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NOVELAS INSPIRADAS EM BORGES E CORTAZAR AMBIENTADAS NO SUPRAMUNDO DO IMAGIUNARIO

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HISTORIAS DA ARCA DO VELHO

  1. 1. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO Direitos de Cópia para Cecília Bacci & Guilherme Giordano ceciliabaccibscm@yahoo.com.br menuraiz@hotmail.com editora ALTERNATIVAMENTE produtoresindependentes@yahoo.com.br Coleção BROCHURA / PDF / ESPIRAL download exclusivo em PÁGINA DE IDÉIAS www.paginadeideias.com.br Capa COELHO DE MORAES edição: 8 mil / distribuídos via mail coelhodemoraes@terra.com.br Cidade de Mococa São Paulo Março / 2010Coelho De Moraes 2
  2. 2. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO Para José Coelho De Moraes meu paiCoelho De Moraes 3
  3. 3. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO Palavra primeiraAs HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO são novelas confusas e defasadas nacronologia e na lógica, muitas vezes. Tentam um ar de Contos da Carochinha paraadultos e se impressionam com as arcas de memórias que são as lembranças denossos velhos familiares – nesse caso, meu pai de 90 e tantos anos de idade.A vida dele confluída numa memória única que quer ou sair ao mesmo tempo oudesaparecer em fatos e acontecimentos únicos.Muitos dos contos surgiram sobre reciclagem de peças e/ou contados tradicionais;outros foram de invencionice pura. Outros vieram do que meu pai falava lá noentendimento dele como bom memorialista e, ao seguir dos anos, as repetidashistórias, lembranças bagunçadas por ação da Alzheimer ou velhice pura (nem seise os médicos sabem realmente do que se trata). O fato é que o pai continuou aestimular a memória mesmo depois que a cronologia lhe fugiu; as regras dacivilização desapareceram sob um manto de esquecimento e de que os médicos, –ou seus medicamentos, - atuaram sobre ele. Vai saber...Tudo tem utilidade nessa co-autoria.A parte do leitor é o prazer de ler e corrigir. Sim. Trata-se da tal da interatividade.Corrijam os erros, enviem a errata, hifenizem, acentuem ou não... enfim, interajam....Assim, surgem as novelas retiradas da ARCA DO VELHO.Coelho De Moraes 4
  4. 4. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO RELATOS DE MATRIMONIO E PATRIMONIO (uma novela indomável)1) Era uma vez um mercador bastante pobre que tinha o dom defazer maus negócios por vários motivos seguidos e inapropriados. Um deles era ahonestidade, pois é sabido que uma pessoa para atingir os píncaros da riqueza temque, necessariamente, roubar. Não há rico que não tenha roubado, dizia o sábioAricanduva de Freitas, enquanto bebia gole sobre gole de chá mate com goiabadae, completava cuspinhando no chão do bar: - Se pensa que não roubou ou estámelindrado, basta ver o lucro que obteve perto da inflação e responda com cuidadode gente consciente, se não aproveitou que a inflação minava os bolsos (ele diz “osborso”) enquanto o mercador aumentava os preços das coisas. E, Aricanduva aindadava exemplos de especulação, que no meio mercantil era conhecida como“negócios” e era coisa certa e aceita por todos.Mas, dizia eu, o mercador da historia era pobre e amicíssimo do tal Aricanduva, seuconselheiro em assuntos de moral comerciaria, de modo a levar o amigo mercador àbancarrota em pouquíssimo tempo, o que deixou o mesmo mercador bastante feliz,uma vez que não roubara um tiquinho que fosse, apesar de sofrer constantesatentados dos outros mercadores e do próprio governo do seu país – aliás, principalcondutor dos negócios desonestos e dos ricos empresários que o apoiavam, osquais também representavam o papel de políticos, que também defendiamCoelho De Moraes 5
  5. 5. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOinteresses particulares, que também enganavam a população besta com chavões epalavreados mentirosos e viviam impunes, com garbo e chapa branca nosautomóveis.Tinha, o mercador honesto, duas filhas: Canarita e Chiamba (lê-se Quiamba, porfavor), obviamente, diferentes uma da outra, pois se assim não fosse as duas sechamariam Canarita, ou quem sabe (?), Chiamba, sendo que as duas seriam umasó, o que a Física não permite, já que não ocupavam o mesmo lugar no mesmoespaço ao mesmo tempo.2) Chiamba era bonita, inteligente, prendada, obediente, só falava palavrãoescondida no quarto, mesmo assim, com a cabeça enfiada num saco, com vergonhade si mesma, por descer tanto na escala da civilização e parecer com as mulhereschulas e inescrupulosas do burgo.Por outro lado, Canarita, que também era bonita, tinha certas prioridades: quandoqueria ficava feia, só de brincadeira e, isso acontecia muitas vezes, pois tinha ummau gênio – não o da garrafa, mas, o da personalidade individual, – repetidas faltasde educação que muitos relegaram a uma falta de memória e, era muitodesobediente, aproveitando o ensejo para xingar todo mundo e contar as maiscabeludas das piadas de salão de prostíbulo, de tal forma que nunca tinha aamizade de ninguém, exceto a de um papagaio que adorava suas piadas e asrepetia fora de ordem.Por isso, Chiamba possuía inúmeros admiradores; tarados todos para se casaremcom ela, levarem-na para casa, dormirem com ela, fazerem filhos nela, fazerem comque ela limpasse suas casas, suas roupas, limpassem o chão, desse de comer paraos inúmeros filhos; que ela ainda tivesse a honra de sentir o cheiro azedo dacerveja e do cigarro no mais afundado de suas camas de crina de cavalo, os quaiscavalos, mesmo não tendo entrado diretamente para a história, sairam perdendo,pois ficaram sem as crinas. Rá, rá, rá ...Mas, a pobre besta do pai, seguindo as normas da sociedade, só consentiria queChiamba se casasse após o casamento da mais velha, que era Canarita que, diga-se de passagem, nem pensava em tamanho disparate.3) Havia três sujeitos que estavam afinzões (se o distinto leitor me permite ainvencionice) de Chiamba e ficaram paus–da-vida quando souberam da arcaica lei;um absurdo que enfrentava a modernidade de Canarita e, enquanto o pobremercador se transformava em pobretão, os três possíveis noivos articulavammumunhas e traquinagens para, um dia, surrupiar Chiamba e casarem com ela, umavez que era muito difícil encontrar empregada igual na praça.O mais esperto era um tal Luzivaldo; um sujeito magro que quando tinha quinzeanos era muito mais baixo do que quando tinha vinte e um, o que lhe valeu aalcunha de Lulu – Rabicho, já que ele andava atrás das saias de mulheres e padres,sem deixar nada no olvido.Lulu–Rabicho, fazendo-se de professor de línguas, – a dele não parava dentro daboca, - foi levado à casa do pobretão mercador, que não tendo com o que pagar,dava-lhe quilos de batata e peixe salgado, enquanto o professor ensinava asfunções da língua para as moças.Havia um segundo, chamado Crebio, que se oferecia como jardineiro, trabalhandogratuitamente; o intuito era o de se aproximar da bela Chiamba, levando-lhe flores epoupadas de terra cobertas de estrume de boi com que cuidava das plantas.Coelho De Moraes 6
  6. 6. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOO terceiro era Mortencio, professor de música que se propôs a transformar asdonzelas (assim acreditavam), em primas–donas, o que seria muito interessante seas duas irmãs fossem as primeiras, caso a Física não aparecesse novamente paraimpedir que o absurdo se fizesse presente. Este Mortencio era o mais apaixonado.Várias e várias vezes eram vistos fazendo serenata sob a janela das garotas e nãopoucas vezes tomaram banhos de urina que o pobretão mercador (já então emcampos de pauperismo desenfreado), os presenteava, já nos confins da madrugada,tratando-se então de uma urina muito velha. Não por cantarem para as filhas, mas,por não permitirem que ele dormisse, esquecendo-se das dividas que seavolumavam.Chiamba não tinha preferência. Qualquer um serviria, o que nos dá uma idéia damentalidade da menina. A primeira impressão é a de uma garota fútil que só quer secasar, ter filhos, engordar e ver televisão se queixando das varizes, depositandotoda a culpa nos hormônios. Saberia ela que a mutação em monstro – fenômenoque ocorre com a maioria das mulheres com o passar do tempo, se dá por causa dorelaxamento e, não por uma conseqüência natural do envelhecimento?Canarita a aconselha a dormir com os três, não ao mesmo tempo, mas, se possívelna mesma noite, de modo a ter uma maneira de se decidir. Chiamba corre para oquarto, enfia o saco na cabeça e xinga a irmã.4) Então, chega ao burgo certo Perúquio, andarilho e vendedor de elásticos,presilhas, alfinetes, lixas para calo, xampus, fivelas, pedra-pome, não sendo carecanem tendo parentesco com o legendário Pinóquio.Perúquio era amigo de Mortencio, tendo já cantado juntos na grande cidade,fazendo a dupla “Saltimbancos das Estrelas”, sempre vestidos de jardineira echapéu de três bicos. Perúquio queria encontrar uma moça rica para se casar, porisso, Mortencio, mancomunado com Crebio e Luzivaldo, tentavam fazer com que oviajante e caixeiro, se decidisse a casar com a vulgar Canarita, sem que ele desseconta de que ela era uma quase mendiga. - Vocês não escutaram direito. Quero mulher rica, meus chapas!- Você é que é cego meu chapa, – Mortencio completava o dialogo edificante. – Já aviu de costa?- Realmente, é uma coisa que não me interessa.- Ô! – Gritaram os três possíveis noivos – Nem parece o velho Perúquio. Não seinteressa por mulher, chapa?- Vocês me entenderam, – afirmou categórico.- Vamos lá, – falavam ao mesmo tempo os três novos–patetas. - Conversemos como pai mercadorA palavra soou bem aos ouvidos de Perúquio e uma bem delineada sobrancelha seergueu.- Pai... Mercador?- Exatamente, - teriam dito os três, caso não baixassem e levantassem a cabeçainúmeras vezes, munida bocas de sorriso abobalhado e olhar de tatu com doença deChagas.Perúquio, então, concluiu, levantado o dedo:- Precisamos conhecer tal donzela.Os três riram às costas do outro, o contentão.Coelho De Moraes 7
  7. 7. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO5) Combinaram uma visita de Perúquio ao velho quase indigente mercadorque poria a sua melhor roupa; brindaria com uma cusparada os sapatos e esperariano alpendre.Perúquio apareceria, sobraçando fitas, dedais, grampos e placas de gumex, doandotudo como presente para a possível noiva. Os possíveis noivos de Chiambaestariam sob a janela, enquanto ela ouviria as melodias que lhe cantavam, piscandoos olhos para todos ao mesmo tempo, e sentindo úmidas as partes mucosas muitobem enterradas nas roupas de mulher pudica.Canarita, por sua vez, não recebera bem o possível noivo e muitas vezes deixou,segundo ela, sem querer, que um vaso caísse sobre os pés andarilhos dofamigerado Perúquio, o jovem que o pai mercador e pobretão perceberia ser umexemplar espécime que tomaria conta da moça, já que ele, com toda a devoçãopaterna não agüentava mais; pretendia vendê-la ao primeiro circo que aparecesseno burgo. Na falta do circo, o caixeiro – viajante.Bom... tudo isso aconteceu assim mesmo.Perúquio adivinhou no velho um usurário, sovina e malandrão que guardava tudo enão gastava nunca nada, deixando a família a passar fome, se bem que as formasbojudas e protuberantes de Canarita desmentiam a inanição. E, de olho nosalmofadados da moça, na bolsa alhures escondida, resolveu que se casaria nasemana entrante, mesmo Canarita não querendo, afinal, o que era ela se não umamulher... ou seja, nada; mulher não dá palpites. Só pensa que dá..., pensouPerúquio, cofiando o bigode basto.Os amigos exultaram. Mortencio, Crebio e Luzivaldo pularam de alegria e cantaram“Ultima Canção” para Chiamba, enquanto a noite chegava e o sereno da madrugadadescia devagar.6) Todo mundo foi convidado para o casamento, e, mesmo que não fossem,pelo menos os rapazes apareceriam para ver qual o trouxa que levaria para casa avassourinha da Canarita.Na festa encontramos de tudo. Toda a fauna de uma sociedade bem instituída: asgalinhas das senhoras que ditam a moral mutável de acordo com o mancebo quelhes aparecessem entre as cochas. Os advogados e juízes marmotas quevomitavam leis difíceis de cumprir, arrotando poemas para todos os lados. Osratazanas industriais e empresários que consumiam a vida de seus operários dando-lhe latas e geléias como bônus. Os abutres médicos donos de planos de saúde, queadoravam entranhas, que tomavam bebidinhas com papagaios, araras, periquitos,psitacídeos sociais em geral. Os loroteiros com PhD que se julgavam professores eensinavam modos e maneiras de bem copiar o raciocínio alheio. Enfim, umacambada de bichos profissionais que valorizavam a festa com suas opiniões lidasem revistas ou repetidas de livros lidos como quem vai ao banheiro depositar sub-produto no vaso privado de belo branco porcelânico.No entanto, Canarita apareceu toda desmazelada, falando enrolado como quembebeu. A verdade era que o cachimbo atrapalhava a parlatória; cabelosdesajeitados, roupas rotas e rosto pintado de qualquer jeito.Perúquio ficava louco de vida e falou que aquilo é um ultraje.- Isto é um ultraje!- E, você queria o que? Os três neo-patetas me atacaram lá no quarto enquanto eume vestia! – Disse ela.- Que patetas?Coelho De Moraes 8
  8. 8. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO- Os possíveis noivos de minha irmãzinha, que neste momento esta com a cabeçadentro do saco.- E, por que você não gritou, sua megera?- Porque eles ainda não tinham terminado, meu caro. Você acha que eu vou perdera chance das penetrações e rosnados, a troco de nada? Perúquio estrilou: - Como, a troco de nada? Por acaso eu sou nada? E, a resposta veio rápida: - Isso veremos após o casamento.O pai pobretão–miserável estava perplexo com o desenrolar dos acontecimentos,mas feliz, pois aquilo não era coisa que desse prejuízo. A festa já era paga pelavizinhança que daria tudo para ver o casamento da reles Canarita, abandalhada doscinco costados. E, gostaram, pois o espetáculo estava dos bons.Nesse momento desciam as escadas os três-neopatetas (possíveis noivos),dizendo que não queriam mais o casamento com a menina Chiamba, uma vez queela não retirava, de jeito nenhum, o saco da cabeça, limitando-se a dizer palavrõesde todos os tipos e variedades.Contudo, o pai paupérrimo explicou, e fez questão, que teriam que se casar com amais moça, já que ele, – pai obstinado, - agüentou noites e noites de uma cantoriachata pra cachorro; não ia, por mais nem por menos, permitir que a pequena filhaChiamba também ficasse frustrada por ouvir todas aquelas baboseiras em formamusical e agora a espiar navios saírem e entrarem na baía.Os três amigos, intimidados pelos vizinhos, tiraram par ou impar e a vitória acabourecaindo sobre Luzivaldo que começou, imediatamente, a chorar.Perúquio, que já chorava a um tempo, consolou o amigo. Caíram em uma arapuca enão havai maneira de escapar. Todos da cidade foram testemunhas e, o pior,testemunhas idôneas, pelo menos, lá entre eles.Crebio e Mortencio sairam de fininho, pela janela, levando alfenins, biscoitinhos degengibre, pedaços de bolo Xanxerê, pecan pies, gugelhupf, brioches, sayarin,churros, mufins, trufas de chocolate, ravióli doce, petit carré, rocamboles, pudimMolotoff, menchikof, bavarois e pedaços furtivos de torta klamotte, nos bolsos e nobojo do alaúde.7) Deu-se o duplo casamento e os convidados começaramdesesperadamente a rir, sem parar, das caras de bunda dos respectivos noivos queherdaram, sem mais o que reclamar, um culatrão daqueles, no que tangesse àpopular Canarita e uma donzela–de–candeeiro que, enquanto encabeçava sacospara não ver, amarrava das suas com as velas da casa, não vendo, enfiando aqui eali.Assim, amigos leitores, todos ficaram insatisfeitos com as núpcias, menos o paipobre e mercador falido que lucrou, enfim, não mais tendo que alimentar duasbocas; a vizinhança, então, lucrou demais, teve o seu quinhão de fofocas e motivospara comentário amplos e irrestritos, como convém um povo civilizado e moderno.Coelho De Moraes 9
  9. 9. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO PERIPÉCIAS ROCAMBOLESCAS DE OSÍRIS. (uma novela do cão)1) Osíris era um gato siamês que vivia entre ladeiras do bairro niteroiense doIngá, e, os muros das casas, porém, maior prazer não tirava se não aparecesseenfronhado em lençóis e braços de sua senhora-amiga–confidente. A particularidademaior, no entanto, estava no fato de que Osíris identificava-se como um gato oriundodo Sião, das terrosas áreas do Entre–Rios, de requintado gosto judaico, apesar donome divino e egípcio. Era muito chegado a mordomias, como se ainda acostumadoa perambular pelos antigos palácios de Tebas ou Karnac, lado a lado a Faraó, ouentão, pelos luxuosos salões de propriedades dos Tetrarcas de Galiléia, antes dainvasão dos Romanos, se ainda fosse possível. Osíris sonhava com tudo isso, comoa relembrar uma de suas vidas.Mas, na realidade, Osíris tinha que se conformar com os muros das ruas sujas deNiterói, bem como os braços pegajosos de sua eternamente–deleitosa–transtornadamãe artificial e, de vez em quando cair de lambidas sobre sua paixão: a Gata Kristh,de origem germânica, apesar de inocente em Nuremberg, mas, evidentemente,causadora de dissabores e alguns trissabores ao nosso herói, como veremos notranscurso da história.2) Nesta aventura aparecerão uns cães de má índole que moravam naresidência ao lado. Várias vezes foram observadas por Osíris. Da mesma forma, ostrês dálmatas olhavam o passeio do felino, como um gatuno, sobre os muros, compassadas leves que deixavam a platéia canina em polvorosa. Latidos e ranger dedentes eram o que mais se ouvia por aquelas plagas, mas, o gato, nem ai. Osírisnem se dava ao luxo de olhar a azáfama no meio da cachorrada pintalgada de pretoCoelho De Moraes 10
  10. 10. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOaos rés do solo, se bem que prestasse atenção no caso de novidades ímpares comobocas cheias de dentes que muito se aproximassem. Passava e ia pisando pelica,sobre as almofadinhas de suas patas; quando muito, parava para dar uma lambidana cauda, arrumar os bigodes; em seguida retornava o caminho que o levaria paraos pelos de Kristh, a bichana.Muita gente pediu para que não se contasse o tal segredo, mas, o escritor emquestão não pode privar os leitores das verdades que se propõe a contar. E, osegredo escondia, por sua vez, o seguinte: “Havia no bairro muitos outros gatos osquais se dispunham a cortejar Kristh felpuda, que não lhes dava corda para tanto.Ela estava caída pela elegância, pelas cores, pela origem e descendência do gatoOsíris” - consta que ele tinha lá seus arvoredos genealógicos: toda linhagem desdeTutmés II até os dias atuais, quando suas tribos tiveram que escapar do cão nazista,ou seja, um certo pastor alemão que alvoroçou a Germânia), enfim, o que sabe aocerto é que uma horda de felinos inamistosos percebeu que só teriam a Gata Kristhcaso Osíris falecesse e, para abreviar o caminho até a pulverização do gato odiado,os inimigos contrataram os serviços – olhe e atemorize-se, caro leitor! Pasme! Atéonde pode ir a animalidade! – e, eu dizia, contratou os desatinados serviços de umcanil cheinho de cães, é óbvio, mas, daqueles que comem até o osso do vizinho e,não digo o osso da alimentação, mas, o da perna mesmo, tamanha a ruindade.Por motivos de pura inveja e recalque, Osíris viu-se em palpos de aranha, se bemque aranha mesmo não houvesse uma, mas tal é o que se ganha quando se utilizaexpressão idiomática num texto. Subia ele a Rua Presidente Pedreira, voltando doescandaloso namoro, ainda lambendo os beiços e se arrepiando de vez em quandocom as lembranças, quando se viu cara a caras. A sua cara de gato olhavafixamente as caras de nada menos do que doze cães, que o observavamatentamente. De cima do muro, o sorriso escarninho dos inimigos. Da frincha doportão de madeira, o riso maroto dos dálmatas que adivinhavam e se divertiam como perigo que Osíris corria. Da janela, o pranto copioso de sua senhora-adorada-emudecida-lacimosa, assobiando cantigas de ninar enquanto o pranto derreava emborbotões... brotava a cântaros. Mais atrás, em sua casa, já alimentada, preparando-se para dormir, pensando oniricamente em Osíris e futuros gatinhos, a pequenaKristh pressentiu que algo não ia bem.Osíris percebeu que só um milagre o colocaria fora das mandíbulas destruidorasdaqueles irascíveis mercenários e, foi com os nervos à flor da pele que ele esperoupelo pior.3) Os anais não garantem se foi pior, ou melhor, mas, o fato é que não se sabecomo, nem se a aparição era terrestre ou não, no entanto, a aparição apareceu. Ummilagre... um Ser... Um alienígena... veio, caminhando, à medida que os doentiosolhos dos cães foram se abrindo desmesuradas! O sombrio ser se aproximava e, oscães o temiam, e ele vinha, dormindo ou acordado (era difícil de saber), se emestado sonambúlico (aparentemente), se bem que muita gente dizia, as más línguas,que não havia diferença entre a vigília e o sono para tal ser. As boas concordavamcom o argumento. Surgiu das trevas da noite, para a salvação de Osíris, paradesrespeito dos felinos traidores, para horror do mastim venal, eis (!) que surgiu oLeviatã adormecido, o gigante tépido, muito mais conhecido como Anselmo,candidato consorte da Tetê, que muitas vezes se fazia passar pela irmã daextasiada-edípica-electra-amantíssima-mãe do gato herói, como já sabemos. “Ah! Felicidade. Onde estás que não te vejo?” Juro que tais foram ospensamentos que passaram pela mente arguta do gato. Num triz ele zarpou pelaCoelho De Moraes 11
  11. 11. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOrua, pulando montículos de barro e crateras de asfalto, para finalmente sorver ooxigênio puro à janela do apartamento de um casal muito simpático e amigo quemorava na rua perpendicular. Como que agradecido pela presença, pelo menos emespírito, do Leviatã, Osíris desejou dar-lhe algumas lambidas e pôs-se a contarestrelas, enquanto tal momento não chegava. É escusado dizer que a cachorrada desapareceu na noite, ganindo horrorizada,fato que ratificava, sem intenção de enfiar qualquer rato na história, mas, sim nosentido de garantir a lenda popular de que os cães têm uma sensibilidade bastanteapurada, de modo que podem sentir vibrações, energias e fantasmagorias diversasno recôndito das trevas e dos corpos dos seres, coisa que para o humano não passade invencionice de quem é portador de terrível deformidade mental. Podemos atéaventar a hipótese de que teriam, os cães, identificado na criatura Anselmo umascendente, o qual superior e sábio viesse para os punir. Nunca se saberá. Mas apreocupação maior, sim, e, era necessário, muita cautela, cuidados, visto que osfelinos logrados, ao mesmo tempo que bradavam contra os quadrúpedes fujões esuas mães prediletas, já arquitetavam a desforra, com sutis imagens da violência.3) A história poderia parar por aqui, livrando o leitor insigne de conhecimentosatrozes. Mas, de que vale o poder e a iniciativa de escrever, se não se conta tudo?Não posso favorecer o leitor mais fraco evitando os acontecimentos agros, emdetrimento da verdade. Custando o que custasse, eis a verdade, fria e crua, como seme apareceu.Osíris, descuidado como um animal felino, enquanto tentava pegar uma borboletaamarela no jardim, não percebeu a origem dos psius e psilius. Não percebeu quequem fazia psiu-psiu, era um dos dálmatas. Ora, junte-se um pouco de curiosidadede gatuno ao descuido e temos o desastre. Osíris foi ver o que era. Saltou sobre omuro e sorriu. Lá embaixo, numa bela clareira no meio do jardim do vizinho, haviauma aglomeração que foi facilmente identificada como um congresso ou simpósioentre artrópodes. Sim. Com jeito era possível perceber que, se não fosse invasão deinsetos de Urano, com certeza tratar-se-ia do desfile anual das Taturanas; era umadas coisas que deixava Osíris bastante embevecido, sempre esperançoso de quealgum dia tivesse a honra de ver o nascimento de taturanas sem aquele horrívelmanto ardente, inibidor de abocanhações e similares ações. Ingênuo, pulou e juntouas patinhas, olhando o grupamento ali parado.Parado. Realmente parados. Taturanas, Taturanões, Taturaltos e outros daparentalha, não se moviam! “Algo estranho por estas bandas”, pensou Osíris. A suacabeça dava tratos e permitia que as orelhas tentassem captar sons suspeitos. ”Nãoestou gostan...”TABÉFE!!Tabefe foi o barulho que fez apenas uma patolada e, o pequeno gato foi parar contrao muro, para ele o das lamentações, deixando uns pelos colados na parede caiada.Estava tonto. Não notara que fora uma cilada. E, olha que não despregava os olhosda televisão. Devia conhecer todos os truques.Os três dálmatas – Cão, Canicho e Canaz, – armaram uma arapuca onde o heróicaiu como um passarinho, para ficar mais irônico. Enquanto se erguia, ou pelomenos tentava, pensou nas taturanas que serviram de isca para a captura, mas, nãoteve tempo de terminar o pensamento... TABÉFE! Outra bofeteada bem dada fez ogato rodopiar mil vezes ao som das gargalhadas incessantes dos dálmatas e dosgatos, funâmbulos, sobre o muro.Coelho De Moraes 12
  12. 12. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOCanaz caiu de mordidas sobre o pêlo brilhante de Osíris, o qual pêlo, em poucossegundos ficou empapado de vermelho. Cão, o do meio, seguindo as pegadas doirmão mais velho, puxou Osíris usando as orelhas do gato, girando-o no ar, para emseguida largá-lo e vê-lo cair sobre o tanque de lavar roupa, previamente preparadocom sal, aguarrás e soda caustica. Osíris não sabia nadar e, enquanto se afogava,como é de praxe nestas circunstancias de desencarne, tudo o que foi vivido passoupelos pensamentos de Osíris, pesando seus erros e correções, rememorando osdias e as noites, suas ações e miadas, seus saltos mal dados e seus namorosimorais; memorava os inúmeros filhotes espalhados pela vizinhança e orou para queo deus gato, o Felis catus maximus, pedindo para os seus inimigos não sevingassem nos petizes. Apesar da flagrante exteriorização de bondade, Osíris fez achantagem usual; barganha cósmica; suplicava pela vida (na sua conta aindafaltavam três, das sete) em troca do que, ele mudaria de conduta, diria preces para alua todas as quintas-feiras; a lua, mãe dos poetas e lunáticos, dos notívagos evagamundos, clareava as noites e não deixava que Osíris enfiasse a pata em telhassoltas.Mas, os cães não pretendiam vê-lo afogado, pelo menos, por enquanto.Canicho, o caçulinha e, diziam, o pior dos três pois estava na fase de auto-afirmação, pescou, por assim dizer, Osíris do tanque antes que esse pudesseperceber o gosto do Terebinto e, enquanto enchia-o de palmadas e pequenasmordidelas só para treinar, carregava-o para os lados de um formigueiro, sob aovação da gataria inimiga, platéia, sobre o muro.Era um formigueiro de saúvas graúdas, sob umas pedras pintadas de branco. Ointeresse de Canicho, no entanto, não eram as formigas, mas, as pedras. Umaspontudas, outras rombudas. Sua intenção era, definitivamente, acabar com abrincadeira e calcar uma pedrada na cachola do gato. Osíris percebeu e foi comdesespero que lutou sua última batalha.Os gatos inimigos o vaiavam.Retirando, porém, energias suficientes para ser considerado o Gato do Ano, Osíriscrispara os dedos das patinhas, arrepiou os pêlos, contraiu a musculatura, riscou oar com suas unhas afiadas e, num movimento convulsivo, rabiscou a cara de todosos cachorros que apareceram na sua frente. Havia três, mas Osíris, à essa altura docampeonato já via uns quinze.A platéia estatificou-se. Era impossível que ainda se salvasse aquele biltre! Se nãofossem inimigos até aplaudiriam o arroubo! Depois de tanto apanhar ainda reuniaforças para a luta! Gatuno!Osíris, sem perder sua constante ingenuidade, subindo pelo muro com loucuraselvagem, estendeu as patas para os gatos que o olhavam lá do alto, supondo que aespécie falasse mais profundamente no coração. Contudo, a única coisa que fizeramfoi segurarem suas patas apenas o tempo suficiente para Osíris perder o pique daarrancada. Após, uma bela chacota, largaram o herói dentro da boca de Canaz, quenão perdeu mais tempo e o mastigou, assim como quem não quer nada.Mas, parecia, a divindade estava ao lado, imensamente protetora. Os pródigossempre serão exaltados e os destruídos serão... destituídos. No alto, sobre o peitoralda janela, fazendo menção de pular, a modos de quem limpa vidraça, uma sublimevisão! No momento em que Canaz se preparava para a segunda mastigada, tendoaberto a boca ao máximo, com olhos voltados para o céu, saboreando o manjar comprazer inaudito... Vê... Sim, ele vê... Vê e para... seus irmãos acompanham seusolhos medrosos... Osíris cai-lhe da boca que não mais se fecha e sai,manquitolando, com as patas nos quadris. Bem sabem que os cães pararam porqueCoelho De Moraes 13
  13. 13. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOa excelsa criatura enviada por Felis catus maximus, o Leviatã adormecido, não lhessaia da pupila canina de cada um. O horror chegara aos três dálmatas que se nãosabiam se fugiam ou se prostravam ali mesmo, em adoração ao deus supremo - ouàquilo que julgaram ser a deidade máxima, que perambulava a esmo, batendo acabeça numa e noutra parede.E, é no atônito da cena, sob o olhar boquiaberto dos gatos inimigos que Osírisescorregou, indo para longe, esconder seu corpo alquebrado e mal tratado, numdesses socavões de terreno, somente conhecido por ele e Kristh.Afinal, o que levou essa turba de felinos a odiá-lo? Uma única resposta é esperada.O amor integral de Kristh, votado totalmente ao nosso herói. A gata ronronante, depêlos longos e sedosos... Kristh com a boca cheirando a sardinha... Kristh daslambidas úmidas e movediças... Kristh dos encontros fortuitos e noitadas festivas.Kristh dos bigodes sensíveis e dos abraços que o aga(ta)rravam fortemente... Kristhbela... Num último pensamento Osíris quase sucumbe... “Kristh, querida Kristh...(com as patas erguidas) Não tome todo o leite...”, e, desfalece.5) De fato, Kristh foi encontrá-lo pela manhã, e lá estava o gato no buraco,gemendo de imensas dores ferinas. Rapidamente, com ajuda de amigos, Kristhlevou-o para junto de sua senhora-mãe-eternecida-protetora já por nós conhecida.Contar o sentimento profundo e a sensação pungente que atracou, esta é bem apalavra, na alma da mãe adotiva de Osíris é impossível. Podemos dizer que váriasbaldes de plástico, usados em limpeza, não poucos, foram completos até a boca sócom o pranto cascateante vertido pela mãe-adorada-importuna-repressora, porocasião do encontro ao mesmo tempo terno e doloroso. Não se sabia sobre agravidade do estado do animalejo infeliz. Era necessário que um douto fossechamado para as devidas consultas.Assim foi. Apesar disso, Osíris foi perdendo, lentamente, e de certa forma, fácies deenfermo do corpo para ganhar, aos poucos, um semblante de enfermo da mente.Para a materna-suplicante-ensinesmada-pranteante, isso não podia ser, afinal, é doconhecimento de todos que o chamado amor imenso e sublimado leva as pessoas ànão raciocinarem, ao mesmo tempo em que pensam ajudar, quando na verdadeatrapalham. E, ela, mãe-senhora-sublime-fervorosa, não acreditava, porconveniência própria também, que o bichano predileto estivesse abestalhado.Desculpe, leitor, mas eu diria, sucumbindo em seu estado psíquico. De moribundo aalienado, não havia escolha. Que se fizesse o desenlace vital, o trespasse destapara melhor o mais rápido possível, mas, louco (?), ela se perguntava, louco não (!),ela se respondia e, o caso ficava sem definição. Para a mãe, o fato de usar brincosno rabo (falo do gato), não era sinal de loucura, mas, talvez ele apenas estivesseassumindo uma postura moral diferente, apenas. Contudo ela percebia que tentar omenor contato com ele, Osíris se tornava arisco, apimentado, salobro ao extremo,evitando o relacionamento familiar e íntimo, de modo que a mãe permanecia com aspernas abertas à toa.Mesmo a namorada-amante, a macia Kristh, ficou desapontada ao notarmodificações no caráter do gato. Seu amor por ele não diminuiu, não morreu, éclaro, mas ela se preocupava; havia muitos gatos pelas redondezas, o que nãoseria de importância maior caso o período do cio não estivesse próximo.Osíris, medroso e estremecido, via dálmata por todo lado e não poucas vezestestemunhou-se brigas homéricas entre Osíris e a vassoura de pelos.Enquanto isso, a mãe-avassalada-insatisfeita, pensava que apenas seu rim (falo dogato) é que estava fora do lugar. Nem mesmo a presença do Leviatã adormecidoCoelho De Moraes 14
  14. 14. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOajudava na melhoria do felino. É bem verdade que as ataduras que enrolavam acabeça do Leviatã modificasse um pouco as suas feições; a cabeça totalmenteenfaixada e os óculos desequilibrados sobre os panos, de modo que o gatodificilmente reconheceria o seu salvador através dos óculos. É que o Leviatã caírada escada. Não tivesse o Leviatã caído da escada, numa das suas incursõesnoturnas e seria possível pensar em salvação para Osíris.Em poucos dias ficou demonstrada a traumatizante verdade de que Osíris penetraranos recônditos da psicose-maniaco-depressiva, – um bipolar de peso. Todosesperavam que de um momento pra o outro ocorresse o suicídio, principalmenteprofetizado pela mãe-abnegada-chorosa-lacrimejante, moradora da Rua MaestroRicardo Ferreira, cujo perfume favorito deveria aromatizar segundo o Musgo,domestico e selvagem, mas, que se fosse presente poderia ser qualquer um.6) Finalmente marcou-se o dia da consulta com um medico psicanalista de gatosque, por coincidência, visitava o Brasil, país dos gatos, gatunos, gaturamos, mãos–de–gato, para passar as férias de verão, que para ele eram de inverno.No começo o medico tentou se esgueirar, fugir da responsabilidade, copiando osnativos, dizendo que não entendia a língua do gato, uma vez que o paciente eramorador de terras tupiniquins desde muito tempo. Deixou perceber que tinha certaojeriza por gatos judeus, apesar do nome egípcio para confundir, já que ele, o taldoutor, era de origem teutônica e, não ficava bem cuidar de um de seusarquiinimigos de política e de raça. Por outro lado, o doutor Duerf, deixou bem claroque dissera tudo aquilo para que os jornais não propalassem que um Austríaco daMoravia havia se entendido com um israelita tropical e, ele não corresse perigo deuma vez voltando à sua terra se visse marginalizado, com reputação abaixo de zero,solidificada pela descoberta de que ele, Duerf, que estudou a muito custo em Viena,também era hebreu e, que na volta à sua terra natal o pau comeria.Mais tarde o renomado doutor confessou que adorava gatos siameses, no entantonão mudaria de idéia, por dinheiro nenhum.Mais tarde ainda disse que tinha dúzias de gatos em casa. De qualquer tipo e raça.Gostava de ficar respirando ácaros de pelos, quando os pelos se amontoavam emseu travesseiro e adentravam pelo nariz durante o sono. Concordou, por fim, emtratar do Osíris, mas exigiu rapadura e curau.Aceitou o caso e, no dia 23 de setembro, ano de 1983, o aloprado bichano foiconduzido para o apartamento do médico, sob todos os cuidados; narcotizado,amarrado com uma leve camiseta–de-força no estilo “vem cá, meu puto” e umaviseira, sob um belo capacete metálico de motociclista, para que seus inimigos não oreconhecessem, e, vice-versa.Para não prolongarmos a historia temos de fazer um sumario do tratamento aplicadoe as importantes conclusões deixadas pelo doutor Duerf Freiberg, retiradas do diáriodo médico.26 de setembro – o paciente continua arisco. Mas, foi possível ganhar um pouco dasua confiança no momento em que o coloquei frente a frente a meu fiel auxiliar vindoda Lapônia, o qual, não sei se vale dizer, parece um verdadeiro cão São Bernardo,cujo barrilzinho de conhaque esta representado pela própria barriga, que de vez emquando arrota. Fisiológico. Mas, ao vê-lo, Osíris acalma-se. Contudo faz dez horasque canta pirulito-que-bate-bate e ainda não parou.Coelho De Moraes 15
  15. 15. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO1 de outubro – o paciente sofreu melhora, uma vez que depositou suas produçõesorgânicas sobre o tapete do consultório, o que é muito natural. Ainda assim eleconfunde o bom auxiliar lapão e, é preciso muitas vezes retirar o auxiliar da gaiola,por três motivos: ter sido perseguido pelo paciente, a necessidade que tenho deseus serviços e, para que não acabe com meu estoque de queijo.2 de outubro – é domingo fui a praia. O lapão ficou tomando conta do bichano emtratamento. Quando saí os dois estavam trancados no banheiro escovando osdentes, o que me pareceu de bom alvitre. O tratamento seguia bem.2 de outubro – noite. Terrível desastre. Osíris quase afoga o auxiliar na banheira,depois de ter-lhe cortado a barba, a sobrancelha direita, os cabelos em níveloccipital, os cílios da parte de baixo, os pelos do ouvido, tudo isso usando uma lixade calos. Tentei desesperadamente fazer o auxiliar contar como aquilo tudoaconteceu, mas, só depois percebi que ele tinha um sabonete incrustado no larinx, oque explicava as bolhas que saiam do ouvido esquerdo da vitima. Não entendi osorriso sacana de Osíris.5 de outubro – o tratamento de choque não alterou a disposição do paciente... ébem verdade que um olho pisca alternado ao outro, mas, isso não interfere noprocesso de re/associação mental que tento empregar para a cura. Estou quasecerto que a histeria ora instalada é oriunda de um acometimento traumático ocorridono passado. Digo isso, pois o futuro ainda é desconhecido pela ciência. De outraforma eu diria que a causa ainda está para acontecer, porém os professores desintaxe e conjugação verbal me atacariam pelas costas; tamanha a complexidade docaso. Ainda não descobri porque o animal tem medo da geladeira.13 de outubro – à minha revelia o lapão carregou o Osíris para um banho de marpelas imediações. Na volta o auxiliar, sem perceber, trouxe um peixe na coleira quelevara o gato. Mandei-o de volta, preocupado e com uma leve ponta de irritação.Como explicar a perda do gato? O auxiliar trouxe de volta o peixe e retirou o gatofamigerado de dentro do peixe. Inconclusivo. No dia seguinte, à minha revelia,refizeram o passeio mas, quem veio na coleira foi o lapão... Não sei mais onde estaminha cabeça. Só espero que Adler não saiba desse episodio em minha vida. Achoque começarei com a hipnose imediatamente. Esse animal é impossível e, quantomais ele ficar desacordado, melhor. Marquei hora com um analista do Brasil paraque me reequilibre desta enfermidade tropical. Creio que foi a carambola.18 de outubro – cometi um erro. Deixei o auxiliar lapão dentro da mesma sala e apósalgumas horas de sessão com hipnose, em que já teria atingido a idade embrionáriado gato, o auxiliar iniciou uma série de miados em língua estranha. Joguei água friaem seu rosto, mas, ele continua se lambendo. Fazendo Osíris voltar ao estadonormal de vigília, o lapão também retornou, o que me levou a concluir que as duascriaturas são ligadas por associação sensitiva paranormal, que não é o meu campo.Ou o lapão ou o gato é um médium poderoso. Apesar de normal, o lapão continuairremovível em sua atitude de beber leite no pires, debaixo do fogão. Mais de umavez pude vê-lo retirando pulgas com a pata trasei... (desculpe), com o pé.25 de outubro – um mês de tratamento e Osíris já consegue receber carinhos semse exaltar e sem pular como se fosse de borracha. Da ultima vez, caiu no colo deCoelho De Moraes 16
  16. 16. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOuma senhora moradora do andar de cima, que tricotava, e, no fim, o gato me foradevolvido engastado em uma bonita blusa. Fiquei tentado a deixá-lo assim,confesso. A ética, no entanto, essa maldita consciência exterior, falou muito maisalto. Hoje porém, está muito melhor (falo do gato e não da ética). De vez em quandodá gargalhadas insuportáveis, mas, é só. O lapão não fora mais visto. Espero quetenha fugido, assim não preciso pagar seus honorários.29 de outubro – trabalho incessantemente. Utilizo o método da associação livre,desconfio e descubro alguns traumas causadores dos distúrbios. Tem fundopuramente sexual. Sexual reprimido, talvez. Pelo que pude constatar, Osíris amacerta gata, mas, ao mesmo tempo é obsidiado pelo amor da mãe-adotiva-eternecida-encantadora-dramatúrgica. Sendo assim, impossibilitando de levar atermo a relação com a mãe, por motivos óbvios de incongruência anatômico-genitais- se bem que a mãe-obsequiosa-defensora-masturbadora não ligue para os pelos naboca, ele se liberta sendo infiel com muitas gatas ao mesmo tempo, com o fito deinibir o sentimento de castração que o persegue. A gata que ele ama é a sublimaçãodo amor. A mãe é o amor carnal inatingível. Na verdade ambos inatingíveis... Caso acura se faça, a tendência será alcançar a monogamia, com Kristh ou com a Mãe.Por outro lado sei que se formou o conhecido triplexo temporal:a) o de Édipo, quando o gato tenta manifestar seu amor pela mãe, mas, apenasrecebe palmadinhas e tapinhas nas costas: ele queria outra coisa. Isso o frustra emdemasia.b) Em seguida o de Éradipo, tendo o gato se apaixonado pela mãe-adorada-maravilhosa-tribúrsica desde pequeno, confundindo o amor carnal com o amor filial.c) Por fim, Serádipo, relacionado com o futuro, ou seja, a manutenção dadescendência, coisa que só acontecera com seres da sua própria espécie,objetivado o interesse em Kristh, numa tentativa de integridade especifica o que nãoconsegue como individuo.Ah! – NOTA - Descobri o auxiliar: estava preso no guarda-roupa e disse que nãogritou que era para não incomodar os vizinhos.Ainda não sei por qual razão contratei esta personagem.2 de novembro – finados. Dia de finados. Os dias chuvosos, o ambiente triste,talvez, influenciaram sobre Osíris e houve uma recaída. Um ameaço. Seu moral sóse elevou quando o auxiliar esqueceu o dedo na tomada de força da televisão,mudando de cor em vários canais, passando em segundos do verde mais intensopara o adorável roxo, aterrissando no azul da Prússia numa elegante voltagem.Alexandre Volta dar-se-ia por realizado. Aproveitei o ensejo e coloquei Osíris numprocesso de catarse acentuada, visando uma melhora definitiva. Acho que estavacorreto. O gato parece completamente curado. Antes de devolvê-lo à sua senhora-ama-amada-amante-cunilínguica preciso fazê-lo desistir de usar capa preta e aridícula mascara de Zorro que conseguiu não sei onde. Coisa do lapão.7 de novembro – parto amanhã consciente de terminar um trabalho. Cumpriadequadamente a missão, espero. O avião leva minha douta pessoa para a velhaÁustria e, eu mesmo levo folhas e mais folhas de um relatório importante queapresentarei no congresso de Copenhague, no ano bissexto de 84. O lapão sumiunovamente, mas desta vez eu o vi sumir pelo ralo da cozinha e, numa hora comoCoelho De Moraes 17
  17. 17. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOesta deve estar boiando entre porcarias orgânicas variadas no meio desta imensabaía de Guanabara, onde outrora baleias vinham dar à luz.7) Voltando ao lar, após despedir-se do doutor Duerf, Osíris não poderia sepreocupar com outra coisa a não ser rever Kristh, que não aguentava mais o assédiode outros gatos. Uma vez Osíris sempre Osíris e, foi com amor aparado pelasfabulosas técnicas da psiquiatria e muita relação, que se encontravam no socavãode interlúdios, à meia – noite de uma época quente e tentadora. A mãe-adorada-idolatrada-confidente-esperançosa-arfante passou a dormir bem, uma vez que ogato, não raro, se instalava entre suas pernas durante as madrugadas. Quando issonão acontecia ela comprava o biscoito Língua e Gato, lambia-os e se esfregavaneles.Cães e gatos, sabedores do relacionamento e cura total do felino herói, armaramnovo golpe, alicerçados em planos e estratégias dos melhores generais, mas,desistiram quando se lembraram da constante presença, quase divinal, onírica,soporífica, tetraóptica, do fantasmagoricamente alvo ser, que sempre exercia peso afavor do gato Osíris. No momento oportuno lá estaria ele, o Leviatã adormecido, comseu passeio sonambúlico, assombrando, suas ínfimas vidas de animais.Resolveram, cães e gatos, confraternizarem e esquecer. Discutir, sim, mas, outrosassuntos de menor importância, deixando de lado Osíris e Kristh. Resolveramencher a cara num barzinho chamado, ironicamente, “Quatro Gatos”, na esquina eaproveitaram para cantar jingo-bel, uma vez que já era natal e, o que ia sobrar deperna de peru por ali, não era brincadeira.Coelho De Moraes 18
  18. 18. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO O TRISTE FIM DE UM FUMANTE INVERTEBRADO (uma novela do pigarro)1) Inicia-se a história quando um desses tabagistas convictos, Cruzsouza,adentra com toda a pompa e circunstância o hospital dos cancerosos, com o institutode salvar a sua vida de suicida a longo prazo; após passar por milhares de cigarros,além de cachimbos, charutos, cigarrilhas, enfim, todo o arsenal que se utiliza parater charme, segurança em si mesmo, status, pose, e o divertido ar intelectualóideque acompanha a pose dos que usam óculos e soltam fumaça pelas ventas,Cruzsouza preferiu entrar na faca. Cruzsouza era um desses. Digo era, pois, conto já o fim da história, apesar dasua tentativa de tratamento, Cruzsouza veio a falecer meses depois. Câncer nopulmão. Em compensação foi enterrado sob o som da marcha fúnebre de Chopin ediscretamente forrado por um tumor brônquico dos mais malignos. Graças,exclusivamente ao cilindro branco do prazer inaudito. Como se diz? Numa pontauma brasa na outra um idiota.2) Mas, voltemos no tempo e encontraremos Cruzsouza subindo em um ônibusem São Paulo. Ele fuma, mas, ao pisar os degraus do coletivo atira a guimba docigarro para o chão. Ouviu alguém gritar:– Fumante porco! Não viu a lata de lixo, dragão?Coelho De Moraes 19
  19. 19. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO Era um caçador de fumantes. Cruzsouza manteve-se quieto, pois é sabidoque alguns desses caçadores são iracundos ao extremo e não poucas vezes jádesandaram dragões, digo, fumantes a tapa. Mas, continuando, em São Paulo,Cruzsouza jogou o toco do cigarro no chão, antes de penetrar no ônibus. No Rio de Janeiro, no entanto, o mesmo anti-herói subiria na locomoçãolevando no meio dos dedos o símbolo fálico do cigarro e, em largas aspiradas,soltaria rolos de fumaça branca para a atmosfera fechada do coletivo. Novamenteouviria uma voz:– Não tem respeito, dragão-porco-fumante? Passa pela sua cabeça de esfumaçadoque muita gente não quer ter fumaça nos pulmões? – enquanto o homem falava,Cruzsouza passava pela roleta, temeroso de tomar um tapa na cara. – Já basta aatmosfera poluída da cidade. Não precisamos de mais uma fonte de sujeira por aqui. Não houve reação, pois, evidente, era mais um daqueles caçadores.Cruzsouza teve que ouvi-lo durante toda a viagem. Às vezes, um grupo de fumantesse reunia e não permitia que os caçadores se manifestassem, no entanto, naqueleônibus o acaso permitiu, ele sim, que Cruzsouza subisse sozinho e tivesse queagüentar olhares de repulsa e esgares de ódio por parte da vizinhança. É claro quejogou o cigarro todo no chão.3) – O fumante, antes de tudo, é um basbaque! – gritava na rua um associadodo Movimento de Caçadores aos Fumantes Invertebrados, parafraseando oEuclides. As pessoas que passavam sentiam medo, pois os caçadores tinham setornado de ativistas políticos a perigosos exterminadores de fumantes. Surgiu aNova e Mística Irmandade Contra os Adoradores do Tabaco. Fumantes e adoradores do Tabaco formavam um grupamento religioso que,ao longo dos séculos, dominou os povos com sua opressão desmedida, se bem quesutil. Tudo começou quando Phillipe Maurício Camelo fundou a primeira igreja daseita. Daí em diante, os adeptos, que já existiam apesar de esparsos (a diásporafumígena) aglutinaram-se para praticar suas ações mesquinhas, ou seja, andar comaquele troço pendurado na boca (como se já fizessem muito e se achando os tais)originando um dos maiores movimentos religiosos dos últimos tempos. Receberam onome de Adoradores do Tabaco. A fundação da nova seita desmembrou as outras, uma vez que adorador deTabaco tem em qualquer religião. Fez-se a ruptura dos fiéis que passaram afreqüentar a nova organização. O fumante, antes de tudo, é uma besta! Uma besta suicida! – uma pedradafê-lo calar a boca. O homem desabou do alto do pedestal e uma batalha campal foiiniciada no meio da praça, alimentada pelo pretexto da pedrada. Fumantes e não-fumantes se desancavam em sovas e catiripapos homéricos. A polícia chegou para serenar os ânimos distribuindo cacetada para todolado. Mas não conseguiu. Cruzsouza, no entanto, apesar da seita, e do seu amplo desejo religioso, nãoera um fiel Adorador do Tabaco. Quer dizer, era um livre pensador, um livre fumador,experimentava de tudo, até bosta de cavalo; fumante, mas não filiado a seitas deespécie alguma. Mas, para quem não fumava, todo aquele que se mostrava empúblico manipulando um nocivo aparelho, aparelho de cabeça esbraseada, era logorotulado e devidamente escorraçado, se não em pensamento, em palavras ouações.– Discriminadores! – gritava em seus pensamentos para a turba de não-fumantes. –Pensam que são os donos do mundo!? Pensam que tem todo o direito a toda aCoelho De Moraes 20
  20. 20. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOrazão?! – eram idéias que chegavam à boca, pois uma intensa raiva se apossava deCruzsouza naqueles momentos, mas, não passava daí, não se formavam em vozesou palavras inteligíveis, uma vez que a raiva de Cruzsouza passava logo. Mas, pergunto, o que levou Cruzsouza a adquirir vontade de fumar? Com a palavra, o seu analista.4) “Bem... pelas anotações secretas que aqui tenho – por favor, não publique o quelhes conto pois sempre pensam que nós, analistas, psiquiatras, confessores,párocos, psicólogos e prestidigitadores somos pessoas em que se pode confiar e,não é verdade. Não publique se não pega muito mal para mim, tá? –, continuando...(o analista folheia alguns cartões)... nas anotações que tenho tirado desses trintaanos de pesquisas, o fumante tem um problema na esfera sexual, e, o cigarrorepresentaria para ele o pênis perdido”– Não entendi.“Bem, meu caro, é o desejo interior que se manifesta. Apesar de uma ou outrapessoa ser ativa sexualmente não significa que não seja impotente. Aí está o caso.Falando sobre Cruzsouza, que representa a maioria, aquele que fuma, só é potenteenquanto fuma. Há um problema na afetividade, na autoconfiança, algo como ointenso desejo de ter sempre a mão um pênis, daí o ato, de manipular o cilindro. Nocaso das mulheres...”– Ia perguntar sobre isso.“Bem, no caso das mulheres, é mais aceitável o interesse pelo falo, digo, pelo fatode manusear o cigarro. Apesar de doentio ainda mantém a ligação heterossexual...já no caso dos homens, (e, aqui o analista faz um muxoxo), o confrontohomossexualidade versus normalidade, lá na cabeça dos fumantes, é o que os levaa usar o cigarro como atenuante dos apetites, uma vez que não assumem a suacondição de homossexuais”.- E, aqueles que deixam de fumar?“Você já ouviu falar em ex-viado? Encontramos muitos deles nas igrejasevangélicas... aí é fácil entender que já resolveram seus problemas. Assumiram: nãomais o jogo homossexual e passaram a trilhar um caminho hétero. É uma opção quefazem. E, além de decidirem seus caminhos, pois já não terão a sensação deadultério, quando são homens casados, respirarão muito melhor, já queinteligentemente escolherão o ar como gás respiratório e não a nuvem cinza-pardacenta dos fumos”.“Os que não conseguiram deixar de fumar sabem que estão no dilema do Hamlet:Ser ou não ser. Eis a questão. Não sabem se preferem os braços da companheiraou do garotão da esquina. Daí a pose, a falsa impressão de autoconfiança, e desegurança que os fumantes tentam passar. Por dentro tremem e rangem os dentes”.- Você tem alguma saída para estas pessoas?“Bem, tenho sim. A mesma que eu disse para o paciente Cruzsouza. Tomevergonha na cara. Ou assume ou para de fumar. Porque de outra forma meencontrará pela frente. Eu também sou membro dos caçadores e a minha meta é asolução final. Não pelo fato de serem ou não homossexuais, mas pela porcariadaquela fumaça nojenta que me dá ânsia de vomito. Acautelem-se, dragões!”.5) Naquele dia, Cruzsouza foi para casa e lá, somente lá, fumou quatro cigarros deuma vez. Completamente deprimido, pois não sabia da gravidade psicológica do seucaso. A ciência da mente estava muita adiantada. Descobria o desajuste sexual deum indivíduo pela largura do seu cigarro.Coelho De Moraes 21
  21. 21. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHONaquela noite, Cruzsouza pensou em todos os chamados grandes homens quefumavam charutões; refletiu na complexidade dos casos dos cachimbeiros –excetuando as angiospermas, - de boca torta. Seria o detetive Holmes umproblemático? E, Watson, que apito tocava, naquela situação? Seria, o médico,analista do detetive inglês ou... Apenas a manutenção de uma chama platônicanaquelas vidas sem amor, correndo atrás de criminosos comuns e cãesmadrugadores? Churchill, Fidel, Stalin, os capitães de indústria, seriam produtosdoentios oriundos da busca do poder, em detrimento do emocional?Na manhã seguinte Cruzsouza tinha fumado para quarenta dias, então teve a suagrande crise de dificuldade respiratória. Foi parar no hospital do bairro, já roxo,locupletado de fumaça, atingindo, suponho, um orgasmo fumífero.À tarde recebeu a visita da noiva. Muito chorosa. Abraçou-o.- Mas, o que foi que aconteceu? – pergunta típica das pobres pessoas que, leigasem questões médicas, se atemorizam antes a visão de um bisturi ou de uma roupade paciente hospitalar, ambos fedendo a formol.- Querido, o que aconteceu com você? Esperei-o a noite toda. Meus pais saíram epensei que fossemos aproveitar a noite para que pudéssemos por pra fora todas asnossas frustrações íntimas e, você ficou aqui, deitado, dormindo?- Desculpe-me, Diocréia, mas, não foi minha a culpa. Saí muito deprimido da análisee acabei tomando uma fumarada. Vim parar aqui para equilibrar com oxigênio. Jánão respirava mais.- É claro que puseram a culpa no cigarro, - disse Diocréia.- Foi o que me disseram... isso mesmo. Mas, o que mais me deprimiu foi a sentençade morte que ouvi da boca do analista. Percebi que era um réprobo. Mesmo emrelação a você. Já nem sei se quando nos encontramos à noite toda a quinta-feiraenquanto seus pais se retiram para o cinema, se sou eu ou meu cigarro quem“pratica as práticas” imundas que os íncubos e súcubos nos fazem cometer.- Claro que é você, Cruzeta querido. Eu sei por causa do cheiro.Diocréia sentou-se na cama e abraçou o noivo entristecido.- Por que você..., – dizia ela, calmamente, como quem tenta seduzir uma pessoa, –não se filia aos Adoradores do Tabaco? Lá você terá suporte psicológico e um grupoque o defenderá contra os ataques dos caçadores de fumantes. Qualquer igreja écorporativista.- Não sei..., – Cruzsouza hesitava.- Acho, até, que você deveria deixar de ir a essas análises. De nada adiantam, poisse os analistas soubessem alguma coisa... (sorriu ingênua). Mas, nesse instante,uns rapazes e moças adentraram violentamente o quarto de Cruzsouza.- É aquele ali, chefe! – gritou uma jovem, apontando o enfermo.- Muito bem... – foi o começo da ordem de um dos mais velhos. – Empunhem suasmáquinas e FUMO!Uma rajada de gases alcançou o casal desalentado, jorro que saía dos ventiladoresque os jovens seguravam galhardamente; e, aos gritos de “Desapareçamfumantes!”, ou então, “Chaminés desequilibradas, fora”, e ainda, “Dragõesdevassos!”, os caçadores de fumantes desapareceram pelo corredor, sob o apoio dodiretor do hospital, o qual permitiu a ação somente após o pagamento de seushonorários pelo “tratamento” do Cruzsouza.6) Sai de uma, entra em outra.A pneumonia o avassalou. Com suas defesas diminuídas, o anti-herói nosso, ia evoltava dos hospitais. Cruzsouza antevia a morte. Por isso chamou seu tabeliãoCoelho De Moraes 22
  22. 22. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOpreferido e ditou, em papel adequado, o seu testamento que aqui transcrevemos: -Deixo para Diocréia minhas piteiras de ouro maciço e a coleção Cinzeiros Roubadosdos Hotéis. Deixo vinte mil folhas de papel especial para a Fundação pelo Estar doFumante..., – mal sabia ele que naquela mesma semana uma guarnição decaçadores tinha invadido a Fundação, depredando-a por completo. Tomaram dopresidente, enrolaram-no em folhas de papel bem grosso e, após formarem umafogueira com os quilos de rolo ali encontrados para se fazer pito, moquearam opresidente, defumando junto as paredes do local destruído. No entanto, Cruzsouzacontinuou com seu manifesto..., – Deixo as garrafinhas com fumaça expelida porpessoas famosas, compradas na zona franca... para os meus amigos emdificuldade... econômica, impossibilitados de conhecerem... pessoalmente... seusídolos. E, por fim... deixo todos os meus cigarros para as... gestantes que pretendemfazer de... seus filhos... bons fumantes, o que compensará... a inferioridade mentalcom... a qual... eles... fatalmente nascerão... E tombou para o lado.7) No fim de semana sentiu dores no peito e foi passar por observação no hospitaldo câncer onde se constatou anomalia pulmonar e pouco tempo de vida. À medidaque caminhava pela rua, vendo as pessoas caídas na calçada, relembravaneuroticamente quando o leitor da radiografia fez cara de quem não gosta, ao notaros problemas. O radiologista olhou para Cruzsouza, deu a volta à mesa e perguntou:- É fumante?- Sim, sou. Mea culpa, mea culpa, mea culpa – disse, batendo no peito magro.O radiologista sentou-se para escrever a sentença, ou melhor, o laudo da futuramorte e falou:- Bem feito palhaço! – e ainda riu.Enquanto caminhava pela rua, Cruzsouza pensava sobre isso, mas via, como já foidito, muita gente deitada, sufocada, desmaiada: violetas e púrpuras faces voltadaspara o céu. Nisso... Nisso o cerco formou-se. Eram os caçadores de fumantes. Elesnão descansavam. Um deles, irônico, falou:- Temos uma surpresinha pra você, dragão. – E, sorriu com a ponta dos lábios.- Que tipo de surpresa? – perguntou Cruzsouza esperando pelo pior.- Já que gosta tanto de fumaça, resolvemos colocá-lo em seu habitat, caro dragão.- Não estou entendendo.- Mas já vai entender.A um certo e combinado sinal, todos puseram máscaras respiratórias e apertaram osgatilhos de seus aparelhos fumigadores. Cruzsouza ficou envolto durante quinzeminutos, numa espessa nuvem de fumo. Conseguiu distinguir vários sabores etexturas, adivinhou marcas, descobriu misturas interessantes, mas, o que pareciaprazer no inicio, foi se transformando em verdadeiro suplicio. A asfixia tomou contado seu ser.- Não é de fumaça que vocês gostam? Então engulam tudo! – Gritavam atrás daparede de gases. Tonto, muito mais que peru em véspera de natal, Cruzsouzacambaleou, tropeçou, tombou.Era mais um na calçada.Os caçadores de fumantes estavam bem equipados e bastante decididos emexterminar os fracassados engolidores de fumaça. Ao derrubarem Cruzsouza,tomaram forma e cantaram o hino: “DURA LEX FUMUS FAGATUS EST”.Constataram que faltava um soprano para manter o equilíbrio dos naipes.Coelho De Moraes 23
  23. 23. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO O HOMEM QUE CAÇAVA KERTETSZIA (Uma Novela Febril)1) Antes de que tudo houvesse acontecido e, sem que os familiares soubessem,Sanvae deixou o emprego muito bem remunerado-mordomíaco-faraônico e partiupara o Amazonas em busca das famosíssimas Kertetszias, – animais relativamenteraros, pequenos, mas, elegantes, – habitantes de altas copas das árvores pejadasde chuvas, cujos paladares preferiam o suculento sangue de macaco. Isso, nocomeço, quando os verões eram vermelhos e os invernos dormiam em forma deazul. Antes de que toda a tragédia acontecesse.2) Sanvae era robusto e pesava em torno de noventa quilos bemproporcionados. Era alto, coisa que se percebia claramente quando Sanvae sepunha em pé. Usava barba postiça quando deixou as mulheres e os filhospequenos, hipnotizado pelas imagens das Kertetszias, no entanto, nem bemchegava ao Amazonas e já era dono de bonita sombra azulada em torno do queixooval e, uma outra, não tão bonita, que o acompanhava por toda parte, especialmentenos dias de sol e, somente na rua. A partir daí, deixou de lado o disfarce e assumiua sua posição de exímio caçador de Kertetszias, se bem que fosse aquela a primeiravez que Sanvae se enfronhava em mataria braba e se transformava em predador.Coelho De Moraes 24
  24. 24. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOA história.A fome de kertetszias apareceu-lhe aos onze anos de idade, quando seu pai, umfabricante de botões, mostrara-lhe fotos do anofelínio. Dessa época para frenteesqueceu completamente o assunto. Um surto de amnésia galopante, por ocasiãodos vários casamentos, auxiliou na introspecção da idéia, enterrada que foi nosrecônditos insondáveis da cabeça de Sanvae. Só voltou à sua memória em relaçãoao inseto kertetszia após certo sonho que teve com uma das suas sogras.Hoje.As famílias ficaram decepcionadas e muito choraram quando perceberam queSanvae partia, mas, Sanvae, empedernido como ele só, partiu num dia de chuvagrossa. O navio balançava e o almoço de Sanvae, a muito custo, se manteve noestômago. Sua cabeça queimava de ansiedade e, por momentos viu-se em palcosde conferências, adulado, coberto de medalhas pró-isso, pró-aquilo, recebendoprêmios científicos.Chegou ao Amazonas na quarta-feira.Na Quinta de um amigo, velho conhecido, tomou vinho e mordeu carne de pirarucu,em tempos de descanso. Esperou que a barba tomasse seu rosto completamente,desejou feliz Páscoa para o amigo e, munido de arcabuz, embornal e sapiquás,atolou suas botas de couro de jacaré-aligátor-crocodilo nas lamas da florestacomedora de gente e outros bichos, na incessante busca de kertetszias.Ia ele ladeado por cinco guias bem pagos que, infelizmente, perderam-se no meioda jornada, levando os javalis.3) Sanvae percebeu que adentrava reinos de kertetszias quando viu osmacacos.Eles desciam correndo o arvoredo, em algazarra perene, mas, o detalhe maisemocionante, muito bem explicado pelos almanaques, era de que muito macacotremia incessantemente e, além disso, ficavam banhados de suor – pêloscompletamente molhados!Sanvae ria de dobrar a barriga, pois á sua mente vinha lembranças do dia em queesguichou água sobre uma de suas sogras (a adotiva) e ela, em desespero, sentou-se no chão aos brados e berros. Riu, também, pois o passeio pela floresta já oesgotava, levando a esperança de encontrar o inseto para bem longe. Mas, parou derir quando os macacos olharam para ele... rindo também – micaretas.Sanvae montou barraca esperando a noite.Os almanaques diziam que o anofelínio era notívago; mais ainda, explicavam ostécnicos, era necessário capturá-lo com todas as asas, pois, determinado estudiosolevantara a hipótese de que o inseto sofreria problemas de ordem psíquica casofosse colocado em ridículo, sem asas; assim, seu corpo, de verde com listasdouradas se transformaria em cinzento salpicado de cor de rosa. A tese doestudioso defendia a opinião hipotética de que kertetszias se sentiriam, então,vexadas e extremamente indóceis, necessitando elas de tratamento com Diazepan.4) A primeira técnica era baseada nos ensinos do sábio Barão de Itararé,renomado bípede. A segunda era a própria idéia de Sanvae, por isso, não muitoboa: consistia em descer um prato de ouro no meio das folhagens e esperar que osalados se sentassem na superfície fria, de modo que ficassem presos por causa deuma possível interação eletrostática entre as patas e o ouro. Só que, ou isso nãodava resultado mesmo, ou as kertetszias já conheciam o truque, nem a mais infantildelas ficou presa no prato de ouro e, a coisa teve que ser resolvida no tapa.Coelho De Moraes 25
  25. 25. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOSanvae enfrentou um milhão de seres voadores adentrando sua barraca, como umatempestade nasal. Reflexo esternutatório às avessas.Sanvae ficou alucinado, com as riquezas pululantes por toda parte, parecendo quese esquecia que na escuridão e em massa, muito inseto alienígena e covarde podiase entranhar na multidão e fazer das suas. Portanto, em meio a picadas, sopapos,garatujas de braços, pernilongos e pernicurtos de várias espécies, desmaiados,fugitivos, tontos, ouviu-se gritos, zumbido de moscas que perderam o rumo... o quesobrou? Sobrou, como saldo da batalha, uma kertetszia presa em saco plástico(uma pata quebrada) e, uns quinhentos e cinqüenta pontos vermelhos só no rosto deSanvae, o caçador.Ai é que o mal estava feito, definitivamente.5) Sanvae não se lembrava de nada mais terrível do que as febres que oacossavam de tempos em tempos. Até o sangue se alterava, parecendo semodificar em líquido movediço misturado às porcarias das mais variadas origens,desde cocos de bactérias até protistas em decomposição. A pele amarelacombinava com o verde limão do pijama - pelo menos havia essa compensação –mas... as febres pontuais, a tremedeira em terremoto, o suor copioso que enchiabacias e mais bacias, tudo isso não constava dos planos de Sanvae. A kertetszia,por sua vez, dormia tranqüilamente em seu saco plástico, tendo se restabelecido daperna; as sogras riam a valer observando os dentes do genro comum a baterem.Punham a mão na barriga e gargalhavam quase até desmaiarem, principalmentequando viam Sanvae prostrado no fim dos acontecimentos.As velhas desmontavam-se na hilariante desopilação figadal, quando o friodesaparecia do caçador e uma febre torrencial o destruía durante horas seguidas.Sanvae tomava forma de um barril esponjoso.6) Sanvae passou a sonhar que uma cobrinha em forma de anel rubídicopenetrava em suas células. As mulheres já tomavam o marido por louco completo.No desjejum ele relatava tais onirismos ao mesmo tempo em que tocava com adestra a face morena de uma e, com a sinistra, a boca de pêssego da outra. Dosonho, as sogras riam e dançavam quadrilha, pensando na herança e no dinheiroque ganhariam com a venda da kertetszia sobrevivente. E, enquanto isso, Sanvaesonhava e, ele contava que via mais cobrinhas se multiplicando velozmente atéformarem uma flor caleidoscópica que de repente, explodia, despejando pequenosofídios para todos os lados. Aí vinham kertetszias que tomavam as cobrinhas pelobico (bico de inseto?) e, saíam em direção aos macacos displicentes que sempreexistem. Então, ele acordava, com os olhos esbugalhados. As sogras se debatiamde tanta risada justamente por causa dos olhos medrosos e desesperados. Asmulheres se abraçavam e dominavam o pavor que sentiam, bem como a ansiedade.As crianças jogavam bola com o vizinho.7) Do jeito que as coisas estavam não poderiam ficar piores, mas ficaram.Era manhã de torpor e lassidão quando três mulheres montadas em fogosos ginetesadentraram o quarto de Sanvae. Elas bateram as patas dos cavalos contra a paredee pediram de volta a kertetszia, num idioma caprichoso. Sanvae escondeu-se atrásdas esposas, cheio de pavor. Nunca vira coisa igual, nem sentira tanto medo desdeque fora apanhado roubando jabuticaba no quintal da tia solteirona. As mulheres doscavalos, com a facilidade que a falta do seio direito dava, puxaram arco e flecha eCoelho De Moraes 26
  26. 26. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOapontaram para o peito do caçador frustrado. Pediam, pela última vez, que lhesdevolvessem o acrídeo preso no plástico. Um cavalo cuspiu na cara do homem queengatinhou para os baixios da cama, entre pó e chinelos esquecidos.No entanto, nada de kertetszia aparecer.As cavaleiras desceram dos potros coloridos e arrancaram o doente do esconderijoe fizeram-no jurar que o pequeno anofelínio estava em correta situação de saúde,bem estar alimentício, e, moral elevada; pediam, também, pressão arterial e variaçãono peso corporal do inseto desde o início dos eventos.Quando Sanvae sorriu concordando tiram-lhe um molar.Sanvae benzeu-se quando as cavaleiras saíram – elas cantavam melodiassincopadas que imitavam corridas de formigas. As esposas abraçaram-se emaldisseram o dia em que se casaram com o poltrão caçador; já começavam asentir pena do inseto prisioneiro. As sogras resmungaram contra as cavaleiras,tomadas de ciúmes, por duas razões: a primeira, menos importante, o fato de nãoterem cavalos tão bonitos para pisotear o pobre Sanvae e, a segunda, talvez a maisimportante das razões, que era o sentimento de inferioridade. As selvagens eramdonas de um seio farto e interessante cada uma, enquanto as sogras não tinhamnem um para contar historia. Além disso, elas é que queriam desmoleculalizar ogenro. O doente, inútil e desacreditado Sanvae.8) Um dia, o paciente do Dr. Zaromeu ergueu-se decididamente. Mas, logo sedeitou porque foi acometido de vertigem e dores nos artelhos. Na segunda tentativa,três semanas depois, percebeu que estava sozinho em casa e percebeu que teiasde aranha se formavam em torno de si. Apesar do mal-estar, pôs-se em pé etelefonou para seu amigo o Dr. Zaromeu, tendo porém de desligar, uma vez que eradomingo e o doutor não atendia, mesmo que sua mãe precisasse transfundirsangue. Sanvae tentou no dia seguinte. Contudo, ele se perdeu nas contas dos dias.Resolveu telefonar naquele mesmo dia, mas, já era sexta-feira; nas sextas-feiras oinsigne Dr. Zaromeu ficava em estado de animação suspensa assistindo televisão,ou dando aulas sobre Teoria do Comportamento, baseando-se na ConstituiçãoFederal de dez anos atrás, matéria muito interessante para sua idosa esposa, tantoque ela dormia rapidinho.Sanvae estava num impasse. Sozinho, pois as esposas haviam fugido com trêsmaridos e doze filhos agregados, mais cinco sogras de várias nacionalidades, sendoduas de estimação; tonto, abatido, ele calçou os chinelos de tecido multi/estranho,rumou direto para o banheiro, onde com dedos ágeis apertou furiosamente, a bemdizer, esmagou uma bisnaga de pasta de dentes sabor lagosta, e, pôs-se,completamente fora de si, a escovar sua boca, ate que conseguiu que o brancofosse realmente branco e seu hálito estivesse agradável. Trocou de roupa e saiu.9) Parado sobre a ponte, mirando as águas dos bebedouros e as correntes deferro que prendiam os cães, Sanvae analisou sua vida e resolveu se afundar empensamentos, palavras e obras. Afinal, era sua culpa, máxima culpa, por tudo aquiloque acontecera. E, ainda teria de devolver a fabulosa Kertetszia tão bravamenteconseguida nas grotas da Amazônia!Às suas costas sentiu passos de cavalos. Depois, a ponta de sua orelha foirabiscada por pontiaguda conformação em forma de dardo. Um sorriso idiotadesenhou-se-lhe no rosto, mas isso não era novidade; o ar de covardia absolutarobusteceu-lhe a mímica facial. Foi obrigado a levar a mão ao bolso e retirar de lá oCoelho De Moraes 27
  27. 27. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHOsaco plástico onde uma kertetszia ressonava qual anjinho. Olhou com olhos delagarto para as cavaleiras que lhe devolveram com olhos de águia. Sanvae dobrouos supercílios e ficou parecendo um sabujo que tivesse levado um belo pontapé. Odardo escreveu-lhe na testa palavras só inteligíveis para cavaleiras, centauros,faunos e uirapurus alfabetizados. Enquanto isso a kertetszia despertava, abrindo aboca (boca de inseto?) num bocejo incorreto.A um sinal de mão, dado por uma das cavaleiras que também se mostrava comolíder, Sanvae abriu o saco (o plástico) e o inseto voou para a atmosfera, fazendoquestão de mostrar que já estava sufocado, puxando, em imitação perfeita, ocolarinho do casaco. Essa atitude deixou as cavaleiras bastante irritadas, de modoque esporearam os corcéis e estes acabaram cuspindo na cara de Sanvae, numafalta de educação das maiores que já se viu. O pobre enfermo caçador baixou acabeça, tristonho, mas, aproveitando para notar se tinha alguém olhando;repentinamente, sem que as amazonas percebessem o intento, pulou no ar, segurouo inseto incauto que ria a valer e mergulhou com ele de cima da ponte.As cavaleiras entreolharam-se espantadas.Os cavalos ficaram de queixo caído e foi um custo levantá-los. Mas, de nadaadiantou todo o trabalho mandibular. Sanvae e a kertetszia debochada haviamsumido nas profundezas das águas.10) Muito anos mais tarde soube-se que um circense fazia demonstração de umcerto animalejo considerado por todos como fenômeno voador. Tratava-se de umhomem barbudo dono de um pernilongo dançarino; fora tais boatos, nada maisserviu para por em claro a existência da dupla. A não ser... a não ser um fato queacabou citado nos jornais, sobre um anofelínio paranóico que assolava os casaisperdidos nos matos, nas moitas ou no escuros dos cinemas do interior, onde valiatudo, inclusive assistir a filmes. Dizia o texto que de um circo sumira certo dia, opernilongo assaltante (com coleira e tudo) e, que a partir daquele momento umasérie de febres terçãs, quartãs e anãs, mais os estremecimentos, foram compilados.Além disso, havia em hospital categorizado, uma guia de internação para otratamento de nervos em nome de Sanvae Kertetszia da Silva. O texto fora assinadopor um tal de Zaromeu que se dizia da estirpe de doutores da mente; soubessedepois que não era mais do que um pobre sorveteiro especialista em distribuirresfriados para todas as crianças do bairro. Sorveteiro e aposentado, jurava quehavia escrito para o jornal local sobre a tal história... que tinha ouvido falar nãosabia quando nem onde e, que realmente não se preocupava com a saúde dosprotagonistas da história, mesmo porque achava que não era historia e sim estória.Vá saber!Dizem que no fim ele teria dito, como já dizia seu José Coelho: - De qualquer forma,fica o dito pelo não dito. Se não gostou, vá reclamar com o Benedito! – sendo, emato contínuo, encarcerado em célula privativa no hospital psiquiátrico, onde até hojecaça pulgas domesticáveis, preparando-se para um espetáculo beneficente.Coelho De Moraes 28
  28. 28. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO O CAPETA ARREPENDIDO (uma novela dos quintos)1) O Gênio do Mal, pensabundo, ensimesmado lia, voraz, alguns contos doMachado de Assis, quando um de seus ajudantes adentrou na vetusta câmaraprincipesca, à direita do palácio de rocha vulcânica, como quem vem dos ínferos,aos berros:- Oh Senhor! Oh Senhor!- Não é preciso gritar, palerma, não sou surdo. Esses cornos não são auriculares,mula! O que quer?- Mas, Senhor...- E, não me chame desta maneira se não me confundem com... o outro.- Como chamá-lo, então?- Que tal... Dragão... Dragãozão... Que tal? – e girou a mão no ar, em pose, exibindocerto panache, - e estalou os dedos.- Não sei não..., - fez o outro, - Dragãozão...? Acho que pega mal.- Então, tudo bem. Vire-se. Chega de papo! – o Gênio do Mal falou rispidamente –Qual o problema, afinal? Abre esse focinho e despeja. - Avisaram da portaria que chegaram mais pessoas!- Mais pessoas? Que jeito?- Almas, quero dizer... alminhas...O Gênio pulou no trono.- Mais almas! Pombas! – ele estava, decididamente, enraivecido. – O que o Pedropretende? Entupir de rebotalho isso aqui? Não há mais controle sobre estagentama!?Coelho De Moraes 29
  29. 29. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO- Pois é, caro mestre... do Mal.- Puxa saco! Mestre do que?- Do Mal, mestre... do Mal.- Eu, heim?! Vai de retro Arrenegado! – falou bem alto o Gênio. Depois, dirigiu-se aum telefone e se entendeu com a portaria do inferno.- Alo! Aqui sou ele.- Oi, ele. O que manda? – a vozinha através do fone perguntou.- Seguinte: não deixa mais ninguém entrar.- Não, mesmo?- Não, mesmo! Manda tudo de volta para a Terra. É quase a mesma coisa. Temmenos fogo que aqui, mas, é quase a mesma coisa.- Por mim tudo bem, mas tem um Querubim aqui que não arreda pé enquanto nãodepositar a encomenda no primeiro poço sulfuroso que aparecer. O Gênio tapou o fone com a mão e virou-se sorrindo para o ajudante:- Esses Querubins nem sabem que o enxofre já acabou faz tempo. Sãocompletamente desatualizados esses velhos mensageiros. Muito bem! – virou-separa falar no comunicador – vou já para ai, tá bom? – e virando-se para oArrenegado: - Vou lá numa asa e volto na outra. Fica de olho nesses pecadores. Jápassaram do ponto e eu os prefiro mau-passado. Ajoelhou não rezou o pau comeu...2) Uma dezena de pessoas se deitava no salão de espera do inferno quando oGênio apareceu. Alguns se levantaram, mas, a maioria nem se deu ao trabalho.Aliás, quando o Gênio apareceu começaram a vaiá-lo e jogar zombaria, coisa que odesgostou deveras. Mesmo assim, aproximou-se do Homem de Asas.- Queruba velho! Como vai? E o céu, gelado ainda?- Diabolous! Tanto tempo não o vejo. Que história e essa de céu gelado? Andaestudando os gregos?- Ora, aqui um calor desgraçado, obviamente, pelo contraste, lá um frio do caramba,não será assim?- É que andamos passando por reformas, sabe? – e, o anjo sentou-se na poltrona devegetais secos. – Faz tempo que você não aparece por lá, estou certo? Não temsaudades? Ou será que não resta uma certa... uma certa melancolia de fim detarde? O Gênio torceu o rosto e disse: - Não sei, estou um pouco desorientadoquanto a esse negócio de religiosidade e fé. Olha aí, eu entrei na sala e fui vaiado.Esses caras pensam que são piores do que eu?- São novatos. Pecadores recentes. Desinformados... apesar da rede mundial.- Tudo, tudo bem! Eu compreendo, mas, o pior é que continuam a fazer das suas ládentro, com ou sem piscina de lava ardente. Ninguém sofre aqui, a não ser eu! Emvez de penarem seus erros, não! cometem mais. – O Gênio bateu a mão no joelho:– São insuportáveis. Se não fosse a minha responsabilidade perante o Universo, játeria pedido demissão. Ficaram instantes em silêncio que foi quebrado pelo querubim.- Lembra da revolução?- Sempre. Como haveria de esquecer? Entrei pelo cano, – disse o Gênio.- Penso sempre nela. Atualmente estamos chegando no ponto que você queriaalcançar já naquela época. Realmente, você estava muitos anos à frente, meu velho.Tinha que botar um freio nisso, afinal as instituições...- Que instituições, velho...- Caramba... quase que o mundo fica de cabeça pro ar...Coelho De Moraes 30
  30. 30. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO- Eu e o Chefe. Mas, o que faz aqui um anjo de primeiro escalão?- Foi o que eu disse, estamos passando por reformas. Agora resolveram que somostodos iguais, que esse negócio de hierarquia fica por conta da escolástica e, paradar o exemplo, tenho de fazer um trabalho humilde... Coube a mim entregar essas...porcarias pecadoras.- O Chefe disse o que?- Ele falou que deixamos correr frouxo... a criatura inventou a civilização e agora queresolvêssemos o problema... Ele não tinha inventado aquilo... e foi saiu a cuidar desuas orquídeas...- Reformas, reformas, mas os pecados continuam os mesmos. No entanto... – oGênio dizia bem alto... – Não há vagas! Estamos lotados, Queruba velho.- E, o que e que eu faço com esse lixo? – perguntou o anjo, mantendo a calmanotória de quem pouco se importa com o negócio.- Leva de volta para a Terra. Joga num daqueles aterros sanitários...- Nem toda cidade tem...- Joga no rio... Ninguém vai perceber. Aquilo esta pior do que aqui. Além do mais, - oGênio completou, coçando a barbichela, – eu também preciso de sossego.Reciclagem... reciclagem.,..- Devo entender que não há negociação?!- Não... não há... Você sabe que não há Queruba. Olha, fala para o Chefe mandardoutrinadores de várias igrejas para desafogar um pouco o local! Liberei aalfândega. Esse pessoal vai ficar assim até quando? Pra sempre, por acaso...?- Segundo as escrituras...- Eternamente, tá, eu sei, mas, reforme isso também. O Querubim bateu nas costas do Gênio do Mal, levantou o polegar com aintenção de se despedir, mais entediado do que insatisfeito.- Voltando, pessoal. Não é aqui que ficam. Muita gente começou a se lamuriar e pecadores desavisados não queriamsair daquele antro, mas, alguns anjos auxiliares passaram a empurrar os pecadorespara fora do inferno. O Gênio sorria debochando, braços cruzados; quando o últimose retirou ele armou uma banana com os braços e pensou: - Vão amolar o boi-tatá!3) Um dia, porém, o Gênio reuniu todo o plantel demoníaco e passou a discursardessa maneira:- Senhores. A partir de hoje devo declinar da minha posição de Maior entre osMaléficos, se bem que eu pessoalmente odeie essa denominação, afinal, não fui euquem mandou cortar as cabeças dos filisteus, fossem crianças, mulheres ouvelhos... (baixou a cabeça)... tergiverso... bem... (elevando a cabeça) A ordem veiode cima... devo deixar isso bem claro. – e o Gênio estava sob aplausos e assobiosde apoio. - Deixo o meu cargo, enfim, abdico, em nome de Exu, uma vez que eleestá muito bem cotado nas bases populares e merece gozar desses direitos eesquerdos do poder. Exu recebeu acenos e polegares erguidos.- Espero que mantenham a obediência a ele e mantenham aquela ordem quesempre nos honrou.- Mas, o que aconteceu, Gênio do Mal? Porque a mudança de idéia? O Gênio olhou para o chão, pigarreou, passou levemente a mão na testa,como quem tira gotículas de suor e continuou: - Devo esclarecer que estou em criseideológica. A minha fé esta abalada.Coelho De Moraes 31
  31. 31. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO Os Satananases (demônios apreciadores de abacaxi), as Sapatãs (demôniosfêmeas cujo pecado era o lesbianismo explícito), Belzebus (os capetas bois-da-cara-preta) e Anhangás (uns bichos perdidos dos índios), fizeram um Ó coletivo, comsuas ovaladas bocas, que mais pareciam cantantes em finales de peças corais acapela. Estavam desolados. O Gênio das Trevas levantou os braços, fez um corte epediu calma.- Acontece que não acredito mais em deus. Não acredito no Chefe! Piorou. Todos estavam solidários com o conflito do líder; tentavam,inutilmente, dar conselhos e caminhos para que o Gênio se posicionasse, mas,falavam todos ao mesmo tempo, uma algaravia, e ninguém se entendia; a cavernaestava cheia e até terráqueos palpiteiros queriam dar opiniões tentando entender aburocracia do tal processo da abdicação. O Gênio, percebendo a presença dospecadores gritou:- Mas, não pensem vocês, – e apontava para os pecadores que retrocediam com aschamas dos olhos do Gênio, – que as coisas ficarão moles por aqui. Exu serádevidamente assessorado por Ariel, o espírito do Ar e, ai de vocês desobedeceremas recomendações dos dois. Eles soltam o Bicho-Preto encima de vocês, porcosazedos!- Não adianta Gênio... – o Arrenegado puxava-o pelo rabo, – fiquei sabendo que elesadoram o Bicho-Preto... principalmente quando o Bicho-Preto morde a bunda deles. Pausa imensa no recinto baforento.- É, amigos. O inferno já não é mais como antes. Ainda bem! – o Gênio ainda falou,– o problema é que em breve perderemos nossas conquistas. Eu queria transformaro homem em deus, no entanto, ele prefere ser porco. Por isso, me vou.- Para onde? – gritaram todos, – Para onde, Gênio?- Para a Terra! – e sumiu na luz.4) O padre Benedes acordara cedo. Era impossível dormir até tarde nacidadezinha de Muganga, a Nordeste do Estado, por dois motivos: o primeiro: tinhauma missa para rezar, e segundo: tinha de tratar de política todo dia. Eram as coisasque mais lhe interessavam. Mas não mais do que uma terceira coisa. Espreguiçou-se na cama e seu braço bateu nos ombros de sua secretária, a qual, por questão detrabalho, fizera serão naquela noite. Ela imediatamente pediu benção, ajoelhou epadre Benedes deu-lhe algo para chupar, e, como estava teso, aspergiu-a comsêmen santo. Não se sabe até hoje se foi epifania ou orgasmo. Padre Benedes se levantou, lavou o rosto com sabonete dos mais cheirosos,aroma de Mel glicerinado, pôs os óculos, lançou uma pasta oleosa sobre os cabelospretos nº 32, tomou café puro e saiu para sacristia. Tomou da estola adequada erumou para o confessionário, ainda guardando lembranças da noite exemplar que asecretária trouxe para ele. A moça ensinara-lhe truques desconhecidos, como porexemplo, aquele do número. Ao sentar-se no banco dos confessores, ainda cantarolando um salmo, apósfechar o cortinado, sentiu um hálito quente, através da janelinha gradeada. Achouestranho, mas mesmo assim benzeu-se e benzeu o penitente através da janela eperguntou:- Qual o seu problema, meu filho? Após uma breve pausa, uma voz resolveu se fazer perceber, mostrando umacor de tenor, contrariamente ao que dizem as lendas faustianas.- Padre, eu pequei.Coelho De Moraes 32
  32. 32. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO Benedes, no reflexo, quase que disse, “eu também e daí?”, mas se conteve.Tinha um papel a desempenhar, papel decorado arduamente em anos de seminário.- De que forma o filho tem pecado? – o padre perguntou, ajustando os botões.- De muitas formas... eu... por exemplo, acho que governo metade do mundo... mas,a principal delas, que eu acho, é a ocultação de criminosos.- O filho precisa entregar os criminosos para a justiça. – Benedes aconselhoupiamente sem atinar muito com a coisa.- Qual justiça? – apesar de tudo a dúvida continuava.- A justiça dos homens... é claro.- E na justiça de Deus, não vai nada?- Deus já terá julgado tais criminosos, mas mesmo assim eles precisam prestarcontas à comunidade onde vivem. Precisam ir a julgamento.- Mas, isso já aconteceu. Foram punidos, foram condenados e coube a mim, sobordens de Deus, ocultar pra sempre tais criminosos! O padre Benedes pensou: “De todos... esse é o mais louco”!- Não estou entendendo.- Mas vai entender já já! Durante alguns segundos o padre Benedes ficou entre sair do confessionárioou esperar, mas, repentinamente a cortina abriu e uma alegoria vermelha começoua saltar em sua frente, abrindo um tridente e chacoalhando o rabo, rindo de gaiato.Benedes, estupefato, levantou-se, cenho franzido.-E, agora, entendeu?- Ainda não. Quem é você? Ainda não estamos em fevereiro. O Gênio parou, desalentado. Baixou o tridente. Comentou consigo mesmo: -Sem moral! Completamente desmoralizado! E, ainda, com essa roupa de palhaçomedieval!- Quem é o senhor, se me pode dizer? – pediu Benedes, saindo do confessionário efechando o breviário com certo barulho brusco.- Eu sou... – estufou o peito para dizer pomposamente – Lúcifer! O padre Benedes olhou lentamente, de cabo a rabo, para assim dizer,aprumou os óculos, passou as mãos pelos cabelos pintados, coçou a ilharga ecomeçou a rir, desbragadamente, às bandeiras soltas, às escâncaras.- Lúcifer! Rá, rá, rá, rá, rá Lúcifer? Essa foi muito boa, conta outra! Que coisa delouco, mesmo; louco, louco! – De repente ficou sério. – Quer brincar comigo, seupalhaço? Pensa que tenho tempo pra perder? Mas, o Gênio não se fez de rogado, pegou a deixa e não aceitou areprimenda.- Ah! Então ficou nervozinho, heim? Vai mesmo me esnobar, padreco? pois fiquesabendo que Tonica acaba de se levantar, está se lavando, limpando o que ficoupreso nos pelos... O padre ficou lívido. Perguntou:- Como é que você sabe?- Já falei o meu nome. Mas você custa a acreditar... ainda... posso garantir que oseu pedido de empréstimo ao governo não passa na câmara. Será rejeitado, poisdescobriram que o seu interesse é aliviar os cofres públicos de recheio, não é? Alémdo que a cidade ficaria com uma dívida até o ano 2010. O Padre Benedes retrocedeu um passo.- Você deve ser agente dos fiscais!- Não, meu inimigo, não! Sou o anjo das trevas! – e sua voz tremeu.Coelho De Moraes 33
  33. 33. HISTÓRIAS DA ARCA DO VELHO Imediatamente o céu se fez negro, vestindo túnica de ventos e nuvenscinzentas, lançando coriscos prateados por todos os lados. A chuva desabousoturna sobre a igreja. Somente sobre a Igreja. O pároco não conseguiu fechar aboca e benzeu-se.- Não acredito em você! – Benedes gritou.- Mas, eu acredito em você e sei que o inferno está lotado, por causa da existênciade pessoas do seu tipo – e, o sol voltou escandaloso, ardente e súbito. O Gêniocoçou a barbicha. O rabo, com um volteio se aproximou do padre, que retrocedeumais um passo, retirando o crucifixo e passando a rezar.- O que você deseja... Anjo decaído?- Nada. Apenas vim para me confessar, mas, parece que são poucos os que levamsuas funções a sério neste planeta. – e, a voz do Gênio pareceu a dos narradoresdos antigos filmes noir, meio anasalada e veludosa. - Os terrenos merecem!Mostrei-lhes o fruto e me chamaram de Serpente Maldita. Quis esclarecê-los e meprenderam na pedra para que Abutre comesse minhas entranhas, eternamente.Sabia que o enxofre acabou há muito tempo? Desde que Sodoma e Gomorra foramdestruídas por aquelas bombas atômicas gastaram todo meu estoque. Benedes já estava escorado entre a parede e a porta da sacristia perto doaltar.- E, estou aqui, perambulando pela terra, tentando encontrar um motivo... um únicomotivo que explique porque eu sou tão amaldiçoado o tempo todo, sendo que nadafiz. Nunca matei ninguém. O primeiro assassino foi Caim. Eu apenas tinha dado umfruto a dois pelados que encontrei no caminho. Falaram que se eles comessem dotal fruto morreriam e, não morreram coisa nenhuma... por aí se vê que o mentirosonão sou eu, no entanto fui chamado de Pai da Mentira. E aí! Como se explica isso?- A culpa não é minha, Bruxo do Inferno.- É sim... também... pois você propaga essa informação por todo canto. Ainda porcima, na escondida, não cumpre o que prega, quer dizer, é um hipócrita! E, eu... – oGênio abaixara-se para pegar o tridente que estava no chão, – ... sou mandadopara as profundezas da terra, tomar desoladas ondas de calor e alojar bandosirremediáveis de pecadores. – Virou-se para Benedes: – Afinal, você absolveu ounão, aquela cambada?- Alguns têm pecado mortal, seu pai do Mal.- Detalhes Burocráticos. O Chefe está fazendo reformas, você sabia?- Que Chefe?- O nosso Chefe, Padre Benedes Pará Brasília Ruas; o nosso Chefe padreco! Nisso, o Gênio se espreguiçou e pediu água. Estava com muita sede, umavez que falara demais. Concluiu que ia zanzar pela cidade para ver se encontravasubsídio para a sua fé combalida, aproveitando para tirar a ridícula roupa. Devolveuo copo e partiu.5) Era bem tarde na tarde e o Gênio caminhava absorto e sorumbático, olhandopara uma ponte sobre o pequeno rio que cortava a cidade, chamado Ribeirão daEnxente. Parou por ali e se pôs a jogar pedregulho sobre a água. Às suas costas, osol descia para a noite e ela, a noite, veio se aproximando cautelosa, mas, bemescura. Não havia estrelas, somente névoas, nem lua, tão pouco. Breu soleneacampou sobre a cidade. O Gênio permanecia sobre a ponte e muitas vezes umtranseunte aconselhou-o a se retirar dali, pois a noite era de ninfas e duendes. Ogênio riu, mas, fingiu-se de assustado. Mais tarde, um velho se aproximou.Coelho De Moraes 34

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