Revista visao

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Revista visao

  1. 1. EXCLUSIVO Nas favelas entre polícias, paramilitares e narcotraficantes COLEC J O R N A L I ST O ÇÃRIO, CIDADE DE DEUS E DO DIABO ESCRITOREAS ¤3,90 Sv (CONT.) PEÇA NA BA NCA www.visao.pt Nº 871 • 12 a 18 de Novembro 2009 Continente e ilhas: ¤ 2,85 ‘FACE OCULTA’MANUAL daCORRUPÇÃO TROCA FAVORES-SE DINHEIRPOR OOS ESQUEMAS POR DETRÁS DOS ESCÂNDALOSQUE ESTÃO A SER INVESTIGADOS PELA JUSTIÇAComo se obtém dinheiro para subornosComo se fazem sacos azuisComo se escondem lucrosComo se atrasam processosENTREVISTA: Teresa Almeida, a magistrada quetem em mãos os principais crimes económicos R E P O RTAGEM NO VALE DO AVENA TERRA DA MISÉRIA... ESCOL AS P Ú B L I CAS ENSINO BILINGUE GRÁTIS ARY DOS SANTOSE DOS PORSCHES NO PRÓXIMO ANO? CD SINGLE DE TRIBUTO
  2. 2. SOCIEDADE EDUCAÇÃO ‘In English, please’O Governo mandou estudar a viabilidadedo ensino bilingue nas escolas públicasportuguesas. Para aplicar já no próximo ano lectivo. Especialistas em línguas gostam da medida, mas os pais são contra. A polémica é já a seguir POR ISABEL NERY*O quadro é de ardósia, como no pas- sado. A escola é pública, como a maioria. Os alunos são de classe média-baixa, como de costume, nos subúrbios. Mas acabam aqui as coin- cidências com uma escola banal. Nos corredores, não há pedaço de parede livrede trabalhos – as estações do ano, a roupa, o corpohumano, a geografia, tudo serve para passar a men-sagem. Em Inglês. Dentro das salas, há professoraslouras e sardentas. Vieram do Reino Unido para en-sinar matérias do currículo espanhol em Inglês. Estamos na escola Alba Plata, em Cáceres, nãomuito longe da fronteira que separa Portugal deEspanha. Mas, muito em breve, poderemos estara descrever uma escola nacional. O British Coun-cil (Instituto Britânico) propôs a ideia à CâmaraMunicipal de Lisboa. A autarquia gostou tanto quechamou o Ministério da Educação e este já pôs emmarcha um estudo de viabilidade. Se a investigaçãoconcluir que a ideia é positiva, o projecto arranca nopróximo ano lectivo. As escolas até já estão escolhi-das (ver caixa). Quando se fala de ensino bilingue, a preposiçãoexplica tudo. Não se quer apenas que os alunosaprendam o Inglês, isso fica para a aula da discipli-na; espera-se que aprendam ciências, geografia ouartes, em Inglês. O trajecto da aprendizagem multilingue pareceinevitável, mas nem por isso livre de controvérsia.Os pais estão contra e os sindicatos dos professoras JOSÉ CARIA96 v 12 DE NOVEMBRO DE 2009
  3. 3. CÁCERES A professora Emma Peters ensina as matérias do currículo espanhol em Inglês. São 45 minutos por dia, em todas as turmas12 DE NOVEMBRO DE 2009 v 97
  4. 4. SOCIEDADE EDUCAÇÃO JOSÉ CARIABIBLIOTECA EM INGLÊS Na escola Alba Plata, Cáceres, há um espaço só para livros britânicos. Para Gema (à direita), de apenas 7 anos,a vantagem de aprender outra língua é óbvia: «Podes ir trabalhar para outros países»recusaram-se a tomar posição por des- O sucesso é tal que, agora, até os pais tos de línguas, gastando do nosso bolso.conhecerem o projecto. pedem aulas de Inglês. E a escola acedeu. A nossa experiência é toda positiva», ar- Em horário pós-laboral, ensinou a lín- gumenta um pai, José Iglesias, 39 anos.DO MEDO AO SUCESSO gua do Reino Unido, durante dois anos, Para transformar assim uma escola«Think of words beginning with e.» Os alu- aos encarregados de educação. «Graças foi preciso repensar a própria forma denos têm apenas 9 anos, mas respondem a este projecto, o Inglês já faz parte da ensinar. Métodos mais participativos eprontamente, com pronúncia irrepre- educação dos miúdos, não vamos preci- dispensa dos manuais escolares, em favorensível – elephant, equal, e por aí adiante. sar de pô-los em explicações ou institu- de matérias seleccionadas pelos profes-A professora Emma Peters, inglesa de sores são alguns dos segredos do sucesso.nascença, vai percorrer as várias turmas «Tentamos inovar em educação, deixarda escola Alba Plata com o mesmo méto- Números Espanha de lado a ideia de que o professor é que dizdo. Bilingue, porque ensina matérias em ‘versus’ Portugal tudo e os alunos ouvem. As crianças têmduas línguas. O país vizinho começou a experimentar de procurar as ferramentas para aprende- Mais do que mudar os alunos, mudou o ensino bilingue nas escolas públicas rem por elas», resume Angela Egido.a escola toda. «Quando começámos, em há já 14 anos. O que se faz lá e o que se Nesta escola há professores bilingues2005, ninguém queria vir para aqui, por- faz cá: para dar os 45 minutos diários de maté-que havia muitos problemas. Na altura, ria em Inglês, mas não em todos os casos. FRANCÊStínhamos 93 alunos, agora temos 176 e Na maior parte dos estabelecimentos Espanha: 300 escolas/20 mil alunosjá somos obrigados a recusar matrículas, Portugal: 21 escolas/750 alunos de ensino castelhanos, são os própriospor falta de vagas», garante Angela Egido, professores espanhóis que leccionam44 anos, coordenadora do Programa Bi- INGLÊS algumas horas noutra língua. Satisfeitalingue, na escola Alba Plata. Espanha: 144 escolas/28 mil alunos com os resultados, a direcção da escola Apesar dos seus escassos 7 anos, as Portugal: o projecto ainda está em es- pensa já introduzir também o ensino docrianças estão já consciencializadas tudo mas, se for para a frente, prevê-se Português.para a necessidade de uma mente global, que comece nas seguintes escolas-pilo- to: EB Bartolomeu de Gusmão, EB Vasconuma sociedade global: «Se sabes Inglês, da Gama, EB Santa Maria dos Olivais, EB NÓS E NOZESpodes ir trabalhar para outros países», Pedro de Santarém, todas em Lisboa O que os miúdos apenas intuem – que fa-nota a pequena Gema. «E também ir de lar várias línguas é uma forma de poder –,férias», acrescenta o colega Pablo. os graúdos já estudaram e comprovaram.98 v 12 DE NOVEMBRO DE 2009
  5. 5. JOSÉ CARIA ENSINAR EM INGLÊS A coordenadora do Programa Bilingue da Escola Alba Plata, Angela Egido, agarrou este projecto para recuperar uma escola que tinha caído em desgraça. «Tínhamos 93 alunos e ninguém queria vir para cá. Agora são 176 e somos obrigados a recusar matrículas» «O domínio de várias línguas é hoje im- dente da Confederação das Associações ral muito forte. Enquanto os nossos alu- prescindível para a plena cidadania. Há de Pais, receia pelo sucesso escolar dos nos confundirem nós com noz recuso- projectos multilinguísticos que provam filhos, se o projecto passar do papel à -me a aceitar o ensino bilingue.» a utilidade deste tipo de aprendizagem. prática. «Seremos contra. Isso está con- É mais importante saber um pouco de denado ao fracasso. Não estamos a falar AMARGOS DE LÍNGUA outras línguas do que ser poliglota, por- de coisa pouca. É uma alteração estrutu- Não se opondo com tanto vigor, Vasco que interessa mais falar com o outro do Graça Moura, 67 anos, tem muitas dú- que como o outro. Ou seja, não é preciso vidas sobre as vantagens do ensino bi- um conhecimento profundíssimo da lín- gua para que seja útil», lembra a directo- ra do Centro de Avaliação de Português como Língua Estrangeira e professora ‘ O ensino de língua estrangeira potencia a materna. Com lingue, numa altura em que o Português «está pelas ruas da amargura». As filhas do escritor estudaram no Liceu Francês, sem qualquer prejuízo nas competên- da Faculdade de Letras de Lisboa, Maria o bilinguismo tende- cias da língua materna. Mas: «Duvido José Grosso, 56 anos. Apesar das vantagens teóricas de -se a um melhor que haja condições para generalizar. Que eu saiba, não existem professores com aprender em mais do que uma língua, os desempenho’ qualificações para isso. O risco é muito encarregados de educação, representa- Paulo Feytor Pinto, presidente grande. Pode condenar-nos ao atraso, dos por Albino Almeida, 48 anos, presi- da Associação de Professores de Português por exigências estranhas de justiça so-
  6. 6. SOCIEDADE EDUCAÇÃO ‘ Enquanto os nossos alunos confundirem nós com noz recuso- -me a aceitar o ensino bilingue’ Albino Almeida, presidente da Confederação das Associações de Pais línguas como outras matérias. Nestes ca- sos, tende-se a um melhor desempenho, na escolaridade», concluiu Paulo Feytor Pinto, 46 anos, presidente da Associação de Professores de Português, lembrando que, «daqui a dez anos, ninguém sobre- vive sem saber Inglês». Conscientes desta realidade, os res- ponsáveis do Ministério da Educação JOSÉ CARIA têm dado apoio ao projecto do British Council. Fonte do gabinete da ministra Alternativa Também na língua de Molière Isabel Alçada garantiu à VISÃO que a Numa escola da Amadora, aprende-se Físico-Química em Francês investigação sobre a utilidade da apren- dizagem simultânea em Português e «Devoirs pour la prochaine semaine: nham, quando é preciso responder às Inglês vai continuar. Mas a nova respon- exercise. Acabei a aula em Francês. perguntas da professora em Francês, sável pela pasta não quer comprometer- Agora vamos continuar em Portu- mas são os primeiros defensores do se, para já. Apesar de saber, pessoalmen- guês.» Gorete Jubilado, 38 anos, dá por projecto. «É difícil, mas vale a pena. terminada a sessão bilingue da sua aula Ficamos a saber outra língua para o caso te, o que é o ensino bilingue – foi aluna do de Físico-Química, na Escola Fernando de querermos estudar no estrangeiro», Liceu Francês – só tomará posição públi- Namora, na Amadora. argumenta Patrícia Santos, 14 anos. ca depois de conhecer os resultados do Como esta, há mais 20, em Portugal. Normalmente, teriam duas aulas de estudo de viabilidade. Recebem apoio do Instituto Franco- Francês por semana, com o projecto têm -Português, apresentam o projecto ao três. «Nessa aula, tento dar vocabulário TODOS FALADORES, TODOS IGUAIS Ministério da Educação e escolhem que possa ser útil para a Físico-Química. Introduzir o ensino bilingue nas escolas disciplinas que possam ser dadas nas Ao nível da compreensão, estão muito duas línguas. Naquele caso, a professora melhor do que os alunos sem o projecto públicas está longe de ser uma medida nasceu em França e é bilingue, mas não bilingue», explica Lúcia Teixeira, 48 anos, apenas educativa. Tem implicações polí- tem de ser assim. «O projecto adapta- professora de Francês. ticas, sociais e até diplomáticas. se aos alunos e aos professores. É isso E se esta docente está satisfeita com o ní- Habituada a reacções diferentes a que lhe dá força. A palavra de ordem é a vel atingido pelos alunos, a de Físico-Quí- esta iniciativa, Teresa Reilly, consultora flexibilidade», diz Fabienne Lallement, 57 mica está mais ainda: «É uma das minhas do projecto bilingue do British Council, anos, adida de cooperação educativa da melhores turmas. Ensinar em Francês acredita que o tempo e autonomia de cada Embaixada de França. até veio ajudar, porque estão muito mais escola é que devem indicar o caminho. Na sala de aula, os alunos – em abun- atentos. Como professora, tive de actuali- dante adolescência – ainda se envergo- zar-me», garante Gorete Jubilado. «Quando começámos em Espanha, há 14 anos, não fomos muito bem aceites. Ago- ra, os pais protestam quando os filhos nãocial. Em vez de melhor aprendizagem,pode levar a desaprendizagem, por inca-pacidade de seguirem as matérias.» A nova ministra Embora partilhada por muitos pais,esta ansiedade é contrariada pelos estu- da Educação, Isabeldos que se têm feito sobre os efeitos do Alçada, só tomarábilinguismo na aprendizagem. «Ao con-trário do estereótipo, o ensino de língua posição públicaestrangeira potencia a materna. Está depois de conhecerprovado que o bilinguismo obriga a uma os resultadosginástica cerebral que aumenta a flexibi-lidade em relação a novas situações. Essa do estudo JOSÉ CARLOS CARVALHOginástica é tão importante para aprender de viabilidade100 v 12 DE NOVEMBRO DE 2009
  7. 7. conseguem entrar numa escola bilingue.Inquérito Pergunte que eles respondem Não há qualquer desvantagem em ser bi-Especialistas, professores e alunos tiram todas as dúvidas sobre o ensino bilingue lingue. Só vantagens: melhora a capaci- dade analítica, a plasticidade cerebral, o1 É mais fácil perder a concentração, ouvindo a matéria numa línguaestrangeira? «Os testes são sempre em Português. Só damos algumas fichas de trabalho em Francês.» sentido crítico, a confiança.» Richard Johnstone, responsável pelo projecto do ensino bilingue em Ingla-«Até ficamos mais atentos quando GORETE JUBILADO, professora terra, não tem dúvidas: «Aprender umaé em Francês. Se nos distraímos, de Físico-Química bilingue nova língua significa aumentar a capaci-perdemos o fio à meada.» (Português/Francês) dade de aprendizagem em geral.»RUTE CÂNDIDO, 14 anos, aluna Para os defensores desta inovação pe-da Escola Fernando Namora, Amadora 5 Quanto custa? «Só demos apoio moral ao British Council. Até agora, o custo foi zero dagógica, as vantagens não se ficam pela aprendizagem. «Se a educação bilingue é2 Quem dá as aulas? «Não é preciso ser bilingue, bastater um nível de Inglês razoável. Nalguns para Portugal.» CARLOS CATALÃO, ex-adjunto um sucesso no ensino privado, o sistema público também deve dar essas oportu-casos, há professores de língua nativa, do vereador da Educação e Cultura nidades. A primeira coisa a interessar-noutros, não. Cada país é diferente.» da Câmara Municipal de Lisboa -nos foi a possibilidade de proporcionarTERESA REILLY, responsável pelo projecto igualdade de oportunidades», adian-bilingue do British Council 6 Se os alunos portugueses já têm elevado nível de insucesso escolar a Inglês, um sistema bilingue não piora ta Carlos Catalão, 52 anos, ex-adjunto do vereador da Educação e Cultura da3 É obrigatório? «São as escolas que se propõem.Cada país está a desenvolver o projecto as notas? «O bilinguismo só trará vantagens Câmara Municipal de Lisboa, que levou a iniciativa à discussão na autarquia ede acordo com as suas necessidades.» neste aspecto. Ajuda a ter uma depois ao ministério.TERESA REILLY perspectiva mais global e reforça De que o Inglês se tornou uma língua as competências na língua materna.» franca já ninguém duvida. Que o ensino PAULO FEYTOR PINTO, presidente da bilingue traz benefícios cognitivos, está4 Como é que os alunos são avalia- dos? Não vão ficar prejudicados? Associação de Professores de Português comprovado. Mas estarão as escolas por- tuguesas preparadas para o desafio? * COM SARA SÁ

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