A tradição tupiguarani na amazônia

  • 116 views
Uploaded on

 

  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Be the first to comment
    Be the first to like this
No Downloads

Views

Total Views
116
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0

Actions

Shares
Downloads
1
Comments
0
Likes
0

Embeds 0

No embeds

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
    No notes for slide

Transcript

  • 1. Os Ceramistas Tupiguarani - 39 A TRADIÇÃO TUPIGUARANI NA AMAZÔNIA Edithe Pereira Maura Imazio da Silveira Maria Christina Leal F. Rodrigues Cíntia Jalles de C. de Araújo Costa Christiane Lopes Machado A presença da Tradição Tupiguarani na Amazônia foi identificada inicialmente a partir do estudo de coleções arqueológicas provenientes de algumas regiões no sul e sudeste do Pará e confirmada, posteriormente, através de pesquisas sistemáticas na região de Carajás. As coleções que possibilitaram a identificação da Tradição Tupiguarani na Amazônia foram formadas por pesquisadores durante viagens cujos objetivos não estavam relacionados diretamente com a investigação arqueológica. Naturalmente, esta forma de coleta implicou em algumas restrições no plano interpretativo, mas permitiu, por outro lado, a primeira identificação desta tradição ceramista na Amazônia. A coleção formada por Protásio Frikel em 1963 corresponde a 3.749 fragmentos cerâmicos e alguns artefatos líticos coletados em diversos locais com terra preta na região do alto Itacaiúnas, na região sudeste do Pará. Esse material foi analisado por Figueiredo (1965) que identificou três tipos cerâmicos - Itacaiúnas Simples, Caiteté Simples e Itacaiúnas Corrugado. Estes tipos compartilhavam o mesmo tempero - areia fina misturada com fragmentos de rocha (quartzo e feldespato) - e a mesma técnica de manufatura, o enroscamento (acordelamento). A variação dos tipos simples estava relacionada com a espessura da cerâmica. Entre os artefatos líticos que compõe esta coleção destaca-se lâmina de machado, raspador e quebra-coco. Figueiredo (id.ibid.) apoiado nos relatos de cronistas, em informações históricas e do próprio Protásio Frikel sobre os ocupantes da região, considerou que os fabricantes da cerâmica analisada eram possivelmente de origem Tupi e que ocuparam a região do alto Itacaiúnas após 1500 em conseqüência da expansão portuguesa. Ele considerou ainda que os locais onde a cerâmica foi coletada deveriam ser áreas de moradia cuja ocupação se deu, possivelmente, uma única vez. Simões (1972), baseado no estudo de Figueiredo (1965) inclui no seu Índice das Fases Arqueológicas Brasileiras a Fase Itacaiúnas como pertencente a Tradição ceramista Tupiguarani. Em 1969, uma outra coleção de artefatos arqueológicos foi formada por uma equipe de geólogos do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social do Pará (IDESP) durante uma viagem para pesquisar carvão mineral na área do rio Fresco, no sul do Pará. Esta coleção, proveniente do sítio PA-RF-1: Mangueiras é composta por 250 fragmentos cerâmicos, um pequeno vaso, doze artefatos líticos e algumas lascas em rocha e foi analisada por Simões, Corrêa e Machado (1973) que classificaram o material como pertencente a fase Carapanã. Segundo estes autores, esta fase possui uma série de semelhanças técnicas e decorativas com a fase Itacaiúnas pertencente à tradição ceramista Tupiguarani. No entanto, essa fase apresenta também, embora em menor quantidade, algumas características da tradição Incisa Ponteada.  Museu Paraense Emílio Goeldi (MCT-MPEG) e Bolsista do CNPq.  Museu Paraense Emílio Goeldi (MCT-MPEG)  Arqueóloga  Museu de Astronomia e Ciências Afins (MCT-MAST)  Rhea Estudos e Projetos
  • 2. 40 - Os Ceramistas Tupiguarani Simões et al. (id. ibid) mencionam ainda três coleções arqueológicas cujas características apresentam afinidades com a tradição Tupiguarani. Duas foram formadas em 1959 por Moreira Netto e são provenientes da região de São Félix do Xingu e do rio Fresco, enquanto a terceira é resultado de uma coleta de superfície no Castanhal do Cumaru, no rio Pau d’Arco (afluente do rio Araguaia pela margem esquerda). Esta última, segundo Simões et al. (id. Ibid), apresenta características que lhe permitem vinculá-la sem dúvida a tradição Tupiguarani. O mesmo não ocorrendo com as fases Itacaiúnas e Carapanã que apresentam características da tradição Tupiguarani, mas também algumas características da tradição Incisa Ponteada. As primeiras pesquisas sistemáticas na região sudeste do Pará – onde a presença da tradição Tupiguarani já era conhecida – foram realizadas inicialmente entre os anos de 1976-1978 no âmbito do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas na Bacia Amazônica (PRONAPABA) e a partir de 1977 o apoio veio por parte das Centrais Elétricas do Norte (ELETRONORTE) visto que os trabalhos foram direcionados para o salvamento de sítios arqueológicos localizados na área de inundação da UHE-Tucuruí (Araújo Costa, 1983; Simões e Araújo Costa, 1987). Os resultados desta pesquisa foram divulgados inicialmente através da dissertação de mestrado de Araújo Costa (1983) sobre o salvamento arqueológico na área da UHE-Tucuruí, no baixo rio Tocantins. Em 1986, Simões publicou os primeiros resultados da pesquisa realizada na bacia do rio Itacaiúnas (afluente do rio Tocantins pela margem esquerda) no âmbito do projeto de salvamento de sítios arqueológicos ameaçados de destruição pelas atividades de mineração da Companhia Vale do Rio Doce na região de Carajás, no sudeste do Pará. De acordo com Araújo Costa (id. ibid), a cerâmica da região do baixo Tocantins apresenta certas características que são típicas tanto da tradição Tupiguarani como das tradições amazônicas, particularmente, a Incisa Ponteada e a Policroma. No entanto, a autora salienta que o pequeno número de atributos amazônicos reconhecidos no material analisado dificultou identificar a qual dessas tradições o material do baixo Tocantins estaria filiado. A identificação do material relacionado à tradição Tupiguarani parece ser mais clara e seu enquadramento na subtradição Pintada decorre, segundo a autora, pelo predomínio, entre os fragmentos decorados, da pintura (vermelha e pintura policroma), da datação em torno de 1.000 A.D. e da baixa freqüência de decoração corrugada. Em 1987, Simões e Araújo Costa publicam novos resultados da pesquisa no baixo rio Tocantins desta vez para o trecho entre as cidades de Marabá e Nazaré dos Patos. Foram trinta e sete sítios pesquisados que evidenciaram um material cerâmico cujas características permitiram agrupá-lo em três fases - Tauari, Tucuruí e Tauá. Desta feita, o material aparece relacionado as tradições Incisa Ponteada e Tupiguarani. Nesta área, os sítios localizados mais ao sul apresentam cerâmica com alguns traços da tradição Tupiguarani enquanto aqueles, situados mais ao norte, a cerâmica apresenta alguns traços típicos da tradição Incisa Ponteada (ibid.). Segundo os autores, esta situação poderia refletir “a possibilidade de ter servido esta área geográfica como um centro aculturativo ou de miscigenação de influências e/ou técnicas ceramistas oriundas de leste, sul e oeste do Brasil”. A pesquisa realizada por Mário Simões e Fernanda Araújo Costa região de Tucuruí, foi sintetizada e apresentada com muitas ilustrações em 1992 por Eurico Miller (Eletronorte, 1992). Na bacia do rio Itacaiúnas as primeiras pesquisas arqueológicas sistemáticas tiveram início em 1983 através do Projeto Carajás/Arqueologia. Entre os anos de 1983 e 1986 foram cadastrados 38 sítios cerâmicos no baixo curso dos rios Parauapebas e Itacaiúnas que, de acordo com Simões (1986), correspondem a locais de moradia. Estes sítios estão situados próximos aos rios em áreas cuja terra preta apresentava espessura média 30 cm o que sugeria uma certa permanência no local. As características consideradas para a cerâmica desses sítios – notadamente o antiplástico e a decoração – apresentam traços comuns à fase Itacaiúnas que, por sua vez, apresenta uma série de características comuns com a Tradição Tupiguarani. De acordo com Simões (id. Ibid.) as datações obtidas para os sítios do rio Itacaiúnas podem ser agrupadas em 3 períodos: o mais antigo corresponde as datações de A.D. 280±80 e A.D. 390±85, o intermediário
  • 3. Os Ceramistas Tupiguarani - 41 apresenta 4 datações que vão de A D. 1025±55 a A.D. 1170±60; o mais recente com datações de A.D. 1420±55 e A.D. 1510±60. No final da década de 1980 a pesquisa arqueológica na região de Carajás se estende para além da área ribeirinha – onde a tradição Tupiguarani está presente - e alcança as encostas das Serras de Carajás em cujas grutas se preservaram vestígios da presença humana de mais de 8.000 B.P. (Lopes, 1988; Silveira, 1994; Magalhães, 1994, 1998). A região de Carajás passa a ser conhecida então por apresentar dois períodos culturais distintos da ocupação humana pré-histórica, um pré-cerâmico e outro cerâmico. Estudos preliminares realizados em quatro sítios arqueológicos na região da Serra das Andorinhas no baixo rio Araguaia permitiram caracterizar a cerâmica encontrada como pertencente à tradição Tupiguarani (Kern et al., 1992). Foram analisados 169 fragmentos cerâmicos dos quais a maioria – 128 – não apresenta decoração, esta só foi identificada em 41 fragmentos onde se observa o corrugado, o vermelho, o digitado, o entalhado e o pintado (preto, branco e vermelho). O antiplástico utilizado foi fundamentalmente a areia (com grãos de quartzo leitoso e hialino) apresentando também lamínulas de mica (muscovita). Em 2000, Pereira (2001) realiza prospecção arqueológica na região de Conceição do Araguaia no sul do Pará e identifica oito sítios cerâmicos. Foi coletada uma pequena amostra do material arqueológico encontrado na superfície de cada sítio e totalizando 65 fragmentos cerâmicos. A maioria do material corresponde à cerâmica simples e os poucos fragmentos decorados apresentam corrugado, ponteado, escovado e inciso ponteado. Apesar da pequena amostra coletada foi possível identificar a presença de traços típicos da cerâmica Tupiguarani nesta região. A partir de 2000, uma série de empreendimentos minerários começa a ser desenvolvido na região sudeste do Pará e, em conseqüência, levantamentos e salvamentos de sítios arqueológicos são realizados para fins de licenciamento ambiental conforme estabelecido por lei. Estes estudos têm permitido ampliar o número de sítios arqueológicos conhecidos na região bem como trazer a luz novas informações sobre a ocupação pré-histórica desta parte da Amazônia marcada, como visto nos parágrafos anteriores, pela presença da Tradição ceramista Tupiguarani (Figura 1). Neste contexto, o Museu Paraense Emílio Goeldi é responsável atualmente pelas pesquisas arqueológicas desenvolvidas em duas áreas localizadas no sudeste do Pará – a Serra do Sossego e a Floresta Nacional Tapirapé-Aquiri – que integram a região de Carajás (Figura 2). Estas pesquisas ainda estão em andamento, mas seus primeiros resultados oferecem novas informações sobre a presença da Tradição Tupiguarani na Amazônia. A presença da Tradição Tupiguarani na região da Serra do Sossego, Canaã dos Carajás (PA) Os estudos arqueológicos na região da Serra do Sossego tiveram início em 2000 através do levantamento do potencial arqueológico da região que seria afetada pela exploração de minério de cobre (Magalhães, 2001). O Projeto Sossego – nome pelo qual este empreendimento ficou conhecido – está localizado no município de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará. As jazidas minerais do Projeto Sossego estão inseridas no contexto da Província Mineral de Carajás que compõe, de acordo com a classificação dos Grandes Domínios Paisagísticos Brasileiros proposta por Ab’Saber (1977), o Domínio das Terras Baixas Florestadas da Amazônia, nas proximidades da faixa de transição para o Domínio dos Cerrados (Brandt, 2000). Na área de influência do empreendimento, os principais cursos d’água são os rio Parauapebas (afluente pela margem direita do rio Itacaiúnas) e seus afluentes Sossego e Sequeirinho.
  • 4. 42 - Os Ceramistas Tupiguarani Na área de influência direta do Projeto Sossego foram identificados seis sítios arqueológicos e sete ocorrências . A maioria dos sítios documentados revelou um alto grau de interferência humana recente (cultivo, gado, garimpo) o que acabou por limitar a obtenção de determinadas informações, como por exemplo, a estratigrafia dos sítios. Nestes sítios, cuja conservação estava comprometida, o material arqueológico coletado – notadamente fragmentos cerâmicos - totalizou uma amostra de mais de seis mil fragmentos cuja análise permitiu identificar as características da cerâmica arqueológica daquela área. A maioria dos fragmentos cerâmicos coletados nestes sítios não possui decoração (92,3%). Os fragmentos decorados correspondem a 7,6% do total (513 fragmentos) e neles as decorações predominantes são o vermelho (48%), o corrugado (32%) e o inciso (8.2%). Outras decorações como aplicado, raspado, acanalado, ungulado e associação destas decorações com vermelho ocorrem em quantidade pouco expressiva. Os antiplásticos predominantes são a areia e a rocha triturada, outros antiplásticos foram registrados, mas em quantidade pouco significativa (Pereira, 2003). A partir da reconstituição das bordas foi possível identificar nos sítios da região a presença de tigelas, pratos, vasos, panelas e alguidares. No sítio PA-AT-274: Estrada foram identificados diversos vasilhames conforme se observa na figura 3. Deste sítio também são provenientes uma lâmina de machado polida e um vasilhame cujos fragmentos permitiram a sua restauração (figura 4). Dentre os sítios identificados na área de influência direta do Projeto Sossego apenas um se destaca por estar parcialmente em ótimo estado de conservação. Trata-se do sítio PA-AT-247: Domingos, cuja extremidade sul foi atingida pela construção de uma estrada destinada a ligar a área do empreendimento à sede do município de Canaã dos Carajás. A pesquisa de salvamento teve início em 2003 e ainda está em andamento sendo, portanto preliminares os resultados aqui apresentados. O sítio PA-AT-247: Domingos está localizado margem direita do rio Parauapebas em área plana e suavemente elevada em relação ao rio, com terra preta abrangendo uma extensão de cerca de 400 x 300 metros. A área conservada em boas condições e na qual a pesquisa vem sendo desenvolvida corresponde a parte centro-norte do sítio e que ocupa cerca de 50% da área total. Nesta área observou-se a existência de várias manchas de terra escura sem que fosse possível delimitá-las com precisão. Nestas manchas a camada de terra preta não ultrapassa 35 cm de espessura e o material arqueológico (cerâmico e lítico) encontra-se normalmente associado a ela. A exceção fica por conta dos vasilhames cerâmicos inteiros que se encontram, via de regra, enterrados sempre abaixo da camada de terra preta. O solo misturado, claramente observado no perfil das escavações (figura 5) evidencia a remoção intencional de terra para que o objeto pudesse ser enterrado abaixo da área de ocupação do sítio. Até o momento foram encontrados treze vasilhames inteiros ou semi-inteiros . Dentre eles apenas um, até o momento, corresponde comprovadamente a urna funerária. Nela foram encontrados restos esqueletais de um indivíduo com idade aproximada de três anos . A peça apresentava uma tampa com diâmetro menor que a urna parecendo ter sido reaproveitada para este fim. Uma pequena lâmina de machado polida foi encontrada ao lado da ossada configurando acompanhamento funerário (Pereira, 2003a).  Considera-se Ocorrência os locais onde o material arqueológico ocorre em pouca quantidade e sem evidência clara de contexto arqueológi- co.  Parte destes vasilhames foi encontrada a partir do levantamento geofísico com magnetômetro realizado na área do sítio sob a responsabilidade do Dr. José Gouvêa Luiz do Departamento de Geofísica da Universidade Federal do Pará.  A análise dos restos esqueletais foi feita pela Dra. Sheila Maria Ferraz Mendonça de Souza da FIOCRUZ/Escola nacional de Saúde Pública.
  • 5. Os Ceramistas Tupiguarani - 43 Até o momento já foram encontradas in situ quatro lâminas de machado inteiras e duas fragmentadas. Dois almofarizes foram encontrados, um estava na superfície quebrado ao meio enquanto o outro foi evidenciado durantes as escavações. Associado a esse último estava uma mão-de-pilão e uma grande quantidade de sementes. Aidentificação de algumas características recorrentes no sítio PA-AT-247: Domingos configuram-se como bastante significativas para o entendimento da ocupação do espaço intra-sítio. Destacam-se entre elas as marcas de esteio, as concentrações de fragmentos cerâmicos situadas normalmente próximas aos limites do sítio (possíveis lixeiras) e as áreas onde, apesar da ausência de terra preta e de fragmentos cerâmicos, encontram-se concentrações de vasilhames inteiros enterrados (Figura 6). Até o momento, as datações obtidas através de termoluminescência para o sítio Domingos permitem situá-lo entre 1.300±130 e 530± 55 A.P. As características da cerâmica arqueológica da região da Serra do Sossego, particularmente nos aspectos relacionadas à sua manufatura (acordelamento), antiplástico (areia e rocha triturada), decoração (corrugado, ungulado, vermelho, inciso) e forma dos vasilhames (Figuras 4 e 7) permitem considerá-la como pertencente à Tradição ceramista Tupiguarani. Corroboram para esta relação às datações obtidas até o momento através de termoluminescência tanto para o sítio Domingos como para outros sítios da região como por exemplo o PA-AT-244: Pista de Pouso (710±70 e 590±60 A.P), PA-AT-274: Estrada (540±55 e 260±25 A.P.) e PA-AT-252: Sequeirinho (670± 70 e 520±55 A.P) que permitem encaixá-los na mesma faixa temporal dos sítios do período cerâmico da região de Carajás (Lopes et al. 1988) e que estão associados a Tradição Tupiguarani através da fase Itacaiúnas. As pesquisas arqueológicas na Serra do Sossego estão concentradas atualmente no salvamento do sítio PA- AT-247: Domingos e contam com a colaboração de especialistas em palinologia, botânica, geofísica, pedologia e antropologia física. Situado em uma região que, nos últimos vinte anos, foi intensamente ocupada e onde atividades agrícolas, pecuárias e de garimpo provocaram a destruição de uma parte importante do patrimônio arqueológico, o sítio Domingos surge como um lugar privilegiado para o estudo intra-sítio de uma aldeia pré-histórica relacionada com a Tradição Tupiguarani no sul do Pará. A pesquisa neste sítio ainda está em andamento. A presença da Tradição Tupiguarani na região da Floresta Nacional Tapirapé-Aquiri, Parauapebas (PA) Em 2003 tiveram início as pesquisas arqueológicas na região da Floresta Nacional Tapirapé-Aquieri, situada no município de Marabá, no sudeste do Pará. Além do objetivo de gerar conhecimentos estas pesquisas estão sendo desenvolvidas em virtude da necessidade de obtenção das licenças ambientais para a exploração de minério de cobre realizada através do Projeto Salobo. Apresentaremos a seguir os resultados preliminares das pesquisas realizadas nessa área. Aárea do Projeto Salobo está inserida na Floresta Nacional Tapirapé-Aquiri (FLONATA) distante aproximadamente 600 km ao sul de Belém (capital do Estado do Pará) e integra, por extensão, a chamada “região de Carajás” (figura 2). A maior parte dessa região é drenada pela rede hidrográfica do rio Itacaiúnas, que desemboca na margem esquerda do rio Tocantins, em Marabá, e que tem no rio Parauapebas um dos seus principais afluentes. Na área do projeto Salobo destacam-se os igarapés Salobo, Mirim e Cinzento (Silveira et al., 2003). São marcantes duas estações distintas: uma chuvosa e outra seca. Os meses mais secos são de julho a setembro,  Pesquisa realizada pelos Projetos de Levantamento e Salvamento Arqueológico na área do Projeto Salobo, iniciados em 2003 e 2004 respectivamente – através de convênios entre o Museu Paraense EmílioGoeldi, a Salobo Metais e a Fundação para o Desenvolvimento da Amazônia.
  • 6. 44 - Os Ceramistas Tupiguarani e os de maior pluviosidade de dezembro a março. Entre os meses de novembro e julho o nível das águas dos rios eleva-se, permitindo a navegação de pequenas embarcações, entre agosto e outubro os rios baixam, expondo extensas várzeas utilizadas para cultivo pela população ribeirinha que habita a região. A principal cobertura da região é do tipo floresta tropical pluvial, com variações locais, a maioria obedecendo ao relevo acidentado (Silveira et al., 2003). As áreas investigadas até o momento resultaram na descoberta de quatorze locais com vestígios arqueológicos, sendo nove sítios e cinco ocorrências, estando todos relacionados ao período cerâmico. As ocorrências, após investigações adicionais, poderão ser definidas como sítios arqueológicos. Os sítios arqueológicos estão situados ao longo dos igarapés Salobo e Mirim, preferencialmente nos meandros dos igarapés e/ou entre grotas. Observou-se ainda, a ocorrência de sítios próximos uns aos outros, localizados em margens opostas dos cursos d´água constituindo- se, possivelmente, em um padrão de ocupação. Até o momento foram identificados dois tipos de sítios arqueológicos: a) sítios cerâmicos de pequenas dimensões, pouca profundidade e baixa densidade de material arqueológico, podendo ser considerados como sítios acampamento ou de habitação temporária; b) sítios cerâmicos com grande quantidade de material cerâmico, sendo também encontrados material lítico lascado e polido, e verificada a ocorrência de diversos polidores às margens dos igarapés. Foram identificados como sítios de habitação, com terra preta e/ou solo marrom escuro com até 60cm de profundidade. Alguns deles apresentam manchas de terra preta arqueológica (TPA) que correspondem, provavelmente, às áreas de cabanas. No material cerâmico analisado identificou-se o acordelamento como principal método de manufatura. A pasta utilizada para sua confecção apresenta, predominantemente, a rocha triturada como antiplástico. A decoração, muito mais plástica do que pintada, apresenta características tipicamente Tupiguarani tais como: corrugado, espatulado, inciso, escovado, raspado, ungulado ponteado, roletado e impresso (Silveira e Jalles, 2004). Foram encontrados, ainda, durante as escavações dois apliques cerâmicos zoomorfos (figuras 8 e 9), um em sítio habitação e outro em sítio acampamento. Nos dois tipos de sítios foi registrada a presença de estruturas, tais como buracos de esteio e estaca e fogueiras. O material lítico lascado é constituído de modo geral, por lascas e raspadores de quartzo, quartzito e silexito. O material lítico polido está representado por diversas lâminas de machados (formas e tamanhos variados) e cavadores. Foram coletados ainda adornos líticos inteiros (figura 10) e em fase de produção (figura 11). O material coletado até o momento, pelas características apresentadas, está relacionado à tradição cultural arqueológica Tupiguarani. As pesquisas nesta área foram iniciadas há pouco tempo e certamente trarão novas informações que contribuirão para ampliar o conhecimento sobre a presença da Tradição Tupiguarani na Amazônia. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AB’SABER, Aziz. N. 1977. Os domínios morfoclimáticos na América do Sul. Primeira aproximação. Geomorfologia, 52: pp. 1-22 ARAÚJO COSTA, Fernanda. Projeto Baixo Tocantins: Salvamento Arqueológico na área de Tucuruí (PA). Dissertação (Mestrado), Universidade de São Paulo. 1983. 77 p. il. BRANDT. Estudo de Impacto Ambiental da Mineração Serra do Sossego, PA. Belo Horizonte, 2000. CENTRAIS ELÉTRICAS DO NORTE DO BRASIL S/A. Arqueologia nos empreendimentos hidrelétricos da Eletronorte: resultados preliminares. Brasília, 1992. 93 p. FIGUEIREDO, Napoleão. A Cerâmica Arqueológica do Rio Itacaiúnas. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Nova Série Antropologia. 27. 17 p. il. Belém, 1965.
  • 7. Os Ceramistas Tupiguarani - 45 KERN, Dirse C., MARQUES, Fernando L. T., MAURITY, Clóvis W., ATZINGEN, Noé von. O potencial espeleoarqeológico da região do São Geraldo do Araguaia – PA. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Antropologia. P. 157-183. 1992. LOPES, Daniel F. et. al. Levantamento Arqueológico In: Relatório Final - Projeto Estudo e Preservação de Recursos Humanos e Naturais da Área do Projeto “Ferro Carajás” Vol.1. Museu Paraense Emilio Goeldi: Belém. 1988. MAGALHÃES, Marcos Pereira. Arqueologia de Carajás; a presença pré-histórica do homem na Amazônia. Rio de Janeiro: Companhia Vale do Rio Doce, 95 p. 1994. MAGALHÃES, Marcos Pereira. A Phýsis da Origem. Rio de Janeiro. Tese (doutorado), Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1998. 321 p. il. MAGALHÃES, Marcos Pereira. Relatório da prospecção arqueológica na área da Mineração Serra do Sossego. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém, 2001. 32 p. Inédito PEREIRA, Edithe. Registros rupestres e contexto arqueológico na região do baixo/médio Araguaia. Relatório técnico. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2001, 50 p. PEREIRA, Edithe. Programa de Arqueologia Preventiva na Área da Mineração Serra do Sossego/PA. Relatório de laboratório, Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi. Setembro/ 2003. 56 p. il. Inédito. PEREIRA, Edithe. Programa de Arqueologia Preventiva na Área da Mineração Serra do Sossego/PA. Relatório de Campo, Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi. Novembro/ 2003a. 123 p. il. Inédito. SILVEIRA, Maura Imazio Estudo sobre estratégias de subsistência de caçadores -coletores pré-históricos do sítio Gruta do Gavião, Carajás (Pará). Dissertação de Mestrado. USP – São Paulo/SP. 1994. 166 p. il. SILVEIRA, Maura Imazio et al. 2003. Segundo Relatório do Projeto de Prospecção Arqueológica na Área do Projeto Salobo/PA –2003. Belém/PA. 66p. il. Inédito. SILVEIRA, Maura Imazio, Jalles, Cíntia. Relatório de trabalho de laboratório do Projeto de Prospecção Arqueológica na Área do Projeto Salobo/PA – análise tipológica de Material cerâmico e Lítico proveniente das prospecções arqueológicas de 2003. Novembro/2004. Belém/PA. 57 p. il. Inédito. SIMÕES, Mário F., ARAÚJO COSTA, Fernanda. Pesquisas arqueológicas no baixo rio Tocantins (Pará). Revista de Arqueologia, v. 4, n.1. 1987. p. 11-27. SIMÕES, Mário F., CORRÊA, Conceição G., MACHADO, Ana Lúcia C. 1973. Achados Arqueológicos no baixo rio Fresco (Pará). In: O Museu Goeldi no Ano do Sesquicentenário. Publicações Avulsas do Museu Paraense Emílio Goeldi. 20:113-142, il. SIMÕES, Mário Ferreira. Índice das Fases Arqueológicas Brasileira (1950-1971). Publicações Avulsas do Museu Paraense Emílio Goeldi, 18, 75 p. il. Belém, 1972. SIMÕES, Mário Ferreira. Salvamento Arqueológico. IN: Carajás: Desafio Político, Ecologia e Desenvolvimento. ALMEIDAJR, José Maria Gonçalves (org.). Brasiliense; (Brasília – DF); Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. São Paulo, 1986.
  • 8. 46 - Os Ceramistas Tupiguarani Figura 1 – Área de ocorrência da Tradição Tupiguarani na Amazônia.
  • 9. Os Ceramistas Tupiguarani - 47 Figura 2 – Localização da área dos projetos Serra do Sossego e Salobo.
  • 10. 48 - Os Ceramistas Tupiguarani Figura 3 – Tipos de vasilhames identificados no sítio PA-AT-274: Estrada a partir do estudo de fragmentos de bordas.
  • 11. Os Ceramistas Tupiguarani - 49 Figura 4 – Peça restaurada proveniente do sítio PA-AT-274: Estrada.
  • 12. 50 - Os Ceramistas Tupiguarani Figura 5 – Os vasilhames cerâmicos inteiros são encontrados abaixo da camada de ocupação (terra preta) no sítio PA-AT-247: Domingos. Foto:EdithePereira
  • 13. Os Ceramistas Tupiguarani - 51 Figura 6 – Conjunto de vasilhames cerâmicos detectados através de prospecção geofísica em área de solo claro no sítio PA-AT-247: Domingos. Foto:EdithePereira
  • 14. 52 - Os Ceramistas Tupiguarani Figura 7 – Vasilhame cerâmico com decoração corrugada encontrado no sítio PA-AT-247: Domingos. Foto:EdithePereira
  • 15. Os Ceramistas Tupiguarani - 53 Figura 8 – Aplique zoomorfo encontrado em um sítio habitação fotos:JoãoAires Figura 9 – Aplique zoomorfo encontrado em um sítio acampamento
  • 16. 54 - Os Ceramistas Tupiguarani Figura 10 - Pingente lítico Figura 11 - Contas líticas