Karl marx o capital - crítica da economia política, vol i (os economistas)

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Karl marx o capital - crítica da economia política, vol i (os economistas)

  1. 1. OS ECONOMISTAS
  2. 2. KARL MARXO CAPITALCRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICAVOLUME ILIVRO PRIMEIROO PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CAPITALTOMO 1(Prefácios e Capítulos I a XII)Apresentação de Jacob GorenderCoordenação e revisão de Paul SingerTradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe
  3. 3. FundadorVICTOR CIVITA(1907 - 1990)Editora Nova Cultural Ltda.Copyright © desta edição 1996, Círculo do Livro Ltda.Rua Paes Leme, 524 - 10º andarCEP 05424-010 - São Paulo - SPTítulos originais:Value, Price and Profit; Das Kapital -Kritik der Politischen konomie.Direitos exclusivos sobre a Apresentação de autoria deWinston Fritsch, Editora Nova Cultural Ltda.Direitos exclusivos sobre as traduções deste volume:Círculo do Livro Ltda.Impressão e acabamento:DONNELLEY COCHRANE GRÁFICA E EDITORA BRASIL LTDA.DIVISÃO CÍRCULO - FONE: (55 11) 4191-4633ISBN 85-351-0831-9
  4. 4. APRESENTAÇÃOEm 1867, vinha à luz, na Alemanha, a primeira parte de umaobra intitulada O Capital. Karl Marx, o autor, viveu, então, um mo-mento de plena euforia, raro em sua atribulada existência. Durantequase vinte anos, penara duramente a fim de chegar a este momento— o de apresentar ao público, conquanto de maneira ainda parcial, oresultado de suas investigações no campo da Economia Política.Não se tratava, contudo, de autor estreante. À beira dos cinqüentaanos, já imprimira o nome no frontispício de livros suficientes paralhe assegurar destacado lugar na história do pensamento. Àquela al-tura, sua produção intelectual abrangia trabalhos de Filosofia, TeoriaSocial, Historiografia e também Economia Política. Quem já publicaraMiséria da Filosofia, Manifesto do Partido Comunista, A Luta de Classesem França, O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte e Para a Críticada Economia Política — podia avaliar com justificada sobranceria opróprio currículo. No entanto, Marx afirmava que, até então, apenasescrevera bagatelas. Sentia-se, por isso, autor estreante e, demais, ali-viado de um fardo que lhe vinha exaurindo as forças. Também osamigos e companheiros, sobretudo Engels, exultavam com a publicação,pois se satisfazia afinal a expectativa tantas vezes adiada. Na verdade,pouquíssimos livros desta envergadura nasceram em condições tão difíceis.1. Do liberalismo Burguês ao ComunismoEste homem, que vivia um intervalo de consciência pacificada eiluminação subjetiva em meio a combates políticos, perseguições e decep-ções, nascera em 1818, em Trier (Trevès, à francesa), sul da Alemanha.Duas circunstâncias lhe marcaram a origem e a primeira educação.Trier localiza-se na Renânia, então província da Prússia, limítrofeda França e, por isso, incisivamente influenciada pela Revolução Fran-cesa. Ao contrário da maior parte da Alemanha, dividida em numerososEstados, os camponeses renanos haviam sido emancipados da servidãoda gleba, e das antigas instituições feudais não restava muita coisana província. Firmavam-se nela núcleos da moderna indústria fabril5
  5. 5. em torno da qual se polarizavam as duas novas classes da sociedadecapitalista: o proletariado e a burguesia. A esta primeira e poderosacircunstância social se vinculava uma outra. As idéias do iluminismofrancês contavam com muitos adeptos nas camadas cultas da Renânia.O pai de Marx — tal a segunda circunstância existencial — era umdesses adeptos.A família Marx pertencia à classe média de origem judaica. Hirs-chel Marx fizera brilhante carreira de jurista e chegara a Conselheiroda Justiça. A ascensão à magistratura obrigara-o a submeter-se a im-posições legais de caráter anti-semita. Em 1824, quando o filho Karltinha seis anos, Hirschel converteu a família ao cristianismo e adotouo nome mais germânico de Heinrich. Para um homem que professavao deísmo desvinculado de toda crença ritualizada, o ato de conversãonão fez mais do que sancionar a integração no ambiente intelectualdominado pelo laicismo. Karl, que perdeu o pai aos vinte anos, em1838, recebeu dele orientação formadora vigorosa, da qual guardariarecordação sempre grata.Durante o curso de Direito, iniciado na Universidade de Bonn eprosseguido na de Berlim, o estudante Karl encontrou um ambientede grande vivacidade cultural e política. O supremo mentor ideológicoera Hegel, mas uma parte dos seus seguidores — os Jovens Hegelianos— interpretava a doutrina no sentido do liberalismo e do regime cons-titucional democrático, podando os fortes aspectos conservadores dosistema do mestre, em especial sua exaltação do Estado. Marx fez ainiciação filosófica e política com os Jovens Hegelianos, o que o levouao estudo preferencial da filosofia clássica alemã e da filosofia emgeral. Esta formação filosófica teve influência espiritual duradoura efirmou um dos eixos de sua produção intelectual.Se foi hegeliano, o que é inegável, nunca chegou a sê-lo de maneiraestrita. Não só já encontrou a escola hegeliana numa fase de cisãoadiantada, como ao seu espírito inquieto e inclinado a idéias anticon-servadoras, na atmosfera opressiva da monarquia absolutista prussia-na, o sistema do mestre consagrado devia parecer uma camisa-de-força.Em carta ao pai, já em 1837, escrevia: “a partir do idealismo (...) fuilevado a procurar a Idéia na própria realidade (...)”. A esse respeito,também é sintomático que escolhesse a relação entre os filósofos gregosmaterialistas Demócrito e Epicuro para tema de tese de doutoramento,defendida na Universidade de Iena. Embora inspirada nas linhas mes-tras da concepção hegeliana da história da filosofia, desponta na teseum impulso para transcender àquela concepção, num sentido que so-mente mais tarde se tornaria claro.Em 1841, Ludwig Feuerbach dava a público A Essência do Cris-tianismo. O livro teve forte repercussão, pois constituía a primeirainvestida franca e sem contemplações contra o sistema de Hegel. Oidealismo hegeliano era desmistificado e se propunha, em seu lugar,OS ECONOMISTAS6
  6. 6. uma concepção materialista que assumia a configuração de antropologianaturista. O homem enquanto ser natural, fruidor dos sentidos físicose sublimado pelo amor sexual, colocava-se no centro da natureza edevia voltar-se para si mesmo. Estava, porém, impedido de fazê-lo pelaalienação religiosa. Tomando de Hegel o conceito de alienação, Feuer-bach invertia os sinais. A alienação, em Hegel, era objetivação e, porconseqüência, enriquecimento. A Idéia se tornava ser-outro na naturezae se realizava nas criações objetivas da história humana. A recuperaçãoda riqueza alienada identificava Sujeito e Objeto e culminava no SaberAbsoluto. Para Feuerbach, ao contrário, a alienação era empobreci-mento. O homem projetava em Deus suas melhores qualidades de sergenérico (de gênero natural) e, dessa maneira, a divindade, criação dohomem, apropriava-se da essência do criador e o submetia. A fim derecuperar tal essência e fazer cessar o estado de alienação e empobre-cimento, o homem precisava substituir a religião cristã por uma religiãodo amor à humanidade.Causador de impacto e recebido com entusiasmo, o humanismonaturista de Feuerbach foi uma revelação para Marx. Apetrechou-oda visão filosófica que lhe permitia romper com Hegel e transitar doidealismo objetivo deste último em direção ao materialismo. Não obs-tante, assim como nunca chegou à plenitude de hegeliano, tampoucose tornou inteiramente feuerbachiano. Apesar de jovem e inexperiente,era dotado de excepcional inteligência crítica, que o levava sempre aoexame sem complacência das idéias e das coisas. Ao contrário de Feuer-bach, que via na dialética hegeliana apenas fonte de especulação mis-tificadora, Marx intuiu que essa dialética devia ser o princípio dinâmicodo materialismo, o que viria a resultar na concepção revolucionáriado materialismo como filosofia da prática.Entre 1842 e 1843, Marx ocupou o cargo de redator-chefe daGazeta Renana, jornal financiado pela burguesia. A orientação liberaldo diário impôs-lhe freqüentes atritos com a censura prussiana, queculminaram no fechamento arbitrário. Mas a experiência jornalísticafoi muito útil para Marx, pois o aproximou da realidade cotidiana.Ganhou conhecimento de questões econômicas geradoras de conflitossociais e se viu diante do imperativo de pronunciar-se acerca das idéiassocialistas de vários matizes, que vinham da França e se difundiamna Alemanha por iniciativa, entre outros, de Weitling e Moses Hess.Tanto com relação às questões econômicas como às idéias socialistas,o redator-chefe da Gazeta Renana confessou com lisura sua ignorânciae esquivou-se de comentários improvisados e infundados. Assim, foi aatividade política, no exercício do jornalismo, que o impeliu ao estudoem duas direções marcantes: as da Economia Política e das teoriassocialistas.Em 1843, Marx casou-se com Jenny Von Westphalen, origináriade família recém-aristocratizada, cujo ambiente confortável trocariaMARX7
  7. 7. por uma vida de penosas vicissitudes na companhia de um líder re-volucionário. Marx se transferiu, então, a Paris, onde, em janeiro de1844, publicou o único número duplo dos Anais Franco-Alemães, editadoem colaboração com Arnold Ruge, figura destacada da esquerda hege-liana. A publicação dos Anais visava a dar vazão à produção teóricae política da oposição democrática radical ao absolutismo prussiano.Naquele número único, veio à luz um opúsculo de Engels intituladoEsboço de uma Crítica da Economia Política, acerca do qual Marxmanifestaria sempre entusiástica apreciação, chegando a classificá-lode genial.Friedrich Engels (1820-1895) era filho de um industrial têxtil,que pretendia fazê-lo seguir a carreira dos negócios e, por isso, afas-tara-o do curso universitário. Dotado de enorme curiosidade intelectual,que lhe daria saber enciclopédico, Engels completou sua formação comoaluno-ouvinte de cursos livres e incansável autodidata. Viveu curtoperíodo de hegeliano de esquerda e também sentiu o impacto da ir-rupção materialista feuerbachiana. Mas, antes de Marx, aproximou-sedo socialismo e da Economia Política. O que ocorreu na Inglaterra,onde esteve a serviço dos negócios paternos e entrou em contato comos militantes operários do Partido Cartista. Daí ao estudo dos econo-mistas clássicos ingleses foi um passo.O Esboço de Engels focalizou as obras desses economistas comoexpressão da ideologia burguesa da propriedade privada, da concor-rência e do enriquecimento ilimitado. Ao enfatizar o caráter ideológicoda Economia Política, negou-lhe significação científica. Em especial,recusou a teoria do valor-trabalho e, por conseguinte, não lhe reconhe-ceu o estatuto de princípio explicativo dos fenômenos econômicos. Seestas e outras posições seriam reformuladas ou ultrapassadas, o Esboçotambém continha teses que se incorporaram de maneira definitiva aoacervo marxiano. Entre elas, a argumentação contrária à “Lei de Say”e à teoria demográfica de Malthus. Mais importante que tudo, porém,foi que o opúsculo de Engels transmitiu a Marx, provavelmente, ogerme da orientação principal de sua atividade teórica: a crítica daEconomia Política enquanto ciência surgida e desenvolvida sob inspi-ração do pensamento burguês.Os Anais Franco-Alemães (assim intitulados com o objetivo deburlar a censura prussiana) estamparam dois ensaios de Marx: a In-trodução à Crítica à Filosofia do Direito de Hegel e A Questão Judaica.Ambos marcam a virada de perspectiva, que consistiu na transição doliberalismo burguês ao comunismo. Nos anos em que se encontravamem gestação as condições para a eclosão da revolução burguesa naAlemanha, o jovem ensaísta identificou no proletariado a classe agenteda transformação mais profunda, que devia abolir a divisão da sociedadeem classes. Contudo, o procedimento analítico e a formulação literáriadessas idéias mostravam que o autor ainda não adquirira ferramentasOS ECONOMISTAS8
  8. 8. discursivas e linguagem expositiva próprias, tomando-as de Hegel ede Feuerbach. Do primeiro, os giros dialéticos e a concepção teleológicada história humana. Do segundo, o humanismo naturista. A novidaderesidia na introdução de um terceiro componente, que seria o fatormais dinâmico da evolução do pensamento do autor: a idéia do comu-nismo e do papel do proletariado na luta de classes.O passo seguinte dessa evolução foi assinalado por um conjuntode escritos em fase inicial de elaboração, que deveriam resultar, aoque parece, em vasto ensaio. Este ficou só em projeto e Marx nuncafez nenhuma alusão aos textos que, sob o título de Manuscritos Eco-nômico-Filosóficos de 1844, teriam publicação somente em 1932, naUnião Soviética.Sob o aspecto filosófico, tais textos contêm uma crítica incisiva doidealismo hegeliano, ao qual se contrapõe a concepção materialista aindanitidamente influenciada pela antropologia naturista de Feuerbach. Mas,ao contrário deste último, Marx reteve de Hegel o princípio dialético ecomeçou a elaborá-lo no sentido da criação da dialética materialista.Sob o aspecto das questões econômicas, os Manuscritos reprodu-zem longas citações de vários autores, sobretudo, Smith, Say e Ricardo,acerca das quais são montados comentários e dissertações. No essencial,Marx seguiu a linha diretriz do Esboço de Engels e rejeitou a teoriado valor-trabalho, considerando-a inadequada para fundamentar a ciên-cia da Economia Política. A situação do proletariado, que representao grau final de desapossamento, tem o princípio explicativo no seuoposto — a propriedade privada. Esta é engendrada e incrementadamediante o processo generalizado de alienação, que permeia a sociedadecivil (esfera das necessidades e relações materiais dos indivíduos).Transfigurado ao passar de Hegel a Feuerbach, o conceito dealienação sofria nova metamorfose ao passar deste último a Marx.Pela primeira vez, a alienação era vista enquanto processo da vidaeconômica. O processo por meio do qual a essência humana dos ope-rários se objetivava nos produtos do seu trabalho e se contrapunha aeles por serem produtos alienados e convertidos em capital. A idéiaabstrata do homem autocriado pelo trabalho, recebida de Hegel, con-cretizava-se na observação da sociedade burguesa real. Produção dosoperários, o capital dominava os produtores e o fazia cada vez mais,à medida que crescia por meio da incessante alienação de novos pro-dutos do trabalho. Evidencia-se, portanto, que Marx ainda não podiaexplicar a situação de desapossamento da classe operária por um pro-cesso de exploração, no lugar do qual o trabalho alienado constitui,em verdade, um processo de expropriação. Daí a impossibilidade desuperar a concepção ética (não-científica) do comunismo.Nos Manuscritos, por conseguinte, alienação é a palavra-chave.Deixaria de sê-lo nas obras de poucos anos depois. Contudo, reformu-MARX9
  9. 9. lada e num contexto avesso ao filosofar especulativo, se incorporariadefinitivamente à concepção sócio-econômica marxiana.Materialismo histórico, socialismo científico eEconomia PolíticaEm 1844 e em Paris, Marx e Engels deram início à colaboraçãointelectual e política que se prolongaria durante quatro decênios. Do-tado de exemplar modéstia, Engels nunca consentiu que o consideras-sem senão o “segundo violino” junto a Marx. Mas este, sem dúvida,ficaria longe de criar uma obra tão impressionante pela complexidadee extensão não contasse no amigo e companheiro com um incentivador,consultor e crítico. Para Marx, excluído da vida universitária, despre-zado nos meios cultos e vivendo numa época em que Proudhon, Blanquie Lassalle eram os ideólogos influentes das correntes socialistas, Engelsfoi mais do que interlocutor colocado em pé de igualdade: representou,conforme observou Paul Lafargue, o verdadeiro público com o qualMarx se comunicava, público exigente para cujo convencimento nãopoupava esforços. As centenas de cartas do epistolário recíproco regis-tram um intercâmbio de idéias como poucas vezes ocorreu entre doispensadores, explicitando, ao mesmo tempo, a importância da contri-buição de Engels e o respeito de Marx às críticas e conselhos do amigo.Escrita em 1844 e publicada em princípios de 1845, A SagradaFamília foi o primeiro livro em que Marx e Engels apareceram nacondição de co-autores. Trata-se de obra caracteristicamente polêmica,que assinala o rompimento com a esquerda hegeliana. O título sar-cástico identifica os irmãos Bruno, Edgar e Egbert Bauer e dá o tomdo texto. Enquanto a esquerda hegeliana depositava as esperanças derenovação da Alemanha nas camadas cultas, aptas a alcançar umaconsciência crítica, o que negava aos trabalhadores, Marx e Engelsenfatizaram a impotência da consciência crítica que não se tornassea consciência dos trabalhadores. E, neste caso, só poderia ser umaconsciência socialista.O livro contém abrangente exposição da história do materialismo,na qual se percebe o progresso feito no domínio dessa concepção filo-sófica e a visão original que os autores iam formando a respeito dela,embora ainda não se houvessem desprendido do humanismo naturistade Feuerbach.Aspecto peculiar do livro reside na defesa de Proudhon, com oqual Marx mantinha amiúde encontros pessoais em Paris. Naquelemomento, o texto de A Sagrada Família fazia apreciação positiva dacrítica da sociedade burguesa pelo já famoso autor de Que É a Pro-priedade, então o de maior evidência na corrente que Marx e Engelsmais tarde chamariam de socialismo utópico e da qual consideravamOwen, Saint-Simon e Fourier os expoentes clássicos.No processo de absorção e superação de idéias, Marx e EngelsOS ECONOMISTAS10
  10. 10. haviam alcançado um estágio em que julgaram necessário passar alimpo suas próprias idéias. De 1845 a 1846, em contato com as seitassocialistas francesas e envolvidos com os emigrados alemães na cons-piração contra a monarquia prussiana, encontraram tempo para seconcentrar na elaboração de um livro de centenas de páginas densas,que recebeu o título de A Ideologia Alemã. Iniciada em Paris, a redaçãodo livro se completou em Bruxelas, onde Marx se viu obrigado a buscarrefúgio, pois o governo de Guizot, pressionado pelas autoridades prus-sianas, o expulsou da França sob acusação de atividades subversivas.O livro não encontrou editor e só foi publicado em 1932, também naUnião Soviética. Em 1859, Marx escreveria que de bom grado ele eEngels entregaram o manuscrito à crítica roedora dos ratos, dando-sepor satisfeitos com terem posto ordem nas próprias idéias.Na verdade, A Ideologia Alemã encerra a primeira formulaçãoda concepção histórico-sociológica que receberia a denominação de ma-terialismo histórico. Trata-se, pois, da obra que marca o ponto de viradaou, na expressão de Althusser, o corte epistemológico na evolução dopensamento dos fundadores do marxismo.A formulação do materialismo histórico desenvolve-se no corpoda crítica às várias manifestações ideológicas de maior consistênciaque disputavam, então, a consciência da sociedade germânica, às vés-peras de uma revolução democrático-burguesa. A crítica dirige-se a umelenco que vai de Hegel a Stirner. A parte mais importante é a inicial,dedicada a Feuerbach. O rompimento com este se dá sob o argumentodo caráter abstrato de sua antropologia filosófica. O homem, para Feuer-bach, é ser genérico natural, supra-histórico, e não ser social determi-nado pela história das relações sociais por ele próprio criadas. Daí ocaráter contemplativo do materialismo feuerbachiano, quando o prole-tariado carecia de idéias que o levassem à prática revolucionária daluta de classes. Uma síntese dessa argumentação encontra-se nas TesesSobre Feuerbach, escritas por Marx como anotações para uso pessoale publicadas por Engels em 1888. A última e undécima tese é preci-samente aquela que declara que a filosofia se limitara a interpretaro mundo de várias maneiras, quando era preciso transformá-lo.A ideologia é, assim, uma consciência equivocada, falsa, da rea-lidade. Desde logo, porque os ideólogos acreditam que as idéias mode-lam a vida material, concreta, dos homens, quando se dá o contrário:de maneira mistificada, fantasmagórica, enviesada, as ideologias ex-pressam situações e interesses radicados nas relações materiais, decaráter econômico, que os homens, agrupados em classes sociais, es-tabelecem entre si. Não são, portanto, a idéia Absoluta, o Espírito, aConsciência Crítica, os conceitos de Liberdade e Justiça, que moveme transformam as sociedades. Os fatores dinâmicos das transformaçõessociais devem ser buscados no desenvolvimento das forças produtivase nas relações que os homens são compelidos a estabelecer entre si aoMARX11
  11. 11. empregar as forças produtivas por eles acumuladas a fim de satisfazersuas necessidades materiais. Não é o Estado, como pensava Hegel, quecria a sociedade civil: ao contrário, é a sociedade civil que cria o Estado.A concepção materialista da história implicava a reformulaçãoradical da perspectiva do socialismo. Este seria vão e impotente en-quanto se identificasse com utopias propostas às massas, que deveriampassivamente aceitar seus projetos prontos e acabados. O socialismosó seria efetivo se fosse criação das próprias massas trabalhadoras,com o proletariado à frente. Ou seja, se surgisse do movimento históricoreal de que participa o proletariado na condição de classe objetivamenteportadora dos interesses mais revolucionários da sociedade.Mas de que maneira substituir a utopia pela ciência? Por ondecomeçar?Nenhum registro conhecido existe que documente este momentocrucial na progressão do pensamento marxiano. Não obstante, a próprialógica da progressão sugere que tais indagações se colocavam com forçano momento preciso em que, alcançada a formulação original do ma-terialismo histórico, surgia a incontornável tarefa de ultrapassar o so-cialismo utópico. O que não se conseguiria pela negativa retórica esim pela contraposição de uma concepção baseada na ciência social.Ora, conforme a tese ontológica fundamental do materialismohistórico, a base sobre a qual se ergueria o edifício teria de ser aciência das relações materiais de vida — a Economia Política. Esta jáfora criada pelo pensamento burguês e atingira com Ricardo a culmi-nância do refinamento. No entanto, Marx e Engels haviam rejeitadoa Economia Política, vendo nela tão-somente a ideologia dos interessescapitalistas. Como se deu que houvessem repensado a Economia Políticae aceito o seu núcleo lógico — a teoria do valor-trabalho?Cabe supor que a superação da antropologia feuerbachiana teveo efeito de desimpedir o caminho no sentido de nova visão da teoriaeconômica. Em particular, tal superação permitia pôr em questão oestatuto do conceito de alienação como princípio explicativo da situaçãoda classe operária. Não obstante, esse aspecto isolado não nos esclareceacerca da virada de orientação do pensamento marxiano.É sabido que, a partir de 1844, Marx concentrou sua energiaintelectual no estudo dos economistas. De referências posteriores, res-salta a sugestão de que a mudança de orientação acerca dos economistasclássicos foi mediada pelos ricardianos de esquerda. Neles, certamente,descobriu Marx a leitura socialista de Ricardo. Assim como Feuerbachabriu caminho à leitura materialista de Hegel e à elaboração da dia-lética materialista, Hodgskin, Ravenstone, Thompson, Bray e Edmondspermitiram a leitura socialista de Ricardo e daí começaria a elaboraçãoda Economia Política marxiana, de acordo com o princípio ontológicodo materialismo histórico e tendo em vista a fundamentação científicado socialismo.OS ECONOMISTAS12
  12. 12. Os ricardianos de esquerda eram inferiores ao próprio Ricardosob o aspecto da força teórica, porém a perspectiva socialista, conquantoimpregnada de idéias utópicas, os encaminhou a interpretar a teoriaricardiana do valor-trabalho e da distribuição do produto social nosentido da demonstração de que a exploração do proletariado constituíao eixo do sistema econômico da sociedade burguesa. A significação doconhecimento desses publicistas na evolução do pensamento marxianoé salientada por Mandel que, a tal respeito, assinala o quanto deveter sido proveitosa a temporada passada por Marx na Inglaterra, em1845. Ali, não só pôde certificar-se da defesa da teoria do valor-trabalhopelos ricardianos ligados ao movimento operário, como, ao revés, oabandono dela pelos epígonos burgueses do grande economista clássico.Em 1846, Proudhon publicou o livro Sistema das ContradiçõesEconômicas ou Filosofia da Miséria, no qual atacou a luta dos operáriospor objetivos políticos e reivindicações salariais, colocando em seu lugaro projeto do intercâmbio harmônico entre pequenos produtores e dainstituição de “bancos do povo”, que fariam empréstimos sem juros aostrabalhadores. Tudo isso apoiado na explicação da evolução históricainspirada num hegelianismo mal-assimilado e retardatário.Marx respondeu no ano seguinte com Miséria da Filosofia, queescreveu em francês. À parte a polêmica devastadora contra Proudhon,resumindo a crítica ao socialismo utópico em geral, o livro marcou aplena aceitação da teoria do valor-trabalho, na formulação ricardiana.Sob este aspecto, Miséria da Filosofia constituiu ponto de virada tãosignificativo na evolução do pensamento marxiano quanto A IdeologiaAlemã. Não importa que Marx também houvesse aceito, na ocasião,as teses de Ricardo sobre o dinheiro e sobre a renda da terra, dasquais se tornaria depois renitente opositor. O fato de conseqüênciasessencialíssimas consistiu em que o materialismo histórico encontrava,afinal, o fundamento da Economia Política, o que vinha definir o caminhoda elaboração do socialismo científico. Na própria Miséria da Filosofia, aaquisição desse fundamento resultou numa exposição muito mais avan-çada e precisa do materialismo histórico do que na Ideologia Alemã.Com base na teoria de Ricardo interpretada pelos seguidores detendência socialista, Marx empenhou-se na proposição de uma táticade reivindicações salariais para o movimento operário, o que expôsnas conferências proferidas em 1847-1848, mais tarde publicadas emfolheto sob o título de Trabalho Assalariado e Capital.Marx e Engels haviam ingressado numa organização de emigra-dos alemães denominada Liga dos Comunistas e receberam dela aincumbência de redigir um manifesto que apresentasse os objetivossocialistas dos trabalhadores. A incumbência teve aceitação entusiás-tica, ainda mais por se avolumarem os indícios da eclosão de umaonda revolucionária no Ocidente europeu. Publicado no começo de 1848,o Manifesto do Partido Comunista foi, com efeito, logo submergido pelaMARX13
  13. 13. derrocada da monarquia de Luís Felipe na França, seguida pelos even-tos insurrecionais na Alemanha, Hungria, Áustria, Itália e Bélgica.Embora a repercussão de sua primeira edição ficasse abafada por acon-tecimentos de tão grande envergadura, o Manifesto alcançaria ampladifusão e sobrevivência duradoura, tornando-se uma das obras políticasmais conhecidas em numerosas línguas. Num estilo que até hoje brilhapelo vigor e concisão, o Manifesto condensou o labor teórico dos autoresem termos de estratégia e tática políticas, de tal maneira que o textose tornou um marco na história do movimento operário mundial.Na Alemanha, as lutas de massa forçaram a monarquia prussianaa fazer a promessa de uma constituição e a aceitar o funcionamentode uma assembléia parlamentar em Frankfurt. Marx e Engels regres-saram de imediato à sua pátria e se lançaram por inteiro no combate.Marx fundou e dirigiu o diário Nova Gazeta Renana que, até o fecha-mento em maio de 1849, defendeu a perspectiva proletária socialistano decurso de uma revolução democrático-burguesa. Depois de ter sidoum dos redatores do jornal, Engels engajou-se no exército dos insur-retos, em cujas fileiras empunhou armas até a derrota definitiva, quelhe impôs o refúgio na Suíça. Diante da repressão exacerbada, tambémMarx se retirou da Alemanha. Os governos da França e da Bélgicalhe consentiram pouco tempo de permanência em seus territórios, oque o levou a exilar-se em Londres, nos fins de 1849, ali residindo atéa morte.Em 1850, veio à luz A Luta de Classes em França. Em 1852, ODezoito Brumário de Luís Bonaparte. Em ambas as obras, o métododo materialismo histórico recém-criado foi posto à prova na interpre-tação à quente de acontecimentos da atualidade imediata. A brevidadeda perspectiva temporal não impediu que Marx produzisse duas obrashistoriográficas capazes de revelar as conexões subjacentes aos fatosvisíveis e de enfocá-los à luz da tese sociológica da luta de classes.Em particular, essas obras desmentem a freqüente acusação ao eco-nomicismo marxiano. Nelas, são realçados não só fatores econômicos,mas também fatores políticos, ideológicos, institucionais e até estrita-mente concernentes às pessoas dos protagonistas dos eventos históricos.II. Os Tormentos da CriaçãoAo aceitar a teoria de Ricardo sobre o valor-trabalho e a distri-buição do produto social, Marx não perdeu de vista a necessidade dacrítica da Economia Política, embora não mais sob o enfoque estritode Engels no seu Esboço precursor. Ricardo dera à teoria econômicaa elaboração mais avançada nos limites do pensamento burguês. Osricardianos de esquerda ultrapassaram tais limites, porém não avan-çaram na solução dos impasses teóricos salientados precisamente pelainterpretação socialista aplicada à obra do mestre clássico.À onda revolucionária desencadeada em 1848 seguira-se o refluxoOS ECONOMISTAS14
  14. 14. das lutas democráticas e operárias. Por toda a Europa, triunfava areação burguesa e aristocrática. Marx relacionou o refluxo à nova fasede prosperidade, que sucedia à crise econômica de 1847-1848, e con-siderou ser preciso esperar a crise seguinte a fim de recolocar na ordemdo dia objetivos revolucionários imediatos. Com uma paixão obsessiva,entregou-se à tarefa que se tornaria a mais absorvente de sua vida:a de elaborar a crítica da Economia Política enquanto ciência mediadapela ideologia burguesa e apresentar uma teoria econômica alternativa,a partir das conquistas científicas dos economistas clássicos. A resi-dência em Londres favorecia tal empresa, pois constituía o melhorponto de observação do funcionamento do modo de produção capitalistae de uma formação social tão efetivamente burguesa quanto nenhumaoutra do continente europeu. Além disso, o British Museum, do qualMarx se tornou freqüentador assíduo, propiciava a consulta a um acervobibliográfico de incomparável riqueza.Em contrapartida, as condições materiais de vida foram, duranteanos a fio, muito ásperas e, às vezes, simplesmente tétricas para o líderrevolucionário e sua família. Não raro, faltaram recursos para satisfaçãodas necessidades mais elementares e o exilado alemão se viu às bordasdo desespero. Sobretudo, não podia dedicar tempo integral às pesquisaseconômicas, conforme desejaria, vendo-se forçado a aceitar tarefas de co-laboração jornalística, entre as quais a mais regular foi a correspondênciapolítica para um jornal de Nova York, mantida até 1862.Além disso, as intrigas que a seu respeito urdiam os órgãos po-liciais da Alemanha e de outros países obrigavam-no a desviar a atençãodos estudos teóricos. Durante quase todo o ano de 1860, por exemplo,a maior parte de suas energias se gastou na refutação das calúniasdifundidas por Karl Vogt, que o acoimara de chefe de um bando dechantagistas e delatores. Ex-membro esquerdista do Parlamento deFrankfurt, em 1848, Vogt se radicou na Suíça como professor de Geo-logia e se tornou expoente da versão mais vulgar do materialismomecanicista (é dele a célebre afirmação de que “os pensamentos têmcom o cérebro a mesma relação que a bílis com o fígado ou a urinacom os rins”). Envolvido em intrigas de projeção internacional nos meiosdemocráticos e socialistas, aceitou — o que depois se comprovou — opapel de escriba mercenário pago pelo serviço secreto de Napoleão III.Apesar de calejado diante de insultos e calúnias, a dose passara, destavez, a medida do suportável e Marx se esfalfou na redação de grossovolume, que recebeu o título sumário de Herr Vogt. À parte os aspectospolêmicos circunstanciais hoje sem maior interesse, o livro oferece umquadro rico da política internacional européia em meados do séculoXIX, tema explorado com os recursos exuberantes do estilo de umgrande escritor.A situação de Marx seria insustentável e sua principal tarefacientífica decerto irrealizável não fosse a ajuda material de Engels.MARX15
  15. 15. Este fixara residência em Manchester, passando a gerir ali os interessesda firma paterna associada a uma empresa têxtil inglesa. Durante osvinte anos de atividade comercial, a produção intelectual não pôdedeixar de se reduzir. Mas Engels achava gratificante sacrificar a própriacriatividade, contanto que fornecesse a Marx recursos financeiros queo sustentassem e à família e lhe permitissem dedicar o máximo detempo às investigações econômicas. Demais disso, Engels incumbiu-sede várias pesquisas especializadas solicitadas pelo amigo. A circuns-tância de residirem em cidades diferentes deu lugar a copiosa corres-pondência que registrou, quase passo a passo, a tormentosa via deelaboração de O Capital.No decorrer das investigações, conquanto se mantivesse claro einalterado o objetivo visado, foi mudando e ganhando novas formas aidéia da obra final. Rosdolsky rastreou na documentação marxiana,entre 1857 e 1868, nada menos que catorze esboços e notas de planosdessa obra. De acordo com o plano inicial deveria constar de seis livros,dedicados aos seguintes temas: 1) O Capital; 2) A Propriedade Terri-torial; 3) O Trabalho Assalariado; 4) O Estado; 5) O Comércio Inter-nacional; 6) O Mercado Mundial e as Crises. À parte, um livro especialfaria a história das doutrinas econômicas, dando ao estudo da realidadeempírica o acompanhamento de suas expressões teóricas.A deflagração de nova crise econômica em 1857 levou Marx aapressar-se em pôr no papel o resultado de suas investigações, motivadopela expectativa de que nova onda revolucionária voltaria a agitar aEuropa e exigiria dele todo o tempo disponível. Da sofreguidão nesseempenho resultou não mais do que um rascunho, com imprecisões elapsos de redação. Fruto de um trabalho realizado entre outubro de1857 e março de 1858, o manuscrito só teve publicação na União So-viética, entre 1939 e 1941. Recebeu o título de Esboços dos Fundamentosda Crítica da Economia Política, porém ficou mais conhecido pela pa-lavra alemã Grundrisse (Esboços dos Fundamentos). Vindos à luz jásob o fogo da Segunda Guerra Mundial, os Grundrisse não despertaramatenção. Somente nos anos sessenta suscitaram estudos e comentários,destacando-se, neste particular, o trabalho pioneiro de Rosdolsky.Embora se trate de um rascunho, os Grundrisse possuem extraor-dinária relevância, pelas idéias que, no todo ou em parte, só nele ficaramregistradas e, sobretudo, pelas informações de natureza metodológica.Uma dessas idéias é a de que o desenvolvimento das forças pro-dutivas pelo modo de produção capitalista chegaria a um ponto emque a contribuição do trabalho vivo se tornaria insignificante em com-paração com a dos meios de produção, de tal maneira que perderiaqualquer propósito aplicar a lei do valor como critério de produtividadedo trabalho e de distribuição do produto social. Ora, sem lei do valor,carece de sentido a própria valorização do capital. Assim, o capitalismodeverá extinguir-se não pelo acúmulo de deficiências produtivas, porém,OS ECONOMISTAS16
  16. 16. ao contrário, em virtude da pletora de sua capacidade criadora de riqueza.Encontra-se nessa idéia um dos traços característicos da elaboração dis-cursiva marxiana: certos fatores são isolados e desenvolvidos até o extremo,de tal maneira que venha a destacar-se o máximo de suas virtualidades.O resultado não constitui, todavia, a previsão de um curso inelutável,pois o próprio Marx revela, adiante, o jogo contraditório entre os váriosfatores postos em interação, o que altera os resultados extraídos da abs-tração do desenvolvimento isolado de um deles.Tema de destaque nos Grundrisse, abordado em apreciações dis-persas e em toda um seção especial, é o das formas que precedem aseparação entre o agente do processo de trabalho e a propriedade dosmeios de produção. Tal separação constitui condição prévia indispen-sável ao surgimento do modo de produção capitalista e lhe marca ocaráter de organização social historicamente transitória. Isto porquesomente tal separação permite que o agente do processo de trabalho,como pura força de trabalho subjetiva, desprovida de posses objetivas,se disponha ao assalariamento regular, enquanto, para os proprietáriosdos meios de produção e de subsistência, a exploração da força detrabalho assalariada é a condição básica da acumulação do capitalmediante relações de produção já de natureza capitalista. As categoriasespecíficas do modo de produção capitalista não constituíam expressãode uma racionalidade supra-histórica, de leis naturais inalteráveis, con-forme pensavam os economistas clássicos, mas, ao contrário, seu sur-gimento tinha data recente e sua vigência marcaria não mais que certaépoca histórica delimitada. Em algumas dezenas de páginas, que têmsido editadas em separado sob o título de Formas Que Precedem aProdução Capitalista, foram compendiadas, a partir do exame de vastomaterial historiográfico, sugestões de extraordinária fecundidade, àsquais o autor, infelizmente, não pôde dar seguimento, delas fazendoemprego esparso em O Capital. Nesta obra, a opção metodológica con-sistiu em concentrar o estudo da acumulação originária nas condiçõeshistóricas da Inglaterra.Os Grundrisse compõem-se de dois longos capítulos, dedicados aodinheiro e ao capital. Com formulações menos precisas e sem a mesmaorganicidade, aí encontramos parte da temática dos Livros Primeiro eSegundo de O Capital. Seria, contudo, incorreto passar por alto o avançopropriamente teórico cumprido entre os dois textos. Basta ver, por exemplo,que, na questão do dinheiro, Marx ainda se mostra, nos Grundrisse, presoa alguns aspectos da teoria ricardiana, contra a qual travará polêmicaresoluta logo em seguida, em Para a Crítica da Economia Política. Demaneira idêntica, a caracterização do escravismo plantacionista americanocomo anomalia capitalista sofrerá radical reformulação em O Capital, emcujas páginas a escravidão — a antiga e a moderna — é sempre incom-patível com o modo de produção capitalista.A riqueza peculiar dos Grundrisse reside nas numerosas expli-MARX17
  17. 17. citações metodológicas, pouco encontradiças em O Capital. Por se tratarde rascunho, os Grundrisse exibem os andaimes metodológicos, depoisretirados do texto definitivo. E esses andaimes denunciam a forte im-pregnação hegeliana do pensamento do autor. Precisamente durantea redação do rascunho, Marx releu a Lógica de Hegel, conforme escreveua Engels. Não surpreende, por isso, que a própria linguagem seja, emvárias passagens, moldada por termos e giros discursivos do mestreda filosofia clássica alemã. A tal ponto que, a certa altura, ficou anotadoo propósito de dar nova redação ao trecho a fim de libertá-lo da formaidealista de exposição.Enquanto a crise econômica passava sem convulsionar a ordempolítica européia, Marx conseguiu chegar à redação final dos dois ca-pítulos de Para a Crítica da Economia Política, publicada em 1859.Segundo o plano então em mente, o terceiro capítulo, dedicado ao ca-pital, seria a continuação da Crítica, um segundo volume dela. Mas oque apareceu, afinal, oito anos depois, foi algo bem diverso, resultantede substancial mudança de plano.Em janeiro de 1866, Marx já possuía em rascunho todo o arca-bouço de teses, tal qual se tornaram conhecidas nos três livros de OCapital, desde o capítulo inicial sobre a mercadoria até a teoria darenda da terra, passando pelas teorias da mais-valia, da acumulaçãodo capital, do exército industrial de reserva, da circulação e reproduçãodo capital social total, da transformação do valor em preço de produção,da queda tendencial da taxa média de lucro, dos ciclos econômicos eda distribuição da mais-valia nas formas particulares de lucro indus-trial, lucro comercial, juro e renda da terra. Nestes três livros, queformariam uma obra única, seriam abordados os temas não só do ca-pital, mas também do trabalho assalariado e da propriedade territorial,que deixaram de constituir objeto de volumes especiais. O Estado, ocomércio internacional, o mercado mundial e as crises — planejadostambém para livros especiais — ficavam postergados. A nova obraseria intitulada O Capital e somente como subtítulo é que compareceriaa repetida Crítica da Economia Política. Por último, copiosos comen-tários e dissertações já estavam redigidos para o também projetadolivro sobre a história das doutrinas econômicas. O autor podia, porconseguinte, lançar-se à redação final de posse de completo conjuntoteórico, que devia formar, nas suas palavras, um “todo artístico”.Em 1865, a redação de O Capital foi considerada tarefa prioritáriaacima do comparecimento ao Primeiro Congresso da Associação Inter-nacional dos Trabalhadores, realizado em Genebra sem a presença deMarx. Este, a conselho de Engels, decidiu-se à publicação isolada doLivro Primeiro, concentrando-se na sua redação final. Em setembrode 1867, o Livro Primeiro vinha a público na Alemanha, lançado peloeditor hamburguês Meissner.Graças, em boa parte, aos esforços publicitários de Engels, a “cons-OS ECONOMISTAS18
  18. 18. piração do silêncio”, que cercava os escritos marxianos nos meios cultos,começou a ser quebrada. Curiosamente, a primeira resenha, aliás fa-vorável, de um professor universitário foi a de Eugen Dühring, o mesmocontra o qual Engels, dez anos depois, travaria implacável polêmica.Elogios calorosos chegaram de Ruge, o antigo companheiro da esquerdahegeliana, e de Feuerbach, o respeitado filósofo que marcara momentotão importante na evolução do pensamento marxiano.Embora a tradução inglesa não se concretizasse na ocasião, de-cepcionando as expectativas do autor, houve a compensação da traduçãorussa já em 1872, lançada com notável êxito de venda. (No seu parecer,a censura czarista declarou tratar-se de livro sem dúvida socialista,mas inacessível à maioria em virtude da forma matemática de de-monstração científica, motivo por que não seria possível persegui-lodiante dos tribunais). Em seguida, veio, editada em fascículos, a tra-dução francesa, da qual o próprio autor fez a revisão, com o que atradução ganhou valor de original. Em 1873, foi publicada a segundaedição alemã, que trouxe um posfácio muito importante pelos esclare-cimentos de caráter metodológico. Embora a segunda fosse a última emvida do autor, a edição definitiva é considerada a quarta, de 1890, naqual Engels introduziu modificações expressamente indicadas por Marx.Faltava, no entanto, a redação final dos Livros Segundo e Ter-ceiro. Marx trabalhou neles até 1878, sem completar a tarefa. À ânsiainsaciável de novos conhecimentos e de rigorosa atualização com osacontecimentos da vida real já não correspondia a habitual capacidadede trabalho. Marx ficava impedido de qualquer esforço durante longosperíodos, debilitado por doenças crônicas agravadas.Além disso, absorviam-no as exigências da política prática. De1864 a 1873, empenhou-se nas articulações e campanhas da AssociaçãoInternacional dos Trabalhadores, que passou à história como a PrimeiraInternacional. Em 1865 pronunciou a conferência de publicação pós-tuma sob o título Salário, Preço e Lucro.Um esforço intenso lhe exigiram, no seio da Associação, as di-vergências com os partidários de Proudhon e de Bakunin. Em 1871,chefiou a solidariedade internacional à Comuna de Paris e, acerca desua experiência política, escreveu A Guerra Civil na França. Ocupa-ram-no, em seguida, os problemas da social-democracia alemã, liderada,in loco, por Bebel e Liebknecht. A fusão dos adeptos da social-demo-cracia de orientação marxista com os seguidores de Lassalle num par-tido operário único ensejou a Marx, em 1875, a redação de notas, defundamental significação para a teoria do comunismo, reunidas no pe-queno volume intitulado Crítica do Programa de Gotha. Em 1881-1882,após as escassas páginas em que foram escritas as Glosas Marginaisao Tratado de Economia Política de Adolph Wagner, a pena de Marx,que deslizara através de assombrosa quantidade de folhas de papel,colocava o definitivo ponto final. Esgotado e abatido pela morte daMARX19
  19. 19. esposa e de uma das filhas, apagou-se, em 1883, o cérebro daquele queEngels, na oração fúnebre, disse ter sido o maior pensador do seu tempo.Nos doze anos em que sobreviveu ao amigo, Engels continuoucriativo até os últimos dias, produzindo obras da altura de LudwigFeuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã. Sobre os seus ombrospesava a responsabilidade de coordenação do movimento socialista in-ternacional, o que lhe impunha crescente carga de trabalho. No meiode toda essa atividade, nunca deixou de ter por tarefa primordial ade trazer a público os dois Livros de O Capital ainda inéditos. E cumpriua tarefa com exemplar competência e probidade.Os manuscritos de Marx encontravam-se em diversos graus depreparação. Só a menor parte ganhara redação definitiva. Havia, porém,longas exposições com lacunas e desprovidas de vínculos mediadores.Vários assuntos tinham sido abordados tão-somente em notas soltas.Por fim, um capítulo imprescindível apenas contava com o título. Tudoisso, sem falar na péssima caligrafia dos manuscritos, às vezes incom-preensível até para o autor. A tarefa, por conseguinte, ia muito alémdo que, em regra, se atribui a um editor. Seria preciso que Engelsassumisse certo grau de co-autoria, o que fez, não obstante, com omáximo escrúpulo. Conforme explicou minuciosamente nos Prefácios,evitou substituir a redação de Marx pela sua própria em qualquerparte. Não queria que sua redação, superposta aos manuscritos origi-nais, suscitasse discussões acerca da autenticidade do pensamento mar-xiano. Limitou-se a ordenar os manuscritos de acordo com as indicaçõesdo plano do autor, preenchendo as óbvias lacunas e introduzindo trechosde ligação ou de atualização, sempre entre colchetes e identificadospelas iniciais F. E., também presentes nas notas de rodapé destinadasa informações adicionais ou mesmo a desenvolvimentos teóricos. Igual-mente assinado com as iniciais F. E., escreveu por inteiro o CapítuloIV do Livro Terceiro, sobre a rotação do capital e respectiva influênciana taxa de lucro. Escreveu ainda vários Prefácios, admiráveis pelotratamento de problemas básicos e pela força polêmica, bem como doissuplementos ao Livro Terceiro: sobre a lei do valor e formação da taxamédia de lucro e sobre a Bolsa.Se, dessa maneira, foi possível salvar o legado de Marx e editaro Livro Segundo, em 1885, e o Livro Terceiro, em 1894, é evidenteque estes não poderiam apresentar a exposição acabada e brilhantedo Livro Primeiro. Mas Engels, ao morrer pouco depois de publicadoo último Livro, havia cumprido a tarefa. Restavam os manuscritossobre a história das doutrinas econômicas, que deveriam constituir oLivro Quarto. Ordenou-os e editou-os Kautsky, sob o título de Teoriasda Mais-Valia, entre 1905 e 1910. O Instituto de Marxismo-Leninismo(originalmente Instituto Marx-Engels, fundado por D. Riazanov e res-ponsável pela publicação dos manuscritos marxianos na União Sovié-OS ECONOMISTAS20
  20. 20. tica) lançou nova edição em 1954, expurgada das intervenções arbi-trárias de Kautsky.Em 1933, o mesmo Instituto havia publicado o texto de um capítuloinédito, planejado para figurar no Livro Primeiro de O Capital e queMarx resolvera suprimir. Numerado como sexto e sob o título de Resultadosdo Processo Imediato da Produção, o capítulo contém uma síntese doLivro Primeiro e serviria também de transição ao Livro Segundo.III. Unificação Interdisciplinar das Ciências HumanasEm primeiro lugar, O Capital é, sem a menor dúvida, uma obrade Economia Política. A amplitude de sua concepção desta ciência su-pera, porém, os melhores clássicos burgueses e contrasta com a estritaespecialização em que o marginalismo pretendeu confinar a análiseeconômica. Nas seções subseqüentes, teremos oportunidade de focalizaro que se tornou a Economia Política submetida ao tratamento marxiano.Nesta altura, abordaremos outros aspectos.É que O Capital constitui, por excelência, uma obra de unificaçãointerdisciplinar das ciências humanas, com vistas ao estudo multila-teral de determinada formação social. Unificação entre a EconomiaPolítica e a Sociologia, a Historiografia, a Demografia, a GeografiaEconômica e a Antropologia.As categorias econômicas, ainda quando analisadas em níveiselevados de abstração, se enlaçam, de momento a momento, com osfatores extra-econômicos inerentes à formação social. O Estado, a le-gislação civil e penal (em especial, a legislação referente às relaçõesde trabalho), a organização familiar, as formas associativas das classessociais e seu comportamento em situações de conflito, as ideologias,os costumes tradicionais de nacionalidades e regiões, a psicologia social— tudo isso é focalizado com riqueza de detalhes, sempre que a ex-plicação dos fenômenos propriamente econômicos adquira na interaçãocom fenômenos de outra ordem categorial uma iluminação indispen-sável ou um enriquecimento cognoscitivo. Assim, ao contrário do quepretendem críticas tão reiteradas, o enfoque marxiano da instânciaeconômica não é economicista, uma vez que não a isola da trama variadado tecido social. O que, convém enfatizar, não representa incoerência,mas, ao contrário, perfeita coerência com a concepção do materialismohistórico enquanto teoria sociológica geral: a concepção segundo a quala instância econômica, sendo a base da vida social dos homens, nãoexiste senão permeada por todos os aspectos dessa vida social, os quais,por sua vez, sob modalidades diferenciadas, são instâncias da supe-restrutura possuidoras de desenvolvimento autônomo relativo e influên-cia retroativa sobre a estrutura econômica.Obra de Economia Política e de Sociologia, O Capital também éobra de Historiografia. A tese de que o modo de produção capitalistatem existência histórica, de que nasceu de determinadas condições cria-MARX21
  21. 21. das pelo desenvolvimento social e de que criará, ele próprio, as condiçõespara o seu desaparecimento e substituição por um novo modo de pro-dução — esta tese, já por si mesma, também exige abordagem históricae, por conseguinte, implica o tratamento por meio de procedimentoscaracterísticos da Historiografia. Antes de tudo, sem dúvida, trata-sede Historiografia econômica, que abrange exposições eruditas sobre odesenvolvimento das forças produtivas, estudos especializados sobrequestões de tecnologia, pesquisas inovadoras sobre o comércio, o crédito,as formas de propriedade territorial e a gênese da renda da terra e,com destaque particular, sobre a formação da moderna classe operária.Mas, em relação mesmo com a história econômica, temos outrossim ahistória das instituições políticas, a evolução das normas jurídicas (veja-se o estudo pioneiro sobre a legislação trabalhista), a história das re-lações internacionais.Os estudos sobre a lei da população do modo de produção capi-talista, bem como sobre migrações e colonização, focalizam temas deevidente contato entre a Economia Política e a Demografia. Por fim,encontramos incursões e sugestões nos âmbitos da Geografia econômicae da Antropologia.A decidida rejeição do geodeterminismo não conduz ao desconhe-cimento dos condicionamentos geográficos, cuja influência no desen-volvimento das forças produtivas e das formações sociais é posta emdestaque.Em contrapartida, acentua-se a ação transformadora do meio geo-gráfico pelo homem, de tal maneira que as condições geográficas sehumanizam, à medida que se tornam prolongamento do próprio homem.Mas a humanização da natureza nem sempre tem sido um processoharmônico. Marx foi dos primeiros a apontarem o caráter predador daburguesia, com reiteradas referências, por exemplo, à destruição dosrecursos naturais pela agricultura capitalista. Sob este aspecto, mereceser considerado precursor dos modernos movimentos de defesa da eco-logia em benefício da vida humana.Do ponto de vista da Antropologia, o que sobreleva é a relaçãodo homem com a natureza por meio do trabalho e a humanização sobo aspecto de autocriação do homem no processo de transformação danatureza pelo trabalho. As mudanças nas formas de trabalho consti-tuem os indicadores básicos da mudança das relações de produção edas formas sociais em geral do intercurso humano. O trabalho é, por-tanto, o fundamento antropológico das relações econômicas e sociaisem geral. Ou seja, em resumo, o que Marx propõe é a Antropologiado homo faber.Embora de maneira de todo não convencional, O Capital se cre-dencia como realização filosófica basilar. Como sugeriu Jelezny, o livromarxiano faz parte das obras que assinalaram inovações essenciais naorientação lógica e metodológica do pensamento. Sem qualquer expo-OS ECONOMISTAS22
  22. 22. sição sistemática, porém aplicando-a em tudo e por tudo, Marx desen-volveu a metodologia do materialismo dialético e se situou, a justotítulo, a par com aqueles criadores de idéias que marcaram época nopensamento sobre o pensamento — de Aristóteles a Descartes, Bacon,Locke, Leibniz, Kant e Hegel.Para este último, com o qual Marx teve relação direta de se-qüência e superação, a lógica por si mesma se identifica à ontologia,a Idéia Absoluta é o próprio Ser. Assim, a ontologia só podia ter caráteridealista e especulativo, obrigando a dialética — máxima conquista dafilosofia hegeliana — a abrir caminho em meio a esquemas pré-cons-truídos. Com semelhante configuração, a dialética era imprestável aotrabalho científico e, por isso mesmo, foi sepultada no olvido peloscientistas, que a preteriram em favor do positivismo. Quando deu àdialética a configuração materialista necessária, Marx expurgou-a daspropensões especulativas e adequou-a ao trabalho científico. Ao invésde subsumir a ontologia na lógica, são as categorias econômicas e suahistória concreta que põem à prova as categorias lógicas e lhes impri-mem movimento. A lógica não se identifica à ontologia, o pensamentonão se identifica ao ser. A consciência é consciência do ser prático-ma-terial que é o homem. A dialética do pensamento se torna a reproduçãoteórica da dialética originária inerente ao ser, reprodução isenta deesquemas pré-construídos e impostos de cima pela ontologia idealista.Mas, ao contrário de reprodução passiva, de reflexo especular do ser,o pensamento se manifesta através da ativa intervenção espiritual querealiza o trabalho infindável do conhecimento. Trabalho criador de hi-póteses, categorias, teoremas, modelos, teorias e sistemas teóricos.Método e estrutura de “O Capital”A esta altura, chegamos a uma questão crucial nas discussõesmarxistas e marxológicas: a da influência de Hegel sobre Marx.Quando estudava a Ciência da Lógica, surpreendeu-se Lênin como máximo de materialismo ao longo da mais idealista das obras deHegel. Com ênfase peculiar, afirmou que não poderia compreender OCapital quem não fizesse o prévio estudo da Lógica hegeliana.Oposta foi a posição de Stálin. Considerou a filosofia hegelianarepresentativa da aristocracia reacionária e minimizou sua influênciana formação do marxismo. A desfiguração stalinista da dialética seconsumou num esquema petrificado para aplicação sem mediações aqualquer nível da realidade.Enquanto Rosdolsky ressaltou, por meio de análise minuciosados Grundrisse, a relação entre Hegel e Marx, quase ao mesmo tempo,Althusser, que nunca deu importância aos Grundrisse, enfatizou a su-posta ausência do hegelianismo na formação de Marx e a inexistênciade traços hegelianos na obra marxiana, acima de tudo em O Capital.Dentro de semelhante orientação, Althusser não se furtaria de louvarMARX23
  23. 23. Stálin por haver depurado o materialismo dialético da excrescênciahegeliana tão embaraçosa quanto a negação da negação. Segundo Go-delier, esta seria uma categoria apenas aceita por Engels e não porMarx. Ademais, Godelier considerou embaraçosa a própria contradiçãodialética e propôs sua subordinação ao conceito de limite estrutural, oque, na prática, torna a contradição dialética dispensável ao processodiscursivo.A análise da estrutura lógica de O Capital feita por Jelezny con-firma, não menos que a de Rosdolsky, o enfoque de Lênin e não o deStálin. É impossível captar o jogo das categorias na obra marxianasem dominar o procedimento da derivação dialética, a partir das con-tradições internas dos fenômenos, ou seja, a partir de um procedimentológico inaugurado, com caráter sistemático, por Hegel. Sem dúvida, épreciso frisar também que Marx rejeitou a identidade hegeliana doscontrários, distinguindo tal postulado idealista de sua própria concepçãomaterialista da unidade dos contrários (a este respeito, tem razão Go-delier quando aponta a confusão em certas formulações de Lênin eMao-Tse-Tung sobre a “identidade dos contrários”).A derivação dialética materialista é aplicada em todo o trajetoda exposição marxiana, porém provoca impacto logo no capítulo inicialsobre a mercadoria, por isso mesmo causador de tropeços aos leitoresdesprovidos de familiaridade com o método dialético. Contudo, a deri-vação dialética, que opera com as contradições imanentes nos fenôme-nos, não suprime a derivação dedutiva própria da lógica formal, baseadajustamente no princípio da não-contradição. Em O Capital, são cor-rentes as inferências dedutivas, acompanhadas de exposições por vialógico-formal. Daí, aliás, o recurso freqüente aos modelos matemáticosdemonstrativos, que revelam, dentro de estruturas categoriais defini-das, o dinamismo das modificações quantitativas e põem à luz suasleis internas. Conquanto considerasse falsas as premissas das quaisMarx partiu, Böhm-Bawerk não deixou de manifestar admiração pelaforça lógica do adversário. Não obstante, seja frisado, a lógica formalestá para a lógica dialética, na obra marxiana, assim como a mecânicade Newton está para a teoria da relatividade de Einstein. Ou seja, aprimeira aplica-se a um nível inferior do conhecimento da realidadecom relação à segunda.Marx distinguiu entre investigação e exposição. A investigaçãoexige o máximo de esforço possível no domínio do material fatual. Opróprio Marx não descansava enquanto não houvesse consultado todasas fontes informativas de cuja existência tomasse conhecimento. O fimúltimo da investigação consiste em se apropriar em detalhe da matériainvestigada, analisar suas diversas formas de desenvolvimento e des-cobrir seus nexos internos. Somente depois de cumprida tal tarefa,seria possível passar à exposição, isto é, à reprodução ideal da vidada matéria. A esta altura, advertiu Marx que, se isto for conseguido,OS ECONOMISTAS24
  24. 24. “(...) então pode parecer que se está diante de uma construção a priori”.Por que semelhante advertência?É que a exposição deve figurar um “todo artístico”. Suas diversaspartes precisam se articular de maneira a constituírem uma totalidadeorgânica e não um dispositivo em que os elementos se justapõem comosomatório mecânico. Ora, a realização do “todo artístico” ou da “tota-lidade orgânica” pressupunha a aplicação do modo lógico e não domodo histórico de exposição. Ou seja, as categorias deveriam compa-recer não de acordo com a sucessão efetiva na história real, porémconforme as relações internas de suas determinações essenciais, noquadro da sociedade burguesa. Por conseguinte, o tratamento lógicoda matéria faz da exposição a forma organizacional apropriada do co-nhecimento a nível categorial-sistemático e resulta na radical superaçãodo historicismo (entendido o historicismo, na acepção mais ampla, comoa compreensão da história por seu fluxo singular, consubstanciado nasucessão única de acontecimentos ou fatos sociais). A exposição lógicaafirma a orientação anti-historicista na substituição da sucessão his-tórica pela articulação sistemática entre categorias abstratas, de acordocom suas determinações intrínsecas. Daí que possa assumir a aparênciade construção imposta à realidade de cima e por fora.Na verdade, trata-se apenas de impressão superficial contra aqual é preciso estar prevenido. Porque, se supera o histórico, o lógiconão o suprime. Em primeiro lugar, se o lógico é o fio orientador daexposição, o histórico não pode ser dispensado na condição de contra-prova. Daí a passagem freqüente de níveis elevados de abstração aconcretizações fatuais em que a demonstração dos teoremas assumeprocedimentos historiográficos. Em segundo lugar, porém com aindamaior importância, porque o tratamento histórico se torna imprescin-dível nos processos de gênese e transição, sem os quais a história seráimpensável. Em tais processos, o tratamento puramente lógico condu-ziria aos esquemas arbitrários divorciados da realidade fatual. Por issomesmo, temas como os da acumulação originária do capital e da for-mação da moderna indústria fabril foram expostos segundo o modohistórico, inserindo-se em O Capital na qualidade de estudos historio-gráficos de caráter monográfico.Em suma, o lógico não constitui o resumo do histórico, nem háparalelismo entre um e outro (conforme pretendeu Engels), porém en-trelaçamento, cruzamento, circularidade.A interpretação althusseriana conferiu estatuto privilegiado aomodo de exposição e atribuiu às partes históricas de O Capital o caráterde mera ilustração empirista. Se bem que com justificadas razões pu-sesse em relevo a sistematicidade marxiana, Althusser fez dela umaestrutura formal desprendida da história concreta, o que o próprioMarx explicitamente rejeitou.O tratamento lógico é também o que melhor possibilita e, noMARX25
  25. 25. mais fundamental, o único que possibilita alcançar aquele nível daessência em que se revelam as leis do movimento da realidade objetiva.Porque, em O Capital, a finalidade do autor consistiu em desvendara lei econômica da sociedade burguesa ou, em diferente formulação,as leis do nascimento, desenvolvimento e morte do modo de produçãocapitalista.Numa época em que prevalecia a concepção mecanicista nas ciên-cias físicas, Marx foi capaz de desvencilhar-se dessa concepção e for-mular as leis econômicas precipuamente como leis tendenciais. Ou seja,como leis determinantes do curso dos fenômenos em meio a fatorescontrapostos, que provocam oscilações, desvios e atenuações provisórias.As leis tendenciais não são, nem por isso, leis estatísticas, probabili-dades em grandes massas, porém leis rigorosamente causais. A leitendencial sintetiza a manifestação direcionada, constante e regular— não ocasional — da interação e oposição entre fatores imanentesna realidade fenomenal.Como já observamos, o plano da estrutura de O Capital foi lon-gamente trabalhado e sofreu modificações, à medida que o autor ga-nhava maior domínio da matéria. O resultado é uma arquitetura im-ponente, cheia de sutilezas imperceptíveis à primeira vista, cujo estudojá instigou abordagens especializadas.Sob a perspectiva de conjunto, há uma linha divisória entre osLivros Primeiro e Segundo, de um lado, e o Livro Terceiro, de outro.Linha divisória que não diz respeito à separação entre questões mi-croeconômicas e macroeconômicas, pois nos três Livros encontramosumas e outras, conquanto se possa afirmar que o Livro Segundo é omais voltado à macroeconomia. A distinção estrutural obedece a critériodiferente. Os dois primeiros Livros são dedicados ao “capital em geral”,ao capital em sua identidade uniforme. O Livro Terceiro aborda aconcorrência entre os capitais concretos, diferenciados pela função es-pecífica e pela modalidade de apropriação da mais-valia.O “capital em geral” é, segundo Marx, a “quintessência do capital”,aquilo que identifica o capital enquanto capital em qualquer circuns-tância. No Livro Primeiro, trata-se do capital em sua relação diretade exploração da força de trabalho assalariada. Por isso mesmo, o locuspreferencial é a fábrica e o tema principal é o processo de criação eacumulação da mais-valia. A modalidade exponencial do capital é ocapital industrial, pois somente ele atua no processo de criação damais-valia. No Livro Segundo, trata-se da circulação e da reproduçãodo capital social total. O capital é sempre plural, múltiplo, mas circulae se reproduz como se fosse um só capital social de acordo com exigênciasque se impõem em meio a inumeráveis flutuações e que dão ao movi-mento geral do capital uma forma cíclica.No Livro Terceiro, os capitais se diferenciam, se individualizam,e o movimento global é enfocado sob o aspecto da concorrência entreOS ECONOMISTAS26
  26. 26. os capitais individuais. Por isso mesmo, é a esta altura que se abordao tema da formação da taxa média ou geral do lucro e da transformaçãodo valor em preço de produção. De acordo com as funções específicasque desempenham no circuito total da economia capitalista — na pro-dução, na circulação e no crédito —, os capitais individuais apropriam-sede formas distintas de mais-valia: lucro industrial, lucro comercial,juros, cabendo à propriedade territorial a renda da terra, também elauma forma particular da mais-valia. A lei dinâmica direcionadora desseembate concorrencial entre os capitais individuais pela apropriação damais-valia é a lei da queda tendencial da taxa média de lucro.A estrutura de O Capital, segundo Lange, foi montada de acordocom um plano que parte do nível mais alto de abstração, no qual sefocalizam fatores isolados ou no menor número possível, daí procedendopor concretização progressiva, à medida que se acrescentam novos fa-tores, no sentido da aproximação cada vez maior e multilateral à rea-lidade fatual. A esta interpretação, no geral correta, acrescentamosque o trânsito do abstrato ao concreto se faz em todo o percurso, acomeçar pelo Livro Primeiro. Já nele, encontramos o jogo dialético dapassagem do abstrato ao concreto real e vice-versa.Doravante, comentaremos alguns temas de O Capital, seleciona-dos por sua significação sistêmica ou pela relevância das controvérsiasque suscitaram.IV. Mercadoria e ValorDe Smith e Ricardo recebeu Marx a teoria do valor-trabalho: aidéia de que o trabalho exigido pela produção das mercadorias medeo valor de troca entre elas e constitui o eixo em torno do qual oscilamos preços expressos em dinheiro. Ao explicitar que se tratava do tempode trabalho incorporado às mercadorias, Ricardo clarificou a medidado valor de troca, embora se enredasse no insolúvel problema do padrãoinvariável do valor.Uma vez que partiam do valor-trabalho, Smith e Ricardo supe-raram a concepção fisiocrática do excedente econômico em termos deproduto físico. O excedente devia ser compreendido, antes de tudo, emtermos de valor, ou seja, devia ser apreciado enquanto trabalho trans-ferido ao produto. Mas a idéia de valor implica, por necessidade lógica,a troca de equivalentes: não se conceberia, de outra maneira, que ovalor-trabalho pudesse ser o determinante da relação de troca entremercadorias diferentes pelo valor de uso. A questão a solucionar con-sistia em tornar coerente a necessidade de troca de equivalentes coma apropriação do valor excedente pelo proprietário do capital.Smith enfrentara a questão com a idéia de que o valor das mer-cadorias se media pela quantidade de trabalho que podiam comandar,sugerindo que havia uma diferença positiva entre o custo de cada mer-cadoria em termos de trabalho consumido e em termos de trabalhoMARX27
  27. 27. que fosse capaz de comprar. Não obstante, a origem de tal diferençapositiva — o lucro do capital — ficava inexplicada no quadro de umregime de troca de equivalentes e, por isso mesmo, Smith designavao lucro como “dedução”. Ricardo desenvolveu a teoria do valor, ao de-fini-lo como tempo de trabalho incorporado à mercadoria, porém desviousua investigação da origem do excedente para o da distribuição doproduto entre assalariados, capitalistas e proprietários de terra. O lucrocontinuava, portanto, inexplicável em face da necessária equivalênciada troca entre capital e força de trabalho. Este, o primeiro impasse.O segundo grande impasse da teoria do valor-trabalho de Smithe Ricardo residia em que ambos identificavam, sem mediações, o valorao preço natural, como o chamava Smith, ou ao custo de produção, naformulação ricardiana. Semelhante identificação tornava impossível es-clarecer por que capitais com diferentes empregos de força de trabalhoobtinham taxas de lucros igualadas.A solução marxiana para a primeira questão crucial irresolvidaconsubstanciou-se na teoria da mais-valia. Ao expô-la no Livro Primeiro,Marx não partiu do conceito de valor, mas da mercadoria, isto é, dacélula germinativa de modo de produção capitalista. No entanto, oenfoque inicial da mercadoria ao longo do Capítulo I não a situa noquadro das relações de produção capitalistas, porém numa sociedadede pequenos produtores mercantis, donos dos meios de produção e desubsistência e, por conseguinte, donos também do produto integral doseu trabalho. Tal procedimento expositivo tem sido um dos pontos maiscontroversos de O Capital.Croce foi dos primeiros a argumentar que semelhante sociedade depequenos produtores mercantis não passaria da invenção teórica parafins heurísticos, isto é, para servir de contraste com a sociedade capitalistaconcreta. A interpretação de Croce não difere, no essencial, da recente deMorishima e Catephores, segundo os quais a sociedade de pequenos pro-dutores mercantis seria fictícia e teria validade tão-somente como tipoideal, na acepção de Max Weber (inspirando-se, por sinal, na afirmaçãodo próprio Weber de que todas as construções teóricas marxianas seriamtipos ideais sem efetividade empírica). Segue-se daí que a troca de equi-valentes, na proporção do tempo de trabalho contido nas mercadorias,nunca foi norma concreta, uma vez que, na sociedade capitalista, segundoMarx, as trocas se realizam sob a norma dos preços de produção, nosquais o valor já aparece modificado e metamorfoseado.Cedendo à inclinação historicista que, às vezes, nele prevalecia,Engels atribuiu à sociedade de pequenos produtores mercantis, tal qualse apresenta no capítulo inicial do Livro Primeiro, existência históricaempírica e chegou a afirmar que a lei do valor, enquanto lei da trocaimediata de equivalentes, teria tido vigência num período de cinco asete milênios até o século XV, quando se dá o nascimento do capitalismo.As pesquisas historiográficas não confirmam o ponto de vista deOS ECONOMISTAS28
  28. 28. Engels. O próprio Marx assinalou, em várias passagens, que, nas for-mações sociais anteriores ao capitalismo, prevaleceu a produção paravalor de uso, ao passo que as trocas mercantis se faziam com excedentesresiduais do autoconsumo. O caráter ocasional e as pequenas proporçõesdas trocas deviam impedir ou dificultar sua prática de acordo com anorma regular da equivalência do conteúdo de trabalho incorporadoaos bens trocados. Intermediadas pelo capital comercial pré-capitalista,as trocas tampouco poderiam basear-se na equivalência, mas seriamtrocas desiguais.No entanto, na medida em que fossem trocas pessoais entre pequenosprodutores mercantis e se repetissem durante muito tempo com regula-ridade, a lei do valor, enquanto lei da troca imediata de equivalentes,seria atuante. De maneira aproximada, era o que, com efeito, sucedia nasfeiras medievais européias, onde costumavam encontrar-se camponeses eartesãos para intercâmbio dos respectivos produtos.Rubin apontou o caráter puramente lógico de certas mediaçõesdiscursivas marxianas, para as quais, por conseguinte, não faz sentidoprocurar correspondência histórica empírica. A sociedade de pequenosprodutores mercantis, tal qual vem descrita no capítulo inicial do LivroPrimeiro, é, sem dúvida, uma projeção lógica. Não obstante, como tam-bém afirma Rubin, aquela sociedade existiu de maneira rudimentarantes do capitalismo e, sendo assim, tinha razão Marx ao escrever queo valor-trabalho fora antecedente histórico (e não somente lógico) dopreço de produção.O capitalismo não pode surgir senão com as premissas dadas daprodução mercantil e da circulação monetária. Tais premissas não sãoimaginárias, porém historicamente concretas, tendo tido desenvolvimentona Europa sob o feudalismo. Assim, foi para estudar a formação do modode produção capitalista a partir daquelas premissas objetivas que Marxas projetou no modelo de uma sociedade de pequenos produtores mercantis.Mediante o recurso da abstração, determinado setor da realidade históricafoi isolado e extremado, não sendo difícil perceber que o modelo marxianoresultou da aplicação do método dialético e não da construção de um tipoideal weberiano. Este último, como se sabe, teve por matriz filosófica oformalismo neokantiano e sua construção para fins heurísticos obedece acritérios unilaterais subjetivos do observador — algo de todo contrário àmetodologia dialética-materialista.Ao começar sua exposição pela mercadoria — por ser ela a célulagerminativa do modo de produção capitalista —, examinou-a Marx,em primeiro lugar, como objeto que tem valor de uso. Mas, sob o aspectoapenas do valor de uso, a relação da mercadoria com o homem ganhacaráter individual e natural supra-histórico. O valor de uso, por si só,não nos informa acerca das relações sociais subjacentes à relação in-dividual do homem com a coisa. O sabor do trigo não muda pelo fatode ser produzido por um escravo, por um servo feudal ou por umMARX29
  29. 29. operário assalariado. Contudo, são improcedentes as críticas de quena obra marxiana se negligencia a significação do valor de uso enquantocategoria econômica.Marx, aliás, teve oportunidade de contestar semelhante críticanos comentários ao Tratado de Wagner. Comentários que poderia em-pregar, com idêntica pertinência, na refutação dos argumentos deBöhm-Bawerk, se ainda vivo estivesse quando vieram a público.No concernente à mercadoria, o valor de uso é o suporte físicodo valor. Não pode ter valor o que carece de valor de uso. Que amercadoria possua o caráter dúplice de valor de uso e valor resultado caráter também dúplice do próprio trabalho que a produz: trabalhoconcreto, que responde pelas qualidades físicas do objeto, e trabalhoabstrato, enquanto gasto indiferenciado de energia humana. O trabalhoabstrato, pelo fato de estabelecer uma relação de equivalência entreos variadíssimos trabalhos concretos, vem a ser a substância do valor.Smith e Ricardo falaram de valor e valor de troca, sem estabelecerentre eles diferença categorial, preocupados sobretudo com o problemada medida do valor. O próprio Marx, em Para a Crítica da EconomiaPolítica, não estabeleceu distinção terminológica entre valor e valorde troca. Mas, em O Capital, esta distinção foi firmada e salientada,pois se tornava clara a necessidade de focalizar no valor, em separado,a substância (trabalho abstrato cristalizado), a forma que se manifestana relação entre mercadorias (valor de troca) e a grandeza (tempo detrabalho abstrato).Vejamos, aqui, a questão da substância do valor.O trabalho criador de valor é o trabalho socialmente necessário,executado segundo as condições médias vigentes da técnica, destrezado operário e intensidade do esforço na realização da tarefa produtiva.O padrão é o do trabalho simples, ao qual o trabalho complexo (ouqualificado) é reduzido como certo múltiplo dele. Marx não analisoucomo se dá tal redução, porém indicou a linha geral dessa análise (adiferença de custo de formação da força de trabalho complexa em com-paração com a força de trabalho simples) e tomou a redução comodada. Trata-se de um procedimento adotado pelo autor em certos casos:tomar em consideração apenas o resultado dado de um processo, apon-tando o caminho de sua análise, sem contudo desenvolvê-la, na medidaem que fosse dispensável para fins prioritários da demonstração.O problema da relação entre trabalho simples e complexo já me-recera a atenção de Hodgskin, o qual, no entanto, não conseguiu definiro critério econômico intrínseco à relação. Com o tempo, tornou-se umdos cavalos de batalha às mãos dos adversários da teoria do valor-tra-balho e, por isso mesmo, Böhm-Bawerk não haveria de omiti-lo. Mas,para efeito de argumentação, o líder da escola austríaca do margina-lismo empregou exemplo tão fora de propósito como o da comparaçãoentre o trabalho do escultor e o de um pedreiro. Ora, o produto doOS ECONOMISTAS30
  30. 30. trabalho artístico, marcado pela originalidade e unicidade, não podeser comparado, enquanto mercadoria, com a produção mercantil repe-tida. A resposta de Hilferding a Böhm-Bawerk avançou um tanto nalinha analítica apontada por Marx. Mas o argumento voltaria a seresgrimido, em época recente, por Joan Robinson, com a indagação sobrea maneira de determinar a quantidade de trabalho abstrato contidona hora de trabalho de um engenheiro qualificado. Para a teoria dovalor-trabalho, o que importa é que a hora de trabalho do engenheiroconstitui um múltiplo (de cinco, dez ou quinze, não vem ao caso) dahora de trabalho do operário da construção civil, do operário soldadoretc., enquanto média socialmente funcional.O enfoque do valor pelo prisma de sua substância permitiu pe-netrar no universo histórico das relações sociais dentro do qual osprodutos do trabalho humano se tornam valores. Para Smith e Ricardo,o valor não era uma qualidade social dos produtos, mas algo naturalcomo o peso ou a consistência. Indiferente, portanto, às formas sociais.Para Marx, o valor é, antes de tudo, uma substância social-histórica.Nas organizações sociais em que a produção mercantil constitui atributode proprietários privados, entre os quais já exista divisão social dotrabalho bastante adiantada, somente de maneira indireta, pela trocamercantil, é que os produtos do trabalho privado se apresentam comoprodutos do trabalho social. O indicador do trabalho social é, precisa-mente, o valor, na condição de cristalização de trabalho abstrato, aopasso que o valor de troca, sendo a razão de intercâmbio entre asmercadorias, constitui a forma de manifestação do valor.Nas formações sociais em que predomina a produção para valordo uso, o caráter social do trabalho manifesta-se de maneira direta,sem desvios, relacionando-se os agentes da produção entre si cara acara, como pessoas. Já nas formações sociais onde predomina a pro-dução mercantil, o caráter social do trabalho não pode se manifestarsenão de maneira indireta, por meio de um desvio. Em suma, porintermédio do valor. A relação entre as pessoas se esconde atrás darelação entre as coisas.A lei do valor como reguladora da produçãoUma vez que é produção confiada a proprietários privados con-correntes, a produção capitalista — tipo generalizado e superior daprodução mercantil — não obedece a um plano centralizado, mas serealiza sob o impulso de decisões fragmentárias isoladas. Entre asparedes da empresa capitalista, a produção costuma ser consciente-mente regulada e obedece a um plano estabelecido pela administração.Já no processo social global das relações entre as empresas, inexistea regulação consciente, o planejamento imperativo. O processo socialglobal da produção capitalista caracteriza-se, por isso, pela anarquia.Anarquia, entretanto, não quer dizer caos. Anárquica como seja,MARX31
  31. 31. a produção capitalista obedece a um regulador objetivo, que atua àrevelia da consciência dos produtores privados. Tal regulador é a leido valor. Justamente esta lei — por ser a lei de validação do carátersocial dos trabalhos privados — é que determina a distribuição dosmeios de produção e da força de trabalho entre os vários produtorese ramos da produção.A lei do valor cumpre sua função de reguladora da produçãosocial em meio a constantes oscilações e desequilíbrios provocados porsua própria atuação. O equilíbrio não pode ser mais do que uma ten-dência que pressiona em meio aos fatores desequilibrantes e se mani-festa enquanto média de inumeráveis flutuações, jamais suscetível defixação. A concorrência entre os produtores privados dá lugar a umasucessão infindável de desequilíbrios e, ao mesmo tempo, atua no sen-tido de corrigir mais desequilíbrios, mediante a regulação do valor.Tal correção nunca consegue suprimir a anarquia, pois se efetua nofluxo incessante do processo concorrencial e implica inevitáveis des-perdícios de recursos econômicos. Simultaneamente, porém, a constanteacentuação do desequilíbrio e a tendência contrária ao equilíbrio, sórealizado como média variável das desproporções, compõem o dinamis-mo peculiar do processo capitalista de produção e tipificam sua mo-dalidade específica de desenvolvimento das forças produtivas. Assim,a lei do valor, na concepção marxiana da produção capitalista, é a leireguladora da distribuição das forças produtivas, porém não é sua lei doequilíbrio. O que Schumpeter percebeu, ao contrário de tantos marxistas.Neste ponto crucial, a concepção marxiana se contrapõe à tradiçãomais forte do pensamento burguês. Tradição que buscou apresentar aeconomia capitalista como consubstancial à natureza humana precisa-mente por ser harmônica, por si mesma apta a estabelecer o estadode equilíbrio mais conveniente aos interesses supostamente gerais dasociedade. Não tem outra significação para Adam Smith a mão invisíveldo mercado, que faria do egoísmo dos produtores individuais o instru-mento da riqueza das nações. Ao proclamar que cada oferta cria suaprópria demanda, a chamada “lei dos mercados” de Say não passa deoutra formulação do mesmo teorema do equilíbrio. Seria, no entanto,com o marginalismo que a idéia do equilíbrio geral da economia capi-talista atingiria a formulação aparentemente mais conforme às exi-gências da demonstração científica, exposta que foi através de refinadaselaborações matemáticas. A doutrina marginalista do equilíbrio geralsofreu o impacto da “revolução keynesiana” sem que, não obstante, seperdesse a idéia do equilíbrio. Já que este não era mais concebívelcomo ajuste espontâneo das variações dos fatores, ajuste resultante dainteração automática e autocorretiva dos mecanismos inerentes ao mer-cado, Keynes incumbiu a mão visível do Estado de intervir no mercado,pôr as coisas em ordem e estabelecer o equilíbrio do pleno empregodesejável à segurança da organização social burguesa.OS ECONOMISTAS32
  32. 32. Apenas de passagem, lembremos que a teoria funcionalista re-presenta, no âmbito da Sociologia, uma ramificação do mesmo troncoideológico do qual se projetou a idéia do equilíbrio natural e eficienteda economia capitalista.Feita a ressalva sobre a validez de tantos aspectos penetrantesde seus ensaios marxistas, cumpre mencionar o grave equívoco de Rubinao confundir a função reguladora da lei do valor com uma função deequilíbrio, ao ponto de sugerir que a teoria econômica marxiana seriauma teoria geral do equilíbrio da economia capitalista. Decerto, nenhummodo de produção pode funcionar sem algum princípio regulador. Nomodo de produção capitalista, tal princípio é a lei do valor. O quesucede é que, na concepção marxiana, este regulador opera através decontradições e desequilíbrios sempre renovados. Contradições e dese-quilíbrios inerentes à essência das relações de produção capitalistas enão meras disfunções, por isso mesmo sanáveis, como as conceberia ofuncionalismo.V. Capital, Fetichismo e Acumulação OrigináriaO desenvolvimento da forma do valor — o valor de troca — conduzao surgimento do dinheiro. Este não foi um dispositivo expressamente“inventado” para resolver dificuldades técnicas na realização cada vezmais complexa das trocas e dos pagamentos, embora viesse a servir paratal fim. Por meio da demonstração dialética, ressaltou Marx que a neces-sidade do dinheiro já está implícita na relação mercantil mais simples ecasual. Assim que as trocas mercantis se reiteram e multiplicam, é ine-vitável que se selecione entre as mercadorias aquela cujo valor de uso —representado por suas qualidades físicas — consistirá na reflexão do tra-balho abstrato de toda a sociedade, na encarnação indiferente do valorde todas as mercadorias. Os metais preciosos (ouro e prata) foram, afinal,selecionados para esta função de mercadoria absoluta.A circulação monetária constitui premissa necessária, porém nãosuficiente para o surgimento do modo de produção capitalista. Marx foitaxativo na refutação das interpretações historiográficas que viam na An-tiguidade greco-romana uma economia capitalista porque já então circu-lava o dinheiro. O capital comercial e o capital de empréstimo aparecemnas formações sociais anteriores ao capitalismo e nelas representam asmodalidades exponenciais do capital. Captam o produto excedente no pro-cesso da circulação mercantil e monetária, através das trocas desiguaise dos empréstimos usurários, porém não dominam o processo de produção.Somente com o capital industrial, que atua no processo de criação dosobreproduto mediante a exploração de trabalhadores assalariados, é quese constitui o modo de produção capitalista. O capital industrial torna-se,então, a modalidade exponencial do capital, que submete o capital comer-cial e o capital de empréstimo às exigências da reprodução e expansãodas relações de produção capitalistas.MARX33
  33. 33. A formação do capital industrial na Europa ocidental mereceude Marx extenso estudo historiográfico, no qual periodizou o processode formação nas etapas da cooperação simples, da manufatura e dafábrica mecanizada. Com esta última, que surge e começa a se gene-ralizar durante a Revolução Industrial inglesa, o modo de produçãocapitalista adquiriu, afinal, a base técnica que lhe é apropriada.Que é, porém, o capital enquanto agente da produção?O capital não é coisa — ferramenta ou máquina. Nada mais des-propositado do que imputar ao arco-e-flecha do índio tribal a naturezade capital. Tampouco basta afirmar, como Ricardo, que o capital é “trabalhoacumulado”. O arco-e-flecha cristaliza trabalho acumulado e, todavia, nãoserve a nenhuma finalidade de valorização capitalista, ou seja, de incre-mento do valor inicial adiantado. A fim de que o trabalho acumulado nosbens de produção assuma a função de capital é preciso que se convertaem instrumento de exploração do trabalho assalariado. Em vez de coisa,o capital é relação social, relação de exploração dos operários pelos capi-talistas. As coisas — instalações, máquinas, matérias-primas etc. — cons-tituem a encarnação física do trabalho acumulado para servir de capital,na relação entre o proprietário dessas coisas e os operários contratadospara usá-las de maneira produtiva.Por conseguinte, a teoria marxiana conduz à desmistificação dofetichismo da mercadoria e do capital. Desvenda-se o caráter alienadode um mundo em que as coisas se movem como pessoas e as pessoassão dominadas pelas coisas que elas próprias criam. Durante o processode produção, a mercadoria ainda é matéria que o produtor domina etransforma em objeto útil. Uma vez posta à venda no processo decirculação, a situação se inverte: o objeto domina o produtor. O criadorperde o controle sobre sua criação e o destino dele passa a dependerdo movimento das coisas, que assumem poderes enigmáticos. Enquantoas coisas são animizadas e personificadas, o produtor se coisifica. Oshomens vivem, então, num mundo de mercadorias, um mundo de fe-tiches. Mas o fetichismo da mercadoria se prolonga e amplifica nofetichismo do capital.O capital se encarna em coisas: instrumentos de produção criadospelo homem. Contudo, no processo de produção capitalista, não é otrabalhador que usa os instrumentos de produção. Ao contrário: osinstrumentos de produção — convertidos em capital pela relação socialda propriedade privada — é que usam o trabalhador. Dentro da fábrica,o trabalhador se torna um apêndice da máquina e se subordina aosmovimentos dela, em obediência a uma finalidade — a do lucro — quelhe é alheia. O trabalho morto, acumulado no instrumento de produção,suga como um vampiro (a metáfora é de Marx) cada gota de sanguedo trabalho vivo fornecido pela força de trabalho, também ela convertidaem mercadoria, tão venal quanto qualquer outra.Contudo, seria errôneo, como ficou em voga no segundo pós-guer-OS ECONOMISTAS34
  34. 34. ra, fazer da alienação a categoria básica da teoria sócio-econômica mar-xiana. Com semelhante procedimento, efetua-se um retrocesso no con-cernente à evolução do próprio Marx, a qual, como foi visto, superouo conceito de alienação quando aceitou a tese do valor-trabalho. Naverdade, as teses essenciais da teoria sócio-econômica marxiana seapóiam nas categorias de valor e mais-valia, a partir das quais a ca-tegoria de alienação, recebida de Hegel e Feuerbach, se concretizouna crítica conseqüente ao fetichismo do capital.A crítica ao fetichismo do capital vincula-se intimamente à de-cifração do segredo da acumulação originária do próprio capital. Comoteria vindo ao mundo tão estranha entidade que conquistou a soberaniasobre os homens e as coisas?Sabemos de várias respostas. A de Nassau Senior: o capital nasceuda abstinência de uns poucos virtuosos, que preferiram poupar a con-sumir, assumindo o ônus de um sacrifício em benefício da sociedadejustamente recompensado. A de Weber: o capitalismo requer a atituderacionalista diante dos fatos econômicos e semelhante atitude procedeu,na Europa ocidental, da ética protestante. A de Schumpeter: os pri-meiros empresários foram homens de talento que tiveram a poupançaacumulada à sua disposição.Já segundo Marx, o capital, não mais como capital mercantil,porém como capital industrial promotor do modo de produção capita-lista, surge somente com determinado grau histórico de desenvolvi-mento das forças produtivas, grau este que implica determinado tipode divisão social do trabalho. Só então é que o dinheiro e os meios deprodução acumulados em poucas mãos podem ser valorizados mediantea exploração direta do trabalho assalariado. Fica, não obstante, a per-gunta: como se acumularam o dinheiro e os meios de produção empoucas mãos?Dessa história não se extrai uma lição sobre a recompensa dasvirtudes morais. Mercadores e usurários — representantes do capitalmercantil pré-capitalista — concentraram a riqueza em dinheiro me-diante toda espécie de fraude e de extorsão, características da atuaçãodo capital nas formações sociais anteriores ao capitalismo. A aplicaçãodo dinheiro acumulado na circulação mercantil e monetária à produçãode mercadorias levou à exploração acentuada, à pauperização e à ex-propriação dos artesãos. Por sua vez, do próprio meio dos artesãos,emergiram os mestres que, em suas oficinas, se destacaram pela efi-ciência na exploração dos aprendizes e companheiros e puderam passarda condição de mestres-trabalhadores à de mestres capitalistas, já porinteiro patrões. Esta formação endógena do capital industrial consti-tuiu, aliás, segundo Marx, o caminho efetivamente revolucionário detransformação capitalista da antiga economia feudal.A acumulação originária do capital — conjunto de processos não-capitalistas que prepararam e aceleraram o advento de modo de pro-MARX35
  35. 35. dução capitalista — assinalou-se como uma época de violenta subversãoda ordem existente, cuja ocorrência na Inglaterra foi estudada no fa-moso capítulo XXIV do Livro Primeiro de O Capital. Com especialrelevo figuraram nessa subversão: as enclosures (cercamentos) que ex-pulsaram os camponeses de suas terras e as converteram em camposde pastagem de ovelhas, enquanto dos camponeses expropriados e des-possuídos emergiria o moderno proletariado; o confisco das terras daIgreja Católica e sua distribuição entre aristocratas aburguesados enovos burgueses rurais; o crescimento da dívida pública, que transferiuriquezas concentradas pelo Estado às mãos de um punhado de privi-legiados; o protecionismo, que garantiu à nascente burguesia industriala exclusividade de atuação desenfreada no mercado nacional e lhepermitiu arruinar e expropriar os artesãos, então obrigados ao trabalhoassalariado; a alta generalizada dos preços no século XVI, em conse-qüência do afluxo à Europa dos metais preciosos da América, trazendoconsigo a queda relativa dos salários e dos preços dos arrendamentosagrícolas a longo prazo, o que favoreceu a burguesia urbana e rural;e, por fim, porém não menos importante — o colonialismo da épocamercantilista, com o comércio ultramarino, a exploração escravista nasAméricas e o tráfico de escravos africanos.O capital emerge para a vida histórica, o que Marx acentuou emvárias passagens, como agente revolucionário implacável que destróias vetustas formações sociais localistas e instaura grandes mercadosnacionais unificados e um processo mundial de intercâmbio e produçãoacompanhado de rápida transformação das técnicas, das formas orga-nizacionais da economia, das instituições e dos costumes etc. Se o nas-cimento do capital exigiu o emprego da violência em grande escala,tampouco foi ela dispensada na sua trajetória expansionista. O capitalrealizou o veloz desenvolvimento das forças produtivas desinibido deconsiderações moralistas humanitárias, movido por uma avidez acu-mulativa sem paralelo nas etapas históricas precedentes.O modo de produção capitalista se afirma à medida que dispensaos processos da acumulação originária e difunde processos específicosde exploração e valorização, que conduzem à produção da mais-valia.A tese segundo a qual o capital contém dois componentes distintos— o constante e o variável — constitui uma das proposições funda-mentais da Economia Política marxista. Insuspeito como crítico e ad-versário, Schumpeter reconheceu a superioridade desta proposição emface da de Ricardo.O capital constante representa trabalho morto, cristalizado e acu-mulado nos meios de produção. Durante o processo produtivo, seu valorse mantém constante, transferindo-se ao produto sem alteração quan-titativa. O capital variável aplica-se nos salários que compram a forçade trabalho e, por isso, representa a única parte do capital que variano processo produtivo, uma vez que se incrementa pela produção deOS ECONOMISTAS36

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