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O Diário de Juliana
 

O Diário de Juliana

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O Diário de Juliana irá conduzir o leitor a uma viagem pelo tempo relembrando algumas situações corriqueiras e outras relevantes que, com certeza, estão guardadas na memória daqueles que ...

O Diário de Juliana irá conduzir o leitor a uma viagem pelo tempo relembrando algumas situações corriqueiras e outras relevantes que, com certeza, estão guardadas na memória daqueles que nasceram há mais de quarenta anos.
 
Para os leitores que nasceram depois desta época terão a oportunidade de embarcar nesta viagem conhecendo um pouco do cotidiano de Juliana e sua família através dos seus preciosos registros eternizando ações, costumes e vocabulários.
 
O livro resgata hábitos e situações comuns vividas pelas pessoas nascidas nas décadas de 70/80 e que são relatadas de forma descontraída e bem humorada nos episódios registrados por Juliana em seu Diário.
 
Este livro, por ter o formato de um Diário e conter textos curtos e de linguagem simples é sugerido para novos leitores e alunos da EJA. É sabido que este público sofre por ter acesso a materiais infantilizados criados para as primeiras leituras dos alunos das séries iniciais. Assim sendo, há a preocupação em oportunizar a este público ingressar, de forma prazerosa, no mundo da literatura.
 
Com a leitura do Diário de Juliana é bem provável que o leitor se sinta estimulado a iniciar suas anotações diárias deixando registrada a riqueza da sua existência.

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    • ODiárioDeJulianaO retorno a uma época onde tudo era proibidoCybele Meyer
    • MEYER, CybeleO Diário de Juliana/Cybele MeyerEsta obra é uma iniciativa sem fins lucrativos licenciadaem creative commons.2012Indaiatuba - São Paulo
    • ODiárioDeJulianaCybele Meyerem
    • Sobre o livroO Diário de Juliana irá conduzir o leitor a uma viagem pelo tempo relembrandoalgumas situações corriqueiras e outras relevantes que, com certeza, estão guardadas namemória daqueles que nasceram há mais de quarenta anos.Para os leitores que nasceram depois desta época terão a oportunidade de embarcarnesta viagem conhecendo um pouco do cotidiano de Juliana e sua família através dosseus preciosos registros eternizando ações, costumes e vocabulários.O livro resgata hábitos e situações comuns vividas pelas pessoas nascidas nas décadas de70/80 e que são relatadas de forma descontraída e bem humorada nos episódiosregistrados por Juliana em seu Diário.Este livro, por ter o formato de um Diário e conter textos curtos e de linguagem simples ésugerido para novos leitores e alunos da EJA. É sabido que este público sofre por teracesso a materiais infantilizados criados para as primeiras leituras dos alunos das sériesiniciais. Assim sendo, há a preocupação em oportunizar a este público ingressar, de formaprazerosa, no mundo da literatura.Com a leitura do Diário de Juliana é bem provável que o leitor se sinta estimulado ainiciar suas anotações diárias deixando registrada a riqueza da sua existência.Boa leitura!
    • Com a palavra: JulianaQueria muito ter uma grande amiga, mas uma amigona, daquelaque sabe escutar quando a gente está brava com alguém ou com algumacoisa, que sabe dar um abraço bem forte e tem sempre uma palavraanimadora para as horas tristes. Uma amiga que ri junto quando estamosalegres, e que chora como se sentisse a mesma dor. Enfim, uma amiga capazde guardar o maior dos segredos, e que não nos abandona nunca, aconteça oque acontecer.Estou assim sentimental porque hoje é meu aniversário, e no dia donosso aniversário a gente sempre fica emotiva, assim diz minha mãe.Foi por esta razão que quando ela perguntou o que eu queria ganharde presente, escolhi você. Você será o meu melhor amigo. Para você eu voupoder contar tudo que me acontecer e tudo o que eu estiver sentindo, assimcomo estou fazendo agora. Sei que você não vai me abandonar nunca, comofez a Edeli, que sempre foi minha melhor amiga, e que teve que mudar decidade porque seu pai foi transferido de Biritiba-Mirim em São Paulo, paraOuro Preto em Minas Gerais.
    • Você vai dormir todos os dias aqui no meu quarto, escondidinho,para ninguém te encontrar, e de noite vou te contar as novidades.Estou muito feliz por você estar aqui comigo.Você é o meu primeiro Diário e hoje é dia 17 de agosto de 1989,quinta-feira, dia em que estou completando 14 anos.
    • Sexta-feira, 18 de agosto de 1989Querido Diário!Sempre quis escrever “Querido Diário”. Estou me sentindo muitoimportante!Sabe que pensei em você o dia inteiro? Não via a hora de chegara noite para te contar as novidades. Estou tão empolgada com a suapresença que tudo que acontecia durante o dia eu pensava: “Quando forme deitar vou escrever tudinho”.Mas você acredita que agora não me lembro da maioria dascoisas! Acho que é porque fiquei tão entusiasmada que acabei meatrapalhando.Também tem outra coisa, depois que a Edeli mudou da cidadefiquei sem ter ninguém para ouvir as minhas histórias. Quando vou contaralguma coisa para minha mãe ela diz:- Juliana, fique um pouco quieta, assim você me deixa zonza.Outras vezes diz:- Agora não Juliana, estou atrasada, quando eu voltar você meconta.
    • Quando ela volta nem ela e nem eu lembramos do que era paracontar. Mas agora tenho você!Vou então lhe contar uma coisa engraçada que aconteceu comigohá oito anos, quando eu tinha seis anos.Chegou o circo na cidade e mamãe me levou para assistir. Eu adoreitudo que aconteceu lá: os malabaristas, o equilibrista, os palhaços que erammuito atrapalhados e também o mágico. Tinha até o globo da morte. Davanervoso de ver. E o barulho então! Era de deixar a gente surda. Mas o que euadorei de paixão foram os trapezistas. Eu fiquei tão encantada com eles queresolvi, naquele momento, que seria trapezista quando crescesse.No dia seguinte, acordei bem cedinho e fui para o quintal de casaonde tem um abacateiro no fundo e comecei o meu treinamento para metornar uma trapezista. Subi num galho que não era muito grosso e com muitocuidado me sentei nele. Em seguida, mantendo firme minhas mãos no galho,me coloquei de cabeça para baixo deixando as pernas dobradas no galhocomo se fosse o bastão do trapézio. Quando me senti segura soltei as mãos efiquei ali com as pernas dobradas no galho do abacateiro e o resto do corpopendurado de cabeça para baixo. Tentei balançar o corpo, mas era um
    • pouco difícil, pois o galho, por ser áspero, machucava as minhas pernas.Estava me sentindo a maior de todas as trapezistas, e era engraçado ver ascoisas no quintal de baixo para cima. Já imaginava todo mundo meaplaudindo.No primeiro momento fiquei muito empolgada, porém depois opavor tomou conta de mim porque eu não conseguia mais alcançar a minhamão no galho para voltar a minha posição normal.Desesperada, comecei a gritar pela minha mãe, mas ela estavadentro de casa com o rádio ligado bem alto e não me ouvia. Gritei, griteimuito e ela nada de me ouvir. O sangue estava todo na minha cabeça e elajá começava a latejar. Eu não estava mais aguentando ficar naquela posição.Foi quando a minha vizinha debruçou no muro para saber qual omotivo da minha gritaria e viu a situação em que eu me encontrava. Saiucorrendo como uma louca, nem tocou a campainha, e já foi entrando pelaminha casa gritando para que minha mãe viesse ao meu socorro.Quando as duas chegaram perto de mim as minhas pernas se
    • soltaram e eu cai nos braços da minha mãe.Eu estava roxa de medo e de ter todo o sangue do meu corpoacumulado na minha cabeça.Daquele dia em diante decidi que não queria mais sertrapezista.
    • Domingo, 20 de agosto de 1989Quando não tenho para onde ir eu acho o final de semana muitochato. Nada de interessante acontece. Até acordar cedo para ir à escola émelhor do que ficar em casa no domingo. Não converso com minhascolegas, não falo bobeiras, não dou risadas das besteiras dos outros... Éuma chatice só!Não aconteceu nada de interessante, mas se minha vidacontinuar assim, este Diário vai ser muito chato de se ler. Então vou lhecontar outro caso.Há dois anos, quando ainda tinha doze anos, eu e minha melhoramiga Edeli resolvemos enganar o nosso professor de História que eramuito, muito bravo. Eu e ela éramos muito magricelas e por issocombinamos de entrar no armário que ficava na parede ao lado da lousa.Como a nossa escola é uma casa antiga, o armário é daquelebem grande, embutido na parede com prateleiras de madeira. A Edelideitou na prateleira de cima e eu na de baixo. Pegamos um chaveiro de
    • gaita que tocava de verdade e o levamos conosco. O resto da classe vibroucom a idéia. Fecharam o armário e ficamos lá dentro à espera do professorHorácio. Ele entrou, fez a chamada e começou a dar a aula.Passado uns cinco minutos eu assopro a gaitinha de um lado parao outro produzindo um som parecido com esse “piriri-póróró”. O professorinterrompe a aula e pergunta com voz de bravo:- Quem tocou a gaita?Todo mundo responde: “eu não... eu não.... eu não...”.Ele então continua a aula. Eu passo a gaita pelo vão da prateleirapara a Edeli e novamente o barulho: “piriri-póróró”. O professor dá um tapana mesa e pergunta entre os dentes:- Quem é que está fazendo esta brincadeira?Novamente a turma responde a mesma coisa: “eu não... eu não....eu não...”. Um aluno no fundo diz:- Acho que é lá fora, pois o som está tão longe! Comenta comironia.O professor Horácio, meio cabreiro, prossegue com a aula. Eu e aEdeli ríamos muito dentro do armário, só que bem baixinho para ele não
    • escutar.Até que num determinado momento a Edeli fala:- Ju, acho que eu escutei um barulho de barata.Quando ela terminou de falar a palavra “barata” eu já estava fora doarmário sentada no chão no meio da classe. Eu tenho verdadeiro pavor debarata! Escancarei a porta do armário e pulei para fora numa rapidezimensa.Quando olho para dentro do armário, a Edeli está deitadinha naprateleira de cima, sem entender ainda que eu já havia saído de lá, que aporta estava escancarada e que todo mundo a estava vendo ali deitada.Olho então para o professor que está com uma cara de sustomuito engraçada, mas em seguida vejo suas sobrancelhas se unirem numolhar fuzilante. A classe desaba em gargalhadas e eu sem jeito me levantodo chão ao mesmo tempo em que a Edeli sai de dentro do armário.Resultado: eu e ela fomos para a Diretoria e como repreensãotivemos que, durante uma semana, no nosso horário de Recreio, arrumar
    • todos os armários, de todas as classes, da escola inteira.Afinal, disse a Diretora, pra quem gosta tanto de armário issonão é nem castigo, é presente.
    • Segunda-feira, 21 de agosto de 1989Que droga! Que droga! Que droga!Você acredita que o Felipe, o menino da 8ªA que eu estavapaquerando, está de namoro com a desengonçada da Regina que é daclasse dele. Que droga! Como vou poder competir com ela? Eles estudamna mesma classe e eu, se quiser vê-lo, tenho que esperar o Recreio. Assimnão dá! É injusto!!Acho que hoje não foi mesmo o meu dia de sorte porqueacordei às 5 horas da manhã com uma dor muito engraçada na barriga.Era uma dor, nem muito forte nem muito fraca, mas que meincomodava bastante e não me deixava dormir. Como ela não passavachamei minha mãe e ela disse que logo, logo vou ficar mocinha. Na horafiquei muito feliz, pois na escola a maioria das minhas colegas já ficou equando eu digo que ainda não, elas ficam me chamando de nenezinha.Quero ficar mocinha logo, assim meus peitos vão começar a
    • crescer e eu vou ficar bem linda, toda peituda.Aposto que quando ficar peituda o Felipe vai preferir mepaquerar e vai deixar aquela “sem sal” de lado.O pior é que a dor não passava e nada de eu ficar mocinha,até que minha mãe me deu um remedinho mágico e a dor foi embora.Quero muito ficar mocinha, mas dor não quero não!
    • Sexta-feira, 25 de agosto de 1989Que saudades, meu amigo. Não deu pra falar com você estes diasporque estou em semana de provas. Não dá tempo de fazer nada. Tenhoque estudar, estudar e estudar. Isso porque estou precisando de nota emquase todas as matérias.Não sei o que acontece com a minha cabeça que na hora daprova não se lembra nunca do que estudei. Acho que tenho algumparafuso a menos como diz minha mãe. Quando estou estudando achotudo muito fácil, depois quando chega na prova, não consigo me lembrarde nada.O pior é que desta vez ela falou que irá mostrar meu boletim parao meu pai. Não sei por que fico tão preocupada quando ela fala isso, poisdesde o começo do ano ele nunca pediu para ver o meu boletim. Acho queele nem se lembra que existe um.Agora minha mãe vem me ameaçar e eu fico com medo. É muitoengraçado! Não entendo por que estou com medo. Deveria ter medo dela
    • que está sempre pegando no meu pé e inventando castigos absurdos parame dar. Ela não deixa passar uma oportunidade.Uma vez fiquei uma semana, foi isso mesmo que você ouviu, umasemana sem colocar o nariz para fora de casa.Eu tinha uns 9 anos e estava de férias da escola. Então mamãe medeixou chamar a Edeli, que já era minha melhor amiga, para vir brincar aquiem casa.A minha casa é daquela do tipo bem antiga que ainda tem porão.Ele é bem grande e ocupa toda a parte de baixo da casa. Eu sempre tivemedo de entrar no porão, pois sempre escutava uns barulhos estranhos lá.Mas naquele dia eu estava um pouco mais corajosa porque estavacom a Edeli, e o meu cachorro Barney, um perdigueiro que morreuatropelado no ano passado. Então tivemos a idéia de entrar no porão: eu, aEdeli e o Barney para caçarmos fantasmas.Lá dentro era uma escuridão só. A gente não via nada. De repente
    • o Barney sai correndo lá pro fundo do porão e nós duas ficamos apavoradasachando que o fantasma tinha levado o Barney para o além.O medo era tão grande que ficamos paralisadas sem conseguirnem respirar. Dali alguns segundos vemos o Barney voltando. Ficamosfelizes e saímos correndo do porão.Já do lado de fora, olhamos para o Barney e vimos que ele estavacom um rato enorme na boca. Levei um susto e dei um tapa na cabeça dele.Ele, que também se assustou, largou o ratão no chão. Ele já estava morto.Então tive uma idéia maravilhosa:- Edeli, vamos construir um cemitério de ratos.- Boa idéia! Disse ela toda feliz.Com a pá de lixo pegamos o rato e o levamos para o jardim. Láfizemos um buraco e o enterramos. Fizemos uma linda cruz com galhinhosde árvore e voltamos para o porão, junto com o Barney, para caçar maisratos.
    • Fizemos isso a tarde inteira.No final do dia, quando a mãe da Edeli veio buscá-la, fomoslhe mostrar, assim como para a minha mãe, o nosso cemitério. Tinham32 cruzes.A mãe da Edeli, com cara de nojo, a pegou pelo braço e saiusem nem ao menos se despedir.Minha mãe, com a cara de que nem eu sabia do que, mepegou pela orelha de um jeito tão forte que eu entrei em casa andandonas pontas dos pés tentando aliviar a dor.O que eu não sei é se toda aquela braveza foi por ter brincadocom os ratos ou se foi por ter estragado todo o jardim com a construçãodo cemitério. O que eu sei é que este foi o motivo pelo qual fiquei umasemana sem sair de dentro de casa. Nem no quintal eu podia ir. Mastoda vez que mamãe se descuidava eu corria para a janela só para ver ocemitério, tão lindo, cheio de cruzes maravilhosas!
    • Quarta-feira, 30 de agosto de 1989São nove horas da noite e eu estou aqui no meu quarto decastigo. Tudo por causa de uma brincadeira boba que eu fiz com amamãe. Ela está furiosa comigo.Está aqui em casa o chefe do trabalho do meu pai. Ele e amulher vieram jantar. De vez em quando o meu pai os convida. Minhamãe se emperiquita toda, pois diz que a Sônia, a mulher do chefe, émuito estilosa. Quando vai conversar com ela, mamãe faz caretas com aboca. Acho que ela pensa que isso é chique. Depois que eu falei que elafica muito esquisita quando faz essas caretas, ela não me deixa maisficar na sala junto com eles.Fiquei então no quintal, perto da porta da cozinha, brincandocom um pedaço de pau que achei no chão.De repente a luz se apaga. Fica uma escuridão que não dápara enxergar nada. Eu entro na cozinha e fico ali, perto da porta,
    • quando escuto minha mãe entrando na cozinha para procurar uma vela.Ela começa a procurar no armário, nas gavetas e nada de achar.Quando está agachada procurando na prateleira do armário dapia, eu, querendo somente fazer uma brincadeira, encosto o pedaço depau nas costas dela e falo imitando voz grossa:- Isso é um assalto!Minha mãe com o susto levanta rapidamente e bate com acabeça na pedra da pia, e em seguida desata a gritar, a sapatear nomesmo lugar e a falar tanto palavrão, mas tanto palavrão que nem meescutava dizer que era brincadeira.Nisso a luz volta e quando a gente olha para a porta da copa, láestão parados com cara de assustados, o meu pai, o Sr. Wilson e a Sônia.Eu também estava muito assustada, pois não imaginava queminha mãe iria agir desta forma, e muito menos que ela conhecia tanto
    • palavrão. Tinham alguns que eu nunca tinha escutado. O meu pai entãopergunta:- O que aconteceu Noeli? Por que este escândalo? Que faltade compostura!Eu então cometo a insensatez de perguntar:- Mãe o que é compostura?Ela me fuzilando com o olhar diz entre os dentes que é paraeu vir para o quarto imediatamente. E aqui estou eu, com fome echateada por minha mãe não aceitar brincadeiras.Quando ela estiver mais calma vou perguntar com quem elaaprendeu aquele monte de palavrões.
    • Domingo, 03 de setembro de 1989Como eu já te contei, o meu cachorro Barney morreuatropelado o ano passado. Eu chorei muito, pois ele era como um irmãopara mim. Depois que ele morreu, mamãe me proibiu de pedir outrobichinho. Ela diz que “a gente se apega e depois eles morrem e a gentesofre muito”. Eu fiquei muito triste com esta decisão porque adorobichos.Estou te falando isso porque ontem, sábado, fomos para Mogidas Cruzes, a cidade vizinha, jantar numa pizzaria.Aqui em Biritiba-Mirim só tem uma pizzaria e é muito ruim. Amassa parece borracha. Você mastiga, mastiga, mastiga e nunca temcoragem de engolir. Quando engole, fica com ela entalada na garganta epensa que vai morrer sufocada. Depois você sente a pizza descendo,descendo até cair como um tijolo no estômago.Então papai resolveu nos levar numa pizzaria de verdade, afinalsábado é dia de pizza! E todo mundo come mesmo pizza no sábado, pois
    • lá estava um tumulto só. Tivemos que pegar senha e ficar lá foraesperando desocupar uma mesa.Enquanto estávamos ali, apareceu, não sei de onde, um gatinholindo, desses vira-latas. Começou a se roçar nas minhas pernas e eu meabaixei e fiquei brincando com ele. No começo minha mãe ficou bravadizendo que ele poderia ter doença, mas ele era tão lindinho que elaacabou consentindo.Brinquei com ele até o moço chamar o nosso número. Eu querialevar ele para dentro, mas ninguém deixou. Então pensei: “se quando eusair da pizzaria ele ainda estiver aqui, vou levá-lo para casa”. Dito e feito,assim que saímos, ele veio correndo na minha direção. Pedi para mamãese podia ficar com ele, mas ela disse que não. Comecei então a chorar e adizer que não conseguiria dormir sabendo que ele estaria ali sozinho, semninguém.Até que papai concordou em levá-lo e disse que poderia ficarcom ele somente por esta noite e que no dia seguinte teria que arranjarum lugar para ele. Concordei rapidamente, afinal amanhã seria outro dia,
    • e então veria o que fazer.Ao chegarmos em casa corri para os meus guardados e,emendando várias tiras de pano fiz uma coleira bem comprida paracolocar nele. Papai disse que não era uma boa ideia, pois gatos nãogostam de ficar presos, mas argumentei dizendo que tinha medo que elefugisse. No fundo, papai sempre faz as minhas vontades.Minha mãe, como estava brava por eu ter trazido o gato paracasa, já tinha ido dormir. Assim que papai também foi, eu amarrei umaponta da corrente de pano no pescoço do gato e a outra na maçaneta daporta e fui para o meu quarto dormir deixando o gato preso na cozinha.Hoje de manhã acordo com os berros da minha mãe mechamando:- JULIANAAAAA, VENHA JÁ AQUI.Assustada, fui correndo e quando chego na porta da cozinha,quase vomito com o fedor que vinha de lá.Você acredita que o gato, deve ter ficado nervoso por se sentir
    • preso e fez cocô pela cozinha inteira! Depois de ter arrebentado acoleira de pano ele ficou andando pela cozinha arrastando o pedaçode pano que sobrou no pescoço sujando de bosta a cozinha inteira.Por onde ele subia embostiava tudo. Tinha cocô na pia, na geladeira,no fogão, mesa, paredes, janelas. Estava tudo imundo, e o cheiro? Deembrulhar o estômago.Tive que ajudar a limpar toda aquela porcaria.Minha mãe nem precisou me mandar soltar o gato, eumesma levei ele para a rua.Cruz credo, que dia!
    • Quarta-feira, 06 de setembro de 1989Estou muito feliz! Amanhã vou viajar para a praia de Bertiogacom meus tios. Estou tão eufórica que nem consigo caber dentro de mim.Faz tanto tempo que não viajo!Minha tia Cleonice vai passar aqui daqui a pouco para me pegar eeu ainda tenho que acabar de arrumar minhas coisas. É que amanhã éferiado e a minha escola emendou, então não terei aula na sexta-feira. Quedelícia! Vou ficar fora até domingo. Vou poder conversar bastante comminhas primas Dani e Rose.Dani tem a minha idade e Rose tem 10 anos. A tia Cleonice é irmãda minha mãe e ela mora numa cidade bem perto da minha chamadaGuararema. Ela já deve ter saído e deve estar chegando para me buscar.Não posso falar mais com você senão irei me atrasar. Você secuida que quando eu chegar te conto todas as novidades.Beijocas.
    • Segunda-feira, 11 de setembro de 1989Estou no céu e no inferno. No céu, porque estes dias que estivena praia foram os melhores da minha vida, e no inferno porque mesmomuito cansada tive que ir para a escola, e como não havia feito a lição quea professora de Português havia passado para o feriado, que na verdade eunem me lembrei dela, me deu “um ponto negativo” na média geral. Paraquem já está precisando de nota isso é a mesma coisa que ser jogada nofogo do inferno.Mas deixa eu te contar o que eu fiz na praia. Eu e a Daniresolvemos pegar um ônibus para passear pela avenida da praia. Eu eminha prima nunca havíamos passeado de ônibus. Eu entrei primeiro elogo atrás de mim entrou a Dani. A gente se sentou no banco que só dálugar para duas pessoas. Eu como entrei primeiro fiquei na janelinha.Deixamos passar um pouco de tempo e decidimos passar naroleta. É muito legal! É dura que só! O moço que cobra a passagem é queteve que me ajudar porque sozinha não ia conseguir.Passamos na roleta e resolvemos descer para não irmos muito
    • longe, só que o motorista nada de parar. Eu falava pra Dani bem alto:- É melhor a gente descer aqui.E a Dani respondia:- É sim, vamos descer aqui.E nada do motorista parar. Nós começamos a ficar com medoachando que nunca mais iríamos sair daquele ônibus. Na verdade sótinha eu, a Dani e mais duas velhinhas no ônibus, mais ninguém.Também ninguém subia. E a gente falando e falando que queríamosdescer. Até que a Dani se enfezou e foi falar com o motorista:- Seu moço, a gente quer descer, o senhor não vai parar esseônibus?Ele então falou:- E vocês puxaram a cordinha?- Que cordinha? Perguntou a Dani.- Essa que fica logo ali acima das janelas. Você tem que puxar acordinha que aí toca uma campainha. É assim que eu sei que opassageiro quer descer. Ou vocês acham que eu sou adivinho para sabero lugar que cada um quer descer?Eu então me estiquei toda e puxei a cordinha e realmentetocou como se fosse uma sinetinha.
    • O motorista ainda bravo falou:- Vocês vieram de onde? Da Lua?Assim que ele parou o ônibus, nós duas descemos e desatamosa rir, mas nós riamos tanto, mas tanto que deu até vontade de fazer xixi.Saímos correndo pela avenida da praia para chegarmos logo,pois estávamos voltando a pé para casa.Andamos muito.Por causa desta história toda, fomos parar muito longe do lugaronde estávamos hospedadas.Foi muito divertido!
    • Terça-feira, 12 de setembro de 1989Ah! Praia! Mar! Areia! Isso é que é viver...Que saudades que eu estou da praia. De ficar fazendocastelo na areia, de enterrar o pé na beirinha aonde a marola vai evem e o pé da gente vai ficando cada vez mais enterrado.Meus tios são muito bacanas. Eles são animados gostamde cantar e de passear. Nem de noite a gente ficava em casa. Atéganhei uma roupa nova. Um shorts. Eu não tinha nenhum e agoraganhei este que é muito lindo.A minha mãe não gostou muito quando eu mostrei. Eladisse que aqui na cidade as pessoas não estão acostumadas a usarshorts. Minha tia Cleonice falou que a mamãe é muito quadrada.Eu também acho.
    • Sábado, 16 de setembro de 1989Estou com a barriga doendo de tanto rir. Não consigo parar de rir.Toda vez que eu me lembro da cena, caio na risada. Foi muito, muito, muitoengraçada. Eu vou te contar como aconteceu.Construíram um supermercado super chique aqui na minhacidade. Todo mundo só sabia falar desse supermercado que estava sendoconstruído. É que aqui em Biritiba-Mirim só tem a venda do Sr. Ernesto, amercearia do Seu Cacildo, a quitanda da dona Maricota, o bar do Baixinho,o açougue do Seu Porquinho e a padaria Flor-de-lis do Sr. Amadeu.Agora vamos ter um supermercado desses bem grandes quevende de tudo.Dizem que lá dentro vai ter um lugar só pra quitanda, outro proaçougue, pra mercearia e até padaria. Eu só não sei se também vai ter o bar.Estava todo mundo na maior expectativa para acabarem logo de construirpra gente poder passear no supermercado.Hoje de manhã bem cedo ouvimos um barulhão de fogos e
    • artifícios. Corremos para ver o que estava acontecendo e as vizinhas jávieram falar que era a inauguração do supermercado.Comecei a pular de alegria e pedi pra minha mãe me levar lá paraconhecer. Nisso vem chegando a Dona Amélia, nossa vizinha do ladodireito. Ela vinha cheia de pacotes de papel e lá dentro estavam as comprasque ela havia feito. Achamos aquilo uma belezura, pois no açougue eleenrola a carne no jornal, na padaria num papel tão fininho que rasga à toa,mas os sacos do supermercado pareciam bem fortes.Dona Amélia também contou que a porta do supermercado estásempre fechada, e quando a gente chega perto ela abre sozinha comomágica.- Eu quero ir lá, eu quero ir lá. Falava isso enquanto pulava comos dois pés na frente da minha mãe, para que ela me levasse logo.Minha mãe entrou em casa e falou, vamos nos arrumar. Nãopodemos ir mal arrumadas ao supermercado. Pelo jeito lá é lugar de grã-fino.Eu então saí correndo para o meu quarto e fui me arrumar bem
    • bonita. Peguei o vestido que ganhei no meu aniversário. Ele é muitobonito. Coloquei uma sandália branca que também é nova e fui para asala esperar minha mãe.Dali a pouco aparece ela toda bonitona, com seu vestidoestampado, bem colorido, e com sua sandália anabela, que também énova. Nem pegamos a sacola e nem o carrinho de feira, pois queríamostrazer as compras nos sacos de papel do supermercado.Fomos andando rápido pela rua. Quanto mais pertochegávamos do supermercado maior era o movimento na rua até que,finalmente, dobramos a esquina e demos de cara com ele, cheio debexigas e bandeirinhas voando com o vento.Olhei logo para a porta e vi que era de vidro e estava mesmofechada. Ainda bem que Dona Amélia tinha nos avisado senão íamospensar que ainda estava fechado.Mamãe achou melhor esperar um pouco e ver como é que aporta abria. Paramos e ficamos observando. Logo apareceu uma senhora
    • que foi andando e assim que ela chegou pertinho da porta, esta abriusozinha, e assim que a mulher passou ela fechou também sozinha.Parecia castelo de assombração.Peguei na mão da mãe e a puxei para entrarmos, nãoaguentava mais esta espera. Quando chegamos bem pertinho da portaela se abre só que minha mãe vira o pé e cai bem na entrada dosupermercado. Por ser a sandália anabela muito alta, ela torceu feio opé e não conseguia se levantar. A porta do supermercado ficava abrindoe fechando o tempo todo. Eu na hora fiquei assustada e tentava levantarminha mãe, mas não conseguia. Até que apareceu um homem queestava passando e a ajudou. Ela, envergonhada, sai andando rápido,mesmo mancando, para dentro do supermercado.Depois que o susto passou, eu não podia me lembrar daminha mãe estatelada no chão bem na frente da entrada dosupermercado, e a porta abrindo e fechando, abrindo e fechando.Na hora do jantar, quando fui contar pro meu pai sobre estaaventura, ele falou:- Bom! Cada um entra como quer, né!
    • Mamãe não gostou nada da piada, e eu aproveitei para rir tudoque ainda estava guardado.
    • Segunda-feira, 18 de setembro de 1989NOVIDADES!!! Fiquei mocinha. Estou feliz, mas sofri muito hoje.Acordei novamente com aquela dor que tive anteriormente.Sempre me dá essa dor de manhãzinha. Parecia que tinha um micróbio,com dentes bem afiados, mordendo a minha barriga por dentro. Era comose ele enfincasse os dentes e ficasse mordendo, no mesmo lugar, umtempão e depois soltasse. Dali a pouco mordia de novo. Dava vontade dechorar. Eu virava pra um lado, virava pro outro e nada de melhorar. Entãofui chamar minha mãe pra ela me dar aquele remedinho mágico. Quandolevantei senti vontade de fazer xixi e quando fui ao banheiro –SURPRESA!!! Tinha ficado mocinha. A dor até melhorou, mas mesmoassim pedi o remédio.A mãe levantou, preparou o remédio e sentando comigo nacama começou a falar:- Agora você já é uma mocinha e tem que melhorar seus modos.Não pode mais sentar de qualquer jeito, tem sempre que ficar com aspernas fechadas e não pode mais sentar no colo de ninguém.- Nem no seu? Perguntei no desespero!
    • - No meu pode, mas você tem que ver que mocinhas não ficamno colo.- Mas eu gosto tanto!- É, mas a vida é assim mesmo, tudo que a gente gosta muito defazer enquanto é criança, no momento em que começa a crescer tem quedeixar de fazer. Você está virando uma adulta, e adultos não secomportam como crianças.Comecei a me sentir triste porque gostava muito de ser do jeitoque eu era.- Tem mais alguns cuidados que você tem que tomar, continuoumamãe.- Ainda tem mais coisa? Falei amedrontada.- Tem, mas não é nada que você não consiga cumprir. Sãocuidados com o seu corpo. Estas toalhinhas aqui (tirou de uma sacolinhavários paninhos quadradinhos) você vai usar durantes estes dias, e quandofor tomar banho você lava no chuveiro e depois estende naquela cordaatrás do abacateiro que é para ninguém ver. Também não pode lavar acabeça durante todo o tempo que você estiver assim. Não pode tomargelado e nem muito sol.
    • - E se eu me esquecer e fizer alguma dessas coisas? Faleipreocupada- Não pode se esquecer. É muito perigoso. O sangue pode subirpara a cabeça e aí você fica doente da cabeça e tem que ficar internada.Os meus olhos pareciam que iam saltar para fora de tãoassustada que eu estava. E mamãe continuou:- Eu quando tinha sua idade tive uma amiga que lavou a cabeça eaí o sangue parou de descer e subiu pra cabeça. Ela ficou com duas bolsasde sangue, uma embaixo de cada olho. Aí a mãe dela chamou o médico eele colocou os pés dela na água fervendo pra puxar o sangue para baixo.- E o sangue desceu? Perguntei.- Desceu, mas ela ficou com marcas de queimaduras horríveis naspernas. Nunca nem se casou.- Meu Deus! Que perigo! E eu que estava tão feliz porque tinhaficado mocinha! Mas os meus peitos vão crescer, né?- Agora não é hora de pensar nisso. Vá colocar a toalhinha e searrumar para ir para a escola. Tome cuidado para não sujar a roupa. E nãoprecisa contar para ninguém que você está assim. Isso é intimidade sua.Agora chega de prosa e vá se arrumar.
    • E eu fui. Estava mesmo muito decepcionada. Esperei tanto poreste momento e agora não posso fazer um montão de coisas!Eu quis te contar porque se eu me esquecer de alguma coisa,venho ler você e aí me lembro.Deus me livre ficar com o sangue todo na cabeça.Já basta aquela vez que fiquei de cabeça pra baixo no abacateiro.
    • Terça-feira, 19 de setembro de 1989Não consigo parar de lembrar que estou com estas toalhinhas. Elasme incomodam muito. A todo o momento acho que elas saíram do lugar. Ficocom medo de sujar minha roupa. Toda hora vou ao banheiro para ver se estátudo em ordem.E você não sabe da maior, comecei a andar com a perna aberta. Leveiaté uns tapas da minha mãe. Ela fica falando toda hora: “anda direito menina,anda de perna fechada”. Eu já nem sei mais como se anda direito.Não gostei nada dessa história. Eu estava mais feliz do outro jeito.Não pude nem nadar no rio com o pessoal da escola. Quando falei pramamãe que a professora tinha combinado de ir todo mundo nadar no rioBiritiba ela quase me estrangulou.O pior é que eu e a Vânia, minha colega de classe que também está,ficamos na margem olhando eles se divertirem. Toda hora vinha um eperguntava:-Vocês estão naqueles dias?
    • E os meninos caiam na risada.Senti até vontade de chorar, mas falei que estava resfriada e porisso minha mãe não tinha deixado.Eu sei que eles não acreditaram, também, que azar o meu, logohoje eu tinha que estar assim!
    • Domingo, 01 de outubro de 1989A construção deste supermercado foi muito legal pra minha cidade,porque este final de semana eles montaram um brinquedo muito bacanachamado Tobogã.Você pega um tapetinho de saco de café e sobe uma escada muito,muito, muito alta. Tem degrau que não acaba mais porque você tem queescorregar lá de cima. Chegando lá você senta nesse tapetinho e aí desce deuma vez só nesse escorregador gigante, cheio de ondinha. É uma delícia! Euescorreguei nele um monte de vezes. O legal é que você compra só uma vez oingresso e pode escorregar quantas vezes quiser.Eu encontrei um monte de colegas da escola lá. Também aquinunca tem nada de legal pra fazer, quando vem um brinquedo desses todomundo aproveita. Tinha também adulto escorregando, inclusive os pais dasminhas colegas.Teve um momento em que a mãe da Flávia também resolveuescorregar. Ela estava toda emperiquitada, parecia até uma árvore de Natalde tanto enfeite. Tinha uns brincões! As pulseiras eram tantas que quase nãoconseguia dobrar o braço. Estava com uma pantalona estampada com rosas
    • enormes, e na cabeça um turbante que deixava o cocuruto muito alto.Eu e a Angélica, minha colega de classe, ficamos cochichandotentando imaginar o que ela estava escondendo debaixo daquele turbantepara deixar a cabeça daquele jeito, mas não chegamos a nenhumaconclusão.Subimos e subimos até que chegamos lá no alto. Arrumei meutapetinho e zupiiiiiiiiiiiii, desci navegando nas ondas do Tobogã.Quando se chega lá embaixo tem que sair correndo porque logoatrás já vem outra pessoa, e se você estiver no caminho ela te derruba. Eusaí e fiquei olhando para ver a mãe da Flávia escorregar. Ela estava lá no topoe fazia um montão de poses para arrumar o tapetinho e se sentar. Quandoela sentou, o homem que fica lá em cima organizando e empurrando aspessoas, a empurrou. Eu acho que ela não sabia que a coisa funcionavadesse jeito porque ela desceu toda desgovernada. Perdeu o tapetinho nomeio do caminho e a calça dela escorregava mais que o tapetinho, então elaveio descendo e girando tanto que parecia um pião. A cada volta que dava,batia a cabeça nas ondinhas do Tobogã. Quando chegou aqui embaixo,estava completamente zonza e saiu cambaleando, acho que não lembravanem do próprio nome.
    • O homem que fica no fim do Tobogã ajudando as pessoas que jáescorregaram a puxou rapidinho. Ele pediu para ela tirar o turbante paraque pudesse examinar se havia algum ferimento. Ela desesperada segurouno turbante com as duas mãos na altura das orelhas e começou a gritardesesperada dizendo que ninguém ia tirar o turbante dela. Ele, sementender nada, pediu para que ela fosse se consultar no posto médico quefica ao lado do Tobogã. Ela caminhou para lá de mãos dadas com a Flávia.Eu fui junto para dar uma força para minha colega e também para ficarsabendo o que ela escondia embaixo do turbante.Ao chegarmos ao posto, ela entra e se senta na cadeira que temao lado da mesa do médico. Eu e Flávia ficamos de pé ao lado dela. Odoutor então pede para que ela conte o que aconteceu, mas na verdadeele já devia saber, pois essas descidas turbulentas acontecem com muitagente. Ele então pede para que ela tire o turbante. Nesse momento ficoumais animado porque finalmente eu iria descobrir o mistério do turbante.Ela pergunta se é mesmo necessário e o doutor responde que “Claro!”. Elaentão começa a tirar e eu vejo que ela tem o cabelo curtinho como era oda Elis Regina e que no alto do cocuruto tem um bob tamanho família, alisozinho, preso com grampo no pouco de cabelo que tem.
    • Ela então diz que o bob foi o maior responsável por ela ter semachucado, pois a cada batida que ela dava o bob enfiava o grampo nacabeça.Fiquei com muita vontade de rir, mas não podia senão iria apanhardela ali mesmo. Então engoli o riso e assim que saímos daquele lugar fuicorrendo encontrar minha mãe.Quando fui contar o que havia acontecido mal conseguia falar de tanto rir.
    • Quarta-feira 04 de outubro de 1989Recebi uma carta da Edeli. Estou muito feliz com esta surpresa. Eladiz que também está se sentindo muito sozinha, sem ninguém paraconversar. Que o colégio que ela está é legal, mas que não tem nenhumaamiga como eu.Ela falou que nas férias o pai dela vai trazê-la para Biritiba para ficaruns dias aqui em casa. Mal posso esperar.Vou escrever para ela, agora que tenho o endereço, e lhe dar aideia de também escrever um diário, assim, quando a gente se encontrar,uma lê o diário da outra, e fica sabendo tudo que aconteceu nestes temposem que estivemos afastadas.Vou começar a escrever a carta agora mesmo.
    • Sexta-feira, 06 de outubro de 1989São duas horas da manhã e está a maior briga lá na sala. Minhamãe e meu pai estão gritando um com o outro. Eu já estava dormindo, masacordei com a gritaria. Fui até lá escondida, pois se eles vissem que eu estavalá, aposto que iriam brigar comigo.Eu acho que a mamãe está desconfiada que o meu pai estánamorando a secretária dele. Ela fica falando toda hora “a vagabunda da suasecretária”. E ele defende a secretária e diz que a mamãe está louca e queprecisa se tratar.Não acho que a mamãe esteja louca. Ela está normal. Agora, queele está chegando em casa todo dia tarde, isso ele está. Nem jantar com agente ele janta mais. É difícil o dia que ele chega cedo para o jantar.Teve uma vez que ele chegou cedo, jantou, e depois disse que tinhaque ir para uma reunião. Tomou banho, se arrumou e saiu. Até a hora de euvir dormir ele ainda não tinha chegado, e a mamãe ficou acordada esperandoele voltar. Esse dia eu também escutei eles brigando, só que o meu pai não achamou de louca. Porém hoje ele já falou isso um montão de vezes.
    • Ixxii! Acho que eles quebraram alguma coisa. Será que meu paiestá batendo na minha mãe?Eles pararam de falar. Eu vou até lá dar uma olhadinha e jávolto....Acho que eles pararam de brigar. Não vi o meu pai, mas a minhamãe está chorando no sofá e o vaso vermelho que sempre fica em cimada mesa está quebrado no chão.Acho que vou até lá fazer um carinho nela.Não quero que ela fique triste e nem chore.
    • Sábado, 07 de outubro de 1989O clima aqui em casa está péssimo. A mamãe ficou calada o diainteiro. Quando eu fui perguntar se ela e o pai tinham brigado, ela merespondeu que não era para eu me intrometer em assunto de gente grande.Hoje é sábado e o meu pai não está em casa. Ele levantou cedo edisse que ia jogar bola. Em compensação minha mãe resolveu fazer faxina.Desmontou a casa. Ela sempre diz que quando está nervosa tem quetrabalhar muito para se sentir melhor.Quando ele chegou em casa já era mais de duas horas da tarde,ela estava toda descabelada, suada e a casa brilhando. Ele entrou e nemolhou para ela. Sentou na sala, tirou o tênis e a meia, deixou ali e foi tomarbanho.Quando a mamãe entrou e viu aquilo, o sangue dela ferveu. Elapegou o tênis e a meia e foi para o quarto. A briga começou novamente. Ela,tanto gritava falando da falta de consideração dele de ter deixado o tênisespalhado na sala quanto por ter comprado aquele tênis novo. Ela disse quedeve ser o último modelo da All Star. Ela estava uma fera. Disse que vive
    • economizando, que não tem ninguém para ajudá-la no serviço da casa, queeconomiza nas compras e que ele agora fica gastando dinheiro comprandotênis último modelo. Ainda perguntou onde ele comprou, pois aqui emBiritiba-Mirim não deve vender desses tênis tão chiques.Ele muito enfezado diz:- Você quer que eu vá jogar futebol de chinelo Havaiana? Como sefosse um rampeiro brega? Eu tenho uma posição na empresa e não possome vestir de qualquer jeito.Aí eu até fiquei com pena da mamãe porque ela falou:- Eu também quero um sapato bonito.E meu pai falou:- Pra quê? Pra fazer faxina?Ela ficou tão triste que saiu batendo a porta e foi lá pro quintalchorar.Meu pai nem foi atrás dela. Tomou banho, se arrumou e saiu. Nãose despediu nem de mim que estava na sala lendo uma fotonovela e nemda mamãe que ainda estava lá fora.
    • Assim que ele saiu, fui até o quintal e falei pra ela que ele haviasaído novamente e ela desatou numa choradeira maior ainda.Será que meu pai vai abandonar a gente? E aí como vai ser?Será que vou ter que parar de estudar e começar a trabalhar para ganhardinheiro e ajudar minha mãe?Ah! Edeli, que falta você me faz nessas horas!
    • Domingo, 08 de outubro de 1989A coisa continua preta aqui em casa. Meu pai e minha mãe nãose falam e ele dormiu na sala.Quando acordei eu o vi no sofá, mas voltei para o quarto porquenão queria que ele ficasse sabendo que eu o vi lá.Hoje ele não saiu. Ficou no quintal quase o tempo todo. Eleinventou de mexer no jardim e ficou lá o dia inteiro. Quando eu fui lá forachamá-lo para o almoço ele disse que era pra gente ir almoçando que elenão estava com fome, e que mais tarde comeria. Falei pra mamãe ir láchamar ele, mas ela disse que ele tinha ouvidos e pernas e que sabia ocaminho, e não foi.Não sei não, mas não estou nem um pouco tranquila com issoque está acontecendo. Ainda bem que amanhã é segunda-feira e eu voupara a escola, pelo menos lá converso, dou risada e me esqueço destatristeza.Boa noite!
    • Sexta-feira, 20 de outubro de 1989Estou muito triste. Já chorei tanto que nem consigo abrir os olhosdireito de tão inchados que eles estão.No Dia da Criança, 12 de outubro, pensei que a gente fosse (eu,minha mãe e meu pai) passear em Mogi das Cruzes, que é a cidade vizinhade Biritiba, como a gente sempre fez todos estes anos. A gente almoçava norestaurante, depois ia passear na praça, tomava sorvete, comia pipoca,algodão doce e depois de tardezinha voltava para casa.Este ano, como eles ainda estão de mal, não fomos. Eles tambémnem me perguntaram o que eu ia querer ganhar de presente. Dei um montede indiretas, mas acho que eles nem me ouviram.Hoje resolvi falar pra minha mãe que eu quero o último disco dosTitãs que se chama Õ blésq blom. O disco acabou de chegar nas lojas, sóque aqui em Biritiba não tem nenhuma loja de discos. A gente tem que irpara Mogi das Cruzes.Logo depois do jantar eu falei pra ela:
    • - Mãe, será que o pai vai chegar cedo hoje? Perguntei isso porquenesses últimos tempos ele chega tarde todos os dias.Minha mãe, que anda irritada demais, respondeu com 50 pedrasnas mãos:- Você está querendo me machucar ainda mais?- Eu? Por quê? Respondi surpresa.- Você sabe que seu pai nunca mais voltou cedo para casa e vocênunca cobrou isso dele, porque hoje está tão interessada?- É que eu queria saber se vocês não querem me dar de presente,de Dia das Crianças, o novo disco dos Titãs.Minha mãe parecia que tinha fogo nos olhos. Me olhou de umjeito como eu nunca tinha visto e disse com uma voz tão agressiva que memagoou tanto!- Você é uma egoista mesmo. Só sabe pensar em você. A casa e asua família está desmoronando na sua frente e você só consegue olhar parasi mesma.Eu fiquei muda. Meu coração começou a bater tão rápido que
    • parecia que estava no pescoço, bem abaixo do meu ouvido, e eu nãoconseguia respirar direito. E ela continuou:- E que presente do Dia das crianças! Ponha na sua cabeça quevocê não é mais criança. Já te falei que de agora em diante você tem que secomportar como uma adulta. E suma da minha frente que a última coisa queeu quero ver agora é a sua cara. Sua egoísta, interesseira.Eu saí correndo e vim para ao meu quarto. Deitei na cama e choreimuito.Estou muito triste com tudo que está acontecendo.É claro que eu me importo com eles, mas o que eu posso fazer? Sevou falar alguma coisa, me mandam pro quarto porque não devo participarde conversas de adultos. Quando fico quieta e não interfiro me dizem quesou egoista porque já sou adulta. Eu não sei mais como agir? Eles nemparecem aqueles pai e mãe que eu tinha antes. Eu preferia morrer a ter queficar aqui e escutar todas as brigas e broncas.
    • Domingo, 22 de outubro de 1989Só queria te dizer que aqui em casa está tudo igual. O meu painão pára em casa, a minha mãe não fala comigo e eu só choro aqui noquarto.
    • Quinta-feira, 02 de novembro de 1989Hoje é feriado e amanhã não vou ter aula. Vou ficar aqui em casa otempo todo.A minha tia Cleonice não vai nem aparecer por aqui porque elasabe que o clima aqui em casa não está nada bom.Ontem eles brigaram feio novamente e a minha mãe disse que não vai maisquerer que o meu pai venha para casa só pra dormir e deixar a roupa suja.Que aqui não é pensão e que ela não é empregada dele. Que se ele querficar com aquela vagabunda que vá de vez.E ele falou que vai mesmo. Que quer se desquitar da minha mãe.Quando eu o ouvi falando isso eu entrei na sala e falei:- Não vai pai, o que vai ser da nossa vida sem você?Eu falei isso que era pra ele ficar, porque eu gosto dos dois, masminha mãe, sempre muito brava comigo, berrou:- O quê? Tá querendo dizer que eu não vou cuidar bem de você?
    • Quer ir junto com ele e com aquela ordinária? Pode ir, arrume assuas coisas e vá.Me deu uma vontade tão grande de chorar. Eu não falei com essaintenção!Meu pai então veio até junto de mim, passou a mão na minhacabeça e falou:- Não ligue pro que sua mãe está dizendo. Ela anda descontrolada.Vai pro quarto que depois eu vou até lá falar com você.Minha mãe nem me olhava, ficou de costas, e eu vim para o meuquarto. Nem quis mais escutar nada do que eles estavam falando. Tudo queeu falo ou faço está errado. Queria mudar de casa. Vou falar com minhasprimas e ver se posso me mudar para lá.Fiquei esperando meu pai vir no quarto conversar comigo comoele havia falado, mas ele não veio. Até que dormi e hoje estou aqui, sem ternada para fazer.Não posso chamar ninguém para vir aqui.
    • Meu pai não dormiu em casa e minha mãe está de cara amarrada.Éh! Vida difícil!Estamos comemorando o dia dos mortos com cara de enterro!
    • Quarta-feira, 08 de novembro de 1989Hoje minha mãe e meu pai foram no advogado para sedesquitarem.Ela foi vestida toda de preto. Até o véo de ir à missa ela colocouna cabeça. Dava arrepio olhar para ela.Estou com muito medo!Não sei muito bem como é que é esse desquite. Será que nuncamais vou ver meu pai? E se minha mãe não quiser ficar comigo, eu vou ficarcom quem? Posso ver se minha tia Cleonice quer ficar comigo.Minha mãe, outro dia, estava falando mal da tia Cleonice. Ela dizque todo mundo a abandonou e que ela nunca esteve tão sozinha. Que elasempre ajudou todo mundo, e agora que ela precisa, ninguém nempergunta se ela quer alguma coisa.Eu desta vez só escutei porque tudo que eu falo ela acha que eufalo para magoar, então preferi não falar nada.
    • Quando ela voltou pra casa, depois de ir lá no advogado, meu pai nãovoltou junto. Ela entrou em casa, parecia que olhava pras coisas mas não via nada.Eu apareci e ela nem me viu. Sentou no sofá da sala, ainda estava com ovéo na cabeça, e ficou lá por muito tempo. Quase nem se mexia. Eu não sabia sedevia perguntar se ela queria alguma coisa, ou não. Agora ando com medo de falarcom ela. Fiquei espiando ela de longe. E ela ali parada, olhando nem sei para onde.Depois de muito tempo, eu fui andando devagarinho e me sentei ao ladodela. Fiquei ali também parada olhando para onde ela olhava. Depois de um tempoeu coloquei a minha mão em cima da mão dela, mas ela nem se mexeu. Fiquei atécom medo que ela tivesse morrido. Olhei para os olhos dela prestando a atençãopara ver se ela piscava. Quando ela piscou respeirei aliviada. Então, tomei corageme perguntei se ela queria tomar água. Ela se levantou e disse que queria ficarsozinha, e foi para o quarto dela. Eu fiquei ainda na sala, mas depois vim para cáfalar com você.Ainda bem que eu tenho você, senão nem imagino como estaria a minhavida. Você é o único que me entende e que não me deixa de lado. Até minha amigaEdeli me deixou. Tudo bem que foi por causa do pai dela que foi transferido notrabalho, mas a verdade é que estou sem ela.
    • Sexta-feira, 10 de novembro de 1989Hoje tive uma aula muito interessante na escola. É que ontem, 9 denovembro, derrubaram o muro de Belim. Agora a Alemanha Oriental e aAlemanha Ocidental vão ser uma Alemanha só.Fiquei pensando que se eu morasse na Alemanha Ocidental eminha prima Dani na Alemanha Oridental, toda vez que eu quisesse visitá-la,teria que pular o muro. Ia ser muito engraçado, principalmente se minha tiaCleonice quisesse vir aqui nos visitar e tivesse que pular o muro. Só queria vercomo ela iria fazer isso. Gorducha do jeito que é, acho que ficaria entalada.Pensei que isso poderia ser uma coisa muito legal para eu contarpra minha mãe. Quem sabe ela não ficaria feliz de não ter mais aquele murona Alemanha. Até fiquei ensaiando como poderia falar para ela, mas depoisperdi a coragem e fiquei aqui no quarto mesmo.
    • Quarta-feira, 15 de novembro de 1989Oba! Hoje fui para Mogi das Cruzes. Parece mentira, mas até queenfim tive um dia legal.Hoje teve votação no Brasil. Estava todo mundo muito feliz porque,como diz meu pai, é a primeira eleição depois da ditadura.Eu sei que o meu pai votou no Fernando Collor. Minha mãe nãoquis dizer em quem ela votou. Ela disse que o voto é secreto e que o que ésecreto não se diz para ninguém.Tanto meu pai quanto a minha mãe votam em Mogi das Cruzes paraminha sorte, pois assim pude dar um passeio. Tudo bem que a gente foi paralá, votou e voltou. Só deu tempo de eu comer uma pipoquinha.Quando voltamos de lá o meu pai veio com a gente para casa eperguntou se poderia almoçar com a gente. Minha mãe disse que ela teriaque fazer a comida. Ele disse que não estava com pressa e ficou na salaconversando comigo. Quis saber como eu estava indo na escola. Acho que em
    • toda a minha vida ele nunca me perguntou isso. Eu disse que estou indo maisou menos, pois tinha dificuldades em algumas matérias. Ele não ficou bravo.Disse que temos que nos esforçar nos estudos principalmente por vivermosnum país tão grande e com oportunidades tão difíceis. Ele disse que talvez ascoisas mudem caso o Fernando Collor ganhe como Presidente, mas queaconteça o que acontecer estudar é sempre importante.Quando o almoço ficou pronto a mãe nos chamou e fomosrapidinho. Começamos comer e o silêncio era enorme. Ninguém falava nada.Eu pensava em algum assunto, mas não me vinha nenhum. Quando pensavaem algum, ficava com medo da minha mãe não gostar e aí virar uma briga.Então comemos quietinhos.Logo depois do almoço meu pai achou melhor ir embora, e a mãenão falou nada. Ele me deu um beijo na testa e foi.
    • Sexta-feira, 24 de novembro de 1989Meus pais se desquitaram hoje. Minha mãe e meu pai foram noFórum e o Juiz disse que de hoje em diante eles não são mais casados.Ninguém veio me dizer como é que eu fico agora.Estou muito triste.Estou chorando muitoEstou com medo!
    • Domingo, 03 de dezembro de 1989Hoje meu pai veio aqui. Depois do dia do desquite ele nem veio enem ligou. Disse que estava com saudades de mim e que de 15 em 15 dias elevirá me pegar para passear.Ele perguntou se a minha mãe tinha me falado isso. Eu disse quenão. Falou que o juiz combinou isso e que ele virá de manhã e me levará parapassear o dia inteiro. Pediu pra eu me arrumar que iríamos agora mesmo paraMogi das Cruzes.Nossa! Fiquei super animada porque não estava nem esperando poresta surpresa. Me arrumei rapidinho e antes de sair fui dar tchau para minhamãe. Ela nem apareceu na sala. Nem falou nada. E eu fui embora com meupai.Foi muito gostoso! Tinha um Parque de diversões e eu andei nummontão de brinquedos. Fui na roda gigante, nos carrinhos bate-bate, atireibola na boca do palhaço, mas não ganhei nada. Depois tomei sorvete, comimaçã do amor e no final do dia viemos embora.
    • Quando chegamos em casa papai pediu para eu chamar a mamãe e sedespediu de mim pedindo para que eu ficasse no quarto.Eu obedeci rapidinho. Estava tão contente que não queria mesmo meaborrecer com a briga deles. Mas não teve jeito. Dali a pouco começo a escutaros gritos da minha mãe. Ela falava tanto e tão rápido que eu não conseguiaentender uma palavra. Dali a pouco escuto o meu pai me chamando. Saí doquarto correndo e quando entro na sala vejo minha mãe caída no chão. Na horaeu pensei que meu pai tinha matado ela, mas com o nervoso dele eu vi que nãoe ele me pediu para pegar o álcool e um copo de água. Saí correndo, tãodesesperada, que tropecei na cadeira e caí por cima dela machucando todo ojoelho. Mas levantei muito rápido e corri lá pra despensa e peguei o álcool.Trouxe rápido e meu pai começou a massagear os pulsos da minha mãe. Eletambém jogou um pouco de água no rosto dela.Aos poucos ela foi recobrando os sentidos. Quando ela abriu os olhos,o olhar dela era muito esquisito, parecia que estava longe, muito longe. Masquando viu o rosto do meu pai, aquele olhar sem expressão virou um olhar deódio e se levantou muito rápido, e gritando mandou meu pai embora. Ele foirapidinho.Depois perguntei se minha mãe estava se sentindo melhor. Ela respondeu que
    • sim com a cabeça.- Quer que eu traga alguma coisa? Perguntei de mansinho.- Não, filha. Pode ir dormir.- Se precisar de mim é só chamar, tá bom?Lhe dei um beijo no rosto e fui deitar.Eu queria perguntar o que tinha acontecido pra ela desmaiar,mas como ela estava falando direito comigo, não quis estragar comperguntas.Foi uma cena muito ruim de ver.Nunca mais quero ver minha mãe deitada no chão, desmaiada.
    • Domingo, 17 de dezembro de 1989Hoje teve eleição de novo. Foi o segundo turno entre o Collor e o Lula.Nós fomos de novo para Mogi das Cruzes, só que hoje minha mãe não quis ircom o meu pai. Fomos de ônibus.Hoje era o dia de eu ir passear com o meu pai, mas como teve eleiçãonós combinamos que eu iria junto com a minha mãe para ela não ir sozinha e nodomingo que vem, saímos juntos.Ir de ônibus para Mogi das Cruzes até que é legal. Eu nunca tinha ido.Fiquei procurando a cordinha pra tocar na hora que a gente ia descer, mas nãoachei cordinha nenhuma. Perguntei pra minha mãe como que fazia para avisar omotorista, ela me disse que é pedindo pra ele parar. Mas a gente não iria nemprecisar falar com ele porque íamos descer na Rodoviária de Mogi, que é oponto final.Quando chegamos, tivemos que andar um bocado a pé. O calor estavaterrível e a bagunça na cidade então, nem se fala. Uma sujeirada! A gente iaandando pela rua e as pessoas vinham dar os bilhetinhos com a cara do Lula edo Collor, que depois minha mãe disse que aquilo se chama santinho. Acho que
    • ela está enganada porque no santinho tem o retrato do Santo que a gente ganhaquando vai à igreja, mas nem retruquei.Perguntei para a minha mãe novamente em quem ela iria votar e o olharque ela me deu, entendi que ela não iria falar. Então perguntei para quem elaestava torcendo. Ela me pediu pra ficar quieta.Comecei então a juntar todos os “santinhos” que me davam. Fiquei coma mão cheia. Quando chegamos ao lugar onde minha mãe vota, me disseram queera pra jogar fora porque não podia entrar com aqueles papéis na mão. Minha mãeolha para mim e entre os dentes diz:- Joga isso já!Eu fui correndo procurar uma lata de lixo e joguei. Fiquei triste porquequeria brincar com aquilo no ônibus quando estivéssemos voltando. Tem coisasque não dá pra entender. Se não pode entrar com o “santinho” para votar, porquedão tanto santinho pra gente segurar? Deve ser por isso que tinha aquele tantojogado na rua!Minha mãe entrou numa sala, mas eu não pude entrar. Tive que esperarlá fora.
    • Quando ela saiu perguntei aonde iríamos agora, e ela disse:- Embora pra casa.Nem falei nada porque não ia adiantar, mas fiquei triste. Tantosacrifício pra nem fazer nada. Nem tomar um sorvetinho sequer. E andamosdebaixo daquele sol quente até a Rodoviária e voltamos para casa.Voltei bem quietinha, sem falar nada.Às vezes penso que minha mãe está com raiva de mim.
    • Quarta-feira, 20 de dezembro de 1989Hoje veio aqui a tia Cleonice convidar a mamãe e eu parapassarmos o Natal lá em Guararema, na casa dela. No começo minha mãenão queria ir, mas eu desta vez insisti muito para que a gente fosse. Ia sertriste demais passar o Natal, só eu e ela, sozinhas nesta casa. Ela falava quenão estava com cabeça para comemorações, mas minha tia falou:- Pense na Juliana. Você não pode fazer isso com ela. Vai acabarcriando problemas pra menina. Pense que ela também está sofrendo comtudo isso.Neste momento minha mãe disse que eu não estou sofrendonada, que estou achando até bom porque agora meu pai me leva semprepra passear e que eu vou toda contente.Mas ele só me levou uma vez e eu fui contente porque nem sabiaque ele vinha me buscar. Mas ela nem me deixou falar essas coisas. Quandofalei o “mas” ela já gritou comigo me mandando calar a boca e sair dali.“Não quero que você se intrometa em conversa de adultos”. Falou gritandomais ainda. Eu achei melhor sair porque senão era bem capaz dela nãoquerer mesmo passar o Natal na casa da irmã dela.
    • Depois escuto minha tia perguntar se eu já estava de férias daescola. Minha mãe diz que sim, mas que passei com a nota mínima. Quenem para estudar eu servia.Fico muito triste com essas coisas que minha mãe fala de mim. Eununca que vou fazer isso com minha filha.Minha tia ainda diz:- Também com toda essa confusão que está na vida dela, só se elanão tivesse sentimento para não afetar nos estudos!Minha mãe então dá uma risada forçada e diz:- E o ano passado? E o outro ano antes do passado? Ela vai malporque é uma preguiçosa.Eu já estava sentindo uma vontade imensa de chorar, foi quandominha tia resolveu mudar de assunto e começaram a combinar o que iriamfazer para a ceia. Também me distrai com a nova conversa e até conseguiengolir o nó que estava na minha garganta, mas meu coração ainda estámuito triste.Queria tanto mandar uma carta desejando Feliz Natal pra Edeli. Eu
    • não sei se o meu pai vai vir aqui antes do Natal porque aí eu entregaria acarta para ele colocar no correio.Acho que já vou escrever porque se ele aparecer a carta já estápronta.
    • Terça-feira, 26 de dezembro de 1989Cheguei hoje da casa da minha tia. Foi muito legal! Eu até ganhei depresente da Dani uma blusa xadrez vermelho com uns moranguinhos azuispintados na manga, e da minha tia o disco dos Titãs que eu tanto queria.Fiquei tão feliz, mas tão feliz!!! É por isso que eu adoro essa minha tia. Elaadvinha tudo que eu gosto. Muitas vezes bem que eu queria ser filha dela, aoinvés de ser filha da minha mãe.Você acredita que o meu pai foi até lá para me dar um Feliz Natal eela não queria deixar ele me ver! Se não fosse a tia Cleonice ele teria idoembora sem nem me dar um beijinho. Ele também me deu um presente umamala linda para eu ir à escola no ano que vem. Era o dia de eu sair com ele,mas como era Natal eu, de novo, não saí. Ele me falou baixinho que o AnoNovo eu irei passar com ele. Vamos ver se minha mãe vai deixar.Comi tanto que estou até barriguda. Comi o dia inteiro. Tambémcom tanta coisa gostosa não tinha como não comer. Era maionese, pernil comabacaxi, farofa doce, farofa salgada, pudim, manjar, nozes, figo achatado queeu adoro, uva que é minha fruta preferida.Nossa! Comi muito mesmo.
    • Terça-feira, 03 de janeiro de 1990Ufa! Estou chegando da praia. Passei a virada do ano com o meu pai ecom a Suzi, a namorada dele. Eu quase não falei direito com ela. Ela queria mepaparicar, mas não dei muita bola porque eu sei que é por causa dela que minhamãe está sofrendo tanto.Quase que eu não fui com eles porque quando minha mãe soube queela iria também, ficou uma fera. Disse que eu não iria, porém quando meu paifalou que ela tem que obedecer às ordens do Juiz, ela deixou. Então eu fui.Até que foi gostoso porque ceamos num restaurante na praia e quandochegou a meia-noite teve um show de fogos e artifícios.Meu pai me comprou uma roupa toda branca porque dizem que dásorte entrar o Ano Novo toda de branco.Depois que acabou de estourar os fogos nós fomos para a beirinha domar fazer pedidos para Iemanjá. Meu pai falou que a gente tinha que pular 7ondas e que para cada onda podia fazer um pedido. Nossa! Achei que erampedidos demais. Pedi primeiro para meu pai e minha mãe fazerem as pazes; osegundo foi para que ele voltasse a morar lá em casa com a gente; o terceiro
    • para que a minha mãe ficasse de bom humor tanto com meu pai quanto comigo.Como não sabia mais o que pedir, fiz os mesmos pedidos de novo, eainda me restou um último pedido que desejei a volta da minha amiga Edeli.Fomos para casa de madrugada. Eu quis dormir junto com o meu pai, mas ele nãodeixou dizendo que tinha um quarto só para mim. Na verdade eu queria que eleficasse longe da tal Suzi, mas não deu certo.No dia primeiro fomos logo cedo para a praia. Eu brinquei muito nabeira do mar. Fiz castelos, cavouquei um buraco enorme e nadei muito. Minhamãe sempre fala que com o mar não se brinca. Que quando a gente vai nadarnão pode ir no fundo. No máximo a água tem que bater na barriga. Não podedeixar passar da barriga porque aí ele leva a gente lá pro fundo e a gente morreafogada.Eu, toda vez que mergulhava, logo que me levantava já verificava se aágua estava na barriga. Só que eu não percebi que fui me afastando muito dolugar onde meu pai estava. Teve um momento que eu olhei para procurá-lo e nãoo vi. Fiquei preocupada e sai da água. Andava de um lado para o outro na areiaprocurando por ele, só que todo lugar parecia igual e eu não conseguia achá-lo.Fiquei desesperada pensando que estava perdida para sempre.
    • Foi então que apareceu um moço dizendo que era salva-vidas eperguntou se eu tinha me perdido. Deve ter percebido pela minha cara de pavor.Falei que sim. Ele perguntou com quem eu estava e pediu para eu descrevercomo eles eram. Perguntou também meu endereço, mas eu não sabia. Ele entãome pegou pela mão e ficou andando comigo pela areia.Depois de um bom tempo encontramos meu pai e a Suzi com cara dedesespero. Quando ele me viu me abraçou muito. O salva-vidas deu uma broncanele dizendo que devia ter me ensinado a me localizar pelos prédios que ficam defrente para a praia. Que eu tinha que saber o meu endereço para no caso de meperder, saber voltar para casa.Meu pai pediu desculpas e falou que o salva-vidas tinha razão e fomosembora para casa. No caminho ele me fez prometer que eu não contaria nadapara a minha mãe. Disse que se ela soubesse nunca mais me deixaria sair comele. Eu prometi.
    • Quarta-feira, 04 de janeiro de 1990Minha mãe ainda está muito triste. Ela disse que passou o anosozinha em casa. Que ficou tão triste que nem ligou a televisão.Ela anda muito magra e abatida. Está que é uma tristeza só.Minha mãe não tem amigas, só a minha tia, mas ela mora emoutra cidade, então fica difícil. O divertimento dela e arrumar a casa e aí ficano meu pé que é pra eu não sujar.Eu acho que estas minhas férias vão ser muito chatas.
    • Sexta-feira, 06 de janeiro de 1990Meu pai está lá na sala falando com minha mãe. Ele veio dizer quequer vender a nossa casa. Foi por este motivo que a minha mãe desmaiounaquele dia. Ele tinha falado de vender a casa e ela não resistiu.Ele falou que agora é um bom momento para vender a nossa casa, poiso Collor ganhou as eleições e vai saber dirigir muito bem o país. “Além do mais, acasa ficou muito grande só para vocês duas” disse meu pai.Parece que ele já tem um comprador e que com o dinheiro vai dar paracomprar uma casa para minha mãe e uma para ele.Minha mãe está chorando dizendo que desde que ela se casou sempremorou aqui. Que ela gosta muito da casa e que ele não pode lhe tirar mais estegosto dela.Mas meu pai está mesmo decidido. Disse que vai mandar amanhã ointeressado aqui para ver a casa e que é para ela não atrapalhar o negócioporque ele vai vender, ela querendo ou não.Eu também não estou gostando dessa ideia de nos mudarmos daqui.
    • Eu nasci aqui e gosto muito, principalmente do meu quarto. Seráque vou gostar da casa nova? O pior de tudo é que toda vez que eles vãoconversar me mandam para o quarto. Eu tenho que dar minha opinião,afinal também moro aqui.Eles estão discutindo, mas acho que ele vai vender mesmo.Meu pai é assim, toda vez que coloca alguma coisa na cabeça,enquanto ele não põe em prática, não sossega.
    • Sábado, 07 de janeiro de 1990Vou para Guararema.Minha tia veio me buscar. Disse que vou passar a semana lá paraaproveitar um pouco as férias. Ela falou que o ambiente aqui está muitopesado (e está mesmo) e que quando tudo estiver mais calmo eu volto.IUUPIIII! Até que enfim uma coisa boa.Não sei se te levo ou se te deixo. Acho melhor te levar porque vouficar muitos dias fora e ficarei com muitas saudades.Também tenho que te contar as novidades.E lá vamos nós!
    • Terça-feira, 17 de janeiro de 1990Eu, Dani e Rose brincamos a manhã toda em frente da casa delas, deamarelinha. É muito legal porque a gente pega um tijolo e desenha na calçada aamarelinha. Aí com uma pedrinha a gente começa a pular e a competir para verquem é a campeã. Aquela que vai mais longe sem errar, sem pisar na risca enem jogar a pedrinha fora da casa, ganha. Eu no começo jogava muito ruim,mas agora já melhorei bastante. A campeã é sempre a Dani. Ela é muito boa naamarelinha.Também brincamos, à tarde, com os vizinhos da frente. São doismeninos que acho tem a mesma idade que a gente. É o Rodrigo e o Marcelo.Eles construíram, cada um o seu carrinho de rolimã, e vieram convidar a gentepra apostar corrida com eles. Na rua tem uma descidona muito legal e é nessadescida que a gente compete. Eles vão na frente dirigindo. Eu vou atrás doMarcelo e a Dani atrás do Rodrigo. É legal paca! A gente desce com o carrinhode rolimã e depois sobe á pé. A Rose é a juíza e fica lá embaixo para ver quemchega primeiro. Ela prefere ser a juíza porque tem medo de cair. Brincamosmuito com isso. Foi muito gostoso.Tem dias que também brincamos de andar de bicicleta. Eu não sei
    • andar direito porque nunca tive uma bicicleta. De vez em quando minhasprimas me deixam tentar aprender, mas eu só consigo descer a descidona, prasubir eu venho empurrando a bicicleta.Tenho feito coisas muito legais, que eu nunca tinha feito na minhavida.
    • Quinta-feira, 19 de janeiro de 1990Os meus dias continuam muito bons. Tenho me divertido muito.Sabia que é bem legal brincar também com menino? Eu nunca antes tinhabrincado com eles, mesmo porque é a primeira vez que venho passar dias nacasa da minha tia. Isso porque meu pai e minha mãe estão desquitados, casocontrário, a uma hora dessas, eu estaria em casa, no meu quarto, fazendonada.Aqui o tempo passa muito rápido. Todos os dias têm sido muitobons, mas hoje foi muito especial porque nós fomos num homem, o Zé doPneu, aqui perto da casa da tia, que conserta os pneus que têm defeito.Nós cinco: eu, Dani, Rose, Marcelo e Rodrigo fomos até ele e pedimos unsrecheios de pneus, que o homem disse chamar câmaras, bem cheias, parairmos nadar no rio. Elas serviriam de bóias. O homem disse que ia nosemprestar e que no final do dia tínhamos que devolver. Concordamos namesma hora.Enquanto ele enchia as bóias nós pegamos um pneu de trator eficamos brincando de circo. Cada hora um deitava dentro do pneu e os outroso levantavam e o empurravam ladeira abaixo. Quem estava lá dentro descia
    • rolando até lá embaixo. Dava um frio na barriga muito gostoso. Na vez do Rodrigonós empurramos o pneu torto e ele foi parar no meio do mato. A gente deumuita risada.Quando o Zé do Pneu acabou de encher todas as bóias, cada um de nóspegou uma e fomos correndo até o rio. Chegando lá, jogamos as bóias na água eíamos correndo atrás delas, pela margem, e pulávamos tentando entrar bem nomeio delas. Levamos cada tombo dentro d’água que você nem imagina. O riodeve estar mais vazio porque devo ter engolido uns dez litros de água. Toda vezque eu me jogava, caía na água dando tanta risada que acabava engolindo água eme engasgando. Depois a gente voltava andando pela margem e começava tudode novo.Foi uma brincadeira muito gostosa. Nós voltamos quando estavaanoitecendo. Agora já tomei banho, já jantei e vou dormir.Estou exausta!
    • Terça-feira, 20 de fevereiro de 1990Ainda estou na casa da tia Cleonice. Todo este tempo que estou aqui,nem meu pai e nem minha mãe veio me ver. Hoje a tia estava falandopreocupada que precisava ir até Biritiba ver como é que estão as coisas e seminha mãe está bem.Eu acho até que as aulas já começaram, mas ninguém veio me buscarpara voltar.
    • Quarta-feira, 21 de fevereiro de 1990Hoje minha tia levantou cedo e foi para Biritiba na casa da minhamãe. Ela voltou quase agora, na hora do jantar. Meu tio já estava preocupadocom a demora.Quando sentamos para jantar meu tio pediu para que ficássemosquietas porque minha tia estava com muita dor de cabeça. Logo imaginei quedeveria ter sido por causa das coisas que ela viu lá na minha casa. Perguntei seera para eu voltar e ela me respondeu que depois do Carnaval.Meus tios pouco falaram durante o jantar. Assim que acabamos, eu eminhas primas saímos da mesa e fomos para o nosso quarto. De lá a genteescutava os dois conversando baixinho. Dava uma vontade enorme de escutar,mas preferi ficar sem saber. Estava tudo tão bom que eu não queria estragar.Depois, com certeza, vou acabar sabendo, então não há porque terpressa.
    • Domingo, 25 de fevereiro de 1990Ontem pulei Carnaval na matinê. Eu e minhas primas fomos de“bregas”. Misturamos as roupas da minha tia com as nossas, fizemos umapintura muito engraçada no rosto e fomos para o salão.Meu tio comprou um sacão de confete e dois tubos de serpentinapara cada uma de nós. A gente se divertiu paca.Na volta do clube meu tio abriu a porta de trás da Brasília e nós trêsviemos sentadas em cima do motor com as pernas balançando para fora. É queestava tendo corso na praça e ficamos dando voltas bem devagarinho.Depois fomos comer cachorro-quente e tomar guaraná da Brahmaque eu adoro, menos a Rose que pediu Grapette.
    • Quarta-feira de cinzas, 28 de fevereiro de 1990Já estou em casa aqui no meu quarto. Acabei de chegar. É semprebom voltar para casa, mesmo quando o ambiente não está dos melhores.A minha mãe emagreceu muito e está ainda muito triste. Disseque estava com saudades de mim, mas que não pôde ir me visitar porqueos problemas estão grandes.Parece que o pai vendeu mesmo a casa. Ele insiste em dizer queagora é uma época boa para se vender e que com o dinheiro da venda vaidar para comprar duas casas pequenas: uma para ele morar com a Suzi e aoutra para morar eu e a minha mãe.Acontece que minha mãe não está nem um pouco feliz com essaidéia e disse que não me colocou na escola ainda porque não sabe aondevamos morar.Parece que na semana que vem o homem vai fechar a compra dacasa e aí com o dinheiro vamos procurar outro lugar para morar.
    • Segunda-feira, 05 de março de 1990Passei tantos dias bacanas na casa da minha tia e agora aqui nãoacontece nada de nada. Desde que cheguei estou sem fazer nada. Nem naescola estou indo. Todo mundo já voltou a ter aula e eu, como não sei se voucontinuar a morar aqui ou não, ainda não fui.Meu pai não apareceu por aqui. Eu não vejo meu pai desde janeiro.Desde quando fui para a casa da minha tia.
    • Sexta-feira, 09 de março de 1990Meu pai acabou de sair daqui com o homem que comprou a casa. Elequis comprar mesmo. Disse que a casa é exatamente o que ele estavaprocurando.Estou sentindo o meu peito tão apertado! Acho que é tristeza por sairdaqui. Eu sempre morei aqui, desde que nasci. Vai ser muito esquisito morar emoutro lugar.A minha mãe está chorando lá no quarto. Ela não queria, mas o meupai não deu ouvidos a ela.O homem até já fez o cheque e na segunda-feira eles “vão tratar dapapelada” como diz meu pai.Estou triste!
    • Segunda-feira, 12 de março de 1990Ufa! Estou com os meus pés cheios de bolhas. Eu e a mamãeandamos o dia inteiro procurando casa para comprar. Andamos de um ladopro outro, subimos, descemos, e não encontramos nada de bom.O Sr. Euclides, o homem que comprou a casa, disse que a gente tem30 dias para sair daqui. Precisamos achar logo uma casa que dê certo, mas nãoé nada fácil. Quando a gente gostava da casa, o preço era muito caro, quandoo preço dava pra gente comprar, a casa era horrível.Não sei como vamos fazer.Papai também está esperando o cheque compensar para dar ametade da mamãe, assim ela vai saber com certeza o quanto pode gastar.Bom, vou dormir porque amanhã vamos acordar cedo paracontinuar a procura. Deus que nos ajude a encontrar uma casa boa e barata.
    • Sexta-feira, 16 de março de 1990Acabei de chegar do hospital. Você nem imagina o que foi queaconteceu ontem aqui em casa. Foi uma coisa horrível.Como têm acontecido todos os dias, eu e a mãe passamos o diainteiro procurando casa. Deixamos duas reservadas. Não são tão legaisquanto essa, mas se a gente não achar nada melhor vamos ficar com uma dasduas.Chegamos aqui exaustas. Tomamos banho e comemos umlanchinho, pois minha mãe não tem cozinhado porque passa o dia inteiro narua. Eu fui para o meu quarto dormir enquanto minha mãe fechava a casa.Foi quando o meu pai chegou. Ele estava desesperado. Gritava ummonte de coisas que nem a minha mãe conseguia entender porque ele estavadaquele jeito. Ele só dizia:- Nós perdemos tudo. Não temos mais nada, nem casa, nemdinheiro, nem nada.Eu saí do quarto correndo e fui para a sala ver de perto o queestava acontecendo. Meu pai falou que era um tal de Plano Collor. Que o
    • novo Presidente prendeu o dinheiro de todo mundo, e que agora a gente nãotinha mais casa porque já tinha vendido, e não tinha mais dinheiro porqueestava preso no banco. E que ele não sabia o que ia fazer.Minha mãe ficou tão descontrolada que começou a gritar, a puxar ospróprios cabelos dizendo:- Bem que eu não queria vender a casa, mas você agora só pensanaquela vagabunda... Olha só o que deu você abandonar sua família. Agora nãotem família, não tem casa, não tem dinheiro... Ah! Mas você tem a vagabunda,então vá lá com ela.E falava mais um montão de coisas.Quanto mais ela falava mais nervosa ia ficando. Puxava a camisolatentando rasgá-la, arrancava os cabelos, até que, totalmente enlouquecidacomeçou a bater com a cabeça na parede. Batia e batia muito forte fazendo umbarulho horrível.Meu pai foi tentar segurá-la, mas ela o empurrou e em seguida sejogou em cima dele tentando mordê-lo.Ela dizia sem parar:
    • - Você é o culpado. Você é o culpado! Você é o culpado.Meu pai ficou bravo e disse que desse jeito não dava pra conversarcom ela e resolveu ir embora. Quando estava saindo falou pra mim:- Tome conta da sua mãe.Assim que ele saiu, a minha mãe caiu desmaiada batendo a cabeçacom toda a força no chão. Eu fiquei desesperada e saí correndo atrás do meupai, gritando pela rua:- A mãe morreu, a mãe morreu.Ele que já estava lá na outra rua, de tão apressado que saiu, quandome ouviu gritando, voltou correndo.Nisso tinha um monte de vizinhos com as janelas e portas abertas.Então meu pai pediu pra dona Zuleide ligar para o hospital e chamar umaambulância pra vir buscar a minha mãe. Quando a gente entrou em casa elaainda estava desmaiada, deitada no chão. Meu pai jogou água no rosto dela enada dela acordar.Quando a ambulância chegou ela ainda estava desmaiada. Osenfermeiros a colocaram numa maca e a levaram para o hospital. O meu pai foi
    • junto e eu fiquei na casa da dona Zuleide, para não ficar sozinha em casa.Hoje cedo eu e a dona Zuleide fomos ao hospital ver a mamãe. Omédico disse que ela está melhor. Que o choque que ela levou foi muitogrande, por isso que ela desmaiou assim. Ela terá que ficar esta noite nohospital e se ficar bem, amanhã ela pode voltar pra casa.Agora estou aqui no meu quarto e o meu pai está lá na sala. Vaidormir aqui para eu não ficar sozinha.Tomara que minha mãe saia amanhã do hospital.
    • Sexta-feira, 20 de abril de 1990Querido diário!Querido mesmo, você nem imagina a saudade que estou de você.Faz mais de um mês que eu não falo com você. É que aconteceu tanta coisa,ao mesmo tempo, que nem deu pra eu te contar.Você nem imagina o tanto de coisa que mudou na minha vida. Sevocê fosse gente eu ia pedir para você se sentar para não cair duro de sustono chão.Está preparado? Então lá vai: estou morando aqui na casa daminha tia. Eu e minha mãe. A gente ficou sem lugar pra morar, por causadaquele bafafá do Plano Collor.Pois é, o Sr Euclides, o que comprou a casa, disse que não davamais pra esperar a gente se ajeitar e pediu pra gente entregar a casa. Osmóveis estão todos entulhados na garagem, lá fora. Estou dormindo aquicom a Dani como quando estava de férias, e a minha mãe está dormindocom a Rose. Nem preciso falar como minha mãe está se sentindo, né!
    • Com esta confusão você acredita que eu ainda não voltei pra escola!Minha tia disse que segunda-feira, sem falta, vou estudar na escola das minhasprimas.Não sei muito bem como a gente vai se arranjar daqui pra frente. Minhamãe nunca trabalhou fora e não sabemos como vamos arranjar dinheiro.Todo mundo está sem dinheiro, porque o dinheiro do país está preso. Sóque as contas a gente têm que pagar, né!Só sei que a coisa está preta.
    • Quarta-feira, 02 de maio de 1990Ontem foi feriado e a escola emendou a segunda-feira.A gente: meus tios, minhas primas, minha mãe e eu, tínhamosprogramado fazer um piquenique perto do rio, mas não deu certo porquechoveu. Minha mãe até fez torta de frango e um bolo de laranja, que é umadelícia.Ficamos muito tristes! Mas minha tia teve a ideia da gente fazer opiquenique na sala e foi o que fizemos. Arrastamos os móveis, todos para umcanto, estendemos a toalha no chão e colocamos a comida salgada, os docese a groselha.Foi muito legal. A gente deu muita risada. O meu tio falou que opiquenique só não estava perfeito porque não tinha nem formiga e nemmosca.Minha tia tem umas idéias legal pacas.
    • Quarta-feira, 09 de maio de 1990Acho que estou gamada por um menino da minha escola! Ele ésimplesmente o máximo! É loiro, tem os olhos azuis, azuis. Tem um sorriso lindo. Eeu não consigo parar de pensar nele. O problema é que eu acho que ele nem sabeque eu existo. Ele nem me olha. Eu é que fico olhando pra ele de longe. Eleconversa com uma, conversa com outra e eu não consigo nem chegar perto dele.Ele se chama Fernando.Ai, ai...! Bem que ele podia também ficar gamado em mim. Seria umpresente dos deuses.Ah! Eu acho que meus seios estão começando a crescer. Também, já nãoera sem tempo! Outro dia até tentei usar o soutien da Dani, mas o bojo ficaachatado porque não tem nenhum recheio! E por causa disso também ele nãopara no lugar. Fica subindo como se quisesse ficar no meu pescoço.O jeito é esperar mais um pouco e torcer pros meus peitos cresceremlogo.
    • Domingo, 20 de maio de 1990Estou cada dia mais apaixonada. Minha prima Dani disse que dá pra verna minha cara que eu estou gamada nele. Diz que é só ele aparecer pra eu ficarbranca.Eu até fiz uma poesia para ele. Chama-se:SeráSerá, que você não lê no meu olharTodo o amor que eu lhe dedicoQue vivo a todo instante a sonhar e que sempre suplicoSeu amor pra me ofertar.Será, que eu já não demonstreiO meu carinho o meu afetoQue eu sempre esperei e que sempre lhe peçoE que nunca fui atendidaSerá, que você quer me ver sofrerPor maldade ou por friezaOu por indelicadezaPara comigo que só penso em te amar.
    • Será, que um dia irás mudar?Será, que podes me amar?Será que você senteUm pouco da chama ardenteQue em meu peito vive a queimar.Ah! Seria um sonho ele saber o que eu sinto por ele.Só que minha mãe não pode nem desconfiar disso. Se ela souber,ainda mais com todo o mau humor que se apoderou dela e não foi maisembora, eu estou perdida.
    • Sexta-feira, 01 de junho de 1990Hoje acordei com uma saudade danada da Edeli. Nunca maisescrevi para ela. Ela nem sabe que estou morando aqui em Guararema.Queria muito poder ouvir os conselhos que ela me daria caso soubessedessa minha paixão pelo Fernando.Queria ir com uma roupa bem linda para chamar a atençãodele, mas não podemos entrar na escola sem o uniforme. Precisava fazeralguma coisa para ele saber que eu existo.A minha prima me ouve, mas não tem nenhuma idéia para meajudar.Tenho certeza de que se fosse com a Edeli que eu estivessefalando, ela me daria um montão de ideias.
    • Segunda-feira, 04 de junho de 1990Minhas notas estão péssimas. Também perdi quase que um bimestretodo. Se assistindo todas as aulas eu sempre fui mal, imagine sem assistir.O pior é que minhas primas tiram notas muito altas e agora todos ficamme comparando com elas. Até meu tio veio com sermão dizendo que tenho queme esforçar mais.O pior é que quando vou estudar só consigo ver aqueles olhos azuis doFernando. Fico sonhando com ele olhando para mim e ai não consigo estudar.Agora mesmo deveria estar estudando, pois amanhã tenho prova de Matemática,e fiquei enrolando, enrolando e agora resolvi escrever em você.A minha prima está aqui do meu lado e fica me olhando de cara feia. Opior é que eu sempre quis ter uma irmã, agora que estou aqui vejo que eu era felize não sabia.Tenho mesmo escrito muito pouco em você por causa dessa pressão emcima de mim.
    • Bom, agora é melhor eu voltar aos estudos, pois se eu tirar nota baixanovamente a Dani vai dizer que é porque eu fico escrevendo em você ao invés deestudar.
    • Terça-feira, 12 de junho de 1990Quanto mais eu rezo mais assombração me aparece. Como vocêsabe, estou gamadérrima no Fernando embora ele nem olhe para mim.Acontece que hoje um menino horrível chamado Alexandre veio comuma conversa mole de que era dia dos namorados, e no final, me pediu emnamoro. Eu tremi da cabeça aos pés. Caramba! Como eu queria que tivessesido o Fernando que me pedisse em namoro.Eu na hora fiquei tão nervosa que não sabia o que responder. Disseque eu ia pensar e que dava a resposta na sexta-feira. Falei com a Dani e eladisse que é pra eu aceitar e ver como que é namorar de verdade. Achei melhorcontar pra minha mãe porque se eu resolver namorar, ela tem que saber.Chamei a minha mãe aqui no quarto e contei tudo que o Alexandretinha me falado. Ela disse que é pra eu falar que no momento não vounamorar, porque preciso estudar para melhorar minhas notas na escola.Até nem me importei da minha mãe não ter deixado. Também eu nem gostavadele!Se bem que a Dani deu uma boa idéia de eu fazer ciúmes para o
    • Fernando. Mas não sei se ele iria ter ciúmes, ele nem olha pra mim!Depois, não vou desobedecer minha mãe só para fazer ciúmespra ele.Mas mesmo assim, só vou dar a resposta na sexta-feira.Até que é uma sensação legal ser pedida em namoro!
    • Sexta-feira, 15 de junho de 1990Estou com tanta vergonha! Você nem imagina o que foi queaconteceu. Eu tinha dito pro Alexandre que eu ia a dar resposta se aceitava ounão namorar com ele na sexta-feira. Pedi então pra Dani ficar junto de mimaté eu falar com ele, porque estava muito nervosa.Logo hoje chegamos atrasadas na escola, estava batendo o sinal.Saímos correndo porque se a professora entrar na classe a gente não podeentrar mais. Subimos aquelas escadas que parecíamos dois foguetes. Nointervalo eu estava nervosa e não saí da classe. A Dani até ficou olhando pelaporta para ver se via ele, mas não achou.É muito difícil dizer que não quer namorar.Então a professora da próxima aula entrou e nós assistimos. Quandotocou o sinal do recreio o meu coração quase saiu pela boca. Fomos para opátio e nos sentamos no banco para tomarmos o lanche. Eu olhava para umlado, olhava para o outro e nada de ver o Alexandre. A Dani também não o via.No fim achamos que ele tinha faltado. Quando estávamos voltando para aclasse damos de cara com ele. Ele falou que tinha me procurado e não tinha
    • me achado, e que pensou que eu tinha faltado. Falei que pensei a mesma coisa.Nesse instante a Dani me dá um baita beliscão no braço que eu douum pulo e um grito de susto e de dor. Ela sai correndo para a classe, pois aprofessora já estava entrando e eu saio correndo atrás.Fiquei brava pelo beliscão e perguntei por que ela havia feito isso. Elafalou que do jeito que eu falei parecia que eu ia aceitar o namoro. E que eu nãodeveria dar falsas esperanças para o menino. Fiquei desesperada! No próximointervalo não quis sair da classe.Depois da última aula, não tinha jeito, eu teria que falar com ele.Arrumei minhas coisas e fiquei na porta esperando a Dani. Assim queela chegou começamos a descer a escadaria do colégio. Ela viu o Alexandreencostado numa das colunas que tem no pátio e ele estava olhando para aescada. A cada degrau que eu descia me sentia mais e mais nervosa porque teriaque dizer não a ele. Eu havia ensaiado todos estes dias como falaria para ele,mas mesmo assim estava muito nervosa.E você sabe o que foi que aconteceu? Pois é, cai da escada. Me
    • estatelei lá embaixo. Não foram muitos degraus, foram só quatro, mas eu levei umsusto enorme e ainda por cima fiquei com uma vergonha imensa.O Alexandre virou para o lado e fingiu que não viu, mas a cara dele era dequem queria dar risada. Fiquei muito triste e envergonhada. Senti até vontade dechorar. Ele então chega perto de mim e pergunta se estou bem. Faço de contas quenão entendi e falo tão depressa que nem dá tempo de respirar:- Olha Alexandre, eu estou indo mal na escola e vou primeiro estudarpara melhorar minhas notas. Quem sabe o ano que vem.Nem esperei ele responder nada, já sai andando e fui me encontrar coma Dani que estava logo na frente.Eu não conseguia firmar o pé direito no chão porque o joelho estavatodo ferido.Nunca tinha passado tanta vergonha.Por causa do tombo, não falei nada do que tinha ensaiado. Agorapaciência! Pelo menos ele já sabe que não vou namorar com ele.
    • Segunda-feira, 18 de junho de 1990Esse Alexandre é um mulherengo. Você acredita que ele estanamorando a Karen? Pois é, eles estão namorando. No recreio ele passou demãos dadas com ela e quando chegou na minha frente, se beijaram e depoisforam andando pro outro lado.A Dani acha que mesmo que eu tivesse aceitado, depois do tombo,ele é que não ia querer. Aí então que fiquei mais chateada ainda.Puxa vida, ele não esperou passar nem um tempinho. Eu disse nãona sexta e na segunda ele já começa a namorar outra! Realmente ele nãogostava de mim! Deixa ele pra lá, também não vou ficar preocupada.Ah! Agora vou escrever uma carta pra Edeli contando que não estoumais morando em Biritiba-Mirim e que nestas férias não vai dar pra ela virpassar uns dias comigo, como ela tinha dito, porque aqui na casa da minha tianão cabe mais ninguém.
    • Segunda-feira, 25 de junho de 1990Minha mãe acha que meu tio não está muito satisfeito da genteestar morando aqui na casa dele. Ele vive de cara fechada.Agora a minha tia também está diferente e fica com umasconversas de que a vida está dura, que ela está sem liberdade paraconversar assuntos de família, e outras coisas.Minha mãe disse que vai começar a procurar um emprego eassim que ela conseguir a gente muda pra uma casinha só nossa.
    • Sexta-feira, 03 de agosto de 1990Estou de mudança da casa da minha tia.Minha mãe arranjou um emprego de doméstica na casa de umasenhora lá em Mogi das Cruzes.A minha tia está chorando na sala. Coitada ela está triste porque agente vai embora. Eu também estou triste porque agora vamos morar nestaoutra casa. Não sei não se vai ser legal. Eu sei que pelo menos a mãe vai ganharum pouco mais de dinheiro, porque meu pai praticamente sumiu. Quase nãovem me ver e quando vem fica reclamando que está sem dinheiro, que as coisasestão muito difíceis.Minha mãe não quer mais nem ouvir falar no nome dele. Eu fico tristecom isso e às vezes sinto saudades dele, mas logo passa.Vou mudar de colégio de novo. Que pena que não vou ver mais osolhos azuis do Fernando. E saber que eu nunca falei com ele. Agora morandoem outra cidade é que eu não vou falar mais mesmo.Daqui 14 dias é meu aniversário. Vou fazer 15 anos.
    • Tomara que dê pra comemorar lá em Mogi.Agora vou lá pra sala me despedir dos meus tios e das minhasprimas.
    • Segunda-feira, 06 de agosto de 1990Já estamos aqui em Mogi na casa do Sr. Alberto e da Dona Iracema.Eu e minha mãe estamos morando numa casinha bem pequeninaaqui no fundo da casa deles. Eles são legais. São duas pessoas de bastanteidade e minha mãe fica trabalhando principalmente na cozinha.Eles têm quatro filhas, mas nenhuma mora aqui com eles.Minha mãe conseguiu este emprego que é para ajudar DonaIracema no serviço da casa e ao mesmo tempo, ter alguém para tomar contados dois velhinhos. Eu acho que vai ser bom.No sábado, quando estávamos vindo para cá, minha mãe passounuma sapataria e me comprou um sapato com saltinho de presente deaniversário. Ela disse que vou fazer 15 anos e nesta idade já dá para ter umsapato alto.Pena que na sapataria não tinha o meu número, mas como euqueria muito esse sapato fiquei com ele que é um número menor. Os meus
    • dedos ficam todos espremidos, mas não tem importância, o legal é queagora eu tenho um sapato de salto alto. Não vejo a hora de sair para poderusar.Também comecei na escola aqui do bairro. Parece que vai ser bom.Logo que cheguei já fiz amizade com a Beth. Ela parece ser bem legal
    • Sexta-feira, 17 de agosto de 1990Hoje é meu aniversário. Não teve bolinho nem nada. Só ficamos eu e amãe. Nem o meu pai veio me ver. Bom, acho até que ele nem sabe onde estamosmorando agora.Queria tanto ir para algum lugar só para poder usar meu sapato desalto alto!Tomara que meu pé demore a crescer. Quando coloco o sapato mesinto importante. Ando toda empinada. Parece mágica, mas piso mais suave nochão, ando com a cabeça erguida e a coluna reta. Fico mesmo, muito elegante.
    • Terça-feira, 04 de setembro de 1990A nossa vida não está nada fácil. A minha mãe está trabalhandodemais e eu tenho que ajudá-la. Nos primeiros dias, minha mãe foi muitoprestativa e teve muita consideração com os velhinhos, só que agora Da.Iracema não pega nem um fiapo do chão. Tudo ela pede pra minha mãe oupra mim. Não temos tempo livre para nada. Como moramos aqui,trabalhamos de domingo a domingo, sem folga.É só minha mãe vir aqui pro quarto pra Da. Iracema inventaralguma coisa pra ela fazer. Até a novela da Manchete, o Pantanal, a gentenão consegue mais assistir, pois um dia ela quer um chá, no outro ela quersopa, ela quer uma determinada blusa que está para passar e assim vaiinventando moda, e minha mãe fica pra lá e pra cá às voltas com a Da.Iracema.O meu pai sumiu no mundo e nunca mais deu nem notícias e nemdinheiro. Esta semana a minha mãe vai receber seu primeiro salário, vamosver se dá pra gente pelo menos tomar um sorvete.
    • Sábado, 10 de novembro de 1990Estou exausta. Não tenho tido tempo nem pra te escrever. A vida aquiestá muito dura.Todo final de semana os filhos da Dª Iracema vêm pra cá e é umabagunça danada.A Dª Iracema tem uma neta que é quase da minha idade, só que elesnão deixam ela conversar comigo. Eles dizem que lugar de empregada é nacozinha e de patrão é na sala. Eu só posso entrar na sala para arrumar oudesarrumar a mesa, ou de dia para limpar a sala, no mais eu não posso nemolhar pela fresta da porta. Quando eles querem chamar a minha mãe, elestocam uma sinetinha e ela sai correndo.Nós só podemos comer depois que todos comem. Às vezes nem sobraas misturas que minha mãe faz, e então comemos só arroz com feijão.Outro dia minha mãe escondeu dois bifes dentro do forno que era pra nós duascomermos. Pois não sei como, a Da. Iracema percebeu e deu a maior bronca naminha mãe, dizendo que ela está aqui para fazer a comida e não para comer.Que se continuar assim ela vai cobrar pelo nosso almoço. Se pagarmos,poderemos comer a vontade.
    • Minha mãe fica quieta, não responde nada. Ela diz que vai guardardinheiro pra gente ir embora daqui. Toda vez que Da. Iracema ou suas filhasfalam alguma coisa que magoa a minha mãe, ela pensa: “logo, logo iremosembora daqui. Quero ver se vão conseguir outras tontas para ficar no nossolugar”.De noite fico lembrando com saudades da nossa vida antiga. Como erabom. Eu podia ficar no meu quarto, podia brincar no quintal, na casa das minhasprimas... E agora aqui só tenho um pouco de sossego quando vou para a escola.Ah! E você acredita que a Da. Iracema não queria que eu fosse maispara a escola! É! Mas minha mãe, quando ela falou isso, tirou o avental da cinturae falou:- Vou para o meu quarto arrumar minhas malas, porque se minha filhanão pode estudar morando aqui, eu vou trabalhar num lugar em que ela possa.Aí Da. Iracema disse que minha mãe era muito nervosinha e que entãoeu poderia ir, mas que teria que fazer as lições de noite, porque de tarde eu teriaque ajudar no serviço da casa, afinal eu também durmo e como na casa dela.Essa velha é mesmo canguinha.
    • Domingo, 23 de dezembro de 1990Estou aqui no meu quarto chorando muito. Acho que não vou maisaguentar esta vida. Minha mãe está lá na cozinha fazendo um montão decomidas para o Natal. Eu estava lá até agora descascando batata, desfiandofrango, picando cebola e mais um montão de coisas.Nós vamos ter que passar o Natal aqui porque essa velha nãodispensou minha mãe. Ela disse que toda a família dela vem para cá e que elanão pode ficar sem minha mãe.Minha mãe disse que tudo bem, mas que no dia 25 de dezembro ela vaipara a casa da minha tia.A velha quase teve uma síncope, mas minha mãe disse que disso elanão abriria mão.Eu vim aqui um pouquinho, chorar porque estou muito triste de ser tãomal tratada, mas tenho que voltar logo para não aborrecer ainda mais a minhamãe. O que nos faz aguentar toda esta exploração é que, tão logo tenhamos umareserva de dinheiro, vamos sumir deste lugar.
    • Domingo, 05 de fevereiro de 1995Meu querido amigo! Meu Diário.Há quanto tempo não nos vemos!!!Muitas coisas mudaram nesses 5 anos.Agora estou estudando e morando em São Paulo. Estou cursandoDireito no Largo São Francisco. Estou no segundo ano e trabalho numescritório de advocacia como secretária, mas logo, logo serei estagiária.Minha mãe está morando na casa da tia Cleonice que ficou muitoabalada emocionalmente com a morte do meu tio. Ele morreu num acidentede trânsito seis meses depois que nos mudamos da casa deles, e minha tiaficou desesperada. Minha mãe resolveu então mudar-se novamente paraGuararema.Minhas primas também estão bem, cada uma seguindo seucaminho. A Dani está fazendo veterinária em São Carlos e a Rose, estáterminando o Colegial.
    • Mas sabe por que estou aqui te escrevendo depois de tanto tempo?É que na semana que vem vou ao casamento da minha sempre emuito querida amiga Edeli. Ela vai se casar com um rapaz de Ouro Preto, cidadepara onde o pai dela foi transferido.Quando ela me convidou, pediu para que eu chegasse uns dois diasantes e que levasse o meu diário, assim ela o leria enquanto eu leria o dela.Achei a idéia maravilhosa, e vim te procurar.Tudo bem que fiquei um tempão sem escrever, mas o tempo maiscomplicado da minha vida, eu contei com o apoio e solidariedade do meu“querido diário”.Como estou de férias tanto da Faculdade quanto do emprego, voupara Ouro Preto na terça-feira.
    • Quarta-feira, 08 de fevereiro de 1995Estou aqui na casa da Edeli, ao lado dela, que também estáescrevendo no seu diário.Passamos o dia de hoje inteiro lendo e comentando tudo que nosaconteceu nesse tempo em que ficamos afastadas e que está registrado nodiário. Está sendo maravilhoso!Quanta coisa que até eu havia esquecido e que ao reler metransportei para aquele tempo. Quantas coisas eu deixaria de contar pra Edelise não tivesse registrado tudo aqui.O mesmo aconteceu com ela.Demos muita risada, choramos, ficamos tristes, saudosas, aflitas etantas outras sensações que os registros das páginas dos dois diários nosproporcionaram.Pudemos comprovar que mesmo estando distantes, nós duas, aindaassim agíamos em determinados momentos, de forma parecida.
    • Estamos escrevendo agora estes sentimentos e estamos muitoemocionadas.Vou continuar a escrever tudo que me acontecer daqui parafrente.Não deixarei mais que a correria do dia-a-dia me impeça de ofazer.
    • Sábado, 11 de fevereiro de 1995Minha amiga acabou de sair em viagem de lua-de-mel.Ela se casou ontem e o casamento foi indescritível. Ela estava linda emuito feliz. O casamento foi de princesa. Dormiram no apartamento que elescompraram e mobiliaram para morar. Agora cedo partiram em viagem.Neste momento, estou aqui no quarto que fiquei hospedada na casada mãe da Edeli, arrumando minhas coisas, pois voltarei hoje para Guararema.Confesso que estou com um nó na garganta difícil de engolir.Foram muito bons estes dias que estive aqui junto dela.Houve momentos que parecíamos não ter crescido. Lembramos decoisas que aconteceram quando ainda éramos muito pequenas e rimos damesma maneira como se o fato tivesse acabado de acontecer.É mágico o poder das lembranças.Mas a vida continua e tenho que voltar e ficar perto da minha mãe,
    • que agora está sempre muito sentimental, pois como moro fora, ela sentemuitas saudades.Como última peça a guardar na mala, guardo você, meu amigo ecompanheiro: o meu “Querido diário”.
    • Estamos em janeiro de 2012Hoje tenho 36 anos e estou casada com um homem maravilhoso,que amo muito. Tenho duas filhas lindas: Camila e Caroline e um meninomaravilhoso, Bruno, que são a razão do meu viver.Tenho aqui registrado tudo que de importante aconteceu eacontece na minha vida, na vida do meu marido, dos meus filhos, do meuPaís e do mundo em que vivo.Quando fui ao casamento da Edeli, fizemos um juramento de quenão deixaríamos de escrever no nosso diário e que quando estivermos bemvelhinhas, iremos, enroladas num xale, sentar juntas numa varanda qualquere compartilhar, uma com a outra, a nossa história de vida.Eu incentivo meus filhos para que façam, cada um o seu diário,pois a energia que envolve as palavras ali guardadas é mágica e dá aoacontecimento a emoção que jamais conseguiríamos demonstrar contandoapós tanto tempo.
    • Aqui está e estará, enquanto eu existir, o enredo da história daminha vida.E você que acompanhou a minha trajetória até este momentoinspire-se no meu exemplo e use a magia da escrita para eternizar seusmomentos.O espaço abaixo está reservado para você.Inspire-se e inicie seus registros.
    • Hoje é dia ...