Your SlideShare is downloading. ×
0
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

82570347 da-diaspora-identidades-e-mediacoes-culturais

2,948

Published on

1 Comment
3 Likes
Statistics
Notes
  • Stuart Hall was awesome.
       Reply 
    Are you sure you want to  Yes  No
    Your message goes here
No Downloads
Views
Total Views
2,948
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
177
Comments
1
Likes
3
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. Stuart Ha
  • 2. " jetoria de Stuart Hall como inte- al comec.ou no bojo da reelabo- i do que e ser de esquerda, depois errota pela Uniao Sovietica do .mento antiestalinista na Hungria, 1956. Continuou nos anos 60 e em meto a preocupac.ao com a cente influencia dos meios de unicac,ao na cultura, ao mesmo 30 democratizadora e — segundo dic,ao bem-pensante, de esquerda Je direita — avittante. E nesse )do que preocupaooes ferninistas cismo entram explicitamente DA DIASPORA seu repertorio. Sua trajetoria IDENIIDADES E MEDIATES CULTUIAIS agua, nesses ultimos vinte s, na preocupagao em repensarjltura no meto de uma globali- io complexa e contraditoria. Esse momento em que as identidadesurais se tornam lances discursivosfundamental tmportancia para:m os faz. E nessa ultima fase, a deilizar a globaliza^ao e as politicas:urais, que Halt tornou-se uma dasicipais referencias atuais sobredimensoes politico-cutturais dabalizagao, vistas a partir da dias-a negra. Ao longo desse caminho,.I! foi protagonista dos EstudosIturais, com seu projeto de pensarultura em urn precario e vital equi-rio entre a valoriza^ao do trabalho
  • 3. STUART HALL DA DIASPORA IDEN1IDAOES E MEDIATES CUL1URAIS Liv SOVIK Adelaine La Guardia Resende Ana Carolina Escosteguy Claudia Alvares Francisco Rudiger Sayonara Amaral BrasiliaBelo Horizonte Representacao daEditora UFMG UNESCO no Brasil 2003
  • 4. © 2003 dos originals em ingles by Stuart Hall© 2003 da traducao by Editors UFMGEste livro on parte dele nao pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorizatao cscrita do CREDITOS DOS TE3 i Idien^fdades eEditor. culturaisO autor e responsavel pela escolha e pela apresentacao dos fatos contidos nesla publicafao e pelasopinioes aqui cxpressas, que nao sao necessariamente as da UNESCO e nao compromeiem aOrganizacao. As designates empregadas e a apresenta9ao do material nao implicam a expressao dequalquer opiniao que seja, por parte da UNESCO, no que diz respeito ao status legal de qualquer pais, PARTE 1 - CONTROV^RSLterrii6rio, cidade ou area, ou de suas autoridades, on no que diz respeilo S delimitacao de suas < 198681/05)fronteiras ou de seus limites. pensando a diaspora: reflexoes sobre a terra no exterior HALL, S. Thinking the Diaspora: Home-Thoughts from Abroad. Small Axe H179d Hall.Stiiari v. 6, p. 1-18, Sept., 1999. Da diaspora: Identidades e mediacoes culturais / Stuart Hall; © Indiana University Press. Organizacao Liv Sovik; Traducao Adelaine La Guardia Resende ... let all. - Belo Horizonte: Editora UFMG; Brasilia: Representacao da UNESCO no Quest5o multicultural Brasil, 2003. HALL, S. The Multi-cultural Question. In: HESSE, Earner (Org.). Un/settled 4M p. (Humanitas) Multiculturalisms. London: Zed Books, 2000. ISBN: 85-7041-356-4 Quando foi o p6s-colonial? Pensando no limlte I. Identidade Social 2. Cultura 3. Etnologia I. Sovik, Liv HALL, S. When Was "The Post-colonial"? Thinking at the Limit. In: CHAMBERS, 11. Resende, Adelaine La Guardia III. Tftulo IV. Serie Iain; CURTI, Lidia (Org.). The Post-Colonial Question: Common Skies, Divided CDD: 306 Horizons. London: Routledge, 1996. CDU: 316Catalogacao na publicacao: Divisao de Planejamenlo e Divulgacao da Biblioteca Universilaria - UFMG PARTE 2 - MARCOS PARA OS ESTUDOS CULTURAISED1TORACAO DE TEXTO: Ana Maria de MoraesPROJETO GRAFICO: GI6ria Campos - Mangd • Estudps Culturais: dois paradigmasCAPA: Stuart McPhail Hall, diptico de Dawoud Bey, acervo da National Portrait Gallery, Londrcs. Reprinted by permission of Sage Publications from Stuart Hall, "Cultural Studies:REV1SAO E NORMALIZACAO: Simone de Almeida Gomes "-* Two Paradigms", in Media, Culture and Society, 2, 57-72, 1980. "VISAO DE PROVAS: Cida Ribeiro e Lfvia Renala L. Salgado © Sage Publications 1980. -tRh .TSAO TfiCNICA: Liv Sovik 1 ^.V "PRODUCAO GRAFICA: Warren M. SantosFORMATAgAO DO MIOLO: Cassio Ribeiro Significant), representacao, Ideologia: Althusser e os debates pos- estruturalistas.UN1VERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAISReitora: Ana Lucia Almeida Gazzola 50 HALL, S. Signification, Representation, Ideology: Althusser and the Post- Structuralist Debates. Critical Studies in Mass Communication, v. 2, n. 2,Vice-Reitor: Marcos Borato Viana Sistema Integrado p. 91-114, June 1985. Used by permission of the National CommunicationEDITORA UFMG de Bibliotecas/UFES Association.Av. Antonio Carlos, 6627Ala direita da Biblioteca Central - lerreo - ^Estudos Culturais e seu legado teoricoCampus Pampulha31270-901 - Belo Horizonte/MG HALL, S. Cultural Studies and Its Theoretical Legacies. In: GROSSBERG,Tel.: (31) 3499-4650 . Fax: (3D 3499-4768 Lawrence et al. (Org.). Cultural Studies. New York: Routledge 1992www.editora.ufmg.br cditora@ufmg.br p. 277-286.CONSELHO EDITORIAL CONSELHO EDITORIAL DA : Para AUon White: metaforas de transformacaoTITULARS UNESCO NO BRASIL HALL, S. For Allon White: Metaphors of Transformation. In: WHITE, Allon.Antonio Luiz Pinlio Ribeiro, Bcairiz Rezende Danlas, Jorge Wertliein, Juan Carlos Tedcsco, Carnival, Hysteria and Writing. Oxford: Clarendon Press, 1993. Reprinted byCados Antonio Leite Brandao, Heloisa Maria Murgel Cecilia Braslavsky, Adarna Quane,Starling, Luiz Otavio Fagundes Amaral, Maria das Celio da Cunha permission of Oxford University Press.Gracas Santa Barbara, Maria Helena Damascene eSilva Megale, Romeu Cardoso Guimaraes, Organizacao das Nafoes Unidas para aWander Meio Miranda (Presidente) Educacao, a Ciencia e a Cultura PARTE 3 - CULTURA POPULAR E IDENTIDADESUPLENTES Representacao no BrasilCristiano Machado Gontijo, Denise Ribeiro Scares, SAS, Quadra 5 Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/ -r Notas sobre a desconstrucao do "popular"Leonardo Barci Castriola, Lucas Jose Bretas dos IBICT/UNESCO, 9° andarSantos, Maria Aparecida dos Santos Paiva, Maurflio 70070-914 - Brasilia - D E - Brasil HALL, S. Notes on Deconstructing "the Popular".Nunes Vieira, Newton Bignotto de Souza, Tel.: (55 61) 321-3525 Fax: (55 61) 322-4261 © History Workshop Journal, 1981, by permission of Oxford University Press.Reinaldo Martiniano Marques, Rkardo Castanheira UHBRZSuncsco.org.brPimenta Figueiredo
  • 5. O problema da ideologla: o marxismo sem garantias D M N OHALL, S. The Problem of Ideology: Marxism Without Guarantees. In:MATTHEWS, B. (Org.). Marx: 100 Years on. London: Lawrence & Wishart,1983, P- 57-84.A relevancia de Gramsci para o estudo de raca e etnicidadeHALL, S. Gramscis Relevance for the Study of Race and Ethnicity. Journal ofCommunication Inquiry, 10 (2), 5-27.© 1986 by Sage Publications. Reprinted by permission of Sage Publications, Inc. "negro" e esse na cultura negra?HALL, S. What is This "Black" in Black Popular Culture? Este livro tern suas origens na vinda de Stuart Hall ao© 1998 Black-Popular Culture: Discussions in Contemporary Culture #8,edited by Michele Wallace. Reprinted by permission of The New Press. Brasil, quando proferiu uma palestra na sessao de abertura(800) 233-4830. (Led. Seattle: Bay Press, 1992.) do VIII Congresso da Associate Brasileira de Literatura Comparada, realizado na Bahia em julho de 2000. Portanto,PARTE 4 - TEORIA DA RECEPgAO sinceros agradecimentos se fazem a Diretoria da ABRALIC,< na gestao de 1998-2000, particularmente a sua presidente,Reflexoes sobre o modelo codificacao/decodifica^aoHALL, S. et al. Reflections upon the Encoding/Decoding Model. In: CRUZ, Evelina Hoisel, e a vice-presidente, Eneida Leal Cunha. AJon; LEWIS, Justin. Viewing, Reading, Listening. envergadura deste livro deve muito ao interesse da Editora© 1994 by Westview Press. Reprinted by permission of Westview Press, amember of Perseus Books, LLC. UFMG em publica-lo. Adelaine La Guardia Resende foi uma excelente parceiraCodificacaWdecodificacao de trabalho. Ela traduziu para um portugues claro e proximoHALL, S. Encoding/Decoding. Culture, Media, Language-, Working Papers inCultural Studies, 1972-1979- London: Hutchinson/CCCS, 1980. do original a maioria dos textos e revisou comigo todos eles. A revisao tecnica de textos repletos de metaforas, termino-PARTE 5 - STUART HALL FOR STUART HALL logias conceituais especializadas e referencias tiradas de objetos os mais diversos — que passam por Volochinov, aA formacao de um intelectual diasporico: uma entrevlsta com StuartHall, de Kuan-Hsing Chen banda The Police e Hamlet— encontrou nela uma interlocu-HALL, S.; CHEN, K.-H. The Formation of a Diasporic Intellectual: an tora sempre disposta a discutir o que poderia parecer meroInterview With Stuart Hall by Kuan-Hsing Chen. In: MORLEY, David; detalhe, concordando, discordando e recomendando solucoes.CHEN, Kuan-Hsing (Org.). Stuart Hall: Dialogues in Cultural Studies-London: Routledge, 1996. Recebi generosas contribuicoes, tambem, de Nilza Iraci, na revisao de "Que negro e esse na cultura negra?" e na transposicao para o portugues do Brasil de "Estudos culturais e seu legado teorico", e de Itania Gomes em "Codificacao/ Decodificacao". Esta obra talvez tivesse naufragado nao fosse a dispo- sicao de Stuart Hall de sugerir textos e ver publicado no Brasil um livro unicamente de sua autoria, coisa rara. Seu apoio ao projeto, sua generosidade em comentar a apresen- tacao e sua correspondencia precisa e bem-humorada durante os dois anos em que este livro foi gestado, foram preciosos incentives ao trabalho e ao bom humor.
  • 6. u M O APRESENTACAO PARA LER STUART HALLP AjfR T E CONTROVERSIAS JH. PENSANDO A DIASPORA REFLEXOE5 SOBKE A TERRA NO EXTERIOR 25 A QUESTAO MULTICULTURAL 51 QUANDO FOI O P6S-COLONIAL? PENSANDO NO LIMITE 101P A>K T E MARCOS PARA OS ESTUDOS CULTURAIS ESTUDOS CULTURAIS DOIS PARADIGMAS 131 S1GN1FICACAO, REPRESENTACAO, 1DEOLOGIA ALTHUSSER E OS DEBATES POS ESTRUTURALTSTAS 160 ESTUDOS CULTURAIS E SEU LEGADO TE6RICO 199 PARA ALLON WHITE METAFORAS DE TRANSFORMAgAO 219 T E CULTURA POPULAR E IDENTIDADE NOTAS SOBRE A DESCONSTRUgAO DO "POPULAR" 247 O PROBLEMA DA IDEOLOGIA O MARXISMO SEM GARANT1AS 265
  • 7. A RELEVANCIA DE GRAMSCI PARA O ESTUDO DE RA£A E ETNICIDADE 294 QUE "NEGRO" £ ESSE NA CULTURA NEGRA? 335T E TEORIA DA RECEP£AO APRESENTA^AO REFLEXOES SOBRE O MODELO DE CODIFICAgAO/DECODIFICAgAO UMA ENTREV1STA COM STUART HALL 353 PARA m STUARl HALL CODIFICAgAO/DECODIFICAgAO 387 STUART HALL FOR STUART HALL A FORMAgAO DE UM INTELECTUAL DIASP6RICO CLQiito de origem dps Estudos_Culturais reza que Stuart LIMA ENTREVISTA COM STUART HALL, DE KUAN HS1NG CHEN 407 Ha]i_e__seju_pai. Foi^dirjetor_^Q_X£atre_for_jC_Qntej2r3^_ajy Culturaj_J?tudies (CCCS)jda Universidade de Birmingham, na Inglaterra, durante seu periodo mais fertil, qsjuios 70. Na verdade e um dos pais, pois o mito de origem inclui Richard Hoggart, Raymond Williams e, as vezes, E. P. Thompson nesse papel. Mas foi Stuart Hall quern assumiu os Estudos Culturais como projeto institucional na Open University, e continuou, periodicamente, a se pronunciar sobre os rumos de algo que se tornou um movimento academico-intelectual internacional. Ao mesmo tempo, Stuart Hall recua diante da autoridade que Ihe e atribuida. Faz de seu estatuto paterno^uma van- tagem de testemunha ocular (cf. LT).1 Ou ironiza-o, como fez em palestra no congresso da Associacao Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), em Salvador, em julho de 2000, ao falar da importancia, para ele, de ler Roger Bastide e Gilberto Freyre nos anos 50. Os_Estudos Culturais teriam origem, inclusive^_b£asileira. O recuo de Hall e indicacao de uma atitude peculiar diante do trabalho intelectual, pela qual os antepassados e contemporaneos teoricos sao, a um so tempo, aliados, interlocutores, mestres e adversaries, de cuja forca Hall se apropria, sem se preocupar em denunciar pontos fracos ou demonstrar devocao filial as suas ideias. Npjnelhor sentido brasileiro, Hall e antropofago. Deglutiu
  • 8. Marx, Gramsci, Bakhtin. Saboreou Louis Althusser, Raymond final dos anos 50 e inicio dos 60, que incluiu E. P. Thompson,Williams, Richard Hoggart, Fredric Jameson, Richard Rorty, Raymond Williams, Raphael Samuel, Charles Taylor, muitosJacques Derrida, Michel Foucault, E. P. Thompson, Gayatri deles originahos jas^margens, seja por motives de classe ouSpivak, Paul Gilroy, com algo de len Ang, Cornel West, Homi geografia-^Essa "nova esquerda" se cristalizou a partir^dosBhabha, Michele Wallace, Judith Butler, David Morley, assim acontecimentos de 1956: a invasao sovietica da Hungria e a crise do Suez, quando as forcas israelitas, francesas e brita-como ingeriu Doris Lessing, Barthes, Weber, Durkheim e Hegel. nicas atacaram o Egito do nacionalista arabe Nasser. Nao se Existem eventualmente duas excecoes a metafora antro- identificava nem com o stalinismo, com o qual os membrospofagica para o Hall leitor. Ele e filho amotinado de F. R. do Partido Comunista estavam alinhados com diversos grausLeavis, grande defensor do canone literario como moralmente de entusiasmo, nem com o nacionalismo britanico, com seusuperior a cultura de massa que dominou a critica literaria projeto imperialista. Nessa perspectiva_critica. Hall foi editorbritanica nosvanos 30 a 50 do seculo XX. E se filia ao metodo da New Left tft^wMte 19_^aJJ26l^j^e as prioridades de Gramsci, dentre as quais esta fazer um Tfiscussao sobre novas^cornpreensoes de classe social, _mpvi-trabalho teorico que contribua para uma ideologia e uma IrrenTos^spciais eTp.olitica, da ,questao... do..des_armamentocultura "populares", em contraposicao a cultura do bloco de nucleate — a partir dos disturbios raciais no bairro Nettingpoder (cf. NP), ao mesmo tempo em que se desconfia do Hill em 1958 — sobre a incipiente tjuestao .racial britanica. alcance politico limitado do trabalho intelectual. Quando Stuart Hall participou da fundacao, em 1964, do Centre for colocado na posicao de grande mestre e exaltado por aquilo Contemporary Cultural Studies (CCCS)j_da Universidade de que escreveu, Hall desconversa, pois.^maisjmportante do Birmingham, que deu o nome de(Estudos_C_ulturai^a uma que criar discipulos e alimentar o debate sobre_a_ tematica^ _f^rma_de_pensar sobre cultura^ Financiado parcialmente com bla^Ue^e^jnTcomerrtario sobrelflmportancia do seu ensaio os lucres das vendas de The Uses^fJLiteracy, de Hoggart, "Que negro e esse na cultura negra?", reforcou a metafora sobre o consume cultural da classe operaria inglesa, ele antropofagica ao dizer: "Help yourself." Sirva-se. dirigiu o Centre nolTseus primeiros quatro anos. Foi no -- _ na_ de uma periodo sob a direcao de Stuart Hall, de 1968 a 1979, que se familia de classe media, adquiriu, ainda jovem, consciencia consolidaram os Estudos Culturais, a partir de uma preocu- "da contradicao da cultura colonial, de como a gente sobre- pacao politica e do projeto de colocar em bases teoricas mais vive a experiencia da dependencia colonial, de classe e cor, solidas as leituras de "textos" da cultura, que incluiam desde e de como isso pode destruir voce, subjetivamente" (FID). o fotojornalismo 2 e programas de televisao, ate a ficcao O movimento pela independencia da Jamaica fez parte do romantica consumida por mulheres e as subculturas juvenis ambiente em que ele cresceu, ao passo que a Segunda Guerra britanicas (leia-se teds, mods, skinheads, rastas) as vesperas Mundial foi fundamental ao suscitar nele, estudante secun- do movimento punk. 3 darista, uma consciencia historica e geografica como contexto O pensamento de Hall passa por conviccoes democraticas das preocupac.6es anticoloniais de sua geracao. Enquanto seus e pela agucada observacao da cena cultural contemporanea. colegas pretendiam estudar economia, ele se interessou mais A maioria de seus textos teoricos responde a uma conjuntura pela historia e sonhou em ser escritor. Em 1951, foi estudar especifica, incluindo ai um momento da discussao teorica literatura em Oxford "e "acabou n"a~o" mais voltando a morar sobre a cultura. Deixam clara sua ligacao com o projeto na Jamaica. - de formular "estrategias culturais que fazem diferenca e Num primeiro momento, Hall se associou a jovens cari- deslocam (shift) as disposicoes de poder" (QN). Desloca- benhos que formaram a primeira gerac.ao de uma inteli- mento, alias, e a imagem que Hall faz da relacao da cultura gencia negra, anticolonialista. Mais tarde, fez parte de um com estruturas sociais de poder; pode-se fazer pressoes grupo fundamental para a formacao da New Left inglesa, do atraves de politicas culturais, ern uma (guerra~de posicoes", 10 11
  • 9. mas a absorcao dessas pressoes pelas relacoes hegemonicas ser "desenterradas delicadamente de seu solo concrete e dede poder faz com que a pressao resulte nao em transfor- sua especificidade historica e transplantadas para um novomacao, mas em(deslocamentoP)da nova posicao fazem-se terreno, com muito cuidado e paciencia" (RG). Ao fazernovas pressoes. isso, as ideias se tornam uteis para pensar ra£a e etnicidade As pressoes se efetuam dentro de uma situacao complexa. em outros climas e epocas. Em outro momento, comparaEm um trecho do texto intitulado "Que negro1 e esse na o ambiente de trabalho do CCCS a uma estufa (FID) altamentecultura negra?", Hall explica o dificil quadro em que se faz seletiva, onde os Estudos Culturais puderam ser cultivadospoliticas culturais negras e se produz cultura: em condicoes otimas, embora artificials. Teorizar^significava responder a enigmas e lidar cpjn^^jmj^oo^d^jiQY^s^m^vi^ nientos sooais., No~CCCS tratou-se de travar uma luta com e Etnicidades dominantes sao sempre sustentadas por uma eco- nomia sexual especifica, uma figuracao especifica de masculi- contra teorias, como se fosse Jaco com o anjo (cf. LT). Lutar nidade, uma identidade especifica de classe. Nao existe garantia, com as teorias dessa forma significava nao aceitar sua autori- quando psocuramos uma identidade racial essencializada da dade como se fosse divina. O trabalho teorico e um corpo-a- qual pensamos estar seguros, de que sempre sera mutuamente corpo com outros teoricos, sua autoridade e seus discipulos, libertadora e progressista em todas as outras dimensoes. [...] De sua historia e mudancas de rumo. E um jogo agonistico, mas fato nao € nada surpreendente a pluralidade de antagonismos nao e uma mera brincadeira, pois e fundamentalmente util e diferencas que hoje procuram destruir a unidade da politica negra, dadas as complexidades das estruturas de subordinacao na busca de respostas a questoes complexas que grupos e que moldaram a forma como nos fomos inseridos na diaspora sociedades enfrentam. Pois, para Hall, o social ainda existe, negra (QN). sim, e como Deleuze, ele entende que as teorias sao caixas de ferramentas a serem usadas em seu beneficio. Ressaltam-se as tensoes: a pergunta sobre identidade negra Com a preocupacao de fazer dialogar uma teorizacaoa que se refere o titulo do artigo reverte para a consideracao complexa e sofisticada com as demandas de segmentos socials,critica da etnicidade dominance; a id_entidade_jiegra_. e_ gtra- JHtal^transferiu-se. em 1979. de Birmingham_para a_Opjgn t inclusive dgjgenero e orien- University, uma instituicao de ensino superior na qual adultostacao sexual. A politica identitaria essencialista aponta para obtem diplomas universitarios atraves de uma combinacaoalgo pelo qual vale lutar, mas nao resulta simplesmente em de educacao a distancia e seminaries intensivos. De la dirigiu,libertacao da dominacao. Nesse contexto complexo, as com exito, esforcos para^institucionali7:ar Qg_EsjLudos Culturaispoliticas culturais e a luta que incorporam se trava em muitas britanicos, fazendo deles abordagem que engajavafrentes e em todos os niveis da cultura, inclusive a vida coti- os intelectos nao so na estufa. mas tambem em_camposdiana, a cultura popular e a cultura de massa. Hall ainda mais amplo_s_da_p_opulacao britanica cujo_aces_^J_e_ducacag acrescenta um complicador, no final do texto: o meio mercan- superior era Umjtado ou recente, Nos anos 80 e 90, veio a tilizado e estereotipado da cultura de massa se constitui de aceitacao dos Estudos Culturais no meio academico britanico representacoes e figuras de um grande drama mitico com o e sua incorporacao pela industria editorial como linha de qual as audiencias se identificam, .e^mais uma experiencia producao academica e de interesse geral, com boas vendas._de_ fantasia do que de auto-reconhecimento. Finalmente, Stuart Hall assistiu a um crescente interesse pelos A construcao por Hall do problema e argumento sobre Estudos^Culturais fora da Gra-Bretanha, por estudlosos nos politicas culturais negras coloca em pauta uma constelacao mais diversos lugares, principalmente no enorme e rico meio de ideias em tensao umas com as outras, criando uma espe- universitario dos Estados Unidos. cie de cama-de-gato ou ponte pens^l. O proprio Hall usa Q__trahajho_d£_Hall focaliza a "questao paradigmatica da metaforas diferentes para descrever seu trabalho. Ja fez teoria cultural", ou seja, "c.Qrno_!pensar, de forma nao redu- jardinagem teorica com as ideias de Gramsci, que podem .^as. re 1 acqes_ejitre_^i^ociaj/.__ejp_simholico" (AW).12
  • 10. O pensamento tern um peso especifico, pois o_discurso teorico rasura" (metafora derridiana, a qual Hall recorre frequente- £ uma^ratica^ultu^l^ntica^que se faz^comapretensao de mente) da constatacao de ingenuidade. Este intelectual, intervir em uma discussaojnais ampja ; por natureza, ajteoiia lembra, trabalha em duas frentes. Deve saber mais do que o tern ess^pote^noal^de^ntervgngao. Quando reve a questao intelectual tradicional, estar "na vanguarda do trabalho te6- da~ ideblogia, Hail diz: "Tambem quero coloca-la [a ideologia] rico intelectual" e, ao mesmo tempo, repassar seu saber para enquanto um problema geral — um problema para a teoria intelectuais fora da academia. Os intelectuais tradicionais porque tambem e um problema para a poKtica e a estrategia." se colocam ao lado do conhecimento e interesses sociais (PI)- A teoria e uma tentativa de solucionar problemas poli- ja estabelecidos. Os intelectuais organicos sag comprome- ticos e estrategicos; nao uma elaboracao a partir deles. ^A tidos com un^^abglho inteteclu^ teoria e uma tentativ^^de_^aber_algo__que, por sua vez, leva sociais e economicas. a um novo ponto de partida em um p_r_ocesso_se.rn.pj:ejnac.a- No mesmo texto, apresentado a uma plateia de academicos Bacfo de~Tndagag"ao~e~descoberta; nao_e um sistema_ _C[ue norte-americanos, na conferencia sobre cultural studies na util.na A University of Illinois at Champaign-Urbana, em 1990, Hall diferenca de enfase e importante e esclarece por que, para afirma a necessidade de uma compreensao politica dos Hall, a teoria e "um conhecimento conjuntural, contestado Estudos Culturais que leve em conta a "sujeira do jogo e local", mais do que uma manifestacao da vontade de ver- semi6tico", a qualidade "mundana" do que esta em jogo, dade (LT). Por esta razao, o legado teorico do CCCS nao toma seu arraigamento em fenomenos sociais que incluem em- a forma de um referencial teorico, na visao de Hall, mas de presas e classes sociais, nac.6es e generos. O riso de superio- um posicionamento sobre o que significa fazer trabalho inte- ridade perante o romantismo nos primordios dos Estudos lectual serio hoje. Essa postura entende os Estudos. Oolturais Culturais encontra seus limites em novas metaforas: QJL como projeto que implica o_envolyimento com — e a consti- Estudos CuJturai-S—nascejram impuros. nao como denomi- tuicao teorica de — forc.as de mudanca_econ 6m icaj^ social. nac.ao ou igreja academica. Metaforas regem a compreensao Os textos neste livro seguem as convenc,6es do genero da situacao retratada, e a compreensao do que esta em jogo teorico-academico. Podem ser lidos em busca de concei- passa pelas tensoes que a comparacao metaforica suscita. Mas tuac,6es de hegemonia, ideologia, agenciamento politico, as metaforas nao sao somente a forma elegante que Hall tern art.iculac.ao, globalizacao, por exemplo, ou, em uma leitura de dizer varias coisas ao mesmo tempo. Sao, em si, reconheci- mais transversal, a perspectiva de Hall sobre. a relacao entre mentos de que a substancia, a materialidade da vida social, ao©•os meios de comunicacjio e a cultura, o lugar da historia no mesmo tempo escapa e e captada na linguagem, Os Estudos_ estudo da cultura contemporanea, a sua epistemologia ou, Culturais se fazem na propria ...tggsaoentre_a discursividade e ainda, a maneira pela qual le questoes das etnicidades domi- putras questoesj^ujsjrnp^^ nantes e de genero. Essas leituras e outras se enriquecerao ramente abarcadas pela textualidade critica" (LT). Um tema ao levar em conta a consciencia de jjall dametafora xomn que capta essa tensao claramente e o da _mistura_ cultural, caminho e limite de_compreensao. Em "Estudos Culturais e me^tic^gejrj^JubrjclJ^rjacL-Hall afirma o valor estrategico dos sexT le gacTote orico " t relata que "a~b~usca de uma pratica insti- discursos de identidade negra diante do racismo, com suas tucional que pudesse produzir um intelectual organico" foi a multiplas raizes nos diversos niveis da formacao social: poli- metafora que orientou o trabalho do CCCS nos anos 70, tico, economico, social, cultural. Ao mesmo tempo, em um embora nao se conseguisse identificar o "movimento historico movimento que parece paradoxal, enfoca_sempjre .o jogo emergente" no qual o intelectual organico se inseriria. Tam- da diferenca, a differance, a natureza intrinsecamente hibri- pouco, no CCCS, se teria reconhecido tal intelectual organico dizac|a_de_ toda tdegtidade e das_i.d^XLtj.da_d£sldias,po^ricjt.s que se procurava produzir, diz. A metafora gramsciana de ernesp,ec . O paradoxo se desfaz quando se entende que *r————- trabalho intelectual presente em Birmingham esta "sob a .a (Tdentidade)e um lugar assume, uma costura de 14 15
  • 11. e coatexto, e nao uma essencia ou substancja a esclarecem suas preocupacoes teoricas. Nos ajudam a entenderser examinada. os paralelos entre as circunstancias de Gramsci e o contexto Outra tensao entre discursos e suas circunstancias, obser- contemporaneo do estudo de raca e etnia. Mapeiam o terrenovada no trabalho de Hall, e gerada pela consciencia da no qual as ideias de Gramsci cresceram.posicao, da tensao entre quern narra e o que e narrado no No entanto, a elaboracao da posiclo (positionality) naotrabalho critico-teorico, uma consciencia tipica da atual cri- deve ser confundida com uma especie de extrapolac.ao teo-tica cultural. A abordagem de Hall a essa questao responde, rica de questoes particulares. Nem se deve entender que _ode um lado, a qualquer tendencia de desarraigar as teorias reconhecimento da localizagao historica seja uma questao dedos problemas aos quais se dirigem, em um processo de reconhecer e, portanto, de neutralizar a subjetividade comoexcessiva abstracao. Esses excesses, frequentemente, levam ponto de partida de qualquer discurso. Ao contrario, quernao determinismo e reducionismo. Sobre esse tema, Hall escreve teoria precisa gj]j££4ec-QsJJrmtes de sua experiencia"lutou" com(Marx> o economicismo do marxismo classico. e, em um esforc.o de imaginacao, de abstrac/ao, comunicar-se Seu engajamento com Marx foi por se sentir atraido por uma alem delas. Afirma Hall em "Estudos Culturais e a politica teoria~dcTcapital e classe social, de poder e exploracao, da da internacionaliza^ao": pratica da produc.aq de conhecimentos criticos; mas discor- dava do espae/o relativamentejgecrueno destinado-a-cultura, a Sempre se deve ter consciencia da forma especifica da propriaIdeblogia e ao simboligo^elo marxismo classico, e do euro- exisiencia. As ideias nao sao simplesmente determinadas pela centrismo implicito no modelo de transformacao capitalista de experiencia; podemos terjxleias fora da propria experiencia.. Marx, pois ignora o fato de que as potencias metropolitanas Mas precisamos reconhecer tambem que a experiencia tem uma impuseram o capitalismo nas colonias, ele nao evoluiu rumo forma, e se nao refletirmos bastante sobre os limites da propria as colonias de forma organica, "a partir de suas proprias trans- experiencia (e a necessidade de se fazer um deslocamento conceitual, uma traducao, para dar conta de experiencias que formacoes".^ Decorre desse engajamento com Marx a distingao pessoalmente nao tivemos), provavelmente vamos falar a partir recorrente, em Hall, entre a determinacao (determinacy) do continente da propria experiencia, de uma maneira bas- enquanto condicao e gama de possibilidade, enquanto loca- tante acritlca. Eu acho que isso acontece nos estudos culturais lizacao e orientacao historicas, de um lado, e a determinacao hoje. 5 (determination) que implica em um modelo de sistema eco- nomico capitalista integrado e autotransformador, que A imagem do iludido, ilhado, falando a partir de seu arrasta outras dimensoes da sociedade consigo, definindo-as proprio continente, coincide com as criticas frequentes de no caminho. Hall ao "puramente discursive" e a "fluencia teorica" (LT). Hall Novamente,(ijnimscrpode servir de Hustracao de como a explica o que separa o discurso teorico fluente das questoes distincao funciona em Hall. Um breve relato biografico desse de "poder, historia, politica" que esse discurso ignora, citando sardenho, que migrou para o norte da Italia e se envolveu sua experiencia como diretor do CCCS na epoca do surgimento com o movimento operario e o Partido Comunista em Turim, explosive do feminismo, quando descobrkr que "falar de abrir e feito em "A relevancia de Gramsci para o estudo de raca e mao do poder e radicalmente diferente de ser silenciado" (LT). etnicidade". Mesmo depois de abandonar o nacionalismo Mas a questao nao e de opor a experiencia vivida ao discurso, de sua juventude a favor do comunismo, Gramsci pensou a de tal forma que a subjetividade autorize o discurso, mas reco- relacao entre setores camponeses e industriais, e as desi- nhecer que o trabalho de elaborac.ao e produ^ao de cultura, gualdades regionais criadas a partir de relacoes internas em todos os ambitos, e de interesse publico, politico. "colonials", conforme Hall as qualifica. A localizacao de Evidentemente, sempre ha diferentes interesses em jogo. Gramsci na Italia em uma conjuntura historica especifica, uma Em Hall, F. R. Leavis e uma referenda negativa recorrente e descricao do caminho que adotou e os problemas que tratou 16 17
  • 12. representa interesses politicos e teoricos antagonicos, ate diasporico € constitutiva de seu trabalho, enquanto ele falamesmo porque a relacao entre a cultura e a sociedade do centre da Europa.contemporanea e o foco de interesse de ambos. Leavis^e O conteudo deste livro pode ser percorrido com diversosreferencia negativa porque aposta na Civilizacao (europeia) mapas e, entre eles, foram pensados pelo menos quatro: a Qe nos classicos da literatura como antidoto aos efeitos dis^ussag^da^dejiJldacIe rulniral, da questao racial e donefastos da publicidade e da cultura de massa. Memoravel racismq;-aformagao do campo de interesses, a abordagemfrase, escrita por Q. D. Leavis, mulher, colega e adepta de e o acumulo de cojjjiecimentos que se apresentam comoF. R.<Leavis>, resume, em uma caricatura involuntaria, a valo- "Estudos CulturaisVa questao da contestacao a hegernoniarizacao ~do canonico do Leavisism e seu horror diante_da_ oJ[turalnj_sociedade mediatica e de jconsumo;; p^dialogo;3cultura de massa. Sobre a epoca de Shakespeare, Marlowe e critico de Hall com cqrrentes cpntejmppj;aneaA.de_p£nsjamentoa drarfiaturgia elizabetana, Q. D. Leavis escreveu: "As massas sobre cultura,. Os textos, lidos a partir de perspectivas di-tiveram os mesmos divertimentos que seus superiores... versas, criam uma topografia de varios niveis de abstracao,Felizmente, nao tinham escolha."6 A critica recorrente de Hall tons e prop6sitos, de problematicas e preocupagoes teoricasao "puramente discursive", de um lado, e a F. R. Leavis, de diferentes. Comecam com tres ensaios sobre importantesoutro, convergem sobre esse ponto: a sua limitacao aos questoes atualmente em debate.valores e ao "continente" academicos. O ensaio "Pensando a diaspora" aborda identidades cari- O elitismo cultural e o moralismo no estilo dos Leavis benhas diasporicas sob as condicoes contemporaneas detendem a ser coisa do passado na discussao teorica, embora globaliza^ao. Hall examina os mitos de origem, sua necessi-continuem fazendo parte do senso comum, presentes no dade e perigos quando levados ao pe da letra; pensa a Africadesprezo pelo discernimento ou gosto popular. O eurocen- como elemento que sobreviveu e como meio de sobrevi-trismo ainda esta vivo nos pressupostos e discursos da midia vencia na diaspora, dgfende_a hibridiza^ao ou "impureza"e da cultura de massa, a historia colonialista se recicla nos cultural enquanto a "forma emi que odiscursos publicos contemporaneos. Ao definir-se como Assim, a velha politica identitaria de reivindicacao, resposta^inteleclual diasporico", Hall escolhe o lugar que o discurso e negociacao e vista contra um pano de fundo em que aseurocentrico destina a ele, um lugar de negro. Por isso, este intervencoes das margens nunca consolidam uma posie.aoHvro nao tern so um conjuntodeensaios nos quais Hall final, essencial, embora sua afirmacao tenha o que Halltrabalha a questao de raca e racismo, como "Que negro e chama de "repercussoes reais e conceituais" em um processoesse na cultura negra?", "A relevancia de Gramsci para o que envolve nao so a conhecida globalizac.ao economica, masestudo de raca e etnicidade" e "Pensando a diaspora". Quern as dimensoes culturais de fluxos migratorios, a producaoo ler tambem vai encontrar o tema de raca e racismo na artistica e as raizes, novas e antigas. Em "A questao multi-discussao da ideologia em "Significacao, representacao, ideo- cultural", Hall discute as mudancas culturais e politicas nalogia: Althusser e o debate pos-estruturalista". Vai encontrar Gra-Bretanha sob a rubrica abrangente do "multicultural" ereferencias ao legado cultural do colonialismo e reflexoes procura proper uma politica identitaria em uma epoca desobre hierarquias, sua construcao historica e eventuais des- globalizacao contradit6ria, que evite os extremes do indivi-tinos em praticamente todos os ensaios. Hall nao e um teo- dualismo liberal e do relativismo cultural. Embora se dirija arico que se dedica ao "negro-tema", que Guerreiro Ramos situac.ao britanica, marcada por ondas recentes de migracaodefine como "coisa examinada, olhada, vista".7 Tampouco e das antigas colonias, pode ser uma contribuicao para a re-um grande mestre cuja preocupacao com questoes raciais flexao sobre aspectos teoricos da politica cultural brasileira possa ser entendida como uma especie de hobby militante. e as transformacoes do discurso identitario nacional. Fala desde uma dupla diaspora, africana no Caribe e cari- JQuando foi o pos-colonial?" defende o paradigma pos- benha na Gra-Bretanha. Assim, a perspectiva do critico como colonial contra o "retorno do reprimido". o eurocentrismo,18 •Lotf 19
  • 13. e demonstra a importancia atribuida por Hall nao_s6 as poli- Em "A formacao de um intelectual diasp6rico", uma entre- ticas culturais, mas a "politica da teoria" e os rumos do debate vista que pode, com proveito, ser lida em primeiro lugar, Hall"Intel ectuaf. fala das condicoes pessoais, institucionais e historicas de Em "Estudos Culturais: dois paradigmas", de 1980, Hall seu trabalho. Finalmente, em "Codificacao/Decodificacao" avalia os Estudos Culturais ate entao. Examina os pontos uma teoria da recepgao da televisao, talvez seja o texto maisTortes e traces da abordagem culturalista a cultura, a ideo- classicamente teorico, pois e de um alto mvel de abstracao logia e sua articulacao a outros niveis de praticas sociais, e ja gerou muitos estudos e discussoes por contornar a focalizando sobretudo o trabalho de Raymond Williams e seu tradicao behaviorista na pesquisa de audiencia. Publica-se dialogo com E. P. Thompson. Depois, avalia a abordagem junto com "Reflexoes sobre o Modelo Codificar/Decodificar", estruturalista de Althusser e Levi-Strauss. O texto foi escrito em que Hall coloca os termos do modelo em contexto histo- na epoca de uma polemica de E. P. Thompson contra os rico e avalia seus pontos fracos e fortes. althusserianos. Para Hall, Thompson chegava perto demais Estes doze ensaios e as duas entrevistas sao publicados da evocacao de uma experiencia em estado bruto como em uma conjuntura especifica, no Brasil. A identidade racial lastro da narrativa historiografica e da ideologia e abando- brasileira e as formas brasileiras de racismo estao no centra nava precipitadamente &• contribuicao de Althusser.8 "Signifi- do debate politico-cultural. Estao nos discursos dos meios de cacao, representacao, ideologia", de 1985, da continuidade comunicacao e nos produtos culturais de massa, em pronun- ao debate em torno de cultura e ideologia, relembrando o ciamentos oficiais e nas universidades, onde a propensao a Althusser de A favor de Marx, e fazendo sua critica a partir estudar as tendencias sociais como se fossem externas foi de teorias da linguagem de Bakhtin/Volochinov.9 "Estudos. interrompida pela proposta de cotas para alunos negros nas Culturais_e^s_eu legado teorico", publicado em 1992, ^e urn universidades, feita por diversas instancias de governo. As texto mais^metodologico e politico, e faz o balalico mais^ politicas federals para a educacao superior vem provocando recemejdos Estados--Culturais. "Para Allon White: metaforas um debate sobre o lugar social e institucional do trabalho de transformacao" analisa a "virada lingiiistica" nos Estudos intelectual, sobre o qual Stuart Hall tern tanto a dizer. A Culturais com o impacto de Bakhtin. selegao dos textos foi influenciada por essa conjuntura poli- Preocupagoes com o popular permeiam os textos. "Notas tica, cultural e academica e tambem pela preocupacao em sobre a desconstrucao do popular", escrito logo ap6s a apresentar boas traducoes de textos, ja consagrados ou mais vitoria eleitoral de Margaret Thatcher, faz uma discussao recentes, relacionados a esses e outros temas atuais — poli- conceitual e historica do que seja o popular. "Que negro e ticas culturais democraticas, por exemplo. esse na cultura negra?" e um exemplo claro do metodo anali- Espera-se, com esta publicacao, que Stuart Hall possa ser tico de Hall e seu interesse por "politicas culturais que lido com a delicadeza, paciencia e cuidado que ele dedicou facam diferenca"; forma o nexo para uma resposta a per- a Gramsci, Althusser, Bakhtin e muitos outros, e que seja gunta do que resta de "negritude" quando a industria cul- proveitosamente discutido, explicado, questionado e contes- tural a acolhe. "O problema da ideologia: o marxismo sem tadp em sua adequacao a situacoes brasileiras e latino- garantias" e a chave da relacao um tanto fora-de-moda de americanas. Sirvam-se. Hall com o marxismo em epoca pos-marxista e apres.enta a compreensao de Hall de que|Tcle~nTiffadelt s5o jituacoes.j "A Liv Sovik relevancia de Gramsci para o estudo de raca e etnicidade", encomendado pela Unesco para um coloquio sobre racismo Rio de Janeiro, outubro de 2002 em 1985, apresenta a posi^ao de Hall sobre Gramsci e faz a transigao entre seu pensamento anterior, mais ligado a ide- ologia, e o atual, que passa pela identidade e o discursive. 20 21
  • 14. NOTAS1 As iniciais maiusculas entre parenteses se referem aos titulos dos seguintesensaios contidos neste livro: Estudos Culturais e seus legados teoricos(LT); Para Allon White: metaforas de transforrnacao (AW); Notas sobre adesconstrucao do "popular" (NP); O problema da ideologia: o marxismosem garantias (PI); A relevancia de Gramsci para o estudo de raca e etnici-dade (RG); Que "negro" e esse na cultura negra? (QN); A formacao de umintelectual diasporico (FID).2 HALL, Stuart. The Determinations of News Photographs. Working Papers inCultural Studies, CCCS, n. 3, 1973-3 Cf. HALL, Stuart; JEFFERSON, Tony (Org.). Resistance Through Rituals.-Youth Subcultures in Post-War Britain. London: Hutchinson/CCCS, 1976.4 Esta descricao se baseia em "Estudos Culturais e seu legado teorico", mas odebate de Hall com Marx e o marxismo se encontra em maior profundidadeem "O problema da ideologia", (ambos se encontram neste volume) e emensaios anteriores, tais como: "Marxs Notes on Method; A Reading 1 of the1857 Introduction" (in: Working Papers in Cultural Studies 6, Birmingham,University of Birmingham, p. 132-171, 1977); "Culture, the Media and theIdeological Effect1" (in: CURRAN, James (Ed.). Mass Communication andSociety. London: Edward Arnold, 1977. p. 315-348); "The Hinterland ofScience: Ideology and the Sociology of Knowledge" (HALL, S.; LUMLEY,B.; MCLENNAN, G. (Ed.). On Ideology. London: Hutchinson/CCCS, 1978.Traducao brasileira: Da ideologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1980).5 HALL, Stuart; CHEN, Kuan-Hsing. Cultural Studies and the Politics of Inter-nationalization: an Interview With Stuart Hall. In: MORLEY, David; CHEN,Kuan-Hsing (Org.). Stuart Hall: Critical Dialogues in Cultural Studies.Londres: Routledge, 1996. p. 401.6 Citado por John Storey in: SIM, Stuart (Org.). The A~Z Guide to Modern CONTROVERTSLiterary and Cultural Theorists. Londres: Prentice Hall/Harvester Wheatsheaf,1995. p. 255-7 GUERREIRO RAMOS, fntroducdo critica a sociologia brasileira. Rio deJaneiro: Editora da UFRJ, 1995. p. 215.8 Cf. THOMPSON, E. P. The Poverty of Theory. Londres: Merlin Press, 1995/1978; HALL, Stuart. Defense of Theory. In: SAMUEL, Raphael (Org.). PeoplesHistorv and Socialist Theory. London: Routledge & Kegan Paul, 1981;THOMPSON, E. P. The Politics of Theory. In: SAMUEL, Raphael (Org.).Peoples History and Socialist Theory. London: Routledge & Kegan Paul,1981. "Quern precisa de identidade?", ja publicado no Brasil, leva a discussaomais adiante, deixando de lado o termo "ideologia" e discutindo subjetivi-dade e discurso identitario, o social e o simbolico, Lacan e Foucault. In:SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e diferenca. Petropolis: Vozes,22
  • 15. PENSANDO A DIASPORA REFIEXOES SOBRE A TERRA NO EXTERIOR A ocasiao desta palestra foi o quinquagesimo aniversariode fundacao da Universidade das Indias Ocidentais (UWI).Mil novecentos e quarenta e oito foi tambem, por acaso, oano em que o SS Empire Windrush, um navio-transporte,chegava as Docas de Tilbury no Reino Unido, trazendo seucarregamento de voluntarios caribenhos que retornavam delicenc a, junto com um pequeno grupo de migrantes civis. Esseevento significou o comeco da migracao caribenha para aGra-Bretanha no pos-guerra e simboliza o nascimento dadiaspora negra afro-caribenha no pos-guerra. Seu aniversarioem 1998 foi comemorado como simbolo "da irresistivelascensao da Gra-Bretanha multirracial".1 A migracao tern sido um tema.constante na narrativa cari-benha. Mas o Windrush iniciou uma nova fase da formacaodiasporica cujo legado sao os assentamentos negros cari-benhos no Reino Unido. Meu objetivo aqui nao e oferecerum relato hist6rico da evolucao dessa diaspora — emborasua dificil historia mereca ser melhor conhecida no Caribe,ate mesmo (ouso dizer) estudada mais sistematicamente.O destino dos caribenhos que vivem no Reino Unido, nosEstados Unidos ou no Canada nao e mais "externo" a historiacaribenha do que o Imperio foi para a chamada historiainterna da Gra-Bretanha, embora esta seja a forma como, defato, a historiografia contemporanea os construa. Em todocaso, a questao da diaspora e colocada aqui principalmente
  • 16. por causa da luz que ela e capaz de lancar sobre as complexi- Contudo, seria errSneo ver essas tendencias como alsodades, nao simplesmente de se construir, mas de se imaginar singular ou nao ambiguo. Na situacao da diaspora, as identi-a nacao [nationhood e a identidade caribenhas, numa era de dades se tornam multiplas. Junto com os elos que as ligam aglobalizacao crescente. uma ilha de origem especifica, ha outras forcas centripetas: As nacoes, sugere Benedict Anderson, nao sao apenas ha a qualidade de "ser caribenho" [West-Indianness] queentidades politicas soberanas, mas "comunidades imaginadas".2 eles compartilham com outros migrantes do Caribe. (GeorgeTrinta anos apos a independencia, como sao imaginadas as Lamming afirmou uma vez que sua geracao — e, incidental-nacoes caribenhas? Esta questao e central, nao apenas para mente, a minha — tornou-se "caribenha", nao no Caribe, masseus povos, mas para as artes e culturas que produzem, onde em Londres!) Existem as semelhancas com as outras popu-um certo "sujeito imaginado" esta sempre em jogo. Onde lagoes ditas de minoria etnica, identidades "britanicas negras"comecam e onde terminam suas fronteiras, quando regional- emergences, a identificacao com os locais dos assentamentos,mente cada uma e cultural e historicamente tao proxima de tambem as re-identificacoes simb61icas com as culturas "afri-seus vizinhos e tantos vivem a milhares de quilometros de canas" e, mais recentemente, com as "afro-americanas" —"casa"? Como imaginar sua relacao com a terra de origem, a todas tentando cavar um lugar junto, digamos, &. sua "barba-natureza de seu "pertencimento"? E de que forma devemos dianidade" [Barbadianness].pensar sobre a identidade nacional e o "pertencimento" no Os entrevistados de Mary Chamberlain tambem falamCaribe a luz dessa experiencia de diaspora? eloquentemente da dificuldade sentida por muitos dos que Os assentamentos negros na Gra-Bretanha nao sao total- retornam em se religar a suas sociedades de origem. Muitosmente desligados de suas raizes no Caribe. O livro Narratives sentem falta dos ritmos de vida cosmopolita com os quaisof Exile and Return, de Mary Chamberlain, que contain tinham se aclimatado. Muitos sentem que a "terra" tornou-sehistorias de vida dos migrantes barbadianos para o Reino irreconhecivel. Em contrapartida, sao vistos como se os elosUnido, enfatiza como os elos permanecem fortes.3 Tal qual naturais e espontaneos que antes_ possuiam tivessem sidoocorre comumente as comunidades transnacionais, a familia interrompidos por suas experiencias diasporicas. Sentem-seampliada — como rede e local da memoria — constitui o felizes por estar em casa. Mas a historia, de alguma forma,canal crucial entre os dois lugares. Os barbadianos, sugere interveio irrevogavelmente.ela, tern mantido vivo no exilio um forte senso do que e Esta e a sensacao familiar e profundamente moderna dea "terra de origem" e tentado preservar uma "identidade des-locamento, a qual — parece cada vez mais — nao preci-Cultural" barbadiana. Esse quadro e confirmado por pesquisas samos viajar muito longe para experimentar. Talvez todos nosrealizadas entre os migrantes caribenhos em geral no Reino sejamos, nos tempos modernos — apos a Queda, digamos —Unido, o que sugere que, entre as chamadas minorias etnicas o que o filosofo Heidegger chamou de unheimlicheit— literal-na Gra-Bretanha, aquilo que poderiamos denominar "identi- mente, "nao estamos em casa". Como Iain Chambers eloquen-ficacao associativa" com as culturas de origem permanece temente o expressa:forte, mesmo na segunda ou terceira geracao, embora oslocais de origem nao sejam mais a unica fonte de identifi- Nao podemos jamais ir para casa, voltar a cena primariacacao.4 A forca do elo umbilical esta refletida tambem nos enquanto momento esquectdo de nossos comedos e "autentici-numeros crescentes de caribenhos aposentados que retornam. dade", pois ha sempre algo no meio [between}. Nao podemosA interpretacao de Chamberlain e de que "uma determina^ao retornar a uma unidade passada, pois so podemos conhecer o passado, a memoria, o inconsciente atraves de seus efeitos,de construir identidades barbadianas autonomas na Gra- isto e, quando este e trazido para dentro da linguagem e deBretanha (...) se permanecerem as tendencias atuais, podera la embarcamos numa (interminavel) viagem. Diante da "flo-ser potencializada e nao diminuir com o tempo".5 resta de signos" (Baudelaire), nos encontramos sempre na26 27
  • 17. encruzilhada, com nossas historias e mem6rias ("reliquias pelo Grande Exodo — "o movimento do Povo de Jah" secularizadas", como Benjamin, o colecionador, as descreve) que os livrou do cativeiro, e do retorno a Terra Prometida. ao mesmo tempo em que esquadrinhamos a constelacSo Esta € a wr-origem daquela grande narrativa de liberta^ao cheia de tensao que se estende diante de n6s, buscando a linguagem, o estilo, que vai dominar o movimento e dar-Ihe esperanca e redencao do Novo Mundo, repetida continua- forma. Talvez seja mais uma questao de buscar estar em casa mente ao longo da escravidao — o Exodo e o Freedom Ride.1 aqui, no unico momento e contexto que temos...6 Ela tem fornecido sua metafora dominante a todos os dis- cursos libertadores negros do Novo Mundo. Muitos creem Que luz, entao, a experiencia da diaspora lanca sobre as que essa narrativa do Velho Testamento seja muito maisquestoes da idencidade cultural no Caribe? Ja que esta e uma potente para o imaginario popular dos povos negros do Novoquestao conceitual e epistemologica, alem de empirica,_o Mundo do que a assim chamada estoria do Natal. (De fato,que a experiencia da diaspora causa a nossos modelos de naquela mesma semana em que esta palestra foi proferidaidentidade cultural? Como podemos conceber ou imaginar a no campus Cave Hill da UWI, o jornal Barbados Advocateidentidade, a diferenca e o pertencimento, apos a diaspora? — antecipando as comemoracoes da independencia — atri-Ja que "a identidade cultural" carrega consigo tantos tragos buiu os tftulos honorarios de "Moises" e "Aarao" aos "paisde unidade essencial, unicidade primordial, indivisibilidade e fundadores" da independencia de Barbados, Errol Barrow emesmice, como devemos "pensar" as identidades inscritas nas Cameron Tudor!)relacoes de poder, construidas pela diferenca, e disjuntura? Nessa metafora, a historia — que se abre a liberdade por Essencialmente, presume-se que a identidade cultural .seja, ser contingent^ — e representada como teleologica e reden-fixada no nascimento, seja parte da natureza, impressa atraves tora: circula de volta a restauracao de seu momento origi-do parentesco e da linhagem dos genes, seja constitutiva de nario, cura toda ruptura, repara cada fenda atraves dessenosso eu mais interior. E impermeave! a algo tao "mundano", retorno. Essa esperanca foi condensada, para o povo cari-secular e superficial quanto uma mudanga temporaria de benho, em uma espe"cie de mito fundador. Pelos padroesnosso local de residencia. A pobreza, o subdesenvolvimento, usuais, trata-se de uma grande visao. Seu poder — mesmoa falta de oportunidades — os legados do Imperio em toda no mundo moderno — de remover montanhas jamais deveparte — podem forgar as pessoas a migrar, o que causa o ser subestimado.espalhamento — a dispersao. Mas cada disseminacao carrega Trata-se, e claro, de uma concepcao fechada de "tribo",consigo a promessa do retorno redentor. diaspora e patria. Possuir uma identidade cultural nesse Essa interpretacao potente do conceito de diaspora e a sentido e estar primordialmente em contato com um nucleomais familiar entre os povos do Caribe. Tornou-se parte do imutavel e atemporal, ligando ao passado o future e onosso recem-construido senso coletivo do eu, profundamente presente numa linha ininterrupta. Esse cordao umbilical e oinscrita como subtexto em nossas historias nacionalistas. que chamamos de "tradicao", cujo teste e o de sua fidelidadeE modelada na historia moderna do povo judeu (de onde o as origens, sua presenca consciente diante de si mesma, suatermo "diaspora" se derivou), cujo destine no Holocausto "autenticidade". E, claro, um mito — com todo o potencial— um dos poucos episodios historico-mundiais comparaveis real dos nossos mitos dominantes de moldar nossos imagi-em barbaric com a escravidao moderna — e bem conhecido. narios, influenciar nossas a^oes, conferir significado asMais significante, entretanto, para os caribenhos 6 a versao nossas vidas e dar sentido a nossa historia. da hist6ria no Velho Testamento. La encontramos o analogo, Os mitos fundadores sao, por definicao, transistoricos: nao crucial para a nossa historia, do "povo escolhido", violenta- apenas estao fora da historia, mas sao fundamentalmente mente levado a escravidao no "Egito"; de seu "sofrimento" aistoricos. Sao anacronicos e tem a estrutura de uma dupla nas maos da "Babilonia"; da lideranca de Moises, seguida inscric.ao. Seu poder redentor encontra-se no futuro, que28 29
  • 18. ainda esta por vir. Mas funcionam atribuindo o que predizem Americo Vespucio e a figura masculina dominante, cercadoa sua descrigao do que ja aconteceu, do que era no principle. pela insignia do poder, da ciencia, do conhecimento e daEntretanto, a historia, como a flecha do Tempo, e sucessiva, religiao: e a "America" e, como sempre, alegorizada comosenao linear. A estrutura narrativa dos mitos e ciclica. Mas uma mulher, nua, numa rede, rodeada pelos emblemas de 9dentro da historia, seu significado € frequentemente trans- uma — ainda nao violada — paisagem exotica.formado- E justamente essa concepcao exclusiva de patria que Nossos povos tem suas raizes nos — ou, mais precisa-levou os servios a se recusarem a compartilhar seu territdrio mente, podem tracar suas rotas a partir dos — quatro cantos— como tern feito ha seculos — com seus vizinhos muful- do globo, desde a Europa, Africa, Asia; foram forc.ados a semanos na Bosnia e justificou a limpeza etnica em Kosovo. juntar no quarto canto, na "cena primaria" do Novo Mundo.E uma versao dessa concepcao da diaspora judia e de seu Suas "rotas" sao tudo, menos "puras". A grande maioriaanunciado "retorno" a Israel que constitui a origem da disputa deles e de descendencia "africana" — mas, como teria ditocom seus vizinhos do Oriente Medio, pela qual o povo pales- Shakespeare, "norte pelo noroeste".10 Sabemos que o termotino tem pago um prec.o tao alto, paradoxalmente, com sua "Africa" e, em todo caso, uma construcao moderna, que seexpulsao de uma terra que, afinal, tambem e sua. refere a uma variedade de povos, tribos, culturas e linguas Aqui entao situa-se o paradoxo. Agora nossos ma-les cujo principal ponto de origem comum situava-se no traficocomegam. Um povo nao pode viver sem esperanc.a. Mas de escravos. No Caribe, os indianos e chineses se juntaramsurge um problema quando interpretamos tao literalmente mais tarde a "Africa": o trabalho semi-escravo [indenture]as nossas metaforas. As questoes da identidade cultural na entra junto com a escravidao. A distinc.ao de nossa culturadiaspora nao podem ser "pensadas" dessa forma.8 Elas tem e manifestamente o resultado do maior entrelagamento eprovado ser tao inquietantes e desconcertantes para o povo fusao, na fornalha da sociedade colonial, de diferentescaribenho justamente porque, entre nos, a identidade e elementos culturais africanos, asiaticos e europeus.irrevogavelmente uma questao historica. Nossas sociedades Esse resultado hibrido nao pode mais ser facilmente desa.-sao compostas nao de um, mas de muitos povos. Suas gregado em seus elementos "autenticos" de origem. O receioorigens nao sao unicas, mas diversas. Aqueles aos quais de que, de alguma forma, isso faga da cultura caribenha nadaoriginalmente a terra pertencia, em geral, pereceram ha muito mais que um simulacro ou uma imitac,ao barata das culturastempo — dizimados pelo trabalho pesado e a doenga. A terra dos colonizadores nao precisa nos deter, pois obviamentenao pode ser "sagrada", pois fbi "violada" — nao vazia, mas este nao e o caso. Mas a logica colonial em funcionamentoesvaziada. Todos que estao aqui pertenciam originalmente a aqui e evidentemente uma "crioulizacao" ou do tipo "trans-outro lugar. Longe de constituir uma continuidade com cultural", no sentido que Mary Louise Pratt da ao termo,os nossos passados, nossa relacjio com essa historia esta seguindo a tradifao de alguns dos melhores textos teoricosmarcada pelas rupturas mais aterradoras, violentas e culturais da regiao.11 Atraves da transculturafao "gruposabruptas. Em vez de um pacto de associagao civil lenta- subordinados ou marginais selecionam e inventam a partirmente desenvolvido, tao central ao discurso liberal da dos materials a eles transmitidos pela cultura metropolitanamodernidade ocidental, nossa "associac,ao civil" foi inaugu- dominante". E um processo da "zona de contato", um termorada por um ato de vontade imperial. O que denominamos que invoca "a co-presenca espacial e temporal dos sujeitosCaribe renasceu de dentro da violencia e atraves dela. A via anteriormente isolados por disjunturas geograficas e histo-para a nossa modernidade esta marcada pela conquista, ncas (...) cujas trajetorias agora se cruzam". Essa perspecttvaexpropriate, genocidio, escravidao, pelo sistema de engenho e dialogica, ja que e tao interessada em como o colonizadoe pela longa tutela da dependencia colonial. Nao e de produz o colonizador quanto vice-versa: a "co-presenca,surpreender que na famosa gravura de van der Straet que interapao, entrosamento das compreensoes e praticas,mostra o encontro da Europa com a America (c. 1600), frequentemente [no caso caribenho, devemos dizer sempre]30 31
  • 19. no interior de relates de poder radicalmente assimetricas".12 Em Barbados, como esperado, senti maior aproximacao comE a 16gica disjuntiva que a colonizacao e a modernidade a Inglaterra e sua disciplina social implicita — como certaocidental introduziram no mundo e sua entrada na hist6ria vez ocorreu, incidentalmente, mas nao mais, na Jamaica.que constituiram o mundo, apos 1492, como um empreendi- Contudo, os habitos, costumes e a etiqueta social especificosmento profundamente desigual, mas "global", e fez do povo de Barbados sao claramente uma traducao, atraves da escra-caribenho aquilo que David Scott recentemente descreveu como vidao africana, daquela cultura do engenho, intima e de"os recrutas da modernidade".13 pequena escaia, que reconfigurou a paisagem barbadiana. No inicio dos anos 90, fiz uma serie de TV chamada Sobretudo em Trinidad, as complexas tradicoes do "Ocidente"Redemption Song [Cancao da Redencao] para a BBC, sobre e do "Oriente" — das Rainhas do Carnaval Indiano, dasos diferentes tributaries culturais dentro da cultura cari- barraquinhas de roti, pao indiano, no local do carnaval, ebenha. 14 Nas visitas que fiz em relacao a serie, o que me das velas Diwali brilhando na escuridao de Sao Fernando, esurpreendeu for" a presenca dos mesmos elementos rastrea- o ritmo nitidamente hispanico-catolico de pecado-contricao-dores basicos (semelhanca), junto com as formas pelas quais absolvicao (o baile da terca-feira de carnaval seguido pelaestes haviam sido singularmente combinados em distintas missa da quarta-feira de cinzas) tao proximo ao carater deconfiguracoes em cada lugar (diferenca). Senti a "Africa" mais Trinidad. Em toda parte, hibridismo, differance.proxima da superficie no Haiti e na Jamaica. Ainda assim, a O conceito fechado de diaspora se apoia sobre umaforma como os deuses africanos haviam sido combinados com concepcao binaria de diferenca. Esta fundado sobre aos santos cristaos no universe complexo do vodu haitiano construcao de uma fronteira de exclusao e depende daconstitui uma mistura especifica, que apenas se encontra no construcao de um "Outro" e de uma oposicao rigida entre oCaribe ou na America Latina — embora haja analogos onde dentro e o fora. Porem, as configuracoes sincretizadas daquer que sincretismos semelhantes tenham emergido na identidade cultural caribenha requerem a nocao derridianaesteira da colonizacao. O estilo da pintura haitiana frequen- de differance— uma diferenca que nao funciona atraves detemente descrito como "primitivista" e, na verdade, uma das binarismos, fronteiras veladas que nao separam finalmente,mais complexas representacoes — em termos visionarios — mas sao tambem places de passage, e significados que saodessa "dupla consciencia" religiosa. O ilustre pintor haitiano posicionais e relacionais, sempre em deslize ao longo de umque filmamos — Andre Pierre — fazia uma prece a ambos os espectro sem comeco nem fim. A diferenca, sabemos, edeuses, cristao e vodu, antes de iniciar seu trabalho. Como o essencial ao significado, e o significado e crucial a cultura.pintor jamaicano Brother Everald Brown, Pierre via a pintura Mas num movimento profundamente contra-intuitivo, a lingiiis-como uma tarefa essencialmente visionaria e "espiritual". tica moderna pos-saussuriana insiste que o significado naoEle cantava para nos a "historia" de sua tela — "santos" pode ser fixado definitivamente. Sempre ha o "deslize" inevi-negros e viajantes em trajes brancos e torcos cruzando "O tavel do significado na semiose aberta de uma cultura, enquantoRio" — enquanto pintava. aquilo que parece fixo continua a ser dialogicamente reapro- Senti-me proximo a Franca tanto no Haiti quanto na priado. A fantasia de um significado final continua assom-Martinica, mas ha Francas diferentes: no Haiti, a "Franca" brada pela "falta" ou "excesso", mas nunca e apreensivel nado Velho Imperio, cuja derrota foi causada pela Revolucao plenitude de sua presenca a si mesma. Como argumentaramHaitiana (a fusao explosiva da resistencia escrava africana e Bakhtin e Volochinov:das tradicoes republicanas francesas na demanda pela liber-dade sob Toussaint LOuverture). Na Martinica, a "Franca" do A plurivalencia social do signo ideologico e um tra^o da maiorNovo Imperio — do Republicanismo, do Gaullismo, do "chic" importancia (...) na verdade, e este entrecruzamento dos indicesparisiense, atravessado pela transgressao do "estilo" negro e de valor que torna o signo vivo e m6vel, capaz de evoluir.as complexas afiliacoes ao "ser franees" de Fanon e Cesaire.32 33
  • 20. O signo, se subtraido as tensoes da luta social (...) ira infalivel- reconfiguracao nao pode ser representada como uma "volta mente debilitar-se, degenerara em alegoria, tornar-se-a objeto ao lugar onde estavamos antes", ja que, como nos lembra de estudo dos filologos.15 Chambers, "sempre existe algo no meio".18 Esse "algo no meio" e o que torna o proprio Caribe, por excelencia, o exemplo de Nessa concepcao, os polos binarios do "sentido" e do "nao uma diaspora moderna.sentido" sao constantemente arruinados pelo processo mais A relacao entre as culturas caribenhas e suas diasporasaberto e fluido do "fazer sentido na tradugao". nao pode, portanto, ser adequadamente concebida em termos Essa logica cultural foi descrita por Kobena Mercer como de origem e copia, de fonte primaria e reflexo palido. Tern deuma "estetica diasporica": ser compreendida como a relacao entre uma diaspora e outra. Aqui, o referencial nacional nao e muito util. Os Estados- Numa gama inteira de formas culturais, ha uma poderosa dina- nacao impoem fronteiras rigidas dentro das quais se espera mica sincretica que se apropria criticamente de elementos dos que as culturas floresc.am. Esse foi o relacionamento primario codigos mestres das culturas dominantes e os "criouliza", entre as comunidades politicas nacionais soberanas e suas desarticulando certos signos e rearticulando de outra forma "comunidades imaginadas" na era do dominio dos Estados- seu significado simbolico. A forca subversiva dessa tendencia nacao europeus. Esse foi tambem o referencial adotado pelas hibridizante fica mais aparente no nivel da propria linguagem (incluindo a linguagem visual) onde o crioulo, o patois e o politicas nacionalistas e de construcao da nagao apos a inde- ingles negro desestabilizam e carnavalizam o dominio lingiiis- pendencia. A questao e se ele ainda constitui uma estrutura tico do "ingles" — a lingua-nacao [nation-Ianguagd do meta- util para a compreensao das trocas culturais entre as dias- discurso — atraves de inflexoes estrategicas, novos indices poras negras. de valor e outros movimentos performatives nos codigos A globalizacao, obviamente, nao e um fenomeno novo. Sua semantico, sintatico e lexico.16 historia coincide com a era da exploracao e da conquista europeias e com a formacao dos mercados capitalistas mundiais. A cultura caribenha e essencialmente impelida por uma As primeiras fases da dita historia global foram sustentadasestetica diasporica. Em termos antropologicos, suas culturas pela tensao entre esses polos de conflito — a heterogeneidadesao irremediavelmente "impuras". Essa impureza, tao frequen- do mercado global e a forca centripeta do Estado-nagao —,temente construida como carga e perda, e em si mesma uma constituindo juntas um dos ritmos fundamentals dos primeiroscondigao necessaria a sua modernidade. Como observou certa sistemas capitalistas mundiais.19 O Caribe foi um dos seusvez o romancista Salman Rushdie, "o hibridismo, a impureza, cenarios chave, dentro do qual lutou-se pela estabilizacao doa mistura, a transformac.ao que vem de novas e inusitada_s sistema europeu de Estados-nacao, alcanc.ado em uma seriecombinac.6es dos seres humanos, culturas, ideias, politicas, de acordos imperiais. O apogeu do imperialismo no final dofilmes, cancoes" e "como a novidade entra no mundo". 17 seculo dezenove, as duas guerras mundiais e os movimentosNao se quer sugerir aqui que, numa formagao sincretica,os elementos diferentes estabelecem uma relacao de igual- pela independencia nacional e pela descolonizacao no seculo vinte marcaram o auge e o termino dessa fase.dade uns com os outros. Estes sao sempre inscritos diferen-temente pelas relacoes de poder — sobretudo as rela^oes de Agora ela esta rapidamente chegando ao fim. Os desen-dependencia e subordinacao sustentadas pelo proprio coloz volvimentos globais acima e abaixo do nivel do Estado-nacaonialismo. Os momentos de independencia e pos-colonial, nos minaram o alcance e o escopo de manobra da nacao e, comquais essas historias imperials continuam a ser vivamente isso, a escala e a abrangencia — os pressupostos panopticosretrabalhadas, sao necessariamente, portanto, momentos de — de seu "imaginario". Em qualquer caso, as culturas sempreluta cultural, de revisao e de reapropriagao. Contudo, essa se recusaram a ser perfeitamente encurraladas dentro das34
  • 21. fronteiras nacionais. Elas transgridem os limites politicos. mapear e mais semelhante a um processo de repeticao-com-A cultura caribenha, em particular, nao foi bem servida pelo diferenga, ou de reciprocidade-sem-comeco. Nessa perspec-referencial nacional. A imposicao de fronteiras nacionais tiva, as identidades negras britanicas nao sao apenas umdentro do sistema imperial fragmentou a regiao em entidades reflexo palido de uma origem "verdadeiramente" caribenha,nacionais e linguisticas separadas e alheias, algo de que ela destinada a ser progressivamente enfraquecida. Sao o resul-nunca mais se recuperou. A estrutura alternativa O Atlantico tado de sua propria formacao relativamente autonoma. En-negro, proposta por Paul Gilrqy, e uma potente contranarra- tretanto, a logica que as governa envolve os mesmos proces-tiva a insercao discursiva do Caribe nas historias nacionais ses de transplante, sincretizacao e diasporizacao que anteseuropeias, trazendo a tona as trocas laterais e as "semelhancas produziram as identidades caribenhas, so que, agora, operamfamiliares" na regiao como um todo que "a historia nacionalista dentro de uma referenda diferente de tempo e espaco, umobscurece".20 cronotopo distinto — no tempo da differance. A nova fase pos-1970 da globalizac.ao esta ainda profunda- Assim, a musica e a subcultura dancehall (salao de baile)mente enraizada na^s disparidades estruturais de riqueza e na Gra-Bretanha se inspiraram na musica e na subculturapoder. Mas suas formas de operacao, embora irregulares, sao da Jamaica e adotaram muito de seu estilo e atitude. Mas agora tem suas proprias formas variantes negro-britanicas emais "globais", planetarias em perspectiva; incluem interesses seus proprios locais. O recente filme sobre dancehall, Baby-de empresas transnacionais, a desregulamentacao dos rher- mother, se localiza "autenticamente" na zona de mistura racialcados mundiais e do fluxo global do capital, as tecnologias e do centro pobre de Harlesden, nas ruas e clubes, nos estudiossistemas de comunicacao que transcendem e tiram do jogo de gravacao e locais de shows, na vida das ruas e zonas dea antiga estrutura do Estado-nacao. Essa nova fase "transna- perigo do norte de Londres.21 As tres garotas ragga,22 suascional" do sistema tem seu "centro" cultural em todo lugar e heromas, compram suas roupas exoticas em outro suburbioem lugar nenhum. Esta se tornando "descentrada". Isso nao de Londres, o Southall, que e familiarmente conhecido comosignifica que falta a ela poder ou que os Estados-na^ao nao Pequena India. Essas differances nao deixam de ter efeitostem funcao nela. Mas essa funcao tem estado, em muitos reais. Ao contrario de outras representacoes classicas doaspectos, subordinada as operacoes sistemicas globais mais dancehall, esse filme traca um mapa das lutas das tres garotasamplas. O surgimento das formacoes supra-nacionais, tais para se tornarem DJs de ragga — dessa forma trazendo paracomo a Uniao Europeia, e testemunha de uma erosao progres- o centro da narrativa a controvertida questao da politicasiva da soberania nacional. A posicao indubitavelmente hege- sexual na cultura popular jamaicana, onde outras versoesmonica dos Estados Unidos nesse sistema esta relacionada ainda a escondem atras de um biombo nacionalista cultural.nao a seu status de Estado-nacao, mas a seu papel e ambi9oes O documentario de Isaac Julien, The Darker Side of Black,globais e neo-imperiais. foi filmado em tres locais — Kingston, Nova lorque e Londres. Portanto, e importante ver essa perspectiva diasporica Talvez seja essa relativa liberdade de lugar que o permitada cultura como uma subversao dos modelos culturais tradi- confrontar a profunda homofobia comum as distintas vari-cionais orientados para a nacao. Corno outros processes globa- antes do gangsta rap sem cair na linguagem degenerada dalizantes, a globalizacao cultural e desterritorializante em seus "violencia inata das galeras negras" que hoje desfigura oefeitos. Suas compressoes espaco-temporais, impulsionadas jornalismo domingueiro britanico.pelas novas tecnologias, afrouxam os lagos entre a cultura e A musica dancehall e hoje uma forma musical diasporicao "lugar". Disjunturas patentes de tempo e espaco sao abrupta- incorporada — uma das varias musicas negras que conquistammente convocadas, sem obliterar seus ritmos e tempos dife- os coracoes de alguns garotos brancos "quero-ser" de Londresrenciais. As culturas, e claro, tem seus "locais". Pore"m, nao e Gsto e, "quero-ser negro"!), que falam uma mistura pobre demais tao facil dizer de onde elas se originam. O que podemos patois de Trench Town, hip-bop nova-iorquino e ingles do36 37
  • 22. leste de T «Hr-^ e para os quais o estilo negro" e simples- j Lonares, *- r variedade de estilos do seculo vinte, desde o figurative e omente o equivai«=n simb6hco de um moderno prestigio ^•tivalente *- e iconografico ate a abstracao. Suas obras mais importantesurbano. (t ^-i-irn nue /c claro 4^ eles nao sao a unica ,especie ,comum da . , demonstram uma variedade ampla de influencias formais e ide britanica. Existem tambem os skin-heads, tatuados de fontes de inspiracao — os mitos, artefatos e paisagensde suastica frequentadores dos suburbios brancos abando- guianenses, os motivos, a vida selvagem, os passaros e osnados tais como Eltham, que tambem praticam "giobalmente" animals pre-colombianos e maias, o muralismo mexicano, assuas manobras violentas nos jogos de futebol internacionais, sinfonias de Shostakovitch e as formas do expressionismocinco dos quais esfaquearam ate a morte o adolescente negro abstrato caracteristicas do modernismo pos-guerra britanicoStephen Lawrence nunia parada de onibus no sul de Londres, e europeu. Seus quadros desafiam caracterizacoes, seja simples-simplesmente porque ele ousou trocar de onibus no "terri- mente do tipo caribenho ou britanico. Essas telas vibrantes,torio" deles.)23 O que hoje se conhece como jungle music em explosivamente coloridas, com suas formas cosmicas e trafosLondres e outro cruzamento "original" (houve muitos, desde indistintos de formas e figuras tenues, mas sugestivamenteas versoes britanicas do ska, da musica so«/negra, do reggae, embutidas nas superficies abstratas, claramente pertencem amusica two-tone e de "raizes") entre o dub jamaicano, o historia essencial do "modernismo britanico", sem jamaiship-hop de Atlantic Avenue, o gangsta rap e a white techno terem sido oficialmente reconhecidas como parte dela. Sem(assim como o bangra e o tabla-and-bass sao cruzamentos duvida, seu namoro com a musica e a abstracao europeias,entre o rap, a techno e a tradicao classics Indiana). na mente de alguns, modificaram suas credenciais como pintor Nas trocas vernaculares cosmopolitas que permitem as caribenho". Contudo, sao os dois impulses funcionando em conjunto, sua posicao de traducao entre dois mundos, variastradicoes musicals populares do "Primeiro" e do "Terceiro" esteticas, muitas linguagens, que o estabelecem como umMundo se fertilizarem umas as outras, e que tern construido artista excepcional, original e formidavelmente moderno.um espaco simbolico onde a chamada tecnologia eletronicaavancada encontra os chamados ritmos primitivos — onde No catalogo produzido para a retrospectiva de Williams, oHarlesden se torna Trench Town —, nao ha mais como tracar critico de arte Guy Brett comenta:uma origem, exceto ao longo de uma cadeia tortuosa edescontinua de conexoes. A proliferacao e a disseminacao E claro que a sutileza da questao — a complexidade dade novas formas musicals hibridas e sincreticas nao pode mais historia que ainda esta por ser escrita — e que a obra deser apreendida pelo modelo centro/periferia ou baseada Aubrey Williams teria que ser considerada em tres contextos diferentes: o da Guiana, o da diaspora guianense e caribenhasimplesmente em uma nocao nostalgica e exotica de recupe- na Gra-Bretanha, e o da sociedade brit&nica. Esses contextosracao de ritmos antigos. E a historia da produfao da cultura, teriam que ser considerados um tanto separadamente e em de musicas novas e inteiramente modernas da diaspora — e seus inter-relacionamentos complexos, afetados pelas reali- claro, aproveitando-se dos materials e formas de muitas dades do poder. E todos teriam que ser ajustados em relacao tradicoes musicals fragmentadas. ao proprio desejo de Williams de ser simplesmente um artista moderno, contemporaneo, o par de qualquer outro. Num Sua modernidade necessita, sobretudo, de ser enfatizada. momento ele poderia dizer: "Nao gastei muita energia nesse Em 1998, o Institute de Artes Visuals Internacionais e a Galeria negocio de raizes. (...) Prestei atencao em uma centena de Whitechapel organizaram a primeira maior retrospectiva da coisas (...) por que devo isolar uma filosofia?" Em outro obra de um grande artista visual caribenho, Aubrey Williams momento: "O cerne da questao inerente a minha obra desde (1926-1990). Williams nasceu e trabalhou por muitos anos como menino foi a condicao humana, especificamente em relacao a situacao guianense." 24 agronomo na Guiana. Subseqtientemente, viveu e pintou, em diferentes estagios de sua carreira, na Inglaterra, na Guiana, O que dizer entao sobre todos aqueles esforcos de recons- na Jamaica e nos Estados Unidos. Seus quadros incluem uma trucao das identidades caribenhas por um retorno a suas fontes38 39
  • 23. originarias? As lutas pela recuperacao cultural foram em vao? culturais novos e distintos. Nessa perspectiva, as "sobrevi-Longe disso. Retrabalhar a Africa na trama caribenha tern sido vencias" em suas formas originais sao macicamente sobre-o elemento mais poderoso e subversive de nossa politica pujadas pelo processo de traducao cultural, Como Saratcultural no seculo vinte. E sua capacidade de estorvar o Maharaj nos lembra:"acordo" nacionalista pos-independencia ainda nao terminou.Porem, isso nao se deve principalmente ao fato de estarmos A traducao, como Derrida a coloca, e muito diferente deligados ao nosso passado e heranca africanos por uma comprar, vender, trocar — nao importa o quanto ela tenhacadeia inquebrantavel, ao longo da qual uma cultura afri- sido convencionalmente retratada nesses termos. Nao se tratacana singular fluiu imutavel por geracoes, mas pela forma de transportar fatias suculentas de sentido de um lado da barreira de uma lingua para a outra — como acontece com oscomo nos propusemos a produzir de novo a "Africa", dentro pacotes de fast food embrulhados nos balcoes de comida parada narrativa caribenha. Em. cada conjuntura — seja no viagem. O significado nao vem pronto, nao e algo portatil quegarveyismo, Hibbert, rastafarianismo ou a nova cultura se pode "carregar atraves" do divisor. O tradutor e obrigado apopular urbana — tem sido uma questao de interpretar a construir o significado na lingua original e depois imagina-lo e"Africa", reler a "Africa", do que a "Africa" poderia significar modela-lo uma segunda vez nos materials da lingua com a.para nos hoje, depois da diaspora. qual ele ou ela o esta transmitindo. As lealdades do tradutor sao assim divididas e partidas. Ele ou ela tem que ser leal a Antropologicamente, essa questao foi frequentemente sintaxe, sensacao e estrutura da lingua-fonte e fiel aquelas daabordada em termos de "sobrevivencias". Os sinais e traces lingua da traducao. (...) Estamos diante de uma dupla escrita,dessa presenca estao, e claro, por toda parte. A "Africa" vive, aquilo que poderia ser descrito como uma "perfida fideli-nao apenas na retencao das palavras e estruturas sintaticas dade". (...) Somos conduzidos ao "efeito de Babel" de Derrida.26africanas na lingua ou nos padroes ritmicos da musica, masna forma como os jeitos de falar africanos tem estorvado, Na verdade, cada movimento social e cada desenvolvimentomodulado e subvertido o falar do povo caribenho, a forma criativo nas artes do Caribe neste seculo come^aram com essecomo eles apropriaram o "ingles", a lingua maior. Ela "vive" momento de traducao do reencontro com as tradicoes afro-na forma como cada congregacao crista caribenha, mesmo caribenhas ou o incluiram. Nao porque a Africa seja um pontofamiliarizada com cada frase do hinario de Moody e Sankey, de referencia antropologico fixo — a referencia hifenizadaarrasta e alonga o compasso de "Avante Soldados de Cristo" ja marca o funcionamento do processo de diasporizacao, apara um ritmo corporal e um registro vocal mais aterrados. A forma como a "Africa" foi apropriada e transformada peloAfrica passa bem, obrigado, na diaspora. Mas nao e nem a sistema de engenho do Novo Mundo. A razao para isso eAfrica daqueles territories agora ignorados pelo cartografo que a "Africa" € o significante, a metafora, para aquelapos-colonial, de onde os escravos eram sequestrados e dimensao de nossa sociedade e historia que foi macicamentetransportados, nem a Africa de hoje, que e pelo menos quatro suprimida, sistematicamente desonrada e incessantementeou cinco "continentes" diferentes embrulhados num so, suas negada e isso, apesar de tudo que ocorreu, permanece assim.formas de subsistencia destruidas, seus povos estruturalmente Essa dimensao constitui aquilo que Frantz Fanon denominouajustados a uma pobreza moderna devastadora.25 A "Africa" "o fato da negritude". 27 A raca permanece, apesar de tudo,que vai bem nesta parte do mundo e aquilo que a Africa se o segredo culposo, o codigo oculto, o trauma indizivel,tornou no Novo Mundo, no turbilhao violento do sincre- no Caribe. E a "Africa" que a tem tornado "pronunciavel",tismo colonial, reforjada na fornalha do panelao colonial. enquanto condicao social e cultural de nossa existencia. Igualmente significativa, entao, e a forma como essa Na formacao cultural caribenha, traces brancos, europeus,"Africa" fornece recursos de sobrevivencia hoje, historias ocidentais e colonizadores sempre foram posicionados comoalternativas aquelas impostas pelo dominio colonial e as elementos em ascendencia, o aspecto declarado: os tracesmaterias-primas para retrabalha-las de formas e padroes negros, "africanos", escravizados e colonizados, dos quais40 41
  • 24. havia muitos, sempre foram nao-ditos, subterraneos e sub- Bedward, levando ao recolhimento na comunidade rastafari,versivos, governados por uma "logica" diferente, sempre po- Pinnacle, e a dispersao for£ada desta. O rastafarismo sesicionados em termos de subordinate e marginalizacao. As destinava aquele espaco politizado mais ampio, de ondeidentidades formadas no interior da matriz dos significados poderia falar por aqueles — que me perdoem a frase —coloniais foram construfdas de tal forma a barrar e rejeitar o "despossuidos pela independencia"!engajamento com as historias reais de nossa sociedade ou de Como todos esses movimentos, o rastafarismo se repre-suas "rotas" culturais. Os enormes esforcos empreendidos, sentou como um "retorno". Mas aquilo a que ele nos "retornou"atraves dos anos, nao apenas por estudiosos da academia, mas foi a nos mesmos. Ao faze-lo, produziu "a Africa novamente"pelos proprios praticantes da cultura, de juntar ao presente — na diaspora. O rastafarismo aproveitou muitas "fontesessas "rotas" fragmentarias, freqiientemente ilegais, e recons- perdidas" do passado. Mas sua relevancia se fundava natruir suas genealogias nao-ditas, constituem a preparacao do pratica extraordinariamente contemporanea de ler a Bibliaterreno historico de que precisamos para conferir sentido a atraves de sua tradicao subversiva, sua nao-ortodoxia, seusmatriz interpretativa e as auto-imagens de nossa cultura, para apocrifos; lendo-a ao reves, de cabeca para baixo, voltandotornar o invistvel visivel. Em outras palavras, o "trabalho" de o texto contra si mesmo. A "Babilonia" de que ele falava,traducao que o significante africano realiza e o trabalho de"fidelidade perfida" que devem assumir os artistas carlbenhos onde as pessoas ainda sofriam, nao era o Egito, mas Kingstonneste momento pos-nacionalista. — e depois, quando o nome foi sintagmaticamente esten- dido para incluir a Policia Metropolitana, os bairros de As lutas por redescobrir as "rotas" africanas no interior Brixton, Handsworth, Moss Side e Netting Hill. O rastafarismodas complexas configuracoes da cultura caribenha e falar, exerceu um papel crucial no movimento moderno que tornouatraves desse prisma, das rupturas do navio, da escravidao, "negras", pela primeira vez e irremediavelmente, a Jamaicacolonizacao, exploracao e racializacao produziram nao e outras sociedades caribenhas. Numa traducao ulterior, essasomente a unica "revolucao" bem-sucedida no Caribe anglo- doutrina e discurso estranhos "salvaram" as jovens almasfono neste seculo — a chamada revolucao cultural dos anos negras da segunda geracao de migrantes caribenhos nas60 — como tambem a formacao do sujeito caribenho negro. cidades britanicas nos anos 60 e 70 e deu-lhes orgulho eNa Jamaica, por exemplo, seus traces ainda podem ser autoconhecimento. Nos termos de Frantz Fanon, eles desco-encontrados em milhares de locais nao investigados — nas lonizaram as mentes.congregacoes religiosas de todos os tipos, formais e irregu-lares; nas vozes marginalizadas dos pregadores e profetas Ao mesmo tempo, vale lembrar o fato embara9oso de quepopulares de rua, muitos deles loucos declarados; nas a "naturalizacao" do termo descritivo "negro" para todo ohistorias folcloricas e formas narrativas orais; nas ocasioes Caribe, ou o equivalente "afro-caribenho" para todos oscerimoniais e ritos de passageni; na nova linguagem, na mu- migrantes caribenhos no exterior, opera sua propria formasica e no ritmo da cultura popular urbana, assim como nas de silenciamento em nosso mundo transnacional. O jovemtradicoes politicas e intelectuais — no garveyismo, no "etio- artista de Trinidad, Steve Ouditt, viveu e trabalhou nos Estadospismo", nas renovacoes religiosas e no rastafarismo. Este, Unidos, na Inglaterra e descreve algo que ele chama desabemos, rememorou aquele espaco mitico, a "Etiopia", onde "Sucrotopia" de Trinidad. Ele se descreve como "um artistaos reis negros governaram por mil anos, local de uma congre- do sexo masculino crioulo caribenho trinidadiano indianogacao crista estabelecida seculos antes da cristianizacao da cristao de educacao anglo-americana pos-independencia", cujaturopa Ocidental. Mas, como movimento social, ele nasceu obra — em forma de escrita e arte ambiental — "navega orealmente, como sabemos, naquele "local" fatidico mas iloca- dificil terreno entre o visual e o verbal". Ele aborda de frente izavel mais proximo de casa, onde o retorno de Garvey esse assunto em uma recente peca que compoe seu diarioencontrou a pregacao do Reverendo Hibbert e os delirios de online, "O enigma da sobrevivencia":42 43
  • 25. Afro-caribenho e o termo generico para qualquer caribenho das chamadas migracoes livres e forcadas estao mudando de na Inglaterra. De verdade. Assim como quando muita gente composifao, diversificando as culturas e pluralizando as iden- bem-educada aqui diz para mtm: "Voce e do Caribe, como e tidades culturais dos antigos Estados-na^ao dominantes, das que pode, nem negro voce e, parece asiatico"... Creio que o antigas potencias imperiais, e, de fato, do proprio globo.30 termo "afro-caribenho" e uma designate britanica e talvez se Os fluxos nao regulados de povos e culturas sao tao amplos espere que ele represente a imagem da maioria dos migrantes caribenhos que vieram para ca no periodo pos-guerra. E e e tao irrefreaveis quanto os fluxos patrocinados do capital e usado para marcar e lembrar no passado deles as polfticas e os da tecnologia. Aquele inaugura um novo processo de "minori- horrores da escravatura, a classificacao europ^ia dos africanos zacao" dentro das antigas sociedades metropolitanas, cuja como ultra-inferiores. A fragmentac.ao e a perda da "cultura", homogeneidade cultural tern sido silenciosamente presu- mas com vontade de negociar uma nova "africanidade" mida. Mas essas "minorias" nao sao efetivamente "restritas [Afroness] neste local diasporico... Nesse sentido especifico aos guetos"; elas nao permanecem por muito tempo como posso lidar com o "afro-caribenho" (...) mas nao quando ele 6 enclaves. Elas engajam uma cultura dominante em uma frente usado como mdice privilegiado do horror que fixa e centra todas as outras historiografias caribenhas subalternas sob uma bem ampla. Pertencem, de fato, a um movimento transna- afrofilia do Caribe aqui na Gra-Bretanha... Trinidad teve uma cional, e suas conexoes sao multiplas e laterals. Marcam o historia de semi-escravidao de indianos em regime apartheid fim da "modernidade" definida exclusivamente nos termos nos campos de trabalho que durou tanto quanto a escravidao ocidentais. "organizada"... 28 De fato, ha dois processes opostos em funcionamento nas formas contemporaneas de globalizacao, o que e em si mesmo O que esses exemplos sugerem e que a cultura nao e algo fundamentalmente contraditorio. Existem as forcasapenas uma viagem de redescoberta, uma viagem de retor- dominantes de homogeneizacao cultural, pelas quais, porno. Nao e uma "arqueologia". A cultura e uma producao. Tem causa de sua ascendencia no mercado cultural e de seusua materia-prima, seus recursos, seu "trabalho produtivo". dominio do capital, dos "fluxos" cultural e tecnologico, aDepende de um conhecimento da tradicao enquanto "o mesmo cultura ocidental, mais especificamente, a cultura americana,em mutacao" e de um conjunto efetivo de genealogias.29 amea^a subjugar todas as que aparecem, impondo umaMas o que esse "desvio atraves de seus passados" faz e nos mesmice cultural homogeneizante — o que tern sido chamadocapacitar, atraves da cultura, a nos produzir a nos mesmos de de "McDonald-izacao" ou "Nike-zacao" de tudo. Seus efeitosnovo, como novos tipos de sujeitos. Portanto, nao e uma podem ser vistos em todo o mundo, inclusive na vida popularquestao do que as tradicoes fazem de nos, mas daquilo que do Caribe. Mas bem junto a isso estao os processes que vaga-nos fazemos das nossas tradicoes. Paradoxalmente, nossas rosa e sutilmente estao descentrando os modelos ocidentais,identidades culturais, em qualquer forma acabada, estao levando a uma disseminacao da diferenca cultural em todoa nossa frente. Estamos sempre em processo de formacao o globo.cultural. A cultura nao e uma questao de ontologia, de ser, Essas "outras" tendencias nao tern (ainda) o poder demas de se tornar. confrontar e repelir as anteriores. Mas tern a capacidade, em Em suas formas atuais, desassossegadas e enfaticas, a todo lugar, de subverter e "traduzir", negociar e fazer com queglobalizacao vem ativamente desenredando e subvertendo se assimile o assalto cultural global sobre as culturas maiscada vez mais seus proprios modelos culturais herdados fracas. E ja que o novo mercado consumidor global dependeessencializantes e homogeneizantes, desfazendo os limites precisamente de sua assimilacao para ser eficaz, ha certae, nesse processo, elucidando as trevas do proprio "Ilumi- vantagem naquilo que pode parecer a principio como mera-nismo" ocidental. As identidades, concebidas como estabele- mente "local". Hoje em dia, o "meramente" local e o globalcidas e estaveis, estao naufragando nos rochedos de uma estao atados um ao outrp, nao porque este ultimo seja odiferenciacao que prolifera. For todo o globo, os processes manejo local dos efeitos essencialmente globais, mas porque44 45
  • 26. cada um e a condicao de existencia do outro. Antes, a "moder- nacionalistas e construir muralhas defensivas. A alternativanidade" era transmitida de um unico centre. Hoje, ela nao nao e apegar-se a modelos fechados, unitarios e homogeneospossui um tal centre. As "modernidades" estao por toda parte; de "pertencimento cultural", mas abarcar os processes maismas assumiram uma enfase vernacula. O destino e a sorte do amplos — o jogo da semelhanca e da diferenca — que estaomais simples e pobre agricultor no mais remoto canto do transformando a cultura no mundo inteiro. Esse e o carninhomundo depende dos deslocamentos nao regulados do mercado da "diaspora", que e a trajetoria de um povo moderno e deglobal — e, por essa razao, ele (ou ela) e hoje um elemento uma cultura moderna. Isso pode parecer a principio igual —-essencial de cada calculo global. Os politicos sabem que os mas, na verdade, e muito diferente — do velho "internacio-pobres nao serao excluidos dessa "modernidade" ou defi- nalismo" do modernismo europeu. Jean Fisher argumen-nidos fora dela. Estes nao estao preparados para Rear cercados tou que, ate recentemente,para sempre em uma tradicao imutavel. Estao determinadosa construir seus proprios tipos de "modernidades vernaculas" o internacionalismo sempre se referiu exclusivamente a ume estas sao representativas de um novo tipo de consciencia eixo de afiliacoes politicas, militares e economicas que passavatranscultural, transnacional, ate mesmo pos-nacional. pela Europa e a diaspora europeia... Esse eixo dominante e entrincheirado cria, nas palavras de Mosquera, "zonas de Essa "narrativa" nao tern garantia de um final feliz. Muitos silencio" nos outros locais, dificultando as comunicacoesnos antigos Estados-nacao, que estao profundamente vincu- laterals e demais afilia^oes. Aracen e Oguibe nos lembramlados as formas mais puras de autoconhecimento nacional, que a iniciativa atual [de definir um novo internacionalismoestao sendo literalmente levados a loucura por sua erosaq. nas artes e cultura] e apenas a mais recente numa historia deEles sentem que todo o seu universe esta sendo ameacado tentativas tais como esta de estabelecer um dialogo entre aspela mudanca e ruindo. "A diferenca cultural" de um tipo culturas que foram apagadas das "narrativas oficiais da pratica cultural na Gra-Bretanha [e que nao foram capazes] de dominarrigido, etnicizado e inegociavel substituiu a miscigenacao as estruturas profundamente arraigadas e firmes que nossexual enquanto fantasia pos-colonial primordial. Um "funda- interrogamos" (Oguibe).31mentalismo" de impulse racial veio a tona em todas essassociedades da Europa ocidental e da America do Norte, um O que temos em mente aqui e algo bem diferente — aquelenovo tipo de nacionalismo defensive e racializado. O precon- "outro" tipo de modernidade que levou C. L. R. James aceito, a injustica, a discriminacao e a violencia em relacao ao comentar sobre o povo caribenho: "Aquele povo que esta na"Outro", baseados nessa "diferenca cultural" hipostasiada, civilizacao ocidental, que cresceu nela, mas que foi obrigadopassou a ocupar seu lugar — o que Sarat Maharaj chamou de a se sentir e de fato se sente fora dela, tern uma compreensaoum tipo de "sosia-assombracao do apartheid" — junto com unica sobre sua sociedade."32racismos mais antigos, fundados na cor da pele ou na dife-renca fisiologica — originando come resposta uma "politica [Esta palestra foi apresentada como parte das comemoracoesde reconhecimento", ao lado das lutas contra o racismo e do qiiinquagesimo aniversario de fundacao da University ofpela justica social. the West Indies (UWI), realizadas no seu campus de Cave Hill, Em principio, esses desdobramentos podem parecer Barbados, em novembro de 1998. Aparece aqui em forma revi-distantes das preocupacoes das novas nacoes e culturas emer- sada, com a autorizacao da UWI. Traducao de Adelaine Lagentes da "periferia". Mas como sugerimos, o velho modelo Guardia Resende.]centro-periferia, cultura-nacionalista-nacao e exatamente aquiloque esta desabando. As culturas emergentes que se sentemameacadas pelas forcas da globalizacao, da diversidade e dahibridizacao, ou que falharam no projeto de modernizacao, po-dem se sentir tentadas a se fechar em torno de suas inscricoes 47
  • 27. NOTAS Le discours antillais. Paris: Editions du Seuil, 1981. BRATHWAITE, Edward Kamau. The Development of Creole Society in Jamaica, 1770-1820. Oxford: Oxford University Press, 1971. 1 Este e o subtftulo do volume Windrush, de Mike Phillips c Trevor Phillips 12 (London: Harper Collins, 1998), que acompanhou o seriado da BBC. PRATT. Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation, p. 6-7. ^ANDERSON, Benedict. Imagined Communities. 2. ed. London: Verso, 1991- s SCOTT, David. Conscripts of Modernity, (trabalho nao publicado). [Nacao e ConsciSncia Nacional. Sao Paulo: Atica, 1989-1 " REDEMPTION SONG. Sete programas feitos com Barraclough e Carey para 3 CHAMBERLAIN, Mary. Narratives of Exile and Return. Houndsmill: Mac- a BBC2 e transmitidos entre 1989-1990. millan, 1998. 15 BAKHTIN, M.; VOLOCHINOV, V. N. Marxism and the Philosophy of 4 Ver MODOOD, T.; BERTHOUD, R. et al. Ethnic Minorities in Britain. Language. New York/London: Seminar Press, 1973- [Marxismo efilo- London: Policy Studies Institute, 1997. sofia da linguagem. Sao Paulo: Hucitec, 1981. p. 46.] 16 5 CHAMBERLAIN. Narratives of Exile and Return, p. 132. MERCER, Kobena. Diaspora Culture and the Dialogic Imagination. In: Welcome to the Jungle-. New Positions in Black Cultural Studies. London: 6 CHAMBERS, Iain. Border Dialogues: Journeys in Post-Modernity. London: Routledge, 1994. p. 63-64. Routledge, 1990. p. 104. 17 RUSHDIE, Salman. Imaginary Homelands. London: Granta Books, 1990. 7 Freedom rides eram uma acao de desobediencia civil de 1961 nos Estados p. 394. Unidos, em que onibus de manifestantes brancos e negros atravessaram os 18 estados do Sul. A muito custo, os freedom rzWesdesmontaram o sistema de CHAMBERS. Border Dialogues.-Journeys in Post-Modernity, p. 104. segregacao racial nos onibus interests duais na regiao, pois levaram a apro- 19 vacao de uma lei federal que vetava a reserva dos lugares na frente dos WALLERSTEIN, Immanuel. The National and the Universal. In: KING, A. onibus para brancos, os de tras para negros e a segregacao racial dos (Ed.). Culture, Globalization and the World-System. London: Macmillan, 1991- services e do cornercio nas rodoviarias. Alem dessa vitoria pontual, os p. 91-106.freedom rides conseguiram obrigar o governo federal a se envolver na luta 20 pela igualdade racial. (N. da T.) GILROY, Paul. The Black Atlantic. London: Verso, 1993. 216 "Babymother" foi lancado em Londres, Estados Unidos e Jamaica em 1998. Ver HALL, S. Cultural Identity and Diaspora. In: RUTHERFORD, Jonathan(Ed.). Identity: Community, Culture, Difference. London: Lawrence and Wishart, Foi dirigido por Julian Henriques, filho de um ilustre antropologo jamaicano que vive em Londres e produzido por sua esposa e sdcia, Parminder Vir, que1990 [HALL, S. Identidade cultural e diaspora. Revista do Patrimonio Histori-co eArtistico Nacional, n. 24, p. 68-75, 1996] e HALL, S.; DU GAY P. (Ed.). € do Punjab. Eles vieram, desnecessario dizer, desses dois polos do ImperioQuestions of Cultural Identity. London: Sage, 1997. p. 1-17. [TADEU, Tomaz e se encontraram em Londres.da Silva et al. Quern precisa de identidade? In: Identidade e diferenga; a 22 Um genero sucessor do reggae, que influenciou e depois foi influenciadoperspectiva dos Estudos Culturais. Petr6polis: Vozes, 2000.] pela cultura hip hop norte-americana, inclusive em sua visao de genero9 Ver HALL, S. The West and the Rest: Discourse and Power. In: Forma- machista e homofobica. (N. da T.)tions of Modernity. Cambridge Polity Press e The Open University, 1990. 23 O inquerito oficial instalado por Sir William Macpherson para apurar ap. 274-320. morte de Stephen Lawrence, aberto apos cinco anos, como resultado dos10 esforcos her6icos dos pais da vitima, Doreen e Neville Lawrence e de um Em Hamlet, Ato II, cena 2, o principe da as boas-vindas a Rosencrantz eGuildenstern, que foram enviados pelo casal real para descobrir o motivo do pequeno grupo de apoio negro, tornou-se um evento publico e uma causacomportamento estranho de Hamlet. Este afirma; "my uncle-father and celebre em 1998 e um ponto decisivo nas relacoes raciais britanicas.aunt-mother are deceived (...) I am but mad north-north-west: when the Resultou na senten9a do juiz de que a Policia Metropolitana fora culpada dewind is / southerly I know a hawk from a handsaw". [Meu tio-pai e tia-mae "racismo institucional". Ver Sir William Macpherson of Cluny, The Stephenestao enganados (...) 56 sou louco norte-noroeste: quando o vento vein Lawrence Inquiry Report. Cmnd.4262-1(1999)-do sul, distingo bem um falcao de um serrote.] Ou seja, sua loucura e 24 BRETT, Guy. A Tragic Excitement. In: Aubrey Williams. London: Institutecircunstancial. (N. da T.) for the International Visual Arts and Whitechapel Gallery, 1998. p. 24.11 PRATT, Mary Louise. Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation. 15 Ver SCOTT, David. That Event, this Memory: Notes on the AnthropologyLondon: Routledge, 1992. Ver inter alia, ORTIZ, Fernando. Cuban Counter- of African Diasporas in the New World. Diaspora, v. 1, n. 3, p- 261-point. Tobacco and Sugar. New York: A. A. Knopf, 19-47; GLISSANT, Edouard. 284, 1991.48 49
  • 28. 26 MAHARAJ, Sarat. Perfidious Fidelity. In: FISHER, Jean (Ed.). Global Visions: Towards a New Internationalism in the Visual Arts. London: Insti-tute of the International Visual Arts, 1994. p. 31. (A referenda e DERRIDA,Jacques. Des tours de Babel. In: Difference in Translation. Ithaca: CornellUniversity Press, 1985.) A QUESTAO MULT CULTURAL27 O tftulo de um dos mais importantes capitulos em FANON, Frantz. BlackSkin, WhiteMasks. London: Pluto Press, 1986.28 OUDITT, Steve. Enigma of Arrival. In: TANADROS, Gilane (Ed.). Anota-tions 4: Creole-in-Size. London: Institute of the International Visual Arts1998. p. 8-9.29 Sobre "tradicao enquanto o mesmo em mutacao" ver GILROY, The BlackAtlantic.30 Ver, por exemplo, APPADURAI, Arjun. Modernity at Large. Minneapolis:University of Minnesota Press, 1996. Este ensaio parte da observacao de Homi Bhabha de que31 FISHER, Jean. Editors note. In: FISHER, J. (Org.). Global Visions: Towards o "multiculturalismo" e um termo valise que se expandiu dea New Internationalism in the Visual Arts. London: Institute for the Interna- forma heterogenea e que o "multicultural" tornou-se umtional Visual Arts, 1994. p. xii. significante oscilante. A primeira parte 1 opera uma crttica32 JAMES, C. L. R. Africans and Afro-Caribbeans: A Personal View Ten desconstrutora desses termos-chave. Considera suas condicoesv. 8, n. 16. de emergencia e sua existencia disseminada na sociedade contemporanea e no discurso politico a partir da experiencia britanica. A segunda parte se inicia com a ideia de Barnor Hesse dos "efeitos transruptivos" da questao multicultural e os localiza em varies dominios. O ensaio se conclui com a tentativa de resgatar uma nova "logica" politica multicultural dos escombros dos vocabularies politicos atuais, arruinados na erupcao da propria questao multicultural. O termo "multiculturalismo" e hoje utilizado universal- mente. Contudo, sua proliferacao nao contribuiu para esta- bilizar ou esclarecer seu significado. Assim como outros termos relacionados — por exemplo, "raca", etnicidade, identidade, diaspora — o multiculturalismo se encontra tao discursivamente enredado que so pode ser utilizado "sob rasura" (Hall, 1996a). Contudo, na falta de concertos menos complexes que nos possibilitem refletir sobre o problema, nao resta alternativa senao continuar utilizando e interro- gando esse termo.
  • 29. A DISTINgAO MULTICULTURAL/ ou utopico. Descreve uma serie de-pr-ocessos e estrategias politicas sempre inacabados. Assim como ha distintas socie-MULTICULTURALISMO dades multiculturais, assim tambe"m ha "multiculturalismos" bastante diversos. O multiculturalismo conservador segue Pode ser util fazer aqui uma distincao entre o "multicul- Hume (Goldberg, 1994) ao insistir na assimilacao da dife- tural" e o "multiculturalismo".2 Multicultural e um termo quaii- rene/a as tradicoes e costumes da maioria. O multicultura- ficativo. Descreve as caracteristicas socials e os problemas de lismo liberal busca integrar os diferentes grupos culturais governabilidade apresentados por qualquer sociedade na qual o mais rapido possivel ao mainstream, ou sociedade majo- diferentes comunidades culturais convivem e tentam construir ritaria, baseado em uma cidadania individual universal, uma vida em comum, ao mesmo tempo em que retem algo de tolerando certas praticas culturais particuiaristas apenassua identidade "original". Em contrapartida, o termo "multi- no dominio privado. O multiculturalismo pluralista, por culturalismo" e substantive. Refere-se as estrategias e poli- sua vez, avaliza diferencas grupais em termos culturais eticas adotadas para governar ou administrar problemas de concede direitos de grupo distintos a diferentes comunidadesdiversidade e multiplicidade gerados pelas sociedades multi- dentro de uma ordem politica comunitaria ou mais comunal.culturais. E usualmente utilizado no singular, significando a O multiculturalismo comercial pressupoe que, se a diversi-filosofia especifica ou a doutrina que sustenta as estrategias dade dos individuos de distintas comunidades for publicamentemulticulturais. "Multicultural", entretanto, e, por definicao, reconhecida, entao os problemas de diferenca cultural seraoplural. Existem muitos tipos de sociedade multicultural, como resolvidos (e dissolvidos) no consumo privado, sem qualquerpor exemplo, os Estados Unidos da America, a Gra-Bretanha, necessidade de redistribuicao do poder e dos recursos. Oa Franga, a Malasia, o Sri Lanka, a Nova Zelandia, a Indo- multiculturalismo corporative (publico ou privado) buscanesia, a Africa do Sul e a Nigeria. Estes sao, de forma bastante "administrar" as diferencas culturais da minoria, visando osdistinta, "multiculturais". Entretanto, todos possuem uma interesses do centre. O multiculturalismo critico ou "revo-caracterlstica em comum. Sao, por definicao, culturalmente lucionario" enfoca o poder, o privilegio, a hierarquia dasheterogeneos. Eles se distinguem neste sentido do Estado- opressoes e os movimentos de resistencia (McLaren, 1997).nacao "moderno", constitucional liberal, do Ocidente, que se Procura ser "insurgente, polivocal, heteroglosso e anti-afirma sobre o pressuposto (geralmente tacito) da homoge- fundacional" (Goldberg, 1994). E assim por diante.neidade cultural organizada em torno de valores universais, Longe de ser uma doutrina estabelecida, o "multicultura-seculares e individualistas liberals (Goldberg, 1994). lismo" e uma ideia profundamente questionada (May, 1999)- Ambos os termos sao hoje interdependentes, de tal forma E contestado pela direita conservadora, em prol da pureza eque e praticamente impossivel separa-los. Contudo, o "multi- integridade cultural da nacao. £ contestado pelos liberals,culturalismo" apresenta algumas dificuldades especificas. que alegam que o "culto da etnicidade" e a busca da dife-Denomina "uma variedade de articulacoes, ideais e praticas renca ameacam o universalismo e a neutralidade do estadosociais". O problema e que o -ismo tende a converter o "multi- liberal, comprometendo a autonomia pessoal, a liberdadeculturalismo" em uma doutrina politica, "reduzindo-o a uma individual e a igualdade formal. Alguns liberals afirmam que osingularidade formal e fixando-o numa ccfndicao petriflcada multiculturalismo, ao legitimar a ideia dos "direitos de grupo",(...) Assim convertida (...) a heterogeneidade caracteristica subverte o sonho de uma nacao e cidadania construidas adas condicoes multiculturais e reduzida a uma doutrina facil partir das culturas de povos diversos — epluribus unum? Oe prosaica" (Caws, 1994). Na verdade, o "multiculturalismo" multiculturalismo e tambem contestado por modernizaclo.resnao e uma unica doutrina, nao caracteriza uma estrategia de distintas conviccoes politicas. Para estes, o triunfo dopolitica e nao representa um estado de coisas j£ alcancado. universalismo da civilizacao ocidental sobre o particula-Nao e uma forma disfarcada de endossar algum estado ideal rismo de raiz etnica e racial, estabelecido no Iluminismo,52 53
  • 30. marcou uma transigao decisiva e irreversivel do Tradiciona- CONDUCES DE EMERGENCIAlismo para a Modernidade. Essa mudanca nao deve jamaisser revertida. Algumas versoes pos-modernas do "cosmopoli- As sociedades multiculturais nao sao algo novo. Bemtismo", que tratam o "sujeito" como algo inteiramente contin- antes da expansao europeia (a partir do seculo quinze) — egente e desimpedido, se opoem radicalmente ao multicul- com crescente intensidade desde entao — a migracao e osturalismo, em que os sujeitos se encontram mais localizados. deslocamentos dos povos tern constituido mais a regra que aHa ainda o desafio de varias posicoes na esquerda. Os anti- excecao, produzindo sociedades etnica ou culturalmenteracistas argumentam que, erroneamente, o multiculturalismo "mistas". "Movimento e migracao (...) sao as condicoes deprivilegia a cultura e a identidade, em detrimento das questoes definicao socio-historica da humanidade." (Goldberg, 1994).economicas e materiais. Os radicals creem que ele divide, As pessoas tern se mudado por varias razoes — desastresem termos etnicos e racialmente particularistas, uma frente naturais, alteracoes ecologicas e climaticas, guerras, con-racial e de classe unida contra a injustica e a exploracao. quistas, exploracao do trabalho, colonizacao, escravidao,Outros apontam as varias versoes do multiculturalismo semi-escravidao, repressao politica, guerra civil e subdesen-"de butique", comercializado e consumista (Fish, 1998), volvimento economico. Os imperios, produtos de conquistaque celebram a diferenca sem fazer diferenca.4 Ha tambem e dominacao, sao frequentemente multiculturais. Os imperiosaquilo que Sarat Maharaj oportunamente denomina "gerencia- grego, romano, islamico, otomano e europeu foram todos,lismo multicultural", o qual apresenta "uma assombrosa seme- de formas distintas, multietnicos e multiculturais. O colonia-Ihanca com a logica do apartheid" (Maharaj, 1999). lisrno — sempre uma inscrigao dupla — tentou inserir o colo- Pode um conceito que significa tantas coisas diferentes nizado no "tempo homogeneo vazio" da modernidade global,e que tao efetivamente acirra os animos de inimigos tao sem abolir as profundas diferencas ou disjunturas de tempo,diversos e contraditorios realmente ter algo a dizer? For outro espaco e tradi^ao (Bhabha, 1994; Hall, 1996a). Os sistemaslado, sua condicao contestada nao constitui precisamente seu coloniais de monocultura do mundo ocidental, os sistemasvalor? Afinal: "O signo, se subtraido as tensoes da luta social, de trabalho semi-escravo do Sudeste da Asia, da India colo-se posto a margem da luta de classes, ira infalivelmente debi- nial, assim como os varies Estados-nacao conscientementelitar-se, degenerara em alegoria, tornar-se-a objeto de estudo fabricados a partir de um quadro etnico mais fluido — nados filologos e nao sera mais instrumento racional e vivo Africa, pelos poderes colonizadores; no Oriente Medio, nospara a sociedade." (Volochinov/Bakhtin, 1973). For bem Balcas e na Europa Central, pelas grandes potencias — todosou por mal, estamos inevitavelmente implicados em suas se ajustam mais ou menos a descrif ao multicultural.praticas, que caracterizam e definem as "sociedades da Esses exemplos historicos sao relevantes a questao damodernidade tardia". Nos termos de Michele Wallace, emergencia do multiculturalismo no mundo pos-guerra, pois eles produziram algumas das condicoes para que isso ocor- todos sabem (...) que o multiculturalismo nao e a terra prome- resse. Contudo, nao ha uma relacao linear entre o colonial e tida... [Entretanto] mesmo em sua forma mais cinica e pragma- o pos-colonial. Desde a II Guerra Mundial, o multicultura- tica, ha algo no multiculturalismo que vale a pena continuar lismo nao so tern se alterado, mas tambem se intensificado. buscando (...) precisamos encontrar formas de manifestar Tornou-se mais evidente e ocupa um lugar central no campo publicamente a importancia da diversidade cultural, [e] de da contestagao politica. Isso e o resultado de uma serie de integrar as contribuicoes das pessoas de cor ao tecido da mudangas decisivas — uma reconfigura^ao estrategica das sociedade. (Wallace, 1994) formas e relagoes sociais em todo o globo. Primeiramente, o fim do velho sistema imperial europeu e das lutas pela descolonizacao e independencia nacional.54
  • 31. Nos prii»<5rdios do desmantelamento dos antigos impedes, Paquistao, Iraque, Indonesia, Nigeria ou Argelia, ou os varies novos Estados-nacao, multietnicos e multiculturais, continues problemas de legitimidade e estabilidade poll- f ram criados. Entretanto, estes continuam a refletir suas tica no Afeganistao, Namibia, Mozambique ou Angola tem condicoes anteriores de existencia sob o colonialismo. 5 origens claras em sua recente historia imperial. Essa "dupla Esses novos estados sao relativamente frageis, do ponto de inscricao" pos-colonial ocorre em um contexto global onde vista economico e militar. Muitos nao possuem uma sociedade a administracao direta, o controle ou o protetorado de um civil desenvolvida. Permanecem dominados pelos imperatives poder imperial foi substituido por um sistema de poder dos prirneiros movimentos nacionalistas de independencia. assimetrico e globalizado, cujo carater e pos-nacional e pos- Governam populates com uma variedade de [radioes imperial. Suas principals caracteristicas sao a desigualdade e"tnica$, culturais ou religiosas. As culturas nativas, deslo- estrutural, dentro de um sistema desregulamentado de livre cadas, senao destruidas pelo colonialismo, nao sao inclusivas mercado e de livre fluxo de capital, dominado pelo Primeiro a ponto de fornecer a base para uma nova cultura nacional Mundo; e os programas de reajuste estrutural, nos quais ou civica. Somam-se a essas dificuldades a pobreza generali- prevalecem os interesses e modelos ocidentais de controle. zada e o subdesenvolvimento, num contexto de desigual- O segundo fator e o fim da Guerra Fria. Suas principals dade global que se aprofunda e de uma ordem mundial caracteristicas sao a ruptura pos-1989 da Uniao Sovietica economica neoliberal nao regulamentada. Cada vez mais, enquanto formacao transetnica e transnacional; e o declinio as crises nessas sociedades assumem um carater multicultural do comunismo de Estado como modelo alternative de desen- ou "etnicizado". volvimento industrial, e o declinio da esfera sovietica de Ha uma intima relacao entre o ressurgimento da "questao influencia, especialmente na Europa Oriental e na Asia^multicultural" e o fenomeno do "pos-colonial". Este poderia Central. Isso causou efeitos regionais semelhantes de certa nos fazer desviar por um labirinto conceitual do qual poucos forma ao desmantelamento dos velhos sistemas imperais. viajantes retornam. Contentemo-nos, por enquanto, em O ano de 1989 foi seguido pela tentativa, liderada pelos afirmar que o "pos-colonial" nao sinaliza uma simples Estados Unidos da America, de construir uma "nova ordem sucessao cronologica do tipo antes/depois. O movimento que mundial". Uma caracteristica desse impulso foi a pressao vai da colonizacao aos tempos pos-coloniais nao implica que continua do Ocidente, destinada a arrastar, contra sua vontade os problemas do colonialismo foram resolvidos ou suce- e da noite para o dia, aquelas sociedades tao distintas e relati- didos por uma epoca livre de conflitos. Ao contrario, o vamente subdesenvolvidas do Leste Europeu para o que se "pos-colonial" marca a passagem de uma configuracao ou chamou de "o mercado". Esta entidade misteriosa e propelida conjuntura historica de poder para outra (Hall, 1996a).6 para dentro de culturas e constituigoes politicas antigas e com- Problemas de dependencia, subdesenvolvimento e margi- plexas como se fosse um principio abstrato e desnudo, sem nalizacao, tipicos do "alto" periodo colonial, persistem no considerar o envolvimento cultural, politico, social e institu- pos-colonial. Contudo, essas relacoes estao resumidasem uma ciona! que os mercados sempre requerem. Conseqiientemente, nova configuracao. No passado, eram articuladas como os problemas pendentes de desenvolvimento social tem se relacoes desiguais de poder e exploracao entre as sociedades somado ao ressurgimento de traces de antigos nacionalismos colonizadoras e as colonizadas. Atualmente, essas relacoes etnicos e religiosos malresolvidos, fazendo com que as sao deslocadas e reencenadas como lutas entre forcas sociais tensoes nessas sociedades ressurjam sob a forma multicultural. nativas, como contradicoes internas e fontes de desesta- E importante frisar que esse nao e um simples ressurgi- bilizacao no interior da sociedade descolonizada, ou entre mento de etnias arcaicas, embora tais elementos possam ela e o sistema global como um todo. Pensemos em como persistir. Traces mais antigos se combinam com novas e emer- a instabilidade do governo democr&tico, por exemplo, no gentes formas de "etnicidade", que freqiientemente resultam56 57
  • 32. da globalizacao desigual ou da modernizacao falha. Essa mis- O sistema e global, no sentido de que sua esfera detura explosiva revaloriza seletivamente os discursos mais operacoes e planetaria. Poucos locais escapam ao alcanceantigos, condensando numa combinacao letal aquilo que de suas interdependencias desestabilizadoras. Ele tem enfra-Hobsbawm e Ranger (1993) denominaram "a invencao da quecido significativamente a soberania nacional e o "raio detradicao" e o que Michael Ignatieff (1994) chamou (depois acao" dos Estados-nacao (os motores das primeiras fases dade Freud) de "narcisismo das pequenas diferencas". (O nacio- globalizacao), sem desloca-los completamente. O sistema,nalismo servio e a limpeza etnica na Bosnia e em Kosovo sao entretanto, nao e global, se por isso se entende que oexemplos claros disso.) Sua reinvencao do passado-no-presente processo e de carater uniforme, afeta igualmente todos ose remanescente do carater de Janus do discurso nacionalista lugares, opera sem efeitos contraditorios ou produz resul-(Nairn, 1977). Esses movimentos de revivificacao continuam tados iguais no mundo inteiro. Ele continua sendo um sistemaprofundamente vinculados a ideia da "nacao"7 enquanto de desigualdades e instabilidades cada vez mais profundas,motor da modernizacao, que garante um lugar no novo sobre o qual nenhuma potencia — nem mesmo os Estadossistema mundial, precisamente no momento em que a globa- Unidos, que e a nacao mais poderosa em termos economicoslizacao conduz a um hesitante desfecho da fase do Estado- e militares da terra — possui o controle absolute.nacao da modernidade capitalista. Como o pos-colonial, a globalizacao contemporanea e uma O terceiro fator e a nossa velha conhecida "globalizacao". novidade contraditoria. Seus circuitos economicos, finan-Reitero, a globalizacao nao e algo novo. A exploracao, a con- ceiros e culturais sao orientados para o Ocidente e domi-quista e a colonizacao europeias foram as primeiras formas nados pelos Estados Unidos. Ideologicamente, e governadade um mesmo processo historico secular (Marx denominou-o por um neoliberalismo global que rapidamente se torna"a formacao do mercado mundial"). Porem, desde os anos 70 o senso comum de nossa epoca (Fukuyama, 1989). Suado seculo vinte, o processo tem assumido novas formas, ao tendencia cultural dominante e a homogeneizacao. Entretanto,mesmo tempo em que tem se intensificado (Held et al.? 1999). esta nao e a sua unica tendencia. A globalizacao tem causadoA globalizacao contemporanea e associada ao surgimento extensos efeitos diferenciadores no interior das sociedadesde novos mercados financeiros desregulamentados, ao ca- ou entre as mesmas. Sob essa perspectiva, a globalizacao naopital global e aos fluxos de moeda grandes o suficiente para e um processo natural e inevitavel, cujos imperatives, comodesestabilizar as economias medias, as formas transnacionais o Destine, so podem ser obedecidos e jamais submetidos ade producao e consume, ao crescimento exponencial de resistencia ou variacao.8 Ao contrario, e um processo homo- geneizante, nos proprios termos de Gramsci. E "estruturadonovas industrias culturais impulsionado pelas tecnologias em dominancia", mas nao pode controlar ou saturar tudode informacao, bem como ao aparecimento da "economia dentro de sua orbita. De fato, entre seus efeitos inesperadosdo conhecimento". Caracteristica desta fase e a compressao estao as formacoes subalternas e as tend£ncias emergentesdo tempo-espaco (Harvey, 1989), que tenta — embora de que escapam a seu controle, mas que ela tenta "homoge-forma incompleta — combinar tempos, espacos, historias neizar" ou atrelar a seus propositos mais amplos. E ume mercados no centre de um cronotopo espaco-temporal sistema de con-formagdo da diferenga, ern vez de um sino-"global" homogeneo. E marcada ainda pelo desarraigamento nimo conveniente de obliteracao -da diferenca. Este argu-irregular das relacoes sociais e por processes de destra- mento torna-se crucial se considerarmos como e onde asdicionalizacao (Giddens, 1999) que nao se restringem as resistencias e contra-estrategias podem se desenvolver comsociedades em desenvolvimento. Tanto quanto as sociedades sucesso. Essa perspectiva implica um modelo de poder maisda periferia, as sociedades ocidentais nao podem mais evitar discursive do que comumente se encontra no novo ambienteesses efeitos. global entre os "arautos do hiper-global" (Held et al., 1999)-58 59
  • 33. A PROLlFERAgAO SUBALTERNA DA DlFERENgA ao outro e aos outros conceitos [significados], atrave~s de um jogo sistematico de diferencas" (Derrida, 1972). O significado aqui nao possui origem nem destine final, nao pode ser Juntamente com as tendencias homogeneizantes da globa- fixado, esta sempre em processor "posicionado" ao longo de lizacao, existe a "proliferacao subalterna da diferenca". um espectro. Seu valor politico nao pode ser essencializado,Trata-se de um paradoxo da globalizacao contemporanea o apenas determinado em termos relacionais. fato de que, culturalmente, as coisas parec.am mais ou menos semelhantes entre si (um tipo de americanizagao da cultura As estrategias de differance nao sao capazes de inaugurar global, por exemplo). Entretanto, concomitantemente, ha formas totalmente distintas de vida (nao funcionam segundo a proliferacao das "diferencas". O eixo "vertical" do poder a nocao de uma "superacao" dialetica totalizante). Nao cultural, economico e tecnologico parece estar sempre podem conservar intactas as formas antigas e tradicionais marcado e compensado por cpnexoes laterais, o que produz de vida. Operam melhor dentro daquilo que Homi Bhabha uma visao de mundo composta de muitas diferencas "locals", denomina "tempo Hminar" das minorias (Bhabha, 1997). Con- tudo, a differance impede que qualquer sistema se estabilize as quais o "global-vertical" e obrigado a considerar (Hall, em uma totalidade inteiramente suturada. Essas estrategias 1997). Nesse modelo, o classico binarismo iluminista Tradi- surgem nos vazios e aporias, que constituem sitios potenciais cionalismo/Modernidade e deslocado por um conjunto disse- de resistencia, intervencao e traducao. Nesses intersticios, minado de "modernidades vernaculas". Consideremos, por existe a possibilidade de um conjunto disseminado de moder- exemplo, como a empresa News International se viu forcada nidades vernaculas. Culturalmente, elas nao podem confer a fazer uma retirada tatica ao tentar saturar a India e a China a mare da tecno-modernidade ocidentalizante. Entretanto,com um regime basico da programagao televisiva ocidental. continuam a modular, desviar e "traduzir" seus imperatives aSo conseguiu avancar atraves de uma "local-izacao" das partir da base.10 Elas constituem o fundamento para um novo industries televisivas locais, o que complica sobremaneira o tipo de "localismo" que nao e auto-suficientemente parti-ambito das imagens oferecidas localmente e conduz ao cular, mas que surge de dentro do global, sem ser simples-desenvolvimento de uma industria local enraizada em dife- "mente um simulacro deste (Hall, 1997). Esse "localismo" naorentes tradicoes culturais. Alguns veem nisso apenas uma e um mero residue do passado. E algo novo — a sombra queversao mais lenta de uma ocidentalizacao das culturas indiana acompanha a globalizacao: o que e deixado de lado peloe chinesa, quando expostas ao mercado global. Outros consi- fluxo panoramico da globalizacao, mas retorna para perturbarderam que esta e a forma pela qual os povos dessas areas e transtornar seus estabelecimentos culturais. E o "exteriorobtem acesso a "modernidade", adquirem os frutos de suas constitutive" da globalizacao (Laclau e Mouffe, 1985; Butler,tecnologias e o fazem, ate certo ponto, em seus proprios 1993)- Encontra-se aqui o "retorno" do particular e do especi-termos. No contexto global, a luta entre os interesses "locais" fico — do especificamente diferente — no centro da aspi-e o "globais" nao esta definitivamente concluida. rac.ao universalista panoptica da globalizacao ao fechamento. Isso e o que Derrida, em outro contexto, denomina diffe- O "local" nao possui um carater estavel ou trans-historico. rance: "o movimento do jogo que produz (...) essas dife- Ele resiste ao fluxo homogeneizante do universalismo comrencas, esses efeitos de diferenca" (Derrida, 1981, 1982).9 Nao temporalidades distintas e conjunturais. Nao possui inscrigaose trata da forma binaria de diferenca entre o que e absoluta- politica fixa. Pode ser progressista, retrograde ou fundamen-mente o mesmo e o que e absolutamente "Outro". E urna talista — aberto ou fechado — em diferentes contextos (Hall, "onda" de similaridades e diferencas, que recusa a divisao 1993). Seu impulse politico nao e determinado por um con-.em oposicoes binarias fixas. Differance caracteriza um teudo essencial (geralmente caricaturado como "resistenciasistema em que "cada conceito [ou significado] esta inscrito da Tradic.ao a modernidade"), mas por uma articulacao comem uma cadeia ou em um sistema, dentro do qual ele se refere outras forgas. Ele emerge em muitos locais, entre os quais o 61
  • 34. mais significante e a migrate planejada ou nao, forcosa cultura nacional tern sido consideravelmente exagerada. Estaou denominada "livre", que trouxe as margens para o centro, sempre foi contestada pelos escoceses, gauleses e irlandeses,o "particular" multicultural disseminado para o centro da desafiada por aliancas locals e regionais e dividida pormetropole ocidental. Somente nesse contexto se pode com- classe, genero e geracao. Sempre existiram muitas formaspreender por que aquilo que ameaca se tornar o momento distintas de ser "britanico". A maioria das realizacoes na-de fechamento global do Ocidente — a apoteose de sua cionais — desde a liberdade de expressao e o sufragio uni-missao universalizante global — constitui ao mesmo tempo versal ate" o Estado do bem-estar social e o Service Nacionalo momento do descentramento incerto, lento e prolongado de Saude (NHS) — foram alcancadas as custas de penosasdo Ocidente. lutas entre um tipo e outro de individuo "britanico". Vistas em retrospecto, essas diferencas radicais foram suavemente reintegradas ao tecido homogeneo de um discurso de "brita-AS MARGENS NO CENTRO: O CASO BRITANICO nidade" transcendente. A Gra-Bretanha foi tambem o centro do maior imperio dos tempos modernos, que governou uma De que forma o aparecimento extemporaneo das margens variedade de culturas. Essa experiencia imperial moldou pro-no centro — o foco da "questao multicultural" — tornou-se fundamente a identidade nacional britanica, seus ideais deaquilo que Barnor Hesse denomina "forca transruptiva" den- grandeza e definiu seu lugar no mundo (C. Hall, 1992). Essatro da instituicao polftica e social dos estados e sociedades relacao mais ou menos contmua com a "diferenca", situadaocidentais? no amago da coionizacao, projetou o "outro" como elemento constitutivo da identidade britanica. O caso britanico pode servir como breve exemplo de umargumento mais amplo. A historia nacional pressupoe que a Ha uma presenca "negra" na Gra-Bretanha desde o seculoGra-Bretanha tenha side uma cultura homogenea e unificada dezesseis, uma presenca asiatica, desde o seculo dezoito. Masate a ocorrencia das migracoes do subcontinente caribenho e o tipo e a dimensao da migracao da periferia global de corasiatico no pos-guerra. Esta e uma versao altamente simplista para a Gra-Bretanha, que tem questionado seriamente ade uma historia complexa (Hall, 1999a, 1999b, 1999c, 1999d). nocao estabelecida de uma identidade britanica e colocadoA Gra-Bretanha nao e uma ilha real, que surgiu do Mar do em pauta a "questao multicultural", constituem um fenomenoNorte integralmente formada e isolada como um Estado- pos-colonial ou pos-Segunda Guerra Mundial. Historica-nacao. Embora "supostamente fixa e eterna", foi constituida mente, surgiu com a chegada do navio S.S. Empire Windrusha partir de uma serie de conquistas, invasdes e colonizacoes em 1948, trazendo de volta os caribenhos em servico militar(Davies, 1999). Fez parte do continente europeu ate o seculo voluntario e, tambem, os primeiros imigrantes civis cari-seis a.C.; foi dominada pelos normandos durante seculos e benhos, os quais abandonavam as economias em depressaose Hgou inteiramente a Europa ate a Reforma. Passou a existir daquela regiao em busca de uma vida meihor. O fluxo foienquanto Estado-nacao somente a partir do seculo dezoito, rapidamente reforcado pelo Caribe, depois pelo subcontinenteem virtude do pacto civil (originado, na verdade, de uma asiatico e por asiaticos expulsos da Africa Oriental, junto comsupremacia protestante anglo-saxonica), que uniu culturas africahos e outros do Terceiro Mundo, ate o fim dos anossignificativamente distintas — a Escocia e o Pals de Gales — 70, quando a legislacao de imigracao efetivamente fechoucom a Inglaterra. O "Decreto de Uniao" com a Irlanda (1801), as portas.que culminou na Cisao, jamais logrou integrar o povo irlandes As antigas relacoes de coionizacao, escravidao e dominio ou o elemento celta catolico ao imaginario britanico. A Irlanda colonial, que ligaram a Gra-Bretanha ao Imperio por mais de e a mais antiga "colonia" da Gra-Bretanha e os irlandeses, 400 anos, marcaram os rumos seguidos por esses imigrantes.o primeiro grupo a ser sistematicamente "racializado". A Contudo, essas relacoes historicas de dependencia e subor- tao proclamada homogeneidade da "britanidade" enquanto dinacao foram reconfiguradas — sob a forma pos-colonial62 63
  • 35. classica — quando reunidas no solo domestico britanico. nao conseguem esconder o fato de que algumas famfliasNa esteira da descolonizacao, disfarcadas na amnesia cole- indianas e muitas asiaticas ainda vivem em grave condicaotiva ou em um sistematico repudio ao "Imperio" (que desceu de pobreza. Os imigrantes de Bangladesh sao em mediacomo uma Nuvem do Nao-Saber nos anos 60), esse encontro quatro vezes mais carentes do que qualquer outro grupofoi interpretado como "um novo comeco". A maioria do povo identificavel. As diferencas de genero exercem um papelbritanico olhava esses "filhos do Imperio" como se nao decisive. Jovens rapazes afro-caribenhos sao altamente vulne-pudessem sequer imaginar de onde "eles" vinham, por que raveis ao desemprego e ao baixo desempenho educacional,ou que outra relacao eles poderiam ter com a Gra-Bretanha. sao desproporcionalmente presentes entre os excluidos da Em geral, os imigrantes encontravam condicoes de moradia escola e a populacao prisioneira e sao o objeto mais frequenteprecarias e empregos mal remunerados e nao especializadps das detencoes em operacoes de blitz policial. As mulheresnas cidades e regioes industrials, ainda em processo de recu- afro-caribenhas, no entanto, tem hoje maior mobilidade nopera£ao da guerra e afetadas pelo declinio vertiginoso das emprego, melhores salaries e taxas mais elevadas de partici-condicoes economicas na Gra-Bretanha. Atualmente, esses imi- pacao na educacao do que as mulheres brancas. O quadrograntes e seus descendentes constituent 7% da populacao nao e mais de privacao uniforme, embora a desvantagembritanica. 11 Contudo, eles ja compoem 25% da populacao socioeconomica continue sendo ampla.de Londres e de algumas outras cidades, o que reflete a densi- Que tipos de "comunidade" esses individuos formam? Suasdade seletiva da fixacao. Eles passaram por todos os processes culturas sao unificadas e homogeneas? Qual o seu relaciona-da exclusao social, sofreram a desvantagem que o racismo mento com a sociedade britanica majoritaria? Quais sao asIhes impunha [racialized disadvantage], o racismo informal estrategias mais adequadas para sua plena integracao a essae institucionalizado, tao comuns hoje na Europa Ocidental sociedade?em face de processes semelhantes que afetam a Franca, O termo "comunidade" (como em "comunidades de minoriasEspanha, Portugal, Alemanha, Italia e Grecia. Sua historia etnicas") reflete precisamente o forte senso de identidadepos-guerra tern sido marcada por lutas contra o preconceito grupal que existe entre esses grupos. Entretanto, isso poderacial, por confrontos com grupos racistas e a policia, bem como ser algo perigosamente enganoso. Esse modelo e uma ideali-pelo racismo institucionalizado e as autoridades publicas que zacao dos relacionamentos pessoais dos povoados compostosadministram e distribuem diferencialmente os sistemas de por uma mesma classe, significando grupos homogeneos quesuporte dos quais dependem as comunidades imigrantes. Em possuem fortes lacos internes de uniao e fronteiras bemtermos gerais, a maioria se concentra na extremidade inferior estabelecidas que os separam do mundo exterior. As chamadasdo espectro social de privacao, caracterizada por altos niveis "minorias etnicas" de fato tem formado comunidades culturaisrelativos de pobreza, desemprego e insucesso educacional. Em fortemente marcadas e mantem costumes e praticas sociais1991, menos de dois tercos dos homens e menos da metade distintas na vida cotidiana, sobretudo nos contextos familiardas mulheres em idade economicamente ativa realmente e domestico. Elos de continuidade com seus locals de origemtrabalhavam. continuam a existir. E o que ocorre nas areas densamente Entretanto, seu posicionamento social e economico tem ocupadas pelas comunidades afro-caribenhas, tais comose tornado significativamente mais diferenciado com o passar Brixton, Peckham e Tottenham, o bairro de Moss Side emdo tempo (Modood et al., 1997). Alguns indianos, asiaticos Manchester, Liverpool e Handsworth, ou, no caso das comu-da Africa Oriental e chineses, apesar de altamente quali- nidades asiaticas, locals como Southall, Tower Hamlets, Balsallficados, tem enfrentado o "teto de vidro" do bloqueio a Heath em Birmingham, Bradford e Leeds. Mas existem aindapromocao nos niveis superiores da carreira profissional. diferencas que se negam a ser consolidadas. Os caribenhosAs comunidades paquistanesas sao bastante atuantes no setor das diferentes ilhas provem de misturas etnicas e raciaisdas pequenas empresas. Contudo, os milionarios asiaticos muito distintas, embora todos tendam (erroneamente) a ser 65
  • 36. vistos como "jamaicanos". Os asiaticos tambem sao tratados Declaram nao uma identidade primordial, mas uma escolhacomo um grupo unico. Pore"m, "apesar de compartilharem de posicao do grupo ao qual desejam ser associados. Asaiguns traces culturais, ... [os asiaticos] pertencem a grupos escolhas identitarias sao mais politicas que antropol6gicas,etnicos, religiosos e linguisticos diferenciados e trazem mais "associativas", menos designadas (Modood et al., 1997).consigo receios e memorias hist6ricas diferentes" (Parekh, Portanto, as generalizac,6es se tornam extremamente di-1997). Todas essas comunidades sao etnica e racialmente ficeis diante dessa complexidade multicultural. Bhikhumiscigenadas e possuem um numero substancial de popu- Parekh, um observador arguto, adota uma definicao/ortedelae.6es brancas. Nenhuma e segregada em guetos raciais ou "comunidades etnicas": "As comunidades asiaticas e afro-etnicos. Sao consideravelmente menos segregadas do que, caribenhas sao etnicas por natureza, isto e, sao fisicamentepor exemplo, as minorias nao brancas em muitas cidades diferenciaveis, ligadas por lacos sociais derivados de cos-dos Estados Unidos. Assim como ocorre entre a, populacao tumes, linguas e praticas intermatrimoniais compartilhadas;branca, os fatores de classe e generos sao altamente respon- possuem historia, memorias coletivas, origens geograficas,saveis pela determinacao de suas posicoes na sociedade visoes de mundo e modos de organiza^ao social proprios."britanica (Brah, 1996; Yuval-Davis, 1997; Phoenix, 1998). Contudo, ele reconhece queUm quadro mais precise teria que partir da complexidadevivida que surge nessas comunidades diasporicas, onde as ao contrSrio da impressao popular, grandes modificanoesformas de vida derivadas de suas culturas de origem e deno- estao ocorrendo nas comunidades etnicas e cada famflia tem se tornado um terreno de lutas reprimidas ou explosivas. Emminadas "tradicionais" continuam influenciando as autodefi- cada familia, marido e inulher, pais e filhos, irmaos e irmasnicoes comunitarias, embora constantemente operem em todos estao tendo que renegociar e redefinir seus padroes de rela-os niveis ao longo das interacoes cotidianas amplas, junto cionamento, de acordo com seus valores tradicionais e comcom a vida social britanica como um todo. aqueles caracteristicos do pais adotado. Cada familia chega as suas proprias conclusoes experimentais... (Parekh, 1991) A manutencao de identidades racializadas, etnico-culturaise religiosas, e obviamente relevante a autocompreensao- Portanto, e um erro fundamental confundir suas formasdessas comunidades. O fator da "negritude" e decisive para diasporicas com uma vagarosa transic.ao para a assimilacaoa identidade da terceira geracao de afro-caribenhos,12 assim completa (uma ideia decisivamente deixada de lado, na Gra-como e a f e hindu ou muculmana para a segunda geracao de Bretanha pelo menos, durante os anos 70). Elas representamcertos asiaticos. Mas certamente essas comunidades nao uma nova configuracao cultural — "comunidades cosmopo-estao emparedadas em uma Tradicao imutavel. Assim como Htas" — marcadas por amplos processes de transculturacaoocorre na maioria das diasporas, as tradicoes variam de (Pratt, 1992). Por sua vez, tem causado um impacto macic.o eacordo com a pessoa, ou mesmo dentro de uma mesma pluralizante sobre a vida social publica e privada na Gra-pessoa, e constantemente sao revisadas e transformadas Bretanha, transformando literalmente muitas das cidadesem resposta as experiencias migratorias. Ha notavel variaclo, britanicas em metropoles multiculturais. Essas comunidadestanto em termos de compromisso quanto de pratica, entre se destacaram no breve fenomeno do Novo Trabalhismoas diferentes comunidades ou no interior das mesmas — conhecido como Cool Britannia.™ Um sinal de que elasentre as distintas nacionalidades e grupos linguisticos, no ultrapassaram as categorias do senso comum e o fato de queseio dos credos religiosos, entre homens e mulheres ou ge- servem de exemplo de um "senso de comunidade" que aracoes. Jovens de todas as comunidades expressam certa sociedade liberal supostamente perdeu e, ao mesmo tempo,fidelidade as "tradicoes" de origem, ao mesmo tempo em que sao os significantes mais avancados da experiencia metropo-demonstram um declmio visivel em sua pratica concreta. litana do pos-moderno urbano!66 67
  • 37. O leitor pode discordar de detalhes do processo acima publica. Sua crescente visibilidade constitui, inevitavelmente,descrito (que, necessariamente, e generalizado e abstrato). um processo dificil e pesado. Alem do mais, encontramosContudo, a menos que o quadro fundamental seja questio- agora "raca" entre parenteses, "raca" sob rasura, "raca" emnado substancialmente, vale a pena refletir a respeito das uma nova configurable com etnicidade. Esse deslocamentoenormes consequencias dis- ou (como coloca Barnor Hesse) epistemico constitui um dos efeitos mais transruptivos do"transruptivas" desses desdobramentos para uma estrategia multicultural.ou abordagem politica a questao multicultural. O restante Entre as duas maiores comunidades pos-migratorias naodeste ensaio se ocupa em tra^ar alguns desses efeitos trans- brancas na Gra-Bretanha, o termo "raca" 6 aplicado geralmenteruptivos. aos afro-caribenhos e "etnicidade" aos asiaticos. Na verdade, esses termos fornecem um mapeamento bem grosseiro dessas comunidades. Considera-se que a "raca" traduza melhor aPERTURBANDO A LINGUAGEM DE experiencia afro-caribenha por causa da importancia da cor"RAfA" E "ETNIA" da pele, uma ideia derivada da biologia. O espectro de cor entre os afro-caribenhos e extremamente amplo — resultante O primeiro desses impactos e o que atua sobre categorias da intensa miscigenagao da sociedade colonial caribenha ede "raca" e "etnia". O surgimento da questao multicultural seculos de "transculturacao" (Ortiz, 1940; Brathwaite, 1971;produziu uma "racializacao" diferenciada de areas centrais Glissant, 1981; Pratt, 1992). Os asiaticos nao constituem deda vida e cultura britanicas.H Cada vez mais, os britanicos forma alguma uma "raca", nem tampouco uma unica "etnia".tern sido obrigados a pensar sobre si mesmos e suas relacoes A nacionalidade e frequentemente tao importante quanto acom os outros no Reino Unido em termos raciais. A etnici- etnia. Os indianos, os paquistaneses, os oriundos de Bangla-dade tambem foi incluida no vocabulario domestico brita- desh e Sri Lanka, os ugandenses, os quenianos e os chinesesnico. Enquanto na mentalidade norte-americana os Estados sao perpassados por diferencas regionais, urbano-rurais,Unidos constituem uma sociedade composta de etnias, a culturais, etnicas e religiosas.Gra-Bretanha (embora diversa em suas origens) sempre Conceitualmente, a categoria "raca" nao e cientifica. Asaplicou o termo aos outros em geral — o "ser britanico" diferencas atribuiveis a "raca" numa mesma populacao saoconstitui um significante vazio, a norma em relacao a qual a tao grandes quanto aquelas encontradas entre populacoes"diferenca" (etnicidade) e mensurada. A crescente visibili- racialmente definidas. "Raga" e uma construcao politica edade das comunidades etnicas, junto com os movimentos por social. E a categoria discursiva em torno da qual se orga-governos regionais mais autonomos, questionou a "homoge- niza um sistema de poder socioeconomico, de exploracao eneidade" da cultura britanica e do "ser ingles" enquanto exclusao — ou seja, o racismo. Contudo, como pratica discur-etnia, trazendo a questao multicultural para o centro da crise siva, o racismo possui uma logica propria (Hall, 1994). Tentade identidade nacional. • justificar as diferencas socials e culturais que legitimam a Claro que o "ser britanico" enquanto categoria sempre foi exclusao racial em termos de distincoes geneticas e biolo-racializado — quando e que deixou de conotar a "branqui- gicas, isto e, na natureza. Esse "efeito de naturalizacao"tude"? Mas esse fato sempre foi cuidadosamente isolado do parece transformar a diferenca racial em um "fato" fixo ediscurso nacional, popular ou academico. Tem-se feito um cientifico, que nao responde a mudanca ou a engenhariaesforco para que a questao da "raca" seja reconhecida com social reformista. Essa referenda discursiva a natureza e algoseriedade na teoria politica em geral, no pensamento jorna- que o racismo contra o negro compartilha com o anti-semi-listico e academico.15 Esse silencio esta sendo rompido a tismo e com o sexismo (em que tambem "a biologia £ o des-medida que esses termos se impoem sobre a consciencia tino"), porem, menos com a questao de classe. O problema e68 69
  • 38. que o nivel genetico nao e imediatamente visivel. Dai que, (o biologico e o genetico) esta presente no discurso da etnia, nesse tipo de discurso, as diferencas geneticas (supostamente mas e deslocada pelo parentesco e o casamento endogeno. escondidas na estrutura dos genes) sao "materializadas" e Assim, tanto o discurso da "raca" quanto o da "etnia" podem ser "lidas" nos significantes corporals vislveis e facil- funcionam estabelecendo uma articulacao discursiva ou urna niente reconheciveis, tais como a cor da pele, as caracteris- "cadeia de equivalencias" (Laclau e Mouffe, 1985) entre oticas fisicas do cabelo, as feicoes do rosto (por exemplo, o registro sociocultural e o biologico, fazendo com que as dife-nariz aquilino do judeu), o tipo fisico e etc., o que permite rencas em um sistema de significados sejam inferidas atravesseu funcionamento enquanto mecanismos de fechamento de equivalemes em outra cadeia (Hall, 1990). Portanto, odiscursivo em situacoes cotidianas.16 racismo biologico e a discriminagao cultural nao constituem Ja a "etnicidade" gera um discurso em que a diferenca se dois sistemas distintos, mas dois registros do racismo. Nafunda sob caracteristicas culturais e religiosas. Nesses termos, maioria das vezes, os discursos da diferene.a biologica eela freqiientemente se contrapoe a "raca". Porem, essa opo- cultural estao em jogo simultaneamente. No anti-semitismo,sicao binaria pode ser delineada de forma muito simplista. os judeus eram multiplamente racializados por razoes biolo-O racismo biologico privilegia marcadores como a cor da pele. gicas, culturais e religiosas. Como argumenta Wieviorka, oEsses significantes tern sido utilizados tambem, por extensao racismo existe "onde ha uma associacao dessas duas prin-discursiva, para conotar diferencas sociais e culturais. A cipals estrategias, cuja combinacao peculiar depende das"negritude" tern funcionado como signo da maior proximidade especificidades da experiencia, do momento historico e dados afro-descendentes com a natureza e, consequentemente, preferencia individual" (Wieviorka, 1995). Portanto, pareceda probabilidade de que sejam preguicosos e indolentes, de mais apropriado falar nao de "racismo" versus "diferencaque Ihes faltem capacidades intelectuais de ordem mais ele- cultural", mas de "duas logicas" do racismo.17vada, sejam impulsionados pela emocao e o sentimento em Parece haver tres razoes para a atual confusao conceitual.vez da razao, hipersexualizados, tenham baixo autocontrole, A primeira delas e empirica. Os imigrantes afro-caribenhostendam a violencia etc. Da mesma forma, os estigmatizados — vistos basicamente em termos raciais — chegaram primeiropor razoes etnicas, por serem "culturalmente diferentes" e, a Gra-Bretanha. Os asiaticos, caracterizados pela diferencaportanto, inferiores, sao tambem caracterizados em termos cultural e religiosa, chegaram mais tarde e so depois sefisicos (embora talvez nao tao visivelmente quanto os negros), tornaram visiveis enquanto "problema". Nos anos 70, assustentados por estereotipos sexuais (os negros seriam exces- lutas anti-racismo empreendidas pelos dois grupos tendiamsivamente masculinizados, os orientals afeminados etc.)- O a se unificar sob a afirmacao de uma identidade "negra", defi-referente biologico nunca opera isoladamente, porem nunca nida pelo compartilhamento da diferenca racial em relacao aesta ausente, ocorrendo de forma mais indireta nos discursos sociedade branca. Entretanto, disso resultou o inesperadode etnia. Quanto maior a relevancia da "etnicidade", mais as privilegio da experiencia afro-caribenha sobre a asiatica.suas caracteristicas sao representadas como relativamente Quanto mais evidente se tornava a "politica de reconheci-fixas, inerentes ao grupo, transmitidas de geracao em geracao mento" (Taylor, 1994), enfatizando o direito a diferenca cul-nao apenas pela cultura e a educac.ao, mas tambem pela tural, mais as duas trajetorias se distanciavam. "Negro" seheranca biologica, inscrita no corpo e estabilizada, sobre- tornou a descricao mais comum dos afro-descendentes,tudo, pelo parentesco e pelas regras do matrimonio endo- enquanto os asiaticos tenderam a voltar a usar termos degamo, que garantem ao grupo etnico a manutencao de sua identificacao etnica especificos. Dai a atual descricao ano-"pureza" genetica e, portanto, cultural. A "etnicidade" e mala — "negro asiatico" — que combina "raga" e "etnici-construida por caracteristicas "fisicamente distinguiveis ... dade". Em segundo lugar, ha muitas outras situacoes nooriundas ... [da] pratica do casamento end6geno" (Parekh, mundo em que a etnicidade, e nao a "raca", tern sido foco de1991). Em suma, a articulacao da diferenca com a natureza violentos conflitos de exclusao (por exemplo, na Indonesia,70 71
  • 39. Sri-Lanka, Ruanda, B6snia e Kosovo). Em terceiro lugar, mas distintas, as quais tinham sido consideradas incompa- tern havido um aumento significative da discriminacao e tiveis, mutuamente excludentes ate entao: a demanda (contra da exclusao baseadas na religiao ou em um forte compo- um racismo diferenciado) por igualdade social e justica racial; nente religiose (Richardson, 1999), em particular contra as e a demanda (contra um etnocentrismo universalizante) pelo comunidades muculmanas, relacionado a politizacao mundial reconhecimento da diferenga cultural. Voltaremos a impor- do Isla. Alguns autores creem que um multiculturalismo foca- tancia politica dessa dupla demanda logo abaixo.lizado sobre o racismo biologico, e nao sobre uma diferen-ciacao cultural, ignora essa dimensao religiosa (por exemplo,Modood et al., 1997). DESESTABILIZANDO A CULTURA Nos anos 80, alguns criticos observaram um declinio noracismo de base biologica e um aumento do "novo racismo O segundo efeito transruptivo e aquele que "a questaocultural" (Barker, 1981). Modood de fato menciona um "retrai- multicultural" exerce sobre a compreensao da cultura. Amento do racismo de cor" e um "reforco [do] racismo cultural oposicao binaria, derivada do Iluminisrno — Particularismoem micro escala" na Gra-Bretanha. Nao se sabe se os atuais versus Univeraalismo, Tradicao versus Modernidade —acontecimentos sustentam empiricamente essa contagem (os produz uma forma especifica de compreensao da cultura.ataques racistas as famllias asiaticas e as violentas agressoes Trata-se das culturas distintas, homogeneas, auto-suficientes,de rua aos jovens negros continuam com toda forca) ou se e fortemente aglutinadas das chamadas sociedades tradicionais.util trocar uma coisa pela outra dessa forma. O que parece Nessa definicao antropologica, a tradicao cultural saturamais apropriado e uma concepcao mais ampla do racismo, comunidades inteiras, subordinando os individuos a formasque reconheca a forma pela qual, em sua estrutura discur- de vida sancionadas comunalmente. Isto e contraposto a "cul-siva, o racismo bio!6gico e a discriminacao cultural sao arti- tura da modernidade" — aberta, racional, universalista eculados e combinados. Essas duas "logicas" estao sempre individualista. Nesta, os vinculos culturais particulares devempresentes, embora sofram combinacoes diferentes e sejam ser deixados de lado na vida publica — sempre proclamadospriorizadas distintamente, de acordo com o contexto ou em pela neutralidade do estado civil — para que o individuorelacao a diferentes populacoes subjugadas. Evidentemente fique formalmente livre para escrever seu proprio script.as historias do fechamento racial e etnico variam bastante Considera-se que essas caractensticas sao fixadas por seusde acordo com o lugar (por exemplo, nos Estados Unidos e conteudos essencializados. A ideia de que a sociedade liberalna Gra-Bretanha), emergem em momentos distintos e sob poderia agir de maneira "fundamentalista" ou que o "tradi-formas diferentes, e exercem diferentes impactos politicos e cionalismo", digamos, do Isla poderia combinar formassociais. Nao devem ser homogeneizadas. Entretanto, a fusao modernas de vida parece uma contradicao em termos. Ados discursos de inferiorizacao biol6gica e cultural parece tradicao e representada como se fosse fixada em pedra.20ser uma caracteristica definidora do "momento multicultural".18 Entretanto, desde o comeco do "projeto" global do Uma vez que "negro" — antes um epiteto negative —• Ocidente no fim do seculo quinze, o binarismo Tradicao/tornou-se um termo de identificacao cultural positive (Bonnett, Modernidade tern sido progressivamente minado. As culturas1999), pode-se falar aqui de uma "etmzacao" de "raca".19 Ao tradicionais colonizadas permanecem distintas: mas elas inevi-mesmo tempo, a diferenca cultural adquiriu um significado tavelmente se tornaram "recrutas da modernidade".21 Podemmais violento, politizado e contestatario, que se pode pensar ser mais fortemente delimitados que as chamadas socie-como a "racializacao" da etnicidade (por exemplo, "limpeza dades modernas. Mas nao sao mais (se e que ja foram) enti-etnica"). Consequentemente, colocam-se na agenda do multi- dades organicas, fixas, autonomas e auto-suficientes. Comoculturalismo britanico duas demandas politicas relacionadas, resultado da globalizacao em seu sentido historico amplo,72 73
  • 40. muitas delas se tornaram formacoes mais "hibridas". A tradicao pr6prios sistemas de referencia, normas e valores, pelo distan- ciamento de suas regras habituais ou "inerentes" de transfor-funciona, em geral, menos como doutrina do que como reper- macao. Ambivalencia e antagonismo acompanham cada ato de tories de significados. Cada vez mais, os individuos recorrem a traducao cultural, pois o negociar com a "diferenc.a do outro"esses vinculos e estruturas nas quais se inscrevem para dar revela uma insuficiencia radical de nossos proprios sistemassentido ao mundo, sem serem rigorosamente atados a eles de significado e significacao. (Bhabha, 1997)em cada detaihe de sua existencia.22 Eles fazem parte de umarelacao dialogica mais ampla com "o outro". As culturas Em suas muitas variantes, a "tradicao" e a "traducao" sao combi-pre-coloniais foram — em graus bem distintos — sucessi- nadas de diversas formas (Robbins, 1991). Nao e simplesmentevamente convocadas globalmente sob a rubrica da moder- algo celebrativo, pois implica em profundos e impeditivosnidade capitalista ocidental e do sistema imperial, sem que custos, derivados de suas multiplas formas de deslocamentoseus tracos distintivos fossem inteiramente apagados. Isso Ihes e habitacao (Clifford, 1997). Como sugeriu Homi Bhabha, opermitiu — conforme C. L. R. James uma vez comentou sobre hibridismo significa umos caribenhos — "estar dentro da Europa sem ser dela". Comoobservou Aijaz Ahmad (que nao e um aliado natural da inte- momento ambiguo e ansioso de ... transicao, que acompanhalligentzia hibridizante): "A fertilizacao cruzada das culturas nervosamente qualquer modo de transformacao social, sem a_tern sido endemica a todos os movimentos populacionais ... promessa de um fechamento celebrativo ou transcendenciae todos esses movimentos na historia tern envolvido viagem, das condicoes complexas e ate conflituosas que acompanhamcontato, transmutacao, hibridizacao de ideias, valores e normas o processo ... [Ele] insiste em exibir ... as dissonancias a seremcomportamentais." (Ahmad, 1995). atravessadas apesar das relacoes de proximidade, as disjuncoes de poder ou posicao a serem contestadas; os valores eticos e Um termo que tern sido utilizado para caracterizar as esteticos a serem "traduzidos", mas que nao transcenderaoculturas cada vez mais mistas e diasporicas dessas comuni- incolumes o processo de transferencia. (Bhabha, 1997)dades e "hibridismo". Contudo, seu sentido tern sido comu-mente mal interpretado.23 Hibridismo nao e uma referencia a Entretanto, e tambem "como a novidade entra no mundo"cornposicao racial mista de uma populacao. E realmente (Rushdie, 199D-outro termo para a logica cultural da tradugdo. Essa logica A ideia de cultura implicita nas "comunidades de minoriase torna cada vez mais evidente nas diasporas multiculturais etnica" nao registra uma relacao fixa entre Tradigao e Moder-e em outras comunidades minoritarias e mistas do mundo nidade. Nao permanece no interior de fronteiras unicas nempos-colonial. Antigas e recentes diasporas governadas por transcende fronteiras. Na pratica, ela refuta esses binarismos.24essa posicao ambivalente, do tipo dentro/fora, podem ser Necessariamente, sua nocao de "comunidade" inclui umaencontradas em toda parte. Ela define a logica cultural ampla gama de praticas concretas. Alguns individuos perma-composta e irregular pela q.ual a chamada "modernidade" necem profundamente comprometidos com as praticas eocidental tern afetado o resto do mundo desde o inicio do valores "tradicionais" (embora raramente sem uma modulacaoprojeto globalizante da Europa (Hall, 1996a). diasporica). Para outros, as chamadas identificacoes tradi- O hibridismo nao se refere a individuos hibridos, que cionais tern sido intensificadas (por exemplo, pela hostilidadepodem ser contrastados com os "tradicionais" e "modernos" da comunidade hospedeira, pelo racismo ou pelas mudancascomo sujeitos plenamente formados. Trata-se de um pro- nas condicoes de vida mundiais, tais como a maior proemi-cesso de traducao cultural, agonistico uma vez que nunca se nencia do Isla). Para outros ainda, a hibridizacao esta muitocompleta, mas que permanece em sua indecidibilidade. avancada — mas quase nunca num sentido assimilacionista. Esse e um quadro radicalmente deslocado e mais complexo Nao e simplesmente apropriacao ou adaptacao; e um processo da cultura e da comunidade do que aqueles inscritos na atraves do qual se demanda das culturas uma revisao de seus74 75
  • 41. literatura socio!6gica ou antropologica convencional. O "hibri- politica ocidental e as fundacoes do Estado liberal. Em facedismo" marca o lugar dessa incomensurabilidade. da disseminacao de diferencas instaveis, o debate estabele- cido entre liberals e comunidades, que hoje domina a tra- Em condicoes diasporicas, as pessoas geralmente sao dicao politica ocidental, tern sido seriamente perturbado. obrigadas a adotar posicoes de identificacao deslocadas, mul- tiplas e hifenizadas. Cerca de dois tercos dos oriundos de O universalismo pos-iluminista, liberal, racional e huma- comunidades minoritarias, quando perguntados no Quarto nista da cultura ocidental parece nao menos significante histo- Censo Nacional de Minorias Etnicas se eles se consideravam ricamente, mas se torna menos universal a cada momento. "britanicos", responderam que sim, embora tambem sentissem, Muitas grandes ideias — liberdade, igualdade, autonomia, por exemplo, que ser britanico e paquistanes nao era algo democracia — foram aperfeicoadas na tradic.ao liberal. Entre- conflituoso em suas mentes (Modood et al., 1997). Negro-e- tanto, e evidente que o liberalismo hoje nao e "a cultura britanico ou asiatico-britanico sao identidades as quais os alem das culturas", mas a cultura que prevaleceu: aquelejovens respondem cada vez mais. Algumas mulheres, que acre- particularismo que se universalizou com exito e se tornou ditam que suas comunidades tern o direito de ter suas dife- hegemonico em todo o globo. Seu triunfo ao praticamente rencas respeitadas, nao desejam que suas vidas enquanto estabelecer os limites do dorninio "da politica" nao foi, em mulheres, que seus direitos a educacao e as escolhas matrimo- retrospecto, o resultado de uma desinteressada conversao em niais, sejam governados por normas reguladas e policiadas massa & Regra da Razao Universal, mas algo mais proximo apela comunidade. Mesmo quando se trata dos setores mais um tipo de "jogo" de poder-conhecimento mais mundano etradicionalistas, o principio da heterogeneidade continua a foucaultiano. Ja houve no passado criticas teoricas ao ladooperar fortemente. Nesses termos, entao, o perito contador "tenebroso" do projeto Iluminista. Mas a "questao multicul-asiatico, de terno e gravata, tao vividamente invocado por tural" foi a que mais efetivamente conseguiu revelar seuModood (1998), que mora no suburbio, manda seus filhos disfarce contemporaneo.para a escola particular e le Selecoes e o Bhagavad-Gita; ou o A cidadania universal e a neutralidade cultural do estadoadolescente negro que e um DJ de um salao de baile, toca sao as duas bases do universalismo liberal ocidental. E clarojungle music mas torce para o Manchester United; ou o aluno que os direitos de cidadania nunca foram universalmentemuculmano que usa calca jeans larga, em estilo hip-hop, de aplicados — nem aos afro-americanos pelas maos dos Paisrua, mas nunca falta as oracoes da sexta-feira, sao todos, de Fundadores dos EUA nem aos sujeitos colonials pelo governoformas distintas, "hibridizados". Se eles retornassem a suas imperial. Esse vazio entre ideal e pratica, entre igualdadecidadezinhas de origem, o mais tradicional deles seria consi- formal e igualdade concreta, entre liberdade negativa e posi-derado "ocidentalizado" — senao irremediavelmente diaspo- tiva, tem assombrado a concepcao liberal de cidadania desderizado. Todos negociam culturalmente em algum ponto do o inicio. Quanto a neutralidade cultural do estado liberal,espectro da differance, onde as disjuncoes de tempo, geragao, seus avancos nao devem ser levianamente descartados. Aespacializacao e disseminacao se recusam a ser nitidamente tolerancia religiosa, a liberdade de expressao, o estado dealinhadas. direito, a igualdade formal e a legalidade processual, o sufragio universal — embora contestados — sao realizacoes positivas. Entretanto, a neutralidade do Estado funcionaDESESTABILIZANDO AS FUNDAgOES DO apenas quando se pressupoe uma homogeneidade culturalESTADO CONSTITUCIONAL LIBERAL ampla entre os governados. Essa presuncao fundamentou as democracias liberais ocidentais ate recentemente. Sob as Um terceiro efeito transruptivo da "questao multicultural" novas condicoes multiculturais, entretanto, essa premissae seu questionamento dos discursos dominantes da teoria parece cada vez menos valida. 7776
  • 42. A alegaeao e de que o Estado liberal perdeu sua casca sustentar, face a "questao multicultural", e o contraste binario eitnico-particularista e emergiu em sua forma civica, universa- entre o particularismo da demanda "deles" por reconhecimento lista e culturalmente purificada. A Gra-Bretanha, entretanto, da diferenca versus o universalismo da "nossa" racionali- como todos os nacionalismos civicos, nao e" apenas uma dade civica.25 entidade soberana em termos politicos e territorials, mas e Na verdade, a tao proclamada homogeneidade da cultura tambem uma "comunidade imaginada". Este ultimo constitui britanica tern sido bastante exagerada. Sempre existiram o foco de identificacao e pertencimento. Ao contrario do que maneiras muito distintas de "ser britanico". A Gra-Bretanha se supoe, os discursos da nac.ao nao refletem um estado sempre foi profundamente marcada por clivagens de genero, unificado ja alcangado. Seu intuito e forjar ou construir uma classe e regiao. Grandes diferencas de poder material e forma unificada de identificacao a partir das muitas dife- cultural entre os diferentes "reinos" do Reino Unido foram rencas de classe, genero, regiao, religiao ou localidade, que encobertas pela hegemonia dos ingleses sobre os demais ou na verdade atravessam a nacao (Hall, 1992; Bhabha, 1990). do "ser ingles" sobre o "ser britanico". Os irlandeses nunca Para tanto, esses discursos devem incrustar profundamente e pertenceram propriamente. Os pobres sempre foram excluidos. enredar o chamado estado "civico" sem cultura, para formar A maioria da populacao so adquiriu o direito de voto no inicio uma densa trama de significados, tradicoes e valores culturais do seculo vinte. A isso se deve acrescentar a crescente diver- que venham a representar a nacao. E somente dentro da cultura sidade cultural da vida social britanica. Os efeitos da globali- e da representacao que a identificacao com esta "comunidade zacao, o declinio das fortunas economicas britanicas e de sua imaginada" pode ser construida, posicao no mundo, o fim do Imperio, as pressoes cada vez Todos os modernos Estados-nagao liberals combinam a maiores pela delegacao de governo e poder as regioes, e o chamada forma civica racional e reflexiva de alian£a ao estado desafio da Europa, tudo isso desestabeleceu a chamada com uma alianca intuitiva, instintiva e etnica a nacao. Essa homogeneidade britanica, produzindo uma profunda criseformacao heterogenea, o "ser britanico", funde o Reino Unido, na identidade nacional. Ha ainda o ritmo surpreendente doa entidade politica, como uma "comunidade imaginada". pluralism© social e das mudancas tecnologicas e economicas,Conforme observou o grande patriota, Enoch Powell: "A vida que abalaram as relac.6es de classe e genero tradicionais,das nacoes, nao menos que a dos homens [sic], e vivida em transformaram a sociedade britanica em um lugar menosgrande parte na mente." As fundacoes racionais e constitu- previsivel, e constituem fontes de macic.a diversidade internacionais da Gra-Bretanha ganham significado e textura de vida na vida social.26 Hoje em dia e raro haver algum consensoatraves de um sistema de representacao cultural. Elas se nacional significative sobre quaisquer assuntos sociaissustentam nos costumes, habitos e rituais do dia-a-dia, nos criticos, sobre os quais ha profundas diferencas de opiniao ec<5digos e convencoes sociais, nas versoes dominantes de de experiencia vivida. As pessoas pertencem a varias "comu-masculine e feminino, na memoria socialmente construida nidades" sobrepostas que por vezes exercem pressoesdos triunfos e desastres nacionais, nas imagens, nas pai- contrarias. A Gra-Bretanha constitui uma sociedade "multi-sagens imaginadas e distintas caracteristicas nacionais que culturalmente diversa" mesmo antes de se considerar oproduzem a ideia de "Gra-Bretanha". Esses aspectos nao sao impacto gerado pelas comunidades multietnicas do periodode menor importancia por terem sido "inventados" (Hobsbawm pos-migratorio. Realmente, parece que estas sao as porta-e Ranger, 1993). Embora a nacao constantemente se reinvente, doras simbolicas de um padrao complexo de mudanca,ela e representada como algo que existe desde as origens diversificacao e "perda", do qual sao apenas o mais conve-dos tempos (Ver Davis, 1999). Mas nao decorre do fato de niente bode expiatorio.sua fundacao em particularidades culturais bem distintas que A questao multicultural tern ajudado a desconstruir al-o Estado "universal" nao seja outra coisa senao um playground gumas outras incoerencias do Estado constitucional liberal.de definicoes concorrentes do bem. O que nao se pode mais Acredita-se que a "neutralidade" do Estado liberal (isto e, o78 79
  • 43. fato de que este e representado como se nao buscasse na de vida nos quais a pessoa foi socializada e formou sua iden- esfera publica nenhuma no£ao particular do "bem") garante a tidade. A identidade do individuo esta entrela^ada as identi- autonomia pessoal e a liberdade do individuo de buscar sua dades coletivas e pode ser estabilizada apenas em uma rede cultural que, tal como a lingua materna, nao pode ser propria concepejio do "bem", contanto que isso seja feito no apropriada como propriedade privada. Consequentemente, dominio privado. A ordem legal eticamente neutra do Estado o individuo permanece na qualidade de portador de "direitosliberal depende, assim, da estrita separacao entre as esferas a participacao cultural". (Habermas, 1994)publica e privada. Mas isso e algo cada vez mais dificil de se cumprir de forma estavel. A lei e a politica intervem cada vez Na pratica, sob a pressao da diferenca multicultural, alguns mais no chamado dominio privado. Julgamentos publicos Estados constitucionais ocidentais como a Gra-Bretanha ternse justificam a partir do dominio privado. Com o pos-femi- sido obrigados a adotar aquilo que Walzer denomina Libera-nismo, podemos compreender melhor como o contrato lismo 2, ou aquilo que, no vocabulario menos restrito dasexual sustenta o contrato social. Dominios como a familia, Europa, se chamaria de programa reformista da "sociala sexualidade, a saude, a alimentacao e o vestuario, que antes democracia". 28 O Estado reconhece formal e publicamentepertenciam fundamentalmente ao dominio privado, torna- as necessidades sociais diferenciadas, bem como a crescenteram-se parte de um ampliado campo publico e politico de diversidade cultural de seus cidadaos, admitindo certoscontestacao. As claras distincoes entre as esferas domestica e direitos grupais e outros definidos pelo individuo. O Estadoa publica nao se sustentam, principalmente apos a entrada teve que desenvolver estrategias de redistribuicao atraves deem massa das mulheres e das atividades "privadas" antes apoio publico (como programas de acao afirmativa, legis-associadas ao domestico. Em toda parte, o "pessoal" tornou-se lacao que garanta igualdade de oportunidades, fundos"politico". publicos de compensacao e um estado de bem-estar social Aquilo que Michael Walzer chamou de "Liberalismo 1" para grupos em desvantagem etc.), ate mesmo para garantir aconstitui um dos grandes sistemas discursivos do mundo igualdade de condicoes tao cara ao liberalismo formal. Ternmoderno, que praticamente tomou conta da teoria politica, transformado em lei algumas definicoes alternativas do "bemem tempos recentes. Somente uma definicao fragil da cultura viver" e iegalizado certas "excecoes" por razoes essencialmentee uma no?ao altamente atenuada de direitos coletivos sao culturais. Por exemplo, ao reconhecer os direitos dos Sikhscompativeis com a enfase individualista situada no centro de usar turbantes sem suspender as obrigacoes dos empre-dessa concepcao liberal de mercado.27 Ela nao reconhece o gadores quanto a regulamentos de saude e seguranca ou aoquanto o individuo e o que Taylor (1994) denominou "dia- aceitar como legais os casamentos consensualmente arranjados,logico" — nao no sentido binario do dialogo entre dois mas declarando coercitiva e, portanto, ilegal, a imposicaosujeitos ja constituidos, mas no sentido de sua relacao com de matrimonios arranjados sem o consentimento da mulheroutro ser fundamentalmente constitutive do sujeito, que pode — ao fazer isso, a lei britanica avancou na pratica rumo aose posicionar como uma "identidade" somente em relacao com equilibrio entre o pluralismo cultural, definido em relagaoaquilo que a ele falta — seu outro, seu "exterior constitutive" as comunidades, e as concepfdes liberals de liberdade do(Lacan, 1977; Laclau e Mouffe, 1985; Butler, 1993). A vida sujeito individual.29 Na Gra-Bretanha, entretanto, esse movi-individual significativa esta sempre incrustada em contextos mento tern sido gradativo e incerto, desde o desgaste doculturais e e somente dentro destes que suas "escolhas Hvres" compromisso do Novo Trabalhismo com a previdencia social:fazem sentido. uma resposta acidental a crescente visibilidade e presenca das comunidades etnicas no amago da vida britanica. Ele Do ponto de vista normative, a integridade da pessoa fisica constitui uma especie de "deriva multicultural" (Hall, 1999a). nao pode ser garantida sem a protecao das experiencias compartilhadas intersubjetivamente, bem como dos contextos80 81
  • 44. ALEM DOS VOCABULARJOS POLITICOS Como tentamos demonstrar, as comunidades etnicas mino- CONTEMPORANEOS ritarias nao sao atores coletivos integrados de uma forma que Ihes permita se tornarem sujeitos oficiais de direitos comuni- O que seria necessario para tornar essa "deriva" um movi- tSrios integrals. A tentacao de essencializar a "comunidade" mento sustentado, um esforco conjunto de vontade politica? tern que ser resistida — e uma fantasia de plenitude em Em outras palavras, que premissas podem haver por tras de circunstancias de perda imaginada. As comunidades migrantes uma forma radicalmente distinta de multiculturalismo brita- trazem as marcas da diaspora, da "hibridizacao" e da differance nico? Este teria que ser fundado nao em uma nocao abstrata em sua propria constituicao. Sua integra9ao vertical a suas de nacao e comunidade, mas na analise do que a "comuni- tradicoes de origem coexiste como vinculos laterals estabe- dade" realmente significa e como as diferentes comunidades lecidos corn outras "comunidades" de interesse, pratica e que hoje compoem a nacao interagem concretamente. Ao aspirac.ao, reais ou simbolicos. Os membros individuais, prin- tratar das origens da desvantagem, ele teria que levar em cipalmente as geracoes mais jovens, sao atraidos por forcas conta o que estamos chamando de "dois registros do racismo" contraditorias. Muitos "estabelecem" seus proprios acordos — a interdependencia do racismo biologico e da diferen- ou os negociam dentro e fora de suas comunidades. As mulhe- ciacao cultural. O compromisso de expor e confrontar o res que respeitam as tradigoes de suas comunidades se sen- racismo em quaisquer de suas formas teria que se tornar um tern livres para desafiar o carater patriarcal destas, bem como objetivo positive e uma obrigac.ao estatutaria do governo, do o chauvinismo da autoridade ali exercida. Outras se sentem qual sua propria reivindicagao de legitimidade representa- bem, se conformando. Outras ainda, mesmo nao querendo tiva dependeria. Teria que tratar da dupla demanda politics, trocar identidades, insistem em seu direito individual de que advem da interacao entre as desigualdades e injusticas consentir e, quando nao ha consentimento, em seu direito agritantes proveniences da falta de igualdade concreta, e a sair da comunidade corretamente reivindicando o apoio doexclusao e inferiorizaclo decorrentes da falta de reconheci- sistema judiciario e de outras agendas sociais para que omento e da insensibilidade a diferen^a. Finalmente, em vez exercicio daquele direito se torne efetivo.30 O mesmo aconte-de constituir uma estrategia para melhorar a sorte apenas das ce com a dissidencia politica e religiosa.minorias raciais ou "etnicas", esta teria que ser uma estra- Assim, ao se fazer um movimento em direc.ao a maior diver-tegia que rompesse com a I6gica majoritaria e tentasse recon- sidade cultural no amago da modernidade deve-se ter cuidadofigurar ou reimaginar a nacao como um todo de uma forma para nao se reverter simplesmente a novas formas de fecha-radicalmente pos-nacional (Hall, 1999b). mento etnico. Deve-se ter em mente que a "etnicidade" e sua A dupla demanda por igualdade e diferenca parece exceder os relacao naturalizada com a "comunidade" e outro termo quelimites dos nossos atuais vocabularies politicos. O liberalismo opera "sob rasura". Todos nos nos localizamos em vocabu-vem sendo incapaz de se conciliar com a diferenca cultural laries culturais e sem eles nao conseguimos produzir enun-ou garantir a igualdade e a justifa para os cidadaos minori- ciagoes enquanto sujeitos culturais. Todos nos nos originamostarios. Em contrapartida, os comunitaristas afirmam que, ja e falamos a partir de "algum lugar": somos localizados — eque o eu nao pode prescindir de seus fins, as concepgoes neste sentido ate os mais "modernos" carregam tragos de umado "bem viver" incrustadas na comunidade deveriam ser "etnia". Como Laclau argumenta, parafraseando Derrida, nospriorizadas sobre as individuais. Os pluralistas culturais so podemos pensar "dentro de uma tradic.ao". Contudo, nosfundamentam essa ideia em uma definiyao muito forte de lembra o autor, isso so se torna possivel "se a propria relagaocomunidade: "culturas distintas que encarnam conceitos com o passado for concebida como uma recepc.ao cntica"carregados de associates e memorias historicas ... que moldam (Laclau, 1996). Os entices cosmopolitas estao corretos ao nossua compreensao e abordagem do mundo e constituent lembrarem que, na modernidade tardia, tendemos a extrair osculturas de comunidades distintas e coesas" (Parekh, 1991). trac.os fragmentarios e os repertories despeda^ados de varias82 83
  • 45. linguagens culturais e eticas. Nao se trata de uma negacao conflitos mais graves de perspectiva, crenca ou interesse da cultura insistir que "o mundo social [nao] se divide discinta- podem ser negociados, e ele nao pode ser de um grupo, comomente em culturas particulares, uma para cada comunidade, ocorreu no assimilacionismo eurocentrico. A diferenca espe- [nem] que o que todos necessitam e de apenas uma dessas cifica de um grupo ou comunidade nao pode ser afirmada deentidades — uma unica cultura coerente — para moldar e forma absoluta, sem se considerar o contexto maior de todosdar significado a ... vida" (Waldron, 1992). Frequentemente os "outros" em relacao aos quais a "particularidade" adquireoperamos com uma concepcao excessivamente simplista de um valor relative. Filosoficamente, a logica da differance"pertencimento". As vezes nos revelamos mais pelos nossos significa que o significado/identidade de cada conceitovfnculos quanto mais lutamos para nos livrar deles, ou e constituido(a) em relacao a todos os demais conceitosdiscutimos, criticamos ou discordamos radicalmente deles. do sistema em cujos termos ele significa. Uma identidadeComo os relacionamentos paternos, as tradicoes culturais cultural particular nao pode ser definida apenas por suanos moldam quando nos alimentam e sustentam, e tambem presenca positiva e conteudo. Todos os termos da identidadequando nos forcam a romper irrevogavelmente com elas para dependem do estabelecimento de limites — definindo o queque possamos sobreviver. Mais alem — embora nem sempfe sao em relacao ao que nao sao. Como argumenta Laclau: "Naoreconhecamos —, geralmente existem os "vinculos" que temos se pode afirmar uma identidade diferencial sem distingui-lacom aqueles que compartilham o mundo conosco e que sao de um contexto, e no processo de fazer a distincao, afirma-sedistintos de nos. A pura assercao da diferenca so se torna o contexto simultaneamente." (Laclau, 1996). As identidades,viavel em uma sociedade rigidamente segregada. Sua logica portanto, sao construidas no interior das relacoes de poderfinal e aquela do apartheid. (Foucault, 1986). Toda identidade e fundada sobre uma Deve entao a liberdade pessoal e a escolha individual exclusao e, nesse sentido, e "um efeito do poder". Deveter precedencia sobre toda particularidade nas sociedades haver algo "exterior" a uma identidade (Laclau e Mouffe, 1985;modernas, como o liberalismo sempre reclamou? Nao necessa- Butler, 1993). Esse "exterior" e constituido por todos os outrosriamente. O direito de viver a propria vida "a partir de termos do sistema, cuja "ausencia" ou falta e constitutiva dedentro", que se situa no centre da concepcao de individuali- sua "presenca" (Hall, 1996b). "Sou um sujeito precisamentedade, foi realmente afiado e desenvolvido dentro da tradicao porque nao posso ser uma consciencia absoluta, porque algoliberal ocidental. Mas nao e mais um valor restrito ao Ocidente constitutivamente estranho me confronta". Cada identidade,— em parte porque as formas de vida que essa tradicao gerou portanto, e radicalmente insuficiente em termos de seusnao sao mais exclusivamente "ocidentais". Tornou-se antes "outros". "Isso significa que o universal e parte de minhaum valor cosmopolita e, sob a forma do discurso dos direitos identidade tanto quanto sou perpassado por uma falta consti-humanos, e relevante para os trabalhadores do Terceiro Mundo tutiva." (Laclau, 1996).31que lutam na periferia do sistema global, para as mulheres O problema e que este argumento parece constituir umnos paises em desenvolvimento que enfrentam concep£6es alibi para o retorno sub-repticio do velho liberalismo uni-patriarcais sobre os papeis femininos, para os dissidentes versal. Contudo, como observa Laclau: "A expansao imperia-politicos sob ameaca de tortura, assim como para os consu- lista europeia teve que ser apresentada em termos de umamidores ocidentais na economia sem peso. Neste sentido, funcao civilizadora, modernizadora universal, etc. As resis-paradoxalmente, o pertencimento cultural (etnicidade) e algo tencias a outras culturas foram ... apresentadas nao como iutasque, em sua propria especificidade, todos partilham. E uma entre culturas e identidades particulares, mas como parte departicularidade universal, ou uma "universalidade concreta". uma luta abrangente e que faz epoca entre o universalismo e Outra forma de considerar o problema seria observar que, os particularismos." (Laclau, 1996). Em suma, o particula-por definicao, uma sociedade multicultural sempre envolve rismo ocidental foi reescrito como um universalismo global.mais que um grupo. Deve haver um referencial no qual os84 85
  • 46. Portanto, neste caso, o universalismo se opoe de cima a Do ponto de vista formal, esse antagonismo pode nao ser baixo a particularidade e a diferenca. Entretanto, se o outro acessrvel a uma resolucao abstrata. Mas pode ser negociado fato constitui parte da djfgjrefifa que estamos afirmando (a na pratica. Um processo de julgamento politico final entre ausencia que permite a presenca significar algo), entao definicoes rivais do "bem" seria contrario ao projeto multi- qualquer pretensao generalizada que inclua o outro nao cultural como um todo, ja que seu efeito seria o de constituir provem do nada, mas surge do interior do particular. "O uni- cada espaco politico como uma "guerra de manobras" entre versal emerge do particular, nao como um principio que o diferencas absolutizadas e entrincheiradas. As unicas circuns- subjaz e explica, mas como um horizonte incomplete que tancias capazes de impedir que este nao se torne um jogo sutura uma identidade particular deslocada." (Laclau, 1996). vazio sao aquelas que permitem uma estrutura de negociacao For que incompleta? Porque ela nao pode — como ocorre na democratica agonistica (Mouffe, 1993)- Entretanto, e preciso concepcao liberal — ser preenchida por um conteudo especf- enfatizar o "agonistico" — a democracia como luta continua fico e imutavel. Sera redefinida sempre que uma identidade sem solucao final. Nao podemos simplesmente reafirmar a particular, ao considerar seus outros e sua propria insufi- "democracia". Mas a questao multicultural tambem sugere que ciencia radical, expandir o horizonte dentro do qual as o momento da "diferenca" e essencial a definicao de demo- demandas de todos precisarem e puderem ser negociadas. cracia como um espafo genuinamente heterogeneo, Em nosso Laclau esta correto ao insistir que seu conteiido nao pode ser anseio de identificar pontos de possivel articulacao, devemos conhecido antecipadamente — neste sentido, o universal 6 ser cautelosos para nao enfatizar a necessidade inerradicavel um signo vazio, "um significante sempre em recuo". E esse o desse momento de differance?2 Contudo, e evidente que nao horizonte que deve orientar cada diferenca particular, para se deve permitir que o processo mantenha a afirmacao poli- que se evite o risco de cair na diferenca absoluta (o que, tica de uma particularidade radical. Deve-se tentar construir naturalmente, e a antitese da sociedade multicultural). Aquilo uma diversidade de novas esferas publicas nas quais todos que afirmamos sobre as generalizacoes entre as culturas e o os particulares serao transformados ao serem obrigados adesejo do individuo de viver sua vida "a partir de dentro" e negociar dentro de um horizonte mais amplo. E essencialum exemplo desse processo. Uma demanda que surge do que esse espaco permaneca heterogeneo e pluraltstico e queinterior de uma cultura especifica se expanded e seu elo com os elementos de negociacao dentro do mesmo retenham suaa cultura de origem se transforma ao ser obrigada a negociar differance. Eles devem resistir ao impeto de serem integradosseu significado como outras tradicoes dentro de um "hori- por um processo de equivalencia formal, como dita a concepcaozonte" mais amplo que agora inclui ambas. liberal de cidadania, o que significa recuperar a estrategia Portanto, como poderao ser reconhecidos o particular e o assimilacionista do Iluminismo atraves de um longo desvio.universal ou as pretensoes da diferenca e da igualdade? Este Como reconhece Laclau:e o dilema, o enigma — a questao multicultural — existenteno centre do impacto transruptivo e reconfigurador do multi- Essa universaliza?ao e seu carSter aberto certamente condenamcultural. Ele exige que pensemos para alem das fronteiras toda identidade a uma inevitavet hibridizacao, mas hibridi-tradicionais dos discursos politicos existentes e suas "solucoes" za^ao nao significa necessariamente um declinio pela perdaprontas. Ele sugere que nos concentremos seriamente nao na de identidade. Pode significar tambem o fortalecimento dasreiteracao de argumentos estereis entre os criticos liberais e identidades existentes pela abertura de novas possibilidades. Somente uma identidade conservadora, fechada em si mesma,comunitarios, mas em algo novo e formas novas de combinar poderia experimentar a hibridizacao como uma perda. (Laclau,a diferenca e a identidade, trazendo para o mesmo terreno 1996).aquelas incomensurabilidades formais dos vocabulariespoliticos — a liberdade e a igualdade junto com a diferenca,"o bem" e "o correto".86 87
  • 47. RUMO A UMA NOVA LOGICA POLITICA isolada e plural de representa^ao politica. Ha o perigo de simplesmente se prezarem os valores distintivos da "comu- Na parte final deste ensaio, tentamos identificar e expor nidade" como se eles nem sempre participassem de um rela- os contornos de urna nova 16gica politica multicultural. Tal cionamento dinamico com todos os outros valores que estrategia buscaria, conjunturalmente, aquilo que no modelo concorrem a seu redor. O retorno a etnicidade em sua forma liberal-constitucional se conhece como incomensuravel em "etnicamente absolutista" (Gilroy, 1993a, 1993b) pode pro- principio: causar uma reconfiguracao radical do particular e duzir tipos especificos de violencia. Este retorno a etnicidade do universal, da liberdade e da igualdade com a diferenca. O essencializa sobremaneira a diferenca cultural, fixa os bina- objetivo foi comec/ar a recompor as herancas dos discursos rismos raciais, congelando-os no tempo e na historia, confere liberal, pluralista, cosmopolita e democratico a luz do poder a autoridade estabelecida sobre os outros, privilegia carater multicultural das sociedades da modernidade tardia. os "pais e a Lei" e leva ao policiamento da diferenc.a. Esta Nenhuma solucao final pode ser alcancada com facilidade. parece ser a fronteira crltica onde o pluralismo cultural ou o Em vez disso, tentamos esbocar uma abordagem que, ao comunitarismo etnico encontra seu limite liberal. instigar a adocao de estrategias vigorosas e descomprome- Entretanto, o fato e que nem os individuos enquanto enti- tidas, capazes de confrontar e tentar erradicar o.racismo, a dades livres e sem amarras nem as comunidades enquanto exclusao e a inferiorizacao (a velha agenda anti-racista ou da entidades solidarias ocupam por inteiro o espaco social. Cada igualdade racial, tao relevante hoje como no passado), qual e constituida na relacao com aquilo que e outro ou dife- implica o respeito a certos limites (nas novas circunstancias rente dela propria (ou atraves dessa relacao). Se isso nao multiculturais da diferenca, dentro das quais essas estrategias resultar em uma "guerra de todos contra tudo", ou em um operam atualmente). comunalismo segregado, entao devemos nos perguntar se o Assim, nao podemos simplesmente reafirmar a liberdade maior reconhecimento da diferenca e a maior igualdade eindividual e a igualdade formal (aquilo que o Novo Traba- justica para todos podem constituir um "horizonte" comum.Ihismo cordialmente denomina "igualdade de merito"!), pois Como sugere Laclau, parece que "o universal e incomensu-podemos perceber o quanto ambas sao inadequadas as ravel com o particular" e que o primeiro "nao pode existircomplexidades de vinculo, pertencimento e identidade intro- sem o segundo". Antes de corroer a democracia, essa chamadaduzidas pela sociedade multicultural, e como as profundas "falha" e "a precondic.ao para a democracia" (Laclau, 1996).injusticas, exclusoes sociais e desigualdades continuam a ser Dessa forma, a logica politica multicultural requer peloperpetradas em seu nome. A escolha individual, embora menos duas outras condicoes de existencia: uma expansao erecoberta pelo fino verniz de um comunitarismo, nao pode radicalizacao cada vez mais profundas das praticas democra-fornecer os elos de reconhecimento, reciprocidade e conexao ticas da vida social, bem como a contestagao sem tregua deque dao significado a nossas vidas enquanto seres sociais. cada forma de fechamento racial ou etnicamente excludenteEste e o limits cultural e comunitdrio das formas liberals (praticado por outrem sobre as comunidades minoritarias(incluindo o "mercado liberal") de multiculturalismo. For ou no interior delas). Pois a desvantagem e exclusao raciaisoutro lado, nao podemos avalizar as pretensoes de culturas impedem o acesso de todos, inclusive das "minorias" dee normas comunitarias em detrimento dos individuos sem ao todos os tipos, ao processo de definir uma "britanidade" maismesmo tempo ampliar— nao apenas em teoria, mas na pratica inclusiva; esse acesso constitui precondicao para a legitimi-— os direitos dos individuos ao dissenso, ao abandono ou, dade do chamado a identificacao de todos. Isso constitui ose necessario, a oposicao a suas comunidades de origem. limite democratico ou cosmopolita das alternativas liberalsH;a perigos concretes de se cair em uma forma oficialmente e comunitarias. 89
  • 48. As dificuldades enfrentadas no processo de expansao britanico e sua ocorrgncia simultanea, na mesma conjuntura, e pratica e politica da 16gica politica multicultural sao nume- essencial para uma compreensao da resposta confusa e rosas, e aborda-las transcende o escopo deste ensaio. Con- problematica da Gra-Bretanha a "questao multicultural". tudo, nao poderiamos concluir o argumento sem pelo menos apontar essas dificuldades. For um lado, na Gra-Bretanha, este £ o momento propicio para se levantar a questao multi- [In: HESSE, Barnor (Org.). Un/settledMulticulturalisms. London: cultural — pois a britanidade como identidade nacional passa Zed Books, 2000. ISBN: 185649 5594.Tradu?ao de Adelaine La por um estagio de transicao, esta acometida por problemas e Guardia Resende.l sujeita a extensa renovacao e renegociacao. Entretanto, essas oportunidades sao sempre mementos profundamente peri- gosos. Pois, assim como a questao multicultural abre espaco para assuntos considerados fechados ou estabelecidos, na NOTAS instituicao politica ocidental ela e considerada por muitos como a ultima gota dagua. Ela aponta em direcao a redefi- 1 Partes deste ensaio foram apresentadas na Johns Hopkins University, nicao do que significa ser britanico, onde o impensavel pode Baltimore; University of Michigan, Ann Arbor, na Palestra Herbert Gutman acontecer — por ser possivel ser negro e britanico, asiatico e Memorial na City University of New York Graduate Center; e na Palestrabritanico (ou mesmo britanico e gay!). Entretanto, a ideia de Anual "Race Against Time" [Corrida (Race) contra o tempo] do Instituto de Educacao da University of London. Agradefo aos que comentaram aspectosque todos devem ter acesso aos processes pelos quais tais do texto naquelas ocasioes. Primeira publicafao: HESSE, B. (Org.). Un/formas novas de "ser britanico" sao redefinidas, juntamente settled Multiculturalisms. [Muticulturalismos Des/estabelecidos]. Londres:com a perda do Imperio e do declinio enquanto potencia Zed Books, 2000,mundial, tem levado alguns de seus cidadaos literalmente a 2 Ate certo ponto, essa distincao se sobrepoe aquela oferecida na Introducaoloucura. A "poluicao" da Pequena Inglaterra, na visao dessas do livro onde o texto foi publicado pela primeira vez, mas tambem sepessoas, produz nao apenas o ressurgimento de antigos este- distancia dela em certos aspectos importantes. Ver: HESSE, Barnor (Org.).reotipos biologicos, mas a proliferacao de um lexico de Un/settled Multiculturalisms. Londres: Zed Books, 2000.novos binarismos excludentes, fundados em urna "diferenca s -Na verdade, como Kymlicka (1989) afirma, os problemas apresentadoscultural" racializada: uma versao britanica dos novos racismos pelo multiculturalismo nao sao adequadamente representados como seencontrados e em expansao em toda parte e que tem ganhado necessitassem de uma forte concepcao dos direitos coletivos, ja que, na perspectiva do autor, os individuos devem continuar sendo os portadoresterreno. dos direitos. Por outro lado, Parekh (1991) argumenta que muitos direitos Ambos os processes estao prosperando na Gra-Bretanha reconhecidos pelas sociedades liberals (por exemplo, a Iegisla9ao sindica- lista, o Atos das Relacoes Raciais e das Oportunidades Iguais, a isencao dosnesta virada de rmlenio. Ambos florescem de maos dadas, sikhs das exigencias de Saude e Seguranca) sao definidos pela coletividadenuma simbiose fatal. A comemoracao do aniversario de che- ou baseados nos interesses de grupo.gada do navio S. S. Empire Windrush — descrita por alguns 4 Hazel Carby (1998) comentou sobre "a total reversao da visibilidade docomo o "surgimento irresistivel de uma Gra-Bretanha multir- corpo masculino negro", em que as imagens do homem negro se deslocaramacial" (Phillips e Phillips, 1998) — ocorreu um ano antes do notavelmente do gueto das drogas para as capas das revistas de moda,tao protelado Inquerito Macpherson sobre o assassinate enquanto seus corpos verdadeiros permanecem basicamente onde semprede um jovem negro, Stephen Lawrence, por cinco rapazes estiveram (um numero excessivo deles na cadeia).brancos, e do veredicto de "racismo institucional" (Macpherson, 5 Em 1983 havia 144 nacoes reconhecidas no mundo. No final dos anos 90,1999). Ambos os acontecimentos sao profundamente para- eram pouco menos que 200. Outras certamente surgirao nos proximos anos,digmaticos do estado contraditorio do multiculturalismo na medida em que grupos etnicos locals e nacoes sem um estado pressio- narem por maior autonomia (GIDDENS, Anthony: 2000, p. 153).90 91
  • 49. 6 1B Nenhuma conjuntura e inteiramente nova. t. sempre uma combinacao de Neste ponto, discordo da maneira de distinguir entre raca e etnia feita, por elementos ja existences com outros, emergences — nos termos de Gramsci, a exemplo, por Pnina Werbner em uma importante contribui£ao (WERBNER; rearticulacao de uma desarticulacao. (Ver GRAMSCI: 1971 e HALL: 1998). 1997). 19 7 "A globalizacao em uma era pos-imperial permite uma consciencia pds- Isso resultou de uma luta ampla de re-significacao. Judith Butler (1993) nacional somente aos cosmopolitas que t6m a sorte de viver no Ocidente argumenta que o importante nos termos "negro" ou "veado" [queeft, os quais rico." (IGNATIEFF: 1994) deixaram de ter uma conotacao negativa, e que eles retem em si mesmos os traces da luta pela mudanca. Esta pode ser uma estrategia alternativa aquela 8 A globalizacao como destine parece ser um aspecto chave da posicao de do "politicamente correto", que tenta purificar a linguagem de todo traco de Tony Blair, do Novo Trabalhismo e da Terceira Via. Giddens, que tambem negatividade. desenvolveu semelhante argumento, agora defende a regulamentacao do 20 Enquanto se deve compreende-la como "o mesmo apesar de sua mutacao" poder corporative global (Ver GIDDENS: 2000). [the changing same] (GILROY: 1993) ou como "conceito discursivo... [que] 9 Naturalmente, o que fa^o aqui e traduzir da filosofia a cultura e expandir o procura conectar, de forma legitima dentro da estrutura de sua narrativa, conceito de Derrida sem autorizacao — embora, espero, nao o faca contra o uma relacao entre passado, comunidade e identidade" (SCOTT, 1999). A espirito de seu sentido/proposito (Ver DERRIDA: 1978, 1982). fixidez e algo que ocorre na tradicao sob certas condicoes — como esta deixa de ser criativa e se torna presa a "autoridade". 10 Para Derrida, differance e" tanto "marcar diferenca" [to differ^ quando 21 "diferir" [to defer. O conceito se funda em estrategias de protela9ao, suspensao, Ver David SCOTT, 1999- referenda, elisao, desvio, adiamento e reserva (Ver DERRIDA: 1972). 22 Trata-se da importante distingao entre a concepcao de cultura como "forma 11 de vida" e a concepcao de cultura enquanto "pratica significativa" (HALL: £ necessario comparar esse numero com o tamanho das populacoes afro-americana, latina, caribenha, coreana e vietnamita nos Estados Unidos para 1998).se ter uma ide"ia da escala comparativa. 23 Portanto, nao levo a serio o argumento de Robert Young (1995) de que o12 uso do termo "hibridismo" simplesmente restaura o velho discurso raci- Ha evidencias sugerindo que a "negritude" nao era fortemente marcada alizado da diferenca que se tentava superar. Isso e ninharia semantica.entre os primeiros imigrantes caribenhos e se desenvolveu na Gra-Bretanha, Certamente, os termos podem ser desarticulados de seus significados ori-nos anos 60, como resposta ao racisrno. ginals e rearticulados. O que significa essa concepcao pre pos-estruturalista13 Jogo de palavras com "Rule Britannia", slogan do Imperio. (Nota da T.) da linguagem na qual o significado encontra-se eternamente preso a seu referente racializado? Obviamente minha preocupacao tem sido com o hibri-H O impacto desse inquerito oficial sobre a morte de Stephen Lawrence e o disrno cultural, o qual relaciono a combinacao de elementos culturais hete-Relatorio Macpherson (1999) constituem os exemplos recentes mais extraor- rogeneos em uma nova sintese — por exemplo: a "creolizacao" e adinarios disso. "transculturacao" — que nao podem ser fixadas ou associadas ao chamado carater racial das pessoas cuja cultura estou discutindo.15 Paul Gilroy corretamente se refere a "inabilidade de levar a ra?a a serio e 21uma indisposicao absoluta em se reconhecer a igualdade do valor humano e A tradicao nao implica algo fixo. fi antes um reconhecimento do caratera dignidade das pessoas que nao sao brancas" (GILROY: 1999). encarnado de todo discurso. "fi um tipo especial de conceito discursivo, na medida em que este desempenha uma tarefa distinta; busca compor oficial-16 mente, dentro da estrutura de sua narrativa, uma relacao entre o passado, Em termos discursivos, o racismo possui uma estrutura metommica — asdiferencas geneticas ocultas sao deslocadas ao longo da cadeia de significantes a comunidade e a identidade. Ela depende do conflito e da controve"rsia.atraves de sua inscricao na superficie do corpo, o qual e visivel. £ a isso que E um lugar de disputa e tambem de consenso, de discurso e de acordo."Frantz Fanon se referia ao falar da epidermizacao ou do "esquema corporal". (SCOTT: 1999)(Ver HALL: 1994, 1996). 25 Rawls fez uma importante concessao a seus criticos comunitarios ao reco-17 Essa e a posicao adotada por Balibar (1991), em sua discussao sobre o nhecer que sua teoria de justica se aplicava especialmente a sociedade"racismo diferenciador", um termo tornado de emprestimo a Taguieff, pluralista liberal, em que o desejo de cooperacao politica ja e generalizadotambem por Wieviorka (1995, 1997). Entretanto, Modood (1997), a meu (ou seja, 6 dependente de certos pressupostos culturais particulares). (Verver, exagera ao tentar distinguir o "racismo cultural" de qualquer vinculo THOMPSON, 1998)com a fixidez ou o biol6gico e estabelece uma oposifao radical demais entre 26 Isso inclui padroes irregulares de mudanca economica e tecnologica, ao "racismo bioldgico" e a "diferenciacao cultural". Creio que esse equivoco revolucao na posicao das mulheres e a feminizacao da forca de trabalho, oadvem da desconsideracao do carrier discursivo do racismo. Modood decimio da cultura da classe operaria masculina e de comunidades ocupa-engana-se ao ler o referente biol6gico em "racismo biologico" de umaforma excessivamente literal. cionais mais antigas; novos padroes de consumo e a religiao do livre mercado,92 93
  • 50. recuperacao da diferenfa e uma reafirmacao do velho universalismo Ilumi-as novas formas de familia e estilos de relacionamento com os filhos, as nista. Entretanto sob a perspectiva multicultural, a heterogeneiza9ao do campodiferengas entre geragoes dentro de uma popula9ao cada vez mais madura, o social — ou a pluralizacao dos posicionamentos — constitui, em si mesma,declfnio da religiao organizada, profundas mudancas no comportamento um momento necessario e positivo, mesmo nao sendo sufictente, e deve sersexual e na cultura moral, o declinio da deferencia, o aumento do geren- preservada (em suas formas hibridizadas) juntamente com os esforcos (semprecialismo, a exalta^ao do empresario enquanto heroi, o novo individualismo incompletos) de definir, de dentro de suas particularidades, um horizontee o novo hedonismo- mais universal.27 Walzer discorre confusamente (e, em vista de recentes desdobramentos,com otimismo) sobre os Estados Unidos "optarem pelo Liberalismo 1 emlugar do Liberalismo 2". Na verdade, polfticas piiblicas americanas recentes, BIBLIOGRAFIAcom seu ataque aos programas de ac.ao afirmativa em nome da liberdadeindividual, mais parecem um esforc.o conjunto para arrastar os Estados Unidosde volta ao Liberalismo 1 depois de um breve flerte com Liberalismo 21 De AHMAD, A. The Politics of Literary Post-Coloniality. Race and Classuma perspectiva canadense, Kyimlicka argumenta que certos direitos degrupo definidos individualmente sao compativeis com a concepcao liberal, e v. 36, n. 3, London, 1995-estende ao maximo a concepcao liberal para que tais direitos assim sejam.Taylor (1994) sugere que isso nao ocorre; primeiro por causa dos pressu- BARKER, M. The New Racism. London: Junction Books, 1981.postos individualists que fundam o liberalismo; e segundo, porque a pro-tecao das identidades coletivas 6 incompativel com o direito as liberdades BHABHA, H. The Voice of the Dom. Times Literary Supplement,individuals. Portanto, seria necessSrio uma reforma no liberalismo para aco-modar a demanda multicultural por "reconhecimento". Ja Habermas (1994) n. 4.923, 1997.sustenta que, obviamente, a individualidade e constituida intersubjetiva-mente, mas que, corretamente compreendida, uma teoria dos direitos nao BHABHA, H. Nation and Narration. London: Routledge, 1990.apenas pode acomodar, mas tambem requerer uma politica de reconheci-mento que proteja a integridade do individuo como detentor de direitos; isto BHABHA, H. The Location of Culture[O local da cultura. Trad. Myriame compatfvel com o liberalismo, desde que haja "a atualizacao constante do Avila, Eliana Lourenfo de Lima Reis e Glaucia Renate Gongalves. Belosistema de direitos". Horizonte: Editora UFMG, 1998]. London: Routledge, 1994.23 John Rex, que apoia a proposifao geral da neutralidade cultural do estado,corretamente afirma que essa abordagem difere daquela do liberal indivi- BONNETT, A. Anti-Racist Dilemmas. Race and Class, v. 36, n. 3,dualismo. Ela tern sido sustentada, pelo menos ate o advento do Novo London, 1999.Trabalhismo, por um programa de bem-estar social democratico que incluimedidas de redistribuicao substancial, que seria enganoso incluir sob umarubrica liberal abrangente so porque respeita os direitos do individuo. BRAH, A. Cartographies of Diaspora. London: Routledge, 1996.29 Para um argumento persuasive sobre a complexidade da avaliacao das BRATHWAITE, E. K. The Development of Creole Society in Jamaicadiferencas entre praticas culturais de uma forma nao absolutista, ver 1770-1820. Oxford: Oxford University Press, 1971.PAREKH, 1999.30 Ver os extensos debates sobre essa questao em "Women Against Funda- BUTLER, J. Bodies that Matter. London: Routledge, 1993-mentalism" [Muiheres contra o Fundamentalismo], em varies lugares.31 CARBY, Hazel. Race Men: The W. E. B. DuBois Lectures. Cambridge, Na frente, estou particularmente grato pela forma como o argumentosobre o universalismo/particularismo e conduzido no recente trabalho de MA: Harvard University Press, 1998.Ernesto Laclau, especialmente em Emancipations[Emancipafoes], 1996. CAWS, P. Identity, Trans-cultural and Multicultural. In: GOLDBERG, D.32 Isso pode ser mais uma questao de enfase do que de discordancia funda- (Org.). Multiculturalism.London-. Routledge, 1994.mental. Laclau, por exemplo, escreve como se a proliferafao das identidadesfosse algo que simplesmente aconteceu com as sociedades da modernidadetardia; seu foco e a maneira em que um campo tao disseminado ainda CLIFFORD, J. Routes. Cambridge: Harvard University Press, 1997.poderia ser hegemonizado atraves de um certo tipo de "universalismo".Quando desenvolvido por certos proponentes, este argumento se torna uma DERRIDA, J. Margins of Philosophy. Brighton: Harvester, 1982. 9594
  • 51. DERRIDAJ. Positions. Chicago: Chicago University Press, 1972. Milton Keynes: The Open University / Sage, 1992. [Identidades cul- turais napos-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1997].FISH, S. Boutique Multiculturalism. In: MELZER, A. et al. (Ed.).Multiculturalism and American Democracy. Lawrence: University of HALL S. Culture, Community, Nation. Cultural Studies, Chapel Hill,Kansas Press, 1998. NC, v! 7, n. 3, 1993-FUKUYAMA, F. The End of History, New York: Free Press, 1992. HALL, S. From Scarman to Stephen Lawrence. History Workshop journal n. 48, London, 1999(a).GIDDENS, ^.Runaway World. London: Profile Books, 1999. HALL, S. National and Cultural Identity Artigo para a ComissaoGIDDENS, A. The Consequences of Modernity: the Third Way and its Runnymede sobre o Futuro da Gra-Bretanha Multi-etnica. London,Critics. London: Polity Press, 2000. 1999(c).GILROY, P.Joined-upPoliticsandPost-colonialMelancholia. The 1999 HALL, S. New Ethnicities. In: DONALD, J.; RATTANSI, A. (Ed.). "Race",Diversity Lecture. London: Institute of Contemporary Arts, 1999. Culture and Difference. London: Open University / Sage, 1992.GILROY, P. Small Acts. London: Serpents Tail, 1993b. HALL, S. The Local and the Global. In: KING, A. D. (Ed.). Culture, Globalization and the World System. Minneapolis, MN: University ofGILROY, P. The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness Minnesota Press, 1997.[OAtldntico negro. Rio de Janeiro: Universidade Candido Mendes/Ed.34, 2001.] London: Verso, 1993a. HALL, S. Thinking the Diaspora. Small Axe., n. 6, Kingston, University of the West Indies Press, 1999(c). (Veja neste volume.)GLISSANT, E. Le discoursantillais. Paris: Editions du Seuil, 1981. HALL, S. When Was the Post-Colonial? In: CURTI, L; CHAMBERS, I.GOLDBERG, D. Introduction. In: , (Org.). Multiculturalism (Ed.). The Post-Colonial Question: Common Skies, Divided Horizons.London: Blackwell, 1994. London: Routledge, 1996(a). (Veja neste volume.)GRAMSCI, A. Selections From the Prison Notebooks. London: Lawrence HALL, S. Who Needs Identity? In: HALL, S.; DUGAY, P. (Ed.). Questionand Wishart, 1971. of Cultural Identity. London: Sage, 1996(b). [Quern Precisa de Identi- dade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e Diferenca: aHABERMAS, J. Struggles for Recognition in the Democratic Constitutional perspectiva dos Estudos Culturais. Petropolis: Vozes, 2000.]State. In: GUTMAN, A. (Ed.) Multiculturalism. Princeton: PrincetonUniversity Press, 1994. HALL, S. Aspiration and Attitude... Reflections on Black Britain in the Nineties. New Formations, n. 3, Spring, 1998.HALL, C. White, Male and Middle Class. Cambridge: Polity, 1992. HALL, S. Whose Heritage? Unsettling the Heritage, Re-imagining theHALL, S. Cultural Identity and Diaspora. In: RUTHERFORD, J. (Ed.). Post-Nation. Third Text, n. 49, Winter, 1999(d).Identity, Community, Culture, Difference. London: Lawrence & Wishart,1990. [Identidade cultural e diaspora. Revista de Patrimonio Historico HARVEY, D. The Condition of Post-modernity. Oxford: Blackwell, 1989-e Artistico National, n. 24, p. 68-76, 1996.] [A condicdodapos-modernidade. Sao Paulo: Loyola, 19931-HALL, S. The Question of Cultural Identity. In: HALL, S.; HELD, D.; HELD, D.; McGREW. A.; GOLDBLATT, D.; PERRATON, J. GlobalMcGREW(Ed-). Modernity and Its Futures. Cambridge: Polity, 1992. Transformations. Cambridge: Polity, 1999.96 97
  • 52. HESSE, Barnor. Introduction. In: -• (Org.). Un/Settled PAREKH, B. The Logic of Inter-Cultural Evaluation. In: MORTON, J.; Mutiiculturalisms. London: Zed Books, 2000. MENDUS, S. (Org.). Toleration, Identity and Difference. Basingstoke: Macmillan, 1999- HOBSBAWM, E.; RANGER, T. The Invention of Tradition. Cambridge: Cambridge University Press, 1993- [A invencdo das tradifoes. Trad. PHILLIPS, M.; PHILLIPS, T. Windrush:The Irrestistible Rise of Multi- Celina Cardim Cavalcante. Sao Paulo: Paz e Terra, 1984]. Racial Britain London: Harper Collins, 1998. IGNATIEFF, M. Blood and Belonging, London: Vintage, 1994. PHOENIX, A. "Multiculture", "Multiracisms" and Young People: Contradictory Legacies of Windrush, Soundings, n. 10, Autun, 1998.KVMLICKA, W. Liberalism, Community and Culture. Oxford: ClarendonPress, 1989. PRATT, M. L. Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation. London: Routledge, 1992.LAGAN, J. Ecrits. London: Tavistock, 1997. RAWLS, John. A Theory of Justice. Oxford: Oxford University Press,LACLAU, E. Emancipations. London: Verso, 1996. 1988.LACLAU, E.; MOUFFE, C. Hegemony and Socialist Strategy. London: RICHARDSON, R. Islamophobia. London: Runnymed Trust, 1999-Verso, 1985. ROBBINS, K. Tradition and Translation. In: CORNER, J.; HARVEY, S.MACPHERSON, W. The Stephen Lawrence Inquiry- Report of an Enterprise and Heritage. London: Routledge, 1991-Inquiry by Sir William Macpherson ofCluny. London: StationeryOffice, 1999. RUSHDIE, S. Imaginary Homelands. London: Granta, 1991.MAY, S. CriticalMulticulturalism-. Re-thinking Multicultural and SCOTT, D. Re-fashioning Futures-. Criticism After Post-Coloniality.Anti-Racist Education. Brighton: Palmer Press, 1999- Princeton: Princeton University Press, 1999-McLAREN, P. Revolutionary Multiculturalism- Pedagogies of Dissent TAYLOR, C. The Politics of Recognition. In: GUTMAN, A. (Ed.).for the New Millennium. Boulder: Westview Press, 1997. Multiculturalism. Princeton: Princeton University Press, 1994.MODOOD, T. Anti-Semitism, Multiculturalism and the "Recognition" of THOMPSON, J. Community, Identity and World Citizenship. In:Religious Groups. Journal of Political Philosophy, v. 6, n. 4, 1998. ARCHIBUGI, A.; HELD, D. KOHLER, M. (Ed.). Re-imagining Political Community. Cambridge: Polity Press, 1998.MODOOD, T.; BERTHOUD, R. et al, (Ed.). Ethnic Minorities inBritainDiversity and Disadvantage. London: Policy Studies Institute, 1997. VOLOCHINOV/BAKHTIN, M. Marxism and the Philosophy of Language. London/New York: Seminar Press, 1973. [Marxismo efilo-MOUFFE, C. The Return of the Political. London: Verso, 1993- sofia da linguagem. Sao Paulo: HUCITEC, 1981.]NAIRN, T. The Break-up of Britain. London: Verso, 1997. WALDRON, J. Minority Cultures and the Cosmopolitan Alternative. In:ORTIZ, F. Cuban Counterpoint: Tobaco and Sugar. Durham/London: KYMLICKA, W. (Ed.) The Rights of Minority Cultures. Oxford: OxfordDuke University Press, 1940/1995. University Press, 1992.PAREKH, B. British Citizenship and Cultural Difference. In: ANDREWS, WALLACE, M. The Search for the Good-enough Mammy. In:G. (Org.). Citizenship. London: Lawrence & Wishart, 1991. GOLDBERG, D. (Ed.). Multiculturalism. London: Blackwell, 1994.98 99
  • 53. WERBNER, P. The Dialectics of Cultural Hybridity. In- WERBNER P.; MODOOD, T. (Ed.). Debating Cultural Hybridity. London- Zed Books, 1997. WIEVIORKA, M. Is it so Difficult to be an Anti-Racist? In- WEBNER P.; MODOOD, T. (Ed.). Debating Cultural Hybridity. London- Zed Books, 1995. QUANDO FOI 0 PCS-COLONIAL? YOUNG, Robert J. C. Colonial Desire: Hybridity in Theory, Culture and Race. London: Routledge, 1995. PEN5AHDO NO LIMITE YUVAt-DAVIS, N. Gender and Nation. London: Sage, 1997. E precise descartar as tendencias que estimulam o jogo consolador dos reconhecimentos. Michel Foucault, in Nietzsche, Genealogia, Historia JQuando fo iop^s- colon ial^O que deveria ser incluido e excluido de seus Hmites? Onde se encontra a fronteira invi- sivel que o separa de seus "outros" (o colonialismo, o neo- colonialismo, o Terceiro Mundo, o imperialism©) e em cujos Hmites ele se define incessantemente, sem supera-los em de- finitive? O objetivo principal deste^ensaiQ-e.exploraiLjQS-p.Qji- tos deinterrogagao que comecam^apidamente a se aglutinar em torno da questao ^pos-colonial" e da ideiade uma era pos-colonial. Se o momento pos-colonial e aquele que vem aposo colonialismo, e sendo este definido em termos de uma divisao binaria entre colonizadores e colonizados,4>or queo _p6s-colgriia^l e tambetnum tempo de "diferen^a"? Que tipo de diferenca e essa e quais as suas implicacoes para a politica e para a formagao dos sujeitos na modernidade tardia? Essas questoes tem assombrado cada vez mais o espaco de contes- tag:ao no qual o conceito de "pos-colpnial" opera hoje. Nao se pode explora-las^satisfatoriamente sem que se saiba mais sobre o significado deste conceito e as razoes que o fizeram portador de tantos e tao poderosos investimentos incons- cientes — um signo do desejo para alguns, e igualmente para outros, um sinal de perigo.100
  • 54. Esse questionamento pode ser feito de maneira mais util em universidades americanas prestigiosas, do "Ivy League", se tomarmos os argumentos contrarios aoj^pos-colonial" que e que utilizam da linguagem em voga da "virada" linguistica e tern surgido recentemente em varies {gornent^rips cntjgpi^ cultural para reformular o marxismo, remetendo-o a "outra Ella ShoJxat. cujo trabalho neste campo tem sido exemplar, linguagem do Primeiro Mundo com pretensoes universalis- censurou o termo por implicar uma variedade de erros tico-epistemologicas". O segundo argumento, ligado ao conceituais. A autora critica o^pjos^olaniarj>oj^ujL_ajnbi- primeiro, e de que o ^rjos-colonial"_jmenospreza grosseira- guidade teoricTelpolidcg — ^aJ^^tirjlicicbde^grtigiriQsa mente "a estruturagao capjtalista ^do.._ numdo> rngdernQ". Sua de posigoes", seus "desiocamentos universalizantes e ainisto- lio^ao de identidade e discursiva, nao estrutural. Repudia a ricos" esuasJllmplicacoes despolitizantes" (Shohat, 1992). . — i i "•"• "---E ~-5,,^-._____ C_^~_.,,.« .,.,„«, „ f estrutura e a totalidade. Ojdiscursg_p^os-colonial, afirma ele Segundo Shohat, o pos-colonial e politicamente ambivalente sem rodeios, ejimJ!£ulturalismo^ (Dirlik, 1994: 347). Esprei- porque obscurece as distincoes nitidas entre colonizadores e tando por tras do primeiro argumento de Dirlik encontra-se colonizados at£ aqui associadas aos paradigmas do "colonia- um refrao comum a todas as criticas recentes, a saber, "a lismo", do "neocolonialismo" e do "terceiro mundismo" que negociabilidade academica ubiqua" do termo "pos-colonial" ele pretende suplantar. jDissolv.e..a poiitica de ^esistencia. uma (McClintock, 1992) e sua utilizacao por proeminentes "inte- vez que "nao propoe uma dominacao clara, nem tampouco lectuais academicos originarios do Terceiro Mundo ... [que demanda uma clara oposicao". Como os outros "pos" com agem como] marcadores do passo da critica cultural" (Dirlik, os quais se alinha, o^o^coTonialfujid.e_higtorias, temrjora- 1994: 347). lidades e formac^e^s_xaciais_^istintas em uma mesma cate- Deixemos de lado esse ultimo ponto e o cheiro de metralha gona^uniyersalizante. Essa visao e compartilhada por Anne politicamente correta, bem como o vislumbre nada bem-vindo McClintock, outra dentre as primeiras estudiosas deste que ele inconscientemente oferece do que esta "por dentro" campo que cntjcaj) conceito por sua jinearidade e sua_^sjjs^ ou "por fora" na Academia americana (assim como a preocu- pensaQ.,axr^batacia^^_histgria^1 (McClintock, 1992). Para pagao bizarra, dos intelectuais que moram nos Estados ambas, o conceito e utilizado para marcar o fechamento Unidos, com essas questoes). Ha questoes maiores pairando final de um periodo historico, como se o colonialismo e nas sombras aqui, as quais teremos que retornar — tais como, seus efeitos estivessem definitivamente terminado. O "p6s", por exemplo, o reducionismo da proposicao de Dirlik de que para Shohat, significa "passado": algo definitivamente con- a critica pos-colonial "repercute as necessidades conceituais" cluido e fechado. Porem, para a autora, isso tambem faz dos relacionamentos globais causados pelas mudancas na parte de sua ambiguidade, ja que o conceito nao esclarece economia capitalista mundial (quando foi a ultima vez que se essa periodizacao e epistemologica ou cronologica. Estaria ouvimos tal formulacao?), o que, segundo ele, explica a o "pos-colonial" marcando o ponto de ruptura entre duas razao de um conceito, destinado a ser critico, "parecer cumplice epistemes da historia intelectual ou se referindo as "estritas da consagracao da hegemonia" (Dirlik, 1994: 331, citando cronologias da historia tout court?" (Shohat, 1992: 101) Shohat; ver tambem Miyoshi, 1993). Em sua recente contribui^ao para o debate, o ilustre estu- Obviamente, quando se atenta para esses argumentos em dioso da China moderna, Arif^girHk (1994), nao apenas seus respectivos contextos, observa-se que_h^jnenos concor- cita e aprova muitas das criticas de Shohat e McClintock — dancia^subj a c entee ntr e eles dojque parece. A "multiplici- ele tambem considera que o conceito e uma celebracao dade de posicoes" que Shohat considera inquietante no do chamado fim-d_o__colonialismo — mas acrescenta duas pos-colonial pode nao ser tao distinta da "multiplicidade" criticas px^rias^-q-uesao substanciais. A primeira e de que McClintock julga ser uma ausencia preocupante: que o/p^s-colonialisjno^l urn ___^™r~-=^^^=^^^x^ ~ "Surpreende-me o quao raramente o termo e utilizado para pos-fundacionista empregado principalmente por inteiectuais denotar multiciplidade." O ataque ao pos-estruturalismo em"deslocados^cTo Terceiro Mundo, que estao se dando bem Dirlik nao se ajusta ao que conhecemos da solida obra de102 103
  • 55. McClintock, que e profundamente "pos-fundacional" em sua ^ ^inspiracao Cpor exemplo, o brilhante ensaio sobre "O retor- de politica resulta disso?no do fetichismo feminino" (em New Formations, 1993; ver Pode haver diferentes respostas para esse questionamentotambe"m 1995). Embora Shohat conclua seu argumento reco- nos Estados Unidos e na Gra-Bretanha. Sem querer me estendernhecendo que uma estrutura conceitual nao e necessariamente muito acabo insistindo que a Guerra do Golfo nao forneceu a"incorreta" e a outra "correta", sua crftica e tao extensa e pre- experiencia polftica esclarecedora das "linhas tracadas na areia",judicial que fica dificii saber o que ela realmente pretendia mas sim uma visao das dificuldades que surgiram de uma opo-resgatar das ruinas. Mas isso e detalhismo^^^gimi^nto_rjrin- sicao a guerra ocidental no deserto, quando evidentementecipal co_atra-Q^pQSj£olonialismo apresentadg^por_esses criti- ^ _ a situacao no Golfo envolvia as atrocidades cometidas pelos Aliados contra o povo iraquiano (em cujo "subdesenvolvi- mento" historico o Ocidente esta profundamente implicado), Uma certa nostalgia percorre alguns desses argumentos em defesa dos interesses ocidentais no petroleo, sob a cober- que anseiam pelo retorno a uma politica bem definida de tura das Nacoes Unidas; e, ao mesmo tempo, as atrocidades oposicoes binarias, onde se possa "tracar linhas claras na cometidas por Saddam Hussein contra seu proprio povo e areia" que separem os bonzinhos dos malvados (o artigo de contra os melhores interesses da regiao, sem falar nos inte- Shohat comeca com o exemplo "elucidative" da Guerra do resses dos curdos ou dos arabes do pantano no sul do Iraque, Golfo). Esse argumento nao e tao convincente quanto parece o povo Madan. Ha uma "politica" nisso; mas nao uma poli- a primeira vista. Essas "linhas" podem ter sido simples de tica cuja complexidade e ambiguidade podem ser conveni- tracar no passado (eram mesmo?), mas nao sao assim hoje entemente eliminadas. Tampouco e um exemplo atipico, em dia. Caso contrario, como poderiamos compreender a escolhido aleatoriamente, mas algo caracteristico de um certo crise geral da politica de esquerda, senao em termos de uma tipo de evento politico dos "novos tempos", no qual a crise simples conspiracao? Isso nao significa que nao existam o da luta inconclusa pela "descolonizacao", bem como a crise do estado "pos-independencia" estao profundamente inscritas. "certo" e o "errado", que nao haja escolhas politicas dificeis de se fazer. Porem, parece-me que a licao ubiqua dos nossos Em suma, nao foi a Guerra do Golfo, neste sentido, um cias- tempos, que doi ate a alma, consiste em saber que os bina- sico evento "pos-colonial"?jJSJXiO5-43oiitiQQS.jiaojesXa_bilizam p^rrnji^^ntemente o campo E claro que, em certo ponto, Ella Shohat compreende este_49 ^ntaggjnsjno^rjolitico (se e que ja o fizeram antes)Tliern argumento, se e que nao endossa todas as suas implicates. conferem_aje_slejumajn^ Os "efeitos A autora observa que as tres ultimas decadas no "Terceiro de fronteira" nao sao "gratuitos", mas construidos; consequen- Mundo" temente, as posicoes politicas nao sao fixas, nao se repetem de uma situacao historica a outra, nem de um teatro de anta- produziram um numero bastante complexo e politicamente ambiguo de desdobramentos ... [inclusive] a compreensao de gonismos a outro, sempre "em seu lugar", em uma infinita que os condenados da terra nao sao unanimemente revolucio- iteracao. Isso nao representa uma mudanca da politica harios ... e [que] a despeito dos amplos padroes de hegemonia enquanto "guerra de manobras" para uma politica enquanto geopolitica, as relates de poder no Terceiro Mundo sao "guerra de posicoes", conforme Gramsci decisivamente a tambem dispersas e contraditorias. mapeou no passado? Afinal, jiag_estarnos todos, de formas distintas^e— a-tf&Kes de _espacos conceituais diferentesjclos Ela se refere aos conflitos "nao apenas entre as nacoes ... quais o_^aszccj^maj_d£fin[tivamente e urn), byscando mas no interior destas, a partir de mudancas constantes nas desesperadameate^ciamR£e.ender,o flue sjgnifica fazer uma relac.6es entre grupos dominantes e subalternos..." (Shohat, escglha_RoIitica etica e.se~posic~ionar em um campo politico 1992: 101). Entretanto, essa observacao nao provoca um104 105
  • 56. exame do valor potencial do termo "p6s-colonial" na abor- cuidadosa, alertam para o fato de que nem todas as socie- dagem teorica dessa mudanca. Ao contrario, essa parte da .clacles sao "pos-coloniais^ num mesmo ^enriWoe qu^em todb discussao e concluida com uma observacao negativa sobre a ^aso, o "pos-colonial" nao_o_gera isoladamente, masje^cje7at.o visibilidade do "pos-colonial" "nos estudos cuiturais acade- uma constru^ao inteniamente diferenciada por suas intersecoes micos anglo-americanos". Em suma, no ponto onde poderia as_ielScces dinamicas".facilmente concluir com uma reflexao conceitual, a autora Portanto, uma discriminacao mais criteriosa esta por seoptou por um fechamento polemico. fazer entre as distintas formacoes sociais e raciais. A Aus- r ser um conceito confu- tralia e o Canada, de um lado, a Nigeria, a India e a Jamaica, duvida^cer.tD-.de^cuido e homo- de outro, certamente nao sao "pos-coloniais" num mesmo devido a popularidade crescente sentido. Mas isso nao significa que esses paises nao sejam dedo termo, seu uso extenso, o que as vezes tern gerado sua maneira alguma "pos-coloniais". guasjelagoes com o centreaplicacao inapropriada. Ha serias distincoes a serem feitas, imperial e as formas pelas q^i^jhejjjy^m^^as quais tern sido negligenciadas, o que tern causado um OcTdente senf ser"SeleVST como C. L. R. James caracterizouenfraquecimento do valor conceitual do termo. A Gra-Bretanha 6 Caribe7 6s^3eIinij^£ri^laj^mejUe_cona^ e ose "pos-colonial" no mesmo sentido em que sao os Estados fazem ser hoje designados^po^cxd^niais^muito emboraUnidos? E conveniente considerar os Estados Unidos uma "aTria^neira, o momento e as condicoes de sua colonizacaonacao "pos-colonial"? Deveria o termo ser aplicado igualmente e independencia variem bastante. Da mesma maneira, osa Australia, um pais de colonizacao branca, e a India? A Gra- Estados Unidos e suas atuais "guerras cuiturais", conduzidasBretanha e o Canada, a Nigeria e a Jamaica seriam todos geralmente em relacao a uma concepcao mitica e eurocentrica"igualmente pos-coloniais", tal como Shohat questiona em seu de civilizacao, sao literalmente incompreensiveis fora doartigo? Os argelinos que vivem em seu pais e os que vivem contexto de seu passado colonial.na Franca, os Franceses e os colonos pied-noir, seriam todos Contudo, ha formas de se distinguir os usos do termo que,eles "pos-coloniais"? A America Latina seria "pos-colonial", a meu ver, em nada contribuem. Alguns criticos nao reconhe-ainda que suas lutas de independencia tenham ocorrido no ceriam o "pos-colonial" nas colonias brancas, utilizando-o parainfcio do seculo dezenove — portanto bem antes da recente descrever exclusivamente as sociedades colonizadas nao-fase de "descolonizacao" a qual o termo se refere mais eviden- ocidentais. Outros se recusariam a atribui-lo as sociedadestemente — e tenham sido lideradas pelos descendentes dos colonizadoras da metropole, restringindo seu uso para secolonizadores espanhois quehaviam colonizado os "povos referir as colonias da periferia. Isso e confundir uma cate-nativos"? Em seu artigo^srTohaJ explora com eficacia essa goria descritiva com uma categoria avaliativa. O que_odeficiencia, ficando claro que,~a luz da critica "p6s-colonial", conceito pode nos aiudajLa. fazer e descrever ou caracterizarajqujslejSjqm^^ a_mudanca nas rejj^oes^globais, que rnarca a^tran.siicjc^suas discriminacoes e^especificidades e/ou jestaheJ^cer com (necessariam£me_j.iTegular)_^a era dos Imperios para omais clarezaejri_gualjirve^de abstracao o termo estiLsendo momento da^rj^-independencia ou d^^apl^icadoTle_jCj^^js^so^eyita uma "universalizacao" esguria. Pocle"ser uTil tambem (embora aqui seu valor seja mais simbo-Anne McClintock, de forma persuasiva, tambem faz uma lico) na identificacao do que sao as novas relacoes e dispo-distincao entre as varias trajetorias da dominacao global, sicoes do poder que emergem nesta nova conjuntura.enquanto defende um argumento geral valido e importante Contudo, como Peter Hulme recentemente argumentou:sobre a necessidade de se pensar conjuntamente "as conti-nuidades e as descontinuidades do poder" (p. 294). Ja Lata Se "pos-colonial" e uma palavra util, esta se refere a um processoMani^Ruth Frankenberg (1993), em uma avaliacao bastante de desvincula^ao da smdrome colonial como um todo, que assume diversas formas e que provavelmente 6 inevitavel para106 107
  • 57. todos aqueles cujo mundo foi marcado por um conjunto d - atS un» - Ele nos obriga a reler os binarismos como formasde fenomenos, o "pos-colonial" e (ou deveria ser) nao urn te ^ trgnscuLturacao. de_traduglo_cultural, destinadas a~pe7tur5ar avaliativo, mas descritivo .., [Nao e] uma especie de ernble ^anTsernpre os binarismos culturais do tipo aqui/la. de honra ao merito. (Hulme, 1995) --""I; precisamente essa "dupla inscricao" — que rompe com as demarcacoes claras que separam o dentro/fora do sistema Essa ideia nos ajuda ainda a identificar nao apenas o nivel colonial, sobre as quais as historias do imperialismo flores- em que as distincoes cuidadosas devem ser feitas, mas tambem ceram por tanto tempo — que o conceito de "pos-colonial" o nivel em que o "pos-colonial" se torna adequadamente traz a tona. CpjisejCiiientenaente.^^mcx^os-colonial/Jjiao "universalizante" (ou seja, trata-se de um conceito que se se restringe a descreyexjjj3ia^de±erminada_sociediBe^ouepoca^ refere a um alto nivel de abstracao). O_jenno__se_t££er Ele njileji^a^lomzju^^ r- processo geral de descolonizacao que, tal comoa_rjropria pssftficialmente trans_najc_io_naLe.,transcultuj:aL^- e produz uma cdlomzajglQ ? marcou ^olfrJigu^Mrxtensi_dade as sociedades reescrita_des.centxada, diasg6rica_ou "global" das grandes co lo n iza doras^e^as^cploniza das (de forma s distintas^e d.aro). n?irrativas^imp.er.iais._dQ_passado. centrad~as na_jTacjJLO^ Seu Dai a subversao do antigo binarismo colonizador/coloni- valor teorico, portanto, recai precisamente sobre sua recusa zado na nova conjuntura. De fato, uma das principals contri- de uma perspectiva do "aqui" e "la1", de um "entao" e "agora", buicoes do termo^rjo^coloniai^tern sido dirigir nossa atencao de um "em casa" e "no estrangeiro". "Global"jieste sentido para o fato de que a^cojonizacao nunca^fgLalgo-extejjK) as nao sign^ca—universal, nem tampouco e algo especifico a .spciedades-das-inet-r-epele-s-i-m-pe-r-iais. Sempre esteve profun- alguma nacao ou sociedade. Trata-sede como as relacoe_s damente inscrita nelas — da mesma forma como se tornou transversals e laterais que GiTroy denomina Miasporicas" indelevelmente inscrita nas culturas dos colonizados. Os efeitos (Gilroy, 1993) cornple^iej}tarn_e^ojne^mojempq^ des^^ocarri v > negatives desse processo forneceram os fundamentos da as nocoes de centro^^perifena, e de como o global e o mobilizacao politica anticolonial e resultaram no esforco de local reorganizam e rn old a mum ao o utro. Como Mani ~e retornar a um conjunto alternative de origens culturais nao Frankenberg afirmam, o "colonialismo", como o "pos-colo- contaminadas pela experiencia colonial. Esta foi a dimensao nial", diz respeito as formas distintas de "encenar os crftica das lutas anticoloniais, conforme observa Shohat. encontros" entre as sociedades colonizadoras_e^seus "outros^ Contudo, no que diz respeito ao retorno absolute a um — "embora nem sempre~cla~mesma forma ou no mesmo conjunto puro de origens nao-contaminadas, os efeitos grau" (Mani e Frankenberg, 1993: 301). culturais e hist6ricos a longo prazo do "transculturalismo" Esse argumento se vincula a outra vertente da critica — que caracterizou a experiencia colonizadora demonstraram qual .seja^o "pos-colonial" como forma de periodizacao^o ser irreversiveis. Asjdiferencas entre_as^culturas cqlgnizadora que^Shohat)denomina sua "temporalidade problematica". e coIpjrnz_ajda_p,eJxaan£C£r^^ O "pos-colonial" certamente nao e uma dessas periodizacoes de fqrma,absolutamenle binaria . nem certarnente o fazem mais. baseadas em "estagios" epocais, em que tudo e revertido ao Essa mudanca de circunstancias, nas quais as lutas anticolo- mesmo tempo, todas as antigas relacoes desaparecem defini- nialistas pareciam assumir uma forma binaria de represen- tivamente e outras, inteiramente novas, vem substitui-las. tacao para o presente momento em que ja nao podem mais Obviamente, o rompimento com o colonialismo foi um pro- ser representadas dentro de uma estrutura binaria, eu descre- ^gesso longo, prolongado e diferenciado r em que os movi- veria como um movimento que parte de uma concepcao de nientos recentes do pos-guerra pela descolonizacao figuram_diferenca para outra (ver Hall, 1992), de diferenca para diffe- como um, e apenas um, "momento" distinto. Neste caso, a mudanca e precisamente o que a trahsicao em colonizacao" sinaliza a ocupac^oe o controle colonial direto. serie ou.titubeante para o "pos_-colonial" designa. Mas nao se Ja a transi^ao para o jp6s^colonial"/ e caracterizada pela inde,- trata apenas de nao3esigria-la em termos de um "antes" e um pendencia do ^on£rgj^c^lonjai_diretg. pela formacao de108 109
  • 58. novos Estados^nacjlp, por formas de desenvolvimento eco- hist6rias e temporajjdades, a mtrusao da A nomico dominadas pelo crescimento do capital local e suas especificidade n a r a c i a i T a t i v a s generaliza_ciQras_d2 relacoes de dependencia neocolonial com o mundo desenvol- ^ vido capitalista, bem como pela politica que advem da emer- culturais lateraise descentradas, os moyimentos e migra9oes gencia de poderosas elites locals que administram os efeitos quT~cornpoem hoje o rnundp, f r e q u e n ternente_§g.jy>nt Q r- contraditorios do subdesenvolvimento. E igualmente signi- centros metropolitanos. Entretanto, talvez ficativo o fato de ser caracterizada pela persistencia dps muitos devessemos ter atentado para outros exemplos te6ricos, nos efeitos da colonizacao e, ao mesmo tempo, por seu desloca- quais a desconstrucao de conceitos-chave pelos chamadosTnenfcn3o~eixo~colonizador/coloni2ado ao ponto jde_sua..inter- discursos "pos" nao foi seguida pela extincao ou desapareci- fia7i2acao~na"p"ro"pria sociedade descolonizada. Dai que os mento dos mesmos, mas por sua prolifera$ao (conforme britamcos^ profundamente envolvidos nas economias regio- alertou Foucault), estes ocupando agora uma posicao "descen- nais, nas faccoes dominantes e na complexa politica dos trada" no discurso. O sujeitoje__a_i_dentidade sao apenas dois Estados do Golfo, Persia e Mesopotamia, atraves de uma rede dos conceitos que, tendo sido solapados em suas formas de mandates ou de "esferas de influencia" protegidas, apos a unitarias e essencialistas, proliferaram para alem de nossas Primeira Guerra Mundial, recuam no momento da descoloni- expectativas, atraves de formas descentradas, assumindo zacao "para oeste do Suez"; fazendo com que os "efeitos novas_ppsic6es_disciirsivas. —•* secundarios" desse tipo difuso de hegemonia colonial indi- Ao mesmo tempo, ha pertinencia em se afirmar, como oreta passem a ser "vividos" e "re-trabalhados" nas varias crises fazem Lata Man! e Ruth Frankenberg em sua critica ao White "internas" dos estados e sociedades p6s-coloniais e das socie- Mythologies [Mitologias brancas], de Robert Young (1990), que,dades que compoem os Estados do Golfo — Iraque, Iran eAfeganistao — sem falar na Palestina e em Israel. Nesse,. por vezes, Q_finico_grog6sitp_ da j^rit_ic.a_-p6.Sj:,colcinJ5i.p_a.rececenario, o "colonial" nao estajmorto, ja que sobrevive atraves- ser a desconstrucao do discurso filospfico ocidental, asseme-de seus "eFeitos secondaries^. Contudo, nao se pode mais Ihanoo^sea^um "mero desvio para retornar a posicao do Outromapear cornpletamente sua politica, nem consider^-la, no enquanto recurso para se repensar o proprio eu ocidental".momento pos-colonial, identica aquela que vigorou durante Como. jif irma m^s_giutpras:, sena surpreendente se o "pbjeto.o mandate britanico. Tais complexidades e reencenacoes chave e o sucesso da Guerra de Independencia. a_rgeliaatornaram-se uma caracteristica comum em varias partes dos fossem derrubar a dialetica hTegeliaria" (1993: 101)! A meumundo "pos-colonial", embora tenham ocorrido outras traje- ver, o problema do White Mythologies (1990) nao e a percepcaotorias "descolonizadoras", algumas anteriores e outras com da relac.ao entre o pos-colonial e a critica da tradicao metafi-resultados significativamente distintos. sica ocidental, mas sim o desejo prometeico que o impulsiona a alcancar uma correta e ultima posigao teorica — um desejo Poderfamos questionar — parece que alguns criticos o tern de teorizar mais que todo o mundo — e, ao faze-lo, Qjgxtofeito — por que entao privilegiar este momento do "£6s^ estabelece_uma hierargiaia que vai desde os,^maus" (Sartre, ocolonial"? Sua preocupacao CQm.o.,reJaciQriamejitg_cojQni2^ marxismo e Jameson), passa pelos ^razoayeis, mas incor-colonizadr7~n^o^eria~~sirnplesmente uma revivescencia ou retos^, (Said e Foucault) ate chegar aos "quase legate^ (SpivakTeerTcerTa^ao daquilo que oproprio pos-colonial triunfante-mente declara "concluido"^Dirli^ por exemplo, acha estranho e Bhabha), sem que sequer se proponha uma investigacaoque os criticos p6s-coloniais~Se"xocupem tanto com o Ilumi- critica rigorosa do discurso normative, daquela figura funda-nismo e a Europa, cuja critica parece constituir sua tarefa prin- cional — ou seja, Derrida — cuja ausencia/presenga definecipal. McClintock igualmente critica o "recentramento da a encenacao de toda a seqiiencia linear. Mas isso e outrahistoria global sob a rubrica do tempo europeu" (p. 86). E historia — ou melhor, a mesma historia em uma outra parteverdade que o "pos-colonial" sinaliza a prolifeza.cao-jde_ da floresta...no ill
  • 59. Portanto, muitas das criticas aoj".p6s-colonial"l — parado- evidente", o exterior constitutiyq, da modernidade capita- yahnente._Eorjiu.a _o_ne_ntagaQ pos-estruturalista — assumem "lista europgir^TdegoJii^idental,.^pi&s.X4^. a forma de uma dernandajppr maior multiplicidade e dispjrga^ Essa renarracao desloca a "estoria" da modernidade capi- (embora Dirlik, ao salientar a forca estruturante do capita- talista de seu centramento europeu para suas "periferias" lismo, se mostre profundamente desconfiado desse tipo de dispersas em todo o globo; a evolucjio pacifica para a vio- "namoro" pos-estruturalista). Contudo, mesmo nos atendo a lencia imposta; a transicao do feudalismo para o capitalismo diferenciacao e a especificidade, nao podemosignorar os (que exerceu uma funcao talismanica, por exemplo, no efeitos sobredeterminantes do momento colonial, a "missao" marxismo ocidental) para a formacao do mercado mundial, que seus binarismos tiveram^gLie cumprir de re(a)preseniar^. usando termos simplistas por um momento; ou desloca essa proliferacao da diferenca cultural^ das formas de vida (que "estoria" para novas formas de conceituar o relacionamento sempre estiveram presentes ali) nojnterior da_.^unidade sutu* entre esses distintos "eventos" — . rada e sobredetejininAda_d^ueja..pol_aridade simplificadora e_ do tipo dentro/fora da emergente modernMade_capjtalista todo-abrangente: "OOcidente_e__a.r!estQl[^^ West and the Rest]. "global:" . A reformulacao retrosp"ectivada Modernidade no (Esse reconhecimento avanca um pouco no sentido de livrar o interior de uma estrutura de "globalizacao", em todas as suas "Orientalismo" de Edward Said da crftica que o acusa de nao formas de ruptura e em todos os seus momentos (desde a discriminar os distintos imperialismos.) Devemos manter era entrada portuguesa no Oceano Indico e a conquista do Novo jogo as duas pontas da cadeia simultaneamente — sobredeter- Mundo, ate a internacionalizacao dos mercados financeiros e minacao e diferenca, condensacao e disseminacao — para que dos fluxes de informacao), constitui o elemento verdadeira- nao caiamos em um alegre desconstrucionismo e na fantasia mente distintivo de uma periodizacao "pos-colonial". Dessa de uma impotente utopiajda_ diferenca. E sobremaneira forma, o "pos-colonial" _ tentador imaginar que, so porque e desconstruido teoricamente, grande narrativa historiografica que, na histpriograf ia_ lib eral o essencialismo fica deslocado politicamente. e na_spciolQgia_ji|sto£ica weberiana, assim como nas tra- Em termos de periodizacao, contudo, o ^p 6s -colonial^ dicoes dominantes do marxismo ocidental, reservou a essa retem alguma ambigujdade,, pois,, _ c r _ p dimensao global uma presenca subordinada em uma historia momento postenorj_descolonizaglo como momento cnticp que poderia ser contada a partir do interior de seus para- para um ^leslocamento nas relacoes globais, o terrno tamb^m metros europeus. pferece — comcTtoda " — qu"^£narrativa alter- Compreendida ou relida neste sentido, a colonizagao. se nativa, desiacando oojijunturas-chave aquelas_ incrustadas tornaria inteligivel somente enquanto acontecimento de na narrativa classica da Modernidade. Vista sob a perspectiva significancia global — pelo qual seria assinalado nao o "pos-colonial", a coJoHIza^aoniao" foi um subenredo local seu carater universal ejntali/anle, mas seu carater desloca do ou marginal de uma historia maior (por exemplo, da transifao e diferejiciadg. Isso quer dizer que a colonizacao teve quedo feudalismo para o capitalismo na Europa Ocidental, esse ser compreendida naquele momento, e certamente so podeultimo se desenvolvendo "organicamente" nas entranhas do ser compreendida nos dias de hoje, nao so em termos dasprimeiro). Na narrativa reencenada do pos-colonial, a colo- relacoes verticals entre colgnizadores e colonizados. masnizacao assume o lugarea importancia_de_um_amplo_ej^erUp tambem em termos de como essas e outrasjonnas^e^ relacoesde ruptura historico-mundia^. O pos-colonial se refere a "colo- depoSer^sempre r|oram, geslocadas e descenrradas por umnizaga^"^omo^lgo mais do que um dommio direto de certas outro conjunto de vetores — as ligacoes transversals ou queregioes do mundo pelas potencias imperials. Creio que signi- cruzam asTfernteiras-dofTEstados-nacao e os inter-relaciona-fica o processo inteiro de expansao, explpragao, conquista, mentos global/local que nao podem ser inferidos nos que constituiu a "face mais moldes de u*m Estado-nacao. E na reconstituicao dos campos112 H3
  • 60. epistemico e de poder/saber em torno das relacoes da globa- ser literalmente reproduzida, mas como conjuntos fragmen- Hzasao, atraves de suas diversas formas hist6ricas, que a tados de memorias e experiencias narradas" (1992, p. 109). "periodizacao" do "pos-colonial" se torna realmente desafia- Eu concordana^com esse argumento. Ele implica levar a serio dora. Contudo, este ponto raramente emerge em qualquer as BUplas inscri£oesjlo encpntro colonizador, o carater dialo- critica. E quando isso ocorre (como em Dirlik, 1994), seus gico de sua^TtencIade, o caraieF^^ecif^o^^^aJ^S^enja71", efeitos contrariam o desenvolvimento do argumento, como a centralTHade das questoes narrativas e o imaginario da espero demonstrar logo abaixo. Alem do mais, saltando luta politica (ver, por exemplo, Hall: 1990). Contudo, nao e varios estagios por um momento, e precisamente por causa "exatamente isso o que significa pensar as conseqiiencias cul- desse revezamento critico atraves cTcTgloEal que o "pos-colo- turais do processo colonizador em termos "diasporicos" ou de uma forma nao-originaria — isto e, atraves e nao em torno aquelas dimensoes do "hibridismo"? Nao significa tentar pensar asjjuestoes do pYoKlemaficaT— as _£uestoes do hibridismo_e_sjnc£etismo, poder cultural e da luta politica^no interior do_p6s-colonial, da indecidibilidade cultural, e as complexidades jaidenti- em vez de ojazer ao_reves_dele? ffcagSo diasporica que interrompem qualquej^£eJornQ," a A forma como a diferenca foi vivenciada nas sociedades historias originals Jechadas e_f^ntTadasJ, em termos etnicos. colonizadas, apos a violenta e abrupta ruptura da coloni- Compreendida em seu contexto global e transculrural, a zacao, foi e teve que ser decisivamente distinta daquela que colonizacao tern transformado oCabsolutismo etnicojem uma - 5 _ ^- •—r^r^jsi-^-. f essas culturas teriam desenvolvido isoladamente umas das estrategia culturjTTXada vez maisCinsustentaveJ) Transformou outras. A partir desse marco nas decadas finals do seculo as proprias "colonias", ou mesmo grandes extensoes do quinze, nao tern havido "um unico tempo (ocidental) homo- mundo "pos-colonial", em regioes desde ja e sempre "dias- geneo vazio". Ha, sim, condensacoes e elipses. que surgem poricas", em relacao ao que se poderia imaginar como suas quando todas as temporalidades distintas, mesmo permane- culturas de origem. A nocao de que somente as cidades cendo "presentes" e "reals" em seus efeitos diferenciados, sao multiculturais do Primeiro Mundo sao diasporizadas e uma reunidas em termos de uma ruptura em relacao aos efeitos fantasia que so pode ser sustentada por aqueles que nunca sobredeterminantes das temporaiidades e sistemas de repre- viveram nos espacos hibridizados de uma cidade "colonial" sentacao e poder eurocentricos, devendo marcar sua "dife- do Terceiro Mundo. renca" nesses termos. E isso que se tern em mente quando se Nesse momento "pos-colonial", os movimentfiSJxans- coloca a colonizacao dentro da estrutura da "globalizacao",. p/ersais, transnacioriais e transcu"Iturais7 inscritos desde sempre ou melhor, quando se afirma que o que distingue a moderni- na historia da "colonizacao", mas cuidadosamente oblite- dade e esse carater sobredeterminado, suturado e suple- rados por formas mais binarias de narrativizacao, tern surgicjp mentar de suas temporalidades. Q hibridismo. o sincretismo, de distintas formas para perturb^^jreja^ogs^ estabelecidas as temporalidades multidimensionais, as_clu^la^jLas,.cjr.i£Q.es. de dominacao^^resisigncia inscritas em outras narrativas e dos tempos colonial e metropolitanOj o trafico.. cultuiaL.de forma^dejdcia, Eles reposicionam e des-iocam a "diferenca" map dupla (caracteristico das zonas de contato das cidades sem que, no sentido hegeliano. se atinja sua Jsup^raglo"^ "colohizadas", muito antes de se tornarem tropos caracteris- Shohat observa que a enfase antiessencialista do discurso ticos das cidades dos "colonizadores"), as formas de tradu^ap "pos-colonial" por vezes parece constituir uma tentativa e transcultura£ao que 5^r^c^r|^£iram_ aj^rela^clo_cploniar qualquer de recuperar ou inscrever o passado comum como de^a^^sejas^pxirnjordios,- as desautorizacfies e entrelugares, - uma forma de idealizacao, a despeito de sua relevancia os^gui-e-acolas marcam as aporias^Q reduplicac6es^ujo^_ enquanto local de resistencia e identidade coletiva. Ela aponta intersticios os discursos ^gjomais^tem sempm_negociadg e com pertinencia que esse passado poderia ser negociado sobTe^_gjjaisJio.mi..Bhabha-.escreyeu coni^prpfunda clari- diferentemente, "nao como uma fase estatica e fetichizada a videncia (Bhabha, 1994), Nao e necessario dizer que elas 114 115
  • 61. sempre civeram que se situar dentro e em oposicao as relates ordens distintas do ser — "Sac^eles homens de verdade?^ discursivas sobredeterminantes de poder e conhecimento, que foi a pergunta que Sepulveda fez^~Baflolomeu de las Casas costuravam ou entreteciam os regimes imperials entre si. Elas no famoso debate em Valladolid, diante de Carlos X em 1550. sao os tropos da suplementaridade e da differance dentro de Enquanto isso, sob o olhar panoptico universalista do Ilumi- um sistema global deslocado, mas suturado, que so emergiu nismo , t : l a i s x ) n n u s ou pode emergir nos primordios do processo colonizador escopo universaljde uma_unJca qrdem do ser. de tal forma expansionista que Mary Louise Pratt denomina "aventura que a diferenca teve que ser constantemente reforrnulada na euro-imperial" (Pratt, 1992). marcagao e remarcacao de posicoes dentro de um unico Desde o seculo dezesseis, essas historias e temrjorali- sistema discursivo (differance). Tal processo era organizado dades diferenciais tern_sjdo irreypgayel e vinjenrajn^nie pelos mecanismos mutaveis de "ser Outro", alteridade e emparelhadas. Isso nao significa que elas tenham sido ou exclusao, e pelos tropos do fetichismo e patologizaclo que sao o mesmo. Contudo, tem sido impossivel desenredar, serviam a tentativa de fixaclo ou consolidacao da diferenca conceituar ou narrar, enquanto entidades distintas, as traje- dentro de um discurso "unificado" de civilizac-ao. Tais meca- torias totalmente desiguais que constitufram as bases de seu nismos eram essenciais a producao simbolica de uma exterio- antagonismo politico e resistencia cultural, embora seja isso ridade constitutiva, que sempre se recusou a ser fixada e precisamente o que a tradi^ao historiografica ocidental escapulia de volta, como o faz ainda mais hoje, atravessando dominante tern freqiientemente tentado fazer. Nenhum dbcalj? os limites porosos e invisiveis, para perturbar e subverter seja "la" ou "aqui", em su^^AJtonomiaJantasiada ou i n - " a partir de dentro (Laclau, 1990; Butler, 1993). sem levar em conskleraclo seus Nao se quer afirmar com isso que tudo permanece o ^ . A propria nocao d e uma mesmo desde entao — a colonizacao se repetindo ate o identtdade cultural identica a si mesma, autoproduzida e auto- fim dos tempos. Mas, sim, que a colonizacao reconfigurou_ noma, tal como a de uma economia auto-suficiente ou de uma o terreno de tal maneirague, desde entao, a^pjopria ideia comunidade politica absolutamente soberaria, teve que ser clellm^Tmjn^crcoln^osto por identidades isoladas, por cul- discursivamente construida no "Outro" ou atraves dele-p.Qr tu ras e e co nomias_ s e pa racla s e_ au to -s u f icien te s tem tido um ^^S sistema de similaridades e diferencas, pelo jogo dafdiffiP - que ceder a umj_yarieclacle de^paj^digmas^destinaclQS^af^ v_ _^^- ranee) e pela tendencia que esses significados fixos possuem J ca£tarjes_sas__form_as distintas__e afins de relacionamento. <3e~oscilar e de"s"lizaT. CPDutro" deixou de ser um termo fixo interconexao e descontinylda.de. Essa foi a forma evidente no espaco e no tempo externo ao sistema de identificaclo e de dis^eminagao-e-condensagao que a colonizacao colocou se tornou uma "exterloridade constitutiva" simbolicamente em jogo. E privilegiando essa dimensao ausente ou .desvalo- marcada, uma posiclo marcada de forma diferencial dencro rigada da n_arratiy_a_ oficial da "colonizagao" queyo discurso da cadeia discursiva. os-colonial" se torna conceitualmente djstintgp Embora as E possivel agora responder a questao anteriormente formas particulares de inscricao e sujeicao da colonizagao proposta sobre a preocupagao do "pos-colonia!" com o tempo tenham variado em muitos aspectos de uma parte a outra do eurocentrico. No discurso do "p6s-colonial" o Ilumimj>rno_ globo, seus efeitos gerais tambem devem ser crua e decisiva- ressurge_ emurrta posigao descentrada, jjoisjepjesenta um mente marcados teoricamente, junto com suas pluralidades e deslocamento epistemico critico dentro de um processo^de multiplicidades. Isso, a meu ver, e o que o significante ano^^cotonizagaoTcompreendido em um sentido mais amplo, cujos malo "colonial" faz no "p6s-colqnial". efeitos de poder/saber discursivo ainda estao em jogo (como E quanto a questao incomoda do prefixo "pos"? Shohat, e que, nos discursos ocidentais dominados pelas Ciencias por exemplo, reconhece que o ^posj^ sinajjza tanto o "fecha^ Exatas e Sociais, isso poderia deixar de acontecer?). Ate o mento de um certo evento histc)rico ou era" quanto um "ir Iluminismo, a diferenca havia sido concebida em termos das comentar um certo movimento intelectual" (1992,116 117
  • 62. p. 101, 108). Ela prefere claramente o segundo ao primeiro. Com a "colonizacao" e, cojisequentemente^ornjo^pos-colonial". Para Peter Hulme (1995), contudo, o "pos" no "pos-colonial" nos situamos irrevogavelmente dentro de ujnJc^Tir2p_deJ:ojjca-s de poder-saber^ t justamente a distincao falsa e impeditiva possuiduas dimensoes em tensao uma com a outra: uma entre colonizacao enquanto sistema de governo, poder e explo- i dimensao temporal) na qual ha um relacionamento pontual racao e coloniza9ao enquanto sistema de conhecimento e v rto tempo, poT exempjoj^entre^uma colOnia e um estado representa^ao que esta sendo recusada. Uma vez que as p6s-colonial; e umavdimensao crfticaXna qual, por exemplo, relagoes que caracterizaram o ^colonial" nao mais ocupam uma teoria p6s-coloniaT^as^a~a~e?astir atraves de uma crftica o mesmo lugar ou a mesma posigao relativa, po demos nao de um corpo teorico. somente nos ppor a elas masjambem criticajr,_desa3n^trujr e tentar "ir ale^ljielasr Alem disso, a tensao, paraHulme, e produtiva. enquanto _ Shohat •^^A e°° 1 q u e p a r a Shohat produj_j.mia__ambiy^ljjicia estruturada. Sobre isso a^ajjtora sugere^ue o Cgos^goloriiaD se distingue de todos^ os outros "qqs.Lajjutejitarjser epistemico ecronoTo^ argumenta que "a operacao de, ao mesmo tempo, privilegiar e afastar-se da narrativa colonial, superando-a, vai definir a estrutura do entrelugajr^do fr£os:£pJaniaJL^,(19921 p. 107). A gico. E tajitom p. .piajajdigma^quanto^^^^ autora nao se contenta corn essa indecidibilidade.JZorvtudo, "colonial" que^o "p6sj^lonial pretende superar. e possivel argumentar que a tensao entre o jepistemol6gico] e Contudo, parece-me que, neste sentido, o "pos-colonial" o^rgnoJ6gico^nao e irnpeditiva, mas produtiva. "Posterior" nao difere dos demais "pos". Nao se trata^jy^enas denser . o outro^^o cglonial), no ^ q a l "pQSterigr^ masdeJ4£ajemidgdolgjiial, tantg^tuanto g^pos- predgmina a relagag^^olgnial. Nao significa, conforme ten- modernismo" e posterior e vai alem do modernismo, e_o tamos demonstrar anteriormente, que o que chamamos de pos-estrutuTalismo segue cronologicamente e obtem seus "efeitos secundarios" do domrnio colonial foram suspenses. ^Hhos"Teofic"os~cacT "suborji^s^os^s^^g^ejtTutu^ A Certamente nao significa que passamos de um regime de questao mais HelTcada e saber se ambos poderiam ser real- poder-saber para um fuso horario sem conflitos e sem poder. mente separados, e o que tal separacao significaria para a Contudo, reafirma-se aqui o fato de que cqnfiguracoes "emer- forma como_a-pr-opria "colonizacao" estaria sendo concei- gentes". porem relacionadas. de poder- sab er^c^mecjirn^ tuada. O (cplonialismcrse refere a um momento historico exej^ej^sejas^ejfeitos^^ge^icos. Dessa forma, a conceituagao especifico (um momento complexo e diferenciado, como ten- de mudanca entre esses paradigmas — nao como uma "ruptu- tamos sugerir); mas sempre foi tambem uma forma de encenar ra" epistemologica no sentido estruturaltsta/althusseriano, ou narrar a historia, e seu valor descritivo sempre foi estrutu- mas, em analogia ao que Gramsci denominou "movimento rado no interior de um paradigma teorico e definidor distinto. de desconstrucao-reconstrucao" ou ao que Derrida, num A propria sucessao de termos que foram cunhados para se sentido mais desconstrutivo, denomina "^pja_jnscricao — referir a esse processo — colonizacao, imperialismo, neocolo- e caracteristica de tqdos os "pos". nial, dependencia, Terceiro Mundo — demonstra a intensi- ~~~K6 se referir as transformacoes no campo do senso pra- dade com a qual uma importante bagagemjx>litica, conceitual tico comum, Gramsci observa que estas devem ser pensadas e^epistemologica estava~atrelacfa a ^cada um desses termos como descritivos aparentemente inocentes; em suma, a intensidade com que cada um deve ser compreendido discursivamente. um processo de distinfao e mudanga no peso relative dos ele- Decerto, a distincao critica que se tenta fazer aqui entre mentos da veiha ideologia ... o que era secundario ou mesmo "poder" e "conhecimento" e exatamente o que o discurso "pos- casual adquire importancia primaria, tornando-se o nucleo de colonial" (ou entao, aquilo que, discursivamente, o pensa- um novo conjunto ideologico e doutrinario. A antiga vontade mento sobre o "colonial" e o "pos-colonial") tern deslocado. coletiva se desintegra em elementos contradit6rios, para que 118 119
  • 63. os elementos subordinados entre eles possam se desenvolver Desconstruir a filosofia assim seria pensar — da forma interior socialmente... (Gramsci, 1995, 1979- Ver tambern Hall, 1998, mais fiel — a genealogia estruturada dos conceitos da filosofia, p. 138) mas ao mesmo tempo determinar — de um certo exterior que e inquantific&vel ou mominavel na filosofia — o que essa historia foi incapaz de dissimular ou esconder. Atraves dessa Aquilo que, de formas distintas, essas describees teoricas circula^ao ao mesmo tempo fiel e violenta entre o interior e o tentam construir e uma nocao de mudanca ou transicao conce- exterior da filosofia ... produz-se um certo trabalho textual... bida como uma reconfiguragSo^de urn campp, em vez de um (Derrida, 1981). movimento de transcendencia linear entre dois estados mutua- mente exclusivos. Tais tj^ns£cujiiagoes_pe^manecem incon^ Quando seu interlocutor, Ronse, perguntou-lhe se isso signi- clu^aj_e^ad^rn^iag_jex^ptgxlas_dentro de um paradigma fica que poderia haver uma "superagao da filosofia", Derrida quejpressupoe que todasasgrandes mudancas hisioricas sejam respondeu: imgulsionadas por umajogica determinista em direcao a um_ fini_leleolpgi£o. Lata Man! e Ruth Frankenberg fazem uma Nao ha uma transgressao, se por isso se entende aquela aterris- distincao critica entre a transicao que e "decisiva" (o que, sagem no al6m da metafisica ... Mas, atraves do trabalho feito certamente, o "pos-colonial" €) e aquela que e "definitiva". de um lado ao outro do limite, o campo interior se modifica, e Em outras palavras, todos os con^eito^^haj/e^no"£os=£olo- uma transgressao e produzida que, consequentemente, nao se apresenta em lugar algum como fait accompli... (Derrida, 1981) nos termos Foram submetidos ~a uma criticasevera e radical, expondo seus pressupostos como um con- O problema, entao, nao e que o "pos-colonial" 6 um para-junto de efeitos fundacionais. Mas essa desconstrucao nao os digma convencional do tipo logico-dedutivo, que errpneamenteabole, no movimento classico de superacao, Aufhebung. Eles CQn£uflde o cronologia^Qarn-O-ejiigiemologico^ For tras delepermanecem os unices instrumentos conceituais ou ferra- ha uma escolha mais profunda de epistemologias: entre umamentas para se pensar o presente — mas somente se forem logica racional e sucessiva e uma desconstrutora. Neste sen-utilizados em sua forma desconstruida. Eles sao "uma pre- tido, JQJrlik esta correto ao apontar a questao da relafao dosenc.a que existe em suspense [in abeyance], para usar outra "pos-colonial" com acjuilo quje^mais armolamente se pode chamar de formas "pos-estruturalistas" de pensamento, cqmpformulae.ao mais heideggeriana que Iain Chambers, porexemplo, prefere (Chambers, 1994). _ umaquestao_central que _ incomoda. Estao em jogo neste debate questoes maiores do Em um famoso debate sobre "o pensar no limite" — que que aquelas sugeridas pela critica.me parece uma boa descricao do status do "pos-colonial" Dirlik e particularmente feroz nesta S.rea e por razoes queenquanto episteme-em-formac.ao — Derrida definiu o Jimite_ nao sao dificeis de identificar. Ao descobrir que o termo "pos-do djs^ursoJilQSQfico como "a episteme, fu^ionaridcLdentro colonial" e aplicado a muitos autores que nao concordam _ _ necessariamente uns com os outros, alguns dos quais eleceituais fora das quais a fiio5ofi^se.jpfnamjin^raticavel". O admira e outros nao, Dirlik_chega a conclusao polemica decriticb menciona "um gesto necessariamente duplo, marcado que o "jD6s^c_Qianial" nao e a descricaojienada nem deem certos pontos por uma rasura que permite a leitura daquilo ninguem em particular, mas "um^disgurso que procura cons^que se oblitera, inscrevendo violentamente no texto aquilo que tituir o mundo naau to- imaggjn dos Jntelectuals que se veemtentou governa-lo de fora". Fala tambem da tentativa de ou passaram a se ver como intejectuajs.p^s-c^lcjniaja [e] ...respeitar, o mais rigorosamente possivel, "o jogo interno e uma expressao ... de_jjeu1 poder recem-desco.b_er.to" naregulado dos filosofemas ... fazendo-os deslizar ... ate o ponto Academia do Primeiro Mundo. Esse Hnguajar rude, dirigidode sua nao-pertinencia, sua exaustao, seu fechamento." ad bominem e ad feminam, desfigura o argumento de um120 121
  • 64. Ao olhar inocente, a passagem acima parece recuperar um notavel conhecedor da China moderna e talvez fosse mais sensato considera-lo como algo "sintomatico". Mas sintoma- territ6rio em grande parte repudiado, alem de conter algumas tico do que? Um indicio de resposta pode ser obtido quando formulagoes questionaveis. (Certos criticos p6s-modernos ele Coma como pretexto a elegante defesa p6s-estruturalista podem acreditar que o global se fragmentou no local, mas a do pos-colonial de Cyan Prakash, "Post-colonial Criticism and maioria dos que sao series afirma que o que esta ocorrendo Indian Historiography" [A critica pos-colonial e a historio- e uma reorganizacao mutua do local e do global, uma PJQQO- grafia indiana] (1992). Deixemos de ladoas rnuitas criticas jiicjip muito diferente. Ver Massey, 1994; Robins, 1991; Hall, menores desse artigo, algumasjjas quaisiiT foram mencio- 1992T- Mas Beixemos estar. Pois, na segunda parte do artigo, nadas. A principal acusacao e de que oCpj6s-cplonjaJ)como o esse argumento € sucedido por uma explicate detalhada eTiiscurso pos-estrufiTrahsta, que fornece seu fundamento filo- persuasiva de algumas das principais caracteristicas daquilo sofico e teorico, 6 antifundadojwl e, como tal, nao pode que e descrito por uma "variedade" de termos, tais como lidar com um conceito como o "capitalismo" e com "a estrutu- "capitalismo tardio, acumulacao e produfao flexivel, capita- ragao capitalista do mundo moderno" (p. 346). Alem do mais, o lismo desorganizado e capitalismo global". -N "pos-colonial" e um "culturalismo". Preocupa-se com questoes Isso inclui: a nova divisao internacional do trabalho. as de identidade e sujeito e, portanto, nao pode explicar "o jTOva^t^c^oJogia^de^mfprma^ao global, um^de^sc^tramento mundo fora do sujeito". A atencao se desloca da origem nacional _ caialisn.._a^lia?aa,.o£erecida^e^ , . . _ nacional para a posicao do sujeito e "uma politica de locali- trans nacipnal, a transnacionalizagao da produ^ao, o zacjio precede a politica informada por categorias fixas (neste apafecmiSo ^ do modp capitalista cle produ^ao;" "pela pTimeifa caso, a nac.ao, embora obviamente outras categorias tais como vez"na historia do capitalismo" (p. 350), como uma "atistra^ao o Terceiro Mundo e a classe social tambem estejam impli- aiSenticjimente^global1 , a fragmentacao cultiaral^e^o muTtTcul-cadas)" (p. 336). O "pos-colonial" apjesenta taniQ-.ao_CQloni- turalismo, a rearticulagao das culturas nativas em uma narra-^zadpjiJ5uanto_j.o_colpnizado "um problerna de identidade" tiva capitalista (o exemplo dado e a revivifica^ao confuciana(p. 337). ~ entre a elite capitalista emergente do Sudeste Asiatico), o Tudo isso avanca com bastante brio ao longo de umas enfraquecimento das fronteiras, a multiplicacao em sociedadesvinte paginas ate que, na pagina 347, uma "virada" um tanto antes colonials das desigualdades associadas as diferencascaracteristica come^a a se revelar. "Essas criticas, embora coloniais, a "desorganizagao de um mundo concebido emveernentes por vezes, nao indicam necessariamente^gueos termos de tres mundos", o fluxo da cultura "ao mesmo tempocriticos do p6s^cplonialismo neguenTseu^alcTr..." O discurso homogeneizador e heterogeneizador" (p. 353), uma moderni-"pos-colonial" parece, afinal, ter algo a dizer sobre "uma crise dade que "nao e mais euro-americana somente^ofmairdi f.. ^—3 -~_—^nos modos de compreensao do mundo associados a conceitos vcbntrole que nao podem ser impostas, mas tern que_sercomo Terceiro Mundo e Estado-nac.ao". Nem aparentemente negociadas, a"~reconstituicao de subjetividades nas fronteirasdeve-se negar que nacionais, e dai por diante ... E uma lista impressionante e impressionantemente com- na medida em que a situafao global tornou-se mais obscura pleta. Ela aborda, de forma incontestavel em certos momentos, com o desaparecimento dos estados socialistas, com a emer- cada tema que fax do "pps^cojojnj^l" um rjaradigma teorico gencia de importances diferencas economicas e politicas entre distinto, e decisivamente marca o quao radical e inexora- as sociedades do chamado Terceiro Mundo e os movimentos velmente diferentes — isto e, o quao indubitavelmente diasporicos dos povos pelas fronteiras nacionais e regionais, a_ Pos-coloniais — sao o mundo e as relafoes ali descritas. fragmentagao do g]obal em local emergiu em primeiro piano E, para a surpresa do leitor, isto tambem e reconhecido: na consci^ncia historica e politica. (Dirlik, 1992, p. 34?) "O p6s-colonial representa uma resposta a uma necessidade122 123
  • 65. de superar a crise de co como p pos-colonial, "esta localize discursivamente o Terceiro "produzidapela incapacidade das velhas categorias de explicar Mundo" [p. 346]. Porem essa linha frutifera de discussao nao o mundo." (p. 353)- Algum critico "pos-colonial" ousaria e desenvolvida). aisco73aT"deste julgamento? Nao se pode simplesmente afirmar que as relacoes entre Dois argumentos resultam desta segunda parte do ensaio. esses paradigmas foram abandonadas. Em parte, trata-se O primeiro deles e grave — de fato,(S criticihmais seria que de um efeito institucional — uma conseqiiencia inesperada, os criticos e teoricos pos-coloniais precisam urgentgniente diriam alguns, do fato de que o "pos-colonial" tern^sido encarar — e ela e colocada sucintamente par (DirlikT^jE. melhor desenvolvido pelos academicos literarios, que tem notavel ... que uma consideracao do relacionamento entre sido reiutantes em romper as barreiras disciplinares (e ate ~ o pos^cbloniaTismo e o capitaUsmo global esteja ausente dos pos-disciplinares) necessarias ao avanco do argumento. textos doslnHIeduajs^rj^colpniais," Nao vamos sofismar e Deve-se tambem ao fato de haver alguma incompatibilidade "cfizer ~alguns criticos pos-coloniais. Realmente, e notavel. E conceitual entre um certo tipo de teoria pos-fundacional e a isso tem prejudicado seriamente tudo de positive que o para- investigate dessas complexas articulacoes. Mas isso nao digma pos-colonial pode e tem a ambicao de alcancar. Essas pode ser considerado como um abismo filosofico intrans- duas metades do atual debate sobre a "modernidade taxdia" ponivel, especialmente porque, embora nao abordem a>, — o p6s-colonial e a analise dos novos desenvolvimentos do questao do papel conceitual que a categoria "capitalismo" capitaiismo_global — tem em geral prosseguido em relative possa ter na "logica" p6s-fundacional, certas articuiacoes dessa Tsolamento uma da outra e implicado um custo mutuo. Nao e ordem sao, defato, implicitamente presumidas ou funcionam dificil compreender porque, embora Dirlik nao pareca inte- em silencio, nos pressupostos subjacentes a quase todo ressado em dar continuidade a essa importante questao (ele trabalho critico pos-colonial. oferece uma solucao trivial para ela, o que^e.^iferente). Uma Portanto, Dirlik aponta, de forma convincente, uma seria das razoes disso e que os discursos do("p6s^)emergiram e lacuna naepisteme pos-colonial. Concluir com as impli- tem sido articulados (embora silenciosamente) contra os cacoes futuras do paradigma pos-colonial dessa critica teria efeitos praticos, politicos, historicos e teoricos do colapso sido cumprir um objetivo muito importante, oportuno e de um certo tipo de marxismo economicista, teleologico e, estrategico. Fosse esta a conclusao de seu ensaio, seria no final, reducionista. O resultado do abandono desse possivel ignorar a natureza curiosamente manca e interna- economismo determinista nao tem sido formas alternativas mente contraditoria de seu argumento (a segunda parte nega de pensar as relacoes economicas e seus efeitos enquanto muito da substancia e todo o torn da primeira). Mas ele nao condifoes de existencia para outras prikicas, inseridas de para ai. Sua conclusao segue uma outra via. Longe de apenas forma "descentrada" ou deslocadas em nossos paradigmas "representar uma resposta a uma genuina necessidade [teo- explanatorios, mas sim um macico, gigantesco e eloqiiente rica]", o autor conclui com a ideia de que o p6s^colonialismo repudio. Como se, ja que o^conomico em seu sentjdo mais amplo definitivamerite" ~nao "determina", como antes se repercute os problemas apresentados pelo capitalismo global, ^sperou7 o rrj^imento concreto da~rrr5TofTa^irem ultima esta "emsintonia" com_asc[uest6es deste_e. consequentemente, ^Instarloa", entao elejiacugxistisseTEssa e uma falhade teori- serve a seus requisites ciil$M££Lis> Os criticos pos-coloniais zacao"tab profunda e Centre poucas e% superficiais excecoes: seriam, na verdade, porta-vozes inconscientes da nova ordem ver Laclau, 1990 e tambem Barrett, 1991) tao impeditiva que capitalista global. Esta e a conclusao de um longo e detalhado ela tem propiciado a continuidade ou o predominio de para- argumento, cujo reducionismo e assombroso (e, somos obri- digmas muito mais fracos e menos ricos conceitualmente. (A gados a acrescentar, banal) cujo funcionalismo se acreditaria certa altura Dirlik faz a interessante observacao de que ele nao mais existente no debate academico atual enquanto prefere "a abordagem do sistema mundial", muito embora, explicacao para qualquer coisa, de tal forma que ressoa como 124 125
  • 66. um eco de uma era distante e primeva. E ainda mais pertur- DIRLIK, A. The Post-colonial Aura: Third World Criticism in the Agebador uma vez que uma linha de argumentacao muito seme- of Global Capitalism. Critical Inquiry, Winter, 1994. [A aura pos-Ihante, oriunda de um posicionamento diametralmente oposto, colonial na era do capitalismo global. Novos Estudos Cebrap, n. 49,pode ser encontrada na acusacao inexplicavelmente simplista p. 7-32, 1997- (470)]de Robert Young em Colonial Desire [O desejo colonial (1995) FOUCAULT, M. Nietzsche, Genealogy, History. In. BOUCHARD, D.de que os criticos pos-coloniais sao "cumplices" de uma teoria (Ed.). Language, Counter Memory, Practice. Oxford: Blackwell, 1977.racial vitoriana porqiie ambos utilizam o termo "hibridismo" [In: Microfisica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 19791em seu discurso! Finalmente nos encontramos aqui entre a cruz e a espada. FRANKENBERG, R.; MANI, I. Crosscurrents, Crosstalk: Race,Sempre soubemos que o desmantelamento do paradigma "Postcoloniality" and the Politics of-Location, Cultural Studies, v. 7,colonial faria emergir das profundezas estranhos demonios, n. 2, 1993.e que esses monstros viriam arrastando todo tipo de materialsubterraneo. Contudo, as guinadas, saltos e inversoes na GILROY, P. The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness.forma como o argumento tern sido conduzido nos devem alertar London: Verso, 1993.para o sono da razao que vai alem da Razao, para a maneiracomo o desejo brinca com o poder e o saber, na perigosa GRAMSCI, A. Quaderni III (1875). Citado por MOUFFE, C. Gramsciaventura de pensar no limite ou alem do limite. and Marxist Theory. London: Lawrence and Wishart, 1979- HALL, S. The Hard Road to Renewal: Thatcherism and the Crisis of the Left. London: Verso, 1988. [HALL, S. When Was the Post-Colonial Thinking at the Limit. In: CHAMBERS, Iain; CURTI, Lidia (Org.). The Post-Colonial HALL, S. The Question of Cultural Identity. In: HALL, S. HELD, D. Question-. Common Skies, Divided Horizons. London: Routledge, MCGREW (Ed.). Modernity and its Futures. Cambridge: Verso, 1992. 1996. Tradufao de Adelania La Guardia Resende.] HULME, P. Including America. Ariel, v. 26, n. 1, 1995. LACLAU, E. New Reflections on the Revolution of Our Time. London:BIBLIOGRAFIA Verso, 1990. McCLINTOCK, A. The Myth of Progress: Pitfalls of the Term Post-BARRETT, M. The Politics of Truth. Cambridge-. Polity, 1991. colonialism. Social Text, 31/32,1992.BUTLER, J. Bodies that Matter. London: Routledge, 1993. McCLINTOCK, A. The Return of Female Fetishism and the Fiction ofBHABHA, H. The Location of Culture. London: Routledge, 1994. the Phallus. New Formations, v. 19, Spring, 1993-[O local da cultura. Trad. Myriam Avila, Eliana Lourenco de Lima McCLINTOCK, A. Imperial Leather. London: Routledge, 1995-Reis, Glaucia Renate Goncalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001]. MASSEY, D. Space, Place and Gender. Cambridge: Polity, 1994.CHAMBERS, I. Migrancy, Culture, Identity. London: Routledge, 1994. MIYOSHI, M. A Borderless World? From Colonialism to Transnationalism.DERRIDA, J. Positions, [s. n. t.] 1981. Critical Inquiry, Summer, 1993.126 127
  • 67. PRAKASH, G. Post-colonial Criticism and Indian Historiography.Social Text, 31/32, 1992.PRATT, M. L. Imperial Eyes. Travel writing and TransculturationLondon/New York: Routledge, 1992.ROBINS, K. Tradition and Translation: National Cultures in a GlobalContext. In: CORNER,;.; HARVEY, S.J. (Ed.). Enterprise and HeritageLondon: [s.n.], 1991.SHOHAT, E. Notes on the Postcolonial. Social Text, 31/32, 1992.YOUNG, R, White Mythologies. London: Routledge, 1990.YOUNG, R. Colonial Desire. London: Roudedge, 1995- MARCOS PARA OS ESIUDOS CUL1URA1S128
  • 68. ESIUDOS CULTURE DOIS PARADIGMAS No trabalho_Intelectual se"iio e crjtico nap existemJ!inicios absolutes" e poucas sao as continuidades inquebrantadas. Nao basta o interminavej desdobramento da tradicap, tao caro a histpria das ideias, nem tampouco o absolutismo da "rup- tura epistemologlca", pontuando o pensamento em suas partes "certas" e "falsas", outrora favorecido pelos althusserianos. Ao inves disso, o que se percebe e um desenvolvimentp desordenado porem irregular. O que importa sao as/ rupturas}"f^ignificatLYaa— em que velhas correntes depensamento sap rompidas, velhalfconstelacoes de^Irjcj.d e~velrios s a o reagrupados ap redor _de u j _ prefnissas e temas. Mudancas em uma problematica trans- /j_ ^. —forfnarfrsignificativamente a natureza das questoes propostas, . . , ———— ^,^ -••....••IN < » . . . < . >. •**—i^— »•• —•• •• • [fJ V *"" ^ as formas cofno sao propostas e a maneira como podem ser ^_ ——- •- • •-—— — /V ° •-<-- "™ -———"->- - .^ -ilf-f * adequadamente respondidas. Tais rnudancas-de^perspectiya -^— 1<v r,^ reflefem"fiao"so~os""resultados do proprio trabalho intelectual, ^ I|F. ; mas tambem a maneira como os desenvolvimentos e as verdadeiras transformapoes historicas sao apropriados no pensamento e fornecem ao Pensamento, nao sua garantia de "corre^ao", mas suas orienta^oes fundamentals, suas con- digoes de existencia. E por causa dessa articulacao complexa entre pensamentpje reaiidajde hjstorjca, refletida nas cate- gorias socials do pensamento e na contmua dialetica entre "RP^e-Tl^.^orihecimento", que tais rupturas sao dignas de registro.
  • 69. (ps EstudosOilnirajs)como prpblematica distinta. emerggm estilo de pensamento era decididamente empirico e particu- de um momento desses,~nos meados da decada de_19Sfl. larista, mais a densidade experimental de seus conceitos eCO bf- Certamentenao foi" a"prlmeira vez que suas questoes carac- o esforco generalizante de sua argumentacao, The Long teristicas foram colocadas na mesa. Muito pelo contrario. Revolution deve sua dificuldade de leitura, em parte, ao fato Qs dois livros que ajudaram a marcar o novo terreno — As de ter a determinacao de mudar (o trabalho de Williams, ate utiliza$oes da cultura, de Hoggart, e Cultura e sociedade o mais recente Politics and Letters e exemplar precisamente 1780-1950, de Wflliams1 — sao amfeos, die maneiras distintas, por causa de seu desenvolvimentismo consistente). As partes trabalhos (em parte) de recupera^ao. O livro de Hoggart teye "boas" e "ruins" dessa obra provem do seu status de "obra de como referenda o "debate cultural" ha muito su^ntado_nas ruptura". O mesmo pode ser dito de A formacao da classe discussoes acerca da "sociedade de massa", bem como na Qperdriain^lesa, de E. P. Thompson,2.que pertence decisiva- traSi^ao do trabalho intelectual identificado com Leavis e a mente a esse "momento", ainda que tenha surgido, cronolo- revista Scrutiny. C«/fMr^ejrprfe^rfe.recpjwtniiii_iinia longa gicamente, um pouco mais tarde. Esse tambem foi um trabalho tradicao definida por Williams como aquela que, em resumo, pensado dentro de certas tradicoes historicas especificas:__a_ cbrisiste"c!o "registro de um numero de importances e con- historiografia marxista inglesa e a historia economics e "do tinuas reacoes a ... mudancas em nossa vida social, econo- trabaTHo^TMas, ao destacar questoes 5e~cultura,"c6nscigncia mica e politica" e que oferece "um tipo especial de mapa pelo e exgeriencia^e enfatizar o agenciamento, tambem rompeu qual a natureza das mudancas pode ser expiorada". Os livros decisivamente com uma certa"f67ma~ufe~evolucionisrno tecno- pareciam, inicjalmente. simples atuaU^a,cAes._djessa5_pr£jQcu: logico, com o economicismo reducionista-js_com o determi- P_ac_oes anteriores, com referenda ao mundojdo pos-guerra. nismo organizacional. Entre eles, esses^tres livroj^onslituiram Retrospectivamente, suas "rupturas" com as tradicoes de a cesura da qual — entre outras coisas —^emergiram os EstudosJ) pensamento em que estavam situados parecem tao ou mais Culturais.3 ~—— -- importantes do que sua continuidade com as mesmas. As Eram, claro, textos seminais e de formacao. Nao eram, utilizacoes da cultura propos-se — muito no espirito da em caso algum, "livros-textos" para a fundapio de uma nova "critica pratica" — a ler a cultura da classe trabalhadora em subdisciplina academica: nada poderia ter sido mais estranho busca de valores e significados incorporados em seus padroes ao seu impulse intrinseco. Quer fossem historicos ou contem- e estruturas: como se fossem certos tipos de "textos". Porem, poraneos em seu foco, eles proprios constituiam respostas a aplica^ao desse metodo a uma cultura viva e a rejeicao dos as pressoes imediatas do tempo e da sociedade em que termos do debate cultural (polarizado em torno da distincao foram escritos, ou eram focalizados ou organizados por tais de alta/baixa cultura) foi um desvio radical. Cultura e socie- respostas. Eles nao apenas levaram a^cultura1; a scrip,, como dade, num unico e mesmo movimento, constituiu uma tra- uma dimensao sem a qu^af^sJffa^^ormago^Kis^oricas, pas- dicao (a tradicao de "cultura-e-sociedade"), definiu a sua saclas^e~presentes) simplesmente nao poderiam ser pensadas ^irunTclade" (nao em termos de posifoes comuns, mas de de maneira adequada. Eram em si mesmos "culturais", no preocupacoes caracteristicas e formas de expressao de suas senfflcTd&lffilturae sociedade. Eles forcaram seus leitores indaga^oes). e fez uma contribujgao d|sjintajiiente_jpo_de;rn_a_ao a atentar para a tese de quef ^concentrgdas na^BalayjaJcultura!, assunto ao mesmo tempo em _gue escreYia seu epitafio^ O existem questoes diretamente propgstas pelas grandes mu- livro de Williams que o sucedeu — The Long Revolution — dangas hist6ric^s_qu^^sjTnodifica^^ej.naJndjjs^m na demo- indicou claramente que o modo de reflexao cultura-e-socie- cracia e nas classes sociais representam de maneira propria e as quais a arte responde tambem, de forma semelhante^^ ^de^^_rjp^^ria__ser_ completado e desenvolvido a^partirde Esta era uma questao para os anos 60 e 70, bem como para os outro lugar — um tipo de analise stgnificativarnente diferente. anos I860 e 1870. E talvez seja um ponto a notar que essa ConTsulTtentativa de "teorizar" a partir de uma tradicao cujo linha de pensamento coincidia mais ou menos com o que 132 133
  • 70. tem sido chamado de "agenda" da Nova Esquerda, & qua! relaciona[cultura-a soma das^escngogsjdisponiveis pelas quais esses escritores e seus textos, de uma forma ou de outra, as sociedades dao sentido^ refletem^j_suas_exp_erigngas pertenciam. Essa ligacao colocou a^politica do trabalhqjnte- CQmun|M Essa definic.ao recorre a enfase primitiva"sobre~as lectual" bejn-Ccijgentro dos Estudos Culturais desde o inicio "ideias", mas submete-a a todo um trabalho de reformulacao. — uma preocupagao da qual, felizmente, eles nunca foram A concepcao de cultura e, em si mesma, socializada e demo- nem jamais poderao ser liberados. Num sentido profundo, o cratizada. Nao consiste mais na soma de o "melhor que foi "acerto de contas" em Cultura e sociedade, a primeira parte pensado e dito", considerado como os apices de uma civili- de The Long Revolution, certos aspectos particularmente zagao plenamente realizada — aquele ideal de densos e concretes do estudojde Jioggart sobreji cultura o qual, num sentido antigo, todos aspiravam. Mesmo da clas.se trabalhadora e da recon strugap historica da for- — designada anteriormente como uma posicao de privilegio, macao da cultura de classe e das tradisoes populares do uma pedra-de-toque dos mais altos valores da civilizafao periodo e nitre 1790/1830, feita por Thompson — em conjunto — |e agora redefinida como apenas uma formajesrjecial_^le — constituiram a ruptura e definiram um novo espaco em processo social geral: o dar e tomar significados e o lento J que uma*-**-^~™*^^-~area—""^—-—^--"^ — - •*• -i"**^^^- *——*-*^^~ - "^ Em termos de nova —• ---- de estudo e_pratica brotou, m desenvolvimento dos significados comuns; isto e, uma cul- • marcac.6es e gnfases intelectuais, esse foi — se e que algo tura comum: a "cultura"^neste sen.tido^especial,__"e prdinari_a"j^0s assim pode ser verificado — o momento de "re-fundacao" dos (tomando emprestado uma das primeiras tentativas de Estudos Culturais. A institucionalizagao deles — primeiro, Williams de tornar sua posicao basica mais acessivel).5 Se no centro em Birmingham, e depois, por meio de cursos e as descricoes mais sublimes e refinadas das obras literarias publicagoes provenientes de varias fontes e lugares, com suas tambem fazem "parte do processo geral que cria convenc.6es perdas e ganhos caracteristicos, pertencem ao periodo dos e instituicoes, pelas quais os significados a que se atribui anos 60 em diante. valor na comunidade sao compartilhados e ativados",5 entao nao existe nenhum modo pelo qual esse processo pode ser i era o local de convergencia . Mas, que defi- desvinculado, distinguido ou isolado de outras praticas que nicoes desse concerto ceritral"ernergiram desse conjunto de obras? E, em torno de qual espaco foram unificadas as suas formam o processo historico: preocupacoes e conceitos, ja que decisivamente essa linha •^ Ja que a nossa maneira de ver as coisas e literal me nte a nossa 1 de pensamento moldou os Estudos Culturais e representa a maneira de viver, o processo de comunica^ao, de fato, e o i tradicao autoctone ou "nativa" mais formativa? O fato e que processo de comunhao: o compartilhamento de significados nenhumadefinigao unica e nao problematica de cultura se comuns e, dai, os propositos e atividades comuns; a oferta, encpjil£a_aa,.uL O_conceijj .— um local recepcao e comparacao de novos significados, que levam a fede interesses convergentes, em vez de uma ideia logica ou tensoes, ao cresctmento e a mudanca.6 conceitualmente clara. Essa "riqueza" e uma area de con- tinua tensao e dificuldade no campo. Pode ser necessario, Assim, de maneira alguma as descricoes literarias, entendidas portanto, resumir brevemente as enfases e dimensoes carac- dessa forma, podem ser isoladas e comparadas corn as outras teristicas pelas quais o cg^^|^ chegou ao seu atual [1980] coisas. esta^odeB£ii^^ten^nia^^ (As caracteriza^oes que se seguem sao necessariamente grosseiras e simplificadas, sinteticas em Se a arte € parte da sociedade, nao existe unidade solida fora vez de precisamente analiticas.). Somente duas problematicas dela, para a qua! nos concedemos prioridade pela forma de principals sao discutidas. nosso questionamento. A arte existe ai como uma atividade, juntamente com a producao, o comercio, a politica, a criacao Duas maneiras diferentes ddfconceituar a culturaNpodem de filhos. Para estudar as rela?6es adequadamente, precisamos ser extraidas das varias e sugestivas forfnulacoes feitas estuda-las ativamente, vendo todas as atividades como formas por Raymond Williams em The Long Revolution. A primeira particulares e contemporaneas de energia humana. 7 134 135
  • 71. Se essa primeira enfasejeyanta e re-trabalha a ^_._ ^ ele abordava e os percalcos que tentava evitar. Isso e particu- do_terjnc<^u]tura)com o dominio das "ideias". a segunda larmente necessario, pois The Lons Revolution (como muitos enfase: € jriais deliberadamente antropologica e enfaUza~o dos trabalhos de Williams) desenvolve um dialogo oculto, se"---refere as 5sMjr~i"" "** sociais. E a praticas • —l, "iL, quase silencioso, com posicoes alternativas, que nem sem- — -- .,- partir dessa segunda enfase que uma definicao de certo modo pre sao tao claramente identificadas quanto se desejaria. Existe simplificada — ^a^ultura_ejjrn_mpdo dejvida_global" — tern um claro engajamento j:om_as definigoes "i sido abstrafda de forma um tanto pura. Williams relacionou de cultura ^ esse aspecto do conceito ao uso mais documental do termo "ideias", na tra-dicacMdeaJista, quanto a assimila^ao de cultura — isto e, descritivo ou mesmo etnografico. Mas a definicao aTim^e«j;,,_cj4£_r^e3:al^^^ anterior me parece a mais central, pois nela o "modo de vida" _tural". Mas ha tambem um engajamento mais extenso com esta_integrado. O ponto importance nessa discussao se apoia certas formas de marxismo, contra as quais conscientemente nas relacoes aCivas e indissoluveis entre elementos e praticas se voltam as definicoes de Williams. Seu posicionamento se} sociais normalmente isoladas. E nesse contexto que a "teoria dirige contrariamente a operacao literal da metafora base/ da cultura" e definida como "o estudo das relacoes ejitTg_elg- superestrutura, que no marxismo class ico conferia o dominio f/J -d.e.^ida_gJpJ3;al". A cultura^ naQ_tLurna. das^ideias e significados as "sjarjerestruturas^T concebidas " r r i-O pratica; nem apenas a soma descritiva dos^Q^tyjnes e "cul- como meros reflexos determinados de maneira simples pela turas populares [folkways]" _da.s sociedades, como e]a base, e sem qualquer efetividade social propria. Quer dizer, o araumentgde Williams e dirifiido contra um por todas as_praticas sociais _e constitui a soma dojjiter^rela- vulgar e um determinismp economico. Ele oferece, em seu cionamento das mesmas. Desse modo, a questao do que e_ lugar, um interacionismo radical: a interacao mutua de todas ^como elsTe estudada se resolve por si mesmaj A cultura e as praticas, contornando o problema da determinacao. As es^e_qadTac^ de organizacap, essj_gj?orma^_£aj:afjer5ricas_de_ distincoes entre as praticas sao superadas pela visao de gj^giaJiumana_que4iQd£m.s_er descobertajuxtmqjeyeladoras todas elas como formas variantes de praxis — de uma ativi- — "dentro de identidades e correspondencias dade e energia humanas genericas. Os padroes subjacentes inesperadas", t —- "" ~~ ~ *i$g8*&3?ss&5*£*~ que distinguem o complexo das praticas numa sociedade espe- ides^ge Cipos inespeHBbs" — d 8 cifica em determinado periodo sao "formas de organizacao" pr^ficas sociais. A analise da cultura e, portanto, "a tentativa caracteristicas que embasam a todas e que, portanto, podem de~des coBrir a riatu reza da organizacao que forma o complexo ser tracadas em cada uma delas. desses relacionamentos". Comeca com "a descoberta de Var;as revisoes radicals dessa primeira postura tern ocor- padroes caracteristicos". Iremos descobri-los nao na arte, rido: e cada qual tem contribuido muito para a redefinicao producao, comercio, politics, criacao de filhos, tratados como daquilo que os Estudos Culturais sao ou deyerianx.sei^Ja atividades isoladas, mas atraves do "estudo da organizacao recpnhecemos a natureza exemplaFdo^rjrQJeto . . de! Willia ms . geral em um caso particular".9 Analiticamente, e necessario de _rep_ensar e^ rever consfantem£nte_aj;gumentos mais antigos estudar "as relacoes entre esses padroes". O propositp da — de continuar pensando. Contudo, somos surpreendidos analisej entendej^cgjTjO^sjriter-re^acoes de todas essas pra- por uma~Tiflnir33^c^nti^^ nessas revisoes ticas e_^rj^roes,,sao_yiyidas-e-e.x^jenmejitj^as_^^ Sjejninais. Um desses momentos~€ aquele em que^WuTiams em_urn_dadqi ^erlo.do:-essa e sua "estrutura de experiencia" reconhece o trabalho de Lucien Goldmann e, atraves deste, [structure of feeling]. " ~~ " do conjunto de pensadores marxistas que haviam dado atencao particular as formas superestruturais e cuja obra comecara, E mais facil ver a que Williams estava chegando e por que pela primeira vez, a aparecer em traducoes inglesas em meados ele seguiu nesse caminho, se entendermos quais problemas da decada de I960. E nitido o contraste entre essas tradicoes 136 137
  • 72. marxistas alternativas que sustentaram autores como Goldmann Um segundo momento e o ponto emjque^WUliams real-e Lukacs, se comparado a posicao isolada de Williams e a mente leva em conta a critica de E. P. C[hompso^) sobre Thetradicao marxista empobrecida da qual ele se valera. Mas Long Revolution?2 segundo a qual nenhum "modo de virlaos pontos de convergencia — tanto aquilo a que se opoem global" existe sejn^ua_dimensao de luta e confronto comquanto aquilo a que se referem — sao identificados de modes de vida opostos, e tenta repensar as questoes-chave ^e^etermina^ao e de dominacao atraves do conceito 3e~rTege^~maneiras que nao divergem inteiramente de seus argumentos monia de Gramsci. Esse^ensaio^— "Base and Superstructure inanteriores. Aqui esta o ponto negative, que ele percebe como Marxist Cultural Theory"13 — e seminal, especialmente por suaa ligacao de seu trabalho com o de Goldmann: elaboragao sobre as praticas culturais dominantes, residuals e emergentes e seu retorno a problematica da determinacao Passei a crer que tinha que abandonar, ou pelo menos deixar como "limites e pressoes". Contudo", a enfase anterior volta de lado, aquilo que eu conhecia como tradicao marxista: a tentativa de desenvolver uma teoria da totalidade social; ver com forca: "nao podemos separar literatura e arte de outros o estudo da cultura como o estudo das relacoes entre os tipos de praticas socials, de forma a sujeita-las a leis especi- elementos numa forma inteira de vida; encontrar meios de ficas e distintas". E "nenhum modo de producao e, por conse- estudar a estrutura ... que pudessem manter contato com guinte, nenhuma sociedade dpminante ou ordem social e, formas e obras de arte especificas e ilumina-las, mas tambem portanto, nenhuma|cultura dominant^) de fato. esgota a pratica. com as formas e relacSes de uma vida social mais geral; ^aenergia e a intencao hunianas"7 E esta nota vai alem — na substituir a formula da base e superestrutura pela ideia mais realidade, e radicalmente acenfuada — na mais recente e ativa de urn campo de forcas mutuas senao irregularmente determinantes. 10 sucinta defesa a sua posicao: Marxismo e literatura.14 Em oposigao a enfase estruturalista na especificidade e auto-E aqui o ponto positive — em que se marca a convergencia nomia^das praticas e sua separacao analitica das sociedariesentre a "estrutura de experiencia" [structure of feeling] de errjJnstanciag_dis]mtas. a enfase de Williams recai sobre aWilliams e o "estruturalismo genetico" de Goldmann; "atividade constitutiva" em geral, sobre a "atividade humana sensual, enquanto pratica", da primeira "tese" de Marx sobre Feuerbach; sobre as diferentes praticas concebidas como Descobri em meu proprio trabalho que eu tlnha que desen- "pratica indissoluvel em seu todo"; e sobre a totalidade. volver a ideia de uma estrutura de experiencia ... Mas ai descobri Goldmann partindo ... de um conceito de estrutura que continha em si mesmo uma relacao entre os fatos social e Logo, ao contrario de um desenvolvimento no marxismo, nao literario. Essa relacao, insistia ele, nao era uma questao de e a base e a superestrutura que precisam ser estudadas, mas conteudo, mas de estruturas mentais: "categorias que simulta- processes reais especificos e indissoliiveis, dentro dos quais neamente organizam a consciencia empirica de um grupo o relacionamento decisive, de um ponto de vista marxista, e social especifico e o mundo imaginative criado pelo escritor". aquele expresso pela ideia complexa de determinacao l5 For definicao, essas estruturas nao sao individualmente criadas, mas sim coletivamente.11 Em um dado nivel, pode-se dizer que o trabalho de Xhnmps&n convergem em torno dos termosA enfase dada all a interatividade das praticas e as totalidades da mesma problematica, atraves da operagao de uma teorUsubjacentes, bem como as homologias entre elas, e caracte- zacaojviolenta e esqueniaticamentejiicotomica. Q fundamentoristica e significativa. E continua: "A correspondent em organizador da obra de Thompson — as classes enquantotermos de conteudo entre um escritor e seu mundo e menos relacoes, a luta popular, as formafoes historicas de consciencia,significante do que essa correspondent em termos de orga- as culturas de classe em sua particularidade historica —nizacao, de estrutura." e alheio ao modo mais reflexive e "generalizador" como 139138
  • 73. Williams tipicamente trabalha. E o dialogo entre eles comega qual os homens fazem sua historia — que insisto."17 E as duascom um encontro brusco. A revisao de The Long Revolution, posicoes se aproximam em torno — de novo — de distintosempreendida por Thompson, fez duras cobrancas a Williams pontos negatives e positives. Ne^a^tyjmj£nle^cQntra^a. meta-nor seu modo evolucionista de conceber a cultura como fora base/sup^exesuiuxuxa.1 e uma definicao reducionista ou"uma forma inteira de vida"; por sua tendencia a absorver economicistade determinacao. Sobre a primeira: "A relac.aoos conflitos entre as cuituras de classe aos termos de uma dialetica entre o ser social e a consciencia social — ou"conversacao" ampliada; por seu torn impessoal — acima entre cultura e l n«o-cuitura — esta no amago de qualquerdas classes concorrentes, por assim dizer; e pelo alcance compreensao do processo historico dentro da tradicao mar-imperializante de seu conceito de "cultura" (que, de forma xista... A tradicao herda uma dialetica que e certa, mas aheterogenea, tudo abarca em sua orbita, pois tratava-se do metafora mecanica especifica que a expressa esta errada.estudo dos inter-relacionamentos das formas de energia e Derivada da engenharia civil, essa metafora ... deve, emorganizacao subjacentes a todas as praticas. Mas nao era ai qualquer caso, ser inadequada para descrever o fluxo do— perguntava Thompson — que a historia entrava?). Pouco conflito, a dialetica de um processo social em mudanca...a pouco, podemos ver como Williams persistentemente Todas as metaforas que saq_gejalmentg-apresentad^gjdm umarepensou os termos de seu paradigma original para levar em tg^dgricj^^a__cond.u_2ir__a jtnente a modos_esqjje^naticj3.s._e,conta tais criticas — embora isso se realize (como ocorre tao afasta^la_jd^_jnteracjip da consciencla-de-ser". E sobre ofrequentemente em Williams) obliquamente: pela via de uma reducionismo: "O reducionismo e urrrHpso~na~16gica histo-apropriacao especifica de Gramsci, em vez de uma modifi- rica pelo qual acontecimentos politicos e culturais sao expli-cacao mais direta. cados efn termos das afiliagoes de classe dos seus atores... Thompson tambem opera com uma distincao mais "classica" Mas a mediacao entre interesse e crenga nao passa pelodo que o faz Williams entre ser social e consciencia social complexo das superestruturas de que fala Nairn, mas pelas(termos que prefere muito mais aos conhecidos "base e supe- proprias pessoas."18 E mais positivamente — uma simples afir-restrutura"). Logo, onde Williams insiste na absorcao de macao que pode ser considerada como definicao de quasetodas as praticas a uma totalidade da "pratica real e indisso- toda a obra historica de Thompson, retirada de Aformafaoluvel", Thompson lanca mao de uma distincao mais antiga da classe operdria inglesa, ate Whigs and Hunters, A miseriaentre o que e "cultura" e o que "nao e cultura". "Qualquer da teoria™ — e mais alem:teoria da cultura deve incluir o conceito de interacao diale-tica entre cultura e algo que nao e cultura". Ainda assim, A sociedade capitalista fundou-se sobre formas de explorafSoa definicao de cultura nao esta tao distante daquela de que sao ao mesmo tempo economicas, morais e culturais.Williams: Tomemos a definifao essencial de relacionamento produtivo ... se a invertermos ela se revelara ora sob um aspecto (o trabalho assalariado), ora sob outro (um ethos aquisitivo), ora Devemos supor que a materia-prima da experiencia de vida sob outro ainda (a alienacao dessas faculdades intelectuais como se localiza em um polo, e todas as disciplinas e sistemas aLgo nao necessario ao trabalhador em sua fun^ao produtiva.20 humanos infinitamente complexos, articulados e desarticulados, formalizados em instituicoes ou disperses em modos menos formais, os quais "lidam com", transmitem ou distorcem essas Aqui, entao, a despeito de varias diferencas importantes, materias-primas, estariam situados em outro polo.16 esta o_esbcic^__de uma Hnha significativa de pensamento dos <QEstudos_Culturaisj) dir-se-ia, fa paradigma^omlnante Ele seDe forma semelhante, a respeito do carater comum da pratica opoe ao papel resLdu^^_de_nierg_reflexo atribuido aoj^cul^que subjaz a todas as praticas distintas, ele afirma: "E no tural". Em suas varias formas, ele conceitua a cultuj-a comoprocesso ativo — que 6 ao mesmo tempo o processo pelo se entrelaj:a a todas as praticas sociais; e essas140 141
  • 74. praticas, por sua vez, como uma forma comum de atividade e de estruturacao das relacoes e condicSes nas quais Juimana: como praxis sensual TJumana, como a ativTcTarr^ homens e mulheres, de-^modo necessario e involuntario, se atraves da qual~homens e mulheres fazem a historia. Tal insereni; e de sua atencaxS mais clara a "determinacao" exer- paradigma se opoe ao esquema base-superestrutura de cida pelas relacoes de producao e de exploracao sob o capi- formulacao da relacao entre as forcas ideais e materials, talismo. Isso ocorre como conseqiiencia de uma atribuigao especialmente onde a b^se_eude£ijiida-CQmo-jjetermiria$a o tao central ao papel da experiencia e da consciencia cultural pelo-"economico", em um sentido simples. Essa linha de na analise. Atrofao da experiencia nesse paradigma e a enfase pensamento prefere a formulacao maisarjapla — a dialetica A J dada ao criativo e ao agenciamento historico constituem os _ ^ . J ^^-_ _r _ _ | i ———- .1 Centre o ser e a consciencia social: inseparaveis em seus polos dois elementos-chave no humanismo dessa posicao. Conse- distintos (em algumas formulacoes alternatives^ a dialetica quentemente, cada qualcprifere a "experiencia" uma posicao entre "cultura" e "nao-cultura"). Ela define ^hu^oojnesmo autenticadora errrqualquer analise cultural. Ijm ultima aria- temfjo^omo os sentidos e valores que nascem^entre_j^_classes Use, trata-se de onde e como as pessoas experimentam suas egrupos sociais diferentes, comjjase em_s,iia.s relacoese condigoes^ de yida,L com^^^e£inem_e_a-^lj^_xg3pondeJB_g_ condicoes^lTtstoricas, rjej£s_c|uaJs-eie^JUdam_com suas ^quej_para Thompson, vai definir•arazao de cada modo de concU£oes_de_existencia e respondem a estas; e tambem como proclucaoser tambem uma cultura. e cada luta entre as classes as trad i goes e praticas vjyidas atraves das quais esses "enteji- ser sempre uma luta entre modalidades culturais; e isto, para dimentos" saQ_expresso.s._g nos quais estao incorporados. Williams, constitui aquilo que, em ultima instancia, a analise Williams junta esses dois aspectos — definicoes e modos de cultural deve oferecer. Na gexperiencia^)todas^s^rxaticas,jg i vida — em torno do proprio -•n»BBH«aiissasisSSBiigS£HSS3^= " Thompson 1 1 conceito_de.cultura. s _e.njjgcruzam; dentro da^cultura" todas as praticas interagem * reune os dois elementos — consciencia e condicoes — em — ainda que_de-£cmna desigual e mutuamente determinante. torno do conceito de "experiencia". Ambas as posicoes Nesse sentido a totalidade cultural — do processo historico envolvem certas oscilacoes complicadas em torno dessas em seu conjunto — ultrapassa qualquer tentativa de manter alavras-chave. Wilhams^absorve tao compJetamente as a distincao entre as rnstancias e elementos. A verdadeira Mefinic6es^_cle_experiencia^) ao nosso s^rnodo_de_vida^) e conexao entre estes, sob certas condicoes historicas, deve*$> amBosiem uma indissoluvel gratica^em-geral, £ealernaterial f ser acompanhada pelo movimento totalizador "no pensa- ITpontcrcle "pefclerde-vista qualque^cUsjy^aojentrg^" cultura^ mento" durante a analise. Tal percepcao estabelece para e"ariao-cultura. Thompson, as vezes, utiliza "experiencia" ambos os mais fortes protocolos contra qualquer forma de no sentido mais comum de consciencia, como os meios abstracao analitica que distinga as praticas ou que se proponha coletivos pelos quais os homens "lidam com, transmitem a testar o "verdadeiro movimento historico" em toda a sua ou distorcem" suas condicoes de vida, a materia-prima da particularidade e complexidade articulada por qualquer vida; as vezes como o dommio do "vivenciado", o meio- operacao logica ou analitica de maior envergadura. Tais termo entre "condicoes" e "cultura"; e as vezes como as pro- posicoes, especialmente em suas versoes historicas mais prias condicoes objetivas — as quais sao contrapostos certos concretas (Aformacao, O campo e a cidade) sao o contrario/ modos particulares de consciencia. Mas, quaisquer que sejam da busca hegeliana das essencias subjacentes. Contudo, por os termos, ambas as posicoes tendem a ler as_estruturas das sua tendencia a reduzir as praticas a praxis e descobrir relacoes em termos de como estas sao "vividas" e "experi- "formas" comuns e homologas subjacentes as areas aparente- mental" lasTA "estrutura de experiencia" [structure of feeling] mente mais diferenciadas, seumovimentCLe "essencializante". williamsiana — com sua deliberada condensacao de ele- Possuem uma forma especifica de compreender a totali^cle. mentos aparentemente incompativeis — e algo caracteristico. — embora esta seja com um "t" minusculo, seja concreta e Mas o mesmo € valido para Thompson, a despeito de seu historicamente determinada, irregular em suas correspon- entendimento muito mais historico do carater de gratuidade dencias. Essas posicoes a compreendem "expressivamente" 143 142
  • 75. de produ^ao — cunhando a expressao — poderia ser melhor E uma vez que constantemente modulam a analise mais compreendido como "estruturado como uma linguagem" tradicional na direcao do nivel_experiencial ou interpretam (atraves da combinagao seletiva de elementos invariantes). as outras estruturas e relates de cima para baixo, do ponto A enfase aist6rica e sincronica, contrariamente as valoracoes de vista de como estas sao "vividas", essas posicoes sao historicas do "culturalismo", advinha de uma fonte semelhante. propriamente (mesmo que nao adequada ou inteiramente) Assim tambem uma preocupagao com "o social, sui generis caracterizadas como "culturalistas" em sua enfase: mesmo — usado nao como adjetivo, mas como substantive: um uso quando todas as advertencias ou restricoes a "teorizacao dicotfimica" por demais rapida tenham sido feitas.21 que Levi-Strauss derivou nao de Marx, mas de Durkheim (o Durkheim que analisou as categorias sociais de pensa- A vertente^jcjjlturalista nos Estudos Culturais foi interrom- mento — por exemplo, em Formasprimitivas de classifica$do p|da_2ela_diegada dos estrutufafismos ap cenario. Possivel- — em vez do Durkheim de Da divisdo do trabalbo social, mente mais diversfficatios~que"os~ciTlfuralismos, eles todavia que se tornou o pai fundador do funcionalismo estrutural compartilham de certas orientacoes e posicoes que tornam sua designacao sob um unico titulo nao totalmente equivo- americano.). cada. Nota-se que, embora o paradigma culturalista possa Por vezes, Levi-Strauss_t)rincou com certas formulacoes ser definido sem se recorrer a uma referenda conceitual ao marxistas. Assim, "o marxismo, senao o proprio Marx, com termo "ideologia" (a palavra, e claro, aparece, mas nao e um freqiiencia excessivafjjsou uma logica que pressupunha que conceito-chave), ajjjmejyerig^s^ejjr^^ as praticassucedessem cUretamente a pjraxis. Sem questionar mente articujajdaj^jGaJXHm)^esse conceito: em concordancia a indubitavel primazia das infra-estruturas, creio que ha com sua linhagem mais impecavelmente marxista, "cultura" sempre um mediador entre a praxis e as praticas, qual seja, o nao figura ai tao proeminentemente. Embora isso possa ser esquema conceitual cuja operacao concretiza como estru- verdadeiro para os estruturalistas marxistas, e, na melhor turas a materia e a forma, ambas desprovidas de qualquer das hip6teses, menos da metade da verdade a respeito da existencia independente, isto e, faz delas entidades tanto empreitada estruturalista. Mas agora e um erro comum con- empiricas quanto inteligiveis." Mas isso, para cunhar outro densar esse ultimo apenas em torno do impacto causado termo, foi basicamente um "gesto". Esse estruturalismo compar- por Akhusser e tudo o que se seguiu na onda de sua inter- tilhou com o culturalismo a ruptura radical com os termos vencao — onde a ideologia teve um papel seminal, mas modu- da metafora base/superestrutura, derivada de A ideologia lado — e omitir a importancia de Levi-Strauss. Contudo, em alema. E embora fosse "a essa teoria das superestrutruras, termos estritamente historicos, foram Levi-Strauss e a semio- quase intocada por Marx" que Levi-Strauss aspirava a contri- tica inicial que operaram a primeira ruptura. E embora os buir, sua contribuicao significou uma ruptura radical em todo estruturalismos marxistas os tenham suplantado, seu debito o seu termo de referenda, assim como fizeram definitiva e (freqiientemente rechacado ou degradado a notas de pe de irrevogavelmente os culturalistas. Aqui — e devemos incluir pagina, na busca por uma ortodoxia retrospectiva) para com Althusser nessa caracterizacao — Umto os culturalistas a obra de Levi-Strauss_fqi e continua sendo enorme. Foi o quanto^s^st^lur^lista^s^t^bujram aos_domlnios^ a.te^ entao estrujjjmlismo_jie|Levi-Straussquiet em sua apropriacao do definidos como " superestruturais" tal especificidag^e_eficacia,,.,p_aradi^ma linguistico, apos Saussure, ofereceujis "ciencias taf^rlrnazia constitutiva, que os empurrou para alem dos humanas da cultura" a promessa~3e"um paradigma capaz de term^^e^r^ex^cia..da,"base.lfeJLsupete . LevPSTrauss torna-las cientificas e rigorosas de uma forma inteiramente e Althusser eram tambem anti-reducionistas e antieconomi--n_ov!;_E quando, na obra de Althusser, os temas marxistas" cistas em suas formas de raciocinio, e atacaram criticamente mais classicos foram recuperados, Marx continuou sendo "lido" aquela causalidade transitiva que, por tanto tempo, havia se — e reconstituido — pelos termos do paradigma lingiiistico. passado como "marxismo classico". Em Lendo O Capital, por exemplo, argumenta-se que o modo 145144
  • 76. TevkStrauss trabalhou consiste.nteme_n_te com o--*. termo 4j.?^^gc ™* ~ "~"~ ~——-— , nao como conteudos e formas superficiais de ideias, mas como 3$- Ele considerou as "ideologias" algo de bem menor categorias inconscientes pelas quais as condicoes sao repre- irnprtlncia: meras "racionalizacoes secundarias". Como sentadas e vividas. Ja comentamos sobre a presenca ativa, Williams e Goldmann, trabalhou nao no nivel das corres- no pensamento de Althusser, do paradigma lingiiistico — o pondencias entre o conteudo de uma pratica, mas no nivel de segundo elemento identificado acima. E embora, no conceito suas formas e estruturas. Pore"m, a maneira como elas foram de "sobredeterminacao" — uma de suas contribuicoes conceitualizadas era diferente do "culturalismo" de Williams mais originais e fruttferas — Althusser tenha retornado ou do "estruturalismo genetico" de Goldmann. Essa diver- aos problemas das relacoes entre as praticas e a questao da gencia pode ser identificada de ires modos distintos. Prjmeiro, determinacao (propondo, incidentalmente, uma reformulacao jle conceituou "cultura" como as^categorias^e^quadrQSjlej^fe- inteiramente nova e altamente sugestiva, que recebeu muito rencia lingiiisticos e de pensamento atraves dps^giiajs_a.s_dife- pouca atencjao subseqiiente), ele tendeu a reforcar a "auto- rentes socie^atieTTt^jficam^s.uas^cQJldidoes de existencia nomia relativa" das diferentes praticas e suas especificidades — sobretudo (ja que Levi-Strauss era antropologo), as relacoes internas, condicoes e efeitos as custas de uma concepcao entre os mundos humano enatural. Segundo, pensou em "expressiva" da totalidade, com suas homologias e corres- como essas categorias e referenciais mentais eram produzidos pondencias tipicas. e transformados, em grande parte a partir de uma analogia com as maneiras como a propria linguagem — o principal Alem dos universes intelectuais e conceituais totalmente meio da "cultura" — operava. Identificou o que era especifico distintos dentro dos quais esses paradigmas alternatives se a elas e a sua operacao enquanto "producap de sentido": desenvolveram, havia certos pontos onde, apesar de suas eram, sobretudo. praticas_sismficantes. Terceiro, depois de ter superposigoes aparentes, o ajlturaiismoe o^ estmturalismo _s_e cpntraslavam nitidamente. Podemos identificar essa flertado inicialmente com as categorias sociais do pensamento de Durkheim e Mauss, ele abandonou praticamente a questao contrap6si£ao em urn deseus pontos mais agudos, precisa- da relac.ao entre praticas significantes e nao-significantes — mente em torno do conceito de "experiencia" e no tocante ao entre "cultura" e "nao-cultura", para usar outros termos — papel que o termo exerceu em cada perspectiva1 Enquanto para dedicar-se as relacoes existentes no interior de praticas no "culturalismo" a experiencia era o solo — o^terreno do significantes por meio das quais as categorias de sentido eram "viyidol— em que interag^am_a c^i^j.C L ao^eacpnsciencia,o estruturalfcmn insistia qite aj^ O produzidas. Isso deixou a questao da determinacao, da tota- lidade, em grande parte em suspenso. A logica causal de poderia s^r^fujidarnento de coisa ajguma, pois so se_poc]ia determinacao foi abandonada em favor da causalidade estru- "viver^ e experimentar as proprias..c.Qndicoejj.^g?l?rQ^ atraves^ turalista — uma logica do arranjo, das relacoes internas, da de categc>rias, classifica^oes e quadrqs clej-eferencia da articulacao das partes dentro de uma estrutura. Cada um cultura. Essas categorias, contudo, nao surgiram a partirdesses aspectos tambem esta positivamente presente na obra da experiencia ou nela: antes, a experiencia era um "efeito"de Althusser e dos estruturalistas marxistas, mesmo quando dessas categorias. Os culturalistas haviam definido comoos termos de referenda haviam sido refundamentados na coletivas as formas de consciencia e cultura. Mas ficaram"imensa revolucao teorica" de Marx. Em uma das formulacoes longe da proposicao radical segundo a qual, em cultura eseminais de Althusser sobre a ideologia — definida em temas, linguagem, o sujeito era "falado" pelas categorias da culturaconceitos e representacoes atraves das quais os homens em que pensava, em vez de "fala-las". Tais categorias naoe mulheres "vivem", numa relacao imaginaria, sua relacao eram, entretanto, somente coletivas, ao inves de individuals:com suas condicoes reais de existencia —22 podemos ver o eram, para os estruturalistas, estruturas inconscientes. E poresqueleto dos "esquemas conceituais" de Levi-Strauss "entre isso que, embora Levi-Strauss falasse somente de cultura,a praxis e as praticas". As "ideologias" sao aqui concebidas seu conceito forneceu a base para a facil traducao para a estrutura conceitual da ideologia feita por Althusser:146 Sistema Tntegrado 147 de Bibliotecas/UFES
  • 77. Ideologia e na verdade um sistema de representacoes mas na sido mais frequentemente polarizados nos seus extremes. maioria das vezes, essas representa^oes nao tern nada ave Neles, tais argumentos e debates muitas vezes aparecem com a consciencia ... € como estruturas que elas se impoem a somente como meros reflexes ou inversoes um do outro. Aqui, ampla maioria dos homens, nao via consciencia .... e dentro desse inconsciente ideologico que os homens conseguem as principals apologias que viemos trabalhando — em consi- alterar as experiencias vividas entre eles e o mundo e adquirem dera^ao a uma exposicao adequada — tornam-se uma prisao uma nova forma especifica de inconsciente, que se chama para o pensamento. consciencia.^ Sem sugerir que haja qualquer sintese facil entre os dois, convem dizer neste ponto que nem o "culturdismo" nem o "estruturaligrjoo", em suas atuais manifestacoes, se adaptam uma fonte autenticadora, mas cgjnojjm efeitoj nao como um a tarefa de c o r s t r . u e t u d o u t u r a reflelfo"cIo~reaT7nias como uma "reiac.ao imaginaria". Faltava Mesmo bem pouco — apenas o passo que separa A favor de Marx do assim, algo importante emerge da comparacao rudimentar ensaio "Aparelhos ideologicos de Estado" — para o desen- entre suas respectivas forc.as e limitacoes. volvimento de um relate de como essa "relacao imaginaria" servia nao meramente ao dommio de uma classe gover- A grande vantagem dos estruralismos e a enfase dada as nante sobre uma classe dominada, mas (pela reproducao "condi^oes determinadas". Eles nos lembram de que, em qual- das relacoes de producao e a constitui£ao de uma forga de quer analise, a nao ser que se mantenha realmente a diale- trabalho adequada a exploracao capitalista) a ampla repro- tica entre as duas metades da proposi^ao segundo a qual "os ducao do proprio modo de producao. Muitas das demais homens fazem a historia ... com base em condicoes que nao linhas de divergencia entre os dois paradigmas fluem deste escolhem", o resultado sera inevitavelmente urn humanismo ponto: a concepgao dos "homens" como portadores das ingenuo, com sua necessaria conseqiiencia: uma pratica poli- estruturas que os falam ou situam, em vez de agentes ativos ticaPvoTuntarista e populista. Nao se deve permitir que o fato na construcao de sua propria historia; a enfase sobre a de os homens poderem se tornar conscientes de suas con- "logica" estrutural, em vez da historica; a preocupacao com a dicoes, se organizar para lutar contra elas e, ate mesmo,constitui^ao — em "tese" — de um discurso cientffico nao- transforma-las — sem o que e impossfvel conceber, muito menosideologico; e dai o privilegio do trabalho conceitual e da praticar, qualquer politica ativa — apague a consciencia deTeoria como algo garantido; a remodelac.ao da historia como que, nas relacoes capitalistas, homens e mulheres sao colo-uma marcha de estruturas: ... [Ver A miseria da teoria] a cados e posicionados em relacoes que os constituem como"maquina" estruturalista... agentes. "Pessimismo do intelecto e otimismo da vontade" e Nao ha como seguir as varias ramificagoes que surgiram um ponto de partida melhor do que uma simples afirmagaoem um ou outro desses grandes paradigmas dos Estudos heroica. O estruturalismo nos possibilita comegar a pensar —Culturais. Embora de nenhum modo deem conta de todas como insistia Marx — as rela$ oes de uma estrutura em outrosou mesmo de quase todas as estrategias adotadas, eles defi- termos que nao as reduzam as relacoes entre as "pessoas".niram as principals bases de desenvolvimento do campo. Os Esse era o nivel de abstracao privilegiado por Marx: aqueledebates seminais foram polarizados em torno de suas tema- que Ihe permitiu romper com o ponto de partida obvio, mascicas e alguns dos melhores trabalhos concretes surgiram dos incorreto, da "economia politica" — os meros individuos.esforc.os que se fizeram por operacionalizar um ou outro Mas isso se Hga a uma segunda vantagem: o reconheci-paradigma em problemas e materiais especificos. Dado o mento pelo estruturalismo nao so da necessidade de abstracaoclima sectario e autocomplacente do trabalho intelectual como instrumento do pensamento pelo qual as "relates reais"critico na Inglaterra, junto com sua marcante dependencia sao apropriadas, mas tambem da presenca, na obra de Marx, e de se esperar que os argumentos e debates tenham de um movimento continuo e complexo entre diferentes nweis148 149
  • 78. mostra intrinsecamente teorico e deveria se-lo. Aqui, a insis- de abstragao. Tambem e verdade, como os culturalistas argu- tencia do estruturalismo de que o pensamento nao reflete amentam, que, na realidade historica, as praticas nao apa- realidade, mas se articula a partir dela e dela se apropria, £recem nitidamente separadas em suas respectivas instancias. um ponto de partida obrigatorio. Uma perlaboracao ade-Entretanto, para pensar ou analisar a complexidade do real, quada das conseqiiencias desse argumento pode comecar ae necessaria a pratica do pensar e isso requer o uso do poder produzir um metodo que nos livre das permanentes oscilacoesda abstracao e analise, a formacao de conceitos com as quais entre abstracao/antiabstracao e das faisas dicotomias entrese pode recortar a complexidade do real, com o proposito de Teoricismo versus Empirismo, que marcaram, bem como desfi-revelar e trazer a luz as relacoes e estruturas que nao podem guraram, o encontro entre o culturalismo e o estruturalismose fazer visiveis ao olhar nu e ingenuo, e que tambem naopodem se apresentar nem autenticar a si mesmas. "Na analise ate agora.das formas economicas, nao podemos recorrer nem ao micros- O estruturalismo tern outra vantagem, na sua concepcaocopic, nem aos reagentes quimicos. O poder da abstracao deve do "todo". Embora o culturalismo sempre insista na particu-substituf-los." De fato, o estruturalismo frequentemente levou laridade radical de suas praticas, em certo sentido, seu modoessa proposicao ao extremo. Uma vez que o pensamento e de conceituar a "totalidade" tem por tras algo da complexaimpossivel sem o "poder da abstracao", o estruturalismo simplicidade de uma totalidade expressiva. Sua complexi-confunde isso, dando primazia absoluta a formacao de dade e constituida pela fluidez com que certas praticas seconceitos — e somente no nivel de abstrafao mais alto e sobrepoem: mas essa complexidade e redutivel conceitual-mais abstrato: a Teoria com "T" maiusculo, entao, se torna mente a "simplicidade" da praxis — a atividade humanajuiz e juri. Mas isso significa, precisamente, perder de vista o enquanto tal — em que as mesmas contradicoes constante-insight conquistado a partir da propria pratica de Marx. Por- mente aparecem e de modo homologo se refletem em cadaque esta claro, por exemplo, em O capital, que o metodo — uma delas. O estruturalismo vai longe denials ao erigir a ma-embora claramente tenha lugar "no pensamento" (e onde mais quinaria da "Estrutura", com suas tendencias autogeradorasocorreria? perguntava Marx na Introducao de 1857)2^ — nao (uma "eternidade spinoziana", cuja funcao e somente a somase apoia sobre o simples exercicio da abstracao, mas sobre o de seus efeitos: um verdadeiro desvio estruturalista), equi-movimento e as relacoes que o argumento constantemente pada com suas instancias especificas, Mesmo assim, repre-estabelece entre os diferentes niveis de abstracao: em cada senta um avanco em relacao ao culturalismo na concepcaoum, as premissas que estao em jogo devem ser distinguidas que este tem da necessaria complexidade da unidade de umadaquelas que — em considerable ao argumento — tern de estrutura (sobredeterminacao e uma forma mais bem-suce-ser sustentadas permanentemente. O movimento em direcao dida de pensar essa complexidade do que a combinatoriaa um novo nivel de grandeza (para usar a metafora do micros- invariante da causalidade estruturalista). Mais ainda, por suacopic) requer a especificacao de outras condicoes de exis- capacidade conceitual de pensar uma unidade que seja cons-tencia ainda nao disponiveis em um nivel anterior mais truida atraves das diferengas, e nao das homologias, entre asabstrato: desse modo, por sucessivas abstracoes de diferentes praticas. Aqui de novo se logrou uma intuicao critica acercamagnitudes, mover-se em direcao a constituicao, a reprodufao do metodo de Marx: podemos pensar nas varias passagensdo "concrete no pensamento" como efeito de um certa forma complexas da Introducao de 1857 aos Grundrisse, ondede pensar. Esse metodo nao e apresentado adequadamente Marx demonstra como e possivel pensar a unidade de umanem no absolutismo da Pratica teorica do estruturalismo, nem formacao social como algo que se constroi a partir da dife-na posicao de antiabstracionismo de Miseria da teoria (de renga e nao da identidade. Obviamente, a enfase na diferencaE. P. Thompson), em direcao a qual o culturalismo parece ter pode ter levado ou levou os estruturalismos a uma heteroge-sido dirigido ou se dirigiu, como resposta. Mesmo assim, se neidade conceitual fundamental, em que todo sentido de 151150
  • 79. desta no famoso artigo da AIE de Althusser foi — paraestrutura e totalidade se perde. Foucault e outros pos-althusserianos tomaram esse caminho tortuoso em direcao cunhar ainda outro termo — basicamente "um gesto"). Con-a autonomia absoluta, nao a relativa, das praticas, atraves tudo, tern sido feito um trabalho que sugere formas pelasda postulate de sua necessaria heterogeneidade e da sua quais o campo da ideologia pode ser adequadamenle conce-"nao-correspondencia necessaria". Mas a enfase na unidade- bido como um terreno de lutas (pela obra de Gramsci e, maisna-diferenca, na unidade complexa — a "unidade de multiplas recentemente, de Laclau)25 e estes tern referenciais estrutu-determinates" que define o concrete em Marx — pode ser ralistas, em vez de culturalistas.trabalhada numa outra e, em ultima instancia, mais frutifera As vantagens do culturalismo podem ser derivadas dasdirecao: a problematica da autonomia relativa e da "sobrede- deficiencias da posicao estruturalista ja notadas acima e determinacao", e o estudo da articula$ao. De novo aqui, articu- seus silencios e ausencias estrategicas. Ele insistiu, correta-lacao e algo que corre o risco de um alto formalismo. Mas mente, no momento afirmativo de desenvolvimento da orga-possui a grande vantagem de nos possibilitar pensar como nizacao e da luta consciente como elemento necessario apraticas especificas (articuladas em torno de contradicoes que analise da historia, da ideologia e da consciencia: contraria-nao surgem da mesma forma, no momento e no mesmo ponto) mente ao seu persistente rebaixamento no paradigma estru-podem todavia ser pensadas conjuntamente. O paradigma turalista. De novo, e Gramsci, em boa parte, que nos forneceestruturalista, se desenvolvido corretamente, nos permite, um conjunto de categorias mais refinadas atraves das quaisde fato, conceituar a especificidade de praticas diferentes podemos vincular as categorias Culturais em grande parte(analiticamente diferenciadas e abstraidas), sem perder de "inconscientes" e ja dadas do "senso comum" com a formacaovista o conjunto por elas constituido. O culturalismo afirma de ideologias mais ativas e organicas, que sao capazes deconstantemente a especificidade de praticas diferentes — a intervir no piano do senso comum e das tradicoes populares"cultura" nao deve ser absorvida pelo "economico": mas Ihe e, atraves de tais intervencoes, organizar as massas de homensfalta uma maneira adequada de estabelecer essa especifici- e mulheres. Nesse sentido, o culturalismo restaura adequada-dade teoricamente. mente a dialetica existente entre o inconsciente das categorias A terceira vantagem que o estruturalismo exibe reside em Culturais e o momento de organizacao consciente: ainda que,seu descentramento da "experiencia" e seu trabalho original de maneira caractenstica, ele tenda a igualar a excessivade elaboracao da categoria negligenciada de "ideologia". E enfase do estruturalismo sobre as "conduces" com uma enfasedificil conceber um pensamento em Estudos Culturais dentro demasiado inclusiva sobre a "consciencia". Portanto, o cultu-de um paradigma marxista que seja inocente da categoria de ralismo n^o apenas recupera — como momento necessario"ideologia". E claro, o culturalismo constantemente se refere de qualquer analise — o processo por meio do qual asa esse conceito: mas ele de fato nao se situa no centro de seu classes em si, definidas principalmente pela forma atravesuniverse conceitual. O poder autenticador e a referenda da da qual as relacoes economicas posicionam os "homens""experiencia" impoem uma barreira entre o culturalismo e uma como agentes, se tornam forcas politicas e historicas ativasconcepcao adequada de "ideologia". Contudo, sem ele, a efi- — para-si — mas tambem requer que — contra seu propriocacia da "cultura" para a reproducao de um modo especifico bom senso antite6rico — ao ser adequadamente desenvol-de producao nao pode ser compreendida. E verdade que ha vido, cada momento seja entendido em termos do nivel deuma tendencia marcante nas concepcoes mais recentes de abstracao em que a analise esta operando. Mais uma vez,"ideologia" de dar a ela uma leitura funcionalista — como Gramsci comeca a apontar o caminho entre essa falsa polari-o cimento necessario da formacao social. A partir dessa zacao, em sua discussao da "passagem entre a estrutura e aposicao, e de fato impossivel — como o culturalismo afirmaria esfera das superestruturas complexas", e suas diferentescorretamente — conceber tanto as ideologias que nao sao, formas e momentos.por definicao, "dominantes" ou a ideia de luta (o surgimento 153152
  • 80. em geral ao nivel da analise historica concreta. A segunda Nos concentramos aqui, principalmente, na caracterizacao daquilo que nos parece constituir os dois paradigmas seminais dificuldade e que os processes de contradicao e luta — alo- em acao nos Estudos Culturais. Obviamente, eles nao sao os jados pelo primeiro estruturalismo inteiramente no nivel daunices paradigmas ativos. Novos desenvolvimentos e linhas "estrutura" — estao agora, gracas a uma daquelas persistentesde pensamento nao estao adequadamente captados por seus inversoes — aiojados exclusivamente no nivel dos processestermos. Entretanto, esses paradigmas podem, num certo sen- psicanaliticos inconscientes. Talvez, conforme um argumentotido, ser empregados para medir aquilo que nos parece ser comum no culturalismo, o "subjetivo" seja um momento neces-as fraquezas radicals ou as deficiencias dos que se oferecem sario de qualquer analise desse tipo. Mas isso e algo muitocomo pontos de convergencia alternativos. Aqui, brevemente, diferente do desmantelamento do conjunto dos processesidentificamos tres. sociais dos diversos modos de producao e formac.6es sociais, e sua reconstituigao exclusiva ao nivel de processes incons- O primeiro e aqueie que sucede a Levi-Strauss. E um cientes psicanaliticos. Embora um trabalho importante tenhaseguimento Idgico, mais do que temporal: a primeira semio- sido feito dentro deste paradigma, tanto para defini-lo quantotica e os termos do paradigma linguistico, e o centramentosobre as "praticas significativas", movimentando-se atraves para desenvolve-lo, suas alegacoes de ter substituido todosde conceitos psicanaliticos e Lacan ate um recentramento os termos dos paradigmas anteriores por um conjunto maisradical de todo o terreno dos Estudos Culturais em torno dos adequado de conceitos parecem desvairadamente ambiciosas.termos "discurso" e "o sujeito". Uma forma de compreender Suas pretensoes de haver integrado ao marxismo um materia-essa linha de pensamento e ve-!a como uma tentativa de lismo mais adequado sao, basicamente, uma reivindicacaopreencher aquela lacuna no estruturalismo inicial (seja em semantica, em vez de conceitual.suas variantes marxistas ou nao-marxistas) onde, em discursos Um segundo desenvolvimento e a tentativa de retorno aosanteriores, era de se esperar que "o sujeito" e a subjetividade termos de uma "economia politica" de cultura mais classica.apareceriam, mas nao o fizeram. Este e, precisamente, um Essa posi^ao argumenta que a concentrac.ao sobre os aspectosdos pontos-chave onde o culturalismo faz sua critica acirrada culturais e ideologicos tem sido exagerada. Ela restaura ossobre os "processes sem sujeito" do estruturalismo. A dife- termos mais antigos da "base/superestrutura", encontrando,renga e que, enquanto o culturalismo corrigiria o hiperestru- na determinacao em ultima instancia do cultural-ideologicoturalismo dos modelos anteriores pela restaurac.ao do sujeito pelo economico, aquela hierarquia de determinates queunificado (coletivo ou individual) da consciencia no centro parece faltar a ambas as alternativas. Essa posicao insiste queda "Estrutura", a teoria do discurso, por intermedio dos os processes economicos e as estruturas de produgao culturalconceitos freudianos do inconsciente e dos conceitos laca- sao mais significantes do que seu aspecto cultural-ideologiconianos de como os sujeitos sao constituidos na linguagem e que estes sao um tanto adequadamente apreendidos na(pela entrada no Simbolico e na Lei da Cultura), restaura terminologia mais classica do lucro, exploragao, mais-valia eo sujeito descentrado, o sujeito contraditorio, como um a analise da cultura como mercadoria. Ela retem a nocao deconjunto de posicoes na linguagem e no conhecimento, a ideologia enquanto "falsa consciencia".partir do qual a cultura pode parecer enunciada. Essa abor- Naturalmente, ha certa vantagem na afirmativa de que tantodagem identifica claramente uma lacuna, nao apenas no o estruturalismo quanto o culturalismo, de formas distintas,estruturalismo mas no proprio marxismo. O problema e que negligenciaram a analise economica da producao culturala maneira de conceitualizac.ao desse "sujeito" da cultura tem e ideologica. Mesmo assim, com o retorno a esse terrenoum carater transistorico e "universal": ela aborda o sujeito- mais "classico", muitos problemas que o cercavam tambemem-geral, nao os sujeitos sociais historicamente determi- reaparecem. A especificidade do efeito da dimensao culturalnados, ou linguagens especificas socialmente determinadas. e ideo!6gica rnais uma vez tende a desaparecer. Tende aAssim, e incapaz, ate aqui, de movimentar suas proposic.6es 155154
  • 81. conceber o nivel economico nao apenas como uma expli- com as outras. De tal posicao, nem uma forma^ao social, nem o Estado, pode ser adequadamente pensado. E, de fato, cacao "necessaria", mas "suficiente", dos efeitos culturais e ideo!6gicos. Seu foco sobre a analise da forma de merca- Foucault constantemente cai no buraco que ele mesmo cavou. Pois quando — contrariamente as suas posicoes epistemo!6- doria, semelhantemente, obscurece todas as distincoes cuida- dosamente estabelecidas entre as diferentes praticas, uma vez gicas bem-definidas — ele se depara com certas "correspon- dencias" (por exemplo, o simples fato de que os momentos que sao os aspectos mais genericos da forma de mercadoria mais importantes de transicao que ele tracou em cada um de que atraem a atencao. Portanto, suas deducoes se restringem seus estudos — sobre a prisao, a sexualidade, a medicina, o basicamente ao nivel epocal de abstracao: as generalizacoes hospicio, a linguagem e a economia politica — parecem todossobre a forma de mercadoria se aplicam verdadeiramente a convergir exatamente em torno daquele ponto em que otoda a era capitalista. Muito pouco dessa analise concreta e capitalismo industrial e a burguesia fazem seu rendez-vousconjuntural pode ser deduzido nesse alto nivel de abstracao historico e decisive), Foucault cai num reducionismo vulgar,da "logica do capital". Ela tambe"m tende a seu proprio funcio- que desfigura inteiramente as posicoes sofisticadas que elenalismo — um funcionalismo da "logica", e nao da "estrutura" avancara alhures. Ele e bem capaz de conduzir, pela portaou da historia. Essa abordagem, tambem, possui discerni- dos fundos, as classes que acabara de expulsar da frente.mentos que valem a pena acompanhar. Mas ela sacrifica muitodaquilo que dolorosamente assegurou, sem ganho compensa- Eu disse o suficiente para indicar que, na minha visao, e atorio em sua capacidade explanativa. vertente dos Estudos Culturais que tentou pensar partindo A terceira posicao esta intimamente relacionada a iniciativa dos melhores elementos dos paradigmas culturalista e estru-estruturalista, mas seguiu o caminho da "diferenca" ate" a hete- turalista, atraves de alguns dos conceitos elaborados porrogeneidade radical. A obra de Foucault — que atualmente Gramsci, a que mais se aproxima das exigencias desse campogoza de um daqueles periodos de discipulado acritico pelo de estudo. E a razao para tal deve agora ser obvia. Emboraqual os intelectuais britanicos reproduzem hoje sua depen- nem o culturalismo nem o estruturalismo bastem, como para-dencia das ideias francesas de ontem — tern surtido um efeito digmas auto-suficientes para o estudo, eles sao centrals parasoberbamente positive, sobretudo porque, ao suspender os o campo, o que falta a todos os outros contendores, porque,problemas quase insoluveis de determinacao, Foucault entre si — em suas divergencias, assim como em suas conver-possibilitou um grato retorno a analise concreta de formacoes gencias — eles enfocam o que deve ser o problema centralideologicas e discursivas especificas e aos locals de sua elabo- dos Estudos Culturais. Eles nos devolvem constantementeracao. Foucault e Gramsci, entre eles, sao responsaveis por ao terreno marcado pela dupla de conceitos fortemente arti-muitas das obras mais produtivas sobre analise concreta hoje culados, mas nao mutuamente excludentes, de cultura/ideo-em andamento na area; desta forma reforcando e — parado- logia. Juntos, eles propoem os problemas que advem dexalmente — sustentando o sentido da instancia historica pensar tanto a especificidade de praticas diferentes como asconcreta que tem sido sempre um dos pontos fortes do cultu- formas de unidade articulada que constituent. Fazem umralismo. Mas, novamente, o exemplo de Foucauft e positive constante — embora fraco — retorno a metafora base/superes-somente se sua posicao epistemologica geral nao for engo- trutura. Estao corretos ern afirmar que esta questao — quelida por inteiro. Pois, de fato, Foucault suspende tao resolu- resume todos os problemas de uma determinacao nao-redu-tamente a crftica e adota um ceticismo tao extreme a respeito tiva — e o cerne da questao; e que da solucao desse problemade qualquer determinacao ou relacionamento entre as praticas, depende a saida dos Estudos Culturais da oscilacao entrea nao ser aquelas basicamente contingentes, que somos auto- idealismo e reducionismo. Eles confrontam — mesmo emrizados a ve-lo nao como um agnostico em relacao a essas modos radicalmente distintos — a dialetica entre condicoesquestoes, mas como alguem profundamente comprometido com e consciencia. Em outro nivel, colocam a questao da relacaoa necessaria nao-correspondencia de todas as praticas umas entre a logica de pensar e a "logica" do processo historico. 157156
  • 82. 13 WILLIAMS, Raymond. Base and Superstructure in Marxist Cultural Theory.Continuam a sustentar a promessa de uma teoria realmente New Left Review, n. 82, 1973-materialista da cultura. Em seus duradouros antagonismos, 14 WILLIAMS, Raymond. Marxism and Literature. Oxford: Oxford Universityque se reforcam mutuamente, nao prometem uma sintese Press, 1977. Metrxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979-1facil. Entretanto, entre si, definem o espaco e os limites dentro 15dos quais essa sintese podera ser constituida. Nos Estudos WILLIAMS. Marxism and literature, p. 30-31, 82.Culturais, eles sao "o que ha". 16 THOMPSON. New Left Review, 1961. 17 THOMPSON. New Left Review, p. 33- 18 [HALL, S. Cultural Studies: Two Paradigms. Media, Culture THOMPSON, E. P. Peculiarities of the English. Socialist Register, p. 351- and Society, n. 2, p. 57-72, 1980. Traducao de Ana Carolina 352, 1965- Escosteguy, Francisco Rudiger, Adelaine La Guardia Resende] 19 THOMPSON, E. P. The Poverty of Theory. London: Merlin, 1978. [A miseria da teoria ou um planetaria de erros. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.] 20 THOMPSON. The Poverty of Theory, p.356. 21 Ver, sobre "culturalismo", os dois artigos seminais de Richard JohnsonNOTAS sobre a operacao do paradigma: Histories of Culture/Theories of Ideology. In: BARRETT, M.; CORRIGAN, P. et al. (Org.). Ideology and Cultural1 HOGGART, Richard. The Uses of Literacy. Londres: Chatto & Windus, 1957. Production. Londres: Croom Helm, 1979; e Three Problematics. In: CLARKE;[As tttilizacoes da cultura-. aspectos da vida cultural da classe trabalhadora. CRITCHER; JOHNSON. Working Class Culture. Londres: Hutchinson/CCCS,Lisboa: Presenfa, 19731; WILLIAMS, Raymond. Culture and Society 1780- 1979- Sobre os perigos da "teorizacao dicotomica", ver a Introdu9ao,195O. Londres: Chatto & Windus, 1958. [Cultura e sociedade 1780-1950. "Representation and Cultural Production". In: BARRETT, M, ; CORRIGAN, P.Sao Paulo: Nacional, 1969-1 No original do autor: WILLIAMS, R. Culture et al. (Org.). Ideology and Cultural Production. Londres: Croom Helm,and Society, 1780-1950. Harmondsworth: Penguin, 1963- 1979- 222 THOMPSON, E. P. The Making of the English Working Class. Londres: ALTHUSSER, L. Ideology and Ideological State Apparatuses. In: .Victor Gollanz, 1963- [Aformacao da classe operdria inglesa. Rio de Janeiro: Lenin and Philosophy, and other Essays. Londres: New Left Books, 1971.Paz e Terra, 1988.] 23 ALTHUSSER, L. For Marx. Londres: Allen Lane, 1969. p- 233- [A favor de3 WILLIAMS, 1963= 16. Marx. Rio de Janeiro: Zahar, 1979]- 244 Ver WILLIAMS, R. Culture is Ordinary. Conviction, 1958. MARX, K. Introducao a crltica da economia politka. In: . Contri- buicao a critica da economia politica. Sao Paulo: Martins Fontes, 1983.WILLIAMS, R. The Long Revolution. Harmondsworth: Penguin, 1965. p. 55- 25 LACLAU, E. Politics and Ideology in Marxist Theory. Londres: New Left6 WILLIAMS, 1965. p. 55. Books, 1977.7 WILLIAMS, 1965. p. 61.8 WILLIAMS, 1965. p. 63.9 WILLIAMS, 1965. p. 61.10 WILLIAMS, R. Literature and Sociology: in memory of Lucien Goldmann.New Left Review, n. 67, p. 10, 1971.11 WILLIAMS, 1971. p. 12.12 THOMPSON, E. P. Reviews of Raymond Williamss The Long Revolution.New Left Review, n. 9-10, 1961. 159158
  • 83. porque nela tudo interage com tudo — essa e a abordagem tradicional, socio!6gica e multifatorial, que nao contem prioridades determinantes. Uma formacao social e urna "estrutura em dominancia". Exibe certas tendencias distintas, um certo tipo de configuracao e uma estruturacao definida. E SGNIFICAtJAO, REPRESENTAfAO, IDEOIOGIA por isso que o termo "estrutura" continua a ser importante. Contudo, trata-se de uma estrutura complexa em que e impos- sivel reduzir facilmente um nivel de pratica a outro. A reae.ao ALTHUSSER E OS DEBATES POS-ESJRUMALISTAS contra ambas essas tendencias ao reducionismo nas versoes classicas da teoria marxista da ideologia tem ocorrido ha bastante tempo — na verdade, foram Marx e Engels que deram inicio a esse trabalho de revisao. Mas Althusser foi a figura chave da teorizacao moderna sobre essa questao, Este ensaio analisa a contribuicao de Althusser que rompeu claramente com alguns dos velhos protocolos e para a re-conceituacao de ideologia. Em vez forneceu uma alternativa convincente que se mantem em deproceder a uma exegese detalhada, o ensaio geral dentro dos termos da problernatlca marxista. Essa fornece uma reflexdo geral sobre os ganhos foi uma grande realizacao teorica, embora hoje queirarnos teoricos advindos do rompimento de Althusser com criticar e modificar os termos dessa facanha. Creio que as formulacoes marxistas cldssicas de ideologia. Althusser esta correto ainda ao argumentar que essa e a Argumenta-se que esses ganhos abriram uma maneira como Marx teoriza a formacao social na "Introducao nova perspectiua dentro do marxismo, o que de 1857" aos Grundrisse (1953/1973), seu texto metodologico possibilitou uma significativa revisao do pensa- mais elaborado. mento sobre a ideologia. Outra contribuigao geral de Althusser foi que ele me possibilitou viver na diferenca e com ela. Sua ruptura com a concepcao monistica do marxismo demandou a teorizacao Althusser me convenceu, e permaneco convencido, de que da diferen£a — o reconhecimento de que ha distintas contra-Marx conceitua o conjunto das relacoes que compoem a socie- dicoes sociais cujas origens sao tambem diversas; que asdade — a "totalidade" de Marx — nao como uma estrutura contradicoes que impulsionam os processes historicos nemsimples, mas, sim, essencialmente complexa. Conseqiiente- sempre surgem no mesmo lugar, nem causam os mesmos efeitosmente, a relagao entre os niveis dentro dessa totalidade — historicos. Devemos pensar sobre a articulagao entre asdigamos, o economico, o politico, o ideologico (como diria diversas contradicoes, sobre as distintas especificidades eAlthusser) — nao pode ser simples ou imediata. Assim, a ideia durances pelas quais elas operam, sobre as diferentes moda-de inferir as contradicoes sociais nos distintos niveis da Hdades nas quais funcionam. Creio que Althusser esta corretopratica social simplesmente em termos de um principle ao apontar o habito inflexivelmente monistico da pratica degovernante de organizacao social e economica (nos termos muitos dos mais eminentes marxistas que se dispoem, a bemclassicos de Marx, o "modo de producao"), ou de interpretar da complexidade, a jogar com a diferenca, contanto que hajaos diferentes niveis de uma formacao social como uma a garantia de uma unidade mais adiante. Porem, avancoscorrespondencia especular entre praticas, em nada contribui significativos em relacao a essa teleologia dilatada podemnern tampouco constitui a forma pela qual Marx, afinal, ser encontrados ja na "Introducao de 1857" aos Grundrisse,concebeu a totalidade social. Evidentemente, uma formagao Nessa obra, Marx afirma, por exemplo, que todas as linguassocial nao apresenta uma estrutura complexa simplesmente possuem, naturalmente, alguns elementos em comum. Caso 161
  • 84. contrario nao poderiamos identifica-las como pertencentes de uma nocao igualmente abstrata da Resist^ncia. Seu proto- ao rnesmo fenomeno social. Mas ao dizermos isso, apenas colo revela "nao apenas o Estado, mas tambem as microfisicasexpressamos algo sobre a lingua em um nivel muito geral de dispersas do poder"; sua pratica privilegia continuamente esteabstrafao; o nivel da "linguagem em geral". Este e apenas o ultimo e ignora a existencia do poder de estado.imcio da investigate. O problema teorico mais relevante a E claro que Foucault (1972/1980) esta correto ao afirmarse pensar e a especificidade e a diferenca das linguas; que muitos marxistas concebem o Estado como um tipo deexaminar, em analises concretas, as muitas determinacoes objeto unico; isto e, simplesmente como a vontade unificadadas formacoes linguisticas ou culturais que as diferenciam do comite da Classe Dominante, seja la onde for que ele estejaumas das outras. Um dos mais profundos insights criticos se reunindo hoje. Desta concepcao deriva o necessario "empa-de Marx, uma de suas proposicoes epistemologicas mais relhamento" de tudo. Concordo que nao se pode mais pensarnegligenciadas, que ate mesmo Althusser interpreta um tanto o Estado desta forma. O Estado e uma formacao contradi-incorretamente, e a de que o pensamento critico se afasta da toria, o que signifies que ele possui distintos modos de acao,abstracao para o nivel do concreto-pensado, o qual resulta atua em diferentes locais: e pluricentrado e multidimen-de muitas determinacoes (ver Hall: "Notas sobre a Introducao sional. Exibe tenddncias bem distintas e dominantes, masde 1857", 1974). nao apresenta a inscricao de um carater de classe unico. Por Entretanto, devo acrescentar imediatamente que Althusser outro lado, o Estado continua a ser um dos locais cruciais nanos permite pensar a "diferenca" de uma forma especial e um formaclo social do capitalismo moderno, onde praticas poli-tanto distinta das tradicoes subseqiient.es, que as vezes o ticas de diversos tipos sao condensadas. Em parte, a funcaoreconhecem como seu criador. Se considerarmos a teoria do do Estado consiste em unir ou articular em uma instanciadiscurso,1 por exemplo — o pos-estruturalismo ou Foucault complexa uma gama de discursos politicos e praticas sociais— veremos que ali, nao apenas o deslocamento da pratica que, em diferentes locais, se ocupam da transmissao epara o discurso, mas tambem a forma como a enfase sobre a transformacao do poder — sendo que algumas dessas praticasdiferenca — sobre a pluralidade dos discursos, sobre o tern pouca relacao com o dommio politico em si e se preo-perpetuo resvalar do significado, sobre o infinite deslizamento cupam com outros dominios articulados ao Estado, como pordo significante — ultrapassa hoje o ponto onde ela e capaz exemplo, a vida familiar, a sociedade civil, as relacoesde teorizar as irregularidades necessarias de uma unidade economicas e de genero. O Estado e a instancia de atuacaocomplexa ou mesmo a "unidade na diferenca" de uma estru- de uma condensacao que permite a transformacao daqueletura complexa. Creio que por esse motivo, sempre que ponto de intersecao das praticas distintas em uma praticaFoucault se ve diante do risco de associar as coisas (tais como sistematica de regulacao, de regra e norma, e de normali-os muitos deslocamentos epistemologicos tracados por ele, zacao dentro da sociedade. O Estado condensa praticas sociaisos quais fortuitamente coincident! com a passagem do ancien muito distintas e as transforma em operacoes de controle eregime para o moderno na Franca), ele se apressa em nos dommio sobre classes especificas e outros grupos sociais.garantir que nada jamais se encaixa a coisa alguma. A enfase A maneira de chegar a essa concepcao e nao substituir asempre recai sobre o continue resvalamento de qualquer diferenfa pelo seu oposto especular, a unidade, mas repensarconjuntura concebfvel. Creio que nao ha outra forma de ambas em termos de um novo conceito — a articulacao.2 Ecompreender o eloqiiente silencio de Foucault sobre a questao este justamente o passo que Foucault se recusa a dar.do Estado. Naturalmente, ele diria que sabe que o Estado Portanto, devemos caracterizar o avanco de Althusser naoexiste: que intelectual frances nao o sabe? Mesmo assim, ele apenas em termos de sua insistencia na "diferenca" — este econsegue apenas postula-lo como um espaco abstrato e o grito de guerra da desconstrucao derridiana — mas emvazio — o Estado como gulag — o outro ausente/presente termos da necessidade de se pensar a unidade com a diferenga;162 163
  • 85. a diferenca em uma unidade complexa, sem que isso implique A articulacao da diferen£a e da unidade envolve uma o privilegio da diferenca em si. Se Derrida (1977) estiver elaboracao distinta do conceito-chave marxista de determi- correto ao afirmar que ha um continuo deslizamento do signi- nacao. Algumas formulacoes classicas, como base/superes- ficante, uma contmua "deferencia", e correto tambem afirmar trutura, que tern dominado as teorias marxistas da ideologia, que sem algumas "fixacoes" arbitrarias, ou o que estou representam formas de se pensar a determinacao essencial- chamando de "articulacao", nao existiria qualquer sentido mente baseadas na ideia de uma correspondencia necessaria ou significado. O que e a ideologia, senao precisamente a entre um nivel e outro de uma formacao social. Havendo ou tarefa de fixar significados atraves do estabelecimento, por nao identidade imediata, rnais cedo ou mais tarde as praticas selecao e combinacao, de uma cadeia de equivalencias? E por politicas, legais e ideologicas — supoem essas teorias — isso que, apesar de todas as suas falhas, quero apresentar irao se conformar e, portanto, estabelecerao uma correspon- nao o texto althusseriano protolacaniano, neofoucaultiano, dencia necessaria com aquilo que — erroneamente — deno- pre-derridiano — "Aparelhos ideologicos de Estado" (Althusser, minamos "o economico". Ora, pelos padroes obrigatorios 1970/1971) — e, sirn, o texto menos elaborado teoricamente, atuais da teorizacao pos-estruturalista avancada, no recuo da mas a meu ver o mais produtivo, o mais original, talvez por "correspondencia necessaria", tern ocorrido o usual e impla- ser mais experimental: AfavordeMarx(.Mthusser, 1965/1969); cavel deslize filosofico para o lado oposto; ou seja, a elisao e especialmente o ensaio "Sobre a contradicao e a sobrede- para algo que parece quase o mesmo, mas que e radicalmente terminacao" (p. 87-128), que comeca justamente a pensar diferente em sua essencia — a declara<;ao de que "nao ha sobre os tipos complexos de determinacao sem reducionismo necessariamente qualquer correspondencia". Paul Hirst, um a uma unidade simples. (Sempre prefer! A favor de Marx dos mais sofisticados teoricos pos-marxistas, contribuiu, com ao texto mais completo e estruturalista de Lendo O capital seu consideravel peso intelectual e autoridade, para esse [Althusser e Balibar, 1968/1970]: uma preferencia fundada nao deslize prejudicial. "Nenhuma correspondencia necessaria- somente em minha desconfianca de toda a maquinaria estru- mente" expressa exatamente a ideia essencial a teoria doturalista de causalidade inspirada em Spinoza que se faz ouvir discurso — de que nada de fato se Uga a coisa alguma. Mesmoneste ultimo texto; mas tambem ern meu preconceito contra quando a analise de uma formacao discursiva especificao modismo intelectual de se pressupor que o "mais recente" revela a constante superposicao ou o deslizamento de ume necessariamente "o melhor.") Nao me preocupo aqui com conjunto de discursos em outro, tudo parece depender dao absolute rigor teorico de A favor de Marx: assumo o reiteracao polemica do principio de que, necessariamente,risco do ecletismo teorico ao afirmar que estou inclinado a nao ha qualquer correspondencia.preferir ser "correto porem nao rigoroso" a ser "rigoroso, mas Nao posso aceitar essa simples inversao. Creio que o queincorreto". Ao nos permitir pensar sobre os distintos niveis e descobrimos e que nao ha correspondencia necessaria, o quetipos de determinacao, A favor de Marx forneceu-nos aquilo e algo diferente; e essa formulacao representa uma terceiraque falta a Lendo O capital; a capacidade de teorizar sobre posicao. Significa que nao ha lei que garanta que a ideologiaeventos historicos concretos, ou textos especificos (Marx e de uma classe esteja gratuita e inequivocamente presente ouEngels. A ideologia alemd, 1970), ou formacoes ideologicas corresponda a posicao que essa classe ocupa nas relacoesespecificas (o humanismo) como algo determinado por mais economicas de producao capitalista. A alegacao da "naode uma estrutura (ou seja, pensar o processo de sobredeter- garantia" — que rompe com a teleologia — tambem implicaminacao). Creio que "contradicao" e "sobredeterminacao" que nao existe necessariamente uma nao-correspondencia.sao conceitos teoricos muito ricos — um dos emprestimos Isto e, nao existe qualquer garantia de que, sob quaisquermais felizes de Althusser a Freud e Marx; a meu ver, nao se circunstancias, a Jdeologia e a classe nao possam se articularpode dizer que sua riqueza foi exaurida pelas formas como de forma alguma ou produzir uma forga social capaz deAlthusser os explorou. efetuar, por urn periodo, uma autoconsciente "unidade na164 165
  • 86. acao" em uma luta de classe. Urna posicao teorica fundada entre classes ou fracoes de classes, ou mesmo entre outros na abertura da pratica e da luta deve ter, como um de seus tipos de movimentos sociais, com aquelas formas de politica possiveis resultados, uma articulacao em termos de efeitos e ideologia que as permitem se tornar historicamente eficazes que nao corresponda necessariamente a suas origens. Em enquanto agentes sociais coletivos. A principal inversao termos mais concretes: uma intervencao efetiva de forcas teorica operada pela afirmativa "nenhuma correspondencia sociais especificas, digamos, nos eventos da Russia em necessaria" e a de que essa determinacao e transferida das 1917 nao requer que afirmemos que a revolucao russa foi origens geneticas da classe ou de quaisquer outras forcas o produto de todo o proletariado russo, unido por tras de sociais de uma estrutura para os efeitos ou resultados de uma uma unica ideologia revolucionaria (o que claramente nao pratica. Portanto, concordo com aquelas partes em que foi o caso); nem que o carater decisive da alianca (articu- Althusser, a meu ver, retem a dupla articulacao entre "estru- lacao conjunta) dos trabalhadores, camponeses, soldados e tura" e "pratica", em vez da causalidade estruturalista de intelectuais, que constituiam a base social daquela inter- Lendo O capital ou das passagens de abertura do Politicalvencao, foi garantido pelo lugar especifico e a posicao destes Power and Social Classes [Poder politico e classes sociais] de setores na estrutura social russa e pelas formas necessarias Poulantzas (1968/1975). Por "dupla articulacao" quero dizer de consciencia revolucionaria a eles associadas. Contudo, que a estrutura — as condicoes dadas de existencia, a estru- como Lenin surpreendenternente observou, 1917 aconteceu tura das determinacoes em qualquer situacao — pode tambem de fato quando, "como resultado de uma situacao historica ser compreendida, de outra perspectiva, como simples resul-unica, correntes absolutamente dessemelhantes, interesses de tado de praticas anteriores. Pode-se dizer que uma estruturaclasse absolutamente heterogeneos, conflitos polfticos e e o resultado de praticas anteriormente estruturadas. Estas,sociais absolutamente contrdrios ... fundiram-se ... de forma portanto, constituem as "condicoes dadas", o ponto deespantosamente harmonica". O comentario de Althusser partida necessario, para novas geracoes de praticas. Emsobre essa passagem em A favor de Marx nos alerta para o nenhum caso devera a "pratica" ser tratada como algo transpa-fato de que, para uma contradicao se tornar "ativa em seu rentemente intencional: fazemos a historia, mas com base emsentido mais forte e se tornar um principle de ruptura, deve condicoes anteriores nao produzidas por nos rnesmos. Ahaver um acumulo de circunstancias e correntes capazes de pratica e a forma como uma estrutura e ativamente reprodu-se fundir em uma unidade de ruptura, sejam quais forem as zida. Contudo, ambos os termos sao necessarios para que sesuas origens e sentido" (Althusser, 1965/1969, p. 99). O evite o risco de tratar a historia como nada mais do que ointuito de uma pratica politica teoricamente informada deve produto de uma maquina internamente estruturalista que secertamente ser o de provocar ou construir a articulacao entre auto-impulsiona. A dicotomia estruturalista entre "estrutura"as forgas sociais e economicas e aquelas formas de politica e "pratica" — como entre "sincronia" e "diacronia" — atendee ideologia que possam leva-las, na pratica, a intervir na a um proposito analitico util, mas nao deve ser fetichizadahistoria de forma progressista — uma articulacao que deve atraves de uma distingao rigida e mutuamente exclusiva.ser construida pela pratica, justamente porque nao e garantida Pensemos mais um pouco sobre a questao nao da necessi-pela forma como essas forcas se constituem a priori. dade, mas da possibilidade de efetuar articulagoes entre grupos Isso faz com que o modelo fique ainda mais indetermi- sociais, praticas politicas e formacoes ideologicas que possamnado, aberto e contingente do que propoe a posicao classica. criar, como resultado, as rupturas historicas ou mudancas queEle sugere que nao se pode "inferir" a ideologia de uma classe nao mais vemos inscritas ou garantidas nas proprias estru-(ou mesmo de setores de uma classe) a partir de sua posigao turas e leis do modo capitalista de producao. Isso nao deveoriginal na estrutura das relacoes socioeconomicas. Porem, ser lido como um argumento de que nao ha tendencias queele se recusa a afirmar que e impossivel estabelecer articu- emergem do nosso posicionamento dentro das estruturas daslacoes, atraves de uma pratica de desenvolvimento da luta, relacoes sociais. Nao devemos fugir do reconhecimento da166 167
  • 87. relativa autonomia da pratica (no que diz respeito a seus antialthusseriana de E. P. Thompson (1978), The Poverty of efeitos) apenas para fetichizar a Pratica — um equfvoco come- Theory [A pobreza da teoria} nao e a catalogacao destes e de tido por muitos dos maoistas pos-estruturalistas por um breve outros erros fundamentals de direcao no projeto de Althusser momento, antes de se tornarem adeptos da "Nova Filosofia" — que Thompson nao foi o primeiro a apontar — mas a inabi- da Direita Francesa em voga. As estruturas exibem ten- lidade de reconhecer, ao mesmo tempo, que avancos reals dencias — linhas de forca, aberturas ou fechamentos que estavam sendo alcancados pela obra de Althusser. Isso levou constrangem, modelam, canalizam e, nesse sentido, "deter- a uma avaliacao nao dialetica do autor e, incidentalmente, minam". Mas estas nao podem definir, no sentido de fixar do trabalho teorico em geral. Dai a necessidade de afirmarmos absolutamente ou garantir. As ideias que devem pensar nao aqui simplesmente aquilo que, apesar de suas muitas fragili- estao irrevogavel ou indelevelmente inscritas nas pessoas; dades, Althusser realizou, e que estabelece um limiar atras o senso politico que elas devem ter nao se encontra como do qual nao podemos ficar. Depois de "Contradicao e sobre- que inscrito em seus genes sociologicos. A questao nao e o determinacao", o debate sobre a formacao social e a determi- desdobramento de alguma lei inevitavel, mas os elos que nacao no marxismo nunca sera o mesmo. Isso constitui, por podem ser estabelecidos, mesmo que nao necessariamente. si so, "uma enorme revolucao teorica". Nao ha qualquer garantia de que as classes aparecerao emseus lugares politicos determinados, como Poulantzas des-creveu tao vividamente, com seus numeros de registro nas IDEOLOGIAcostas. Ao desenvolver praticas que articulem diferencas emuma vontade coletiva ou ao gerar discursos que condensem Voltemo-nos agora para a questao especifica da ideologia.uma gama de conotacoes, as condicoes dispersas da pratica A critica da ideologia feita por Althusser segue muitas dasdos diferentes grupos sociais podem ser efetivamente aproxi- linhas de sua critica as posicoes gerais da problematicamadas, de modo a transformar essas forcas sociais nao em uma marxista classica acima esbocada. Isso quer dizer que ele sesimples classe "em si mesma", definida por outras relacoes sobre opos ao reducionismo de classe na ideologia — a ideia deas quais ela nao tern controle, mas tambem em uma classe que ha alguma garantia de que a posicao ideologica decapaz de interferir enquanto forca historica, uma classe "por uma classe social sempre corresponded a sua posicao nassi mesma" capaz de estabelecer novos projetos coletivos. relacoes sociais de producao. Althusser critica aqui uma ideia Estes me parecem ser hoje os avancos produtivos inaugura- muito importante que derivou da obra The German Ideologydos por Althusser. Considero essa inversao de conceitos [A ideologia alemd] (Marx e Engels, 1970) — um texto fun-basicos algo de mais valor que muitos outros aspectos da dador da teoria marxista classica da ideologia, a saber: queobra de Althusser, que, ao surgirem, fascinaram seus disci- as ideias dominantes sempre correspondent as posicoes dapulos. Por exemplo, a questao de os tracos implicitos do classe dominante; que a classe dominante em geral tern suapensamento estruturalista em Marx poderem ser sistemati- propria mentalidade, localizada em uma ideologia particular.camente transformados em um estruturalisrno maduro atraves A dificuldade e que isso nao nos permite compreenderda aplicacao habilidosa de uma combinatoria estruturalista porque todas as classes dominantes que conhecemos terndo tipo levi-straussiano — a problematica de Lendo O capital; avancado em situacoes historicas concretas, atraves de umaou a tentativa mais claramente idealista de isoiar uma "pra- variedade de ideologias, ou pela troca constante de ideologias.tica teorica" autonoma; ou a desastrosa fusao do histori- Tampouco podemos compreender porque ocorrem lutascismo com "o historico", que permitiu uma avalanche de internas em todas as grandes formacoes politicas, em tornoespeculacoes teoricas anti-historicas por seus epigonos; ou das "ideias" apropriadas pelas quais os interesses da classea malfadada aventura de substituir Spinoza pelo fantasma dominante deverao ser garantidos. Nem mesmo sabemosde Hegel na maquina marxista. A principal falha na diatribe porque, ate certo ponto em muitas formacoes sociohistoricas,168 169
  • 88. as classes dominadas tern utilizado "ideias dominances" para instancias de uma formacao social. E assim, usando a critica interpretar e definir seus interesses. Descrever tudo isso simples- das concepgoes cradicionais de ideologia com as quais se mente como "a ideologia dominance", que se reproduz de deparou, propos-se a oferecer algumas alternativas. Exami- forma nao problematica e tern continuado a avancar desde nemos, pois, brevemence o que significam essas alcernativas o surgimento do livre mercado, 6 uma forma injustificavel de para Althusser. forc.ar a ideia de uma identidade empirica entre a classe e a ideologia, que a analise historica concreta nega. O segundo alvo da critica de Althusser e a noe.ao da "falsa "APARELHOS IDEOL6GICOS DE ESTADO" consciencia" que, segundo ele, pressupoe a existencia de uma unica e verdadeira ideologia para cada classe. Em seguida, A alternatlva familiar a todos e apresentada no ensaio compara sua nao manifestacao a um biombo que se interpoe "Aparelhos ideologicos de Estado". Algumas proposigoes entre os sujeitos e as relacoes verdadeiras nas quais eles nesse ensaio causaram profundo impacto e influenciaram se localizam, impedindo-os de reconhecer as ideias que sobremaneira os debates futures. Em primeiro lugar, Althusser deveriam ter, A nocao da "falsa consciencia", diz Althusser procura pensar a relacao entre ideologia e outras praticas corretamente, esta fundada em uma relacao empirica com o sociais em termos do conceito de reproducao. Qual e a funcao conhecimento. Ela supoe que as relagoes sociais fornecam da ideologia? E reproduzir as relacoes sociais de producao. seu proprio conhecimento sem ambigiiidade aos sujeitos As redoes sociais de producao sao necessarias a existencia pensantes e perceptivos; que haja uma relac.ao transparence material de qualquer formac.ao social ou modo de producao. entre as situacoes nas quais os sujeitos se situam e como Mas os elementos ou os agentes de um modo de produc.ao, estes passam a (re)conhece-Ias. Conseqiientemente, o conhe- especialmente no que diz respeito ao facor critico do trabalho cimento verdadeiro deve estar sujeito a um tipo de mascara- destes, tern que ser continuamente produzidos e reprodu- menCo, cuja origem e muito dificil de identificar, mas que zidos. Althusser argumenta que, cada vez mais nas formafoes impede o "reconhecimento do real". Nessa concepc,ao, sao sociais capitalistas, o trabalho nao e reproduzido dentro dassempre os outros, nunca nos mesmos, que incorrem na falsa proprias relagoes sociais de produgao, mas fora delas. Certa-consciencia, que sao enfeitic.ados pela ideologia dominante, mente, para ele nao se trata apenas de uma reprodueao bio-que sao os "bobos" da historia. logica ou tecnica, mas tambem de uma reprodufao social e A terceira critica de Althusser se desenvolve a partir de cultural. E produzido no dominio da superestrutura: emsuas concepfoes de teoria. Ele insiste que o conhecimento instituicoes como a familia e a Igreja. Requer instituicoesdeve ser produzido como consequencia de uma pratica espe- culturais como a midia, os sindicatos, os partidos politicoscifica. O conhecimento, seja ele ideologico ou cientifico, e etc., que nao estao diretamente ligados a producao em si,produto da pratica. Nao o reflexo do real no discurso ou na mas que exercem a fungao crucial de "cultivar" um certo tipolinguagem. As relagoes sociais tern que ser "representadas na de trabalho moral ou culcural — aquilo que o modo capita-fala e na linguagem" para adquirir significado. O significado lista .moderno de produc. ao requer. As escolas, universidades,e produzido como resultado do trabalho ideologico ou teo- escolas profissionalizant.es e centres de pesquisa reproduzemrico. Nao e simplesmente o resuICado de uma epistemologia a cornpetencia tecnica do trabalho exigida pelos sistemasempiricista. capitalistas avangados de produ^ao. Contudo, Althusser Consequentemente, Althusser pretende pensar a especifi- assinala que uma forga de trabalho tecnicamente competente,cidade das praticas ideologicas ou sua diferenga a partir de mas politicamente insubordinada, nao representa uma forcaoutras praticas sociais. Tambem pretende pensar "a complexa de trabalho para o capital. Porcanto, a tarefa mais importanteunidade" que articula o nfvel da pratica ideologica a outras e cultivar aquele tipo de Crabalho que e capaz e disposto, moral e politicamente, a se subordinar a disciplina, a logica,170 171
  • 89. a cultura e a coercao do modo econornico de producao do produzir seu oposto ou sua contradicao. Porem, uma ideia desenvolvimento capitalists, seja qual for o estagio a que ele de reproducao ajustada ao capital somente de forma fun- tenha chegado; ou seja, o trabalho que pode ser sujeitado ao cional, e que nao tenha tendencias de compensacao, nao se sistema dominante ad infinitum. Consequentemente, o que depare com contradi^oes, nem constitua local da luta de a ideologia faz, atraves dos diversos aparelhos ideologicos, classes, e inteiramente estranha a concepgao de reproducao e reproduzir as relacoes socials de producao neste sentido em Marx. mais amplo. Esta e a primeira formulacao de Althusser. A segunda proposicao influente em "Aparelhos ideolo- Certamente, a reproducao neste sentido e um termo gicos de Estado" e a insistencia de que a ideologia e umaclassico, que pode ser encontrado em Marx. Althusser nao pratica. Isto e, surge em praticas localizadas dentro dosprecisa ir alem do Capital(Marx, 1970) para descobri-lo, muito rituals dos aparelhos, instituicoes sociais ou organizacoesembora se deva dizer que ele confere ao termo uma definicao especificas. Althusser distingue aqui entre aparelhos repres-bem restritiva. Althusser se refere somente a reproducao da sivos de Estado, como a policia e o exercito, e aparelhosforca de trabalho, enquanto em Marx a reproducao e um ideologicos de Estado, como as igrejas, os sindicatos e aconceito muito mais amplo, que inclui a reproduce das midia, os quais nao sao diretamente organizados pelo Estado.relacoes socials de posse e exploracao, e ate mesmo do A enfase nas "praticas e rituais" e inteiramente bem-vinda,proprio modo de producao. Isso e bem tipico de Althusser especialmente se nao interpretada de forma muito rigorosa— ao "meter a mao" na algibeira marxista sempre saca um ou polemica. As ideologias constituem estruturas de pensa-termo que possui ampla ressonancia marxista, frequentemente mento e avaliagao do mundo — as "ideias" que as pessoasconferindo a este uma torcao limitadora que Ihe e muito utilizam para compreender como o mundo social funciona,propria. Assim, Althusser constantemente "reforca" o molde qual o seu lugar nele e o que devem fazer. Mas o problemaestruturalista do pensamento de Marx. para uma teoria materialista ou nao-idealista e como lidar com as ideias, que sao eventos mentals e, portanto, como Ha um problema neste posicionamento. A ideologia nesse Marx afirma, so podem ocorrer "no pensamento, na cabega"ensaio parece ser, principalmente, aquela da classe dominante. (onde mais?) de uma forma materialista nao-idealista e nao-Se existe uma ideologia das classes dominadas, esta parece vulgar. A enfase de Althusser aqui e util — livra-nos de umestar perfeitamente adaptada aos interesses e funcoes da classe dilema filosofico, tendo como virtude adicional o fato dedominante no modo capitalista de producao. Neste ponto, o estar correta. Ele enfatiza o lugar de onde as ideias surgem,estruturalismo althusseriano torna-se vulneravel a acusacao, onde os eventos mentais sao registrados ou concretizadosque tem sido dirigida contra ele, de um sorrateiro funciona- enquanto fenomenos sociais. Trata-se, naturalmente, dalismo marxista. A ideologia parece exercer a funcao que dela linguagem (compreendida no sentido de praticas significa-se demanda (qual seja, reproduzir a dominancia da ideologia tivas que envolvem o uso de signos; no dominio semiotico, odominante), exerce-la com eficacia e continuar assim, sem dominio do significado e da representacao). Igualmenteencontrar quaisquer "contra-tendencias" (este e um segundo importante e o lugar dos rituais e praticas de acao ou oconceito a ser encontrado em Marx sempre que ele discute comportamento social, nos quais as ideologias se imprimema reproducao, sendo justamente o conceito que distingue ou se Inscrevem. A linguagem e o comportamento sao os meiosa analise no Capital de um funcionalismo). Quando se pelos quais se da o registro material da ideologia, a modali-questiona sobre o campo contraditorio da ideologia, sobre dade de seu funcionamento. Esses rituais e praticas semprecomo a ideologia das classes dominadas e produzida e ocorrem em locais sociais, associados a aparelhos sociais.reproduzida, sobre as ideologias de resistencia, de exclusao, E por isso que devemos analisar ou desconstruir a linguagemde desvio etc., nao ha respostas nesse ensaio. Tampouco ha e o comportamento para decifrar os padroes de pensamentouma explicacao para o fato de a ideologia, tao efetivamentecosturada a formagao social na narrativa de Althusser, ideologico all inscritos. 173172
  • 90. Esse relevante avarice- em nossa forma de pensar a ideo- reproduzida nas chamadas instituicoes privadas da sociedade logia tern sido por vezes obscurecido por teoricos que argu- civil — o teatro do consentimento — aparentemente fora da mentam que as ideologias nao sao "ideias", mas praticas, e 6 esfera direta de acao do proprio Estado. Se tudo esta, mais isto que garante o materialismo da teoria da ideologia. Nao ou menos, sob a supervisao do Estado, e bem facil perceber concordo com tal enfase. A meu ver f ela padece de uma porque a unica ideologia que se reproduz e a dominante. "concretude mal aplicada". O materialismo do marxismo nao Mas a questao bem mais pertinente e dificil de saber e como pode se apoiar sobre o argumento de que ele abole o carater a sociedade permite que a liberdade relativa das instituicoes mental — muito menos os efeitos concretes — dos eventos civis opere no campo ideologico, dia apos dia, sem a direcao mentals (ou seja, o pensamento), pois este e, precisamente, ou sob imposicao do Estado; e porque o "jogo livre" da o equfvoco daquilo que Marx chamou de materialismo meca- sociedade civil, por um processo reprodutivo muito complexo, nico ou unilateral (nas "Theses on Feuerbach", Marx, 1963) reconstitui consistentemente a ideologia como "uma estru- [Teses sobre Feuerbach]. O materialismo marxista deve se tura em dominancia". Este e um problerna bem mais dificil apoiar sobre as formas materials nas quais o pensamento se de explicar, que a ideia do "aparelho ideologico de Estado" manifesta e sobre o fato de que ele surte efeitos reais e deixa de considerar. Repito, e um fechamento amplamente materials. De qualquer forma, esta e a maneira como entendo "funcionalista", que pressupoe uma necessaria corresponded- a tao famosa assercao de Althusser de que a existencia da cia funcional entre as exigencias do modo de producao e as ideologia e material "pois esta inscrita em praticas". Um certo funcoes da ideologia. prejuizo foi causado pela formulacao excessivamente drama- Afinal, nas sociedades democraticas, nao e uma ilusao tica ou condensada de Althusser, ao final desta parte de seu afirmar que e impossivel explicar adequadamente as tendencias argumento — que afirma, de forma singular: "Desaparecer: o estruturadas da midia como determinacoes do Estado sobre termo ideias". Althusser contribuiu muito, mas, no meu o que publicar ou permitir na televisao. Mas como e que um entender, nao aboliu a existencia das ideias e do pensamento, numero tao grande de jornalistas, que consultam somente sua por mais conveniente e tranquilizador que isso pudesse "liberdade" de publicar e o resto que se dane, tende a repro- parecer. O que ele demonstrou foi que as ideias possuem duzir, tao espontaneamente, explicacoes de mundo construi- uma existencia material. Como ele proprio afirma, "as ideias das dentro de categorias ideologicas essencialmente identicas? de um ser humano existem em suss acoes" e as acoes estao Como e que estas sao conduzidas, continuamente, a um reper- "inseridas em praticas governadas por rituais nos quais essas torio tao limitado dentro do campo ideologico? Mesmo ospraticas se inscrevem no amago da existencia material de um jornalistas que seguem a tradicao da denuncia da corrupcao,aparelho ideologico", o que e algo diferente (Althusser, 1970/ frequentemente parecem se inscrever em uma ideologia a 1971, p. 158). qual nao aderem conscientemente e que, em vez disso, "os Entretanto, a nomenclatura de Althusser apresenta serios escreve".problemas. O ensaio "Aparelhos ideo!6gicos de Estado", Este e o aspecto da ideologia sob o regime capitalistanovamente, pressupoe, de forma nao problematica, uma liberal que mais necessita de uma explicacao. E e por issoidentidade entre as varias partes "autonomas" da sociedade que, quando dizem "E claro que esta sociedade e livre; acivil e do Estado. Em contrapartida, essa articulacao esta midia atua com liberdade", nao faz sentido responder "Nao,no centro do problerna da hegemonia em Gramsci (1971). eles so atuam atraves da coercao do Estado." Quern deraGramsci tern dificuldades em estabelecer a fronteira entre fosse assim! Teriamos apenas que trocar quatro ou cinco deEstado e sociedade civil, pois situa-la nao e algo simples ou seus controladores-chave por alguns dos nossos. Na verdade,incontroverso. Uma questao crucial nas democracias liberals a reproducao ideologica nao se explica melhor pelas incli-desenvolvidas e precisamente a forma como a ideologia e nacoes dos individuos ou pela coercao explicita (controle174 175
  • 91. social), assim corno nao se pode explicar a reproducao econo- um lugar vazio. O "descentramento do sujeito", que e um mica pela forca direta. Ambas as explicates — e elas sao dos principals projetos do estruturalismo, ainda deixa sem analogas — devem comecar por onde O Capital comeea: solucao o problema da subjetivacao e da incorporate subje- analisando como a "liberdade espontanea" dos circuitos tiva da ideologia. Ha ainda os processos do efeito subjetivo realmente funciona. Este e um problema que a nomenclatura a serem explicados. Como e que os individuos concretes do "aparelho ideologico de Estado" simplesmente deixa de tomam seus lugares dentro de ideologias especificas se nao levar em conta. Althusser se recusa a distinguir entre Estado e temos nocao do que e o sujeito ou a subjetividade? Por outro sociedade civil (pelas mesmas razoes que mais tarde Poulantzas lado, temos que repensar essa questao distintamente da [1968/1975] espuriamente sustentou — ou seja, de que essa tradicao da filosofia empiricista. Esse e o inicio de um longo distincao pertencia apenas a "ideologia burguesa")- Sua desenvolvimento, que no "Aparelhos ideologicos de Estado" nomenclatura nao faz jus aquilo que Gramsci chamaria de comeca com a insistencia de Althusser de que toda ideologia imensas complexidades da sociedade nas formacoes sociais funciona atraves da categoria de sujeito e e somente na ideo- modernas — "as trincheiras e fortlficacoes da sociedade civil". logia e em funcao desta que o sujeito existe. Nem interpreta a complexidade dos processos pelos quais o Esse "sujeito" nao pode ser confundido com o individuo capitalismo deve funcionar para ordenar e organizar uma historicamente vivido. E uma categoria, a posicao em que o sociedade civil que nao esta, tecnicamente, sob seu controle sujeito — o eu das afirmativas ideologicas — e constituido. imediato. Estas sao questoes relevantes ao campo da ideo- Os proprios discursos ideologicos nos constituem enquanto logia e da cultura que a formulacao "aparelhos ideologicos sujeitos para o discurso. Althusser explica como isso funcio- de Estado" nos encoraja a evitar. na atraves do conceito de "interpelacao", tornado de empres- A terceira das proposicoes de Althusser 6 a sua afirmacao timo a Lacan (1966/1977). Este sugere que somos chamados de que a ideologia existe somente ern virtude da categoria ou convocados pelas ideologias que nos recrutam como seus constitutiva do "sujeito". Ha uma historia longa e complicada "autores", seu sujeito essencial. Somos constituidos pelos aqui. Contudo, posso abordar apenas uma parte dela. Ja processos inconscientes da ideologia, naquela posicao de afirrnei anteriormente que Lendo O capital e muito semelhante reconhecimento ou fixacao entre nos mesmos e a cadeia de a Levi-Strauss e outros estruturalistas nao marxistas em sua significados sem a qual nenhum significado ideologico seriaforma de argumentacao. Como Levi-Strauss (1958/1972), possivel. E justamente a partir dessa virada no argumentoAlthusser trata as relacoes sociais como processos sem que uma longa trilha se abre para dentro da psicanalise esujeito. Semelhantemente, quando insiste que as classes sao do pos-estruturalismo (finalmente abandonando a proble-simplesmente "portadoras e suportes" das relacoes economico- matica marxista).sociais, Althusser, como Levi-Strauss, utiliza uma concepcao Ha algo profundamente relevante e, ao mesmo tempo,saussuriana de linguagem, aplicada ao dominio da pratica seriamente lamentavel a respeito da forma do ensaio "Apa-em geral, para deslocar o tradicional agente/sujeito da episte- relhos ideologicos de Estado". Trata-se exatamente de suamologia classica ocidental. A posicao de Althusser aqui se dupl.a estrutura. A Parte I trata da ideologia e da reprodugaoaproxima bastante da nocao de que a linguagem nos fala, das relacoes sociais de producao. A Parte II estuda a consti-como o mito "fala" o produtor do mito. Isso abole o problema tuicao dos sujeitos e como as ideologias nos interpelam noda identificac/ao subjetiva e de como os individuos ou grupos dominio do Imaginario. Ao tratar esses dois aspectos em doisse tornam enunciadores de ideologias. Porem, ao desenvolver compartimentos distintos, ocorre um deslocamento fatal.sua teoria da ideologia, Althusser se afasta da ideia de que a O que em principle foi concebido como um elemento criticoideologia e simplesmente um processo sem sujeito. Ele parece dentro da teoria geral da ideologia — a teoria do sujeito —levar em considerac.ao a critica de que este dominio do sujeito passa a ser, metonimicamente, o todo da propria teoria. Ase da subjetividade nao pode ser deixado simplesmente como sofisticadas teorias que eventualmente se desenvolveram 177176
  • 92. Estado", em uma pequena parte de A favor de Marx (19657 tratam todas elas desta segunda questao. Como sao consti- 1969, p. 231-236), Althusser faz algumas afirmacoes simples tuidos os sujeitos em relacao aos distintos discursos? Qual sobre a ideologia, que merecem ser repetidas e pensadas. o papel dos processes inconscientes na criacao desses posi- E ali que ele define as ideologias como (parafraseando) cionamentos? Este e o objeto da teoria do discurso e da sistemas de representacao — compostos de conceitos, ideias, psicanalise de influencia lingulstica. Pode-se inquirir sobre mitos ou imagens — nos quais os homens e as mulheres (acres- as conduces de enunciagao em uma formacao discursiva cimo meu) vivem suas relacoes imaginarias com as reaisparticular. Esta e a problematica de Foucault. Ou pode-se conduces de existencia. Vale a pena examinar em detalheinvestigar ainda os processes inconscientes pelos quais os esta afirmativa.proprios sujeitos e a subjetividade sao constituidos. Esta e A designacao das ideologias como "sistemas de represen-a problematica de Lacan. Assim, tern havido teorizacoes tacao" reconhece seu carater essencialmente discursive ediversas sobre a segunda parte do ensaio "Aparelhos ideo- semiotico. Os sistemas de representacao sao os sistemas delogicos de Estado". Mas nada sobre a primeira parte. Finito! significado pelos quais nos representamos o mundo para nosA investigacao simplesmente termina com as formulacoes mesmos e os outros. Reconhece que o conhecimento ideolo-inadequadas de Althusser sobre a reprodugao das relagoes gico resulta de praticas especificas — as praticas envolvidassociais de producao. Os dois lados da dificil questao da na producao do significado. Uma vez que nao ha praticasideologia sao fraturados naquele ensaio e desde entao tern sociais fora do dommio do significado (semiotico) seraosido consignados a dois polos. A questao da reproducao foi todas as praticas simplesmente discursos?atribulda ao polo (masculino) marxista, enquanto a questaoda subjetividade, ao polo (feminista) da psicanalise. Desde Neste ponto devemos tratar a questao com muito cuidado.entao, nunca mais se encontraram. Este ultimo polo e consti- Estamos na presenga de outro termo suprimido ou de umtuido e compreendido como uma questao "interna" das meio-campo excluido. Althusser nos lembra que as ideias naopessoas, que "diz respeito" a psicanalise, a subjetividade e a flutuam simplesmente no espaco vazio. Sabemos que elassexualidade. E dessa forma e nesse ponto que a ligac.ao com estao la porque elas se materializam nas praticas sociais eo feminismo tem sido cada vez mais teorizada. Ja o primeiro as permeiam. Neste sentido, o social nunca esta fora do"diz respeito" as relacoes sociais, a producao e ao que ha de semiotico. Cada pratica social e constituida na interagaomais concrete nos sistemas produtivos; o marxismo e os entre significado e representacao e pode, ela mesma, serdiscursos reducionistas de classe "dizem respeito" a isso. As representada. Em outras palavras, nao existe pratica socialconsequencias dessa bifurcacao do projeto teorico tem sido fora da ideologia. Entretanto, isso nao significa que, porquedesastrosas, causando subseqiientes irregularidades no todas as praticas sociais se situam no discursivo, nao ha nadadesenvolvimento da ideologia, sem falar em seus efeitos na pratica social alem do discurso. Sei o que implica descre-politicos prejudiciais. ver como praticas processes sobre os quais sempre falamos em termos de ideias. As "praticas" parecem concretas. Elas ocorrem em determinados locals e aparelhos — como as salas de aula, as igrejas, os auditories, as fabricas, as escolasA IDEOLOGIA EM A FA VOR DEMARX e as familias. E essa concretude nos permite afirmar que elas sao "materials". Contudo, diferencas podem ser observadas Em vez de seguir qualquer um dos dois caminhos, pretendo entre os tipos de praticas. Vou sugerir uma delas. Se alguemdeixar o impasse por um momento e observar alguns pontos esta engajado em parte de um processo de trabalho capita-de partida alternativos em Althusser, a partir dos quais, creio, lista moderno, esse alguem emprega, em combinacao comavan^os ainda podem ser alcancados. Bern antes de atingir a certos meios de producao, sua forca de trabalho — compradaposicao "avancada" do ensaio "Aparelhos ideologicos de por um determinado preco — para transformar materia-prima 179178
  • 93. em produto ou mercadoria. Esta e a definicao de pratica — a qualquer ideia ou representacao nodal, imediatamente acio- pratica do trabalho. Ela se situa fora do significado e do namos uma cadeia inteira de associates conotativas. As discurso? Certamente que nao. Como poderia um grande representacoes ideologicas conotam — convocam — umas numero de pessoas aprender aquela pratica ou juntar sua as outras. Assim, uma variedade de sistemas ideologicos ou forca de trabalho na divisao do trabalho com os outros, dia logicas distintas esta disponivel em qualquer forrnacao social. apos dia, se o trabalho nao estivesse inserido no domfnio da A nocao de uma ideologia dominante ou de uma ideologia representacao e do significado? Essa pratica de transfor- subordinada e uma forma inadequada de se representar a macao nao e, entao, nada mais que discurso? Claro que nao. complexa interacao dos distintos discursos ideologicos e Nao se pode afirmar que todas as praticas nao sao nada mais formagoes em qualquer sociedade desenvolvida moderna. que ideologias so porque elas se situam na ideologia ou a Tampouco e o terreno da ideologia constituido como um campo ideologia esta inscrita nelas. Ha uma especificidade aquelas de cadeias discursivas mutuamente exclusivas e internamente praticas cujo principal objetivo e produzir representacoes auto-sustentaveis. Elas se contestam umas as outras geral- ideologicas. Elas diferern de outras praticas que — de forma mente a partir de um repertorio comum e compartilhado de inteligivel e significativa — produzem outras mercadorias. conceitos, rearticulando e desarticulando esses conceitos As pessoas que trabalham na midia produzem, reproduzem e dentro de sistemas de diferenca ou equivalencia. transformam o proprio campo da representacao ideologica. Tomemos a proxima parte da definicao de ideologia Sua relacao com a ideologia difere em geral de outras em que de Althusser — os sistemas de representacao nos quais os individuos produzem e reproduzem o mundo das merca- os homens e mulheres vivem. Althusser coloca viver entre dorias materiais — que estao tambem inscritas pela ideo- aspas, pois para ele nao se trata de vida genetica ou estrita- logia. Barthes observou no passado que todas as coisas sao mente biol6gica, mas a vida da experiencia, dentro da cultura, tarnbem significances. Este segundo tipo de pratica opera na do significado e da representacao. Nao e possivel por urn fim ideologia, mas nao e ideologico em termos da especificidade a ideologia e simplesmente viver o real. Sempre necessitamosde seu objeto. de sistemas para representar o que o real significa para nos e os outros. O segundo ponto importante sobre o "viver" e Quero conservar a nocao de que as ideologias sao sistemas que precisamos compreende-lo de forma ampla. Por "viver"de representacao materializados em praticas, mas nao quero Althusser quis dizer que os seres humanos utilizam umafedchizar a "pratica". Frequentemente, neste nivel da teori- variedade de sistemas de representacao para experimentar,zacao, o argumento tende a identificar a pratica social com o interpretar e "dar sentido" as condicoes de sua existencia.discurso social. Enquanto a enfase sobre o discurso esta Consequentemente, a ideologia sempre pode definir um mes-correta ao apontar a importancia do significado e da repre- mo objeto ou condicao objetiva no mundo real de maneirassentacao, ela tem sido conduzida ao lado absolutamente distintas. Nao existe "correspondencia necessaria" entre asoposto, que nos permitira tratar toda pratica como se nao condicoes de uma relacao ou pratica social e as varias formashouvesse nada mais que a ideologia. Isso e simplesmente pelas quais estas podem ser representadas. Nao sucede daiuma inversao. que, porque nao podemos conhecer ou experimentar uma Observe-se que Althusser menciona "sistemas", nao "sis- relacao social que nao esteja "inserida na ideologia", elatema". O importante sobre os sistemas de representacao e nao exista fora do aparato da representacao, como supoemque eles nao sao unicos. Existem diversos deles em qualquer alguns neokantianos da teoria do discurso: urn ponto jaforrnacao social. Eles sao plurais. As ideologias nao operam bem esclarecido por Marx na "Introducao de 1857", mas extre-atraves de ideias isoladas; mas em cadeias discursivas, mamente mal-interpretado pelo proprio Althusser.agrupamentos, campos semanticos e formacoes discursivas. Talvez a implicacao mais subversiva do termo "viver" sejaAo ingressarmos em um campo ideologico e escolhermos que ele conota o dominio da experiencia. E dentro dos180 181
  • 94. sistemas de representacao da cultura e atraves deles que nos Finalmente, consideremos o uso que Althusser faz desta "experimentamos o mundo": a experiencia e o produto de expressao: "as reais condicoes de existencia" — escandaloso nossos codigos de inteligibilidade, de nossos esquemas de (dentro da teoria cultural contemporanea), porque aqui interpretacao. Conseqiientemente, nao ha experiencia fora das Althusser se compromete com a ideia de que as relacoescategorias de representacao ou da ideologia. A nocao de sociais de fato existem fora de suas experiencias ou repre-que nossas cabe£as estao lotadas de ide"ias falsas que, entre- sentacoes ideologicas. As relacoes sociais de fato existem.tanto, podem ser totalmente dissipadas quando nos abrimos Nascemos no meio delas. Existem independentemente dapara o "real" como um momento de absoluta autenticacao e nossa vontade. Sao reais em sua estrutura e tendencia. Naoprovavelmente a concepcao mais ideologica de todas. Este e podemos desenvolver uma pratica social sem representarexatamente o momento do "reconhecimento" em que desapa- essas condicoes para nos mesmos de uma forma ou de outra,rece o fato de o significado depender da intervencao dos mas as representacoes nao esgotam seu efeito. As relacoessistemas de representacao e nos parecemos seguros numa sociais existem, independentes da mente e do pensamento.atitude naturalista. E um momento de extreme fechamento Contudo, podem ser concebidas apenas no pensamento, naideologico. Aqui estamos sujeitos a influencia da mais ideo- cabeca. E assim que Marx (1953/1973) tratou a questao nalogica das estruturas — o senso comum, o regime do "tomar "Introducao de 1857" aos Grundrisse. E importante o fato depor certo". Quando perdemos de vista o fato de que o sentido que Althusser afirma o carater objetivo das relacoes reais quee uma produgao de nossos sistemas de representacao, caimos constituem os modos de producao nas formacdes sociais,nao na Natureza, mas na ilusao naturalista: o cume (ou a embora sua obra posterior tenha fornecido o fundamento paraprofundidade) da ideologia. Consequentemente, ao contras- uma teorizacao bem distinta. Aqui Althusser tende mais paratarmos a ideologia com a experiencia, ou a ilusao com a uma posicao filosofica "realista" do que em suas manifes-verdade autentica, deixamos de reconhecer que e impossivel tacoes kantianas ou spinozianas posteriores.experimentar as "relacoes reais" de uma sociedade fora de Pretendo agora ultrapassar a frase especifica que venhosuas categorias culturais ou ideo!6gicas. Nao se quer dizer explicando, a fim de expandir duas ou tres outras ideias geraiscom isso que todo conhecimento e simplesmente o produto associadas a essa formulacao. Althusser afirma que essesda nossa vontade de poder; certas categorias ideologicas sistemas de representacao estao fundados essencialmentepodem nos fornecer um conhecimento mais profundo ou ade- em estruturas inconscientes. No ensaio anterior, ele parecequado de determinadas relacoes do que outras. conceber a natureza inconsciente da ideologia de formas Uma vez que nao existe uma relacao direta entre as condicoes semelhantes aquelas usadas por Levi-Strauss ao definir osde existencia social que vivemos e a forma como as experi- codigos de um mito como sendo inconscientes — em termosmentamos, torna-se necessario para Althusser denominar as de suas regras e categorias. Nos mesmos nao temos cons-relacoes como "imaginarias". Ou seja, elas nao devem de forma ciencia das regras e sistemas de classificacao de uma ideo-alguma ser confundidas com o real. Somente mais adiante, em logia quando produzimos uma enunciacao ideologica qualquer.sua obra, e que este dominio se torna "o Imaginario" num Contudo, como as normas da linguagem, elas sao abertassentido propriamente lacaniano.3 Pode ser que Lacan esti- a inspecao racional e a analise pelos modos de interrupcaovesse em sua mente desde o inicio do ensaio, mas ele nao se e desconstrucao, o que pode revelar um discurso ate seuspreocupa all em afirmar que o conhecimento e a experiencia fundamentos e nos permitir observar as categorias que oso sao posslveis gracas ao processo psicanalitico especifico geraram. Conhecemos a letra da musica "Rule Britannia", masque Lacan postulou. A ideologia e descrita como imaginaria somos "inconscientes" a respeito de sua estrutura profundasimplesmente para que se possa distingui-la da nogao de que [A musica, de 1875, e um hino ao imperialismo britanico.as "relacoes reais" declaram seus proprios significados de Seu refrao diz: Rule, Britannia! Britannia rules the waves! /forma nao ambigud. Britons never shall be slaves. (Reine, Britannia! Britannia 183182
  • 95. sociais especificas. Situam-se distintamente em relagao a gamareina sobre as ondas / Britanicos nunca serao escravos). N. de locals sociais. Parece-me erroneo supor que o processoda T.J — as nocoes de nacao, as grandes fatias da historia que permite ao individuo falar ou rnesmo enunciar — aimperialista, os pressupostos sobre o dominio global e a Hnguagem — e o mesmo que permite ao individuo enunciarsupremacia, o Outro necessario a subordinacao dos outros a si mesmo, atraves de urna variedade de sistemas represen-povos — ricamente condensados em suas simples ressonancias tacionais especificos em determinadas sociedades, como umcomemorativas. Essas cadeias de conotacao nao estao abertas ser que possui genero, raca, e socialmente sexuado etc, Os(nem se sujeitam) a rnudanca e reformulacao no nivel cons- mecanismos universais de interpelagao podem fornecer asciente. Conclui-se entao que elas sao o produto de processes condicdes gerais necessarias a linguagem. Porem, trata-se dee mecanismos inconscientes num sentido psicanalitico? mera especulacao afirmar que eles fornecem as condigoes Isso nos remete de volta a questao de como os sujeitos se concretas e suficientes a enunciagao de ideologias histori-reconhecem na ideologia. Como o relacionamento entre os camente especificas e diferenciadas. A teoria do discursosujeitos individuais e os posicionamentos de um discurso insiste unilateralmente que uma explicacao da subjetividadeideologico especifico sao construidos? E possivel que alguns em termos dos processos inconscientes lacanianos constitui,dos posicionamentos basicos dos individuos na linguagem, por si mesma, toda a teoria da ideologia. Certamente, aassim como certas posicoes primarias no campo ideologico, teoria da ideologia deve desenvolver uma teoria dos sujeitossejam constituidos atraves de processos inconscientes, num e da subjetividade, como nao fizeram as primeiras teoriassentido psicanalitico, em seus estagios iniciais de formacao. marxistas. Ela deve exphcar o reconhecimento do eu dentroEsses processos poderiam entao orientar profundamente do discurso ideologico, aquilo que permite aos mdivlduosas formas pelas quais nos nos situarnos mais tarde nos dis- se reconhecerem no discurso e expressa-lo espontaneamentecursos ideologicos. E bem claro que esses processos de fato como seus autores. Mas isso nao e a mesma coisa que tomaroperam na primeira infancia, tornando possivel a formacao o esquema freudiano, relido sob a perspectiva linguisticade relacoes com os outros e o mundo exterior. Sao inextri- de Lacan, como uma teoria adequada da ideologia nascavelmente amarrados — por exempio — a natureza e ao formacoes sociais.desenvolvimento sobretudo das identidades sexuais, Por O proprio Althusser parece anteriormente (em seu ensaiooutro lado, nao esta de forma alguma comprovado que apenas "Freud e Lacan", escrito em 1964 e publicado em Althusser,estes posicionamentos constituam os mecanismos pelos quais 1970/1971) reconhecer a natureza necessariamente provi-todos os individuos se localizam na ideologia. Nao estamos soria e especulativa das proposicoes de Lacan. Ele repetiuinteiramente costurados as nossas relacoes com o complexo a sucessao de "identidades" que sustenta o argumento decampo dos discursos ideologicos historicamente situados Lacan — a transicao da existencia biologica para a humananaquele dado momento, quando vivemos a "transicao da se assemelha a Lei da Ordem, que e a mesma da Lei daexistencia biologica para a existencia humana" (Althusser, Cultura, que "se confunde em sua essencia formal com a"Freud e Lacan", 1970/1971, p. 93). Permanecemos abertos ordem da linguagem" (p. 193)- Contudo, em urna nota de pepara sermos posicionados e situados de formas distintas, em de pagina, ele extra! a natureza puramente formal dessasmomentos diferentes de nossa existencia. homologias: Alguns afirmam que esses posicionamentos posterioressimplesmente recapitulam as posicoes primarias que estao Formalmente: pois a Lei da Cultura que e introduzida primeira-estabelecidas na resolucao do complexo de Edipo. Parece mente como linguagem,.. nao e exaurida pela linguagem; seumais exato afirmar que os sujeitos nao sao posicionados em conteudo sao as verdadeiras estruturas de parentesco e asrelacao ao campo das ideologias exclusivamente pela reso- formacoes ideologicas especificas nas quais as pessoas inscritaslucao de processos infantis inconscientes. Tambem sao nessas estruturas vivenciam sua fun^ao. Nao basta saber queposicionados pelas formacoes discursivas de formacoes 185184
  • 96. .§ e 3 <r ^ "« <u ^g -S ^ •0 ti o rt «? w OJ ^) CJ r9 T3 3 S ^ a_9 u a s*,. o^3 5u -§ § o ^ « "o <u > 00 <U Is u rt •u" S §5 2 I c3 S s: s 2 -t 3 u, o" ^ a familia ocidental e patriarcal e exbgama... devemos tambem 0 ^ O *-• QO 3 Ci a§^ 3 3 ™ compreender as formacoes ideologicas que governam a pater- rt ls nidade, a maternidade, a vida conjugal e a infancia... Uma farta pesquisa sobre essas formacoes ideologicas precisa ser reali- C zada. Esta e uma tarefa para o materialismo historico. (p. 211) Porem, nas formulacoes posteriores (e mais ainda nodiluvio lacaniano que se seguiu) esse tipo de cuidado foiabandonado em uma verdadeira profusao de afirmacao. Numdeslize familiar, a afirmativa de que "o inconsciente e estru-turado como uma linguagem" torna-se "o inconsciente e omesmo que o acesso a linguagem, a cultura, a identidadesexual, a ideologia, e assim por diante". O "S S 4-1 A "a cr <U c 3 N u> (U 03 0) u, Ui 3 a a rt 05 a a W a 0)e mais produtiva de se comecar a pensar a ideologia, quetambem percebo na obra de Althusser, embora nao em suaparte mais famosa. Reconhecendo que, nessas questoes —embora nosso aparato conceitual seja extremamente sofisti-cado e "avancado", estamos ainda no inicio de uma longa edificil Jornada, em termos de uma genuina compreensao, depesquisa substancial e de um progresso para o conhecimentorealmente "aberto" (ou seja, cientifico). No que diz respeito aessa "longa marcha", A favor de Marx antecede os voos daimaginacao e ocasionalmente, da fantasia que se apossam doensaio "Aparelhos ideologicos de Estado". Contudo, este textonao deve ser abandonado por esta razao apenas. "Contra- c i-i (U rt O I S rt rt tu Uidicao e sobredeterminacao" contem uma ideia mais rica de ^ O "o ^ 8 -2 -o -o .SS"1 I •— "2 ^ "> O ^I OJ 2 <! 1o 4> J£, « 8 OJ rt 5s D ^ CA ^s 2 > (1J ^ C e 8 rt ^ ti > -o rt C C3 S ^ rt §- U D 0 -<« n 4-1determinacao do que Lendo O capital embora nao seja tao - u I U T3 U C « OJ ^ <D u 0 .rigorosamente teorizada. A favor de Marx traz uma nocao deideologia mais completa do que "Aparelhos ideologicos de a , de gnificado T) — O T3 = N S a ^ S "O £ 3 rt u ^=^ 3 ^ (U - U. G rt r^ « S <° u S o t> C rt 5J « gEstado", embora nao seja tao abrangente. o aioria do u a O O o oo^ w =; OJ ,- "U Ofj 00 13 v> ti " C/} T3 oj S , ^ U i^ C S ° S 2 c S s a rt ^S ? 2^ «i t! U O J3 5 2 i » a a at rt u 73 0 rt G ui aj ~n C^3 &.B > -a d3 . . V11> 2 r- w CX u, 3 rtLENDO UM CAMPO IDEOLCGICO em sua aspi ac ao, senao na realidade. Minha fami 2 > 6^ rt "O -1* OJ Quero tomar um breve exemplo pessoal para ilustrar como zava muito essas finas distincoes classificatorias e u -2 T3 QJ -^ rt T3 - "*- a a £ <u O 31 rt ^ S. u T3 .^2 O 0 £Z s S?l « a «" u, 15 is« a> ">- 3 01 v rt w O « « qj « en "« u rt ^ s $a C 0 OJ C w"• « s S| ^ 2 g «"° o =1 J? "" e O T3 ^1 00 D g •« o > « c rt O « « S rt a* « s DO g 1> _alguns de meus comentarios sobre o conceito geral de ideo- « E rt <U > <U > u u U" Uilogia de Althusser nos permitem pensar certas formacoes V rt 0 P w <U 2 VH >ideologicas. Quero refletir sobre um complexo particular de 1e ^« If. (rt >- "3 O 2a .y 8 o> o a > o S a s «> "o e §• rt U OJ «— as ^§ U rt Ui U- § .a r-discursos que implicam as ideologias de identidade, lugar, ^ 2 rt i2 w £ ®* -- -a 1O <U 3 Ui £4 g o Ul -1 0 § at rt 4> a o O -Q £3 o o o -S a& dj <u 00 00 V-, o U. pessoa "de co mpesmente pj ^^ > o -§
  • 97. porque, na percepgao destes, eu era, para todos os efeitos, tropical enlatada que cai dos coqueiros. Esse e um "eu" ideali- "negro"! Em suma, o mesmo termo carregava conotacoes zado (gostaria de me sentir assim mais vezesX "Imigrante" bem distintas porque operava em diferentes "sistemas de eu tambem conheco bem. Nao ha nada de romantico no diferengas e equivalencias". E a posi^ao dentro das distintas termo. Coloca a pessoa inequivocamente como aquele que cadeias de significantes que "significa", e nao a correspon- pertence a outro lugar. "E quando e que voce volta para casa?" dencia fixa, literal entre um termo isolado e uma posicao Faz parte da "cunha estrangeira" da Sra. Thatcher. De fato, qualquer denotada no espectro de cor. so bem tarde na vida vim a entender como esse termo me posicionava — e o tratamento naquela ocasiao veio de uma O sistema caribenho era organizado pelas finas estruturas direcao bem inesperada. Foi quando minha mae me disse, de classificacao dos discursos colonials de raca, organizadas durante uma breve visita a minha terra: "Espero que eles la em uma escala ascendente ate o termo maximo "branco" — nao te confundam com um desses imigrantes!" O choque do este ultimo sempre fora do alcance, o termo impossivel, reconhecimento. Tambem fui as vezes "falado" por aquele "ausente", cuja presenca-ausencia estruturava toda a cadeia. outro termo ausente, nao dito, aquele que nunca esta la, o Na luta ferrenha por um lugar e uma posicao, que caracteriza termo "americano", sem a dignidade sequer de um "N" maius- as sociedades dependentes, cada grau da escala possui uma culo. O "silencio" em torno do termo era provavelmente o profunda importancia. Em contrapartida, o sistema ingles era mais eloqiiente de todos. Termos positivamente marcados organizado em torno de uma dicotomia mais simples, mais "significam" por causa de sua posicao em relacao aquilo que apropriada a ordem colonizadora: "branco/nao-branco". esta ausente, nao marcado, nao dito, ou que e irnpronun- O significado nao e um reflexo transparente do mundo na ciavel. O significado e relacional dentro de um sistema ideo- linguagem, mas surge das diferencas entre os termos e cate- logico de presencas e ausencias. "Fort, da." gorias, os sistemas de referencia, que classificam o mundo e Althusser, em uma controvertida passagem do "Aparelhos fazem com que ele seja apropriado desta forma pelo pensa-mento social e o senso comum. ideologicos de Estado", afirma que somos "ja e sernpre" sujeitos. Na verdade, Hirst e outros contestam isto. Se fos- Enquanto individuo vivo e concrete, sou mesmo qualquer sernos "ja e sempre" sujeitos, teriamos que nascer com auma dessas interpelacoes? Alguma delas me esgota? Na estrutura de reconhecimento e os meios de nos posicionarmosverdade, eu nao "sou" nem uma nem outra dessas formas de na linguagem ja prontos. Enquanto Lacan, a quern Althusserme representar, embora tenha sido todas elas em epocas e outros recorrem, usa Freud e Saussure para fornecer umadiferentes e ainda seja algumas delas, ate certo ponto. explicacao de como essa estrutura de reconhecimento ePorem, nao existe um "eu" essencial, unitario — apenas o formada (atraves da fase do espelho e das resolucoes dosujeito fragmentario e contraditorio que me torno. Tempos complexo de Edipo etc.). Contudo, deixemos de lado por umdepois me deparei novamente com o termo "de cor", como se momento essa objecao, ja que uma verdade maior sobre aeu estivesse do outro lado, alem dele. Tentei ensinar a meu ideologia esta implicita naquilo que Althusser afirma. Nosfilho que ele era "negro" [black] quando este estava apren- experimentamos a ideologia como se ela emanasse livre edendo o espectro de cores e ele dizia para mim que era espontaneamente de dentro de nos, como se fossemos seus"marrom". Obviamente, ele era ambos. sujeitos livres, "funcionando por conta pr6pria". Na verdade, Certamente, sou das Indias Ocidentais — embora tenha somos falados ou falam por nos, nos discursos ideologicosvivido minha vida adulta na Inglaterra. De fato, a relacao entre que nos aguardam desde o nosso nascimento, dentro dosos termos "West Indian" e "imigrante" e complexa demais quais nascemos e encontramos nosso lugar. Conforme apara mini. Nos anos 50, ambos eram equivalentes. Hoje o leitura que Althusser fez de Lacan, o recem-nascido quetermo "West Indian" e muito romantico. Conota reggae, cuba ainda deve adquirir os meios de se situar dentro da Lei dalibre, oculos escuros, mangas, e toda aquela salada de fruta Cultura ja esta sendo esperado, nomeado e posicionado188 189
  • 98. antecipadamente "pelas formas de ideologia (paterna/materna/ categorias raciais e etnicas continuam a ser hoje as formasconjugal/fraterna)". pelas quais as estruturas de dominacao e exploracao sao Essa observacao me recorda uma experiencia de infancia "vividas". Neste sentido, esses discursos tern mesmo a funcao semelhante. Trata-se de uma historia frequentemente recon- de "reproduzir as relacoes sociais de producao". Entretanto, tada em minha familia — sempre motive de risos, embora eu nas sociedades caribenhas contemporaneas, os dois sistemas nunca tenha visto graca nela; faz parte do folclore familiar — nao correspondent um ao outro perfeitamente. Ha "negro" no de quando minha mae me trouxe do hospital depois que topo da escala tambem, alguns deles exploradores de mao- nasci. Minha irma olhou para o berco e disse: "Onde voce de-obra negra, e outros que sao amigos de Washington. Nem arranjou esse bebe coolie?" Os coolies na Jamaica sao os o mundo se divide nitidamente entre suas categorias sociais/ indianos, descendentes dos trabalhadores trazidos como naturais, nem as categorias ideologicas necessariamente semi-escravos ao pais apos a Abolicao para substituirem produzem seus modos "apropriados" de consciencia. Portanto, os escravos nas plantacoes. Coolie denota, se e que e possivel, somos obrigados a dizer que ha um conjunto complexo de um grau abaixo de "negro" no discurso da raca. Esta foi a articulacoes entre os dois sistemas de discurso. A relacao de forma que minha irma encontrou de dizer que eu tinha saido equivalencia entre eles nao e fixa, mas tem se alterado histo-bem mais escuro do que a media em nossa familia, o que ricamente. Tampouco e "determinada" por uma causa unica,pode acontecer nas melhores famflias miscigenadas. Nem sei mas resulta de uma "sobre-determinacao".mais se isso aconteceu mesmo ou se foi uma historia fabri- Portanto, esses discursos claramente constroem a socie-cada por minha familia ou talvez se fui eu quern a inventou e dade jamaicana como um campo de diferenca social organi-agora me esqueci quando ou por que. Mas me senti, naquela zado em torno de categorias de raca, cor e etnia. A ideologiaepoca como agora, convocado ao meu "lugar" por aquela aqui exerce a funcao de estabelecer, para uma populacao,historia. A partir de entao, meu lugar nesse sistema de refe- classificacoes especificas organizadas em torno dessas cate-renda tornou-se problematico. Isso pode ajudar a explicar gorias. Na articulacao entre os discursos de classe e raca-cor-porque e como eu eventualmente me tornei aquilo pelo qual etnia (e o deslocamento efetuado entre elas que possibi-fui nomeado pela primeira vez: o coolie de minha familia, lita isso), este ultimo e constituido como o "discurso domi-aquele que nao se ajustou, o estrangeiro, aquele que ficava nante", as categorias pelas quais as formas predominantes dena rua em ma companhia e cresceu com aquelas ideias malucas consciencia sao geradas, o terreno dentro do qual os seresna cabeca. O Outro. humanos "se movem, adquirem consciencia de sua posicao, Que contradicdo gera um campo ideologico desse tipo? lutam etc." (Gramsci, 1971, p. 377), os sistemas de represen-Seria "a contradicao principal entre capital e trabalho?" Essa tacao pelos quais as pessoas "vivem a relacao imaginaria comcadeia de significantes foi obviamente inaugurada em um suas reals condicoes de existencia" (Althusser, 1965/1969,momento historico especifico — o momento da escravatura. p. 233). Esta analise nao e academica ou util apenas porNao e eterna, nem universal. Foi a forma pela qual se tentou suas distincoes teoricas e analiticas. A sobredeterminacaocompreender a insercao dos povos escravizados dos reinos de classe e raca traz as mais profundas conseqiiencias —da costa oeste da Africa nas relacoes sociais de producao do algumas delas altamente contraditorias — para a politica datrabalho forcado no Novo Mundo. Deixemos de lado, por um Jamaica e dos negros jamaicanos em qualquer lugar.momento, a questao controvertida do modo de producao E possivel, entao, examinar o campo das relacoes sociais,nas sociedades escravocratas ser "capitalista" ou "pre-capi- na Jamaica e na Gra-Bretanha, em termos de um campo inter-talista", ou uma articulacao de ambos dentro do mercado discursivo gerado por pelo menos tres contradicoes (classe,global. Nos estagios iniciais de desenvolvimento, para todos raca e genero), cada qual com uma historia diferente, um modoos efeitos praticos, os sistemas racial e de classe se sobre- distinto de operacao; cada uma divide e classifica o mundopunham um ao outro. Eram sistemas de equivalencia. As de formas diferentes. Seria entao necessario, em qualquer190 191
  • 99. formacao social especifica, analisar como a classe, a raca e o A LUTA IDEOLOGICA eenero sao articulados um com o outro para estabelecer posicoes sociais condensadas. As posicoes socials, pode-se E importante examinar o campo semantico dentro do qua! dizer, sao aqui sujeitas a uma "dupla articulacao". Sao, por qualquer cadeia ideologica ganha significado. Marx nos definicao, sobredeterminadas. Observar a superposicao ou lembra que as ideias do passado sobrecarregam as mentes a "unidade" (fusao) entre elas, isto e, as formas pelas quais dos vivos como um pesadelo. O momento da formacao conotam ou convocam umas as outras ao articularem as dife- historica e critico para qualquer campo semantico. Essas rencas no campo ideologico, nao previne os efeitos especi- zonas semanticas adquirem forma em certos periodos histo-ficos de cada estrutura. Podemos pensar em situacoes politicas ricos: por exemplo, a formacao do individualismo burgues nas quais as aliancas poderiam correr de diferentes formas, nos seculos dezessete e dezoito na Inglaterra. Elas deixam dependendo de quais das articulacoes em jogo se tornariam traces de suas vinculacoes, bem depois do desaparecimentodominantes entao. das relacoes sociais as quais elas se referiam. Esses tracos Pensemos agora no termo "negro" dentro de um campo podem ser reativados num estagio posterior, ate mesmo semantico ou uma formacao ideologica particular, em vez de quando os discursos ja tiverem se fragmentado em ideologias um termo isolado: dentro de sua cadeia de conotacoes. Darei organicas e coerentes. O senso comum contem aquilo que apenas dois exemplos. O primeiro e a cadeia — negro- Gramsci denominou tracos de uma ideologia "sem inven- preguicoso-invejoso-traicoeiro etc. que flui da identificacao tario". Tomemos como exemplo o traco do pensamento reli- de "negro" em um momento historico especifico: a epoca da gioso em um mundo que se ere secular e que, portanto, escravidao. Isso nos alerta para o fato de que, embora a investe de ideias seculares o "sagrado". Embora a logica dadistincao "negro/branco" articulada por essa cadeia nao seja interpretacao religiosa dos termos tenha sido rompida, odada simplesmente pela contradicao do capital-trabalho, as repertorio religioso continua a se arrastar atraves da historia,relacoes sociais caracteristicas daquele momento historico sendo util em uma variedade de novos contextos historicos,especifico constituem seu referente nesta formacao discursiva reforcando e fundamentando ideias aparentemente maisespecifica. No caso do Caribe, "negro" e suas conotacoes sao "modernas".uma forma de representar como as pessoas de carater etnico Nesse contexto, podemos localizar a possibilidade da lutadistinto foram inseridas nas relacoes sociais de producao. ideologica. Uma cadeia ideologica particular se torna umMas essa cadeia de conotacoes certamente nao e a unica. local de luta nao apenas quando as pessoas tentam desloca-la,Uma outra, inteiramente diferente, e gerada dentro dos pode- rompe-la ou contesta-la, suplantando-a por um conjunto intei-rosos discursos religiosos que tanto tern varrido o Caribe: a ramente novo de termos, mas tambem quando interrompemassociacao da luz com Deus e o espirito, e da Escuridao ou o campo ideologico e tentam transformar seus significados pela"negrume" com o Inferno, o Diabo, o pecado e a condenacao. modificacao ou rearticulacao de suas associacoes, passando,Quando eu era crianca e era levado a igreja por urna das por exemplo, do negative para o positive. Freqiientemente,minhas avos, pensava que o apelo do pastor negro ao Todo a luta ideologica consiste na tentativa de obter um novoPoderoso, "Senhor, ilumine nossa escuridao", fosse um pedido conjunto de significados para um termo ou categoria ja exis-bem especifico por um pouco de assistencia divina pessoal. tente, de desarticula-lo de seu lugar na estrutura significativa. Por exemplo, e justamente por conotar aquilo que e mais desprezado, despossuido, ignorante, incivilizado, inculto, maquinador e incompetente que o termo "negro" pode ser contestado, transformado e investido de um valor ideologico positive. O conceito de "negro" nao e propriedade exclusiva192 193
  • 100. de qualquer grupo social especifico ou discurso isolado. mudou como resultado da luta em torno das cadeias de cono-Usando a terminologia de Laclau (1977) e de Laclau e Mouffe tacao e das praticas sociais que possibilitaram o racismo(1984), o termo, apesar de suas poderosas ressonancias, nao atraves da construcao negativa dos "negros". Ao invadir opossui um "pertencimento de classe" obrigatorio. No passado amago da definicao negativa, o movimento negro tentoufoi profundamente inserido nos discursos de distinc.ao e abuso "roubar o fogo" do proprio termo. Porque "negro" antesraciais. For muito tempo esteve aparentemente preso aos significava tudo que devia ser menos respeitado, agora podediscursos e praticas de explorae.ao social e economica. No ser afirmado como "Undo", a base de nossa identidade socialperiodo da historia jamaicana, quando a burguesia nacional positiva, que requer e engendra respeito entre nos. "Negro",quis se juntar as massas na luta pela independencia politica portanto, existe ideologicamente somente em relacao aformal do poder colonizador — uma luta na qual a burguesia contestacao em torno dessas cadeias de significado e aslocal, nao as massas, emergiu como a principal forca social — forc.as sociais envolvidas nessa contestac.ao.o "negro" era uma especie de disfarce. Na revolugao cultural Eu poderia ter tornado qualquer conceito-chave, categoriaque varreu a Jamaica no final dos anos 60 e 70, quando pela ou imagem em torno da qual os grupos tern se organizado eprimeira vez o povo reconheceu e aceitou sua heranga negra- mobilizado ou em torno do qual as praticas sociais emer-africana-escrava-negra, e o centro de gravidade da sociedade gentes tern se desenvolvido. Mas quis tomar um termo cujase deslocou para as "raizes", para a vida e a experiencia ressonancia afeta uma sociedade inteira, em funcao do qua!comum das sub-classes negras urbanas e rurais como repre- toda a direc.ao da luta social e do movimento politico sesentantes da essencia cultural de "Jamaican-idade" (esse e o modificou na historia do nosso proprio tempo. Dessa forma,momento da radicalizacao politica, da mobilizacao em pretendi sugerir que a concepcao nao reducionista dessemassa, da solidariedade com as lutas dos negros por liber- termo, dentro da teoria da ideologia, pode abrir campo paradade em outros lugares, dos "irmaos de alma" e do "Sour, algo mais do que a troca idealista dos significados "bom" oubem como do reggae, de Bob Marley e da religiao rastafari), "mau" ou a luta que acontece apenas no discurso, que se fixa"negro" foi reconstituido como seu oposto. Tornou-se o sitio permanentemente pela forma como os processes inconscientesda construcao de uma "unidade", do reconhecimento positive especificos sao resolvidos na infancia. O campo do ideolo-da "experiencia negra": o momento da constituicao de um gico possui seus proprios mecanismos; e um campo "relati-novo sujeito coletivo — as "massas negras em luta". Essa vamente autonomo" de constituicao, controle e luta social.transforma^ao no significado, posicao e referenda de "negro" Nao e independente, nem esta livre dos determinismos. Masnao seguiu, nem refletiu, a revolucao cultural negra na nao e redutivel a simples determinacao de qualquer um dosJamaica naquele periodo. Foi uma das formas pelas quais outros niveis de formacao social em que a distingao entreaqueles novos sujeitos foram constituidos. O povo — os indi- negro e branco se tornou politicamente pertinente e atravesviduos concretos — sempre esteve presente. Mas, enquanto da qual toda a "inconsciencia" racial foi articulada. Esse pro-sujeitos-em-luta por um novo tempo na historia, eles surgiam cesso tern consequencias e implicacoes concretas na maneirapela primeira vez. A ideologia, atraves de uma categoria antiga, como a formac.ao social como um todo se reproduz ideologi-foi constitutiva de sua formagao em oposic.ao. camente. A luta em torno de "negro", caso esta se torne forte Portanto, a palavra em si nao possui uma conotacao de o suficiente, pode impedir a sociedade de se reproduzir funcio-classe especifica, embora sua historia seja longa e nem tao nalmente, daquela forma antiga. A propria reproduce socialfacilmente desmontavel. Enquanto os movimentos sociais or- se torna um processo contestado.ganizam lutas em torno de um programa especifico, os signi- Ao contrario da enfase no argumento de Althusser, a ideo-ficados que parecem ter sido fixados para sempre comec.am a logia nao possui apenas a func.ao de "reproduzir as relac.6esperder suas ancoragens. Em suma, o significado do conceito sociais de producao". A ideologia tambem estabelece limites194 195
  • 101. para que uma sociedade-em-dominancia possa se reproduzir BIBLIOGRAFIAde forma facil, tranquila e funcional. A ideia de que as ideo-logias estao ja e sempre inscritas nao nos permite pensaradequadamente sobre as mudancas de enfase na linguagem ALTHUSSER, L. For Marx. Tradu^ao de B. Brewster. London: Penguine na ideologia, o que e um processo constante e sern fim — o Press, 1969. (Originalmente publicado em 1965). [A favor de Marxque Volochmov (1930/1973) denominou "a plurivalencia do Tradugao de Dirceu Lindoso. Rio de Janeiro: Zahar, 19791signo ideologico" ou a "luta de classe na linguagem". ALTHUSSER, L. Lenin and Philosophy and Other Essays. Tradu^ao de B. Brewster. London: New Left, 1971. (Originalmente publicado em 1970.) [HALL, S. Signification, Representation, Ideology: Althusser and the Post-Struturalist Debates. Critical Studies in Mass Commu- ALTHUSSER, L.; BALIBAR, E. Reading Capital Traducao de B. Brewster. nication, v. 2, n. 2, p. 91-114, June 1985. Traducao de Adelaine London: New Left, 1970. (Originalmente publicado em 1968.) La Guardia Resende.] DERRIDA, J. OfGrammatology. Traducao de G. C. Spivak. Baltimore: Johns Hopkins UP, 1977.NOTAS FOUCAULT, M. Power/knowledge-. Selected Interviews and Other Writings 1972-1977. Organizacao e traducao de C. Gordon, I. Marshall,1 O termo gerai "teoria do discurso" se refere a uma gama de desenvolvi- J. Mepham, K. Soper. New York: Pantheon, 1980. (Originalmentementos teoricos relacionados e recentes na linguistica e na semiotica, bem publicado em 1972).como na teoria psicanalitica, que sucedeu a "ruptura" operada pela teoriaestruturalisca nos anos 70, com a obra de Bardies e Althusser. Alguns exemplos GRAMSCI, A. Selections from the Prison Notebooks. Traducao de Q.na Gra-Bretanha seriam o trabalho recente sobre o cinema e o discurso emScreen, escritos critico-tedricos influenciados por Lacan e Foucault, e o Hoare e G. Nowell-Smith. New York: International, 1971.desconstrucionismo pos-Derrida. Nos Estados Unidos, muitas dessas tendenciaspoderiam ser agora incluidas sob o titulo de "pos-modernismo". HALL, S; SLACK, W. J.; GROSSBERG, L. Cultural Studies. London:2 Macmillan. (Em vias de publicacao). Pelo termo "articulacao" quero dizer uma conexio ou vmculo que nao enecessariamente dada em todos os casos, como uma lei ou fato da vida, masalgo que requer condicoes particulares para sua emergencia, algo que deve HALL, S. Marxs Notes on Method: A Reading of the 1857 Introduction.ser positivamente sustentado por processes especificos, que nao e "eterno" Working Papers in Cultural Studies, v. 6, p. 132-170, 1974,mas que se renova constantemente, que pode, sob cerias circunstancias,desaparecer ou ser derrubado, levando a dissolucao de antigos vfnculos e a LACAN, J. Ecrits: a selection. Traducao de A. Sheridan. New York:novas conexoes — re-articulacoes. E importance ainda que uma articulacao International, 1977. (Originalmente publicado em 1966.)entre praticas distintas nao significa que estas se tornam identicas ou queuma se dissolve na outra. Cada qual retem suas determtnacoes distintas, bemcorno suas condicoes de existencia. Contudo, uma vez feita a articulacao, LACLAU, E. Politics and Ideology in Marxist Theory, London: Newas duas praticas podem funcionar em conjunto, nao como uma "identidade Left, 1977-imediata" (na linguagem utilizacla por Marx na "Introducao de 1857"), mascomo "distincoes dentro de uma unidade". LACLAU, E.; MOUFFE, C. Hegemony and Socialist Strategy. London:3 Em Lacan (1966/1977), o "Imaginario" sinaliza um relacionamento de New Left, 1985.plenitude com a imagem. Opoe-se ao "Real" e ao "Simbolico". LEVI-STRAUSS, C. Structural Anthropology. Traducao de C. Jacobson e B. G. Schoepf. London: Penguin, 1972. (Originalmente publicado em 1958.)196 197
  • 102. MARX, K. Early Writings. Tradupao T. B. Bottomore. London: C. A.Watts, 1963.MARX, K. Capital. London: Lawrence and Wishart, 1970, v. 3.MARX, K. Grundrisse. Traducao de M. Nichoiaus. London: Penguin,1973- ESTUDOS CUMMARX, K; ENGELS, F. The German Ideology. London: Lawrence andWishart, 1970. E SEU LEGADO JEORICOPOULANTZAS, N. Political Power and Social Classes. Traducao de T.OHagan. London: New Left, 1975. [1968].VOLOCHINOV, V. N. Marxism and the Philosophy of LanguageTraducao de I. Matejka e I. R. Tutunik. New York: Seminar, 1973.[1930]. [Marxismoeafilosofia da linguagem. Sao Paulo: Hucitec, 1981]. O tituio "Estudos culturais e seu legado teorico" implica que se olhe para o passado, de forma a poder consultar-se e pensar-se o presente e o futuro dos estudos culturais em retrospectiva. Parece mesmo ser necessario fazer-se algum trabalho genealogico e arqueologico ncs arquivos. Ora, me e extremamente dificil lidar corn a questao dos arquivos, pois, no que toca aos^jujos^ujturals) sinto-me comojom tableau vivant, um espirito do passado ressuscitado, outorgando-se a si ± *~ propricTa .^,^ , ._ . ^ autoridaBe^3e urna-1—-.-i-iiQ- •——"• No final das contas, orieem. os estudos culturais nao emergiram em algum lugar naquele momento em que conheci Raymond Williams, ou na troca de olhares entre eu e Richard Hoggart? Os estudos culturais teriam nascido nesse momento, saindo prontos da nossa cabeca, ja em estado adulto! Quero falar do passado, mas certamente nao dessa forma. Nao gostaria de me referir aos estudos culturais britanicos (que, de qualquer modo, e um significante com o qual me sinto pouco a vontade) de uma forma patriarcal, como guardiao da consciencia dos estudos culturais, esperando escolta-los de volta aos parametros de sua verdadeira essencia. Em outras palavras, quero esquivar- me dos numerosos fardos de representacao que as pessoas geralmente carregam consigo — carrego pelo menos tres: espera-se que eu fale por todos os individuos de raca negra sobre todas as questoes teoricas, cnticas etc., como tambem se espera, as vezes, que eu represente quer a politica britanica,198
  • 103. quer os estudos culturais. Chama-se a isto o fardo do hornem conjunturas e momentos no passado. Gostaria de insistir negro, e gostaria de poder escapar-me dele neste momento. na variedade de~trafealrTos Tfiefentes aos estudos culturais. Paradoxalmente, o meu objetivo acarreta uma visao auto- Consistindo sempre num conjunto de formacoes instaveis, biografica. Pensa-se a autobiografia habitualmente como algo encontravam-se "centrados" apenas entre aspas, de um modo revestido da autoridade da autenticidade. Contudo, terei que particular que tentarei definir em seguida.^Os estudos falar de um ponto de vista autobiografico, se quiser fugir de culturais_tiyeram_urna_grande dlversidade de traietoriasL muitos ter a ultima palavra no assunto. Vou falar da minha perspec- seguiram e seguem percursos distintos no seu interior; foram tiva sobre certos mementos e legados teoricos nos estudos construidos por um numero de metodologias e posiciona- culturais, nao por esta constituir uma verdade, nem por mentos teoricos diferentes, todos em contencao uns com os representar a unica forma de se contar a hist6ria. Eu proprio outros. O trabalho teorico do Centre for Contemporary I ja a contei, em vezes anteriores, de multiplas formas alterna- Cultural Studies era mais apropriadamente chamado de tivas; e tenciono voltar a conta-la de forma diferente. Mas "ruido teorico", sendo acompanhado por uma quantidade / neste exato momento, para a presente conjetura, desejaria razoavel de sentimentos negatives, discussoes, ansiedades tomar uma posicao em relacao a grande narrativa dos estudos instaveis, e silencios irados. ~s culturais, com o fim de incentivar reflexoes sobre os estudos Ora, sera que isto significa que os estudos culturais nao cuIturais^ ^oinc^pra^aj sobre o nosso posicionamento insti- constituem urna area de regulamentacao disciplinar, ou seja, tucional e sobre o seu projeto. Quero faze-lo ao referir-me a que vale qualquer tipo de acao desde que o autor opte por se alguns legados ou momentos teoricos, mas de uma maneira denominar ou se posicionar dentro do seu projeto e pratica? muito particular. Este ensaio nao consiste nurn comentario Tarnbem nao me agrada esta formulacao^ Apesar-_do j^rojela sobre o exito ou utilidade de posicionamentos teoricos dos estudos cujniiais..s£-cacaci££i2aj pela(a^ertur^jiaD_ s.e. distintos nos estudos culturais (deixo esse objetivo para reduzlr a um plural ism c^ s^irnpjis^a. Sim, recusa-se a outra ocasiao). Consiste, antes, numa tentativa de transmitir ser uma grande narrativa ou um meta-discurso de qualquer /} a minha impressao de certos momentos nos estudos culturais, especie. Sim, consiste num projeto aberto ao desconhecido, e a partir dai, de marcar algumas posicoes relativamente a ao que nao se consegue ainda nome]ar7~Todavia, demonstra questao geral do relacionamento entre a teoria e a politica. vontacle ern~conectar-se; tern interesse em suas escolhas. E _Os ^sludQS_c_uIturaig sjjD_urna^Jbrfnacao discursiva, no importante chegar-se a uma definicao dos estudos culturais; sentido. iltiano do termcx Apesar de~liTguris def~nos nao podem consistir apenas em qualquer reivindicacao que termos estado presentes quando os estudos culturais assu- marcha sob uma bandeira particular. E uma imciatiya ou miram esse nome, eles nao tern uma origem simples. Muito proieto serio)_g_au^j^e^nscj^e^jTg_aspecto "politico" dos do trabalho do qual os estudos culturais surgiram ja se estudos cultaraLs. Nao que uma dada politica se encontre encontrava presente, a meu ver, na obra de outros autores. inscrita, a priori, nos estudos culturais. No entanto, algo esta Raymond Williams partilha da mesma opiniao, e traca, no em jogo nos estudos culturais de uma forma que, acho e ensaio intitulado "The Future of Cultural Studies" (1989), as espero, nao e exatamente o caso em muitas outras importantes raizes dos estudos culturais nos primordios do movimento praticas criticas e intelectuais. Registra-se aqui uma tensao para a educacao dos adultos. "A relacao^ntre jjrnjgroieto e entre a recusa de se fechar o campo, de policia-lo e, ao mesmo decisiva", escreve, por estes ultimo^- tempo, uma determinac.ao de se definirem posicionamentos :6nsistirem em "diferentes modos de materializar... e subse- a favor de certos interesses e de defende-los. Essa e a tensao qiientemente de descrever uma disposicao comum de energia — a abordagem dialogica a teoria — que quero tratar de e direcao". O s e s t u d o_s_ c u It ur ai_s^ jiba r^cjjT^_d|sjguj^c^ m ul- varias formas ao longo do presente ensaio. Se bem que naoX !J£lj^.j2ejT^^mQ_aujr^^ endem um conjumo^de formacoes, com as suas clifeTelTtes acredite no fechamento do conhecimento, considero que a politica nao e possivel sem o que denominei de "clausura 200 201
  • 104. arbitraria"; sem o ter passado desapercebido por tanta gente — , o momenio como clausura arbitraria. Em outras palavras, nao entendo °e fato, ^ufna-pi=afica^ue*terua~"fazer uma diferenca no mundo que nao a primeira Nova Esquerda britanica emergiu em 1956 no tenha alguns pontos de diferenca ou distincao a definir e momento do desmantelamento de todo um projeto histo- defender. Trapse de^osicjpnaingntos, apes2tr_de_estes. rico-politico. Neste sentido, entrei no marxismo de costas: ultimos nao serem nem finais nem absolutos. Nao podem como se fosse contra os tanques sovieticos em Budapeste. ser traduzidos intactos de uma conjuntura para outra; nao Com estas palavras, nao estou negando que tanto eu quanto se pode esperar que se mantenham no mesmo lugar. Quero os estudos culturais fomos, desde o inicio, fortemente influen- voltar aquele momento em que se definiam os interesses ciados pelas questoes que o marxismo, como projeto poli- dos estudos culturais, aqueles mementos em que os posicio- tico, colocou na agenda: o "pocier, a extensao global e as namentos comecavam a ter um peso. capacidades de realizacao historica do capital; a questao de Esta e uma forma de focar a questao da "mundanidade" classe social; os relacionamentos complexes entre o poder dos estudos culturais, para usar um termo de Edward Said. — termo esse que e mais facil integrar aos discursos sobre Nao fico, aqui, com as conotacoes seculares da metafora da cultura do que "exploracao" — , e a exploracao; a questao de mundanidade, mas antes com a mundanidade dos estudos uma teoria geral que poderia ligar, sob uma reflexao critica, culturais. Falo da "sujeira" do jogo semiotico, se me permitem os dominios distintos da vida f a politica e a teoria, a teoria e a expressao. EstotTtentandQ devolYer o proieto dos estudos a pratica, questoes economicas, politicas, ideologicas, e culturais do ar Iimr^dp_do__significado, da textuaiidade e da assim por diante; a propria nocao de conhecimento critico e teoria, para algo sujo, bem mais_embaixo. Isso envolve o a sua producao como pratica. Tais questoes cruciais referem-se dificil exercicio de examinar algumas das "viradas" ou conjun- ao que significava trabalhar na vizinhanca do marxismo, turas teoricas mais cruciais nos estudos culturais. sobre o marxismo, contra o marxismo, com ele e para tentar desenvolve-lo. O primeiro traco que quero desconstruir esta relacionado a ideia de que os estudos_cjjkurais_britariicos se definem por Em nenhum momento os_estudos_culturais-eL-Q marxismo terem se tornado, a certa altura, uma pratica critica marxista. se encaixaram perfeitamente, em terrnos teoricos. Desde o O que significa exatamente esta designacao dos estudos inicio (permitam-me que me expresse assim por agora), ja culturais como teoria critica marxista? Como podemos pensar pairava no ar a sempre pertinente questao das grandes insu- os estudos culturais naquele momento? De que momento ficiencias, teoricas e politicas, dos silencios retumbantes, das estamos falando? Quais as implicacoes para os legados grandes evasoes do marxismo — as coisas de que Marx nao teoricos, traces e seqiielas do marxismo nos estudos cul- falava nem parecia compreender, que eram o nosso objeto turais? Ha diversas formas de se contar a historia, e lembrem-se privilegiado de estudo: cultura, ideologia, linguagern, o de que nao proponho esta versao como a unica narrativa simbolico. Pelo contrario, os elementos que aprisionavam o possivel. Contudo, vou apresenta-la de um modo que tal- marxismo como forma de pensamento, como atividade de vez os surpreenda. pratica critica, encontravam-se, ja e desde sempre, presentes — a ortodoxia, o carater doutrinario, o determinismo, o f Entrei nos estudos culturais pela Nova Esquerda, e ela reducionismo, a imutavel lei da historia, o seu estatuto como I sempre considerou o marxismo como problema, dificuldade, metanarrativa. Isto e, o encontro entre os estudos culturais perigo, e nao como solucao. Por que? Nada teve a ver com britanicos e o marxismo tern primeiro que ser compreendido / questoes teoricas enquanto tais, ou em isolamento, mas com como o envolvimento com um problema — nao com uma/ o fato de que a minha formacao politica, bem como a da teoria, nem mesmo com uma problematica. Comeca, e desen- Nova Esquerda, ocorreram num momento historicamente volve-se, por meio de uma critica de um certo reducionismo muito semelhante ao atual — um fato que me surpreende 202 203
  • 105. e economicismo, que creio nao ser.extrmseco, mas mtnnseco apenas o inicio deste longo envolvimento. E esta nao e ao marxismo; a contestacao do modelo de base e superestru- apenas uma questao pessoal. No_Cejiir^qr_ComejTiporary tura atraves do qual ambos os marxismos, o sofisticado e o Jiiltur^JJStjxdi.eaj durante cinco ou seis anos, muito depois vulgar, tentaram pensar o relacionamento entre sociedade, da moda antite6rica ou da resistencia a teoria nos estudos economia e cultura. Encontrava-se localizado e situado na culturais ter sido superada, decidimos, de uma forma muito contesta^ao necessaria e prolongada, e por enquanto inter- antibritanica, mergulhar na teoria: demos a volta em todo o minavel, da questao da falsa consciencia. Exigia, no meu caso, pensamento europeu, para nao fazermos uma simples capi- uma ainda incompleta contestacao do profundo eurocen- tulacao ao Zeitgeist, tornando-nos marxistas. Lemos o idea-_ trisrno da teoria marxista. Quero precisar este ultimo aspecto. alemao, lemos Weber ao avesso, lemos_g_id_ealisnio Nao se trata apenas do local de nascenca de Marx, nem dos _ s i r g - i t i c a ideaiista~ae arte^ Qa escrevi a temas de que falava, mas antes do modelo situado no amago respeito nos artigos intituTaHos^O interior da ciencia: ideo- das partes mais desenvolvidas da teoria marxista, que logia e a sociologia do conhecimento" (1980a) e "Cultural sugeriam a evolucao organica do capitalismo a partir das suas Studies and the Centre: Some Problems and Problematics" proprias transformagoes. Mas eu era oriundo de uma socie- (1980b).) dade onde o profundo tegumento da sociedade, economia e Assim, ajio£ao_de que o marxismo e os estudos £ulturais I cultura capitalistas tinha sido imposto pela conquista e pela encaixaram um no olTtToT^econnecehdo uma afinidade / colonizac.ao. Esta nao e uma critica vulgar, mas sirn teorica. ~TTrie"crrata ehtre"si e^danclo as maos em algum momento de/ v Nao responsabilizo Marx por ter nascido onde nasceu; apenas sintese hegeliana ou teleologica — consistindo este no ffajNJ- questiono a teoria destinada a apoiar o modelo em torno do momento fundadgx.dos- estudos.,culturais,rrr.^.staJ.Qtairnente / qual se encontra articulada: o seu Eurocentrismo. errada. Nao podia ser mais diferente do que isso. E quando f j Quero sugerir uma metafora diferente para o trabalho eventualmente, na decada de 70, os estudos culturais brita- teorico: uma metafora de luta, de combate com os anjos. nicos avancaram — de formas muito distintas, convenhamos A^nica_teoria que vale a penaretere^aquela^que voce tern — dentro da problematica do marxismo, deveria entender-se de contestar. nao a que voce o terrno "problematica" num sentido genuino, nao apenas num Desejaria dizer aigo^rnaisTdiante sobre a surpreendente sentido formalista-teorico: como problema, incidindo tanto fluencia teorica dos estudos culturais contemporaneos. sobre a luta contra os constrangimentos e limites daquele Contudo, a minha propria experiencia com a teoria — e o modelo quanto sobre as questoes necessarias que o mar- marxismo e urn exemplo paradigmatico — consiste num xismo nos exigia responder. E quando, por fim, no meu combate com os anjos — uma metafora que voces podem propj-krtntbalho, procurei aprender com os avancos teoricos interpretar o mais literalmente possivel. Lembro-me de ter trabalhar com eles, foi apenas porque certas lutado com^Althusser. Lembro-me de, ao ver a ideia_de^rjratica estrategias de evasao teriam obrigado a obra de Gramsci, de te6rica" em Lendo O Capital, pensar, "ja li o suficiente". Disse a diversas formas, a responder ao que apenas posso chamar mirn mesmo: nao cederei uni milimetro a esta traduc.ao pos- (eis outra metafora para o trabalho teorico) os enigmas estruturalista malfeita do marxismo classico, a nao ser que da teoria — aquilo que a teoria marxista nao conseguia ela me consiga veneer, a nao ser que me consiga derrotar no responder, oiT^a^^oVassuntos relatives ao mujidg^moderno espirito. Tera_que caminhar sobre o mejj_jca,daver para me ^descobertos poj^^rams^Fque~"perm"aneciam sem solucao convencer. Declarei-lhe guerra, ate a morte. Umartigo longo "^erTtTo~do"~quadr6 conceitual da grande teoria, o marxismo, algo prolixo (Hall, 1974) que se debruca sobre a Introducao, no qual continuou a trabalhar. A certa altura, as questoes escrita por Marx em 1857, aos Grundrisse, no qual procurei que ainda queria abordar eram-me inacessiveis, exceto definir a diferenca entre o estruturalismo da epistemologia atraves de um desvio gramsciano. Nao por que Gramsci as marxista por urn lado, e o da althusseriana por outro, foi resolveu, mas porque pelo menos as abordou. Nao desejana 204 205
  • 106. aqui apresentar a minha opiniao pessoal sobre o que os agora, onde se encontrava esse movimento. Eramos inter estudos culturais no coni&xto_britanico teriam, num dado de refe- periodo, aprendido conVGramsc;!: ..rencia: intelectuais organicos com uma nostalgia ou vontade sobre a natureza da propria culjura, sobr ou esperanca (para usar uma frase de Gramsci de outro 1 , ^obre-aJm^ojtancia^jia^e^fiecificidade histo- contexto) que a dada altura o trabalho intelectual nos prepa- li^^ da rasse para esse tipo de relacionamento, se tal conjuntura alguma vez viesse a surgir. Mais sinceramente, estavamos de classe apjenas^se^sej^corre a nocao deslocad^de con junto prontos a imaginar ou imitar ou simular um tal relaciona- e de bjocos. Esses sao os ganhos decorrentes de um desvio mento na sua ausencia: "pessimismo do intelecto, otimismo via Gramsci, mas minha intengao nao e de falar deles. Sobre da vontade". Gramsci, neste contexto, quero dizer que, enquanto ele Mas acho de extrema importancia o fato de o pensamento pertencia ou pertence a problematica do marxismo, a sua gramsciano em torno destas questoes captar aquilo que nos importancia para aquele momento dos estudos culturais eramos. Porque um segundo aspecto da defini^ao de Gramsci britanicos consiste precisamente em quanto ele deslocou do trabalho intelectual — definicao essa que penso ter estado radicalmente algumasdas herangas marxistas nos estudos sempre proxima da nocjlo dos estudos culturais como projeto jcuTTurais. O car ate r radical do "deslocamentc^gfarnsciaiio do — foi a sua exigencia de que o "intelectual organico" traba- Trrarxismo ainda nao foi compreendido, e provavelmente nunca Ihasse simultaneamente em duas frentes. For um lado, tmhamos sera levado em conta, agora que estamos entrando na era do que estar na vanguarda do trabalho teoricgIntelectual,"Pols, pos-marxismo. E esta a natureza do movimento da historia e segundo Gramsci, e dever dos intelectuais organicos ter do modismo intelectual. Contudo, Gramsci contribuiu com conhecimentos superiores ^oj^dg^jntelectuais tra.dicionai& algo mais para os estudos culturais, e gostaria de apro- conhecimentos verdadeiros, nao apenas fingir que se sabef // fundar-me um pouco nesse tema, pois essa contribuicao nao apenas ter a fa. cil i clacle"do "c ofTrTeTimenf :oi , mas cgnrTeceF ^ envolve o que chamo da necessidade de reflexao sobre a b em e pjiQ£Lin£La^gat&. O conhecimento para o marxismo eA nossa posic.ao institucional e a nossa pratica intelectual. tao freqiientemente puro reconhecimento — mais uma repro- Assim como fizeram outras pessoas ligadas aos estudos du?ao daquilo que sempre soubemos! Se jogarem o jogo da culturais e especialmente no Centro, tentel descrever o que hegemonia terao que ser mais espertos do que "eles". Assim, pensavamos estar fazendo com o tipo de trabalho intelectual nao ha limites jeoricos dos_qu_ais_QS-es.tudos culturais possam ali estabelecido. Devo admitir que, apesar de ter lido cliversos recuar. Contudo, o segundo aspecto e igualmente crucial:j> registros mais sofisticados e elaj3j3ra4oA-&-£l£Jjrarnsd ainda intejectual organico nao pode subtrair-se da me parece ser o quejnais se_aproxima daquilo queprocura- lidade da transmissao dessas idei_as. desse conhecimento, jvamos fazer. Certamente, sua frase "a procni^ao^elrTtelectuais atraves da fungjo intelectuaL aos^cjue nao organicos" se revela problematica. Mas para mim nao ha s0nalmente7classe intelectual. E a nao ser que essas duas duvida de que buscavamos umaprJ^ca^jislitucionaLjios frentes estejam operando simultaneamente, ou pelo menos a estudos culturais u ^ l I d e ^ 5 e ~ r o z l i L u m intelectual orga- nao ser que essas duas ambicoes fa^am parte do projeto dos sabiamos previamente o que isso significaria, estudos culturais, qualquer avanc.o teorico nunca sera acom- no contexto britanico dos anos 70, e nao tfnhamos certeza panhado por um envolvimento no nivel do projeto politico. de que reconheceriamos essa figura, caso conseguissemos produzi-la. A dificuldade inerente ao conceito de intelectual Preocupa-me muito que decodifiquem o meu discurso organico e que o mesmo consiste no aparente alinhamento como sendo antiteorico. Nao e antiteoria, mas tern a ver com dos intelectuais com um movimento historico emergente e as condigoes e os problemas inerentes ao desenvolvimento nao conseguiamos perceber entao, como nao vislumbramos do trabalho intelectual e teorico como pratica politica. 207 206
  • 107. A opcao de viver com as tensoes entre estas duas exigencias, para a problematica anterior da hegemonia — nao pode ser sem procurar resolve-las, e um caminho um tanto diffcil. r,ramsci rLunca-pediu^gue as res^lvessemosjmas deu-nos urp_ utilizado da mesma maneira. Terceiro, a centralidade das questoes de genero e sexualidade para a compreensao do a exemplo prStico de^jcpmo-con-viv.er-Com-,elas^ Nunca produ- ~proprio poder. Quarto, a aEertura dejrnuitas questoes que "zirh o s^mfelectu a is organicos (antes tivessemos) no Centre. julgavamos ter abolido em torno da area perigosa do subje- Nunca nos ligamos a esse movimento historico em ascen- tivo e do sujeito, colocando essas questoes no centre dos dencia; o nosso ejcexcicicLfQi...mgtaf6rico. Contudo, as_meta- estudos culturais como pratica teorica. Quinto, a_reabertuca foras sag__coisas_sj£rias. A^t^m^aj^rs^ica^ Estou tentando da "fronteira fechada" entre a teoria social e a teoria do re-descrever os estudos culturais como trabalho teorico que Inconsciente — a psicanalise. E dificil descrever a irnportancia tera que continuar a conviver com essa tensao. da abertura desse novo continente nos estudos culturais, defi- nida pelo relacionamento — ou antes, aquilo que Jacqueline Queria ainda falar de dois outros mementos teoricos Rose chamou de "relacoes instaveis" — entre o feminismo, a nos estudos culturais que interromperam a ja-interrompida historia da sua formacao. Alguns desses acontecimentos psicanalise e os estudos culturais. " ~~ surgiram quase que da estratosfera: nao se engendraram no Sabe-se que aconteceu, mas nao se sabe quando nem onde interior, nao faziam parte de um desenvolvimento interno geral se deu o primeiro arrombamento do feminismo. UsojajnetsU da teoria da cultura. O chamado desenvolvimento dos estudos fora deliberadamente; chegou como um ladrao a noite, inva- ^ultujais. foi, incontayeis ve^zes, interrompidopor rompi- inconveniente, aproveitou mentos, verdadeiras rupturas, defor£as_ejfteriores; como se O titulo do se tratasse da interrupcao por novas ideias que descentraram volume ernque este ataque de surpresa primeiro se realizou o que parecia ser uma pratica acumuiada de trabalho. Ha — Women Take /sswe* — e ilustrativo: pois as mulheres nao. assim outra metafora para o trabalho teorico: o trabalho so tomaram conta do livro publicado naquele ano, como teorico como interrupcao. —__ tambem iniciaram uma querela. Mas quero Ihes dizer algo mais sobre o que aconteceu. Dada a irnportancia crescente Ocorreram pelomenoaJduas interrupcoesNio trabalho do•"- —- _-.---"*-—^"~— ~~~——-* ^^ ./^Centre —-^--^-=F^rz;ir^£L--——J— Cutrufal^STucliesT) a lprimeira em for Ccmiemporary — ——; do trabalho intelectual feminista, beni como dos primordios -~- —-1 do movimento feminista no inicio da decada de 70, muitos detorno doQreminisrngye a segunda incidindo sobre questoes deracjpEste ensaio nao consiste numa tentativa de resumir os nos no Centre — najnaipria homens, e claro — pgngampsavancos e consequencias teoricos e politicos da intervencao duzjij£a^ . E tentamos realmente atrai-lo,feminista para os estudos culturais britanicos; esse objetivo importa-lo, fazendo boas propostas a intelectuais ferninistasficara para outro dia, outro lugar. Contudo, tambem nao de peso. Como seria de esperar, muitas das mulheres nosquero deixar de invocar aquele momento de um modo vago estudos culturais nao estavam interessadas neste projetoe casual, A intervencao do feminismo foi especlfica e deci- "magnanimo". Abnarnos a porta aos estudos feministas, comos|va_para os estudos HHu^aiT^bem cpmo^rjara muitos outros bons homens transformados. E, mesmo assim, quando oprojetos teoricos). Introduziu umaVrupturaj Reorganizou o feminismo arrombou a janela, tqdasjis resistencias, por maiscampo de maneiras bastante concretas. Primeiro, a propo-sicao da questaQ^dD^pessoal_cpmo politico — e suas conse- Jnsusgeitas que fossem,_yieram a tona — o poder patriarcalquencias para a mudanca do objeto de estudo nos estudos plenamente instalado, que acreditara ter-se desautorizado a si proprio. Aqui nao ha lideres, diziamos naqueles tempos;culturais — foi completamente revolucionario em termos teo- estamos todos, estudantes e corpo docente, unidos na apren-ricos e praticos. Segundo, a expansao radical da nncaojje dizagem da pratica dos estudos culturais. Todo mundo epoder, que ate entao tinha sido fortemente desenvolvida TTvre~para decidir o que bementende7~etc7T:, todavia, quandodentro do arcabouco da nocao do publico, do dominio se chegava a questao da leitura curricular... Foi precisamentepublico, com o resultado de que o termo poder— tao central 208 209
  • 108. ai que descobri a natureza sexuada do poder. Muito, mas falar desse "desvio necessario" por um momento. O que muito tempo depois de conseguir pronunciar essas palavras, descentrou e deslocou o caminho estabelecido do Centre confrontei-me com a realidade do profundo discernimento for Contemporary Cultural Studies e, ate certo ponto, dos foucaultiano quanto a reciprocidade individual do conheci- estudos culturais britanicos em geral, e o que se chama as mento e do poder. Falar de abrir mao do poder e uma expe- vezes de rviraHalinguistica!> a descoberta da discursividacje,C riencia radicalmente diferente de ser silenciado. Eis aqui outra datextua lidade. Tambem houve baixas no Centro em torno forma de pensar, outra metafora para a teoria: o modo corno destes termos. Travou-se uma luta com eles, exatamente da o feminismo rompeji_e_Jiite«^npeu os estudos culturais. mesma forma que tentei descrever anteriormente. Mas os Ha ainda a (questao raciaj^lp^e^jiidg^cuUurais^ Ja me ganhos decorrentes do envolvimento com esses conceitos referi as fontes extrinsecas importantes na formacao dos sao decisivos para compreender como a teoria veio a ser estudos culturais — por exemplo, aquilo que chamei o desenvolvida nesse trabalho. Contudo, a meu ver, estas momento da Nova Esquerda, e a sua querela inicial com o contrapartidas teoricas nunca poderao constituir um momento marxismo. Contudo, esta foi uma conjuntura profundamente de auto-suficiencia. britanica ou inglesa. Com efeito, fazer com que os estudos De novo, nao ha aqui espaco para fazer mais do que culturais colocassem na sua agenda as questoes criticas de elencar os progresses teoricos decorrentes dos encontros com raca, a politica racial, a resistencia ao racismo, questoes trabalhoj^strutitralisja, semiotico e pos^estruturalista,: a criticas da politica cultural, consistiu numa ferrenha luta importancia crucial da linguagem e da metafora linguistica teorica, uma luta da qual, curiosamente, Poli£ingJ33e Crisis para qualquer estudo da cultura; a expansao da nocao do foi o primeiro exemplo, ja muito tardio. Representou uma texto e da textualidade, quer como fonte de significado, quer virada decisiva no meu proprio trabalho intelectual e teorico, como aquilo que escapa e adia o significado; o reconheci- bem como no do Centre. Mais uma vez, foi apenas o resul- mento da heterogeneidade e da multiplicidade dos signifi- tado de um longo, aigo amargo — certamente amargamente cados, do esforco envolvido no encerramento arbitrario da contestado — combate interno contra um silencio retumbante, semiose infinita para alem do significado; o reconhecimento mas inconsciente. Um combate que continuou no que desde da textualidade e do poder cultural, da propria represen- entao se tornou conhecido, apenas na historia reescrita, como tacao, como local de poder e de regulamentacao; do simbo- um dos grandes livros seminais do Centre for Contemporary lico como fonte de identidade. Sao enormes avancos teoricos, Cultural Studies, The Empire Strikes Back. Na verdade, Paul apesar de que, claro, sempre se atentara as questoes da Gilroy e o grupo de pessoas que produziram o livro tiveram linguagem (muito antes da revolucao semiotica, o trabalho imensa dificuldade em criar o espaco teorico e politico de Raymond Williams desempenhou aqui um papel central). necessario no Centro, espaco que Ihes permitisse debrucar-se No entanto, a reconfiguracae-da^teoria, que resultou em ter sobre o projeto. de se pensar questoes davcultura. atraves das metaforas^ia Queria reter a nocao, implicita em ambos os exemplos, de linguagem e da textualidade, representa um ponto para alem que os jnp_vimentos_provocam moment os teoricos. E as "a^^u^ros^stu^Hs^uIujrais tern agora que necessariamente conjunturas historicas insistem nas teorias: sao momentos se localizar. A metafora do discursivo, da textualidade, reais na evolucao da teoria. Mas aqui tenho que parar e representa um adiamento necessario, um deslocamento, que refazer meu caminho, porque acho que voces podem ter acredito estar sempre implicito no conceito da cultura. Se voces voltado a, ouvir, naquilo que eu estou dizendo, uma invo- pesquisam sobre a cultura, ou se tentaram fazer pesquisa em cacao a um populismo antiteorico simplista, que nao respeita outras areas verdadeiramente importantes e, nao obstante, nem reconhece a importancia crucial, a cada instante, dos se_encontraram reconduzidos a cultura, se acontecer que a acontecimentos que tento recontar, do que poderia chamar arrebate a alma, tern de reconhecer que irao de demora necessaria ou desvio atraves da teoria. Desejaria [pre trabalhar numa area de dgsjecacosnto. Ha sempre 210 211
  • 109. algo descentrado no meio cultural [the medium of culture}, abrangida^r^a^textualidade critica nas suas na linguagem, na textualidade, na significacao; ha algo que ^elaboragoes. os constantemente escapa e foge a tentativa de ligacao, direta e Te^cao, contmuarao incompletos. S^voce imediata, com outras estruturas. E ainda, simultaneamente, a "ggsa tensSo, podera^rxoctoZiT^furiO_tr^_balho intelectual, rnas sombra, a estampa, o vestigio daquelas outras formac_6es, da tera perdida a pratica intelectual. fomojjolitica,. Ofereco-lhes intertextualidade dos textos em suas posicoes institucionais, Tslio~n"Io por acTtaTqu^os estudos culturais devam ser assim, dos textos como fontes de poder, da textualidade como local nem porque o Centre conseguiu faze-lo bem, mas simples- de representacao e de resistencia, nenhuma destas questoes mente porque penso que, em geral, isso define os(jstudos^ podera jarnais ser apagada dos estudos culturais. c3a]tjajZisIc5mQ_rjiroieu^5 Seja no contexto britanico, seja no A questao e, o que acontece quando uma area — que americano, os estudos culturais tern chamado a atencao nao tenho procurado descrever de forma muito pontual, dispersa apenas devido ao seu desenvolvimento interno teorico por vezes estonteante, mas por manter^queslQ£S_ppliticas e teoricas e interrupta, como algo que muda constantemente de direcao, rjurnate^ao_,riao-^solS3a^i^e^^ajl£nte. Os estudos culturais e que e definida como projeto politico — tenta desenvolver-se permitem que essas questoes se irritem, se perturbem e como uma especie de intervencao teorica coerente? Ou, para se incomodem reciprocamente, sem insistir numa clausura^ inverter a questao, o que acontece quando um projeto acade- mico e teorico tenta envolver-se em pedagogias que se apoiam teorica final. ^ no envolvimento ativo de individuos e grupos, ou quando Tenho falado principalmente em termos de historia previa. tenta fazer uma diferenca no mundo institucional onde se No entanto, as discussoes em torno da AIDS me lembram encontra? Estas sao questoes extremamente complicadas de fortemente essa tensao. A AIDS e uma das questoes que nos resolver, pois solicitam que digamos "sim" e "nao" ao mesmo defronta com a nossa incapacidade, enquanto intelectuais tempo, Pede-se que assumamos que a cultura ira sempre criticos, de produzir efeitos reais no mundo em que vivemos. trabalhar atraves das suas textualidades — e, simultaneamente, E, mesmo assim, ela tern sido frequentemente representada essa textualidade nunca e suficiente. Mas nunca suficiente de formas contra ditorias. Diante da urgencia das pessoas que em relacao a que? Nunca suficiente para que? Torna-se difici- estao morrendo, qual, em nome de Deus, e o prqposito dos T ^ • . O ^ - ^ h^T —. +, . , , _^_^^^ ^ - ^ limo responder a tal questao, pois, filosoficamente, nunca estudos culturais? Qual o sentido do estudo das represen- foi possivel no campo teorico dos estudos culturais — seja tacoes, se nao oferece resposta a alguem que pergunta se, este concebido em termos de textos e contextos, de intertex- caso tome a medicacao indicada, ira morrer dois dias depois tualidade, ou de formacoes historicas nas quais as praticas ou uns meses antes do previsto? Nessas alturas, penso que culturais se encontram arraigadas — dar contjL teoricamejiLe qualquer pessoa que se envoly^_^ejiajn£at£_nos^esiudo^ ^ jiasj-elacoes da cultura e dos seus ereitosT Contudo, queria "cultura^cqmo prltica intelectuarhdeve-senth^ n§_£ele,_sua C/l jA enfatizaF^u^Terltfuanfo^os esfucToTculEirais nao aprenderem transilQri_eda_d^^j_5jj^n^ul?sl^^ o pouco que con-_ ~fa segue registrar, o pouco que alcangamos mudar ou incentivar (2-4 ^ a viver com esta tensao, que todas as praticas teoricas tern de TiO assumir — uma tensao que Said descreve como o estudo j^glgr^^oce nao sente isso como uma tensao no trabafho do texto nas suas afiliacoes com "instituicoes, gabinetes, quej?roduz e jorque a Ig^Biinifflxgurem paz. Por outro agendas, classes, academias, corporacoes, grupos, partidos lado, nao concordo, no final das contas, com a forma como o ideologicamente definidos, profissoes, nacoes, racas e generos" dilema nos tem sido frequentemente apresentado, pois —, terao renunciado a sua vocacao "mundana". Isto e, a consiste efetivamente numa questao mais compfexa e deslo- menos^que^ e ate que se respeite o deslocamento necessario cada do que a mera ocorrencia de mortes la fora. A questao da cultura, .sem todayia deixar de nos irritarmos com o seu da AIDS e uma area extremamente importante de luta e/ Jracasso em reconciliar-se com putras^qugigoes importjantesZl de contestacao. Alem das pessoas que sabemos que estao. com outras questoes que nao podem nem nuncapoderao ser morrendo, ou que morreram, ou que vao morrer, ha uma 212 213
  • 110. parcela numerosa de pessoas que estao morrendo, das quais ocorrendo nos Estados Unidos. A comparacao nao e ape-ninguem fala. Como podemos negar que a questao da AIDS nas valida para os estudos culturais. Se pensarem no im-esta relacionada com a representacao de certas pessoas em portante trabalho que tern sido feito em materia de histo-detrimento de outras? A AIDS e o local onde o avan^o da ria e teoria ferninistas na Inglaterra e se perguntarem quantaspolitica sexual esta sendo revertido. E um local no qual nao dessas mulheres exerceram ou poderao vir a exercer a ativi-so pessoas vao morrer, mas tambem o desejo e o prazer, se dade de professoras universitarias em tempo integral duran-certas metaforas nao sobreviverem, ou caso sobrevivam de te suas vidas, comeca-se a compreender o sentido da margi-forma errada. A nao ser que operemos dentro dessa tensao, nalidade. Assim, a enorme explosa(Xjlos-eslu.das culturaisnunca saberemos do que os estudos culturais sao, nao sao nos Estados Unidos, sua rapida profissionalizacao e institu-ou nunca serao capazes; mas igualmente, nao se sabera o cionalizagao, nao constituem um momentoque qualquer umque preclsam fazer e o que so os estudos culturais tern a de nos que tentou estabelecer urn^Centro marginalizado numacapacidade privilegiada de realizar. Tern que analisar certos universida.de como Birmingham poderia^jimpjesmente, lamen-aspectoj>jia_jialui£za-constitutiva e politica da propria repre- tar. Contudo, devo dizer, enfaticamente, que me faz lembrarsentacao, das suas complexidades, dos ereItos~daTihguagem, Ifforma como, na Inglaterra, encaramos sempre a institucio-da textualidade como local de vida e morte. Sao estes os nalizagao como um momen^^pj^furidamente perigos^~Te-temas que os estudos culturais podem focar. nho dito que os perigos nao constituem lugares^dos qu^is_se ( Usei este exemplo, nao por ser perfeito, mas especifico, pode^fugir, mas_lugare^^a£a__gjidesevai: Portanto, queria por ter um significado concrete, porque nos desafia na sua apenas que soubessem que minha opiniao pessoal e que acomplexidade e, portanto, tern o que ensinar sobre o future explosao dos estudos cuiturais, juntamente com outras for-do trabalho teorico serio. Preserva a natureza essencial do mas de teoria critica na academia, representa um momento detrabalho intelectual e da reflexao critica, a irredutibilidade perigo extraordinario. Por que? Bern, seria excessivamentedos discernimentos que a teoria pode trazer a pratica poli- vulgar falar de coisas como o numero de empregos e a quan-tica, discernimentos que nao se alcancam de outra forma. tidade de dinheiro disponiveis, e da pressao que estes doisE, ao mesmo tempo, prende-nos a modestia necessaria da fatores exercem sobre as pessoas para que produzam aquiloteoria, a modestia necessaria dos estudos culturais como que julgam ser trabalho politico e intelectual de naturezaprojeto intelectual. critica, enquanto se sentem controlados por questoes de Queria terminar de duas maneiras. Primeiro, vou abordar carreira, de publicacao e aftns. Deixem-me, em vez disso,o problema da institucionaiizacao voltar ao aspecto que mencionei anteriormente: a minhaoTesjudos_cultuf^is~5ritanicos por um lado, e os americanos surpresa diante da fluencia teorica dos estudos culturais nospor ou£r.o..E depois, apoiaTido::rrre~imTTiTefafoms do trabalho Estados Unidos.teorico que tentejjjtnggr (sem, espero, reivindicar autoridade A questao da fluencia teorica constitui uma metafora dificilou autenticidade, mas, antes, de forma inevitavelmente pole- e provocadora, e queria dizer uma palavra sobre isto. Hamica, estrategica e politica), focjj_a_d£fiuiclo possivel do algum tempo, oihando para o que so se pode charnar decampo diluvio desconstrutivo (em oposicao a virada desconstru- Nao sei o que dizer acerca dos estudos culturais ameri- tiva) que atingiu os estudos literarios norte-americanos, nacanos. Fico completamente pasmado com eles. Penso nas lutas sua vertente formalista, tentei distinguir o trabalho teorico etravadas, num contexto britanico, para fazer com que os intelectual extremamente importante que esta corrente Unhaestudos culturais fossem aceitos pela instituisao, para arranjar, possibilitado nos estudos culturais, da mera repeticao, umcom imensa dificuldade e altamente disfarcados, tres ou quatro tipo de mimica e de ventriloquismo, que passa as vezes porempregos, comparado com a rapida institucionaiizacao que esta exercicio intelectual serio. O meu medo naquele momento.214 215
  • 111. era de que, se os estudos culturais ganhassern uma institucio- de instituicoes. Volto a teoria e a politica, a politica da nalizacao equivalents, no mesmo contexto americano, iriam, teoria. Nao a teoria como vontade de verdade, mas a teoria, de forma semelhante, formalizar as questoes criticas do como localizados poder, historia e politica ate acabar com elas. Paradoxalmente, e conjunturais, que tem de ser djebatidosjde jJ£n_rnodo dialo- o que quero dizer com fluencia teorica e exatamente o oposto. "gico. MasTanrtJ^iircorncrpratica que pensa sempre a sua Atualmente nao ha momento algum, nos estudos culturais tnfervencao num mundo em que faria alguma diferenca, em ^,-aj-nerica nc>s , onde nao se possa, extensiva e interminavel- que surtiria algum efeito. Enfim, uma pratica que entende mente, teorizar o poder — politica, raca, classe e genero, a necessidade da modestia intelectual. Acredito haver toda subjugacao, dominacao, exclusao, marginalidade, alteridade a diferenca no mundo entre a compreensao da politica do etc. Nao ha praticamente mais nada nos estudos culturais que trabalho intelectual e a substituicao da politica pelo trabaiho nao tenha sido teorizado dessa maneira. E ainda persiste a intelectual. duvida sobre se esta textualizacao esmagadora dos proprios discursos dos estudos culturais constitui, por uma razao ou outra, o poder e a politica como questoes exclusivamente de [HALL, S. Cultural Studies and its Theoretical Legacies. In: textualidade e de Hnguagem. Isso nao auer dizer que eu GROSSBERG, Lawrence et al. (Org.). Cultural Studies. New deixe de considerar as questoes do(poder e do i£>olitia) como York: Routledge, 1992. p. 277-286. Traducao de Claudia(jM tendo de estar, e estando, inseridas erirrepresentacoes, que Alvares, publicada na Revista de Comunicafdo e Linguagens sao semrjigjquestgesdiscursivas. Contudo, haforrnas~"ge^cgns- Lisboa, Relogio dAgua, n. 28, out. 2000. Revista e adaptada ao uso brasileiro da lingua portuguesa.] Jituir o pc^er como o grosseiro exercicio e as ligacoes dopocTer e da cultura completamente privados de significacao. E este o momento que considero perigoso na institucionalizacao dos estudos culturais no altamente rarefeito, enormemente elaborado e NOTA bem-financiado mundo profissional da vida academica norte- americana. Nao tem nada a ver com o fato de que os estudos • "Women Take Issue" consiste, em ingles, num trocadilho linguistico tendo um duplo signiflcadp: por um lado, issue" significa nurnero ou edicao, culturais americanos tentem assemelhar-se aos estudos cul- insinuando-se assim que as mulheres tomaram posse da publica^ao daquela turais britanicos, causa essa que julgo ser inteiramente falsa revista academica; por outro lado, "j^ake issue" quer dizer discordar, suge- e vazia. Tenho tentado, especificamente, nao falar do passado rindo-se desta forma que as intelectuaisreministas introduziram vozes como uma tentativa de policiar o presente e o future. Mas discordantes nos cultural studie.s.^N. T.). gostaria, finalmente, de extrair da narrativa que construi do passado algumas diretrizes para o meu proprio trabalho, e talvez para o de voces. BIBLIOGRAFIA Volto a seriedade tremenda do trabalho intelectual. E um ( assunto tremendamente se>io. Volto as distmcoes criticas entre CENTRE for Contemporary Cultural Studies. (1982) The Empire Strikes 1o trabalho intelectual e o trabalho academico: sobrepoem-sef Back. London: Hutchinson. itocam-se, nutrem-se um ao outro, fornecem os meios para se v/fazer um ao outro. Contudo, nao sao a mesma coisa. Volto a CCCS - Womens Studies Group. (1978) Women Take Issue. London: dificuldade de instituir uma pratica cultural e critica genuina, Hutchinson. que tenha como objetivo a producao de um tipo de trabalho politico-intelectual organico, que nao tente inscrever-se numa HALL, S. (1974). Marxs Notes on Method: A Reading of the 1857 me ta narrativa englobante de conhecimentos acabados, dentro Introduction. Working Papers in Cultural Studies 6, 132-171. 217 216
  • 112. HALL, S. (19SOa). The Hinterland of Science. In: CENTRE forContempo rar y Cultural Studies (Org.). On Ideology. London:Hutchinson, 1980. [O Interior da Ciencia: ideologia e a sociologia doconhecimento. In: Da ideologia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980.]HALL, S. (1980b). Cultural Studies: Some Problematics and Problems.In: HALL, S. et al. (Org.). Culture, Media, Language. London: Hutchinson/CCCS, p. 15-47. PARA ALLON WHITEHALL, S.; CRITCHER, C.; JEFFERSON, T.; CLARKE, J.; ROBERTS, B. METAFORAS DE MNSFORMAfJAOPolicing the Crisis: "Mugging", the State and Law and Order. London:Hutchinson, 1978. Transgressao. Talvez um dia ela pareca tao decisiva para aWILLIAMS, R. The Politics of Modernism. London: Verso, 1989. nossa cultura, tao parte de seu solo quanto a experiencia da contradi^ao foi no passado para o pensamento dialetico. A transgressao nao busca opor uma coisa a outra ... nao transforma o outro lado do espelho ... em uma extensao rutilante ... sua funfiio e medir a excessiva distancia que ela inaugura no amago do limite e iracar a Hnha lampejante que faz com que o limite se erga. (M. FOUCAULT. Prefacio a Transgressao. In: Linguagem, contramemoria, prdtica) Existem muitos tipos de metaforas pelas quais pensamos a mudanca cultural. Essas metaforas tambem mudam. Aquelas que se apoderam de nossa imaginac.ao e, por algum tempo, governam nosso pensamento acerca dos cenarios e possibili- dades da transformagao cultural cedem lugar as novas meta- foras, que nos fazem pensar essas dificeis questoes em outros termos. Este ensaio trata de uma mudanga desse tipo, que ocorreu na teoria critica nos ultimos anos. As metaforas de transformacao devem fazer pelo rnenos duas coisas. Elas nos permitem imaginar o que aconteceria se os valores culturais predominantes fossem questionados e transformados, se as velhas hierarquias sociais fossem derrubadas, se os velhos padr6es e normas desaparecessem ou fossem consumidos em um "festival de revoluc.ao", e novos significados e valores, novas configuracoes socioculturais, comecassem a surgir. Contudo, tais metaforas devem possuir218
  • 113. tambem um valor analitico. Devem fornecer rneios de temos para imaginar uma politica cultural? Uma vez que ospensarrnos as relates entre os dominios social e simbolico termos simplistas das metaforas classicas de transformacaonesse processo de transformacao, Essa questao de como foram abandonados, tambem abandonamos a questao do"pensar", de forrna "nao-reducionista", as relacoes entre "o relacionamento entre o social e o simbolico, ou o "jogo"social" e "o simbolico" mantem a questao paradigmatica da entre poder e cultura? Um dos textos mais desafiadores dateoria da cultura — pelo menos em todas as teorias culturais atualidade a tratar essa questao, na esteira dos desenvolvi-(e nos teoricos) que nao se resignararn a um formalismo mentos teorico-criticos recentes, e inteiramente familiarizadoelegante e vazio. com estes, e The Politics and Poetics of Transgression [A As metaforas classicas de transformacao modelam-se pelo politica e a poetica da transgressao], de Peter Stallybrass e"momento revoluclonario". Termos como "festival de revo- Allon White.1 Esse livro cativante e original explora a persis- tencia do "mapeamento" dos dominios cultural e social nalucao" pertencem a uma familia de metaforas extremamente Europa em categorias simbolicas do tipo "alto" e "baixo".significante historicamente para o imaginario radical. Essasmetaforas concebern o social, o simbolico ou o cultural como O livro contem um argumento ricamente desenvolvido sobrese fossem costurados um ao outro por uma correspondencia como "as forcas carnavalescas, lentamente suprimidas pelasrudimentar; de tal forma que, quando as hierarquias sociais elites burguesas em sua demorada retirada da cuftura popular,sao derrubadas, uma inversao dos valores e simbolos cul- ressurgiram de forma deslocada e distorcida como objetos deturais tem que acontecer, mais cedo ou mais tarde. "As ideias aversao fobica e desejo reprimido tanto na literatura quantoda classe dominante em todas as epocas sao as ideias domi- na psicopatologia". Trata ainda de como varies dominios sociais foram construidos como "baixos" e "repulsivos",2 comnances", escreveu Marx em uma passagem famosa (ou, quemsabe, infame): "...ou seja, a classe que constitui a forca a emergencia de uma concepcao distintamente burguesa ematerial dominante da sociedade e, ao mesrno tempo, sua asseptica do eu na cultura pos-renascentista europeia. Naforca intelectual dominante." A transformacao aqui e carac- verdade, eu estava no meio da releitura do livro e meteristicamente "pensada" em terrnos de uma inversao e uma perguntando por que ele nao havia sido reconhecido comosubstituicao. Quando a classe que "nada tem a perder senao o "texto de referenda" dos estudos culturais, quando fuiseus grilhoes" derruba a classe "que monopoliza os meios de informado sobre a morte prematura de um de seus autores,vida material e mental", tambem derruba e substitui ideias e Allon White.valores ern um surto de transvalorizacao cultural. Esta e a Varios colegas e amigos conheceram Allon White maisirnagem do "mundo de cabe^a para baixo"; da "moral deles e intimamente e trabalharam mais perto dele do que eu, e,a nossa" de Trotsky; das "visoes de mundo" mutuamente portanto, estao em uma condicao muito melhor para falar daexcludentes das culturas de classes antagonicas, tao teatral- qualidade e importancia de sua contribuicao intelectual.mente contrapostas por criticos como Lukacs e Goldmann, Contudo, tive o prazer e o privilegio de conhece-lo no inicioque tem governado as metaforas classicas de transformacao. de sua carreira. Depois de formar-se em Letras em Birmingham,Essas formulacoes nos surpreendem hoje em dia por sua ele passou algum tempo no Centro de Estudos Culturaissimplicidade brutal e por suas correspondents truncadas. antes de ir fazer o doutorado em Cambridge, e foi duranteMesmo assim, ate recentemente, onde quer que as transfor- esse periodo no Centro que eu o conheci de fato. Ele semacoes socials, simbolicas ou culturais fossem pensadas ou interessava pela dialetica hegeliana, especialmente as famosasimaginadas em conjunto, era em termos perseguidos por essa passagens do senhor e escravo na Fenomenologia, e eu ometafora. auxiliei na orientacao de seu Mestrado — isto e, ate o ponto ern que alguem o "orientou". Nenhum de nos era estudioso Ela nao inspira mais consentimento. A teoria cultural jasuperou decisivamente simplificacoes dramaticas e inversoes de Hegel ao certo; ele sabia perfeitamente bem o quebinarias como essas. A questao e: que metaforas alternativas pretendia descobrir e ja havia desenvolvido aquele trato220 221 L
  • 114. simpatico que guardava uma resolucao obstinada, qu e percebi varios pontos interessantes de convergencia entreposteriormente compreendi como uma caracteristica do seu os desdobramentos da teoria cultural que ocorriam conco-trabalho. Primeiro entao, aprendi a admirar e respeitar sua tnitantemente em dominios de estudo aparentemente incom-generosa e ramificada inteligencia, seu rico senso de humor, pativeis. A Primeira Palestra em Memoria de Allon White mea amplitude de suas leituras, a sutileza de sua sensibilidade pareceu uma boa oportunidade para refletir sobre eles. (Estecritica e sua apaixonada curiosidade intelectual. ensaio e um resumo da palestra que apresentei na ocasiao.) Na ultima vez que nos encontramos, ele havia acabado de O livro de Stallybrass e White parte da observacao dese recuperar de um novo surto de doenca. Contudo, parecia Curtius, em European Literature and the Middle Ages [Aparticularmente bem — exuberante, cheio de esperanca, literatura europeia e a Idade Media]? de que a divisao socialtransbordante de ideias. Sua energia emanava um ar "carna- dos cidadaos em faixas de renda baseadas em calculos devalesco" em torno da mesa onde — de uma forma verdadei- propriedade fornecia a base para a classificacao do prestigioramente rabelaisiana — ele e um grupo de amigos faziam e posicao dos escritores literarios e de suas obras.juntos uma refeicao. Conversamos sobre varias coisas, inclu-sive a obra de Mikhail Bakhtin, que o havia influenciado A classificac.ao dos generos literarios ou autores em umatanto. Quando fui convidado a fazer a Primeira Palestra em hierarquia analoga as classes sociais e um exemplo particular-Memoria de Allon White, organizada pela Universidade de mente claro de um processo cultural muito mais amplo e complexo pelo qual o corpo humano, as formas psiquicas,Sussex, quis de alguma forma juntar em torno da figura do o espa?o geografico e a formagao social sao construidos dentro"carnaval" esses dois momentos de sua carreira intelectual — de hierarquias inter-relacionadas e dependentes do tipo alto eseu engajamento nos estudos culturais e seu rico e complexoenvolvimento com a obra de Bakhtin — e refletir sobrealgumas relacoes surpreendentes entre ambos e ainda nao Essa "modelacao" conjunta do social e do cultural, de acordomencionadas. com classificacoes de "alto" e "baixo", passa por muitas permu- Presume-se que Bakhtin tenha causado um impacto mais tacoes entre o primeiro momento em que Curtius a observaprofundo sobre a teoria literaria do que sobre os estudos nos tempos classicos tardios e o presente; mas certamente eculturais. Em termos de influencia direta, esta opiniao prova- ainda um elemento ativo nos debates do seculo vinte sobrevelmente esta correta. Contudo, as afinidades entre os estudos as ameacas a civilizacao e a "cultura minoritaria" represen-culturais e Bakhtin podem ser maiores do que muitos imagi- tadas pelas influencias aviltantes da cultura de massa mercan-nam. De qualquer forma, minha intencao nao era tanto tracar tilizada, que fascinaram os Leavis e a revista Scrutiny, bemas influencias teoricas diretas e, sim, as "afinidades eletivas" como no debate paralelo sobre a "cultura de massa", entre a— especificamente, identificar um certo deslocamento teo- Escola de Frankfurt e seus criticos americanos melioristas.5rico que ocorre mais ou menos ao mesmo tempo em varios, De fato, uma variante desse debate ainda prospera nasmas distintos, campos de trabalho relacionados, onde, em paginas do New York Review of Books, do London Review ofretrospecto, a obra de Bakhtin — ou melhor, a forma como Books, e em outros locals do assim chamado debate sobre oesta foi distintamente apropriada e retrabalhada — provou "multiculturalismo" e a formacao do canone.ser de um valor decisive. Relendo A politico, e a poetica da O que Stallybrass e White registram e o processo pelo qualtransgressdo, de Allon White e seu amigo, interlocutor e essa pratica de classificacao cultural e constantementecompanheiro de guerra, Peter Stallybrass, e refletindo sobre transcodificada em uma variedade de dominios. O cerne deo dialogo crftico que os autores estabelecem ali com Freud e seu argumento e de queBakhtin sobre as "metaforas de transformacao" e a interacaoentre os limites e transgressoes nos processes culturais,222 223
  • 115. as categories cultures do alto e baixo, do social e estetico ... absurdos — que exploram aquilo que Bakhtin percebe como e tambem aquelas do corpo fisico e do espaco geografico nunca a reversibilidade intrinseca de toda ordem simbolica. Ao sao inteiramente separaveis. A classificacao dos generos lite- escrever sobre aquilo que ele denomina "fala nao publi- rarios ou autores em uma hierarquia analoga as classes socials cada" e outros jogos da falta consciente de 16gica, Bakhtin e" um exemplo particularmente claro de um processo cultural muito mais amplo e complexo, pelo qual o corpo humane, as observa que: formas psiquicas, o espaco geografico e a forma9ao social sao construidos dentro de hierarquias de "alto" e "baixo", E como se as palavras fossem liberadas dos grilhoes do sentido, inter-relacionadas e interdependentes. Este livro tenta mapear para desfrutar de um periodo de folga em completa liberdade algumas dessas hierarquias interligadas. Mais especificamente, e estabelecer relacionamentos incomuns [unusual umas com atenta para a formacao dessas hierarquias e o processo pelo as outras. E verdade que nenhum elo consistente e formado na qual o baixo perturba o alto.6 maioria das vezes, mas a breve coexistencia dessas palavras, expressoes e objetos fora de suas condicoes logicas usuais A nocao de Stallybrass e White de "transgressao" se funda expoe sua ambivalencia inerente. Seus multiples significados e potencialidades, que nao se rnanifestariam em condifoesna ideia de Bakhtin do "carnaval". "Em toda parte hoje nos normals, sao agora revelados."estudos literarios e culturais vemos o carnaval emergir comomodelo, ideal e categoria analitica."7 O carnaval e a metafora Para Bakhtin, essa reviravolta na ordem simbolica da acesso aoda suspensao e inversao temporaria e sancionada da ordem, dominio do popular — o "de baixo", o "sub-mundo" e aum tempo em que o baixo se torna alto e o alto, baixo, o "marcha dos deuses descoroados". O carnavalesco repre-momento da reviravolta, do "mundo as avessas". O estudo senta tambem uma ligacao com novas fontes de energia, vidade Rabelais levou Bakhtin a considerar a existencia do e vitalidade — nascimento, copula, abundancia, fertilidadepopular como um dominio e uma estetica totalmente alterna- e excesso. De fato, e este sentido de transbordamento datives. Com base em estudos sobre a importancia das feiras, energia libidinal associada ao momento do "carnaval" quedas festas, do mardigras, e de outras festividades populares, faz deste uma metafora poderosa da transformacao socialBakhtin utiliza o "carnaval" para sinalizar todas essas formas,tropos e efeitos nos quais as categorias simbolicas de hie- e simbolica.rarquia e valor sao invertidas. O "carnavalesco" inclui a Fredric Jameson, em O inconsciente politico, observa alinguagem do mercado — imprecacoes, profanacoes, jura- coexistencia de duas versoes das metaforas de transformacao:mentos e coloquialismos que estorvam a ordem privilegiadada enunciacao polida — os rituais, jogos e performances, nos A irnagem do triunfo da coletividade e a imagem da liberacaoquais as zonas genitais, os "estratos corporeos materials da "alma" ou do "corpo espiritual"; entre a visao de Saint- Simon de uma engenharia social e coletiva e a Utopia deinferiores" e tudo que Ihes pertence sao exaltados e as Fourier da gratificacao libidinal; entre a formulacao leninistaformas refinadas e formais de conduta e discurso, destro- nos anos 20 do comunismo como "Os sovietas mais a eletrifi-nadas; formas festivas populares nas quais, por exemplo, o cacao" e certas celebracoes mais propriamente marcuseanasrei ou o senhor de escravos e deposto e o bobo ou o escravo nos anos 60 de um corpo politico instintivo".9"governa" temporariamente; e outras ocasioes nas quais aimagem grotesca do corpo e de suas funcoes subverte os Bakhtin certamente pertence ao segundo campo. Jameson,modelos de decencia e os ideais classicos. de forma caracteristica, estabelece uma prioridade entre O "popular" de Bakhtin e caracterizado pelas praticas e essas duas versoes: "O programa da revolucao libidinal etropos da "combinacao dos contraries" — as "duplicidades" politico somente ate o ponto em que ele pr6prio e uma figurada linguagem, as coisas invertidas ou as avessas, a noiva da revolucao social." Nesse sentido, ao discutir Bakhtin dire-"chorando de rir e rindo ate chorar", os jogos verbais e os tamente, Jameson argumenta que a hermeneutica marxista 225224
  • 116. "que sera ... defendida enquanto algo equivalence a uma Aqui, em vez das alternancias e subordinates entre as duas ultima pre"-condic.ao semantica para a inteligibilidade dos metaforas, estabelecidas por Jameson, observa-se aquilo que textos literarios e culturais" — tera primazia sobre o "carna- este autor denomina "metafisica do desejo", em que a trans- valesco"; sendo esta uma instancia "local" daquela e o "dialo- gressao invade, subverte, e torna irremediavelmente complexes oaico" de Bakhtin assimilado aos termos classicos da dialetica os termos binaries das metaforas mais classicas. hegeliana e da contradicao.10 O que mais me chamou a atencao ao reler A politico, e a Na verdade, o que e surpreendente e original a respeito poetica da transgressdo e que esse processo de mudanca do "carnavalesco" de Bakhtin enquanto metafora da transfor- entre duas metaforas de transformacao relacionadas, mas cada macao cultural e simbolica e que esta nao e simplesmente vez mais distintas, nao e meramente um discernimento inter- uma metafora de inversao — que coloca o "baixo" no lugar pretative "local" desses dois autores, mas e algo sintomatico do "alto", preservando a estrutura binaria de divisao entre os de uma transicao maior em nossa vida polftica e cultural, bem mesmos. No carnaval de Bakhtin, e precisamente a pureza como no trabalho te6rico-critico das ultimas decadas. E aqui dessa distincao binaria que e transgredida. O baixo invade o que certas "afinidades eletivas" com o trabalho da teoria alto, ofuscando a imposicao da ordem hierarquica; criando, cultural no Centre de Estudos Culturais nos anos 70 come- nao simplesmente o triunfo de uma estetica sobre a outra, e.aram a se insinuar. mas aquelas formas impuras e hibridas do "grotesco"; reve- A titulo de ilustracao, podemos tomar tres exemplos: o lando a interdependencia do baixo com o alto e vice-versa, a primeiro deles provem dos debates que pertencem ao natureza inextricavelmente mista e ambivalente de toda vida cultural, a reversibilidade das formas, srmbolos, linguagens "momento fundador" (sic) dos estudos culturais; o segundoe significados culturais; expondo o exercicio arbitrario do do trabalho com as subculturas jovens e o popular; o terceiro,poder cultural, da simplificacao e da exclusao, que sao os da analise do discurso ideologico.mecanismos pelos quais se funda a construcao de cada limite, Nem sempre nos lembramos de que os estudos culturaistradicao ou formacao canonica, e o funcionamento de cada "comecaram" em Birmingham com uma interrogacao sobre asprinciple hierarquico de clausura cultural, categorias de alto/baixo do debate cultural. Em pane, esses Esta me parece a mudanca crucial das "metaforas de transfor- termos foram herdados da preocupacao de Leavis com omacao" que Stallybrass e White expandem e desenvolvem em desaparecimento de uma cultura popular "viva" e organicaseu livro. Conforme esclarecem os autores, seu tema principal no seculo dezoito e sua substituicao por uma "civilizacao dee "a natureza contraditoria das hierarquias simbolicas". massa" degradada, que representava uma seria ameaca aO baixo nao e mais a imagem refletida do alto, aquele que "cultura minoritaria ou da minoria"; em parte provem tambemespera nos bastidores para substitui-lo, como nas metaforas do debate sobre "cultura de massa" entre os criticos culturaisclassicas da revolucao, mas uma outra figura, relacionada mas conservadores e demoticos, de onde surgiram os chamadosdiferente, que tem assombrado e perseguido a metafora "estudos da midia".12 Na verdade, os estudos culturais separadigmatica do baixo enquanto "local de desejos confli- definiram criticamente em relacao aos termos de ambos ostuosos e representacoes mutuamente incompativeis". debates. Rejeitou o programa cultural essencialmente elitista, no qual a critica da Scrutiny se fundava; e rejeitou os bina- Continuamente nos deparamos com a surpreendente ambiva- rismos rigidos do debate em torno da "cultura de massa".13 lencia das representacoes dos estratos inferiores (do corpo, da Tentou desembaracar da pratica da classificacao cultural a literatura, da sociedade, do lugar) em que estes sao ao mesmo tempo abominados e desejados. Repugnancia e fascinio sao os questao do valor cultural ou litefario intrinseco de textos polos gemeos de um processo no qual o imperative politico de particulares — uma distincao elementar que, infelizmente, rejeitar e eliminar o "byixo" degradante se choca poderosa e alguns dos colaboradores altamente sofisticados do debate imprevisivelmente contra o desejo pelo outro."226 227
  • 117. atual sobre o "canone" parecem incapazes de fazer. (A socio- da resistencia e da repeticao nos teatros da vida cotidiana, o logia as vezes merece a ma fama que tern; mas um pouco de "efeito bricoleur" da dissociacao de fragmentos e emblemas sofisticacao sociologica nao faria mal aqui e acola). de um discurso cultural e sua reassociacao em outro. Os rituais A analise de Raymond Williams do funcionamento da tambem sugeriam uma resposta para a questao, apresentada "tradic/ao seletiva" e sua posterior desconstru^ao da "litera- por muitos criticos sociais convencionais, de haver ou nao tura" em modos de escrita adquiriram um sentido subversive limites embutidos em todas essas formas de resistencia — no contexto do mesrno debate. u Para outros de n6s, foi a por causa de sua qualidade gestual, sua dissociacao das categoria do "popular" que efetivamente cortou o no gor- agendas classicas de transformacao social, seu status — como diano, nao atraves de uma celebracao populista acntica, tao se definiu na linguagem da epoca — de "solucoes magicas". comum em alguns circulos, mas por haver perturbado os Esta e uma questao seria — o proprio Bakhtin reconheceu contornos estabelecidos e — precisamente — transgredido que "nenhuma ligaclo consistente e estabelecida na maioria as fronteiras da classificagao cultural. Desde o advento das vezes" — mas esta forma de expressar a questao tambem do modernismo, e mesmo na era do "pos-modernismo", tern refletia a presence duradoura da crenca de que o simbolico sido impossfvel manter o alto e o baixo cuidadosamente nao poderia ser outra coisa senao uma categoria de segunda segregados em seus proprios locals no esquema de classifi- ordem, dependente. cacao. Tentamos encontrar uma safda para o dilema binario, No contexto da presente discussao, o que parece mais repensando o "popular" nao em termos de qualidades ou significative e a forma como Resistance through Rituals se conteudos fixos, mas relacionalmente — como aquelas formas distanciou ativamente das metaforas classicas da "luta revo- e praticas exclufdas do "valorizado" ou do "canone", ou lucionaria" e das antinomias reforma/revolucao, ao oferecer opostas a estes, pelo funcionamento das praticas simbolicas uma definigao ampliada de ruptura social. No lugar das dico- de exclusao e fechamento.15 tomias simples da "luta de classe", a obra inaugura a nocao Em 1975, o Centro publicou um volume de ensaios sobre gramsciana de "repertorios de resistencia" que, insiste-se ali, "As subculturas jovens no pos-guerra britanico". Embora esse sempre foram historicamente especificos e conjunturalmentevolume tenha se tornado bastante influente na area, deslan- definidos. Tenta basear esses repertorios nao diretamente no chando um grande numero de estudos mais aprofundados, binarismo rigido dos classicos conflitos de classe, mas emele representa um comeco bastante precario. t citado aqui uma analise do "equilibrio nas relacoes de forca" conformenao para que se possa resgata-lo da relativa obscuridade, Gramsci desenvolve em sua analise da luta hegemonica.mas por causa daquilo que esse texto nos revela sobre aconcepipao das ideias de transgressao, inversao simbolica e Negocia^ao, resistencia, luta: as relacoes entre uma formacaocontestae.ao cultural. cultural subordinada e uma dominante, onde quer que se loca- O titulo do livro era Resistance through Rituals [Resistencia lizem nesse espectro, sao sempre intensamente ativas, sempre opostas num sentido estrutural (mesmo quando essa "opo-atraves de rituais]; a utilizagao de dois termos no titulo foi si^ao" for latente, ou experimentada simplesmente como odeliberada.16 Por "resistencia" sinalizavam-se as formas de estado normal das coisas ...). Seu resultado nao e dado, masdesafiliacao (como os novos movimentos socials ligados a construido. A classe subordinada traz para esse "teatro de luta"juventude) que, de certa forma, representavam as ameae.as um repertorio de estrategias e respostas — formas de lidar come negociacoes corn a ordem dominante, que nao poderiam situacoes e resisti-Ias. Cada "estrategia" no repertorio mobilizaser assimiladas pelas categorias tradicionais da luta revolu- certos elementos materials, sociais [e simbolicos]: os constroi como suportes para as diversas formas de vida das classes,cionaria de classes, Ja o termo "rituais" apontava para a di- [negocia] e resiste a continua subordinacao das mesmas. Nemmensao simbolica desses movimentos — a estiliza^ao das todas as estrategias tern o mesmo peso; nem todas sao poten-acoes sociais, o "jogo" dos signos e simbolos, a "encenacao" cialmente contra-hegemonicas.17228 229
  • 118. Este e urn estagio bem inicial da formulacao do problema, Em segundo lugar, marcou uma ruptura decisiva na em que os traces de um "reducionismo de classe" ainda correspondent entre as classes e a ideia de "linguagens podem ser encontrados.18 Porem, o interesse maior recai sobre de classe", universes ideologicos ou, usando a linguagem como as nocoes acerca de varias formas de resistencia substi- de Lukacs, "visoes de mundo" separadas, autonomas e auto- tuem a primazia da "Iuta de classes"; sobre o movimento em suficientes. direcao a uma forma menos determinista, mais conjuntural de compreender os "repert6rios de resistencia" e a centrali- A classe social e a comunidade semiotica nao se confundem. dade conferida a dimensao simbolica. Gramsci representa a Pelo segundo termo entendemos a comunidade que utiliza um mais significance influencia teorica sobre essas formulae/oes. unico e mesmo codigo ideologico de comunicacao. Assim, Foi seu conceito do "nacional-popular" como terreno de Iuta classes socials diferentes servem-se de uma so e mesma lingua. Conseqtientemente, em todo signo ideologico confrontam-se cultural e hegemonica "relativamente autonomo", pelo menos indices de valor contraditorios. O signo se torna a arena onde em relacao a outros tipos de Iuta social, que nos ajudou a se desenvolve a Iuta de classes.21 deslocar os tra£os do reducionismo no argumento. O terceiro exemplo vem da analise do discurso ideologico. Em terceiro lugar, o texto antecipou o argumento chave de Nos anos 70, no Centro de Estudos Culturais, houve grande que, ja que diferentes indices de valor coincidem em um mesmo empenho no sentido de repensar e re-trabalhar as categorias signo, a Iuta pelo significado nao se dava como a substituic.ao conceituais da ideologia, seus mecanismos e mapeamentos de uma linguagem de classe auto-suficiente por outra, mas em varias areas distintas. Esse trabalho foi conduzido dentro como a desarticulae/ao e rearticula^ao dos diferentes indices de um espaco conceitual especifico, definido por diversos de valor ideologico dentro de um mesmo signo. Dai que o eixos teoricos: primeiro, pela ausencia radical de uma teoria significado nao pode ser fixado definitivamente, pois cadaadequada ou de uma conceituac.ao de linguagem e do ideo- signo ideologico, como observou Volochinov, e "pluriva-logico nos escritos de Marx e, particularmente, pela necessi- lente"; consequentemente, esse "jogo" discursive continue oudade de transcender a metafora "base-superestrutura"; em essa variacao de conteudo dentro da lingua constituia asegundo lugar, em rela^ao as experiencias com o que se pode condic.ao que possibilitava a contestacao ideologica. "O signo,definir amplamente como a