Crítica histórica revisão
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Crítica histórica revisão Crítica histórica revisão Document Transcript

  • Mogi das Cruzes, 12 de dezembro de 2005. Prezado irmão, Rev. Cláudio Marra, Vai aí a tradução de Crítica Histórica da Bíblia. São 280 laudas. Aguardo novo livro para tradução, caso seja possível. Obrigado. Abraço fraternal. Wadislau.
  • ETA LINNEMANN CRÍTICA HISTÓRICA da Bíblia METODOLOGIA OU IDEOLOGIA? Reflexões de uma bultimanniana que se tornou evangélica
  • Conteúdo Introdução do tradutor para a língua inglesa Prefácio Introdução da autora Parte 1 O Cristianismo e a Universidade Moderna 1. As Raízes Anticristãs da Universidade 2. Questões Pertinentes com Respeito à Universidade 3. O Antigo Israel e o Ocidente Moderno 4. A Educação Cristã no Nível Universitário Excurso 1: Estudos Gerais para o Estudante Cristão Excurso 2: A Confiabilidade do Pensamento 5. A Bíblia e o Homem Moderno Parte 2 A Palavra de Deus e a Teologia Histórico-crítica 6. O Estudo da Teologia Histórico-crítica 7. A Fé da Teologia e a Teologia da Fé 8. A Mentalidade da Teologia Histórico-crítica Excurso 3: Conselho Falso e Verdadeiro 9. Teologia Histórico-crítica e Teologia Evangélica 10. A Palavra de Deus Índice de assuntos Índice de textos da Escritura
  • Introdução do tradutor para a língua inglesa Este livro apresenta um desafio para o leitor – e uma ameaça. Em novembro de 1988, quando apresentei uma dissertação sobre Eta Linnemann num encontro de profissionais, discutindo sua contribuição ao estudo do Novo Testamento e sua atual visão tal como expressa neste livro, quatro editores demonstraram interesse em publicá-lo. Essa é uma indicação, creio, do alto grau de apelo e relevância do estudo da Dra. Linnemann. Uma das razões para isso é que há uma fascinante dimensão pessoal que dá profundidade e pungência a este livro. Linnemann lança um forte protesto contra as tendências e métodos de uma disciplina que conhece muito bem, de dentro para fora. Ela não dá tiros à distância. Antes, foi uma estudante receptiva de alguns dos pensadores verdadeiramente seminais da erudição alemã do século 20 no que diz respeito ao estudo do Novo Testamento: Bultmann, Fuchs, Gotarten e Ebeling. Mais tarde, afiliada a sociedade profissional de pesquisa do Novo Testamento de maior prestígio mundial, ela fez par com muitos outros de igual estatura. O que levaria alguém a renunciar a tais conquistas? Por que alguém literalmente lançaria no lixo todos os livros e artigos que teria labutado arduamente para ver publicados? Por que alguém abriria mão de uma cadeira no sistema universitário da Alemanha Ocidental para servir, no final das contas, como professora-missionária na Indonésia? Este livro fornece ao menos os aspectos gerais das respostas a essas intrigantes perguntas. Contudo, a apresentação de Linnemann vai além do ângulo do interesse humano. Sua trajetória pessoal, em última instância, é veículo para ponderações sobre a história, métodos e resultados daquilo que ela chama justificadamente de teologia histórico-crítica. Aqui, talvez, resida a significância maior das reflexões de Linnemann.
  • Nesse ponto o leitor encontrará também o desafio do livro, um repto que se estende a diversos níveis. No primeiro nível o leitor não-alemão encontrará seções lidando com uma situação que provavelmente lhe parecerá alheia. Isso é especialmente verdadeiro em relação ao capítulo 4 e aos dois excursos seguintes. Neles, Linnemann lida com a necessidade, a possibilidade e os passos básicos para a formação de escolas cristãs de nível universitário na Alemanha Ocidental. Não se trata de não haver faculdades de Bíblia na Europa Ocidental de língua alemã; qualquer um pode encontrá-las em localidades da Alemanha Ocidental ou na Suíça tais como Adelshofen, Beatenberg, Brake, Seeheim, Wiedenest, Wölmersen e Wuppertal, para citar algumas. Antes, trata-se de que essas faculdades de Bíblia não oferecem treinamento em nível acadêmico superior equivalente ao da educação oferecida pelas faculdades teológicas das universidades governamentais. Esses institutos bíblicos também não gozam do mesmo reconhecimento oficial dado às escolas estatais. Aquilo que os leitores americanos assumem como certo – a existência de dúzias de faculdades cristãs de artes liberais e de universidades cristãs, pelo menos nominalmente – não ocorre no país mais familiar a Linnemann, a Alemanha Ocidental. Linnemann, e muitos outros, sente que o monopólio das universidades estatais alemãs, com respeito ao treinamento de pastores, professores de religião, teólogos e acadêmicos da Bíblia, tem tido efeitos negativos e mesmo desastrosos nos últimos duzentos anos. Conquanto a situação que motiva Linnemenn possa a princípio parecer estranha a muitos leitores, seus comentários não são de modo nenhum irrelevantes para a América, onde faculdades cristãs plenamente reconhecidas são fatos da vida.∗ As questões de que ela Para o leitor brasileiro a argumentação de Linnemann tem significado especial, pois em anos recentes, cursos de teologia, sob diversos nomes, podem ser reconhecidos pelo estado. Entretanto, muitos seminários teológicos continuam sem reconhecimento quer porque não preenchem os requisitos oficiais quer porque muitos seguimentos eclesiásticos preferem manter a educação teológica de seus pastores distante da ingerência do estado. 
  • trata – o que é realmente educação cristã de nível superior? E como os cristãos podem obtêla mais efetiva e biblicamente num mundo dominado por instituições acadêmicas fundamentalmente ateístas? – são freqüentemente levantadas em faculdades cristãs da América, as quais não são tão reacionárias para se preocupar com a assimilação do ensino contemporâneo, nem tão complacentemente sofisticadas para não entender o quanto sua cosmovisão cede terreno para um Zeitgeist (espírito dos tempos) anticristão. Num segundo nível, alguns leitores acharão o livro desafiador porque estão familiarizados com a história das idéias que Linnemann critica. Especialmente no capítulo 1, como também em outro pontos, o leitor encontrará um largo espectro de pensadores, talvez um número maior do que o esperado num livro escrito por alguém treinado principalmente em crítica do Novo Testamento. Alguns leitores verão isso como sinal de fraqueza, perguntando por quê Linnemann não se atém à disciplina na qual ela tem indubitável perícia. A natureza de suas reflexões, entretanto, requerem que ela levante os olhos, e os de seus leitores, para além do confinamento de uma disciplina acadêmica em particular. A discussão de Linnemann é de longo alcance a fim de abranger suas preocupações e aquilo que podemos chamar de seu fardo. Aqueles que questionam, digamos, a relevância de Goethe para a moderna hermenêutica (veja capítulo 1), poderão consultar Jaroslav Pelikan, o qual vê no Fausto, de Goethe “a clássica dramatização das relações negativa e positiva entre ‘a doutrina cristã e a cultura moderna’”.1 Se Linnemann errou em sua tentativa de fazer uma análise da relação entre o método científico e interpretação bíblica no contexto da história das idéias, ela está em boa companhia. Num terceiro nível, aquilo que temos chamado de fardo de Linnemann, também representará um desafio, se não uma pedra de tropeço, para alguns. Deliberadamente, Linnemann não escreveu aqui um tratado acadêmico formal,2 mas, sim, um Buβruf – um
  • chamado ao arrependimento. Isso poderá desapontar aqueles que desejam um tratamento expositivo de conteúdo acadêmico mais sutil e de tom mais suave. Tais leitores terão de ler as obras seqüentes de Linnemann. Talvez este livro desagrade aqueles que não gostam do tom de pregação, especialmente quando isso parecer lhes ser dirigido e acompanhado por um volumoso revestimento de textos das Escrituras citados por Linnemann. O propósito aqui não é o de justificar a maneira de expressão escolhida por Linnemann, mas será bom manter em mente algumas considerações a fim de que a impaciência com a forma não impeça uma contemplação sóbria do conteúdo: Primeiro, o leitor deve se lembrar que o tom ocasionalmente zeloso é perfeitamente compreensível, dada a natureza monstruosa e o escopo do engano contra o qual Linnemann se vê combatendo. Mesmo que os tempos apresentassem apenas a metade do perigo que Linnemann vislumbra, ela teria sido negligente se economizasse palavras ou ficasse limitada a tons mais suaves. Outros escritores na história do pensamento cristão também entenderam que erros drásticos requerem expressões mais fortes. Segundo, deve-se manter em mente as circunstâncias da conversão de Linnemann e os anos precedentes daquilo que ela enxerga agora como falso ensino (ver sua Introdução). Sem dúvida, em dias passados, ela instou com seus estudantes, com entusiasmo e convicção, que a Bíblia continha muitos erros, que milagres jamais seriam possíveis, e que somente a metodologia crítica “científica” seria capaz de apresentar um parecer verídico responsável sobre o significado do texto bíblico. Seria irrealista paras os leitores esperar que Linnemann exibisse menos vigor na promulgação da verdade do que demonstrou na propagação do erro; isso seria hipocrisia de sua parte. Terceiro, é no mínimo possível que Linnemann corretamente afirme que o presente mal na teologia Ocidental – que pode não estar inteiramente desconectado dos prementes
  • dilemas da sociedade Ocidental em geral – necessite de arrependimento, não meramente de mais pesquisa, diálogo ou reflexão crítica. No seu chamado ao arrependimento, vale a pena notar que ela prega somente aquilo que pessoalmente pratica. Se Linnemann desencaminhou-se ao escolher o arrependimento (e uma postura comprometida com a Palavra de Deus escrita e com o Messias) como parte integrante da recuperação da direção espiritual e moral num mundo profundamente atribulado, uma vez mais ela encontra numerosa companhia profética na história da proclamação judaico-cristã. Quarto, os leitores que considerarem excessivo o uso da Escritura em alguns pontos poderão se gabar de conhecer tão bem a Bíblia a ponto de achar redundantes as suas citações. Uma leitura extra de textos familiares não fará nenhum mal, e talvez traga à vista alguns tesouros no novo cenário em que Linnemann os aplica. Se houve um tempo em que o público ocidental conhecia a Bíblia intimamente, esse tempo já se foi. Para muitos leitores, os textos que Linnemann cita não serão familiares. Isso é certamente verdadeiro para a audiência européia que Linnemann tinha em mente em primeiro lugar ao escrever sua obra. Esses são alguns fatores, então, que vale a pena considerar quanto ao tom da obra de Linnemann. Até mesmo se alguém encontrar exceções aqui e ali, tal consideração pode auxiliar na argumentação construtiva ordenada. Um quatro nível de desafio pode ser a representação geralmente tenebrosa que Linnemann faz do presente estado da academia bíblica, e sua drástica prescrição para a mudança. Não estaria ela exagerando? É importante ter em mente que seu quadro referencial primário é a Alemanha Ocidental e seu sistema universitário. Aqueles que são familiarizados com o contexto e sua contrapartida na América do Norte poderão atestar a veracidade de sua tese geral de que a
  • pesquisa bíblica e teológica é buscada com muita freqüência sob os auspícios do ateísmo. Isso quer dizer que não é mais o Deus vivo e verdadeiro, bem como sua Palavra revelada, a Bíblia, que marcam o ponto focal da reflexão teológica. No mundo moderno, como Linnemann corretamente observa, Deus não pode ser conhecido, e a revelação em sua definição tradicional não pode mais ser aceitável ou válida. O foco da teologia é, antes, a experiência humana da maneira definida pelas teorias da moderna ciência social, filosofia, historiografia e outras disciplinas “científicas”. “Deus”, da maneira como entendido pelo pensamento cristão ortodoxo histórico, é sistematicamente descartado em qualquer consideração, e substituído pela autoconsciência humana e por forças puramente imanentes; como é colocado pelos textos de teologia histórica, a antropologia toma o lugar da teologia. Dado a esse ambiente, intimamente conhecido por Linnemann em virtude de seu anterior compromisso com ele, ela tende, compreensivelmente, a apresentar seu caso em termos radicais. Conquanto algumas afirmações possam ser mais aplicáveis ao cenário europeu, dever-se-ia notar que a mesma regra se aplica fora do mundo relativamente pequeno da academia evangélica da América do Norte. Muito, na verdade a maior parte, da pesquisa teológica e bíblica procede sob suposições que não são alinhadas ao entendimento cristão ortodoxo histórico sobre Deus, o homem, e suas relações da maneira descrita na Bíblia. Portanto, a avaliação um tanto severa que Linnemann faz sobre a presente situação e sua prescrição radical para a mudança pode ser de suma importância para o cenário do novo mundo. Muito do que ela diz certamente se aplica à erudição e instituições não-evangélicas – que treinam grande parte dos pastores e educadores teológicos no continente americano. E isso tem relevância direta para a comunidade evangélica de pelos menos duas maneiras:
  • Primeiro, a erudição evangélica é indubitavelmente influenciada pelo mundo acadêmico ateísta que Linnemann descreve. Tem-se presumido, freqüentemente, que isso tenha efeito benigno. Contanto que os evangélicos mantenham corações piedosos e vidas justas, aquilo que passa em suas cabeças, ou aquilo que propõem como sendo teoria crítica, têm importância secundária. Isso, porém, é uma visão míope das coisas. Os efeitos da erudição ateísta, de fato, não são sempre benignos como prontamente se observa na confusão moral rompante hoje nas igrejas cujos líderes e membros têm sido por décadas doutrinados por tal erudição. Os próprios liberais têm expressado desencantamento com o Deus que têm pregado, e alguns têm até mesmo conclamado a um retorno para “uma visão biblicamente informada” sobre Deus, igreja e mundo.3 Segundo, os evangélicos não podem ser complacentes quanto a onde sua própria academia, influenciada como está pela academia mundana em geral, os está levando. Não poucas vozes têm se levantado em recentes anos – podendo-se lembrar de Francis Schaeffer, Carl F. H. Henry e James D. Hunter4 – que expressam a convicção de que o evangelicalismo está, por assim dizer, vivendo com tempo emprestado e se desviando para uma direção não-saudável.5 A educação cristã superior desempenha um papel estratégico aqui, para o bem e para o mal. Sobretudo, alega-se plausivelmente que até mesmo a educação evangélica está, se não em crise, pelo menos não longe disso.6 Em termos mais populares, poucos líderes evangélicos teriam a coragem de afirmar que o atual estado moral das igrejas teologicamente conservadoras e sua liderança estejam acima de reprovação. Em tal situação, o diagnóstico e o prognóstico de Linnemann têm valor primordial, conclamando os evangélicos a considerar seus rumos diante da atual escalada do mal até proporções fatais – assumindo, é claro, que ainda não seja muito tarde.
  • Revisores e leitores críticos em geral também encontrarão muita coisa perturbadora naquilo que se segue, e alguns até mesmo discordarão peremptoriamente. Contudo, eles certamente encontrarão muita coisa, também, que reconhecerão absolutamente verdadeira e que estimulará proveitosa reflexão na vida de estudantes, professores, líderes de igreja e pessoas em geral que buscam a verdade. Minha gratidão a Allan Fisher, Linda Triemstra e Paul Ingram, da Baker Book House, pelo seu interesse e apoio editorial, e à Dra. Linnemann pela sua diligência, prontidão e graça na supervisão desta tradução. Ambigüidades e infelicidades na expressão que ainda restem deverão ser atribuídas ao tradutor e não à autora. Robert W. Yarbrough Wheaton College Wheaton, Illinois 5 de julho de 1989
  • Prefácio Não escrevi este livro sozinha; muitos amigos leais trabalharam comigo por meio de orações. Sobretudo, desejo mencionar minha igreja em Leer, Alemanha Ocidental, especialmente o irmão Hans-Peter Grabe, que serve como líder da congregação. Ele não apenas realizou a obra de intercessão diante de Deus, mas por meio dos seus reiterados encorajamentos, contribuiu para a germinação do livro. Devo agradecer também a meus colegas da agência missionária Christus für Dich (“Cristo para Você”) e à minha irmã em Cristo Gertrud Scholz, que oraram pelo livro e prestaram valiosa assistência na revisão. Acrescentando, devo mencionar minha igreja em Odenwald, Alemanha Ocidental, seu líder, Erling Eichholz, e o círculo de oração liderado pela irmã Elisabeth Hettinger. Agradecimentos são devidos também às minha irmãs no Senhor Lilot Schöler e Ruth Parasic e meu irmãos Gerhard Ullrichs e Martin Shwarz. Meus agradecimentos a todos eles e ao grupo de oração em Hänssler-Verlag, e a todos cujos nomes não mencionei. Sou grata a Friedrich Hänssler por aceitar de boa vontade este livro para publicação. Quero agradecer também ao Dr. R. Yarbrough, o qual fez um excelente trabalho de tradução, e a Baker Book House, que se dispôs a tornar o livro disponível aos leitores de língua inglesa. Dra. Eta Linnemann Batu, Indonésia 1 de Junho de 1989
  • Introdução da autora “Por que você diz ‘Não!’ à teologia histórico-crítica?” Tenho sido confrontada com essa questão, e desejo declarar logo de início: Meu “Não!” à teologia histórico-crítica vem do meu “Sim!” ao meu maravilhoso Senhor e Salvador Jesus Cristo e à gloriosa redenção que ele realizou por mim no Gólgota. Como aluna de Rudolf Bultmann e Ernst Fuchs, bem como de Friedrich Gogarten e Gerhard Ebeling, tive os melhores professores que a teologia histórico-crítica pôde me oferecer. Não me saí mal em outros aspectos também. Meu primeiro livro veio a ser um best-seller. Tornei-me professora de teologia e educação religiosa na Universidade Técnica de Brauschweig, na Alemanha Ocidental. Depois de preencher os rigorosos requerimentos para a livre docência universitária,7 fui agraciada com o título de professor honorário de Novo Testamento na faculdade de teologia da Universidade Phillips, em Marburg, Alemanha Ocidental. Fui arrolada na Sociedade para Estudos do Novo Testamento. Tive a satisfação de receber um crescente grau de reconhecimento da parte de meus colegas. Intelectualmente confortável com a teologia histórico-crítica, estava profundamente convencida de que prestava serviço a Deus por meio do meu trabalho teológico e que contribuía para a proclamação do evangelho. Depois, contudo, baseada em diversas observações, descobertas e resultante autoconsciência, fui forçada a admitir duas coisas que eu não desejava: (1) nenhuma “verdade” poderia emergir deste “trabalho científico sobre o texto bíblico”, e (2) tal labor não serve à proclamação do evangelho. À época, isso era apenas um entendimento prático resultante de experiências que eu não mais podia negar. Desde então, Deus por meio de sua graça e Palavra tem-me dado uma compreensão mais profunda das dimensões teóricas dessa teologia. Em vez de ser baseada na Palavra de Deus,
  • ela se funda em filosofias que ousaram definir a verdade, de maneira que a Palavra de Deus foi excluída como fonte de tal verdade. Essas filosofias simplesmente pressupuseram que o homem não poderia ter nenhum conhecimento válido sobre o Deus da Bíblia, o Criador do céu e da terra, o Pai de nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo. Hoje entendo que o caráter monopólico e a influência mundial da teologia históricocrítica foram sinais do julgamento de Deus (Rm 1.18-32). Deus o predisse em sua Palavra: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos” (2 Tm 4.3). Ele prometeu também enviar “a operação do erro, para darem crédito à mentira” (2 Ts 2.11). Deus não está morto, nem resignado. Ele reina, e já está exercendo juízo sobre os que o declaram morto ou afirmam que ele é um falso deus que nada faz, bem ou mal. Hoje sei que devo esses insights iniciais aos efeitos primários da graça de Deus. A princípio, entretanto, aquilo que entendi levou-me a uma profunda desilusão. Reagi desviando-me para vícios que amainavam minha miséria. Tornei-me escrava da televisão e caí num crescente estado de dependência alcoólica. Minha amarga experiência pessoal finalmente convenceu-me da verdade da declaração bíblica: “Quem acha a sua vida perdêla-á” (Mt 10.39). A essa altura, Deus conduziu-me a cristãos vibrantes que conheciam pessoalmente a Jesus como Senhor e Salvador. Ouvi seus testemunhos daquilo que Deus havia feito em suas vidas. Finalmente, Deus mesmo falou ao meu coração por meio das palavras de irmãos cristãos. Pela graça e pelo amor de Deus eu confiei minha vida a Jesus. Ele imediatamente tomou minha vida em sua mão salvadora e começou a transformá-la radicalmente. Meus vícios destrutivos foram substituídos por fome e sede de sua Palavra e pela comunhão com outros cristãos. Fui capacitada para reconhecer claramente o pecado como sendo pecado em vez de meramente desculpar-me por eles
  • como era meu hábito anteriormente. Ainda me lembro da deliciosa alegria que senti pela primeira vez em que contemplei o branco como branco e o preto como preto; os dois deixaram de se misturar num cinza indistinguível. Cerca de um mês após ter confiado minha vida a Jesus, Deus convenceu-me de que suas promessas eram reais. Ouvi um relato de um missionário da Wycliffe (tradutores da Bíblia) que servia no Nepal. Ele relatou que enquanto estava fora, seu ajudante no estudo lingüístico recém-convertido havia sido lançado na prisão, pois era ilegal torna-se cristão no Nepal. Contou também o que esse novo cristão disse em seu julgamento. Ouvindo o relato das palavras do ajudante lingüístico, ficou claro para mim que ele jamais teria dado tal resposta, baseado em sua própria habilidade. Marcos 13.9-11 surgiu ante meus olhos8 – uma passagem que já havia observado apenas com interesse acadêmico – e não tive alternativa senão admitir que ali estava um cumprimento dessa promessa. De repente, fui convencida de que as promessas de Deus eram reais, que Deus é um Deus vivo, e que ele reina. “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl 33.9). Tudo o que ouvi por meio de testemunhos em meses recentes fez sentido naquele momento. Tomei consciência da estultícia que é, dado o que Deus está fazendo hoje, sustentar que os milagres relatados no Novo Testamento jamais ocorreram. De pronto, ficou claro para mim que meu ensino era um caso de cego guiando cegos. Arrependi-me da maneira como havia enganado meus alunos. Um mês depois, sozinha no meu quarto e à parte de qualquer influência de outros sobre mim, vi-me enfrentando uma significativa decisão. Continuaria a controlar a Bíblia com o meu intelecto ou permitiria que meu pensamento fosse transformado pelo Espírito Santo? João 3.16 aclarou minha decisão, pois eu havia recentemente experimentado a verdade desse versículo. Minha vida agora consistia daquilo que Deus havia feito por mim
  • e pelo mundo todo – ele tinha dado o seu próprio Filho amado. Eu não poderia varrer esse versículo para o lado como se fosse uma afirmativa descomprometida e sem sentido teológico de um escritor mais ou menos gnóstico.9 A fé pode descansar nas firme promessa de Deus; os princípios teológicos especulativos são de mero interesse acadêmico. Pela graça de Deus, eu experimentei Jesus como aquele cujo nome está acima de todos os nomes. Foi-me permitido entender que Jesus é o Filho de Deus, nascido de uma virgem. Ele é o Messias e o Filho do Homem; tais títulos não lhe são meramente conferidos por deliberação humana. Reconheci, primeiro mentalmente, mas depois, de uma maneira experimental, vital, que a Sagrada Escritura é inspirada. Não por causa de um discurso humano, mas por causa do testemunho do Espírito Santo ao meu coração, eu tenho o claro entendimento de que meu perverso ensino de outrora era pecado. Ao mesmo tempo, estou contente e grata que esse pecado tenha sido perdoado porque Jesus o carregou na cruz. Esta é a razão de eu dizer “Não!” à teologia histórico-crítica. Considero tudo o que ensinei e escrevi antes de confiar minha vida a Jesus como refugo. Desejo usar esta oportunidade para dizer que lancei fora meus dois livros, Gleichnisse Jesu...10 e Studien zur Pasionsgeschichte, juntamente com minhas contribuições a periódicos, antologias, e Festschriften.11 Qualquer desses escritos em minha posse, eu joguei no lixo com minhas próprias mãos, em 1978. Peço sinceramente que você faça o mesmo com qualquer deles que você tenha em sua estante. Dra. Eta Linnemann Professora (aposentada) 5 de Julho de 1985
  • Parte 1 O Cristianismo e a Universidade Moderna
  • 1 As Raízes Anticristãs da Universidade A universidade, como um fenômeno da cultura Ocidental, foi desde o princípio uma instituição pagã. “A universidade em Atenas foi fechada por causa de seu caráter pagão (em 529 a.C.)”.12 O restabelecimento da universidade na Alta Idade Média, no final do século 12 ocorreu em junção com o renovado interesse em aspectos da cultura pagã como seu principal objeto de estudo. O corpus juris civilis (corpo de legislação civil) foi o objeto de estudo ao redor do qual a primeira universitas magistrorum et scholarium (universidade de professores e estudantes) reuniu-se em Bolonha, Itália. Esse códice de lei continha regulamentos sancionados na era cristã, mas, como um todo, compunha-se de uma coleção de leis derivadas dos tempos pagãos pré-cristãos. Os escritos de Aristóteles – filósofo pagão – foi o objeto de estudo que levou a fundação da segunda universidade, em Paris. A razão para a extensa autonomia dessa nova forma de instituição reside num interesse científico espontâneo, um imenso desejo de saber e entender em nome da verdade, o qual se dispunha ao risco do conflito a fim de atingir seu alvo. Decidiu-se em Bolonha, sem autorização ou sanção oficial, estudar o código legal do imperador romano Justiniano, que havia sido desconsiderado por 500 anos e que não estava em vigor em lugar algum. Em Paris, a atenção foi focalizada sobre os escritos filosóficos naturais e metafísicos de Aristóteles, então disponíveis pela primeira vez na tradução latina, e que estavam sob suspeição de heresia.13 Escolasticismo O escolasticismo incumbiu-se de “colocar o novo conhecimento racional em concordância com os artigos de fé”14 – um esforço que marcou o tom para todas as asserções teológicas da Alta e da Baixa Idade Média. Isso, porém, provocou uma decisão pesada e fatal! Em vez de levar em conta que todos os tesouros e conhecimentos estão
  • ocultos em Cristo (Cl 2.3), assumiu-se que o homem precisa da sabedoria mundana do paganismo juntamente com a Palavra de Deus a fim de produzir real progresso intelectual. A Palavra de Deus foi reduzida a somente um de dois pontos focais para determinar sabedoria e conhecimento. A Bíblia passou a ser considerada como autoridade apenas nas áreas referentes à redenção e à vida cristã. Aristóteles, em contraste, tornou-se a fonte para todo conhecimento válido do mundo, isto é, para o âmbito das ciências naturais, análise social, etc. A partir daí, em outras palavras, a Palavra de Deus não foi mais considerada como confiável para essas áreas do conhecimento. Mais tarde, a filosofia aristotélica seria substituída pelas ciência recém desenvolvidas que rapidamente denunciaram os erros cosmológicos de Aristóteles com referência à Palavra de Deus. Esse apelo inicial às tradições e escritos da Antigüidade pagã, já na Idade Média, conduziu à institucionalização da tendência à autonomia como parte da essência formativa da universidade. A Sagrada Escritura continuava tendo autoridade; ainda se faziam tentativas de aproximar a sabedoria do paganismo com a intenção de trazer “o novo conhecimento racional à concordância com os artigos de fé”.15 A teologia era a rainha, e a filosofia era declarada sua serviçal. Contudo, não demorou muito para que a mentalidade pagã, tida como serviçal na recém fundada universidade, assumisse a autoridade soberana. A antiga rainha, certamente, manteve alguns direitos civis atraentes por mais algumas centenas de anos. Humanismo Nos primórdios do pensamento moderno, foi tomada temerária decisão, levada a cabo pelas forças da liderança intelectual, de se circundar a Palavra de Deus e buscar direção, alternativamente, na Antigüidade pagã. O humanismo tomou a decisão de fazer do homem a medida de todas as coisas. Essa foi uma renúncia definitiva em relação a Deus,
  • ainda que o humanismo freqüentemente adotasse uma postura completamente piedosa e balbuciasse constantemente a Palavra de Deus. Aquilo que se falava a respeito de Deus não provinha mais da Palavra revelada de Deus, mas sim do espírito humano, cada vez mais distanciado desta Palavra. Isso já se mostra claro na concepção de Pico della Mirandola sobre o valor da humanidade, concepção esta que predominou sobre todo o humanismo: “Deus colocou o homem no meio do mundo sem que lhe desse um lugar seguro, sem uma identidade distintiva, sem uma função especial, conquanto todas essas coisas fossem asseguradas ao restante das criaturas. O homem não foi criado terreno nem celeste; ele pode se degenerar numa besta fera, ele pode ascender aos céus; tudo depende só e inteiramente de sua vontade. É garantido ao homem obter o que ele deseja, ser aquilo que ele quiser ser.”16 Não nos deixemos enganar pela aparente piedade dessas palavras! O que é dito aqui está em plena contradição com a Palavra de Deus. Não o homem, mas Jesus é o centro da criação: Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus. (Cl 1.15-20.) A afirmação de Pico, de que “tudo depende só e inteiramente de sua vontade” e que a humanidade pode “ascender aos céus”, não é de modo nenhum verdadeira. “Pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.16). A Palavra de Deus declara: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos
  • salvos” (At 4.12); “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6); “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia“ (Jo 6.44). Se o humanismo vê a Antigüidade clássica como o padrão absoluto ao qual o cristianismo deve se conformar, como presumido por Laurentius Valla, ou se assume uma posição crítica tanto em relação à Antigüidade, quanto no que diz respeito ao cristianismo, como defendido por Erasmo de Roterdã – ambas as visões permanecem em contradição à revelação de Deus. Até mesmo em sua forma mais positiva, o cristianismo sob a influência do humanismo se degenera em “uma religião iluminada cujo propósito é transmitir os valores da civilização humanista, atingindo seu clímax na etiqueta e moralidade, na ciência e cultura”.17 O humanismo rejeita reconhecer Deus e tomar conhecimento de como ele se revela em sua Palavra. No humanismo, a viva fé cristã se deteriora simplesmente em “cristianismo” que, por sua vez, é mais uma “religião” – a qual, é claro, compara-se com todas as outras existentes. “A religião se torna uma província dentre as outras diversas áreas da cultura. E proporcionalmente à quantidade de áreas independentes que existirem, nessa medida existirão os muitos padrões pelos quais a religião será mensurada.”18 A Palavra de Deus não é mais o padrão no humanismo, mas, antes, ela é julgada pelos padrões da cultura humanista. Dessa maneira, a cultura – o produto do espírito humano criado – substituiu a revelação de Deus, o Criador. A fé em Deus, o Criador e Redentor, foi pervertida numa subdivisão da cultura e da vida do espírito humano. Em conseqüência disso, o homem agora considera a Palavra de Deus apenas como um produto da atividade desse espírito humano. À religião é aquinhoada com aquilo que Schleiermacher denominaria mais tarde de “província piedosa na alma” e de dentro de tais
  • limites ela deve operar. A violação desses limites foi, a partir de então, severamente punida. Quando a carne assume soberania absoluta, como ocorreu nesse caso, ela se opõe a cada manifestação viva do Espírito. Do humanismo, pode-se dizer: Há basicamente uma coisa que obriga o homem, a veritas (verdade); e ela é sempre uma, ainda que assuma diversas formas. “Conquanto os sistemas dos pensadores pagãos e cristãos pareçam divergir um do outro”, afirmou Pico, “eles são basicamente derivados da única e mesma verdade”. O próprio Iluminismo, de forma severa, tornou relativas todas as religiões, de qualquer forma mais radical. A ética do cristianismo foi trazida a esse processo relativista.19 O humanismo, portanto, atribui a condição de verdade a todo produto que venha do pensamento e criatividade humanos. O único padrão que o homem ainda possuía foi dessa maneira feito relativo. 20 Foram dadas então rédeas soltas à subjetividade relativista do homem, a qual por si mesmo era incapaz de fornecer fundamento real para julgamentos e métodos. Agora, sem julgamentos ou métodos, não poderia haver mais comunicação dentro da comunidade científica. Contudo, deve-se observar que os sistemas baseados na ciência e na cultura não têm, sob premissas humanistas, nenhuma base real, antes são fundados sobre nada mais do que arranjos e concordâncias. Segundo essa aproximação, tudo o é ostensivamente verdadeiro e válido se a si mesmo se demonstra como tal com base em sua qualidade inerente. De fato, nada pode ser considerado verdadeiro e culturalmente válido a menos que seja reconhecido pelas forças dominantes que moldam a ciência e a cultura, por aquilo que chamamos de indústria da cultura e da ciência.21 Os métodos da ciência e os sistemas de avaliação culturais proveram um habitat seguro para a humanidade fora da verdade da revelação. Esse habitat, porém, que podemos associar à Torre de Babel projetada para reunir a humanidade, não previne a fragmentação e dispersão do pensamento e da vida humana, antes, é sua causa. A dissidência erguida dentro do sistema é uma característica da indústria da cultura.
  • É inegável que sejam feitos acordos para tornar possíveis as operações em andamento, mas como é que eles são feitos? Autoridades e líderes de tendências surgem, não com base na qualidade de seus trabalhos, mas sim em imponderáveis que nada tem a ver com o valor da obra.22 Dinâmicas de grupo desempenham papel decisivo aqui, e o resultado é uma infra-estrutura de tradição nas disciplinas científicas e na indústria da cultura. As ciências ostensivamente “independentes” são guiadas pelas suas próprias tradições, e a liberdade somente é assegurada ao indivíduo na medida em que o trabalho dessa pessoa puder ser integrado à estrutura tradicional da disciplina. 23 A genuína liberdade de pensamento só existe onde houver verdade, e a verdade está presente apenas em conexão com aquele que é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6). Há verdade somente existe em Jesus. No humanismo, a verdade é substituída pelo reconhecimento, um prestígio envolvido na conferência e aceitação de honrarias. Esse empreendimento é, sem dúvidas, sujeito a manipulação.24 O Iluminismo Em comparação com o aspecto intelectual anticristão do humanismo, o Iluminismo não traz nenhuma coisa nova. Apenas assenta as condições para a execução da agenda humanista. Quando Francis Bacon decretou que “cada verdade (é) encontrada indutivamente”,25 ele reproduziu o estabelecimento do homem como a medida de todas as coisas metodologicamente possíveis. Ao mesmo tempo, as Sagradas Escrituras foram excluídas como a fonte da verdade. Consistentemente com essa perspectiva, ele separou totalmente “o âmbito da razão do âmbito da fé e da religião”26 e definiu a fé como sacrificium intellectus, a capitulação da tentativa de entendimento.
  • Hobbes, que semelhantemente fez uma separação entre fé e pensamento, relegou a questão da fé “ao âmbito inverificável e paradoxal dos absurdos e contradições.”27 Ele afirmou: “Não há conceito no entendimento humano que não surja, antes de tudo, total ou parcialmente, dos órgãos dos sentidos.”28 Dessa maneira, não apenas os fundamentos da alta crítica da Bíblia foram lançados – pois Hobbes já a havia iniciado – mas o ponto de partida do ateísmo também foi igualmente fixado. Spinoza, Descartes, Kant – para citar só alguns deles – apenas declararam mais precisamente o que já havia sido estabelecido nos primeiros estágios do Iluminismo. Idealismo germânico As idéias surgidas no humanismo atingiram sua maturidade no idealismo germânico. O sistema educacional se tornou ainda mais arraigado à imagem do homem conforme o ensino da Antigüidade clássica. O maçom Wilhelm von Humboldt desempenhou um papel estratégico nesse sentido.29 A filosofia do Iluminismo, que coroa suas conquistas em Kant, tomou forma na literatura. Autores alemães do início do período Romântico, tais como Lessing, Schiller e Goethe, por assim dizer, recriaram a humanidade à imagem do quadro derivado dessa filosofia. Por meio da “inspiração poética”30, seus personagens literários tomaram formas vívidas e convincentes. Tornaram-se protótipos do indivíduo moderno; por meio de sanção oficial e de larga distribuição desses escritos em currículos escolares, um “linha modelar” totalmente nova de pessoa foi produzida em massa, como novos carros, idênticos ao protótipo projetado, produzidos na linha de montagem. Depois, aquilo que foi absorvido na escola por meio de vívidos conceitos, foi ainda, com a assistência inestimável e efetiva do teatro, transformado em pensamento abstrato pela universidade.
  • A filosofia de Hegel tomou forma no ensino de história e permeou cada sala de aula – juntamente com os pensamentos de Lessing sobre a Educação da Raça Humana e Idéias para uma Filosofia da História da Humanidade, de Herder. Isso facilitou a aceitação dos descendentes de Hegel, Marx e Engels, os quais por sua vez pavimentaram o caminho para a escola de Frankfurt. Surgiu uma historiografia científica que primeiro excluía Deus como um agente ativo no processo histórico mediante a introdução de “um deus das filosofias” que portava consciência de si mesmo de maneira imanente no curso da história. Esse pseudo-deus logo se tornou supérfluo, mas serviu para eliminar a possibilidade de um Deus real e sua atividade presente na história humana. Dessa maneira, veio a existir uma “ciência” histórica totalmente ateísta. Os comentários acima bastam para dar um esboço da história das idéias – esboço que pode apenas lançar uns poucos raios de luz. Estou cônscia de que a apresentação das conexões é provisional e que muito foi passado por cima. Isso se deve tanto ao tempo quanto a limitações pessoais. Material suplementar está certamente à disposição na literatura evangélica que não tive ainda a oportunidade de consultar. O leitor assim inclinado é encorajado a completar o que tenho esboçado para enriquecimento de seu conhecimento pessoal de informação relevante. Obviamente, eu agradeceria referências a tais informações.31 Intencionalmente, passei por cima da questão da relação da Reforma e da ortodoxia protestante com o humanismo. Não examinei também a conexão entre o pietismo e o Iluminismo. Muito material têm sido escrito nessas áreas. No que se refere à universidade, é o humanismo e o Iluminismo, e não a Reforma e o pietismo, que tem provado exercer influência unilateral de longa duração.
  • Não é meu propósito realizar um debate acadêmico. Quero antes demonstrar como esse segmento da história e suas conseqüências se mostram à luz da Palavra de Deus. Quero também emitir um chamado ao arrependimento, de longa data já em débito. Não escrevo para um público acadêmico, mas para todos aqueles dispostos a serem admoestados pela Palavra de Deus. Para o propósito de levantar as questões mais pertinentes não é absolutamente necessário investigar mais profundamente a história das idéias no Ocidente e suas interconexões. Deve ficar estabelecido que: A sorte foi lançada... • Depois que a Idade Média recorreu à filosofia pagã como meio de obtenção da orientação intelectual; • Depois que o humanismo declarou que o homem é a medida de todas as coisas; • Depois que o Iluminismo decidiu reconhecer como verdadeiro somente aquilo a que se tem chegado de maneira indutiva; • Depois que a premissa inicial de Descartes recebeu aceitação, segundo a qual a única possibilidade de verificação seria mediante a validade conferente da dúvida; • Depois que Lessing, em consonância com Reimarus, proclamou o “abismo” entre “fatos contingentes da história” e “eternas verdades da razão” e tornou popular, por meio de Nathan, o Sábio, a idéia de que ninguém pode dizer o que é a verdadeira fé; • Depois que Kant escreveu sua crítica da razão pura e que seu conceito de “Religião nos Limites da Razão” começou a obter aceitação; • Depois que o Fausto de Göethe implantou em cada pessoa culta a idéia de que “nossa visão é barrada... de ver a realidade espiritual” e aquilo que – segundo a conversa entre Fausto e Gretchen – alguém poderia pensar sobre religião;
  • • Depois que Schleiermacher esboçou as conseqüências da crítica da razão, de Kant, e tentou fundamentar a fé na experiência religiosa humana em vez de na revelação divina; • Depois que Semler estabeleceu o ponto de partida na crítica da Bíblia, como resultado da filosofia do Iluminismo, e tal ponto de partida começou a obter aceitação na exegese bíblica; e • Quando uma historiografia ateísta foi estabelecida.. Os elementos acima alistados adquiriram a condição de ponto de partida intelectual obrigatório entre os eruditos e se tornaram determinante para a universidade. A princípio saudada como “a emancipação da imaturidade do homem, pela qual ele próprio era culpado”32 e nascido juntamente com um otimismo contumaz, após a I Guerra Mundial, este ponto de partida intelectual veio a ser entendido mais e mais como o destino necessário do curso da reflexão humana. De uma maneira ou de outra, esse ponto de partida foi e continua sendo visto como necessário e inescapável, e conseqüentemente defendido com veemência – com a assistência da influência, recursos financeiros e poder político. Na universidade, que desde o início foi uma instituição anticristã, logo não haveria espaço para o pensamento baseado consistentemente na revelação de Deus na sua Palavra.33 A Era da Tecnologia A educação técnica se encontrou certamente tão oposta ao ideal educacional da universidade de Humboldt34 que se tornou necessária a fundação de alguns centros educacionais alternativos. Entretanto, o ponto de partida intelectual da tecnologia estava tão baseado no Iluminismo em cada um de seus aspectos como o conceito de educação humanista idealista. Em ambos os casos, Deus foi metodologicamente excluído desde o início, até mesmo por pesquisadores cuja piedade pessoal era inquestionável. Dessa
  • maneira, a tecnologia e a educação finalmente entraram em concordância, uma vez que o sucesso da tecnologia não podia mais ser ignorado. O sucesso do ponto de partida intelectual ateísta na tecnologia parecia dar sua confirmação definitiva. E essa aparente confirmação estigmatizou toda objeção com a pecha de estultícia. Seria possível fazer oposição ao pensamento que produz as máquinas que usamos diariamente, que organiza o sistema de transporte, que fornece o aquecimento central e a corrente elétrica sem os quais a vida moderna seria aparentemente impossível? Hoje em dia é martelado em toda escola de ensino fundamental que não é possível se opor ao pensamento moderno, que “não vivemos hoje na Idade Média, graças a Deus!” e que até mesmo “estilos de vida alternativos” somente são possíveis à sombra do desenvolvimento tecnológico. Todo estudante que ingressa na universidade tem de aceitar o jugo do ponto de partida intelectual ateísta como uma necessidade inescapável. Esse é um jugo que faz dobrar cruelmente aquele que o carrega, e é colocado sobre o estudante à parte de sua escolha consciente, por meio do objetivo de se completar o curso do estudo em um campo privilegiado – campo dominado pelo ponto de partida ateísta. Mesmo o cristão que freqüenta a universidade recai sob esse jugo. É-lhe permitido, é claro, manter a fé na vida privada, em meio aqueles ao seu redor que vejam a fé de maneira favorável, ou com ironia, ou que talvez compartilhem as mesmas convicções. Entretanto, ele é proibido de reter o Deus vivo e seu Filho Jesus Cristo em seu pensamento acadêmico, ou de lhe conceder qualquer função material nesse sentido.35 Assim, ele retém Jesus em seu sentimento, mas nega-o diariamente em seu pensamento, pois esse pensamento segue os princípios ateístas anticristãos.36
  • O caráter monopólico dos centros de educação fundados no ateísmo resulta em que a totalidade das conquistas técnicas seja creditada à conta do pensamento “científico” ateísta. As pessoas se comportam como fez Israel, quando seu povo pensou que recebia lã e linho, grãos e vinho de Baal, em vez de ser grato ao Criador dessas coisas (Os 2.1-13). Contudo, as pessoas não atinam para a realidade dos efeitos negativos que acompanham as descobertas positivas dessa ciência. Não enfrentam as conseqüências da lei do pecado que continua presente quando alguém toma parte nesse câmbio científico. Em todos os lugares, hoje, esse pensamento baseado na impiedade gera fruto que podemos constatar como amargo. Em todas as áreas da vida o homem tenta hoje ser o capitão do seu próprio navio. Enquanto isso, o navio está fora de controle e muitas pessoas vivem num estado de perplexidade desesperada. A despeito de todo o progresso que a medicina tem feito, ela ainda não debelou a doença. Na verdade, algumas doenças parecem ter sido vencidas, e outras, parecem estar prestes a perder o terror que retinham. Porém, outras doenças irrompem e se espalham. Vista em sua totalidade, a humanidade dificilmente pode ser considerada como mais saudável; pode ser vista apenas como mais dependente dos médicos e da medicina. Conquanto a mortalidade infantil venha sendo vencida, agora o aborto e a esterilização tomam lugar na linha de montagem da moda. Dificilmente uma droga prescrita deixa de causar muitos efeitos colaterais negativos. O progresso tecnológico traz consigo a destruição do meio ambiente numa extensão desconhecida na história humana. Esforços são centralizados na descoberta de meios de destruição (armas atômicas, biológicas e químicas) com o propósito de aniquilar pessoas e nações inteiras. Sem nosso jactancioso progresso tecnológico, isso tudo seria inimaginável. Um grande número de novas armas químicas está armazenado em arsenais à espera de uso
  • eventual. Até o presente, só os poucos cujas ocupações o requerem, têm conhecimento de alguma coisa delas. A despeito de todo desenvolvimento nas ciências biológicas e agrícolas, a nutrição da humanidade não está assegurada. Agora que a humanidade, mediante sua interferência, destruiu o equilíbrio biológico, temos de atentar ao contra-ataque dos seus efeitos, geralmente usando venenos que trazem ainda maior dano. A possibilidade de engenharia genética, um dos resultados do progresso na pesquisa, tem suas vantagens na área da criação de gado, mas também traz um potencial de corrupção para a humanidade. A sociologia, a mais jovem das ciências, conquanto seja considerada como meio para tratar e solver males sociais, foi e tem sido usada largamente para destruir os laços sociais naturais. No lugar da projetada “maturidade” da pessoa pensante, vemos a sociedade moderna apadrinhada pela tirania dos especialistas. Até mesmo nas áreas mais básicas, permite-se que a vida da pessoa moderna “livre” seja ditada por especialistas, os quais, com base na sua perícia ou especialidade (que eles, em geral, não têm demonstrado ser válida em sua própria vida pessoal), tornam-se “autoridades”. No lugar de um Livro, cujo conteúdo é sabedoria de Deus, e pelo qual o homem moderno não quer ser instruído, temos os muitos livros mutuamente contraditórios que reivindicam validade para si mesmos com base em serem “científicos”. A educação sexual pública “baseada na ciência” padroniza e corrompe o comportamento sexual por meio da destruição do senso natural de vergonha. Os especialistas são chamados a falar sobre quantos filhos uma pessoa pode ter (“Dois é o bastante!”), e reivindicam a si a “autoridade” para decidir como esses filhos devem ser criados. Pais pobres e a sociedade colhem os frutos amargos dessa criação,
  • enquanto os especialistas, nesse ínterim, já há muito progrediram para novas teorias sobre criação de filhos. Estatísticas “cientificamente garantidas” e pesquisas de opinião pública que os especialistas produzem com abundância determinam o estilo de vida moderna – estilo de vida que, geralmente, só pode ser descrito em termos de comportamento viciogênico guiado pelo princípio do prazer. Todos esses fatores, considerados em conjunto, leva-nos a uma homogeneização mundial sem precedentes em relação ao pensamento e ao comportamento. O comportamento alternativo é desencorajado; há pressão para a conformação com as normas sociais emergentes. Da projetada e jactada “maturidade” do homem, não há nenhum traço! “Sapere aude! Tenha a coragem de confiar em seu próprio entendimento!” foi o moto do Iluminismo. Foi isso que Kant declarou em sua publicação de 1784, What Is Enlightenment? Sapere aude! já estava implicitamente propagado pelo humanismo. Sapere aude! – essa foi a resolução de não mais aceitar a revelação, mas substituí-la pela autoridade arbitrária da razão. Sapere aude! – essa foi a decisão feita pela “impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Rm 1.18). Deus respondeu a tal decisão com seu julgamento: A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos...(Rm 1.18-22) Aquilo que se aplica aos pagãos que só podem apreender a revelação de Deus na criação aplica-se em maior grau àquele que foi conscientizado da revelação de Deus no seu
  • Filho. “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos”. A história dos últimos quinhentos anos em todas as suas facetas – a história política tanto quanto a intelectual, a história da tecnologia tanto quanto a da teologia – dá claro testemunho da ira da qual Deus nos libertou. Em vista da impiedade temerária com a qual temos nos comprometido, essa história testemunha da abundante graça e da paciência sofredora de Deus. “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos.” (Lm 3.22). O presente estado de coisas é realmente deplorável. A que terrível impiedade (mas de respeitável aparência) nós nos permitimos ser sugados! Por mais de quinhentos anos, nós agora nos ajoelhamos ante uma cultura e ciência que foi anticristã desde o início. Permitimo-nos ser convencidos de que pensamento e criatividade são possíveis somente dentro dessa infraestrutura.37 Dessa maneira, nós calcamos aos pés o dom de nosso Pai Celestial, seu Filho amado, em quem ele nos assegurou todas as riquezas da sabedoria e do conhecimento (veja Cl 2.3). Década após década, século após século, o cristianismo tem aceitado esse sacrilégio e se tornado mais e mais profundamente envolvido nele. Que bondade, que paciência e que misericórdia Deus tem nos demonstrado! Ao mesmo tempo em que a luz do evangelho começou a brilhar uma vez mais, a civilização que vislumbrou seus raios se tornou para a iniqüidade – e Deus se pôs ao lado dela e a susteve com grande amor através dos séculos passados! Quão grande é a obra completa do Gólgota, cujas correntes de bênçãos fluem até mesmo sobre os séculos mais recentes! Não obstante: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o coração” (Sl 95.7-8). Retornemos finalmente Àquele que nos criou. À parte da obra salvadora de Deus consumada quando ele deu seu Filho pelos nossos pecados na cruz do Gólgota, ele nos teria
  • consignado à eterna separação e à agonia do mar de fogo por causa de nossa participação no sacrilégio de tal iniqüidade. E isso é o que ele fará, se não buscarmos refúgio em Jesus como nosso Salvador.
  • 2 Questões Pertinentes com Respeito à Universidade O longo tempo transcorrido durante o qual a cultura e a ciência ateísta e anti-cristã se espalharam e obtiveram influência mundial no “Ocidente cristão” nos tornou indiferentes a essa monstruosidade. É difícil, para nós, ter uma perspectiva crítica sobre algo estabelecido há séculos e que parece auto-evidente. É difícil reconhecer que a história das idéias no Ocidente, abarcando mais de quinhentos anos, seja um terrível e pecaminoso erro. Nós a vemos, juntamente com seu impacto internacional, como um estado de coisas estabelecido – um dogma intelectual moderno a ser mantido, que identificamos como fato inerente com poder normativo para o nosso pensamento. Aquilo que de fato existe é confundido e identificado com aquilo que deveria existir. O fatual assume mais peso do que o normativo e, de fato, torna-se normativo. Além disso, somos tão marcados por essas forças culturais e educacionais que somente podemos nos libertar delas pela graça de nosso Pai celeste, pelo sangue do nosso Salvador, Jesus Cristo, e pela lavagem de água da Palavra de Deus. Consideramos que a obtenção de uma educação moderna seja uma conquista, pois ela nos habilitou a alcançar o ponto em que estamos. Aceitamos a sabedoria convencional que pensamento e criatividade são possíveis apenas dentro dessa infraestrutura. Mesmo que alguém esteja disposto a nos ouvir, levantam-se questões sobre as asserções do capítulo anterior. Essas questões não são facilmente dissipadas. Esse Esboço Histórico É Acurado? Esse delineamento resumido da história das idéias não seria apenas uma descrição simplista que deixa de fazer justiça à realidade?
  • Realmente, nem o humanismo, nem o Iluminismo em seus primórdios, conscientemente implementaram uma quebra com a fé cristã. Houve no máximo a percepção de uma cônscia posição contra o ensino da igreja. Até mesmo o idealismo, de modo algum, pode ser considerado um repúdio total ao cristianismo. Assim, podemos falar de pessoas que foram não-cristãs sem que tivessem sido conscientemente anticristãs. 38 Pode-se achar nomenclatura cristã em filosofias desde Pico della Mirandola, Bacon, Hobbes e Descartes, até Kant, Goethe, e Hegel. A tendência geral da sociedade era ainda cristã. Não era permitido ao ateísmo cru, que este levantasse a sua cabeça hedionda. Até mesmo Lessing se curvou à pressão social, ainda que seus escritos insinuassem que ele teria preferido agir de maneira diferente. Semler declarou expressamente que suas idéias não se destinavam ao povo, mas apenas à inteligentsia, à época, um grupo bem pequeno. Estamos lidando aqui com um processo gradual de infiltração. A natureza anticristã dessa visão é revelada primariamente em sua contradição à Palavra de Deus. É anticristã e ateísta, no sentido de que negligencia Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, até mesmo quando piedosamente balbucia a palavra Deus. Seu deus não é Aquele que se revelou na Palavra, mas, antes, o deus dos filósofos, a quem é atribuído aquilo que o espírito humano imagina. Em meados do século 19, esse pensamento era em geral bastante piedoso, ainda que essa piedade aparecesse com cada vez menor freqüência. A natureza humana rebelde que Paulo chama “carne” (gr., sarx; veja Rm 8.5-8) ascendeu ao poder, apresentando-se primeiramente como “carne” piedosa. Segundo, essa visão da natureza anticristã se torna evidente na medida em que o estudo da Bíblia e da natureza metodologicamente descarta Deus. A Palavra de Deus como a fonte de todo o conhecimento é posta de lado.
  • O pensamento no Ocidente foi des-cristianizado mais ou menos como uma lagarta da borboleta que é devorada de dentro para fora depois que a vespa ichneumonídea deposita nela os seus ovos; os ovos eclodem em larvas que se nutrem do seu hospedeiro. A forma externa da lagarta permanece intacta por algum tempo até que seja finalmente destruída. Poder-se-ia comparar o processo com a maneira como uma casa de madeira é consumida pelos cupins. As vigas que sustentam a casa são destruídas de maneira acobertada até que, plenamente enfraquecida, a casa colapsa. Semelhantemente, estamos vendo no pensamento moderno os resultados daquilo que aconteceu de forma encoberta por longo tempo. É criada a falsa impressão de que a fé cristã chegou ao fim. O que realmente acontece é que uma corrente de ideologia, que foi anticristã desde o início, finalmente tomou seu curso. Essa ideologia, a princípio, mesclavase com a fé cristã; mas no curso de seu refinamento ela rejeitou a fé cristã como essencialmente incompatível. A ilusão de que a fé cristã é obsoleta surge somente porque muitos cristãos identificam sua fé com essa ideologia se apresenta no final do processo. Não reconhecem que o caráter anticristão já estava ali desde o início. A fé cristã, enquanto isso, permaneceu protegida pela graça de Deus – houve sempre os “sete mil” que não dobraram os joelhos diante de Baal (Rm 11.4-5). Sempre houve, todavia, pessoas as quais Paulo descreve como “não... muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento” (1 Co 1.26). Além disso, a fé cristã foi impedida de se desenvolver nos centros acadêmicos de ensino nos quais a noção de ciência concebida de forma ateísta manteve influência monopólica. O acesso a esse mundo foi restrito no sentido de que poucos entram nele sem negar a fé.
  • A situação contemporânea ficou mais confusa devido à mistura sincretista do cristianismo como noções alheias a ele. Contudo, pela graça de Deus, nós podemos agora ver tudo isso de modo claro. Que usemos essa hora de graça para renunciar ao sincretismo pecaminoso e em nome de Jesus estabelecer um novo princípio. “Lavrai para vós outros campo novo e não semeeis entre espinhos” (Jr 4.3). Não Devemos Permanecer no Mundo? O resultado do capítulo 1 não é irrelevante, uma vez que a universidade obviamente também é “o mundo”? Afinal de contas, Jesus não requer que sejamos tirados do mundo, mas que sejamos preservados nele (Jo 17.15). Inicialmente esse argumento parece razoável, mais ainda assim deve-se fazer uma distinção crucial. Se faço compras de alimentos no mundo, o que compro e como é simplesmente consumido e digerido; isso não entra em contato com meu pensamento. Se compro sapatos de um ateu ou pagão, os sapatos apenas tocam meus pés, não meu ser interior. Se trabalho na linha de montagem de uma fábrica, talvez tenha de ouvir conversas vulgares ou blasfemas ao meu redor, mas não sou compelido a absorver tais profanidades em minha mente. Se me assento a uma escrivaninha em um escritório de administração, tenho de dar atenção a leis e regulamentos, mas tais restrições não alteram minha personalidade. A universidade, em contraste, é onde o pensamento é alterado e alinhado com o mundo. Desde que a sociedade iluminista rejeitou a realidade da Queda (Gn 3), juntamente com a resultante depravação humana e a necessidade de redenção, a humanidade tem tentado retratar o pensamento como se fosse uma capacidade neutra, objetiva e efetiva. Tudo aquilo que parece se conformar com as leis da lógica é automaticamente correto e confiável, contanto que se restrinja de maneira monística àquilo que é visível e imanente.
  • Essa convicção de neutralidade, objetividade e a universalidade do pensamento científico é defendido na universidade, onde se assume que o verdadeiro “pensamento” tem de ser “cientificamente baseado”, assim, limitada às auto-restrições desse monismo. Noutras palavras, as ciências que podem ser estudadas numa universidade, cada qual em seu respectivo domínio, reivindicam exclusiva validade para o pensamento humano. Mediante essa estridente advocacia da validade exclusiva, os estudantes que querem aprender a pensar são tragados pelo processo mundial de secularização. São, como já foi sugerido, alinhados com o mundo. Entretanto, a Palavra de Deus nos admoesta: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). Aquilo que absorvemos por meio do nosso pensamento forma o tipo de pessoa que nos tornamos. O dito: “Diga-me com quem andas e eu te direi quem és” reconhece essa suposição. É possível que eu despenda oito ou nove horas por dia em modos de pensamento baseados em premissas ateístas anticristãs sem ser profundamente influenciado? O pensamento científico certamente tem a aparência de neutralidade. Tal pensamento metodologicamente exclui Deus e assim assegura que ele nada tenha a ver com a construção de máquinas, desenvolvimento de produtos químicos que protegem as plantas de doenças, interpretação de poemas e determinação de datas históricas. No entanto, é precisamente essa reivindicação de neutralidade, essa metodológica exclusão de Deus, que se coloca em contradição com a Sua Palavra. Tal aproximação é ateísta e anticristã. Se adoto esse tipo de aproximação, reduzo Deus a um fenômeno periférico, seja essa minha intenção ou não. Sem que perceba, desprezo grandes porções da sua Palavra a cada dia, e brevemente fico apenas com um deus bem pequeno, relevante apenas para minha vida privada, um deus que não pode me apoiar quando me pressionarem os sérios
  • problemas da vida. Essa minimalização, porém, não ocorre por causa de uma limitação de Deus; antes, ocorre por causa da maneira como eu confino o espaço do reino de Deus. Colhemos aquilo que semeamos (Gl 6.7), e essa verdade se aplica também à nossa vida intelectual. A pesquisa cristã, em contraste, se esforça para depender de Deus na seleção do objeto de estudo, nos meios adotados para o estudo, e nos motivos para o estudo. Tenta confiar em Deus a cada passo. Tal pesquisa não pode “ser autônoma e desimpedidamente subjetiva; antes, tem de ter seu ponto de referência e confirmação direta ou indiretamente colocado na Escritura”.39 O mundo pode não concordar com essa confiança, mas pode partilhar dos frutos desse labor. O que dizer sobre os Cristãos nas Universidades? Alguém poderia levantar outra objeção ao capítulo anterior: Nem todos que ensinaram ou ensinam e/ou estudam nas instituições descritas são ímpios separados de Deus. Entre eles sempre houve e há muitos que são “sábios e nobres”. De fato, muitos foram e são filhos de Deus que fazem brilhar seu testemunho por Jesus. Tudo o que você tem dito sobre a universidade não consiste em colocar sob julgamento pessoas que têm trabalhado segundo seu melhor conhecimento, com consciência limpa e com a maior dedicação? Não é arrogância atacá-los dessa forma? Respondo que não é minha intenção atacar qualquer pessoa. A Palavra de Deus nos admoesta: “Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e, então, cada um receberá o seu louvor da parte de Deus” (1 Co 4.5).
  • Não estou tentando pressionar os filhos de Deus nem acusá-los de permanecer nos seus cargos. Enquanto a universidade mantiver seu monopólio, parece que os filhos de Deus terão de encontrar seu lugar nela debaixo da liderança de Deus. Cada um é chamado a um sério auto-exame diante do Senhor, pois “Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai” (Rm 14.4 a). Minha crítica se aplica à instituição da universidade e à institucionalização da indústria da cultura e da ciência. A crítica não é dirigida a indivíduos, mas contra um sistema. Devemos esclarecer nossa relação com esse sistema; precisamos examinar a nós mesmos. Queremos continuar a nos identificar com ele, expondo-nos às suas influências tal como o fizemos no passado? A Palavra de Deus é clara a esse respeito: “Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunhão, da luz com as trevas? Que harmonia, entre Cristo e o Maligno? Ou que união, do crente com o incrédulo?” (2 Co 6.14-15). Ou para citar um escritor recente: As falsas estruturas conceituais humanas, “sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens” (Cl 2.8) e “toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus” (2 Co 10.5) são como a poluição perigosa dos reservatórios de água que servem nossas casas. Elas iludem e destroem indiscriminadamente, especialmente em nossa cultura, a qual trocou seu antigo fundamento pelos do humanismo e do materialismo. A mídia e o mundo da academia têm se unido, de uma ou de outra forma, ao pensamento humanista, de forma que seria correto afixar o termo “humanista” ao título de cada disciplina científica. Deveriam, os membros dessas disciplinas, que sabem de suas obrigações para com a Bíblia, apenas se assentar passivamente e abandonar o campo sem oferecer resistência? 40 Muito do Trabalho Científico Não Tem Sido Útil? Um quarto agrupamento de respostas ao capítulo anterior segue esta linha: Certamente, nem tudo que tem resultado do trabalho científico em anos recentes é ruim. Você não admite que muita coisa deveria ser considerada útil?
  • Concordo plenamente. Falamos antes sobre as duas faces ou lados da ciência. Deus, em sua fidelidade, paciência e misericórdia continua a assegurar suas bênçãos; pela sua graça, ele concedeu muita coisa benéfica e de utilidade durante todos esses séculos de erro pecaminoso. Entretanto, devido a tal erro pecaminoso, coisas boas têm sido corrompidas e transformadas em coisas danosas e destrutivas. Talvez fosse interessante traçar o curso do pecado, graça e julgamento nas particulares disciplinas, mas não é essa a minha tarefa. Farei alguns comentários exploratórios sobre esse assunto no excurso 2. O que deveríamos fazer agora? Podemos, no final das contas, fazer alguma coisa, ou temos de simplesmente lamentar os séculos de erro e nos purificarmos espiritualmente? Podemos fazer surgir, como por encanto, novos centros de ensino? Que forma eles deveriam ter? Essas são as questões que ocuparão nossa atenção no capítulo 4. “É realmente concebível que Deus, nosso Senhor, que reina Todo-poderoso, tenha feito vistas grossas e permitido que séculos de erros se desenvolvessem dessa maneira? Podemos acolher seriamente a noção de que ele escolheu não intervir enquanto gerações após gerações serviram como enganados enganadores? Não deveríamos considerar aquilo que passou e que está aí como aquilo que deveria ser?” A Palavra de Deus nos dá a resposta a tais questões, as quais exploraremos no capítulo 3.
  • 3 O Antigo Israel e o Ocidente Moderno A Palavra de Deus, escrita para nossa instrução, não nos deixa tentando adivinhar uma solução concernente à questão levantada no final do capítulo 2. Ela nos dá conhecimento e iluminação quanto à maneira que as coisas realmente são. Um Paralelo com a História de Israel Os monstruosos desenvolvimentos que temos traçado do curso da História das Idéias no, assim chamado, Ocidente cristão têm um terrível paralelo na história do povo de Israel, no arranjo dos bezerros de ouro em Betel e Dã. Israel dividiu-se em dois reinos, Judá e Benjamim ao sul, e ao norte, as outras dez tribos. Essa divisão havia sido a reação de Deus ao pecado de Salomão. O rei Salomão havia provocado a Deus permitindo que templos fossem erguidos aos falsos deuses de suas mulheres estrangeiras. Essa iniqüidade acrescia-se erro já cometido, a saber, selar casamentos com propósitos políticos, em rebeldia contra as prescrições de Deus. Deus mesmo havia predito seu julgamento para Salomão; ocorreria logo após a sua morte. Enquanto Salomão ainda estava vivo, o profeta Aias informou Jeroboão ele se tornaria rei sobre as dez tribos. Jeroboão se tornou rei das tribos do norte pela graça de Deus e conforme a vontade de Deus – e o mesmo Jeroboão caiu da graça de Deus e carregou consigo o povo que lhe havia sido confiado: Disse Jeroboão consigo: Agora, tornará o reino para a casa de Davi. Se este povo subir para fazer sacrifícios na Casa do Senhor, em Jerusalém, o coração dele se tornará a seu senhor, a Roboão, rei de Judá; e me matarão e tornarão a ele, ao rei de Judá. Pelo que o rei, tendo tomado conselhos, fez dois bezerros de ouro; e disse ao povo: Basta de subirdes a Jerusalém; vês aqui teus deuses, ó Israel, que te fizeram subir da terra do Egito! Pôs um em Betel e o outro, em Dã. E isso se tornou em pecado, pois que o povo ia até Dã, cada um para adorar o bezerro. Jeroboão fez também santuários nos altos e, dentre o povo, constituiu sacerdotes que não eram dos filhos de Levi. No décimo quinto dia do oitavo mês, escolhido a seu bel-prazer,
  • subiu ele ao altar que fizera em Betel e ordenou uma festa para os filhos de Israel; subiu para queimar incenso. (1 Reis 12.26-31, 33) Embora um profeta de Judá lhe falasse junto ao altar em Betel e tornasse conhecidos os julgamentos por meio de diversos sinais, “Jeroboão ainda não deixou o seu mau caminho; antes, de entre o povo tornou a constituir sacerdotes para lugares altos; a quem queria, consagrava para sacerdote dos lugares altos” (1 Re 13.33). Com a instalação dos “bezerros de ouro” em Israel por razões políticas, o pecado da apostasia foi institucionalizado. A inspiração para isso veio de fora de Israel, de lugares em que o boi era considerado como símbolo de poder. Tal pecado já tinha tradição: Aarão tinha forjado anteriormente a imagem de um bezerro. O pecado estabelece precedentes e (des)encaminha para a imitação. O julgamento do pecado de Aarão e dos filhos de Israel aos pés do Sinai teve lugar há não muitos séculos antes. Não tivesse Moisés intervindo, todo o povo teria sido aniquilado. Ainda assim, Moisés acionou uma punição por causa do pecado, na qual 3.000 homens perderam suas vidas. Esse pecado tinha sido expressamente declarado como pecado. Era de conhecimento comum ao tempo de Jeroboão – mas quão rapidamente isso foi esquecido! Poucos séculos antes de Jeroboão, os levitas ficaram ao lado de Moisés quando Aarão procurou instituir ídolos para adoração. Ao tempo de Jeroboão, o profeta que o confrontou junto ao altar em Betel, onde a idolatria tinha sido institucionalizada, não achou nenhuma pessoa que ficasse abertamente ao seu lado. Estaria, o povo de Israel, a esta altura, já corrompido por permitir que o pecado de Salomão ficasse sem confrontação? Teria o povo permitido que o brilho que Salomão trouxera a Israel os cegasse? Estaria o povo contente com o simples gozo da prosperidade que o reinado de Salomão lhes ocasionara? “Eram, pois, os de Judá e Israel muitos, numerosos como a areia que está ao pé do mar; comiam, bebiam e se alegravam.
  • Dominava Salomão sobre todos os reinos desde o Eufrates até à terra dos filisteus e até à fronteira do Egito; os quais pagavam tributo e serviram a Salomão todos os dias da sua vida” (1 Re 4.20-21). Jeroboão fez uso de uma mentira: “Vês aqui teus deuses, ó Israel, que te fizeram subir da terra do Egito!” Ele postou deuses estranhos em Israel. Enganou o povo. O povo simples dificilmente detectaria o engano; esse povo tomou as palavras mentirosas do rei pelo seu valor nominal. Deixaram de ver através do engano. Muitos israelitas bravos e sinceros de coração sacrificaram em Betel ou Dã sem perceberem que as ofertas sacrificais nesses lugares eram uma abominação ao Senhor! Aqueles que estavam em posição de melhor conhecimento – e deveria haver alguns deles em Israel – preferiram manter seu conforto. Nenhum abriu a boca e se colocou em defesa da honra do Senhor. Todos consentiram – por causa do medo? Por causa da preguiça? Por causa da apatia? Não havia uma pessoa que buscasse a Deus, nem um sequer (veja Rm 3.11-18)? Quão horrendo é o caráter humano, até mesmo do velho profeta (1 Re 13! Ao custo da vida do jovem profeta, por cuja morte foi grandemente responsável, ele confirmou que a profecia era genuína. Porém, o chamado ao arrependimento não prosperou. Aquilo que ele sabia permaneceu como uma peça inútil de conhecimento oculto para ele e seus filhos. Não resultou num chamado ao arrependimento que poderia ter incendido a disposição para uma reviravolta radical. Jeroboão assumiu o papel de governante confiável. Ele fingiu estar preocupado com o povo quando, de fato, sua única preocupação era apenas com sua soberania (“Basta de subirdes a Jerusalém”). Ele usou em seu favor a tendência carnal para a preguiça. Em todos os sentidos, ele estava disposto a apoiar as inclinações da carne; nos santuários sagrados, cada tendência pecaminosa religiosamente dourada foi permitida, e todos os que tinham o
  • desejo de se apresentar nesse papel, foram feitos sacerdotes. A carne pecadora e “piedosa” foi estimulada a se desenvolver sem obstáculos. Desenvolvimentos no Ocidente desde a Idade Média Os padrões bíblicos falam por si mesmo, mas eu gostaria de chamar a atenção para diversas observações que caracterizam os desenvolvimentos desde a Idade Média (veja o capítulo 1) e que fazem paralelo com os relatos do Antigo Testamento há pouco considerados: Primeiro, houve poucos – talvez a princípio apenas um – que conscientemente tomaram a decisão de não considerar mais a Palavra de Deus como normativa. Sua condição social conferiu peso à decisão; isso implica que as pessoas já estavam até certo ponto secularizadas e, por isso, consideram essas pessoas em vez de Deus. Uma pessoa, ou a ínfima maioria, se torna a instigadora da tendência. Segundo, a tendência sempre presente para a carne e para o pecado foi fortalecida e recebeu legitimidade por causa da liderança seguida. Essa tendência foi estimulada a desenvolver-se sem quaisquer obstáculos. O padrão tornou-se a vida segundo as tendência carnais em vez da vida dirigida pelo Espírito. A carne, em sua hostilidade a Deus, foi estabelecida e institucionalizada. Terceiro, uma vez que a vida carnal foi declarada como “normal”, uma sedutora contracorrente foi acionada. Assegurou-se a cada indivíduo fazer de si mesmo o que quer que queira. Aquilo que, a princípio, tornava-se possível por permissão oficial e assistência, logo se transformou num direito esperado, como quando no tempo de Jeroboão pessoas desqualificadas eram ordenadas sacerdotes. Cada um poderia fazer o que quisesse na medida de suas habilidades e meios disponíveis. A questão sobre aquilo que Deus tinha em mente não era mais relevante. O homem decidia
  • seus objetivos de vida de maneira autônoma, sem consultar a Deus. Qualquer um que não se conformasse com tal padrão sofreria grande pressão. Quarto, a tendência foi orientada pelo interesse daqueles que estavam no poder. Primeiramente, eram os príncipes que anelavam o prestígio trazido por uma universidade em seus territórios e que esperavam se beneficiar dessa aquisição. Hoje, o prestigio nacional continua a desempenhar um papel, embora interesses econômicos exerçam papel mais influente; tais interesses têm poder para determinar o conteúdo do currículo. Isso pode ser percebido se levarmos em conta o tipo de instrução matemática introduzido já nas escolas de ensino fundamental. No mesmo sentido, tudo é calculado para inculcar a cosmovisão humanista e a “tolerância” que permeia a cada um seu próprio desejo e deixa que cada um seja abençoado como lhe agrada. “Was nicht verboten ist, ist erlaubt Fragt hier keiner, was einer glaubt.”41 Essa é a tolerância militante contra qualquer pessoa que não se permita ser pressionada para encaixar no molde desejável para o cidadão do futuro império mundial unificado. Quinto, a tendência busca um monopólio institucional e se torna fator condicionante. Aquilo que esse monopólio considera como “factual” vem a ter força normativa.42 De maneira circular, o mesmo monopólio fornece álibi à tendência ímpia por meio da participação de muitos que a promovem e, assim, criam uma aura de instituição legitimada. Fazem isso com a melhor das intenções e porque aparentemente não têm outra opção.
  • Sexto, aquele que se compromete com essa instituição não mais vê essas coisas do ponto de vista de Deus. Sua percepção de Deus assume uma qualidade acentuadamente refratária. Sétimo, A visão de Deus acerca dessa instituição é que ela participa do pecado.
  • 4 A Educação Cristã no Nível Universitário Uma educação acadêmica que seja cristã em projeto – não apenas de nome, mas em autêntica obediência ao nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo – somente poderá ser estabelecida em consciente dissociação da moderna universidade européia e sua história, incluindo as emanações histórias como as que tomaram forma na América, África e Ásia. Isso significa também dissociação da prática de instituições em que o ponto de partida intelectual anticristão seja confrontado somente com uma apresentação basicamente evangélica. Não será suficiente que professores e estudantes sejam cristãos e que comecem suas atividades com oração. O conteúdo das atividades tem de ser fundamentalmente transformado desde o alicerce. Áreas inteiras de indagação terão de ser fundadas na Palavra de Deus. “A Bíblia provê a infraestrutura para a indagação intelectual. Sem essa infraestrutura toda ciência será um empreendimento estulto.”43 O empreendimento de colocar à disposição centros de educação de nível universitário que sejam leiais à Bíblia certamente sofrerá objeções críticas. Até mesmo observadores simpatizantes expressão mal-entendidos tais como: “Será um objetivo realmente manejável?” ou “Com o que se pareceria tal coisa, se é que seja realmente necessária?” Consideremos então essas e outras objeções e questionamentos. Objeções a uma Educação Cristã A primeira objeção certamente fará referência à inevitabilidade do resultado dos desenvolvimentos históricos. Seremos acusados de fazer tentativas inúteis para retornar à Idade Média. Um retorno à Idade Média, entretanto, não seria bastante para nós, pois a
  • teologia desse período, como já foi visto, coloca a filosofia pagã de Aristóteles como uma segunda fonte de influência do neoplatonismo cuja presença então já se fazia sentir. Ser-nos-á declarado a impossibilidade de fazer voltar atrás as rodas da história e que teremos de tratar com as condições que encontramos hoje. Duas coisas podem ser ditas quanto a isso. Primeiro esse tipo de conversa é baseado em puro engano uma vez que personifica e atribui poder à história. Esse pode que é inerente a Deus – porque ele governa e dirige os destinos dos povos – retirado dele e dado à história, a qual assume o governo como se fosse um sujeito impessoal. A freqüentemente invocada roda da história parece ser uma modificação da roda de renascimentos, a qual é um conceito familiar nas religiões budista e hindu. Segundo não é de modo nenhum nossa intenção a de voltar atrás ou colocarmo-nos contra o desenvolvimento histórico. Antes, queremos nos tornar para o Deus vivo, nosso Criador e Pai de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Queremos adentrar em sua luz em toda esfera do pensamento, incluindo educação, cultura e ciência, para que ele nos perdoe e mos instrua. Ele foi quem fez a promessa segura de que concederia sabedoria àquele que lhe pedisse (Tg 1.5). Certamente, ele não nos negará a graça para um novo começo. Outra objeção é a de que, dado os altos custos, não haveria como pagar a fundação de centros de educação de nível universitário leais à Bíblia – centros que ofereceriam educação em todo o espectro das disciplinas acadêmicas e que realizariam as pesquisas essencial para levar a cabo a empreitada. O projeto é desprezado como não-realista devido à presunção de que é impossível levantar os fundos para a construção e equipamento desses centros. Seria impossível de se levantar os fundos imensos necessários para a pesquisa. A isso se pode dizer o seguinte:
  • Uma universidade cristã digna do nome colocar-se-ia sob a direção de Deus com respeito à questão daquilo que deveria investigar. Isso aliaria um pouco o custo de muitas áreas dispendiosas que foram iniciadas em oposição à vontade de Deus e que contribuem somente para a glorificação do homem. A dinâmica subjacente a este ponto na universidade é a competição. Isso tem dado origem a um grande número de estabelecimentos e instituições similares. Faculdades leais à Bíblia não teriam necessidade de duplicação de serviços. A investigação cristã da criação tem seu ponto de partida na Palavra de Deus. Isso evita muita apalpadela no escuro que resulta numa série de dispendiosos experimentos. A erudição cristã – no sentido de realmente buscar a honra de Deus – é dirigida pelo Espírito de Deus. Ele pode conduzir diretamente a meios eficientes e econômicos de investigação. Para ser mais sucinto, a objeção assume como certas as condições hoje correntes na universidade e não leva em conta os fatores especiais que poderiam afetar uma faculdade leal à Bíblia. Além disso, deve-se considerar que todos os recursos vêm das mãos do Criador. Ele certamente não negará sua bênção a um empreendimento que começa com o retorno das pessoas a ele com a determinação de que não mais serão cúmplices de seus pecados passados. Tudo é realmente uma questão de bênção de Deus. Basta considerar as instituições cristãs que vieram à existência anteriormente (escolas primárias e secundárias, centros de estudo e faculdades cristãs) para ver quão maravilhosamente nosso Pai dos céus as manteve e cuidou dos seus caminhos. Na verdade, não lhe faltam meios. Um outra objeção que certamente deverá ser levantada: Há total carência de pessoal requerido para o estabelecimento de faculdades, que mantenha o nível universitário e a lealdade à Bíblia, e que cubra satisfatoriamente todas as disciplinas. Pelo contrário, percebo com surpresa e gratidão a Deus que nosso Pai dos céus já tem preparado pessoas nas
  • diversas disciplinas. Ele tem habilitado muitas pessoas para esse empreendimento, as quais também já tem se pronunciado sobre esse conjunto de questões que ora levanto. Realmente, Deus tem preservado, em todas as disciplinas, um ou mais dos “sete mil... que não se dobraram a Baal” (1 Re 19.18). Mesmo que a princípio não seja possível reunir o número de professores necessários para uma única faculdade leal à Bíblia, pelo menos teria sido iniciado o processo de multiplicação de pensadores com mente semelhante. Professores com credenciais acadêmicas adequadas poderiam ser habilitados para subseqüentes faculdades leais à Bíblia. Além disso, parte da informação poderia ser passada usando as possibilidades da multimídia.44 O centro de educação leal à Bíblia não tem de saltar de pronto à existência. É possível se iniciar o programa educacional previsto através de medidas preliminares tais como um ano de estudo introdutório antes da ir para a faculdade em outro lugar. Isso poderá motivar os professores e dar-lhe uma oportunidade para avaliar suas áreas de especialidade à luz da Palavra de Deus. Estruturando a Educação Cristã Prestando serviço ao Corpo de Cristo Um centro de educação leal à Bíblia deveria ser entendido como uma prestação de serviço ao e no corpo de Cristo. O trabalho e a vida tanto dos que estudam quanto dos que ensinam deveriam ser determinados pelo princípio fundamental do discipulado. Isso envolve: • Atenção dedicada à Palavra de Deus (lealdade e meditação diária em relação à Palavra de Deus); • Prática da Palavra (imitação de Cristo, andança na luz e santificação);
  • • Testemunho de Cristo; • Disposição para o arrependimento; • Disposição para servir; • Participação na vida cristã corporativa (responsabilidade mútua na comunhão, dar e receber comunhão, encorajamento e admoestação fraternais, juntamente com a intercessão e o interesse mútuo); • Disposição para trabalhar sob direção de outros; • Orientação da vida sob direção de Deus; • Aguardo na presença do Senhor. Deve-se presumir que os professores exibirão tais qualidades segundo graus pessoais de maturidade espiritual. Quanto aos estudantes, o centro de educação leal à Bíblia participa da comissão dada por Jesus: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações ... ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.19-20). Ser um discípulo de Cristo num ambiente acadêmico não pode ser aprendido meramente antes da experiência educacional, mas tem de ser parte da educação. Por isso, tal instrução não pode simplesmente servir aos interesses da competência profissional. Tem de manter diante de si o objetivo de ajudar os estudantes a crescer na emulação de Cristo. Da mesma maneira, terá de manter a comunhão cristã, da qual a responsabilidade corporativa cotidiana é uma necessidade incondicional, por dois ou três anos, pelo menos. Um ano apenas é um período muito curto para produzir o impacto necessário. Colocando a Palavra de Deus no Centro Uma vez reconhecido que a Palavra de Deus é o fundamento de toda a educação, os estudantes, sem considerar diferentes especialidade, deveriam receber um bom
  • embasamento na Palavra. Isso inclui tanto a informação sobre a Bíblia quanto o entendimento sistemático daquilo que a Bíblia ensina. A apresentação sistemática do que a Bíblia ensina deveria cobrir áreas tais como o plano de Deus para a salvação, uma apreensão plena dos conceitos bíblicos básicos, e fundamentos de uma hermenêutica realmente bíblica. Junto com a informação sobre a Bíblia e com o entendimento sistemático daquilo que a Bíblia ensina, os estudantes deveriam ser ensinados sobre as bases bíblicas para todas as áreas de estudo. Isso seria requerido de todos os estudantes, com especialização adequada a cada disciplina em particular. Nem Teologia nem Filosofia Fundacional• Recomendo que se evite a inclusão da teologia como assunto básico. O próprio conceito de teologia, em minha opinião, traz exagerada conotação de sistemas humanamente concebidos. Isso poderia facilmente orientar os estudantes na direção errada. Eles não deveriam ser instruídos em construtos teológicos; deveriam, antes, tornarem-se arraigados de maneira mais profunda e larga na própria Palavra de Deus, a qual provê a infraestrutura cognitiva para o trabalho em particulares disciplinas. A filosofia, semelhantemente, parece-me problemática como objeto basilar, até mesmo quando existe a tentativa de atribui-se novo conteúdo transformando-a em uma teoria cristã da ciência. Em longo prazo a tendência básica dessa disciplina em sua concepção original acabará mostrando suas cores verdadeiras. Haveria um espaço legítimo para a filosofia num centro de educação leal à Bíblia? A filosofia tal como tem sido ensinada na universidade tem diversos aspectos. A ênfase Nota do trad. para o português: O termo fundacional é um neologismo necessário para diferenciar do termo “fundamental”. Para um estudo sobre o assunto, ver Davi Charles Gomes, “A Suposta Morte da Epistemologia e o Colapso do Fundacionalismo Clássico”, Fides Reformata, Centro Presbiteriano de PósGraduação Andrew Jumper, Vol. V., No. 2, Julho-Dezembro 2000, os. 115-42. 
  • repousa na história da filosofia – a escolha, avaliação e vista geral dos vários sistemas filosóficos. Menor ênfase é dada ao novo sistema filosófico que emerge dessa história, tanto como aplicação da visão geral dessa disciplina quanto (raramente) como resultado de um novo ponto de partida genuinamente original. Outros aspectos da disciplina incluem os fundamentos filosóficos da ética assim como os de áreas particulares, tal como filosofia da arte e da história. Uma filosofia cristã é uma contradição de termos. Nós, cristãos, não devemos nos entregar à busca da sabedoria e da verdade por causa do amor à sabedoria humana. Deus se nos revelou em seu Filho e em sua Palavra. A busca da verdade que vá além da Palavra de Deus implica em pecado. Revolver antigas e novas filosofias para coletar lascas úteis de verdade e de conhecimento é uma empreitada duvidosa; a busca acaba abandonando as fontes de águas vivas e construindo cisternas rotas que não retêm água (Jr 2.13). A história da filosofia é a história da sabedoria humana pela qual o homem suprime a verdade de Deus em favor da injustiça (Rm 1.18). Ela deve ser avaliada espiritualmente à luz da Palavra de Deus. Tal análise da história da filosofia é certamente uma área essencial de estudo numa universidade cristã. Não deveria, entretanto, ser estabelecida como disciplina distinta, mas como parte de uma área maior de crítica (veja no subtítulo que se segue). Se não for assim, haverá o perigo de uma desastrosa mudança de ênfase. A filosofia é transformada outra vez em um fim em si mesma, e surgem os filósofos “cristãos”. Devido ao compreensível compromisso ao assunto que representam, seus professores se dispõem então a legitimar a filosofia “cristã”. Seu zelo e exemplo levam outras pessoas a se desviar da simplicidade da Palavra de Deus, para as arrogantes estruturas do pensamento humano. Submeter a história da filosofia à área da crítica protege os professores e os estudantes.
  • É certo que os pais da igreja, tal como Agostinho, usaram o pensamento filosófico. Não deveríamos, no entanto, considera-los como exemplos encorajadores a serem emulados, mas, antes, advertências para sermos vigilantes no sentido de que não abandonemos a fonte de águas vivas. Vejo como infeliz a declaração de Agostinho, em De doctrina christiana, de que os cristãos podem usar o espectro das ciências pagãs da maneira como os israelitas usaram os valores egípcios. Deve-se observar de passagem que essas mesmas riquezas foram provavelmente o material de que foram feitos os bezerros de outro, no Sinai. Infelizmente, os bezerros de ouro do cristianismo foram feitos das riquezas das filosofias pagãs. Fazendo a Crítica Fundacional “Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (1 Co 2.15). “Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as coisas desta vida!” (1 Co 6.2-3). Em face do ataque movido por este mundo, nós, cristãos, temos de adotar uma postura defensiva na área da crença cristã; temos apelado à apologética. Seria mais interessante, entretanto, assumir uma posição de crítica baseada na Palavra de Deus com respeito ao mundo que confrontamos. Desde de o surgimento do humanismo, costumamos a ter nossa fé criticada em cada canto do ensino acadêmico. Deveríamos considerar, desta vez, aquilo que a Palavra de Deus tem a dizer sobre essas áreas acadêmicas. Afinal, em algumas situações, a melhor defesa é o ataque. Sobretudo, dessa maneira evitaremos nos encontrar exatamente nos mesmos passos que o mundo. Não seremos culpados de esconder do mundo a Palavra clara que fomos comissionados para proclamar.
  • Pela graça de Deus, temos visto mais e mais sinais dessa clara proclamação baseada na Palavra de Deus. Autores tais como Francis Schaeffer e Arthur Ernest Wilder podem ser citados como exemplos populares, e publicações em séries como Wort und Wissen, Wissen und Leben, e Tagesfragen seguem a mesma linha.45 Em contraste, a apologética se propõe a lidar com ataques diretos à Palavra de Deus. Tem uma função primariamente defensiva. Podemos vê-la como uma disciplina incluída o título mais abrangente da crítica, embora seja preferível discuti-la em conexão com cada particular área de estudo sob ataque. Proponho uma organização do âmbito intelectual da crítica da maneira como esquematizada na fig. 4.1:46 Fig. 4.1 O Âmbito Intelectual da Crítica   Crítica da Filosofia (Philosophie)  Crítica da Arte (Künste)  Crítica das tendências intelectuais coetâneas (Zeitsrömugen)  Crítica da Apologética (Apologetik)  Crítica das Ciências (Wissenschaften) a) Crítica geral e crítica das filosofias da ciência b) Princípios, teses particulares ou resultados de relevância especial c) c) Crítica das particulares disciplinas científicas Crítica das Heresias (Härsien)  Crítica do pecado em evidência na vida coetânea (Zeitsünden) Ex.: promiscuidade, aborto, homossexualismo, ocultismo Projetando Cursos para Enriquecer Ministérios Estudantis Uma vez que a faculdade é reconhecida como uma organização de serviço, os cursos de estudo devem se alinhar aos objetivos dos futuros ministérios dos estudantes. O estudo formal se coloca a serviço da auto-realização e do desenvolvimento harmônico da personalidade; objetiva antes facilitar o melhor preparo para o ministério à frente.
  • Espera-se dos estudantes que concentrem seus esforços em seu trabalho, o que se expressa em estudo disciplinado e eficiente. Unindo Teoria e Prática, Estudo e Ministério Planejar o curso do estudante com vistas ao futuro ministério implica inevitavelmente uma constante mistura de teoria e práxis. Isso não ocorre apenas por causa do tipo de serviço para o qual estudante se prepara para realizar, mas também porque o estudante já foi chamado para o serviço do Senhor. Atividades missionárias e oportunidades normais para o ministério cristão devem estar firmemente embutidas no curso de estudo. Avaliando Mais do que Desempenho Acadêmico Precisamos apresentar, em algum lugar, o que temos feito e por algum tempo no instituto Bíblico, em Batu, Indonésia, onde leciono na época deste escrito: Os estudantes são avaliados não somente na base de seu desempenho acadêmico, mas em vista de sua maturidade espiritual e da qualidade de seu serviço espiritual. Organizando uma Instituição Cristã Não se deve esperar que uma instituição educacional leal à Bíblia seja plenamente estabelecida de um só passo. O plano deveria ser o de alcançar o objetivo por meio de estágios. No sentido dessa finalidade, diversas questões fundamentais já têm sido discutidas e colocadas, e diversas aproximações têm sido mencionadas. Já existem centros isolados de educação teológica.47 Já existem também instituições em que os estudantes podem buscar um ano de estudo concentrado de um ponto de vista cristão, antes de entrarem na universidade secular.48 Há planos em execução, na Holanda, para uma universidade completa. Preocuparse-á primeiro com as disciplinas que tem sido especialmente atacadas pela moderna
  • cosmovisão anticristã, e desenvolverá de início programas nas áreas de teologia, jornalismo e pedagogia. Vem também da Holanda uma observação útil com respeito ao custo das várias disciplinas. Aqueles que puderem ser estabelecidas mais economicamente deverão ter preferência no desenvolvimento inicial.49 À luz dessas várias observações, talvez a seguinte estratégia para uma seqüência de ação se mostre funcional: Primeiro estágio de desenvolvimento: um ano de estudo básico para estudantes de todas as disciplinas. Parte do conteúdo de estudo seria geral, parte especificamente relacionada a particulares disciplinas. Segundo estágio de desenvolvimento: educação teológica. Além do estudo básico, ocorreria o treinamento teológico para preparar estudantes como pastores, evangelistas, missionários e professores de religião de nível primário e secundário.50 Poderia haver também treinamento de professores de nível primário e, ainda, teorias educacionais sociais, jornalismo e possivelmente instrução básica em música eclesiástica. Terceiro estágio de desenvolvimento: treinamento de professores. No nível secundário, tal treinamento poderia compreender disciplinas inteiras em áreas tais como lingüística, estudos religiosos (incluindo religiões mundiais e fenomenologia da religião), direito e economia. Quarto estágio de desenvolvimento: cursos de extensão. Seriam incluídos programas tais como ciências naturais, medicina e farmácia.
  • Excurso 1 Estudos Gerais para o Estudante Cristão Uma vez que a universidade moderna emerge de um espírito anticristão, temos necessidade urgente de um centro de educação cristã de nível universitário. Os aspectos principais da educação que desejamos que sejam oferecidas não incluem apenas professores e estudantes que se coloquem seriamente sob a Palavra de Deus e em oração do início ao fim de suas atividades. Requerem também que tudo aquilo seja ensinado e pesquisado seja repensado com base na realidade de Jesus Cristo, em quem todos os tesouros da terra estão ocultos (Cl 2.3). Cada disciplina em particular tem de ter suas bases na Palavra de Deus. Precisamos de um centro de educação aliado na verdade e baseado na verdade. Tal re-orientação das disciplinas é uma tarefa cuja execução está ainda à nossa frente; isso leva tempo. Os professores precisam de motivação interior para se mover nessa direção, e aqueles que lideram a educação superior têm necessidade urgente de orientação antes de serem expostos ao ambiente anticristão dos estudos universitários. Ambos precisam ser adequadamente ajustados por um curso de um ano na forma de uma faculdade cristã. O semestre introdutório oferecido pela Wort und Wissen51 não poderia ser competitivamente suplantado pelos estudos gerais que divisamos, mas poderia ser incluído e classificado em bases mais compreensivas. A designação de “estudos gerais” facilitará a obtenção de credenciamento, pois corrobora o fato de que estaremos oferecendo um nível de instrução inicial e não meramente uma disciplina relacionada. Instituições comparáveis na área de teologia incluem os programas de um ano oferecidos em Breklum e Krelingen.
  • Afiliações Organizacionais Há diversas razões para a tentativa de utilizar os recursos de escolas patrocinadas por associações evangélicas não-denominacionais.52 Primeiro, por trás dessas escolas estão organizações que podem suportar a carga. Elas têm condições de levar adiante a tarefa adicional por meio de suas orações e de seu labor. Segundo, as próprias escolas e os cristãos associados a elas incluem um conjunto de profissionais qualificados e competentes com especialidades que podem ser utilizados no nível introdutório da educação superior. É importante que os professores sejam residentes a fim de dar à educação uma continuidade, a qual fica ameaçada quando o ensino é provido em sua maior parte por professores convidados de outros lugares. Terceiro, os recursos físicos e técnicos de tais escolas são às vezes muito superior aos encontrados até mesmo em escolas oficialmente credenciadas. De qualquer maneira, é provável que elas preencham o suficiente para as atividades estudantis de pelo menos os dois primeiros semestres. Quarto, as salas de aulas dessas não são, como regra, usadas no período da tarde, e algumas delas nem no período da manhã não estão repletas. Vida em Comunidade Uma vez que a faculdade é definida pelo princípio básico do discipulado, e uma vez que os estudantes deveriam obter prática nesse mister por meio de uma vida de responsabilidade comunitária, a faculdade precisa ser mais do que uma escola em termos de um centro de educação: precisa de um complexo próprio para servir como centro de convivência. Em longo termo parece ser razoável planejar acomodações para abrigar duzentos ou trezentos estudantes, ainda que cinqüenta a setenta seria suficiente para o início. Os estudantes se obrigariam a viver no centro para que a impressão seja compreensiva.
  • Nos grupos menores de estudantes, no centro, cada estudante seria alojado com outros estudantes de diferentes disciplinas a fim de que haja a otimização da troca interdisciplinar. Isso promoverá também a otimização das conexões interdisciplinares. Esses pequenos grupos nutrem a vida espiritual do centro de convivência maior. O Curso Talvez se prove possível a combinação da mistura de cursos agendados e nichos a serem preenchidos por professores convidados. Dessa maneira, poderá ser preservada a continuidade e mais plenamente utilizados os recursos de cientistas de todas as disciplinas. Palestras feitas por professores convidados deveriam ser obrigatórias para todos os estudantes, sem distinção de suas particulares áreas de estudo. Palestras especiais deveriam ser abertas para a maior audiência externa possível. Seminários, por sua vez, deveriam ser reservados para os estudantes de particulares assuntos, aqueles cujas disciplinas escolhidas os identificam com grupos discretos. O objetivo é o de representar o espectro total daquilo que é encontrado na universidade. Dever-se-ia cobrir todas as áreas essenciais de estudo. Medicina se encontra dentro das áreas das ciências naturais, as quais se encontram no término dos estudos. O currículo deveria dispensar assuntos exóticos. Algumas palestras podem ser atendidas por todos os estudantes em geral. Outras palestras são projetadas para grupos mais específicos de talvez quinze a vinte estudantes de disciplinas relacionadas. Outras, ainda, são para grupos de cinco a dez estudantes que compartilham a mesma disciplina. Os pequenos grupos promovem também estudos bíblicos relacionados ás suas disciplinas.
  • Cada estudante, portanto, deveria estar integrado em duplo sentido, integrado em função da interdisciplinaridade dentro do centro de convivência e integrado em termos da disciplina dentro dos grupos de estudo. O plano de estudo deve ter flexibilidade. Os cursos oferecidos devem ser reorganizados de tempo em tempo para permitir o concurso de palestrantes convidados, mas isso na deveria interferir com o nível de instrução geral. Objetivos Educacionais Durante o primeiro ano de estudo, os alunos deveriam se levados a se arraigar e basear na Palavra de Deus, progredindo no discipulado. Todos os estudantes, independente da disciplina, receberiam um bom fundamento bíblico. Adquiririam extenso conhecimento sobre a própria Bíblia e obteriam uma compreensão sistemática dos seus ensinos. Os estudantes deveriam ter facilidade para reavaliar o treinamento que receberam em escolas não-cristãs, à luz da fé cristã. Falsas premissas e danos espirituais causados deveriam se retificados. O ponto de partida fundamental do espírito anticristão na cultura e na ciência deveria ser bem entendido. A atitude do estudante deveria ser desafiada por um curso de estudo significante. Isso deveria ocorrer de tal forma que ele não fosse alienado da Palavra de Deus, mas, antes, a penetrasse e descobrisse a sabedoria de Deus para todas as áreas de sua vida. A orientação acadêmica geral e especializada deveria resultar em que o estudante adquirisse as ferramentas básicas para estudos seqüentes efetivos. As condições do estudo deveriam levar a uma atitude adequada em relação ao trabalho acadêmico e à competências nas disciplinas específicas. Isso requer trabalho árduo! Contudo, deveria ser acompanhado de maior alegria e ainda maior efetividade do que poderia haver num ambiente secular, por meio de orientação significante.
  • A estrutura anticristã da universidade deveria ser criticada, e os estudantes deveriam reconhecer até que ponto as premissas básicas da assim chamada ciência em várias disciplinas são de fato deduções baseadas em pressuposições anticristãs. As bases cristãs das diversas disciplinas, propriamente entendidas, deveriam ser apreendidas levando-se em conta pontos de vista que permitam novos pontos de partida para um entendimento cristão dessas mesmas disciplinas. A partir desses novos pontos de vista, nosso conceitos de disciplinas poderão proliferar com base na Palavra de Deus. A universidade deveria ser vista como campo missionário em seu próprio lugar. Plano de Estudo Geral O currículo e a experiência universitária deveriam ser projetados ao redor de dez elementos: 1. Comunhão dinâmica sob a Palavra de Deus 2. Informação aprofundada sobre a Bíblia 3. Exposição sistemática daquilo que a Bíblia ensina 4. Análise da universidade em suas concepções não-cristãs (derrubando o engano de uma “neutralidade da ciência” e desmascarando as implicações da filosofia da ciência, assim como as das bases e estruturas anticristãs das diversas disciplinas em instâncias gerais e específicas). 5. As bases cristãs das diversas disciplinas, propriamente entendidas. 6. Orientação geral aos métodos de estudo, incluindo, mas não limitado a: uso da biblioteca (pedidos de livros, como usar os vários índices, quais são os itens bibliográficos disponíveis para as várias disciplinas, e como encontrar e usar o material reservado e que devem ser lidos em conjunção com palestras); o uso de formas padrão para a escrita de trabalhos científicos; indicadores de pesquisa
  • conjunta e obtenção de adequada completitude; como utilizar livros efetivamente – os que permitem prontos destaques ou consulta e os que devem ser tratados diferencialmente; uso de fichário; leitura veloz e produtiva; e uso efetivo de palestras. 7. Orientação para o estudo de disciplinas específicas (permitindo maior entendimento dos pontos 5 e 6). Isso deveria incluir: modos de indagação específica à disciplina; insight na estrutura da disciplina e em suas subdivisões; visão geral da literatura fundamental de uma disciplina; plano de estudo; e estratégias de sobrevivência para enfrentar o ambiente anticristão da disciplina. 8. Aquisição de informação e habilidades relacionadas a disciplinas específicas mediante cursos básicos requeridos antes de estudos avançados. 9. Introdução geral, mas específica, a oportunidades para o serviço missionário e atividades correntes no campo missionário da universidade, combinadas com atividades evangelísticas práticas. 10. Esportes e tempo de lazer significante, conduzidos com equilíbrio.
  • Excurso 2 A Confiabilidade do Pensamento Estamos acostumados a considerar o pensamento disciplinado e regulado pela ciência como sendo coisa confiável. Além disso, estamos acostumados também não apenas a distinguir entre fé e pensamento, mas a separar um do outro, de maneira que a fé é banida do domínio do pensamento, e o pensamento se exila do domínio da fé. Ambos esses contumazes pontos de vista são altamente enganadores. O pensamento disciplinado e cientificamente regulado53 é, de fato, comunicável e, portanto, torna possível a atividade interpessoal. Entretanto, ele é limitado pelo pecado e tem se furtado à verdade por meio de seu comprometimento com os modos de pensamento (quer dualista quer monista) antropocêntrico e reducionista Mediante uma decisão anticristã, o pensamento é definido pela exclusão de Deus. Nessa percepção da realidade, não é permitido se levar em conta o Criador da realidade. O pensamento dessa descrição, portanto, a despeito de sua ordenação lógica, vagueia fora do âmbito da verdade.54 Não será pensamento aquilo que for separado fé da qual deveria depender, mas, antes, somente é pensamento aquilo que é guiado pela fé e baseado na Palavra de Deus. Somente a pessoa que experimentou o novo-nascimento e que vive no temor do Senhor, o princípio da sabedoria, pode alcançar o verdadeiro conhecimento – o que não nega que a ciência chegue ao conhecimento correto em certos casos particulares. O estudante tem a impressão, contudo, de que seu pensamento (no qual ele têm sido treinado por meio de estudos cada vez mais regulado pelas premissas das disciplinas tradicionalmente aceitas) é confiável. Na verdade, o estudante apenas experimenta o funcionamento do sistema de código do qual se apropriou. Esse sistema se destina a facilitar a comunicação, pelo menos entre os “iniciados” na sua linguagem.
  • Para aqueles que não são iniciados, o uso do códice prejudica a comunicação. O estudante não reconhece o código como meio de comunicação; antes, erroneamente, identifica-o como verdade. Ele crê que essa nova grande verdade poderá restaurar a comunicação para aqueles que não são “iniciados”. É-lhe demonstrado que eles também podem adentrar o “conhecimento”. O estudante se torna então um missionário da teologia histórico-crítica ou ciência natural evolucionária. É facilmente presumido por algumas pessoas que o estudante iniciado, que tem feito estudos formais, sabe mais do que uma pessoa leiga. A “atividade missionária”, portanto, é altamente efetiva e pavimenta o caminho para a incerteza e a dúvida nas pessoas influenciadas. Em suma, o estudante que cursa ou já completou seus estudos críticos está, geralmente, convencido da confiabilidade do pensamento científico. Hoje, certamente, os filósofos da ciência estão cada vez mais conscientes da crise fundacional nas ciências,55 ainda que ela não seja ainda largamente conhecida ou aceita. Prevalece ainda a impressão de que o pensamento científico é confiável. Essa impressão, porém, não corresponde à realidade. Em suas raízes repousa a confusão entre o sistema funcional de código – por meio do qual concordamos em conversar sobre a realidade – e a própria realidade. A realidade, contudo, é o Deus triuno, sua criação, e sua revelação. Ainda assim, alguém poderia dizer, a confiabilidade do pensamento parece ser demonstrável em vista de sua justificação na medicina e na tecnologia. Ora, nós já mencionamos as “duas faces” da medicina e do progresso tecnológico. Não obstante, é preciso ser mostrado mais uma vez que todas as invenções válidas são imitações ou aplicações de obras da criação de Deus. Os princípios de Deus aplicados na sua criação são reconhecidos e re-aplicados. No máximo, então, as ciências naturais são um re-pensamento
  • dos pensamentos de Deus. A produção do papel a partir da madeira foi aprendida da vespa; a aeronáutica, de pássaros; o princípio do vôo do helicóptero, da libélula, para citar apenas alguns dos exemplos mais marcantes. Pesquisadores acham suas idéias na criação, e aquilo que inventam funciona corretamente à medida que eles aplicam corretamente s princípios já presentes na criação. Enquanto as os cientistas naturais lidarem com aquilo que “objetivo”, estão lidando com a criação. Assim, eles tem um corretivo para seu pensamento, quer percebam isso quer não. Seu pensamento é baseado em alguma coisa mais do que seu próprio pensamento. Existe, entretanto, o perigo de perverter os insights obtidos da criação de Deus por meio da influência de tendências inimigas de Deus, do homem e da criação. Surge uma arrogância pela qual os princípios descobertos na criação são usados para exceder seu limites. Aeroplanos a jato, projetados com base nas descobertas possibilitadas pela criação, vão além de tudo antes encontrado na criação, com resultados danosos para o ambiente. Igualmente, há uma tendência para considerar todo o que pode ser explorado como algo de deveria ser explorado. Essa tendência não é apenas largamente aceita; ela é estruturada na própria essência da empresa científica. A ciência não reconhece limites para suas investigações. Isso somente poderia ser feito pelo lado de fora. Tem havido, porém, pouco sucesso na colocação de tais limites, e em longo prazo parece haver pouca possibilidade de que sejam colocados. Enquanto a nossa sociedade continuar a dar à ciência o reconhecimento que ela goza hoje, ela reivindicará o direito de investigar tudo o que desejar, e alcançará sucesso, pois foi posto o julgamento de Deus sobre os desígnios da humanidade decaída (veja Gn 11.6: “...não haverá restrição para tudo que intentam fazer.”) Somente com base na redenção em Jesus Cristo haverá possibilidade para um medida escolar que fuja à preocupação compulsiva com o “progresso”. Isso é vital, pois, da
  • maneira como as coisas estão, os resultados de pesquisas tem sido indiscriminadamente aplicados – tais com,o armas atômicas, biológicas e químicas, e manipulação genética. A “invenção útil” (por exemplo, a máquina de respiração artificial) não pode ser separada de seu contexto maior. De fato, as invenções úteis funcionam como um álibi para muito do que se passa por aí. O cientista natural cristão também está implicado nessa estrutura. Ele pode até mesmo assumir obedecer a Deus dentro dos parâmetros estabelecidos pela ciência, mas ele não tem influência nenhuma sobre tais parâmetros, nem mesmo se suas pesquisas obtiverem reconhecimento. Tais resultados serão rotulados como “conquistas científicas” e atribuídas ao valor da ciência. O cientista natural que é cristão, parece-me, podem fazer tanto para influenciar o rumo da pesquisa nas ciências naturais quanto um nadador poderá fazer para mudar o curso de um transatlântico luxurioso, saltando na piscina e nadando na direção oposta ao navio. Se Deus quiser que um cientista natural regenerado trabalhe nesse campo numa universidade ou instituto de pesquisa, certamente o fará uma bênção e abençoará seu trabalho. Sua pesquisa será predominantemente positiva, enquanto a de outros no mesmo papel poderia ter efeitos destrutivos. Entretanto, ele precisa contar com a possibilidade de estar servindo de álibi e como cartaz de propagando para algo mais. O que é desastroso é que exemplos das ciências naturais são usados para se tentar estudos avançados nas humanidades. Exemplos derivados de invenções científicas úteis são usados como iscas para atrair estudantes aos anzóis da filosofia ou para a teologia históricocrítica. As letras tentam dessa maneira capitalizar as ciências naturais como uma pessoa pobre poderia utilizar o nome de um primo rico a fim de arranjar dinheiro para si mesmo.
  • Ciência natural e ciência das humanidades, no entanto, não podem ser equiparadas, ainda que amas estejam associadas ao conceito de ciência. É intelectualmente desonesto para o pensamento nas humanidades, operar sobre os fundamentos de exemplos colhidos das ciências naturais. Isso é verdadeiro até mesmo na prática da feitura de definições. O conceito de hipótese nas ciências naturais, por exemplo, serve a uma função inteiramente diferente do que nas humanidades, em que hipóteses não podem ser verificadas ou falsificadas por meio de experimentos. As humanidades carecem das salvaguardas orientadoras de uma ordem natural externa criada, se não sempre de maneira total, ao menos substancialmente. O “eu” ou “psique”, que a psicologia tenta analisar, é um exemplo, uma vez que é não-manipulável. Não é como uma composição química ou um processo biológico. Se não forem baseadas na Palavra de Deus, as humanidades, no final, carecerão de base objetiva, enquanto que a ciências naturais possuem um corretivo, pelo menos, na criação. Os resultados exemplares das descobertas feitas pelas ciências naturais citadas pelas humanidades são geralmente úteis e apropriadamente limitadas em seu escopo. Em contraste, as buscas úteis e limitadas das humanidades são prontamente empurradas para o pano de fundo. As compilações de concordâncias, léxicos, tabelas de superposição do curso de eventos históricos, e muito mais, são considerados os “pais dos burros” de pouco valor científico. Eles são bem-vindos para uso, mas não são reconhecidos como “conquistas científicas” porque considerados como carentes de originalidade. Se alguém deseja ver claramente o que está em discussão aqui, precisa perguntar o que é que estabelece o nome de um cientista. Bultmann, por exemplo, não recebeu renome por causa de declarações válidas com respeito ao uso de alguns conceitos empregados por
  • Paulo. O que fez a sua reputação foi sua teologia e a demitologização que foi parte e parcela disso. Em todo caso, alguém somente pode estabelecer reputação em ciência no contexto da “tradição”, a premissa aceita e as descobertas do passado e do presente. Nas ciências naturais há, admitidamente, disposição para celebrar o surgimento de forasteiro inovador e inventivo. Nas humanidades, entretanto, a única chance é de se operar dentro do que são premissas tradicionalmente aceitas – a menos que alguém consiga montar a crista da onda de uma tendência – tal como a da teologia da revolução, a qual era sustentada pelo pensamento marxista. Tais tendências são sempre carnais, terrenas e demoníacas (como observado em Tiago 3.15) a menos que sejam nutridas pela Palavra de Deus em tempos de renovação espiritual. Pode-se levantar a questão: Nas ciências chamadas “exatas” (matemática, física, química e, até certo ponto, geologia, farmácia e medicina), seria relevante para os resultados das pesquisas, se o pesquisador fosse um cristão regenerado ou um ateísta militante? Já não foi acertado, há séculos atrás, em controvérsias sobre educação elementar, que não há coisas tais como matemáticos católicos ou físicos protestantes? É verdadeiro que motivações subjetivas podem vale pouco numa dada pesquisa. A invenção da máquina de respiração artificial surgiu da intenção de possibilitar a sobrevivência numa situação de crise delineada; como um resultado científico, essa invenção se apões independentemente de possíveis motivos subjetivos. Não importa, no final, se aquilo que motivou o trabalho que levou à invenção foi o desejo de reconhecimento, ambição, inveja, ou se a única intenção foi a de ajudar a humanidade e servir a Deus. Em tal caso, onde uma dada pesquisa é combinada com a boa intenção
  • humana, as motivações subjetivas desempenham um papel subordinado. Além disso, podese presumir que a bênção de Deus teve algo a ver com o trabalho. Toda pesquisa específica, entretanto, ocorre dentro de uma infraestrutura conceitual que determina a direção geral da pesquisa. Essa infraestrutura conceitual decide, por exemplo, o que deve ser investigado e o que deve ser negligenciado pelos pesquisadores. Pode ser mencionada a pesquisa intensiva na área de contraceptivos e a relativa escassez de pesquisas sobre o feto quando é assassinado no ventre, com vistas a conhecer os fatos reais que ocorrem quando uma gravidez é terminada dessa maneira. A direção da pesquisa em sua inteireza, a distribuição de projetos e meios, o enriquecimento do espectro de métodos disponíveis – esses são todos motivados pelas condições prevalentes num dado contexto. Essas condições variam muito, dependendo bastante de se são determinadas por uma pessoa que se diz neutra, mas que de fato é concebe a ciência de modo ateísta, ou se elas são formadas a partir de um ponto de vista da fé em Deus, o Criador e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Temos de distinguir entre os motivos conscientes, subjetivos, e as decisões terminativas56, as quais (quer o pesquisador perceba quer não) determinam todo a empreitada científica na proporção do endosso institucional recebido. O motivo subjetivo tem menor influência; as decisões têm maior efeito duradouro – a menos que esse feito seja desacelerado ou ocultado por circunstância externa tal como o contexto institucional. Resumindo: O pensamento é confiável? O pensamento não é autônomo, mas dependente – não tanto na sua execução quanto no seu ponto de partida. É jamais absoluto; jamais e conduzido somente e por si mesmo, mas é sempre determinado por conexões. O pensamento é dependente de um ponto fora de si mesmo. A teoria da autonomia do pensamento despreza o fato de que o homem é uma criatura, criada por Deus e, portanto,
  • dependente dele. Pode se desviar de Deus, mas apenas para se fazer escravo do pecado e da carne, tornando-se mais e mais como o mundo. Se o pensamento é apenas possível em termos de “dados”, então vem a questão de qual “dado” irei favorecer. Ou decido pela Palavra de Deus como verdade revelada ou decido pela filosofia que se declara ateísta, e que mantém que a verdade somente pode ser encontrada de modo indutivo, estabelecido apenas nas ciências. Não posso de modo nenhum colocar confiança num pensamento terreno tal como o das humanidades. Quando o pensamento nessas áreas não é baseado na Palavra de Deus, ele se degenera para a frivolidade. Tal pensamento se acha em incondicional necessidade da Palavra de Deus como corretivo. Ele é confiável somente quando baseado na Palavra de Deus. As ciências naturais tem um corretivo na criação e, em relação a isso, estão em posição de avaliar verdades limitadas. Somente em conjunção com a Palavra de Deus, no entanto, o pensamento humano pode ser confiável; e isso é não menos verdadeiro para o caso das ciências naturais como para as humanidades. Sobre essa relação, quero uma vez mais chamar a atenção ao Prolegomena to a Biblical Epistemology, de Luts von Padberg, mencionado no capítulo 4, nota um.57 Há também a questão a ser respondida quanto a se o pensamento precisa também de redenção. Quero complementar de maneira humilde um dos pontos menores: “O conhecimento orientado pelo Espírito ocorre progressivamente”. Von Padberg se dirige primariamente à capacidade de conhecer. Junto a isso alguém deveria, parece-me, considerar motivos, hábitos e estruturas de pensamento. A capacidade de pensar é alterada (ao ser restaurada) pelo novo-nascimento espiritual. A alteração dos motivos do pensamento, dos hábitos de pensamento e das estruturas de pensamento é, entretanto, parte da santificação, uma parte ainda negligenciada.
  • Com respeito à alteração de motivos, a Palavra de Deus nos diz: “Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências, desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação, se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso” (1 Pe 2.1-3). A Palavra de Deus também declara: “Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar. Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.8-10). A admoestação, vemos, é a de despojarmo-nos, abandonar, motivos anteriores. Em relação à alteração de hábitos de pensamento, somos instados, em Romanos 12.2: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. A admoestação aqui é a de que devemos ser transformados pela renovação da nossa mente. A alteração das estruturas do pensamento pode vir somente pela rejeição e separação dos espaços em que reinam essas estruturas perigosas. Tais estruturas não são inatas. Na verdade, sou antes incluída nelas, e tenho de me libertar delas expressamente. Somos então advertidos a nos retirar delas (2 Co 6.17).
  • 5 A Bíblia e o Homem Moderno A Bíblia é um livro muito antigo, e hoje aquilo que é velho não inspira respeito. Ouve-se falar de quão importante é a antigüidade clássica: nostalgia é moda, e antiguidades são objetos de desejo. Mas esses objetos de desejo apenas colocados à mostra para serem admirados, aumentam o orgulho e o prestígio do proprietário. Em sua maior parte, são vistos como sem uso prático. Hoje, aquilo que é antigo é considerado geralmente como fora de moda. O que conta é o moderno: a última conveniência tecnológica, a mais recente descoberta científica, as últimas notícias, a nova moda, e outras armadilhas da vida moderna. Estar fora de moda veio a ser causa de reprovação. Todo mundo quer ser conhecido como uma “pessoa moderna”. O Significado de “Moderno” Quão moderna, porém, é a pessoa moderna? Quando reorganizava meus livros depois de uma mudança, apanhei um deles com o título: Homilética Moderna. O livro era do início da década de 1920. Hoje, ninguém considera moderno um produto de 1920, mas, antes, fora de moda; a pessoa moderna de 1920 parece mais uma relíquia de ontem. A pessoa moderna da Revolução Francesa que entronizava a deusa Razão e a cultuava em suas catedrais, hoje é verdadeiramente uma relíquia de tempos idos. .De conformidade, parece que o homem moderno é uma entidade bem relativa. Ainda assim, não queremos negligenciar a questão de se há características que distingam o homem de tempos mais antigos, do homem de hoje. Meus professores de teologia tinham o hábito de considerar o Novo Testamento (e, é claro, muito mais o Antigo Testamento) como sendo mítico, para distingui-lo do “homem moderno, o homem da razão”. Depois de um exame mais acurado, entretanto, esse
  • chamado homem mítico pode ser tudo, menos essencialmente diferente do homem moderno. Certamente as pessoas dos tempos bíblicos davam espaço para a possibilidade de milagres; ainda assim, milagres não estavam na ordem do dia, para eles, de modo que sua reação aos milagres era de pasmo e até mesmo de terror. Normalmente, elas esperavam que as coisas funcionassem segundo as leis da natureza. Os servos de Jairo disseram a seu senhor: “Tua filha já morreu; por que ainda incomodas o Mestre?” (Mc 5.35). As mulheres carpideiras riram com escárnio quando Jesus lhes disse: “Por que estais em alvoroço e chorais? A criança não está morta, mas dorme” (Mc 5.39). Riram porque, sendo carpideiras profissionais, eram capazes de reconhecer um cadáver quando viam um. Ou considerem a resposta quando Jesus deu a ordem de mover a pedra da entrada do túmulo de Lázaro: “Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias” (Jo 11.39). Os milagres de ressurreição que Jesus tinha operado ocorreram na presença de pessoas familiarizadas com a regularidade da morte, É claro que eles não podiam ainda monitorar a proximidade da morte com instrumentos que exibem as funções essenciais do corpo. Entretanto, se esse é um dos requisitos para ser uma pessoa moderna, então somente os tecnólogos da medicina contemporânea que manufaturam tais aparelhos são modernos, junto com médicos e enfermeiras que os utilizam: poucos de nós seriam qualificados. As pessoas dos tempos de Jesus eram também capazes de fazer predições meteorológicas baseadas em suas observações. Jesus presumiu isso quando disse: “Quando vedes aparecer uma nuvem no poente, logo dizeis que vem chuva, e assim acontece; e, quando vedes soprar o vento sul, dizeis que haverá calor, e assim acontece” (Lc 12.54-55). Obviamente, naquela época, não havia satélites meteorológicos nem instrumentos de
  • medição sofisticados para previsão do tempo. Entretanto, se tais instrumentos são requisitos para ser uma pessoa moderna, os meteorologistas se qualificariam, mas a simples leitura do barômetro na parede está aquém de nos certificar o restante de nós como meteorologistas. As pessoas dos tempos bíblicos também estavam conscientes daquilo que chamamos de economia. Em vista da iminência de sete anos de fome que se seguiriam a sete anos de fartura, José deu o seguinte conselho: Agora, pois, escolha Faraó um homem ajuizado e sábio e o ponha sobre a terra do Egito. Faça isso Faraó, e ponha administradores sobre a terra, e tome a quinta parte dos frutos da terra do Egito nos sete anos de fartura. Ajuntem os administradores toda a colheita dos bons anos que virão, recolham cereal debaixo do poder de Faraó, para mantimento nas cidades, e o guardem. Assim, o mantimento será para abastecer a terra nos sete anos da fome que haverá no Egito; para que a terra não pereça de fome. (Gênesis 41.33-36) Naquela época nem se falava em tratores e combinados para semeadura e ceifa; isso é verdadeiro. Imagino, porém, quando de nós poderíamos construir uma dessas máquinas ou, até mesmo, manejá-las? É a tecnologia que realmente define aquilo que significa ser moderno? Até mesmo uma pessoa de Papua, Nova Guiné, que ainda vive naquilo que consideramos ser condições da Idade da Pedra, entende bem rapidamente a conexão entre um comutador de energia e a luz de numa lâmpada elétrica. Inúmeras pessoas dos nossos arredores que são sem dúvida “modernas” entendem de tecnologia apenas o suficiente para apertar o interruptor de energia. O habitante de Nova Guiné vivendo em Djakarta, em seu escritório, pode desenhar projetos de construções para plantas de processamento de arroz que são verdadeiras obras de arte. Ainda assim, em sua nova casa num bairro moderno da cidade, ele usa fetiches que o escravizam a demônios. É esse, o “homem moderno”? ‘Isso é na Indonésia. Como é que é na Europa e na América do Norte? Cada residência é equipada com a mais moderna parafernália elétrica e eletrônica. Nos escritórios e nas
  • fábricas está em uso a mais moderna maquinaria. Em apenas alguns anos elas serão obsoletas e deverão ser trocadas. Se a pessoa tiver meios dirigirá um carro de último modelo. Atém mesmo, se optar por uma antiguidade, um Ford modelo T, ainda assim será para seguir uma tendência – antiguidades estão em voga. A seguir esse padrão, nós somos realmente modernos. Literatura moderna e arte moderna são disseminadas até mesmo na escola de ensino fundamental. As pessoas querem que seus casamentos sejam modernos e desejam pensar de maneira “moderna” em todas as áreas da vida. Ao mesmo tempo, contudo, as mais antigas superstições continuam vivas e com boa “saúde”. Muitos “batem na madeira”; quando fazem isso na Alemanha, dizem “toi, toi, toi”, o que quer dizer “diabo, diabo, diabo”. Pessoas cruzam seus dedos (na Alemanha, seguram o polegar) e se apavoram com a “sexta-feira 13” ou com outras datas do calendário. No Ocidente, o Ano Novo é saudado com enormes explosões de fogos de artifício para dispersar os “maus espíritos”, tal como na China antiga. Muitas pessoas ainda pensam que seu dia pode ser arruinado por gato preto cruzando seu caminho. Não são somente as velhas superstições que estão em voga. Novas superstições ganham força e florescem como resultado da generalizada renúncia à fé em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. • O chamado “homem moderno” se preocupa com horóscopos (relatados, até mesmo, dentro da Casa Branca, em Washington) e freqüenta consultórios de videntes. Lixo postal de propaganda nos são enviados à casa e ao escritório oferecendo-nos o serviço de astrólogos e leitores da sorte. • Na Alemanha, por anos, revistas ilustradas populares de grande circulação têm trazido anúncios de amuletos que prometem boa sorte e saúde.
  • • Práticas ocultas, mesas de “Ouijas” e coisas semelhantes se tornaram tão populares como os jogos de salão. • A cruz de Nero ocultista, contrapartida satânica da cruz em que o nosso Senhor Jesus Cristo carregou os pecados do mundo inteiro, é usada como símbolo da luta contra armamentos nucleares e pintada nos muros, como símbolo de paz. • Na meditação transcendental, pessoas recebem seus mantras, e meditam (quer saibam quer não) em versos compostos para honrar deidades hindus. • Práticas mágicas se acham planejada e largamente disseminadas em nossa cultura contemporânea. • Cultos satânicos são vistos de maneira cada vez mais abertamente populares. É o proprietário de uma elaborada instalação industrial que se relaxa com meditação transcendental, um “homem moderno”? É o piloto de corrida de carros com um amuleto no pescoço e um S. Cristóvão bento no pulso, um “homem moderno”? É o político radical com sua lata de tinta spray pichando símbolos do ocultismo nos muros da cidade, um “homem moderno”? Como deveríamos considerar as seguintes declarações comumente feitas, que foram valorizadas na teologia desde o Iluminismo? “Uma pessoa moderna não pode entender a doutrina da expiação vicária pelos pecados mediante a morte de Jesus Cristo”. “É impossível esperar que um homem moderno, que usa um interruptor de luz, creia em anjos e demônios”. (Um ponto de esclarecimento: Cristãos não crêem em anjos ou em demônios, mas, sim, em Deus – Pai, Filho e Espírito Santo. Eles sabem, entretanto, pela Palavra de Deus, que anjos e demônios existem.) O que dizer desta declaração: “Os padrões exarados na Bíblia não mais se aplicam à pessoa moderno”?
  • O que fazer com a generalizada maneira de dizer que começa com a declaração: “É impossível à pessoa moderna...”? Presume-se por aí que alguém atualmente vivo que não se encontre engajado em certa atividade ou ação não seja uma “pessoa moderna”, mas, antes, uma pessoa antiprogressista – ainda que, com suficiente exposição ao pensamento esclarecido e com a pressão de grupo necessária, ela possa, finalmente, chegar a ver a luz. Em vista dessa relatividade dos conceitos: moderno e pessoa moderna, é adequado dizer que tais maneiras de falar teologicamente como as citadas acima, com suas mistura de pensamento relativista e absolutista, são jargões infundados e de caráter demagógico. Nos Últimos Dias O homem moderno alega desejar nada saber sobre a Bíblia. Saberia, a Bíblia, algo sobre o homem moderno? A maneira de aproximação daquilo que é moderno hoje, atual amanhã e obsoleto no dia seguinte, é vista na Bíblia como: “vaidade e correr atrás do vento” (Ec 1.14). O julgamento de Deus sobre essa questão é bem claro: “O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol” (Ec 1.9). A Palavra de Deus, no entanto, fala também sobre o homem moderno que supera e substitui o homem moderno de 1525, 1789, 1848, 1918, 1945, 1984, etc. Isto é, ela fala sobre o homem nos últimos dias, antes que o poderoso juízo final de Deus engolfe a terra, e antes que nosso Senhor Jesus, o Filho do homem, apareça em juízo. A Palavra de Deus diz duas coisas sobre o homem nesses últimos dias: Basicamente, esse homem não vive em nada diferente dos homens que viveram antes dele. Aquilo em que consiste a vida permanece constante, como Jesus disse: “Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em
  • casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do Homem” (Mt 24.37-39). Ou como ele também disse em outro lugar: “O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas, no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre e destruiu a todos. Assim será no dia em que o Filho do Homem se manifestar” (Lc 17.28-30). O homem dos últimos dias, que não mais será superado nem substituído por outra geração, vive como viveram toda as gerações que vieram antes dele, comendo, bebendo, casando, vendendo, plantando e construindo. Essa vida humana “normal”, que não é errada em sai mesma, é, no entanto, condenada pela sua cegueira quanto aos sinais dos tempos. Há plena satisfação com as dimensões puramente físicas da vida, e completa apatia quanto às coisas espirituais – quanto a Deus e àquilo que ele espera do homem. Tal aproximação à vida se coloca sob o juízo de Deus: A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato... Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém! ...E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes. (Rm 1.18-21,24-25, 28) A Palavra de Deus pinta um quadro claro do homem nos últimos dias, do homem que não será mais superado nem substituído por aqueles que o teriam seguido. Nesse
  • quadro, são realçados traços marcantes que distinguem a última geração, das que vieram antes dela: Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé. (2 Tm 3.1-8) Não é surpreendente quão adequada é a descrição para o homem de hoje? A comparação dessa descrição com o jornal de hoje é bastante esclarecedora! O espírito do Anticristo adquiriu lugar proeminente para o homem moderno. A Palavra de Deus diz sobre ele: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1 Jo 2.22). E ele também declara: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo” (1 Jo 4.1-3). “E nós temos visto e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo” (1 Jo 4.14). Essa é nossa confissão de fé. E ainda assim, tem sido cada vez mais rara na igreja e na teologia. Até mesmo quando ela é repetida aos domingos, na maioria das vezes envolve apenas uma confissão feita da boca para fora: cada pessoa distingue dentro de si aquilo que realmente crê sobre o que está dizendo.
  • A Palavra de Deus predisse que a teologia do homem moderno, do homem dos últimos dias, seria assim: Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas práticas libertinas, e, por causa deles, será infamado o caminho da verdade; também, movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias; para eles o juízo lavrado há longo tempo não tarda, e a sua destruição não dorme.(2 Pd 2.1-3) Outra passagem soa igualmente alarmante: Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo... Os tais são murmuradores, são descontentes, andando segundo as suas paixões. A sua boca vive propalando grandes arrogâncias; são aduladores dos outros, por motivos interesseiros. Vós, porém, amados, lembraivos das palavras anteriormente proferidas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: No último tempo, haverá escarnecedores, andando segundo as suas ímpias paixões. São estes os que promovem divisões, sensuais, que não têm o Espírito. (Jd 4, 16-19) A Palavra de Deus emite um direcionamento claro: “tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos dias, virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as próprias paixões e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? Porque, desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação” (2 Pd 3.3-4) Deus conhece o homem moderno; ele viu através dele já há muito tempo. A Bíblia, pretensamente antiquada, de a muito deixou claro como as coisas se colocam para o mais moderno homem de todas as modernas gerações – o homem dos últimos dias. Ele está manifesto diante de Deus e pode ler na Bíblia tudo o que Deus pensa a respeito dele! É muito temerosa tal situação? Talvez nossos sentimentos estejam refletidos na meditação do Salmo 139.1-7: Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto;
  • de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos. Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, Senhor, já a conheces toda. Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a mão. Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir. Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Há um lugar de refúgio onde podemos nos esconder da ira de Deus, a qual, com justiça, paira sobre nosso pecado: é o nosso Salvador Jesus Cristo e sua obra no Gólgota. Respondamos-lhe prontamente. “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o coração” (Sl 95.7-8). Jesus Cristo foi à cruz por causa do pecado de nossa impiedade e pelos inumeráveis pecados resultantes desse estado de alienação de Deus. Ele foi pendurado ali em nosso lugar. Em nosso lugar ele suportou a ira do nosso Criador. “o castigo que nos traz a paz estava sobre ele” (Is 53.5). Deus entregou seu Filho amado como oferta sacrifical, em nosso lugar: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Vida eterna – que não implica meramente “vida após a morte”. É a vida preciosa, surpreendente, significante e plena que Deus assegura àquele que anda no caminho da imitação de Jesus. É a vida em eternidade, a qual flui em gloriosa e jubilosa existência na própria presença de Deus. A qualquer que tome Jesus em sua vida é dado por Deus o direito de ser seu filho (Jo 1.12). Podemos realmente compreender o que significa ser feito filho daquele que fez o céu e a terra? A glória disso ainda permanece oculta. Contudo, um dia ela virá à luz.
  • Deixe-se reconciliar com Deus que já lhe preparou todas as coisas. Aceite sua imensa oferta, seu Filho amado, sacrificado pelos nossos pecados e ressurreto para nossa justificação (Rm 4.25). Nele, Deus nos tem dado todas as coisas (Rm 8.32). Entretanto, você deveria estar ciente disto: Quando Jesus se torna seu Salvador, ele é também o seu Senhor. He intenciona governar sobre a totalidade da sua vida. Essa é a única maneira pela qual ele trará algo bom de sua vida – para o louvor de sua glória. Você não poderá mais ser dominado por vícios, pecados e apetites carnais. Não precisará mais ser uma vítima do temor da morte. Será guiado e conduzido pelo Bom Pastor que o ama.
  • Parte 2 A Palavra de Deus e a Teologia histórico-crítica
  • 6 O Estudo da Teologia histórico-crítica Algumas pessoas têm feito objeção à terminologia usada no título deste capítulo. Elas dizem: “Você deveria escrever: ‘O Estudo do Método Crítico-Histórico’”. Muita coisa poderia ser dita em resposta a essa objeção; restrinjo-me a duas observações: Uma é a de que o termo teologia crítico-histórica é eminentemente justificável na infra-estrutura de uso lingüístico geral. Se, por exemplo, alguém, na Alemanha, diz que está indo a um kneippkur, todos sabem o que isso significa: a pessoa está indo a uma clínica de repouso onde receberá vários tipos de hidroterapia. Mais corretamente, ela quer dizer que está indo a uma clínica de saúde na qual ela receberá tratamento segundo os métodos do exPastor Kneipp. Todo alemão sabe que um kneippkur envolve esses métodos, distintos dos métodos utilizados em outras clínicas de repouso. O mesmo ocorre na teologia. A teologia, como ensinada nas universidades ao redor do mundo hoje, tanto no Ocidente e no Oriente, no Norte e no Sul, é baseada no método crítico-histórico. Isso é verdadeiro especialmente em relação ao método ensinado na Alemanha, o qual monopoliza a universidade governamental e reivindica ser ao único porta-voz sobre o assunto. Além disso, o método crítico-histórico não é considerado como sendo apenas a fundação para as disciplinas exegéticas. Ele decide também o que o especialista sistemático pode dizer, e se alguém aceita a sua reivindicação. Ele determina o procedimento na educação cristã, na homilética e na ética. É possível que aqueles que são mais afetados por ele não estejam plenamente conscientes de sua influência. Ainda assim, a crítica história tem realmente permeado o ensino teológico nas universidades da mesma maneira como o fungo incha a massa levedada. Se alguém lida constantemente com a
  • massa levedada, provavelmente, depois de um tempo, não perceberá mais o odor característico, ainda que este continue facilmente identificável para outros. Observaria também que meus antigos colegas, com os quais tive contato na Sociedade para Estudos do Novo Testamento, protestariam veementemente se fossem classificados como metodólogos crítico-históricos e não como teólogos. Eles vêem a si mesmos como teólogos e querem se levados a sério como tais. Bem, nesse caso, não pode haver objeção quanto a considerar seu trabalho como teologia crítico-histórica, em vez de meramente como metodologia crítico-histórica, Muito mais poderia ser dito, mas deixemos assim por enquanto, e avancemos para o ponto principal. Teologia como Ciência O Princípio Básico Pesquisas são conduzidas ut si Deus non daretur (“como se Deus não existisse”). Isso significa que a realidade de Deus é, logo de partida, excluída das considerações, até mesmo se o pesquisador reconhece que Deus poderia dar testemunho de si mesmo a este mundo. O padrão pelo qual tudo é avaliado não é o mundo de Deus, mas o princípio científico. Declarações da Escritura com respeito a lugar, tempo, seqüência de eventos, e pessoas são aceitas somente enquanto se adequarem às pressuposições e teorias estabelecidas. O princípio científico chegou a assumir a condição de ídolo. A Relatividade da Bíblia A pressuposição de tal teologia científica é a de uma incorporação da Bíblia e da fé cristã em precisamente o mesmo nível de comparação com outras religiões e suas escrituras sagradas. Até mesmo quando é enfatizado aquilo que é distintivo com respeito ao cristianismo, permanece a pressuposição fundamental da aproximação geral de religiões
  • comparadas. O grau de comparação ao qual o cristianismo tem sido reduzido, no entanto, não é em si mesmo um fato ou um dado necessário; antes, é uma abstração, um construto artificial a que se chega quanto se abandona o Deus vivo. Qualquer pessoa que estude teologia científica será inevitavelmente levada a aceitar tal falsa pressuposição. O conceito de Sagrada Escritura é tornado relativo de maneira que a Bíblia seja nada mais do que um escrito religioso como outro qualquer. Uma vez que outras religiões têm seus escritos religiosos, não se pode presumir que a Bíblia seja única e superior. Por isso deve ser tratada como qualquer outro livro. Chega a não haver distinção em como a Bíblia é vista e como se lê a Odisséia, ainda que fique bastante clara, sob exame cuidadoso, a diferenças entre elas. Para se fazer justiça, alguns pensam que servem à proclamação do evangelho quanto estabelecem tais diferenças. Negligenciam, porém, o fato de que, no processo da comparação, reduzem a Palavra de Deus a uma coleção de idéias religiosas e de conceitos teológicos. Isso atribui uma letra morta à Palavra viva, como se vê em muitos púlpitos à medida que pastores lutam em vão para trazer vida a textos inertes, recorrendo finalmente à psicologia, sociologia, socialismo e outras formas de “ismos” – uma tentativa de infundir relevância aos textos. A Bíblia não é mais estimada como a Palavra de Deus da maneira que já foi tratada antes. Toma-se como certo que as palavras da Bíblia e as palavras de Deus não sejam idênticas. O material impresso entre as duas capas da Bíblia – dizem – não é a Palavra de Deus em si mesma. Ele se torna Palavra de Deus apenas ocasionalmente quando funciona como tal por meio da leitura ou da pregação. Além disso, o Novo Testamento é posto contra o Antigo Testamento sob a presunção de que o Deus do Novo Testamento seja diferente do Deus do Antigo Testamento, uma vez que Jesus teria introduzido novos
  • conceitos de Deus. Paulo é lançado contra Tiago. Mantém-se que o livro de Atos apresenta um Paulo diferente daquele que escreveu Romanos, Gálatas, 1 e 2 Coríntios e outras epístolas. Atos é visto tendo valor apenas literário; a veracidade histórica dos relatos de Lucas é tomada de modo tão leve como a teologia que defendem. De fato, cada sentença é posta sob a suspeita de conter a teologia de Lucas em vez de ser um relato fiel daquilo que realmente ocorreu, e tão teologia é apresentada como praticamente o oposto da boa teologia. Usando métodos literários grotescos, os quais conduziriam imediatamente a resultados absurdos se aplicados à obra de um poeta ou teólogo – como Goethe ou Barth – estabelecem-se reivindicações de inautenticidade para as epístolas pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito), Efésios e Colossenses. Tais reivindicações são então, sem verificação cuidadosa, passadas adiante de uma geração de teólogos para a próxima. Diferenças entre particulares livros da Sagrada Escritura são exageradas e tomadas como inconsistências. Uma vez que não se aceite a inspiração da Escritura, não se pode assumir que os particulares livros da Bíblia complementem uns aos outros. Usando esse procedimento, algumas pessoas concluem que a Bíblia seja apenas um amontoado de criações literárias não-relacionadas. Certamente, poderão reconhecer que tais criações trazem à luz a fé dos seus autores. Não há, porém, nenhuma disposição para reconhecer nelas Aquele a quem o autor dirige a sua fé. Em outras palavras, não consideram que sejam obras de revelação. Estas são consideradas meramente como criações literárias e teológicas. Assim – com dois ou trem mil anos de idade, escritas autores antigos para leitores antigos, e refletindo condições que a investigação crítico-histórica alega serem totalmente diferente das de nosso tempo – elas podem ser qualquer coisa, menos ter relevância contemporânea. A fim de fazer justiça à reivindicação da autoridade que o cânon bíblico tem para a igreja, e também por orientação pessoal, alguns buscam um “cânon dentro do cânon”.
  • Uns poucos chegam a listar apenas Romanos 7, o Bom Samaritano de Lucas 10, e a parábola do juízo final de Mateus 25. Para outros, esse “cânon dentro do cânon” é um pouco mais estendido. Em ambos os casos, o padrão é usado para se avaliar o restante da Bíblia, empregando implícita ou explicitamente o Sachkritic58. Usando Romanos, o livro de Tiago é desvalorizado. 1 Coríntios 15.5-8 é criticado usando outros ensinamentos de Paulo sobre fé; ali, Paulo não estaria concordando com os altos padrões de seus próprios insights afirmados em outras passagens, pois fala da ressurreição de Jesus como sendo um fato histórico. Uma vez que o conteúdo dos escritos bíblicos é visto como mera criação de escritores teológicos, qualquer versículo nada mais é do que um pronunciamento teológico humano, sem nenhuma obrigação. João 3.16, por exemplo, torna-se apenas o sentimento teológico de um teólogo cristão antigo que escreveu seu evangelho perto do fim do primeiro século. Ele teria sido um gnóstico (assim, herético), ou alguém que usou terminologia gnóstica para combater o gnosticismo, ou talvez alguém mais ou menos influenciado pelo gnosticismo que advogou um ensino de salvação anticristão ou quasecristão. Em outras palavras, para a teologia histórico-crítica, João 3.16 não é uma promessa de Deus com força de obrigação. É, antes, nada mais do que uma opinião humana descomprometida. Todas as promessas da Bíblia são tratadas da mesma maneira, embora segundo a Palavra de Deus elas todas tenham o “Sim” e o “Amém” em Jesus Cristo (2 Co 1.20). A Interpretação da Escritura A Escritura Sagrada é vista como “texto” que requer interpretação. Não se discute, nesse ponto de vista, que temos direto acesso à Escritura. Porém, o que se conclui daí é que essa e uma interpretação subjetiva e “existencial” pertinente apenas ao próprio intérprete.
  • Sem que se processe a passagem utilizando a interpretação crítico-histórica, aquilo que se obtém dela é visto como permissível apenas para uso privado. Uma interpretação responsável que se destine a outros, como na pregação e ensino, deve ser procedida “metodologicamente”, segundo as regras, de maneira a ser controlável. O Espírito Santo, que atua como lhe apraz (ver Jo 3.8), e deixado de lado “porque ninguém pode garantir que o possui”, como diz Rudolph Bultmann. O Espírito é substituído pelo método de interpretação, o qual supostamente garante a objetividade da interpretação e sua adequabilidade para o texto bíblico em questão. Não obstante, aquele que se assenta nos céus desafia aqueles que defendem essa aproximação. Fora algumas poucas pressuposições básicas e alguma concordância metodológica, podemos estar certos de que sempre que dois teólogos comparam seus resultados, geralmente surgirão duas conclusões. Em contraste, sempre que professores bíblicos que tomam a Palavra de Deus literalmente em dependência do Espírito Santo comparam aquilo em que foram iluminados, fica evidente a unidade de espírito e a concordância no ensino – qualquer que seja a confissão, lugar ou período de tempo. O princípio não-declarado, mas operante, da ciência do Antigo e do Novo Testamento é: Aquilo que o texto afirma claramente pode não ser verdadeiro; a tarefa do exegeta é a de descobrir e solver “dificuldades” do texto da Bíblia. Quão melhor for o intérprete, mais engenhoso será esse processo. Para conquistar a essa posição, o professor precisa “fazer nome”. Isso é coisa obrigatória, a menos que ele se contente em descontar seu cheque de pagamento sem fazer aquilo que se espera de um professor. O predicamento é que é necessário lutar para obter reconhecimento humano, até mesmo quando o professor se desinteressa por tais cerimônias. Asseguro, com prazer, que muitos dos meus antigos colegas são pessoas humildes e modestas. Entretanto, eles se vêem constrangidos pelo
  • sistema de universidade teológica a fazer um nome para si mesmos a lutar pela honra humana. Contudo, o Senhor Jesus diz: “Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único?” (Jo 5.44). Um estudante de teologia que não tenha morrido para a necessidade do reconhecimento de homens se encontra sob a mesma pressão. Não é de surpreender, então, que muitos estudantes de teologia crentes em breve tenham dificuldades com sua fé. Geralmente eles se deviam da fé sem que se dêem do fato. Alguma coisa do que estão estudando se apega a eles; como poderia ser diferente? Afinal, é para isso que estão estudando! Linhas limítrofes são traçados ao longo de partes da Palavra de Deus. Diz-se de algumas dessas partes que elas não podem mais ser cridas e que, conseqüentemente, seu poder não pode mais ser experimentado como antes era crido. “Paulo não é a fonte das epístolas pastorais”, alguém aprende. “O autor do evangelho de João não em certamente, o filho de Zebedeu e discípulo de Jesus”. “O Pentateuco não foi escrito por Moisés, mas compilado de diversas fontes”. Qualquer estudante que não tenha aprendido isso por volta do sexto semestre é considerado um pietista, se não for desprezado, e assim a videira é devastada pelas pequenas raposas como em Cantares de Salomão 2.15. Tudo isso parece inofensivo: São apenas ninharias; o que está em questão não é decisivo para a fé. Entretanto, a autoridade da Palavra de Deus está em questão. Ela perde seu caráter obrigatório, como evidenciará nosso trato de passagens que nos deixam mais inconfortáveis. Não nos enganemos: até mesmo um buraco de rato pode ameaçar um dique. Isso ficará ainda mais claro quando as tempestades trouxerem mais água. Razão Crítica e Realidade Para a teologia histórico-crítica, a razão crítica decide o que é e o que não pode ser realidade na Bíblia; e essa decisão é feita na base da experiência diária acessível a cada
  • pessoa. Nada é aceito como fato a menos que geralmente aceito como possível. Aquilo que é espiritual é julgado segundo critérios da carne. As experiências dos filhos de Deus são totalmente desprezadas. Devido à pressuposição adotada, a razão crítica perde de vista o fato de que o Senhor nosso Deus, o Todo-poderoso, reina. Nenhuma pessoa, obviamente, sequer está em posição de explicar os milagres dos dias modernos, nem mesmo se forem plausivelmente atestados e medicamente provados. A principal razão para isso é que os livros que glorificam o Senhor relatando tais incidentes, somente serão tratados por certos editores. E esses são os editores cujas publicações são depreciadas pelos teólogos da crítica histórica. Logo de início e sem exame pessoal da evidência, esses teólogos rotulam tais livros de disparate religioso popular. A seus próprios olhos, a teologia crítico-histórica deseja emprestar assistência à proclamação do evangelho por meio de uma interpretação da Bíblia que seja cientificamente confiável e objetiva. Há, porém, por um lado, uma monstruosa contradição entre o que se diz querer fazer e, por outro, aquilo que realmente se faz. À luz de tudo o que tenho dito, deveria estar patentemente óbvio que a maneira como a teologia crítico-histórica maneja a Bíblia não promove a proclamação do evangelho, antes, retarda-a – na verdade, impede-a. Pior ainda, sequer fica claro que lidamos aqui com uma aproximação que realmente produz uma interpretação confiável e objetiva da Bíblia, tal como é reivindicado. Simplesmente não é verdadeiro que a teologia crítico-histórica tem substituído impressões subjetivas com uma bem fundamentada descoberta da verdade por meio de cuidadosa avaliação de argumentos. A contradição entre teoria e prática, entre ideal e realidade, mostra-se já quando a pessoa se familiariza com a literatura pertinente. Na teoria, toda publicação crítica-história
  • relevante a respeito de um dado tema deveria ser levada em conta. Na prática, essa teoria se mostra impossível devido à enxurrada constantemente crescente de publicações. Até que ponto a pesquisa literária alguém deve ir no passado é algo totalmente arbitrário. O limite é geralmente 1900 ou talvez 1945. No período de 1900—1945, somente seletos clássicos da teologia crítico-histórica recebem menção. Raras, raríssimas obras escritas antes de 1900 são consideradas. Embora a teologia crítico-histórica seja praticada hoje em virtualmente todos os continentes e países, o amplo espectro de publicações continua sendo negligenciado, pois os diversos escritos são compostos em línguas que ainda nem todos podem ler. Para muitos pesquisadores de língua inglesa ou alemã, as publicações em francês já constituem uma barreira que muitos enfrentam somente se a obra for um clássico absolutamente indispensável. E quantos obtêm o preparo lingüístico requerido para estudar livros escritos por colegas, em grego moderno, espanhol ou japonês – citando apenas alguns exemplos? A busca da verdade promovida pela teologia críticohistórica tropeça nesse ponto de que muito dessa literatura lingüisticamente inacessível tem de ser negligenciada. Além disso, geralmente é difícil até mesmo procurar literatura que seja conhecida e acessível. Pode levar meses para se encontrar algo usando o sistema de empréstimo interbibliotecário. Explícita ou implicitamente, o espectro da pesquisa fica restrito à “literatura acessível a mim”. Muitas pessoas têm recorrido a um novo meio de lidar com a enxurrada de literatura. Os lingüistas especialmente preferem esse método, no qual a literatura que não emprega os mesmos métodos particulares que um dado acadêmico prefere, é logo de início excluída. Mais e mais se observa o uso de outra tática questionável para contornar a dificuldade de se lidar com literatura que. Devido ao seu tema, deve ser pesquisada
  • intensivamente: Um livro relevante é citado, e depois de um sumário distorcido, umas poucas linhas são avaliadas tão negativamente que parece não ser necessária nenhuma atenção posterior. Dessa maneira um acadêmico pode se poupar do trabalho que poderia atrasar por alguns anos a publicação de seu novo livro. Em vista das prevalentes condições, alguém poderia justificar essa tática como sendo uma de defesa pessoal acadêmica. Não obstante, tal procedimento efetivamente afasta como sendo de “discussão sem valor” livros aceitos como dissertações e, portanto, recomendados por reconhecidos professores teológicos – um estado de coisas que não parece receber atenção adequada. Concluímos que não há necessidade de ir além da consideração de como a literatura é empregada, para questionar seriamente a proclamada objetividade da teologia críticohistórica. A reivindicação de que a verdade é descoberta na base da argumentação crítica é outro tipo de auto-engano. Hipóteses mutuamente opostas podem ser geralmente mantidas por argumentos de aparentemente igual valor, e algumas vezes, até mesmo pelo mesmo pesquisador. Dependendo de como alguém considera as autoridades estabelecidas ou as evidências numa dada área, essa pessoa se deixará impressionar mais por aquilo que confirma sua própria suposição. Se argumentos opostos são apurados na investigação, estes inevitavelmente se tornam não-convincentes. Tal escrutínio, portanto, tende somente a corroborar ou estabilizar a própria tese do pesquisador. A disposição básica da interpretação critico-histórica da Bíblia para considerar suas próprias teses como provisionais e questionáveis de modo nenhum implica a intenção real de estabelecer a verdade. Na situação isolada em que um ponto de vista é alterado – o que ocorre de modo especialmente raro com acadêmicos de carreira – novos argumentos, tão
  • persuasivos como os mais antigos, mas que apóiam a nova posição, alguém poderia concluir, é suscetível de prostituição.59 Quanto às relações entre os acadêmicos, à parte de publicações, a tendência dominante é a de manter as posições já adotadas. Quando um deles envia uma publicação a outro acadêmico para revisão, a resposta comum é: “Suas considerações são interessantes, mas não posso concordar com elas”. Nenhuma razão é dada. E isso não representa uma falha de caráter, mas uma reação naturalmente emergente da maneira como as coisas são. O professor, em seu ensino, deve cobrir uma área relativamente larga. Ele precisa estar em posição de assimilar descobertas da totalidade do espectro da pesquisa do Antigo e do Novo Testamento. Ele pode, entretanto, a qualquer momento, se dedicar em profundidade somente a questões pertinentes à área restrita daquilo em que estiver trabalhando. Suas observações são até mesmo altamente determinadas pelas suas prévias investigações, de maneira que qualquer aceitação de novas idéias demandaria uma quantidade excessiva de revisão de antigos pontos de vista. Tais revisões não são esperadas quanto tantos outros deveres profissionais reclamam ação, como palestras, trabalho administrativo, avaliação de exames e ensaios, supervisão de dissertações, complemento da própria publicação e a edição de contribuição a periódicos acadêmicos. Por essas razões a aceitação de resultados de pesquisas mais recentes por parte de acadêmicos que já têm uma opinião formada numa área abrangente, é inevitavelmente arbitrária. O nome do autor de uma publicação e o da escola à qual ele pertence geralmente determinam como a publicação é recebida. Sob tais pressuposições, a apregoada objetividade da interpretação crítico-histórica da Bíblia está fadada, desde o início, ao insucesso. Verdade e Subjetividade
  • Entre a emergente geração de acadêmicos prevalece certa resignação em relação à verdade. Essa resignação é evidenciada nas teorias de subjetividade. Realmente, o corolário lógico disso deveria ser a finalidade do trabalho científico na teologia, mas essa conclusão não é levada a sério. Entretanto, surge a questão de se a ciência está servindo apenas como meio para a auto-realização. Não se deveria desprezar, contudo, a boa consciência que as faculdades teológicas podem manter quanto ao seu trabalho, em vista da relação entre oferta e demanda que existe à medida que as igrejas geralmente fazem do estudo formal nessas faculdades, um requisito obrigatório. Cada vez mais, as mais novas gerações de teólogos estão sendo infiltradas pelo socialismo. O propósito salvador de Deus bem como a eterna redenção em Jesus Cristo, estão sendo substituídos pelos objetivos humanos para o progresso do mundo. Esses objetivos são revestidos de palavras arbitrariamente selecionadas do chamado “Jesus histórico”, o qual é interpretado como um reformador social ou em revolucionário, dependendo do desejo do intérprete. Os textos preferidos incluem a parábola do Bom Samaritano (Lc 10.25=27) e o discurso sobre o juízo final (Mt 25.31-46), assim como as palavras de Jesus referentes ao Sábado (Mc 2.27=28). Nessa última passagem o termo filho do homem, no versículo 28 é tomado para significar simplesmente homem, o que é lingüisticamente possível. A comunhão de Jesus à mesa com coletores de impostos e pecadores (por exemplo, Mc 2.15-17) é tomada como prova de que ele mudou estruturas socialmente injustas e que, assim, nós deveríamos imitá-lo. Uma característica dessa aproximação é a teoria da projeção. O Antigo Testamento é posto de lado em sua maior parte como sendo irrelevante para nós por ser, inteira ou parcialmente, apenas uma construção intelectual, uma projeção. Ele é o resultado da então corrente estrutura patriarcal e reflete antigas condições de produção agrária; o Antigo
  • Testamento tinha a função de justificar e emprestar estabilidade a essas estruturas e condições. De conformidade com essa teoria, até mesmo os Dez Mandamentos não mais são normativos para nós. Diz que Jesus os aboliu trocando-os pelo mandamento do amor. Mas o que esse amor significa não é derivado da Palavra de Deus, mas sim, determinado por meios sensuais. Os profetas são tidos como reformadores sociais. Amós serve de álibi para essa afirmação. A Prática da Teologia Crítica-Histórica Como qualquer ciência, a teologia depende de hipóteses. A hipótese é uma pressuposição de que algo é ou se comporta de certa maneira. Nas ciências naturais as observações empíricas servem como pressuposições básicas quanto a regularidades no reino natural. Tais observações são verificadas por meio de experimentos. Nas artes, em contraste, as hipóteses não podem ser verificadas da mesma maneira. O estudo do Antigo e Novo Testamento como ciência assumiu com seus, além de outros, os métodos gerais usados na historiografia crítica e da crítica literária. Historiografia Crítica Na historiografia crítica o remanescente antigo e as evidências lingüísticas são usados como fontes de informação sobre uma era passada para a qual o próprio pesquisador data o remanescente e as evidências. Nessa datação as pressuposições já estão operando. Esse é um importante componente na formação de hipóteses. Dois exemplos ilustrarão o que foi dito: Primeiro, se alguém presume que a parábola da Dez Virgens (Mt 25.1-13) não foi proferida pessoalmente por Jesus, mas, antes, que ela apareceu na igreja primitiva, então esse alguém a estará colocando em contexto diferente. Ela dá informação não sobre Jesus,
  • mas sobre a igreja primitiva. Para analisá-la, o pesquisador a compara com o que já se conhece da igreja primitiva, não com o que é conhecido acerca de Jesus. Segundo, se alguém presume, com base nas diferenças entre o Evangelho de João e os outros três Evangelhos, que o autor de João não é João, o discípulo de Jesus, então uma série de inferências se segue naturalmente: Nesse caso, o próprio autor não experimentou pessoalmente aquilo que ele afirma sobre Jesus. Ele terá de ter modelado sua apresentação de fontes mais antigas. Isso ainda levanta a questão sobre a natureza desses documentos mais antigos. E isso, por sua vez, levanta a questão adicional de como o Evangelho de João se distingue das fontes sobre as quais foi baseado. Agora outras pressuposições vêm à baila em relação à teologia e às tendências do Evangelho, assim como sobre a natureza da comunidade que ele reflete. Juntamente com isso, surgem questões quanto ao contexto histórico para um ponto de vista religioso comparativo; aqui a tarefa é a de distinguir entre o próprio ponto de vista de João e o de suas fontes. Quais foram as principais influências sobre o autor do Evangelho de João? Gnosticismo? Qumran? Judaísmo com tendências gnósticas? Ou o autor tomou seus fundamentos diretamente do Antigo Testamento? Se suas fontes foram gnósticas, como ele se relaciona com elas: Polemicamente? Positivamente? Criticamente? Crítica Literária Na crítica literária a formação de hipóteses tem uma função diferente. Procuram-se respostas para questões sobre a estrutura e tradição histórica do texto. Tais questões, entre outras, desempenham papel importante: Foi o texto formado por fatores orais, ou foi fixado em forma escrita desde o início? Foi então transmitido de forma oral ou escrita? Trata-se de uma unidade ou não? Ele reflete fontes escritas ou um complexo unificado de tradições compostas de várias tradições individuais, ou de uma tradição em particular? Mostra sinais
  • de dependência literária? Parece ter sido editorialmente reformulada, talvez mais de uma vez? Há padrões reconhecíveis na maneira como essa unidade literária em particular se encontra conectada? Essas são questões levantadas ao acaso e não compõem uma lista compreensiva. Cada uma das questões é respondida com base em suposições. Nenhuma dessas suposições admite verificação definitiva. Meramente demonstram a sua plausibilidade e a arte do pesquisador em fundamentar suas suposições através de argumentações. Elas se tornam aceitáveis a outros pesquisadores por meio da sua adequação aos vários complexos de suposições que já são mais ou menos aceitas. Sua aceitabilidade se deriva das cuidadosas conexões estabelecidas com prévias pesquisas. Em outras palavras: A formação de hipóteses no Antigo e no Novo Testamento é um sistema auto-estabilizador. Isso chega a ser uma tola brincadeira com a Palavra de Deus que não busca a Deus nem mesmo quando um pesquisador em particular está convencido de estar lhe prestando um serviço. Trabalho e motivação estão muito envolvidos – uma semana de trabalho de sessenta horas é coisa comum para esse tipo de pesquisa – e esse grau de esforço segue por toda a vida, até que falhem as forças intelectuais e físicas. A fim de que essa proposta de vida não seja em vão, as hipóteses do pesquisador do Antigo ou Novo Testamento precisam receber reconhecimento. Ele tem de lutar para conseguir honra. A única coisa que dá a esse trabalho – que exige tanto esforço e sacrifício – a aparência de realidade é o processo de dar e receber honra uns dos outros. Os Resultados da Pesquisa Com base em seu trabalho, o professor de teologia inevitavelmente obtém convicção segura de que a Palavra de Deus não pode ser entendida sem o uso cuidadoso
  • dos construtos hipotéticos da ciência do Antigo e do Novo Testamento. Ele se torna convencido disso e, portanto, habilitado a passar tal convicção aos seus ouvintes. Uma vez que os estudantes não têm possibilidade de atingir o mesmo grau de controle dos “resultados da pesquisa” que o professor tem se assenhoreado ao longo de anos de estudo, eles se tornam inseguros e derivam para a dependência de tudo o que o professor diz. Em vez de indagar – não apenas ritualisticamente, mas com expectação verdadeira – que o Espírito Santo lhes abra a Palavra de Deus, eles tomam um comentário, uma palavra que “explica” um livro da Bíblia verso a verso à luz da crítica histórica. Seu estudo é tão condicionado a encontrar dificuldades no texto que não mais concebem a descoberta do sentido do texto sem o auxílio de um comentário. Tudo o que leva para disparar a necessidade de um estudante que lê uma passagem olhar o que os expertos dizem, é se lembrar de uma hipótese crítica. Suposições críticas são postas em íntima ligação, e levantar apenas uma delas tende a despertar todas as outras. O estudante de teologia é geralmente incapaz de detectar o que Deus está dizendo em sua Palavra, e assim passa à sua congregação a convicção na qual foi doutrinado: A Sagrada Escritura libera seu significado apenas através do uso do método crítico-histórico. Os membros da igreja recebem uma versão condensada daquilo que aprendeu no seminário. Quanto maior o esforço para obtê-lo mais precioso se torna tal conhecimento. Além disso, esse conhecimento traz ao estudante a honra de poder se colocar diante alunos e pastores como um “especialista”. O simples uso da Palavra de Deus com o objetivo de ser um praticante da Palavra não traz tanta honra, pois quando este é o padrão, o Espírito Santo confere a honra a quem ele quer. E não será necessariamente para alguém que seja respeitosamente saudado como “Pastor”.
  • Subjugado pela “especialidade” de teólogos, o estudante, a pessoa que é consagrada, ou o membro de igreja perdem a confiança na própria capacidade de pessoalmente entender a Palavra de Deus. Outra perda típica é a da alegria que o estudante um dia teve na leitura da Bíblia. Suposição e Fato Em nenhum outro lugar as coisas são “assumidas pela fé” como no estudo científico, pelo menos no estudo teológico. Há certamente argumentos para suportar uma hipótese em particular. Mas na média, de fato até mesmo o estudante mais cuidadoso aceita 80—90 por cento das hipóteses sem estar em posição de avaliar seus argumentos. Ele aceita 40-50 delas, talvez mais, sequer sabendo quais são os argumentos. Como regra, nas instituições de ensino esses argumentos de apoio vêm à baila somente quando estão sendo lançados como relativamente novos e ainda não totalmente aceitos; ou quando o professor encontra objeções aos seus comentários que o forçam a dar as razões para o seu ponto de vista. Existe, é claro, um cuidado na orientação em certas áreas do conhecimento e em casos particulares, mas essa não é a regra. E nem poderia ser, pois o edifício da ciência consiste de uma pletora de hipóteses, cada qual dependendo de seu apoio para numerosos argumentos. Uma série de suposições tendo o caráter de um consensus communis, isto é, em que seja geralmente aprovada entre os cientistas de uma agremiação, forma uma grade sem a qual é simplesmente impossível se manter ou processar a informação apresentada em leituras ou seminários. As suposições básicas são colocadas no mesmo nível de fatos, não em teoria, é claro, mas certamente na aplicação prática. Isto é, alguém as utiliza como se fossem fatos.
  • Qualquer um que incorpore tais suposições básicas em seu pensamento é influenciado e finalmente transformado por elas. O riso envolvido no estudo teológico crítico é assim tão grande porque tais mudanças tomam lugar de modo inexorável e imperceptível. A pessoa respira numa atmosfera tão mortal como aquela poluída com monóxido de carbono, um gás inodoro e incolor difícil de ser detectado. Não menos difíceis de ser detectados são os efeitos danosos do estudo da teologia crítica. A única esperança é a de que a graça de Deus intervenha de maneira distinta. A objetividade do trabalho científico é em grande parte uma ilusão. Na prática extracientífica os elementos desempenham papel considerável. Alguns exemplos são: a formação de grupos;60 as habilidades pessoais, personalidade e habilidades relacionais na defesa de uma idéia; o “nome” do cientista (com variável significância em diferentes campos teológicos); se a pessoa detém posição chave como livre docência, ou se é diretor de um instituto, e mais importante, se é editor de um periódico ou conselheiro para publicadores em relação a séries monográficas. Ostensivamente, o estudante está em posição para formar uma opinião objetiva. Na realidade, a tomada de informação é antes passado por um crivo. O crivo, ou filtro, é formado... por professores. A escolha da que o estudante faz da faculdade, geralmente baseada em critério totalmente diferente daquele mantido pela faculdade escolhida, pode ser decisiva para a orientação teológica que ele recebe. pela limitação de possibilidades para estudar todo o espectro de livros relevantes. O estudante poderá trabalhar apenas com uma seleção e assim ater-se primariamente àquilo que é recomendado nas aulas e palestras. Até mesmo o estudante que faz
  • escolhas independentes tem apenas um vislumbre de pequena parte do que existe disponível. A literatura nas bibliotecas departamentais e universitárias é previamente filtrada. Literatura cristã de autores que crêem na Bíblia é praticamente tabu. A produção de algumas publicadoras não é levada a sério e não pode ser alistada na bibliografia de manuscritos formais, a menos que o estudante esteja preparado para receber um a nota baixa. Também, o professor não está realmente familiarizado com esses trabalhos e poderá se sentir pressionado quando o estudante os menciona em seus escritos. O professor teria de tomar tempo, ler e interagir com eles. Já pressionado pelo tempo e convencido de início da dubiedade dessas publicações, o professor geralmente as rejeita. pelo próprio envolvimento acadêmico do estudante. É oferecida ao estudante a oportunidade de “participar da inquisição científica”. Uma visão mais próxima, porém, revela que seu envolvimento será em tarefas rotineiras que demandam e que o professor deseja que seja feita em preparação para um projeto que ele está completando, ou na revisão material já completado. O estudo procede, então, da mesma maneira pela qual as crianças constroem casas ou carros com blocos de Lego. É claro que é possível haver variações, mas essas acabam sendo menos do que o desejado quando comparadas com o modelo planejado, como o professor ou um aluno mais avançado facilmente pode demonstrar. Ao longo do material, o resultado esperado está garantido; não obstante, o estudante fica ostensivamente “autoconvencido”. Dessa maneira rebeldes são domesticados e adequados ao sistema. A honra de terem sido levados a serio como pesquisadores adiciona peso à atratividade geral. Socialização e Conformação
  • O curso de estudos tem o caráter de uma socialização secundária. O estudante é profundamente afetado. Ele toma o estudo formal como um novato, como alguém que nada sabe ou pode fazer e como um ignorante das práticas e regras do novo jogo. A fim de ser aceito, ele tem de possuir tais práticas e regras e obter a especialidade e o conhecimento que contam ali. O estudante é inundado por uma verdadeira enchente de informações que nenhum artifício pedagógico poderia reter. O professor dissemina em aulas e palestras os resultados de uma vida de trabalho, a qual é baseada no trabalho de prévias gerações de pesquisadores. De sua parte os estudantes têm dificuldades só para compreender os métodos pelos quais os resultados do professor são obtidos. Em vista desse transbordamento de informação fica difícil para o estudante se apegar aos insights que tinha da Palavra de Deus no início do estudo formal, especialmente quando tais insights são desqualificados como “nãocientíficos”. O estudante crente geralmente encontra oposição dos instrutores das seguintes formas: Condescendência: “Estou certo de que você acabará entendendo!” Tentação: “Por favor, aceite este ponto de vista ao menos na teoria e veja como ele funciona!” Sedução: Sua fé então é tão pequena e seu Deus tão fraco que você se recuse a aceitar esta idéia?” Assim o estudante é conduzido a aceitar pessoalmente idéias que conflitam com aquilo que aprendeu anteriormente na Palavra de Deus. Ao mesmo tempo o estudante enfrenta a possibilidade da pressão de grupo. Companheiros estudantes são “constritores”, dando orientação decisiva no processo de socialização. Isso é especialmente verdadeiro para a pessoa de classe média alta ou para
  • aqueles que se distinguem por alguma habilidade ou aptidão especial. Um estudante crente, que por causa de suas atitudes em relação a Deus não está disposto a aceitar certos métodos ou resultados da crítica histórica, geralmente é discriminado. Tal estudante recebe sorrisos condescendentes, é zombado e – ainda que secretamente respeitado – tratado como um forasteiro. Se ele é capaz de articular um ponto de vista com habilidade, pode até receber algum respeito aqui e ali. Mas pode contar com a plena aceitação apenas de pontos particulares, no máximo, e esses ainda serão pontos que não se distanciem muito da estrutura tradicionalmente aceita pela disciplina científica em questão. À medida que vai sendo iniciado no modo de pensamento crítico-histórico, o estudante se torna alienado daqueles com os quais partilhava íntima comunhão na fé. Eles não falam mais a “mesma linguagem”, e o estudante tem dificuldade para ouvi-los. Não os entende mais e vice-versa. Isolada, a pessoa se coloca na perigosa situação de se julgar superior e se torna mais suscetível à pressão do grupo representado por instrutores e colegas estudantes. O estudante também tem de apresentar trabalhos escritos que demonstrem que a aproximação crítica histórica foi suficientemente adequada. Ele é compelido a pensar, falar e escrever crítico-historicamente. Fora da intervenção aberta da graça de Deus, isso leva a uma grave mudança de pensamento e fé. A pessoa não é mais a mesma, pois seu manejo da Palavra de Deus é fundamentalmente transformado, até mesmo a sua leitura pessoal para edificação. Aquilo que foi aprendido nos estudos se coloca entre o cristão e a Palavra, barrando o acesso. Palavras e Significado No manejo prático da tradição cristã comum à teologia crítico-histórica, algo mais tem lugar que, no estudo do gnosticismo, tem sido chamado de pseudomorfose. A
  • pseudomorfose ocorre quando conceitos são esvaziados de seu sentido original e preenchidos com novo conteúdo que nada mais tem em comum com o sentido original do que o próprio nome. Essa confusão de sentidos é encontrada em cada ponto da ciência teológica. Conceitos bíblicos -- tais como justificação pela fé, substituição, graça, redenção, liberdade, pecado original, fé, oração, e a filiação divina de Jesus -- continuam a ser usados, mas com significados completamente diferentes. Por exemplo, que Jesus seja Filho de Deus, geralmente não significa que ele é “Deus de Deus, Luz de Luz, Próprio Deus do Próprio Deus”. É entendido como apenas uma cifra que expressa que houve algo especial com o “Jesus histórico” que o distingue de outras grandes figuras da história, e que nele nós estamos – de alguma forma – em contacto com Deus. Em relação a isso alguém ouve a expressão que diz que cada época tem sua própria sorte e deve operar sua própria cristologia. Tenho ouvido essa fórmula pelos últimos trinta anos. Eu mesma costumava apregoar isso e, com grande fervor, esperei por essa cristologia – em vão. Descobri que essa fórmula era apenas um alvará que permitia que aquilo que a Palavra de Deus diz acerca de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo fosse posto de lado como não-obrigatório, como era a cristologia do passado. É comum ouvir acadêmicos afirmarem que Messias é apenas um título honorífico, assim como Filho de Deus e Salvador. Tais títulos foram atribuídos a Jesus pelos diversos segmentos do cristianismo primitivo. Foram usados para expressar “relevância” àqueles que associavam suas esperanças religiosas a tais títulos. Hoje muitos não hesitam dizer que, por meio de tais títulos, Jesus “foi despojado por seus seguidores” – ele foi reivindicado como algo que na verdade nunca foi. Qualquer que adote essa maneira de pensar abandona a fé pura na Palavra de Deus, e como resultado traz destruição pessoal para a experiência com Deus. “Se você crer, receberá”, afirmou claramente Lutero. Se eu descreio ou creio
  • apenas parcialmente naquilo que a Palavra de Deus diz sobre Jesus, então ele era correspondentemente menos para mim pessoalmente. Experimentarei Jesus apenas ao nível que minha fé permite, e minha atitude carecerá de suas bênçãos e de sua comunhão. Não nos deixemos dissuadir da posição de que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, o Salvador, até mesmo se formos acusados de usar uma filosofia obsoleta e não-satisfatória porque, à vista de muitos, aceitamos meras palavras como se fossem fatos. Há apenas um conceito lidando com a salvação a partir da Sagrada Escritura que não foi incluído na confusão de termos acima mencionada: o sangue de Jesus. Esse não foi redefinido, mas simplesmente rejeitado. Foi posto de lado sob a alegação de que falar de sangue é um resquício duvidoso de uma era em que, tanto para judeus quanto para nãojudeus, o sacrifício sangrento estava na ordem do dia. Somente o Espírito Santo pode lançar a luz que precisamos para olhar através dessa confusão de termos. Podemos pedir a Deus a sabedoria para isso. Estamos lidando aqui com uma teia de engano tão finamente urdida e entretecida que apenas podemos deslindar com o auxílio do Espírito Santo. Não nos enganemos – os professores de teologia crêem naquilo de que falam. Eles próprios estão enredados na teia, até que graciosamente Deus os retire do domínio das trevas para o reino do Filho do seu amor (Cl 1.13-14). Dizem velhos conceitos, tal como usados originalmente, não são mais acessíveis para o homem moderno, e assim, devem ser transpostos para a situação contemporânea. Exigem que seja feita uma distinção na Palavra de Deus entre o que é dito e o que é significado. Mas a Escritura afirma contra esses reclamos: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, 17 a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3.16-17).
  • Dizem também que a Sagrada Escritura é tanto Palavra de Deus quanto palavra do homem, assim como nosso Senhor Jesus é Deus e homem conforme a confissão da igreja. A mesma confissão, entretanto, afirma que essas naturezas de Cristo são “sem confusão, sem separação”.61 Portanto, não é permissível nem possível que se separe a palavra humana condicionada ao tempo, da eternamente válida Palavra de Deus. Numa mistura de limalha de ferro e areia, alguém poderia separar o ferro usando um ímã. A Palavra de Deus, porém, não é uma mistura da válida Palavra de Deus e palavra do homem condicionada ao tempo que possam ser separadas uma da outra. Conseqüências da Teologia Crítico-Histórica Estas linhas não foram escritas com o propósito de condenar pessoas pelas quais, afinal, nosso Senhor Jesus foi à cruz. Antes, o propósito é o de caracterizar o perigo que o sistema de teologia crítico-histórico apresenta. O que tenho tentado fazer é comparável à colocação de um rótulo de aviso numa garrafa de líquido venenoso, a fim de que ninguém inadvertidamente beba do conteúdo pensando tratar-se de uma delícia nutritiva. Entendendo o que envolve o estudo crítico da teologia, a pessoa não mais assumirá automaticamente que o chamado para ser um enviado missionário, um evangelista ou um pastor e mestre deveria implicar forçosamente o estudo de teologia (veja Ef 4.11). No mundo a pessoa precisa, se possível, completar um curso de estudos a fim de obter um bom salário e “fazer algo na vida”. Este mundo não é o nosso lar, pois a nossa pátria está nos céus (Fp 3.20). Somos admoestados a não nos conformar com o mundo (Rm 12.2). Não podemos nos esquecer que o mundo nos odeia (Jo 15.19; 1 Jo 3.13). Somos soldados de Jesus Cristo, e nenhum soldado avança sem suas ordens, especialmente em campo inimigo. Se o faz, pode esperar pelo pior.
  • Um jovem que enfrente a questão de se aplicar ao estudo teológico crítico deveria, de coração puro, dispor-se a abrir mão de seus planos pessoais e pedir a Deus a iluminação da sua vontade. O indivíduo deveria obter direção clara com respeito ao chamado do Senhor não somente para se tornar um componente estratégico no corpo de Cristo (Ef 4.16), mas expressamente também para o estudo formal de teologia. Qualquer pessoa que o Senhor chame para o treinamento teológico formal deveria entregar-se alegre e confidentemente a essa tarefa como um enviado do Rei que sabe como proteger seus súditos até mesmo sob um corpo docente da área teológica. Contudo, esse estudante terá de calcular seus movimentos com cuidado, como um soldado atrás das linhas inimigas. Quem não recebeu tal chamado para o treinamento teológico formal deveria saber que muitas outras possibilidades estão aí, postas à disposição pelo nosso Pai celeste, para preparar a pessoa para o seu serviço: José não foi treinado na academia real de administração para ser o segundo em comando sobre o Egito e sob o faraó, mas, antes, no calabouço real. Moisés, reconhecido como filho da filha de faraó, foi instruído em todas as ciências e artes dos egípcios. Contudo, o preparo para liderar seu povo no êxodo do Egito para a Terra Prometida foi o de uma educação de quarenta anos como pastor no deserto, trabalhando para seu sogro, Jetro. Josué recebeu seu preparo ao longo de décadas de serviço subordinado a Moisés. Deus diz: “Dá-me, filho meu, o teu coração, e os teus olhos se agradem dos meus caminhos” (Pv 23.26).
  • 7 A Fé da Teologia e a Teologia de Fé Estudo Científico O estudo científico é primariamente um processo pelo qual a mente é disciplinada. Primeiro o ato é pensar é separado de como ele afeta pessoalmente o pensador. As questões que movem o coração e ocupam a mente e que preocupam a pessoa e requerem respostas, são instigadas em termos de “questões científicas”. Por um momento, o estudante deve pensar que essas respostas às questões a serem pesquisadas vêm da ciência. A seu tempo ele entende que não há respostas científicas para as questões “pré-científicas”. No mundo da ciência tais questões sequer são relevantes. Segundo, as faculdades intelectuais do estudante são polidas e preparadas para uso. O estudante treina observação, identificação, comparação, diferenciação, organização e classificação. Desenvolve habilidades no uso de pressuposições, em derivação de conclusões, e muito mais. O resultado de tal exercício – geralmente árduo no princípio – gera ganho pessoal. O estudante aprende a desenvolver habilidades e se isola daqueles aos quais faltam tais habilidade. Terceiro, o estudante aprende a adquirir um largo espectro de informação e a organizá-la numa estrutura conceitual provida pela disciplina de maneira que amplas conexões gradualmente se tornem familiares. Devido ao esforço necessariamente expendido, o resultado é naturalmente esperado como sendo um considerável enriquecimento., Conquanto no primeiro semestre estivesse imerso em intenso nevoeiro, o estudante tem a impressão de que agora vê perspectivas. Automaticamente se desenvolve um sentimento de superioridade em relação aos que ainda não partilhas a mesma perspectiva. Aquilo que foi adquirido é louvado e valorizado em função da humilhação
  • anterior de estar perdido numa floresta sem saber o que fazer para sair dela. Quarto, nos semestres seguintes, o estudante aprende a expressar sua visão no meio de uma pletora de pontos de vista divergentes e a estabelecer uma posição mantida por hábeis argumentos. Isso convence a pessoa de uma dada suficiência e independência do intelecto. Essa é uma sensação prazerosa que compensa por muitos dos problemas e esforços dos últimos meses e anos. Quinto, uma certa porcentagem dos estudantes cujas mentes foram cuidadosamente treinadas alcança o nível de criatividade disciplinada que conduz ao novo conhecimento científico.62 Isso é sentido por não poucas pessoas como sendo um objetivo tão significante para a vida e tão profundamente satisfatório, que muitas estão dispostas a viver em virtual asceticismo, despendendo nesse afã sessenta horas por semana, por anos e décadas, e no processo solvendo a maior parte dos seus bens em instrumentos de pesquisa. O estudo científico não é apenas um processo de treinamento mental, mas também um processo de regimento mental. Toda disciplina científica apresenta um complexo de tradições que foram formadas através dos problemas que foram reconhecidos numa disciplina em particular ao longo de um tempo, através de soluções tentativas que foram aplicadas, e através da aceitação ou rejeição das soluções devidas tanto à influência de pontos de vista científicos quanto de fatores externos que nada tiveram a ver com a ciência. Até mesmo quando praticantes de uma disciplina não têm consciência da história do seu objeto de pesquisa, ou simplesmente falham em tomá-la em consideração, esse complexo de tradições regula todo o escopo do trabalho científico na disciplina. O novo conhecimento científico só poderá surgir se ligado ao complexo de tradições. O regimento do pensamento corrente em cada área científica é um processo de aprendizado que leva a pessoa da sujeição aos limites colocados por outros para a sujeição
  • aos próprios limites. Em si mesmo esse regimento do pensamento não deveria ser visto de modo negativo, pois essa é uma necessidade para que o pensamento seja comunicável. Eu mesma posso imaginar grandes idéias, mas elas permanecerão sendo uma capacidade inútil se jamais ocorrerem num nível que capacite outras pessoas a participar delas e de se referirem às minhas idéias. Na teoria científica o pensamento é autônomo e não reconhece limites. A “independência da ciência” e a “liberdade acadêmica” são geralmente reconhecidos como requisitos justificáveis. Na prática essa liberdade existe apenas dentro dos complexos de tradições que têm lugar em cada um dos diversos objetos e disciplinas. Sobretudo, existe considerável esquecimento nesse estado de coisas, até mesmo quando um particular cientista teve dolorosa experiência nessa área. Na apresentação científica essa situação é algumas vezes vista quando ela é observada em retrospecto a um tempo em que a descoberta ainda não havia sido aceitavelmente integrada num complexo de tradições. Essa perspectiva independente ou minoritária perece na periferia, tomada pelo fluxo de lava da corrente de tradição. Ou a visão é gradualmente adotada em um movimento consciente de construção de uma ponte quando uma posição marginal é compartilhada por um número suficiente de indivíduos. A formulação científica de questões nem sempre se origina no objeto investigado, não ao menos preliminarmente, mas antes nos respectivos dados do complexo de tradições. Uma ciência autônoma, significando aquela que é sujeita apenas às regularidades do pensamento e obrigada apenas ao objeto investigado, não existe, pelo menos não no sentido que um particular pesquisador pode ser autônomo. É possível o surgimento de um complexo separado e, tanto quanto posso ver, isso já tem ocorrido. Nesse caso, a pessoa contar com larga descriminação e com negação da nova formação. Se, entretanto, a nova
  • formação se prova viável, com certeza haverá tendências no sentido de estabelecer posições para envolvê-la por meio da integração no complexo de tradição. A partir do que foi exposto acima deveria ficar claro que o estudo científico não é meramente uma coleção de descobertas úteis ou a busca de respostas para questões importantes. Não é apenas uma educação na qual as capacidades são desenvolvidas e a prontidão é obtida. O estudo científico, antes, traz uma profunda alteração na pessoa que nela se engaja. O treinamento da mente deixa uma marca indelével que o estudante, a despeitos dos efeitos colaterais, necessariamente credita como lucro. Para que haja sucesso, o estudante não pode, igualmente, evitar o pensamento regimental. Submissão não é apenas um exercício intelectual; em grande parte o estudante é inexoravelmente levado a personalizar a tradição. Não é tanto que as respostas sejam ditadas; é que a formulação de questões é determinada de antemão, o que tem o efeito de pré-programação das respostas a que se chegam, até mesmo quando o estudante chega até elas de modo relativamente independente. Devemos manter esses insights diante de nós à medida que agora nos voltamos para a teologia científica ensinada em nossas universidades. A Fé da Teologia É requerido daquele que se propões a estudar que se aproxime dos estudos teológicos “sem pressuposições”, para buscar a verdade “radicalmente e sem olhar para trás”. Tudo o que se tem aprendido da Palavra de Deus e experimentado em fé deve ser posto de lado em favor daquilo que se der=verá aprender nos estudos. Afinal, o estudante veio à faculdade para aprender e proceder baseado na suposição de que no curso dos estudos ele penetrará mais profundamente no conhecimento da verdade. O próprio requisito de abrir mão de antigas convicções parece assim suportável,
  • ainda que doloroso. Mas o estudante o aceita, pois ele luta pela verdade, e a verdade lhe está sendo prometida. O que fica escondido ao estudante é o fato de que a própria ciência, incluindo e especialmente a ciência teológica, não é de modo nenhum sem preconceito e sem pressuposições. As pressuposições que determinam a maneira como o trabalho é conduzido em cada disciplina operam por trás das cenas e não abertamente. A pressuposição fundamental da universidade teológica em sua inteireza, tal como é esposada em nossas universidades, é a convicção de que a autoridade final com respeito à verdade é o intelecto crítico treinado, profissionalmente informado e regimental. Isto é, a santa Escritura é subordinada à razão. A razão decide o que é certo, provável ou improvável na Bíblia, e o que ocorreu, não ocorreu ou jamais ocorrerá. O intelecto crítico decide se Deus deve ser visto como quem age e fala, ou se “Deus” é na verdade simples complexo de idéias e conceitos sobre um hipotético ser divino. Aqui a razão faz uso de possibilidades de conhecimento que lhe são inerentes. O intelecto crítico não pode conceber um evento verdadeiramente singular; portanto, tem de tomar como pressuposição fundamental, a uniformidade básica de tudo o que acontece e sempre aconteceu. O intelecto crítico adquire conhecimento somente por meio de comparação e diferenciação. Onde, portanto, tal intelecto busca conhecimento, tem de primeiro estabelecer níveis de comparação. Revelação é algo inconcebível para o intelecto crítico; seu padrão é aquilo que se considera como a experiência comum a todos os homens em todos os tempos. Ele julga por meio de padrões carnais. Assim, é inerente e completamente inadequado para avaliar aquilo que é espiritual – o qual tem de ser avaliado espiritualmente. Para o intelecto crítico, o espiritual nada mais é do que um conceito, uma idéia que não tem nenhuma conexão com a realidade.
  • Ilustremos isso tomando um exemplo da Bíblia. Para o crente, João 3.16 é uma realidade: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. E o cristão dá graças a Deus por isso. Engajado no trabalho teológico, o estudante deve se distanciar dessa realidade. Ele precisa, antes, considerar como essa declaração se encaixa no estrado procrusteano63 da análise de religiões comparadas: tal análise despreza totalmente a realidade e a verdade. O que é analisado é, desde o início, reduzido a pensamentos, idéias e conceitos. Pensamentos, idéias e conceitos de diversas religiões são comparados uns aos outros. A questão da correlação é continuamente colocada: Pode um ter sido derivado do outro ou há uma influência mútua? Para João 3.16, o resultado de tal aproximação, bastante simplificado, vem a se tornar algo mais ou menos assim: Filho de Deus era entendido no judaísmo apenas em termos de adocionismo, não em termos de um homem em unidade essencial com o único Deus verdadeiro. Mais ainda, os filhos de Deus nas religiões pagãs não eram portadores de revelação vinda de Deus. Isso torna João 3.16, como material de fonte comparativa, apenas um escrito gnóstico, especialmente da seita mandeana. Em favor disso alguém poderia dizer que os portadores de revelação usavam nesses escritos os mesmos conceitos que Evangelho de João usa para Jesus (tais como luz e trevas, e vida e morte). Fora isso, nenhum outro paralelo com João pode ser achado nesses escritos. O logos do Evangelho de João é o Criador do mundo; os portadores de revelação nos escritos mandeanos não eram criadores. Eles também nada dizem sobre a redenção por meio da cruz. O princípio temporal também não funciona: os escritos mandeanos datam de séculos depois, o que tem levado alguns pesquisadores a imaginar a existência de um mandeanismo mais antigo.
  • Certamente, todas essas discrepâncias são vistas, mas eles não as consideram como base suficiente para questionar o método de religiões comparadas. A discrepância simplesmente fornece uma área estendida para a formação de hipóteses, isto é, para construção de castelos de cartas de baralho de suposições que permanecem em pé apenas em virtude do suporte que recebem de outras suposições. Se o ponto de referência comparativo das religiões não for visto nos escritos mandeanos, mas nos de Qumran, emergem diferenças e certas mudanças de ênfase. O conceito básico, entretanto, permanece sendo exatamente o mesmo: de João 3.16 deve sua existência à conexões com religiões não-cristãs da antigüidade, quer adotando seus pontos de vista quer rejeitando-os no todo ou parte. Aquilo que ra originalmente cristão é percebido como sendo simplesmente uma ramificação de padrões previamente estabelecidos. Quaisquer que sejam as formas específicas que tomem as conexões da presumida comparação de religiões, um aspecto do método permanece constante: um castelo de cartas de suposições deve ser erguido. O resultado final nada mais é do que uma conjectura, a qual é enunciada de maneira mais ou menos plausível por meio de argumentos. O lado bom disso tudo é, claro, a considerável satisfação mental mediante a autovalidação do intelecto. Foi preciso um trabalho árduo para avaliar conjecturas mutuamente opostas e propor soluções, e equilibra-las entre si. O pesquisador obtém uma impressão de superioridade. Ele se julga bem sucedidos na obliteração de prévias explanações da informação que a seu ver eram deficientes, propondo uma avaliação nova e abrangente. Torna-se profundamente convencido de haver prestado bom serviço à verdade e de haver contribuído para a proclamação do evangelho.
  • Tal convicção é indubitavelmente sincera. Mas essa empreitada audaciosa nada tem a ver com o caminho, a verdade e a vida. Esse tipo de exercício intelectual reduz um versículo tal como João 3.16 a um apanhado de idéias religiosas e de conceitos teológicos. Ele deixa de ser Palavra de Deus que conduz à salvação. A pressuposição com a qual a investigação começou – conduzir a pesquisa como se não houvesse Deus – estabiliza o resultado antes mesmo que a observação comece. Trata-se de preconceito afirmar que tudo que já aconteceu é aquilo que acontece a todas as pessoas em todos os tempos, e da mesma maneira. Nessa base, por exemplo, é dito que em Marcos 13.2 há um vaticionium ex eventu (“profecia” após o fato já ter ocorrido): Ela não pode ser uma genuína profecia segundo o critério de julgamento da pesquisa crítica, pois exatamente aquilo que foi profetizado, aconteceu. A teologia crítico-histórica reconhece, aparentemente, pressentimentos e previsões humanas, e assim, concedem que Jesus possa ter sido capaz de prever sua execução. Entretanto, não há tal coisa como um conhecimento vindo a Deus a respeito das coisas futuras. Pode-se observar o tipo de castelo de cartas que a pesquisa crítica constrói, observando que a mesma passagem arbitrariamente declarada como vaticinium ex eventu, Marcos 13.2, coloca o peso da prova na afirmação de que o Evangelho de Marcos foi escrito depois de 70 a.D. Essa premissa então é estabelecida como marco para a datação dos demais Evangelhos e Atos. De fato, o método crítico-histórico é um colosso erguido sobre pés de barro! Trata-se de preconceito – não de resultado de investigação científica – que alguém não possa, segundo o método crítico-histórico, ler os relatos de milagres no Novo Testamento como registros de milagres que verdadeiramente ocorreram. Eu mesma ensinei com bastante freqüência – tal como fui ensinada décadas antes – que ninguém pode aceitar
  • como auto-evidente que esses milagres tenham ocorrido da maneira descrita. Depois que Deus por sua graça convenceu-me de que ele ainda hoje opera tais maravilhas, comecei a ponderar sobre quais seriam os argumentos válidos para apoiar a afirmação de que milagres não podem ocorrer. Para minha vergonha, tive de admitir que não havia nenhum, pois a presença de paralelos nas religiões comparadas, às vezes usados para desacreditar os milagres relatados na Bíblia, não prova coisa nenhuma. Nenhum argumento do Antigo Testamento, o qual relata milagres de alimentação sobrenatural e de ressurreição dentre os mortos, pode ser usado para desacreditar os registros do Novo Testamento, a menos que alguém pressuponha para o que busca provar, que os registros do Novo Testamento devam ser tomados como literariamente dependentes do Antigo Testamento. Grande parte dos relatos antigos de milagres de cura que tem sido coletados por Weinreich fala de pessoas que viveram bem depois que os Evangelhos foram escritos.64 Isso continua sendo verdadeiro, até mesmo se aceitarmos as últimas datas para os Evangelhos propostas pelo método crítico-histórico. Com toda justiça isso parece provar que o Novo Testamento está influenciando o que ocorreu mais tarde, em vez de vice-versa. É certo que milagres são relatados em cidades antigas tal como Epidaurus, das quais se diz terem sido cenários de curas. Entretanto, isso não prova que os registros de milagres do Novo Testamento sejam formações literárias secundárias. Por um lado, as descobertas tornam impossível a derivação literária. Além disso, deve ser levado em conta que o aspecto sinistro do mundo invisível pode ter estado em operação em tais cidades. Essas são apenas algumas sugestões. Uma investigação mais intensa mostraria que subjacente à aproximação crítico-histórica há uma série de pré-julgamentos que não são em si mesmos resultados da investigação científica. São, antes, premissas dogmáticas,
  • declarações de fé, cujo fundamento é a absolutização da razão humana como aparato controlador. Quando se fala sobre Deus e Jesus com base nesse fundamento, obviamente estamos lidando com sincretismo – uma afirmação para a qual mais provas deveriam ser apresentadas mediante estudos mais estendidos. A Teologia da Fé A rejeição de uma teologia cuja fundação é a fé na razão de modo nenhum constitui a rejeição absoluta de toda a teologia. Sequer constitui a rejeição do intelecto na área da teologia. O Espírito Santo, como o vento, move-se como lhe apraz, e não de maneira dependente das pressuposições de um intelecto academicamente disciplinado. Ele pode levar cozinheiros, padeiros, sapateiros e operários a serem poderosos pregadores do Evangelho. Uma educação acadêmica não é garantia da posse do poder do Espírito Santo. Contudo, o intelecto disciplinado pode ser usado pelo Espírito Santo e tornar-se um instrumento de precisão em suas mãos quando e onde Deus quiser. Na teologia da fé, a necessária regulação do pensamento tem de ocorrer por meio da Sagrada Escritura. Ela controla o processo de pensamento. O pensamento deve ser subordinado à Palavra de Deus. Se surgem dificuldades, ele não duvida da palavra de Deus, mas da sua própria sabedoria. Ele pede a Deus sabedoria a Deus na expectativa de que receberá aquilo que pede, esperando pacientemente pelo tempo do Senhor. Ele pressupõe a verdade e a unidade da Palavra de Deus e por isso está em posição de reconhecer e experimentar tal verdade e unidade de uma maneira bem real. Ele crê na Escritura, a qual diz de si mesma que foi dada por Deus. É significante que Jesus Cristo tenha se tornado para nós sabedoria (1 Co 1.30), e que por causa disso uma distinção tem de ser feita entre a sabedoria divina e a sabedoria “terrena, animal e demoníaca” (Tg 3.15).
  • O pensamento que acata a regulação da santa Escritura refreia-se de controvérsias vãs e de buscas racionalistas de novidades. Ele concede ser levado cativo à Palavra de Deus (veja 2 Co 10.5). Não se interessa por jogos tais como: “Mas o que se...?” “Não poderíamos assumir que...?” A Sagrada Escritura é para nós, afinal, a palavra do Pai. A maneira como a tratamos é a maneira como encontraremos nosso Pai nos céus. Questões são resolvidas sobre nossos joelhos, não por meio de comentários exploratórios. Deus pode, sim, usar a obra de irmãos que escrevem comentários para nossa instrução, e somos gratos por seus conselhos. Mas estes são úteis apenas quando sob a direção de Deus, e estaremos confiando na carne, se dependermos deles somente para fortalecer nossas mãos. O fruto do estudo teológico conduzido sob os auspícios da teologia da fé teria de incluir pleno domínio da gramática e da lexicografia, a capacidade de ler a Palavra de Deus de maneira proveitosa nas línguas originais e de conferir traduções. O estudo frutífero deveria conferir e incorporar o estoque de informações contextuais em relação a pessoas e reis mencionados no Antigo e no Novo Testamento, geografia e clima, a existência e impacto de leis civis e outros fatores. Deveria derivar larga consciência do plano salvífico de Deus e estar em posição para compartilhar a totalidade do conselho de Deus (2 Tm 2.15), manter a Palavra e a sã doutrina , e admoestar com ensino sadio, convencendo àqueles que o contradizem, e defendendo a fé (Tt 1.9). Relacionamentos e conexões na Palavra de Deus deveriam ser estudados para discernir, por exemplo, como as leis de sacrifício eram sombras da obra salvífica de Jesus, ou como a profecia em Apocalipse já era revelada em parte pelos profetas do Antigo Testamento. Deveria ser a descoberta de que a Palavra da Deus tem tesouros escondidos
  • para uma busca humilde, tais como vislumbrados nas referências a Jesus no tabernáculo, ou como as genealogias contribuem à sua própria maneira para a exaltação de Deus. Entretanto, há também a necessidade de capacidade para distinguir entre tesouros genuínos e trivialidade excêntricas. O prazer intelectual é um fato da vida. Deus pode usálo, mas quando a carne toma conta dele – e a carne está sempre pronta para mostrar sua face horrenda – então a ênfase não é dada aos tesouros escondidos da Palavra de Deus, revelados pelo seu autor divino. Antes, a Palavra se torna um caça de descobertas erráticas, e teologias inteiras são construídas sobre alguma cláusula dependente encontrada na Bíblia.65 O que é realmente lamentável é que um autor pode supor honestamente que possíveis insights tenham sido dados pelo Espírito Santo. É assim que somos, e por isso, como cristãos, precisamos de correção uns dos outros. Qualquer um que pense que poderia confiar em seu próprio intelecto não conseguirá evitar o erro usando essa estratégia: “Porque todos tropeçamos em muitas coisas” (Tg 3.2). O conhecimento sólido da Palavra de Deus como acima descrito pode ser usado por Deus para desmascarar teologias baseadas em descobertas excêntricas e em teologias aberrantes.66 Contudo, note bem: eu disse “usado por Deus”. O teólogo não ocupa, em virtude do seu estudo acadêmico, a cadeira do juiz. Deus somente é o juiz. Quando nós pensamos que estamos certos, podemos descobrir que estamos numa situação como a descrita em Juizes 20.12-18: Por causa de um crime mesquinho cometido em Gibeá, onze tribos de Israel vieram a enfrentar a décima segunda, a tribo de Benjamim, porque esta não estava disposta a entregar os perpetradores. A razão pela qual eles pegaram em armas foi realmente legítima, e eles haviam consultado o Senhor se deviam ir à luta. Não obstante, o Senhor permitiu que duas vezes as onze tribos fossem vencidas por apenas uma – provavelmente porque em seus corações olhassem para a situação como se fosse seu
  • negócio, como sua expressão de indignação, em vez de tratá-la como coisa de Deus. Quando, finalmente, no terceiro ataque o Senhor entregou Benjamim às suas mãos, eles lutaram com tal abandono que se esqueceram que lutavam contra parte do próprio povo de Deus. A tribo de Benjamim estava sendo quase aniquilada, e uma vez que Israel somente poderia aparecer diante do Senhor com a representação de todas as tribos, o problema era o de resolver como essa única tribo poderia ser salva da extinção, pois apenas seiscentos jovens tinham sobrevivido, e nenhuma mulher. Não somos nós que decidimos saltar para a ação, a nosso próprio juízo; antes, Deus nos usa como instrumentos, caso o deseje. Aí então a nossa tarefa será a de obedecer.
  • 8 A Mentalidade da Teologia Crítico-Histórica Um exemplo ilustrará a maneira como a teologia crítico-histórica caracteristicamente pensa e opera. Minha intenção é demonstrar o que normal e comumente ocorre. Para isso escolhi uma seção de um livro escrito por um grande número de escritores, incluindo não-teólogos. O organizador do livro é um teólogo renomado e prolífico acadêmico que tende a ser conservador em vez de crítico. Essa escolha do assunto foi feita cuidadosamente para melhor justificar as generalizações com que basearemos nossas observações. Em sua Theology of the New Testament, Werner Georg Kümmel declara que “na segunda metade do século XVIII, em conexão como o movimento intelectual do Iluminismo, começou a prevalecer na teologia protestante o insight de que a Bíblia era apenas um livro escrito por homens, o qual, como tantos outros produtos da mente humana, somente poderia ser entendido à luz do tempo em que apareceu, e, portanto, apenas por meio dos métodos da ciência histórica”.67 Essa declaração erradamente leva o leitor imparcial a assumir que ele mesmo deve aceitar como sendo fato que a Bíblia é meramente um produto da mente humana. A premissa básica da teologia crítico-histórica – de que a Bíblia deve ser vista como uma criação da mente humana e não pode ser manejada de maneira diferente da de outros produtos da atividade mental humana – é apresentado ao leitor como “fato estabelecido” (ou insight, por Kümmel). Isto é, a declaração parece ser um insight baseado na familiaridade de certos fatos. Inevitavelmente o leitor considerará esse assim chamado conhecimento como resultado de pesquisa que alcançou domínio e reconhecimento geral.
  • Um leigo que não esteja consciente de todos os fatos, aceitará a premissa, porque toda a autoridade da ciência a suporta. Esse insight , esse fato estabelecido, parece, obteve aceitação na ciência já a alguns séculos. Dessa maneira, uma pessoa se vê presa de uma teia de engano. O chamado conhecimento foi, na verdade, apenas uma decisão. Uma minoria diminuta entre os membros da intelectualidade ocidental decidiu considerar o homem como medida de todas as coisas (humanismo). Conseqüentemente reconheceram como verdade aquilo a que eles pudessem chegar por meio do pensamento indutivo (Iluminismo, Francis Bacon). Essa foi uma decisão de deter a verdade pela injustiça. Assim, o homem rejeitou a Palavra de Deus como sendo a verdade revelada, e optou pela sabedoria deste mundo, a qual é essencialmente ateísta, ainda que pareça ser devota e que pronuncie o nome de Deus. A decisão de deter a verdade pela injustiça, feita primeiramente por alguns que viam a si mesmos como sábios, em pouco tempo obteve tamanha proeminência que hoje, na Alemanha, até mesmo crianças de escola, desde o primeiro ano, são doutrinadas nesse sentido. Outra olhada em Kümmel nos ajudará a entender como tais visões se espalharam até o ponto de hoje: Alguém alega – como já se fez – ter uma base sólida de conhecimento, respaldada por fatos e pela verdade sobre a qual se coloca. Baseado nisso, a pessoa argumenta que as conseqüências são inexoráveis: Porque a Bíblia é “um produto da mente humana”, ela “pode ser propriamente entendida... apenas por meios dos métodos da ciência histórica”. Esse tipo de chicanice demagógica é provavelmente a estrutura básica, não só da teologia crítico-histórica, mas também de um inteiro espectro de disciplina nas artes. A linguagem dessa demagogia começa dizendo:
  • “Como qualquer um pode ver...” “Qualquer um reconhece...” “A conclusão é inegável...” “A suposição é compelativa...” “Não se pode ignorar que...” “A pessoa tem de...” “Ninguém pode...” “Ninguém pode parar no meio do caminho...” Onde que se encontre esses tipos de formulações, geralmente há os pés de barro da Ciência colossal. Aquele que mantém que a Bíblia somente pode ser entendida por meio dos métodos da historiografia crítica está colocando uma ciência concebida de maneira completamente ateísta como responsável pelos tesouros da revelação divina. A Palavra de Deus nos diz que Deus controla o destino das nações; a historiografia crítica recusa a princípio até mesmo considerar a possibilidade de que Deus tenha operado na história. E quando essa ciência ateísta e anticristã é reconhecida pela teologia critico-histórica como sendo o único acesso à Palavra de Deus, então todos que se consideram teologicamente educado deveria endossar essa visão. A fim de receber um grau acadêmico como especialista nas coisas relacionadas a Deus, tenho de, portanto, tomar a decisão de dar espaço em meu pensamento para o ateísmo. Ser-me-á graciosamente permitido manter meus sentimentos piedosos, mas meu pensam, então terá de seguir o padrão dos princípios diretores ateístas: ud si Deus non daretur (como se não houvesse Deus). Isso é perversão!
  • Tanto a teologia crítico-histórica quanto a historiografia crítica tem suas bases no engano. A ciência é, coerentemente, não um sinônimo de verdade, mas, antes, de rebelião contra Deus, a qual detém a verdade pela injustiça. A particulares informações que ela desencava são desfiguradas e distorcidas, como uma colher é oticamente distorcida num copo de água. Kümmel continua: “Isso quer dizer que, a partir desses insights, resultou a conclusão inevitável de que até mesmo a apresentação do pensamento contido na Bíblia, isto é, a “teologia bíblica”, poderia ocorrer adequadamente somente com o auxílio da inquirição histórica, se o conteúdo do pensamento fosse influenciado pela dogmática e realmente reconhecido de modo independente”.68 Kümmel, portanto, assume que eu posso ler a Bíblia “sem a influência da dogmática” apenas com o auxílio da historiografia crítica. Em outras palavras, eu serei influenciada pela dogmática caso me recuse a espremer o pensamento pelo furo da agulha da historiografia crítica e ler a Bíblia como ele se apresenta. Ou leio a Bíblia influenciada pela dogmática – e isso é inadequado, pois assim ela não é “realmente reconhecida de modo independente” – ou leio a Bíblia por meio do método histórico de formulação de questões. Esse, sim, seria adequado e resultaria em que o conteúdo de pensamento da Bíblia seria “realmente reconhecido de modo independente”.69 O objetivo, então, é o de “reconhecimento realmente independente”, no qual a medida de todas as coisas é o homem. A historiografia crítica ateísta dá o ponto de Arquimedes70 necessário para se fazer uso da Palavra de Deus sem que se tenha de ir à Palavra de Deus. O confisco da Bíblia pelo alheio reduz a Palavra de Deus a um “conteúdo de pensamento”, e o resultado disso é chamado de “teologia”, a qual é tradicionalmente definida como “conversa sobre Deus”! A perversão é monstruosa! A revelação de Deus
  • deveria ser reconhecida como “adequada” e “realmente independente” de tal maneira que Deus não fala mais nem é mais honrado ou servido. Temos submetido gerações após gerações de jovens crentes dispostos e ávidos de servirem a Deus, a esse fogo, sacrificandoos ao Moloque de uma teologia ateísta. O resultado disso tem sido gerações após gerações de guias desorientados. Quando é que finalmente reverteremos o curso e renunciaremos a adoração desse ídolo? Kümmel continua sua apresentação, observando o que a teologia crítico-histórica acha compelativo para aceitar depois de haver “investigado a Bíblia historicamente como o produto de autores humanos”: “Porém, assim que se tornam realmente sérias sobre tal inquirição com respeito às idéias da Bíblia, como primeiro ocorreu por volta de 1800, as pessoas se acham compelidas não apenas a separar completamente a apresentação do Velho e do Novo Testamento um do outro, mas também, na figuração das idéias do Novo Testamento, a deixar que Jesus e os vários autores apostólicos falem por si mesmos”.71 Ele é traído por sua linguagem, ou antes, ele trai a teologia crítico-histórica a qual representa: “as pessoas se acham compelidas... mas também...”. Qualquer pessoa que se aventure nessa forma de impiedade é daí por diante incapaz de tomar decisões de maneira independente; algo ou alguém está aí para compelir. Isso é honestamente afirmado. Tal compulsão não é exercida por meio de regras de lógica ou por métodos de tentativa-eacerto; isso não é coercitivo. Estamos lidando com forças demoníacas, sob cuja influência cai a pessoa quando começa nesse caminho abaixo. A pessoa não está mais livre, mas sob encantamento. Baseado no que já citamos, Kümmel traça sua conclusão: Não podemos simplesmente parar no meio do caminho. Se a Bíblia deve ser investigada historicamente como sendo o trabalho de autores humanos a fim de entender seu verdadeiro sentido, então não podemos nem devemos nos ater à suposição de que o Antigo e o Novo Testamento, cada um de per si, formam uma
  • unidade conceitual, e então temos de prestar atenção às diferenças dentro dos dois Testamentos e de levar em consideração também a possibilidade de desenvolvimento e adulteração de idéias. Conseqüentemente a preocupação com a teologia do Novo Testamento se encontra, logo de início, confrontada com o problema da diversidade e unidade do Novo Testamento.72 Isso é ultrajante, mas aí está: “...a Bíblia deve ser investigada historicamente como sendo o trabalho de autores humanos a fim de entender seu verdadeiro sentido...” Isso não é primeiro demonstrado; é, antes, pressuposto de princípio. E essa não pe uma opinião provada de Kümmel; é uma suposição comum da teologia crítico-histórica, a qual menciono mais uma vez aqui para indicar as conseqüências da sua adoção. A conseqüência é uma atomização da Bíblia: acaba-se tendo em mãos apenas pedaços sem que se possa reconhecer o vivo contexto. Em desespero diante da própria falta, a pessoa finalmente chega a considerar as declarações da Bíblia como possíveis “adulterações” de idéias. É assim que a santa Escritura do santo Deus é tratada! A Palavra de nosso Redentor é calcada aos pés. Quando no campo missionário, os muçulmanos confrontam os missionários com excertos escolhidos das obras dos teólogos crítico-históricos e declaram: “Seu próprio povo diz que Bíblia não é verdadeira!” De fato, Deus é misericordioso e paciente. Mas não se engane: dele não se zomba. O julgamento está preste. Bendito aquele que busca refúgio no sangue de Jesus! Kümmel continua: Portanto, desde o início a preocupação com o conteúdo teológico do Novo Testamento como uma entidade histórica independente se colocou em tensão com toda forma de teologia dogmática. A apresentação da doutrina cristã como resposta à questão sobre a essência da revelação de Deus em Jesus Cristo, de qualquer pressuposição que proceda e em qualquer conexão que lhe seja imposta, obviamente tem o objetivo de assestar um ensino unificado. Assim, a dogmática entra em dificuldades quando busca achar apoio no Novo Testamento como base para seus pronunciamentos, e acaba descobrindo que a teologia bíblica é incapaz para exibir um ensino unitário no Novo Testamento. Aqui, o verdadeiro problema de uma “teologia do Novo Testamento” nos confronta.73
  • Esse trecho permite especial e claro insight com respeito a como funciona a aproximação de Kümmel: Por meio da introdução do conceito de tensão (“se colocou em tensão”), a investigação é, logo de início, lançada para fora do âmbito das duas coordenadas, da verdade e da mentira. A Teologia Dogmática é apresentada como o padrão de comparação. Isto é, as objeções baseadas numa leitura fiel da Escritura que sejam levantadas contra o tipo de teologia do Novo Testamento que Kümmel propõe, sofrem discriminação. Não lhes é permitido fazer de forma significativa o contra-exame das suposições da teologia críticohistórica. As objeções são, antes, postas de lado como sendo originárias do ponto de vista de outro assunto que, como este, acaba sendo mera concepção humana. Essa forma de argumentação não é nova – o que não torna as coisas melhores. A Dogmática é, também de início, vista como uma oponente e desqualificada como ponto de vista legítimo para a ciência: ela procede de certas pressuposições, coloca restrições para si mesma; e finalmente – a despeito de todas as suas admitidas possíveis diferenças internas – é tendenciosa no sentido de mostrar unidade em suas pressuposições e restrições. Tomada como se colocando em contraste com a |Teologia do Novo Testamento, sua posição é considerada tendenciosa. Dessa maneira, a teologia crítico-histórica se protege, de início, de questões inconvenientes. A dificuldade acima mencionada, encontradas em Kümmel, é apenas uma de muitas. Ele não deixa de declarar: “Pois até mesmo se o expositor se preocupa antes de tudo com o sentido de particulares escritos do Novo Testamento... ele é confrontado com uma tarefa insolúvel”.74 Kümmel mantém, então, clara e inconfundivelmente, que o sentido da Palavra de Deus, dada para a nossa salvação, é, do seu ponto de vista, além da nossa
  • apreensão. De fato, tal falência na interpretação da Bíblia deveria ter levado em consideração os princípios de tal interpretação. Em vez disso, Kümmel procede como se segue: “Os escritos coletados no Novo Testamento são, segundo seu caráter histórico, documentos de história religiosa antiga, escritos numa língua morta, um conjunto de conceitos e um mundo conceitual que não podemos mais reconhecer imediatamente. Portanto, podemos fazê-los falar somente por meio da pesquisa histórica, e apenas dessa maneira podemos nos aproximar de um entendimento do sentido proposto pelos autores”.75 Mais ultraje! O livro da nova aliança, que fala a nossa redenção – é feito apenas uma coleção de “documentos de história religiosa antiga”! “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” – uma sentença citada de documentos de história religiosa antiga! “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” – a Palavra de nosso Senhor e Salvador, um aforismo da história religiosa antiga! “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” – da mesma maneira, um fragmento de uma história religiosa antiga! Segundo Kümmel, tais documentos de história religiosa antiga foram “escritos numa língua morta, um conjunto de conceitos e um mundo conceitual que não podemos mais reconhecer imediatamente”. Isso nada mais é do que uma tentativa forçada para relegar a Palavra de Deus a um histórico “então”, para tirá-la de uso e transformá-la num museu à disposição para eventual turismo. Hoje milhões de filhos de Deus experimentam diariamente o Novo Testamento, de fato, a Bíblia toda, como Palavra viva de Deus, através da qual Deus lhes fala. Ignorando tais experiências de âmbito mundial, Kümmel afirma: “Os escritos coletados no Novo
  • Testamento... podemos fazê-los falar somente por meio da pesquisa histórica, e apenas dessa maneira podemos nos aproximar de um entendimento do sentido proposto pelos autores”. O Espírito Santo é negado e Jesus, contraditado, o mesmo Jesus que declarou: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mt 11.25-26). O pronunciamento assustador de Jesus, de Mateus 23.13, não se aplica a tal teologia? “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!” Temos de manter em vista que não somos detetives trabalhando num “caso Kümmel”. As considerações de Werner Georg Kümmel servem meramente como um exemplo – e ele é, lembro ao leitor, um defensor dessa teologia. Kümmel nos deixa sem nenhuma dúvida quanto à questionável natureza dos resultados dos esforços críticos para fazer que os escritos do Novo Testamento falem por meio da pesquisa histórica: “Tal preocupação com uma explanação científica, por sua própria natureza, poderá levar somente resultados prováveis e, em alguns casos, apenas hipotéticos; e isso requer o julgamento arriscado entre seguir um resultado alcançado ou substituí-lo por outra tentativa de explicação”.76 Por causa da decisão de que o pensamento contido na Bíblia só poderia ser reconhecido de modo independente, a unidade da Bíblia é dissolvida e a Palavra de Deus não serve mais como sua própria intérprete. Conseqüentemente é necessário entregar-se a pressuposições em vez de reconhecer fatos, conectar hipóteses a hipóteses até que um castelo de cartas esteja construído. O fator decisivo na avaliação e organização dessas hipóteses é o “eu” autônomo, o qual julga a Palavra de Deus segundo sua própria discreção. O intérprete tem aquilo que
  • escolhe; o “eu” se assenta no trono. Na fábula antiga, o rei Midas só poderia pensar em ouro, e como resultado desprezou a fome, pois continuando com seu ganancioso desejo, tudo o que tocava virava ouro. Da mesma maneira, a pessoa que, em oposição à Palavra de Deus, decide pela sua própria radical autonomia, é entregue a si mesma e como resultado, realmente percebe apenas projeções de si mesma. Para essa pessoa, a Palavra de Deus realmente se torna uma letra morta. Esse é o julgamento de Deus! Agora, porém, os mesmos escritos do Novo Testamento foram coligidos pela igreja primitiva num cânon de escrituras sagradas, cuja extensão não foi mais disputada seriamente depois do final do quarto século. Eles haviam adquirido o caráter de escritas normativos, fundamentais para a fé, aos quais o cristão tem de responder com crença obediente. Mas é fácil de constatar a impossibilidade básica de confrontar os escritos do Novo Testamento, sendo um homem que procede a julgamentos na pesquisa e, ao mesmo tempo, ouve em fé.77 Essa é a verdade! Não estou ciente de que outro teólogo crítico-histórico tenha visto os fatos com tanta clareza. Alguém poderia pensar que aqui, Kümmel fosse fazer a revisão da sua posição crítica. Se realmente leva a essas conseqüências, então deve estar mal dirigida. Mas não é assim que ele procede. Antes, Kümmel dá um salto final: Por isso, quando tentativas compreensíveis são feitas repetidas vezes para escapar desse dilema, tais tentativas ainda eram e são fadadas ao insucesso porque não correspondem ao estado de coisas. A preocupação científica com o entendimento do Novo Testamento tem de reconhecer – precisamente quando tal entendimento é buscado no contexto da igreja primitiva e a partir de pressuposições de fé – o fato de que nós também podemos chegar a uma audição crente da mensagem do Novo Testamento somente de uma maneira: a saber, por meio de buscar fazer compreensíveis as declarações dos antigos autores do Novo Testamento, exatamente da maneira como os leitores ou ouvintes contemporâneos poderiam e deveriam entendê-las.78 Concordo com Kümmel, que soluções comprometidas por concessões não suportam grande peso. Mas isso de modo nenhum justifica sua contenção sem base de que é um fato que a recepção da crença na mensagem do Novo testamento pode ocorrer somente pelo
  • auxílio auditório da teologia crítico-histórica. O menos e mais jovem filho de Deus poderá convence-lo de erro quanto a essa reivindicação desavergonhada. Contudo, Kümmel subseqüentemente coloca a tese uma vez mais: “Assim, não há outro acesso ao entendimento dos escritos do Novo Testamento do que o método da pesquisa histórica, a qual é válida para todos os escritos da antigüidade.”79 O “eu” radicalmente autônomo dita quais os resultados que o pesquisador histórico deverá servir como explanação para uma dada passagem. Esse processo é o único acesso “para uma audição crente (zum gläubigen Hören) da mensagem do Novo Testamento”. Observe cuidadosamente que Kümmel escreve gläubiges Hören (“audição crente”) em vez de glaubendes Hören (“audição fiel”). Gläubig (“crendo”) conota um atributo subjetivo, enquanto Glaube (“fé” que produz a audição crente) está ligada objetivamente a uma dada promessa. Então Kümmel tenta (embora seja difícil ver como, devido a suas declarações prévias) manter a importância da fé no lidar com a Bíblia: “É claro que em grande parte depende de se a pessoa busca tais pesquisas como alguém não-envolvido e em consciente desligamento, ou como alguém internamente envolvido e disposto a ouvir com abertura plena.”80 Não obstante, Kümmel confirma sua posição de que “não há outro acesso ao entendimento dos escritos do Novo Testamento. Ele continua: “Portanto, enquanto aquele que acerca do conteúdo e dos destinatários dos escritos do Novo Testamento vê-se confrontado pela necessidade de obter uma audição pessoal deles por meio da explicação científica do texto antigo, essa dificuldade é mostrada de maneira crescente ma preocupação com a teologia do Novo Testamento.”81
  • “Não há outro acesso”? – Ai daquele sobre que se achegue ao trono do julgamento de Deus com tal reclamo! Sou grata que o sangue de Jesus tenha lavado meus erros! Eu não era melhor; de fato, era pior, e igualmente fiz tais irresponsáveis declarações. E qualquer que esteja envolvido com a teologia crítico-histórica acabará em igual situação. Ninguém pode ser um pouco crítico histórico – não mais do se poderia estar um pouco grávida!
  • Excurso 3 Conselho Falso e Verdadeiro É, sua fé, muito limitada? Algumas vezes, filhos de Deus se recusam ao estudo crítico da teologia numa universidade porque sabem em seu coração que não é a voz do Bom Pastor que ouvirão na voz da teologia crítico-histórica. Tais crentes freqüentemente enfrentam a objeção: “É tão limitada que a sua fé que você não queira aceitar a teologia crítico-histórica?” Essa é uma pergunta enganosa. Deus não requer que ponhamos nossa fé à prova. Já nos devíamos quando entretemos a idéia de que nossa fé está à disposição dessa maneira. Jesus é o autor e aperfeiçoador de nossa fé (Hb 12.2), e a medida de fé é segundo o que nos tem sido dado (Rm 12.3). Nenhum dos sedutores que encorajam os filhos de Deus a se dedicarem ao estudo num lugar em que seus corações sejam ameaçados por longo período por um veneno espiritual, estaria disposto a permitir que seus próprios corpos fossem expostos a pequena, mas contínua e letal dose de arsênico. De maneira nenhuma eles testariam a própria fé e a proteção de Deus da maneira descrita em Marcos 16.18. Deus lhes garanta a graça de se arrependerem e de pararem de enganar as almas que lhe são confiadas, pedindo-lhes que se coloquem em posição dependente dentro de um sistema de ensino ateísta e anticristão que opera a partir da pressuposição de que não há Deus. A teologia crítico-histórica é herética. Há larga concordância a esse respeito quanto a Rudolf Bultmann, pelo menos no meio evangélico. Não há, entretanto, diferença fundamental entre Bultmann e outros defensores dessa aproximação; qualquer diferença que haja será mínima.82 A Palavra de Deus nos dá claras diretivas sobre como devemos
  • considerar heresias (2 Jo 10s., Rm 16.17, Jd 23, Col 2.8, 2 Pd 3.17, para citar só algumas referências). Honrar tais instruções pode bem ser incompatível com o estudo da teologia crítico-histórica. Quando, sem a direção de Deus e sem ser forçada, entrar numa situação que requeira desobedecer a diretivas claras da Palavra de Deus, eu não poderei contar com a proteção que Deus normalmente estende. Deverei, antes, entender que ele reterá sua proteção, pelo menos parcialmente. Por isso qualquer pessoa tem de resistir ao engano sobre esse assunto. Deus não tem salvado pessoas da ameaça da Teologia Crítico-Histórica? O primeiro engano é, algumas vezes, complementado por um segundo. Alguns exemplos são citados mostrando que Deus tem salvado indivíduos dos perigos da teologia crítico-histórica. Isso supostamente prova que o perigo não é assim tão grande afinal, quando alguém estuda essa teologia. É fato que Deus salva alguns da ameaça da teologia crítico-histórica. Deus pode fazer isso. Mas deveríamos, por isso, expor-nos a tais perigos? O diabo disse a Jesus, depois de leva-lo ao pináculo do templo: “Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem; e: Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra”. Mas Jesus, que certamente sabia que Deus o preservaria, não se aventurou no perigo, mas replicou ao tentador: “Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus” (Mt 4.6-7). Comprometer-se com o estudo da teologia crítico-histórica sem uma direção clara de Deus, na suposição de que Deus pode guardarnos do perigo, é por Deus a provas. Você Quer Trabalhar numa Igreja de Linha Principal?
  • Argumenta-se que a pessoa que deseje estudar teologia a fim de servir a Deus é obrigada a cursar uma universidade, pelo menos se ela quer servir numa das igrejas das linhas principais (na Alemanha). Aqui os fatos estão sendo confiados a homens em vez de a Deus, o qual sabe dos fatos e que pode alterar as circunstâncias. Enquanto a maioria dos estudantes escolherem cursar a universidade e se furtar ao risco de não encontrar espaço nas igrejas das linhas principais, talvez ele permita que essas circunstâncias persistam. Se seus filhos percebessem, entretanto, que tal estudo, conquanto lhes assegure um lugar de trabalho, torna-os inadequados para o serviço do Senhor, e se clamassem ao Senhor a uma voz, pedindo que quebrasse o monopólio educacional da teologia crítico-histórica, então nosso Pai do céu certamente responderia ao clamor dos seus filhos. Em sua graça, ele já nos tem assegurado alguns centros educacionais que confiam na Bíblia, e aqueles que têm cursado essas instituições não têm ficado sem trabalho a serviço do seu reino. Você não deveria seguir o exemplo de Paulo? Um outro engano – que tende ao mau uso da Palavra da Deus – é expressado mais ou menos assim: “Paulo se tornou judeu para com os judeus, e grego para com os gregos; assim, tornemo-nos crítico-históricos para com aqueles que são crítico-históricos!” A Palavra de Deus está sendo citada aqui apenas parcialmente, pois é a única maneira que ela pode ser usada para apoiar um engano. É aconselhável atentar ao que diz 1 Coríntios 9.20-21: “Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei”.
  • Paulo era semelhante a alguém sob a lei, ainda que ele mesmo não estivesse sob a lei. Gálatas 2.1-9 e Filipenses 3.2, assim como Romanos 1—4 mostram, entre outras coisas, como era ser judeu para com os judeus, em termos práticos. Como regra, entretanto, o estudante não está absolutamente em posição de se conduzir dessa maneira devido à dependência interna e externa que experiencia aquele que está em treinamento. Até mesmo Paulo precisou de um longo tempo de preparação para o papel que finalmente desempenharia. Além disso, essa não é a tarefa de qualquer pessoa que tenha de se preparar para o serviço do Senhor como pastor, evangelista ou mestre. Sem uma capacitação dada por Deus, prometida por uma palavra especial de Deus, o estudante não se tornará semelhante a um teólogo crítico-histórico da mesma maneira como Paulo se fez judeus para com os judeus conforme 1 Coríntios 9.20. Ao contrário, o estudante simplesmente torna-se um teólogo crítico-histórico – possivelmente com algumas diferenças cosméticas. Entretanto, a conseqüência dessas diferenças não será o poder missionário; elas serão percebidas pelo teólogo crítico-histórico meramente como inconsistências. Ele receberá sorrisos condescendentes ou, conforme o caso, serão aturados apenas enquanto a aproximação crítico-histórica se aplique a outros aspectos. Paulo não se fez “judeus para com os judeus” no estudo rabínico, como membro do Sinédrio, como um rabi ordenado nem como colaborador numa sinagoga. Não o fez nem mesmo durante seu período educacional. Ele o conseguiu, antes, como um cristão testado e aprovado, trabalhando independentemente, o qual iniciou seus contatos em cada lugar a começar das sinagogas, mas que poderia deixar a sinagoga a qualquer momento. Sob essa condição ele poderia, com base em suas próprias pressuposições, mostrar aos judeus a necessidade de uma radical mudança de direção. Ele poderia mostrar-lhe a necessidade de aceitar a redenção que Cristo efetuou no Gólgota.
  • Não são nossas todas as coisas? Outra linha da Escritura que é arrancada do seu contexto é: “porque tudo é vosso” (1 Co 3.21), a qual é usada para provar a afirmação: “Na liberdade da fé em Cristo, é possível a discussão de toda proposta, incluindo a crítica-histórica. Dever-se-ia vencer qualquer atitude de ansiedade”.83 É tecnicamente verdadeiro que a hipótese crítico-histórica possa ser agrupada sob os temas de “mundo ou vida” e “o presente” nas seguintes citações, mas não se poderia ignorar o contexto do versículo: Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, faça-se estulto para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles. E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos. Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus. (1 Coríntios 3.18-23) A teologia crítico-histórica é “sabedoria deste mundo”, e a reputação dos cientistas é estabelecida por meio de hipóteses para que eles recebam louvor e assim atraiam outros para sua “escola”.. Entretanto, somos admoestados a nos tornarmos “estultos” para que nos tornemos sábios, em vez que usar a sabedoria do mundo com a liberdade de Cristo. Digo de passagem: Discussões com hipóteses – a não ser que o objetivo seja o de repudiá-las por meio da Palavra de Deus –nada mais são do que jogar o jogo de rodar a hipótese. Tal discussão se coloca, de início, nas mesmas bases sobre as quais as hipóteses são formadas, e isso em si já significa deserção da base sólida da Palavra de Deus. Além disso, não se elimina de modo nenhum a influência de tais hipóteses; antes, contribui finalmente para a desestabilização. Sim, é isso que a Escritura diz, mas...
  • É algo pernicioso manipular a Escritura, como alguns fazem, na suposição de que aquilo que ela diz simplesmente deveria ser posto de lado em favor de uma teoria novel que dê novo e diferente sentido às palavras. Quando me aproximo da Palavra de Deus com essa atitude, já estou fora de curso, até mesmo se os resultados são positivos. Coloquei mina confiança no intelecto e cri que eu mesma era capaz para discernir aquilo que é correto. A atitude adequada seria: “Pai, eu agradeço pela sua Palavra. Ela é verdadeira, do começo ao fim. Ainda assim, eu tenho problemas. Tenho me deixado inquietar. Quando fui encostado na parede, não confiei na sua Palavra. Por favor, põe-me no caminho direito, e mostra-me na sua Palavra, por meio do Espírito Santo, como as coisas realmente são”. A tentação é a de querer ser vencedor mediante o poder do próprio intelecto e pela força dos próprios argumentos. Mas Deus diz: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4.6). Você é melhor do que esses teólogos? O golpe realmente baixo entre todos esses enganos é a pergunta: “Você pensa que é melhor...?” A Palavra de Deus nos diz: “Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado” (Rm 6.11). Não é pedido de nós que nos identifiquemos com outros de maneira que nos identifiquemos com seus pecados. Eu não sou melhor do que um ladrão, uma prostituta, uma adúltera, ou que um teólogo crítico-histórico. Mas, da mesma forma que resisto ao adultério em nome de Jesus, posso também resistir à teologia crítico-histórica, apelando para o meu Salvador em tempos de necessidade. O leitor que tem seguido os argumentos deste capítulo, verá que as passagens seguintes provêm um sumário relevante:
  • “São justas todas as palavras da minha boca; não há nelas nenhuma coisa torta, nem perversa. Todas são retas para quem as entende e justas, para os que acham o conhecimento” (Pv 8.8-9). “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é prudência” (Pv 9.10). “A boca do justo produz sabedoria, mas a língua da perversidade será desarraigada” (Pv 10.31). “Filho meu, se deixas de ouvir a instrução, desviar-te-ás das palavras do conhecimento” (Pv 19.27). “O que desvia os retos para o mau caminho, ele mesmo cairá na cova que fez, mas os íntegros herdarão o bem” (Pv 28.10). “Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito!” (Is 5.21). “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Senhor!” (Jr 17.5). “Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único?” (Jo 5.44). “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.1-2).
  • 9 Teologia Crítico-Histórica e Teologia Evangélica A estrutura da ciência A ciência, como se encontra hoje, é um encantado sistema de auto-realização e de confirmação recíproca. Tal estado de coisas é claramente demonstrado por Samuel R. Külling em sua obra alemã, a qual poderia ser traduzida por Sobre a Datação da Fonte “P” em Gênesis.84 A datação mais antiga do chamado escrito sacerdotal é, nas palavras do mestre da teoria, E. Reuss (1804—91), “um produto da intuição”.85 Reuss passa sua intuição diretamente aos estudantes numa declaração fácil de ser lembrada: “Os profetas vieram antes da lei, e os Salmos, ainda antes de ambos”.86 Antes que houvesse até mesmo uma tentativa para fornecer provas, um estudante de Reuss, chamado K. H. Graf (1815—69) internalizou essa fórmula, a qual a partir daí determina sua visão da história de Israel.87 Isso não ocorre, de modo nenhum, por meio de um detalhe secreto do trabalho científico, mas por meio de uma reviravolta revolucionária dos pontos de vista mantidos anteriormente. Estava em pauta aqui a questão, nas próprias palavras de Reuss: “...se devemos ver a história de Israel como posta sobre seus pés ou sobre a sua cabeça”.88 Advertido logo pelo seu professor a respeito da “magnitude” da sua descoberta, o estudante Graf a princípio colocou a idéia no forno. Não obstante, sem ser propagada, seus efeitos foram perceptíveis como fundo presumido nos livros que escreveu.89 Embora sequer tenha havido uma tentativa para fornecer provas científicas – e até mesmo Reuss, o professor, se contentava em fazer vagas sugestões a fim de evitar
  • dificuldades – o estudante Graf escreveu ao mestre: “Estou totalmente convencido de que toda a porção do meio do Pentateuco é pós-exílica...”90 Estando “totalmente convencido” é uma expressão bem comum na área do trabalho científico e não requer nenhuma prova. É derivada de fontes inteiramente diferentes. Isso é claramente visto no caso de Graf: uma resenha e um artigo tentando questionar sua posição serviram apenas para confirma-lo ainda mais em sua convicção. Essa confirmação veio, não por meio de uma discussão objetiva na qual ele pesou os argumentos opostos, mas mediante uma decisão.91 A descoberta que havia sido passada de professor a aluno foi então entretecida com as visões de colegas e daí por diante conquistou mais base.92 Vários pontos de partida metodológicos foram empregados, e a idéia básica tomou forma em variados agrupamentos de questões. Instalou-se um processo de corroboração recíproca e formou-se uma coalizão composta daqueles que apoiavam a idéia básica acrescentando seus pensamentos. Nem mesmo críticas foram postas para impedir o processo que estava em moção.93 A coisa impressionante nesse processo foi a ausência de prova. Külling declara: “Na história que traçamos, da datação exílica/pós-exílica da fonte ‘P’ em Gênesis, buscamos em vão por argumentos que suportassem tal data mais recente. EM 1869, as porções “P” foram atribuídas à época exílica/pós-exílica com uma arremetida rápida baseada em argumentos analítico-literários”.94 Só mais tarde foram trazidos argumentos para suportar a tese, e mesmo assim não podem ser chamados de “argumentos”, pois eles consistem inteiramente de afirmações nãoprovadas e de julgamentos baseados em preferência pessoal.95 O movimento iniciado pela “intuição” de Reuss com respeito à datação dos livros do Antigo Testamento finalmente veio a permanecer quando sua “intuição” se tornou parte
  • do conceito de Wellhausen sobre a história de Israel escrito no já então famoso Prolegomenos à História do Antigo Israel (1878). Em relação a esse livro, Külling escreve: O apelo de um quadro inteiramente novo (da história de Israel) contido nessa obra emprestou a essa hipótese uma importância que foi imediatamente quase que sobrepujante. .... A reconstrução histórica de Wellhausen forma a coroa da atribuição de uma origem pós-exílica para “P”. Wellhausen apresenta aqui as conseqüências dessa datação pós-exílica de “P” para a interpretação do Antigo Testamento em sua totalidade... Até mesmo se não achamos aqui nenhum argumento para uma data pós-exílica para “P”, ainda será verdadeiro que Wellhausen ganha um grande número de adeptos que de agora em diante considerarão “P” como a última das fontes. .... Ele faz isso por meio de suas “magistrais conexões de vários estudos preliminares para formar um quadro geral brilhante e autocontido”.96 No princípio era a intuição, e no final, o concepção – e se seguiu a tradição; o estudante tem de aprender o conceito de cor como um “resultado científico”. Sobre isso ele tem de construir e com isso trabalhar. No processo que leva da intuição à concepção, a argumentação também ocupa espaço. Entretanto, ela jamais serve para fornecer provas em sentido restrito; decisões importantes são tomadas à parte de argumentação. Resta um espaço limitado para retomada de argumentação à medida que se avança com a tradição. Tal argumentação pode, em alguns casos, até mesmo resultar em certas correções. Entretanto, essas correções não questionam mais o conceito. A concepção, na proporção que vai sendo aceita, também vai sendo construída dentro da estrutura total da disciplina científica. A argumentação tem o caráter de apenas fazer ajustes menores no curso principal para o destino final do “progresso científico”. Essa própria destinação leva a um maior reforço do conceito. (Esse processo de levar a intuição à tradição e de incorporála na disciplina é ilustrado nas figuras. 9.1 e 9.2.). Fig. 9.1. Da intuição à concepção e tradições
  • Intuição Insights vindo de outras partes que parecem substanciar a intuição Concepção Tradições com variações nas apresentações Fig. 9. 2. O surgimento de uma disciplina científica: esboço simples As áreas numeradas apresentam concepções na ordem do seu desenvolvimento. Um quadro mais exato teria de apresentar como elas se encaixam. As áreas cinzas designam concepções que surgem no curso da correção de idéias anteriores. Algumas concepções surgem independentemente. A maioria, contudo, é construída, inteira ou parcialmente, sobre concepções já existentes e por elas suportada. Diversas delas são construídas para estabilizar concepções esfarrapadas. Outras servem para tampar buracos. Outras ainda levam adiante ou corrigem posições anteriores. A construção, que nos primeiros estágios se mostra frouxa, começa a se tornar cada vez mais compacta e fechada. Os pontos de vista exteriores (tipificada na figura 9.2 pelo quadro 35) que não estejam interligadas com concepções já aceitas, perecem no esquecimento.
  • A mesma dinâmica descrita por Kümmel é apresentada, em referência a um domínio um pouco diferente da inquirição científica, por W. J. Ouweneel em seu livro The Fall of the Christian West. Em 1830, o geólogo inglês Charles Lyell publicou o primeiro de seus três livros sobre geologia, os quais ainda ditam os fundamentos da disciplina. Lyell basicamente excluiu de suas deliberações a possibilidade de tais catástrofes (relatadas na Bíblia como o Dilúvio, em Gn. 6-8, as quais implicam o envolvimento sobrenatural de Deus e que eram inaceitáveis para o florescente cientificismo do seu tempo. Ele...) tentou explicar o surgimento de estratos geológicos diferentes por meio de processos que ainda são observáveis hoje... Agora, é um fato histórico de considerável importância que esses novos insights não estivessem essencialmente fundados em novas descobertas científicas. Tal só ocorreria mais tarde, pois quando alguém tende incondicionalmente a descobrir alguma coisa, então alguma coisa brota que parece ser a coisa procurada... O impulso para o desenvolvimento da concepção evolucionária da geologia foi dado pelas deliberações filosóficas. Isso é altamente significante. O ponto de partida desse novo ponto de vista não foi a mudança dos fatos, mas a mudança nas pressuposições com as quais os fatos foram considerados. O mesmo ocorreu com Charles Darwin, o qual ainda jovem leu os livros de Lyell e achou neles uma resposta indireta para a questão em que ele próprio se exercitava. Darwin se recusava a aceitar a suposição de que todas as coisas vivas teriam vindo de um ato criativo de Deus; ainda assim, ele não podia também conceber uma possibilidade alternativa. Tornou-se então familiarizado com as idéias de Lyell. Nelas, ele achou a noção de que nosso mundo teria de ser muito antigo, pois a formação gradual dos estratos geológicos obviamente teria exigido um grande espaço de tempo. Foram precisamente tais espaços de tempo que Darwin requisitaria mais tarde para sua visão da origem das espécies. O desenvolvimento de formas vivas, ocorrido ao acaso, necessitaria de bilhões de anos para se realizar; de outra maneira a idéia de Darwin teria sido absurda desde o início. Tais noções exerceram influência uma sobre a outra. Mais tarde, Darwin publicou sua teoria da evolução – igualmente, não essencialmente na base de novas descobertas científicas, mas baseado em considerações filosóficas...97 Ele buscava por outra solução para o problema da “origem da vida”, pois não queria mais crer na criação. Entre os vinte e dois e vinte e nove anos, Darwin teve um período de dúvida em relação à fé, e foi durante esse tempo que ele leu um ensaio do pároco inglês Thomas Roberts Malthus sobre excesso populacional. Malthus ensinava que guerras, fomes e epidemias seriam necessárias, pois eram as únicas maneiras para se lidar com o excesso populacional. Haveria, dizia Malthus, uma luta pela existência, a sobrevivência do mais apto... “Então, tudo se esclareceu para mim”, relatou Darwin mais tarde. De repente, ele entendeu qual seria a solução correta para o seu problema. Os próximos vinte anos, até 1859, ele despendeu coletando argumentos para sua nova teoria. Vê como se originou a idéia de Darwin? Na verdade, originou da mesma maneira como a ciência em geral opera. A ciência não começa tanto com observação para então construir uma teoria. Antes, começa com uma concepção, com uma idéia.
  • A idéia de Darwin veio de Malthus, e Darwin precisou de vinte anos para coletar argumentos e descartar-se de argumentos não-alinhados à sua teoria, até que finalmente publicasse suas perspectivas. Talvez ele até passasse vinte anos mais nesse projeto, se Alfred Wallace não tivesse desenvolvido a mesma idéia, o que levou Darwin a publicar seu livro Sobre a Origem das Espécies a fim de assegurar sua precedência. Talvez você tenha a noção errada de que cientistas são pessoas inteiramente racionais que funcionam totalmente de modo objetivo e que coletem e organizem dados de modo não-tendencioso. Bem, Darwin não é o único que operou da maneira como fez: todos os cientistas empregam esses métodos.98 Não menos questionável do que o processo de iniciação do chamado “conhecimento científico” é a forma e a maneira pela qual tal conhecimento costumeiramente expande sua influência. Uma testemunha eminentemente confiável quanto a esse fato é o vencedor do prêmio Nobel em física, Max Planck: “Uma nova verdade científica geralmente não se torna dominante por meio do convencimento dos seus oponentes, os quais passam a dizer que estão agora corretamente informados. Antes, os oponentes gradualmente saem de cena, e a próxima geração cresce já familiarizada com essa verdade”.99 O que Planck descreve é baseado em dois fenômenos: “escolas” acadêmicas compostas de mentores e seus adeptos, e grupos dinâmicos. Sem a consideração desses dois fatores, qualquer número de desenvolvimentos históricos, tal como o curso da controvérsia ariana no século IV, ou o avanço triunfante da teologia de Bultmann no século XX, carece de explanação adequada.100 Resumindo, podemos agora afirmar que cada virada no jogo da ciência começa com uma intuição em vez de começar com observação e resultados de investigação, como seria de se esperar. Só depois é que são feitas as observações que parecem comprovar o esquema geral. Relacionamentos interpessoais – “escola” acadêmicas, relações entre colegas, e grupos dinâmicos – conduzem então a nova idéia a uma dominância. Depois disso, há um processo de aceitação parcial e negação, de correção, confirmação e suplementação. O resultado é a estabilização de um edifício construído inteiramente com hipóteses. O que
  • opera aqui é princípio de estabilização por meio de corrugação, usado com grande efeito pelas indústrias de embalagens.101 No final do processo há a concepção. Ela sumariza engenhosamente um número de tais idéias e lhes confere a aparência de coerência. A concepção é baseada não tanto na força do argumento quanto em quão bem ela se presta a uma totalidade criativa sintética. A concepção é aplaudida. A partir daí novas idéias se ligam à estrutura, e tudo que se move fora dessa concepção é considerado obsoleto ou excêntrico. O jogo continua com novas idéias que pressupõem a concepção. Surge então uma rede composta de premissas aceitas em uma disciplina científica. Assim, se caem algumas das pressuposições que mantinham as novas idéias, a estabilidade da concepção permanece não-afetada. As pressuposições meramente recuam para o pano de fundo da consciência; onde permanecem preservadas, como se pode dizer, hermeticamente seladas. Uma vez que toda concepção é uma pressuposição para novas idéias – e as novas idéias levam, por sua vez, a novas concepções – não é possível proceder a ajustes fundamentais por meio de dar provas de que a pressuposição é inválida. Até mesmo a análise crítica de tais idéias torna-se simplesmente um componente no processo de estabilização: A idéia que é posta sob a pressão de argumentos e contra-argumentos, quer provenientes do arquiteto da idéia quer por algum defensor dela, tem um efeito estabilizador. Todo argumento racional pode ser refutado por um contra-argumento, conquanto haja tempo suficiente para se pensar sobre eles. É dessa maneira que o nosso intelecto (decaído) funciona quando não está arraigado à Palavra de Deus. Até mesmo quando é bem sucedido na apresentação de provas, baseado em novas informações e resultados sólidos e inegáveis, a pessoa raramente se encontra em posição de contestar a influência das
  • concepções estabelecidas na área da chamada “ciência”. Isso pode ser demonstrado nas ciências naturais, com o mito da evolução. Esse mito ainda constitui, pelo menos na área das ciências naturais, a estrutura de pensamento. Ainda que o ponto de partida evolucionário venha sendo sempre questionado em grandes áreas de pesquisa. A hipótese evolucionária, por admissão da própria ciência, tem se mostrado insustentável em termos das hipóteses preliminares que a suportam, as quais, por sua vez, desacredita a própria hipótese geral. Se a ciência é o que pretende ser – objetiva, neutra, brigada somente à verdade, imparcial – as conseqüências lógicas teriam sido sacadas a longo tempo. Ciência e pesquisa na teologia evangélica É necessário um entendimento de como as pressuposições e concepções realmente funcionam na ciência para responder à questão formulada neste capítulo: São, a ciência e a pesquisa na teologia evangélica, essenciais ou impossíveis? Inserido na estrutura de uma disciplina teológica, um acadêmico evangélico pode preencher uma vacância ou ocupar uma posição marginal. Quando preenche uma vacância, ele contribui para a estabilização de um sistema e, assim, é plenamente aceito. Numa posição marginal, ele poderá cai no esquecimento reservado para aqueles que não apóiam o sistema, ou terá de proteger seu trabalho por meio da interligação com concepções justapostas, resgatando seu ponto de partida original. Alguns exemplos ilustram isso: Adolf Schlatter preencheu uma vaga em estudos do Novo Testamento como um reconhecido acadêmico rabínico. Foi, portanto, basicamente aceito. Mas o que ele teve a dizer em termos de insight espiritual, por exemplo, em seus comentários do Novo Testamento,102 não foi levado a sério e descriminado como sendo “não-científico”.
  • J. T. Beck permaneceu como um forasteiro para ponto de vista crítico, e seu trabalho não se realizou. Igualmente, a contribuição de K. Bornhäuser foi injustamente desprezada. Martin Kähler, por outro lado, sabia como conviver com as estruturas prevalecentes. Mas o preço que ele pagou para isso foi muito alto. Abandonou sua lealdade às Escrituras. Seu livro The So-Called Historical (historische) Jesus and the Historical (geschichtliche), Biblical Christ claramente operou dentro dos limites da razão pura (Kant) e respeitou o “abismo” (ugly ditch) de Lessing, entre verdades necessárias da razão e fatos contingentes da história. O livro pode, assim, continuar a exercer influência – e preparou o caminho para o programa de demitologização, de Bultmann. O evangélico dedicado ao trabalho científico é puxado em várias direções. Primeiro, o acadêmico precisa legitimar seu trabalho conectando-o ao complexo de tradições que formam a disciplina na qual trabalha. Ele pode esperar reconhecimento apenas à medida que essa conexão é satisfatoriamente atingida. Ainda que haja preocupação com manter uma distância das visões consagradas, ele pode manejar isso em relação a não mais do que uma das concepções por meio da apresentação de um novo contorno de escopo limitado. As outras concepções devem ser mantidas. Aí, o pesquisador deve esperar para ver se seu esboço se estabiliza no curso do progresso da ciência, ou se ele é desqualificado por ser julgado excêntrico do ponto de vista da concepção consagrada. À medida que é positivamente recebido, o esboço será igualmente conformado com as concepções predominantes no processo de “estabilização mediante corrugação” acima referido. Segundo, essa pessoa se coloca sob a compulsão que entende a ciência como uma marcha de progresso continuadamente ascendente. Conquanto geralmente tal idéia de
  • progresso hoje se desvanece como apresentação principal no pano de fundo da cosmovisão moderna, ela ainda domina na pesquisa científica com força quase inconteste, como uma obrigação inerente para mostrar que está havendo progresso. Qualquer que diga “Sim” à ciência ao conduzir uma pesquisa, dificilmente escapará da espiral sem fim do progresso pelo progresso. Entretanto, a compulsão para demonstrar que o progresso está se realizando e a lealdade ao que a Bíblia diz são incompatíveis. Progresso pelo progresso resulta inevitavelmente na dessacralização da Palavra de Deus. Terceiro, o pesquisador é pressionado a “fazer nome” e, assim, buscar a própria honra. Quarto, reivindicar que um trabalho seja científico é sujeitar-se ao critério de avaliação da teologia crítico-histórica. Aquilo que é “científico” já está decidido, certo ou errado, pelo que é estabelecido como ciência, na consciência geral. No debate científico da década de 1960, a questão levantada foi a de se a teologia deveria ser chamada de ciência, uma vez que, afinal, não seria isenta de pressuposições. A questão foi respondida mostrando que a teologia faz uso de métodos de ciência histórica e literária e, portanto, deve ser reconhecida como ciência tanto quanto esses métodos. Se a teologia evangélica reivindica ser uma ciência, então ela dever se perguntar se deseja usar esses métodos para lidar com a Palavra de Deus. Se ela faz uso desses métodos de maneira irrestrita, deixa de ser evangélica. Se o faz de maneira restrita, então deve contar com um reconhecimento científico limitado. Não somos nós, mas os teólogos críticohistóricos que determinam aquilo que é científico. Qualquer evangélico que se proclame ser científico é entregue ao critério seletivo da teologia crítico-histórica e enfrenta ser estigmatizado como desqualificado. Isso, porque o conceito da ciência teológica é correntemente definido pela teologia crítico-histórica. O
  • desejo de ser um teólogo “científico” implica inevitavelmente reconhecer e aceitar uma posição dentro do complexo de tradições da disciplina teológica. Os evangélicos e a universidade Com base nessas observações, parece óbvio que seria melhor deixar as faculdades teológicas das universidades nas quais a teologia crítico-histórica se tornou uma instituição, tal como Abraão deixou o ambiente pagão de Ur da Caldéia por causa do chamado de Deus. Não sabemos, certamente, onde está a terra para onde vamos, mas Abraão também não sabia para onde is quando saiu em obediência ao Senhor. “Deixar” não significa apenas buscar emprego fora das faculdades da universidade governamental. A esse respeito, muitos evangélicos não têm de enfrentar a tomada de decisão, pois não mesmo querem nem estão contratados por universidades governamentais. “Deixar” significa abrir mão da reivindicação de ser considerado “científico”. Reivindicar ser científico significa considerar os princípios da ciência como fundacional, em pé de igualdade com a Palavra de Deus. Mas tais princípios – à luz da Palavra de Deus – vem a ser inimigos de Deus quando usados dessa maneira. A reivindicação de ser científico é uma violação do primeiro Mandamento e resulta na situação contra a qual nossos pais tomaram posição corajosa, aposta na primeira tese da Declaração de Barmen.103 Entretanto, “deixar” tal reivindicação não significa abrir mão do trabalho intelectual competente na teologia. Creio que pode de deve haver uma erudição da qual Deus se agrade e na qual o povo de Deus encontre utilidade. Tal erudição não se trata de uma voluntária indulgência da curiosidade intelectual que se lança a tudo que possa ser investigado. Antes, Ela se aplica ao estudo daquilo que deve ser ensinado. Não vê a si mesma com um fim para
  • uma auto-realização egoísta, mas como um ministério. Tal erudição não é presa da pressão à qual o trabalho científico tem de se submeter. Primeiro, tal erudição não é motivada a se conectar organicamente com o complexo de tradições numa disciplina. É necessário apenas manter a mais íntima conexão coma Palavra de Deus. Segundo, tal erudição não é determinada pela obrigação de demonstrar a realização do progresso científico. Antes, é determinada pela disposição de se como um “escriba versado no reino dos céus” e “semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas” (Mt 13.52). Terceiro, tal erudição não está sob a compulsão de alguém “fazer nome” para si mesmo. Sua paixão em, antes, a humilde disposição de servir o corpo de Cristo, usando os dons de Deus onde quer que ele julgue adequado. Quarto, juntamente com a concordância necessária da Palavra de Deus, há o critério de julgamento que consiste na qualidade do serviço fraternal em função do corpo de Cristo. O serviço deveria contribuir para, entre outras coisas, o ensino, a correção e a edificação, transmitindo informações benéficas e defendo a nossa santa fé.
  • 10 A Palavra de Deus A Palavra de Deus é Inspirada A Sagrada Escritura testifica explicitamente a sua origem em Deus em duas passagens. A primeira é 2 Timóteo 3.16-17: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. O segundo testemunho é o de 2 Pedro 1.19-21: “Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração, sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”. Esses dois testemunhos não afirmam meramente “que o Espírito de Deus, a sabedoria de Deus passou por esses escritos”.104 Eles não podem também ser restringidos para significar apenas que os autores da Escritura o que diz Romanos 8.14105 e que assim o Espírito esteve junto e auxiliou na composição dos documentos do Novo Testamento na mesma maneira que faz com os crentes durante toda a vida.106 A palavra grega theopneustos usada em 2 Timóteo 3.16 não significa “sopro do Espírito”107, mas sim “insuflado por Deus”. Há uma vasta diferença. O que o versículo afirma é quer Deus é a origem das Escrituras. Os escritores bíblicos não se tornaram “livres de erro e pessoas infalíveis”108 nem mesmo “durante o período da composição dos seus escritos”,109, mas antes “homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”.
  • A própria Palavra de Deus claramente afirma que o Espírito Santo de Deus é a fonte das Escrituras. A inspiração da Escritura é declarada pela própria Escritura. A doutrina da inspiração não é, portanto, “um desnecessário muro de proteção ao redor da Bíblia”,110 mas sim uma declaração sumária normativa daquilo que Palavra de Deus diz sobre si mesma. Isso não se deriva “de Romanos 8.14 e de outras passagens relacionadas”,111, mas antes, primariamente de 2 Timóteo 3.16-17 e 2 Pedro 1.19-21. É expressamente declarado que foi operada uma “direção especial do Espírito Santo para o propósito de escrever os livros bíblicos”.112 Se alguém declarar que essa reivindicação é “desnecessária e duvidosa do ponto de vista bíblico e teológico”,113 certamente estará se colocando em contradição à Sagrada Escritura. Inspiração Verbal e Pessoal Ao testificar sobre esse estado inspirado, a Sagrada Escritura estende essa condição simultaneamente às palavras (inspiração verbal) e aos autores (inspiração pessoal). A evidência da inspiração verbal é 2 Timóteo 3,16-17. Essa passagem fala do resultado da inspiração: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”. Nada é excluído; não há uma só palavra da Escritura a que não se aplique a inspiração. A evidência da inspiração pessoal se encontra em 2 Pedro 1.19-21. Essa passagem tem em vista a maneira da inspiração: “homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”. A inspiração ocorreu pela direção interna do Espírito Santo, não segundo um ditado mecânico. A inspiração verbal é, portanto, não uma idéia que brotou no século XVI. Ela é atestada pela Escritura Sagrada e por isso mesmo defendida pelos pais da igreja. A inspiração verbal e a inspiração pessoal não são teorias teológicas que competem entre si e
  • que deveríamos escolher entre elas. Elas são, sim, dois aspectos do mesmo fato, isto é, de que Deus nos deu a sua Palavra. É preciso, contudo, distinguir entre a doutrina da inspiração verbal e pessoal, e a teoria do ditado verbal; esta sim, surgiu no século XVI. Foi uma mal sucedida tentativa humana para explicar a doutrina da inspiração verbal. A correta doutrina da inspiração conflita com a teoria do ditado mecânico, mas não com a da inspiração verbal. Quando uma concepção da inspiração conflita com a inspiração verbal é porque a doutrina da inspiração foi mal entendida e está em desalinho com a Escritura. Negações da inspiração A lealdade à Palavra dec Deus também rege a contenda de que a Escritura “não é idêntica às palavras de Deus, por a Palavra de Deus é eterna, enquanto a Escritura é temporal”.114 Mediante a inspiração, Deus levou para fora da temporalidade a Palavra falada e escrita por meio de homens. Além dos dois testemunhos principais (2 Tm 3.16-17 e 2 Pd 1.19-21), encontramos em quase toda página da Bíblia a afirmação de que ela é a Palavra de Deus, ou Sagrada Escritura. Quando não estendemos nossa fé àquilo que a Bíblia diz sobre si mesma, não apenas contradizemos a Palavra de Deus; declaramos também que o próprio Deus, origem da Escritura, é um mentiroso. Colocamo-nos em oposição Àquele que é a própria Palavra (Jo 1.1-14) e que é chamado “Fiel e Verdadeiro” (Ap 19.11). Ele é “o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6). Ele é também o padrão da verdade: “Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” (Jo 18.37). Deveria eu, ser um professor, um pastor, ou um oficial de igreja, e não colocar minha fé em Deus? Posso eu, servi-lo quando não creio no que ele diz? Isso seria tratá-lo como um pai a quem deveria lembrar a cada vez: “Você é velho; já perdi o respeito por
  • você; não sou mais obrigado ao que você diz”. Deus é nosso Criador, e só vivemos por causa de sua graça, pela qual ele deu Jesus. Qualquer que suponha que pode tomais tais desrespeitosas liberdades com a Palavra de Deus deveria atentar à advertência: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba” (Gl 6.7). Talvez haja leitores cujos olhos estejam agora abertos. Talvez antes não entendessem o que lhes haviam ensinado. Este é um grande dia para eles! Podem retornar de seus perversos caminhos. Deus é misericordioso e gracioso. Ele espera de braços abertos por todo aquele que a ele se torna. Prontamente perdoa por causa de Jesus. A teologia crítico-histórica diz: Não podemos considerar a Bíblia como Sagrada Escritura. Antes, no máximo podemos considera-la um livro que reivindica ser a Sagrada Escritura. Há outros livros que fazem a mesma reivindicação, entre eles o Alcorão e o Veda. Desconsideremos, pois, tal reclamo é aproximemo-nos da Bíblia como de qualquer outro livro”. É certo que outros livros fazem tal reivindicação. Será que isso nos compele a considerar a Bíblia apenas como um livro entre muitos outros? Deveríamos comparar a Bíblia com o Veda e o Alcorão a fim de determinar se a Bíblia é aqui e ali apenas um pouco superior? É isso que a teologia crítico-histórica faz. Entretanto, esse é um procedimento perverso. Da mesma maneira que os “deuses” das nações não são deuses (1 Cr 12.26; Sl 96.5, 97.7; e Jr 2.11, 5.7), as escrituras sagradas de outras religiões que se dizem reveladas não são de modo nenhum a Escritura. Eu sei que nossa criação urbana, que louva sobre tudo a tolerância, se rebela contra essa posição. Eu respeito, amo e valorizo muito as pessoas ao meu redor, e quero honrar aquilo que elas consideram santo. Mas fico com minha declaração, pois ela é verdadeira. Se, conforme a Palavra de Deus, os deuses das nações não são deuses, então é irrefutável a conclusão de que suas escrituras sagradas, as
  • quais reivindicam ser reveladas, não são de modo nenhum a Escritura. Certamente elas não revelam o verdadeiro Deus, o qual não é somente o Criador dos céus e da terra, mas também o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual, com o Filho e o Espírito Santo, compõem o único Deus triuno. Outras escrituras não podem indicar o caminho para a salvação. Quando nos permitimos ser rebaixados ao nível de comparar as “sagradas Escrituras” com cada outra escritura para podermos, talvez, assegurar que a Bíblia tem relativa preeminência, então somos culpados de adorar falsos deuses. Aprendamos da Palavra de Deus quão poderoso Deus é e quão desprazível e estulto é esse tipo de falsa adoração. Isaías 40. 12-17 dá uma retrato informativo de nosso Deus: Quem na concha de sua mão mediu as águas e tomou a medida dos céus a palmos? Quem recolheu na terça parte de um efa o pó da terra e pesou os montes em romana e os outeiros em balança de precisão? Quem guiou o Espírito do Senhor? Ou, como seu conselheiro, o ensinou? Com quem tomou ele conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho de entendimento? Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta. Nem todo o Líbano basta para queimar, nem os seus animais, para um holocausto. Todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo. A mesma passagem coloca diante dos nossos olhos a estultícia da adoração de falsos deuses. No contesto, são adorados “deuses” feitos pelo próprio homem: “Com quem comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele? O artífice funde a imagem, e o ourives a cobre de ouro e cadeias de prata forja para ela. O sacerdote idólatra escolhe madeira que não se corrompe e busca um artífice perito para assentar uma imagem esculpida que não oscile” (Is 40.18-20).
  • Como poderia, alguém comparar o Deus vivo com as tristes imitações dele que se fazem? Ele não é apenas o Criador; ele é também o Senhor nosso Deus, o Todo-poderoso, aquele que reina. Ele sustém o cosmos em todo o tempo e governa tudo o que se passa nele, como ainda diz Isaías (40.21-26): Acaso, não sabeis? Porventura, não ouvis? Não vos tem sido anunciado desde o princípio? Ou não atentastes para os fundamentos da terra? Ele é o que está assentado sobre a redondeza da terra, cujos moradores são como gafanhotos; é ele quem estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar; é ele quem reduz a nada os príncipes e torna em nulidade os juízes da terra. Mal foram plantados e semeados, mal se arraigou na terra o seu tronco, já se secam, quando um sopro passa por eles, e uma tempestade os leva como palha. A quem, pois, me comparareis para que eu lhe seja igual? -- diz o Santo. Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar. Sobretudo, é apenas o nosso Deus quem guarda o curso do futuro, e somente ele está em posição para proclamar aquilo que reside no futuro. A esse respeito, também, os deuses das nações acabam não sendo deuses: “Apresentai a vossa demanda, diz o Senhor; alegai as vossas razões, diz o Rei de Jacó. Trazei e anunciai-nos as coisas que hão de acontecer; relatai-nos as profecias anteriores, para que atentemos para elas e saibamos se se cumpriram; ou fazei-nos ouvir as coisas futuras. Anunciai-nos as coisas que ainda hão de vir, para que saibamos que sois deuses; fazei bem ou fazei mal, para que nos assombremos, e juntamente o veremos. Eis que sois menos do que nada, e menos do que nada é o que fazeis; abominação é quem vos escolhe” (Is 41.21-24). Qualquer que afirme que a Palavra de Deus – a Palavra do Criador dos céus e da terra, o Senhor nosso Deus, o Todo-poderoso, aquele que reina, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo –como basicamente comparável às “escrituras sagradas” de outras religiões é culpado de adoração de falsos deuses. Tal comparação tolera outros deuses além de Deus e confere-lhes a mesma honra.
  • Livre de erros Sendo a inspirada Palavra de Deus, a santa Escritura é livre de erros, não apenas na área de fé e vida, mas também em todas as outras áreas. Quando surgem problemas em alguns pontos, a Palavra de Deus é válida, e não nosso presumido insight, Deus mesmo afirma: “...eu velo sobre a minha palavra para a cumprir” (Jr 1.12) Não terá, ele, superintendido a sua Palavra à medida que foi escrita, e que foram coletados os vários escritos? A Palavra de Deus também declara: “Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR; este, segundo o seu querer, o inclina” (Pv 21.1). Não teria, ele, protegido os corações daqueles que inspirou, da inserção na Sagrada Escritura de erros ou falhas devidas à limitação do conhecimento e do insight humanos? Quem ousa imputar falta de poder ou negligência a Deus? Em 2 Timóteo 3.16-17 é dito claramente que a Sagrada Escritura não contém erros ou falsidades. De outra maneira, seria difícil dizer que “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”. Eros e falsidade não serviriam a tal propósito. Como ousaríamos alegar que há erros na Palavra de Deus em áreas tais como ciência, história ou outras disciplinas – nós, cujas descobertas científicas de ontem e de anteontem são hoje ultrapassadas? Ai de nós, se tivermos tal ousadia! Não deveríamos nos envergonhar de dizer: “ Eis aqui um erro na Palavra de Deus”? Como pretendemos enfrentar os olhos flamejantes de Jesus um dia quando nossos livros que propagam tais coisas forem consumidos como palha pelo fogo? Arrependamo-nos de curso tão desastroso e tomemos refúgio em nosso Salvador Jesus Cristo! A Palavra de Deus de há muito viu através da teologia contemporânea. Isaías 32.5 alude a uma situação em que uma pessoa comum (literalmente, “o estulto”, o que se refere
  • não a alguém ao falto de inteligência, mas àquele que rejeita a autoridade de Deus) é chamada de nobre e o pior dos salafrários e enganadores é altamente respeitado. Não somos nós próprios ímpios estultos quando manipulamos a Palavra de Deus como se não houvesse Deus? Isso é exatamente o que faz a teologia crítico-histórica. Não somos nós enganadores maliciosos quando falsificamos a Palavra de Deus por causa de nossa aproximação às Escrituras de maneira que a congregação não mais recebe como pura e imaculada? Esses teólogos que fraudulentamente alteram a Palavra de Deus de maneira que os membros da igreja recebam pedras e não pão, e veneno em vez de água, entretanto, são hoje louvados como nobres; são considerados como honrados cientistas; obtêm reconhecimento na igreja e no mundo. São tidos em alta conta. Recebem títulos. Tornam-se doutores e professores e até mesmo são chamados de bispos. A Palavra de Deus, porém, diz a respeito de tais indivíduos: “Confias no Egito, esse bordão de cana esmagada, o qual, se alguém nele apoiar-se, lhe entrará pela mão e a traspassará; assim é Faraó, rei do Egito, para com todos os que nele confiam. Mas, se me dizes: Confiamos no Senhor, nosso Deus, não é esse aquele cujos altos e altares Ezequias removeu e disse a Judá e a Jerusalém: Perante este altar adorareis?” (Is 36.6-7). A presente situação oferece uma analogia exata: A Palavra de Deus, adulterada pela crítica-histórica, deixa vazia a alma do faminto. O beber da água viva, da viva Palavra de Deus, é negado ao sedento. Quando uma pessoa mansa que foi humildemente instruída pela Palavra de Deus declara aquilo que tem direito de dizer, recebe imediata oposição – em nome da ciência. Quanto a credenciais, ele é pobre: não completou seus estudos formais, não possui título, e não pode apresentar provas de ter passado por exames ante autoridades humanas.
  • Mas as coisas não precisam continuar dessa maneira, pois o nosso Salvador Jesus se manifestou: “Eis aí está que reinará um rei com justiça, e em retidão governarão príncipes. Cada um servirá de esconderijo contra o vento, de refúgio contra a tempestade, de torrentes de águas em lugares secos e de sombra de grande rocha em terra sedenta. Os olhos dos que vêem não se ofuscarão, e os ouvidos dos que ouvem estarão atentos. O coração dos temerários saberá compreender, e a língua dos gagos falará pronta e distintamente. Ao louco nunca mais se chamará nobre, e do fraudulento jamais se dirá que é magnânimo.” (Is 32.1-5). Pela graça de Deus, adquiramos conhecimento e nos tornemos pessoas realmente nobres, que estabeleçam nobres planos e que sejam reconhecidas por obras nobres (Is 32.8). Então as almas dos famintos não continuarão vazias. A água não será retida ao que tem sede. O manso não será mais destruído por mentiras. A Palavra de Deus é homogênea A Palavra de Deus é homogênea é unificada; é inteira e totalmente Palavra de Deus. Classificar suas várias partes segundo nosso próprio sistema de avaliação é uma insolência. Entretanto, esse é padrão comum da teologia crítico-histórica atribui diferentes níveis de validade para diferentes porções da Palavra de Deus. Algumas poucas porções da Sagrada Escritura são feitas medidas para avaliar e desvalorizar a porção restante. Dessa maneira, procura-se um “cânon dentro do cânon” e usa-se o método crítico referido como Sackritic.115 Podemos citar dois exemplos disso: primeiro, a chamada escatologia realizada do Evangelho de João, é jogada contra a escatologia futurista dos três outros Evangelhos denominados sinóticos. Porém, a fim de estabelecer isso, a pessoa tem de levar em conta a presença de declarações no Evangelho de João não adequadas à alegada escatologia
  • realizada. Tal manobra requer a hipotética “redação eclesial” que se supõe ter inserido versículos conflitantes com o cenário de João. No segundo exemplo, as declarações cristológicas de Romanos são jogadas contra a chamada cristologia cósmica de Efésios e Colossenses. Isso permite que Efésios e Colossenses sejam postos de lado como não-paulinas e, portanto, inferiores, uma vez que os próprios ensinos de Paulo ocupam lugar mais elevado do que os escritos deutero-paulinos. Quando o inimigo não consegue desviar totalmente nossa atenção da Palavra, ele tenta usar nossa presunçosa avaliação. Ele oi bem sucedido com Martinho Lutero, que desvalorizou Tiago, chamando-o de “epístola de palha” e quem tem sido usado como testemunha chave para a teologia crítico-histórica. Fiquemos alerta, pois nosso o “adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1 Pd 5.8). Quem quer que use sachkritic para selecionar da Palavra de Deus aquilo que considera normativo para si mesmo, é como uma pessoa que erige um ídolo. Ela cria para si mesma aquilo que adora. Que estultícia – um mero humano, que precisa de comida e bebida para a própria subsistência, se propõe criar um deus. Cria esse deus à sua própria imagem, refletindo limitações humanas, usando, é claro, a matéria prima do Deus que fez os céus e a terra para a satisfação das necessidades físicas do homem, para criar um ídolo de adoração. Todos os artífices de imagens de escultura são nada, e as suas coisas preferidas são de nenhum préstimo; eles mesmos são testemunhas de que elas nada vêem, nem entendem, para que eles sejam confundidos. Quem formaria um deus ou fundiria uma imagem de escultura, que é de nenhum préstimo? Eis que todos os seus seguidores ficariam confundidos, pois os mesmos artífices não passam de homens; ajuntem-se todos e se apresentem, espantem-se e sejam, à uma, envergonhados. O ferreiro faz o machado, trabalha nas brasas, forma um ídolo a martelo e forja-o com a força do seu braço; ele tem fome, e a sua força falta, não bebe água e desfalece. O artífice em madeira estende o cordel e, com o lápis, esboça uma imagem; alisa-a com plaina, marca com o compasso e faz à semelhança e beleza de um homem, que
  • possa morar em uma casa. Um homem corta para si cedros, toma um cipreste ou um carvalho, fazendo escolha entre as árvores do bosque; planta um pinheiro, e a chuva o faz crescer. Tais árvores servem ao homem para queimar; com parte de sua madeira se aquenta e coze o pão; e também faz um deus e se prostra diante dele, esculpe uma imagem e se ajoelha diante dela. Metade queima no fogo e com ela coze a carne para comer; assa-a e farta-se; também se aquenta e diz: Ah! Já me aquento, contemplo a luz. Então, do resto faz um deus, uma imagem de escultura; ajoelha-se diante dela, prostra-se e lhe dirige a sua oração, dizendo: Livra-me, porque tu és o meu deus. (Isaías 44.9-17.) Não seria eu apenas um idólatra, se formasse meu Deus de terra, pedra ou madeira? Não seria eu também idólatra, se usasse a Palavra de Deus como um veio de minério, ou pedra de cantaria, ou um troco para ser cortado? Quando eu tiro da Palavra de Deus aquilo que me parece bom e dependo da minha humana razão para montar um deus à imagem do meu insight limitado, não é isso idolatria? O mesmo entendimento com que uma pessoa escolhe um carro para comprar, financia uma casa, decide se instala um aquecedor a gás ou elétrico, ou ganha a vida, é usado para criar um deus. Mas Deus diz: “Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura” (Is. 42.8) Ou ainda: “Tornarão atrás e confundir-se-ão de vergonha os que confiam em imagens de escultura e às imagens de fundição dizem: Vós sois nossos deuses” (Is. 42 17). Será que se pode depender de tais homenagens a ídolos quando na verdade o que se precisa é de redenção divina? Certamente não! Que qualquer que manipule a Palavra de Deus dessa maneira possa ponderar se confia realmente em Deus ou, antes, busca segurança nas coisas deste mundo. É chocante e temerário que tal idolatria esteja hoje tão disseminada entre o povo de Deus. Atentemos ao lamento de Deus: “Houve alguma nação que trocasse os seus deuses, posto que não eram deuses? Todavia, o meu povo trocou a sua Glória por aquilo que é de nenhum proveito. Espantai-vos disto, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai estupefatos, diz o
  • Senhor. Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas” (Jr 2.11-13). Revertamos o curso, caso estejamos indo em direção errada. Peçamos a Deus que mostre o nosso erro. Geralmente é por meio de pequenos desvios que acabamos completamente fora do rumo. O erro pode ser de menos importância, a princípio, mas gradualmente percebemos que caminhamos na direção errada – aqui algumas declarações riscadas da Palavra de Deus, ali um encolher de ombros, então uma reserva, a aceitação de alguns pensamentos críticos que se sugerem como respostas para problemas que encontramos ou esperamos encontrar. De repente, a Bíblia não é mais para nós a Palavra sagrada do Deus vivo. Acheguemo-nos à cruz, se temos errado. Nosso Senhor Jesus Cristo cobre com seu sangue esse pecado também. A Palavra inspirada de Deus, que tem muitos autores humanos, mas, em última instância tem uma só e divina origem, exibe uma unidade maravilhosa. Tão logo aceito pela fé o próprio testemunho da Palavra de Deus quanto à inspiração da Escritura, eu começo a entender essa surpreendente unidade. Quão gloriosa é a infra-estrutura de promessas relativas ao nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e o cumprimento delas. Quão preciosa é a concordância entre Ezequiel 16 e Lucas 15, entre João 10.1-18 e Ezequiel 14.11-16. Quão maravilho é que tudo que é colocado junto em Apocalipse, já foi predito pelos profetas do Antigo Testamento. Um véu obscurece a visão de alguns para tudo isso, para que não vejam (conferir 2 Co 3.14-15), mas o Espírito Santo lhes abre a Palavra de Deus para que não sejam mais desobedientes. A pessoa que não deseja ver a Palavra de Deus como uma unidade que tem uma só origem, em que cada parte complementa a outra, mas, antes, vê a Escritura como uma
  • antologia de escritores dispares cujos perfis precisa trabalhar arduamente – essa pessoa não pode apreender a unidade da Palavra de Deus. Ela tenta lançar o Novo Testamento contra o Novo Testamento. Paulo contra Tiago, Gênesis 1 contra Gênesis 2, 1 Coríntios 15 contra João 5. Ela alega que Gênesis 2 tem um conceito diferente de Deus do que 1 Reis 18, e que o Deus do qual Jesus falou não foi o mesmo Deus do Antigo Testamento. Como já foi dito, a razão para tal julgamento errôneo é que a pessoa começa com uma conceituação de Deus que, como produto da imaginação humana, é muito pequena para conter toda a plenitude da auto-revelação de Deus em sua Palavra. Além disso, há quase sempre uma falta de atenção à totalidade da Palavra de Deus devido a extrema especialização característica da crítica teológica e histórica. Para qualquer que conheça realmente o Antigo Testamento e não tenha apenas um conceito confuso a seu respeito, é quase impossível lança-lo contra o Novo Testamento ou vice-versa. A Palavra de Deus é consistente A Palavra de Deus é consistente em sua mensagem através dos tempos. Uma das grandes mentiras do inimigo, que costuma desviar as pessoas para longe da Palavra de Deus, é a doutrina que diz que a humanidade é historicamente determinada. É asseverado que o destino humano é embalado por qualquer período de tempo que esteja à mão. Conceitos de fé para uma geração são bem diferentes do que para as prévias gerações, uma vez que as circunstâncias externas foram alteradas e ocorreu um progresso tecnológico. Nessa visão, pouco importa se o progresso ocorreu da foice para a segadeira ou da máquina de trilhar para a segadeira debulhadora combinada. Simplesmente se mantém que cada geração precisa descobrir seu próprio caminho para Deus, sua própria interpretação da Escritura, e sua própria doutrina de Cristo. Sustém-se que a Palavra de Deus requer reinterpretação constante à luz do seu corrente estado de coisas. Aquilo que um dia foi válido
  • é tido como obsoleto, e isso inclui a Palavra de Deus. Antes havia outros meios de produção e outras condições sociais; não podemos, então, tomar a Palavra de Deus literalmente da maneira como ela se apresenta na página aos nossos olhos. Podemos aceitála, antes, apenas como um processo interpretativo que realça aquilo que (ainda) tem relevância para nós. A Palavra de Deus, entretanto, diz a mesma coisa para pessoa do corrente século que dizia às pessoa do primeiro século. O homem está diante de Deus hoje de maneira nãodiferente da que estava alguns séculos atrás. Os meios de produção da idade tecnológica não alteraram a apresentação essencial do homem. Assim como foi nos tempos de Lo e de Noé, assim é hoje: as pessoas comem, bebem, plantam, compram e vendem, e se casam (veja Lc 17.27-30). Já se disse que não se pode esperar que a pessoa moderna agora sucumba à superstição da crença na ressurreição dos mortos e milagres, em anjos e demônios, pois esta é a era da tecnologia, do rádio e do refrigerador, da luz elétrica e de automóveis. E precisamente essa pessoa moderna sucumbe hoje a superstições que sequer vimos em outros séculos. Muitos confiam em amuletos e horóscopos e buscam a orientação de prognosticadores. O envolvimento com cultos satânicos esta definitivamente em alta. A Palavra de Deus conhece o homem, até mesmo homem contemporâneo. E Deus profetizou na sua Palavra o sentido em que o homem contemporâneo difere do homem de passadas eras: Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes
  • resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé (2 Tm 3.1-8.) A tese de que a Palavra de Deus é dependente de interpretação e cada geração precisa de sua própria interpretação e coloca em oposição à Palavra de Deus. A necessidade de interpretação da Palavra de Deus é uma artimanha da teologia crítico-histórica, a qual não quer aceitar a Palavra de Deus tal como ela se apresenta e, portanto, exige esforços interpretativos. Uma vez não vê a Palavra de Deus como uma unidade, essa teologia não pode fazer uso do princípio de que a Escritura é a sua própria intérprete. E uma vez que não considera o Espírito Santo como a fonte da Escritura, também não pode experimentá-lo como seu intérprete. Além disso, a teologia crítico-histórica é velada pela ignorância, pois o teólogo geralmente só está cônscio de pequenas porções da Bíblia, as quais estuda com regularidade, mantendo a tendência generalizada para a especialização. Como regra, ele conhece numerosos livros que lidam com sua área de interesse, mas não conhece a sua Bíblia. Não queremos, contudo, negligenciar a menção de que professores leais à Bíblia, que nos instruem na Palavra de Deus, são dons da graça de Deus (Ef 4.11). Não queremos desprezar seu ministério e a assistência que prestam os seus livros. A Palavra de Deus é revelada A Palavra de Deus é produto de revelação progressiva. Noé e Abraão não tinham ainda a lei, e nosso Senhor Jesus disse a respeito dos profetas e pessoas justas da Antiga Aliança: “Pois em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram” (Mt 13.17). “A lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas” (Hb 10.1). Devemos distinguir entre a Jerusalém terrestre e a celestial (Gl 4.25-27), e observar, por um lado, o que foi escrito para os descendentes de Abraão segundo a carne, e por outro, o que foi dito aos filhos da promessa
  • (Rm 4.16; Gl 4.28). A Palavra de Deus tem de ser manejada de maneira acurada (2 Tm 2.15). Temos de manter em vista o abrangente esquema redentivo de Deus. A própria Palavra de Deus nos dá instruções de maneira que a podemos ler corretamente: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2 Tm 3.16). Ela nos ensina como entender os relatos contidos no Antigo Testamento: Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo. Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, razão por que ficaram prostrados no deserto. Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles; porquanto está escrito: O povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se. E não pratiquemos imoralidade, como alguns deles o fizeram, e caíram, num só dia, vinte e três mil. Não ponhamos o Senhor à prova, como alguns deles já fizeram e pereceram pelas mordeduras das serpentes. Nem murmureis, como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo exterminador. Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado. (1 Co 10.1-11.) Somos também instruídos a buscar Cristo nas Escrituras: “E a pedra era Cristo”, diz 1 Co 10.4. “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39). A Palavra de Deus deixa bastante claro o que e para que está aí, e como podemos fazer uso apropriado disso: “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4). Se seguíssemos essas instruções, manejaríamos a Palavra de Deus de modo correto e o diligente estudo da Escritura seria então frutífero. A Palavra de Deus é suficiente
  • A Palavra de Deus é bastante: ela é completa e inteiramente suficiente para todas as pessoas em todas as épocas, e para todas as situações. “os ribeiros de Deus são abundantes de água” (Sl 65.9). Jamais poderemos exaurir a Palavra de Deus. Situações das quais os escritores da Palavra Deus de nada sabiam, são consideradas pelo Espírito de Deus. Coisas das quais nós ainda não tínhamos conhecimento há alguns anos, já estavam escritas há dois ou três séculos. Como está escrito em Daniel 12.8-9: “Eu ouvi, porém não entendi; então, eu disse: meu senhor, qual será o fim destas coisas? Ele respondeu: Vai, Daniel, porque estas palavras estão encerradas e seladas até ao tempo do fim”. A Palavra de Deus não requer suplemento, quer da psicologia quer da moderna teoria da educação. A Palavra de Deus conhece mais o homem do que a psicologia o poderia conhecer. Onde quer que as descobertas dessas disciplinas contenham elementos de verdade, elas já estavam acessíveis há muito na Palavra de Deus. Na sua maior parte, entretanto, a psicologia tem um caráter anticristão e se coloca em oposição à Palavra de Deus. Em casos em que alguém se viu compelido a contradizer a Palavra de Deus por julgar ter melhor insight e maiores condições – por exemplo, em questões de relações préconjugais ou casamento e divórcio – tudo resultou finalmente em incontável miséria. O mesmo ocorre com a moderna teoria educacional. Muitos têm suposto que deveriam ajudar seus filhos contrariando os princípios de criação de filhos exarados na Palavra de Deus. No entanto, os produtos de tal educação deixam claro que Deus sabe melhor sobre o que beneficia a sociedade. A Palavra de Deus diz, por exemplo: “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a afastará dela” (Pv 22.15). “Não retires da criança a disciplina, pois, se a fustigares com a vara, não morrerá. Tu a fustigarás com a
  • vara e livrarás a sua alma do inferno” (Pv 23.13-14). “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina” (Pv 13.24). A teoria educacional moderna diz saber melhor do que isso. Ela diz que a criança não deve ser submetida a punição física, certamente não com a “vara”. Hoje, muitos vão ainda além, sustentando que é melhor nem disciplinar a criança, mas, antes, deixa-los desenvolver como lhes apraz. Olhe, porém, a geração de jovens estultos que já produzimos, jovens incapazes de assumir responsabilidades e levar uma vida humana normal. Não podem resistir a se entregar a quaisquer sentimentos de prazer ou desprazer carnal que experimentem. Muitos se vêem presos de drogas e álcool, alguns até mesmo morrendo de overdose e outros sendo internados em sanatórios. A Palavra de Deus também não precisa do complemento da sociologia. Deus sabe melhor sobre o homem e suas várias relações sociais que nosso sistema de dedução racional possa fantasiar. Nem precisa, a Palavra de Deus, de correção das ciências naturais. Acaba sendo que os pontos de vista das ciências naturais que outrora eram usadas para desacreditar a Bíblia têm sido comprovados como sendo inválidos por desenvolvimentos científicos mais recentes. Dispensemos, como fez o jovem, Daniel, a dieta oferecida pelo mundo como prato de acompanhamento da Palavra de Deus. Certamente não ficaremos mal nutridos comparados àqueles que comem da dieta de sabedoria mundana do rei (Dn 1.10). Seremos superiores aos instruídos em termos de insights e sabedoria (Dn 1.20). “Toda palavra de Deus é pura; ele é escudo para os que nele confiam. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso” (Pv 30.5-6). A Palavra de Deus também não precisa de argumentos da nossa experiência. Experiências que não têm precedentes na Palavra de Deus não têm razão para tentarem se
  • legitimar a partir da Palavra de Deus. Até mesmo o exercício de dons do Espírito Santo podem ser rejeitados, se adicionarem algo à Palavra de Deus reivindicando geração de profecias reveladas de autoridade igual as da Bíblia. A Palavra de Deus é efetiva “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl 33.9). Contudo, essa efetividade se manifesta apenas onde a Palavra de Deus como ela se apresenta é aceita simplesmente pela fé. Por isso é que muitos milagres ocorrem em lugares onde a pergunta velha e cínica, “É assim que Deus disse...?” (Gn 3.1) – gerada hoje pelo ceticismo crítico-histórico teológico, psicológico e sociológico – ainda não penetrou. Por isso é que pessoas que simplesmente colocam sua fé na Palavra de Deus experimentam milagres ainda aqui no Ocidente. Dois erros devem ser evitados. Ambos são referidos em Tiago 4.2-3: “Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres”. Está nos sendo ensinada, pela Palavra de Deus, a pré-condição bem conhecida para a petição. Devo saber o que Deus quer conceder para que eu possa fazer o pedido. Todo enfraquecimento da Palavra de Deus por meio de teorias teológicas (por exemplo, que Deus não deseja mais operar de certas maneiras hoje; que foi apenas no tempo dos apóstolos) ou por meio de avaliação crítica baseada na experiência cotidiana tem largas implicações: “Nada tendes, porque não pedis”. Até mesmo dar lugar à dúvida de se Deus deseja conceder algo tem conseqüências fatais. A Palavra de Deus diz: “Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; homem de ânimo
  • dobre, inconstante em todos os seus caminhos” (Tg 1.6-8). Por falta de expectação, nós obstruímos a dádiva de Deus que ele gostaria de conceder e que ele prometeu na sua Palavra. Obstruímos sua Palavra de maneira que ela não tenha o efeito que Deus gostaria que tivesse. O outro erro consiste em pedir tendo motivos errados. Isso ocorre quando fazemos exigências a Deus como se pudéssemos processá-lo para fazê-lo cumprir suas promessas Quando nos colocamos diante de Deus como desafiantes, como filhos insensatos que exigem aquilo que querem, ansiando primeiro pela satisfação de desejos egoístas em vez de ansiar pelo reino, então forçamos Deus a nos negar o cumprimento se suas promessas feitas na Palavra. Mais uma vez, obstruímos a sua Palavra de maneira a não obter o efeito que Deus gostaria que tivesse em nossa vida. A Palavra de Deus reflete Deus Em sua Palavra podemos reconhecer o coração de Deus e os princípios que orientam as suas ações. Eis dois exemplos disso: Podemos reconhecer quão grandes são a misericórdia de Deus e seu amor salvador, observando como ele lidou com Acabe. Dele é dito que: “Ninguém houve, pois, como Acabe, que se vendeu para fazer o que era mau perante o Senhor, porque Jezabel, sua mulher, o instigava” (1 Re 21.25). Quando Acabe inspecionava a vinha que adquirira assassinando Nabote, o profeta Elias o confrontou e pronunciou o julgamento de Deus sobre ele e sua casa: Tendo Acabe ouvido estas palavras, rasgou as suas vestes, cobriu de pano de saco o seu corpo e jejuou; dormia em panos de saco e andava cabisbaixo. Então, veio a palavra do Senhor a Elias, o tesbita, dizendo: Não viste que Acabe se humilha perante mim? Portanto, visto que se humilha perante mim, não trarei este mal nos seus dias, mas nos dias de seu filho o trarei sobre a sua casa (1 Re 21.27-29).
  • Certamente, quando Deus nos chama para ser “tardio para se irar” (Tg 1.19), ele próprio é primeiro assim. A figura mais impressionante do caráter de Deus é visto no espelho de 1 Coríntios 13.4-7: “O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Busquemos as Escrituras, e respondamos de tal maneira que encontremos nelas o caminho para o coração de Deus. O verdadeiro conhecimento da Escritura adora a Deus em espírito e em verdade.
  • Índice de assuntos Aarão, pecado de, Abismo (“ugly ditch”) de Lessing, Aborto, Abraão, Agostinho, Alcorão, Alemanha Ocidental. Ver Alemanha. Álibi para a ciência, Ambiente e tecnologia, Amós, visão crítico-histórica, Anticristo, espírito do, Antigo Testamento: visão crítico-histórica,; estudo adequado de,; unidade de, Apocalipse de João, Apologética, Apostasia, Argumentos, suporte, Arrependimento, chamada ao, Arte, Artes, Associações evangélicas não-governamentais, Ateísmo, Atenas, Atos, visão crítico-histórica, Audição crente Audição fiel Autonomia humana, Avanços da medicina, Baal, Bacon, Barmen, Declaração de, Beck, J. T., Benjamim, Tribo de, Berlim, Universidade de Beuys, Joseph, Bezerro de ouro, Bornhäusen, K., Brauschweig Tecnical University, Bultmann, Rudolf, Calcedônia, definição de; instrução superior cristã: avaliação de estudantes,; estudo bíblico,; vida comunitária,; conceito de,; ênfase na crítica,; presente situação,; currículo,; estágios de desenvolvimento, infra-estrutura para; teologias crítico histórica na,; aproximação interdisciplinar, palestras; objeções à; objetivos; afiliação organizacional; praticidade de; filosofia para; pesquisa; equipe de; ministérios estudantis, Cânon dentro do cânon, Centros educacionais teológicos. Ver Educação cristã superior.
  • Christus für Dich, Ciência da agricultura, Ciência e industria cultural: conquistas em,;sistema de valores,; cirse fundamental em,; conhecimento de,; neutralidade de,; questões em,; limitações em,; motivos subjetivos em,; teologia e, Ciência, estrutura de,; estude de,; utilidade de,. Ver também Ciência e industria cultural; Método científico. Ciências naturais, Códice, código; comunicação dentro da ciência, Colossenses, visão crítico-histórica, Comentários, Comparação, científica, Complexo de tradição. Ver Tradição, Comunicação dentro da ciência, Concepção, científica, Conclusões, Confissões, história cristã, Conformidade, pressão de, Conhecimento, guiado pelo Espírito, Consensus communis da teologia crítico-histórica, Controle populacional, Corpus júris civilis, Corrugação de idéias, Cosmovisões: ateístas,; cristãs,; dualistas,; humanistas,; monistas, Criação, ciência e, Criatividade, Cristologia cósmica, Cristologia, Critãos em estudos seculares, Crítica literária, Crítica na educação Cultura: cristianismo e, avaliação de,. Ver também Ciência e industria cultural, Darwin, Charles, Datação de escritos bíblicos De Doctrina christiana (Agostinho), Descartes, René, Deus: chamado de,; caráter de,; educação cristã e,; visão iluminista,; visão crítico histórica,; julgamento de,; ciências naturais e,; proteção,; reino de,; Palavra de, Deuses, Diferenciação em estudos, Direito, estudo de, Discipulado, em educação, Ditado mecânico da Escritura, Documenta, Dogmática, Düsseldorf Art Institute, Ebeling, Gerhard,
  • Economia, Educação sexual, Educação. Ver Sistema educacional europeu, Education of the Human Race (Lessing), Efésios, visão crítico-histórica, Eichhols, Erling, Elias, Engels, Friedrich, Ensino na universidade moderna, Epístolas aos Coríntios, visão crítico-histórica, Epístolas pastorais: visão crítico-histórica, Erasmo, Erro na Escritura, Escatologia futurista Escatologia realizada, Escolas acadêmicas,. Ver também Grupos, formação de, Escolasticismo, Escritos deuteropaulinos, Escritura: autoridade de,; clareza de,; Especialistas, tirania de, Espírito Santo,; origem da Escritura, Estabilização de hipóteses, Estudo Bíblico, relevância de , Estudo gramatical, Estudo, científico, Ética, Europa, homem moderno, Evangelho: método científico e,; proclamação de,; visão crítico-histórica, Evolução, teoria científica da, Exegese, crítico-histórica, Explosão de informação, Faculdades bíblicas, Europa, Faculdades e universidades alemãs, Fall of the Christian West, The (Ouweneel), Fatos. Ver Verdade Fausto, de Göethe, Fé: cristã,; da teologia crítico-histórica,; modernidade e,; privada.; sacrificium intellectus,; sincretista,; pensamento na, Filho de Deus, significado de, Filosofia aristotélica, Filosofia cristã,; ensino de,. Ver também Idéias, história de, Fuchs, Ernst, Fundamentos para a verdade científica,; exegese crítico-histórica de,; premissa críticohistórica,; inspiração da,; lugar na educação,; relatividade de,; rejeição de,; entendimento da humanidade, brincando com,; verdade da,; unidade da, Gálatas, visão crítico-histórica, Gênesis, visão crítico-histórica,
  • Gibeá, Gnosticismo,: no Evangelho de João,; estudo de, Goethe, Johann Wolfgang von, Gogarten, Friedrich, Grabe, Hans-Peter, Graf, K. H., Grupos, formação de, Hänssler, Friedrich, Hegel, Georg Friedrich, Henry, Karl F. H., Herder, Johnann Gottfried von, Heresia, Hermenêutica, Hettinger, Elisabeth, Hinduísmo, Hipótese, hipóteses, Historiografia Historiografia crítica. Ver Historiografia, Historiografia, científica, Hobbes, Thomas, Homilética, Homogeneização do pensamento, Horóscopo, Humanismo, Humanismo,; conceito humanista-idealista de educação, Humboldt, universidades, Humboldt, Wilhelm von, Hunter, James D., I Guerra Mindial, efeitos intelectuais da, Idade Média, Idealismo alemão, Idealismo, Ideas for a Philosophy of the History of Mankind (Herder), Idéias, história das,; Iluminismo,; Idealismo alemão,; humanismo,; escolasticismo,; tecnologia, Identificação científica, Idolatria. Ver Deuses. Igreja e universidades cristãs, Igrejas, principais, Iluminismo, Iluminismo,. Ver também Humanismo; Razão Indonésia, Infra-estrutura, conceitual, Inspiração da Escritura. Ver Escritura. Inspiração pessoal. Ver Inspiração verbal. Inspiração verbal, Intellectual Domain of Criticism, The,
  • Interpretação cristã, ver Cosmovisões, Interpretações bíblica e científica, método, Intuição na pesquisa, Israel, Jeroboão, Jeroboão, Jesus Cristo: confissão de,; visão crítico-histórica,; milagres,; estudo adequado de,; retorno,; verdade e,; Jesus histórico, pontos de vista de, João, visão crítico-histórica, Jornalismo, treinamento para, José, Josué, Judaísmo, Julgamento, Justiniano, Kähler, Martin, Kant, Immanuel, Kassel, Germany, Documenta”, Külling, R., Kümmel, Werner Georg, Lázaro, Lessing, Gotthold, Lexicografia, estudo de, Liberdade acadêmica Liberdade de investigação,; ver também Pesquisa. Linnemann, Eta, Logos, Lucas, visão crítico-histórica, Lutero, Martinho Lyell, Charles, Malthus, Thomas Robert, Mandeanismo, Evangelho de João e, Marx, Karl, Medicina,; avanços,; treinamento em, Messias, Milagres, bíblicos, Ministério, preparação para, Missões, estudante, Moderno, conceito de, Moisés, Monismo Música, Neoplatonismo, Neutralidade, científica, Noé, Novo Testamento: visão crítico-histórica, estudo adequado de,; unidade de,
  • Objetividade. Ver Neutralidade científica, Observação, científica, On Dating of the “P” Source on Gênesis (Külling), Ouweneel, W. J., Parasie, Ruth, Paris, antiga universidade de, Paulo: visão crítico-histórica,; ministério de, Pelikan, Jaroslav, Pensamento: dependência de,; liberdade de,; estruturas de,; subordinação de, Pentateuco: visão crítico-histórica, Persquisa científica. Ver Método científico. Persquisa de Armas, Pesquisa teológica,; conseqüências de,; intuição em,; prática de,; resultados de,; Escrityura e,; estudante,; verdade em, Philipps Unioversity, Pico della Mirandola, Giovanni, Pietismo, Planck, Max, Práticas de ocultismo, Pressão de grupo. Ver Conformidade, pressão de, Pressuposições Pressuposições, Pressuposições: educacional,; da ciência,; da teologia,. Ver também Concepção, científica. Profecia,. Ver também Vaticinium ex eventu, Profetas: visão crítico-histórica, Projeção, teoria da, Prolegomena to a Biblical Epistemology (Padberg), Prolegomena to the History of Ancient Israel (Wellhausen), Pseudomorfose, Psicologia, Queda da humanidade, Qunran, Racionalismo. Ver Iluminismo. Razão crítica como juiz da verdade, Razão,. Ver também Iluminismo. Realidade. Ver Verdade. Reconhecimento dentro da comunidade acadêmica. Redatores eclesiásticos de João, Regimento mental, Reimarus, Hermann, Relativismo,. Ver também Subjetividade. Religiões comparadas, Religion within the Bounds of Reason (Kant), Rendtorff, Tritz, Reuss, Eduard, Rodas da história, Rodas do renascimento,
  • Sachkritic,, teoria da fontes, Sackritic (crítica das fontes), Sacrificium intellectus, Salomão, Salvação, significado de, Salvador, Sapere aude, Schaeffer, Francis, Schiller, Johann Friedrick, Schlatter, Adolf, Schleimacher, Friedrich, Scholtz, Gertrud, Schwartz, Martin, Secularização, processo de, Semler, Johann, Separação de recursos de universidade, Sicretismo, Significado, na teologia crítico-histórica, Sistema educacional europeu,: tendência,; desenvolvimento,; influência.; riscos de estudar em,; estado de,;bolsas acadêmicas, influência, Sobre as Origens dsa Espécies (Darwin), So-Called Historical Jesus and the Histórical, Biblical Christ, The (Kähler), Socialismo na teologia bíblica, Socialização. Ver Conformação, pressão de; Tradição, de, Sociedade para Estudos do Novo Testamento, Sociologia, Spinosa, Benedict, Subjetividade,. Ver também Relativismo. Superstição e o homem moderno, Suposições, pesquisa, Tagesfragen, Tecnologia, Tecnologia: pensamento científico em,; fé e, Tendência Teologia bíblica, Teologia crítico-histórica: suposições,; tendência; empréstimo da ciência natural,; conceito de,; dependência de,; dilema de,; avaliação de,; exegeses, caráter monopólico de,; filosofia de,; pressuposições de,; métodos de pesquisa de,; resultados de,; riscos para a fé,; sabedoria do mundo, Teologia: ciência como,; ensino de, Teoria das fontes,. Ver também Sackritic. Theology of the New Testament, The (Kümmel), Theopneustos, Tiago, visão crítico-histórica, Tradição, a: e conquista científica,; novas idéias e,; estudantes na, Treinamento de professores, cristão, Ullrichs, Gerhard,
  • Últimos dias, Universidade: conformidade na,; história da,; monopólio na educação,; fenômeno da,; ensin na, Universitas magistorum et escholaum, Ut si Deus non deratur, Valla, Laurentius, Vaticinium ex eventu, Veda, Verdade: fatos e,; Jesus Cristo e,; humanismo e,; razões para julgamento de,; ciência e,; Escritura e, Verificação em pesquisas, Wallace, Alfed, Weinreich, Otto, Wellhalsen, Julius, What is Enlightment (Kant), Wilckens, Ulrich, Wilder, Arthur Ernst, Wissen un Leben, Wort und Wissen, Wycliffe Bible Translators, Índice de textos da Escritura
  • Jaroslav Pelikan, The Christian Tradition, Vol. 5: Christian Doctrine and Modern Culture (desde 1700) (Chicago/London: University of Chicago Press, 1989), 1. 2 Ela está envolvida com a escrita de obras academicamente orientadas na quais cobre partes do mesmo assunto, mas de maneira mais profunda e sob diferente perspectiva do que nesta obra de cunho mais popular. 3 William McKinney, “From the Center to the Margin”, Books and Religion 16:1 (1089), 3. Para um apelo liberal a uma atenção renovada para a Bíblia em educação teológica veja, por exemplo, W. Brueggemann, “The Case for na Alternative Reading”, Theological Education 23 (1987): 89-107. Criticando o Deus do liberalismo (mas também o do evangelicalismo) de dentro da comunidade liberal está Joanne Swenson, “Treating God as Real”, Theology Today (October 1988): 446-50. 4 Francis Schaeffer, The Great Evangelical Disaster (Westchester, Ill.: Crossway, 1984); Carl F. H. Henry, Twilight of a Great Civilization (Westchester, Ill.: Crossway, 1988); James D. Hunter, Evangelicalism: The Coming Generation, (Chicago: University of Chicago Press, 1987). 5 Como sociólogo, Hunter não chama o futuro aparente do evangelicalismo de “não-sadio”, mas pensa, sim, que é possível se documentar um desvio liberal. 6 Scott J. Hafemann, “Seminary, Subjectivity, and the Centrality of Scripture”, Journal of the Evangelical Theological Society 31 (1988): 129-43. 7 [Linnemann se refere ao Habilitationschrift, uma dissertação que, nos EEUU, se assemelha a de um segundo doutorado, e que qualifica o professor na universidade alemã.] 8 “Estai vós de sobreaviso, porque vos entregarão aos tribunais e às sinagogas; sereis açoitados, e vos farão comparecer à presença de governadores e reis, por minha causa, para lhes servir de testemunho. Mas é necessário que primeiro o evangelho seja pregado a todas as nações. Quando, pois, vos levarem e vos entregarem, não vos preocupeis com o que haveis de dizer, mas o que vos for concedido naquela hora, isso falai; porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo.” 9 [Como pode bem ocorrer se alguém seguir a orientação do professor de Linnemann, Rudolf Bultmann; veja seu The Gospel of John (Philadelphia: Westminster, 1971).] 10 [Este livro vem na tradução inglesa com o título Jesus of the Parables. Introduction and Exposition (New York: Harper & Row, 1966).] 11 [Além dos seus livros, as publicações anteriores de Linnemann incluem “Überlegungen zur Parable vom grossen Abendmahl, Lc. 14.15-24/Mt 22.1-14”, ZNW 51 (1960) 246-55; “Die Verleugnung des Petrus”, ZTK 63 (1966): 1-32 (no qual a historicidade de Marcos 14.54 e 66-72 é negada); Der (wiedergefundene) Markusschluss,” ZTK (1969): 255-87 (no qual Linnemann propõe que o final original de Marcos consiste de 16:8, depois dois versículos preservados em Mt 28.16ss., e finalmente Mc 16.15-20); “Tradition und Interpretation in Röm 1.3ss.”, EvT 31 (1971): 264-75; “Die Hochzelt zu Kana und Dionysius oder das Unzureichende der Kategorien. übertragung und Identifikation zur Erfassung der religionsgeschichtlichen Beziehungen”, NTS 20 (1974): 408-18.] 12 R. Kottje e B. Moeller, orgs., Ökumenische Kirchengeschichte, vol. 1, 157. 13 W. F. Fuchs, “Universitat”, em Neues Pädagogisches Lexikon, org. por Hermann Groothoft e Martin Stallmann: I 1981. 14 Ibid. 15 Ibid. 16 Kurt Dietrich Schmidt, Kirchengeschichte, (4a. ed., 1963), 264. 17 Ibid., 269. 18 Ibid., 266. 19 Ibid, 266n. 20 Veja o excurso 2. 21 Com respeito à industria cultural, a censura é exercida pelas correntes culturais. Isso se faz evidente na controvérsia quanto às mostras do “Dokumenta” de Kasseler (uma exibição de arte que tem lugar de tempo em tempo na cidade de Kassel, na Alemanha). Muito do que foi excluído da mostra satisfazia os requisitos de qualidade, mas não seguia as tendências correntes. Por outro lado, os mais vãos absurdos foram louvados como obras de “arte” pelos organizadores da exibição. (Linnemann cita como exemplo de “vãos absurdos” o buraco-de-um-quilômetro cavado em frente do local da amostra sob a supervisão do falecido artista alemão Joseph Beuys. Os dirigentes da exibição aceitaram isso como sendo de valor para a entrada na apresentação, enquanto excluiu obras de arte de maior qualidade, mas de menor apego à tendência da moda. Linnemann relata que o mesmo artista, em outra apresentação, exibiu uma peça consistente de cerca de cinco quilos de manteiga jogada sobre um globo no canto superior de uma sala no Instituto de Arte de Düsseldorf. O espetáculo resultante foi, aparentemente, levado à sério como arte por algumas pessoas, pois um estudante de Beuys, a quem o falecido Beuys deu a peça de presente, foi premiado com uma indenização de $20.000 por danos causados quando a exageradamente zelosa equipe de limpeza cuidou daquilo que tomaram como sujeira.) Com respeito à industria científica, veja os capítulos 6 e 7. 22 Veja o capítulo 9. 23 Discutido mais extensamente no capítulo 7. 24 Parece ser o tempo de considerar dotações e doações – contribuição para edificações, capital, pessoal, subvenções governamentais para pesquisa e outras concessões – como fortalecedores diretos ou indiretos de tendências desejadas na cultura e na ciência. Quem decide o que merece mais apoio, e quais os critérios pelos quais as decisões são feitas? 25 N. L. Geisler, “Das philosophische Vorverständnis der Bibelkritik”, em Bibel und Gemeinde (1984): 390. 26 Ibid., 391. 27 Ibid., 393. 1
  • Ibid., 392. Veja Gottfried Meskemper, Falsche Propheten unter Dichtern und Denkern (2ª. ed., Berneck, 1983). 30 Todos as pessoas citadas afirmaram terem sido inspiradas por um espírito de fora deles mesmos. Goethe explicitamente ligou esse espírito a demônios (veja Meskemper, Falsche Propheten, 29-30), e no caso dos outros, a julgar pelo resultado de suas obras, podemos suspeitar de fonte semelhante. Certamente, não foi o Espírito Santo! 31 Recentemente, fui referida ao estudo de N. C. van Velzen, o qual é uma apresentação consideravelmente mais detalhada de aspectos pertinentes da história das idéias. “Oorsprong em ontwikkeling van het humanisme”, Bijbel en Wetenschap, 10:79, 4-14. 32 Immanuel Kant, Was ist Aufklärung?(1784). 33 A acusação de que o pietismo tenha abandonado o campo do ensino acadêmico é injustificada, pois dá a falsa impressão de que o pietismo poderia se relacionar com a teologia acadêmica sempre que quisesse, e que deveria ser culpado pelo resultado do curso seguido. Essa posição despreza o fato de que não havia lugar na universidade para a teologia leal à Bíblia, uma vez que a apresentação do ateísmo do humanismo e do Iluminismo se tornou ponto de partida normativo entre os eruditos e a infraestrutura na qual a teologia acadêmica foi forçada a se desenvolver. 34 Wilhelm von Humboldt (1767-1835), reconhecido homem de estado, humanista e lingüista, foi o principal arquiteto intelectual da universidade de Berlim, a qual ajudou a fundar por volta de 1810. Ele defendia que a missão da universidade era única: “Buscar aprender em função do próprio aprendizado, sem considerar mais nada”. As universidades alemãs baseadas no modelo de Berlim, que se tornou um protótipo, não eram simpáticas ao conceito de educação universitária como sendo o de pesquisa técnica conduzindo à educação profissional Veja Wilhelm Humboldt, “Higher Learning in Belin”, em Great Ideas Today, org. por R. M. Hutchins e M. J. Adler, (Chicago: Encyclopedia Britannica, 1969: 350-55.) 35 Veja Luts von Padberg, “Gegen die Aufspaltung von Glauben und Denken”, Idea Dokumentation 33 (1985); Ranald Macauley, “Das christliche Denken”, factum (May 1985). Veja excurso 2. 36 Por isso precisamos de instituições acadêmicas nas quais o pensamento, em todas as disciplinas, tenha o direito de operar com os fundamentos da Palavra de Deus, em vez de – no máximo – exaurir-se na tentativa de refutar os erros prevalecentes. É essencial que rompamos as conexões tradicionais de particulares disciplinas com questionamentos dos quais podermos, com a maior cautela, recuperar algum material útil. Em suma, precisamos de faculdades que coloquem a Bíblia do seu correto lugar! 37 Veja nota 25. 38 Com respeito ao humanismo, veja van Velzen, “Oorsprung en ontwikkeling van het humanisme”. Sobre o Iluminismo, veja N. L. Geiler, “Philosophical Pressupositions of Biblical Inerrance”, em N. L. Geiler, org., Inerrancy (Grand Rapids: Zondervan, 1983), esp. 312-24. 39 “Das christliche Denken”, 8. 40 Ibid., 9. 41 De “Wallensteins Lager”, de Schiller, linhas 318-19: “O quer que não seja proibido é permitido. Não se pergunta aqui o que a pessoa crê.” 42 O dogma moderno acima referido (p. 37): Aquilo que identificamos como fato possui, em e de si mesmo, poder normativo em nosso pensamento. Aquilo que existe é confundido com – na verdade, identificado – com aquilo que deveria existir. O “factual” assume maior peso do que o “normativo” e, de fato, se torna normativo. 43 Comentário de Lutz von Padberg em conexão com sua dissertação, “Gegen die Aufspaltung von Glauben und Denken”, apresentada no Encontro Teológico da Conferência de Igrejas Confessionais, de 2-4 de outubro de 1985, em Hemer, Alemanha Ocidental. Veja Idea-Dokumentation 33 (1985). (Von Padberg explica essa declaração de maneira mais sistemática em Die Bibel—Grundlage für Glauben, Denken und Erkennen: Prolegomena zu einer bliblishen Erkenntnislehre (A Bíblia—Fundamento para a Crença, Pensamento e Conhecimento oara uma Epistemologia Bíblica, Neuhausen-Stuttgart: Hänssler, 1986.) 44 N. C. van Velzen, “Christelijk Hoger Onderwijs Nieuwe Stijl. Nota ter Voorbereing van een Internationale Christelijk Universiteit/ICU”, 1982. 45 Palavra e Saber, Saber e Vida, e ... (Publicações feitas na Alemanha que apresenta tratamentos de assuntos do pensamento cristão a partir do ponto de vista que Linnemann julga ser útil e construtivo.) 46 (O que Linneman parece ter em mente aqui e na fig. 4.1 não é simplesmente um exercício de crítica negativa, mas uma empreitada positiva de avaliação, discernimento e trabalho acadêmico alternativo. Nesse contexto, a crítica poderia ser entendida como avaliação e reconstrução crítica.) 47 Entre eles, por exemplo, Freie Evangelische-Theologische Akademie, Basel, Suíça; Freie Theologische Akademie, Gieben, Alemanha Ocidental; Internationales Theologisches Institut, Urk, Holanda; Evangelische Theologische Faculteit, Heverlee-Leuven, Bélgica. 48 Por exemplo, Geistliches Rüstzentrum Krelingen (estudos teológicos e lingüísticos básicos); Teologisches Vorstudium Breklum. Também: Studiengemeinschaft Wort und Wissen (um semestre introdutório antes do da faculdade), Gut Holmeke; Evangelische Hogeschule Amersfort, Holanda (curso de um ano como base para estudos posteriores). 49 Esse ponto de vista é argumentado em van Velzen, “Christlijk Hoger Onderwijs Nieuwe Stijl”. 50 (Na Alemanha, religião é ensinada em escolas públicas. “Primário” e “secundário” correspondem às divisões da “grade school”.) (No Brasil, já se usou a mesma nomenclatura, “primário” e “secundário”, hoje denominados cursos “fundamental” e “médio”.) 51 (Um centro de estudos independente, na Alemanha.) 28 29
  • (Na Alemanha, como nos Estados Unidos, muitas escolas não estão plenamente satisfeitas com a educação pública. Alguns grupos cristãos, assim, têm juntado mãos para apoiar escolas privadas não-governamentais para os seus filhos. Esses grupos constituem aquilo que Linnemann quer dizer por “associações evangélicas não-governamentais”.) (No Brasil, a realização de um projeto de educação leal à Bíblia é mais fácil nos níveis fundamental e médio; isso já é mais difícil em relação aos níveis superiores. Uma vez que o ensino oficial é totalmente gerido por organismos governamentais, a obrigação de adequação aos princípios da universidade secular e ao ensino anticristão é condição sine-qua-non para o credenciamento oficial. Estudos têm sido feitos no sentido de resolver o impasse, mas sem muita possibilidade. Enquanto isso, as escolas que preferem manter seu distintivo bíblico permanecem sem reconhecimento, mantendo validade apenas reconhecimento intra-eclesiástico.) 53 Sobre esse ponto de vista, veja o capítulo 7. 54 Lutz von Padberg, “Gegen die Aufspaltung”, 4-6. 55 Ibid., 1, 7-10. 56 O edifício das disciplinas científicas consiste do sólido cimento das decisões ateístas (institucionalizadas). Tomada como uma totalidade, elas podem ser comparadas a uma infraestrutura de concreto e ferro de uma parede em construção. Qualquer pessoa que deseje colocar uma pedra na estrutura poderá faze-lo – mas somente na infraestrutura. A forma básica e a direção da parede já foram determinadas. “Liberdade de indagação” existe apenas dentro da estrutura, a qual determina o que é e o que não é reconhecido pesquisa legítima. Quem quiser ser um cientista e obter acesso aos ambientes de pesquisa, computadores e laboratórios, devem operar dentro dessa estrutura; quem precisa de publicação para sua produção de livros também devem fazer o mesmo – a menos que se contente em receber uma colheita de formulários de rejeições. 57 Pelo menos algumas de outras fontes úteis que tenho encontrado no re-pensamento das coisas incluem: Werner Gitt, “Das Fundament”, em Wissen und Leben, Vol. 7 (1985); Mekemper, Falsche Propheten; Otto Riecker, Universitätstheologie und Gemeindefrömmigkeit (Neuhausen-Sttugart, 1984); H3elge Stadelmann, Grundinien eines bibeltreuen Schriftverständnisses (TVG, 1985); Bodo Volkmann, Das Maβ aller Dinge (Neuhausen-Sttugart, 1985). 58 (Sachkritik é um método em que aquilo que é tomado como sendo de importância é usado como padrão com o qual as outras partes da Bíblia serão comparadas e avaliadas. Veja exemplos no capítulo 10. 59 (O que há de errado com a adição de novos argumentos para apoiar uma nova posição? Possivelmente nada. Mas o ponto de Linnemann é o de quão arbitrária pode ser a defesa de novas posições teológicas. Um teólogo “objetivo” e “científico” argumenta hoje, confiantemente, até mesmo veementemente, em favor de uma posição, e tão confiante e veementemente, na próxima semana, defenderá uma nova posição. Quando o assunto é a eterna verdade da Palavra de Deus, e quando a racionalidade do teólogo “serve como prostituta” (ist num einmal eine Hure, nas palavras de Linnemann) a fim de legitimar cada nova posição assumida, então se justifica o ceticismo em relação a “novos” argumentos e posições.) 60 (Em correspondência pessoal, Linnemann dá alguns exemplos de W. Fannenberg, T. Rendtorff, e U. Wilckens, um “grupo” que surgiu no início da década de 1960. Com doutorado fresco nas mãos, eles entraram em cena em formação coesa como fundadores de uma nova direção teológica. Veja, de Pannenberg, Offenbarung als Geschichte, Göttingen, 1961, e ET Revelation as History, London, 1969. Dessa maneira eles obtiveram uma influência que jamais teriam tido individualmente. Em pouco tempo cada um deles ocupou uma cadeira universitária, o que em condições normais levaria muito mais tempo. Este é um exemplo de “formação de grupo” na qual cada indivíduo recebe a vantagem de pose do grupo movendo-se numa cverta direção. Uma vez que os três se encontraram estabelecidos, o grupo foi esquecido; cada um se voltou para diferentes assuntos. Tivesse cada um deles entrado em cena individualmente, não teriam sido saudados com a expectativa de que suas idéias iriam breve promove-los e jamais teriam sido levados) a sério, sugere Linnemann.) 61 (Linnemann se refere a Definição de Calcedônia (451 A.D.), na qual os teólogos reconheceram as duas naturezas de Cristo, ambas existindo sem confusão, sem mudança, indivisível e inseparavelmente. Veja Chalcedon, Definition of (451)”, em J. D. Douglas, org., The New International Dictionary of the Christian Church (Grand Rapids: Zondervan, 1981, p. 209.) 62 A criatividade propriamente dita é, na verdade, mais alta nos primeiros semestres. Refiro-me aqui à criatividade que se encontra em posição de chegar a insights inovadores por meio de consistente modelação dentro do complexo de idéias aceitas em uma dada disciplina científica. Esses insights se tornam então componentes desse complexo. 63 (Procrustes eram gigantes da mitologia grega que assaltavam viajantes e os atavam a um estrado de ferro no qual eram encaixados quer tendo seus corpos distendidos quer tendo as pernas cortadas.) 64 Otto Weinreich, Antique Heilunngswunder (Gleβen: Töpelmann, 1909). 65 (Em correspondência pessoal, Linnemann deixa claro não estar dizendo aqui que partes da Escritura tal como o caso de cláusulas dependentes, sejam menos importantes do que outras. Ele dá como exemplo do erro que tem em mente a maneira como algumas pessoas usam 3 Jo 2. João escreve: “Amado, acima de tudo, faço votos por tua prosperidade e saúde, assim como é próspera a tua alma”. Quando alguém deduz daí que um cristão jamais pode ficar doente e que a vontade de Deus é sempre a de que o cristão goze de perfeita saúde, a teologia foi construída sobre passos inadequados, segundo Linnemann.) 66 Tais como a referida na nota anterior. 67 (Nashville: Abington, 1973), 14. 68 Ibid., 14s. 69 (Ênfase de Linnemann.) 70 (Linnemann cita literalmente as palavras de Arquimedes: pou stoo, ou “onde se apoiar”, uma referência à sua observação de que, se lhe fosse dado um ponto de apoio suficiente fora da terra, ele moveria o mundo.) 52
  • Kümmel, Theology of the New Testament, 15. Ibid. (A ênfase aqui, e em outras citações, é do próprio Kümmel.) 73 Ibid. 74 Ibid. 75 Ibid. 76 Ibid., 15s. 77 Ibid., 16. 78 Ibid. 79 Ibid. 80 Ibid. 81 Ibid. 82 Qualquer pessoa que esteja em dúvida sobre esse ponto poderá consultar as detalhadas evidências adiantadas por Ernst Martels: Beitrag zur Auseinandersetzung mit der Theologie von Landesbischof D. Eduard Lohse (1984, à disposição com o autor: Breslauer Straβe 10, 3429 Bilshausen). Uma vez que Lohse é um dos comparativamente modernos representantes dessa aproximação, a evidência que Bartel adianta é largamente aplicável. 83 Deixo de mencionar a fonte dessa citação em consideração ao irmão cristão que a escreveu. 84 Samuel R, Külling, Zur Datierung der “Genesis-P-Stücke” (2a. ed., Rieben, 1985). 85 Ibid., 5. 86 Ibid. 87 Ibid., 5; veja também 7. 88 Ibid., 5. 89 Ibid., 67 90 Ibid. 91 Ibid., 11. 92 Conferir ibid., 10ss., com respeito a Graf e Kuenen; 11ss. E 21—42 com respeito a Graf e Hupfeld. 93 Ibid., 36s. 94 Ibid., 43. 95 Ibid., 44-57. 96 Ibid., 57. 97 W. J. Ouwenell, Der Untergang des christlichen Abendlandes (2a. ed., Heykoop, The Netherlands, 1978), 25-27. 98 Ibid., 28-30. 99 Citado por W. Gitt, “Das Fundament”, em Wissen und Leben Vol. 7 (Neuhausen-Stuttgart, 1985), 48. 100 Seria proveitoso investigar como foi que aconteceu que, na década de 1960, a maioria das posições de ensino nas universidades da Alemanha Ocidental foi ocupada por estudantes e amigos de Rudolf Bultmann. 101 (Linnemann usas aqui a imagem do papelão para embalagem, em que o papel é prensado e enrugado a fim de obter mais força do que teria uma simples folha de papel. A “corrugação” de uma nova idéia pelo processo descrito tem efeito comparável: a idéia, que por si só seria estraçalhada sob a mínima pressão, finalmente ganha força.) 102 Adolf Schalatter, Erläuterungen zum Neuen Testament. 103 (A Declaração de Barmen foi emitida em maio de 1934 por líderes da igreja alemã. Ela rejeitou cumplicidade e colaboração do cristianismo com o Terceiro Reich. A “primeira tese”, citada por Linnemann, inclui estas palavras: “Jesus Cristo, como nos é testificado na Sagrada Escritura, é a única Palavra de Deus a a quem devemos escutar, em quem devemos confiar e obedecer na vida e na morte. Repudiamos o falso ensino de que a igreja pode e deve reconhecer outros eventos e poderes, imagens e verdades como revelações divinas paralelas à Palavra de Deus, como fonte de sua pregação”. ET, John H. Leith, Creeds of the Church, 3a. ed., Atlanta: John Knox, 1982, p. 520.) 104 Joaquim Cochlovius, “Leben aus dem Wort. Wege zu einem geistlichen Schriftverständnis” em Arbeitsbuch Hemeneutik (Krelingen, 1983), 403-430 (411s.). Eu devo esclarecer que me oponho apenas a certos aspectos da posição declarada neste ensaio e não a todo o ensaio. Muito menos critico o próprio autor, 105 (“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”.). 106 Cochlovius, “Leben aus dem Wort”, 411. 107 Ibid. 108 Ibid., 412. 109 Ibid. 110 Ibid. 111 Ibid. 112 Ibid. 113 Ibid. 114 Ibid. 115 (Ver nota do capítulo 6). 71 72