vou contigo! Fazemos os exames juntas. Na semana seguinte, Sara e Milene deram entrada num centro de saúde. Preencheram as fichas oferecidas pela recepcionista e em seguida escolheram duas cadeiras escondidas para se sentarem. Milene foi a primeira utente a ser chamada pela assistente de serviço. Despediu-se de Sara e entregou-lhe os seus pertences para que esta os vigiasse. Depois disso, agradeceu a passagem cedida pela assistente e desapareceu ao longo do corredor deixando Sara a olhar para o relógio pendurado na parede. Quinze horas e trinta e cinco minutos. Só espero que isto não custe muito, ela pensou. Fisicamente não custou, mas psicologicamente, enquanto ouvia os sermões do médico de serviço acerca da sua conduta sexual não muito aconselhável e da sua tenra idade para realizar exames como àquele (HIV), Sara sentiu-se incomodada. Por sorte, os exames não demoraram a ser feitos, e por sorte, ela conseguiu desaparecer do consultório com a clara certeza de que nunca mais voltaria a pôr os pés ali dentro. Podem vir buscar os exames daqui a oito dias, a recepcionista disse-lhes. Mas para Sara, os oito dias que se seguiram foram longos, extenuantes e estressantes. Não houve uma única noite em que tivesse conseguido pregar olho enquanto esperava o resultado das análises. E se estivesse doente? E se tivesse apanhado HIV ou qualquer outra doença sexualmente transmissível? Eram estas algumas das perguntas que categoricamente lhe assombravam o pensamento todas as horas do dia. Quando finalmente chegou a altura de receber os exames, a jovem encheu-se de coragem e voltou a encontrar-se com Milene no local combinado. Mais uma vez, as duas amigas dirigiram-se à recepcionista e aguardaram que esta procurasse os exames nos arquivos. A espera tornou-se longa e o coração de Sara disparou de medo. Por fim, a recepcionista entregou-lhes dois envelopes castanhos. Um no nome de Milene dos Santos e o outro no de Sara Soares Albuquerque. Recebidos os exames, as duas amigas voltaram a sair à rua no mais completo silêncio. - Estou limpa – Milene declarou após ter analisado os seus exames com atenção. - Não tens nada? - Não! E tu? Não vais abrir o teu? Ao olhar para o envelope que tinha de encontro ao peito, Sara hesitou. - Dá-me cá esta merda – Milene arrancou-lhe o exame das mãos. – Quer dizer, para umas coisas és corajosa, agora para outras!
  • 280. Os momentos que se seguiram foram de grande expectativa. Enquanto Milene observava os seus exames com atenção, Sara sentou-se num pequeno pilar a poucos metros do edifício da clínica. Sentiu a sua cabeça a andar à roda, as pessoas parecerem-lhe desfocadas e as suas mãos a suar como se tivessem sido colocadas por debaixo de uma torneira aberta. - Estás lixada – as palavras de Milene pararam-lhe o coração. - O que foi?! Tenho Sida? – Sara levantou-se bruscamente do local onde estava sentada. - Não! Pior! Estás grávida. - Não acredito – Sara arrebatou-lhe o envelope das mãos. – Não pode ser. - Eu sabia que esta cena dos exames iria dar merda! Eu sabia! Tipo sexto sentido! Estás a ver?! - Será que os exames não estão errados? - É! Devem estar mesmo errados! Vai confiando nisso que daqui a nove meses vais ver o erro – Milene levou o cigarro à boca. – O pior é que tu nem sabes quem é o pai. - Só pode ser o Marco. - Como é que sabes?! - Porque foi só com ele que eu fiz sem preservativo. - E se não for? - Eu tenho a certeza que é. - Então se for, aí mesmo é que estás lixada! Ele não vai assumir a criança e ainda é capaz de te mandar fazer um aborto. - Ele não faria isso. - Não sejas ingénua! Abre os olhos e acorda para a vida! O Marco nunca te vai ajudar se resolveres ter essa criança. Ele não presta! Se tiveres o bebé, bem podes crer que
  • 281. todas as responsabilidades vão cair sobre os teus ombros, ou melhor, sobre os ombros dos teus pais porque tu nem sequer tens idade para arranjar um emprego decente. - O que é que eu faço? Milene suspirou, também ela transtornada com toda aquela história. - O que é que eu faço? – Sara repetiu, assustada. - Ai agora perguntas-me a mim? Eu sei lá o que é que fazes – a prostituta gritou no meio da rua. – Não tenho nada a ver com isso! Não te fiz o filho. - Eu sei – Sara começou a chorar. - Agora não adianta chorar, não é!? O mal já está feito… Sara chegou a casa antes de o anoitecer. Veio com o rosto marcado de tantas lágrimas e a lamentar-se da sua triste sorte. O que iria fazer dali por diante? Nem ela sabia. Tinha engravidado aos dezasseis anos de um homem que era tudo menos de confiança e ainda tinha um grande dilema nas mãos. Contar ou não a verdade aos seus pais. Que outra alternativa lhe restava? Não tinha ninguém a quem recorrer, não tinha idade para arranjar um emprego, para se sustentar e muito menos para sustentar uma criança que não foi de todo planeada ou desejada. Diante daquela situação no mínimo catastrófica, talvez a única solução fosse pensar num aborto antes que fosse tarde demais. - Já chegaste!? Que milagre! Até para estranhar – Madalena mostrou-se surpresa com a entrada da filha na cozinha. - Estou doente – Sara abriu a porta do frigorífico. - O que é que tens? - Gripe. - Se não andasses na rua até tarde não apanhavas doenças! Toma – Madalena atirou- lhe uma caixa de compridos para cima da mesa. – E não bebas água do frigorífico! Só te faz mal à garganta.
  • 282. Sara aceitou os comprimidos com alguma cautela, mas quando a mãe se voltou para o fogão, voltou a guardá-los discretamente no bolso das calças. Não estava doente e nem nada que se parecesse. A sua única doença era não saber o que fazer quando todos descobrissem que estava grávida. - O teu pai vem hoje para falar contigo. - Sobre o quê?! – Sara perguntou, rispidamente. - Só precisas saber que ele vem cá hoje. A noite já ia meio quando Jorge estacionou o carro em frente à moradia da ex- mulher. Saiu, batendo com a porta e em seguida atravessou a rua expectante pela conversa que pretendia ter com a sua filha. Sabia que não iria ser fácil, mas a decisão de enviar Sara para um colégio interno em Londres já estava categoricamente tomada. Minutos depois, a jovem desceu à sala chamada pela mãe. Veio com uma expressão irritada e pior ficou quando viu a figura do pai à frente. - Vim falar contigo – Jorge enfrentou-a com a mesma altivez. - Eu não tenho nada para falar contigo. - Sara, não me venhas com essa conversa outra vez! Eu sou o teu pai e quando digo que quero falar contigo, a tua única reacção deve ser a de ouvir o que tenho para dizer. E ouvir calada, entendido?! Sara engoliu seco. - Eu e a tua mãe estivemos a conversar na semana passada e chegámos a uma decisão. Tu vais voltar à escola… - Eu não sei se quero voltar à escola – a resposta da jovem surpreendeu os pais. - O quê?! – Jorge esboçou um sorriso esganiçado. - É isso mesmo! Eu não sei se quero continuar a estudar. - Mas essa ideia nem sequer está em cima da mesa – Jorge explodiu de raiva. – É óbvio que vais continuar a estudar! Mas não é aqui! É em Londres…
  • 283. - Desculpa?! - Isso mesmo que ouviste – a advogado manteve-se firme perante a presença silenciosa da ex-mulher. – Tu vais em Setembro para o Reino Unido e vais estudar lá num colégio interno. - Mas é que eu não vou mesmo – Sara gritou, esbaforida. - Vais sim – os gritos do pai foram mais fortes. – E vais porque eu estou a mandar e porque enquanto continuares a depender do meu dinheiro e do dinheiro da tua mãe para viver, vais fazer tudo o que nós dissermos. - Foi ela quem te pediu para me internar, não foi? – Sara apontou o dedo à mãe. - Não, não foi! Mas mesmo se tivesse sido, eu iria apoiá-la nessa decisão. A ideia foi minha. Eu é que não te quero mais neste país a destruir a tua vida e a vida de todos os que te rodeiam. E tal como já disse, esta decisão é irreversível! Podes já começar a fazer as tuas malas porque em Setembro viajamos para Londres e tu ficas lá até segunda ordem. - Nem morta – foram as últimas palavras de Sara antes de sair da sala e voar. Quando chegou ao quarto, fechou a porta violentamente. - Nós já sabíamos que iria ser assim – Jorge suspirou, exausto. - Eu só espero que isto seja para o melhor – Madalena respondeu. - É claro que é para o melhor. A notícia da gravidez de Sara foi recebida com alguma apreensão por parte da maioria das prostitutas do bairro. Algumas alertaram-na para o destino cruel que a esperava, outras optaram por a parabenizar, e outras ainda, aventuraram-se na procura dos primeiros nomes. Se for rapariga chama-lhe isto, se for rapaz chama-lhe aquilo, e no final, tal como se era de esperar, ninguém chegou a consenso nenhum. - Estás muito contente – Milene interpelou Sara quando ambas se sentaram numa das esplanadas do bairro. Arlete também se encontrava na mesma mesa a fumar calmamente o quinto cigarro da tarde. - Acho que já me habituei à ideia – Sara respondeu, sorridente.
  • 284. - E os teus pais? Já sabem dessa ideia? – Arlete meteu-se na conversa. - Não! E nem vou contar por enquanto. - Até quando achas que vais conseguir esconder essa gravidez? É óbvio que os teus pais vão descobrir não tarda nada – Milene avisou-a. - Eles querem enfiar-me num colégio interno, sabiam?! Milene e Arlete olharam-se estupefactas. - Querem livrar-se de mim e mandar-me para Londres. - Ui! Quem me dera – Arlete manifestou-se prontamente. – Ia para lá num instantinho! - Pois eu não vou nem morta! Antes disso, fujo de casa. - E vais para onde? – Milene interrogou-a enquanto fumava um cigarro. - Então?! Venho para aqui, é claro. - A miúda é doida – Arlete soltou uma gargalhada ruídosa. – Largar uma vida boa na casa dos pais para se vir enterrar aqui neste bairro?! Às vezes acho que não bates bem da bola, oh Sarita! - Eu não quero ir para Londres. - E já contaste ao Marco que ele vai ser papá? - Estou-me a preparar para lhe contar – Sara respondeu, animada. – Combinámos que ele vinha ter comigo esta sexta! Quero fazer-lhe uma surpresa… - Vai ser cá uma surpresa – Arlete terminou a sua imperial num só gole. – Sinceramente não gostava de estar na tua pele. - Porquê?! - Arlete! Fecha o bico – Milene ordenou.
  • 285. - Está bem! Já não está aqui quem falou. - Vocês sabem alguma coisa do Marco que eu não sei, não é?! – Sara franziu o sobre olho. – Andam sempre com segredinhos, sempre a mandar piadinhas. Posso saber o que é que me andam a esconder? - Ninguém te anda a esconder nada – Milene levantou-se da mesa e deu por terminada a sua pausa no almoço. – Bem meninas! Tenho que ir! O dever me chama. - Arlete! Diz-me a verdade – Sara interpelou a prostituta quando Milene atravessou a rua em direcção à pensão. – O que é que vocês sabem sobre o Marco? Porque é que a Milene fica sempre tão nervosa cada vez que falam dele? - Sarita! Não me metas nesse assunto. - Vá lá! Diz-me a verdade! Prometo que não vou contar. - Se a Milene quiser, ela que te conte! Não me meto nessa história que ainda sobra para mim – Arlete levantou-se igualmente da mesa. – E então!? Vais ficar aí? - Não sei! Não tenho nada para fazer. - Anda comigo ali ao Martim Moniz que eu preciso comprar umas coisas nos chineses. - Vais comprar o quê? – Sara saltou da cadeira, animada. - Tenho um novo passatempo agora! Bijuterias! Compro muitas quinquilharias para fazer colares, anéis, pulseiras e essas coisas todas. Sou uma artista, sabias!? - Não sabia que tinhas jeito para a coisa. - Estás a ver este colar aqui? Fui eu que fiz. - É giro. - Um dia desses faço-te um igual. - Fazes um para a minha filha também?!
  • 286. - Qual filha?! Tu nem sabes o sexo da criança ainda. - Eu tenho a certeza que vai ser uma menina. - Se for uma menina, pelo menos que tenha mais juízo que a mãe – Arlete abraçou-a pelos ombros enquanto saíam do bairro. – Ai rapariga! O pior é que eu até gosto de ti… Os dias seguintes trouxeram-lhe alguma ansiedade. Sara não sabia qual iria ser a reacção de Marco relativamente à sua gravidez. Ficaria contente? Confuso? Furioso? De facto, não havia como prever a sua reacção, mas naquela sexta-feira particularmente cinzenta de final de Agosto, Sara ansiou encontrar respostas a todas as suas perguntas. Esperava também encontrar nos braços de Marco a confirmação de que tudo iria correr bem e de que podia contar com ele para o que precisasse. Depois disso, ela voltaria a casa, diria a verdade aos pais e quem sabe até voltaria com Marco para o Algarve, onde embalados num clima romântico criariam o filho juntos. Era apenas um sonho, mas inocência de Sara permitia-lhe sonhar com tudo isso e muito mais. Às vinte e três horas dessa noite, o dono da pensão entregou-lhes a chave de um dos quartos. Sara e Marco subiram as escadas entre beijos e abraços. Minutos depois, abriram a porta do quarto para ali dentro matarem todas as saudades que tinham sentido um do outro. - Espera – ela disse, afastando-o com as mãos. - O que foi? - Tem calma! Temos a noite toda. - Já te disse que hoje não vou poder dormir em Lisboa. - Porquê?! – Sara perguntou, apreensivamente. - Uns gajos andam atrás de mim por causa de uma mercadoria que não consegui devolver a tempo. Pensam que fiquei com a cena e com o dinheiro, entendes?! - E ficaste?
  • 287. Marco esboçou um sorriso irónico e em seguida retirou a sua arma do bolso das calças. Depositou-a sobre a mesinha de cabeceira. Uma imagem que afligiu o coração de Sara. - Ficaste?! – ela insistiu. - O que é que isso importa? Apesar de não querer, Sara foi obrigada a tolerar um longo beijo de Marco. Mas a verdade é que enquanto o fazia, o seu coração apertou-se de tal forma que por momentos foi-lhe praticamente impossível respirar. Claro que ela odiava o facto de Marco andar em negócios estranhos, mas odiava ainda mais perceber que muitas vezes ele perdia a noção do perigo por ser tão ganancioso e inconsequente. - Espera – ela voltou a afastá-lo de si. - Bem! Mas hoje tu estás mesmo chata! O que é que foi? Sara lançou um longo suspiro e fugiu para o outro lado do quarto. - O que é que foi? – Marco repetiu a pergunta, impaciente. - É que eu tenho uma coisa para te contar. - O quê?! - Prometes que não ficas chateado? – Sara mostrou-se nervosa. - Já não estou a gostar nada da brincadeira! O que foi? Andaste a fazer coisas que não devias, é isso? Voltaste a prostituir-te? - Não! Não é nada disso! Mas só conto se prometeres que não ficas chateado. - O.k! Eu prometo – Marco levantou os braços e revirou os olhos. – Conta lá! - Há dias atrás, eu e a Milene fomos fazer uns exames de rotina só para saber se estava tudo bem connosco. A Milene está cansada de fazer esses exames e disse que eu também os devia fazer… - Sara, despacha-me essa conversa!
  • 288. - Está bem – ela sentou-se numa das pontas da cama. – Na semana passada fomos buscar os exames e… eu descobri que estava grávida… - Grávida?! – Marco esbugalhou os olhos. - Sim! Grávida! - De quem?! - De quem!? – Sara mostrou-se surpresa com tal pergunta. – É claro que é de ti. - De mim? - Sim! De ti! Eu tenho a certeza porque a data coincide com a última vez que estiveste cá em Lisboa. - E tu estás à espera que eu acredite nisso? - Eu não estou à espera de nada! Tu tens que acreditar nisso. - Olha para mim, Sara – Marco segurou-lhe o queixo com força. – Olha bem para mim e diz se eu tenho escrito na testa a palavra otário!? - Marco… - Tu nem sabes quem é o pai dessa criança! Pode ser qualquer um que tenha passado aqui pelo bairro. - É claro que não. - Ou vais negar? Vais negar que durante esse tempo todo não tens trabalhado como prostituta? - Há semanas que não tenho ido para a cama com ninguém. A última vez foi contigo e eu disse-te que ia largar a vida por tua causa. Tu fizeste-me prometer isso. - E achas mesmo que vou acreditar em ti? - Marco, eu estou-te a dizer que este bebé é teu! Não tenho razões para te mentir!
  • 289. - Sara, eu vou dar-te um conselho! Podes já começar à procura de outro palhaço para sustentar o teu filho, porque eu estou fora… – Marco encontrou a sua arma sobre a mesinha e o seu casaco sobre a cama. - Tu não me podes fazer isso – ela alcançou-lhe o braço, impedindo-o de sair do quarto. - O que é que foi? Estavas à espera que ficasse contente? Que fosse pedir uma puta em casamento e ainda lhe escolher o nome do puto? Acorda, otária! De gajas como tu, já ando eu farto! Se engravidaste, problema teu! Resolve! Eu é que não vou ficar aqui a fazer papel de palhaço. Aliás, se eu soubesse que era isso que me querias contar, nem sequer tinha vindo a Lisboa hoje. Enquanto ouvia o discurso amargo de Marco contra si, Sara sentiu duas lágrimas rolarem-lhe pela face. Sentiu também como se o mundo tivesse desabado sobre os seus ombros e que não houvesse absolutamente nada e nem ninguém que a pudesse amparar. Como se enganou. Como se iludiu com um homem que não conhecia nada de si e que nem sequer estava disposto a conhecer. Durante meses, ela deu-lhe tudo. Colocou-o num pedestal e chegou inclusive a sonhar com um futuro promissor ao seu lado. Mas a verdade é que, para Marco, ela nunca havia passado de uma mera prostituta. O desespero tomou conta de Sara quando Marco desapareceu do quarto, levando consigo a sua arma e o seu casaco. Nessa altura, ela resolveu persegui-lo pelas escadas abaixo, lavada em lágrimas, implorando-lhe para que ele não a abandonasse. - Sara! Sara – Marco sacudiu-lhe os ombros quando saíram à rua. – Acabou! Mete isso na tua cabeça! Acabou… - Eu tiro o bebé – ela segurou-lhe a manga do casaco, desesperada. – Eu tiro! Se não quiseres eu tiro… - Mesmo se tirares! Acabou! A sério! Foi divertido enquanto durou, gostei de estar contigo, mas isto já se está a tornar demasiado sério para o meu gosto. Eu não fui feito para ser pai. Nem para ser pai e muito menos para me prender a uma gaja da vida – Marco discursou, terminando-lhe com todas as esperanças de um possível romance entre os dois. – Mas eu se fosse a ti tirava mesmo esse bebé! Ainda és muito nova para ser mãe e irias acabar por te arrepender mais tarde. - O filho é teu – Sara gritou com os olhos rasos de lágrimas.
  • 290. - Pode até ser – Marco abriu os braços enquanto se afastava da pensão e a deixava sozinha no meio daquela rua deserta. – Mas eu não o quero! E tu não me podes obrigar a querê-lo… MARCO, ouviu-se um berro no outro lado da rua. E foi nesse instante que o jovem se viu surpreendido por cinco de tiros de caçadeira quase todos cravados no seu peito. Depois disso, ao vê-lo cair inanimado no chão, o carro que continha os três mandatários do crime arrancou a alta velocidade deixando para trás um rastro de destruição, sangue e os gritos de Sara. Tinha sido um abate perfeito, sem margem para erros e que retirou a vida de Marco. Um jovem traficante de droga de vinte e cinco anos cujo último desejo em vida foi o de não querer ser pai. Quando ouviu os tiros provenientes da rua, Milene afastou-se de um cliente e saltou da cama, atordoada. Não. De facto, aquela não era a primeira vez que escutava tiros no bairro e nem os gritos das pessoas que por lá passavam. Mas ainda assim, quando os ouviu desta vez, o seu coração parou de bater por breves instantes. Pé ante pé, a prostituta aproximou-se da janela e abriu o vidro. Viu pessoas a correr de um lado para o outro, ouviu os estores dos prédios a subir a uma velocidade fantasmagórica, e por fim, talvez a cena mais chocante de todas, a sua amiga Sara lavada em lágrimas sentada no chão com a cabeça de Marco sobre o colo. Meus Deus, ela murmurou, levando a mão à boca. Meu Deus. - Hei! Vais-me deixar assim? – o cliente mostrou-se insatisfeito quando Milene tentou encontrar as suas roupas espalhadas pelo chão. - Será que não percebeste o que é que se passou? Mataram um homem ali em baixo! - Mas eu paguei. - Toma a merda do dinheiro, imbecil – Milene atirou-lhe as duas notas de cinquenta euros contra o peito. – Não preciso dele para nada. Quando se livrou do maldito cliente, Milene correu pelas escadas abaixo quase tropeçando no tapete à entrada da pensão. Por sorte conseguiu chegar rapidamente à rua onde um aglomerado de pessoas já se encontrava à volta de Sara e do corpo de Marco. Uns tentavam consolá-la, outros mantinham-se em silêncio, enquanto a jovem chorava, gritava e não permitia que ninguém lhe retirasse o pai do seu filho dos braços. Marco não tinha morrido, repetiu vezes sem conta. Para ela, ele estava apenas a dormir. Profundamente, mas a dormir. - Sara – Milene agachou-se perante a sua amiga, tentando trazê-la de volta à realidade. – Sara, larga-o! Ele está morto…
  • 291. - Não – a jovem gritou, enfrentando o rosto da prostituta. – Ele não está morto! Ele não está morto! As sirenes da polícia e da ambulância foram ouvidas no bairro alguns minutos depois. Muitas pessoas que lá se encontravam, detentas de um cadastro um pouco duvidoso, procuraram um local para se esconder. Apenas Milene resolveu permanecer junto de Sara. Recusou-se a fugir. Recusou-se a deixar a sua melhor amiga sozinha naquela rua deserta. A polícia delimitou a área do crime assim que chegou ao local. Foram procuradas identificações, testemunhas, e por fim, recolheu-se o corpo da vítima perante o olhar apavorado de Sara. Foi a primeira vez que ela se deu conta de que Marco havia realmente morrido. Para isso, bastou ouvir as portas da ambulância fecharem-se estrondosamente. Após um interrogatório minucioso, Sara foi levada pelos polícias até ao carro por ser a única testemunha do crime. O corpo de Marco foi devidamente transportado no interior da ambulância em direcção ao hospital mais próximo. Depois disso, deixaram-se de ouvir as sirenes no Intendente. Tudo voltou à normalidade. A mesma normalidade que existia quando Sara ainda não frequentava o bairro, quando ainda não se tinha perdido na vida e muito menos conhecido a maioria dos habitantes da zona. - Achas que ela algum dia vai voltar? – Arlete perguntou a Milene. - Não sei – Milene tentou lutar contra as lágrimas. – Só me pergunto até quando… - Até quando o quê?! - Até quando vamos continuar a viver nesta merda – Milene tentou engolir o nó que se lhe atravessou na garganta. – Até quando, meu Deus?! Porque eu já não sei se aguento muito mais. Era a primeira vez que Milene e Arlete se abraçavam e choravam juntas desde que se conheceram. Coincidência ou não, naquela noite, fazia precisamente sete anos. Sete anos de luta, de tristezas, amarguras e um rol infinito de outros acontecimentos que para sempre ficariam gravados nas suas memórias. Enganados estavam todos os que pensavam que as prostitutas gostavam do que faziam. Que não tinham sonhos, projectos e muito menos sentimentos. Que não sonhavam ter uma vida igual à de todas as outras mulheres. Que não desejavam encontrar um grande amor, casar, ter filhos ou até viver felizes para sempre. No entanto, por vezes, a vida é demasiado cruel. Nem sempre a felicidade bate à porta de todos. Nem sempre é possível ter-se
  • 292. tudo aquilo que se deseja ou todos os que amamos. Por vezes, somos obrigados a fazer escolhas, a seguir caminhos errados e a aprender com os nossos próprios erros. E na maioria das vezes, quando os cometemos, pagamos bem caro por eles. A madrugada já ia alta quando o telefone tocou ruidosamente sobre a mesinha de cabeceira. Madalena acordou sobressaltada, perguntando a si própria quem seria. Com os olhos ensonados, levantou o auscultador e aguardou que uma voz grossa e informal lhe informasse que a sua filha, Sara Soares Albuquerque, havia sido detida pela polícia por ter sido a única testemunha presencial de um homicídio. Atordoada com todas aquelas revelações, Madalena saltou da cama e apressou-se a digitar o número do seu ex-marido. Explicou-lhe o sucedido e esperou que ele, como advogado, soubesse enfrentar aquela situação bem melhor que ela. Foram as horas mais longas da sua vida. Enquanto esperava e desesperava por notícias da sua filha, Madalena desceu ao primeiro piso envolvida no seu robe. Seguiu até à cozinha e serviu-se de um copo de água a fim de acalmar os nervos que estava a sentir. Depois, dirigiu-se à sala e sentou-se no sofá, desolada. Chegou à conclusão que tinha perdido totalmente as forças. Tinha perdido toda e qualquer esperança de que Sara se pudesse regenerar. Madalena respirou de alívio quando Jorge estacionou o carro em frente aos portões da sua casa. Através da janela da sala, ela viu o ex-marido e a filha saírem do automóvel no mais completo silêncio. Nenhum dos dois pronunciou palavra até que ela lhes abrisse a porta de entrada. Nessa altura, Madalena sofreu um choque. A imagem de Sara à sua frente, com os olhos inchados de tanto chorar, os cabelos desalinhados, a maquilhagem esborratada e uma t-shirt marcada de sangue, fizeram o seu coração a parar de bater. - O que é que aconteceu? - Acho melhor irmos para a sala – Jorge conduziu a filha pelo braço, enquanto um pouco mais atrás, Madalena os seguiu cautelosamente. – A Sara tem muitas coisas para nos explicar. - Sara, o que é que aconteceu? – a mãe perguntou, aflita. A pergunta não sofreu qualquer resposta por parte de Sara quando ela se afastou dos braços do pai e encontrou na janela o local perfeito para se refugiar. Nesse instante, lançou um olhar vazio aos seus progenitores. Manteve-se inerte, sabendo bem que não tinha absolutamente nada para lhes dizer. Não queria explicar a Madalena e a Jorge que naquela noite havia perdido a pessoa mais importante da sua vida. Perdeu o pai do seu filho, o homem que amava e também a vontade de viver. Na verdade, não valia a pena explicar todos esses factos a duas pessoas que nem
  • 293. sequer a conheciam. Porque os pais não a conheciam, Sara chegou a essa conclusão. Nunca a chegaram a conhecer. - O que é que aconteceu, Sara? – Madalena insistiu novamente. – Por favor, diz-nos! Jorge resolveu acabar com o sofrimento da ex-mulher. – Se ela não conta, eu conto! O mesmo amiguinho que a levou ao Algarve há tempos atrás, foi hoje morto à caçadeira e parece que a nossa filha foi a única testemunha do crime. Um ajuste de contas, segundo a polícia… - os olhos de Madalena aterrorizaram-se. – Mas o pior nem é isso! Sabes onde é que a polícia a encontrou?! - Onde? – Madalena perguntou com alguma cautela. - No Intendente. - O quê?! - Isso mesmo! A nossa filha estava no Intendente! Achas isto normal? - Sara! O que é que tu estavas a fazer num lugar daqueles? – Madalena virou-se bruscamente para a filha. – Enlouqueceste?! Será que não sabes que nesse lugar só há bandidos, drogados e prostitutas? Enquanto ouvia o discurso moralista dos pais e todas as verdades que estes fizeram questão de lhe jogar à cara durante vários minutos, Sara cerrou os olhos e deixou de os ouvir. A príncipio foi como se tivesse sido transportada para uma outra dimensão ou para um outro lugar longínquo. Mas depois, quando regressou à realidade e ouviu novamente a voz estridulosa da mãe a ecoar-lhe nos ouvidos, Sara sentiu uma onda de histeria invadir-lhe o corpo. Uma onda que a obrigou a soltar um berro ameaçador e a acabar de uma vez por todas com aquela história. Os pais olharam para ela, assustados. - Deixem-me em paz! - Sara! Tu não te atrevas a falar connosco nesse tom – Jorge imperou. - Vocês sabem muito bem o que é que eu estava a fazer no Intendente. - Sara…
  • 294. - Mas a única coisa que não querem é admitir a vocês próprios algo que está e sempre esteve à frente do vosso nariz. - O que é que está à frente do nosso nariz? – Madalena temeu ouvir a resposta. - Tu sabes. - Não, não sei. - Tu sabes, mãe! Sempre soubeste! Só que nunca quiseste admitir a verdade a ti própria ou admitir aos outros – Madalena sentiu as suas pernas fraquejarem em frente à filha. – Mas se quiseres, eu posso dizer-te com todas as letras para que não restem dúvidas! Eu sou prostituta! PROS-TI-TU-TA! Madalena teve que fazer um esforço sobre humano para se conseguir manter de pé. Durante meses, tentou enganar-se. Tentou convencer-se que o comportamento da filha era perfeitamente normal. Sara era apenas uma adolescente rebelde de dezasseis anos. Tentou igualmente convencer-se que com o tempo e com paciência, as coisas iriam melhorar. Ignorou as roupas da sua filha, a maquilhagem, o tabaco, as bebedeiras e as saídas à noite. Ignorou os seus instintos maternais e escondeu a cabeça por debaixo da areia, desejando que por algum milagre, Sara se tornasse numa pessoa melhor. Mas não. Pelo contrário. A cada dia, a cada semana, a cada mês, a filha se mostrava um ser humano verdadeiramente odioso e repugnante. Um ser humano que saiu de dentro do seu ventre. - Tu só podes estar a gozar – Jorge mostrou-se estupefacto com a revelação. - Achas mesmo, pai!? Achas mesmo que eu estou a gozar? – Sara mostrou-lhe um sorriso maléfico. – Eu sou prostituta sim! E sou porque gosto, porque quero e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com vários homens! Muitos homens! Dezenas de homens! Pronto! Aí está a verdade que vocês tanto queriam saber. Satisfeitos!? A resposta de Sara culminou com uma bofetada violenta que Jorge fez questão de lhe oferecer na face. A primeira. A primeira bofetada que o advogado ofereceu à filha nos seus tenros dezasseis anos de vida. - Eu não andei a criar uma filha para a ver perdida no Intendente.
  • 295. - Engraçado – Sara levantou o rosto vermelho pela mão do pai. – Os homens nunca criam as filhas para as ver no Intendente, mas no entanto, vão lá para procurar as filhas dos outros… JORGE NÃO. Nem o grito de Madalena impediu o ex-marido de se lançar contra a filha a fim de extravasar todo o ódio e toda a repulsa que a resposta dela lhe trouxe. E a verdade é que enquanto o fazia, pensando que a culpa de tudo aquilo tinha sido inteiramente sua, Jorge percebeu que infelizmente já era tarde demais para retomar o seu papel de pai. Sara não o respeitava, não o admirava e nem nutria por si qualquer outro sentimento que pudesse ser chamado de bom. Tudo o que havia sobrado da menina doce e delicada que um dia pegou ao colo, desapareceu sem deixar rastro. - Para mim, acabaste de morrer – Jorge abandonou-a no tapete da sala, ainda ofegante pela surra que lhe havia pregado momentos antes. – A partir de hoje já não te considero a minha filha! E também não quero que me consideres teu pai… - Vai – Sara gritou, saindo da sala e interceptando-o ao fundo do corredor. – Vai-te embora! Não foi sempre isso que fizeste durante toda a tua vida? Pelo menos agora já não precisas fingir que és pai… Dito isto, Sara alcançou o corrimão das escadas e voou como um foguete até ao quarto. Fechou a porta violentamente e os vidros da janela agitaram-se. - Jorge… - Madalena chamou o ex-marido quando o viu com a cabeça encostada à porta. Aproximou-se dele. Lentamente. Tentando encontrá-lo naquele corredor às escuras. Por fim, encontrou-o. Mas não o reconheceu. – Jorge… - Olha no que é que a nossa filha se transformou! Não havia nada a dizer, os dois chegaram a essa conclusão quando os seus rostos se encontraram e Madalena o viu com lágrimas nos olhos. Depois disso, Jorge abriu a porta e saiu. Atravessou o jardim ainda com o casaco nas mãos e seguiu em direcção ao carro estacionado junto ao passeio. E foi só ali que o advogado pôde transbordar toda a dor que estava a sentir dentro de si. Chorou. Chorou muito. Chorou mais do que alguma vez havia chorado em toda a sua vida, e quando finalmente terminou de carpir todo o seu sofrimento, arrancou o carro sem se importar com o olhar dilacerado que ex-mulher lhe lançou da porta de casa. Quando fechou a porta da rua e se viu novamente sozinha naquele corredor às escuras, Madalena caiu no chão com a cabeça por entre as pernas, tentando sufocar o choro compulsivo que se apossou de si. O choro de uma mãe desesperada. Uma mãe tão desesperada que naquela
  • 296. madrugada não viu outra alternativa a não ser trancar todas as portas de casa, sem saber que no piso de cima a sua filha fazia as malas sobre a cama. Para Sara, aquilo tinha sido o fim. Não havia a mais remota possibilidde de continuar a viver naquela casa depois de ter revelado aos pais que era prostituta. Eles nunca iriam compreender. Na verdade, nem ela compreendia os motivos que a levavam a prostituir-se. Há muito que deixara de sentir prazer nisso. Há muito que a excitação e a novidade de ir para a cama com vários homens já não a fazia feliz. Tudo o que lhe restava era um enorme vazio no peito e a vontade de fugir de uma família que já não lhe dizia nada. - O que é que estás a fazer? – Madalena interceptou-a no último degrau das escadas com as malas nas mãos. - Vou-me embora! - Tu não vais a lado nenhum – Madalena mostrou-lhe uma expressão severa. - O que é que foi? Por acaso vais-me tornar na tua prisioneira, é isso?! - Sara, volta para o teu quarto! - Não volto porcaria nenhuma – Sara esbarrou-se nos ombros da mãe e caminhou apressada pelo corredor em direcção à saída. Nas mãos, levou a sua mochila e uma mala pequena. Achou que não precisava de muito mais para recomeçar uma vida longe daquela casa. Mas o que não contou foi com o que veio a seguir. A porta da rua encontrava-se trancada. À chave. - Abre-me a merda da porta – ela gritou voltando-se para a mãe, esbaforida. - Já disse para voltares para o teu quarto! - Tu não me podes obrigar a ficar nesta casa! - Enquanto fores menor e estiveres sobre a minha responsabilidade, eu posso sim obrigar-te a fazer aquilo que eu quiser e aquilo que eu achar que é melhor para ti. - Dá-me a chave! - Não – Madalena subiu vários degraus das escadas quando sentiu a filha demasiado perto de si com olhos de quem a queria matar.
  • 297. - Dá-me a chave! - Já disse que não. A resposta negativa de Madalena trouxe toda a fúria de Sara ao de cima, e consequentemente a sua audácia em atirar-se para cima da mãe sem temer as consequências daquele acto insano. Foi o fim da linha. O fim de todo o respeito, amor e admiração que mãe e filha algum dia sentiram uma pela outra. A barreira foi quebrada. Sara atreveu-se a ultrapassá-la quando esbofeteou Madalena no cimo das escadas e se envolveu com ela numa guerra de estalos, empurrões, gritos e pontapés. Nesse instante, Daniel acordou e saiu do quarto a correr. - Chama o pai, filho – Madalena suplicou, enquanto se tentava desenvencilhar dos braços de Sara. – Chama o pai! Daniel não esperou segunda ordem e correu para o telefone mais próximo. Digitou o número do seu progenitor e rezou para que ele atendesse. - Pai! A Sara vai matar a mãe, pai! A Sara vai matar a mãe… Enquanto tentava explicar a Jorge o que se estava a passar em sua casa, um barulho ensurdecedor proveniente das escadas obrigou Daniel a largar o auscultador. O pequeno correu até ao local e deparou-se com uma cena verdadeiramente chocante. Do cimo das escadas, viu os corpos da sua mãe e da sua irmã, estatelados no corredor. - Mãe… – ele gritou, apavorado. E tal como por um milagre, ao ouvi-lo, Madalena mexeu a sua perna direita. Não. Ninguém tinha morrido ou tão pouco sofrido lesões mais graves visto as escadas não serem muito inclinadas. A única coisa que suplantou a dor da queda foi o susto, mas isso foi rapidamente esquecido por Sara quando esta tentou novamente agarrar as pernas da mãe e a impedi-la de fugir em direcção à sala. - Dá-me a chave – Sara seguiu-a com uma fúria irreconhecível no olhar. - Tu estás louca! Completamente louca - Madalena encostou-se à mesa da sala, ofegante.
  • 298. - Se me tivesses dado a porcaria da chave, nada disto teria acontecido! Mas não, não é?! Mais uma vez quiseste mostrar que és tu que mandas! Sempre foi assim, não foi, D. Madalena?! Tudo tinha que ser sempre feito à sua maneira! Horas marcadas. Locais marcados. Nada podia escapar ao seu controlo. Mas deixa-me que te diga que tu não mandas em mim! Nunca mandaste e não vai ser agora que vais mandar… - Sara, o que é que foi que eu te fiz?! Onde foi que eu errei para que te tivesses transformado nesta pessoa!? – Madalena não conseguiu controlar as lágrimas que lhe brotaram dos olhos. – Eu só queria que tu me dissesses para que eu pudesse entender! Porque se eu errei, filha, se te fiz algum mal, não foi por querer! Não foi de propósito. Mas no entanto parece que me odeias e que queres fazer tudo para me destruir e para destruir a minha vida. Eu não mereço isto! Eu sei que apesar de tudo eu não mereço o que me estás a fazer! Sempre te dei tudo o que estava ao meu alcance, sempre te pus em primeiro lugar e sempre abri mão de tudo em prol da tua felicidade… - Estás a falar do Sérgio, não é?! – Sara mostrou um sorriso maléfico enquanto os seus olhos também se enchiam de lágrimas. – Porque se quiseres voltar para ele, podes voltar! Eu vou-me embora desta casa e depois disso já não vou querer saber com quem andas ou deixas de andar. Tudo o que eu queria na altura era que o Sérgio desaparecesse! Porque ele já sabia que eu me andava a prostituir e ameaçou que te contava a verdade caso eu não deixasse a vida. Foi só por isso que eu inventei que ele me tinha estuprado. Madalena manteve-se imóvel e incrédula perante as revelações da filha. - O Sérgio nunca tocou num fio de cabelo meu, embora eu quisesse que ele me tivesse tocado! Naquele dia do jantar, lembraste?! Naquele primeiro jantar em que nos querias apresentar o teu querido namorado. Sabes porque é que ele saiu daqui a correr? Porque eu pus o meu pé no meio das pernas dele… - Sara riu-se de lágrimas nos olhos. – Mas podes ficar descansada porque ele nunca quis nada comigo. Ainda que eu tivesse tentado inúmeras vezes, ele dizia sempre que eu não passava de uma criança! Coitado! Então quando ele ameaçou que te ia contar a verdade, eu apareci na casa de banho só para que nos apanhasses e pensasses que ele me estava a estuprar. E tu, burra como sempre, acreditaste! Preferiste acreditar em mim, em vez de acreditar nele, e agora olha para ti?! Estás sozinha e é assim que vais ficar até ao final dos teus dias, porque eu também me vou embora e tu nunca mais vais voltar a olhar para a minha cara. - Tu és um monstro, Sara! Um monstro…
  • 299. Madalena e Sara olharam-se pela última vez no interior daquela sala, mas não se reconheceram. Estava tudo destruído. Não restava mais nada daquela relação doentia a não ser um ódio extremo e um rancor entre duas pessoas que um dia chegaram a estar biologicamente interligadas. - Aqui tens – Madalena atirou-lhe as chaves contra o peito. – Estás livre para fazeres o que quiseres da tua vida, porque para mim, morreste! Não hoje, ao contrário do que o teu pai te disse, mas há muito tempo… Ao apanhar as chaves no chão, Sara saiu da sala e não resistiu a disferir um último olhar ao seu irmão. Daniel encontrava-se sentado no meio das escadas, assustado com tudo o que havia presenciado momentos antes. No entanto, ao contrário do que estava à espera, Sara despediu-se dele com um beijo na testa. Mais tarde, recolheu os seus pertences e desapareceu de uma casa onde tinha vivido os seus primeiros dezasseis anos de vida. Quando a porta se fechou, ouviu-se um silêncio ensurdecedor, e com ele veio também a certeza de que aquele inferno tinha finalmente chegado ao fim.
  • 300. 2000 Eram habituais as férias de família durante o Verão. Todos os anos, Jorge e Madalena rumavam com os filhos ao Algarve. Passavam quatro semanas regadas de boa-disposição, praia, churrascos e passeios pela região. A vida corria-lhes bem. Jorge conseguira finalmente alcançar o estatuto que tanto desejara no escritório “Perestrelo&Associados”, ganhando casos e clientes regulares. Trabalhava muito. Todos os dias da semana e praticamente todos os fins-de-semana. Passava também a vida a viajar para os mais variados países. Alemanha. Bélgica. Reino Unido. Espanha. França. Estados Unidos. Russia. Israel. Austrália. Quase sempre para assistir a congressos, seminários, reunir-se com clientes e efectuar negócios esquivos por debaixo do pano. Enquanto isso, a sua família permanecia em Lisboa. Madalena cuidava dos filhos e do lar, resignada ao seu papel de perfeita dona-de- casa sempre atenta às necessidades do marido e das crianças. Muitas vezes, sentia falta de ter mais tempo com Jorge. De irem ao cinema, de jantar fora, passear pela rua de mãos dadas. Enfim. Coisas que faziam muito antes de os filhos nascerem. Mas a rotina aniquilava qualquer espécie de tentativa de romance. Não havia tempo para nada, e quando sobrava algum, era quase todo passado à volta das tarefas domésticas e das crianças. Nos poucos dias de folga que tinha, Jorge aproveitava para colocar a leitura em dia, deitar-se no sofá da sala de papo para o ar e divertir os filhos com as suas brincadeiras sem sentido. Enquanto isso, Madalena fazia o almoço, estendia a roupa no quintal, aspirava todas as habitações da casa e limpava o pó e as casas de banho. Ninguém acreditava no que dizia, mas ela era o único membro daquela família que nunca tinha um dia de folga. Os filhos estavam a crescer. Sara tinha sete anos e Daniel dois. Eram crianças adoráveis, apesar de absorverem todo o tempo e o esforço da mãe. Contrariamente ao irmão, Sara já frequentava a escola. Andava na segunda classe e quando chegava a casa não falava de outra coisa a não ser dos colegas, das brincadeiras e das professoras. Madalena ouvia-a com a máxima atenção, tecendo comentários aqui e ali, enquanto iniciava os preparativos do jantar e impedia Daniel de saltar da cadeirinha. Sentia-se exausta com tanta coisa para fazer, mas agradava-lhe aqueles pequenos momentos onde a filha não a deixava em paz um só segundo.
  • 301. Quando comemoraram o décimo aniversário de casamento, Jorge ofereceu a Madalena uma máquina de lavar roupa e um frigorífico gigantesco. Sabia que ias gostar, ele disse. Na verdade, ela detestou pois tudo o que não precisava na altura era de mais aparelhos domésticos que a fizessem relembrar o seu papel naquela casa. Assim sendo, no décimo primeiro aniversário, Madalena decidiu tomar as rédeas da situação. Preparou tudo ao mais ínfimo pormenor. Deixou os filhos em casa dos avós, preparou um jantar especial e iniciou a noite enfiada numa lingerie provocante. Tudo parecia correr como o planeado, excepto pelo facto de Jorge não ter aparecido para o jantar. Ligou a meio da noite dizendo que iria ficar a trabalhar até tarde no escritório, sendo que quando chegou a casa, já a madrugada ia alta, encontrou a mulher a dormir profundamente no quarto. Os meses deram lugar a um novo ano, e no Verão seguinte o casal voltou a passar as férias no Algarve, desta vez tendo por companhia Duarte Perestrelo, a sua mulher Sofia e os filhos. Rodrigo e Guilherme. Apesar de se conhecerem há vários anos, Madalena e Sofia pouco ou quase nada tinham em comum. Uma era a antítese da outra. Davam-se cordialmente, mas apenas isso. Por outro lado, Jorge e Duarte eram os melhores amigos. A perfeita fusão de dois homens com o ego inflado, arrogantes e bem-sucedidos. Planearam as férias sem nem sequer levar em consideração o desejo das suas respectivas mulheres. Madalena preferia ter ficado em Lisboa. Sofia queria ter ido para as Ilhas Maldivas. Durante as quatro semanas em que estiveram de férias em Albufeira, era habitual Jorge e Duarte saírem do hotel e desaparecerem durante horas a fio. Deixavam os filhos com as esposas, aproveitando todo o tempo livre para descansar numa das muitas esplanadas da região, ao sabor de uma bela cerveja, enquanto a visão das mulheres em bikini lhes enchia as vistas. Duarte era mais despachado que Jorge. Chamava as que lhe interessavam à sua mesa e não descansava até lhes sacar o número de telefone. Numa agradável tarde de quarta-feira, os dois advogados conheceram duas turistas inglesas, também elas despachadas. Não aparentavam ter mais do que vinte anos, óptimo físico, olhos azuis e cabelos loiros. Falavam com um sotaque britânico cerrado e praticamente não entendiam nada do que Duarte e Jorge diziam. Contudo, ainda assim, encantaram-se com o charme daqueles dois homens bem aprumados. Ou talvez quem sabe se tivessem encantado com o fantástico Ferrari descapotável que conduziam. Combinaram encontrar-se logo mais à noite, num dos muitos bares abertos da cidade. Jorge achou arriscado, mas Duarte não se fez de rogado. Assegurou ao amigo que conseguiriam dar a volta às suas mulheres e sair sem que elas desconfiassem. E de facto foi isso que aconteceu, apesar de Madalena ter feito inúmeras perguntas sobre onde iriam àquela hora da noite e com quem. Sofia, por seu lado, remeteu-se ao silêncio enquanto lia uma revista sobre a espreguiçadeira junto à piscina. Não lhe
  • 302. apeteceu interpretar o papel de esposa extremosa. Ao contrário de Madalena, ela não era tão inocente ao ponto de acreditar que o seu marido iria apenas beber um copo com amigos a meio da semana. O seu sexto sentido era muito mais apurado e a sua tolerância bem mais fléxivel. Em troca de umas belas férias, um belo carro e bastante dinheiro, ela não se importava de fechar os olhos às pequenas escapadelas do marido. Fazia parte do jogo, era o que dizia. As noites de Verão no Algarve eram o verdadeiro regozijo dos homens, fossem solteiros ou não. A oferta superava a procura. Duarte e Jorge sabiam-no bem. Foram os primeiros a chegar ao encontro com as inglesas, mostrando-se animados por um noite que prometia ser memorável. Vinte minutos depois, elas chegaram. Anna e Sarah. Vinham trajadas com roupas minúsculas, saltos altos, ainda bronzeadas pelo longo dia de praia. Na verdade, não falaram muito. Também não havia muita coisa para falar. Apenas se riram, beberam a rodos e insinuaram-se aos dois advogados. No final da noite, antes de abandonarem o bar, Jorge e Duarte dividiram a conta a meias. O primeiro ficou com Anna e o segundo optou pela Sarah. Despediram-se à porta do recinto apinhado de gente seguindo cada um o seu caminho. Por nem sequer valer a pena pagar um quarto de hotel, Jorge emaranhou-se com Anna no interior do carro. Estacionou-o a poucos metros de uma praia deserta sem sequer se importar com o adiantado das horas. Anna estava completamente bêbada, tal como ele. O seu sotaque britânico tornou-se ainda mais acentuado quando pediu a Jorge que a tomasse ali mesmo. E assim, a advogado não esperou segunda ordem. Colocou-a no colo, no banco da frente e fê-la abrir as pernas sobre si. Por momentos, foi como se a excitação lhe invadisse todas as veias do corpo. Em movimentos frenéticos, tentando lutar contra a falta de espaço, Jorge praticou sexo com uma mulher que lhe era praticamente desconhecida, e nem mesmo a visão da cadeira de segurança do filho instalada no banco de trás o impediu de concluir o acto como se de um animal selvagem se tratasse. Na manhã seguinte, tanto Jorge como Duarte acordaram com uma enorme ressaca, mas nenhum deles se conseguiu livrar da tarefa enfadonha de levar a mulher e os filhos à praia. Duarte foi no carro da frente com Sofia e os seus dois rapazes, enquanto Jorge os seguiu calmamente no outro carro, tentando lidar com os olhos ensonados e a gritaria dos filhos no banco de trás. Ignorava também os olhares esquivos de Madalena e o seu mau-humor por ter sido obrigada a participar naquelas férias que para ela estavam a ser horríveis e entediantes. Quando chegaram à praia, Jorge estacionou o seu BMW a poucos metros do Ferrari de Duarte. Subiu o travão de mão com um longo suspiro e retirou o cinto de segurança. Do lado contrário, Madalena também se desfez do seu, mas deixou cair a sua mala por debaixo do banco. O marido saiu, apressado. Abriu o porta-bagagens, tirou os sacos de praia, os brinquedos dos filhos e o guarda-sol. Sara saltou do banco de trás, animada por
  • 303. passar mais um dia inteiro a brincar na água. Daniel só conseguiu sair minutos depois quando o pai o livrou da cadeira de segurança. Nessa altura, Madalena abandonou o carro com uma expressão aterradora. Lançou-se contra o ex-marido e arrebatou-lhe o filho das mãos. - Mas tu estás parva?! – Jorge não conteve a sua surpresa pela reacção intempestiva da mulher. - Dá-me o meu filho! - O que é que foi agora? Madalena olhou-o com amargura, e sem dizer nada atirou-lhe ao peito uma embalagem vazia de um preservativo. - Porco! Tenho nojo de ti – foram as suas últimas palavras antes de levar os filhos pela mão e deixar o marido especado à frente do carro sem saber o que fazer. As férias terminaram mais cedo e tudo porque Madalena se recusou a permanecer no Algarve até o final da semana. Apesar das inúmeras insistências de Duarte para que ficassem, ela manteve-se resoluta na sua decisão. Queria regressar a Lisboa, ainda que só com os filhos. Não lhe importava se o marido ficava ou não. Mas Jorge optou por acatar-lhe o desejo. Uma semana antes do final de Agosto, o casal já estava em Lisboa. No entanto, as discussões não terminaram. Madalena estava farta das traições do marido. Farta de lhe encontrar recibos de hóteis no bolso das calças, embalagens de preservativos no porta-luvas do carro e telefonemas esquivos sempre que estavam em família. Com o passar do tempo, ela pensou que se pudesse habituar à situação. Mas cada traição descoberta era como uma facada no seu peito. Jorge não a amava, não a respeitava e nem a fazia feliz. Então porque é que ainda continuavam casados? Só por causa dos filhos? Cansada de ficar em casa, Madalena resolveu voltar a trabalhar fora. Para isso, esperou que Daniel crescesse um pouco mais e fosse para o infantário. Jorge não gostou da ideia. Ôpos-se dizendo que não havia necessidade da mulher trabalhar por conta de outrém. Madalena tinha tudo o que desejava. Uma óptima casa, um bom carro, roupas, jóias, sapatos e cartões de crédito ilimitados. Trabalhar? Para quê? No seu caso, iria ser apenas por um mero capricho. Mas Madalena não se deixou esmorecer pelos comentários negativos do marido. Ainda que o seu horário de trabalho fosse incompatível com o horário do colégio dos filhos, ela podia contar com a ajuda da sua mãe e do seu pai. Afonso, já reformado da
  • 304. marinha, ia buscar os netos à escola. Primeiro, Daniel, ao meio-dia, e depois Sara, por volta das cinco da tarde. Levava-os para a floricultura da mulher onde ficavam até às sete, altura em que Madalena saía do trabalho e ia buscar os miúdos. Não era nada fácil estar longe dos filhos, mas surpreendentemente, Madalena sentiu-se feliz. Era bom poder trabalhar fora de casa, ser útil à sociedade e ganhar o seu próprio dinheiro. Dava-lhe um certo gosto de independência que há muito não saboreava, nomeadamente desde que se casou com Jorge. A adaptação à nova empresa foi feita de forma gradual. Os colegas eram simpáticos e os chefes atenciosos. Madalena adorava trabalhar com números devido à sua formação profissional, daí não ter sentido qualquer dificuldade quando foi colocada na área da contabilidade. Foi nesse departamento onde conheceu Alice Martins – a sua colega que também tratava da parte financeira da empresa. Tornaram-se amigas e confidentes em pouco tempo, apesar de serem muito diferentes entre si. Alice era mais extrovertida, mordaz e incisiva. Madalena era tímida, doce e delicada. Mas davam-se bem. Muito bem. Com o tempo, Alice passou a frequentar a casa de Madalena. Conheceu-lhe o marido, os filhos, a mãe e o pai. Foi num domingo quando Sara completou onze anos de idade. A casa encontrava-se encheu-se de gente, maioritariamente por pré-adolescentes, colegas de turma da aniversariante, amigos próximos e familiares. Sara encontrava-se líndissima naquele dia. Uma princesa trajada com um vestido azul de veludo e duas tranças que lhe caíam uma em cada ombro. Era a alegria da casa e dos pais. Em momentos como àquele, onde a felicidade dos filhos se sobrepunha à sua própria felicidade, Madalena resignava-se à ideia de que nem sempre era possível ter tudo aquilo que se desejava. Por vezes era preciso fazer concessões, engolir sapos e fechar os olhos. Quando chegou à sala com o bolo de Sara nas mãos e todos os convidados cantaram os parabéns à aniversariante, Madalena não conseguiu desviar os olhos do marido um só segundo. Viu-o com a filha nos braços, completamente embevecido, oferecendo-lhe beijos e sorrisos constantes enquanto ela apagava as velas. Jorge era um pai babado. Isso, ninguém podia negar. Quatro meses depois, Madalena descobriu que estava novamente grávida. Não foi uma gravidez planeada e nem nada que se parecesse. Aconteceu. Fruto de uma discussão que acabou na cama e que regressou no dia seguinte. Aquela criança vinha numa péssima altura. Com dois filhos ainda pequenos, um novo trabalho que lhe consumia praticamente todas as horas do dia e um casamento cheio de altos e baixos, Madalena pensou muito antes de tomar a decisão mais difícil da sua vida. - Tens a certeza que é mesmo isto que queres fazer? – a mãe perguntou-lhe quando ela foi buscar Sara e Daniel à floricultura.
  • 305. - Tenho, mãe – Madalena mostrou uma expressão mortificada. - Pensa bem, Lena! - Eu já pensei. - E o Jorge?! O que é que ele diz disto tudo? - Eu… não lhe vou contar. Leonor não pareceu nem um pouco satisfeita com a decisão da filha, mas resolveu acatá-la sem tecer nenhum comentário moralista. Sabia bem o quanto Madalena estava a sofrer pois nenhuma mulher tomava aquela decisão de ânimo leve. Assim, Leonor esteve presente no dia em que Madalena tomou os malditos comprimidos que ditaram o fim da existência daquele que seria o seu terceiro filho. Foi um segredo guardado a sete chaves pelas duas mulheres da família. Nunca ninguém descobriu ou desconfiou. Até ao dia em que Jorge chegou a casa mais cedo do que habitual. Dois meses após o aborto da mulher, o advogado passou por casa a meio da tarde para recolher alguns documentos que se esqueceu de levar para o escritório. Eram importantíssimos. Necessitava deles para um julgamento que se iria realizar dali a uma semana. Assim que abriu a porta da rua, Jorge subiu ao quarto. Procurou uma pasta castanha sobre a secretária e um envelope branco numa das gavetas da mesinha de cabeceira. Contudo, um outro envelope, de cor amarela, chamou-lhe a atenção. Era a primeira vez que o via. Tratava-se de um exame médico no nome da mulher. Quando deu por si, já o tinha lido. Madalena estava grávida. Fizera o teste há dois meses sem nunca lhe ter dito. Jorge regressou ao escritório ainda naquela tarde, mas não se conseguiu concentrar no trabalho. Nas mãos, permaneceu-lhe o teste de gravidez da mulher enquanto procurava uma explicação plausível para que ela não lhe tivesse contado nada. Mas as dúvidas não se dissiparam com o adiantar das horas. Pelo contrário. Perto das oito da noite, Jorge deu por terminado o seu dia. Saiu do escritório e foi directamente para casa, ansiando confrontar Madalena com o que descobrira naquela tarde. Ao passar pelo corredor, o advogado viu os filhos a brincar na sala entretidos com aos desenhos animados que ainda continuavam a passar na televisão. Sentiu também o aroma do jantar proveniente da cozinha. Um aroma que o intimou a entrar na habitação e a surpreender Madalena perto do fogão. - Boa noite – ele disse, largando uma pasta sobre a bancada.
  • 306. - Boa noite – ela respondeu, atarefada com os preparativos do jantar. - Está tudo bem?! - Está. - Tens a certeza? - Sim – Madalena fitou-o inocentemente. – Porquê?! - Por nada… Jorge voltou a sair da cozinha perante o olhar confuso da mulher. Na altura, não lhe quis dizer nada. Achou que não era o momento certo e de que precisava de mais algum tempo para organizar as ideias. Por isso, depois do jantar e das crianças terem ido dormir, ele voltou a entrar no quarto pronto a confrontar Madalena com o exame. Aproximou-se e jogou o envelope em cima da cama. - O que foi? - Isso pergunto-te eu! Reconheces esse exame? Madalena não soube o que responder quando as suas mãos trémulas alcançaram o envelope sobre o édredon. Deveria ter sido mais cuidadosa a escondê-lo? Talvez! Mas agora já era tarde demais para negar os factos. - Porque é que não me contaste? – Jorge confrontou-a do lado oposto da cama. - Estás grávida há quase três meses e não me dizes nada?! - Eu não estou grávida. - Como assim?! – o advogado sentiu-se confuso. - Eu não estou grávida. - Não estás grávida!? Mas e esse exame? Desculpa Lena, mas eu não estou a perceber! Queres-me explicar o que se está a passar! Estás grávida ou não?! Ouviu-se um longo silêncio.
  • 307. - Estás grávida ou não?! – Jorge repetiu a pergunta, impaciente. - Eu estive grávida – ela respondeu de lágrimas nos olhos. – Mas já não estou. - Perdeste o bebé? - Não… - a voz saiu-lhe rouca. - Então o que é que aconteceu? - Eu tirei… - Desculpa?! – Jorge pensou por momentos que tinha ouvido mal. - Eu tirei. O silêncio no quarto tornou-se ensurdecedor. Asfixiante. Insuportável. Tal como a vontade de Jorge em continuar a olhar para a cara da mulher. - Tu tiraste o bebé?! - Eu posso explicar… - Explicar o quê?! Que engravidaste, soubeste da criança e resolveste matá-la sem me dizer nada? - Eu não matei criança nenhuma. - Tens a certeza?! Madalena virou as costas, desolada. - Eu não acredito que tenhas feito uma coisa dessas nas minhas costas! Não acredito que tenhas decidido isso, sozinha, sem nem sequer pedir a minha opinião… - Pedir a tua opinião para quê?! – Madalena voltou a encarar o marido, resoluta. - Ainda perguntas?! - Sim, Jorge! Para quê?! Para quê que íriamos ter mais um filho? Qual era o objectivo?
  • 308. - Qual era o objectivo?! Nós somos casados… - E daí?! – Madalena interrompeu-lhe as palavras. – O que é que isso muda? - Não acredito que estejas a dizer uma coisa dessas – Jorge levou as mãos à cabeça. - Um novo filho não iria acrescentar nada às nossas vidas. - E por isso resolves matá-lo?! – Jorge gritou. – Porque ele não iria acrescentar nada à tua vida? Por acaso chegaste-me a perguntar se ele iria acrescentar alguma coisa à minha? - Tens tanta lata, Jorge! Tu passas a vida fora de casa a trabalhar, a viajar e a encontrar-te com as tuas amantes! Muitas vezes até te esqueces que a Sara e o Daniel existem. Porque é que com esse filho iria ser diferente? - Não tentes virar o jogo a teu favor. - Eu não estou a fazer nada. - Ambos sabemos bem que o único motivo pelo qual fizeste este aborto foi por causa do teu estúpido trabalho lá naquela empresa. Porque não querias que um novo filho atrapalhasse a tua esplêndida carreira como contabilista. Ou vais negar? - Não, Jorge! Eu não vou negar! Eu também pensei no meu estúpido trabalho, tal como dizes, e pensei também na estúpida vida a que iria ser obrigada a voltar caso tivesse um novo filho. Porque para ti é fácil, não é?! É fácil quereres filhos atrás de filhos quando não és tu que os tens que carregar na barriga e criá-los sem a ajuda de ninguém… – Madalena gritou. - És uma egoísta! - Que seja! Pela primeira vez em toda a minha vida, eu pensei em mim antes de pensar nos outros e devo-te dizer que não estou nem um pouco arrependida. Tu também sempre pensaste em ti. Sempre te puseste em primeiro lugar no nosso casamento. Porque é que eu não posso fazer o mesmo? Jorge olhou-a com desprezo.
  • 309. - Eu até te podia dizer que esta foi a decisão mais difícil que tomei até hoje e que durante dias não consegui pregar olho a pensar no que tinha feito. Mas eu não me arrependo! Tal como já disse, este filho não iria acrescentar nada às nossas vidas… - Tenho pena que penses assim. - Tu é que me fizeste pensar assim! Jorge saiu porta fora sem dizer nada. Deixou a mulher sentada sobre a cama, desamparada, lutando contra os remorsos que se apossaram de si. Naquela noite, não se viram mais. Ele pegou no carro e conduziu-o em direcção ao bar do LAPA PALACE. Bebeu vários copos de whisky e acabou na cama com a primeira mulher solteira que lhe apareceu pela frente. Talvez tivesse sido imaturo e infantil da sua parte, mas na altura, trair Madalena foi a única coisa que o impediu de se sentir como um verdadeiro falhado. O casamento de Madalena e Jorge tornou-se uma fachada a partir daquele episódio inóspito. Ele recusou-se a perdoá-la pelo aborto e ela recusou-se a dar o braço a torcer por uma decisão que na altura lhe pareceu a mais acertada. Deixaram também de partilhar o mesmo quarto. Jorge ocupou o quarto de hóspedes, ainda que sem o conhecimento dos filhos. Todas as noites, fingia que ia dormir com Madalena e quando as crianças já se encontravam ferradas no sono levava um cobertor e uma almofada para o último quarto da casa. Madalena não o impediu, nem sequer fez questão de o trazer de volta. Também ela se encontrava magoada com tudo. Com as traições, as mentiras e o descaso de um homem que um dia jurou amá-la mais do que a própria vida. Mas os anos foram passando e nenhuma das promessas que Jorge fez se manteve. O sonho de um casamento perfeito também se desmorou, deixando apenas um estranho amargo de boca entre duas pessoas que já pouco ou quase nada tinham em comum. A confirmação dessa teoria surgiu na reunião de final de ano dos funcionários da “Perestrelo&Associados”. Uma gala em Dezembro de 1999 a que Madalena foi obrigada a comparecer apenas para representar o papel da senhora Albuquerque. Contudo, na festa, ela passou a maior parte do tempo sozinha. Jorge abandonou-a poucos minutos depois de terem chegado. Emaranhou-se por entre a multidão e desapareceu. Sem deixar rastro. Só voltou a aparecer duas horas mais tarde, ao longe, acompanhado por uma das advogadas estagiárias do escritório. Segredou-lhe algumas coisas ao ouvido e ela riu-se às gargalhadas. E foi ali, naquele preciso momento, quando terminou o último champanhe da noite, que Madalena percebeu que já não o amava mais. Nos últimos meses, Jorge andava especialmente nervoso. Passava a vida ao telefone em conversas esquivas com desconhecidos, trancava-se no escritório de casa,
  • 310. trabalhava até tarde e fazia imensas transacções bancárias através do seu computador. Não tinha paciência sequer para brincar ou cuidar dos filhos. Madalena começou a estranhar o comportamento do marido, mas nunca lhe chegou a perguntar nada. Sabia bem que tudo o que dissesse apenas iria servir para o aumento das discussões já existentes naquela casa. Por isso, remeteu-se ao silêncio e esperou pacientemente que as coisas melhorassem. Mergulhou também no trabalho e nos filhos. Era neles que depositava todas as expectativas. Graças ao seu empenho, Madalena foi recompensada com um merecido aumento salarial. Não que lhe fizesse falta o dinheiro, até porque, apesar de ser um péssimo marido, Jorge nunca deixou que nada lhe faltasse. Mas era bom saber que os seus chefes lhe reconheciam a competência e estavam satisfeitos com o seu trabalho. A poucas semanas da Páscoa, Jorge viajou para um Congresso em Madrid. Levou apenas uma mala pequena dizendo que ficaria instalado num hotel no centro da cidade. Qualquer coisa que acontecesse com os filhos, a mulher tinha o seu número de telefone e podia contactá-lo. Madalena ficou em Lisboa e na sexta-feira foi trabalhar. - Olá, Madalena – a recepcionista entrou no departamento financeiro da empresa com uma expressão preocupada. – Desculpa interromper, mas estão aí fora uns senhores para falar contigo. - Que senhores?! - Acho melhor ires lá fora. Madalena lançou um olhar intrigado a Alice, que se encontrava no outro lado da sala, mas achou por bem não perder mais tempo a fazer adivinhações. Provavelmente não seria nada de importante. Apenas vendedores a tentar impingir- lhe alguma coisa. Caso assim fosse, iria despachá-los gentilmente e regressar ao trabalho. Mas ao chegar à recepção, escrutinada pelos olhares curiosos dos seus colegas, Madalena depressa percebeu que aqueles dois homens altos, corpulentos e vestidos à paisana eram tudo menos vendedores. Falavam entre si, baixinho, tomando notas num pequeno bloco de papel. Quando os viu, ela gelou. - Srª Madalena Soares Albuquerque? - Sim – ela respondeu cautelosamente. – Sou eu. - Polícia judiciária – um dos homens revelou a sua identidade, mostrando um distintivo policial. – Queira nos acompanhar, por favor! A senhora encontra-se presa
  • 311. sob acusação de branqueamento de capitais, burla qualificada e falsificação de documentos. Madalena manteve-se em silêncio, inerte, tentando assimilar todas aquelas acusações contra si. Por pouco não desfaleceu, mas uma força maior conseguiu ampará-la a tempo. - Isto só pode ser um engano – ela protestou. - Queira nos acompanhar, Srª Madalena! Não houve como descrever a humilhação sentida por Madalena quando o segundo policial a algemou sem se importar com a presença e os burburinhos de praticamente todos os funcionários da empresa. Depois de o fazer, ele encaminhou-a em direcção ao veículo branco estacionado à saída do edifício. Nessa altura, também Alice saiu à rua aflita. - Telefona ao meu pai, Alice – foi tudo o que Madalena conseguiu dizer a poucos segundos de entrar no carro da polícia judiciária. – Telefona! O número está na minha agenda em cima da secretária! Telefona, por favor… O relógio pendurado na parede do gabinete onde tinha sido instalada pelo inspector da judiciária assinalou vinte e uma horas e trinta e cinco minutos. Na altura, há muito que o sol já se tinha posto no horizonte. A noite caiu perante o olhar dilacerado de Madalena, deixando-a de olhos postos na janela a pensar como era possível ter chegado àquele ponto de ruptura. - Srª Madalena Albuquerque?! - Sim… O inspector voltou a entrar no gabinete, trazendo nas mãos uma pequena pasta vermelha. Mais tarde, sentou-se à secretária e poisou a chávena de café sobre algumas folhas amachucadas. - Por acaso a senhora tem ideia do que é que está a ser acusada? - Não – Madalena tentou manter a calma.
  • 312. - O nome “ Brothers Enterprise Association” não lhe diz nada? - Não. - Srª Madalena… – o inspector mostrou-se impaciente com ela. – A senhora tem noção de que andava a receber quantias extraordinárias de dinheiro numa conta aberta em seu nome no Chipre? - Eu não tenho nenhuma conta no Chipre. - Tem a certeza? Enquanto o inspector alinhava dezenas de extractos bancários em cima da secretária, Madalena sentiu o seu coração parar de bater. Não havia como negar a realidade. A conta existia. Encontrava-se registada em seu nome e recebia mensalmente quantias superiores a quinhentos mil euros. No total, desde a abertura da conta, a soma do valor atingia os quatro milhões de euros. Um dinheiro que ela nunca viu em toda a sua vida e que não sabia sequer da sua existência. - Tem alguma coisa a dizer sobre isto, Srª Madalena?! - Não. - A conta está aberta em seu nome e contém a sua assinatura! Reconhece a sua caligrafia?! Ela manteve-se em silêncio. - Não tente negar, Srª Madalena… – o inspector voltou a falar. – Eu se fosse a si, confessava a verdade! Acredite que se fizer isso, terá muito menos problemas e a sua pena poderá ser bem mais leve. Madalena não precisou de muito tempo para perceber o que realmente se estava a passar. Enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas, ela percebeu o grande erro que tinha cometido ao acreditar nas palavras do marido. Durante anos, exigiu que ele parasse de fazer negócios esquivos, defender empresários, banqueiros e gestores corruptos. Mas Jorge nunca lhe deu ouvidos. A sua ambição sempre falou mais alto e a sua vontade de enriquecer também. Todo o dinheiro que possuíam era sujo e roubado. Não havia um pingo de honestidade em nenhum cêntimo que Jorge ganhava a trabalhar como advogado nos escritórios “Perestrelo&Associados”.
  • 313. - Tem direito a fazer um telefonema - o inspector interrompeu-lhe os pensamentos. - Obrigada – foi tudo o que ela conseguiu responder. Madalena aceitou um café do inspector e o telefonema a que tinha direito. Ligou para casa só para saber como se encontravam as crianças, ao que Leonor, a sua mãe, respondeu que estavam assustadas, mas bem. Leonor informou-a igualmente que Afonso, o seu pai, entrara em contacto com Jorge e que este, por não estar no país e não ter conseguido apanhar o primeiro voo com destino a Lisboa, nomeou Duarte Perestrelo como seu advogado. O último encontrava-se já a caminho das instalações da polícia judiciária. A fiança pedida por Duarte demorou algumas horas e só foi cedida no dia seguinte, a meio da manhã. Após uma longa conversa com o inspector da judiciária – que de resto não se mostrou particularmente crente que a acusada nada sabia sobre o caso – Madalena recebeu os seus pertences num pequeno saco de plástico e abandonou o edifício da polícia judiciária na companhia de Duarte. No rosto, ainda lhe estavam marcadas todas as horas que não conseguiu dormir e todas as lágrimas que derramou numa cela fria e fétida da qual ela não levava nada mais do que más recordações. Trinta minutos depois, Duarte estacionou o carro em frente à sua moradia, no separador central por baixo da fileira de plátanos. Madalena apertou o saco que tinha nas mãos e fechou os olhos, desolada. Sabia que de uma certa forma faltava-lhe a coragem para voltar a encarar os filhos depois de tudo o que aconteceu. Faltava-lhe também o destemor de confessar-lhes que a mãe já não amava o pai e que já não desejava passar com ele o resto dos seus dias. O seu casamento tinha chegado ao fim e a sua vontade de lutar por ele também. - Tens a certeza que ficas bem? – Duarte perguntou ainda no interior do carro. - Tenho – ela voltou a limpar as lágrimas com a manga do casaco. - Lena! Quando o Jorge chegar hoje à noite, ele vai-te explicar tudo o que aconteceu. Tu vais perceber porque é que fizemos isto. Se puséssemos a conta no nome da firma ou no nome de algum associado nosso, a polícia chegaria a nós muito mais facilmente e seria um escândalo. Este negócio envolve gente muito importante. Gente conhecida, gente ligada à política e ao sistema bancário. Não nos podíamos dar ao luxo de correr riscos. Além disso, aquela quantia era irrisória perto do volume da transacção que conseguimos ganhar com o negócio. Todo esse dinheiro, daqui a alguns anos, quando repartido, vai assegurar um bom futuro à Sara e ao Daniel. No
  • 314. fundo, o Jorge só fez isto por vocês… Madalena balançou a cabeça positivamente, como se já estivesse conformada em viver ao redor de pessoas sem carácter. - Entra em casa, toma um banho e relaxa! Não te precisas preocupar com nada agora! A partir de hoje, eu trato de tudo com a polícia. - Duarte… - ela chamou-o calmamente, a poucos segundos de sair do carro. - Diz! - Eu amaldiçoo o dia em que o Jorge te conheceu. O sábado ensolarado deu lugar a uma noite carregada de nuvens que se adensaram ao longe no horizonte. Parecia que o Outono tinha chegado em força, ditando o fim de um ciclo que já se vinha arrastando há muitos anos. De olhos postos na janela, enquanto os primeiros pingos de chuva caíam sobre o tejadilho, Madalena susteve a respiração. Olhou o seu relógio de pulso e viu que nele estavam marcadas vinte e quatro horas. Nessa altura, o silêncio da rua foi interrompido pela chegada de um táxi. O veículo estacionou em frente à sua moradia, no separador central, por debaixo da mesma fileira de plátanos que durante anos esteve ali plantada. Dezasseis ao todo. O tempo em que ela esteve casada com Jorge. Madalena observou a sua saída do táxi. Jorge trazia, como sempre, o seu sobretudo cinzento nas mãos e uma pasta castanha por debaixo do braço. De longe, era possível perceber o seu cansaço. A viagem a Madrid naquele fim-de-semana não poderia ter vindo numa pior altura. O timing tinha sido péssimo, mas ainda assim, Jorge sabia que não iria conseguir fugir por muito mais. Era altura de enfrentar os problemas. Custasse o que custasse. O motorista ajudou-o com as malas. Ele pagou a corrida, oferecendo-lhe uma boa gorjeta, ao que o senhor agradeceu com um aperto de mão cordial. Pouco tempo depois, o advogado arrastou a bagagem e abriu os portões de casa sem saber que a sua mulher o vigiava por detrás dos cortinados da sala. Quando abriu a porta, já a noite ia alta, Jorge viu-se confrontado com uma escuridão avassaladora. O casarão parecia adormecido, ou pelo menos foi essa a sensação que obteve durante escassos segundos. Com certeza a mulher e os filhos já estariam a dormir. Mas não foi isso que aconteceu. No momento em que se largou as malas a um canto do corredor e colocou o sobretudo no bengaleiro, uma luz pálida do candeeiro acendeu-se junto à entrada.
  • 315. Jorge apanhou um susto de morte. Era Madalena. A sua mulher. - Não precisas subir – ela disse-lhe num tom de voz imperioso. - Pensei que já estivesses a dormir. - Não ouviste o que eu disse? - Lena! Nós precisamos conversar… - Eu já não tenho mais nada para falar contigo, Jorge. - Eu sei que deveria ter-te contado antes! Ou pelo menos antes que a polícia descobrisse. Mas a primeira fase das transacções já estava praticamente concluída. Faltava apenas mais uma remessa e depois íriamos transferir o dinheiro para uma outra conta. Fecharíamos aquela que estava em teu nome e caso ficaria encerrado. Mas a polícia descobriu tudo. Com certeza, deve ter sido alguma denúncia, alguma vingança, sei lá… - Jorge aproximou-se lentamente dela. – Mas o importante é que acabou tudo bem. Já falei com o Duarte esta tarde e ele garantiu-me que o caso será abafado e o teu nome ilibado desta história toda. Enquanto ouvia o discurso do marido, alguém a quem dedicou dezasseis anos da sua vida, Madalena não quis acreditar no que ele se tinha transformado. Um homem arrogante, presunçoso e cheio de si. Crente de que as suas acções não tinham consequências e de que poderia livrar-se das suas responsabilidades sempre que quisesse. Jorge não iria mudar. Nunca. Por mais anos que despendesse naquele casamento fracassado, ele não iria mudar. A luta estava perdida. Para Madalena, não existiam forças e nem vontade para salvar aquela relação doentia. - Tens as tuas malas ali na sala – ela disse por fim. - Que malas?! – Jorge afrouxou o nó na gravata sem acreditar no que tinha ouvido. - As malas que te fiz esta tarde. Enfiei lá dentro todas as tuas tralhas! Só tens que pegar nelas e sair desta casa. - Estás louca, Lena?! De onde é que foste tirar uma idiotice dessas? - O nosso casamento acabou, Jorge! Eu quero-te fora desta casa e quero-te também fora da minha vida! Para sempre…
  • 316. Jorge soltou uma risada seca como se não quisesse acreditar nas palavras da sua mulher. Aliás, recusava-se a acreditar naquela encenação feita por Madalena. Já a tinha visto inúmeras vezes sempre que ela lhe descobria uma traição ou outra mentira mal contada. Foram dezasseis anos do mesmo. Dezasseis anos em que ela o perdoou e o deixou voltar a um casamento que, apesar de não ser perfeito, conferia- lhes toda a segurança de que necessitavam. Então porque é que desta vez seria diferente? Não havia e nem nunca houve motivos para ser diferente. - Vou tomar um banho e dormir no quarto de hóspedes! Amanhã falamos… - Jorge tentou subir as escadas que ligavam o rés-do-chão ao primeiro piso. - Não estás a levar a sério aquilo que te estou a dizer, não é?! – Madalena impediu-o de subir. - Lena! Eu estou cansado, aliás, estou exausto! O congresso em Madrid não correu nada bem. Já disse que amanhã falamos… - E eu já disse que não vais subir – ela gritou, raivosa. – Será que ainda não percebeste, Jorge?! Será que vou ter que te dizer com todas as letras que o nosso casamento acabou? ACABOU – Madalena voltou a gritar-lhe aos ouvidos. – Chegou ao fim, aliás, a minha paciência contigo chegou ao fim. E o meu amor por ti também. Eu já não te amo mais! Há muito tempo que não te amo mais… Jorge fechou os olhos e balançou a cabeça sem querer acreditar que aquilo estava realmente a acontecer. Depois de um congresso de setenta e duas horas, de ter perdido um voo pela manhã e da notícia que obteve do seu escritório sobre as investigações da polícia judiciária às suas contas bancárias, ainda tinha que lidar com as crises sentimentais da sua mulher. - Eu sei que estás irritada por causa do que aconteceu. Assumo a minha culpa! Mas já passou, Lena! Já te disse que não vais ser acusada de nada. O Duarte e eu vamos tratar de tudo… Madalena sentiu uma lágrima cair-lhe no rosto. – Acabou, Jorge! Desta vez é a sério… - Tudo o que fiz foi para o teu bem e para o bem dos nossos filhos. - Não! Tudo o que fizeste foi para o teu bem. Nunca pensaste em mim, na Sara ou no Daniel! Durante todos estes anos, estiveste muito mais interessado nos teus negócios
  • 317. e nas tuas conquistas profissionais. Estiveste também muito mais interessado em arranjar várias amantes e em humilhar-me com elas… - os olhos de Madalena encheram-se de lágrimas. – E até ontem, eu engoli tudo porque achava que era preferível viver este casamento de fachada do que privar a Sara e o Daniel de terem um pai. Achei que era preferível abrir mão da minha felicidade, para que todos à minha volta fossem felizes. E eu até estava disposta a fazer isso, Jorge! Estava realmente disposta a viver miseravelmente para o resto da minha vida apenas para ver os meus filhos felizes. Mas ontem foi a gota de água. Acabou-se tudo! Acabou-se o pingo de respeito que eu ainda sentia por ti, o pingo de admiração e também o pingo de amor… - Pois eu ainda te amo. - Não! Não amas – Madalena disse-lhe num tom deveras calmo. – Agora sai da minha casa! Desaparece e não voltes mais, porque desta vez, eu não te vou aceitar de volta… - Eu não vou sair desta casa, ouviste bem?! – Jorge gritou pela primeira vez, acordando os filhos no piso de cima. – Sabes qual é o teu problema, Lena? Passares a vida enfiada no teu mundo de fantasia sem realmente saber o que se passa lá fora! Ou pensas o quê?! Pensas que teríamos metade das coisas que temos se eu continuasse a trabalhar naquela firma de advogados em Benfica onde me enfiei a ganhar o ordenado mínimo e a trabalhar como um condenado para que os outros advogados mais experientes me ficassem com os louros? Achas que teríamos esta casa? Diz lá! Achas que poderíamos pagar os colégios dos miúdos? As nossas férias? As roupas, as jóias e tudo o que compras com os cartões de crédito que te ofereço de mão beijada? Não! Nunca poderias ter a vida que tens se não fosse por minha causa. Ao contrário do que possas pensar, os bens materiais compram-se com dinheiro e não com honestidade. E hoje em dia, já não se ganha dinheiro com honestidade. Lá fora, no mundo real, as pessoas lutam com unhas e dentes por um ordenado ao final do mês porque sabem que o dinheiro não cai do céu. E tu devias dar graças a Deus por não ter que lutar por nada. Devias agradecer de joelhos a vida que eu te ofereço… - Uma vida que eu não quero mais – Madalena cortou-lhe as palavras com um grito agudo. - Até ontem querias – Jorge enfrentou-a perto das escadas. – Por isso pensa bem! Não faças nada do qual te possas vir a arrepender mais tarde.
  • 318. - Eu não me vou arrepender, Jorge! Até porque prefiro morrer do que continuar casada contigo. Jorge foi o primeiro a aperceber-se da presença da filha, já que Madalena, por estar de costas, não viu expressão assustada de Sara com as mãos suspensas sobre o corrimão das escadas. A jovem ouviu a discussão dos pais e a frase preemptória da mãe: Prefiro morrer do que continuar casada contigo. E não foi preciso mais nada para que Sara percebesse que o casamento dos pais estava irremediavelmente arruinado. Para sempre. - Sara… - Jorge tentou antecipar-se à filha, mas foi tarde demais. Sara desapareceu das escadas assim que os seus olhos se cruzaram com os da mãe. Trancou-se no quarto, batendo a porta com violência. O barulho que se ouviu foi absolutamente ensurdecedor e deixou Jorge e Madalena de olhos postos um no outro. Como chegaram àquele ponto, perguntaram-se em silêncio. O que aconteceu àquele casamento? Ao amor e ao respeito que um dia sentiram um pelo outro? O que foi feito a todos aqueles sentimentos que outrora pareceram tão reais? - Tens as tuas malas ali na sala! Quando saíres, fecha a porta e deixa a chave… Proferidas estas últimas palavras, Madalena subiu as escadas lentamente, levada por uma falsa sensação de liberdade. Estava livre, foi o que pensou. Finalmente livre. Anos e anos de desespero, angústia e sofrimento tinham sido deixados para trás, enquanto a sua figura se desvanecia perante o olhar perplêxo de Jorge. O advogado não soube muito bem porquê, mas subitamente um grande nó atravessou-lhe a garganta. Como se aquela fosse, de facto, a última vez que pisava aquele corredor.
  • 319. 2005 Passaram-se vários dias sem que Madalena se tivesse conseguido levantar da cama. Dias em que mergulhou na mais profunda depressão, sem comer, sem dormir e sem mexer qualquer músculo corporal para além do estritamente necessário. Muitas vezes chorava, outras, lamentava-se, e por vezes fechava os olhos numa tentativa desesperada de esquecer todas as palavras horríveis que a filha lhe dissera momentos antes de sair de casa. Era como as ouvisse vinte e quatro horas por dia. Pareciam gravadas na sua memória e traziam-lhe um certo sentimento angustiante de derrota. Mas pior do que o sentimento da derrota, era talvez o desgosto de saber que Sara se prostituía sem ter qualquer razão plausível para isso. Sou prostituta porque quero, porque gosto e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens, foram as suas últimas palavras, e cada vez que Madalena se lembrava delas, maior era a sua vontade de morrer. Afonso mudou-se para a casa da filha quando percebeu que iria demorar algum tempo para que ela se recuperasse. Era preciso que alguém tomasse conta do pequeno Daniel, o levasse à escola e à natação, até porque nem o pai estava em condições de o fazer. Jorge também se refugiou em casa durante vários dias. Recusou-se a receber visitas ou a atender telefonemas. Passava horas deitado no sofá da sala a olhar para o tecto com uma garrafa de whisky na mão. Emagreceu, deixou de fazer a barba, parecia um morto-vivo. Ao quarto dia sem notícias, Duarte Perestrelo resolveu aparecer lá por casa. Tocou à campainha. Esperou. Desesperou. Tornou a tocar, e por fim, quando já estava prestes a desistir, a porta abriu-se sem aviso prévio. Foi então que ele entrou e seguiu o seu melhor amigo em direcção à sala. Ali, viu roupas espalhadas pelo chão, restos de comida em cima da mesa e um cheiro intenso a tabaco. Jorge tinha voltado a fumar. Um maço inteiro por dia. Mas contrariamente ao que pensou, Duarte não lhe dirigiu a palavra ou sequer lhe ofereceu um discurso de consolo. Em vez disso, preparou duas doses de whisky e entregou-lhe um dos copos. Sentaram-se em sofás distintos, no meio da confusão instalada na sala e beberam em silêncio. Não foi preciso dizer nada. Jorge percebeu que aquela era a única forma de Duarte mostrar a sua solidariedade.
  • 320. Três dias depois, Jorge voltou a recompôr-se. Foi o primeiro a fazê-lo. Regressou ao trabalho, iniciou algumas das tarefas quotidianas que lhe preenchiam as horas do dia e assumiu as suas responsabilidades como pai. Após uma breve conversa telefónica com o ex-sogro, onde este lhe explicou que Madalena não se encontrava em condições para cuidar de Daniel, o advogado decidiu levar o filho para passar uns dias em sua casa. - Como é que ela está? – Jorge entrou na cozinha na companhia de Afonso. - Não sai do quarto! Não come! Não dorme! Não fala com ninguém… - Se calhar era melhor ir lá acima dizer-lhe que vou levar o Daniel comigo. - Podes fazer isso – Afonso serviu-se de um chá sobre a bancada. – Mas não me parece que ela te vá responder alguma coisa. - Eu vou lá acima falar com ela – o advogado decidiu. - Jorge… O chamamento do ex-sogro obrigou-o a voltar-se para trás. – Diga! - Aproveita esta chance que o destino te está a dar! Aproveita para avaliar o que é realmente importante para ti! Esta pode ser a tua última oportunidade… - Eu sei disso, Sr. Afonso! Acredite que eu sei. Jorge subiu ao primeiro piso com um certo sentimento de nostalgia. Há muito que não pisava aqueles degraus, não segurava aquele corrimão de madeira e se deparava com as habitações que compunham aquele espaço amplamente iluminado. Subitamente, tudo lhe pareceu igual. Quando se viu diante do quarto da ex-mulher, Jorge lançou um suspiro pesado. As mãos teimaram em não obedecer o seu desejo de bater à porta, mas ele lá conseguiu arranjar coragem para tocar levemente com os dedos sobre a madeira. Aguardou resposta, ansiou ouvir qualquer ruído que lhe permitisse a entrada, mas após vários minutos de espera resolveu tomar uma atitude drástica. Girou a maçaneta e abriu a porta. Não reconheceu o quarto. Estava às escuras. As janelas permaneciam fechadas com um cheiro abafado no ar e as roupas continuavam amontoadas sobre o cadeirão. Apenas a cama abrigava o corpo da ex-mulher.
  • 321. Jorge encontrou-a deitada, de costas voltadas, sem mexer um único músculo corporal. Demorou alguns minutos a interpelá-la. - Lena…! Ouviu-se um longo e pesado silêncio. - Vou levar o Daniel para passar uns dias comigo! Pelo menos até te recuperares. O advogado não obteve qualquer resposta. - Será que algum dia me vais perdoar por isto? – Jorge sentou-se na cama. Observou Madalena de longe. A sua expressão vazia. O seu olhar dolorido. – Porque eu tenho a certeza que nunca me vou conseguir perdoar! E o pior é que tu sempre me avisaste! Sempre disseste que devia ser um pai mais presente, mais responsável, mais autoritário. E eu achava que não. Achava que só dizias aquilo para me atormentar. Pensei também que estava a fazer tudo o que um pai devia fazer. Estar com os filhos aos fins-de-semana, não esquecer os aniversários, pagar uma pensão razoável, comprar presentes! Enfim…! Ser um pai fixe! E eu pensava que um pai fixe não devia deveria impor regras. Devia ser antes um amigo e não um ditador. A parte divertida da coisa. Entendes?! – Jorge sorriu tristemente com lágrimas nos olhos. – Só hoje vejo como fui um idiota! Nem sequer percebi o quanto as minhas atitudes andavam a prejudicar os nossos filhos. Especialmente a Sara. Mas acho que percebi isso um pouco tarde, não?! E da pior maneira… O quarto silenciou-se durante longos quartos de hora. Um tempo em que Jorge e Madalena não proferiram uma única palavra. Ambos encontravam-se destroçados. Completamente destruídos por dentro a remoer culpas, responsabilidades e decisões. Por fim, o advogado levantou-se da cama e caminhou lentamente até à porta de saída. Ainda olhou uma última vez o corpo inerte da ex-mulher, mas não foi capaz de lhe dizer mais nada. Afonso nunca perdeu as esperanças de que a filha pudesse sair do quarto. Dois dias depois de Daniel ter sido levado pelo pai, Madalena conseguiu levantar-se da cama. Na manhã seguinte, desceu ao rés-do-chão e refugiou-se na sala de visitas. Estendeu- se de bruços sobre o enorme divã junto à janela, sem olhar ou falar com ninguém. Nem mesmo com Alice, a sua melhor amiga, quando esta a foi visitar ao final do dia. - Como é que estão a correr as coisas lá na floricultura? – Afonso questionou a funcionária.
  • 322. - Estamos a fazer todos os possíveis para levar o barco adiante – Alice esboçou um sorriso desconsolado. – A Joana e a Carolina têm sido de grande ajuda! Temo-nos revezado, feito turnos… - Precisam de alguma coisa?! Eu posso… - Não se preocupe, Sr. Afonso! Por enquanto, tudo corre bem! E eu também tenho esperanças que a Lena se recupere depressa e volte à loja. Ela é forte! Ela vai conseguir superar todos estes problemas. - Esperemos que sim. - E… a Sara?! Sabem alguma coisa dela? - Nada! Desapareceu sem deixar rastro – Afonso caminhou calmamente com Alice pelo corredor. – Não atende sequer o telemóvel! Tentei ligar-lhe várias vezes ao longo da semana e a operadora diz sempre que o número não está disponível. - Onde será que ela está? - Não faço a mínima ideia. - Nem acredito que uma coisa dessas tenha acontecido – Alice lamentou-se. - Acho que ninguém ainda acredita. - Será que ela algum dia vai voltar? - Só o tempo o dirá! Mas não sei! Sinceramente, não sei… Volveram-se quatro meses. O ano mudou. O Inverno permaneceu rigoroso, e aos poucos, a vida de todos retomou o seu curso habitual. A rotina do trabalho, o único filho que lhe restou e os pequenos acontecimentos do dia-a-dia, foram factores decisivos para que Madalena recuperasse a vontade de viver. Apesar de todos os acontecimentos trágicos que se abateram sobre si, Madalena ansiava por dias melhores. Dias em que pudesse sorrir sem pensar no dia seguinte, em que pudesse aproveitar uma refeição agradável ao lado da sua melhor amiga, desfrutar da companhia do filho e mergulhar numa conversa amena com o seu pai ao final da noite. Nada de muito entusiasmante, mas eram estes pequenos detalhes que faziam a
  • 323. sua vida valer a pena. Além de tudo isso, a florista contava ainda com a presença sempre constante do ex-marido lá em casa. Nos primeiros tempos, Jorge chegava ao final da tarde com a desculpa de querer ver o filho. Depois, ficava para jantar. Disponibilizava-se para pôr a mesa e só se dava por vencido quando Daniel subia ao quarto e Madalena forçava enormes bocejos numa tentativa desesperada de o fazer olhar para o relógio. Em inícios de Março, Madalena comemorou o seu quadragésimo segundo aniversário. Uma data que Jorge fez questão de celebrar. Depois de mais uma vez trazer Daniel da escola, o advogado aventurou-se pela primeira vez na cozinha, escolhendo fazer como ementa um saboroso Soufflé de camarão – o prato preferido da ex-mulher. Para isso, contou com a ajuda do filho. Daniel manteve-se sentado à mesa, ditando-lhe sem muita vontade os ingredientes e os passos da confecção. O livro de receitas adquirido por Jorge foi de extrema importância, já que nenhum dos dois sabia o que realmente estava a fazer. - Achas que é assim? – Jorge perguntava ao filho. - Não sei! Deve ser – Daniel encolhia os ombros. A refeição foi concluída após muito esforço. Não ficou uma maravilha, mas come-se. A frase serviu como desculpa para a falta de jeito de Jorge na cozinha. Nessa altura, Daniel encarregou-se da tarefa enfadonha de pôr a mesa e deixou o pai de olhos postos na janela à espera da chegada da ex-mulher. Horas depois, isso aconteceu. Madalena regressou a casa poucos minutos antes das oito, estacionando o carro em frente à garagem. Saiu calmamente do interior do veículo, retirou dois sacos de compras e seguiu pela porta das traseiras com acesso directo à cozinha. Quando entrou na habitação, as suas pernas paralizaram-se sobre o alpendre. Numa cozinha às escuras, iluminada apenas pela presença de duas velas, ouviram-se as vozes desafinadas de Jorge e Daniel a cantarem-lhe os parabéns. Tinham nas mãos um delicioso bolo de chocolate que adquiriram em segredo para aquela ocasião tão especial. - Vocês são loucos, meu Deus – Madalena viu-se obrigada a soprar as velas por imposição do filho. - Morde a vela e pede um desejo – Jorge entregou-lhe o objecto com um sorriso carinhoso.
  • 324. Chovia lá fora, mas no interior da cozinha o ambiente era acolhedor. Jorge serviu jantar sob o olhar atento da ex-mulher. Nem parecia o mesmo, ela reparou. Ele que nunca mexera uma palha para ajudar quem quer que fosse, servia agora o seu prato e o prato de Daniel. Mostrava-se atencioso. Perguntava se não queria mais vinho ou se a salada estava bem temperada. Apesar do Soufflé estar intragável, Madalena fez um esforço tremendo e degustou a refeição confeccionada pelo ex-marido. Apenas Daniel reclamou dizendo que o jantar estava uma porcaria. Infelizmente, Jorge foi obrigado a concordar. A cozinha não era e nem nunca fora o seu forte. A noite já ia longa quando Daniel se refugiou no quarto silenciando uma casa que parecia barulhenta. Nessa altura, Jorge e Madalena regressaram à cozinha e ele ofereceu-se para lavar a loiça. Fê-lo perante o olhar atento da ex-mulher, enquanto ela bebia um chá de menta para espantar o frio daquela chuvosa noite de quarta- feira. Quando terminou a tarefa, Jorge encontrou uma outra chávena sobre a bancada. Madalena teve a amabilidade de a guardar para si. - Obrigada pelo jantar – ela disse. - Mesmo tendo sido uma porcaria, segundo as palavras do Daniel!? - Pelo menos não me pegaste fogo à cozinha! O que vendo bem, até já é uma grande coisa – Madalena bebeu um novo gole de chá. Jorge sorriu. – Como tens passado estes dias? - Bem! E tu? - Também! Tenho andado a trabalhar menos. - Ora aí está uma grande novidade – Madalena sentou-se à mesa. - Posso sentar-me também?! - Claro! Jorge acedeu ao convite levando nas mãos a sua chávena de chá. – Acho que estava a precisar mesmo de umas férias – ele continuou. – Os dias que passei com o Daniel foram muito bons. - Ele contou-me! Disse que adorou as vossas tardes em Belém a andar de bicicleta.
  • 325. - Nunca tínhamos feito isso, por acaso. Madalena sorriu tristemente e Jorge correspondeu de igual forma. - Lena, eu estive… - ele pareceu gaguejar com medo de proferir o discurso que havia ensaiado durante semanas. – Podes não acreditar, mas… eu tenho sentido imensas saudades tuas. - Jorge… – ela levantou-se da cadeira. - Eu sei que tens todas as razões do mundo para não acreditar naquilo que te estou a dizer – Jorge correu-lhe ao encontro. – Provavelmente no teu lugar, eu também não acreditaria! Sei também que cometi imensos erros ao longo do nosso casamento, que muitas vezes negligenciei-te a ti e aos nossos filhos por causa do trabalho, por causa de… outras mulheres! Mas eu arrependi-me, Lena! Eu mudei! Juro-te! Eu ainda acho que existe uma possibilidade de voltarmos a ser uma família outra vez. Tenho sentido muita falta de ti, dos nossos filhos, da nossa casa… - Esta casa já não é tua – a expressão dura de Madalena apenas trouxe uma certeza a Jorge. A de que não havia a mais remota possibilidade de ela o aceitar de volta. - Eu ainda te amo – ele confessou. - Porque é que me estás a fazer isso?! – Madalena voltou-lhe as costas e tapou o rosto com as mãos. - Eu nunca deixei de te amar! Mesmo depois do nosso divórcio, mesmo tendo estado com outras mulheres, nenhuma delas se comparou a ti nem por um minuto que fosse. Nunca tive com elas aquilo que tive contigo… - E o que é que tiveste comigo? – Madalena voltou a encará-lo com alguma amargura na voz. – O que é que tiveste comigo para além de um casamento fracassado cheio de mentiras e traições?! - Lena! Tu sabes que não foi só isso! Nós tivemos os nossos bons momentos. No início, eu era um bom marido. Tratava-te bem. As coisas só começaram a mudar quando fui trabalhar para o escritório do pai do Duarte. Eu sei que a partir daí tornei- me demasiado ambicioso e obcecado por dinheiro. Arrependo-me! Deixei-me cegar! Mas hoje eu sei que não voltaria a fazer a mesma coisa! Depois do que aconteceu com a Sara… eu sei que não voltaria a fazer a mesma coisa! E acredita que eu daria tudo o
  • 326. que tenho se isso significasse a volta da nossa filha! Eu só queria que soubesses que… apesar de nunca te ter dito antes… eu … nunca imaginei a minha vida sem vocês. Sem ti, sem a Sara e sem o Daniel! Eu amo-vos! Vocês são as pessoas mais importantes da minha vida. - Sabes… – Madalena suspirou. – Eu daria tudo para ter ouvido estas palavras há uns… sei lá… há uns dez anos trás. Quem sabe nessa altura as coisas não teriam sido diferentes. Mas tu não disseste. Muito pelo contrário. E lembro-me de várias vezes te ter suplicado para que mudasses, para que deixasses de me trair, para que tivessemos mais tempo juntos e para que tivesses mais tempo para as crianças. Disse- te tudo isso! Mas tu nunca quiseste saber! Até que chegou a uma altura em que eu perdi as forças e deixei de lutar sozinha pelo nosso casamento… Jorge baixou a cabeça, desolado. - Cansei-me também dos teus pedidos de desculpa – ela continuou. – Das tuas flores, das tuas jóias, dos teus carros, das viagens! Cansei-me de tudo! Eu não queria bens materiais. Nunca quis. Quando nos casámos não tínhamos um tostão furado no bolso, lembraste?! Mas foram os anos mais felizes do nosso casamento. Depois disso, deixei de te reconhecer. - Tens razão – ele anuiu. – Tornei-me num palerma! Mas eu mudei, Lena… - Será que mudaste mesmo!? - Mudei – Jorge mostrou-se resoluto na sua resposta. – E eu quero-te provar que mudei. - Eu não acredito em ti. O ex-marido não era um homem de desistir facilmente, foi essa a conclusão tirada por Madalena nos dias que se seguiram ao seu aniversário, quando Jorge encheu o seu telemóvel de mensagens e chamadas não atendidas. Subitamente, o advogado deixou de ter vida própria vivendo em função de apenas um único objectivo: conquistar a ex-mulher. Era usual Madalena receber várias encomendas na floricultura. Vinham quase todas pela manhã, entregues pelo office boy à funcionária da loja. Com o tempo, Madalena deixou de ver quem era o remetente. Jorge. Jorge. Jorge. Tudo vinha com o nome dele.
  • 327. - Outra caixa de chocolates?! – Alice abriu um sorriso de orelha a orelha ao sair do armazém da loja. - Sim! Parece que ele me quer ver gorda. - E desta vez vem com um bilhete – Joana não conteve a observação. - Lê! Ao ouvir o pedido de Alice, Madalena esboçou um sorriso malicioso e rapidamente tirou o cartão do interior do envelope. Um envelope que cheirava a rosas e que trazia a caligrafia desajeitada do ex-marido. - “Espero que estes chocolates sejam suficientes para adoçar o teu dia, tal como o meu ficou apenas com a lembrança de um sorriso teu. Beijos, Jorge. Hã… PS- Aceitas um convite para jantar nesta sexta-feira?” - Quem é que escreve PS num bilhete romântico!? – Alice, Joana e Madalena riram-se às gargalhadas. - O Jorge, minha amiga! O Jorge… - E tu vais aceitar? - É claro que não – Madalena poisou a caixa de chocolates e o bilhete sobre o balcão. - Não perdes nada se aceitares. - Alice! Nós estamos a falar do Jorge, lembraste?! O meu ex-marido! - Eu sei – Alice riu-se alegremente. – Mas também não acho nada de mal saíres para jantar com ele, nem que seja só para te distraíres! Há meses que não sais para lado nenhum. É casa, trabalho, trabalho, casa… - Eu também acho – Joana concordou. - Às vezes sabe bem aproveitar certas ocasiões. Um jantar agradável, por exemplo! Um bom vinho, uma óptima refeição, uma boa companhia… - Impressão minha ou vocês estão a torcer para que eu aceite este convite? - Não é impressão! Nós estamos mesmo a torcer – Alice e Joana riram-se, animadas.
  • 328. Três dias depois, enquanto se compunha à frente do espelho, Madalena pensou seriamente em desistir daquele maldito jantar. Era uma loucura, disse a si mesma. Estou a confundir tudo. Estou a voltar a um passado que só me fez mal e que não me trouxe nada de bom. Mas a verdade é que nenhum desses argumentos a demoveu da ideia de cancelar o jantar. Estava bastante nervosa. Sentia as suas mãos trémulas enquanto colocava os brincos em frente ao espelho da cómoda. No corpo, trazia um vestido preto pelos joelhos, cintado e sapatos pretos salto agulha. Os cabelos, agora muito mais curtos, caíam-lhe ondulados até à nuca. A campainha tocou ruidosamente poucos minutos depois. Daniel correu a abrir a porta e deu-se de caras com o seu pai. Jorge trazia trazendo um lindo arranjo de orquídeas nas mãos. Cumprimentaram-se com um beijo na face e seguiram em direcção à sala, onde Afonso lia atentamente um dos muitos livros que havia trazido para passar a noite com o neto. - Estás todo janota, Jorge – o ex-militar fez a observação. - Sabe como é, Sr. Afonso! A sua filha não merece menos. Madalena desceu à sala pouco tempo depois sem que Jorge tivesse conseguido tirar os olhos dela. Perfeita, foi a única palavra que atravessou o seu pensamento naquele momento. - Ainda me lembro que são as tuas flores preferidas – disse ele, entregando-lhe o arranjo de orquídeas. - Tenho uma floricultura, lembraste?! - Pensei que fosses gostar na mesma. - Obrigada – ela aceitou o ramo sem muito entusiasmo. - Estás muito bonita. - É – Madalena observou o seu vestido. – Escolhi o preto para combinar com a ocasião. Jorge soltou um ligeiro sorriso. - Vamos?! – ela indicou-lhe a saída.
  • 329. Fazia nove graus naquela noite e o vento soprava forte. O céu continuava nublado, adivinhando-se um enorme temporal para as próximas horas. Por esse motivo, Jorge e Madalena não demoraram a entrar no carro. Fizeram-no em silêncio, constrangidos com a presença um do outro. Posteriormente, ele ajeitou o espelho retrovisor e colocou o cinto de segurança. Ela aqueceu as mãos frias e compôs os cabelos soltos. - Para onde vamos? - Para um sítio especial – Jorge deu o carro à chave. Numa noite onde planeou todos os detalhes possíveis e imaginários, Jorge brindou Madalena com um verdadeiro regresso ao passado. O restaurante escolhido localizava-se a poucos metros do primeiro apartamento que alugaram aquando casados. Não era nada vistoso, chique ou sofisticado. Pelo contrário. Assemelhava-se a uma tasca onde as mesas e as cadeiras ainda eram de ferro e o chão mantinha-se pavimentado em mármore. Há vinte anos, era frequente passarem por lá ao fim-de- semana quando o dinheiro sobrava no final do mês. Pediam os petiscos da casa e terminavam a refeição com um belo cozido à portuguesa. Uma ementa que repetiram naquela noite, sentados numa mesa recôndita junto à janela. A mesma que costumavam escolher quando lá iam. - És louco! Meu Deus! Como é que te lembraste deste lugar? – Madalena olhou à sua volta. Tudo continuava igual. - Pensaste que te iria levar ao LAPA PALACE?! - Completamente – ela riu-se, divertida. - O melhor cozido à portuguesa de Lisboa! Lembraste?! - Lembro! Não mudou nada. - Ainda bem, não?! – Jorge utilizou os talheres para cortar os alimentos. – E a receita continua a mesma. Pela primeira vez os olhos de Jorge não se conseguiram desviar dos dela. No interior daquele restaurante minúsculo, Madalena era a única pessoa que o interessava. A sua atenção centrou-se nela. Única e exclusivamente nela. Era impressionante como nunca se tinha dado conta de como era bela, sensual e inteligente. Dona de uma sinceridade excepcional e de uma beleza que apenas se aperfeiçoava com o tempo.
  • 330. - O que foi? – Madalena perguntou quando o viu a olhar fixamente para si. - Nada – Jorge sorriu melancolicamente. – Só me estava aqui a lembrar do primeiro dia que nos conhecemos. - Sentimentalismos baratos, Jorge?! - Claro que não! Tu sabes que eu nunca fui sentimentalista. - Então não mudes, por favor – ela voltou a poisar a taça de vinho sobre a mesa. - Eu acho que ainda me lembro! Ias a correr para apanhar o électrico quando… - Quando me pegaste pela mão e me ajudaste a subir! Se não fosse por tua causa, eu teria perdido aquele électrico. - E nós nunca nos teríamos conhecido! Há vinte e quatro anos atrás. - O tempo passou depressa. - O tempo passou para mim, não para ti… - Jorge! Por favor! - O que foi? Não acreditas? Continuas a mesma! Mas agora uma quarentona enxuta. - E tu continuas o mesmo mentiroso de sempre. Jorge e Madalena não resistiram a soltar uma gargalhada ruidosa à mesa, indiferentes aos poucos clientes que ainda circulavam pelo restaurante. Foi a primeira vez que o fizeram sem mágoas ou ressentimentos. Como verdadeiros amigos. - Porque é que estás sempre com essa conversa de engate? – Madalena perguntou, divertida. - Eu?! Eu já não engato ninguém, Lena. - Ai não?! Tens a certeza?
  • 331. - Sabes há quanto tempo não estou com uma mulher? – Jorge fitou-a vorazmente enquanto terminava o seu primeiro copo de vinho. - Prefiro não saber. - Sete meses. Madalena mostrou-se surpresa com aquela revelação. – Bem! Nem quando éramos casados ficavas assim tanto tempo sem uma mulher. - E sabes por que é que deixei de estar com outras mulheres? – os seus rostos cruzaram-se finalmente à mesa. – Porque não quero estar com mais ninguém a não ser contigo. Quando Jorge estacionou o carro em frente à fileira de plátanos, as luzes apagadas fizeram-no antever que não havia absolutamente ninguém acordado em casa. Após longas horas de ausência, ele e Madalena tinham regressado ao ponto de partida. Não o fizeram apenas no espaço, mas também no tempo. Um tempo onde as suas vidas se conjugavam na perfeição, onde havia planos, sonhos e desejos em comum. - Não me vais convidar para entrar? – Jorge perguntou quando Madalena se desfez do cinto de segurança. - Não. - Tens um prazer especial em me ver sofrer, não é?! - Vai para casa! Já é tarde. - Meia-noite e meia - Jorge olhou o seu relógio de pulso. – A noite ainda é uma criança. - A noite é uma criança, mas nós não! Vai! Jorge não resistiu a tocá-la levemente na face e nos cabelos soltos. Ela desviou o rosto, envergonhada. - Serias capaz de me dar um estalo se eu te tentasse beijar? - Seria… – Madalena forçou uma gargalhada nervosa.
  • 332. - Então acho que ainda assim vou correr esse risco. Jorge não pensou duas vezes quando tomou Madalena nos braços e a beijou apaixonadamente, desvairadamente, loucamente. Beijou-a sem pensar nas consequências daquele acto insano ou do adiantado das horas. Havia tempo. Havia vontade também. O desejo falou mais alto e tomou-lhe conta de toda a racionalidade. No fim, quando os seus rostos se cruzaram naquele carro às escuras enquanto a chuva caía forte sobre o pára-brisas, ele observou os olhos aterrorizados da ex- mulher. O seu primeiro impulso foi de a manter ali para sempre perto de si. - Jorge! Pára… – ela afastou-o com as mãos. - Pelo menos diz-me se isto pode realmente acontecer – ele voltou a tomar-lhe a face com as mãos. – Diz-me se posso continuar a sonhar contigo e com o nosso casamento!? - Nós já não somos casados. - Mas eu quero-te – ele calou-lhe os argumentos. – E desta vez é a sério, Lena! Sem traições, sem terceiras pessoas, sem negócios obscuros, sem mentiras! Nada! Só eu e tu! Como no início… - Eu tenho que ir. - Lena… - Adeus! Tenho que ir. Madalena desapareceu do carro, tentando abrigar-se da chuva que caía cada vez mais forte. Quando entrou em casa, sentiu-se submersa num mar de dúvidas e receios. Era uma loucura. Nunca lhe havia passado pela cabeça voltar para o ex- marido. Não. Isso sempre esteve fora de questão. De Jorge, ela não guardava nada mais do que sofrimento, desilusões e uma enorme mágoa. Não era possível acreditar em nenhuma palavra que ele dizia. Era impossível acreditar no seu arrependimento, na sua súbita mudança comportamental e nas promessas de amor e fidelidade eterna. Jorge não era e nem nunca fora um homem fiel. Ninguém mudava de uma hora para a outra apenas porque sim. E ela seria louca se ignorasse todo o sofrimento pelo qual passou durante os dezasseis anos em que esteve casada com ele.
  • 333. No final de Março, após um ano intenso de treinos, Daniel contou com a presença da mãe, do pai e do avô, no campeonato nacional de natação de juvenis. Iria ser o terceiro dos dez candidatos participantes na prova individual de mil e quinhentos metros. Madalena estava nervossísima. Roía as unhas e fazia figas durante todo o percurso. Jorge gritava palavras de incentivo na plateia e impulsionava o filho para que nadasse mais depressa. Afonso bateu palmas de orgulho quando o neto chegou ao final da prova completamente estafado. Ficou em segundo lugar. - Adoro-te! És o meu herói – Madalena encheu-o de beijos enquanto lanchavam numa gelataria perto de casa. - Oh, mãe! Não exageres – Daniel tentou desviar-se dos braços da sua progenitora. Estava chateado. – Só fiquei em segundo lugar. - E achas pouco? – Afonso, o avô, interpelou-o entre risos. - Podia ter ficado em primeiro. - Mas ficaste em segundo! E isso já é muito bom! Se te esforçares mais um pouco, para o ano chegas ao primeiro – Jorge interferiu para grande espanto da ex-mulher. Madalena nunca lhe reconheceu tal faceta. Jorge sempre foi um animal competitivo em todos os aspectos da sua vida e sempre incutiu o mesmo espírito nos filhos. Especialmente em Daniel, talvez por ser rapaz e por ver no filho a continuação do seu legado. Mas agora era ele quem dava mostras de ter um pensamento diferente. Por vezes, nem sempre a derrota é sinónimo de fracasso. Ainda naquela noite, Jorge convidou Madalena para um breve passeio no caminho marítimo de Algés. Não houve qualquer razão especial para isso. Apenas a necessidade de estar mais tempo com ela e de conversarem sobre assuntos triviais ocorridos durante a semana. A meio do passeio, Madalena sentiu algum frio e Jorge disponibilizou-se para lhe emprestar o casaco. Andaram mais um pouco, em silêncio, apreciando a orla, passando por chalés, praias de surfistas e fortalezas de grande porte batidas por ondas fortes numa noite admirável. Inesperadamente, ele envolveu-lhe o braço à volta dos ombros. Ela prendeu a respiração. Pensou em fugir, mas foi incapaz de se afastar. - Acho melhor irmo-nos embora! Já é tarde e eu não quero abusar da boa vontade do meu pai em tomar conta do Daniel – Madalena afastou-se quando Jorge a tentou beijar.
  • 334. - Já se passou um mês e tu continuas a evitar-me – ele brincou-lhe com os dedos das mãos. - Achas que estás a perder o teu tempo comigo? - Não! Claro que não! Gosto da tua companhia. - Eu também gosto da tua – Madalena confessou, sentindo o vento soprar-lhe forte nos cabelos. - E para além da minha companhia, o que é que gostas mais? - Só isso! Só da tua companhia. A resposta não poderia ter sido mais incisiva e cruel. Por mais que tentasse perfurar o coração fechado da ex-mulher, ela arranjava sempre uma maneira de o afastar. Talvez aquele coração nunca mais se abrisse, Jorge chegou pela primeira vez a essa conclusão. Talvez fosse uma causa perdida. - Vamos – ele afastou-se, deixando Madalena para trás. - Jorge! Espera… - O que foi?! Já não está tudo dito, Lena? Eu já percebi que não me amas mais e que o nosso casamento acabou! Demorei a perceber, mas percebi… - Será que não entendes que as coisas não são assim tão fáceis? – Madalena correu-lhe ao encontro tentando abrigar-se do vento. – Que não basta passar uma borracha por cima de tudo o que aconteceu e fingir que o nosso divórcio nunca existiu? Foram quatro anos, Jorge! Estivemos separados durante quatro anos! Não foram dias, não foram meses! Foram anos… - E o que é que mudou assim tanto nestes quatro anos? - Ainda perguntas?! Aquela pergunta não podia ter sido mais estapafúrdia, de facto. Jorge sabia isso melhor do que ninguém.
  • 335. - Eu preciso de tempo – ela continuou. – De muito tempo! Não pode ser assim de uma hora para a outra. - Tudo bem – Jorge acedeu com um longo suspiro. – Eu dou-te esse tempo! Olharam-se no infindável espaço que os circulava, encontrando ali tudo o que haviam perdido com o passar dos anos. Ele aproximou-se, ela manteve-se expectante e o beijo se deu tão ou mais apaixonado que o primeiro. Há vinte e quatro anos quando ainda eram jovens, felizes e cheios de esperança. Quando ainda tinham sonhos em comum e se olhavam com admiração. Durante os quatro anos em que estiveram legalmente separados, muita coisa mudou de facto. Muitas vezes, Madalena bradou aos céus que o amor que outrora sentiu pelo ex-marido tinha terminado sem deixar rastro. Contudo, quando entraram em sua casa, submersos um no outro, num corredor praticamente às escuras, tudo pareceu ganhar um novo sentido. Existia uma estranha ligação entre eles. Sempre existiu. Um misto de ódio e amor. Paixão e desprezo. Carinho e desdém. Tentando não acordar o filho e o ex-sogro que se encontravam a dormir nos quartos, Jorge seguiu com Madalena em direcção ao primeiro piso. Beijou-a durante o caminho e por pouco não se esbarrou num móvel perto da casa de banho. Quando entraram no quarto dela, entre beijos, abraços e suspiros, ele tomou-a nos braços com uma paixão idêntica à de quando tinham vinte anos. Enredados num desejo crescente, despiram as suas roupas sem se importar com a loucura que estavam a cometer. Jorge conhecia-a melhor do que ninguém. Reconhecia-lhe todos os pontos fracos. Madalena havia descortinado os dele ao longo dos dezasseis anos em que estiveram casados. E assim foi tão fácil. Fácil regressar a um passado que parecia longínquo e esquecerem-se de todas as palavras de ódio e rancor que um dia trocaram. - Sabes há quanto tempo sonhei com isto? – Jorge segredou-lhe aos ouvidos durante o acto. - Cala-te, Jorge – ela gemeu de prazer. – Continua! Não estragues tudo… Na manhã seguinte, Madalena abriu os olhos sonolentos quando os primeiros raios de sol invadiram as janelas do seu quarto. Na boca, sentia um gosto amargo e corpo parecia não lhe querer obedecer às ordens. Tentou levantar-se, mas não conseguiu. Por fim, virou o rosto e deu-se de caras com a figura de Jorge adormecida no outro lado da cama. Foi só então que a realidade lhe caiu em cima e a deixou desatinada. Tinha passado a noite com o ex-marido.
  • 336. - Jorge – ela empurrou-lhe os ombros. – Jorge… - O que foi?! - Acorda! Tens que sair daqui antes que o meu pai e o Daniel se levantem. - O quê?! – Jorge passou as mãos pelo rosto ensonado. - Tens que sair daqui, imbecil – ela saltou da cama e recolheu-lhe as roupas espalhadas pelo chão. – Vai! Veste-te! Veste-te depressa… Apesar da pouca vontade em acatar as ordens da ex-mulher, Jorge vestiu-se às pressas e encontrou o casaco sobre o cadeirão. Depois, seguiu com Madalena pelas escadas que ligavam os dois pisos da casa, ambos em bicos de pés, rezando para que ninguém os surpreendesse naquele verdadeiro acto de dois adolescentes. Quando chegaram à porta, ele calçou os sapatos e ela mostrou-se impaciente, incitando-o a ir- se embora antes que alguém aparecesse. Jorge levantou-se logo em seguida e tentou roubar-lhe um beijo. Madalena recusou-o e abriu a porta. Foi então que o pior aconteceu. Saído da cozinha com uma chávena de café quente nas mãos, Afonso surpreendeu filha e ex-genro ao fundo do corredor. A sua expressão mordaz tornou- se impagável. - Bom dia, Jorge! - F… - o advogado utilizou esse palavrão num tom de murmuro, tentando arranjar coragem para se voltar para trás. – Bom dia, Srº Afonso! E não foi preciso dizerem mais nada para que Jorge abandonasse a casa da ex- mulher completamente mortificado. O mesmo sentimento de mortificação sentido por Madalena quando fechou a porta e percorreu o corredor de cabeça baixa, disposta a ignorar o olhar zombeteiro do pai. - Bom dia, Lena! - Bom dia, pai – ela passou por ele e subiu as escadas o mais depressa que as suas pernas permitiram. Jorge partiu para Bruxelas em inícios de Abril com um ultimato deixado a Madalena. Queria voltar para casa e oficializar a relação. Duas semanas era o prazo para pensar no assunto. Madalena bem tentou esquivar-se, dizendo que ainda era cedo para
  • 337. cogitarem essa ideia, mas o advogado não quis saber. Para ele, já não havia nada para pensar. Amava-a, queria-a de volta e não iria descansar até atingir os seus objectivos. No domingo a seguir à partida de Jorge, Afonso levou o neto a passear ao Oceanário de Lisboa. Madalena viu-se assim pela primeira vez sozinha em casa. Passeou por todas as habitações, anteriormente repleta do barulho das risadas das crianças, das festas de aniversário, do Natal, Ano Novo e chegou à conclusão que sentia falta delas. Percebeu também que há muito não ouvia qualquer barulho e que há muito que não se sentia feliz. Nomeadamente desde o desaparecimento de Sara. Fazia naquela semana oito meses. Oito meses sem qualquer telefonema, sem qualquer troca de palavras e sem qualquer imagem da filha. Oito meses em que Madalena se recusou a entrar no quarto de Sara, talvez por medo, talvez por não querer remexer num passado cheio de dores e mágoas. Talvez para preservar a ideia estapafúrdia de que algum dia ela iria voltar para casa. Mas naquela tarde particularmente chuvosa, a poucos dias da Páscoa, Madalena resolveu enfrentar os seus medos. Entrou na habitação vislumbrando o ambiente que a compunha. Continuava tudo igual. As paredes azuis, os posters de algumas das bandas favoritas da filha colados num enorme quadro de madeira, o computador sobre a secretária, a colcha azul repleta de almofadas de várias cores, o tapete redondo entre a cama e a secretária. O puff perto da janela. Os cortinados brancos que tapavam o alpendre onde Sara costumava sentar-se com os malditos ascultadores nos ouvidos. E do outro lado da habitação, o roupeiro que ainda continha a maior parte das suas roupas. Ao percorrer os dedos pelas calças, saias, blusas e casacos da filha, Madalena percebeu que pouco ou quase nada ela tinha levado. Seria fácil desfazer-se de tudo. Doar as roupas, os sapatos e as malas. Seria fácil, mas não era isso que Madalena queria fazer. Manter os pertences de Sara intactos era uma forma de a manter viva, ainda que fosse apenas na sua lembrança. A sua linda menina de cabelos escuros, olhos redondos e pele clarinha. Quando terminou as suas divagações, Madalena deu-se por vencida e sentou-se na cama. Olhou tudo à volta, sentindo um enorme vazio dentro de si e também uma tristeza imensa por ter falhado naquele que considerava o papel mais importante da sua vida. O de mãe. Mas foi nessa altura que os seus calcanhares tocaram num objecto frio por debaixo da cama. A curiosidade impeliu-a a agachar-se no chão e a puxar até si uma caixa de madeira. Era pesada apesar de não ser muito grande. Quando abriu a tampa, surgiu-lhe diante dos olhos uma realidade que durante meses tentou ignorar ou fingir que não existia. Dezenas de filmes e revistas pornográficas, várias caixas de preservativos, vibradores, outros objectos sexuais e uma garrafa de vodcka meio aberta. Madalena analisou tudo com atenção, mas não sentiu nada mais do que nojo e repulsa. Era demasiado doloroso para si saber que Sara consumia toda aquela
  • 338. porcaria. Mas mais do que isso, era doloroso chegar à conclusão de que havia perdido a sua filha por conta de uma doença compulsiva que ninguém soube como nasceu e que acabou por afastá-la das pessoas que mais a amavam. De lágrimas nos olhos, enquanto acendia a lareira da sala de visitas, Madalena desejou acabar com tudo aquilo de uma vez. Pegou na caixa de madeira, desceu até à sala e retirou do seu interior todos os objectos que ela continha. Tudo foi queimado. Abolido daquela casa. E ao ver as chamas consumirem a maior vergonha da sua vida, Madalena sentiu-se finalmente aliviada. O décimo dia de Abril terminou com o fecho da floricultura no horário habitual. O dia amanheceu chuvoso e findou da mesma forma. Mais uma vez, Madalena e a sua funcionária Carolina despediram-se à porta da loja seguindo caminhos diferentes. Carolina correu apressada em direcção à estação de comboios, enquanto Madalena desceu a avenida disposta a encontrar o seu carro no parque de estacionamento. Nessa altura, a chuva caiu mais forte, e nem mesmo o chapéu-de-chuva que a florista trouxe consigo a conseguiu impedir de entrar no carro completamente encharcada. Assim que se viu no interior do veículo, Madalena passou as mãos pelos cabelos molhados e despiu o casaco, desejosa de voltar a casa. Por sorte, mais uma vez, o seu pai ficou de ir buscar o Daniel à escola. O trânsito na cidade encontrava-se caótico e em pouco tempo o relógio assinalou as vinte horas. Enredada nos seus pensamentos, enquanto ouvia as últimas notícias na rádio, Madalena parou em frente a um sinal vermelho. Lançou os olhos ao seu telemóvel sobre a caixa de velocidades e viu uma chamada não atendida do pai concerteza para a avisar de que tinha chegado a casa são e salvo com Daniel. No entanto, quando levantou os olhos em direcção ao semáforo ainda vermelho, Madalena sentiu o seu coração parar de bater durante alguns instantes. Foi como se a sua visão por momentos tivesse ficado turva. Não quis acreditar no que estava a ver à frente. Era ele. O último peão a atravessar a passadeira era ele. Sérgio Almeida. Num gesto automático, Madalena buzinou. - Lena… - o fotógrafo mostrou-se igualmente surpreso por a ver ali. - Olá! - Olá – ele acenou. - Espera-me! Vou dar a volta – ela exclamou, ignorando as buzinas dos carros atrás de si quando o sinal passou a verde. Madalena nem quis acreditar na sorte que teve em encontrar Sérgio numa cidade como Lisboa. Teria sido aquilo um sinal do destino? Uma mão divina? De facto, ela
  • 339. não sabia. E não soube sequer recusar o convite do fotógrafo quando este a levou para uma casa de chás situada a poucos metros da rua onde milagrosamente se encontraram. O local emanava um ambiente caloroso e bastante agradável. Era uma das casas de chás mais antigas da cidade com uns vinte anos de existência. Mas o aprumo das mesas, cadeiras e azulejos pintados à mão, continuavam a ressaltar a sua elegância. - Estás encharcada! Apanhaste muita chuva? – Sérgio perguntou, sorridente. - Mais ou menos – Madalena arranjou os cabelos desalinhados. - Como é que estás? - Estou bem – ela não conseguiu esconder o nervosismo. – E tu? - Também. - Ainda a trabalhar naquele projecto da ONG? - Terminou há coisa de dois meses! Mas agora estamos a preparar uma exposição para dentro de algumas semanas. Vai ser no Museu da Electricidade. Conheces?! - Conheço, claro – ela sorriu. - Estás convidada a lá ir. - Eu vou! Podes crer. - Espero que esteja tudo bem com o teu pai, com o teu filho… - Está tudo bem. - Mas tu estás óptima – Sérgio tentou quebrar o nervosismo de Madalena. - Tu também não estás nada mal! Estás mais gordo. - Devo levar isso como um elogio!? - Claro que sim – ela sorriu.
  • 340. Os chás e os bolos não tardaram a ser trazidos à mesa pelo mesmo empregado que os havia atendido minutos antes. Madalena e Sérgio agradeceram a gentileza do funcionário e recolheram as suas respectivas chávenas, tentando arranjar espaço numa mesa não muito grande. No ar, mantinha-se um certo nervosismo. Um desconforto até. Cada vez que se olhavam, parecia que tinham tantas coisas para dizer. Um ano depois ainda havia muita coisa para dizer. - Espero não ter interrompido nenhum compromisso teu – Madalena adiantou-se. - Não! Estava a passar por estes lados! Fui entregar umas fotografias a um cliente nosso. Já estava a ir para casa. - Foi realmente uma coincidência termo-nos encontrado. - Uma boa coincidência, espero! - Uma excelente coincidência – riram-se os dois. - E a floricultura!? Como está a correr o negócio? - Está tudo bem! A Alice é que nunca se cansa de me perguntar por ti. - Manda-lhe cumprimentos meus. - Serão entregues, não te preocupes – Madalena enterrou os lábios na sua chávena de chá. - Cortaste o cabelo… - Sim – ela passou as mãos pelos fios desalinhados. – Ficou horrível, não ficou?! - Nem um pouco! Continuas muito bonita. - Obrigada – Madalena sorriu, encabulada. – Tu também não estás nada mal! - Eu queria ter-te ligado depois daquela história da… - ele pareceu hesitar. – Da tua filha! Queria saber como estavas! Mas nunca cheguei a ter coragem de o fazer! Como é que está a vossa relação?
  • 341. - Não está – Madalena mostrou-lhe um olhar imensamente triste. – A Sara saiu de casa! Desde Agosto do ano passado que não a vejo e não sei nada dela. - Sinto muito – Sérgio pareceu sincero na sua resposta. - Eu também. - E porque é que ela saiu de casa? - Descobri tudo. - Descobriste o quê?! - Descobri que… ela andava… a… enfim… - Madalena passou as mãos pelos cabelos húmidos. – Desculpa! Eu ainda não consigo dizer isto. - Não faz mal! Eu entendo – Sérgio impediu-a de ser martirizar. - Acho que o que eu não queria era enxergar a realidade! Porque no fundo… eu já sabia! Só tinha vergonha de admitir a mim própria e aos outros! Era muito difícil acreditar que a minha menina se tinha transformado numa…! Porque para mim ela ainda continuava a ser a minha menina, entendes?! - Claro. - Costumam dizer que os filhos são a projecção dos pais – Madalena sentiu as primeiras lágrimas brotarem-lhe dos olhos. – Que eles são aquilo que nós fazemos deles! E eu até costumava acreditar nisso, mas… eu não quero acreditar que a Sara seja uma projecção minha! Eu não sou essa pessoa horrível em que ela se transformou. Eu sei que não sou… - E não és – Sérgio tomou-lhe as mãos sobre a mesa. – A culpa não foi tua, Lena! A Sara está doente! Ela sofre de ninfomania e precisa de ajuda! Mas antes disso, ela é que tem que querer essa ajuda. Tu já fizeste tudo o que estava ao teu alcance e se queres que te diga fizeste bem mais do que a maioria das mães fariam se estivessem no teu lugar. - Então porque é que me sinto uma verdadeira fracassada? - Tu não és uma fracassada.
  • 342. - Desculpa – ela limpou as lágrimas que tinha no rosto. – Desculpa por tudo o que te fiz passar, pelas coisas que tiveste que aguentar por minha causa, por causa da minha filha. Eu não tinha o direito de te ter metido nesta embrulhada. - Não me meteste em nada! Eu faria tudo de novo se fosse preciso. - Será que… és capaz de me perdoar? - Eu já te perdoei há muito tempo – Sérgio beijou-lhe as mãos frias. – Não te precisas preocupar com isso! Agora a única coisa que eu quero saber é se estás bem. - Estou – ela sorriu tristemente. – Vou vivendo um dia de cada vez. - É uma boa forma de fazer as coisas! - Mas foi uma pena não me teres ligado! Senti… saudades tuas. - Eu também! Não houve um único dia em que não me tivesse lembrado de ti. - Porque foi real, não foi? – Madalena encarou o rosto de Sérgio. – Aquilo que vivemos! Foi real? - Foi – ele sorriu. – Foi muito real. - Então porque é que ainda continuamos separados? A pergunta de Madalena contrastou com a expressão séria de Sérgio e com a sua vontade em contar-lhe toda a verdade antes que ela abrisse o coração de uma forma irrefutável. Mas a verdade é que o fotógrafo não conseguiu interrompê-la a tempo. Não porque não quisesse, mas simplesmente porque não teve forças para isso. - Eu sei que já se passou muito tempo – ela continuou. – Com certeza, já deves ter refeito a tua vida com outra pessoa. Sei também que não tenho qualquer direito de te dizer isto depois de tudo o que aconteceu. Depois de ter duvidado de ti e de te ter expulsado da minha casa. Eu sei de tudo isso! Mas eu precisava ter a certeza de uma coisa! Precisava saber se a nossa história terminou. Se não existe a mais remota possibilidade de me quereres de volta e de me perdoares por não ter acreditado em ti na altura em que eu deveria ter acreditado. Porque se me disseres que existe essa possibilidade, quem sabe… - Madalena disse tudo num só fôlego. – Quem sabe eu não cometo a loucura de te cair nos braços agora mesmo.
  • 343. Sérgio permaneceu em silêncio durante vários segundos sem saber o que dizer. Tinha sonhado tanto com aquele dia. Um ano inteiro. Trezentos e sessenta e cinco dias. Imaginou o que diria a Madalena caso a visse ali, à sua frente, disposta a reatar uma relação que para eles fora tão especial. Mas a verdade é que já não havia nada a fazer. O tempo passou. Não havia como voltar atrás. - Lena… - ele conseguiu finalmente falar. – Se me perguntares se eu ainda gosto de ti, se ainda te amo, eu não vou ter pudores em responder que sim! Eu amei-te! Amei-te muito e suportei coisas por ti que jamais pensei suportar por nenhuma outra mulher. Mas a vida trocou-nos as voltas. Obrigou-nos a tomar rumos diferentes… - O que é que queres dizer com isso? - Não sei se te lembras da Vera… - Que Vera?! - Uma modelo que fotografei há tempos atrás! Ela apareceu um dia no meu apartamento enquanto estavas lá … - Lembro! Claro – Madalena sentiu a voz trémula. - Quando terminámos por causa daquele mal-entendido com a tua filha, eu demorei algum tempo a conseguir reerguer-me. Mergulhei no trabalho e comecei a aceitar tudo o que me aparecia pela frente. Foi então que eu encontrei a Vera num desfile de moda. Foi sem qualquer intenção. Não era para ser importante, aliás, na altura eu estava tão magoado que nem sequer me passava pela cabeça ter alguma coisa séria com alguém. Mas a verdade é que foi acontecendo… - Apaixonaste-te por ela?! – Madalena tentou engolir o nó que lhe atravessou a garganta. - Não! Nunca me consegui apaixonar por ela! Mas sei que gosto da companhia. Ajudou-me quando me senti em baixo e tornou-se numa pessoa importante na minha vida. Devo-lhe muitas coisas… - Mas não a amas?! - Não! Não a amo.
  • 344. - Então porque é que estás com ela? - Porque ela está grávida! E tal como deves calcular, eu sou o pai – Sérgio aniquilou todas as esperanças de Madalena. – Descobri há pouco tempo! Quatro semanas… A visão de Sérgio tornou-se cinzenta e deturpada. Era o fim, Madalena pensou. O fim dos sonhos que transportou ao longo de doze meses. O fim do que poderia ter sido e não foi. O fim de uma história que tinha tudo para dar certo e não deu. - Vais ser pai - foi tudo o que ela conseguiu murmurar enquanto os seus olhos se enchiam novamente de lágrimas. - Vou – Sérgio encontrou-lhe a mão sobre a mesa. – Desculpa! Eu não te queria magoar. Não tinha absolutamente nada para lhe dizer, Madalena chegou a essa conclusão quando afastou a sua mão de Sérgio e olhou o movimento frenético das pessoas à volta. Pensou como era impressionante que ainda ninguém se tivesse dado conta da maior tragédia ocorrida na sua vida. Ninguém teve a brilhante ideia de olhar para si e confortá-la com alguma palavra carinhosa ou até mesmo com um abraço. E não. Sérgio não contava, até porque se ele continuasse a olhar para si ou se atrevesse a proferir qualquer outra palavra de arrependimento, ela desmoronaria como um baralho de cartas. Duas horas depois, ao chegar casa completamente encharcada, Madalena largou as chaves sobre a mesinha. Desejou que um buraco a engolisse ali mesmo. O dia tinha sido terrível em todos os aspectos e o golpe final ocorreu aquando do seu encontro com Sérgio. - Já chegaste!? – Afonso viu a filha passar pelo corredor como um foguete. – Será que aconteceu alguma coisa com a tua mãe? - Não sei – Daniel respondeu sem tirar os olhos da sua Playstation. Afonso saltou do sofá da sala, preocupado. Alcançou o corrimão das escadas pronto a inteirar-se do estado emocional da sua filha, ainda que as pernas cansadas não o tivessem ajudado a chegar mais cedo ao quarto de Madalena. Por fim, quando chegou, bateu à porta. Esperou alguns segundos até a filha o mandar entrar. - Posso?!
  • 345. - Podes – Madalena limpou as lágrimas junto à janela. - O que é que aconteceu? Algum problema? - Não, pai – ela suspirou. – Problema nenhum! O único problema é a minha vida em si, mas acho que para isso não existe solução, não?! Só tenho que me habituar a ela. - Preciso contar-te uma coisa que vi hoje. - Hoje não, pai – Madalena preparou-se para o banho. - Tenho a certeza que vais querer saber. A expressão séria de Afonso fê-la hesitar nos seus propósitos. – O que foi? - Vi a Sara. - Deus – Madalena tapou o rosto com as mãos. – Eu não quero saber. - Encontrei-a na Avenida Almirante Reis – Afonso deixou que a filha passeasse pelo quarto, atordoada. – Estava com duas amigas mais velhas e parecia que iam a entrar no metro. Bem, não sei se me viram ou não, mas a verdade é que quando fui atrás delas, desapareceram sem deixar rastro. - Talvez assim até tenha sido melhor. - A Sara não me pareceu nada bem! Ia apoiada a uma delas. - Pai! Eu não quero saber da Sara… - Não vale a pena fingires que a tua filha não existe ou evitares tocar no nome dela. Eu sinto que estás a sofrer imenso por não ter notícias da Sara há mais de oito meses. - Ela escolheu o caminho dela, pai! Não há nada que eu possa fazer. - Não tens curiosidade de saber o que lhe aconteceu? Se ela está bem ou não? - Não – Madalena gritou com os olhos rasos de lágrimas. E isso foi o suficiente para que Afonso se calasse. – Para mim a Sara morreu! Não me importa o que acontece ou
  • 346. deixa de acontecer com ela. Por mim, ela bem pode continuar a prostituir-se, a deitar- se com quantos homens quiser, a beber e a drogar-se! Eu não quero saber… Afonso baixou a cabeça, desolado. - Sei que é horrível uma mãe dizer uma coisa dessas, mas a verdade é que desde que a Sara saiu cá de casa a minha vida melhorou e eu não quero ter que voltar ao ponto de partida. Se tivesses ouvido as coisas que ela me disse na noite em que se foi embora daqui! Eu nunca te contei nem a metade! As palavras dela até hoje me estão gravadas na memória e eu nunca vou conseguir esquecê-las ou sequer perdoá-las! Eu tenho a certeza absoluta que nenhuma mãe teria aguentado a metade das coisas que eu aguentei. Nenhuma mãe teria aguentado o facto de saber que a filha se andava a prostituir em troca de nada… - Ela está grávida. A revelação de Afonso paralizou os movimentos de Madalena. - O quê?! - É isso mesmo! A Sara está grávida. - Pai, tu tens a certeza do que me estás a dizer? - Bem! Eu sei que ainda só tenho sessenta e nove anos, mas acho que consigo perceber quando uma mulher está grávida ou não – ele encarou a expressão esbugalhada de Madalena. – A Sara está grávida sim, e pela barriga, já deve ir no último mês. - Eu não acredito nisto. - Se achas que não tens qualquer responsabilidade para com a Sara, tudo bem, eu até entendo! Mas para com o teu neto, Lena!? Ele não tem culpa de nada! É o teu neto… Madalena sentiu novas lágrimas brotarem-lhe dos olhos e um soco no estômago que a fez tapar a boca com as mãos. Depois disso, num acto insano, alcançou o candeeiro sobre a mesinha e atirou-o contra a parede, gritando bem alto: - Este é o pior dia da minha vida!
  • 347. Na manhã seguinte, enquanto percorriam as duas ruas paralelas da Avenida Almirante Reis e interceptavam todas as pessoas que por ali passavam debaixo dos seus chapéus-de-chuva, Madalena e Afonso não perderam as esperanças de encontrar a pessoa que tanto procuravam. Com uma fotografia nas mãos, continuaram a descer a avenida e continuaram também a perguntar se ninguém havia visto uma jovem de dezassete anos, grávida, de cabelos compridos, olhos escuros e pele clara. Infelizmente a maioria das respostas foi negativa, mas ao chegarem ao final da avenida, Afonso interceptou um indivíduo de aspecto algo duvidoso. Parecia ser toxicodependente, até pela sujidade das vestes que trazia e pela barba há muito não aparada. Afonso aproximou-se do indíviduo e gentilmente mostrou-lhe a fotografia que continha a imagem da sua neta. - Bom dia, rapaz! Por acaso conheces esta menina? Apesar de a foto estar amachucada, ele não teve dúvidas. – Claro que conheço! É a Sarita! O pessoal ali do bairro conhece-a bem. - E sabe onde é que ela está? – Madalena adiantou-se sem conseguir esconder a sua ansiedade. - Sei! Mas ia precisar de um agrado, madame! Sabe como é que é! Desde ontem que um gajo não come. - Toma – Afonso ofereceu-lhe uma nota de dez euros. – Acho que isto deve chegar para pequeno-almoço à maneira, não?! - Por acaso – o indivíduo levantou-se do chão, mostrando-se bastante satisfeito com a recompensa. – Bem! Há já alguns dias que não vejo a Sara. Só as amigas dela. Mas acho que ainda deve estar a morar com a Milene na pensão. Se quiserem posso levar- vos até lá. É mesmo aqui ao pé… - Claro – Afonso concordou de imediato. – Leva-nos, por favor! - Sigam-me – o indivíduo efectuou um gesto engraçado e permitiu que Madalena e Afonso caminhassem atrás de si. – Mas que mal vos pergunte, o que é que vocês querem com a Sarita?! Olhem que ela é uma gaja fixe! Não lhe vão fazer mal, pois não?!
  • 348. - Claro que não – Afonso manteve-se atento ao desconforto latente nos olhos de Madalena. – Eu sou o avô dela! E esta senhora aqui é a minha filha! A mãe da Sara! Viemos conversar com ela. - Ai é?! – o indivíduo coçou levemente os cabelos. – Eu pensei que ela não tivesse família. - Porquê!? - Sempre a vi sozinha lá no bairro. - Como é que é o teu nome, rapaz? - Nelson… – ele respondeu, abrindo um sorriso de orelha a orelha enquanto estendia a mão a Afonso. Surpreendentemente, o seu cumprimento foi prontamente correspondido pelo ex-militar. O mesmo não aconteceu com Madalena. – Eu não mordo, madame! - Eu sei – ela apertou-lhe a mão com alguma desconfiança. A caminhada em direcção ao bairro do Intendente demorou alguns minutos e quando finalmente se viram à entrada, um misto de sensações e sentimentos atravessaram o coração de Madalena. Era a primeira vez que pisava aquele lugar. A primeira em quarenta e dois anos. Nunca em toda a sua vida viu um sítio tão repleto de lixo, com um cheiro imundo a dejectos humanos. As prostitutas encostadas às portas das pensões segurando os respectivos chapéus-de-chuva. Os clientes que por ali passavam, sorrateiramente, provenientes dos mais diversos extractos sociais. Inúmeros toxicodependentes a cambalear pelas ruas e a visão de imigrantes maioritariamente africanos. Infelizmente, todos eles serviam como personagens daquele cenário no mínimo degradante. Um cenário onde Sara tinha escolhido ser a protagonista. - É aqui – Nelson apontou a porta da pensão. – Mas não garanto que a Sara e a Milene estejam aí! Podem ter saído. - Obrigado pela ajuda, rapaz – Afonso permitiu que Madalena entrasse no edifício primeiro. – Não sabemos como agradecer. - Eu sei – Nelson estendeu novamente a mão. – Agora é para o almoço, vô!
  • 349. Afonso não viu outro remédio a não ser oferecer uma outra nota de dez euros àquele pobre rapaz que, apesar de tudo, nem parecia ser má pessoa. Em seguida, despediu- se dele com um novo aperto de mão e acompanhou a sua filha em direcção às escadas sujas que ligavam os quatro pisos daquela pensão. - Hei – uma voz grossa saiu da recepção. Madalena e Afonso encontraram à sua frente um homem de estatura média, vestido com um fato de treino azul e uma expressão pouco amigável. Trazia também um palito nos dentes. - Onde pensam que vão? - Desculpe, amigo – Afonso colocou a filha atrás de si. – Não sabíamos que estava aqui alguém. - Pois, mas estava! Eu sou o dono desta pensão e aqui ninguém entra sem passar primeiro por mim! Agora digam lá! Quem são vocês? - Nós viemos procurar uma rapariga chamada Sara. - E o que é que querem com a Sara?! - Somos amigos dela – Afonso achou melhor não revelar a sua identidade. - Ela e a Milene estão lá em cima – o dono da pensão mostrou-se um pouco mais calmo quando percebeu que Afonso e Madalena não eram pessoas ameaçadoras ao seu negócio. – Mas para vos deixar subir, vou ter que avisá-las primeiro! - Não – Afonso interferiu. – Nós gostaríamos que fosse uma surpresa, entende?! - Sei! Uma surpresa? - Há muito tempo que não nos vemos e eu tenho a certeza que a Saria iria ficar contente se nos visse lá em cima de surpresa. - Pois – o dono da pensão continuou a palitar os dentes. – Mas para ser surpresa, é mais caro. - Como assim?!
  • 350. - Se me derem vinte euros, eu deixo que façam a tal surpresa e até finjo que não estava cá quando subiram. Agora se não derem, bem podem dar meia volta e porem- se daqui a andar! - Não, pai! Deixa – Madalena impediu Afonso de retirar mais uma nota da carteira, até porque desta vez, era ela quem fazia questão de pagar. – Aqui tem os vinte euros. - O quarto fica no terceiro andar e é o número dois. Afonso e Madalena contaram os degraus até o terceiro piso, assustados com barulho ensurdecedor das escadas. Muitas vezes foram presenteados com uma escuridão aterradora. O cheiro a humidade que advinha das paredes, a sujidade entranhada em todos os cantos daquele edifício e o cheiro intenso a urina não lhes deixaram quaisquer dúvidas. Sara tinha escolhido um dos piores lugares do mundo para viver. Minutos depois, Madalena viu-se pela primeira vez em frente ao quarto apontado pelo dono da pensão. O número dois. Um número que lhe ficaria eternamente gravado na memória, assim como o encontro com a sua filha após oito meses em que estiveram afastadas uma da outra. - Não vais bater à porta? – Afonso percebeu a hesitação de Madalena. - Deixa-me… - ela respirou fundo. – Deixa-me ganhar alguma coragem! A porta sofreu duas batidas quase seguidas, algo que prendeu a atenção de Milene. A prostituta largou a revista que tinha nas mãos e lançou um olhar aflito à cama onde Sara se encontrava deitada a delirar de febre. Nem mesmo as emergências do hospital, os inúmeros remédios que foi obrigada a adquirir na farmácia de serviço ou os panos húmidos para acalmar as febres altas conseguiram melhorar a pneumonia de Sara que já se vinha arrastando há quase duas semanas. E para piorar o cenário, ela estava grávida. Enquanto pensava em todas estas tragédias, Milene ouviu um terceiro toque na porta. Deu-se por vencida. Quem quer que fosse não a iria deixar em paz. Por isso, saltou do sofá sem muita demora. Encontrou no espelho o local onde para compor os cabelos e o decote do vestido. Depois, tornou a afastar-se da cómoda e abriu a porta de uma só vez. A visão que lhe surgiu foi surpreendente. Uma mulher de cabelos castanhos curtos, trajada com uma gabardina preta e uma saia azul em evasé. E logo atrás um senhor idoso, vestindo um casaco verde-escuro e umas calças de ganga aprumadas. - Pois não?!
  • 351. - Você é que é a Milene? – Afonso perguntou. - Sim, sou eu – a prostituta respondeu com um olhar desconfiado. – Porquê? Algum problema? - Eu sou a mãe da Sara – Madalena adiantou-se. Milene manteve-se inerte a tentar reter aquela revelação. Tentou igualmente acreditar que aquela senhora distinta era a mãe da sua melhor amiga. Ninguém diria. Fisicamente não eram muito parecidas. Madalena era muito mais magra, tinha as maçãs do rosto salientes e a pele branca como a de uma boneca de porcelana. Não aparentava também ter a idade que tinha. Mostrava-se muito mais jovem e bem arranjada. - Podemos entrar? – Afonso interrompeu os pensamentos de Milene. - Hã… claro – ela recuou dois passos. – Entrem! O convite foi imediatamente aceite por Afonso e Madalena, e em seguida, Milene fechou a porta do quarto com algum cuidado. Ao vê-los de costas, enquanto observavam o estado lastimável de Sara sobre a cama, Milene sentiu-se mais nervosa do que nunca. Era a primeira vez que se sentia assim. Sempre foi segura, independente e imune à opinião dos outros relativamente à sua profissão, mas com Afonso e Madalena era diferente. Era estranho sentir-se tão pequena, vulnerável e insegura na presença daquelas pessoas que lhe eram totalmente desconhecidas. - Há quanto tempo é que ela está assim? – Afonso debruçou-se sobre a neta, mexendo-lhe nos cabelos soltos. - Há vários dias – Milene respondeu com algum nervosismo. – A febre não queria baixar por isso levei-a ontem ao hospital! Mas como não havia camas vagas, mandaram-nos para casa com a receita de alguns antibióticos… Enquanto ouvia o discurso de Milene, Madalena lançou os olhos à sua filha e por momentos não a reconheceu. Era ela quem ali estava, mas ainda assim não a reconheceu. Talvez pela barriga enorme estendida na cama, pelos quilos que emagreceu apesar da gravidez, pelos cabelos muito mais compridos ou pelo rosto de menina inocente transformado no de uma mulher obrigada a crescer à força. Infelizmente, da Sara que todos conheciam, já não restava mais nada e foi isso que a assustou.
  • 352. - Nós viemos buscá-la – Madalena voltou-se para Milene com uma expressão dura. - Eu não sei se ela vai querer ir. - O lugar dela não é aqui e você sabe disso! A afirmação de Madalena não poderia ter sido mais acertada. Milene pôde ter essa certeza quando baixou o rosto e se lembrou do primeiro dia em que Sara lhe entrou por aquele quarto com um pedido que na altura lhe pareceu estapafúrdio. Ser prostituta. Lembrou-se também de todas as vezes que repartiram o dinheiro dos seus clientes. Das vezes em que a levou a bares nocturnos pouco recomendados, a introduziu ao tabaco, ao álcool e às drogas. Milene sentiu-se culpada por tudo isso e no final chegou à conclusão que tinha sido ela a principal responsável pelo desencanto de Sara para com a vida. - Lena! Não te importas de ficar aqui a preparar a Sara enquanto eu vou buscar o carro lá acima para a levarmos? – Afonso perguntou à filha. - Não, pai! Vai lá… - Não demoro. Afonso abandonou o quarto poucos minutos depois, deixando Madalena e Milene de olhos postos em Sara. Nessa altura, ouviu-se um silêncio perturbador. Madalena não resistiu a lançar um novo olhar àquelas paredes vazias, imundas e desprovidas de qualquer conforto. E só de imaginar que tinha sido ali que a sua filha viveu os últimos oitos meses de vida. Porquê? Passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Porque é que Sara resolveu submeter-se àquela existência medíocre quando tinha tudo o que uma adolescente normal poderia querer. - Sei que deve estar a pensar horrores deste lugar, não?! – Milene começou por retirar as roupas de Sara dos armários. Dobrou-as com cuidado e colocou-as no interior da única mala que a jovem ainda possuía. Madalena reparou na forma como ela se encontrava vestida. Com um vestido preto curtíssimo, apesar do frio aterrador que se fazia sentir lá fora, e sobre o vestido, um cinto em padrões de zebra. Os saltos ultrapassavam os quinze centímetros de altura, e os cabelos, soltos, estavam surpreendentemente muito bem tratados.
  • 353. - Mas eu não a recrimino – Milene continuou a fazer as malas de Sara. – Eu também sei que este lugar não é nada de especial. Mas foi aqui que a sua filha escolheu ficar, não foi?! Vá-se lá perceber porquê! Com uma casa boa, uma família que a tratava bem, ninguém em sã consciência iria perceber os motivos que a fizeram largar tudo para vir morar aqui no bairro. Confesso que até hoje eu nunca percebi… Madalena manteve-se em silêncio, de olhos postos nas unhas gigantescas daquela prostituta. Estavam pintadas de vermelho. - A Sara é quase como uma filha para mim, embora a nossa diferença de idades não seja assim tão grande! De qualquer maneira, fui eu que tomei conta dela durante estes meses todos. Não fiz um grande trabalho, lá isso é verdade, mas pelo menos fiz o melhor que sabia. Pelo menos nunca mais permiti que ela se voltasse a prostituir, não foi apanhada por nenhum drogado, não foi espancada por nenhum chulo, teve quase sempre o que comer e foi obrigada a ir a todas as consultas do bebé mesmo quando não queria. A resposta de Milene levou Madalena até à janela. Um toxicodependente injectava- se num beco vazio e duas prostitutas fumavam um cigarro à entrada do bairro. - Vou chamar um amigo para vos ajudar a levar a Sara e as coisas dela até ao carro. - Não é preciso – Madalena respondeu prontamente. - O seu pai até pode ser forte, mas ele não vai conseguir aguentar sozinho com o peso da neta e muito menos com a mala dela, não é?! – Milene percorreu a sua lista de contactos através do telemóvel. – Esse meu amigo vem cá num instante! Ele vive aqui ao pé… Por estar quase inconsciente e a delirar devido às fortes febres, Sara nem sequer se apercebeu quando foi carregada ao colo por um dos habitantes do bairro e os seus pertences foram levados pelo avô até ao primeiro piso da pensão. Poucas dúvidas restaram quanto ao seu destino. Voltaria para casa, para a sua família e recuperar-se- ia de todos os fantasmas que durante meses a atormentaram. Diante daquele cenário irrefutável, parecia que aquela história finalmente tinha tido um final feliz. - Espere – Milene interceptou Madalena à saída do quarto. – Eu sei que provavelmente deve achar que sou a culpada de tudo o que aconteceu à sua filha. Mas… eu gosto muito da Sara e nunca quis que nada de mal lhe acontecesse. Só queria que soubesse isso!
  • 354. As últimas palavras de Milene coincidiram com a saída de Madalena e com as lágrimas que ela não conseguiu conter perante a partida da sua melhor amiga. Durante os meses que passaram juntas, Sara transformou-se na sua companheira, confidente e a pessoa a quem ousava contar alguns dos seus maiores segredos. Todas as alegrias e tristezas que passaram juntas ficar-lhe-iam registadas na memória para sempre. Mas mais do que isso, ficariam marcadas no coração. Dali para a frente, iria ser praticamente impossível voltar a ver o bairro com os mesmos olhos, pois Sara havia retirado dele todo o encanto. A porta abriu-se cuidadosamente poucos minutos antes do meio-dia. Com as parcas forças que ainda lhe restavam, Afonso subiu com a neta até ao quarto e colocou-a na cama. Madalena foi logo atrás. Sentou-se ao lado da filha e em seguida retirou-lhe os ténis, as meias brancas e o resto das roupas. Quando a viu nua, as dúvidas sobre a sua gravidez dissiparam-se. Mas estranhamente houve um momento de paz. A paz de ver a filha novamente em casa. De tê-la ali perto de si. Para acalmar a febre e os delírios de Sara, Madalena enfiou-a numa banheira de água morna e lavou-lhe o corpo com as ervas medicinais que a sua mãe costumava guardar na floricultura. Era remédio santo, Leonor dizia enquanto ainda era viva. E por ter experimentado aquelas ervas inúmeras vezes ao longo da sua infância, Madalena achou por bem utilizá-las em Sara, esfregando-lhe não só as costas, os braços, mas também as pernas. Em seguida, penteou-lhe os longos cabelos escuros e passou o chuveiro por eles, deixando que a água morna retirasse toda a sujidade acumulada durante semanas. Quando terminaram o banho, o quarto já se encontrava pronto para a receber. Afonso deitou a neta na cama e Madalena teve o cuidado de colocar três sacos de gelo por debaixo dos braços e das pernas da filha. Em poucas horas, a febre baixou. - Vais ficar aí? – Afonso entrou no quarto de Sara ao final da noite. - Só mais um pouco! Até ter a certeza que ela dormiu – foi a resposta de Madalena. - Lena… - Diz! - Hoje fizeste-me o pai mais orgulhoso do mundo. Afonso encostou a porta e permitiu que os pensamentos de Madalena se perdessem no interior daquele grandioso quarto. Tinha voltado ao ponto de partida, pensou. Voltou ao início de tudo por lhe ser impossível negar a existência do ser que mais amava no mundo e também de uma criança, que apesar de ainda não ter nascido,
  • 355. tinha de si todo o amor que poderia desejar. Faria tudo de novo se fosse preciso. Sofreria as mesmas angústias, passaria pelas mesmas tristezas e ouviria todas as coisas que nenhuma mãe desejava ouvir de uma filha nem nos seus piores pesadelos. Até porque, o que não a matou tornou-a mais forte. O que não a destruiu ajudou-a a reconstruir-se. E o que perdeu? Bem! Isso nem chegava perto do que tinha ganho quando passou as mãos pela barriga da filha.
  • 356. 2006 Viveram-se duas semanas atribuladas até ao dia do parto de Sara. Um acontecimento que foi presenciado por todos os membros da família e também por Alice, a melhor amiga de Madalena. Talvez pela sua enorme inexperiência, Sara não conseguiu e nem quis absorver todas as informações fornecidas pelas enfermeiras. Apenas gritava e pedia ajuda a quem quer que se aproximasse de si. Era evidente o quanto se encontrava assustada com toda aquela situação. As dores intensas – a príncipio espaçadas no tempo – foram-se tornando insuportáveis com o passar das horas. Por mais que se tentasse manter calma a pedido das enfermeiras, Sara não conseguiu controlar o choro desesperado e os pedidos de ajuda. - Não, mãe – ela estendeu a mão a Madalena, impedindo-a de sair do quarto. – Não te vás embora! Não saias daqui! - Eu não vou sair – Madalena acalmou-a com um doce sorriso. – Não vou a lado nenhum. - Tenho medo de morrer, mãe! Não me deixes… - Tem calma e respira fundo – Madalena apertou-lhe a mão com força. – Eu estou aqui! Vai correr tudo bem. Cinco horas se passaram no meio de uma grande angústia para todos. Jorge, Afonso, Alice e Daniel desesperaram-se com a falta de notícias, mas sobretudo com os gritos de Sara que irrompiam a sala de espera a cada cinco minutos. Sempre que isso acontecia, imprimiam-se novas orações e olhava-se para o relógio pendurado na parede. E foi precisamente às dezanove horas e trinta e quatro minutos que se ouviu o primeiro berro do mais novo elemento da família. Um berro que alegrou o coração de todos. Nasceu.
  • 357. Jorge não coube em si de contente quando abraçou Daniel com força e se atirou para os braços de Alice. Em seguida, ainda emocionado, encontrou no ex-sogro o apoio necessário para extravasar toda a adrenalina que estava a sentir. Minutos depois, a euforia inicial deu lugar a uma relativa calma, e mais tarde, a uma aflição pela falta de notícias que confirmassem que estava tudo bem. Nervoso, Jorge olhou mais uma vez para o relógio pendurado na parede e retirou as mãos dos bolsos. Pensou que fosse enlouquecer de tanta ansiedade. - E então?! – ele saltou da cadeira quando Madalena surgiu na sala de espera. - É uma menina – Madalena abriu um enorme sorriso de felicidade. – É linda! Jorge não se conseguiu conter. Maravilhado com a notícia, atirou-se para os braços da ex-mulher e levantou-a do chão. - Que bom – Alice abraçou a sua amiga passada a confusão. – Parabéns, avó! - Acreditas nisto?! Já sou avó! Quando a porta se abriu com um ligeiro ruído, Sara esgueirou o pescoço atrás das cortinas e aguardou expectante a entrada dos seus familiares no quarto. Nessa altura, todas as dores do parto haviam desaparecido sem deixar rastro. A sua filha encontrava-se agora deitada no berço ao lado da sua cama e as primeiras horas da maternidade começavam a infiltrar-se lentamente na sua mente. Impressionante como tudo mudou em tão pouco tempo apenas com a chegada de um novo ser. Impressionante como todas as coisas que anteriormente não faziam sentido passaram a fazer. E de como, a cada minuto, ela desejava entregar à sua filha tudo o que de melhor possuía dentro de si. - Já escolheste o nome? – Jorge mostrou-se completamente embevecido pela neta. - Estive a pensar – Sara ajeitou os lençóis sobre o colo. – E também já tinha falado com a mãe mais ou menos sobre o assunto… - Só espero que não seja Gertrudes – Alice brincou. Riram-se todos. - Não – Sara compôs os cabelos. – Eu queria que se chamasse Leonor! O nome da avó.
  • 358. A homenagem não poderia ter sido mais tocante, motivo pelo qual Afonso não conseguiu conter as lágrimas tímidas que lhe caíram dos olhos. Emocionado, o ex- militar tirou um lenço do bolso das calças e tentou esconder o rosto para que ninguém o visse a chorar. - Oh avô! Não fiques assim – Sara emocionou-se por o ver tão emocionado. – Era para teres ficado contente. - Ele ficou contente, filha – Madalena sorriu, embalando a neta no colo. - Que chorão que você me saiu, hã Sr. Afonso – Jorge tentou desanuviar o ambiente emotivo que se instalou no quarto. – Com essa idade?! - Já não tenho é idade para estas coisas, isso sim – Afonso arrancou uma risada geral. A visita à pequena Leonor terminou com a despedida de Alice e de Afonso. O último, disponibilizou-se para levar Daniel a casa, deixando Madalena e Jorge livres para absorver todos os movimentos, bocejos e expressões da neta. Recordaram-se do nascimento dos filhos. De Sara e Daniel. A alegria era exactamente a mesma. Aquela estúpida alegria de se ter um ser tão pequenino e frágil nos braços, de querer protegê-lo de todos os males e de lhe oferecer todo o amor do mundo sem esperar absolutamente nada em troca. Durante muito tempo, Sara esteve cega ao não dar valor aos seus pais e só agora começava a perceber o quanto errou ao não fazer isso. Madalena e Jorge foram os primeiros a estender-lhe a mão no momento em que mais precisou. Foram também os primeiros a salvá-la de todos os perigos e a perdoá-la categoricamente, quando tudo o que deveriam ter feito era ignorar a sua existência. Mas a verdade é que não ignoraram, e a outra verdade é que Sara começava a perceber o porquê. Porque nenhum pai e nenhuma mãe conseguem ignorar a existência de um filho, faça o que ele fizer. - Queria pedir-vos desculpas… - Sara interrompeu a adoração dos pais à sua filha. – Por tudo! Por tudo o que vos disse! Por tudo o que vos fiz passar! Fui a pior filha do mundo e vocês não mereciam. Se pudesse voltar atrás, nunca teria feito o que fiz! Será que me conseguem perdoar? - Nós já te perdoámos há muito tempo – Jorge abraçou Sara com força, apertando-a contra si e tomando-lhe a cabeça. – Agora está tudo bem! Voltaste para nós! Isso é o que importa! Está tudo bem…
  • 359. - Desculpa, pai! Amo-te muito – Sara encharcou os ombros da camisa de Jorge, enquanto ao longe a visão do rosto da sua mãe a obrigou a sorrir carinhosamente. Naquele instante, sentiu-lhe também o maior amor do mundo. – E eu também te amo, mãe! Muito… - Eu sei. - Perdoas-me? - Do quê!? Sara correspondeu ao sorriso carinhoso da mãe e apressou-se a beijar-lhe as mãos geladas. Abraçou-a com força, sentindo-lhe o calor do corpo, a respiração, o perfume dos cabelos e os dedos delicados a tocarem-lhe nas costas. Sentiu tudo isso e no final arrependeu-se por nunca antes a ter abraçado daquela forma. - Vocês são as pessoas mais importantes da minha vida – ela confessou. – Vocês e a Leonor! - Nós sabemos – o pai sorriu-lhe carinhosamente. – Tu e o teu irmão também são as pessoas mais importantes para nós! Sempre foram! Apesar de nem sempre termos agido correctamente e de nem sempre termos conseguido ser os melhores pais do mundo, fizémos tudo o que estava ao nosso alcance para que vocês fossem felizes. Porque era só isso que queríamos! Que vocês fossem felizes… - Eu sei – Sara anuiu. – E sei também que preciso tratar-me! - Nós vamos apoiar-te em tudo o que precisares – Madalena interferiu prontamente. - Não quero ser uma má mãe para a Leonor! Não quero que ela tenha vergonha de mim… - os olhos de Sara encheram-se de lágrimas. - Ela nunca vai ter vergonha de ti, filha! Tu vais ser uma boa mãe – Madalena tocou- lhe no rosto. - Vais ser uma óptima mãe – Jorge concluiu, lançando mais uma vez um olhar fascinado ao berço da sua neta. - Eu só me quero livrar desta doença! É só isso que eu quero…
  • 360. O baptizado da pequena Leonor realizou-se um ano e alguns meses depois com toda a pompa e circunstância. Contou com a participação de inúmeros amigos, familiares, conhecidos e um número considerável de animadores infantis contratados especialmente para a ocasião. Fazia um dia radiante. Um belo domingo de Agosto cheio de sol e calor. Um daqueles dias idílicos onde nada podia correr mal. Onde as pessoas passeavam alegres pelo jardim, bebendo e confraternizando entre si. Onde o cheiro delicioso das pipocas e do algodão doce invadiam as narinas dos convidados mais gulosos. Onde se ouviam os balões a rebentar a cada dez minutos, as músicas infantis e os risos ruidosos das crianças que corriam de um lado para o outro num claro sinal de que a felicidade havia chegado definitivamente à vida de todos. E desta vez para ficar. Jorge e Madalena esmeraram-se nos preparativos da festa abrindo os cordões à bolsa sem olhar a gastos. Eram avós babados. Babadíssimos. O tipo de avós que incluía o nome da neta em qualquer conversa, que não perdiam uma oportunidade para tirar uma fotografia, filmar um gesto engraçado ou perderem-se durante horas a brincar com ela. Muitas vezes, Madalena levava a neta para a floricultura tal como fazia com Sara e Daniel quando ainda eram pequenos. Cuidava de Leonor com todo o carinho do mundo, enquanto os clientes se desfaziam em elogios àquela criança tão bonita e adorável. Não havia nada que a deixasse mais orgulhosa do que ouvir alguém elogiar a sua neta. Depois, ao início da tarde, Sara surgia na loja para ir buscar a filha. Aproveitavam para almoçar num restaurante ali perto, conversavam sobre assuntos triviais, novos planos para o futuro e riam-se alegremente com qualquer gesto engraçado que Leonor fazia. Era o reatar de uma relação que parecia perdida. Em pouco tempo, mãe e filha tornaram-se nas melhores amigas. Para Sara, já não havia espaço para brincadeiras ou tão pouco para errar. Aos dezoito anos, a primeira tentativa era a única e dali para a frente iria ser sempre assim. Foi a conclusão tirada por ela quando, naquele domingo ensolarado, Leonor se enterrou nos seus ombros e lhe surgiu diante dos olhos a figura de duas pessoas muito queridas. Eram elas. Tinham aceitado o seu convite apesar das relutâncias iniciais e trouxeram consigo não só vários presentes como também uma bela menina de oito anos, de cabelos cacheados, pele morena e um vestido azul clarinho que em tudo acentuava a sua beleza e inocência. No entanto, não foi apenas o vestido que chamou a atenção de Sara, mas sim as parecenças que aquela menina parecia ter com a sua filha. Era como se estivesse a ver Leonor dali a sete anos, com os mesmos cabelos cacheados, a mesma pele achocolatada e o mesmo sorriso. - Milene! Arlete! Que bom que vieram… - Sara correu ao encontro das suas amigas, levando a filha ao colo. Abraçou-as e sorriu-lhes alegremente. Fazia muito tempo que não as via.
  • 361. - Tínhamos que vir! Afinal de contas não é todos os dias que senhoras tão distintas como nós são convidadas para baptizados, não é?! – Arlete mostrou um pequeno embrulho a Sara. – Toma! Para a bebé. - Obrigada. - Então esta é que é a famosa Leonor!? - Pois é. - Posso segurá-la ao colo? - Claro – Sara entregou a sua filha nos braços de Arlete e viu-lhe o sorriso embevecido enquanto beijava o rosto da criança. Leonor era uma criança adorável. Linda como uma princesa. - Minha nossa! É a cara do Marco – a prostituta não conteve a observação. - Acho que ela gostou de ti. - Claro que gostou! Uma tia destas não é para qualquer uma ou pensas o quê - as três amigas riram-se alegremente. – Agora abre lá o presente que trouxe à menina, oh Sarita! Vais gostar! Sara sorriu e apressou-se a abrir o pequeno embrulho carinhosamente feito por Arlete. Trazia inclusive um lacinho cor-de-rosa que a prostituta comprara numa das muitas lojas da baixa da cidade. Quando abriu a pequena caixinha, Sara voltou a sorrir, emocionada. Era uma linda pulseira de ouro muito bem trabalhada com o nome da sua filha gravado no cordão. - Não te disse que era uma artista? – Arlete inquiriu. – Fui eu que fiz! E desta vez não fui comprar o material aos chineses. Comprei numa casa de ouro e custou-me os olhos da cara! Depois ainda fui gravar o nome da miúda! Mas pronto! A minha sobrinha merece… - Obrigada Arlete! É linda – Sara abraçou a prostituta com força. – Tenho a certeza que a Leonor vai adorar. - Já lhe disse para se dedicar à joalharia – Milene brincou. – As miúdas lá do bairro até já lhe andam a encomendar coisas.
  • 362. - Era bom era que pagassem – Arlete arrancou uma risada jovial às suas amigas. Sara voltou a lançar os olhos à criança que acompanhava Milene e sentiu-se tentada a saber mais detalhes sobre ela. - E tu, Milene?! Esta é que é a tua filha? - Sim! A Daniela! Uma outra famosa lá do bairro! Daniela, dá lá um beijinho à amiga da mãe… A criança obedeceu ao pedido da mãe, envergonhadamente, e beijou a face de Sara, enquanto a última, com um sorriso carinhoso, afagou-lhe os cabelos cacheados, dizendo-lhe. – És muito bonita, Daniela! Sabias?! - Sabia – a criança arrancou uma risada geral. - E convencida também – Milene acrescentou sem esconder o orgulho que sentia da sua filha. - Bem, aquela mesa de doces está-me a chamar – Arlete compôs os seus cabelos volumosos. - Vai lá – Sara abriu-lhe caminho. – Serve-te à vontade! - Leva a Daniela também – Milene pediu. - Daniela e Leonor! Ai o meu destino… Arlete afastou-se com as duas crianças em direcção a uma das inúmeras mesas de doces espalhadas pelo jardim. Permitiu que Sara e Milene continuassem de olhos postos uma na outra à espera de um rasgo de coragem para iniciarem uma conversa que há muito já deveriam ter tido. - A Daniela é a filha do Marco, não é?! - É – Milene baixou os olhos, envergonhada por nunca ter tido coragem de contar a verdade à sua melhor amiga. - Porque é que nunca me contaste?
  • 363. - Porque não queria que ele soubesse. - Podias ter-me contado! Eu não ia dizer nada. - Se eu te contasse, tu irias contar ao Marco. - Não, não ia… - Ias sim – Milene interrompeu-a. – Na altura, estavas tão apaixonada por ele que irias acabar por contar mesmo se essa não fosse a tua intenção. E eu não queria que o Marco soubesse que eu tinha tido uma filha dele. - Porquê?! - Quando descobri que estava grávida, até tentei contar-lhe, mas naquela noite ele tinha bebido muito por causa da morte do irmão. Acabou por descarregar em cima de mim. Bateu-me! Bateu-me mesmo muito! Quase morri e quase que perdi a bebé também. Foi então que eu conheci a Arlete. Ela encontrou-me na rua e levou-me para o hospital. Foi a única que ficou a saber da verdade. Depois disso, fugi para o Porto para a casa da minha mãe. Tive lá a Daniela. Só que nós nunca nos demos lá bem, por isso voltei outra vez para Lisboa. Trabalhei em algumas porcarias, ganhei misérias de ordenados e já estava a ver a minha vida a andar para trás até encontrar a Arlete outra vez. Ela disse-me que eu podia ganhar bem mais a trabalhar como prostituta e eu aceitei porque estava desesperada e também porque a minha mãe não parava de me pedir dinheiro para continuar a tomar conta da miúda. E foi assim que eu entrei na vida. - Então quer dizer que as nossas filhas são irmãs!? - São – Milene riu para não chorar. Enquanto se abraçavam, tentando abstrair-se do barulho infernal inerente àquele jardim, Sara e Milene encontraram finalmente a paz de espírito e o conforto que durante tantos anos procuraram incessantemente. Antes, nos braços de vários homens, em bebedeiras e festas desregradas, esquecendo-se que a real paz e conforto, essas, só podiam ser encontradas dentro delas próprias ao lado das pessoas que realmente as amavam. - Vou largar a vida – Milene afastou-se de Sara após um longo abraço.
  • 364. - Verdade?! - Verdade! Decidi-me há coisa de um mês! De qualquer maneira já estou quase a chegar aos trinta, já juntei um bom dinheiro que me vai safar até encontrar um emprego decente e… quero começar a aproveitar a minha filhota. - Fazes bem! Eu também estou a tratar-me! Ando num psicólogo e tenho feito muitas sessões com ele. Sinto-me melhor… - Nunca mais te voltaste a prostituir? - Não – a resposta de Sara arrancou um sorriso a Milene. – Nunca mais voltei a prostituir-me, a ver filmes pornográficos e nem a fazer sexo com ninguém. É difícil, mas tal como te disse, estou a tentar livrar-me disto. - Sara, eu… - Milene pareceu hesitar por breves instantes. - O quê?! - Eu queria pedir-te desculpas! Por tudo! Por… ter aceitado a tua proposta, por ter deixado que te prostituísses, por ter ficado com metade do teu dinheiro. Não sei onde estava com a cabeça. - Não precisas pedir desculpas, Milene! A culpa não foi tua! - Mesmo assim! Eu era a adulta desta história! Devia ter-te afastado do bairro no primeiro dia em que lá foste. - Tentaste fazer isso, lembraste?! – Sara sorriu-lhe carinhosamente. - Espero realmente que te consigas curar desta doença. - Eu também! Agora já não posso pensar só em mim! Tenho pensar na minha filha. - É mesmo isso que tens que fazer – Milene beijou-a no rosto. – Bem! Se calhar era melhor irmos ter com a Arlete antes que ela acabe com os doces, não?! - Tens razão.
  • 365. Sara tomou-lhe a mão e juntas atravessaram o jardim em direcção à mesa dos doces. Encontraram todas as crianças da festa e também Arlete, a única adulta suficientemente infantil para se deixar maravilhar por um bolo recheado de chocolate e ainda sujar a roupa toda com ele. - Oh pá! Isto está mesmo bom – ela confessou de boca cheia. Era a primeira vez que a encontrava sozinha desde o início da festa. Jorge congratulou-se por esse milagre, até porque havia meses que ele desejava uma oportunidade para falar com Madalena. A volta da Sara e o consequente nascimento da neta afastou-os de uma forma involuntaria. Já não havia espaço para longas conversas depois do jantar, escapadelas no quarto quando todos se encontravam a dormir ou tão pouco tempo para encostar a ex-mulher contra a parede e exigir que ela lhe desse uma resposta definitiva. Contudo, após um ano de avanços e recúos, Jorge chegou à conclusão que já não podia esperar mais. Ela estava ali a arrumar os pratos e os copos de plástico sobre a mesa do jardim e aquele era o momento ideal para ele se aproximar e terminar de vez com o seu calvário. - Ainda não me deste a resposta – Jorge segredou-lhe aos ouvidos. - Que resposta? – Madalena deliciou-se com a presença discreta do ex-marido. - Tu sabes bem! Não te faças de desentendida! E então?! – ele mostrou-se impaciente. Após um longo minuto de silêncio, Madalena olhou à volta e certificou-se de que ninguém os estava a ouvir. Em seguida, encarou o ex-marido com um sorriso: - Quando é que achas que podes trazer as tuas coisas cá para casa?! . - Mãe! Pai… - escutou-se a voz de Sara ao longe. – Venham! Vamos tirar uma foto de grupo! De mãos dadas, e enquanto se riam a bom rir, Madalena e Jorge correram até ao local e não demoraram a misturar-se com as cerca de oitenta pessoas especialmente convidadas para assistir ao baptizado da pequena Leonor. E mesmo o jardim tendo sido pequeno para tanta gente, a verdade é que sobrou um espaço enorme nos corações de todos os que ficaram eternamente registados naquela fotografia.
  • 366. 7 ANOS DEPOIS: Madalena Soares e Jorge Albuquerque reataram a relação, mas não se voltaram a casar. Presentemente vivem juntos, numa união de facto. Nunca foram tão felizes. Jorge abandonou o escritório de advogados “Perestrelo&Associados” e abriu um escritório próprio. Recusou vários casos judiciais corruptos e manteve-se fiel à promessa que fez a Madalena: “Sem traições, sem terceiras pessoas, sem negócios obscuros, sem mentiras! Sem nada! Só eu e tu! Como no início…” Afonso Soares faleceu em Março de 2011, vítima de um cancro nos pulmões. Os seus dois últimos anos de vida foram passados na casa da filha, acamado e sem perspectivas de melhora. Morreu enquanto dormia. Daniel Soares Albuquerque tem vinte anos e encontra-se no segundo ano do curso de Engenharia Informática. Não põe de parte a ideia de aventurar-se no estrangeiro. Permanece ainda em casa dos pais e sempre foi um adolescente calmo, responsável e pouco dado a saídas nocturnas. Sérgio Almeida foi pai de um rapaz chamado Diogo. A sua relação com Vera não sobreviveu apesar das inúmeras tentativas. Actualmente, o fotógrafo vive uma união de facto que já dura há três anos. Não tem planos de se casar ou ter mais filhos. Mantém uma relação de estreita amizade com Madalena, sem nunca a ter esquecido. Alice Martins continua ser a melhor amiga de Madalena e juntas dirigem a floricultura UM MAR DE ROSAS. Descobriu em 2009 um pequeno nódulo no peito. Felizmente os tratamentos revelaram-se eficazes. A florista encontra-se bem de saúde e uma solteirona convicta. Milene dos Santos afastou-se definitivamente da prostituição, mudando-se nos primeiros tempos para o Porto onde viveu em casa da sua mãe. Contudo, as inúmeras tentativas frustradas para arranjar um bom emprego levaram-na a emigrar para a Irlanda do Norte. Estabilizou a sua vida ao conhecer um outro emigrante português na fábrica onde trabalhava. Com o tempo, Milene pediu para que a mãe lhe enviasse a filha Daniela. Engravidou de novo e hoje vive com os dois filhos e o companheiro nos arredores da cidade de Belfast.
  • 367. Arlete juntou-se a eles três anos depois. A ex-prostituta também viu na emigração a única oportunidade de recomeçar uma vida nova. Trabalha na mesma fábrica que Milene e é a madrinha do seu segundo filho. Sara Soares Albuquerque tem actualmente vinte e cinco anos e a sua filha Leonor oito. Encontra-se a poucos meses de terminar a sua licenciatura em Direito, influenciada pelo pai. Formou um grupo de apoio a mulheres vítimas de doenças compulsivas e frequenta semanalmente sessões com o mesmo psicólogo. A sua doença mantem-se controlada apesar de algumas restrições que se impõe a si própria. Vive uma relação monogâmica, estável e com um apetite sexual considerado normal. E o melhor de tudo? Nunca mais sentiu necessidade de se voltar a prostituir. FIM
  • 368. “Qualquer semelhança com a realidade não é uma mera coincidência. Baseado em factos reais, este romance espelha um acontecimento trágico vivido pela minha família em príncipios de 2003. Contudo, tal como em qualquer outra relação familiar, os laços que unem uma mãe a uma filha dificilmente são destruídos. São antes eternos e capazes de ultrapassar os maiores obstáculos.”