MARCUS, O IMORTAL - UM ENCONTRO COM ALBERTO AMGNUS

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ROMANCE QUE ABORDA TEMAS DA FILOSOFIA EM TEMPOS DE ALBERTO MAGNO E TOMÁS AQUINAS. EIVADO DE MISTICISMO E LUTAS CONTRA OS PERSEGUIDORES CATÓLICOS.

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MARCUS, O IMORTAL - UM ENCONTRO COM ALBERTO AMGNUS

  1. 1. MARCUS, o imortalCoelho De Moraes 1
  2. 2. MARCUS, o imortal Direitos de Cópia para Cecília Bacci & Guilherme Giordano ceciliabaccibscm@yahoo.com.br menuraiz@hotmail.com FATECmococaprodutoresindependentes@yahoo.com.brColeção BROCHURAS & PDFs & ESPIRAIS Revisão e Correções Professora Ana Maria Zeferino Capa COELHO DE MORAES coelhodemoraes@terra.com.br Selo Editorial FATECmococa Registrado e Catalogado na Biblioteca Municipal e Mococa Cidade de Mococa São Paulo 2009 Coelho De Moraes 2
  3. 3. MARCUS, o imortalUM ENCONTRO COM ALBERTO MAGNUS Para Rose Braga Coelho De Moraes 3
  4. 4. MARCUS, o imortalOPUS 1 Sim. Eu tenho mais de 800 anos de idade, mas quem me conhece não pensadessa forma. A única coisa que me dá um ar de diferença é a bengala com castão deprata herdada de meus avós, gente escondida em tempos arcaicos, quando as nuvens daIdade nublavam ainda mais todo o conhecimento. O texto de Alberto Magnus chegou às minhas mãos por uma dessas curiosascoincidências, apesar de que eu sempre estive a colecionar objetos que montassem umamemória secreta dos eventos de nossas vidas. Sim. Os meus oitocentos e vinte e tantos anos de idade me fizeram remontar aoséculo 13, quando conheci Alberto. Abro tais atas com episódios daquele tempo. Ele andava pelos campos, escrevendo e pesquisando. Pena e nanquim semprefizeram parte de sua vida, da mesma forma que ervas e púcaros de beberagens. Eraincansável. Alberto Magnus Lucius, eis o seu nome completo. Não me lembro se era 1.245ou 48. Encontrei-o quando estava em Paris e o Mestre terminava de anotar um conjuntode escritos após palestrar para Acadêmicos sobre Secreta Mulierum. Um encontro numaestalagem que rendeu provas de amizades, mas de grandes inimizades também.Algumas dessas levaram a assassinatos. Eu era jovem, não mais do que vinte e trêsanos, e vinha para estudar as Artes Médicas. E aí começará a história.OPUS 2 A epístola preliminar de seus trabalhos em França, se bem me lembro, sãoconsiderações acerca dos infortúnios da magia para os fracos.- Caro Marcus – assim ele me chamava – é necessário aceitar o fato de que toda a açãorecebe uma reação e aqui não vai nada de novo, desde Hermes Trimegistus.- Sim, Mestre.- Portanto, toda vez que um mago interferir no equilíbrio, ou no fluxo, ou ainda interferirna organização da natureza, haverá uma reação. O mago não é onisciente. Muitas vezeso mago pensa que pode mais do que realmente pode.- Acredito nisso.- Daí as concepções errôneas de Mago Branco e Mago Negro. São valores relativos. Poisbem, caro Marcus, pois bem. Ciente disso, o mago deve se preparar mental e fisicamentepara o embate, que na maior parte das vezes não é espiritual, nem espectral... maspuramente somático. O mago pode sofrer ações em seu corpo que precisa resistir. Se ocorpo estiver enfraquecido a mente não agüentará o embate. Tais eram alguns dos ensinos de Alberto Magnus. Caminhávamos pelas alamedas cobertas de lama, tendo Alberto com o braçoamigavelmente em meus ombros, como dois companheiros trovadores e taberneiros. E,em meio a ensinamentos, ele apontava estradas e montes e dizia de outras lendascomplementares aos nossos estudos e aos tempos de perseguição obstinada... Ele faloucerta vez sobre Calatin, a quem procuravam por todos o portos da Europa, lembrando dehistórias antigas, portanto, postas em dúvida: “- Por aqui passou Calatin, um estranho deorigem cigana, dos eslavos, que conhecia fragmentos do Oculto e os usava para obtersuas vantagens”. E em seguida retornava para as aulas e direcionamentos na senda doesoterismo. Mas, na verdade, o meu respeito sempre continuava imenso pelo GrandeAlberto. Naquela mesma época, um padre originário de Antuérpia, um tal masterWickerscheimer, negociou com Alberto umas palestras em Erfurt. Era tarde chuvosa e elesaiu com sua charrete protegida, partindo em viagem. Fiquei no seu cargo para ministraraulas fundamentais aos iniciados no estudo da Pedra Filosofal – assunto em que eu eraaprendiz, ainda - seguindo passos do trabalho de Tomás de Aquino. Uma obra dedicadaao irmão Reinaldo, provavelmente um dos irmãos da Ordem dos Irmãos Predicadores. Nessa oportunidade me realizei, permitindo aos alunos um estudo de importânciapara suas vidas, com base nas lições de Hermes, O Três Vezes Grande, O Três VezesMestre, O Três Vezes Mago. Coelho De Moraes 4
  5. 5. MARCUS, o imortal Enquanto Alberto esteve fora, pude visitar outras Escolas e participei de umasérie de reuniões secretas para se decidir, em um nível de oculto, sobre o fingir-seignorar a ambivalência do sagrado e do maldito no domínio religioso, apesar dasevidências claras, mesmo no estudo do Genesis Bíblico. Essas palestras e reuniões sefizeram sob o manto da noite, pois todos estávamos fugindo dos espiões papistas. Lembro que uma jovem muito atenta aos estudos – em nosso meio o número demulheres sempre foi maior do que o de homens - dizia: “Se a faculdade de crescer emultiplicar é uma bênção para o homem e a mulher, a primeira maldição só é dada àsmulheres: Multiplicareis o número de partos” e hoje, perto de oitocentos e trinta anos, euvejo que a incapacidade da espécie humana para regular sua proliferação é a maisterrível maldição que paira sobre a humanidade.- A mãe é um mistério – dizia Sonja, a jovem que estudava conosco.- É o aspecto sombrio da mãe, isso de sempre dar à luz, sem parar.- Conseqüências coletivas e materiais... desastres, e falta de alimento... por isso oshomens nos culpam. A blasfêmia recai sobre nós e isso é cômodo.- Mas, Sonja, as civilizações tradicionais...- ... por causa da menstruação, a substância da mulher aparece como que ligada aomundo por uma magia noturna e os padrecos nos impõem responsabilidades por umainfluência espiritual malévola - ela me toca no queixo, gentilmente – o próprio Alberto émuito severo com isso. Pergunte a ele. Tive que ouvir e calar. Essas mulheres nos dão lições constantes. Apesar deserem providas de útero e serem loucas, era evidente, a cada dia uma nova diretrizbrotava nas reuniões. Sonja liderava essa turma de jovens.OPUS 3 O mensageiro me trás uma correspondência. Não fosse o nevoeiro da manhã e ele tertia chegado mais cedo, como me disse,enquanto bebia água das ânforas bentas. Abro-a. É de Alberto . O Lúcius de seu nome é a luz que nos ilumina diariamente. Durante todo aquele dia molhado eu estudara o texto e o coloquei na lista deleituras da noite. Eu escrevera para Alberto no sentido de elucidar umas dúvidaspendentes, principalmente sobre o assunto das mulheres. Os homens se fingiam dedoutos e pouco perguntavam. Viam que a agilidade das moças era tal que os poria paraos cantos escuros da sala de estudo. Alberto respondeu: “Quanto àqueles que recebem amulher na comunhão diária, em nossa opinião, merecem severa censura: pelo usodemasiado freqüente que possam fazer dela, eles são culpados de que a Santa Eucaristiaperca o respeito que lhe é devido. As mulheres têm outra visão da coisa. De resto odesejo que as mulheres têm da comunhão é mais resultado da sua superficialidade doque de uma verdadeira devoção. As mulheres, no culto, se interessam pela devoção àgrande Mãe, ou Deusa. Para elas, a Deusa continua entronizada, enquanto nós, pássarosde Maria, ficamos a adorar o que é simplesmente Maya, ou a ilusão”. Tardezinha.- Me dá aqui isso – Sonja tomou a carta de minha mão. Fiquei meio constrangido. Elapercebeu e me deu um beijo no rosto. Sonja sorria.- Gostou do que vem escrito?- É magnífico – Sonja correu para a sala e releu a carta. As mulheres exultaram. Oshomens ficaram com certo ar de incredulidade. Nesse momento, as portas laterais seabriram e, após o ranger de madeiras, vimos o Bispo de Montpellier entrar com umséqüito de soldados e outros padres. Várias pessoas se ajoelharam. As mulheres não.Nem eu.- Quem é responsável pela reunião? Mestre Alberto está aqui? – a voz esganiçada dosoldado ecoou na sala. Eu me aproximei.- Eu sou responsável pelas aulas e essa é uma classe de medicina, senhor.- Medicina... – falou Montpellier, enxugando o rosto molhado de suor, apesar do úmidotempo – o estudo da sabedoria de Galeno e Hipócrates, pois bem. Mas chegamos em ummomento em que uma dessas... mulheres... falava... e... – olhando para mim – ... elastêm esse direito?- O senhor Bispo bem sabe que nas classes de Mestre Alberto todos são bem recebidos...inclusive...- Até o clero – disse Sonja, que não se continha. Os soldados se moveram em torno do Coelho De Moraes 5
  6. 6. MARCUS, o imortalBispo que a olhou de cima abaixo.- E... o que é que liam, se é que posso saber?- Líamos uma carta de Alberto. Ele está em Antuérpia, para estudos – disse eu, tentandocontornar a situação e evitando qualquer tipo de confronto. Aquela não era uma boahora para isso. Os sinos de NotreDame repicaram. O Bispo olhou com estranheza aorepicar dos sinos. Alguns estudantes se benzeram. O Bispo não se deu por vencido e,observando os bordados da seda em seu lenço, que dobrava carinhosamente, disse:- Contem para mim... o que está escrito na carta – parecia um pedido , mas na verdadeera uma ordem. Peguei a carta das mãos de Sonja, fazendo questão de colocar a moçaatrás de mim, querendo torná-la invisível. Abri a voz e repeti todo seu conteúdo e, àmedida que eu lia, o rosto de Montpellier se abria em sorriso.- Ah! Muito sábio o Mestre Alberto – disse o Bispo – muito sábio em colocar as mulheresem seu devido lugar. Sempre soube que seguia os ensinamentos paulinos. – Senti queSonja se movia atrás de mim. Ela sempre foi inquieta. O Bispo dava continuidade à suaexplanação como se a aula fora dele: - Haveria maior paz na Terra se não fosse aMulher, que nos leva para o pecado e para a intolerância...- Não me parece isso o que diz o texto, se me permite o senhor Bispo.- Não, não permito nada – e os soldados se moveram novamente e me deu a impressãoque levavam as mãos ao punho das espadas. Senti que Sonja segurou meu braço – Nemsei por que um jovem como o senhor recebe a permissão para ministrar aulas... Albertodeve ter se equivocado nesse ponto, ou, quem sabe, trata-se um treino... mas a mimparece claro o que diz esse texto, seguindo o ensinos de Paulo e colocando a Mulher noseu devido lugar de mãe e seguidora do pátrio poder. Nada mais!- Senhor Bispo – eu disse, mas fui tolhido novamente pelas mãos de Sonja, segurandominha capa.- Sim...?- Mais alguma coisa? O senhor gostaria de nos ensinar mais alguma coisa? – Montpellier,com um travo de orgulho crispado nos lábios olhou-me e repassou o lenço no pescoço. Oseu anel episcopal brilhou suavemente contra a luz de candeeiros que tínhamos. Elenegou com a cabeça. Segundos de silêncio. Os estudantes estão mudos. Os soldadosesperam. O Bispo olha para todos e fixa seu olhar em Sonja.- Evitem as reuniões noturnas... ler sob a luz do candeeiro faz mal para os olhos... e paraa saúde da mente também. Imediatamente virou-se e partiu com seu séqüito barulhento. Quando a portabateu, respiramos com intensidade. Sonja me tomou com as mãos segurando meu rosto.- Pensei que você comentaria o sentido oculto do texto.- Montpellier nos poria na fogueira.- Amanhã conversaremos sobre isso – ela disse – com todos. Mestre Alberto enviou umacarta muito radical. Um parágrafo apenas e o texto é de uma importância revolucionáriasem igual.- Nem sei se todos aqui aceitarão esse Tratado de Comunhão – eu falei – Acredito queteremos inimigos entre nós... principalmente os mais enraizados nos dogmas da Fé.- Os estudantes não foram selecionados em testes e provas intensas? – ela perguntou.- Foram – eu falei – porém, em determinados momentos o medo aflora e pode haverdesistências. Na verdade, as tais provas e testes nunca são definitivos... enquanto houverestudantes e enquanto Alberto nos fornecer pérolas e novos ensinamentos... a qualquermomento pode haver quem resolva sair e...- Na verdade... as aulas são testes constantes...- ... e Mestre Alberto testa seus pupilos até o limite máximo do rompimento com osvalores tradicionais... inclusive eu...- Amanhã debateremos... provavelmente teremos mudanças em nosso grupo deestudantes. Acredito que todas as mulheres estarão do lado de Mestre Alberto... e de seulado também, Marcus. – Sonja disse com convicção expressiva. Olhei para ela. As luzes dos candeeiros e de algumas velas piscaram nos seusolhos. As pessoas se preparavam para sair. Demos os últimos cumprimentos e Sonjapartiu em sua charrete ao lado de mais quatro jovens estudantes. Eu sabia que o Tratadoda Comunhão traria contrariedades e nos colocaria mais visados ainda ante o poderpapal, tendo Montpellier como braço de ferro. Coelho De Moraes 6
  7. 7. MARCUS, o imortal Dobrei cuidadosamente os escritos, amarrei-os numa bolsa de couro e olhei anoite cair.OPUS 4 A lua desapareceu. Nada se via, nem nas cidades e nem nas matas. Todossabíamos que eram noites de Lilith atingindo seu máximo de atividade. Eu sabia que nãoveria Sonja durante a semana toda e, quando a visse novamente, ela estaria um tantomudada, levemente mudada e cansada. O Sol e a Lua, o macho e a fêmea combatem. Um confronto de opostos ondecada princípio oponente detém o seu oposto. Há necessidade do uso de escudos. Durante noites e madrugadas as mulheres debatiam sobre a possibilidade deinstalarem um governo feminino para o mundo. Elas mesmas diziam que o domínio dodia pertencia aos machos e o domínio da noite pertencia às fêmeas. Dois tipos de clareio:o de luz e o de fogo. Excelentes noites. E eram aquelas, antes do sumiço temporário das mulheres,excelentes noites onde ainda tivemos tempo para os debates do Tratado da Comunhão.E isso trouxe o cisma.- Quanto àqueles que recebem a mulher na comunhão... – falava para a escola, comodebatedora, Sonja, com sua voz contralto bem postada - ... serão os padres ou serão osque se acoitam com as mulheres?- Certamente o Tratado de Comunhão nos fala dos aspectos do sacramento – opinou oestudante Borgausen.- Nada disso – foi a vez de Tomasina – esse texto é profano e fala da sexualidade.Àquele que recebe em comunhão... não a comunhão com hóstias, a não ser quechamemos nosso aparelho genital de animalzinho a ser imolado ao senhor macho –todos riram. Tomasina sempre teve bom humor. Borgausen fechou o semblante. Semprefoi o mais intolerante.- Tomasina está certa. A escrita é cheia de símbolos e de maneira a contentar osreligiosos. Protegendo-nos de alguns insanos. Escapando de uma interpretação que nostraga problemas. Viram quando Montpellier concordou com Mestre Alberto? – falei.- E Mestre Alberto passava uma mensagem secreta.- Mas isso é um sacrilégio duplo. O assunto escrito e a maneira de fazê-los passar por umtipo de escrito da Igreja Católica – gritou Cantimpré, filho de fidalgos e herdeiro defortunas, quase se alterando.- O que o incomoda, Sr. de Cantimpré? – perguntei.- O fato de Mestre Alberto ir longe demais.- Até onde será esse longe demais? O senhor terá uma medida da distância?- Até onde é permitido ir? – perguntou Tomasina – A distância dos homens será igual àdas mulheres?- Não vou questionar a doutrina Paulina – resmungou Cantimpré.- A doutrina Paulina nos manda obedecer ao homem da casa – foi a posição deTomasina, cobrindo-se com seu xale azul, que tinha desenhos de luas em suas váriasformas e faces – Estamos propondo um governo de iguais. Excluindo o que chamamos o“homem da casa”.- A distância do homem o leva para fora. A distância da mulher adentra o corpo –replicou Sonja.- Amigos – falei – o texto é claro. Mestre Alberto não nega que o casal se ame. Eleapenas sugere que seja todos os dias para que não se perca o valor dessa comunhão.- Mas ele não pode comparar Santa Eucaristia com sexo – gritou Thorndike.- É claro que pode. Ele tem todo o direito.- O sexo como Santa Eucaristia? – foi a vez de Borgausen.- Sangue, corpo e nossa alma, ou nossa ânima, em função do amor de homem e mulher?Valorizar esse amor?–questionou Sonja.- O que os preocupa é a mistura dos temas ou o fato de usar palavras que normalmenteusamos na Igreja para referendar outras idéias? Digo a vocês que as palavras não sãopropriedades da Igreja. Sempre usaremos quaisquer palavras para propagar ou explicarnossas idéias – expliquei.- E o desejo que as mulheres têm da comunhão é mais resultado de sua superficialidadedo que de uma verdadeira devoção... – Sonja fez uma pausa na sua leitura - ... os Coelho De Moraes 7
  8. 8. MARCUS, o imortalsenhores deveriam agradecer pelas sugestões aqui contidas... são sugestões quepermitirão que homens e mulheres tenham uma vida mais saudável...- É claro que queremos a comunhão... mas não com um fim em si, pois sabemos que oproduto dessa comunhão é uma possível gravidez... – esclareceu Tomasina - ... nãopodemos querer a comunhão como devotas, nem como se fosse a nossa condiçãoobrigatória... queremos a comunhão, sim... mas que não seja nada profundo a ponto denos trazer a gravidez e que não seja o tempo todo, desvalorizando o que sentimos e nospondo em riscos de concepção...- Na verdade – opinei – a Igreja as quer grávidas, pois o controle é maior e mais eficaz.De outra forma, quanto maior o número de crianças, mais os senhores feudais terãobraços para uso em suas terras... isso me parece claro...- Você está misturando tudo, Marcus, cuidado – foi a opinião de Borgausen – vá commais calma. Política é uma cousa. Medicina é outra. Religião...- O engano é de vocês. Esses temas todos se misturam. O fato é que isso é real – eudisse e vi Borgausen, Cantinpré e Thorndike conversarem a sós e balançarem suascabeças em desaprovação. Por outro lado, as mulheres ampliavam seus discursos ediscutiam ativamente aqueles pontos. Terminamos a noite ali, naquele estado de dúvidaque torna a mente um tanto adoentada, sabendo que o assunto ainda merecia muitodebate e, permitindo o caminho das outras idéias que ainda viriam. A partir de então nãomais veríamos as mulheres, que se preocupavam com seus afazeres da Lua Nova. Vimos a charrete de mulheres desaparecer nas brumas. Cães ladravam. Volta emeia um vulto passava sobre nossas cabeças e nos surpreendíamos pelo tamanho dopássaro. Adejava com força e desprendimento. Seriam As Aves de Aristófanes? Daquele dia em diante, os três rapazes que não concordaram com o discurso deMestre Alberto Magnus não apareceram mais para as aulas. Não estavam no burgo,tampouco. Na taberna não se ouviu mais falar deles e da universidade, onde moravam,soube-se que desapareceram sem deixar vestígios, ou melhor, os únicos vestígiosdeixados eram suas roupas e livros que nos pareceram esquecidos nos quartos. Aimpressão é que depois daquela noite eles não teriam retornado aos seus aposentos. Recebi, um dia, uma outra carta, escrita em papel pardacento, feito em casa,dizendo que sabiam do paradeiro dos jovens. Carta sem assinatura. Especialmente naquela semana os ventos foram mais vigorosos e os animais semostravam muito mais irritados. A poeira das ruas era tanta que impedia à pessoa andarnelas à noitinha. Minha opinião é que o mundo estava muito barulhento naqueles dias e o que eumais ouvia eram gargalhadas esporádicas, perdidas e soltas, trazidas pelo vento... ecosde cavernas e murmúrios de árvores. Sonhava com Sonja, quase sempre. E eram sonhos cálidos.OPUS 5 A semana sem a presença das jovens era sempre um período diferente. Após ainterferência de Montpellier e as idéias expostas, percebemos que Cantimpré e os outrosse mostraram estranhos. Mas, naquela semana, nem a presença deles trouxe a relativaconstância dos encontros. Os jovens haviam desaparecido completamente com umacerteza que caía como pedra. As notícias não eram claras. Muito boato e conversa soltadissipavam-se no interior das casas e albergues, junto a lareiras e círculos de pessoasmedrosas. Todos, na verdade, sabíamos para onde iam as mulheres, mas notamos quevárias vezes, em datas passadas, os três rapazes se ausentavam, no mesmo período,na semana negra, preferentemente à noite e saíam com seus cavalos para a floresta. Da última vez, segundo a carta que eu recebera, eles saíram e ladearam carroçasde soldados. Ou seja, nessa vez os estudantes pediram reforço policial. A polícia do clero.Suas manobras de espionagem pareciam bastante claras. Tirando a coincidência de quese escondiam sob as sombras da Lua Negra, os alunos nunca nos convidavam para essasinvestidas. Em geral, a semana negra, a semana sem as mulheres, era escolhida por nós,para experiências em laboratórios. Principalmente as experiências alquímicas, bem comoestudo dos atributos das ervas e substâncias naturais de vários tipos. A busca do poderoculto que faria uma substancia de se tornar curativa. Era até normal que, após a Coelho De Moraes 8
  9. 9. MARCUS, o imortalsemana negra, as mulheres, ao voltarem, nos trouxessem vegetais, minerais esubstâncias orgânicas desconhecidas para novos experimentos e testes variados. Umgrupo complementava o outro, apesar de nunca perguntarmos frontalmente para ondeelas iam. Isso ficava como um segredo entre nós. Sabíamos quem eram e o que eram aquelas jovens. Aumentava o fascínio e isso nos bastava. Recebi outra epístola de Alberto, também. Ele aconselhava, pediaveementemente, que tivéssemos cuidado com as idéias expostas, com as idéias queainda chegarão e com as pessoas que ouvissem tais idéias. Ele nos estimula ao trabalho.Pede apoio ao trabalho de Sonja. Na carta há um alerta, pois há matéria publicada emseu nome que não lhe cabe nem em pensamento nem em estilo. Ele cita o “LíberAggregationis”, por exemplo, e o “De Marabilibus Mundi” que são falsos flagrantes cujoestilo não acorda com os outros seus escritos. Na verdade, são os mais miseráveis livrosproduzidos pelo obscurantismo e o autor desses textos nem se deu ao trabalho de imitarAlberto. Então, ouvi o barulho de carroças entrando no burgo.- São os dominicanos – gritou Pietro de Ferrara.- Esse pessoal é de uma ordem nova e já mostra serviço – declarou Alexandrino, omenor.- São de Toulouse. Essa Ordem de Dominicanos apareceu em 15. É nova mesmo – eudisse – Fundaram a Ordem para a luta contra os albigenses.- Mas já existiam desde 1206 – exclamava LaCordaire.- Não! Engano. O que existia era a Ordem Contemplativa das Dominicanas, fundada porDomingos, o Castelhano.- Ele foi pessoalmente lutar contra os albigenses? – perguntou Pietro. - Sim. Após a confirmação da sua Ordem por Honório III, ele partiu para o Languedoccom essa missão – eu expliquei, tendo que aumentar um pouco a voz, pois uma fieira decavalos e carroças passava sob nossas janelas, levantando poeira e afastando apopulação. Alexandrino, o Menor, tinha dezessete anos e uma curiosidade imbatível. Nãotinha família. Desde criança vivia na Universidade e agora estava cursando conosco. Masainda sabia pouco.- E quem são esses albigenses? - ele perguntou.- São da cidade Albi, no Sul da França – eu falei.- São também conhecidos como Cátaros – gritou Pietro, pendurado numa escada eolhando a rua lá de cima. Desceu rapidamente quando o grupo de cavaleiros se afastouadentrando o burgo.- E por que os Dominicanos lutaram contra? – perguntou Alexandrino.- Porque – prontamente me pus a explicar – eles eram seguidores da seita maniqueísta.Essas idéias vêem de Maniqueu, de origem persa, e pregam austeridade total e proibiçãodo casamento. As comunidades de fiéis eram dirigidas pelos considerados puros... oucátaros.- Só isso?- Os cruzados foram liderados por Simão IV de Monfort... – e um sorriso apareceu norosto de Pietro - ... e esse Simão, pio e católico, saqueou Carcassone e Béziers... osalbigenses foram derrotados em Toulouse e Muret. - E qual é o problema dessa seita? Era tão nociva assim? – perguntava LaCordaire – Quetanto mal poderia trazer para nós? - Acontece, LaCordaire – retomei a palavra – que Maniqueu explicava a criação domundo como que uma luta entre duas forças. A do Bem e a do Mal. Um princípioessencialmente bom simbolizado pela Luz. O outro princípio essencialmente malsimbolizado pelas Trevas – refleti um momento – ... e há quem diga que a Luz existeapenas para iluminar a escuridão... mas, mesmo para um hábil observador domingueiro,caos estava no princípio das coisas e dos tempos... escuridão ou trevas já existia desdeo começo dos tempos... as trevas vêm na frente.- Mas... por que se luta contra eles se a Igreja Católica prega o mesma?- Não. Ela prega que o mundo foi criado pelo princípio essencialmente bom. OsManiqueístas afirmam que os dois princípios são as fontes de criação do Universo – falei.- E você bem sabe como é que funciona a liberdade de pensamento em nossas terras,não é mesmo LaCordaire? – brincou Pietro de Ferrara, enquanto folheava displicentealguns livros. Coelho De Moraes 9
  10. 10. MARCUS, o imortal - Agora – eu completava – esta seita vem desde o século terceiro depois de Cristo, ouseja, é tão antiga quanto a Igreja Católica, que nasceu na mesma época. Portanto, háuma luta por espaço político e por domínio nas searas religiosas.- E o que os Dominicanos estarão fazendo aqui, hoje?- Isso eu não sei. Talvez alguma nova missão. Talvez algum foco albigense em Paris.Talvez... – meu pensamento se levou para Sonja e durante alguns momentos eu medeixei sonhar com a leveza da jovem - ... talvez.... procuram algum outro tipo deperturbação da fé...- É melhor retornarmos aos estudos – declarou LaCordaire, após a fria pausa – temmuito trabalho pela frente e eu não quero perder minha bolsa. Em segundos estávamos debruçados sobre a tábua de experimentos. Era umbom grupo. Sentimos a falta de Thorndike, Cantimpré e Borgausen, pois eram argutosestudantes, mas eles já faltaram outras vezes, coincidentemente durante as semanasnegras, como já foi dito. Tínhamos a obrigação de manter o trabalho em andamento,apesar de tudo. Lição maior era nunca perguntar muito pela vida dos estudantes.Discrição total. Há histórias que não podem ser contadas. Há idéias que não podem ser reveladas. E o véu da noite caiu sobre nós.OPUS 6 Vento. Gritos. O povo dizia que as almas estavam libertas, mas não falavamsobre isso muito alto. Então a lua desapareceu. A lua negra se estabeleceu em nossasnoites e, junto ao vento, podíamos ouvir uivos alternados com risadas e rasgos de pavor.No começo era a Iniciação. A carne nada valendo, mas mantendo seu poder de estímuloe de poder; a mente nada valendo também, a não ser que valorizássemos ao extremo osassuntos da memória e da sutileza. Lembrei da fatal história de Calatin, o cigano. Umestremecimento atingiu meu corpo e por pouco eu não caio, amparando-me nos batentesda porta de carvalho. Mas, tudo aquilo passou. A semana teve fim e pela manhã, um sol cálido abriu océu. Muita névoa doce. O aroma da floresta era claro e definido, trazendo valores defogueira e carne queimada. - Aquilo que é desconhecido, embora firmemente baseado sobre o seu equilíbrio, dá vida. Virei-me. Era Sonja e as moças. Tomasina, Clara e Beatrix. Cansadas, pálidas,um tanto alheias, tendo os rostos macilentos, o ar de quem não conseguiu dormir. Haviacerto nervosismo naqueles jovens semblantes.- Boa dia, moças– vi que sentaram-se nos tamboretes e passaram a brincar com frascos– parece que vocês trazem novidades.- Marcus, estamos cansadas.- Isso eu vejo.- Então fica um pouco calado – disse rispidamente Clara. Elas se entreolharam. Algoestava errado. Ou muito certo. Talvez o errado fosse eu. Pietro de Ferrara não seconteve:- Calma, jovens. Marcus não acusou ninguém. Só perguntou. Se quiserem que fechemosnossas bocas, assim o faremos. Façamos de conta que nada ocorreu.- Marcus – era Sonja – preciso conversar com você. É minha obrigação.- A hora que desejar.- Agora, então. Fomos para a biblioteca. E o que ouvi foi estarrecedor. Ela começava com umpreâmbulo místico, bem ao sabor das arengas universitárias. Aprendi com Alberto quedeveria ter a máxima paciência. O que podia vir daí era pior do que perder algum tempocom a introdução.- Em todos os sistemas de religião deve ser encontrado um sistema de Iniciação, quepode ser definido como o processo pelo qual se chega a aprender sobre aquela Coroa,aquela sabedoria, o âmago desconhecido. E nós, mulheres, temos o nosso. Você sabeque quando nos afastamos na Lua Negra, vamos praticar o nosso sistema religioso...- Sei... não discuto isso.- Bom. – ela fez uma pausa contundente como que a refletir e pensar se deveria se abrir- Embora ninguém possa comunicar o conhecimento ou o poder para realizar isto que Coelho De Moraes 10
  11. 11. MARCUS, o imortalnós podemos chamar a Grande Obra, é, todavia, possível que os iniciados guiem outros,e nós mulheres temos que ter o maior cuidado com as nossas práticas. Temos queobedecer aos nossos dogmas e, enfim, proteger a nossa integridade, com todas asforças. – ela assim falava enquanto deslizava seus dedos sobre a lombada dos livrosinúmeros.- Todos devem superar seus próprios obstáculos – eu falei.- Expor suas próprias ilusões. Suas verdades, seus temores. Porém, outras pessoaspodem ajudá-lo a fazer ambos, como você vem fazendo conosco... como o GrandeAlberto faz com todos nós... e os Mestres podem tornar-nos completamente aptos aevitar muitos dos falsos caminhos que não levam a lugar algum.- Isso tudo tem a ver com Cantimpré e os rapazes?- Sim... infelizmente tem – ela disse e um arrepio passou por mim. Imediatamentelembrei das palavras de Alberto: “Deve-se assegurar que tudo seja devidamente provadoe testado, pois há muitos que pensam serem Mestres, os quais sequer começaram atrilhar o Caminho do Serviço, que para lá conduz”.- Estávamos em meio aos trabalhos da nossa Grande Obra. O momento da Iniciaçãohavia chegado... a semana era importante demais... o clima propício... as mulheresestavam aptas. - Fiz menção para falar, mas ela tapou minha boca com as mãos eapertou minha boca, quase chorando que estava por dores e anseios de sua alma.- Escuta. Ouve, eu e as meninas rogamos, ouve com atenção: pois apenas uma vez aGrande Ordem bate à porta de alguém. E era o nosso momento. Não podíamos permitirnenhuma interferência. Nenhuma... Ninguém poderia conhecer qualquer uma de nós esair ileso desse encontro. Até mesmo nós, membros da Ordem, jamais poderíamosconhecer uma a outra, até que também tivéssemos atingido a Maestria.- Os rapazes seguiram vocês – eu disse. Ela aquiesceu. Escondeu o rosto com as mãos.Balançou a cabeça como se quisesse afastar os pensamentos.- Um passo irrevogável – ela completou.OPUS 7 Eu e Sonja nos viramos imediatamente por causa do barulho. Carruagens. Fomospara o salão das aulas. Todos estavam preocupados. Segui para as janelas de vitraisvenezianos e vi um aglomerado entre povo, clérigos e soldados. Traziam carroças e,sobre elas, corpos. Olhei atônito para meus companheiros. Procurei os olhos de Sonja.Ela acudia suas amigas. Beatrix tinha desfalecido, pois adivinhava algo. Pietro de Ferraradisse que iria ver o que estava acontecendo e partiu. Uma garoa leve começou a descersobre a terra das ruas, prejudicando o caminho. Vi Pietro se aproximar e percebi que elesentia algo como um choque. Conversou com algumas pessoas. Os cavalos relinchavam,muitos gritavam, ordens eram dadas e os soldados desapareciam pelas vielas. Quandonotei que um dos militares mais autorizados apontava na direção da Universidade, descida escada e chamei as mulheres.- Vocês têm que sair daqui. Já!- Ir para onde? – Sonja perguntou.- Agora eu não sei. Mas não podem ficar – rapidamente tomava dos objetos dasmulheres e as impelia para a rua, pela porta traseira.- Explique-se, Marcus – insistiu Alexandrino, o Menor – assim sem mais nem menos?- Depois... depois... elas sabem... poucos devem saber... Um barulho terrível me pareceu quando a porta se abriu e Pietro entrouesbaforido. Seus olhos saltavam das órbitas. O cabelo em desalinho. Arfava. Tomou daágua e gritou:- Estão mortos! Thorndike, Cantimpré e Borgausen, estão mortos. Horrivelmente mortos.- Do que é que está falando ?– disse LaCordaire.- Mortos. Catimpré está desfigurado, sem metade da cabeça, sem miolos... Borgausentem perfurações em lugar de olhos... parece que a boca foi amarrada com barbante,costurada... o outro ficou sem os membros, braços, pernas... e sexo... Olhei para Sonja. Ela olhou para mim e baixou sua cabeça. O trotar dos cavalosnos acordou do pasmo e corremos em direção à rua. Saímos, atarantados, sem rumo,carregando o que podíamos pegar pelo caminho. Empurrei as mulheres para o bosqueque se estendia perto. Elas corriam em desabalada carreira. Coelho De Moraes 11
  12. 12. MARCUS, o imortal Voltei. Quando entrava de volta na Universidade notei que os cavalos dossoldados estavam também lá dentro, destruindo tudo em redor, desde mesas a vidros epapéis.- Onde estão as bruxas?- Aqui não há bruxas.- Vou repetir! Onde estão as mulheres!?- Elas partiram há uma semana e ainda não voltaram – gritei como resposta. O soldadoao meu lado deu-me uma bofetada.- Há alguns anos, um número de manuscritos cifrados foi descoberto e decifrado porcertos estudantes – a voz falava lá do fundo. Era Montpellier. Ele continuou: - Elesatraíram muita atenção, pois pretendiam derivar de certos outros que se diziamRosacruzes. – Um sorriso lhe apareceu aos lábios: - Você prontamente entenderá que agenuinidade da afirmação nada importa, sendo tal literatura julgada por si só, não pelasfontes que lhe são reputadas. Da mesma forma que ocorre lá na rua. Os jovensestudantes, seus colegas, mortos... de maneira audaciosa... e terrível... e me parece,durante a Semana Negra.- Não sei do que está falando.- Claro que não. Deixem-no. O nosso problema é outro. Deixem os outros jovens. Onosso assunto é com as mulheres. Capitão, vá para as ruas. Eu assinarei um edito emque pese sobre as cabeças das mulheres a sentença de morte. Após partirem eu comecei a procurar. Entre os manuscritos, estava um que davao endereço de certa pessoa em terras germânicas, por nós conhecida como Gertrud vonBingen. Teria parentesco com Hildegard, a sóror musicista? Descobrimos as cifras ecânones e citações, além de senhas salmodiadas para podermos escrever para Gertrud e,de acordo com as instruções recebidas, permitir que uma mensagem chegasse a Alberto,por caminhos alternativos.- Mas, a regra absoluta dos adeptos é não interferir no julgamento de qualquer outrapessoa, quem quer que seja – disse Alexandrino, o Menor, enquanto arrumávamosnossas roupas e nos preparávamos para partir em jornada.- Não podemos deixar as mulheres sozinhas. Temos de encontrar um meio de auxiliar asmoças em sua fuga.- Elas fizeram aquilo tudo, Marcus? – perguntou LaCordaire.- Não sei dizer... Os adeptos que já tenham conhecimento suficiente para capacitar a simesmos ou aos seus companheiros, certamente formularão um elo mágico de proteção aesses mesmos adeptos. Não concorda?- Só não pensei que tudo se precipitasse.- Nem eu... talvez nem Alberto... de qualquer forma – falei – corremos perigopermanecendo aqui.- Marcus! – Pietro me chamava – devo anunciar que eu formulei um elo mágico... umelo de proteção... Rituais novos e revisados foram emitidos, e conhecimento frescojorrou em correntes... ou delírios e pesadelos sobre nossos... companheiros curiosos...- O que você quer dizer?- Eles levaram soldados e a milícia burguesa para a reunião das mulheres... osbeneditinos...- Temos que ir embora agora! Peguem o que conseguirem... Saímos a correr.OPUS 8 “Nós devemos passar por cima dos infelizes embustes que caracterizaram operíodo seguinte. Epístolas que pediam a prisão das mulheres por práticas ilícitas corriampor todo o Reino Franco. Já se provou totalmente impossível elucidarem-se esses fatoscomplexos. Nós nos contentamos, pois, em observar que a morte dos três colegas, porinépcia e invasão dos segredos alheios, era questão obrigatória. Os rituais foramelaborados, na noite anterior, em plena Lua Nova, apesar de bastante eruditos, emprolixo e pretensioso contra-senso: as mulheres, segundo Pietro de Ferrara, dançavam ecantavam. Muitas gritavam a olhos vistos, olhos abertos e cabelos soltos. Oconhecimento se provou sem valor, mesmo onde estava correto. Rodopiavam seuscorpos em torno de fogueiras e tanques onde se fervia algo. O aroma era anormal emuitas vezes Pietro estava tonto e em estado febril, ma ele tinha sua missão a cumprir.É em vão que pérolas, mesmo que não tão claras e preciosas, sejam dadas aos porcos, Coelho De Moraes 12
  13. 13. MARCUS, o imortaldizia o manuscrito. Quando os cavaleiros apareceram, as mulheres gritaram mais. Oscavaleiros apearam e partiram para o círculo traçado no chão. Foi como se explodissem.As mulheres gargalhavam. Ordálios de desprezo latejavam os corpos de todos. Os jovens estudantesquiseram a todo custo tomar as companheiras e sujeitá-las, sendo impossível quequalquer um ali falhasse. Candidatos inadequados foram admitidos, por nenhuma razãomelhor do que a de sua prosperidade mundana. Porém, não se contava com as forçasinvisíveis que protegeram os corpos nus das mulheres. Resumindo. Falharam. O escândalo surgiu e, com ele, o cisma. Vieram a público os corpos destroçadosdos jovens. O poder estabelecido se prontificou a sair em perseguição. Uma granderepulsa contra o estudo se apoderou daquelas cabeças. O povaréu faria o que o poderreligioso mandasse. Deu-se ínicio à caça. Professores foram presos. Não nos quiseramprender, mas pediam a cabeça de Alberto. Urgia que ele se mantivesse em Erfurt, ouonde pudesse se esconder. E, para tanto, amiga Gertrud, peço que se afaste um poucode suas flores e procure Alberto. Eu envio essa carta, com zelo e cuidados, Marcus”.- Apesar de ser erudito de alguma habilidade e um magista de notáveis poderes, comovai a sua iniciação? – perguntou-me curioso Alexandrino, enquanto lavávamos nossasroupas no rio.- Eu havia caído de meu posto original quando conheci Mestre Alberto e, então, euestava imprudentemente atraindo para mim forças do mal, grandes e terríveis demaispara que eu suportasse – levantei-me para olhar a bússola e observar as condições dotempo.- E o que fazer agora?- Agora comeremos – falou Pietro – peguei raízes e um pouco de vegetal. Há tubérculossaborosos também.- É isso. – continuei - Não sendo ainda um adepto perfeito fui, em determinadomomento, eu tinha sua idade, mais ou menos, lançado pelo Espírito no Deserto, fiqueilá por sete anos, estudando à luz da razão os livros sagrados e os sistemas secretos deiniciação de outros povos e gentes. Finalmente, foi-me dado certo grau, pelo qual umapessoa se torna o mestre do conhecimento e da inteligência, e não mais seu escravo.- Nesse caso você percebeu a inadequação da ciência, filosofia e religião; e expôs anatureza auto-contraditória da faculdade do pensamento.- Sim. Tal era a missão – peguei algumas folhas de alface e mastiguei devagar. - Fui àBretanha, depois à terra dos Celtas e fui admitido, fraternalmente, em um templopequeno.- Não está escrito que as tribulações serão encurtadas? – disse Pietro. Rimos, paradesanuviar nossas mentes.- Daí, seguindo diretrizes de Alberto Magno, resolvi preparar todas os eventos, grandes epequenas, para o dia em que a Autoridade fosse recebida por todos, já que ninguémsabia onde procurar por adeptos mais elevados, mas sabíamos que o verdadeiro caminhopara atrair a atenção das forças era equilibrar os símbolos, as sagas, os rituais e osestudos. O templo – no caso, a Universidade - seria construído antes que a divindadepudesse habitá-lo. – Sorvi uma beberagem quente fornecida por LaCordaire. – Daí avinda de todos vocês... mesmo aqueles jovens que morreram.- Correu-se muito risco. Preparar toda ciência e sabedoria arcanas, escolhendo apenasaqueles símbolos que fossem comuns a todos os sistemas e rigorosamente rejeitandotodos os nomes e palavras que supostamente implicassem em qualquer teoria religiosaou espiritual, era avançar demais na sabedoria de nosso tempo, não acham? – perguntouAlexandrino, o Menor, espantado com o conteúdo das informações que eu passava.- Mas havia dificuldades maiores. A língua, por exemplo – eu disse - Descobrimos quetoda língua tem uma história e o uso, por exemplo, da palavra “espírito” implica naFilosofia Escolástica e nas teorias Hindu e Taoísta significados concernente à respiraçãodo Ser Humano.- Dessa forma trabalhamos com enigmas, textos crípticos, indefinições, não é ? –perguntou LaCordaire.- Exato – eu disse.- Não, certamente, para velar a verdade ao aprendiz, mas para adverti-lo contravalorizar o que não é essencial. Coelho De Moraes 13
  14. 14. MARCUS, o imortal- Então, que ele não assuma precipitadamente o nome de um Deus e que não se refira aqualquer Deus conhecido, mas somente a um Deus que somente ele mesmo conheça.- E sobre os rituais? – retornou LaCordaire, me oferecendo raízes secas.- Que eles pareçam implicar em filosofia Egípcia, Taoísta, Budista, Indiana, Persa, Grega,Judaica, Cristã ou Mulçumana. Que se reflita que isto é um defeito da linguagem; alimitação literária e não o preconceito espiritual da humanidade. A noite descia e o frio surgia, mormente perto das águas de rios e lagos.Dormiríamos em breve.- A nós agora, interessa uma fuga definitiva. Se possível procurarmos por Sonja eAlberto. Cada um deles se encontra em seu próprio perigo.- E se nós formos as iscas... já pensou nisso? – perguntou LaCordaire.- Nós laboramos dedicadamente para que jamais sejamos levado a perecer sobre essespontos; muitos homens santos e justos foram dizimados. Ninguém aceita o diferente,inda mais se são conhecedores de segredos que a natureza esconde em suas fórmulas.Assim, todos os sistemas visíveis perderam a essência da sabedoria. Para eles, nósprocuramos revelar o desconhecido e, ao mesmo tempo, o profanamos.- No entanto – disse Pietro, atiçando a pequena fogueira para nos aquecer - há umtempo certo para o repouso e um tempo certo para as fugas. É hora de descanso.- Partiremos na madrugada – eu disse. - Já abandonamos lares, posses, mulheres,filhos, a fim de realizar a Obra. Resta, com tranqüilidade, calma e firmeza, abandonar aprópria Grande Obra, neste momento.- Tem idéia de para onde vamos? – perguntou LaCordaire.- Creio que devemos pedir ajuda a Tomás. Tomás de Aquino.- Mas ele é dominicano. E mora longe...- Alberto também... ademais Tomás é seu discípulo, como nós... Virei para meu lado da floresta e pensei em outras possibilidades para nossafuga. Para não levantar maior atenção sobre nós era preciso que nos escondêssemos noseio dos inimigos. Dormimos.OPUS 9 Viajar era uma obra tumultuada. Caminhávamos lentamente encontrando chuva, lama, montes e povos que oranos eram delicados, ora não nos queriam por perto. Muita vez foi necessário fugir debeatos que viam o demônio em nós. Às vezes outras éramos tomados como braçospapais atrás de feiticeiros. Os Franciscanos nos abrigaram em acampamentos, agradavelmente. Era gentehospitaleira, que nada perguntava. Pouco se falava entre eles, na maior parte do tempo.Em outros momentos não paravam de falar, como se fossem crianças, brincando pelarelva, pelos matos, nadando, o dia se tornando em festa. A ordem dos Franciscanos era nova, relativamente nova. O seu fundador haviamorrido há pouco mais de vinte anos e fora canonizado em torno de 1229, ou 1230. Maso fato é que seu exemplo se espalhou pela Europa e muitos filhos de gente fidalga seentregaram à ordem, homens e mulheres, em sua maioria jovens, criando cismas etormentos para os familiares, portanto, a ordem tinha seus adeptos, mas era perseguidapelos ricos, principalmente. Durante meses vagamos pelas estradas e no fim, olhando para nossa aparência,já pensávamos que nos havíamos tornado franciscanos também. Nosso aspecto eraterrível, entre maltrapilho e sujo. Sei que não era uma prática normal o banho, mas eu,LaCordaire, Alexandrino – o Menor, e Pietro de Ferrara sabíamos das benesses dalimpeza e do asseio, que nos livraria de males e doenças. Esses e outros conhecimentosnos legavam apelidos dos mais extravagantes, desde simples bruxos a doutores eprofessores. Era mister alcançar alguma vila hospitaleira e mudarmos nossa imagem. A meta era permanecermos instalados e ministrar matérias comezinhas, comoálgebra, filosofia... aulas gerais, assim teríamos dinheiro. Era preciso roupas limpas e um ar próspero. Para alcançar as terras de Tomás deAquino, aluno do mestre Alberto, ainda havia tempo. Mesmo assim, uma semanadepois, simpósios e debates, algumas conferências nas vizinhanças e visitas a fidalgosnos foram adequadas. A vila recebeu, então, a visita de cavaleiros. Inúmeros. Eramcruzados. A poeira levantada e o estrondo das patas dos animais assustaram a todos,porém os soldados não deram atenção a ninguém, permaneceram quietos, apearam Coelho De Moraes 14
  15. 15. MARCUS, o imortalrapidamente e procuraram apoio para alojamento e alimentação. Por sorte o comandantedaquela tropa também era fidalgo e de boa estirpe. Em princípio, os soldados nãoestavam ali para desatender a gente do burgo. Ouvi que o comandante, ou chefe, umsujeito imenso, apurado, cabelos encaracolados que desciam pelo capacete, passou agritar, quando apeou defronte à estalagem:- Had! Essa noite aqui. Quero que mandem um templário na direção das minhas tropas...já que elas não podem entrar neste burgo.- A manifestação de Nuit – disse LaCordaire - O desvelar da companhia do céu. Não seise é um cruzado. Mas pode ser um dos cavaleiros da Ordem do Templo.- Certamente o comandante tem conhecimentos secretos. Mas, ele me parece estranhocom aquele ar cinzento. Provavelmente seus seguidores também. Curioso mesmo era oaroma pútrido que, repentinamente, se instalou, sutil, no ambiente.- Esperemos que sim. Pelo menos teremos a oportunidade de conversar com pessoasque compreendem os mistérios. – LaCordaire se aproximou educadamente do cavaleiroque retirava o manto com a cruz de malta nele estampada. - Senhor, seja bem vindo.Posso invadir sua privacidade e perguntar se todo homem e toda mulher é uma estrela? O cavaleiro olhou para LaCordaire e notei que tinha olhos fundos, cinzentos,muito frios. A pele um tanto esfarinhada como se fosse pulverizada. Os outros cavaleirospareciam do mesmo recorte e feitio. Mesmo o sorriso dado em seguida não trouxe maiorcalor ao semblante dele. Era certo que o cavaleiro entendera a insinuação e, respondeu:- Todo número é infinito; não há diferença. Era a senha, a palavra velada, o sinal, a possibilidade de aliança. Ele voltou-separa seus comandados e disse, em alta voz: - Senhores. A vila nos será benfazeja. Háaqui pessoas com as quais poderemos falar e saber mais de alguns mistérios. Pelomenos, os mistérios que me são permitidos saber.- Ajuda-me, ó senhor guerreiro da Thebas mística, no meu desvelar ante as crenças doshomens! – saudou Alexandrino, o Menor. E complementou a saudação com ummovimentar de corpo, à guisa de humildade: - Sê tu Hadit, meu centro secreto, meucoração e minha língua!- Entremos – ele disse – falaremos melhor lá dentro. Certamente obteremos pousada poraqui. E, se nada disso der certo, seguiremos para a primeira caverna das cercanias. A noite caiu lentamente. Era uma fria noite de Setembro. A brisa cresceue a mataria uivou arbitrariamente, enquanto os animais encontravam espaço nos curraispara descanso. Em momentos o manto noturno cobriu as ruelas da vila. Cães últimoscorriam desarvorados em busca de outros cães ou cuidados. No interior da estalagem alareira aquecia o corpo de comando da soldadesca. Entre eles o cavaleiro Templário queconhecemos, chamava-se Bernard, de Clairvaux, oriundo de uma família de Toulose. Noentanto Bernardo não me era um nome estranho. Ele se aproximou com um caneco devinho quente e sentou-se no tamborete ao lado:- Há quem acredite que eu não preciso de alimento. – sentou-se pesadamente. Umaroma estranho nos alcançou. E vocês, jovens... Estão longe da sua terra, então!?- Em fuga - disse eu – Estamos procurando Tomás de Aquino. Os dominicanos nos darãoalgumas explicações. Tomás poderá nos ser útil.- Vocês falaram de Alberto, o Grande. Ainda vive? Onde ele está agora?- Não sabemos, na verdade. Tinha partido para Erfurt. Talvez hoje esteja em Colônia...talvez tenha voltado para Paris, talvez tenha fugido, também, não sei.- Talvez... talvez... – Bernard levou a taça aos lábios secos, ressequidos... – talvez... É...a fuga parece o destino de todos. Seu nome é Marcus, não é? Veja, Marcus! Isto foirevelado por Aiwass, o ministro de Hoor-paar-kraat. Há conhecimentos muito secretosque nem mesmo o mais sábio dos padres e sacerdotes versados no conhecimentohebraico poderá resolver. Nós podemos! Nós seremos perseguidos. Nós seremosexecrados. Nós morreremos.- Sim! Bem o sei.- Entre nós, Templários, por exemplo, veja a contradição: Há grupos papistas eantipapistas. Há grupos que desejam a eliminação completa dos semitas. Há outros queapenas desejam propagar as benesses do Santo Graal – bebeu outro grande gole devinho, como se nunca bastasse – e isso tudo nós queremos descobrir. Queremosdebater, buscar, questionar... e esse é o nosso pecado... parece.- Eu entendo. E para onde cavalgam? Oriente?- Não. Estamos buscando a Igreja de Planès. Sei que há lá uma imagem de Maria da Coelho De Moraes 15
  16. 16. MARCUS, o imortalCatalunha e sabemos que dela jorra límpida água. É para lá que vamos. Não que issosignifique algo muito apropriado para mim e em meu estado. Mas, como clérigo, esperoque tais águas me façam voltar adequadamente ao meu formato original. Percebi que algumas pessoas, poucas, que andavam pela sala de refeição nosolhavam com certa curiosidade. Bernard passou a falar mais baixo. Eu e meus amigos defuga apenas ouvíamos, embevecidos.- A Igreja está entre os reinos de França e Espanha. No alto dos Pireneus. Há registrosguardados em Perpignan, registros legais na antiga capital do Reinado de Maiorca quecerto abade – Alberich, se não me engano – recebeu a construção diretamente do Rei,em 1180. Ao pronunciar estas palavras, coincidência ou não, um vento imenso desdobroufaces de janelas e abriu um par de portas. Bandeiras tremularam. Velas se apagaram eBernard riu e disse:- É sempre assim. Efeitos especiais dos incorpóreos. Eles nos seguem. No começo nosassustamos um pouco, mas depois, vemos que a algazarra não passa disso. Janelas,ventos, um pouco de fogo... Pirotecnia. Estou acostumado, agora – e sorveu um poucomais de vinho quente – Mas, como eu dizia, é para lá que vou.- Sei – disse eu – que os mouros estiveram na Europa e foram expulsos por CharlesMartel. Você não está se referindo à Mesquita, está?- Sim. Estou. Leia isso, Marcus. Tomei o papel da mão de Bernard. Enquanto isso ele se preocupou em procurarlamparinas. Dizia precisar de um pouco mais de luz...- Luz! Eu quero luz! A minha alma precisa de luz, - afirmou categórico. Na carta eu vi escrito: - Adorai então o Khabs, e vede minha luz derramar-sesobre vós! Que meus servidores sejam poucos e secretos: eles regerão os muitos e osconhecidos. Estes são tolos que os homens adoram; seus Deuses e seus homens sãotolos. Saí , ó crianças, sob as estrelas, e tomai vossa fartura de amor! Eu estou acima devós e em vós. Meu êxtase está no vosso. Minha alegria é ver vossa alegria. Olhei para ele e perguntei som evidente ar de espanto e ignorancia: - E daí?- E dái?! Esse texto tem parecença com a maneira muçulmana de escrever,principalmente no Alcorão. Alberich, o célebre Alberich, foi quem traduziu no interiordessa Mesquita ou Igreja transformada. É sabido que os mouros não destruíram asigrejas e mudavam o interior delas sacralizando-as como Mesquitas. Os cristãos deveriamter inveja da sabedoria de fenícios, mouros, persas e asiáticos em geral.- Sim. Eu sei, no entanto, a construção dos Pireneus é claramente cristã. O formato delaé trifoliado, querendo propor a trindade cristã, coisa que os muçulmanos não aceitam.- Claro, mas os muçulmanos são mais inteligentes e sábios... não acha? – Bernardperguntou, inclinando a cabeça e esboçando o que me pareceu um sorriso maroto –Creio que Cruzadas e essas lutas sanguinárias só estão acontecendo por que os Mourossão obrigados a se defenderem...- A culpa é dos cristãos – esclareceu LaCordaire.- Cristão vivem de culpas... mas, a culpa é mais óbvia se observarmos as ações doclero...Mais precisamente do papado – declarou Bernard – enquanto abençoam canhõese navios endereçando-os à mortandade. Acima de nós, o precioso azul celeste. O vento amainava ou era pura impressão.Cães ladravam e às vezes algo como risadas no ermo.- É o esplendor nu de Nuit; Ela se curva em êxtase para beijar os ardores secretos deHadit. O globo alado, o estrelado azul, são meus, Ó Ankh-af-na-khonsu! – declamouBernard, olhando para céu, despejando mais um copázio de vinho, mas, continuou, comose não houvesse mais ninguém por ali: - De qualquer forma eu quero encontrar o lugarantes que as tropas do papa nos encontrem. Sei que lá há um túmulo de um rebeldesarraceno. Esse sujeito ousou tomar uma nobre cristã para esposa. Histórias, eu sei...- Como sabe disso?- O nome dele era Othman - El Chemi. Ele e seus soldados estavam em terreno franco.Ali conheceram a mulher. Ela se chamava Lampagie, filha do Conde Eudes. Othman seencantou por ela, dizem as histórias, ela retribuiu o interesse. O conde estava perdidoentre a invasão moura e sua própria incapacidade. Permitiu que o desejo de Lampagiefosse realizado. Morreram por lá. O emir declarou Othman traidor. Lampagie era minhaavó. – Bernard respirou, pelo menos foi um movimento que pareceu um profundo ato desorver os ares, - Agora sabem que o sacerdote e apóstolo andam em mim, mas Coelho De Moraes 16
  17. 17. MARCUS, o imortal também em mim está o curioso, o encarregado, aquele que não recebe ordens, aquele que deseja saber se é a parte de sangue mourisco que corre em minhas veias que me dá vontade de tirar fora a cabeça do papa. Othman cobrira sua esposa com um manto que lhe valeu a alcunha de Mulher Escarlate, tendo todo o poder do seu lado. - Lembro que Alberto falou, certa vez, sobre um eremitério catalão onde foram encontrados corpos cobertos de ouro e jóias. Disse que uma mulher tinha sido retirada do chão e a supunham princesa árabe. Parece que os vilões carregaram a estátua, pois o corpo está rígido e negro, e o carregam no verão para uma floresta próxima a uma fonte qualquer. Depois é levado de volta para Odeilia ou Lívia, uma antiga construção castelã, em princípio de setembro – Pietro de Ferrara nos informou exemplarmente. Bernard esboçou aquilo que costumamos chamar de sorriso e falou: - É isso. É justamente isso que me faz ir atrás. Estamos em Setembro. Essa é a época. Acredito que terei novidades então. Quando entrei para a Ordem ela já estava perdendo sua meta original. Proteger os peregrinos que iriam para Jerusalém. Mas, eu acreditava ainda nisso. Éramos os Pobres Cavaleiros de Cristo. Eu pessoalmente acompanhei aquele maluco do Francisco de Assis em sua investida ingênua com os emires, se bem que ele nem atinasse para o fato. Ele não conseguia me enxergar tsnto que estava tomado pelas inspirações divinas. Tolices! - E após? Os muçulmanos retomaram a Terra Santa, não é? - Sim. Retomaram. Aí a sede foi estabelecida em Chipre. Com administração em França. Felipe, o Rei de França, invejoso, começou a perseguir o Grão Mestre dos Templários, com medo de seu poder crescente e influência. Não queríamos obedecer a nenhum senhor Feudal. - Mas, por que isso tudo? Que eu saiba os Templários não detêm riquezas, nem bens, nem nada... – perguntou Alexandrino. Nisso uma porta bateu ruidosamente e legamos o barulho aos restos de vento ou a algum animal perdido. - Você tem razão. Agora, estamos sob perseguição constante. Provavelmente seremos excomungados. Para mim, tanto faz. Vimos que era meia–noite. Ninguém mais na estalagem. Até o dono fora se deitar, resmungando. Então uma voz e várias vozes passaram a declamar na rua. Havia um canto triste, enfadonho e soturno. Várias pessoas pediram para que viéssemos dormir, pois as almas já estavam caminhando nas ruas. Olhamo-nos curiosamente. A música em homofonia subia e descia cantando as seguintes frases: “Queima sobre suas testas, ó esplêndida serpente! Ó, mulher de pálpebras azuis, curva-te sobre eles. Com o Deus e o Adorador eu nada sou; eles não me vêem. Eles estão como que sobre a terra; Eu sou o Céu, e não há outro Deus além de mim e meu senhor Hadit.”- Meus soldados caminham pelas ruas, - disse Bernard. – Sairei com eles. Os olhos cinzentos de Bernard se apertaram. Ele caminhou para a noite, com aquele seu passo pesado, atendendo ao chamado, e acompanhou a multidão de pessoas . OPUS 10 Saímos, também nós, curiosos contumazes, atrás da procissão. Subimos montes, relvas, caímos em charcos, a escuridão não nos assustava, pois sabíamos de seus segredos. Os únicos problemas eram buracos e ribanceiras. O perigo estava ali. A procissão seguia com tochas e cantorias. Vislumbrávamos, na claridade de archotes, o corpo robusto de Bernard e seus soldados. Havia um aroma pestilento crescendo no ar. Eram nossas referências fugidias. O odor era muito ruim. Não se sabia de onde procedia. Mas, seguíamos céleres e percebemos que a falange se reunia no interior de uma cratera na rocha. Certamente uma gruta. Ninguém a nada nos impedia. Era como se fizéssemos parte da procissão desde seus primórdios, mas a sugerir pela roupa das pessoas, eles caminhavam há meses. Entramos na gruta e pisamos um riacho. Pietro aproveitou para refrescar pés e mentes. De lá de dentro uma voz se fazia ecoar entre pedras e flamas ardentes. - Agora, portanto, Eu sou conhecida por vós por meu nome Nuit. Para ele, me farei conhecer através de um nome secreto que darei oportunamente. - Ele quem? – perguntou Alexandrino. - Não sei – tive que responder rapidamente sem querer perder nada daquele discurso. - Posto que Eu sou o Infinito Espaço e as Infinitas Estrelas de lá, fazei vós também Coelho De Moraes 17
  18. 18. MARCUS, o imortalassim. Que não haja diferença feita em vosso meio entre uma cousa e qualquer outracousa; pois é daí que nos vem a dor. Eu sou Nuit, e minha palavra é seis e cinqüenta. Então eu vi que alguém se ajoelhou aos seus pés e essa pessoa me pareciaBernard que foi, imediatamente, tratado de profeta. Ele disse:- Sou seu o profeta e seu o escravo, mas, quem sou eu, e qual será o sinal? Assim ela lhe respondeu, curvando-se, como uma tremeluzente chama de azul,pois de azul estava vestida, seus cabelos eram ruivos e seus braços tudo-tocante, tudo-penetrante, suas mãos amáveis, pareciam desprender energia e se enfiaram na terraúmida, recoberta de lodo, fácil de manipular, penetrou na terra negra, e seu corpoflexível se pôs arqueado para o amor, e seus pés macios se afastaram. Não machucandoa nada que se aproximasse, ela disse:- Tu sabes! E o sinal será meu êxtase, a consciência da continuidade da existência, aonipresença do meu corpo. Bernard de Clairvaux, como um sacerdote respondeu àquela tornada em Rainha,mas antes beijou, respeitosamente, suas sobrancelhas densas, e viu-se que o orvalho daluz dela banhando seu corpo inteiro num doce perfume de suor exalava para a cavernainteira:- Ó, Nuit, fica no Céu, que seja sempre assim; que os homens não falem de Ti comoUma, mas como Nenhuma; e que eles não falem de ti de modo algum, posto que tu éscontínua! Um coro escondido atrás de uma pilastra de pedras exclamou em som único: -Nada, suspira a luz grácil e encantadora das estrelas, nada e dois.- Pois eu estou dividida pela graça do amor, para a oportunidade de união – disse a ruiva- Esta é a criação do mundo, que a dor da divisão é como nada, e a alegria dadissolução, tudo. Por estes tolos dos homens e suas dores não te importes de modoalgum. Eles sentem pouco; o que é, é balançado por fracas alegrias; mas vós sois meusescolhidos. – Nisso ela apontou para Bernard. Alguém deu a ela uma espada muitolonga, que brilhava como prata, e ela continuou: - Obedecei ao meu profeta! Persegui osordálios do meu conhecimento! buscai-me apenas! Então as alegrias do meu amor vosredimirão de toda dor. Isto é assim: Eu o juro pela abóbada do meu corpo; pelo meucoração e língua sagrados; por tudo o que eu posso dar, por tudo o que eu desejo detodos vós. Bernard, sacerdote e profeta, um enigma, caiu em um profundo transe oudesmaio e disse à Rainha do Céu!: - Escreve para nós os ordálios; escreve para nós osrituais; escreve para nós a lei!- Meu escriba, Ankh-af-na-khonsu – ela respondia, brandido levemente espada - osacerdote dos príncipes, não mudará em uma letra este livro; mas, para que não hajatolice, ele o comentará pela sabedoria de Ra-Hoor-Khu-it. Mantras e encantamentos; oobeah e o wanga; os trabalhos da baqueta e da espada; estes o profeta aprenderá eensinará. O coro voltou à carga, salmodiando e caminhando. Nesse momento pude verque tais corpos eram descarnados, vivos, porém, descarnados, semidotados de algumaalma transitória. Deles emanava o cheiro fétido. Eles clamavam:- Quem nos chama Thelemitas. Pois ali há Três Graus, o Eremita, e o Amante, e ohomem da Terra. Faz o que tu queres, há de ser tudo da Lei.- Deixai esse estado de multiplicidade – ela completou - multiplicidade limitada edesgosto. Assim com teu todo; tu não tens direito senão fazer tua vontade. Faz isso, enenhum outro dirá não. Pois vontade pura, aliviada de propósito, livre da sede deresultado, é toda senda perfeita. Tremenda quantidade de sinos começou a badalar. Em princípio não sabíamos deonde vinham, mas percebemos depois que outros seguidores, como sacerdotes,carregavam tais sinos e os badalavam sem cessar.- Nada é uma chave secreta desta lei. Sessenta e um os Judeus a chamam; Eu a chamooito, oitenta, quatrocentos e dezoito – a ruiva clamou em altos brados, olhos abertos,pernas abertas, a espada girando sobre seus ombros. De repente ela parou e olhoufixamente para Bernard que estava ajoelhado, banhado em suor: - Meu profeta é um tolocom seu um, um, um; não são eles o Boi, e nenhum pelo livro? Ab-rogados estão todosos rituais, todos os ordálios, todas as palavras e sinais. Ra-Hoor-Khuit tomou seu assentono Leste ao Equinócio dos Deuses. Saímos todos. A reunião tinha chegado ao fim. Desligou-se tudo como se nada Coelho De Moraes 18
  19. 19. MARCUS, o imortalali houvesse. A escuridão tomou forma. Movimento e barulho somente. Lá fora notamosque os descarnados sumiam nas trevas, nas brumas, entre as folhas, em silêncio eenquanto tal se fazia Bernard reapareceu, lépido como sempre, com seu tamanho, e suaroupa de guerra.- Viram tudo? – perguntou.- Sim – prontamente respondi.- É o seguinte: Há quatro portões no palácio que precede a Igreja dos Pireneus; o chãodesse palácio é de prata e ouro; lápis-lazúli e jaspe estão lá; e todos os aromas raros;jasmim e rosa... mas, também estarão por lá os emblemas da morte. Por enquanto essesemblemas são o anel episcopal e a coroa de Felipe. Eu devo entrar com minhas hostespor partes ou de uma só vez, atravessando arrevesados portões. Devo ficar de pé sobreo chão do palácio. Se não cumprir à risca o ritual – e Bernard deu uma olhada paradentro da gruta – se não fizer como ela deseja ou espera, então, devo receber osterríveis julgamentos de Ra Hoor Khuit! Concordei em parte com Bernard. Mas tínhamos nosso caminho. Ele seguiria odele.- Não posso me comprometer a esperá-lo nem do Leste nem do Oeste. Todas aspalavras são sagradas e todos os profetas verdadeiros; salvo apenas que eles entendempouco; resolvem a primeira metade da equação, deixam a segunda incompleta. Mas, euespero, Bernard, que você tenha tudo na clara luz, e algo, apesar de nem tudo, naescuridão, que sempre é bom reservar algo para depois. Multidão de cavalos apareceu. Eram os soldados trazendo seus animais e amontaria de Bernard. Ele gritou, esporeando o corcel, que se ergueu nas patas traseiras:- Invocai-me sob minhas estrelas! Vou atrás do Amor, através da história de Othman eLampagie, minha ancestral... é a lei, amor sob vontade. Que os tolos não confundam oamor; pois existem amores diferentes. Existe a pomba, e existe a serpente. Escolha bem,Marcus! A tropa partiu rapidamente. Desapareceram na noite.- Acendamos incenso – disse eu para os amigos – escolhamos os de madeiras resinosas egomas; não haverá presença de sangue ali. Fomos testemunha de uma noite sagrada.- Você acha que devemos retornar para a estalagem? – perguntou LaCordaire.- Não. É melhor que continuemos nossa estrada. Ninguém entenderia e não teríamos oque explicar. Caros amigos, anotemos. Pietro, abre o livro e escreve essas minhacitações. São conclusões. Podem ser manifestações. Pietro tomou de folhas dobradas e um carvão que sempre trazia nos bolsos dealgodão.- Meu número é 11, como todos os números deles que são de nós. A Estrela de CincoPontas, com um Círculo no Meio, e o círculo é Vermelho. Minha cor é preta para o cego,mas o azul e o dourado são vistos por quem vê. Também eu tenho uma glória secretapara eles que me amam.- Ei! – disse Alexandrino, com ar de alegria e atenção positiva – parece aula de Alberto.Sorri e continuei:- Mas amar-me é melhor que todas as coisas: se sob as estrelas noturnas no deserto tupresentemente queimas meu incenso diante de mim, invocando-me com um coraçãopuro, e a chama da serpente ali, tu virás um pouco a deitar em meu seio. Por um beijo,tu então há de quer dar tudo; mas quem quer que dê uma partícula de pó, perderá tudonessa hora. Vós reunireis bens e provisões de mulheres e especiarias; vós vestireis ricasjóias; vós excedereis as nações da terra em esplendor e orgulho; mas sempre no amorde mim, e então vós vireis à minha alegria. Eu vos ordeno seriamente a vir diante demim num manto único e coberto com um rico adorno na cabeça. Eu vos amo! Eu anseiopor vós! Pálido ou purpúreo, velado ou voluptuoso, Eu, que sou todo prazer e púrpura, eembriaguez no sentido mais íntimo, vos desejo. Colocai as asas e elevai o esplendorenroscado dentro de vós: vinde a mim!- Esplêndido! Mas que conclusão se pode tirar?- Se você se prostrar a mim eu darei todo o reino da Terra. E a resposta é...?- Não!! – todos gritamos em alegria.- Bernard que me perdoe, mas, a manifestação de Nuit está por um fio – eu disse. Arregaçamos nossas mangas. O sol não tardaria. Vimos que os montes sepintaram de vermelho e pássaros entoaram suas ladainhas matinais. A madrugadaanilada se erguia como um palácio. Lá, bem longe, uma grande poeirada se erguia na Coelho De Moraes 19
  20. 20. MARCUS, o imortal estrada, atrás dos montes. Eram os soldados de Bernard em desenfreada correria. Sem mais demoras reentramos na gruta. Era nossa vez, agora. OPUS 11 Vasculhamos inteiramente os recônditos das cavernas e nada encontramos a não ser roupa velha, escudos e tochas apagadas. O cheiro péssimo ainda perdurava por ali. - Ouçam, amigos, que são pessoas de visão! – disse eu, enquanto ouvia minha voz ecoar nas solidões da gruta – Há, aqui, muita pena de dor e remorso. São eventos para mortos e para quem está morrendo. - Por que diz isso, Marcus? – perguntava LaCordaire. - Estas são mortas, estas pessoas; elas não sentem. Nós não somos nem existimos para o pobre e triste: os senhores da terra são nossos parentes. Aquela procissão de mortos sinaliza para guerras e combates sem fim. Sinaliza para doenças e desavenças. É de se perguntar: Deve um Deus viver num cão? Não! Eles se regozijarão, nossos escolhidos: quem se lamenta, infelizmente, não é nosso. - O que será nosso, então? – gritou Alexandrino, com um leve tremor na voz, angustiado pela expectativa.- Beleza e força, gargalhada e langor delicioso, força e fogo são nossos– respondi prontamente, não sem refletir vagamente sobre as alianças que o mundo visível fazia com o mundo invisível. - Nós nada temos com o proscrito e com o incapaz – falou Pietro, como que ameaçando as entidades espirituais com sua voz estentórea. - Que eles, nossos perseguidores, morram em sua miséria. Pois eles não sentem. Compaixão é o vício dos reis: pisa sobre o desgraçado e o fraco: Felipe V está se desfazendo em vícios. - Mas a lei do forte está conosco, Pietro: esta é a nossa lei e a alegria do mundo. O corpo do Rei deve dissolver-se, ele permanecerá em puro êxtase para sempre se for possível e terá de morrer. Conclamemos agora. Ajoelhem-se, amigos. Todos começamos a ecoar cânticos e novas elegias com as palavras: Nuit! Hadit! Ra-Hoor-Khuit! O Sol, Força e Visão, Luz, para os servidores da Estrela e da Serpente. Das águas a borbulha se fez presente. A caverna pareceu mergulhar em sombras densas para, em segundos, reanimar-se em neblinas doces e a cheiro de malva e incensos. Do centro do lago uma cabeça de mulher, como a da ruiva, apareceu e falou, se apresentando: - Eu sou a Serpente que dá Conhecimento e Deleite e glória brilhante. Nossos corações se animaram com embriaguez. Ela continuou: - Para me adorar, tomai vinho e drogas estranhas das quais Eu direi ao meu profeta, e embebedai-vos deles. Nesse momento, lembrei-me de Bernard com sua caneca de vinho quente. Eles não se feriram em nada. A mulher estava em êxtase e continuava: - A exposição de inocência é uma mentira. Sejam fortes, ó homens! desejem, aproveitem todas as cousas de sentido e êxtase: não temais que Deus algum vos negue por isto. - Vejam! – gritei - estes são graves mistérios; pois há também amigos meus que são eremitas. Agora, será difícil encontrá-los na floresta ou na montanha; certamente o faremos em camas de púrpura, acariciados por magníficas bestas de mulheres com extensos membros, e fogo e luz em seus olhos, e massas de cabelos em chamas em volta delas: é lá que os encontraremos. Encontraremos esses amigos e rebeldes no governo, em exércitos vitoriosos, como é o caso de Bernard de Claivaux. - Cuidado para que um não force ao outro, Rei contra Rei! – ela disse em alto brado. Amai-vos uns aos outros, com corações ardentes; nos homens baixos, pisai no violento ardor de vosso orgulho, no dia da vossa ira. Vós sois contra os monarcas, Ó meus escolhidos! Eu sou a secreta Serpente enroscada a ponto de saltar. Se eu levanto minha cabeça, Eu e minha Nuit somos um. Se eu abaixo minha cabeça e lanço veneno, então há êxtase na terra, e eu e a terra somos um. Mas vós, escolhidos, levantai e acordai! Das águas surgiram colunas brilhantes. Muita água levantou de seu leito e escorreu molhando nossos pés. Harmonias sonoras sempre se prontificaram a ecoar pelos ambientes, ornamentando as vontades sacramentais. Muita vez nos entreolhamos paralisados pela magnificência dos brilhos purpúreos. Trombetas silenciosas ressoaram, sem alarido, mas com magnífica harmonia, com timbres cálidos e tranqüilizantes. Música e ardores da alma sempre estiveram juntos. - Que os rituais sejam corretamente executados com alegria e beleza! Há rituais dos Coelho De Moraes 20
  21. 21. MARCUS, o imortalelementos e festas das estações. Chamem o povo para uma festa... Uma festa para aprimeira noite do Profeta e sua Noiva! Anotem que eu quero uma festa para os três diasda escritura do Livro da Lei. Entendam que eu desejo outra festa... uma festa para oSupremo Ritual, e uma festa para o Equinócio dos Deuses. Ouvindo tudo aquilo, Pietro passou a escrever em seus papéis estudantis, rápido,valendo-se da experiência de escriba. O que ele havia perdido contava lembrar após,apoiando-se na memória dos amigos.- Uma festa para o fogo e uma festa para a água; uma festa para a vida e uma festamaior para a morte! Há morte para os cães. Não te apiedes dos caídos! Eu nunca osconheci. Eu não sou para eles. Eu não consolo: Eu odeio o consolado e o consolador. Eusou única e conquistadora. Eu não sou dos escravos que perecem. Sejam eles danados emortos! Amém. Repentinamente, um azul resplandeceu sobre ela e contrastou bravamente comseus cabelos avermelhados, tornados em tijolo vivo, e havia ouro na luz daquela noiva:mas o fulgor vermelho estava maior em seus olhos; eu via reluzentes lentejoulas, entrepúrpura e verde, coruscando na superfície de sua pele.- Púrpura além da púrpura: esta é a luz mais alta que a visão – disse eu, embevecidoante a visão da mulher.- Há um véu: e esse véu é negro – disse LaCordaire, sempre ressabiado. Mas seguiu emsua explanação, em sua especulação sobre o que via e ouvia: - É o véu da mulhermodesta; é o véu da lamentação e o pano da morte: nada disto parece ser dela.- Arranca esse espectro mentiroso dos séculos – gritou Alexandrino: - Não esconda osvícios do mundo em palavras virtuosas.- Estes vícios são meu serviço – disse ela, bruscamente saindo do transe, olhando paraAlexandrino - Vós fazeis bem, e Eu vos recompensarei aqui e para o futuro. Atenta poisreceberá a visita de súcubos. Então ela se virou para mim e sua conduta se tornou lânguida, porém mepareceu honesta, gentil e solidária:- Não temas, ó profeta, quando estas palavras forem ditas, tu não ficarás triste. Tu ésenfaticamente meu escolhido: e abençoados são os olhos sobre os quais tu olhares comalegria. Mas eu te esconderei sob uma máscara de tristeza: aqueles que te olharemtemerão que tu sejas caído: mas Eu te ergo – ela levantou os braços – Eiu te erguereidurante séculos. De repente, ela ergueu os braços ainda além e pássaros cristalinos voaram pelaabóbada da gruta em gorjeios inusitados. Ela gritava para pessoas que estivessem além,como se se tratasse de mensagem que devesse atravessar véus: - Ide embora! Todos,zombadores; apesar de vós rides em minha honra, vós não rireis longamente: então,quando vós estiverdes tristes, sabei que eu vos abandonei. Os pássaros gritavam muito e os ecos retornavam como cachoeira. Enquanto elavoltava para o seio do lago, imersa em uma labareda que rasgava os espaços, eu e oscompanheiros de jornada nos dirigimos, entre as pedras, para a abertura da gruta.Exaustos nos deitamos na relva coberta de orvalho. Havia muito que pensar sobre aexperiência da manhã. No entanto era fácil concluir que havia uma conspiração quepermeava as dimensões do espaço. Gente normal, vislumbradores, entidades variadas eseres inadmissíveis ao conceito humano teciam relações para uma ação na superfície daTerra, na superfície visível da vida.- Sim! não acredito em mudanças – eu falei, após alguns instantes - Os reis da terraserão Reis para sempre: os escravos servirão. Tenho para mim que ninguém há que seráderrubado ou levantado. Tudo prevalecerá como sempre foi.- Porém, há mascarados que serão servidores – LaCordaire disse, entre haustos egrandes respirações - Pode ser que um mendigo qualquer seja um Rei. Um Rei podeescolher sua vestimenta como ele quiser: não há teste certo: mas um mendigo não podeesconder sua pobreza.- Cuidado – foi a vez de Pietro de Ferrara. Todo o cuidado é pouquíssimo, então. Asrelações com as pessoas levarão a cuidados extremos. Quem sabe se, por acaso, não háum Rei escondido? Quem sabe mesmo entre nós?- Você fala assim, de brincadeira? - perguntou Alexandrino - Se qualquer um de nós éum Rei, ninguém poderá feri-lo.- Portanto, golpeia duro e baixo – LaCordaire afirmou, sem antes limpar o suor do rosto.- Você está cansado, LaCordaire... estamos todos cansados – falei – e, devo dizer que na Coelho De Moraes 21
  22. 22. MARCUS, o imortalvoluptuosa plenitude da inspiração; a expiração é mais doce que a morte, mais rápida erisonha que uma carícia do próprio verme do Inferno! Pietro! por enquanto escreve... émelhor escrever palavras doces para os Reis! Seja quem for.- É! Tem razão – ele respondeu - Há ajuda e esperança em outros encantos. ASabedoria de Alberto diz que devemos ser fortes! Podemos agüentar ardores de alegria.Podemos refinar os êxtases! Mas é preciso exceder! Exceder! O encontro final serásempre com a Morte.- Com a Morte?! – perguntei.- Sim! A Morte! Morte! Você desejará ardentemente a morte. Mas a Morte será proibidapara você. Quando ele terminou, olhei e vi que estavam dormindo, ressonando e isso medeixou em estado de alerta pois acreditava piamente que era a voz de Pietro que dizia asúltimas frases. Ele falara claramrne mas já não estava entre nós. Alguém falara por ele.Mas eles não estavam presentes. Cansados, dormiam a sono solto. Fui para perto dePietro de Ferrara e peguei seus apontamentos. Ali se escrevia claramente: “4 6 3 8 AB K 2 4 A L G M O R 3 Y X 2 4 8 9 R P S T O V A L” uma sucessão de letras e números.“O que significa isto?”, perguntei-me e pus-me a folhear as anotações. Encontrei dadosinteressantes, mas nada do que a mulher falara no lago. O texto era outro e dizia:“Levanta-te, pois nenhum há parecido a ti entre os homens ou Deuses! Levanta-te, ómeu profeta, tua estatura ultrapassará as estrelas. Eles adorarão o teu nome, quadrado,místico, maravilhoso, o número do homem; e o nome de tua casa 418. O final doesconder de Hadit; e bênção & adoração ao profeta da amável Estrela!” Claro estava que muito daquilo era incompreensível, se bem que eu me lembravade que a mulher ruiva chamou Bernard de profeta, também. Todo aquele texto secretome parecia digno de observação e terminava com as palavras “Abrahadabra; arecompensa de Ra Hoor Khut é vossa.” Abrahadabra sempre foi uma palavra para destruição.OPUS 12 Quatro meses se passavam, entrávamos no novo ano. As primeiras notícias, emjaneiro, que chegavam de longe, contavam histórias de duas hostes de guerreirosdesabalados pelos montes e charnecas. Uma das hostes exalava um pesado fedor poronde passava e acreditavam os povos que se tratavam de mortos ambulantes, incluindosuas montarias. A outra trazia em grita absurda pelos vales o nome de Calatin, quetambém chamavam irmão do Cão. Víbora. Assassino. Tinha a fama de invadir povoados edestruir tudo, levando as mulheres para prostituir e os garotos para a escravidão. Commensageiros e outros auxílios tivemos a oportunidade de saber que Tomás estava emAquino, na casa paterna. Para lá fomos, então. Foi com ânimo redobrado e imensaalegria que o encontramos a ler, após sermos atendidos por seus serviçais e seusparentes. Tomás abriu os braços e nos recebeu a todos de uma única vez.- Que Deus esteja com todos vocês, meus caros. Discípulos de Alberto são meus irmãos.Como foram de viagem? As primeiras palavras transcorreram leves, nos apresentamos, falamos dasúltimas experiências; Tomás nos instou ao descanso e na manhã seguinte, após asorações obrigatórias junto a seus parentes, Tomás nos recebeu na biblioteca. A famíliade barões tinha interesse na cultura sagrada e profana e ficamos abismados com asobras, manuscritas por doutos de todos os tempos, expostas nas fortes armações demadeira que eram as estantes da sala. Um pequeno fogo aquecia o ambiente.- Então os senhores não sabem onde o mestre se encontra? – ele perguntou.- Sim! É correto. Os braços da Santa Inquisição parecem se ampliar a cada dia. Dessavez o alvo foi a Universidade de Paris, onde você estudou – respondi.- Onde tive a oportunidade de conhecer mestre Alberto.- Mas há notícias de que ele saiu de Erfurt na direção de Colônia. Lá ele ensina e fundaclasses.- Sei que os tempos estão mudados – disse Aquino - quando estudava em Paris ogrande problema era Aristóteles, de cujo ensinamento setores da Igreja tentavam nosafastar.- Mas o nobre Tomás – dizia Pietro – também foi vítima de certa perseguição.- Sim. Os estudos sobre o conhecimento de Gregos e Árabes... um certo confronto comas posições Cristãs, o pensamento Aristotélico, enfim, trouxeram problemas, mesmo que Coelho De Moraes 22
  23. 23. MARCUS, o imortaleu fosse contra os averroístas, como realmente sou... Ou, melhor, tenho uma outravisão sobre os assuntos. Por isso estou aqui, em retiro na casa paterna.- E os Dominicanos?- Eles não sabem de nada e nada opinam. É raro ver um dominicano com um livro nasmãos. E minha idéia é me dedicar ao ensino. Aqui em Roccasecca eu posso ficartranqüilo e estudar mais. Alberto me deu graves incumbências e uma delas é destrincharas idéias sobre a existência e a bondade de Deus. A antiga contenda entre Fé e Razão.Estou dando do meu melhor sobre o assunto.- E você tem ponderado que...- Que não pode haver conflito algum entre Fé e Razão. – Tomás cortou a fala deAlexandrino – para Santo Anselmo... – e Tomás tomou fôlego levando o olhar para o céuque via através da janela imensa – ... para Santo Anselmo, Deus é perfeito e deveria tercomo um de seus perfeitos atributos o da existência. Mas eu discordo. Podemos definirDeus como ser perfeito, mas isso não implica sua existência.- Mas é uma definição... – disse Alexandrino.- Sim... mas uma definição é apenas uma idéia. E nada garante que uma idéia possaexistir na realidade.- Mas Aristóteles indica dizer que nada se move por si. E o mundo é dotado demovimento – afirmei.- Exato caro Marcus, por isso eu afirmo que a causa primeira é Deus. O mesmo raciocíniovale para a causa em geral, não acham? – respirando profundamente – no entanto euainda estou pensando sobre isso e... também sei que a via de pensamento de vocês é alinha velada que tanto interessava a mestre Alberto, não é mesmo? E...- ... você, como Dominicano, aceita isso sem questionar? – foi a impetuosa pergunta deLaCordaire.- Eu prefiro me calar. Os dominicanos são os que preservam os cânones e saem embusca de hereges. Eu não aceito isso. Há interesse de que essas ordens se enfronhemnas Universidades para que o papado tenha total controle das idéias...- No entanto nada disso adiantou. Pelo menos por ora... é só ver o próprio Tomás e vermestre Alberto Magno... – falei.- Mais ele… do que eu... com maiores problemas... e sempre perseguido... se mestreAlberto não fosse dominicano já estaria preso, essa é que é a verdade, caros amigos –disse Tomás – eu mesmo fui acusado por Boaventura de dialético. Ele dizia que eu eAlberto e outros prelados éramos do grupo dos dialéticos: “Especular primeiro, devoçãodepois” – todos rimos – e tudo por culpa do aristotelismo.- De acordo com o Boaventura – eu disse – filosofia e razão só se justificam comoitinerário da alma até Deus. À razão compete achar no mundo sensível os vestígios dasidéias perfeitas.- Quem sabe? Pode ser que esteja certo. Quem sabe?- Tomás – mudei o curso da conversa – por que os Dominicanos? Por que a vidareligiosa?- Bem, amigos – e ele nos fez sinal para nos sentarmos nas poltronas de couro – quandoeu tinha cinco anos meus pais me localizaram no Monastério beneditino em MonteCassino. Deixei esse Castelo de Roccasecca direto para os braços do meu tio, que eraabade, então.- Aí veio a guerra...- Sim... Monte Cassino se tornou palco de batalha entre as tropas imperiais e o exércitopapal. Minha família me fez chegar a Nápoles. Lá conheci os dominicanos. Houve umrompimento com minha família para me tornar frei. Depois disso, Paris.- E o encontro com Alberto.- Exato.OPUS 13 Passamos muito tempo no castelo de Roccasecca. Estudamos com Tomás evisitamos os estábulos da região. Tivemos acesso a livros importantes e a toda obra deAristóteles, inclusive aos livros proibidos pela Igreja, algumas obras salvas do incêndiopor Guilherme de Baskerville, e descansávamos das lides intelectuais colhendo frutos nospomares aldeãos. O período de meditação e confinamento a que nos restamos foi, emprimeiro lugar, em respeito à hospitalidade de Tomás e, em segundo momento, poropção para que nossas cabeças pudessem repassar os acontecimentos insólitos até Coelho De Moraes 23
  24. 24. MARCUS, o imortalaquele momento. Foi nesses momentos que a imagem de Sonja retornou ao meu espíritoe minha preocupação natural se avivou. Perguntei a Tomás da possibilidade de obter informações sobre ela. Ele prometeuque entraria em contato com uma série de mensageiros e amigos de outras paragens.Muita gente passava por Roccasecca, eu bem notei, e através desses viajantestentaríamos obter notícias.- Como eu disse – Aquino afirmava, tentando se esconder do sol daquela manhã sobuma macieira imponente,– a revelação Cristã e o conhecimento são facetas de umaverdade única. E não há conflito de uma com a outra.- Os seres humanos sabem alguma coisa quando a verdade é imediatamente evidente –eu dizia, argumentando claramente.- Claro. Mas essa verdade pode se fazer evidente se se apelar, imediatamente, paraverdades evidentes – ele replicava.- Acreditam em alguma verdade quando aceitam a verdade advinda de autoridades –dizia LaCordaire – e se esquecem da potencialidade individual de descobertas pessoais.Não acha?- Sim. Devo admitir que esse ousado pensamento tem seu valor, porém – fez uma pausacontundente – ele está excedendo os limites da nossa época.- Em outras palavras – entrava na conversa Pietro de Ferrara, que até aquele momentose limitara a comer as maçãs colhidas e tomar suas anotações – o pensamento heréticodeve ser impedido imediatamente. Não deve vir a público.- Sim. Cá entre nós, sim. Principalmente se vier de leigos ou estudiosos de ciências...digamos... misteriosas, com sabor secreto evidente... – Tomás completou – preocupaçãoque os amigos devem ter diariamente. A Fé religiosa é a aceitação das verdades advindasda revelação divina. Esse é o pensamento que vigora... claro é que Alberto terá milargumentos para contrapor a tudo isso... mesmo que dominicano. Aliás, o serdominicano permite que Alberto fale o que quer, por enquanto...- É como essa maçã que hoje você come, Pietro. Um dia ela tirou os humanos do Jardimdo Eden, hoje você se alimenta dela, inofensivamente, mas, amanhã, pode dar algumboa idéia para alguém... – falei.- Só se atingir a cabeça da pessoa – brincou Tomás.- A despeito do fato de que isso parece fazer com que o conhecimento e fé sejam doisreinos completamente diferentes... – Alexandrino retomou, curioso.- Sei que há coisas nas revelações divinas que podem ser conhecidas em sua essênciapelo vulgo... pelas pessoas comuns... assim, eu diria, serão “preâmbulos da fé”, incluindoa existência de Deus e de certos atributos seus.- Entrariam aí a imortalidade da alma humana e princípios morais? – perguntei.- Creio que sim...- E os princípios morais não teriam variação de povo para povo ou os cristãos seoutorgam autoridade máxima nessas questões de céu e almas e mensageiros dos céus?- Creio que sim... a primeira assertiva me parece correta, mas, saibam, eu vou defenderminha batina dominicana até o fim... em termos de idéias... é claro... mas sei quemouros e muçulmanos são também sábios e detêm uma parcela poderosa da sabedoriado mundo. No entanto... – Tomás aproveitou para sentar-se sobre um poderoso troncocaído às margens do riacho. Ao longe camponeses trabalhavam e enviaram um acenopara nosso grupo, ao que Tomás de Aquino respondeu, amável – ...no entanto, eu dizia,o resto daquilo tudo que foi revelado e está incompreensível até para nós estudiosos euchamarei de... “mistérios da fé”.- Por exemplo... – Alexandrino perguntou.- A Trindade, por exemplo. A encarnação de Deus em Jesus Cristo. A ressurreição eassim por diante.- Somente com o poder econômico e militar que a Igreja tem ela poderá enfiar isso nacabeça das pessoas, assim, sem mais nem menos – disse eu – e mesmo assim, levarámuito tempo para que esse tipo de idéias se torne algo natural. Encarnação de Deus emJesus? Isso é muito difícil de entender... me parece o velho uso de tomar sabedoria pagãe transforma-la em sabedoria cristã.- Claro. Por isso o chamo de “mistério da fé”. Ninguém entende, ninguém compreende...- Mas serve para que a igreja mantenha seu poder e seu braço forte – completouLaCordaire.- Temo dizer que você tem razão. Coelho De Moraes 24
  25. 25. MARCUS, o imortal Nisso, nossa atenção se deslocou para um serviçal da casa, como um mensageiroque se aproximava com cartas. Após os pedidos naturais de licença ele ofereceu a Tomásos papéis e se retirou. Após ler rapidamente do que se tratava Aquino disse:- Cartas do Grande Alberto.OPUS 14 “Quem é Alberto? Ele nascera em torno de 1200. Sua importância é capital, o que o livra de muitosproblemas com as esferas políticas. Tomás de Aquino é seu discípulo. Muita gente entrea Germânia , Espanha e França recebe ensinamentos de Alberto, o Grande. Eu, Marcusde Paris, humilde aluno, tenho esse privilégio. Todos nós temos. Pietro de Ferrara, quedeixou a família riquíssima para ganhar os caminhos da escolástica e mergulhar nosmisteriosos domínios do oculto. Alexandrino, o menor, jovem rebelde já muitas vezespreso pelas autoridades e torturado por defender a opção de liberdade de pensamento,após sua última fuga foi dominado por uma força surpreendente, até hoje inexplicável,que derrubou com os ombros as paredes da prisão em que se encontrava. LaCordaire,tranqüilo pensador, poderoso homem de armas, lutador excepcional que partiu dasmilícias parisienses por desobedecer a ordem dada para um massacre contra grupos dejudeus que habitavam a região da Campânia. Todos amigos e discípulos de AlbertoLúcius. Mestre Alberto é autoridade igualada a Aristóteles, conhecido no planeta inteirocomo Doutor do universal, por uns, e por outros como o Médico Universal, graças a seutrabalho em Ciências Naturais. Títulos que lhe vieram com o tempo. Na carta endereçada a Tomás ele relata que não sairá de Colônia. A questão dosestudos e dos ensinamentos ocultos está estimulando uma revolta por parte desegmentos da Igreja e lá ele se encontra em certa segurança. Ele sugere cuidados aTomás de Aquino e o convida para ir a Colônia. Alberto conta que desde seus estudos deArte em Pádua, quando se prontificou a entrar para a ordem dos Dominicanos nuncatinha sido objeto de tanta preocupação por parte das autoridades. Soube ele, sem atinarse a informação procedia, que grupamentos de clérigos incitaram camponeses à delaçãode pessoas que estivessem em contato com o sobrenatural. Queimaram gente nas praçaspúblicas. As milícias de segurança nada fizeram. Um medo se espalha pelas cidades daGermânia e isso já se torna um modelo. Uma noite desce sobre a Europa, diz ele. Alberto relata que em Colônia o respeitam com total propriedade. Tanto é queestá abrindo um centro de estudos e pede para que seus mais diletos alunos oacompanhem. Tomás de Aquino diz que Alberto fala em meu nome. Gostaria que euestivesse por perto. Diz que há um futuro alvissareiro para mim, se me mantiver noestudo das artes profundas. Ele ressente da falta de mentes abertas para que eleargumente e discuta sobre as mais recentes interpretações dos escritos Aristotélicos.Quer fazer isso antes que a Igreja proíba a leitura do mestre grego. Sabe que algunsprelados se movem e já proibiram a leitura de Platão e outros. Um obscurantismoproposital parece descer sobre todos”.- É isso – disse Tomás. - Parece que nosso mestre está com muito trabalho e precisa deajuda. Convido a que os senhores, nesta semana que entra, meditem amplamente sobreo que fazer. Eu tomei minha decisão e vou para Colônia. Os dias de descanso econtemplação se foram. Preciso beber na sabedoria do mestre Alberto, novamente, epara lá irei.- Faremos isso, Tomás – disse-o em nome dos amigos – Tomaremos esses últimos diaspara conversarmos sobre o assunto.- É claro que se quiserem permanecer aqui o castelo de Roccassecca ficará à disposição. Mas, não. Partimos todos. Tomás em direção da Germânia, levando cartasminhas a Alberto e eu, com os amigos, de volta a Paris, procurando Sonja e Bernard deClairvaux. Nas cartas que enviei para Alberto pedia explicação e luz sobre todos oseventos pelos quais passamos, mesmo que parecessem extraordinários e inacreditáveis.Pedia para que enviasse correspondência de reposta na direção de NotreDame, a igreja.OPUS 15 Em acordo com Burckhardt, as mulheres estavam em perfeita igualdade com oshomens. Nada mais equivocado. A desigualdade entre os sexos começava nonascimento. A maioria das crianças que eram abandonadas era do sexo feminino. Se não Coelho De Moraes 25

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