Artigo avaliação escolar emancipatoria

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Artigo avaliação escolar emancipatoria

  1. 1. www.cursoraizes.com.brASSOCIAÇÃO DE ENSINO E CULTURA PIO DÉCIMO FACULDADE PIO DÉCIMO Curso de Pós-graduação Lato Sensu Educação e Gestão – Pregestão III AVALIAÇÃO EMANCIPATÓRIA DULCE LEONARDA DE SOUZA ARACAJU 2009 www.cursoraizes.com.br
  2. 2. www.cursoraizes.com.brASSOCIAÇÃO DE ENSINO E CULTURA PIO DÉCIMO FACULDADE PIO DÉCIMO Curso de Pós-graduação Lato Sensu Educação e Gestão – Pregestão III AVALIAÇÃO EMANCIPATÓRIA DULCE LEONARDA DE SOUZA Artigo apresentado a Prof.ª Josevânia Teixeira Guedes da disciplina Metodologia da Pesquisa Científica do curso de Pós-graduação da Faculdade Pio Décimo. ARACAJU www.cursoraizes.com.br
  3. 3. www.cursoraizes.com.br 2009RESUMO“Avaliação” é um tema pertinente nas atuais discussões pedagógicas. A realidade dos temposatuais nos mostra uma sociedade em constante mutação, diversificada e globalizada. Vivemosa era da informação e as pessoas acompanham ou sofrem as influências de tais movimentos.O presente artigo aborda a temática da avaliação sob o enforque da avaliação emancipatória,com vistas a uma mudança significativa na prática educativa. A situação vivida hoje nosistema escolar em termos de avaliação é muito problemática e tem profundas raízes. Este nãoé um problema de apenas uma disciplina, curso, série ou escola, mas sim, é problema de todoo sistema educacional inserido em um sistema social que impõem certas práticas. A era quevivemos exige uma ressignificação das práticas educativas, voltando-se à formação eeducação de novos sujeitos. Quando falamos em novos sujeitos, os queremos críticos,conscientes e autônomos significando que devemos realizar a avaliação segundo umaproposta libertadora, que está voltada para o futuro que pretende transformar, a partir dacrítica, do auto-conhecimento, da autonomia para tomar decisões conscientes, levando oeducando a descrever sua própria caminhada e a criar suas próprias alternativas de ação.PALAVRAS-CHAVES: avaliação, emancipatória, ressignificação, sistema escolar,libertadoraABSTRACT"Assessment" is a relevant issue in current discussions in education. The reality of the timesshows a rapidly changing society, diverse and globalized. We live in the information andpeople follow or suffer the influences of such movements. This article addresses the issue ofassessment under the hang of critical evaluation, with a view to a significant change ineducational practice. The situation experienced today in the school system in terms ofevaluation is very problematic and has deep roots. This is not a problem of a single discipline,course, year or school, but rather a problem of the whole educational system embedded in asocial system that imposes certain practices. The era we live requires a redefinition of www.cursoraizes.com.br
  4. 4. www.cursoraizes.com.breducational practices, turning to training and education of new subjects. When we talk aboutnew subjects, we want them critical, conscious and autonomous meaning we must conduct theevaluation according to a proposal of liberation, which is turned towards the future that wantsto turn from the critical self-awareness, autonomy to make informed decisions taking thestudent to describe his own journey and create their own alternatives for action.KEY WORDS: assessment, emancipatory, reframing, school system, liberatingRESUMEN"Evaluación" es una cuestión importante en los debates actuales en la educación. La realidadde los tiempos muestra una sociedad rápidamente cambiante, diverso y globalizado. Vivimosen la información y la gente sigue o sufrir la influencia de estos movimientos. Este artículoaborda la cuestión de la evaluación en virtud de la caída de la evaluación crítica, con miras aun cambio significativo en la práctica educativa. La situación que se vive hoy en el sistemaescolar en términos de evaluación es muy problemática y tiene raíces profundas. Esto no es unproblema de una sola disciplina, por supuesto, el año o la escuela, sino más bien un problemade todo el sistema educativo integrado en un sistema social que impone determinadasprácticas. La era en que vivimos exige una redefinición de las prácticas educativas,convirtiendo a la formación y educación de los nuevos temas. Cuando hablamos acerca de losnuevos temas, queremos que crítica, consciente y autónoma sentido debemos llevar a cabo laevaluación de acuerdo con una propuesta de liberación, que está orientada hacia el futuro quequiere convertir a partir de la conciencia crítica, la autonomía para tomar decisionesinformadas teniendo el estudiante para describir su propio camino y crear sus propiasalternativas para la acción.PALABRAS CLAVE: evaluación, emancipador, un nuevo marco, el sistema escolar, laliberación www.cursoraizes.com.br
  5. 5. www.cursoraizes.com.br INTRODUÇÃO Na era da tecnologia, da globalização e dos avanços científicos em quevivemos a educação aparece com exigências ainda maiores no que diz respeito àsua qualidade, o que faz da avaliação um tema muito importante. Sabemos que o sistema econômico atual não precisa educar a todos oshomens, pois, sendo um sistema excludente, não têm um compromisso ético com aspessoas e o modelo classificatório de avaliação onde os alunos são consideradosaprovados ou não, oficializa a concepção de exclusão, pois o resultado da avaliaçãoé considerado como sendo uma sentença, um veredicto oficial da capacidadedaquele aluno que fica registrado e perpetua-se ao longo de sua vida. Assim sendo,a escola, a didática, o currículo escolar e, sobretudo a avaliação são reflexos da umacomplexa estrutura de relação de poder. As discussões pedagógicas atuais trazem à tona o pertinente tema daavaliação. Quando se pensa em discutir avaliação, é preciso ter em mente que estaetapa do processo de ensino/aprendizagem encontra-se relacionada com a toda aprática escolar. Portanto, é preciso que tenhamos cada vez mais professorescompetentes e comprometidos, conscientes de sua força e identificados com umaproposta política - pedagógica coerente com a avaliação realizada. O processo avaliativo vem sempre acompanhado de dúvidas, angústias,incertezas e até incoerências, e, no entanto, constitui-se no processo crucial para avida de quem está sendo avaliado. Nossa sociedade reserva às instituiçõesescolares o poder de conferir notas e certificados que, supostamente atestam oconhecimento de cada um de seus educandos, o que torna muito grande aresponsabilidade de quem avalia. Todo educador é avaliado e deve avaliar continuamente para melhorar oprocesso de ensino e aprendizagem, cultivando a responsabilidade ética, pois aavaliação sempre inclui uma dimensão de discernimento. Podemos nos perguntar:Por que avaliar? Para buscar a melhoria da qualidade da docência; otimizar o que éo objeto da avaliação; evitar erros na ação docente; revisar os resultados das açõesplanejadas e procurar sempre inovar na própria prática educativa, construindo umapráxis pedagógica que tenha como princípios a reflexão sobre e na ação. www.cursoraizes.com.br
  6. 6. www.cursoraizes.com.br O presente artigo tem como objetivos investigar e refletir sobre as propostas deavaliação emancipatória, analisando se esta prática é possível, assim comocompreender as diferentes concepções de avaliação para construir um referencialacerca das mesmas que possibilidade de reflexão e possa auxiliar na construção deum novo modo de avaliar. Valendo-nos de referencial bibliográfico e das experiências e constataçõesresultantes das práticas de ensino, construímos o texto que aqui é apresentadotendo a seguinte estrutura: primeiramente far-se-á uma análise das concepções econceitos de avaliação segundo os mais diversos autores, seguindo-se para umareflexão da prática educativa realizadas nos dias atuais em nossas escolas. A partirdaí, o enfoque abordado é o da avaliação libertadora como sendo um possívelcaminho para mudar as práticas de avaliação que cristalizaram-se ao longo demuitos anos e por fim, as considerações finais que tratam sobre a alternativa deavaliação estudada e busca responder à inquietação inicial que gerou a presenteobra, ou seja, é possível desenvolver uma avaliação emancipatória? CONCEITUANDO AVALIAÇÃO Por que discutir a avaliação? Para que abordar novamente esta temática setais discussões e estudos em geral não contribuem em nada para a mudança daprática educativa? A avaliação está no âmago das contradições do sistema educativo, e este éum terreno que carece de ousadia para a criação de novos indicadores capazes derevolucionar esta prática milenar... Penso ser de suma importância lançar um novo olhar sobre esta temática,porém, com um enfoque diferente e inquietante que seja capaz de instigar a todosos que vierem a refletir sobre o mesmo, desafiando cada um para a construção deum novo modo de desenvolver a avaliação... Surge a questão: O QUE É AVALIAR? A prática escolar usualmente denominada de avaliação é constituída muitomais de provas e exames do que de avaliação. Esta prática de provas/exames tem www.cursoraizes.com.br
  7. 7. www.cursoraizes.com.brorigem na escola moderna a partir dos séculos XVI e XVII. Algumas expressões dasexperiências pedagógicas deste período e que sistematizaram o modo de agir comprovas e exames encontram-se nas práticas das pedagogias jesuíticas (século XVI),comeniana (século XVII) e lassalista (fins do século XVII e início do século XVIII). Assim sendo, a prática que conhecemos é herdeira deste período, ondeaconteceu a cristalização da sociedade burguesa, marcada pela exclusão emarginalização de grande parte dos elementos da sociedade. A prática de provas e exames exclui parte dos alunos porque se baseia nojulgamento, enquanto a avaliação pode incluí-los devido ao fato de proceder pordiagnóstico e assim incluir o educando no curso da aprendizagem satisfatória, queintegre todas as suas experiências de vida. Enquanto as finalidades e funções das provas e exames são compatíveis com a sociedade burguesa, as da avaliação as questionam, por isso, torna-se difícil realizar a avaliação na integralidade de seu conceito, no exercício de atividades educacionais (LUCKESI, 1991, p.171). Como vimos, cristalizou-se em nossas escolas a prática de provas e examescomo um dos recursos para classificar os educandos, selecionando-os e os tratandode maneira diferenciada, preocupando-se com os princípios burgueses daindividualidade e da competitividade. Uma das funções atribuídas ao exame é determinar se um sujeito pode ser promovido de uma série para outra. Sob esta ideia central aparecem outras duas funções: permitir o ingresso de um individuo em um sistema particular (caso do exame de admissão) ou legitimar o saber de um individuo através da certificação ou da outorga de um titulo profissional [...]. (ESTEBAN, 2002, p. 58) A polêmica em torno do que realmente seja a avaliação no campoeducacional é bastante grande. Embora muito já se tenha discutido, o tema estálonge de uma abordagem consensual. A avaliação é essencial à educação. Inerente e indissociável enquanto concebida como problematizadora, questionamento, reflexão sobre a ação. Educar fazer ato de sujeito é problematizar o mundo em que vivemos para superar as contradições, comprometendo-se com esse mundo para recriá-lo constantemente (GADOTTI, 1984, p.52). www.cursoraizes.com.br
  8. 8. www.cursoraizes.com.br A denominação avaliação da aprendizagem é atribuída a Ralph Tyler, emmeados dos anos 30, que afirmava que o processo de avaliação servia paradeterminar em que medida os objetivos educacionais estão realmente sendoalcançados pelo programa do currículo e do ensino. Um clássico ao se falar em avaliação é a obra de Bloom, Hastings e Madaus:Manual de avaliação formativa e somativa do aprendizado escolar, que apresentavárias dimensões do conceito de avaliação. Dizem eles que a avaliação é ummétodo de coleta e de processamento dos dados necessários à melhoria daaprendizagem e do ensino, o que vem ao encontro das ideias de Mattos eVasconcellos. Afirmam também que a avaliação auxilia no esclarecimento das metase dos objetivos educacionais na medida em que o desenvolvimento do aluno está seprocessando da maneira desejada, sendo também um sistema de controle dequalidade pelo qual se pode determinar a cada passo do processo de ensino-aprendizagem, se este está ou não sendo eficaz, indicando mudanças a seremfeitas para assegurar sua eficácia. Todas as definições acima apresentadas encontram-se permeadas pelaconcepção de que a avaliação é um processo continuo e sistemático que faz partedo processo ensino-aprendizagem de forma a orientar o mesmo para que oseducandos possam conhecer seus erros e seus acertos, diagnosticando asdificuldades para poder planejar novas atividades de forma a que todos alcancem osobjetivos propostos. Portanto, os autores deixam claro a necessidade de conceber a avaliaçãocomo uma incessante busca de compreensão das dificuldades do educando e nadinamização de novas oportunidades de conhecimento. Processo este que implicaem uma reconstrução do significado do ato de avaliar, que não acontecerá porexperiências isoladas ou fragmentadas, mas por uma ação conjunta e continuadaque ultrapasse os muros das instituições escolares e esteja pautado na vontade demudar... “A construção do ressignificado da avaliação pressupõe dos educadoresum enfoque critico da educação e do seu papel social” (HOFFMANN, 1991, p.112). Luckesi (1997) define a avaliação da aprendizagem como um ato amoroso, nosentido de que a avaliação, por si, é um ato acolhedor, integrativo, inclusivo. Paracompreender isso, importa distinguir a avaliação de julgamento, sendo este um atode distinguir o certo do errado, incluindo o primeiro e excluindo o segundo. A www.cursoraizes.com.br
  9. 9. www.cursoraizes.com.bravaliação tem por base acolher uma situação, para então ajuizar sua qualidadetendo em vista dar-lhe suporte de mudança se necessário. O movimento que caracteriza as práticas escolares cotidianas explicita aimpossibilidade de se reduzir avaliação a um conjunto de momentos estanques quecosturam fragmentos do processo ensino/aprendizagem, perspectiva que limita(quando não impede) a possibilidade de os sujeitos construírem conhecimentos nummovimento dialógico. Especialmente quando atuamos na escola pública freqüentadaprioritariamente pelas crianças das classes populares, que trazem conhecimentos,vivências, lógicas e expectativas muito diferentes daqueles que articulam a práticapedagógica hegemônica. Incorporar a heterogeneidade de saberes presente na vidaescolar exige que a lógica da avaliação se aproxime a um dinâmico caleidoscópioem que o resultado se transforma segundo os movimentos que conduzem a (re)articulação dos fragmentos. Para Vasconcellos (1998), a avaliação deve ser um processo abrangente daexistência humana, que implica uma reflexão crítica sobre a prática, no sentido decaptar seus avanços, suas resistências, suas dificuldades e possibilitar uma tomadade decisões sobre as atividades didáticas seguinte. De acordo com ele, a avaliaçãodeveria acontecer acompanhando a pessoa em seu processo de crescimento e serencarada com um instrumento facilitador de tal processo, e não como inibidor domesmo, marcando as pessoas de forma negativa pelo resto de suas vidas. Eladeveria possibilitar nosso crescimento, porque aponta limites da ação e provoca adescoberta de novos posicionamentos. Por que a avaliação marca negativamente? Quem gosta de ser avaliado? Porque temos tanto medo da avaliação? Basta falar em avaliação que o ambiente já se torna um pouco pesado, tenso.Poucos gostam de ser avaliados... Talvez porque os atos que permearam nossavida em torno da avaliação sempre serviram para punir, desautorizar ou constrangeralguém... Está é a prática que mais está presente em nossas escolas e em nossocotidiano. No entanto, segundo MATTOS (1999) a avaliação deveria ser encaradacomo um “sintonizador da nossa vontade de melhorarmos sempre mais”. Assimsendo, ela deveria possibilitar nosso crescimento porque aponta os limites de nossaação e provoca a descoberta de novos posicionamentos. www.cursoraizes.com.br
  10. 10. www.cursoraizes.com.br HOFFMANN (1991) afirma que da pré-escola à universidade, crianças ejovens são constantemente sentenciados por seus comportamentos e tarefas... Formal ou informalmente, cada vez que a criança brinca, fala, responde ou faz tarefas, está sendo observada e julgada por seus professores. A isto se denomina avaliação. Esta concepção abrange as ações de observação e julgamento, limitando-se a elas (p.69). A avaliação sempre foi uma atividade de controle, que visava selecionar...Neste sentido o prazer de aprender desaparece, pois a aprendizagem se resume emnotas e provas. O processo, ou o ato de realizar uma avaliação vai, além disto,estando inserido dentro de um ensino integral, onde o professor acompanha oprocesso desenvolvido pelo educando, auxiliando-o em seu percurso escolar,fundamentando-se no diálogo, reajustando continuamente o processo de ensino deforma a que todos consigam alcançar com sucesso os objetivos definidos, revelandosuas potencialidades. O sentido fundamental da ação avaliativa é o movimento, a transformação... o que implica num processo de interação educador e educando, num engajamento pessoas a que nenhum educador pode se furtar sob pena de ver completamente descaracterizada a avaliação em seu sentido dinâmico (HOFFMANN, 1991, p.110). Sob esta perspectiva, avaliar deixa de significar fazer um julgamento sobre aaprendizagem do aluno, para servir como momento capaz de revelar o que o mesmosabe os caminhos que percorreu para alcançar o conhecimento demonstrado, seuprocesso de construção de conhecimento, podendo potencializar, revelar suaspossibilidades de avanço e suas necessidades para que a supere. A avaliaçãopropicia um momento de mudança, avanço, progresso, enfim, aprendizagem. Ela éprocessual, contínua, participativa, diagnóstica e investigativa. A avaliação faz partedo ato educativo, do processo de aprendizagem, avalia-se para diagnosticaravanços e entraves, para interferir, agir, problematizar e redefinir os rumos ecaminhos a serem percorridos. [...] o processo avaliativo a que me refiro é um método investigativo que prescinde da correção tradicional, impositiva e coercitiva. Pressupõe isso sim, que o professor esteja cada vez mais alerta e se debruce compreensivamente sobre todas as manifestações do educando (HOFFMANN, 1991, p. 79) www.cursoraizes.com.br
  11. 11. www.cursoraizes.com.br Diz-nos a LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9.394/96,que a avaliação deve ser contínua e priorizar a qualidade e o processo deaprendizagem, sendo que os aspectos qualitativos devem prevalecer sobre osquantitativos. Porém, para que a avaliação sirva à aprendizagem é essencial que osprofessores conheçam cada um de seus alunos e suas necessidades, pois somenteassim, poderá pensar em diferentes alternativas para que todos os alunos alcancemos objetivos. Nesta perspectiva, a avaliação parte de duas premissas básicas:confiança na possibilidade dos educandos construírem suas próprias verdades e avalorização de seus interesses e manifestações. Conforme MACHADO (2000), para avaliar é preciso ir além da medida,recorrendo a indicadores mais complexos e a indícios de competência, tendo emvista que não se avalia por avaliar, mas para fundamentar uma decisão.PERRRENOUD (1999) também compartilha desta ideia ao afirmar que a avaliaçãonão é um fim em si, mas uma engrenagem do funcionamento didático. Enfatiza aprática dos professores ao afirmar: “A avaliação tradicional, não satisfeita em criarfracassos, empobrece as aprendizagens e induz, nos professores, didáticasconservadoras e, nos alunos, estratégias utilitaristas” (p. 18). O principal agente desta mudança e desta reconstrução é o educador, suasconcepções e sua prática educativa... Temos claro que nenhuma prática é neutra eque esta sempre serve a um ou outro modelo político de desenvolvimentoeconômico. O alicerce escolar encontra-se numa teia de relações entre oseducadores, educandos e suas famílias... E em se falar sobre avaliação, esta é umarelação tensa. Portanto, a reconstrução da prática avaliativa supõe professores comformação crítica, capazes de ampliar seu horizonte de compreensão e oreconhecimento da necessidade de uma formação constante, bem como, disposiçãopara ser sujeito da mudança e construir algo diferente. O conceito de professor como mediador vem explicitar uma nova funçãodocente que nem sempre é aceita, pois pode representar ao professor umenfraquecimento do que ele efetivamente sabe desempenhar – informar, proporatividades, avaliar, disciplinar ou pode parecer-lhe que se exigem funções para asquais ele não esteja preparado. www.cursoraizes.com.br
  12. 12. www.cursoraizes.com.br A PRÁTICA PEDAGÓGICA O tema avaliação configura-se gradativamente mais problemático na educação na medida em que se amplia à contradição entre o discurso e a prática dos educadores. Embora os professores ainda relacionem estreitamente a ação avaliativa a uma prática de provas finais e atribuição de graus classificatórios, os critica mesmos o significado desta prática nos debates em torno do assunto (HOFFMANN, 1991, p. 28). O que falar da prática avaliativa que acontece em nossas escolas? Por que odiscurso do professor é inovador enquanto sua prática é conservadora? O que dáorigem a esta contradição? Velhos mitos impregnam a prática avaliativa que desdesempre esteve a serviço do autoritarismo dos professores. HOFFMANN (1991) acredita que a contradição entre o discurso e a prática dealguns educadores e principalmente a ação classificatória e autoritária exercida pelamaioria, encontra explicação na concepção de avaliação do educador, reflexo desua história como aluno e professor. Existe a vontade de fazer diferente, porém nãose sabe como fazer... Assim, o primeiro passo seria tomar consciência destasinfluências para que não se venha a reproduzir o que se contesta no discurso: oautoritarismo e a arbitrariedade. Os educadores constroem seu jeito de ensinar no cotidiano da sala de aula, eé a partir daí que deve se conduzir uma reflexão sobre sua prática e a construção deuma identidade profissional. Neste contexto, o educador também pode construir eproduzir uma teoria, a partir do momento que se transforma em investigador, ouseja, quando se debruça sobre sua prática, fundamentando-a e iluminado-a sob aluz da teoria. Ao longo dos tempos, teoria e prática aparecem em lados opostos, como sefossem dissociados, e o “estado” desta relação é objeto de críticas e controvérsiasonde se acentua exatamente a ausência da mesma. “[...] O teste foi consideradocomo um instrumento cientifico, válido e objetivo que poderia determinar umainfinidade de fatores psicológicos de um individuo. [...]” (ESTEBAN, 2002, p.64). Assim sendo, percebemos que a contradição existente entre o que oprofessor faz e o que acredita tem suas raízes também na formação dos mesmos.Quem educa o educador? www.cursoraizes.com.br
  13. 13. www.cursoraizes.com.br Tendo em vista que o ser docente se constrói nas relações com o mundo,com os outros e com as contingências que o levam a optar pelo magistério, épreciso que se busque um debate acerca desta contradição, para que, como nos dizSANTOS (2000), no eclipse da razão com o cosmos tenhamos a verdade mais purae o conhecimento mais prudente para a vida mais decente. Nós mesmas enquantoacadêmicas do curso de Pedagogia pudemos sentir esta discrepância, pois muitosdos nossos educadores leia-se a grande maioria, defende um tipo de teoriaenquanto age de acordo com outra. Estabelece-se uma relação dicotômica entre ateoria e a prática, pois os educadores não conseguem possibilitar a coexistência dosdois termos num mesmo processo. O processo avaliativo é o alvo mais complexo onde se percebe estacontradição, pois os educadores sentem dificuldade de instaurar a prática deconversar com os alunos sobre os resultados, para que juntos possam analisar ereconstituir o processo de conhecimento na busca de superação das falhas e doserros cometidos. A avaliação é utilizada pela maioria dos professores para motivar os alunos,impor determinados comportamentos, enfim, é um mecanismo de controle quedesencadeia uma relação de poder. LUCKESI (1997) afirma que o medo e o fetiche são mecanismosimprescindíveis numa sociedade que não opera na transparência, mas sim nossubterfúgios, e a avaliação em nossas escolas está muito mais articulada com areprovação do que com a aprovação, e daí vem a sua contribuição para aseletividade social. A nota é que determina tudo e é em função dela que se vive àprática escolar. “[...] constatamos que a prática da avaliação é atravessada porquestões disciplinares, de controle dos alunos, de castigo de condutas sociais queos alunos apresentam dentro e fora da escola” (LUCKESI, 1997, p.73). É desconfortável para qualquer educador o rótulo de que a avaliação servecomo instrumento de coação, de controle, ainda mais quando se tem em mente umaconotação negativa desta ação de controlar. “[...] no sistema educacional, aavaliação é hoje o instrumento de controle oficial, o ‘selo’ do sistema, o respaldolegal para a reprovação/aprovação, para o certificado, para o diploma, para amatrícula, etc. [...]” (VASCONCELLOS, 1998, p.30) . www.cursoraizes.com.br
  14. 14. www.cursoraizes.com.br Sabemos que aos educadores é confiada a tarefa de fazer com que os alunosaprendam que sejam estimulados em suas mais diversas manifestações, quesaibam sonhar e cultivar valores que lhes possam dar suporte em toda sua vida, quesaibam argumentar e não sejam meros executores de projetos sonhados por outraspessoas, mas sim, que se tornem sujeitos de sua própria história, a começar peloseu processo de aprendizagem. Já nos diz LUCKESI (1997), que é preciso comprometer-se com umaconcepção pedagógica que esteja preocupada com a perspectiva de que oeducando aproprie-se criticamente de conhecimentos e habilidades necessários àsua realização como sujeito critico dentro da atual sociedade neoliberalista,permeada pelos princípios da competição e do individualismo, características domodo capitalista de produção. Se é importante aprender aquilo que se ensina na escola, a função “da avaliação será possibilitar ao educador condições de compreensão do estágio em que o aluno se encontra, tendo em vista poder trabalhar com ele para que saia do estágio defasado em que se encontra e possa avançar em termos dos conhecimentos necessários (LUCKESI, 1997, p.80). Assim sendo, o educador que estiver disposto a dar um novoencaminhamento para a prática da avaliação escolar deverá estar preocupado emredefinir ou definir os rumos de sua ação pedagógica, atentando para os princípiosque norteiam esta nova prática, sendo o diálogo uma das premissas básicas, nabusca de investigar, problematizar, emancipar e ampliar perspectivas. LUCKESI (1997) afirma que para esta mudança acontecer é preciso que oeducador assuma um posicionamento pedagógico claro e explícito, tendo em vistaque enquanto avaliamos exercemos um ato político, mesmo quando não opretendemos. Também é preciso buscar novos rumos da prática educacional, pois“teoria e prática formam uma unidade na ação para a transformação”, bem como énecessário resgatar a avaliação em sua essência constitutiva, concebendo-o comoum “instrumento dialético do avanço”, sendo o identificador de novos rumos. [...] se a ação avaliativa deve partir do fazer da criança e do jovem, essa ação intenciona, principalmente, a compreensão cada vez maior dos fenômenos e dos objetos. O que caberia, pois, observar é se o educador é consciente da provocação necessária ao processo de compreender. (HOFFMANN, 1991, p. 71). www.cursoraizes.com.br
  15. 15. www.cursoraizes.com.br Reconstruir a cultura escolar sobre o processo de avaliação a fim de inverterseu sentido, de modo que de produtor de fracasso se torne articulador do sucessoescolar das crianças tem sido um desafio para todos os professores, pois osmesmos não possuem conhecimento necessário para avaliar de fato e trabalhar osresultados dessa avaliação buscando a construção do conhecimento por parte doaluno e de si mesmo. “[...] o professor deve assumir a responsabilidade de refletir sobre toda a produção de conhecimento do aluno, promovendo o movimento, favorecendo a iniciativa e a curiosidade no perguntar e no responder e construindo novos saberes junto com os alunos” (IDEM, p. 75). Embora haja certo consenso em torno da necessidade e da viabilidade derealizar uma avaliação compatível com a concepção de aprendizagem como umprocesso permanente, marcado por continuidades, rupturas e retrocessos, osprocessos e resultados escolares continuam profundamente marcados pela ótica dahomogeneidade, fazendo coincidir avaliar e julgar. A avaliação realizada na sala deaula articula sujeitos e contextos diversos, confrontando os múltiplos conhecimentosque perpassam o saber, o fazer e o pensar de alunos, alunas, professores eprofessoras. Nessa perspectiva emancipatória de avaliação o professor não poderá ficarsomente no lápis e papel como instrumento avaliativo do seu aluno, e sim partir paraobservações sistemáticas, debates, trabalho em equipe, diálogo, sendo este amelhor fonte para o verdadeiro conhecimento do aluno. Os instrumentos de avaliação não podem ser usados como tortura, mas comoum processo de inter-relação entre professor e aluno, que está a serviço de umapedagogia preocupada com a transformação social. A partir do momento que oprofessor se propõe avaliar, deverá ter em mente o objetivo desta avaliação, o queajuda a decidir que tipo de informação se deve recorrer e como analisá-la. Partindode uma linha emancipatória a avaliação tem por objetivo garantir a qualidade daaprendizagem do aluno, sendo que ela deverá fazer parte do processo deconstrução e aquisição do conhecimento do mesmo. Ainda que a sala de aula seja constituída pelo movimento, pela surpresa, pelaturbulência, pela desordem, pela diferença, as práticas escolares e os processos www.cursoraizes.com.br
  16. 16. www.cursoraizes.com.brensino/aprendizagem estão estruturados para conduzir à homogeneidade, àconvergência, à linearidade, considerados essenciais para uma boa relaçãopedagógica. A uniformidade simplifica a realidade produzindo recortes queapresentam a sala de aula através de alguns de seus fragmentos; ignorando muitosoutros que a configuram produz uma colagem que, em sua parcialidade, pretenderepresentar o real. Tentando evitar o caos e supervalorizando a ordem propõe arelação ensino/aprendizagem, e a avaliação como um de seus processos, pelo oque ela não pode ser inviabilizando muitas de suas possibilidades. Construir uma avaliação capaz de dialogar com complexidade, commultiplicidade de conhecimento, com as particularidades dos indivíduos vendo comodiferentes numa visão de diversidade de lógicas e conceitos devem proporcionar ainvestigação e a interrogação constante, revelando num instrumento importante paraos educadores comprometidos numa escola democrática, desafiando-se para novasestratégias diante dos desafios e dificuldades encontradas. Segundo observações realizadas no decorrer das práticas de ensinoocorridas ao longo do curso, em geral, os professores acreditam que a avaliaçãodeve ser um recurso para o seu planejamento, sendo também julgamento de idéias,ou seja, você julga, e a partir daí constrói uma metodologia que beneficie osenvolvidos no processo (professor x aluno), alguns promovem avaliação mutua. Oato de avaliar não indica a aprovação ou a reprovação, porém, é um meio queaponta as dificuldades dos alunos e norteia o trabalho. Em suas falas, os professores destacaram a importância de avaliar o alunocomo um todo: avaliar aquilo que aprendeu com suas dificuldades, potencialidades etambém habilidades e competências, através da observação e anotações deatividades, atitudes, envolvimento, evoluções, aspectos cognitivos, participação,vivência de valores, crescimento intelectual e também com trabalhos valorizadosindividuais e em grupo, envolvendo os conteúdos estudados e notas com parecerdescritivo. Também ocorre através de provas, trabalhos de pesquisa,aproveitamento ou não na sala de aula. Procurando avaliar o cognitivo, não só“decoreba”, mas o que realmente aprendeu e o que leva para sua vida cotidiana. Almejam uma avaliação participativa, libertadora, humanizante, diagnóstica etransformadora e qualitativa, não podendo ser classificatória e sim dinâmica,contínua, integrada, progressiva, voltada para os sujeitos, abrangente e cooperativa. www.cursoraizes.com.br
  17. 17. www.cursoraizes.com.br Neste sentido PERRENOUD (1999) comenta que os alunos são consideradoscomo tendo alcançado êxito ou fracasso na escola porque são avaliados em funçãodos avaliadores, os quais firma-se através dos conteúdos, programas e outros queacabam por conduzir todo o processo educativo, sem conduzir à diversidade e àscompetências desejadas, somente classificam. Para LUCKESI (1997) a avaliação daaprendizagem escolar é um recurso pedagógico útil e necessário para auxiliar oseducadores e educandos, sendo um objetivo diagnosticar e incluir o educando nocurso de uma aprendizagem satisfatória. Os critérios avaliativos citados pelas professoras destacam: a auto-avaliaçãodo aluno e do professor; o conhecimento construído e seu uso no cotidiano;conceitos elaborados, pensamento crítico; expressão oral e escrita; interesse,capacidade de pesquisa. Também a presença marcante, valores, atitudes (asinteligências múltiplas – aquilo que o aluno tem maior facilidade), o progresso obtidodesde o começo do ano. Evidenciam as competências no processo de avaliação quando avaliam oaluno num todo, sendo ele um ser pensante, responsável, capaz. Quando se fazuma avaliação apenas para medir, calcular, classificar a quantidade de acertos nãoadianta nada. O aluno obtém uma nota e pronto. Quando a avaliação é umapesquisa, quando se observa, se analisa as habilidades que o aluno tem naresolução dos problemas, tornam-se evidentes suas competências. PERRENOUD(1999) traz como princípio da avaliação formativa a construção da competência,sendo assim necessário otimizar este processo para ampliar os saberes e ashabilidades da maioria, o que deve contar é o saber e não a classificação. Precisaassim avaliar seriamente as competências. As competências não podem ser avaliadas por lápis e papel segundoPERRENOUD (1999), o aluno precisa exercitar suas habilidades, que o levarão aaquisição de grandes competências. Nesse caso a avaliação não diz respeito aoadquirido, mas aos processos. É impossível avaliar as competências de formageneralizada, elas são realizadas em tempos diferentes, onde cada um mostra o quesabe fazer agindo, raciocinando em voz alta, tomando iniciativas e riscos,precisando o professor estabelecer balanços individuais e formativos de suascompetências. www.cursoraizes.com.br
  18. 18. www.cursoraizes.com.br Defendendo a avaliação como diagnóstica LUCKESI (2000) trabalha sem oconceito de aprovação e reprovação, o ideal não seria existir notas. PERRENOUD(1999) discute a idéia da escola trabalhar com o conceito de fracassado sendoaquele que não adquiriu no prazo mínimo os conhecimentos e competênciasestabelecidas pela instituição escolar. A escola classifica os alunos e não trabalhacom o erro, tentando empreendê-lo e modificá-los, adquirindo forças para declararquem fracassa e quem tem êxito. Precisa trabalhar com a diversidade, no individualpara o coletivo. A prova como a nota é utilizada como um instrumento de ameaça e castigo,como é revelada nas falas dos professores: “Quem conversar vai descontar ponto e deixar de castigo, sem recreio. Quem escreveu errado tirei nota.” (professora A) “Ah! Conversaram na hora da explicação, na próxima aula terá prova” (professora B) Percebe-se, portanto uma contradição entre teoria e a prática revelada na falados alunos e professores, sendo que o prazer de aprender do educando foisubstituído pelo medo das provas e exames. Conforme LUCKESI (1997), os professores se utilizam dos procedimentos deavaliação como elementos motivadores dos estudantes e por meio da ameaça osmesmos estão sempre na expectativa de virem ou não a serem aprovados. Analisando a escola tradicional, de concepção positivista neoliberal, avalia-sea cada bimestre, sendo diagnóstica apenas no início do ano. Em cada bimestre háprovas, trabalhos, comunicação aos pais e no final do ano é tempo de classificar:aprovado ou reprovado como decorrência normal deste processo. Surge a necessidade de o professor acompanhar todo o processo deaprendizagem desenvolvido pelo educando, ajudando-o em seu percurso escolar,tendo como fundamento o diálogo e reajustando continuamente o processo deensino, aonde todos chegam e alcançam com sucesso os objetivos definidos. Tudo isso pressupõe o envolvimento educador x educando, sendo que oeducador deve estar cada vez mais alerta, debruçando-se compreensivamentesobre todas as manifestações do educando, interagindo com o mesmo e construindoum processo de ensino/aprendizagem coletivo. Faz-se necessário que o educadorassuma um posicionamento pedagógico claro e construa no seu dia a dia um elo www.cursoraizes.com.br
  19. 19. www.cursoraizes.com.brentre a teoria e a prática que formam a unidade na ação para a transformação, bemcomo, ter na avaliação um instrumento dialético de avanço para a identificação denovos rumos norteadores da prática educativa. AVALIAR SOB A PERSPECTIVA DE EMANCIPAR Até o presente momento, temos claro que a avaliação deve proporcionar ummomento de mudança, avanço, progresso, enfim, aprendizagem, pois ela éprocessual, contínua, participativa, diagnóstica e investigativa. Temos clareza deque a avaliação faz parte do ato educativo, do processo de aprendizagem, e queavalia-se para diagnosticar avanços e entraves, para agir, problematizar, interferir eredefinir os rumos e caminhos a serem percorridos. Percebemos também a contradição entre a teoria e a prática de algunsprofessores que, por um ou outro motivo é um dos ranços que a pedagogia devebuscar superar, em função de colocar a avaliação escolar a serviço de uma práticapedagógica que entenda e esteja preocupada com a educação como mecanismo detransformação social, na busca da superação do autoritarismo enraizado em nossassalas de aula, e ao estabelecimento da autonomia do educando. Desta forma, concordo com a afirmação de HOFFMANN (1991, p 114) quediz que “a reconstrução da avaliação não acontecerá por experiências isoladas, maspor uma ação continuada e que ultrapasse os muros das instituições”. Parece que este é o desafio maior: construir os meios para se efetivar naprática uma avaliação sob a perspectiva emancipatória. O objetivo do desafio que se enfrenta, quanto a uma perspectiva mediadora da avaliação é principalmente, a tomada de consciência coletiva dos educadores sobre sua prática, desvelando-lhes princípios coercitivos e direcionando a ação avaliativa no caminho das relações dinâmicas e dialógicas na educação (HOFFMANN, 1991, p. 81). Assim sendo, a redefinição da prática avaliativa escolar só se torna possívelmediante um compromisso com a democratização do ato pedagógico, sendo esteum ato mais participativo, desenvolvido contínua e participativamente, assinalando www.cursoraizes.com.br
  20. 20. www.cursoraizes.com.brestratégias que possam ajudar tanto alunos quanto professores a compreender eintervir no processo coletivo de construção de conhecimentos. A avaliação como prática de investigação pode ser uma alternativa às propostas excludentes por buscar uma ação coerente com a concepção de conhecimento como processo dinâmico, dialógico, fronteiriço, constituído nos marcos das múltiplas tensões sociais (ESTEBAN, 2001, p. 185) Portanto, faz-se necessário compreender e realizar a avaliação comprometidacom o ato pedagógico, como um instrumento de compreensão do estágio em que seencontra o aluno, diagnosticando sua situação e redefinindo estratégias para suaaprendizagem. De acordo com LUCKESI (1990), considera-se que a avaliaçãoesteja comprometida com uma proposta pedagógica histórica-crítica, preocupando-se com a apropriação crítica dos conhecimentos e habilidades necessárias para queo educando torne-se sujeito critico dentro da atual sociedade. Se a avaliação não assumir a forma diagnóstica, ela não poderá estar a serviço da proposta política – “estar interessado que o educando aprenda e se desenvolva” –, pois se a avaliação continua sendo utilizada de forma classificatória, como tem sido até hoje, não viabiliza uma tomada de decisão em função da construção de resultados esperados (LUCKESI, 1990, p. 32). Assim sendo, esta mudança na prática avaliativa implica uma mudançaparadigmática no pensamento no que se refere ao aprendizado e ao ensino. Estamudança exige que os educadores aprendam como compartilhar a tomada dedecisões no que diz respeito ao processo educativo com colegas, pais e estudantes,bem como repensar para que sirvam o ensino e a avaliação. Neste sentido volta-seà velha questão: a serviço de que e de quem está o processo de ensino-aprendizagem? Que tipo de sujeitos se quer construir com as atuais práticasavaliativas? Há também a necessidade de harmonizar as expectativas da avaliação entrefamília e escola e entre os diferentes níveis de ensino, bem como sobre a questãodo tempo e dos recursos que ajudam ou impedem a implementação de novaspráticas de avaliação nas rotinas das escolas. Avaliar sob a perspectiva de emancipar implica uma avaliação autêntica,direta e profunda. Exige dos educadores um olhar cuidadoso, pois em um processode educação transformadora não se pode pensar que a avaliação deva ser efetuada www.cursoraizes.com.br
  21. 21. www.cursoraizes.com.brapenas por um dos agentes do processo. É necessário que educando e educadorparticipem de todas as fases do processo educativo, assim como da avaliação e dadeterminação do valor representativo que o sistema escolar impõe, ou seja, da notaou conceito. “Avaliar significa emitir um julgamento de valor ou mérito. [...] dessamaneira, associa-se uma concepção de conhecimento, mas também a emissão dejuízo de valores.” (ANTUNES, 2002, p.10). Sob esta perspectiva, a avaliação encontra seu sentido no processo deinteração entre os envolvidos no processo, sendo um instrumento auxiliar de umprocesso de conquista do conhecimento. É preciso parar de olhar somente para astarefas realizadas, mas perceber que o processo de construção de conhecimento deforma dialógica, e o processo avaliativo como auxiliar do mesmo. “Avaliar aaprendizagem significa valer-se de uma grande diversidade de atividades quepossam colocar o conteúdo que se quer ver apreendido em diferentes contextosparticulares.” (IDEM, p.32). A avaliação libertadora está apoiada na colaboração, no comprometimentocom a mudança de paradigmas e com a formação de novas pessoas, e na vontadede transformar a realidade. Portanto, é preciso um trabalho planejado e executadocom a participação de todos e que tenha resultados concretos. SAUL (2002), afirma que a avaliação emancipatória caracteriza-se como umprocesso de descrição e análise critica de certa realidade com vistas àtransformação da mesma, e por isso está voltada para programas de avaliaçãoeducacionais ou sociais. Ela está situada numa vertente político-pedagógica cujo interesse primordial é emancipador, ou seja, libertador, visando provocar a crítica, de modo a libertar o sujeito de condicionamentos deterministas. O compromisso principal desta avaliação é o de fazer com que as pessoas direta ou indiretamente envolvidas em uma ação educacional escrevam a sua ‘própria história’ e gerem suas próprias alternativas de ação. A avaliação emancipatória tem dois objetivos básicos: iluminar o caminho da transformação e beneficiar as audiências no sentido de torná–las autodeterminadas. O primeiro objetivo indica que essa avaliação está comprometida com o futuro, com o que se pretende transformar a partir do autoconhecimento crítico do concreto, do real, que possibilita a clarificação de alternativas para a revisão deste real. O segundo objetivo ‘aposta’ no valor emancipador desta abordagem, para os agentes que integram um programa educacional. Acredita que esse processo pode permitir que o homem, através da consciência crítica, imprima uma direção a www.cursoraizes.com.br
  22. 22. www.cursoraizes.com.br suas ações nos contextos em que se situa, de acordo com valores que elege e com os quais se compromete no decurso de sua historicidade (IDEM, p.128). Os conceitos básicos envolvidos nesta proposta são: libertação, decisãodemocrática, transformação e crítica educativa. A emancipação busca uma conscientização crítica da realidade, prevendoalternativas para a solução dos problemas levantados. Vindo ao encontro do quePAULO FREIRE (1996) chama de “problematização dialógica”, que buscadesenvolver uma postura crítica da qual resulta a percepção de que não podemoscontinuar anestesiando nosso espírito crítico e servindo à domesticação doshomens. A problematização da realidade e a análise crítica das atitudes de cada umpermitem aos educandos se inserir criticamente em seu contexto social. A decisão democrática implica um envolvimento de todos na tomada dasdecisões, tanto no que diz respeito à avaliação quanto nas demais decisões sobre oque ensinar como ensinar, porque e para que ensinar. Como já falamosanteriormente, é preciso envolver a todos os que fazem parte da comunidadeescolar para discutir a proposta político pedagógica da escola, e todos os seusdelineamentos afins. A transformação sugere exatamente a mudança de atitudes e conseqüenteengajamento com lutas sociais e políticas, pois através da prática emancipatória,constrói-se um saber que reflete o mundo e os homens... Constroem-se homens emulheres que se assume como sujeitos históricos, conscientes de um mundo queestá sendo que se encontra em constante transformação a partir da ação de cadaum. Pois, enquanto seres da práxis, os seres humanos transformam o mundo deacordo com suas necessidades e finalidades impregnando-o com sua presençacriadora, e “ao transformarem o mundo, transformam-se também”. A crítica educativa incide sobre toda a proposta educativa, considerando nãoapenas os processos, mas também os resultados obtidos ao longo do percurso,tendo a finalidade de reorientar novos processos. Três momentos caracterizam esta proposta, sendo eles, a descrição darealidade, a crítica da realidade e a criação coletiva – momentos não estanques, quepor vezes interpretam, constituindo-se em etapas de um mesmo e articuladomovimento. www.cursoraizes.com.br
  23. 23. www.cursoraizes.com.br Os procedimentos da avaliação previstos por esta modalidade, que se localizadentre aqueles de abordagem qualitativa, caracterizam-se por métodos dialógicos eparticipantes; predomina o uso de entrevistas livres, debates, análise dedepoimentos, observação participante e análise documental. Não são desprezadosos dados quantitativos, mas a ótica de análise é eminentemente qualitativa. Nesse paradigma o avaliador assume o papel de coordenador dos trabalhos avaliativos e de um orientador dessas ações. Sua função básica consiste em promover situações e/ou propor uma tarefa que favoreça o diálogo, a discussão, a busca e a análise critica sobre o funcionamento real de um programa. Sua ação seguinte é a de estimular a iniciativa do grupo na reformulação e recondução do programa (SAUL, 2001, p.63). Assim, acreditamos que o educador pode continuar valendo-se de diferentesinstrumentos avaliativos, deste que sob a perspectiva de discutir com os educandosos resultados obtidos e utilizar a avaliação para melhorar as atividades de ensino ede aprendizagem. A avaliação sob a perspectiva de emancipação utiliza-se deinstrumentos avaliativos localizados dentre aqueles de abordagem qualitativa, ouseja, que se caracterizam por métodos dialógicos e participantes, predominando ouso de entrevistas livres, debates, análises de depoimentos, observação participantee análise documental. Outro ponto fundamental é o de que o educador tenhaexperiência nas áreas de pesquisa e avaliação, sobretudo em avaliação qualitativase participantes. Questão fundamental é saber qual o perfil de pessoa que se quer formar, deacordo com a proposta da escola. Uma mudança fundamental passa pelo sujeito,mas passa também pelas relações dentro da escola. Se sonharmos com umasociedade em que todos tenham voz e vez, então é preciso modificar tudo.PERRENOUD (1999) afirma que mudar a avaliação é mudar a escola.VASCONCELLOS (1998) diz que mudar a avaliação é mudar a sociedade... No finalo que está se discutindo é um projeto de sociedade. Nós acreditamos em umasociedade que tenha lugar para todos? É possível construí-la? É preciso que tanto educador quanto ao educando saibam compreender oseu espaço de autonomia e começar a construir esta nova sociedade com novos epequenos passos, construídos coletiva e concretamente. O educador precisa desta www.cursoraizes.com.br
  24. 24. www.cursoraizes.com.brperspectiva de processo para resgatar sua alegria no ensinar e sua potênciaenquanto professor. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho buscou apresentar a avaliação como sendo um processoinvestigativo, democrático e libertador, ressaltando a importância da coerência entrea proposta pedagógica e a avaliação adotada, fundamentando-se numaepistemologia do conhecimento. “Avaliação” é um tema pertinente nas atuais discussões pedagógicas. Arealidade dos tempos atuais nos mostra uma sociedade em constante mutação,diversificada e globalizada. Vivemos a era da informação e as pessoasacompanham ou sofrem as influências de tais movimentos. O presente trabalho aborda a temática da avaliação sob o enforque daavaliação emancipatória, com vistas a uma mudança significativa na práticaeducativa. A situação vivida hoje no sistema escolar em termos de avaliação é muitoproblemática e tem profundas raízes. Este não é um problema de apenas umadisciplina, curso, série ou escola, mas sim, é problema de todo o sistemaeducacional inserido em um sistema social que impõem certas práticas. A era que vivemos exige uma ressignificação das práticas educativas,voltando-se à formação e educação de novos sujeitos. Quando falamos em novossujeitos, os queremos críticos, conscientes e autônomos significando que devemosrealizar a avaliação segundo uma proposta libertadora, que está voltada para ofuturo que pretende transformar, a partir da crítica, do auto-conhecimento, daautonomia para tomar decisões conscientes, levando o educando a descrever suaprópria caminhada e a criar suas próprias alternativas de ação. www.cursoraizes.com.br
  25. 25. www.cursoraizes.com.br REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICASANTUNES. C. Avaliação da Aprendizgem Escolar. 3 ed. Petrópolis – RJ Vozes,2003 (Fascículo 11)ESTEBAN, M. T. et alu. O que sabe quem erra? Reflexões sobre a avaliação e ofracasso escolar. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.GADOTTI, Moacir. Pedagogia: diálogo e conflito. São Paulo: Ática, 1993.HOFFMANN, Jussara. Avaliar para promover: as retas do caminho. PortoAlegre: Mediação: 2001.LIMA, Adriana de Oliveira. Avaliação Escolar – Julgamento x Construção. 9.ª edição,Petrópolis, Vozes, 2004.LUCKESI, Cipriano. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos eproposições. São Paulo: Cortez, 1997.PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre:Artes Médicas Sul, 1999.SAUL, Ana Maria, Avaliação Emancipatória. São Paulo: Cortez, 1991, pp. 7-71.SANT’ANNA, Ilza Martins. Por que Avaliar? Como Avaliar? – Critérios einstrumentos. 10ª edição, Vozes, Petrópolis, 2004.VASCONCELLOS, C. S. Avaliação – Concepção Dialética – Libertadora doProcesso de Avaliação Escolar, 9 ed – São Paulo. Libertad: 1998. – (CadernosPedagógicos do Libertad; v. 3). www.cursoraizes.com.br

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