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CURTA ROTEIROS DE CURTAS
 

CURTA ROTEIROS DE CURTAS

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COLEÇÃO DE ROTEIROS DE CURTAS METRAGENS BASEADOS EM ESCRITORES VÁRIOS, SEGUIDO DE ADAPTAÇÕES.

COLEÇÃO DE ROTEIROS DE CURTAS METRAGENS BASEADOS EM ESCRITORES VÁRIOS, SEGUIDO DE ADAPTAÇÕES.

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    CURTA ROTEIROS DE CURTAS CURTA ROTEIROS DE CURTAS Document Transcript

    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS CURTA os ROTEIROS de CURTAS de Coelho De Moraes Baseado em vários autores 2
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS A IGREJA DO DIABO Baseado em uma obra de Machado de Assis Diabo, Deus, capetas e anjosCENA I(O Diabo, capetas à toa em torno, está sentado, pensando,quando, sorri, e tem uma idéia. Mas logo desiste. Pésbalançando ao léu.. Repete o mesmo ato. Enfim se levantae estala os dedos).D: Vou fundar uma igreja! (anda, pensa e pega livros,buscando inspiração).A: Praquê? Seus lucros são contínuos e grandes.D: Sabe o que é? Eu me sinto humilhado com o papelavulso que exerço desde séculos, sem organização, semregras, sem cânones, sem ritual, sem nada! Vivo, porassim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos eobséquios humanos. Nada fixo, nada regular. (sonhador)Por que não teria eu a minha própria igreja? Uma igrejado Diabo é o meio mais eficaz de combater as outrasreligiões, e destruí-las de uma vez. 3
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASA: Vá, pois, uma igreja.D: Escritura contra Escritura, breviário contra breviário.Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhasprédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelhoeclesiástico. (os outros capetas se aproximam) O meucredo será o núcleo universal dos espíritos, a minhaigreja uma tenda de Abraão. E, depois, enquanto asoutras religiões se combatem e se dividem, a minhaigreja será única; não acharei diante de mim, nemMaomé, nem Lutero, nem Buda. Há muitos modos deafirmar: só há um de negar tudo. (D sacode a cabeça eestende os braços, com um gesto magnífico e varonil. Derepente se lembra).D: Licença. Tenho que ir até Deus para comunicar-lhe aidéia, e... (para não pegar mal entre os outros e ele grita)desafiá-lo! (os demais aplaudem. D levanta os olhos).Vamos, é tempo. (Sai em vôo, com estrondo).CENA II(Deus recolhia um ancião, quando o D chega ao céu. Osserafins param para ver o que é que há. Diabo deixou-se àentrada com os olhos no Senhor).Deus: Que me queres tu?D: (sorrindo) Não venho pelo vosso servo Fausto, maspor todos os Faustos do século e dos séculos.Deus: Explica melhorD: Senhor, a explicação é fácil; mas recolhei primeiroesse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que asmais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os maisdivinos coros...Deus: (corta repentina, mas, docemente, e o D cala com aboca aberta e no memos ponto em que Deus o cortou)Sabes o que ele fez? 4
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASD: (pausa) Não, mas provavelmente é dos últimos quevirão ter convosco. Não tarda muito que o céu fiquesemelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que éalto. (enquanto ele fala Deus concorda) Vou edificar umahospedaria barata; em duas palavras, vou fundar umaigreja. Estou cansado da minha desorganização, do meureinado casual e adventício. É tempo de obter a vitóriafinal e completa. E então vim dizer-vos isto, comlealdade, para que me não acuseis dedissimulação...(pausa. D está cheio de si) Boa idéia, nãovos parece?Deus: Neste momento vieste dizê-la... já legitima-la éuma outra cousa.D: Tendes razão, mas o amor-próprio gosta de ouvir oaplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria oaplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência...Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedrafundamental. (enquanto sai) .Deus: Vai.D: (retornando) Quereis que venha anunciar-vos oremate da obra?Deus: Não é preciso; basta que me digas desde já por quemotivo, cansado há tanto da tua desorganização, sóagora pensaste em fundar uma igreja?D: (sorriu de escárnio e triunfo). Só agora concluí umaobservação, começada desde alguns séculos, e é que asvirtudes, filhas do céu, são em grande numerocomparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasseem franjas de algodão. Ora, eu proponho me a puxá-laspor essa franja, e trazê-las todas para a minha igreja;atrás delas virão as de seda pura...Deus: Velho retórico! 5
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASD: Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossospés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da salae da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lençoscheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham decuriosidade e devoção entre o livro santo e o bigode dopecado. Vede o ardor, a indiferença, ao menos, com queesse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios queliberalmente espalha, ou sejam roupas ou botas, oumoedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias àvida... Mas não quero parecer que me detenho em cousasmiúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que estejuiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamenteao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negóciosmais altos.(Os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e bocejam.Deus interrompe o Diabo).Deus: Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a umespírito da tua espécie. Tudo o que dizes ou digas estádito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto;e se não tens força, nem originalidade para renovar umassunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha;todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivosdo tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião pareceenjoado; e sabes tu o que ele fez?D: Já vos disse que não.Deus: Depois de uma vida honesta, teve uma mortesublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numatábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que sedebatia já com a morte...D: (displicente) Ah! Então foi ele?Deus: O que disseste?D: Nada não... segui com a bela história... 6
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASDeus: Este ancião deu-lhes a tábua de salvação emergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e océu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?D: Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.Deus: Negas esta morte?D: Nego tudo. A misantropia, a solidão forçada, podetomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, paraum misantropo, é realmente aborrece-los...Deus: Retórico e sutil! Vai, vai, funda a tua igreja; chamatodas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todosos homens... Mas, vai! vai! De uma vez! (D vai falar e como dedo na boca e incisivo Deus o cala! Deus faz sinal aosserafins que começam a cantar. O Diabo sente que sobra,dobra as asas, e, como um raio, caiu na terra. Estrondo.Ele levanta tirando pó da capa e olhando para cima com oqueixo em riste e falando para si Tu vai vê).CENA III(Diabo com roupa de Beneditino proclamando nas ruas)D: Prometo aos seus meus discípulos e fiéis as delícias daterra, todas as glorias, os deleites mais íntimos. Sim! Eusou o Diabo, confesso. Eu o confesso que é para retificara noção que a humanidade tem de mim e venho paradesmentir as historias que as velhas beatas contam...velhas beatas. Sim!, sou o Diabo. Não o Diabo das noitessulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, maso Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza.Chamam-me assim, como que do Mal, para arredar-medo coração das pessoas. Vede-me gentil e airoso. Sou ovosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome,inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e umlábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...(alguns se aproximam com interesse) 7
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASD: Acreditem. As virtudes aceitas deviam sersubstituídas por outras, que eram as naturais e legitimas.A soberba, a luxúria, a preguiça estão reabilitadas, eassim também a avareza...H: Por que avareza, senhor?D: A avareza não é mais do que a mãe da economia, coma diferença que a mãe era robusta, e a filha umaesgalgada.H: E a ira?D: A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero;sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada (mudando devoz): "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"...H: E a gula? Fale sobre a gula!D: O mesmo digo da gula, que produziu as melhorespáginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope;virtude tão superior, que ninguém se lembra dasbatalhas de Lúculo, mas das suas ceias; foi a gula querealmente o fez imortal, Mas, ainda pondo de lado essasrazões de ordem literária ou histórica, para só mostrar ovalor intrínseco daquela virtude, quem negaria que eramuito melhor sentir na boca e no ventre os bonsmanjares, em grande cópia, do que os maus bocados, oua saliva do jejum? (alteando a voz) Prometo substituir avinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha doDiabo, locução direta e verdadeira, pois não faltarianunca aos meus filhinhos com o fruto das mais belascepas do mundo.H: Qual dessaS virtudes é a principal.D: (um achado) Quanto à inveja, é ela virtude principal,origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, quechegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.(O povo aplaude e quer tocar nele como a um artistafamoso). 8
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA IV(D está em um púlpito universitário. Fala para uma sala.)D: Nada mais curioso, por exemplo, do que a novadefinição para fraude. A fraude é o braço esquerdo dohomem; o braço direito é a força. Muitos homens sãocanhotos, eis tudo. Mas, acalmem-se... eu no exijo quetodos sejam canhotos; não sou um exclusivista. Que unssejam canhotos, outros destros; aceito a todos, menos osque não são nada. (aplausos) Mas, atentos! Ademonstração, mais rigorosa e profunda, é a davenalidade. A venalidade é o exercício de um direitosuperior a todos os direitos:- Se tu podes vender a tuacasa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, cousas que sãotuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todocaso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tuaopinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que sãomais do que tuas, porque são a tua própria consciência,isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e nocontraditório. Pois não há mulheres que vendem oscabelos!? O corpo? Não pode um homem vender umaparte do seu sangue para transfundi-lo a outro homemanêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão umprivilégio que se nega ao caráter, a porção moral dohomem? (aplausos. Ele faz sinal para que alguémpergunte)H: Sobre as injúrias, senhor!D: Combato o perdão das injúrias e outras máximas debrandura e cordialidade. Agora, não proíbo,formalmente, a calúnia gratuita, mas sugiro que seexerça mediante retribuição, ou pecúnia, ou de outraespécie; nos casos, porém, em que a calúnia fosse umaexpansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, 9
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASproíbo, nesse caso, receber qualquer salário, poisequivalia a fazer pagar a transpiração. (sinal para queperguntem).H: Sobre as coisas do respeito, o que que é que me diz?D: Declaro que toda a forma de respeito está condenadapois isso me dá uma idéia de certo decoro social epessoal. A única exceção é converter o respeito emsimples adulação.H: Sobre a solidariedade.D: (Olha feio, cheio de pompa, querendo saber quem fez talpergunta) Corto por todo a solidariedade humana. Amordo próximo é um obstáculo grave à nossa novainstituição. Essa regra é uma simples invenção deparasitas e negociantes insolváveis; ao próximo só sedeve dar indiferença; e, em alguns casos, ódio oudesprezo. (enquanto as pessoas apupam entre aplausos evaias)A noção de próximo é muito vaga e errada... cito a frasede um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani,que escrevia a uma de suas marquesas "Que se dane opróximo! Não há próximo!" A única hipótese em que elepermitia amar ao próximo era quando se tratava deamar as damas alheias, as deliciosas damas alheias,porque essa espécie de amor tinha a particularidade denão ser outra cousa mais do que o amor do indivíduo a simesmo, ou seja, quer mais próximo que você mesmo?...entendem? Não? Então atenção! Cem pessoas tomamações de um banco, para as operações comuns; mas cadaacionista não cuida realmente senão dos seusdividendos: é o que acontece aos adúlteros.CENA V 10
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS(Cena em que o povo se inscreve na nova Igreja. O Diabodesce o martelo, significando fundação. Aplausos).D: Sou o maioral. Triunfal!CENA VI(vinheta “algum tempo depois”)A: Olha, Diabo muitos dos seus fiéis, às escondidas, estãopraticando as antigas virtudes. Os bons hábitos...D: Como é que é?A: (manhoso) Não todas, nem integralmente, masalgumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certosglutões começam a comer menos... já fazem isso três ouquatro vezes por ano, sabe como é?, justamente em diasde preceito católico... em dia de festas de santos, porexemplo...D: Não é possível?A: Mas, é. Muitos avaros... sabe... aqueles velhos pães-duros... davam esmolas, à noite, ou nas ruas malpovoadas.D: Inacreditável!A: Vários dilapidadores do erário, em geral, quemtrabalha em prefeitura, devolvia o dinheiro roubado empequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ououtra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmorosto dissimulado, para fazer crer que estavamembaçando os outros.D: Estou... assombrado.A1: Alguns casos são até incompreensíveis, como é ocaso de um farmacêutico na China que envenenaralongamente uma geração inteira, e, com o produto dasdrogas socorria, agora, os filhos das vitimas.A2: No Cairo há um perfeito ladrão de camelos, quetapava a cara para ir às mesquitas. Quando o 11
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASinterpelamos ele negou, dizendo que ia ali roubar ocamelo de um drogman; roubou-o, com efeito, foi dá-lode presente a um muezin, que rezou por ele a Alá.A: E, pior, um dos seus melhores apóstolos era umcalabrês, varão de cinquenta anos, insigne falsificador dedocumentos, que possuía uma bela casa na campanharomana, telas, estatuas, biblioteca, etc... Era a fraude empessoa; chegava a meter-se na cama para não confessarque estava são. Pois esse homem, não só não furtava aojogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendoangariado a amizade de um cônego, ia todas as semanasconfessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquantonão lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas,benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se.D: Mal posso crer tamanha aleivosia! Assim não dá! Cadêo meu contabilista!CENA VI(Voou de novo ao céu, tremulo de raiva. Relata tudo –cena muda - a Deus, que houve tranquilo)Deus: Que queres tu, meu pobre Diabo. As capas dealgodão têm agora franjas de seda, como as de veludotiveram franjas de algodão. Que queres tu! Esta é aeterna contradição humana. 12
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS A PRINCESINHA DAS ROSAS baseado na obra de Fialho de Almeida, autor português (1867-1911)Personagens: Moça, mulheres, homens, crianças, um HomemCena 1[Noite com lua. Um rio ou lago tranqüilo. Uma barcade pesca. U’a moça ali deitada, usando uma roupaclara, longa, de linho, talvez, diáfana. A moça é muitobranca. Marulhar. Mãos preguiçosas tomam umpouco de água. Pescadores ao longe.Subitamente a moça se ergue e ouve. A cena éentremeada de fotos que correspondam ao relato].OFF: Lá nos confins do mundo, onde se acaba opavimento dos mares e começam as arcarias do céu, ouvidizer que está caído há muitos anos um pedaço de 13
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASabóbada celeste, e por ali entram as almas dascriancinhas mortas, ao colo de seus anjos da guarda.Cena 2[A moça andando pela praia. Em segundo plano vultos seescondem na escuridão, furtivos. Piers, redes, barcos,água, a lua. A moça se direciona a uma clareira. Há mesacom frutas – uvas, geléias, caldas, coisas que lambuzem -espalhadas. Ela anda em torno da mesa, sonhadora,deita-se sobre as frutas, deita com a barriga para cima,abre as pernas e trás o vestido para cobrir entre ascoxas.Tomada como se alguém espreitasse entre as árvoresenquanto a garota se revira sobre a mesa.]Cena 3[Manhã. A moça está sobre a mesa. Acorda subitamente,pondo a mão no rosto. Vê-se que ela tem asas bemfornida de penas. Ela olha e nota que alguém se afasta.A moça olha para três pontos, sempre tendo a noção deque algo estranho aconteceu num misto de curiosidade eassombro. Todas as tomadas são de distancia. Em todasas circunstancias, as tomadas do rosto da moça são emmovimento, girando ao redor dela, enquanto ela olhapara a lateral: Ponto a) Algumas mulheres nas pedras sepenteiam. Percebem que são vistas e pulam na água.Ponto b) Bando de crianças correndo. Todas têm chifres.Ponto c) algumas mãos saem da terra, como a escapar daprisão. A moça começa a chorar.]Cena 4[Mãos de pescadores puxando redes. Ouvindo o choro 14
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASaterrador eles param, soltam as redes e se dá a entenderque fugiram. ]Cena 5[Moça saindo da mesa. Ouve. A cena é entrecortada deimagens de fotos que correspondam ao que se relata aseguir. Enquanto ela se desloca lentamente.]OFF: Vem comigo ao meu palácio de estalactites cor desafira, onde há babilônias submersas. Guiarei vocêatravés dos pórticos. Não responda à interpelação mudadas esfinges. Abandona as asas e vem para o meu amor.Já rompe a manhã e as estrelas se apagam.[Na entrada da floresta, saindo da clareira, ela hesita.Obrigatória música de flauta solitária. Ela corre. Fogepela floresta atarantada, mas, pelo outro lado. Entre asárvores. Tensão e flautas. Várias flautas. As asas vão sedestruindo na correria.Corre tanto que sai na praia antiga e cai nas águas.]OFF: Vem, minha filha![A mão a agarra por trás e começa a puxar para dentrodas águas. A moça está aterrorizada e não quer, sedebate, mas vai levada.Cenas entremeadas de imagens.Imagens de castelos, orlas, lagos, órgãos de igreja.A sonoplastia acompanha os cortes das imagens.]OFF: Filha de sereia, o seu lugar é nos paláciossubmersos. Você foi deixada num cesto que aportou noprincipado das rosas... deixada por seu pai, covardepescador. Mas você é filha das águas. Filha de sereiase nunca será o anjo do Senhor.[U’a mão se aproxima e ela toma essa mão, se livrandodas águas. Agarra-se ao corpo que é visto somente por 15
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStrás. Ela está abraçada à ele. Soluçando. Ele a afasta.Toma das mãos dela. Dedo contra dedo. Ele sedirige para sua barca negra.]Ele: Você é muito fria.M: Acabei de sair das águas.E: Não! Não é o frio das águas. É o frio da sua alma.[Ela olha para trás temendo o retorno da outrapersonagem. Vê uma barca negra. Aquele era oBarqueiro - com capuz e cobertura. Não se vê o rosto.Mantém-se o marulho. Ela se aproxima e pergunta:]M: Você não partiu!?B: Estive com você essa noite. Desfrutei de você. Procuroa princesa das Rosas.M: Eu sou a primeira mulher dessa Ilha. Cheguei aquiainda criança.B: Vejo seu brilho nas águas. [Pausa para olhares]. Venhobuscá-la.M: Você vai se arrepender. Sou muita fria. As pessoasfogem ao meu toque. Você já percebeu isso.M: De onde eu venho todos são muito frios.[Ele dá a mão para ela. Ela sobe no barco e partem. Juntoao som de flautas o bater de um sino e a lua. Imagens deuma Igreja sob as águas.] 16
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS EM LUGAR DO RATOS baseado na obra de Viriato CorreaPersonagens: Gigi (G), seu Dedé (D), João Cotó (JC), uma mulher, Pedrão feitor (P)CENA 1[Gigi lavando seus pratos. Ouve barulho na entrada dacasa. O feitor trouxe um saco de qualquer coisa: farinha,arroz. João Cotó (JC) está comendo].JC: Atende lá, mulher. Que moleza.[Ela vai, meio zangada. Lá fora]G: Trouxe mais farinha, Pedrão?P: Pois é. E tenho novidades. Seu Dedé vem morardefinitivamente na fazenda [G sente uma emoção e olhapara seu marido, de costas, comendo. Câmara seaproxima do rosto de G. Ela começa a lembrar].CENA 2 17
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS[G entra pela janela do quarto dele. Beijos, abraços,amores, ela saindo pela mesma janela]P: Depois da morte do coronel, bem que estava faltandoo olho do dono, por aqui, não acha, dona Gigi?[Mais memória sexual de G].G: Ele veio para ficar?P: Parece que sim.[G volta a olhar para o marido que se espreguiça. Mixaimagens com sexo no quarto do rapaz].CENA 3D: Parto amanhã.G: [chorando] Vou com você.D: Você está louca! Impossível! Sou simples estudante.G: Eu fico sua servente, sua criada...D: Ainda vivo com a mesada que meu pai me manda...Você fica. Me espera.G: Eu não agüento. Eu morro antes.D: Eu concluo o curso e volto para seus braços.G: Volta mesmo?D: Certamente. Quando não fosse por minha família seriapor você.CENA 4[G na varanda com P]G: Faz cinco anos que ele se foi...P: É... parece que viajou muito...G: E nem escreveu...P: Como você sabe? Era o que o coronel dizia... nem umalinha daquele ingrato...G: Nem uma linha [G está meio estranha, olhar perdido].P: ... a única vez que disse alguma coisa era que nãovoltava mais para o sertão... [inclui cena de cama]. 18
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASG: Obrigado Pedrão... pela farinha [P sai tocando na abado chapéu. G entra e olha o marido que come feitoporco].CENA 5[Na cama, lado a lado a JC. G de costas para ele. Câmarafrontal à ela, lateral à cama.JC tenta aproximação]G: Já tomou seu banho?JC: Já... já tomei.G: E a boca lavou?[corte. JC resfolegando por cima de G. Ela olhando o tetocomo se em sacrifício]CENA 6[G prepara o almoço. Decide fazer um prato e pega nobaú veneno para rato. Faz o prato com o veneno. Fazoutro prato. Deixa o prato pronto o fogão para o maridoe sai].CENA 7[G chega na casa grande. D aparece na varanda. Seolham. Ela sorri. Ele não. Ela se aproxima. Encontra P naescada]P: Olha quem está aqui, seu Dedé.D: [virando-se, displicente] Quem é?P: O senhor já não se lembra? Gigi.D: Ah! Sim. Como está mudada [estende-lhe friamente amão. Imediatamente se vira a moça que está a seu lado,sorridente].Olha meu bem. A Gigi pode servir você. Émuito limpa e dará uma ótima criadinha. [se afastam. Gestá atônita e se apóia em P para não cair. De repente sai 19
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScorrendo para a estrada. Corte para sua entrada em casa.JC põe o prato e se prepara para a primeira colherada].G: Não coma isso [ele ouve]... é para os ratos... O seu estáguardado na geladeira...[pega e entrega a ele... G toma o dele e senta-se paracomer e começa, rapidamentea comer o prato o envenenado]JC: Você não disse que era dos ratos?G: [lágrimas escorrendo] Era brincadeira... erabrincadeira minha... 20
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS EM MEMÓRIA DE MIM Baseado em Miguel Sanches Neto M – Maria; J – José; S - SenhoraMaria raspou as camadas de tinta das paredes antigas epintou tudo de azul.M - Mudar a cor da sala é u’a maneira de tomar possedesse lugar... [mergulha o pincel e retoca mais uma vez]...mas serve também para enganar a solidão.[Senhora entra. Deposita algo encima da mesa]S – Gosta daqui?M – Não tenho certeza. Acredito que sim.S – Você deve se sentir em casa.M- Mesmo assim, não é minha casa. É do meu marido eeu não tenho amigos ou parentes na cidade, na verdade,a estrangeira sou eu.S- mas é uma bela casa. 21
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASM- Aqui estou como uma intrusa... a casa foi construídapelos bisavós do meu marido. Posso até sentir apresença de cada um dos ex-moradores do casarão...S- Então você não pode estar feliz. [oferece café ebolachas]M- Não queria ter vindo depois do casamento, mas,também..., fiquei sem coragem de contrariar meumarido, tão ligado à velha casa da infância.S- E filhos?M- Para que fosse mais minha, imagino muitos filhoscorrendo pelos cômodos, só que esse não era o desejo deJosé...S- José?M- O marido...S- Ele não deseja filhos.M- Ele quer apenas uma criança [ela faz sinal para oventre e a S põe a mão em sua barriga] - para continuar onome da família. Isso me anima.S- Sim. Terá companhia e talvez deixe de se sentir umaestranha. Por isso pintou a sala? M- [sorri] É... parareceber festivamente o filho, anúncio de novos dias.[imagens de uma casa formal, grave]S- pelo visto a casa mantém vivo o formalismo da famíliade seu marido.M- Exatamente. Eu estou acostumada à vida alegre dointerior...S- Acabou que estranhou este mundo sem prazer, dehomens religiosos.M - Pintar a sala, na verdade, foi um pequeno ato derevolta. Agora, era um espaço meu, assim penso.[corte][‘M’ coloca um vaso de flores na mesa e sai. No sótão ouquarto, mexe em velharias empoeiradas. Vai desistir. 22
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASDescobre um quadro virado para a parede - retrato aóleo de um jovem loiro de olhos azuis. Por um instante,teve a impressão de estar diante de algo vivo, tão intensoo brilho dos olhos. Pendura na sala. Olha o retrato e oretrato parece olhá-la. Alternância de dias enoites e elanada mais faz se não olhar o quadro. ‘M’ está absorta enão a ‘J’ entrar. Assusta.]J Lembrou de uma história que me contaram quandoainda era pequeno.[cenas de infância. A avó ‘A’ cujo rosto não aprece nacena. Sua vida foi rezar – cenas evidentes o crucifixo -fazer penitência e cuidar de filhos e netos. Esclerose]A- F de um homem de verdade nesta casa. [Quadroaparece na parede de seu quarto, no mesmo prego ondeantes ficava o crucifixo] José... olha! Esse é quem me dáalegria, a única paixão de minha vida, e agora possodormir todas as noites pensando nele. [‘J’ se zanga e fogepara o seu quarto enfiando a cabeça no travesseiro.Tempo para noite. O menino ouve. Gemidos no quarto daavó. Corte para ‘M’]M- Com certeza, ele não vai gostar de ver o quadro nasala, mas preciso impor, ao menos uma vez, o meudesejo. [ Foi para o antigo quarto da avó. Passeia por lá eobserva . Sonhos. Sexo com o quadro.][José chega. Malas na sala, ele a beija sem maiorinteresse, retira o retrato da parede. No lugar, uma fotoenvelhecida do avô., O marido lendo na biblioteca. ‘M’perdia-se pelo imenso quintal, observando nuvens ou océu azul. Solidões e distancias]Ficou imaginando se a avó de José tivesse engravidadodo amante. Teria sido rompida toda essa melancolia?Entre momentos de desespero e outros de simplesresignação, suportou o resto da gravidez. E a criança 23
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASnasceu loira e de olhos azuis, apesar de os familiarestanto dela quanto dele serem morenos.Assim que voltaram do hospital, mãe e filho passaram adormir no quarto da avó, por imposição do marido, queagora já não pode sair de casa sem se sentirenvergonhado e nem suportar o olhar lascivo do menino.que, indiferente a tudo, cresce alegre e inteligente. 24
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS MARA baseado no texto de Herberto Salles(Mata. O pajé. O Pajé e os Rios. O pajé e a noite. OPajé e seus utensílios de uso e vestimenta. Umacriança ao lado do Pajé. A criança.Mara já moça. Mara na floresta. Mara paradaolhando para as água se olhando para o chão,observando formigas, coçando o pé.Imagens do Pajé a ensinar pajelanças para Mara.Mara, muitas vezes, demonstra que não quer...nada quer.Demonstração, por imagens intercaladas, dopoder do velho). 25
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASMara na leitura do futuro, curando à distancia,transformando-se em animal, tornando-seinvisível. Pajé (abençoando-a com o tambor sagrado, falando em dialeto de velho): Todos os poder que índia Mara, mia fia possui... o mais minguinho deles até de pajelança, só serve se for pro bem, mia fia; jamais nunca pro mal.(Passam duas luas. Uma outra índia é picada porcobra. Pajé tenta salvá-la, mas ela morre.)P: Precisei diocê. Dionde de tava?M: Tava na cabicera do rio, buscano umasprantinha: os lírio amareli.(Chuva intensa).Índia outra: Pajé! Tá chuveno dimais. Parece coisafeita.P: Essa chuva num é da natureza.Índia outra: Parece di incumenda. A chuva tácaino num lugarzin só.P: Adonde, fia?Índia outra: Na minha roça de manioca. Tamelano tudo.P: Ou é castigo diargum deus ou é maléfiço degente.Índia outra: U povu ta triste, pajé. Ta infelicitano agente da tribo.P: Isso pode sê obra de uma força do mar. (pajéolha para Mara que está absorta ao longe,cruzando uns gravetos). 26
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: Mara! (ela para o que está fazendo a escutar).Mara! (olha de lado com certa dureza). To techamano, muiézinha. (Ela se levanta).P: To sabeno se suas mardade. Pois fica sabenoque posso mardizê vossuncê, tamén!M: Esses poder são meu. Já nasci co-eis.P: Mara!M: Posso fazê co-eis o que eu quisé. E na tribo temé munta mardade recramando punição. Paga demar com o mar e inté co’a morte, quano percisofoi. ( Mara faz um movimento e some. O Pajéentristece. Pega do tambor ritual e chama osdeuses. Entoa um canto monótono, lamentoso. Ficaem silêncio. Câmera afasta. Mostra a cabana.Cabana ao longe. Mais longe. Fade out lento.)(Fade in para o o Pajé pegando veneno e pondo nopeixe salgado pendurado num varal que Marahavia de comer. Ela entra repentinamente natenda. Pegou o peixe e jogou para fora. Pôs-se amorder u’a mandioca, cuspindo os pedaços nochão).P: Isso nué coisa que se come anssim.M: Não to comeno. To só mostrano que tenhovontade de come. (joga fora a mandioca).P: Mas, se ta com fome, pru quê não comeu opeixe?M: Pruquê minha fome num é de peixe venenado.E uma coisa lhe peço, meu pai. Num use no meude-comê de boca os seus poder de veneno. Vaisecá a mão de quem me venená desse forma.(outro movimento e se transformas em um animal 27
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASque foge. Num momento o Pajé toma arco e flechae aponta mas logo desiste. Fade out. Trazem umíndio entrevado numa padiola).P: Que qui sucede?Índia outra: Esse índio é caçadô, pajé. Tava caçanoquano ficou entrevado. Ele ia atirá num bichin daforesta quano ficou anssim. Nem se mexe co’asponta dos dedo.(Pajelança. Mara entra de repente).M: Entrevado ta. Entrevado fica até morrê defome. Pruquê tua boca não abrirá nem pra falá enem pra comê, por vontade minha. ( e saiu).(Sons e barulhos da mata. A câmara acompanhasos pés de Mara. Na porta da cabana ela para. Abrerepentinamente. O Pajé está pegando uma água dabilha apara beber. Ela olha. Laça a bilha, fala umaspalavras mágicas e a bilha se torna animal)M: Uma coisa lhe peço, meu pai. Não use nos meudi-bebê os seus poder de veneno. Pruquê fareisecá a mão que tenta me venená deanssim.(Dia seguinte. O Pajé sai pelo mato e vai para oaçude. Na beira ele a vê deitada dormindo.Rapidamente ele a toma e a afoga. Fade paraenterro da índia na beira do lago. O túmulo nabeira do açude. O túmulo sozinho. Fade para umtúmulo coberto de flores. Casal de índios seaproxima e pega das flores. Eles desfalecem emorrem ) 28
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O Caso do Pneu Furado Baseado na obra de Juan Angel Cardi A – Amiel, Kl – Kaiser Lupowitz, LC – Liorno Colino, VP – Vladimir Perea, o Tio, T-Trigo, R- Ronzo, AL Anatólia Lloveras) (enquanto os detetives entram na sala deinterrogatório) Narrador: - Tínhamos certeza de que ohomem estivera – entre as doze horas e cinquentaminutos e as treze e dez – numa casa de Miramaronde se escondia um perigoso infiltrado, o qualmantínhamos sob constante vigilância desde o exatomomento do seu desembarque, efetuado três mesesantes. 29
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS Bernardo Henares: - (o detido, comobstinação) Não. Não. Nada disso! Eu tenhotestemunhas que confirmam o que eu disse. Vladimir Perea (detetive): parece vídeo tapeque repete sempre as mesmas palavras e até osmesmos gestos e trejeitos. Amiel (capitão) – Insistam pela ultima vez.Sente-se bem, senhor Henares? BH – Fisicamente, sim. VP - E existe outra maneira de alguém sentir-se bem? A – Sim... Moralmente. Moralmente me sintomal. Tenho muito o que fazer e há mais de cincohoras que estou aqui... Colino (detetive) : O seu mais o que fazer, jáverifiquei hoje à tarde, é recolher frascos demaionese vazios para com eles fabricar lamparinasde querosene e vendê-las a cinco pesos cada. Naampla garagem de sua casa, no bairro de El Vedado...o senhor tem uma indústria artesanal e clandestina,onde explora várias pessoas, pagando-lhes um pesodiário por dez ou doze horas contínuas de trabalho. Amiel - Certamente isso é ilegal, senhorHenares. Pode estar certo, senhor Henares, quesentimos muito, mas também estamos trabalhando.Quer fazer o favor de nos repetir o queo senhor fez hoje, entre as doze e cinquenta e treze edez? BH – Outra vez? KL – Sim, senhor. Por experiência, sabemosque muita gente tem a memória curta. (BH encara 30
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASKL com ar sardônico) O fato, senhor Henares, é queuma companheira afirma que o senhor esteve hoje,entre as referidas horas, numa casa da Rua Terceira,em Miramar. E que o senhor deixou seu carroestacionado na Rua Trinta e Quatro, a duas quadrasda casa que o senhor visitou. Não foi isso? (BHimpassível) BH – Isso é impossível, tenente. Não se podeestar em dois lugares ao mesmo tempo. KL - É a sua palavra contra a de umatestemunha presencial. BH – Essa senhora pode ter-se equivocado.Em Havana existem muitos Chevrolets verdes. KL -– É verdade, mas apenas um com a chapanoventa e oito noventa e sete. BH - Se o outro carro, o que se encontravaem Miramar, estava fazendo qualquer coisa ilegal,naturalmente usava uma chapa fria. (Amiel tamborilava a mesa com um lápis.Perea estava encostado na janela; e Colino, com osbraços sobre o espaldar da cadeira, encarava ohomem com intensa atenção. KL - Afinal, onde foi mesmo que o senhor,disse que se encontrava àquelas horas? BH - Estava na Rua Mercaderes, a mil léguasde Miramar. Furou o pneu do meu carro e... VP - E de onde vinha o senhor? BH - De vários lugares. Não me lembro. KL - Que pneu o senhor disse que furou? BH - O traseiro da esquerda. 31
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS CL - E o senhor estacionou do ladoesquerdo? BH (rindo) – Não! Já repeti três vezes aotenente que parei á direita. KL - E o que o senhor fez ao estacionar? –perguntei. BH – Outra vez, oficial? KL - Sim, senhor Henares. Tenho péssimamemória. BH - Abri o porta-malas, tirei asferramentas e o pneu sobressalente, coloquei omacaco, levantei o carro, tirei o pneu furado,substitui pelo outro, apertei as roscas, baixei omacaco, recoloquei-o no porta - malas com o restodas ferramentas e o pneu furado. KL – Quando o senhor diz pneu quer dizer aroda completa? BH – Claro que sim. KJ - – A que horas mesmo o pneu furou? BH – Às cinco para a uma. Terminei detrocar o pneu a uma e vinte, por aí. VP – Por que demorou quase meia horanuma operação tão simples? BH – Os senhores não se cansam? Jáexpliquei isso também: aquela é uma rua muitoestreita, o que me obrigava a trabalhar do lado de lá,bem no meio da rua. Àquela hora, como acontecesempre, o trânsito era intenso, de forma que a cadamomento eu tinha que me levantarpara deixar passar os carros. 32
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS KL – Como soube a hora exata em que opneu furou? BH – Porque olhei o relógio, tenente. Tinhaum encontro com um amigo a uma da tarde. Quandoestava tirando as roscas, passou uma senhora amigaminha e por um instante ficamos conversando.Cheguei ao encontro um pouquinho depois de uma emeia. Quer que diga mais uma vez onde se deu oencontro? KL – Se isso não o incomoda... BH – Então vamos lá! Foi no Restaurante LaRoca. Meu amigo já fizera o seu turno e almoçamosmuito bem. KL – A que horas terminaram de almoçar? BH – Às duas e meia. A – Que fez o senhor ao deixar o La Roca,senhor Henares? – BH – Voltei para o meu trabalho. A – E onde o senhor trabalha? BH – Num café de San Miguel del Padron. A – E qual a hora de sua entrada? BH – Quatro horas. A - E a que horas chegou? BH – As dez para as quatro. Mas já dissetambém ao tenente que tomei umas cervejas aopassar por Concha y Luyano. A (parou de tamborilar, olhou Henaresdemoradamente) – Levem-no. Ele precisa descansar, BH (contrariado) – Até quando pretendemme manter aqui, sem provas? Afinal, 33
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASque fiz eu? Por que não chamam as testemunhas aque me referi? A (sempre paciente) – Acalme-se, senhorHenares! Vamos checar suas declarações com as dastestemunhas. BH – É que tenho um negocio importante afazer esta noite. A (enrolando o dedo na espiral do fiotelefônico) – Sabemos disso, senhor Henares.Sabemos perfeitamente qual o negócio que o senhortem planejado para esta noite. (BH mudou porcompleto a fisionomia, medroso e balbuciante.Colino teve necessidade de segurá-lo por um braçopara ajuda-lo a andar). A – Não é uma sorte para nós que essa espéciede gente seja feita de material tão frágil? KL - Alguns resistem mais. A – Mas o fato é que num determinadomomento todos acabam caindo de joelhos. VP - E que conclusão o senhor tirou dissotudo, capitão? A (andando pela sala) – O assunto estácomplicado, Vladimir. Se não podemos provar queesse indivíduo não se encontrava em Mercaderes,teremos de libertá-lo, pois não podemos retê-lo semprovas. E se o soltarmos, logo ele providenciará paraque os demais sejam alertados, especialmente ohomem de Miramar. Resultado: será suspensa areunião que tinham combinado, o que significa, emresumo, que irá abaixo a operação que preparamospara daqui a pouco. E, meses de trabalho perdido! 34
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS CL (retornando) : – Não seria melhor nãosoltá-lo? A – Aí é que esta a falha, Liorno. Para levar a caboo nosso plano precisamos prender um do bando,para que possamos tomar conhecimento da senhacombinada e conseguir, com ela, ter acesso ao lugarda reunião. Escolhemos para isso o tal Companys;mas ontem o infeliz bateu com o carro e agora estárecolhido ao hospital de Jaguey, em estado grave.Como eles devem saber, sua senha já não nos serve.Aí apareceu esse tal Henares. Agora sim,poderíamos provar que esteve ali, o processaríamospor cumplicidade com um agente infiltrado da CIA.Em seguida, consumada a operação, poderíamosacusá-lo frontalmente, porque ele, como você sabe éo chefe e teria que estar presente à dita reunião... CL – Mas isto não é uma falha, capitão! É um...uma... KL – Procure encontrar a palavra exata,Liorno, para que possa falar com o advogado. CL – Que advogado? KL – Conheço muito bem a mulher de Henarese sei que é muito esperta. Se o marido não chegarem casa antes das onze da noite, e já passam dasnove, ela certamente ira mobilizar um par desujeitos para que o localizem. Já fez isto outrasvezes. A – Ela sabe que o marido está envolvidocom um bando de contra-revolucionários? KL – Não. Certamente ele não lhe contounada, porque sabe que ela é muito indiscreta, 35
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASsegundo me assegurou tia Alberta. De qualquermaneira, ela sabe que Henares compra frascosroubados e que também anda metido com outrosnegócios escusos. (Pausa. KL mexe no tabuleiro de damas.Amiel, rabisca numa folha de papel, inclina-se paratrás em sua cadeira). A (para CL) - Vá chamar a senhora.(Corte. Mulher entrando. Anatolia Lloveras. Trintaanos, loura oxigenada, de estatura mediana, rostoagradável e corpo esbelto, cintura estreita. Senhorade si e sorridente). A – Sente-se por favor, senhora Lloveras. AL – Obrigada, capitão. A – Senhora, desejamos verificar sua declaração.A que horas a senhora disse que se encontrou com osenhor Henares na Rua de Mercaderes? AL – A uma em ponto da tarde. A – Como sabe que era exatamente essahora? AL – Porque ia almoçar no El Templete e deiuma olhada no relógio quando me encontrei comBernardo. A – Conversaram durante muito tempo? AL – Não. Apenas alguns minutos. A – Pode-se saber do que falaram? AL - Claro, tenente! Como 1he disse antes,falamos de coisas sem importância, nos limitamosquase a nos cumprimentarmos. Perguntei como iasua senhora. Ele me disse para onde estava indo.Enfim... 36
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS A – Desde quando a senhora conhece osenhor Henares? – perguntou Amiel. AL - Há vários anos. A – A senhora sabe que o senhor Henares foisentenciado? AL - Sim. A – E a senhora costumava visitá-lo nagranja onde ele cumpria pena? AL - Já lhe disse que não, capitão. Eu não tinhadireito a isso. Sua mulher é que o visitava. KL – Que espécie de relações a senhoramantém com esse homem? (AL endureceu afisionomia) A senhora tem liberdade de responderou não. AL - Prefiro não responder. VP – Que fazia Henares quando a senhorapassou por ele? AL – Afrouxava umas roscas com algo parecidocom uma cruz. KL - De que pneu ele tirava as roscas? AL – De um da parte traseira do carro. KL – A senhora almoçou sozinha no ElTemplete? AL – Sim. KL – O que a senhora almoçou? AL - – Sopa de aletria, galinha frita esobremesa. Ah! Também tomei um sorvete. KL – De que era o sorvete? AL – De chocolate. (KL olha A . Ele balança a cabeça) 37
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS A – Colino, acompanhe a senhora. E tragaTrigo. Faça com que sirvam café e refresco a senhoraLloveras. AL – O senhor é muito amável, capitão. (Corte direto para o rosto de Trigo) T– Os senhores dirão... A (enérgico) – Tenha a bondade de ficar em pé.(T obedece e resmunga) Qual o seu nome? T (zombando) – Venâncio Trigo Querejeta,natural de Havana, quarenta e seis anos de idade,casado, alfabetizado e residente na Rua Arnau semnúmero, subúrbio de La Lira. Passei pela RuaMercaderes a uma e quinze e vi meu amigoBernardo trocando um pneu, e então lhe disse:"Agora não deves encher de ar, deves por rumCoronilla", e então ele me mandou para a casa docaralho e eu... A (como Jó) - Leva ele daqui, Colino. T – Não me toque, que sei caminharsozinho! E o senhor, capi, quando vai me soltar? A – Logo que você esteja disposto a secomportar decentemente (outro dá de ombros e saicom certa bossa). Traga o outro, Colino. (O outroera um gordo, satisfeito, balofo, petulante,prepotente. KL faz sinal para A) KL – Sente-se, senhor Ronzo. (sentar-se brusco,olhou para A e este gira na sua cadeira e se voltapara a parede). O senhor nos disse que esteve em LaRoca almoçando com seu bom amigo BernardoHenares, entre uma e meia e duas e meia da tarde. Éverdade? 38
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS R (altaneiro) – Sim, senhor. VP – E por acaso ele lhe disse que lhe haviaacontecido algo? R – Sim. Me disse que um pneu do seu carrohavia furado, lá na Rua Mercaderes. KL – Disse também que vira alguémenquanto trocava o pneu? R – Sim. Que encontrara sua amiga Anatólia.E que pouco depois passara por ali um tal... um talde Frigo... Drigo... algo assim. KL – O senhor conhece a senhora Lloveras? R - Sim... Sim, senhor. KL - Como e quando? R – Foi Henares quem me apresentou a ela, játem algum tempo. KL - Por acaso não teria sido num bordel daRua Animas? R (surpreso) - Sim. Mas isso é coisa dopassado. A senhora se regenerou. KL - O senhor acredita nisso? R - Tenente, a Revolução... KL - Por favor, responda-me: o senhor crêrealmente que essa senhora tenha se regenerado?...(ele baixa a cabeça) Não quer responder? Pois eu lhedigo: Não!. Outra pergunta: pode dizer-me querelações existem entre ela e Henares? R – Não me imiscuo na vida privada daspessoas. Puxa! Mas talvez possa dizer que ela esta sesuperando. KL - Eu sei. Está estudando grego por contaprópria. E sabe por que? Para entender-se melhor 39
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScom os marinheiros mercantes dessa nacionalidade.Ela e Henares se especializaram em explorá-los. R – Eu não sabia disso. KL – Claro que sabe, já que vem emprestandosua casa para tais encontros clandestinos. R - Os senhores me vigiam? KL – Será que o senhor já não esteveenvolvido em atividades contra-revolucionárias? R (constrangido) – Para que lembrar issoagora? Já cumpri um ano de prisão. Já... KL – O senhor conheceu Henares na granja deMelena, certo? R(bufando) – Sim. VP – A que se dedica o senhor agora? R – A nada. Era proprietário de váriosedifícios, que me foram tirados. KL – Não! não lhe foram tirados. A Revoluçãoos nacionalizou, através de uma lei popular. OEstado não lhe paga um subsídio? R - Sim. Recebo seiscentos pesos mensais. KL – E por acaso o senhor não gasta mais doque recebe? R – Não, senhor. Vivo apenas do que recebo. KL – Seiscentos pesos mensais são vintepesos diários. Quanto o senhor gastou hoje noalmoço? R – Uns quarenta pesos, incluindo os aperitivos.Mas não faço isso todos os dias, tenente! KL – Pois sabemos que o faz com bastantefrequencia. R – Os senhores estão me vigiando? 40
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS Kl – Não, senhor. Não podemos perdertempo vigiando-o. Acontece, senhor Ronzo, que osenhor tem fama de petulante, pretensioso einsolente. No quarteirão onde o senhor mora, e quepor acaso fica bem próximo da minha casa, o senhorjá teve vários problemas com vizinhos, não é? R – É que o presidente do Comitê não fazoutra coisa senão implicar comigo. KL – O presidente do Comitê do seuquarteirão, senhor Ronzo, não implica com o senhor.(R começa a se abanar, nervoso) Ao contrário, é osenhor que se atrita com ele, porque quandoemborca alguns copos a mais começa a insultar aRevolução, e ele é um revolucionário. LC – Senhor Ronzo esta se sentindo mal? R – Não, não. É o calor. LC – Então, poderia nos dizer qual o motivodo seu encontro com Henares? R – Somente para almoçar. LC – Não se encontraram para tratar de algumassunto? (R fica mais tonto e se apóia na mesa. LClevanta os olhos para KL) KL – Responda: sim ou não? R (inquieto)– Foi Henares quem lhe disseisso? KL – Por que supõe que foi Henares que nosdisse? R – Não suponho nada, tenente. Eu...(emudece olhando para KL) KL – O que o senhor ia dizendo? R – Eu... enfim... 41
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS KL ( amigável) - Bem, senhor Ronzo, osenhor quer nos dizer o verdadeiro motivo doencontro, só para ver se coincide com o que nosdisse Henares? R (se agita) – Quero um advogado! A (sem se voltar) – O senhor não estáindiciado. Sequer está detido. Compareceu aqui como testemunha de seu amigo e com osimples objetivo de prestar algumas declarações.Compreende? R – Sim, sim, capitão. A – No entanto, se o senhor exige umadvogado para responder a simples pergunta, podefazê-lo. O telefone está às suas ordens. R – Não, não. Se não estou preso, não épreciso. Eu me precipitei. KL – Capitão, devemos compreender asituação do senhor Ronzo: o senhor Henares é seuamigo. O senhor Ronzo veio aqui apenas para ajudá-lo e agora se encontra diante do dilema de dar umaresposta capaz de prejudicar seu amigo ecompanheiro de prisão. Não é assim, senhor Ronzo? R – Sim. KL – Isso significa. Que o verdadeiro motivodo encontro era tratar de um assunto clandestino,ou secreto, ou particular... R - Era um assunto particular! KL – Está vendo? Isso não coincide com oque nos disse o senhor Henares. R – Que é que ele disse? 42
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS KL – Não iremos cometer a bobagem derevelar, senhor Ronzo. A (de frente) - Senhor Ronzo, não é verdadeque o senhor morava em Manzanillo, em 58? R – Sim. A - Não se lembra de um jovem que bateu naporta de sua casa, em busca de refúgio?(R não responde. Olha assustado). Não se lembra deque o dito jovem lhe disse que Masferrer e seusassassinos o estavam perseguindo? (R tenso) Pelomenos o senhor deve se lembrar que 1he bateu coma porta na cara, depois de chamá-lo de bandidorebelde. E logo depois o senhor não ouviu disparos?(R suava) Sabe que idade tinha aquele menino, aomorrer? Quatorze anos. Sabe para onde o jovempretendia ir? Queria ir para as montanhas lutar pelaliberdade e contra a exploração. O senhor sabe queaquele menino era o meu irmão mais moço e o maisquerido? (R está murcho) Levem-no, por favor. (VP eLC o carregam arrastado) Ai vai outro feito demerda.(Pausa. VP entra) VP – Que tipos mais cronometrados, vocêsnão acham? KL – Sim. Sabem seus papéis de cor. VP – A única coisa que não convenceu foi atal historia referente ao assunto que trataramdurante o almoço. A – Sim. Mas o fato é que não fizemosqualquer progresso. 43
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS VP – É provável que Ronzo tenha ajudadoHenares a preparar o álibi, esse álibi cheio dementiras cronometradas. LC – Mas por que prepararam esse álibi? A – Sabemos... e todas essas mentiras oconfirmam, que não pode ser outro senão Henares ovisitante da Rua Terceira. Sem dúvida, ele deve tervisto algo de suspeito antes de entrarou ao sair. Por isso preparou o álibi. Quem estava deguarda aquela hora? VP – Polanco. Ele também viu o Chevroletverde passar na direção de Havana. KL – Polanco é discreto e conhece o seuoficio. VP – Também lá estava uma viatura nossa,chapa fria; mas o motorista não viu nada, porquenaquele momento exato recebeu uma chamadaurgente da Chefatura. LC – É possível que tenha visto a presidentedo Comitê anotando o numero da chapa... KL – É difícil. Esses companheiros já nãocometem tais erros. Inclino-me a crer que o homemse assustou sozinho. Deve ter acontecido apenasalguém ter passado e olhado para o Chevrolet porsimples curiosidade. Isso acontece com frequencia.Não esqueça que essa gentesofre de mania de perseguição. Sabem que o povoestá contra eles e, por isso, qualquer um que osencara os faz tremer. VP – E não podia também ser uma tática? KL – O que você quer dizer? 44
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS VP – Que preparam álibis de antemão parapoderem realizar uma operação. KL – Vamos tomar nota disso, Perea, apesarde que, se fosse assim, o nosso infiltrado no bando,já o teria sabido. Enfim, estamos num beco semsaída. (o telefone toca. Amiel tirou o fone do gancho) A – Sim? (surpresa, preocupação) Hum!(desliga) KL - Que aconteceu? A – Lá embaixo há um advogado esperando.Vem acompanhado da mulher de Henares. Ela estáfazendo escândalo. LC – Diga-1hes que Henares não esta aqui,capitão. A (enérgico)– Não podemos fazer isso, Colino!(esmurrou a mesa) Perea, trate de libertar... (Nesse momento entra o "tio". Rosto sombrioe tédio). KL – Que está acontecendo, Tio? Pisaram-lheno pé no ônibus? Tio – Não! Lá embaixo, na rua, há um carroestacionado, e esse moleque malcriado estavatirando, com a ajuda de um prego, o ar do pneusobressalente que estava guardado – e muito bemguardado! – no porta-malas aberto. Agarrei omoleque, e sabem o que e me disse? "Que lheimporta isso, velho bobo?" KL - Espere, espere. É um Chevrolet ano58... verde? Tio – Sim. E o numero da chapa é noventa eoito noventa e sete. 45
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS KL – Tio, você tem certeza de que esse pneusobressalente estava cheio? Tio – Está me chamando de mentiroso? KL – Perdoe, Tio. É o meu estilo... A – Manolo, ai embaixo tem um carroestacionado. É um Chevrolet verde... Sim... O dopreso. Traga-o para o nosso estacionamento e queninguém toque nele. Aproveita e traz o preso... (saem para o estacionamento) Tio – Amiel, já perguntaram ao dono do carrose ele já consertou o buraco do pneu? A – Não. Por que? Tio – Porque agora ele dirá que sim. VP – E se 1he perguntarmos em que oficinaele fez isso? Tio – Dirá que foi ele mesmo que o fez. Tevemuito tempo para isso entre as duas e trinta e astrês e cinquenta. (o detido já está lá ao lado do carro. Tio olhao porta-malas. Passa a mão pela roda e pelo pneu,olha os dedos, sujíssimos, limpa com um lençobranco. Pensa, coça o queixo. Tio – Por que não viramos a roda? (VP ofaz. Tio a examina) Tinha que ser assim. Vejam o quediz esta etiqueta. VP (arranca a etiqueta) - "Casa de PneusSanta Catalina. Senhor: Bernardo Henares. Por umconserto no pneu: um peso. 2/4/62". KL – Como? Quer dizer que este pneu estavaha cinco anos sem sofrer um só remendo? 46
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS Tio – Também isso encaixa. Vladimir, quercolocar a roda no chão? (Tio fala no ouvido deAmiel, este faz um gesto de dúvida, coçou a barba e,consente.) – Tragam as ferramentas para desmontaro pneu. A (para BH) - Reconhece esta roda comosendo sua? BH – Sim... Sim, senhor. A – Então sabe que o pneu não está furado. (KL abre a válvula e o ar se esvai. BH baixa acabeça olhando o pneu. Em seguida o pneu foidesmontado por LC. KL enfia a mão no interior.Surgiram jóias). A (olhando o relógio) – Tenente, tem vinteminutos para mover um processo contraBernardo Henares! Leve em consideração osantecedentes. E proceda legalmente para que asjóias fiquem como propriedade do Estado. Colino,conduza o prisioneiro. Perea, diga a esse advogadoque se dirija aos tribunais populares. (enquanto semovem) Todos aqui de volta na hora habitual! Aoperação Tornado vai começar. BH olha para Amiel enquanto é levado. 47
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O DRAMA DE DONA ALICE baseado na obra de Viriato CorrêaPersonagens: desembargador Alves (A), Álvaro (2) e mais dois jovens, Nazareth (N), Silva (S), AliceCENA 1(Senhor A, elegante entra na biblioteca ou sala quetenha livros em abundância. Ruído de festas noexterior. ‘A’ deve usar uma bengala elegante)A: Os senhores aqui! As garotas lá fora esperandovocês e a rapaziada escondida. Isso é uma traiçãoum tanto suspeita!1: Conversamos literatura.A: Nessa idade não conheço literatura maisinteressante do que as mulheres.(faz menção parairem ao terraço. Luzes da cidade). Conversavamsobre versos, então. 48
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS2: Sobre teatro.A: Ah! Você é...?2: Álvaro... eu escrevo.A: E o que é que você escreve caro Álvaro.2: Estou escrevendo sobre um caso vulgar de rua,com certos toques de originalidade e vigor:é o casode uma marido traído que, depois de crivar defacadas a esposa infiel, arrasta-a para a rua paraexpor as suas misérias. Não lhe parece excelente? Éminha terceira peça. O público parece que estágostando.A: (meditando, sem tirar os olhos de Álvaro) Querque lhe seja franco? Não acho...2: Mas tem uma pegada excelente... Tem uma grandesacada.A: Permita-me a franqueza. Crimes dessa ordemexistem em mais e mil peças. Em teatro aoriginalidade é tudo. Não sei da originalidade quepretende dar nesse caso, mas, pelos traços gerais...No teatro, mesmo as coisas velhas têm que ter umtraço de originalidade chocante e imprevista. Osegredo do palco é justamente isso – o inesperado.Nesses crimes violentos tudo e tudo é banal. Até oruído, que é a maior banalidade da vida. Queinteresse pode ter para o público um marido quemata explosivamente a esposa? O público vê issotodos os dias... No entanto um imenso interessedespertará a corte que for cercada de circunstanciasimpalpáveis, intangíveis, obscuras, misteriosas... (elaentra para sentar-se na biblioteca, seguido dos trêsjovens). Conhecem, por acaso, a história de Dona 49
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASAlice?3: Sim. Aconteceu a três anos. Era dia de baile, amulher meio louca abre o guarda roupa onde estavao amante, já em decomposição.A: Conhecem bem mal essa história... como todagente. O que há de interessante não é o fim dahistória... mas o seu desenrolar. Isso sim dará umaboa peça de teatro. (A se põe a lembrar) O caso deDona Alice me comoveu. Não há imaginação maisrica dos que os fatos da realidade. A maissurpreendente fantasia humana não supera certasfantasias da realidade.1: O senhor bem essa história?A: Nos seus mais profundos detalhes.CENA 2(Enquanto passam os créditos. Alice e o namorado.Namoro no portão. Noivado, dedos e aliança. Cenasdo casamento de Alice. Alice deve ser uma mulhermuito bela e alta, com boas formas. Retorna-se comAlice em pé e a câmara se aproximando chegando ameio corpo e olhar altivo).CENA 3A: Amigos, o casamento é uma frutificação e osfrutos só têm bom sabor quando maduros. Não sedeve casar jovem. Eis um conselho. Volta e meiavocê encontrará alguém que lhe parecerá a tal daalma gêmea. Pura balela.(entra o marido de Alice, o Nazareth e a cena 50
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStranscorre como se fosse na época da históriacontada, é claro, sem a presença dos jovens).N: Alves... Alice está muito mudada...A: Também percebi... infelizmente...N: isso foi depois que o tal do Silva começou afrequentar a casa.A: Isso pode ser... será que você não andouesquecendo sua esposa?N: Como assim...A: Você sabe... hoje todo mundo fala em você... ummédico bem sucedido... o seu nome é que está emvoga... (intercala-se tomada do tal Silva e DonaAlice).N: Devo ter deixado Alice de lado... um pouco...Masesse tal Silva parece um gladiador romano... asmulheres caem por ele como moscas...A: Um tanto rico, também... e outro tanto ocioso.N: faz esporte... muito esporte...mas, saiba que temuma lesão (aponta a região do coração)... parece quecardíaca.CENA 4(Alice na varanda, contra a noite ou luz da lua. Algodiáfano. Intolerável calor. Alice esta com uma roupasensual de seda.. Somem N e A)Alice: Ele vai fazer uma conferência médicajustamente no dia do meu aniversário. Resolveucomemorar na véspera... (ela entra, e da sacadasurge o S, parando no reposteiro da porta, vendo amulher). 51
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA 5(Festa na beira do Rio. Ou um chá íntimo. Algumacoisa com cadeiras e mesinhas, em diversão semalgazarras. Tomadas gerais. A observa que Alice e Strocam olhares. As pessoas saem. O local se esvazia.O rio, a fluência, o barulhinho das águas. A e Ndescem uma rampa qualquer. A nota, sorrateiro queAlice passa, sobre uma mesa, uma chave para S.)CENA 6(Noite. O S entra com sua chave. Alice o espera nacama. Ele sobe as escadas ou passa pelo corredor.Alice se prepara com algumas auto-carícias. Entra oS, que tranca a porta do quarto e se deita ao ladodela, mas quase que imediatamente, sem cortes,batem à porta do quarto. O casal se assusta).N: Alice.(Ela e S estão atarantados e seminus. N continua abater na porta. Decidem por colocar S no guarda-roupa dela. Em seguida, N entra tranquilamente)N: Perdi o trem... por dois minutos... e olha quem elenunca sai na hora.A: Por que só veio agora? (enquanto fala se encostano guarda-roupa)N: Ficou preocupada, hein? Fui a uma central de e-mails pedindo que transfiram a conferência.(enquanto fala vai colocando um pijama ou roupão)Aproveito e corrijo uns pontos fracos (e sentou-se àuma escrivaninha no quarto, com computador. Elaestá meio chocada, recostada na cama, trocando 52
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASolhares entre o guarda-roupa e o N. Então a portacomeça a se entreabrir. Troca de tomadas entre N –que trabalha – Alice e e porta. N nota. Olha para amulher. Dá um sorriso. Tranca com violência aporta, às chave e a joga sobre a escrivaninha). Sequiser, querida, pode dormir, pois vou trabalhar anoite toda. A luz do vídeo incomoda você?CENA 7(Tomada da ponta da bengala de A, batendo no chão.Subindo para seu rosto enquanto ele encara osjovens)A: Tivesse eu virtudes e talentos de dramaturgo efaria cair o pano para começar o segundo ato. Nãoacham? (pausa para pensar)Nazareth escreveu anoite inteira. Mas aí, pela manhã, talvez por causa doesforço da noite ele estava doente. Tomou umascápsulas de remédio, resolveu tomar um banho, maso fato é que só saiu do quarto quase meio-dia.(tomada da saída para o banho, coma ajuda de Alice.Ela se aproxima do guarda-roupa, com a chave, e aoabri-lo, S está morto e nu. Toca a sineta. É donaRicardina, uma perua, uma visita. O morto érecolocado no armário).R: Parabéns pelo seu aniversário. (entrega flores.Alice está apreensiva).Alice: Obrigada.R: Não pude vir à sua festa de ontem, minha querida.Alice: É que Nazareth iria viajar.R: Você bem sabe como gosto de uma festa.N: Você está escondendo algo querida? 53
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASAlice: (assustada) Como? Não! Dona Ricardina...R: Hoje é o dia exato do aniversário de Alice, não éNazareth...N: Com certeza, Ricardina, mas entre...R: Temos que fazer uma nova festa.Alice: Não ... não é preciso... eu não quero...N: O que é isso, meu bem... Ricardina tem razão... odia certo é hoje...Alice: Mas, você está doente, Nazareth.N: Já estou bom. O banho me restabeleceu.Alice|: Mas, eu não quero festa..,. não quero!N: Teremos festa... e é pra já... (toma do telefone edisca) onde já se viu... alô... é da casa do Silva? Eleestá? (fecha no rosto de Alice).CENA 8(Cena de festa com muitos cravos vermelhos. Umafesta pop. Muita música gente por todo lado. “A”passa pelas salas, como se fosse um ser alheio ácoisa. “A” encontra Alice em um dos salões. Estáatraente. Maquiagem que mostra em estadoprecário. Um ar de sonâmbula. Copo na mão.)A: Trago a notícia de que o Silva não vem... não sesabe o que aconteceu... a família está desesperada...ele nunca dorme fora de casa.N: (tomando A pelo braço) Certamente estará por aíem alguma rapaziada. Vamos à festa. (passam porAlice. Ela acompanha os dois e a cena se enevoa emclima azulado de nébulas e tédios. Ela sai emdesesperos. Toma dos braços das pessoas, indagaalgo que as pessoas desconhecem, até chegar a A, 54
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStomando-o pelo braço, retirando-o do círculo deamigos, levando-o à uma janela).Alice: Não está sentindo um cheiro no ar?A: Não.Alice: Não é possível... eu sinto um cheiro mau...forte...A: O único cheiro que sinto é desses cravos... nadamais. ( e saiu pelo meio da multidão em direção aoquarto. Procura, fecha janelas, fecha portas, fechagavetas, encosta um material pesado na frente doguarda-roupa, sai para o corredor, encontra A).Alice: Você não está sentindo um cheiro horrível?A: (observando-a como quem vai dar a deixa) Sim...estou sentindo.(Alice recebe um baque. Grita desesperadamente.Sobem pessoas. Ela os encaminha para o quarto eabre o guarda-roupa. Tomba o cadáver apodrecidodo S. Chega o marido.).CENA 9A: Aqui termina a peça. ( o som da festa aumenta)2: Por que não escreve, desembargador?A: Já disse que não tenho talento algum para isso.2: Só por isso?A: è que ainda não estou completamente senhordesse drama. Não sei, por exemplo, que papel meuamigo Nazareth, realmente desempenhou nessahistória. Será que ele desconfiaria da mulher?(tomada dele entrando no quarto por ter perdido otrem). Será que ele a viu dar as chaves ao amante eno quarto, claramente o trancou no armário? (cena 55
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASfechando o guarda-roupa), passando a escrever anoite inteira, de propósito? Não terá isso, tudo isso,uma vingança horrenda, por causa daquelaquantidade imensa de cravos espalhados por aí?(tomada de cenas da festa).1: Que lhe parece?A: Estou tentado a acreditar que o foi ( olharpensativo de A . tomada da cena em que A vê Aliceentregando a chave. A bate no ombro de N quedesaba a cabeça desalentado sobre o ombro e senta-se sem ânimo na cadeira. Retorno para o olharpensativo de A que se transforma em um sorriso demofa e um dar de ombros em seguida). Mesmoporque, para a intensidade do drama , é necessárioque assim tenha acontecido. (faz sinal para osrapazes, e se retiram da sala. Fecha na bibliotecacom um leve som vindo da festa). 56
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O ENCONTRO -baseado na obra de Marta Lynch – personagens: Homem, Mulher, Gordo e pessoas nas ruas.O carro na noite. Pode ser um táxi. O hotel. A mulhersai do carro olhando a fachada. Ela está um tantoséria. Entram. O recepcionista tem que ser gordo.Ele tem um lápis apoiado na orelha. Sua muito. Temum leve sorriso canalha. Olho no olho.Ela pensa: “ Talvez sejam sempre os mesmos emtodos os hotéis”Uma geral dos móveis e ambientes. Um ar de falsaaristocracia. As mãos dela tocam objetos. Olhacuriosa para tudo. Um relançar de olhares entre ostrês como se não confiassem um no outro.O casal entra no quarto. As paredes. Cada parede 57
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStem um tipo de abordagem. Ora campos, orasensualidade, ora flores, ora geométricos.Testas suadas do casal que tira a roupa lentamente.Estão sérios. Ela observa seus sapatos e calças.Ela pensa: São seus sapatos e calças que eu queria àluz do dia.Ao longe o barulho de trens e barcos.Dentro do carro.Ela: Ficamos aqui. O resto do caminho faremos a pé.(O casal caminha sem dar as mãos)Ele: Aceitar. Deixar a coisa do jeito que é. Do jeitoque está.Ela: Você está preso a uma outra vida. Nem melhor,nem pior. Apenas uma outra. Distinta. Falsamentedistinta em que a carne é uma coisa e o espírito éoutra.Ele: Nesse hotel não podemos. Tem muita luz. Nãopode ser.Ela: Aceitar. Deixar ficar, não é?(fichas para entrar no hotel do gordo)Gordo: Vão demorar muito?(o casal se olha e dá de ombros, dúvida)Gordo: São trezentos guaranis.(paga-se. Ele a olha. Ela morde o lábio. O gordo aolha. Ela suspira fechando os olhos e molha oslábios.)Entram no quarto. Cobrem os espelhos e fechamcortinas enquanto tiram as roupas. Apagam as luzes.Deixam o abajur. Sexo em penumbras e silhuetas. Sósuspiros. Ela correndo por um túnel. A luz lá no fim.Ela correndo para lá. Ou uma rua que desemboca 58
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASnuma praça iluminada. Traveling ao redor do casalsentado um sobre o outro. Se olham. Ilumina-se paragrande contraste. Se mordem. Se lambem. Atingemêxtase.Eles se perguntam a sua vez repetidas vezes: Quemé você?(cada um cai para trás respirando fortemente.Olham para o teto.O gordo anota valores em seu livro de pontos,molhando a ponta do lápis com a boca.Saem, do hotel. Param na beira da calçada sob a luzdo poste. Passam pessoas que os olham. Umadeterminada mulher passa. Olha para ela. Fixa oolhar. Se olham. E depois a mulher se vai, olhandopara trás.Entram no quarto.Nas paredes frases obscenas. Frases políticas. Frasesde amor. Desenhos pornográficos nas paredes.Sereia.)Ela pensa: “Nessa tarde é a minha história que euvou escrever aqui”.Há uma seqüência de olhares brandos e ternos entreo casal.Ela: Sinto cheiro de sêmen espalhado por todocanto.Ela para na soleira da porta. Ele a abraça e desce amão por sua coxa.Ela: Muita gente já gozou aqui. Mas o mundo nosparece alheio hoje.Ela se deita e abre as pernas. O homem se deita ecomeça a trepar porém a cada vez vai envelhecendo 59
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASlentamente. Ela nem goza nem se manifesta. Ohomem vai ficando muito velho. Se olham. Ela o olhacom curiosidade; ele a olha, velhíssimo, com ummeio sorriso de desculpa.Ela reforça os movimentos querendo gozar semconseguir. Ela sempre para qualquer ação para verse está ou não gozando.O gordo anota mais um valor em dinheiro, molhandoa ponta do lápis.Ela: nada do que eu disser...O gordo pega o telefone.Ela: ... terá valor algum para nós.O telefone toca barulhento no quarto. Toca uma.Duas. Ela atende. Ouve-se: Seu horário já acabou.(silêncio) Ela olha para o parceiro. Ele estáhumildemente velho, resgatando sua roupa.Envergonhado. Ela desliga e começa a pegar suasroupas.Ele: Não sai sem mim. (pausa) Me espere.Ela olha ao redor do quarto. Olha para a sereia.Ele (enquanto põe a roupa) Acho que é o cansaço.(pausa) Eu até me sinto perplexo com isso tudo.(pausa)Descem ao pórtico. Ele sai. Ela está atrás. Olha ogordo. Que dá um sorriso de boas noites. Ela olhapara porta. Sobre ela está escrito: “Deixa estar.”Ela pega táxi parado em frente ao hotel. Passa pelovelho parado na esquina. Ela o olha. Ele a olha. O táxipassa, dobrando a esquina. 60
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O ENIGMA DAS TRÊS CARTAS -baseado na obra de Roberto Arlt- elenco: (Sr. Perolet); menino(a) vendedor(a); Isadora Perolet); policial ; Inspetor ; DetetiveCENA UM[Perolet anda pela rua. Sente-se seguido e se virabruscamente. Mão no bolso verifica o revólver, comcuidado. Com temor ele se direciona ao local onde ovulto se escondeu. Alternadas imagens entre Peroletse aproximando e a coluna. Quando cruza a colunanão há mais vulto, apenas um menino(a) que vendequalquer coisa. O(a) menino(a) entrega-lhe umamensagem. Perolet a lê em off: 61
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: “Cruel Perolet, amanhã ou depois vou te matar”.[Assustado, um suor frio pelo rosto. Olha o meninoque o olha. Leva a mão como se fosse pegar orevolver. Pega uma moeda do colete e dá para o(a)menino(a). Perolet olha para os lados procurando oautor e sai, rapidamente].CENA DOISPerolet chega em casa. A mulher o recebe,arrumando o aventalIP: Chegou cedo hoje. [enquanto retira o capote]Aconteceu alguma coisa?[Perolet vai ao armário e bebe qualquer negócio.Depois, abre uma gaveta e pega uma carta. A mulherlê:]IP: Perolet, sabemos que você se dedica àespionagem. Vá embora para seu país ou matamosvocê. [ela fica assustada e fica sem fala. P pega acarta da mão dela amassa e joga no lixo. Detalhar olixo. Encosta-se no armário, olha para ela e cruza osbraços. Não sabe o que fazer].CENA TRÊS[P está no escritório. Mexe em algumas caixascuidadosamente. Tocam a campainha, ele estremece,quase deixa cair uma caixa. A mulher vem de lá dedentro e abre a porta, recebe uma carta. Seaproxima de P:]IP: Olha! [Ela entrega a carta. Ele a abre com certocuidado]P: Perolet. Sabemos que jogou nossa primeira carta 62
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASno cesto de arame. Você está brincando com fogo.[se levanta] É a terceira carta. Não sei mais o quefazer. Não temos empregados. Como é quedescobriram que eu joguei a carta no meu cesto doescritório? [a mulher está assustada] Estão mevigiando. [olha pela janela] E querem me matar.CENA QUATRO[Na Polícia. Plano geral: Conversa com um policialque faz anotações. O policial sorri, divertido,enquanto anota.]P: ...E digo para o senhor que eu desconfio até dapolícia, eu confesso... até da polícia.Pol: Tranquilize-se, senhor Perolet... fique calmo...P: ...mas eu não sou um espião... nunca fui...Pol: [amistoso] Tranqüilize-se... fica melhor para osenhor que se vá para casa. Descanse... tudo estáanotado... descanse um pouco...P: Mas o senhor tem que entender...Pol: Não faça caso dessas peças de mau gosto... issodeve ser coisa de algum de seus concorrentes. Osenhor é uma pessoa conhecida... bemconceituado...é natural que haja invejosos... [Peroletsai. O policial o olha sair e continua a escrever,divertido na sua escrita].CENA CINCO[Perolet e Isadora tomam um chá. Ela o serve]P: Resolvi que vou me tranqüilizar. Assim querem ospoliciais. Então, vou me tranqüilizar...IP: Mas o que é que eles disseram? 63
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: Disseram que tudo aquilo não era nada... com eles,não é nada mesmo... dizem que pode ser coisa dealgum comerciante velhaco... um concorrente... parame assustar...IP: [balançando a cabeça, ansiosa] Por que não vocênão volta para o Brasil? Eu ficaria aqui com meuspais e cuidaria dos negócios... se você quiser, éclaro...P: Ora, ora... tenho lá medo desses valentões? [toca acampainha. Eles se olham. A porta. Nervosos.Isadora vai atender. Rosto apreensivo de P. Ela voltacom um pacote. Ela vai para a cozinha. Grita. P correpara lá. Vê o pacote aberto. Um objeto metálico].IP: É uma bomba! É uma bomba. [P sente um apertono coração e cai no tapete].CENA SEISPerolet está de cama ou deitado em um sofá. IPentra apertando as mãos.IP: Tudo bem com você?P: Agora estou melhor.IP: Os policiais levaram a tal bomba para análise...P: Alguma novidade, alguma pista?IP: Não se levante... Trouxeram o laudo enquantovocê se recuperava.P: Então...IP: A bomba consta de um envoltório enegrecido, delata, contendo...[cara de muxoxo]... contendo umaporção de mousse de chocolate...P: Mousse de chocolate?IP: ... o laudo continua...a bomba é totalmente 64
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScomestível e, portanto, inócua. Na verdade é umabomba de chocolate [P põe a mão no rosto]. Querido[preocupada com a vergonha do marido]... noentanto, no seu interior tinha um bilhete...[ela passao bilhete, enquanto P lê, ela fala]: Perolet, te preparapara receber uma recheada de ferro, pregos edinamite. [Fade].CENA SETE[Inspetor chega na casa de Perolet. Vê o número dacasa. Bate. Entra. Perolet recebe um inspetor. Apertode mãos. O inspetor nota IP e de vez em quandolança um olhar no corpo da mulher. A cada olhar elase cobre com mais pudor].P: Inspetor?K: Kirino... Inspetor Kirino.P: Essa é minha esposa... Isadora Perolet.K: [batendo o calcanhar] Minha senhora.P: Nessa grande cidade tem alguém que deseja mematar. [O inspetor anota] Já recebei três cartas.Parece que ele não está mais se contentando com ascartas.K: Inimigos! O Sr. tem inimigos?P: Não! Não acredito que tenha. Mas eu sei que essaspessoas querem me fazer mal e estão informados detodos os meus movimentos. [os três se olham. IP e Pcomo que pedindo ajuda. K se levanta]K: Prometo trabalhar nesse caso. [sai. Da rua] Dareiprioridade máxima.[última olhada do inspetor nodecote de IP, que se retrai, recatada]. 65
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA OITO[Perolet saindo do escritório topa com outro pacote,maior ainda. Olha para todos os lados. Tomadas dorosto. Leva o pacote para dentro. Fica na dúvida seabre ou não. Hesita em cortar os barbantes e no fim,nervoso joga o pacote pela janela. Do alto ele vê queuma cobra sai de lá de dentro. Perolet parte para arua. Pega as cartas que tem no bolso e joga uma auma para a rua. De repente para em uma carta. E,abre atentamente. Imagem do panfleto: - A agênciaJuve oferece seus serviços aos senhor Perolet.Preços módicos. Discrição absoluta.CENA NOVE[Perolet batendo na porta com força. A porta seabre. Entra numa sala escura. O detetive estásentado com os braços sobre a mesa cheia de papéis.P o cumprimenta. Senta-se.DET: Sou o diretor da Agência e faço minhapropaganda através de circulares enviadas acomerciantes que figuram no guia telefônico.[Perolet olha em torno, inseguro] Não se surpreendacom nossas modestas instalações. O luxo exigedespesas que sempre são pagas pelo cliente. O que osenhor prefere? Uma eficiente investigação ou umaempresa que debitaria os móveis modernos na suaconta?P: O senhor tem razão. Isso é lógico e honradamentecomercial.DET: Eis o ponto. [pausadamente] Eis - o – ponto.Mas o Sr. Veio aqui para contar sua história. 66
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS[inclusão de passagem de tempo enquanto P conta,DET anota tudo, inclui aí a trilha sonora, até que oDET o interrompe]DET: Essa bomba... não era uma caixinha com areia?P: Não... estava cheia de mousse de chocolate. Mas,como o senhor sabe que era uma bomba falsa?DET: Se fosse verdadeira o senhor não estaria aqui.[Perolet faz um movimento em direção ao braçoesquerdo, pensativo. O DET, que anota tudo, se elevanum rompante, mirando Perolet e apontando-lhe odedo. Olhar sinistro e tolo].DET: O senhor é doente do coração.P: [gaguejando] Sim, sou doente. Como adivinhou?DET: [sorrindo] Não adivinhei, meu caro senhor...não sou dado a essas práticas de superstição...Dedução... Pura dedução... A minha espéciedetetivesca se fundamenta em deduções. A questãoé simples. Não houve nesses atentados intençãodireta de feri-lo ou matá-lo. Primeiro, as cartasanônimas, depois uma bomba de chocolate, depoisainda um serpente que, decerto, era uma cobrad’água ou de borracha. Enfim, seu caso pode serdefinido como de “agressão indireta”. Contra quemse acomete uma “agressão indireta”? Contra quemestá doente de algum órgão vital e pode morrerdurante intensa comoção. [P se abate].P: Simples e profundo!DET: Quem seria beneficiado com a sua morte?Quem herdaria seus bens?P: Minha esposa.DET: Ela tem vinte anos a menos que o senhor. O 67
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAShomem que o seguiu, que escreveu a ameaça no talpapel era, certamente, o amante dela. Mas, é claro,isso tudo ainda é especulação de minha parte. Estouapenas jogando com os dados. Senhor Perolet, ainvestigação completa lhe custará dois mil francos.Mil à vista e mil na entrega do culpado à polícia. [Pestá assustado]. Eu o levarei em pessoa, como provade minha capacidade e eficiência.[P está mal e aperta o peito]P: [num sopro de voz, enquanto tira o talão dobolso] Não esperava isso de Isadora! [Preenche umcheque] Tem certeza? [enquanto dá o cheque, atremer, o outro dá de ombros como quem diz:“Pode até ser, sei lá!”. Então, abre-se a porta e oInspetor aparece com 3 policiais.I: Finalmente pegamos você, Archibaldo Gomes.Agora você não escapa.[DET não se assusta, dá de ombros outra vez edevolve o cheque ao assustado P]DET: Acho que não terei tempo de utilizar isto, meucaro senhor.I: [enquanto se efetua a prisão] Senhor P, tenho asatisfação de comunicar que descobrimos seumisterioso inimigo. O golpe que estava tramando...uma secreta armadilha. Este homem, ArchibaldoGomes, português de nascimento e vigaristainternacional, esteve empregado, durante certotempo, numa companhia de seguros, tendo aoportunidade de informar-se de todos os contratosrecusados por motivo de doença cardíaca doproponente. Pesquisou o senhor. Inventou então, o 68
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASardil de perseguição e da tal ”agressão indireta”,oferecendo seu serviços de detetive particular àsmesmas pessoas depois de atemorizá-las comameaças. Tudo o que ele pode ter dito ao senhor épura invenção para chocá-lo... e matá-lo. As vítimassempre acharam que esse homem era umextraordinário detetive devido às suas lógicasconclusões... sempre resolvendo os casos a que sepropunha resolver... tudo bandalheira.P: [suspirando aliviado] Como descobriram?I: Nada demais. Interceptamos algumas de suascartas pelo Correio. A sua senhora nos deu maisdetalhes sobre mensagens e bilhetes e foi ela quemdeu a pista definitiva: ela nos falou do oferecimentode serviços que a Agência Juve deu para o senhor.Tivemos, então, a certeza de estar na presença doautor da “agressão indireta”, procurado pela políciainternacional. Uma discreta vigilância fez o resto.P: [entregando o cheque ao Inspetor] Senhorinspetor, se não morri até agora, com essasemoções, acredito que...DET: Senhor Perolet, fique tranqüilo. Não quero seudinheiro. Este é o meu trabalho, do qual muito meorgulho. Os homens de coração de cristal sãoaqueles que têm vida mais longa. [carregam osujeito].[P volta mais contente para a residência. Entra]P: [depondo suas coisas na mesa] Isadora, pegaramo criminoso. O nosso amigo inspetor fez um trabalhoexcelente. Ele chegou na última hora e zás... pegou opilantra [ao abrir a porta vê que Isadora está 69
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStrepando, de quatro, gemendo, com o policial do DP.Eles o olham. Ele olha o casal. Ela dá um sorriso. Pcomeça a morrer, deslizando para o chão. Enquantoela uiva cada vez mais. É necessário um toqueperverso de obscenidade, por isso o fade out finaldeve terminar sobre as palavras e gemidos dela. Depreferência, os seios dela balançando sobre a carado P]. 70
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O ESPELHO -baseado na obra de Manuel Mujica Lainez- Simon del Rey (judeu, português que finge ser espanhol, rosário na munheca, sotaque errado, persignações constantes, sem motivo, agiota, tem ciúmes da mulher) VisitanteDona Gracia (Mulher bonita, fidalguia discutível, seu dinheiro em dote aumentou as riquezas do marido, mais jovem, sensual) Emissário (meio galã) Juan de Silva (amigo do Simon) Soldados (representantes do governador) Juiz (terrível e autoritário) 71
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASSimon está em seu escritório. Ele observa a mulherem seus afazeres. Conversa com um visitante oucliente que de vez em quando olha a mulher,também, e recebe um olhar desconfiado de Simon.S: Não gosto de falar sobre minha linhagem real –daí vem meu nome – d’el Rey, mas... para não cairem pecado de... vaidades.( continua a escrever em cadernos ensebados. Luvasde meio dedo ).S: Dos judeus... só me interessa o pano.Visitante: O que?S: O pano... os tecidos que eles trazem para vender.(olha desconfiado para os lados como se esquece dealgo e se persigna intensamente, três vezes ). Boasroupas, alfaias e mantos. Roupas espetaculares deEuropa.( à noite no quarto. Escapulários e santos. Graciadorme. O quarto parece um altar, com velas... ele,com o terço na mão, tenta escutar o que Gracia fala...ela diz nomes... ele a acorda ).S: Quem é Diego? Quem é esse Gonçalo?(ele beija oterço).G: Do que é que você está falando, marido?(ajustando o travesseiro) Estou tentando dormir.S: Quem são essas pessoas? Diego e Gonçalo...G: Por que quer saber isso agora? (ela vira paraoutro lado ).S: Quem são esses homens?G: Eu tenho um primo que se chama Diego. Vivia emnossa casa. Não sei o que aconteceu com ele. Um dia 72
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASsumiu na guerra. Nunca mais o vi.S: E o outro?G: Que outro?S: Gonçalo e não sei mais quê?G: Gonçalo era meu tio... pai de Diego. Certamente eusonhava com eles, não lhe parece? (volta a dormir.Ele se levanta. Vai ao escritório contar moedas epensar).Pela manhã chega um Emissário.E: Trago boas notícias, Sr. Simon d’el Rey.S: Abre a boca e desembucha. O que ocorre peloChile?E: Seus negócios estão caminhando muito bem dooutro lado da Cordilheira dos Andes. E trago umpresente do seu sócio chileno...S: O velho Leon...E: Sim, o velho Leon... ele manda esse presente. Umregalo de alto valor ( e vai descobrindo o presentede um pano. Entrega o presente ao Simon, dentro dacasa, um grande espelho que brilha ).S: Um espelho!E: Um espelho... veneziano!S: Belo espelho! (ele o observa atentamente). Viajouem lombos de mula e passou por desfiladeirostraidores sem sofrer dano algum?E: Tivemos todo o cuidado... uma ordem do Sr. Leon.S: Dona Gracia! Venha ver.E: Ele dizia que o metal do espelho tem viajado pormetade do mundo!S: Dona Gracia, venha ver. Um presente...E: Diz ele que o primeiro metal do espelho foi 73
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStrazido por nada mais nada menos que Marco Polo...S: Provavelmente em uma de suas viagens à Índia ouChina... Dona Gracia! Se faz o favor?(ela se aproxima, faz reverência ao Emissário e ficadeslumbrada com o espelho. Ela olha o espelho eolha o emissário. Troca de olhares e sorrisos ecumprimentos. Ela se vê no espelho. No reflexo elaestá mais sensual. O marido e o emissário aparecemtambém por detrás dela . Há névoa e fumaça. Umcerto embaçamento).G: Não estou me vendo bem ( ela se mira e se move,fingindo e gostando )E: É um espelho antigo... está claro... mas previno aomeu amo que é nisto que reside o seu maior mérito.S: Sim.. sim... claro... muito formoso e... muito antigo(como se fosse conhecedor de coisas antigas)...muitos méritos...E: E... quanto mais antigo... mais requisitado, maisvalioso...(Coloca o espelho em frente à sua cama, entrepinturas de santos e estátuas de Jesus).S: Muito mais valioso...(O quarto solo. Luz pela janela ou veneziana. Oespelho. A câmara faz uns travelings curtos. Simonentra no quarto. Curioso. Se coloca frente ao espelhoe se assombra, se persigna e sai correndo do quarto.Repetem-se os travelings, como de retorno)( Ele dorme ao lado da mulher. Repentinamenteacorda. O espelho. Imagens alternadas entre ele e oespelho, travelings curtos. Câmara se aproximalentamente do espelho a cada tomada ). 74
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASS: Que demônios se passa com esse espelho? Eledemora para mostrar a imagem. Isso não pode ser...é uma coisa fantástica. Tenho a impressão de que aimagem que ele copia não é a do meu quarto. Pareceoutro aposento. Outro lugar.( ele se aproxima doespelho ) Parece que outras pessoas habitam as suasimagens. ( atrás de si pessoas passam pela imagem,sua mulher limpando as coisas, conversas do dia adia e ele se volta assustado só vê a mulher deitada ese volta novamente e se vê sozinho numa imagemnormal ).( Simon no escritório. Aparece Dona Gracia ).G: Simon... acho que esse espelho está embruxado.Parece enfeitiçado.S: E por que? ( meio rude )G: Porque hoje eu vi nele uma coisa que não é dehoje. Mas era de ontem.G: Já disse para você não me atrapalhar durante omeu trabalho. Não quero que contrarie minhasordens. Não posso perder meu tempo comassuntos... sem importância. ( ele está meio emdúvida na verdade ). Você está ficando boba, mulher( fixa sua visão em algum ponto, meio que perdido,segurando firme contra o peito os livros decontábeis. Resolve ir ao quarto, na ponta dos pés emeio temeroso enfrenta o espelho que lhe devolvesua imagem normalmente . Bufa, dá de ombros. Emoutro aposento ele se aproxima da mulher ).S: Tenho problemas maiores. Terei que sair de casapor uns dez dias.G: Mas, por que? 75
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASS: Tenho que viajar para receber a fazenda que mecoube por pagamento de uma certa dívida.G: Mais terras.S: Mais ( eles se olham ). Mais terras para nossariqueza. ( eles se olham. Simon tenta descobrir algono olhar de Gracia e vice-versa ) Tenho que fazer osinventários, assinar papeis. Coisas que somente euposso fazer. E é necessário fazer tudo agora poispara nós, portugueses, os ventos estão soprando nadireção de uma tempestade.G: Explique-se.S: Apesar de achar que já me consideram castelhanovelho e dependendo do que acontecer na políticalocal, o importante é estar bem com todos. Lembrados pilotos que mataram e dos portugueses quetrouxeram a notícia da rebelião no Reino dePortugal?G: E quando o senhor parte?S: Hoje mesmo. Sem demora.( corte para a partida, bolsas e sacolas )S: Me dói deixar a senhora Dona Gracia mas... deixo,também, as minhas recomendações. Não saia decasa a pretexto algum, a não ser, se quiser, paraassistir às missas. Quero que a senhora fiqueenclausurada como corresponde a uma mulher desua posição e importância. Como uma monja! Umamadrecita! ( ele se persigna, vai dar uma últimaolhada no espelho ). E sobre ele (aponta para oespelho) é bom nem se comentar. Se osrepresentantes da Santa Inquisição ouvem umaconversa dessas... de espelhos com imagens 76
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASatrasadas ou adiantadas, é certo que me botam nafogueira.G: Deve ser um defeito na engrenagem.S: Que raio de engrenagem, mulher.G: Ah! Sei lá. Na engrenagem dos reflexos.S: E o que é que a senhora entende de engrenagemde reflexos?G: Aprende-se, ora essa. Ou pensa que minha cabeçanão tem outras idéias?S: Shhh! É bom nem se falar nisso. Há tanto feiticeiroem Veneza que até pode ser que um deles colocoualgum tipo de bruxaria nesses metais.G: Quem sabe se com o tempo essa água do espelhose adormece e ele melhore, não é Simon?S: Água do espelho? (ele não acredita no que ouve)Mais idéias? ( Eles se olham. Se estudam ). A senhoraandou aprendendo a ler, por acaso?G: Eu não, senhor!S: Toma cuidado, mulher. Essa coisa de mulhersaber ler é coisa do capeta. Acredito que oprocedimento mais certo, por enquanto, é não olharmuito para este espelho... e, sobretudo, não deixarque isso se torne uma obsessão. E não exagerar...não exagerar jamais, pois o Diabo deseja que sempreexageremos nas coisas. Seja lá no que for. Atémesmo na fé.( imagens e idéias que mostram a passagem dosdias.)( Corte: a bagagem de Simon no chão aos seus pés.Imagens ao rés do chão. )S: Dona Gracia! Cheguei! Onde está a senhora? 77
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS( ela chega. Imagens do chão. Da canela para baixo.Ela está bem vestida. Fica bem próxima de S. )G: Como foi de viagem?S: Bem. O que está a fazer? ( ela tira a malotagemdele que vêm ao chão)G: Tira esse peso. Conta mais. Fale da fazenda.S: Temos a maior das fazendas. Terras que nãoacabam mais. Como você está bonita, Todopoderoso! Bonita como um navio dourado doInfante Don Henrique, com sua bandeiras vibrantesna brisa do mar.( por estas imagens dos pés vemos que ela começa atirar a roupa, tira meia e sapato, ficando de pés nochão . Ela sai, adentrando os aposentos). ( close de S.ele aspira o ar como se procurasse algo. Sai pela casacom o mesmo intento. Chega ao quarto. Velas. DonaGraça está nua sob as cobertas. Ele olha para amulher. Ele olha para o espelho, e faz para ele comose pedisse contas. Da nuvem das imagens apareceDona Graça trepando com o Emissário. Rostodesesperado do Simon a olhar o espelho).G: Vem, Simão! ( ele ouve, mas sem olhar para ela,ele se enrosca no seu lado da cama e finge quedorme. A mulher tenta alguma coisa, mas acabadesistindo e vira para o outro lado. Ele não dorme.Está desesperado. Nervoso. Morde as mãos.Relembra as cenas do espelho. De soslaio observa oespelho, temeroso. As cenas do espelho sedesenvolvem ao seu lado, quase em cima dele nacama e ela com o Emissário. Clímax. Corte: Manhã.Ele está a dormir, enquanto sua mulher se levanta. 78
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCorte: Ele vai ao banheiro. Lava o rosto, fala para simesmo ).S: Não! Agora não! Podem ouvir. Devo levá-la paraum lugar bem longe e acabar com ela. Essegovernador pode se aproveitar de mim e se vingar...não! Pensar melhor! Há um mundo de parentesorgulhosos. Esse governador me odeia como umcavalheiro odeia a um judeu... meus bens ficarãopara esses familiares que nunca fizeram nada...Diegos... Gonçalos... e ainda eu tenho que darpalmadinhas em seus ombros... tratar com eles...fazer negócios... não! Talvez lá na Cordilheira. Nanova fazenda! Como se fôssemos viajar paraconhecer as novas terras!( Simão volta ao espelho e vê que soldados oprendem no espelho )S: Não! Não me meterão a ferros! Eu é que saireiperdendo. Me prenderão por assassino da mulher!Esses mesmos vaidosos castelhanos que matariamsuas mulheres por menos que isso, não permitirãoque um português judeu faça o mesmo com umamulher castelhana, mesmo que ela tenha pecado.Acalme-se! Haverá ocasião para a separação. Agoraé acalmar-me e ficar quieto. Nada de mortes! Nadade mortes!( No escritório Juan de Silva o espera )JS: Grandes novidades! Crise política total! Enquantovocê esteve fora o governador determinou que osmoradores de origem portuguesa se inscrevam emuma espécie de cadastro especial e entreguem suasarmas. 79
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASS: Como assim, Juan?JS: Até agora mais de trezentos e setenta, Simon.Mais do que a quarta parte da população é deorigem portuguesa e já se inscreveram por ordemdo governador.S: E todos aceitaram sem reagir?JS: Todos, desde o mestre de campo até as tropasabaixo. Todos, com arcabuzes, espadas, adagas elanças. Desarmamento total!( Simon golpeia a mesa com furor. Vocifera )S: Não irei! Não sou português! Nunca fui português.Sou um real vassalo del Rey Felipe.( Graça entra )G: O espelho...S: Não me fale desse espelho! Não me faça lembrardele.( Simon está frente ao espelho. Observaatentamente. Mas o espelho está normal. Comonunca esteve.)S: Não tocarei nela. Não irei ao presídio por causadessa cadela cristã...( entram os soldados em sua casa )Sldd: Simon d’el Rey, trago ordem de conduzi-lo atéo governador por não haver cumprido até agora asordens sobre o desarme de portugueses.S: Tenho coisas mais importantes a pensar! O quequer o governador, afinal? Deixar-me louco?Sldd: Senhor, por quem sois... apenas fazemos nossotrabalho.S: Por que não me deixam tranqüilo com a minhaintranqüilidade? Como é que vou esquecer os meus 80
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASproblemas se vocês me torturam com essaestupidez?Sldd : Estamos apenas pedindo que o senhor...S: ( grita ) Eu não sou português!Sldd: O senhor tem que me acompanhar!S: Eu não sou... não sou português. ( um pega-pega )Sldd: O senhor virá comigo ao cárcere, Simon d’elRey. Por se rebelar contra a autoridade. Há queprestar informações.S: (rindo meio louco). Era só isso? Não meconduzirão ao forte para me justiçar? Apenas parauma simples declaração? Só isso? Eu digo a vocêsquem é o verdadeiro culpado disso tudo. É ele.. (emostra o espelho) Ele é o culpado... o maldito... o queme desgraçou a vida.(toma de uma estátua de metal de Jesus, olha paraela , furioso. Detalhar olhar e a estátua! Quebra oespelho. Um fragmento salta e gruda no rosto dosoldado que grita: )Sldd: Você me feriu! E agora vai ter que pagar porisso, seu canalha!(prendem Simon, aparece Dona Gracia e oEmissário, aturdidos com o acontecimento, semsaber o que fazer. Ele se afasta preso, manietado, ese volta para ver a mulher e o Emissário. Numatomada pelas costas do Emissário e Graça, queobservam a prisão de Simão, a mão de E aperta abunda de Graça. Logo entram na casa, muito juntos,em apertões e intimidades ).( corte para um Tribunal . Meio-corpo do Juiz.Câmera afastando Simon). 81
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASJuiz: Simon d’el Rey foi condenado por este júri,perdendo todas as suas fazendas e bens e riquezas,por tentativa de assassinato de um representante deSua Majestade; por ocultar armas a favor do inimigoportuguês e por ser um judeu herético que nãovacilou em lançar um Cristo contra a parede,quebrando um espelho em milhares de pedaços,depois de jurar que esse Cristo – ao qual ele chamoumaldito – era o culpado de suas desgraças. ( bate omartelo )( corte para o envelhecido Simon, com seu rosário,orando )S: Eu a matarei... Ave Maria, gratia plena, ora pronobis... com minhas mãos... Pater noster qui est incoelis... eu a levarei para a fazenda e a matarei...Salve Regina, mater misericordiae... longe de seusfamiliares... Credo in Deo patris... 82
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O ESPIRITO Baseado na obra de Arthur Azevedo CENA UM (amigos num restaurante ou lanchonete)A - O caso que vou contar passou-se há um bom parde anos, aqui na cidade mesmo, quando oespiritismo não tinha ainda esse caráter deseriedade... de coisa científica.B - Hoje muita gente ilustre é seguidora dessas leisespíritas...A - Isso, mas naquele tempo começava a ocupar aatenção e a roubar o tempo a algumas pessoas deboa fé. Entre essas figurava o Garcia...B - ...bom homem... 83
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASA - Exato, exato, cujo único defeito era ser fraco deinteligência, lembra?, defeito que todos lheperdoavam, até...B - Não era culpa dele.A - Exato... Ninguém tem culpa de ser burro. Garcianão se empregava absolutamente noutra coisa quenão fosse comer, beber, dormir e trocar as pernaspela cidade. Tinha herdado dos pais dinheiro osuficiente para levar essa vida folgada e milagrosa....B - só gastava o rendimento do seu patrimônio.Nada mais do que isso.A - Nada mais do isso... os rendimentos e só.B - Casou-se com a Laurinha, não foi?A - Foi e digo mais, que, não sendo formosa que oinquietasse, nem feia que lhe repugnasse era maisinteligente e instruída que ele.B - Justo. Esta superioridade dava-lhe certoascendente, de que ela usava e abusava no lardoméstico, onde a sua vontade e a sua opiniãoprevaleciam sempreA - Mas, o Garcia não se revoltava contra apassividade a que era submetido pela mulher :reconhecia que d. Laura tinha sobre ele grandesvantagens intelectuais e, se era honesta e fiel aosseus deveres conjugais, que lhe importava a ele oresto? Sim, que d. Laura já se não lembrava doFrederico...B - Quem era esse Frederico?A - Um elegante guarda-livros, que a namoravaquando o Garcia apareceu iluminado pela suaauréola de capitalista, 84
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASB - Pelo que posso antever o Frederico foi postoimediatamente fora de combate.A - E foi o que se deu. Ou para melhorar de situaçãoou porque pessoalmente o magoasse a vitória fácildo dinheiro rival, o guarda-livros Frederico, ainda d.Laura não tinha casado, mudara-se para São Paulo, enunca mais souberam dele, nem ela, nem o Garcia.CENA DOIS(passa o tempo. Imagens de casamento)CENA TRÊS(Fachada da casa. O casal na sala. Garcia meio semgraça)- E aquele teu primeiro namorado, Laurinha, comovai?- (fingindo indiferença) Não sei... Parece quemorreu...G - Morreu?...L - Pelo menos disseram-me que sim... em SãoPaulo... Não sei ao certo, nem isso me interessa. (focono Garcia que pensa muito)CENA QUATRO(reunião de mesa espírita, entre eles o Garcia e oscontadores da estória)A – Boa noite a todos. Um bom sábado.B- Soube que temos associados. Todos desejamconsultar a mesa giratória, evocar espíritose conversar com defuntos célebres. 85
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASC- Tive a oportunidade testemunhar algunsfenômenos na Inglaterra. Alarmantes!Impressionaram profundamente.B- Coisa que poria até o Sherlok Holmes com oscabelos em pé, não é?A- Agora, aquele ali (aponta para Garcia) é umamentalidade débil, incapaz de crítica e observaçãoimparcial. Ele não pensa mais noutra cousa a não serem almas do outro mundo.B –Sei que deseja evocar por meio da mesa giratóriao espírito daquele tal Frederico, apenas paraverificar se estava morto mesmo o seu antigo rival;mas está com receio, pois não quer que os colegasdo grupo, sabendo do namoro da sua mulher, otomassem por ciumento e ridículo.A-Vamos ajudá-lo.CENA CINCO(Sentaram-se os três e palmaram as mãos sobreuma pequena mesa de três pés, que em poucosminutos começou a mexer-se como um ser animado.G (voz sinistra e cavernosa) - Esta presente oespírito que evoquei? - Se está presente, dê duaspancadas! (A mesa inclinou-se duas vezes, eobedeceu). - Faça o favor de dizer o seu nome porletras do alfabeto – (continuou o Garcia no mesmotom. A mesa deu seis pancadas).A – F. Letra F.G - Adiante! (18 pancadas)B - Agora veio o R .G - Adiante! (5 pancadas) 86
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASB – E... letra E.A - F, R, E .G (em tom de comando) - Se é Frederico, de umapancada forte! (bate forte e quebra a perna da mesa.Garcia ergueu-se lívido e assombrado, gagueja) Estousatisfeito.A - Mesmo porque é preciso consertar a mesa.B - Com duas pernas é impossível fazer essetrabalho científico. É preciso métodos.(fim dos serviços da noite. Luzes se acendem.Cumprimentos)CENA SEISA – Boa a sessão da último sábado, não?B- Sim. Muito. Expressiva e elucidativa.A – Mas, o grupo quer mais. O que preocupa o grupojá não são os espíritos invisíveis nem os fenômenosda mesa, que poderíamos atribuir a simples efeitosdo magnetismo animal.B- Ah! O grupo procura pesquisas, então?A – Sim. o que todos ali desejam, agora, era ver umespírito materializado, e para isso já se empregaramgrandes esforços, mas sempre em vão.B - E o que farão?A-Bom. Me parece que nesse caso, unir o útil aoagradável.CENA SETE(rodoviária. Frederico desce do ônibus. Dirige-se àcasa do Garcia. Bate. Laura atende. Falam um pouco e 87
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASele entra. Garcia está se despede dos amigos, e deixa oescritório)G (pondo o paletó para sair fala com colegas) - O casoé que, justo nesta noite, é a da evocação do espíritodo Frederico. Vou para casa.C- Ainda é cedo, Garcia.G – É eu sei. Preciso me preparar... Pelo que sei, asessão será intensa. (G retorna, entra na casa e topacom o Frederico no corredor. Olhos estatelados. Nemfala nada. O outro sai. G o vê na rua e volta rápidopara o quarto da mulher. Ela, ouvindo-lhe os passosapressados, se sentara mais que depressa numacadeira de balanço, a ler um livro, fingindo a maiortranquilidade).G - Que quer isto dizer?L - Isto que, filho de Deus?G (nervoso, apontando a rua) - Esse homem queacaba de sair daqui?L - Um homem?! Daqui?! Tu estas doido!...G - Oh, senhora! Pois não esteve aqui um homem?L - Estás doido, repito.G - Eu o vi!L - Não podias ter visto.G - Vi, e era o Frederico!L (rindo) - Ora o Frederico! Um morto! Olha, sabesque mais? O tal espiritismo transtorna o teu miolo!O melhor é deixar disso!G (pensa, assustado) - Um morto... Sim, ele estámorto... e ele então materializou-se para aparecer-me... Não foi outra cousa! 88
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA OITO(No sábado, o Garcia apareceu radiante ao grupo)G - Meus amigos, tenho que lhes fazer umacomunicação muito importante (todos se olham,curiosos) descobri que sou médium vidente!A - Deveras?G - É o que lhes digo! Sábado passado, ao entrar emcasa, encontrei no corredor uma pessoaque morreu em São Paulo.B - Conte-nos isso. Você não teve medo?C - Eu? Nenhum! O espírito, sim, o espírito é que,pelos modos, teve medo de mim, porque assim queme viu deitou a fugir... 89
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O OUTRO baseado na obra de Viriato Corrêa Personagens: Binoca (B), Pedro Guandu (PG), Violeiros, Coronel (C), Mundoca (M),CENA 1(Noite de estrelas. Samba na rua. Violeiros emrepentes e duelos. Binoca entra no boteco. Todomundo para. Morenaça total é total. Tomadas docorpo, das chinelas, do colo, rosto e detalhes queapelem para a sensualidade da personagem.Enquanto isso rolam os créditos).CENA 2PG: (despejando uma colherada de café moído naágua) Aquela mulher foi o precipício de muita genteneste sertão. Muito homem de respeito, nesta terra,perdeu o juízo e a vergonha. O padre deixou cair ahóstia na hora da consagração. E o Bernardo 90
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASGameleira, jovem, com seu gadinho aumentando, talá na cadeia por que viu a moça na beijação com oMundico Tiririca. Passou a faca no macho. (fazendo ocafé, quebrando as rapaduras) Eu mesmo quase meperdia, despejando a carga da espingarda no DitoPinga-fogo. O sobrinho do major Macário botou casapra ela, até deu vestido com seda que range... e não éque a maldita tava esroscada com o Quincas Tucano,caboclinho ordinário de magrelo que cantava umamodinhas, sô. (bebem) Ao aconteceu o tal causo.CENA 3( Dia. Coronel chamando PG)C: Vem cá.PG: Sim, coronel.C: vai levar para a Binoca este presentinho (dá umpacote). É um corte de cambraia fina. (PG olhapasmo. O Coronel está um tanto tenso). É! PG , estoucompletamente apaixonado pela mulatinha. (C olhaos campos) Estava me contendo, por causa dapatroa, por causa da posição mas, não dá mais...aquela Binoca me escangalhou a alma. (voltando-separa PG) não me conta nada pra ninguém, PG. Calabem essa boca! Isso pode ser um desgosto tremendopara dona Violante!PG: Pode deixar, Coronel! Pedro Guandu é umtúmulo.CENA 4( Noite. O Coronel saltando do cavalo. A moça seaproxima e se pendura no pescoço do coronel. 91
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASTomadas á distancia, como se PG olha-se. Tomadasobre PG que suspira fundo, enquanto mordisca umcapinzinho).CENA 5(Dia. Homem chegando a cavalo. Filho do Coronel,seu Mundoca. O coronel acena para o filho e pega PGde lado )C: Olha lá, Guandu, se dantes era preciso segredo(sorri e acena ), agora é preciso muito mais. Se meufilho sabe que estou enfeitiçado...PG: Descanse, patrão!(encontro de filho e pai).CENA 6(na casa de PG, tomando café)PG: Foi um festão, lá na fazenda das Guaribas. Quemnão morreu se lembra de tudo ainda com saudade.Moço simpático, o tal doutor Mundoca. Não erasoberbo, bebia café na casa de qualquer pobre...mesmo assim quando o Coronel podia dava umaescapula pra casa da moça ( PG ri e bate a mão naperna). Só que numa noite de chuva...CENA 7( Noite, trovões, chuva. PG e o Coronel. Chegamperto da casa da moça. A porta está aberta. Ele descedo cavalo e dá uma piscadela para o PG e vai naponta dos pés. No escuro apalpando, segura o punhoda rede e descendo encontra a cabeça de um homemdormindo ao lado de Binoca. Puxa da faca e golpeia 92
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASvárias vezes. O Homem reagem e esfaqueia também,naquela escuridão, com chuva e trovões emevidencia. PG core para dentro quando Binocaresolve gritar. Os dois estão caídos. Um é o Coronel.O outro o filho). 93
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS QUADRâNGULO AMOROSO De Coelho De Moraes Personagens: dois casaisCENA 1Intercala-se as imagens de um Homem e umaMulher. Cada um em sua casa. Recebem, ao mesmotempo, e-mails, que dizem o seguinte:“Seu marido/mulher se encontrará às 23 horas, como/a amante na festa do Clube. ”No e-mail de cada um há um complementodiferente: “Ele estará vestido de príncipe com gorrodourado”. “Ela estará vestida de odalisca com véunegro”.Cada um deles resolve colocar a roupa descrita paraser abordado pelo traidor(a). 94
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA 2Na festa, após uma encenação em que cada umpercebe o outro. Há uma abordagem muda como adizer, : “te peguei. Onde está a pessoa com que vocêvai se encontrar!”No entanto, retirando as máscaras se percebemdesconhecidos. Meio aturdidos.CENA 3Um casal se ama frente a uma lareira, ou um quartoconfortável, com janelão.Ele: De onde você tirou essa idéia da duplamensagem?Ela sorri.Ela: Fico bolando um jeito de ver você, nada mais. Evoltam para os beijos.CENA 4O casal na festa se olha convidativos.Ele: Fomos enganados, então.Ela: Outra vez. Acho que isso acontece sempre.Ele: Um dia eles terão que pagar por isso. Ou não?Ela: Por que não hoje?Um toma a mão do outro. 95
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS QUARTO DE HORRORES baseado na obra de Dalton Trevisan Personagens: Maria e João, Mãe do JoãoCENA 1(Cena de casamento. Maria no banheiro para a luade mel. Sai do banheiro meio tímida, como camisolasde fitinha. Ela sai e grita. João está nu com umaflauta de bambu, pulando como um fauno à suavolta)J: Sou encantador de serpentes (e toca) eu sou ofaquir. Você é a serpente!(M começa a rir de depois começa a chorar. Cenamovimentada, um tanto confusa, cheia de volteios etonturas. Ele a joga na cama e tratar a cena comavanços do J com estertores e melopéias de flauta. 96
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASApós um tanto de vezes, M recusa e é espancada edesmaia. M acorda com J lambendo seus dedos dospés e pedindo desculpas e soprando a flautinha,repetindo-se as cenas de sexo... a coisa tem queencaminhar para um cansaço por parte dela, meioque nojo, enquanto o cara nem aí).CENA 2(Maria entrando na casa. Imediatamente topa umtapa).J: O que você foi fazer na rua, sua vadia.M: Fui visitar meus pais.J: Mentira, sua vaquinha. É na rua que se encontramos depravados.M: Não! Só fui visitar minha família... fui até a pé.J: É nas ruas que circulam as pessoas as pessoasdadas aos prazeres do sexo.M: Quando você era noivo era tão doce...agora...J: Agora...M: Agora essa medonha besta resfolegante ( ele dáum tapa)J: isso é por que você não quis desfilar pelada desalto alto... como eu pedi...M: (desesperada) Você quer rasgar uma calcinha pornoite... você está maluco...(ele toma da flauta que está na barra da cueca, tocaum pouco e enfia na boca dela. Ela se ajoelha pararezar. Fecha no rosto da mulher rezando. J tentaesgana-la e aí a puxa pelos cabelos ao redor da cama.Joga a mulher na cama. Deita-se sobre ela e vai parao meio da coxa. Ela grita por que ele a mordeu!). 97
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA 3Mãe J: ( chorosa) O prazer dele era me fazer chorar.Tinha acessos de demência, parece. É só olhar oformato da cabeça dele. De noite ele jogava álcoolem sapos e botava fogo neles. Pareciam bolassaltadoras. Ele nasceu de fórceps. É isso.CENA 4(Quarto em semi-escuridão. Vê-se a porta da salaentreaberta, luz vazando, e M a gritar para ele parar.J a espanca. A porta se abre e M é lançada na cama, achorar. Da porta entreaberta se vê que J estájogando baralho).CENA 5Enquanto ele dorme ela foge para a casa dos pais.CENA 6J fazendo serenata jurando eterno amor.CENA 7(Chegando em casa com a malinha. Ele começa atirar a própria roupa e puxou da flautinha. Cortepara a rua e a janela onde vemos sombras commovimentos obscenos com ou sem flauta. Corte paraos dois na cama , ele dorme, ela não. Ela rouba aflauta e volta para a cama.CENA 8(Ele está tomando café e trêmulo. Ela o serve 98
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScarinhosamente. Ele se abraça a ela. Migração dasfolhas do calendário. Passa uma semana. Pode haverintercessão das cenas do calendário e dos momentosde paz.)CENA 9(Ele chega trazendo uma nova flautinha e um sorrisode mofa nos lábios. Corte para a noite com velas ecores vermelhas, despidos, ele quer que ela chupe aflauta, bate na mulher, lambe o corpo da mulher,toma de um punhal e investe contra a mulher. Todasas cenas com cortes rápidos. Deposita substanciasno copo de M, prende-a no quarto).CENA 10M: Estou grávida! (ela abre a camisa, barrigapequena, ele cospe na barriga e a expulsa da cama,empurrando com o pé, e se abraça ás flautas, sãovárias. Ela o olha e se deita. Ele começa a tocar aflautinha. Ela começa a se manear de acordo com amelodia e retira o vestido e se põe voltada de quatropara ele, esperando...) 99
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS TENTAÇÕES DE UMA POBRE SENHORA sobre obra de Dalton Trevisan Personagens: João, Maria, policiais (3), porteiro, homens de encontroCENA 1(João entra com Maria no colo. Ela vestida de noiva.M sob os lençóis. Luz na sala. Ela vai de manso paraespiar pela fresta da porta. Vê o João bebendo).CENA 2(O casal saindo do cinema, beijos no jardim, M nobanho, M sob lençóis. M vai espiar e o J estábebendo).CENA 3(M prepara alguma coisa e bota na bebida do J. Saiua beber na rua. J no bar com os amigos. Retorna 100
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStrôpego para casa. Entra e tira a mulher da cama. Mé levada para o chuveiro. J quer tomar banho com M.rasga a camisola dela. Pede para desfilar pelobanheiro. Fica mais tonto ainda cai. Barulho dechuveiro).CENA 4(anos após. M se cuida o espelho. Troca de roupacom janela aberta. Ela pega vidro que está guardadoem uma caixinha, mói, e mistura na bebida de J,como coisa do dia a dia. Ele bebe. Ela sai, todasensual. Ele sofre de dores e baba no travesseiro. Mbate a porta. Ao passar pelo corredor um sujeitopassa a mão na bunda dela. J com dores no quarto. Mgosta e devolve um aperto no pênis do cara, porcima da calça. J vomitando no banheiro. O sujeito eM trocam um beijo. O vômito de J é sangue. O beijoesquenta bastante. J cai desmaiado.)CENA 5( M sai e deixa o filho maior com a vizinha. Sai com afilha. Vai ao cinema. A filha comendo pipoca e doces,lambuzada, sem prestar atenção em nada. Rastreioda câmera para um sujeito assistindo o filme,suspirando e gemendo. Surge a cabeça de M que estáem felação com o sujeito. A menina olha todalambuzada e passa a mão na boca. Mulher olha paraa filha e passa mão na própria boca que estálambuzada).CENA 6 101
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS(M tenta se aproximar de J na cama deles mas J estádormindo e passa a roncar).CENA 7J: O seu comportamento não é de senhora honesta.M: O seu comportamento não é de homem.J: Você parece um mulher da vida.M: Você não parece coisa alguma. Você só bebe.J: Igual a mulher a toa.M: Você nem percebe que eu preciso me satisfazerna cama.CENA 8J a vê entrando num hotel com uma pessoa. A vê demãos dadas sob uma ponte, aos beijos com umjovem. A vê sendo bolinada, deitada na varanda deuma casa.CENA 9(M pintando pés, frente ao espelho).M: Preciso de mais dinheiro.J: Por que não vai ganhar na rua?CENA 10( M sai de um táxi com um jovem e entram no hotel.Batidas na porta do quarto).Voz de homem: Quem é?Lá de fora: Polícia.(Policial espera impaciente, no corredor. Portaaberta, policiais entram. 102
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA 11(J no corredor, nervoso, fumando, andando de lápara cá, falando para o porteiro).J: Sabe o que é? Ela não liga mais para mim. Ela nemcostura mais os botões me minha calça. Relaxa nacozinha... bate sem piedade na filha menor de cincoanos que sofre de bronquite asmática, sabe.Policial: (para J) O senhor pode vir aqui.(J entra no quarto e vê os dois)J: É ela mesmo.M: Não é o que vocês estão pensando.J: Claro que não.M: Eu vim aqui buscar remédio para o seualcoolismo, foi isso.Policial: Encontramos esse papel debaixo da cama.Deve ser a receita.(J toma rispidamente)Voz off de M: Zeca, meu Zequinha. Espero-o às oitoda noite no mesmo lugar, entendeu? Antes eu sentiaremorsos de marcar encontro. Agora não. O fulanotem me maltratado demais. Toda sua de corpo ealma – Maria.(o casal está pondo a roupa, silenciosamente).Voz off de M: Minha Nossa Senhora, abençoa essenosso amor. Olha esta pobre mulher tentada pelodemônio do pecado, ilumina minha alma. Abençoa onosso amor.M: São rascunhos... mas a culpa maior não é dele?...que me negando seus carinhos, me humilha noorgulho de ser mulher? Não é culpa dele? 103
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS TRINTA E SETE NOITES DE PAIXÃO baseado na obra de Dalton Trevisan Personagens: Maria e João e pais de M, e o padreCENA 1( Noite na cama, João está tentando transar comMaria. Passam os créditos. Ele geme e meio quechora e sai de cima)J: Não, não dá.... eu não posso... só pode ser por quesou virgem...M: Mas... eu também sou...J: ... e o meu fracasso é de tanto amar você...M: Vamos continuar tentando... (ele tenta subir nela)... amanhã... tá bom?CENA 2(letreiro - 37 dias depois)M: E se a gente vivesse como irmãos? 104
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASJ: Noivos sempre virgens?M: Isso. Dormiríamos com a luz acesa, de mãosdadas. (ele sobe para cima dela, tenta arrancar aroupa , começa a bufar) Cuidado meu bem.. vocêpode ter um troço... ( ele começa a desistir, sai decima dela , vai ao banheiro, se molha inteiro).J: Que desastre, meu velho! (chora) Você é umfiasco! (para de chorar. Repara que tem olheiras.)Hm! Pareço um daqueles galãs tristes e sofridos.(idéia) E se eu abordá-la na rua, igual putinha e leva-la para um hotel suspeito...CENA 3(Abordagem na rua. Ela tímida no começo, seguempara a cama, ela está arfando, ele está tentando aíele bate na cama e senta-se)J: Você tem que me chamar de Dr. Paixão.M: Eu me esqueci.CENA 4(Várias tomadas seguidas. Ele lê um texto pornô.Assistem filmes pornô, na cama a luz da rua, o pingoda pia, o ranger da cama, o pássaro cantando, tudo émotivo para tirar a sua concentração. Ele fecha osolhos e pensa em joelhos de senhoras, batinas depadres, bigodes de professoras e nada).J: Eu não posso entender... enquanto era noivo eunão conseguia dormir de tanto tesão! Eu não consigome concentrar. (passa a beijar a mulher enquantofala) Alma minha gentil que te partiste... Minha terratem palmeiras onde canta o sabiá... (e morde o peito 105
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASda mulher. Então por trás dele Deus aparece e oacusa, em meio à fumaça).D: Que vai ser de você, João?J: (subitamente ele se levanta na cama) O que vai serde mim? (no entanto, Maria está resfolegando dedesejo, meio molhada de suor, bonita, arfando opeito, ela o quer, morde os lábios, baba, se acaricia eele nota) Sua cadela! Você me dá nojo! (ela começa achorar, de lado na cama) A culpada é você!M: Culpada eu? Coitada de mim, João.J: Você não sabe nada – é uma burra!M: E como que eu podia saber, meu Deus... eu aindasou virgem...J: Que mania de falar em Deus! Por isso é que eu...Não fale agora... fique bem quieta. (Maria cerra osolhos) Abra os olhos. Diga que está louca por mim.M: Eu estou louca por você!J: Agora gema.M: (geme)...J: Grita bem alto!M: (grita)...J: Maldita! Você me desgraçou.... era para gemer bemalto... bem alto!CENA 5( Pais de M. Reunião familiar. Pai fala)P: O senhor tem mais uma semana para resolver oproblema dela. Ela se casou nem quero saber delavoltar intacta para essa casa. (olham-se) Será quevocê não é pederasta? 106
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA 6(Muita tentativa de sexo de tudo quanto é jeito atéque, numa posição de quatro, segurando a barrigade M)J: Está dando certo... está dando certo... ele vai ficarduro...(desiste) a culpa é da megera da sua mãe.M: Minha não tem nada a ver com isso...J: É não tem mesmo... você é que é frígida, lésbica,ninfomaníaca...acho melhor a separação por que euestou ficando louco... louco!CENA 7( J saindo de casa, trancando a porta e ela do lado dedentro tentando sair e dando as costas tristementepara a porta, vindo a escorregar para o chão. Lá foraele joga a chave para cima e a guarda, olhando paraa casa).CENA 8(Cena constante. No mesmo dia ele volta e fazmenção de que trouxe o jornal. Ele volta com opadre para benzer a casa e dá sorrisinhos para a Mque nem dá trela. Ela sempre faz outra coisa. Lêrevista, procura roupa. Ele traz uma caixa demorangos. Traz uma garrafa de vinho: ela recusa).CENA 9(Nova tentativa. Nada rola. Mais tarde, eladormindo, ele acaricia o corpo nu da mulher e semasturba. Acende a luz, a acorda, beija-a de ponta aponta membro por membro em close enquanto ela 107
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASgoza um pouquinho e cospe nela três vezes no rosto.Tenta bater nela mas ela foge para o banheiro.)CENA 10(Ela fazendo as malas; ele surge à porta do quarto).J: E se a gente fizesse um pacto de morte. (M não dáouvidos).CENA 11(Um dia se encontram na rua. Ela está com a mãe.Ela se dirige a ele. Ele treme. De repente ele olhapara a sogra e indo na direção dela, ele a beijaardorosamente e rola com ela pela calçada. Numatomada à distância vê se que a moça tenta separá-los a guarda-chuvadas). 108
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS OITO HORAS! É HORA MARTA! Personagens: Marta, Benjamim, Rameleti, João Carota, Gerente, Enfermeiros, Passeata[Na ABERTURA uma inscrição]:“Quando a rotina é toda a realidade de um homem, aalteração dessa rotina pode levar esse homem paraalém da realidade... para o fantástico ou...CENA 1[Chove. Referências a chuva na rua e Mulher que seaproxima de uma oficina iluminada. Mulher atravessaa rua. / corte / No interior, homem atarefado vaipelo corredor, carrega papéis/ Alterna-se imagens da 109
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASMulher, MARTA, que se aproxima e do Homem,BENJAMIM, com papéis pelo corredor / MARTA andade modo insinuante / BENJAMIM bate à máquina,rapidamente]BENJAMIMTelefonemas... desses meus telefonemas depende avida de muitos operários... a hora é essa... [senta-se àmesa para tomar do telefone quando a mulher surgeà porta da fábrica. Ele a nota. Eles se olham. Closeentre olhares. BENJAMIM olha para o relógio. Marca8 horas. Voz off de BENJAMIM, assustado]: Oitohoras! Oito horas. Essa é a hora dos acontecimentosdefinitivos.MARTA [ molhada / usa casaco de pele / deve sugerir umaoleosidade / roupas elegantes / roupas,aparentemente, caras / pintura do rosto escorreucom a chuva / um ar de clown / sob um trovão amulher aprece no portal da Fábrica, encostada naporta, lânguida. BENJAMIM a vê, abrupto]Meu nome é Marta e trabalho em centrifugadoras.[corte alternado entre os dois que se olham]BENJAMIM[segurando o telefone]Que tenho eu com isso?MARTA 110
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASTalvez precise de mim...BENJAMIMNão preciso.MARTA[triste]É pena.BENJAMIM[a olha de cima abaixo, presta atenção ao corpo damoça. Voz de BENJAMIM off:Se houvesse um comunista por aí logo perceberiaque os industriais também são sensíveis.BENJAMIMO que você deseja?MARTA [se olha e percebe que BENJAMIM nota suas roupas /se protege]Trabalhar.BENJAMIM[se levanta, vai a ela, coloca a mão nas roupas dela,amassando um pouco, pensa enquanto dá voltas emtorno da MARTA voz de BENJAMIM off]O sofrimento de quem não é rico é sem graça eenche o saco. Se pelo menos ela pedisse piedade.Seria um prazer imenso, poder ajudá-la. Devemosdesconfiar dos industriais incapazes de piedade. 111
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASAlém disso, tem a minha formação... coroinha,ajudante de padre, cristão... eu tenho que fazer umaboa ação de qualquer maneira. Mesmo com oscomunistas.MARTAMas o senhor disse que não precisa.BENJAMIM[voz de BENJAMIM off]Será uma comunista ou uma ingênua?MARTA Se precisasse de uma operária para centrifugar,teria dito, não é verdade?BENJAMIMSim, com certeza.MARTA Não tenho a mínima carta de recomendação. [andapela sala, olhando em torno a reconhecer / mexe nascoisas] São contra a minha moral. Além disso sei queas cartas, com o senhor Benjamim, não darãoresultado. As pessoas já me fizeram entender isso...BENJAMIM[em torno da mesa, voz de BENJAMIM off] Será um elogio à minha honestidade? Serámatreirice de fêmea? Manobra do Partido?[BENJAMIM está em pé atrás dela]. 112
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS[voz de BENJAMIM on]Realmente, não costumo...MARTA De resto... nem eu podia ter pedido uma carta dafábrica de onde saí. Pratiquei um roubo, sabe?[trovão, a chuva aumenta, tomadas rápidas da rua,da entrada iluminada da fábrica ou oficina]BENJAMIMUm roubo?MARTA Um roubo. Mas, a pesar disso, sou muito rápidacom as mãos e faço as máquinas produzirem mais.Quando tomo uma centrifugadora para manobrar[ri] ela cospe para todo lado. O senhor precisa ver.BENJAMIMO que foi que você roubou? Pode falar?MARTA Claro que posso, mas, e senhor acha que isso é coisaimportante para saber?BENJAMIMUm pouco sim... você está se propondo a trabalharaqui... além disso, sou um homem honrado, seguidorde princípios Marianos...MARTA 113
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASUm homem puro... de pensamento puro... de atospuros...BENJAMIMJá fui vereador... legislando... pelo bem público... e,depois de sua confissão eu tenho o dever de entregá-la à polícia.MARTAPensei que se contentasse com a espontaneidade deminha declaração. Sempre disseram que dizer aVerdade é o melhor que há.BENJAMIM Fiquei contente, sim, mas... mas... há um pormenorque me confunde. Se você trabalhava nascentrifugadoras, que poderia ter roubado? Algumapeça da máquina? De que lhe serviria? Uns quilos dematéria prima?... Para que?MARTA Senhor Benjamim, a sua dúvida demonstra que osenhor é uma pessoa metodicamente inteligente. Ogerente da fábrica de onde eu venho... fico meioembaraçada quando conto este fato... sempre mechamava ao seu escritório e dava-me beliscões naspernas.BENJAMIM[estranhando]Beliscões nas pernas... 114
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASMARTA Sim... Estranho, não é mesmo? Digo pernas mas elese aproveitava um pouco mais... O senhor o conhece,não é verdade?BENJAMIM Sim, eu o conheço, pois frequentamos os mesmoscírculos...MARTAEle também é Mariano?BENJAMIMNão... ele tinha uma rádio comunitária e desfilavacom uma cruz pela ruas, chamando todo mundopara se salvar... faz tempo...[tentando espantar osdesejos] mas, sempre foi um depravado... um diaachou que devia ser prefeito... [ri sem graça]MARTA [um pouco irritada] Seja lá o que for... Beliscões naspernas me irritam e me fazem arrepiar até o fioúltimo de meus cabelos, me contorna a nuca, medesce pelo pescoço e vai me levantar todos os pelosdo corpo. [para BENJAMIM diretamente] Todos...está me entendendo... todos! [pausa e olhar, pisca osdois olhos] Todos os pelos do meu corpo!... Me dá aimpressão de que sou completamente careca – masao mesmo tempo me sobe uma rara volúpiaintensa.[suspira profunda e repetida] Por isso, 115
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASquando os auxiliares de escritórios, esses vadios,diziam que o gerente queria me ver no escritório...[enquanto MARTA fala interpõe-se cenas quemostram o descrito por ela] ...eu não poderia deixarde ir, pois naquele momento era o meu desejo queme enviava... [o gerente beliscando a perna e a bundadela] ...mas, aos poucos fui criando pelo gerente umgrande ódio. Odiava-o! odiava-o muito!BENJAMIM[ nervoso, suado]Ele merece... é um patife.MARTA Odiava-o por tudo isso. Os olhos esbugalhados...[cena interposta enquanto MARTA narra, da cara depau do gerente] ... olhos cheios de febre que eletinha quando me beliscava... depois aquela lassidão...a gosma escorrendo pela minha mão... e o olhar denojo para me dizer que me retirasse.... tudo issorequeria vingança, senhor Benjamim! [Ela o olhapedindo aprovação]. Vingança!BENJAMIMClaro, claro... Vingança...MARTAAi, aquele bigode! O modo indecente como eleesfregava... mas o que é que eu podia fazer?BENJAMIM 116
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASSei lá... eu não sei... nunca me aconteceu nadaparecido.MARTAO que faria o senhor em meu lugar?BENJAMIM Eu?! [ri, sem graça] Mas você se atreve a fazer umahipótese dessas? Muito bonito o tal gerente a me darbeliscões nas pernas! Salafrário! Eu... eu cobria osujeito de pancadas!MARTAE depois?BENJAMIMSei Lá... depois... o levaria para a Sacristia...MARTA Ora... também eu não sabia o que fazer... Que podeuma operária fazer a um industrial poderoso? Bater-lhe... talvez... mas, tais pessoas, nem sentem. Insultá-lo... também não sente. Matá-lo... morria no seuposto... não! A única coisa que prejudica oempresário é roubá-lo.BENJAMIMBom argumento.MARTACrucial para um empresário. 117
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASBENJAMIMMuito claro. Admiro a clareza das idéias.MARTAMas roubar-lhe o que, senhor Benjamim?BENJAMIM Sim. Eis a dúvida. O quê? O que faria um pústulacomo aquele sofrer?MARTADinheiro...BENJAMIMSim! Dinheiro... que é mais fácil.MARTAIsso também eu queria, mas nunca vi dinheironaquele escritório.BENJAMIMNunca? É o que eu havia pensado. Ele estáarruinado. [BENJAMIM ri desbragadamente.].[Fusão ]CENA 2[Escritório do GERENTE. Interior. MARTA estádeitada sobre a mesa, semi-nua.Barriga para baixo. OGERENTE, de camisa e gravata, sem calças, belisca o 118
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScorpo de MARTA. Cena pueril. Ela gosta. Balançalevemente as pernas. MARTA vê um papelinho sobreoutros papéis. Enquanto o GERENTE geme fora decena ela toma dos papéis e lê. É importante. MARTAesconde o tal papel. Por trás dela percebemos osmovimentos do gerente / MARTA sai do escritório /INTERIOR da loja / mostra o papel a um amigo, o talJOÃO CAROTA. Ele pega e oferece dinheiro que ela nãoaceita.JOÃO aumenta os valores. Ela não aceita. Elefaz menção com as mãos para o estoque da loja e elaescolhe a roupa que usa naquele momento, o casacode pele, o vestido, entrega o papel e sai.][ Fusão]CENA 3[Tomada dos olhos esbugalhados de BENJAMIM]BENJAMIM Continua com a história, continua com isso, que vaiacontecer qualquer coisa de extraordinário à face daterra.MARTAO tal rapaz...BENJAMIMQual?MARTA 119
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS [chorando] O rapaz... muito respeitador... Morreuquando houve a greve. Mas na agonia pediu que eudissesse ao gerente que na hora não entendi direito.[corte para loja / INTERIOR / pessoas ao largo / nochão MARTA segura JOÃO]JOÃO CAROTADiga a ele... diga àquele verme de bigodes... Diga quequem o arruinou não fui só eu; foi também o meuódio de classe. [expira][corte para Oficina]MARTASerá que eles estudaram juntos?BENJAMIME foi só isso?MARTAMais tarde dispensaram meus serviços.BENJAMIMVocê contou essa história a mais alguém?MARTA A ninguém, senhor Benjamim. Sou séria. Conto-a aosenhor, mas é porque vai me empregar.BENJAMIM 120
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASJá está empregada! Sabe que esse casaco vale muitodinheiro?MARTA Não faz mal. Não o quero vender. Vou para ascentrifugadoras?BENJAMIMNão, não... Vai para o meu escritório.MARTAPara que?BENJAMIMOra essa, para que!MARTA Vai me beliscar as pernas, também? Vai?[Ele sai sem responder. A Câmera se afasta enquantoMARTA grita].CENA 4[Corredores – Interior][MARTA pelo corredor, rápida. BENJAMIM a observaescondido. MARTA anda com desenvoltura eelegância. Alternam-se os olhos do BENJAMIM ebamboleio dos quadris da MARTA][corte] 121
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS[Shopping ou Grande Loja / INTERIOR / Cenasalternadas com o JOÃO CAROTA, segurando opapelinho para BENJAMIM e RAMELETI]JOÃO CAROTAEu inventei essa fórmula, produziremos mais,ficaremos mais ricos, só que... eu quero três quartosdo capital da empresa... o quarto restante fica paravocês dois dividirem como irmãos.BENJAMIMNada disso, JOÃO, não é assim que se faz negócio. Aputinha era minha. Ela é minha. E o maquinário serámeu... da minha fábrica.RAMELETIMais respeito. A putinha tem nome. É Marta. É umaputinha com um belo nome, até.JOÃO CAROTAMas, foi dela que eu consegui isso, meus chapas. Elame segredou as ações pecaminosas do GERENTE econseguiu as anotações...BENJAMIMSó que agora o gerente dela sou eu.JOÃO CAROTAFoi das anotações que eu desenvolvi a fórmula...catso! E ela sabe de tudo isso. Não foi por acaso quea putinha quis trabalhar na sua empresa. 122
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASRAMELETIEla não é putinha.JOÃO CAROTAEstá bem, está bem... é uma terrorista de saias... umaagitadora...[JOÃO CAROTA faz menção de partir e embolam numabriga no meio do Shopping ou da Grande Loja. Algunssocos / JOÃO CAROTA tenta escapar / BENJAMIMquer roubar o papel da mão dele / RAMELETI tentaseparar os dois / apanha um pouco / Coreografiaengraçada para a luta][Corte][ o corredor onde MARTA, atarefada, nada.Ela éobservada por BENJAMIM, que está escondido ou estáde longe. RAMELETI toca as costas de BENJAMIM.Ele se vira, abrupto]RAMELETIEi, Benjamim.[Andam pelo corredor na direção de MARTA]BENJAMIMQue é? [insatisfeito] Olha o que eu fiquei sabendoagora. O nosso riquíssimo e bondoso JOÃO CAROTOnão inventou formula alguma. Ele a conseguiu do 123
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASGERENTE beliscador de pernas... em troca de ummísero casaco de peles que deu para uma putinha...Ele está seis vezes mais rico do que nós... a troco denada...RAMELETI:É preciso acabar com esse malandro... Uma açãojudicial, talvez? Esbofetear o sujeito até à morte?BENJAMIM Espancar é pouco... quem sabe denunciar o patifenas altas magistraturas? Podemos oferecercomissões... podemos oferecer dízimos... sei lá.RAMELETI Nesse caso eu acredito que podemos oferecerum Concurso de Poesia inteiro. Advogado adoraessas coisas.BENJAMIMPropina, então. Será isso? Será correto?RAMELETIDar propina nunca é correto. Mas, em termos deDireito é o que os advogados compreendem, datavênia. Aliás, a porcentagem que cobram paradefender casos é uma propina.BENJAMIMSó muda de nome. Eles dizem: Honorários. 124
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASRAMELETIHonorários sem honra alguma.BANEJAMIME, se denunciarmos para o Tribunal Superior?RAMELETI Denunciar? Isso seria morrer... dormir... mais nada...ainda teremos que acordar os juízes daquelainterminável hibernação.BENJAMIMTem razão... a denúncia pode virar contra nós... Juizquando não é poeta é lerdo...[Olham-se demoradamente, olham o espectador comose fosse culpado... mal estar...]BENJAMIM[voltam-se um para o outro]Então?RAMELETI Não adianta... sou incapaz de uma decisão, incapaz...[sons similares a escaleres e barcos / entra, lento, umnevoeiro / passa uma sombra furtiva]Ei o que está acontecendo, BENJAMIM?BENJAMIMOlha o fantasma! Lá encima [...Sons de bigorna,metais e malhos... Fog permanece / Começa uma 125
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASchuva / RAMELETI saca um revolver,, sobe umportaló, uma pequena escada da fábrica, na direçãodo tal fantasma ou sombra... RAMELETI, enquantotenta entrar pela porta emperrada nota e passa porum cartaz de teatro com MARTA pintada nele, semi-nua onde claramente aparecem os escritos: ESTRÉIAHOJE, 8 HORAS / enquanto lê, a porta emperrada seabre e uma passeata passa dando encontrões emRAMELETI, o cartaz por ação do vento voa][ corte][ a saia de MARTA que cai / belas pernas cobertasde dentadas. BENJAMIM olha para a porta / tenta irnaquela direção mas, a passeata surgerepentinamente – gritam PALAVRAS DE ORDEMincompreensíveis - barrando-lhe o caminho /BENJAMIM tenta ir contra a maré. Na escadaBENJAMIM luta contra a maré das passeata,simultaneamente, ve-se ao fundo algo como umdesfile de escola de samba. Os sons se confundem. Ofog aumenta, gradativamente.]BENJAMIMComunistas! Comunistas! Soltem-me seus pulhas!Me larga! [Do alto do portaló, o GERENTE dosbeliscões joga pernas ortopédicas sobre BENJAMIM ea passeata. BENJAMIM começa a rir e gritardesesperado.] Nada a fazer! Nada a fazer se nãobeliscar as pernas, seu imundo! 126
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS[corte][BENJAMIM corre pelo corredor. Várioscorredores.Abre várias portas. Os corredores têmum tom esverdeado, doentio, azedo. RAMELETIcorre atrás dele / BENJAMIM passa as mãos pelaparede e tira de lá uma gosma que limpa na roupa /parece vômito / RAMELETI aparece em tomadasalternadas às de BENJAMIM, correndo atrás dele.Enfermeiros estão atrás de RAMELETI / vê-se aofundo, carregando uma camisa de força]RAMELETI Deixa eu beliscar suas pernas, Benjamim, deixa,deixa.[plano americano em BENJAMIM, RAMELETI,ENFERMEIROS / BENJAMIM entra na sala. MARTAestá deitada no sofá; assassinada. O peito cheio desangue e os olhos estão fixos à entrada deBENJAMIM. BENJAMIM cai perto do corpo,desanimado. Abraça MARTA, tentando reanimá-la.Não sabe o que faz. Olha para o relógio de pulso eolha para o da parede. Marcam 8 horas. O relógio daparede soa. ]BENJAMIM Ainda dá tempo de telefonar... [pega uns papéissobre a mesa... tenta falar ao telefone da mesa, masnão encontra linha / sai para o corredor, empurraRAMELETI, que também olhava MARTA, como quehipnotizado / RAMELETI, imediatamente pego pelos 127
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASENFERMEIROS... BENJAMIM, após observar estascenas, sai e parte para seu escritório...] é precisosalvar os operários... [grita] tragam os telefones!Tragam os telefones! Com esse telefonema eu possosalvar a vida de diversos operários. [como ninguémaparece BENJAMIM vai ao corredor, mas antes dechegar á porta, a passeata barra seus caminhos. Apasseata passa pelo corredor, muito longa edemorada /[Trovão. BENJAMIM olha assustado para uma janelae para a chuva / Ele se volta para a porta da fábrica.Tem uma mulher com casaco de peles olhando paraele. Close nela.]MARTA Meu nome é Marta![Trovão / Relâmpago / Escurece lentamente, em azulmarinho / câmera se aproxima, rápida, até o sorrisodos lábios dela. FADE OUT] 128
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS A DUPLA ARMADILHA MORTAL Baseado na obra de Robert Arlt Tenente, Chefe, Estela, mecânico(tráfego de fim de tarde, algumas luzes, vitrines,tomada da janela vista da rua, passa um carro)CHEFE (impassível) – Meu caro Tenente, a questão é aseguinte: você terá de matar uma mulher bonita.Console-se. Não terá de matar a senhorita Estelacom suas próprias mãos. Ela mesma se matará evocê será apenas a testemunha. (ele se levanta eanda pela sala e vai ao mapa da cidade na parede,mãos seguras atrás. T está enchendo um cachimbo. OChefe o olha, rapidamente). Não vai fumar?TENENTE 129
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS Não! Eu não fumo. É que eu acho bonito ficarsegurando o cachimbo. Dá um certo charme. (OChefe se faz de impressionado)CHEFE – Muito bem! (suspiro) Talvez você sinta pena dasenhorita Estela, pelo destino cruel a que estácondenada, mas, acredite, ela não se importaria nemum pouco se tivesse a obrigação de matá-lo. Ela omataria sem nenhum peso de consciência. Jamaistenha pena de uma mulher, Tenente. Muito menosalguém como Estela. Quando uma mulher seatravessar no seu caminho, esmague a cabeça delasem misericórdia, como faria com uma serpente.Aliás, a mulher é serpente. Seu coração se alegrara eseu sangue ficara mais doce. (Kaiser termina deencher o cachimbo)TENENTEO que andou fazendo a senhorita Estela?CHEFE O que andou fazendo? Por Cosme e Damião! Omenos que faz é nos trair. Está nos vendendo paraos italianos. Ou para os alemães. Ou para os ingleses.Ou para o Colombianos. Ou para o diabo. A história élamentável. Na Polônia, a senhorita Estela agiucorretamente e com eficiência levando o Serviço asupor que podia destacá-la em Madrid. Os espanhóisestavam modernizando o Fort de Santa Catalina etambém o de Prim, o do Serrallo e o do Renegado,modificando a posição das baterias e outrasdiabruras. Estela devia trabalhar com o engenheiroDestord e receber as informações. O engenheiro era 130
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASveterano em missões desse tipo. Comprou emMadrid a chave de um conceituado café e Estelafazia o papel de sua sobrinha. O café era frequentadopela oficialidade espanhola, foi reformado.Acrescentaram-se discretos reservados. A propósito,Tenente, um conselho: nunca fale de assuntossecretos num reservado. Bem, em cada reservado foiinstalado um microfone. Os oficiais apareciam,conversavam, bebiam. Estela, no andar de cima,ouvia a conversa e ia anotando o que achavainteressante. Esse procedimento nos ajudou adescobrir umas quantas coisas. De repente, oesquema todo se desarranjou. A cabeça doengenheiro Destord se encontrou com uma bala,digamos, perdida, vinda de um grupo de bêbados.Até poderíamos admitir que eram bêbados e nadamais, mas, logo depois, Mohamet, o Coxo, respeitávelcomerciante ligado à mafia de Anghera, cujoshomens trabalhavam nas fortificações, foi assaltadopor desconhecidos e tão maltratado que morreusem recobrar os sentidos. Como epílogo da festa,chegou uma mensagem da senhorita Estela. E comque novidade! Um incêndio destruíra o café. Adocumentação que seria entregue teria sidoreduzida a cinzas, segundo ela, que sentia muito.TENENTECertamente, há motivos para fuzilar essa mulherumas quatro vezes, pelas costas.CHEFE Não tenho o costume de acusar sem provas,tampouco me agrada que me enganem desse jeito. 131
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASEstela é uma mulher espertíssima. Naturalmente,mandei que a vigiassem, e ela esta desconfiada.TENENTEPor que acha que ela se sente vigiada?CHEFE Indícios invisíveis. Creio que ela sabe de suacondenação à morte e está procurando uma formade escapar, levando a documentação. Sabe tambémque isso é difícil: por terra, por ar ou por água, nos aseguiríamos e a agarraríamos. Mas a senhoritaEstela, veja só, pensou ter descoberto uma formasimplíssima de nos enganar. Me escreveu dizendoque sua vida está ameaçada e pedindo que um aviãová buscá-la, conduzindo-a imediatamente para aFrança. Avisou, porém – e aqui está o golpe –, queem Xauen está à sua espera um agente de Mohamet,o Coxo, para lhe passar uma importante informação.O que acha disso, Tenente?TENENTETentará escapar em Xauen? (O Chefe ri).CHEFE Você é um ingênuo e ela uma mentirosa. Estou bemservido, mesmo. A informação a ser obtida emXauen é historia da carochinha. Veja, Tenente (ochefe voltou-se para o mapa e apontou para uma rua)Estamos aqui (o dedo desce para o sul). – Aqui,Xauen. Depois de Beni Hassan, o senhor vê umsistema montanhoso de mais de mil e quinhentosmetros de altura. Ninhos de águias edespenhadeiros. Depois de Beni Hassan, portanto, oúnico lugar onde um avião pode pousar é Xauen. O 132
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASplano dessa mulher é jogar-se de pára-quedas nomomento em que o aparelho sobrevoar asmontanhas. Seus cúmplices a esperam, decerto, emqualquer outro lugar por perto, e ela nos deixará aver navios. E o que é pior: teremos financiadoinformações para que outros aproveitem. Bonito,não?TENENTEO plano é audacioso.CHEFE (irritado) – Audacioso ou não, é simples, claro e1ógico, como dois e dois são quatro. Você acharáainda mais lógico se souber que a senhorita Estela épára-quedista. Antes da espionagem ela fazia partedo corpo de pára-quedistas da marinha, formadacom louvor e bravura. Fiquei sabendo disso de umaforma inteiramente casual. (T acende o cachimbo).Vai fumar?TENENTENão! É só para criar um clima... ambientação... mas, oque preciso fazer?CHEFE Pouco, quase nada. Você irá pára lá num avião dedois lugares. O avião levará os pára-quedasregulamentares, mas o seu estará oculto, e odestinado ao assento dela terá as cordas queimadascom ácido, ou seja, ainda que ela o revise, nadaencontrara que chame sua atenção. Quando saltar,as cordas queimadas não suportarão o peso de seucorpo, e ela morrerá na queda. Você tentaráaterrissar e, conseguindo, verificará se ela morreu. 133
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASSe preciso, dará o tiro de misericórdia. E pegará,claro, tudo o que estiver com ela.TENENTE (após pensar um pouco) – E se eu não achar umlugar para pousar?CHEFESalte.TENENTEPerderemos o avião.CHEFE Tanto faz. É um problema menor na questão dasegurança. Agora vá procurar o Coronel Desmoulin.Ele lhe dará algumas instruções e a ordem pararetirar o aparelho. Terá de estar no local às oito damanhã. (estendeu a mão) Boa sorte. (apertaram amãos. T sai enquanto o chefe olha. Toca o telefone, oChefe sem tirar o olhar, atende). Sim?(corte em SOME)(aeroporto. Avião taxia. T sai e olha. Mulher vem, aolado de um homem. TENENTE aperta a mão da mulher. Se olham. Ela observaatentamente, apertando os olhos. TENENTEestá frio. Estela olha o avião e passa mão pelafuselagem. O mecânico chega e começa seu trabalho) .ESTELA Você esteve com o Chefe?TENENTESim.ESTELASuponho que sabe de tudo.TENENTE 134
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASO que me disse é que devo ficar às suas ordens.ESTELA Então iremos primeiro a Xauen, e logo depoistomaremos o rumo de MontSaint.TENENTESeus documentos estão em ordem?ESTELA Estão. Você conhece Xauen?TENENTEEstive lá duas vezes.ESTELAPodemos sair de Xauen depois do almoço. Esta noitejantaremos juntos em Plus-qui-la-citè, de acordo?TENENTEEncantado.ESTELAQuando partimos?TENENTEQuando quiser.ESTELAEntão vou por o macacão. (ela vai ao toalete do coma bolsa de mão, bruscamente se volta. Sorria) ... nãová rir de mim. O senhor tem pára-quedas?TENENTENão, nunca precisei. Mas a senhorita terá o seu, sequiser.ESTELA É que sou supersticiosa. Hoje vi um funeral. E eunotei que a primeira inicial do pano fúnebre era aletra E.TENENTE 135
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS Meu primeiro nome é Estevan. Para quem será oagouro?ESTELA Curioso. Estevam... Estela... Estamos nisso juntos...TENENTE (olhando para o céu) – Teremos uma viagemtranquila. Não se preocupe. (ela sai. T está muitopreocupado. Cortes entre as falas mudas do Chefe, orosto da mulher, seus sorrisos) ENTÃO ESSAMULHER HIPÓCRITA, COM JEITO DE MOSQUINHAMORTA, MANDARA MATAR DESTORD E MOHAMET,O COXO? Que estranhos caminhos a teriam levadoao Serviço de Contra-Espionagem? SE DEPENDESSEDELA O ESTADO TODO, COM CERTEZA,DESAPARECERIA DO MAPA. (Olhou para o mecânico,que terminara de encher o tanque de combustível efez sinal de positivo. Tomada do rosto de TENENTE.Estela surge por trás. Se olham. Ela profundamentecom um sorriso. Ele friamente.)ESTELA Estou pronta.TENENTE Vamos, então.ESTELA Como está o Chefe? Sempre paternal e cínico?Suponho que ele lhe terá contado...TENENTE Contado o que?ESTELA Nossas dificuldades.TENENTE 136
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS (seco) – Perdão, senhorita, o Chefe me ordenou queevitasse falar sobre o Serviço. (ela se cala, um tantoespantada).ESTELA Você acredita que haverá eleições?TENENTE Acho que sim. Comenta-se que o bloco popular temchance. É um engano. (sorrindo meio cínico) O blocopopular, eleitoralmente, está condenado ao fracasso.João é um literato. Só há um partido sério. Ogovernador do Estado todos já sabem quem será. Etem gente que nem chegará a votar... (chegaram aoavião. KL tomou lugar, o mecânico auxiliou Estela acolocar o pára-quedas. TENENTE sorriu) É umengano. (acionou o botão de partida. O avião taxiou epartiu).(cenas de paisagens vista aérea)(Estela procura algo nos bolsos. Ela ofereceu cigarro.TENENTE não aceitou. Ela fumava. Paisagens. Nuvens.Levezas. Barulho do avião. TENENTE está tenso. De vez em quando olhava para Estela.Estela consultou o relógio de pulso. Ela tocou noombro de TENENTE e apontou o chão).EAli. Beni Hassan. (Vira o rosto e ela salta. Elaesquecera a bolsa no assento. Ele acompanha a quedae fecha os olhos quando ela chega ao solo. Olhanovamente a bolsa. Quando ele se toca de que deveser uma armadilha... Explosão.) 137
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O APLAUDIDO DRAMATURGO CURADO PELAS PÍLULAS PINK Roteiro de Coelho De Moraes baseado na obra de Natália Corrêa (1923) Personagens: Homem 1 (H), Homem 2 (PP); Mulher(M); Gerente (G); MS (mulher suspeita), Mulher de H (MH), duas pessoas quaisquer para a foto.CENA 1(Homem pelas ruas. A cada momento, emcircunstâncias diferentes, encontra outro homem -PP, este com roupas diferentes e rosto pintado decolorido, este muito loquaz): 138
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASPP: Eu sou o aplaudido dramaturgo curado pelaspílulas pink.(A cena desses encontros se repete inúmeras vezescom cortes variados e bruscos. Finalmente H entranum restaurante ou bar fechado ou café e senta-se àmesa pedindo algo com os dedos. PP senta-se à suamesa)PP: O senhor me dá licença. Vale a pena a compraque vai fazer. Carrinhos para bebês, carros nupciais,féretros ou carros de corridas, somos a empresa quemais transporta e que mais oferece bonstransportes.H: Mas, afinal de contas, o senhor é dramaturgo ouvendedor de automóveis?(PP o olha com admiração)PP: A lista telefônica é uma aflição de personagensem busca de um autor. Pirandello roubou essaminha idéia, mas eu não ligo... por isso eu me separoda dramaturgia para entrar nos domínios da religião(sorri, orgulhoso) o que é contra os meus desígniospois só a dramaturgia pode demonstrar a existênciade Deus.CENA 2(H entrando no Hotel ou no hall. PP o encontrainesperadamente, estendendo um cartão...)H: (lendo) Eu sou o aplaudido dramaturgo curadopelas pílulas pink.PP: (feliz) Exato! Claro! Uma mulher!H: Como?PP: O senhor precisa de uma mulher. Oh! Não me 139
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASrefiro às vis necessidades fisiológicas. Bem vê, nãosou um alcoviteiro. Preocupo-me, sim, com osaspectos morais da solidão. O homem solitário é umperigo. (andam pelo corredor, PP com a mão sobre oombro de H). Uma perversão com riscos dramáticospara toda a Humanidade. Para não julgar queexagero lembro-lhe da bomba atômica. Se o senhornão sentir hoje uma mulher nos seus braços, nadanos garante que esta mesma noite não incendeie acidade.(H vai reagir) Não proteste! Vou resolver oassunto. Dentro de meia hora terá no seu quartoaquela a quem esta cidade terá de agradecer por nãoter perecido numa catástrofe.CENA 3(H está tomando banho. Batem à porta. Sai molhadoem toalhas. Entra uma mulher excelente, alta,morena, com roupas sensuais e movimentos egestos eróticos, animais. H começa a se envolver. Seabraçam, gemem. Batem à porta. H hesita mas abre.É o gerente. Ele está sério, mas de repente ficasorridente amarelo. Ele tenta olhar para dentro).G: Senhor? Este nosso respeitável hóspedeapresentou uma reclamação (a mulher se cobre comlençol. O reclamante, que não estava visível, avança,sério)PP: Eu sou o aplaudido dramaturgo curado pelaspílulas pink.H: Mas...PP: Não há mas... nem meio mas... Sou umdramaturgo, o que quer dizer que eu moralizo a 140
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScidade (ele entra, seguido do gerente a vistoriar olocal). O senhor sofre o império da corrupção que eucombato. Esta pobre mulher que recebe dinheiropara satisfazer o seu vício (verifica a toalha de H) é aprova de que o senhor é um fomentador da guerra.(levanta o lençol da moça, o gerente repete servil).Porque a guerra não é mais do que umdesenvolvimento lógico da libertinagem. Demonstroisso, claramente, nas minhas peças.CENA 4(Escritório. Entra repentinamente um mal educadocom modos revolucionários, apoiando a mão namesa, olhando cara a cara)PP: Eu sou o aplaudido dramaturgo curado pelaspílulas pink.H: Meu caro senhor. Conheço suas intrigas. Nãovoltarei a cair nas armadilhas de seus favores.PP: Perdão, amigo. Sou um dramaturgo devanguarda. Combato a velha dramaturgia que vivedo triângulo clássico. Mas, a vida persiste em seracadêmica. Impõe uma realidade que é umajustificação da arte dramática conservadora. Osenhor é o perfeito exemplar do argumento que essafauna reacionária usa para rebater as minhasteorias. Cumpre-me chamar-lhe a atenção de queestá colaborando para o atraso do espírito,permitindo que a sua mulher o atraiçoe.H: (H vai pra cima, enquanto PP replica) Cai foradaqui. Suma da minha frente.PP: Eu sei onde ela vai. Eu sei onde ela fica. 141
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASH: Não sei por que a minha secretária permitiu quevocê entrasse.PP: Eu sei em que apartamento ela fica com o outro.H: (empurrando) Vai embora... não me faça perdertempo.PP: (saindo e jogando um papel amassado) Issomesmo, não perca mais tempo. Se se apressar,poderá apanhá-los agora mesmo em flagrante.(H ouve a porta se fechar. Hesita. Pega o papel, lê.Joga fora, Vai para a gaveta e pega o revolver. Fundeimagem com o H entrando violentamente portaadentro de um apê. U’a mulher suspeita (MS) seassusta e, vendo a arma, aponta o local. H seaproxima e lá dentro se ouve gemidos. Entra, oquarto está em penumbra, e vê a mulher trepada emcima de outro sujeito.)H: Enfrenta a morte, miserável! (a mulher, mesmonua, se arrasta pelo chão, pedindo perdão, indo aospés de H).PP: (que era o sujeito com a mulher) Espere...espere... eu não sou um vulgar sedutor de mulherescasadas. O senhor é o culpado de tudo isso. Nuncapercebeu que sua mulher era uma personagem. Eunão podia ser insensível a este fato. Fique sabendoque me encontro no aborrecido exercício de umdever profissional. Sou um dramaturgo... (enquantofala H olhar para a mulher e lhe dá o revolver,tomando as mãos da mulher, adequando as mãos aogatilho, apontado para o sujeito) o aplaudidodramaturgo curado pelas pílulas pink. 142
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASH: (para a mulher) Para me convencer de seuarrependimento. (e sai).CENA 5(H em casa, lendo jornais. Nos jornal mostra que amulher se matou nos bancos do jardim público, emfrente à estátua de um poeta. Imagem de meiopágina)H: (pensando) Ela terá feito desaparecer o corpo dotal dramaturgo? (sorriso de mofa).CENA 6(Passeando pela praça como turista e tirando fotos,em rua de maior movimento. Alguém se aproxima,enquanto H observa uma Igreja. O rosto dapersonagem não aparece. Enquanto fala H se enervae se controla).PP: Tenho estado a observá-lo. O senhor atravessauma crise moral. Não negue. O seu interesse pelascoisas antigas não me engana. Gosta de portascarcomidas por carunchos? Está portanto em perigoda mais atroz desumanização que culminará nodesejo de destruir o seu semelhante. Sei o que digo.Conheço os homens por dentro, o que não admira,visto que... permita que me apresente, sou oaplaudido dramaturgo curado pelas pílulas pink. (Hempurra o sujeito para trás e se fasta) Acho muitoconveniente que guarde uma recordação dessenosso encontro. Sugiro que tire uma foto. (H para, sevolta. PP posa para a posteridade, entre duaspessoas quaisquer. E H, sem nenhuma emoção bate 143
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASa foto, sem mesmo olhar pelo visor).CENA 7( H está esperando a revelação da foto. Pegando afoto, nada há ali. Só as duas pessoas que ladeiam umespaço vazio. H olha para cada lado da rua. Joga afoto fora e vai embora. Ao fundo, enquanto há ocrédito final, aproximam-se de H que não dá maisbola, vê-se que é um palhaço que fala muito em voltade H, enquanto se afastam). 144
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS CASA baseado em texto de Jorge Luís Borges Tio Malaquias (paletós e roupa mais antiga); H (jovem); Alexandrina; Daniel, o MarceneiroO homem (H) chegando e pega da caixa do correiouma cartas. Entra e lê. Voz em OFF do leitor da carta:Antes de mais nada meus cumprimentos.Infelizmente trago más notícias. Seu tio Malaquiasfaleceu de um aneurisma, nos confins remotos docontinente (passam imagens, paralelas à leitura, dotio com uma laranja, do tio jogando xadrez, do tioemprestando um livro grande e pesado, prismas epirâmides no piso do escritório. Imagem da casa,vista de longe).Voz OFF do ator, após a leitura da carta: O homem 145
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASesquece que é um morto que conversa com mortos.(retoma a leitura)Voz OFF do leitor da carta: Algumas coisas estranhasandaram acontecendo. Invadiram a casa de seu tio,jogaram a mobília no rio e decapitaram o grande cãoovelheiro. Foi encontrado decapitado na calçada. Acasa parece vazia. Falta você aqui. (ele pensa erepentinamente se decide. No quarto osmovimentos, em cortes rápidos, de uma arrumaçãode malas e partida para a rua. Fade para umaresidência onde se toma chá com bolachinhas. Umamulher – Alexandrina (A) – passa requeijão em uma,oferece ao H e fala):A: Caro jovem... você não veio até aqui para quefalemos de Malaquias o tempo todo e nem paravisitar as nossas cidades. Cidade que pouco meinteressa, também. O que lhe tira o sono é a invasãoda casa e esse curioso invasor.(imagem da casa) Amim também. Francamente a história me desagrada,porém, lhe direi o que puder. Não será muito.H: Sei que queriam contratar seus serviços para aconstrução de uma capela católica.A: Exato... mas, eu sou uma servidora do Senhor enunca que concordaria em cometer a abominação deconstruir altares para ídolos. Respondi-lhes quenão! (pausa).H: Isso é tudo?A: Não. O judeu, esse Pretorius, o tal invasor, quisque eu destruísse a minha obra e construísse umacoisa monstruosa em seu lugar.(pausa). Quer maischá? 146
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS(H e A se despedem na entrada da casa. H sai e maisà frente encontra Daniel (D). H não quer seguir comele mas D teima e o leva. H nota que se aproximamda casa. D percebe e o afasta para um bar).D: Eu não sou covarde, vc sabe. Mas noite dessas eupassava perto da casa com meu Rottweiller, quandovi algo. Mas o cão viu primeiro e correu. Meu caro.Correu para longe dali. Se eu não solto a coleira eleme arranca o braço.H: O que é que viram , afinal?D: Porra, o que vi, não era pra menos.(Olha parafora, assustado, olha para H e, Inesperadamente saie deixa H no bar, atônito, bebendo o último gole,deitando o copo e cismando).H volta para seu quarto no hotel, fecha a janela,deita-se e sonha com o Minotauro, quadros de Bosche labirintos. Acorda lentamente e a janela estáaberta. Ele não se move. Vê uma gaveta meio aberta.Uns livros com folhas ao vento. Sobre a pia um copocom vinho e uma garrafa aberta ao lado. A porta doquarto se fecha. A imagem se fecha no rosto de H.H entra numa marcenaria. O marceneiro (M).H: Boa tarde. Eu sou da residência invadida pelojudeu Pretorius e preciso de sua ajuda.M: Que tipo de ajuda?H: Entrar na casa... reconstruir o mobiliáriooriginal...M: Eu tinha a mobília para o velho Malaquias...H: Então é isso. Pago bem...M (que pegou alguns papéis): Isso tudo é do judeu. Otal...(M não se lembra) 147
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASH: Pretorius...M: Isso. Papelada que não entendo. Assinada poraquele judeu esquisito.H: Mas, o que vc quer dizer com isso.M: Quero dizer que não volto naquela casa nem portodo o ouro do mundo. O cliente é sagrado mas, naminha humilde opinião, o Judeu está maluco. Nemsei se o considero cliente... nem mesmo sagrado... (Mse afastou para dentro de sua loja).H escreve em um diário à noite. As imagens das datase sobrepõem às cenas.Dia 2 de Janeiro. Ele está nas proximidades da casa.Uma luz repentina aparece na escuridão das janelas.Dia 4 de janeiro: Ele observa a casa e de repente umgrito terrível.Dia 7 de janeiro: Risadas e música alegre e festiva.Clarões no interior.Dia 10 de janeiro: Ele se afasta da casa quando ouvepassos que param quando ele para e corre quandoele corre. H para em uma esquina e espera que,quem o persegue, passe. Para sua surpresa, quem opersegue sai detrás dele, bruscamente. Dia 19 dejaneiro. Chovia. Trovões e Relâmpagos. H está nasruas e se aproxima da casa. Passa pela entrada. Umarajada de chuva bate em H e na porta e a porta seabre. Vasculha e sombras passam por ele. Um ououtro barulho muito estranho, em volume baixo.Choro de criança, possivelmente e ele se decidesubir. No alto do mezzanino há um brilho de vela. Holha. Começa subir. Súbito a porta se fecha,violentamente, lá atrás. Tomadas do exterior da 148
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScasa. Não há mais chuva. Pingos. H se voltalentamente. Passos sobre pedrinhas e objetosestalantes. (passos que se multiplicam em váriospés). A sombra de um ser plural (a sombra de váriaspessoas e várias cabeças entrelaçadas em abraçocontra uma luz, começando a subir a escada, comoúltima visão de H.Fade out. 149
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS A FAMÍLIA -Coelho De Moraes- baseado na obra de Woody AllenCora (C ), Aroldo (A), Linda (L), Emilia (E)CENA 1Casal C e A, namorando num sofá. Namoro tórrido.C: Você é adorável.(agarração) Vai me telefonar umdia?A: Telefonar? Se pudesse levaria você para minhacasa agora.C: (sorrindo coquete) Hmmm, que bom. Sabe queachei que você não estava me dando a mínima?A: Você é fantástica.(Um olha para o outro. Sorriem e se decidem. Corte. 150
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASO casal tomba sobre a cama e a cena é do início daretirada das roupas, intensamente. Corte).CENA 2Sob os lençóis, após o sexo.A: (pensando) O que é que o destino me reservaapós essa noite de tanto prazer? Ficarei cego?Paraplégico?CENA 3(O casal visita museus e lugares eruditos.Conversam e tudo deve parecer que a conversa éextremamente refinada e graciosa. Corte.Restaurante).C: Prefiro Tchekhov.A: Eu espero que você leve a sério essa história deser atriz.C: Olha! Meus pais vão oferecer um churrasco nosítio e eu quero que eles o conheçam. (A faz umgesto displicente) Você vai ver. Papai é um tesão! (Aque está comendo para com a comida dentro daboca) Além de ser gênio. Mamãe também é linda. Eseus pais?A: Bem, eu não diria exatamente lindos. Na verdadeeu não tenho realmente uma idéia clara daaparência da minha família. Normalmente eucomparo os parentes da minha mãe com o pessoalda família Adams.C: Mas, vocês se visitam.A: Sim... e não é que não nos gostemos – apenasficamos brigando o tempo todo. Acho que isso tudo 151
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScomeçou naquela época em que Deus fez aqueleacordo com Abrão.C: Meus pais nunca brigam. Podem ficar umpouquinho altos, mas são sempre carinhosos. E meuirmão Daniel é ótimo... meio louco... mas ótimo... fazmúsica... eu o chamo de Dani.A: Estou ansioso para conhecer todos eles.C: Só espero que não se apaixone por Linda, minhairmã.A: Ora... ora...C: Ela é dois anos mais nova do que eu, ela ébrilhante e sensual. Todo mundo fica doido por ela.A: Puxa, parece uma coisa! (Cora dá um tapa norosto de A).C: Não se atreva a gostar mais dela do que de mim.A: (com a mão no rosto) Eu se fosse você não mepreocuparia.C: Promete?A: Vocês são assim tão competitivas?C: Não! Na verdade nos adoramos. Mas ela tem umrosto de anjo e um corpo que vou te contar! Puxou àmamãe. Sem falar em seu Q.I. que mais parece umplacar de basquete, além de um fantástico senso dehumor.A: Você é linda (e a beija de leve na boca).CENA 4(A deitado em sua cama. Luz da tarde. Ele pensaenquanto põe um saco de gelo na cabeça).A: (off) e se Linda for mesmo essa maravilha? E sefor irresistível como Cora vem dizendo? Será que eu 152
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASconsigo ficar longe dela? Do jeito que sou, afragrância de seu corpo e a incrível cabeça de umagarota que já se chama Linda não me desviarão deminha paixão por Cora em busca de algo mais frescoe apetitoso? Afinal não estou perdidamenteapaixonado por Cora.CENA 5(Sexo entre C e A . Cenas mais quentes de beijossobre ombros e babação de pescoço. Nada mais.)CENA 6(No carro)A: O namorado de Linda estará lá?C: Não. Terminaram. Linda não os agüenta por maisde um mês. Eles ficam alucinados demais.A: (close no rosto canalha de A; pensa): Como senão bastasse a moça está disponível.CENA 7(Churrasco. Chegadas do casal. Cumprimentos aospresentes felizes. Boa diversão, perto da piscina.Momento dramático da visão estonteante de Linda,primeiro e, depois, da mãe Emília. Enquanto a mãefala, sem sons, A está deslumbrado)A (em off): Que protoplasmas os dessa família! (coma visão dos componentes da família como numquadro) Que produção em série de genespremiados. (E caminha com o convidado para cima epara baixo. Conversa entre o pai e A . A irmã maisnova e irmãos discorrendo sobre qualquer assunto. 153
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASC e A juntos tomando um vinho e o tempo passa).CENA 8(Num sofá daquela casa. A sós. A deitado com acabeça no colo de C)C: São uns doces, não são?A: Muito.C: Papai não é um tesão? Eu o acho uma graça.(olhar estranhado de A para C) E mamãe estavafantástica hoje. Melhor do que há muito tempo. Elaandou gripada ultimamente.A: É! Ela é uma coisa.C: As fotos e colagens que ela faz são muito boastambém. Gostaria que papai a incentivasse mais, emvez de ser tão careta. Mas, essas coisas criativasnunca fizeram o gênero dele.A: Uma pena. Espero que não venha sendo muitofrustrante para ela este tempo todo.C: Mas, tem sido. E Linda? Não se apaixonou por ela?A: Ela é uma delícia, mas não chega ao seus pés. Pelomenos na minha opinião.C: Estou mais aliviada, agora. (e belisca a bochechadele. Cenas mescladas de Emilia, a mãe, andandoperto da piscina, bebendo, conversando).CENA 9Passeios a três. A, E e C. Museus, bares, restaurantes,livrarias.CENA 10(A chegando em casa. C o olha com atenção. A fica 154
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASsem jeito.)A: Levei sua mãe para ver a exposição de Matisse.(pausa)C: Eu sei. (pausa) Ela adorou.A: Que mulher de sorte. Parece ser tão feliz, Tem umcasamento ótimo. Não é? (pausa) Ah! Quero dizer...ela disse alguma coisa?C: Disse que vocês bateram um ótimo papo depois,sobre as fotos dela.A: Foi. (pausa) Disse mais alguma coisa? Sobre mim?Quer dizer.. será que não tomei demais o tempodela?C: Oh Não. Ela te adora.A: (sorriso sacana por parte dele) É mesmo?C: Com Dani passando cada vez mais tempo compapai, ela te vê quase como um filho. (o sorriso delemorre nos lábios)A: Um filho?C; Acho que ela gostaria de ter tido um filho que seinteressasse pelo trabalho dela, como você. Alguémmais chegado à cultura do que Dani, mais sensível àssuas necessidades artísticas. Acho que vocêpreenche essas carências.CENA 11(A e C estão assistindo TV. Ela come pipoca e ele estáamuado. Close na cara amuada. no canto do sofá. Nopensamento de A ele está fazendo amor. Passagemda câmera dos pés entrelaçados até os ombrosquando se nota que A pensa em E. Close na cara desacana feliz.) 155
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASA: (grita) É isso mesmo!C: O que foi Aroldo? (ele senta abruptamente,esfregando as mãos)A: Nada, nada... (e pula pra cima dela).CENA 12(Corte para meses depois, os dois sentados na cama,tristes. Ela com a mão apoiada na cabeça)A: O que aconteceu? O que eu fiz?C: OH! Meu Deus, não é sua culpa...A: Então me diz o que foi!C: Não sei. Só sei que não estou com vontade. Temos,obrigatoriamente de fazer sexo toda noite?A: Três vezes por mês não é toda noite? Inda mais secontarmos que é sempre no seu período fértil.C: Você quer dizer que é só no meu período de cio?A: Há essa coincidência, não podemos negar... Nãoque eu queira, pois pode parecer que é apenas umaatitude animal e isso vai dar suporte à idéia de que ohomem pode toda hora e a mulher só no seu períodode fertilização.C: Cala essa boca. Não quero. Você sabe que eu nãoestou numa boa.A: Como, não está numa boa? Está saindo com maisalguém?C: Claro que não.A: Ainda me ama?C: Antes não te amasse.A: Então, qual é o grilo, por que está desse jeito?C: Não sei... só sei que não consigo trepar comvocê.(pausa) Você me lembra meu irmão. 156
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASA: O que?C: Você me lembra Dani. Não me pergunte por quê.A: Seu irmão. Você está brincando?C: Não.A: Mas ele tem 23 anos!É louro, bonito pra cacete,tem três metros de altura, dois braços que parecemalavancas, trabalha no escritório de advocacia doseu pai, e eu faço você se lembrar dele?C: Sei lá.. é como ir para cama com ele.A: Está bem, está bem... Não chore. Tudo vaiterminar bem. Vou tomar uma aspirina e me deitar.Não estou me sentindo bem. Não se preocupe... issoé temporárioC: Você me entende?A: Claro. Eu passei por isso, quando estava nafaculdade. Fracassei na cama com uma colega declasse só por que ela se parecia com a minha TiaAlzira. Sabe. Tinha a mesma cara de esquilo. (A põe amão na cabeça, como se estivesse com enxaqueca) Émelhor ir dormir. Descanse. Tome uma aspirinatambém...CENA 13(Os dois na cama, dormindo. Meia luz. SubitamenteA acorda, senta na cama e grita!)A: Pô!(C acorda vagamente , olha pra trás e volta a dormir.A volta a dormir).CENA 14(No café da manhã) 157
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASC: Por que você não procura outras mulheres? O quemais posso oferecer?A: Não preciso de outras mulheres. Amo você.C: E eu amo você. Você sabe. Mas, não consigo irpara cama com você.(A a olha com desconfiança. Alternaremos astomadas. A a olha. C está com um biscuit na boca. Aolha com mais ansiedade. C está com um picolé naboca. A olha mais desesperado ainda. C está comuma baguete na boca. A está quase enlouquecendo.C está com uma banana na boca pondo e tirando).A: (grita) PÔ!C: (a mesa de café em estado normal) O que foi,querido?A: Definitivamente, você está saindo com alguém!C: (ela hesita, mas acaba entregando) O que vocêquer que eu diga? Não é o que você está pensando.Só faço isso para ter certeza de que não estoubrocha de uma vez. De que ainda sou capaz degostar de sexo. É por mim... é coisa minha...A: Quer dizer que você gosta de sexo com todomundo, menos comigo?C: Isso mesmo... mas é só a você que eu amo...Vocême lembra meu irmão.... e um primo longe... (A estáfurioso).A: Chega dessa asneira. Não quero mais saber disso.C: Eu disse a você para procurar outras mulheres.A: Tentei evitar mas agora estou vendo que vou terde fazer isso.C: Por favor... não evite. É u’a maldição sobre nós.(A sai jogando o guardanapo na mesa. Ela fica 158
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASchorosa. Ele volta, pára atrás dela. Ela sorri, como sefosse receber uma abraço ou beijo. Ele se debruça epega a banana).A: E, essa banana é minha. (A sai. Pelas suas costasele houve).C: Tenho uma última notícia. (ele pára para ouvirsem se virar) Meus pais vão se divorciar. (ele sorri eolha para a banana. Bate a banana na mão e sai comar de safado).CENA 15‘A’ na cama, sentado, de roupão. Várias pequenastomadas. ‘A’ com jornal. ‘A’ fumando. ‘A’ jogandocartas. ‘A’ bebendo. ‘A’ vendo TV. ‘A’ lendo. Sempreem volta dele mulheres, em grupos, com roupasensuais em atividades corriqueiras: servindo água,tricotando, dobrando roupas, limpando sapatos,arrumando a mesinha...CENA 16A e E no mesmo restaurante.E: (um pouco chateada) E aconteceu de nossepararmos... ou como se diz na minha terra, dedescasarmos. (A dá um sorriso de compreensão epõe a mão no joelho de E) Tenho que ver isso comoportas que se abrem... (A sobe a mão para o meio dacoxa) ... possibilidades de uma nova vida... (A põe amão sob o vestido)... Aroldo (meio arfante. A põe amão no meio das pernas dela) ... desse jeito eu nãovou manter a minha dignidade de sogra (Tomada deuma cara safada de A ... ele não liga, como dizendo: 159
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASisso é com você. Olham-se. Mão nas pernas... Ela faza mesma coisa. Beijam-se).A: Quero me casar com você.E: Não brinque.A: Não estou brincando e não deixo mais barato.CENA 17Casal- sexo sob o lençol. Tomada de movimentosintensos e gemidos ritmados.CENA 18A e E conversam com Cora e ela os abraçaternamente. A e E conversam com os pais de A e elescorrem para pular da janela e ficam tentando quemvai primeiro.CENA 19Cenas de Casamento de A e E. Cena de rua. Saída daIgreja. Arroz.CENA 20A e C se encontram num corredor da casa no dia docasamento.C: Belo casamento.A: Sim. Foi mesmo!C: Você e mamãe se darão muito bem.A: Assim espero.C: Especialmente se você fizer com ela o que fezcomigo...A: É.. não tive tempo de me desculpar... erros...C: Não... na cama... foi muito gratificante... 160
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASA: Pois é... como não deu certo com a filha eucapturei a mãe. Freud... entende?(Repentinamente C pula sobre A e o beijaardentemente. Rolam pelas paredes do corredor)A: O que é isso? Está bêbada?C: Você me provoca um tesão que nem imagina. (C opuxa para a cama).A: (ele reluta) O que deu em você? Virouninfomaníaca?C: Tenho de ir para a cama com você. Se não foragora...logo mais...A: Por que comigo? O cara que viveu com você? Ocara que amou você? Aquele que virou uma espéciede versão falsificada de seu irmão Dani?C: Agora é diferente (agarra-se a ele pela lapela eolha bem na cara) Casando com minha mãe, você setornou meu pai. (Beijou de novo e o larga com armalandrinho, voltando para festa) Não se preocupepapai... não faltará oportunidade. (A se senta nacama e olha perdido para a janela. Ela, da porta:)Não se esqueça da banana.A: Acho que é hora de parar de escrever para oteatro e me tornar um rabino. (olha para a festa e vêas duas, mãe e filha, se divertindo. A olha para acâmara, balança a cabeça e olha para a janela.Imagem desaparece) 161
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS HONRAR PAI E MÃE - Baseado na obra de Silvina Bullrich - Personagem: Ele ( ) e Luz ( )CENA 1(Um homem escrevendo à mão ou à máquina. Aolado a mulher, Luz, meio entediada, lendo umarevista comum, à espera dele no sofá. )ELE: Eu sei que você não gosta das minhas histórias.LUZ: A única coisa que me faz bem é fazer amor comvocê, depois... sair ao restaurante e ir ao cinema.E: A condição para essas “coisinhas”... você já sabe...L: É que eu escute os seus contos... que o espere aescrevê-los...( Ele olha para Luz )E: Bom. Vou ler a epígrafe dessa nova história paravocê.L: O que é que é isso? 162
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASE: Epígrafe é a frase que se coloca no alto da página,um pouco abaixo do título para...L: Tá bom, tá bom... leia...( Ele se prepara. Limpa a garganta )E: Sabe por que Cristo não quis a sua Mãe? Por queera Virgem.L: Não entendi... é algum tipo de piada? Frase idiota!E: É... é uma frase idiota. Todo mundo quer sua mãee todos sabemos que ela não pode ser virgem. Mas,todos nós cremos que ela seja virgem. Aí está oequívoco. O matrimônio é uma instituição feita paraque os filhos creiam que sua mães sejam virgens.( Luz olha meio desconfiada, meio com medo)L: Isso é um absurdo. Todo mundo sabe que u’a mãenão pode ser virgem, salvo a Virgem, é claro, aVirgem Maria, a Virgem de Fátima, a VirgemAparecida...E: Eu já entendi ( meio piedoso )... você é que nãoentendeu o que eu quis dizer. Pensa um pouco e dizseriamente se algum filho pode imaginar, semhorrorizar-se, os amores de seus pais. Ele nãoimagina isso. Ele não admite. Não cabe em seuuniverso..L: Então a frase passou a ficar mais idiota ainda. Setodos querem sua mãe, imaginando-a Virgem emcerto modo, Cristo não será nesse terreno umaexceção e não há motivo algum para que ele não atenha querido... ou seja, ao menos esse motivo nãoserve.E: Tem razão. Não havia pensado nisso. Então vouescrever outro conto. ( rasga os papéis já escrito ou 163
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASretira da máquina de datilografar ).CENA 2( Ele, o rapaz, no mato. Acorda suando. Olha emvolta. Nada vê )E ( para os céus ): Eu a quero como nenhum homemquer a uma mulher. Em forma total e irreparável.Daquela forma que se quer a quem se estáesperando muito. A quem se tem desejado noiteapós noite, sem maior apoio que a minha própriaimaginação. Sempre paciente, eu a vou criando emminha imaginação... vai sendo modelada... euacaricio... eu a possuo... ( grita aos céus ) Injustiça!Injustiça céus! Injustiça! ( Ele vai ao chão e close,meio atordoado, suando, dormente ) Frustração.(olha para o Céu com certo ressentimento, selevanta lentamente, se ajoelha e agradece. Elesempre leva a mão a uma ferida que tem nascostelas, como um corte. Esse será um movimentoque o ator fará sempre. ) Obrigado pela mulher quehá de vir.( A mão da mulher sobre os ombros dele. Ar defelicidade dele. Se olham. Ela está séria, mas ele estácontente, contido. Olha para ela e para os Céusalternativamente ).L: Quero dizer, antes de tudo, que eu não o querocom a mesma paixão. ( ela não está com raiva ) Eunão estava esperando por você. Não sonhei você.Essa situação, para mim, é como uma imposição. (ela passa a mão pelos cabelos dele ). De qualquermaneira você é o único homem para mim. O único. O 164
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASúnico que vai me compreender... me amar... e seguir-me até o limite de suas fantasias.E: Tenho pena de todos aqueles que não terão aoportunidade de estreitar a mulher sonhada emseus braços. Não se pode crer. Você está aqui, bela,sonhada, minha, com aroma da terra. A solidãoanterior agora é apenas um mau sonho.L: A única realidade é a minha presença. Mas saibaque nada que vem de cima, vem de graça. Tudo temum preço. E para ser uma homem completo e feliz opreço será pago em sangue.( corte para o escritor na datilografia )E: A idade dele era idade daquela ingenuidade detodos os homens. Não sabia ele que o amor maisperfeito se torna chato se não há algum tropeço nomeio do caminho. Talvez seja sempre chato paratodas as mulheres que esperam do amor mais doque o amor pode dar.CENA 3( Mato ou perto do Rio. Enlaçamento dos dois. Olhosnos olhos. Moleza. A Natureza. Umedecimentos.Idéia do ócio infinito. Passeando de mãos dadas.Conversas ao pé do ouvido. Um dia, ela muitosonhadora... ).E: O que foi, mulher?L: Nada.E: Algo está acontecendo.L: Estou chateada. Isso não é vida.E: Como assim?L: Nós estamos deslizando pelo tempo. Somos 165
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASautômatos, sem vontade, sem ambições, semperguntas e sem respostas.( ele se entristece sem saber o que fazer. Ela percebeque ele vacilou )L: Vamos sair. Algo dentro de mim diz... vamosviajar. Conhecer os vales, as montanhas que estãolonge, os mares.E: Não podemos sair daqui... podemos?L: Saber o que somos nós... o que sabem por aí... qualo tamanho do mundo.... qual o nosso valor para omundo...( close no homem. Fade out enquanto ela fala )CENA 4( As mesmas personagens mas, cobertos de pele deanimais.)L: A culpa foi sua por ter cedido. Nunca está em casa.Fico sempre sozinha. Tem que trabalhar de sol a sole essas mãos... duras.. ríspidas... já estão me dandonojo...E: Mas, as crianças fazem companhia para você...L: Nem me fale nisso. Só de lembrar das dores quetive dá vontade de.... de... ( faz movimento deesganar alguém )... Ter que deixar passar gente pelomeio das pernas... meu buraco ficou desse tamanho...E: A colheita vai ser boa esse ano...L: Por que você me deu ouvidos? Por que você fez oque eu queria? Tínhamos tudo... não era precisotrabalhar... nada de ganhar o pão com o suor dopróprio rosto.E: Os meninos até que ajudam... 166
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASL: E ainda ter que dar à luz com dor e sofrimento aCaim, a Set, a Abel, e esse bando de gente estranhaque nunca vi e me deformou... que acabou com aminha forma inicial... minha forma original...E: Foi você quem quis... eu tentei...L: Isso foi um erro terrível...E: Você preferiu a ciência e as emoções... em vez dainsossa felicidade.L: E essas crias nem me ouvem... parece que não mequerem...E: É mais fácil honrar a u’a mãe sem iniciativas...talvez seja essa uma forma de punição.L: As crias podiam ser mais justas...E: Não acho que sejam injustos... podem serrancorosos, mas não injustos... Sabem muito bemque terão de pagar para o resto das suas vidas o erroque cometemos. Agora todo mundo sabe que amissão dos filhos é pagar uma conta bem detalhadados erros dos pais.CENA 5( Na casa do escritor, finalizando o escrito )E: Por tanto resulta que o Homem pague suadebilidade tendo que parecer forte... bem mais fortedo que é. E a Mulher pague o seu amor pela ciênciatendo que parecer frívola... displiscente. ( para Luz )Gostou?L: ( ela, meio que dormindo ) Sim... mas podia terescrito outro dia, em vez de trabalhar toda noite.E: Prometi ao editor que entregaria logo pela manhã,sem falta. 167
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASL: Nunca pode sair bem algo feito por obrigação epressa.E: Engano seu! Paul Valéry dizia que só escrevia bemse fosse pressionado.L: E você acredita nisso? ( ele dá de ombros; olhapara o papel, orgulhoso ) Mas, o que eu quero saberé o que é que isso tem a ver com “Honrar Pai e Mãe”?E: Como não tem a ver? Imagina se nossos primeirospais nos preparam um mundo tão difícil, uma vidatão cheia de arestas, uma luta sem quartel... se jogamfora o paraíso...L: Mas, isso é uma lenda...E: Lenda ou não... isso gerou um ódio entre osirmãos. E eu não me lembro se disse que papaiperdeu totalmente um paraíso de trinta mil hectarese não temos raiva dele...!L: Você está querendo me gozar ou está dizendo queseu pai era Adão?E: Sim. O nome do meu pai era Adão. De verdade. Navida real, quero dizer. E deu o nome de “El Paraíso”a uma estância que ele tinha.L: E vai me dizer que o nome da sua mãe era Eva?E: Não! Eva era a sua querida e ele perdeu “ElParaíso” por causa dela.L: Tu tá gozando com a minha cara?E: Não! É verdade. A história se repete. Eva queriapeles, vestidos, carros, queria viajar, se entediava ...não queria mais ficar no “El Paraíso”...L: O seu pai a levava à fazenda?E: Sim. No inverno quando não íamos nós. Acho quea minha história é melhor que essa que eu escrevi. 168
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASSerá que eu não poderia refazer?L: Não! Não é nem melhor e nem pior... é a mesmahistória! Vamos sair!E: É o que você acha?L: Com certeza! Mas, vamos embora que estoufaminta. Chega de ficar em casa, já que não vamosfazer amor, mesmo, pelo menos vamos sair. Vamoscomer uma pizza por ai. ( ela sai. Ele ainda fica aolhar o papel e deita o papel na mesa. Luz lá defora). Caim! Você vem ou não vem? ( ele sai sobra opapel sobre a mesa ). 169
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS MEDUZA DE Coelho De MoraesCENA 1Mulher saindo da Igreja. Mulher chega em casa.Família faz surpresa com bolo e velhinhas. Cantamparabéns. Ela saca de um revolver e atira em todos.CENA 2Fiéis se preparam para a comunhão. Fazem a fila. Opadre dá as hóstias. Acompanha-se três deles à casa.Deitam e morrem.CENA 3Grupo em farra noturna. A brincadeira vira coisaviolenta. Afogamentos, marteladas nos dedos, 170
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStesouras cortando órgãos.CENA 4Mulher sobre um sujeito. Dormiram juntos. Ela selevanta mas não se vê o rosto. Vai ao espelho. Tomaum celular e fala: “ Quero você a sessenta metros”. Osujeito deitado fala: “Quero mais”. Ela: “Toma”. Eatira friamente. Fecha na arma fumegante, eleva-sepelo corpo até fechar nos olhos.ABERTURAMúsica tema. Mulher que anda. O corpo da mulher.Saia justa ao corpo. Cabelos negros que balançam.Na mão uma arma. Créditos rolando. No momentofinal, como se ela viesse por um corredor e semostra a meio corpo.A palavra MEDUZA surge ao final da música.Congela-se a imagem.(fade)CENA 5Repórter de TV: Casos muito estranhos deassassinatos e brutalidade atingiram nossa cidade. Apolícia está desnorteada. Os agentes dos terríveisatos são pessoas comuns que nunca tiveramnenhum envolvimento com o crime. Outros, hojemortos, eram pessoas pacatas e sem problemasaparentes. E nessa casa, como fechamento dosacontecimentos da noite, foi encontrado morto umempresário da cidade. A polícia não reveloususpeitos.(enquanto a imagem da TV se afasta a mão de um 171
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAShomem, aparece se contraindo nervosa).CENA 6(Na delegacia)_ Essa morte desvirtuou nossas pistas._ Ele era o principal suspeito?_ Não! É que a história tinha uma linha única. Todomundo meio religioso. Com a morte do empresário,que todo mundo sabe que era um tremendo galinha,a investigação andará a passo de tartaruga._ E aí?_ O que as testemunhas disseram?_ Não muito. Só que ele foi visto com a sua namoradana noite do assassinato._ Então ela o matou?_ É possível. Mas não sabemos nada sobre ela. Estádesaparecida._ Nem deve ser da cidade._ Com certeza. Pelo jeito não é daqui e nem daregião._ Talvez seja do inferno._ Esquece esse papo de inferno._ Afinal ela matou as pessoas que eram religiosas ese a moda pega?_ Calma... ela quem? Não temos nada certo ainda.Pode ser um homem e não essa mulher que todomundo resolveu culpar._ Tá certo. Pode ser qualquer um ._ Depois, se for mulher... sozinha é que não fez tudo. 172
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA 7U’a mão de padre. Fiel vem beijar e acaba mordendo.Padre dá um tapa na cara do fiel. Ele cai sobre osbancos da igreja.CENA 8(delegacia)_ Algumas provas chegaram. A única coisa emcomum entre as mortes é o fato de terem vindo dealguma coisa ou qualquer coisa relacionada com asfestas e assuntos de Igreja. Menos uma._ Qual?_ O cara que morreu depois de trepar. Esse não temnada a ver com o caso, mesmo._ Por que aparentemente foi só isso. Trepou emorreu. Estava até sorrindo. Aí sim eu tenho queconcordar que a culpada até pode ser a tal mulher._ Isso se ele não tiver outro tipo de gosto..._ É... tem isso também._ Qual é o comando, então?_ A polícia civil fica com esse caso do empresário.Pedimos ajuda à PM para autuar um pessoalzinho aíe ver se há ligação com as outras mortes. Mas asinvestigações continuam e eu quero que você seempenhe mais na questão das Igrejas._ Pode deixar. É só Igreja católica?_ É! Por enquanto..._ O cara que morreu é daqui?_ O único que não tinha vindo de Igreja alguma. Aúnica relação é que ele tinha uma fábrica de hóstiase fornecia material para cultos e liturgias. Uma 173
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASconfecção. Periodicamente restaurava Igrejas dointerior._ Rico?_ Tinha muito dinheiro. Mas, manda bala nisso queeu quero resolver esse caso antes das férias. Se nãoo chefe me come o rabo. Vai lá, vai.CENA 9(confessionário, dois padres conversam como seconfessassem um com o outro. Conversaentrecortada de suspiros)_ Ele não tem culpa nenhuma..._ Nunca têm._ Não, é sério. A coisa é muito mais complexa. Háoutros envolvidos. Escalões mais altos._ Ele não tinha nenhuma informação?_ Não... no entanto recebeu um bilhete anônimodizendo para ele ficar longe de tudo... inclusive damulher..._ Ele precisava ficar vivo para continuar amovimentar o negócio... Se ele mentiu... não poderiadurar muito, mesmo..._ É tudo muito pior e extrapola os poderes da nossaparóquia._ Também... quem mandou que fizessem essaexperiência justo aqui. Uma cidadepequena...provinciana..._ Bom... fica calado. É hora da missa. Depois a gentese fala.CENA 10Mulher em casa catando alguma coisa no chão. 174
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCriança chora na sua cadeirinha, atrás dela. Mulherse volta rapidamente. Olhar desesperado. Armadade uma faca. Parte pra cima.CENA 11É dia. Estrada movimentada. Trevo ou rotatória. Ocarro ao longe se aproxima na estrada. Temmotorista. De trás sai uma mulher – MEDUZA. Close,retira os óculos escuros. Observa a cidade. Umsorriso sacana.CENA 12(Soco na mesa. O monsenhor está furioso)_ Não quero saber. As minhas ordens bastanteclaras._ Mas, monsenhor. Parece que tudo saiu do nossocontrole. Agora tem a polícia civil, a polícia militar,sem contar uma série de detetives particulares..._ Chega de desculpas. Ação, padre. Eu quero ação eresultados. Até agora só tenho ouvido desculpas._ Mas, já disse... perdeu-se o controle. Onde estão osquímicos?_ Não sei nada de químicos. Cedemos as paróquiaspara essas primeiras experiências. Convoque ospastores das outras Igrejas... convoque os bispos..._ Das seitas, o senhor quer dizer..._ Você bem sabe o que eu quero dizer... mas temcoisas que não se fala em voz alta... chame ospastores, os bispos, os anciãos... o nome quequiserem.. o título deles não me interessa.... queroapoio geral nesse momento. Não responderemos a 175
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASisso sozinhos.(o outro sai)CENA 13Meduza se instala num hotel. Roupas menores.Toma o telefone: Quero você a quarenta metros.Desmonta sua mala. Carrega sua arma e sai.CENA 14Jovem correndo pela estrada, despreocupado.Quando chega a meio corpo na tela, som de tiro, ecai.CENA 15(Repórter entrevista delegados)_ As mortes se avolumam... o que está faltando,delegado?_ Não temos pistas._ A mulher que matou o filho, o padre que atacou ofiel... o rapaz assassinado na estrada... são coisasnormais?_ Não... não são... Por isso convocamos algunsespecialistas para acompanhar o caso. Gente queestuda essa coisa de psicologia e comportamento._ Quanto tempo ainda o cidadão ficará inseguro?_ Juro que não sei. Estamos fazendo de tudo. E são sódois dias._ Dois dias e uma dezena de mortes ( o repórter selivra do delegado, deixando-o de lado falandosozinho e se vira para a câmera. Corte para a mãocrispada) Não percam dentro de instantes mais 176
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASnotícias sobre as mortes que abalam a cidade. (amão desliga a TV com o controle remoto).CENA 16(MEDUZA investigando. Ruas. Conversa à distância.Às vezes alguma brutalidade. Uma idéia de que suasações passam durante um dia de manhã até a noite.Ela chega com seu carro ao hotel. Fala ao motorista)._ Você está liberado. Quero você de volta à uma damanhã.( O motorista cumprimenta servil).CENA 17(alguns homens. Dois padres e dois outros. Umasecretária. Mesa com bebidas)_ Assim está a questão. A experiência deu um bomresultado. Mas, se transformou em algo muitopúblico. Não há mais controle sobre o que sedesenvolveu e o que vai se desenvolver daqui pordiante._ Não era essa a meta a ser alcançada?_ Uma parte dela sim. Mas, as autoridades estão semetendo, fazendo perguntas. Alguns dos fiéis estãodesorientados. Preocupa a mim a ação dedeterminados detetives... Principalmente doisdetetives... honestos._Eu pensei que isso fosse lenda. (risadas)_ Só esses dois?_ É claro que há uma milícia de ministros e fiéis quese organizam para um mutirão de justiça... não seiaonde isso vai levar... 177
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS_ Pensei que vocês soubessem o que faziam..._ E sabemos... Tudo foi muito bem planejado...Caminha corretamente. Mas, não contávamos que acomunidade fosse reagir dessa forma. Ascomunidades são sempre muito covardes. Se nãofosse assim não precisariam de nós para protege-los,não é mesmo?_ O que o monsenhor deseja de nós?_ Nossas igrejas estão com certos limites para agir,agora que a polícia está por toda parte. Quero quevocês estimulem seus membros a denunciar umaação demoníaca... um distúrbio diabólico que estátomando conta da cidade... inventem uma históriaqualquer... você são mestres nesses assuntos..._ Assim... sem mais nem menos?_ Vocês são mestres em ver demônios por todaparte. Deve ser fácil. Somos inimigos mesmo._ Sim, mas... estamos desprotegidos..._ A massa de trabalho que vocês têm é muito maisfácil de manejar do que a nossa. Os fiéis de suasIgrejas são mais carentes e mais crédulos que osnossos. Depois..._ Depois o quê?_ Estamos fazendo o que nos cabe... o resultado estápor toda parte. Basta olhar.( os outros pastores se entreolham)_ Está bem. Vamos encomendar uma espécie de açãopela santidade. Vamos botar a culpa em vocês peloque vem acontecendo, usando a oportunidade deque os mortos e desesperados são quase todos desuas Igrejas. 178
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS_ Muito bem. Ficamos assim. Mas, tem que serrápido.(os homens se levantam, se despedem e saem. Fica omonsenhor e fica a secretária que tomava notas.Olham-se. Ela abre as pernas, convidando ).CENA 18Escoteiros em volta da fogueira. Cantando. Derepente um grande grupo se olha. Pega um dosescoteiros e joga na fogueira.CENA 19Os detetives arrombam uma casa. Lá encontramhomens jogando baralho, completamente alheios einocentes._ Pista falsa!_ Saem envergonhados.CENA 20Os detetives entram em um clube e chegam aovestiário. Grande tensão. Tem ninguém lá dentro.Um olha pro outro, decepcionados.CENA21Os detetives invadem uma sacristia. Encontram duasmadres abraçadas de modo suspeito. O 1.o detetivefica furioso e sai para a rua.CENA 22(tomadas da igreja. Carro de MEDUZA. Ela desce eentra)_ Monsenhor! O senhor tem visita. (para MEDUZA) 179
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASPode entrar, por favor.( MEDUZA entra na sala. Cumprimentos)_ Quem é você?_ Se não se importa... por enquanto devo ficarincógnita._ Se você não pode dizer seu nome... saia e não meperturbe mais. Eu tenho o que fazer._ Desde quando o monsenhor deixa de lado umamulher como eu._ Desde quando você sabe o que o monsenhor deixade lado ou não? Devo chamar o segurança?_ Um amigo comum... passou-me essa informação._ Esse... amigo comum..._ Está morto...._ ( pausa e um certo interesse) Devo entender quevocê veio se confessar, então... Você o matou... estácom remorsos e veio à procura de ajuda espiritual..._ Quem vai precisar de ajuda espiritual é omonsenhor._ Naturalmente para tudo isso encontraremos umaexplicação. Principalmente para esse seu Aldotresloucado. Parece que a morte desse amigocomum trouxe problemas para a sua consciência..._ Não para a minha consciência! Você é quem omatou... (ele ri, meio debochado)_ Nada disso... eu sou um santo homem._ E é justamente isso que o levará para o inferno..._ Sou um monsenhor. Mesmo se fosse verdade,quem desconfiaria de mim? Passarei pelas portas docéu tranqüilamente._ Sendo um monsenhor faz o que quiser e nunca será 180
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASo suspeito._ Nunca...nunca... é muito tempo._ Estaremos falando de eternidade?_ Ou estaremos falando de pecado mortal?(olham-se)_ O tal amigo comum tinha um desenho tatuado noseu peito, à altura do coração._ E o que era?_ (ela desenha num papel à mão) Um círculo com umA escrito por dentro._ E você acha que esse sujeito era membro dealguma Igreja satânica, por acaso? Por acaso vocêacha que esse pessoal fica se manifestando tãoabertamente assim?_ Enquanto dormia ele sonhou e disse o seu nome.(olham-se)_ Provavelmente ele gostava bastante de mim, então.Talvez participássemos do mesmo clube. Talvezainda eu o tivesse como afilhado.CENA 23Ao por do sol ou nascer da manhã um grupo emvolta de um latão, cozinhando um churrasco emconversa tranqüila. Levantando um espeto se vê obraço de alguém como churrasco.CENA 24(cenário de uma assembléia ou câmara, quempreside fala)_ Peço a votação dessa emenda. Não mantenha-sesentado, Sim se levante. (observa) Aprovada! 181
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS(alguém chega por trás e dá um recado) A partir deagora o primeiro secretário assumirá a presidênciadessa Casa. (ele se retira e pelo corredor se dirige aum gabinete, os detetives estão lá)._ A que devo a honra de recebê-los._ Pedimos perdão por ser a uma hora dessas,atrapalhando a sessão..._ Nada disso... estou aqui para servir... e como andamas investigações sobre esses casos horrendos..._ Muito ruins, devo dizer..._ Até agora não conseguimos nada. Não é um casodifícil, mas faltam algumas peças._ Como assim? Não há suspeito? Não há alguma boapista?_ Há. Mas, parece que as pistas caem sempre sobreos ilustres membros dessa cidade. E aí é que mora operigo. Pode ser uma armadilha._ Entendo._ Vimos aqui para dizer ao senhor que precisamosde suas impressões sobre o caso. O senhor deve ir àdelegacia para um inquérito._ Eu?_ Foi o que eu disse. Os ilustres da cidade estãoficando em evidência nesse caso. Pode ser umaarmadilha, como já disse._ Pode ser?!_ O senhor sabe. Ser um notável pode ser bom, masquando o castelo de cartas desmonta..._ ... o que é que acontece...?_ Não falte, por favor. Aqui está a intimação. Osecretário já assinou. 182
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS_ Claro, claro._ É só isso. Não queremos atrapalhar mais o seutrabalho ( se despedem e saem. O parlamentarreflete , senta-se na beirada da mesa, e toma dotelefone )._ Eu quero falar com o Monsenhor.CENA 25MEDUZA correndo e atirando para trás. Pula umacerca. Pula sobre um carro. Rola no chão para seesconder. Três ou quatro pessoas em seu encalço.Quando ela entra em um beco, uma sombra aparecepara barrar seu caminho.CENA 26Por do sol em vários ângulos, lentos e calmos.O detetive recosta em sua cadeira a pensar.O monsenhor com seu terço, senta-se ao lado dasecretária e passa a mão nas pernas dela. Ela recostaa cabeça.O repórter se recosta em sua mesa e pensa olhandopara o computador. Digita.O parlamentar olha a janela e encosta a cabeça novidro. Amassa papéis e os queima.O outro detetive pega um leite da geladeira, bebe emedita.MEDUZA, que estava correndo, é surpreendida pelovulto, que é o seu motorista e de encontro a ele elafica protegida. Os perseguidores passam correndopelo beco._ Achei que se ficasse a trinta metros estaria muito 183
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASlonge.CENA 27( No quarto o motorista fala com MEDUZA. Ela estáno sofá, sentada, com as mãos sobre a perna, epernas elegantemente cruzadas.)_ Tenho umas novidades que podem ajudar._ ( ela só olha)_ Os caminhões de lixo depositaram vários corpos noaterro. Alguns corpos foram levados parareciclagem. Eles reciclam os corpos e transformamem alimento._ Vi isso em um filme._ É! Os filmes trazem boas idéias._ Que mais._ A empresa de coleta de lixo é daquele empresárioque tinha o símbolo pintado no peito. Lembra? Oque você despachou._ Lembro, mas essa associação ainda me escapa, porenquanto. Sabemos que há alguma coisa entre elestodos. Como provar a coisa é que está sendo o maisdifícil._ Desde quando você precisa provar alguma coisapara agir, MEDUZA?_ Na verdade... não preciso._ Se você já pressente que há um problema é melhoracabar logo com isso. O seu tempo curto. Você temmuitas missões a cumprir. E essa canalha semultiplica a todo momento._ Algo me diz que esse grupo é muito forte e temproteções... secretas. 184
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS_ A Cobertura deles parece ser muito boa. E agora,você está sendo perseguida, o que reforça o negóciode que você está no caminho certo e de que deveacabar logo com isso._ Tem razão. Deixei rolar muito leve. Preciso agircom maior cautela e mais força._ Maior cautela? Não é de seu estilo. Além dissotemos que levar em conta os detetives da cidade.Normalmente estão no bolso de alguma genteimportante._Você tem razão._ Bom. Era isso. Precisa de mim para alguma coisa?_ Estou muito tensa. Fica aqui essa noite. Vou tomarbanho.( ele começa a tirar o paletó).CENA 28Ao longe algumas crianças jogando bola.Aproximando-se, vê-se que jogam com uma cabeçahumana.MEDUZA pula a parede do cemitério. Sai em buscade túmulos.CENA 29Os detetives, ao entrarem em uma residência sãoatacados, há luta, e quando já apanharam bastante,um atacante, com um machado corta a mão dosegundo detetive.MEDUZA continua vasculhando no cemitério. Àsvezes um ou outro ruído e ela se põe em alerta. 185
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA 30O Monsenhor reza a missa. Hora da comunhão. Fiéisem fila. Close da mão dando a hóstia. A bocatomando a hóstia.MEDUZA termina sua busca e sai pela frente. Oporteiro desmaia lá atrás.CENA 31( Cena rápida com massa de pessoas e barulho deautomóveis. Pode ser uma cena ao vivo nas ruas,com público real)Repórter: Mais um surto de mortes inexplicáveis eviolência inimagináveis.A polícia está sem rumos. O desespero e ainsegurança tomam conta da população. Vamos falarcom o povo: Aqui senhor... por favor... O que é que osenhor está achando dessa situação?_ Eu não sei mais de nada. Vou é embora daqui omais rápido que puder._ E a senhora?_ Minha família já partiu para outra cidade. Aqui nãodá mais. Está um horror._ E você, jovem? O que tem a dizer?_ Nada... nada a dizer. Só sei que você é um dessesengraçadinhos... ( o jovem, que tomava sorvete, jogao sorvete na cara do repórter e o esfaqueia. Foge.Tumulto em fade ).CENA 32MEDUZA entra na sacristia. É noite. Procura e acha.Uma caixinha de hóstias. Cheira e guarda algumas. 186
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASBarulho. Portas. Passadas. Alguém chega.CENA 33(Hospital. Primeiro delegado chega para visitar osegundo)_ E aí, seu maneta!_ Você está feliz por que não posso mais ganhar na“purrinha”._ Ué! Joga com a mão esquerda. Vai perder mesmo.Quando é que sai daqui?_ Sei lá. Vou ficar de molho por alguns meses. Eentão? Alguma novidade?_ Não vamos falar de trabalho. Você precisadescansar._ Que nada. Minha mulher já me viu e saiu daquidesesperada. Prometi pra ela que você vai pegaresses canalhas._ Pode deixar comigo. Não se exalte. Descanse queainda é o melhor para você._ Já estão pensando em me aposentar, por causadisso._Eu vou pegar essa cachorrada em seu nome, velho._Vá com calma. Parece gente da pesada._E nós somos o quê?(o maneta se debruça e pega a gola do paletós doamigo) _Nós somos o tipo de detetive que nãodeveria existir._ Se acalma. Eu to na luta._ Jura que vai pegar os caras!_ Pode deixar. Deixa comigo. To sabendo que aquela 187
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASmulher está na cidade. Vou ficar na cola dela.CENA 34(MEDUZA se prepara para sair. Encontra guardas.Há luta. Ela vence com habilidade e violência. Ouvevozes. Se esconde. Ela vê de longe o parlamentar e omonsenhor.Eles discutem. Chega um guarda e avisaalgo para os dois. Sai cada um para um lugar. Ela dáa volta e encontra o tal guarda)_ Quero saber o que você contou para eles.(Pega o cara. Quebra os dedos dele. Corta a boca docara)._ Fala!_ Não! Não!(mais violência.)_ Fala de uma vez.(cena á distancia, dando entender que o guarda estáfalando. No fim ela atira).CENA 35(De dia. MEDUZA e o motorista conversam. Ele tiraum envelope do bolso e entrega para ela)_ É isso. O empresário e o monsenhor e oparlamentar eram sócios na companhia dereciclagem. Pastores de outras Igrejas são sóciosminoritários._ E a tal empresa recicla o que?_ Corpos humanos._ Transforma em que? Adubo?_ Alimento. Bolachinhas. Algumas bolachinhasrecheadas e outras no formato de waffers. 188
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS(enquanto isso ela abre o envelope)._ É isso. Tem que ser isso._ Fechou o caso?_ Preciso de uma última constatação. Se for o queestou..._ Só resta exterminá-los._ E ninguém deve permanecer vivo.CENA 36O Detetive verifica dados no computador e encontraum e-mail. MEDUZA.O Parlamentar recebe um fax. MEDUZA.O Monsenhor recebe uma anotação da secretária.Informes sobre MEDUZA.CENA 37(a secretária do monsenhor chega em casa. Noescuro, ao fundo se percebe outra pessoa na sala,quando ela acende a luz toma um susto. É MEDUZA.)_ Quieta. Não se movimente._ O que você quer de mim?_ Quero ouvir coisas._ Em que é que eu posso ser útil?_ Fale das mortes. Fale do monsenhor. Fale dosaliados. Fale dos sócios._ Não sei do que é que você está falando? (ela estámeio desesperada)_ Não enrola e abre a boca, garota. O que você tinhaque ganhar já ganhou._ Olha... eu estou nervosa. Deixa beber alguma coisa?_ Larga de besteira, garota. 189
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS( a secretária vai atrás da bebida. MEDUZA toma ocopo da mão dela e cheira, tentando achar algumtipo de veneno. Não acha e entrega de volta)._ Vai logo com isso.( rapidamente a secretária abre a gaveta e enfia mãolá dentro)CENA 38(O detetive lança para dentro da sala o jovem queesfaqueou o repórter)_ Vai abrindo o bico, velho._ Não sei de nada. Não tô sabendo de nada._ Deixa de brincadeira e vai falando. O que é que orepórter tinha a ver com tudo._ Que repórter? De que é que você está falando, meuchapa._ Dobra a língua mané. Aqui não tem você coisíssimanenhuma. Aqui é todo mundo doutor. E não sou teuchapa. É melhor falar logo antes que eu chame opessoal da linha dura.( nisso entra outro detetive e entrega um papel proprimeiro)_ Taquí, bicho. Resultado do seu exame de sangue.Substancia alcalóide desconhecida. Suspeita de fortee potente e estimulador nervoso e muscular deefeito rápido._ Não sei de nada. Eu nem uso droga, meu... ( odetetive o olha) ...doutor._ Está aqui, cara. Não tem como negar._ Eu sou da comunidade... da comunidade de jovensda Igreja... 190
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS_ Mas, agora,( bate a mão na mesa) o que eu queromesmo saber é se você estava com aquela mulher.( o jovem o olha, assustado e chora)CENA 39A secretária tira a mão da gaveta com um monte dehóstias e enfia na boca. MEDUZA olha.CENA 40Monsenhor sai de sua casa. Toma o carro.Parlamentar sai de sua casa. Toma o carro.Detetive toma seu carro e sai.Motorista chega em algum lugar e sai do carro.CENA 41(A secretária mastiga e engole o bolo de hóstias.Vira-se para MEDUZA. Salta pra cima dela. MEDUZAatira. Pega no ombro da mulher que sofre umpequeno abalo. Luta. A mulher está fortalecida.MEDUZA leva a pior sendo jogada para todo lado. Aluta termina quando MEDUZA tem acesso a martelose pregos e prega a mulher no chão, que estáespumando)._ Agora você vai falar, santinha.CENA 42(Praça. À tarde. Surgem monsenhor, parlamentar, omotorista e o detetive. Todos armados. Chegam aomesmo tempo. Um de cada ponto. Postam-se comoque num duelo daqueles. Se estudam. Câmara emtraveling circular. MEDUZA surge atrás do 191
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASmonsenhor. Ela fala:_ A prestação de contas. (ela anda circulando emvolta dos quatro. Motorista levanta a arma e apontapara o monsenhor, MEDUZA aponta para oparlamentar... Apreensão geral).Par: O que você quer? Dinheiro?ME: Não! Estamos aqui para prestar contas.Det: (levanta arma e aponta para o motorista).Quem é você?ME: Vamos acertar logo essas contas. O Monsenhore o Parlamentar estão reciclando corpos humanos...MOT: Que transformam em alimentos.ME: E cada vez precisam de mais e mais... matériaprima, podemos dizer.(parlamentar e monsenhor se olham)ME: Tiveram uma idéia. Aumentar o fornecimentocom mortes que pudessem parecer acidentais.Mot: Por isso, as hóstias envenenadas. Os fiéisrecebiam as hóstias, iam para casa e matavam etambém morriam.ME: Só que houve efeito colateral. Muita gentemorreu com ataques cardíacos, auto-mutilações esuicídios... mas outros, enlouqueceram ou tiveramcrises mentais de violência... incontroláveis.Mot: Todo mundo ficava mais forte. Todo mundoextrapolava nos atos de vingança.Det: Por que os padres? Por que os pastores dasoutras Igrejas?ME: Apenas mais um negócio. As Igrejas pagasfuncionam como as TVs a cabo. Querem ampliar a 192
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASrede.Mot: E como elas funcionam na base do medo e dacarência, essa situação de crise social era boa paraos pastores e seus dízimos, também.ME: Lucro total. Inclusive para o coletor de lixo...mas esse eu já havia pego uns tempos atrás.Par: Vocês querem dinheiro? Temos muito! Vamosconversar. Tenho certeza que acertaremos tudo isso,não é, monsenhor?(pausa. Um olhando para o outro)Par: Não é monsenhor? Não é? ( e começa a gritar,repetidamente. Nisso ele se movimentabruscamente e MEDUZA, o motorista e o delegadoatiram nele, que cai para traz.Nisso o monsenhorlevanta arma e aponta para o delegado, que está nafrente dele. Aperta o gatilho mas a arma pica. Ficaum impasse. Um olha para o outro. MEDUZA,lentamente se aproxima e atira nele)._ Acabou. ( e sai na direção do carro. O detetive ficaabismado e quer falar)_ Acabou? Acabou o que, vem aqui... ( o motoristaque passa por ele faz sinal de” psiu” para ele, e seguena direção do carro. Partem. Tomada aérea…Odetetive fica olhando para o corpos e não sabedireito o que fazer. Tomada aérea do carro partindoe do detetive olhando em torno enquanto rola amúsica tema. 193
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O CASO KUGELMASS Da obra de Woody Allen, adaptada por Coelho De MoraesCENA 1 (casa do K)[Close Kugelmass, olhando atento e assustado. Cortepara sua mulher que come pipoca em frente aotelevisor sem tirar os olhos do aparelho. Risos na TVe ela esboça um sorriso cheio de pipoca. Kugelmassse levanta, vai para o banheiro e se bate irritado.]K: O que adianta ser professor de literatura naUniversidade de Nova York, se sou malcasado pelasegunda vez. [Grita para a porta] Daphne! Você éuma zebra... Sem contar Kugelmass tinha a pensãoque me descontam na fonte todo mês, por causadaqueles dois filhos igualmente chatos... 194
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA 2 (consultório do analista)K: Como poderia adivinhar que ela ia ficar dessejeito? Daphne prometia tanto. Nunca imaginei quefosse relaxar e inflar como um balão publicitário.Além disso, tinha um dinheirinho, o que, em si, não éuma razão para a gente casar, mas que também nãomachuca, principalmente com o meu jeito paranegócios. Está entendendo?A: Kugelmass! Apesar de você ser calvo e peludo noresto do corpo, sabe!, você é muito gente. Ignore estatempestade momentânea.K: Sei sei... compro um guardachuva e acabou-se,não é? Preciso é conhecer uma mulher diferente.Preciso ter um caso.A: Sr. Kugelmass...K: Posso não parecer, mas sou romântico pra xuxu!A: O que há é uma estagnação nas vias afetivas. Estáme ouvindo?K: Preciso namorar, preciso de delicadezas. Sei quenão estou ficando mais novo a cada dia e, antes queseja tarde demais, quero me apaixonar em Veneza,flertar com Juliana Gimenes e trocar olhares demormaço com gatinhas à luz de velas, tomandovinho! Por que todo mundo faz isso, menos eu?A: Um caso não resolverá nada. Você não esta sendorealista. É preciso... Seus problemas são muito maisprofundos".K: Mas tem que ser discreto. Não posso me dar aoluxo de um segundo divórcio. Daphne me chuparia osangue!A: Sr. Kugelmass... 195
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASK: E nem pode ser com qualquer garota dauniversidade, porque Daphne também trabalha lá.Para dizer a verdade, nenhuma delas me da tesão.Mas, quem sabe, uma secundarista...K: Sr. Kugelmass...K: Preciso de ajuda. Tive um sonho ontem à noite.Sonhei que estava me esgueirando entre unsarbustos, carregando uma cesta de piquenique. Nacesta estava escrito: Alternativas. Só que a cestaestava furada!A: Sr. Kugelmass, a pior coisa que o senhor poderiafazer seria dar tanta bandeira. Contente- se emexpressar os seus sentimentos aqui, e tentaremosanalisá-los juntos. O seu tratamento já dura hábastante tempo para que o senhor saiba que nãoexiste cura da noite para o dia. Sou apenas umanalista, não um mágico.K: Então, acho que preciso de um mágico. [K parte. OA fica um tentpo olhando para a porta. Toca orelógio sinalizando fim da sessão. A aperta um botãoe pede:]A: Senhorita. Daqui a dez minutos mande entrar opróximo.CENA 3[Close Kugelmass, olhando atento e assustado. Cortepara sua mulher que come pipoca em frente aotelevisor sem tirar os olhos do aparelho. Risos na TVe ela esboça um sorriso cheio de pipoca. Toca otelefone.]K: Deixe que eu atendo. Alô. 196
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: Sr. Kugelmass? Aqui é Persky.K: Quem?P: Persky. Talvez o senhor me conheça como OGrande Persky.K: Desculpe, não estou entendendo.P: Ouvi dizer que o senhor tem procurado em toda acidade por um médico capaz de acrescentar umpouco mais de exotismo a sua vida. Estarei errado?K: Ps-sssiu![sussurra]. Não desligue. Me de seutelefone, Persky! Chamarei assim que puder! [cortepara K a subir escadas até um apartamento numedifício velho. Aperta a campainha.] Ainda vouarrepender disso. [um sujeito estranho abre aporta.] Você é Persky, O Grande?P: O Grande Persky. Entre. Aceita um chá?K: Não. O que eu quero é romance, musica, amor ebeleza!P: Quer tudo isso, e não quer um chá? Que estranho!Sente-se. [P sai. Som de mobília arrastada. Preaparece, empurrando um enorme móvel sobrerodinhas rangentes. Abriu a porta e saiu muitapoeira.]K: Persky... se isto é uma piada...P: Preste atenção. Sua satisfação garantida ou seudinheiro de volta. Inventei isto para um encontrocom Ben-Hur, mas minha cliente deu o bolo. Entreno armário.K: [meio nervoso] O que você vai fazer? Atravessarespadas através dele?P: Esta vendo alguma espada por aqui?K: Persky, estou avisando que... 197
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: [pausado] Não torre o saco!A coisa funcionaassim: se eu jogar qualquer livro nesse armárioquando você estiver dentro, fechar as portas, dertrês pancadinhas, você se verá projetado paradentro do livro!K: Persky, adorei te conhecer, mas...P: Juro! E nao apenas romances. Contos, peças,poemas, o que você quiser! Você poderá conhecerqualquer das grandes mulheres criadas pelosmaiores escritores. Qualquer uma com quem tenhasonhado! E vai se dar bem com ela. Quando quiservoltar, basta dar um grito e eu o trarei numa fraçãode segundo.K: [aturdido, apontando o armário. Certo medo detoca-lo] Persky, você não é meio biruta?P: Estou lhe dizendo que funciona.K: Esta tentando me provar que essa baiúca pode metransportar a qualquer lugar com que eu sonhe?P: Por 20 dólares.K: Só vou acreditar quando ver. [paga. O outroembolsa sorridente].P: Bem, quem você gostaria de conhecer? [tira pó,abre portas, olha no interior do armário] Ligéia,Morella, Berenice – as grandes personagens deEdgar Allan Poe? Isadora Wing, a heroína de Medode Voar? Moby Dick?K: [esfregando as mãos] Francesa. Quero ter umaffair com uma personagem de um grande romancefrances.P: Que tal Nana, de Émile Zola?K: Não quero ter de pagar mais nada. 198
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: E Natasha, de Guerra e Paz?K: Eu disse francesa. Essa é russa. Hei! E MadameBovary? É isso ai: Emma Bovary! É perfeita!P: Tudo bem, Kugelmass. Assovie quando quiservoltar. [K entra no armário, se encolhe humilde, eem seguida P joga uma edição de bolso do romancede Flaubert.K: Tem certeza de que isso não é arriscado?P: Arriscado? O que não é arriscado nesse mundolouco? [ P deu três pancadinhas na porta do armárioe então abriu as portas de par em par. Vazio.CENA 4[K surge numa cama em casa antiga e vê umamulher, de costas, dobrando lençóis. A mulher sevira e se assusta:E: Meu Deus, quem é você!K: Ainda bem que estpou numa versão traduzida!E: Vamos lá. Diga algo?K: Perdão, perdão... meu nome é Sidney Kugelmass,trabalho na Universidade de Nova York, souprofessor de literatura. A uns três quarteirões daBroadway, sabe? Bem, quero dizer... [ela dá umsorriso sacana]E: Gostaria de beber alguma coisa? Um vinho,talvez?K: Você é linda... sim, quero vinho... Vinho, aceito....Branco. Não, tinto. Não, branco. Quer dizer, branco.K: Charles ficará fora o dia todo. Depois do vinhodaremos uma volta pelo jardim. [ela deposita vinhonas taças] Sempre imaginei que, um dia, um 199
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASmisterioso estranho surgiria em Yonville e meresgataria da cruel monotonia dessa grosseiraexistência rural. [Bebem e se olham. Ela toma damão de K]. Vamos. Adoro suas roupas. Nunca vinada igual por aqui. São... tão modernas!".K: [romântico] Ora, é apenas um terno desses quevocê compra com duas calças, na Ducal. [De repente,ele a beijou. Sexo no mato. Passagem de tempo].Preciso ir. Mas não se preocupe. Voltarei breve.E: [suspira] Espero que sim. [se abraçam. K tomou orosto de E em suas mãos, beijou-a novamente.]K: OK, Persky! Vamo nessa! Tenho de estar naBloomingdales às 3 e meia! [ruído tipo pop! e K estáde volta.]P: Então? Não era verdade?K: Olhe, Persky, preciso correr agora, mas quandoposso voltar? Amanhã?P: O prazer será todo meu. Basta trazer os vintemangos. E não fale disto para ninguém.CENA 5[Sala de aula na Universidade. Um aluno para oprofessor aturdido]AL: Quem é esse judeu careca que entrou na historiapor volta da p. 100 e já foi logo beijando MadameBovary?Prof: Meu Deus, esses meninos de hoje, com acabeça cheia de ácido! O que não passa por suasmentes!CENA 6 200
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASK entra correndo na loja e encontra D.D: Onde estava? Já são 4 e meia. Não usa relógio?K: [arfando] Fiquei preso num engarrafamento.CENA 7K: [Correndo para dentro do armário] Não seesqueça de me botar no livro antes da p. 120. [lá dedentro] Só posso encontrá-la até ela não se ligar aotal de Rodolphe.P: Por que? Não é páreo para ele?K: Páreo? O cara é rico. Não tem nada a fazer, excetonamorar e andar a cavalo. Para mim, é um daquelesbonecos que você vê nos anúncios depublicidade. Só que com um penteado tipo HelmutBerger. Mas, para ela, é o máximo.P: E o marido, não suspeita de nada?K: É manso. Nem sabe o que tem em casa. Às 10 danoite, vai de camisola para a cama, justamentequando ela esta a toda, querendo dançar... se é quevocê me entende. Ora, esqueça. Me mande pra lá.[pop]E passa a mão pelos seios e desce ao ventre e pulana direção da câmera. Cai sobre K. Conversambrincam e sexo.K: [no êxtase] Meu Deus, estou trepando comMadame Bovary! [pausa] Logo eu,... não mereço... fuireprovado em literatura francesa! [sexo] E ai, tetéia?E: Oh, Kugelmass. O que tenho de aguentar! Ontem ànoite, Charles dormiu durante a sobremesa com orosto no soufflé. Eu, com o coração aos pulos, 201
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASsonhando com o balé e o Maxims, e tendo de ouviraqueles roncos ao meu lado!K: Tudo bem, xuxu, estou aqui agora. [a abraça] Eumereço isto. Sofri demais e paguei muitos analistasbuscando um sentido para minha vida. Você éjovem e cheia de paixão. Bastou que eu entrasse nocapitulo certo, algumas paginas depois de Leon eantes de Rodolphe, para dominar a situação.E: Não entendi isso.K: Esquece tetéia. Vamos falar das noites de NovaYork, das peças da Broadway, dos filmes deHollywood, dos programas de televisão.E: Fale-me de novo sobre Ernest Borgnine.K: O que mais posso dizer? É gênio. Seus filmes sãosempre profundos.K: [sonhadora] E os prêmios da Academia? Dariatudo para ganhar um Oscar.K: Primeiro, você tem de ser indicada.E: Eu sei. Você me explicou. Tenho certeza de quepoderia ser ótima atriz. Claro, teria que tomar umaou duas lições. Talvez com Lee Strasberg. Mas, sevocê me arranjasse um bom agente...K: Podemos ver isso. Vou falar com Persky.[pop]K: [tirando a poeira do paletó] Quero trazer Emmapara visitar-me em Nova York.P: [científico] Deixe-me pensar. Talvez de pé. Já fizcoisas mais difíceis. Como.... como... [estala osdedos... leva-o à boca]CENA 6 202
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASD: [close] Onde tem se enfiado o tempo todo? [K,chegando tarde] Transando com alguma piranha?K: Exatamente. [vai á cozinha beber água] Faz bem omeu gênero, você sabe. [bebe] Fui visitar LeonardPopkin. Ficamos discutindo sobre o socialismoagrário da Polônia. Popkin é maluco por essascoisas."D: [ela se prepara para voltar ao quarto] Você andamuito esquisito ultimamente. Distante. Não seesqueça do aniversario de papai no sábado, estaouvindo?K: Esta bem, esta bem...D: Minha família inteira vai comparecer. Vamos veros gêmeos. E finalmente você vai conhecer o primoHamish. Não seja estúpido com elecomo é com os outros. [K fechou a porta da cozinhae pensava e bebia. Lembrou-se e gritou:]K:Lembra que eu vou a Boston para um simpósio nasemana que vem e que só retorno na segunda-feira.CENA 7[pop][K e E abraçados e num hotel]E: Que maravilha! É exatamente como sonhei queseria! [rodopiando e observando tudo] Lá está oCentral Park. O edifício da Pan-Am. E qualdaqueles é o Macys? Oh! É tudo tão divino! É abrecaixas que estão sobre a cama. Tira roupas e provaoutras ofegante, frente ao espelho]K: Comprei numa liquidação, mas você ficaráparecendo uma rainha. Venha cá neném. Um beijo. 203
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASE: Nunca me senti tao feliz! Vamos sair! Quero verChorus Line, visitar o Guggenheim e conhecer esteJohn Travolta de quem você fala tanto. Estálevando algum filme dele em Times Square?CENA 8[O Prof da cena 5, em aula]Prof: Não consigo entender... Primeiro, umapersonagem chamada Kugelmass entra no livro.Depois, Emma desaparece do romance. Ou algum devocês, animais drogados colocou algum ácido nomeu copo... Que loucura! Bem, acho que os grandesclássicos da literatura são assim mesmo, podemoslê-los mil vezes e sempre descobrimos coisas novas.CENA 9[ K e E foram ao cinema, jantaram, dançaram emdiscotecas e viram TV. Sexo. Passeio no jardim. Pizzana cama. Museu. Sexo].[no ap do P]K: Não posso trazê-la aqui frequentemente, mas, devez em quando, será bom variar de Yonville. (E entrano armário com suas bolsas. Ela beija K, dá umapiscadela marota. Persky dá as três pancadinhas noarmário. Nada acontece.)P:[coçando a cabeça] Epa!, [Bateu de novo, nada]Alguma coisa esta errada.K: Persky, esta brincando? Como não funciona?"P: Calma, calma. Ainda esta ai, Emma?"E: Sim. [P bateu mais forte]. Ainda estou aqui,Persky. 204
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: Eu sei, querida. Fique fria.K: Persky, nos temos que mandá-la de volta. Soucasado e tenho uma aula daqui a três horas. Nãoestou preparado para nada além de um flerte a essaaltura!P: Não consigo entender. O truque é tão simples![bate inúmeras vezes e desiste] Vai levar algumtempo. Vou ter de desmontar o armário. Voltemmais tarde...K:[desesperado] O que?P: Voltem daqui a alguns dias.CENA 10D:[na cama] Como foi o simpósio?K: Ótimo, ótimo [tenta acender o cigarro pelo filtro]D: Que houve? Você parece uma pilha de nervos.K: Quem, eu? Ha-ha-ha [riso histérico]. Estou calmocomo uma brisa de verão. Vou dar uma volta.[saipela rua, de pijamas, correndo. Sobe as escadas.Entra no quarto de E, pula na cama sobre ela]E: Estou preocupada. Charles vai acabar sentindominha falta.K: Confie em mim, querida. (Beijou, voltou correndo,refez o percurso. Chegou em casa. Pulou na cama. Destá na mesma posição. K sorri].CENA 11E: Devolva-me o romance ou case-se comigo.Enquanto isso, quero arranjar um emprego ouqualquer coisa assim, porque ver televisão o diainteiro é um saco. 205
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASK: Ótimo. O dinheiro até que seria útil. O que vocêconsome em serviço de quarto não é uma coisanormal."E: Conheci um produtor de teatro ontem no CentralPark, e ele me disse que eu pareço perfeita para umapeça que ele vai montar off-Broadway.K: Ah, é? Quem é o palhaço?"E: Não é palhaço. É um homem sensível, gentil einteligente. Chama-se Jeff Não-sei-das quantas, edisse que posso até ganhar um Tony com o papel.CENA 12[K bêbedo invade casa de P que trabalha namáquina]P: Calma, rapaz... Desse jeito, você vai acabar tendoum troço.K: Calma! Ele diz calma! Estou com uma personagemfictícia às minhas expensas num hotel de luxo, achoque minha mulher botou um detetive para me seguire ainda vou ficar calmo!P: Eu sei, eu sei. Estamos com um problema, vamostentar resolve-lo. [ P volta ao trabalho, usandomartelo]K: Estou parecendo um animal acuado. Tenho deandar me esgueirando pela cidade. Emma e eu jánão aguentamos a cara um do outro. Para não falarna conta do hotel, que já esta maior do que oorçamento do Pentágono.P: E o que eu posso fazer? Magia é assim mesmo[pondo a cabeça para fora] É uma questão denuance." 206
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASK: Nuance o catso! Estou derramando Dom Pérignonpela goela de Emma como uma bomba de gasolina, eela esta mais recheada de caviar do que um esturjãogigante, além de ter comprado metade do estoquede vestidos do Sacks. Como se nao bastasse, meucolega Fivish Kopkind, que ensina LiteraturaComparada na universidade e sempre teve inveja demim, acabou de me identificar como a personagemque aparece incidentalmente no livro de Flaubert.Ameaçou contar a tudo a Daphne. Sabe o que issovai significar? Mais uma pensão de alimentos, ruínae cadeia. Acusado de adultério com Madame Bovary!P: O que quer que eu faça? Estou trabalhando nessajoça dia e noite! Quanto à sua ansiedade, não possoajudar. Sou apenas um mágico, não umanalista!CENA 12[E se tranca no banheiro]E: Não quero falar com você... não quero... não quero.K: [desesperado olha pela janela] Se não fosse tãobaixo, me jogaria agora mesmo. E se eu fugisse paraa Europa e comeqasse de novo a vida? Talvezpudesse vender o lnternational Herald Tribune,como aquelas garotas costumavam fazer. [toca otelefone. Pausa. Dúvida se atende ou não. E abre aporta e olha de lá] Alô?K: Kugelmass?K: Sim. 207
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: Uau! Não reconheci a voz... Traga Emma correndo.Acabo de expulsar a ultima barata do armário!K: Esta falando sério? Desta vez é pra valer?P: Sem erro!K: Persky, você é um gênio. Estaremos ai em menos de um minuto.CENA 13[ E entrando no armário com suas compras. P fechouas portas, respirou fundo e deu três pancadinhas,ruído. P abriu as portas, o armário vazio. K suspira,apertou a mão de P].K: Acabou. Aprendi a lição. Nunca mais trairei minhamulher. Gênio. Preciso te dar uma gorjeta. [K sai e Palisa o armário.]CENA 14[Batem à porta. P sai debaixo do armário e atende. ÉK]K: O que foi desta vez, Kugelmass?K: Só mais uma vez, Persky. O dia esta tão bonito e,sabe como é, o tempo passa. Você tem um exemplarde O Complexo de Portnoy? Lembra-se da Macaca?P: O preço agora é 25 dólares, por causa da inflação.Mas, devido a todos aqueles aborrecimentos que lhecausei, a primeira é grátis.K: Você é gênio [grudando seus últimos fios nacabeça com saliva] Vai funcionar direito?P: Acho que sim. Não usei muito o armário desdeaquela confusão. 208
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASK: Sexo e romance. O que um sujeito não faz por umrabinho de saia...[ P jogou o livro e deu as três pancadas.Explosão.Raios. Terremotos. P tem um enfarte e caimorto. O armário e apartamento pegam fogo.CENA 15[K está preso em uma tabela periódica e luta contranúmeros que o fazem engolir vírgulas]. 209
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O ESPELHO E A MÁSCARA - baseado em Jorge Luís Borges – Rei, Poetisa (a cada aparição do poeta ele vem menos rico e mais doente)Fusão de imagens de guerras (fotografias edesenhos e quadros, usando os recursos de fusão,principalmente os de fragmentar imagens), compedaços do castelo ( o castelo será mostrado departes de uma igreja escolhida). A Poeta (P) seaproxima. O Rei (R) fala:R: As proezas mais ilustres perdem seu brilho se nãose valorizarem as palavras. Quero que cantes minhavitória. Eu serei Enéias; tu serás meu Virgílio.Acreditas que serás capaz de cometer essa empresaque nos fará imortais os dois? 210
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: Sim, meu Rei. Meu nome é Ollana. Cursei métrica.Sei de memória as 360 fábulas que são a base daverdadeira poesia. As cordas de minha harpa tocamtodos os modos gregos, todos os tons conhecidos eas variantes pentatônicas dos orientais. Vozes emetáforas, as doutrinas secretas da escrita secular.Conheço todos os mitos e todas as casas reais.Mestre na sabedoria das ervas, e nas virtudescanônicas. Sou Juíza e Kantor. Com a palavra euposso alterar a saúde de um cidadão. Manejo aespada como um mestre de esgrima. Só uma coisaignoro: agradecer o dom que me fazes.R: Deixo-te um ano inteiro. Limarás cada letra e cadapalavra. A recompensa será digna do meu realcostume e das tuas inspiradas vigílias.Narrador em OFF: (desenvolve-se a cena com apoeta se apresentando e iniciando sua fala decidida,ao mesmo tempo que cenas de quadros e guerras efotos e o que tiver por aí fundindo com as imagensdo Rei e da Poeta) Passou-se aquele ano. Cumprido oprazo que foi de epidemias e rebeliões a poeta veioapresentar a sua história. Declamou-o com lentasegurança, sem uma única olhada no manuscrito.Mesmo aqueles que nem ouviam o texto já davamseu assentimento. (o P finaliza).R: Aceito o teu trabalho. É outra vitória. A guerra é obelo tecido de homens e a água da espada é osangue. Se se perdesse toda a literatura queconhecemos nós a reconstituiríamos com a tua obra.Trinta escribas (entrega a obra ao assessor) a vãotranscrevê-la 12 vezes. (pausa longa) No entanto. 211
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASNada aconteceu! (close no R) O sangue não corremais apressado. As mãos não procuram os arcos.Ninguém desembainhou a espada. Ninguémempalideceu. Não ouvi um grito de batalha. Dentrodo término de um ano, poeta, aplaudiremos outropoema. Por enquanto leva esse espelho que é deprata.(passagem de tempo. A câmara como que voa peloscampos e dá a volta pelo tronco de uma árvore eretorna. O Arauto indica que o P está presente. Pentra).Narrador em OFF: (desenvolve-se cenas similares àsanteriores, talvez mais bucólicas e pastoris. Detalhesna atitude do R) Outra vez cantou o rouxinol nasselvas frias e a poeta retornou com sua obra. Umapoesia menor. Um número menor de versos. A Poetaa lia com certa insegurança. Omitindo passagens,como se não entendesse o que estava escrito. Apágina era estranha. Não era a descrição de batalha.Era a própria batalha (escorre sangue dos papéis doP). A sintaxe e a gramática se alteraram. (A Pfinaliza. R conversa com alguns assessores que estãopor perto).R: Da tua primeira poesia eu pude dizer que era umfeliz resumo de tudo o que se fez nessas terras. Estasegunda supera tudo e aniquila tudo. Suspende,maravilha e deslumbra. Servirá para os doutores esábios, mas não para os ignorantes e comuns. Elanão será copiada. Guardaremos em cofre de marfimesse único exemplar. Da pena que produziu essaobra poderemos esperar ainda uma obra mais 212
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASelevada. (sorrindo) Somos figura de uma fábula e éjusto lembrar que nas fábulas prima o número três.P: Os três dons dos feiticeiros, as tríades, aindubitável Trindade.R: Como agradecimento pela obra composta tomaesta máscara de ouro. (uma assessor entrega aopoeta que se retira)Narrador em OFF: ( passagem do tempo através deimagens de astros e constelações mesma estrutura)O aniversário voltou. (a poeta entrando semmanuscrito e mais depauperada, parecendo cega.Ela para frente ao R).R: Não executaste o poema prometido?P: Sim (triste). Eu queria que Cristo Nosso Senhortivesse me impedido.R: Podes repetir para mim essa poesia.P: Não me atrevo (o R olha para seus soldados eassessores).R: Você receberá o que quiser.(o poema é dito no ouvido do R. Close na boca, noouvido, nas sobrancelhas, dito com muitadificuldade. O poema é muito curto. O R se expandeem júbilo. Ambos se olham muito pálidos.R: Nos anos da minha juventude (interagem as cenasde fotos , quadros e figuras escolhidos a dedo para omomento) naveguei na direção do fim. Estive emilhas em que cães prateados matavam javalis deouro; em outras onde comíamos apenas a magia dasmaçãs; em outra eu via muralhas de fogo. Na ilhamais distante cheguei a ver um rio abobadado quesubia aos céus. Todas essas maravilhas não se 213
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScomparam ao teu poema. Que feiticeiro te forneceuessa inspiração?P: Pela manhã eu despertei dizendo umas palavrasque não compreendia. Era um poema que só de sefalar nele já se pecava. Senti que a alma ardia.Daqueles pecados que o Espírito não perdoa.R: Você sabe que agora teremos de expiar esse dom.Contemplar a Beleza é um dom vedado aos homens.Eis o teu último presente.(o R vai tirando do cinto).Era o que te faltava. (puxa uma adaga. O R se levantatranstornado enquanto sai, deixando mantos, cetrose coroa pelo chão, indo para a rua, a P se mata empleno palácio). 214
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS AURA baseado na obra de Carlos Fuentes Personagens: Felipe Monteiro (FM), Consuelo (C), Aura (A)CENA 1(Enquanto rola os créditos. Homem lê anúncio emjornal em um boteco ou lanchonete comum. Deixa,distraído, cair a cinza do cigarro na xícara de chá.Toma do seu folder e deixa uma gorjeta e sai.Caminha para a esquina. Espera o ônibus. Acendeum cigarro. Olha para a ponta dos sapatos. Sobe noônibus. Paga e senta).CENA 3(FM entra no bar para tomar seu café. Pega do jornal 215
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASe relê a mesma mensagem do dia anterior. Marca emvermelho, rabisca no bom salário e na palavrahistoriador jovem.)CENA 3(FM na rua procura o número marcado da casa.Lances de casas do tempo do café. Tomada de umdesenho em metal na aldrava ou estatuária, como seolhasse para FM. Ninguém atende. FM força oportão. Segue em frente. Sobe a sacada e a porta estáentreaberta. Procura. Pega os fósforos.)Voz de Mulher: Não... não é necessário. Peço-lhe.Ande treze passos para frente e encontrará a escadaà sua direita. Suba, por favor, são vinte e doisdegraus. Conte-os.(FM segue em pedras e musgos. Procura a maçaneta.Empurra e está sobre tapetes.)FM: Senhora... senhora.Voz: Agora à sua esquerda. A primeira porta. Tenhaa bondade.(FM empurra a porta. Salas co castiçais e velasacesas. Vê corredores e quartos. Mão sobre a cama.Caminha para lá. Rodeia a cama. Um senhora muitovelha- (Consuelo C) - estende a mão. Um coelho saltade um lado para o outro).FM: Felipe Monteiro. Li seu anúncio.C: Sim, já sei. Perdão, não há cadeiras.FM: Estou bem, assim, não se preocupe.C: Está bem. Por favor, ponha de perfil. Não estouvendo bem. Que a luz o ilumine. Assim. Claro.FM: Li o seu anúncio.C: Claro. Sei que o leu. Sente-se qualificado? Avez 216
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASvous fait des études?FM: A Paris, madame.C: Ah, oui, ça me fait plaisir, toujours, toujours,d’entendre... oui… vous savez…on était tellementhabitué… et après… Vou direto ao assunto. Não merestam muitos anos pela frente, senhor Monteiro e,por isso, preferi violar o costume de toda uma vida ecolocar esse anúncio no jornal.FM: Sim. Por isso estou aqui.C: Sim. Então aceita.FM: Bem. Desejaria saber mais alguma coisa.C: Naturalmente. O senhor é curioso. (FM observatudo em volta, copos, cristais, remédios, vidros,espelhos) Ofereço-lhe 4 mil reais.FM: Sim. É o que diz o anúncio de hoje.C: Ah! Então já saiu.FM: Sim. Já saiu.C: É sobre os papéis do meu marido, o generalRamiro. Devem ser organizados antes que morra.Devem ser publicados. Eu decidi isso há poucotempo.FM: E o próprio general não se acha capacitadopara...?C: Morreu há sessenta anos, senhor. São suasmemórias inacabadas. Devem ser terminadas. Antesque eu morra.FM: Mas...C: Eu o informarei a respeito de tudo. O senhoraprenderá a redigir no estilo do meu esposo. Paratal, bastará ler os papéis; vai sentir-se fascinado poressa transparência, essa... 217
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASFM: Sim, compreendo.C: Saga. Saga. Onde você está? Ici, Saga...FM: Quem?C: Minha companhia.FM: O coelho?C: Sim. Ele voltará. (olham-se). Então o senhorficará. Seu quarto fica lá em cima. Ali sim entra a luz.FM: Talvez, senhora, seria melhor que eu não aimportunasse. Eu poso continuar vivendo ondesempre vivi e revisar os papéis em minha própriacasa...C: Minhas condições são estas: o senhor tem demorar aqui. Não resta muito tempo.FM: Não sei...C: Aura... (outra mão feminina toca a mão de C. ÉAura. Leve jovem e pálida.) Eu lhe disse queregressaria...FM: Quem?C: Aura. Minha companheira. Minha sobrinha.A: Boa tarde!( A cumprimenta FM baixando a cabeça ao mesmotempo que C)C: É o senhor Monteiro. Vai morar conosco. (FM olhaA que está de cabeça baixa ainda, que lentamente elavem levantando. Ela tem olhos significativos. Olhosnos olhos. A tomada deve significar que FM estáembevecido).FM: Sim. Vou morar com as senhoras. (câmera seaproxima do sorriso de C)CENA 4 218
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS(FM está seguindo A pelos corredores. Ela de vestidoleve como tafetá. Farfalhante e Pés descalços. FMolha tudo que pode. A abre uma porta. Se afastaeducadamente).A: Aqui é o seu quarto. Estamos esperando o senhorpara jantar dentro de uma hora. (ela se afasta nocorredor enquanto FM observa. Segue-se umasucessão de cenas no quarto. Mostrando belezas edetalhes de relevo. FM vai à janela. Embaça a janelae escreve o nome Aura no embaço. Intercalam-secenas de A e seu corpo. Olha para a quilo e se dáconta, apagando rapidamente. Soa uma batida derelógio chamando atenção de FM. Ele olhaespantado para seu próprio relógio. Põe o paletó, saipara o corredor, tudo é escuro e topa com o coelhoque foge. Em seguida ouve gatos e mais gatos. Deuma porta surge A com um candelabro. FM sorri. Osgatos continuam a miar. FM faz menção sobre eles).A: Há muitos ratos nesta parte da cidade. (Atravessasalas sob a luz do candelabro. Relógios batem, bolasde cristal, quadros, enfim uma casa bem kitch. Auraestá vestida de verde.)Está bem acomodado?FM: Sim, mas preciso pegar minha coisas na casaonde...A: Não é necessário. O criado já foi busca-las.FM: Não precisavam se dar ao trabalho de fazer isto.(Entram na sala de jantar. Os gatos vão parando comseus miados. Há quatro lugares na sala gótica. Aossinais FM se senta. Olha as garrafas. A começa servir.FM nota os outros talheres). Perdão. Estamosesperando mais alguém? (A continua servindo). 219
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASA: Não. A senhora Consuelo sente-se fraca esta noite.Não nos fará companhia.FM: A senhora Consuelo? Sua tia?A: Sim. Pede-lhe que vá vê-la depois do jantar.(Comem em silêncio. Bebem vinho. Barulho detalheres. Varredura da câmera pela mesa, em tornodeles. FM hipnotizado por A, que mantém os olhosbaixos enquanto come, meio que percebendo o olhardo outro. FM procura qualquer coisa no bolso e puxaalgumas chaves).FM: Ah! Esqueci que uma gaveta de minha mesa estáfechada à chave. Lá guardo meus documentos. (Apara de comer e sem olhar para ele.)A: Então... o senhor quer sair? (FM a olha como setivesse tomado uma bronca. Sorri. Estica o braçopara ela com a chave pendurada no dedo). FM: Não éurgente. (mas ela se resguarda, olha para o prato ede repente olha para ele. Ele se apaixona mais. Ficameio tonto;. Se levanta olhando para ela. Se põeatrás da sua cadeira gótica. Vai toca-la mas toca oespaldar da cadeira. Ela mantém baixa a cabeça).Acho que vinho está me deixando meio tonto. (seaproxima dela, toma sua mão e deposita as chaves.Ela fecha o punho e olha FM).A: Obrigada... (ela sai rapidamente da sala de jantar.FM toma o lugar de A e acende um cigarro. Pensa emA; repete-se a cena de que A diz que C o espera apóso jantar. FM toma do candelabro e sai para ocorredor. Chega na porta de C. Bate. Ninguémresponde. FM empurra a porta e entracautelosamente). 220
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASFM: Senhora... senhora...(C está ajoelhada rezando em um oratório. Derepente ela levanta os punhos como se lutasse emuma batalha imaginária. Há imagens de demôniossorridentes enfiando tridentes em coitados no taloratório e anjos e arcanjos e santos).C: Venha, cidade de Deus; soe, trombeta de Gabriel.Ai, como o mundo está custando para morrer! (elabate no peito, se dobra perante as velas e estátuas.FM a toma e a levanta para a cama , tranqüilamente.Ela tosse. FM a deita e a cobre. A respiração voltanormal) Perdão... Perdão, senhor Monteiro... Para asvelhas resta apenas o prazer da devoção... Passe-meo lenço, por favor.FM: A senhorita Aura me disse...C: Sim, é isto mesmo. Não quero que percamostempo... deve... deve começar a trabalhar o quantoantes... (o lenço) Obrigada...FM: Trate de descansar, senhora.C: Obrigada... Tome... (tira de si um colar de fita roxapuída com uma chave de cobre) Naquele canto...Abra esse baú e traga os papéis que estão à direita,acima dos outros... amarrados com um cordãoamarelo...FM: Não estou vendo muito bem...C: ( ela fala às costas de FM que...) Ah! Sim... É queestou acostumada às trevas (tem um frêmito e sevira rapidamente por pouco tempo)... Caminhe etropeçará na arca... É que nos cercaram de paredespara nos forçarem a vender a casa. Nem mortasvenderíamos... Há muita recordação para nós. Só 221
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASmorta me arrancarão daqui... É isso. Obrigada. Osenhor pode começar a ler esta parte. Logo lheentregarei as demais... Boa noite, senhor Monteiro.Obrigada. Olhe, seu candelabro se apagou. Acenda-lolá fora, por favor. Não, não, fique com a chave.Aceite-a. Confio no senhor.FM: Senhora... há um ninho de ratos naquele canto.C: Ratos? O fato é que nunca vou lá...FM: A senhora devia trazer os gatos para cá.C: Gatos? Quais gatos? (olham-se. FM esboça falarmas para) Boa noite. Vou dormir. Estou fatigada.FM: ( à porta) Boa noite. (vemos a porta se fechar.Sumindo).CENA 5(FM lê e estuda os manuscritos. Toma notas).CENA 6(A luz da janela acorda FM. Tenta dormir maispondo o travesseiro no rosto. Desiste. Vai para obanheiro. Tudo está por lá bem arranjado.Repentinamente um terrível miado, altíssimo.Somam-se outros. FM vai para o corredor tentarencontrar a origem daquilo, volta, abre as janelas etem a visão de gatos variados pegando fogo emiando horrorosamente. FM cai de volta em suacama. O miado se extingue. FM se veste e houve umsino bater no corredor. Sai rapidamente e vê Anofim do corredor com o sino na mão. Ela se volta)A: O café da manhã está pronto. (sai para o outrocorredor. FM a segue mas o corredor está vazio. Um 222
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASbarulho às costas. O quarto de C. FM vê a mão quecoloca o sino e penetra no quarto. FM continua até asala de refeições. Tudo está servido. Somente umtalher. Toma um suco, rapidamente e pensativo e vaiao quarto de C. Entra bruscamente, sem bater).C: Bom dia, senhor Monteiro. Dormiu bem?FM: Sim. Li até tarde.C: (agitando a mão como se para ele se afastar) Não,não, não. Não dê opinião!. Trabalhará com essepapéis e quando terminar lhes darei os outros.FM: Está bem, senhora.(como se lembrasse) Eupoderia visitar o jardim?C: Qual jardim, senhor Monteiro?FM: O que tem atrás do meu quarto.C: Nesta casa não há jardim. Perdemos o jardimquando construíram ao redor da casa.FM: (engolindo em seco) Pensei que poderiatrabalhar melhor ao ar livre.C: Nesta casa há somente este pátio de entrada. Aliminha sobrinha cultiva algumas plantas. Mas, isso étudo.FM: Está bem, senhora.C: Desejo descansar todo o dia. Passe para me veresta noite.FM: Está bem, senhora. (bate a porta atrás de si,ficando na penumbra do corredor, pensando).CENA 7( FM estuda seus papéis. Anota. Cena similar àanterior. Enquanto fuma)FM: Quem sabe se eu não prolongo essa mamata e 223
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASdá para ganhar aí uns doze mil. Garanto o ano e otrabalho que me interessa. (o sino bate. FM olha orelógio, se compõe no corredor. Na sala de jantar Aestá sentada, C também. Há o quarto talher.Cumprimentam-se e começam o jantar. Enquanto Cfala com A, FM olha para C e pensa)FM off: Se o general tinha 42 anos por ocasião darevolução francesa e morreu em 1901, teria morridocom 82 anos. Mas, em nenhum momento ele a citano seu livro. Por que? Teria se casado com a senhoraConsuelo no exílio... mas ela seria uma menina,então. (a câmara varre de C para A; esta comemecanicamente. Deve-se mostrar, sutilmente, que omovimento de uma é o da outra, com breve atrasode tempo, de intermédio, cenas de movimento decabeça de FM. Ele começa a comer. Elas param e oobservam. FM olha para as duas e se fixa na senhoraque fala olhando fixamente para ele).C: Fiquei muito cansada. Venha, Aura, acompanhe-me até o quarto.(FM como num sonho, enquanto se levanta, olhapara A que está imóvel olha para um ponto fixo,dizendo palavras. FM toma do braço da mulher e aleva para o corredor e para o quarto. A mulher sedeita e parece dormir de olhos abertos. FM bebe umtreco qualquer que está por ali. Vinho? Funde-seessa imagem de pensador com Aura que fala sozinhana sala. FM sai. No corredor olha para a outra porta.FM empurra a porta e entra. Olha para a porta quedeve dar para o quarto de C. FM caminha devagar epõe a mão sobre a porta. Tenta empurrar, ela cede 224
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASum pouco. FM desiste).CENA 8(Funde-se a imagem com FM dormindo e outrafusão. No escuro, não se define claramente as cenas.Um sino que bate várias vezes e vê-se que mãosdescarnadas o carregam, e uma vez a gritar:Afastem-se! Afastem-se todos! É um corpo velho queo acaricia e o quer, FM tenta fugir e acaba pondo amão sobre outro corpo, jovem, segurando suaschaves. Frases incompreensíveis. O corpo de FM épercorrido por beijos. FM compreende e concordacom:: Você é meu esposo! Eu espero você esta noiteem meu quarto! Quando o corpo jovem se afasta. FMrelaxa e dorme. Última tomada é o corpo de A saindode seu contato. Batidas...)CENA 9(Batidas. FM acorda pesadamente. Batem na porta.Há uma certa insistência).A: Não precisa abrir! A senhora Consuelo o espera...o quer ver em seu quarto. (FM bate na cabeça e ri).CENA 10(FM entra no quarto da mulher, deitada e bemagasalhada, sem abrir os olhos dirá).C: O senhor está trazendo a chave?FM: Sim... Creio que sim. Sim, está aqui.C: Pode ler a segunda pasta. No mesmo lugar, com acinta azul. (FM pega os papéis, procurando na arca.Ao se virar vê que C está com seu coelho) Não gostados animais, não é? 225
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASFM: Não. Não particularmente. Talvez porque nuncaeu tenha tido algum.C: São bons amigos. Bons companheiros. Sobretudoquando chega a velhice e a solidão.FM: Sim. É mesmo.C: São seres naturais, senhor Monteiro. Seres semtentações.FM: Como disse que se chamava?C: A coelha? Saga. Sábia. Segue seus instintos. Énatural e livre.FM: Pensei que fosse um coelho.C: Ah... o senhor ainda não sabe distinguir.FM: Bem... o importante é que a senhora não se sintasó.C: Querem que estejamos sós, senhor Monteiro,porque dizem que a solidão é necessária para sealcançar a santidade. Esqueceram-se que na solidãoa tentação é maior.FM: Não a estou entende, senhora.C: Ah, é melhor, é melhor. Pode continuar seutrabalho.(FM sai e no corredor pensa).FM off: Por que falta coragem para dizer que amoAura? Por que falta coragem para dizer que aoterminar o trabalho eu levo Aura comigo? (FMdecide e volta, abre hesitante a porta, mas pelafresta se interrompe e vê C em pé, vestida degeneral, com condecorações e tudo mais, ela beija aroupa, dança com ela, rodopia feliz, e FM fecha aporta. Sobre essa porta se fechando o texto em off ). 226
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA 11FM: (lendo os papéis) Sim... tinha quinze anosquando a conheci. (FM fecha o livro e revê a capapara reabri-lo), bela Consuelo. Belos olhos verdes(funde imagem com um general muito mais velhoandando, uma garota lá frente fazendo qualque rcoisa. Ao se aproximar o general vê que a garota estátorturando um gato. O general ri e se excita.. Fundepara o general comendo a garota vigorosamente láno quarto deles... funde para FM lendo esuspirando...)FM: ( fechando a pasta) Quando ele morreu ela tinha49. Nesse caso...(FM olha para o lado, pensativo) assenhora Consuelo terá... 109 anos. (FM derruba ospapéis e sai, abrupto, vai para a cozinha, vê A quedegola um cabrito, espirra sangue para todo lado eela está com o olhar fixo em um ponto qualquer,desarrumada. FM corre para o quarto de C, abre aporta com violência e vê a mulher fazendo osmovimentos similares aos de A. As cenas sealternam.a idéia geral é que estão retirando a pelede um cabrito. Os movimentos de A estão sempreatrasados em relação aos de C. Quando FM olha paraA é como se ela não percebesse sua existência. FMcorre para seu quarto, ofegante, se tranca lá comoque perseguido, põe uma poltrona para ninguémentrar; empurra também a cama e deita-se, semforças) Ela está louca! Está louca.CENA 12(fundem-se as imagens de C e de A sobre o torpor de 227
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASFM, que adormece e sonha mais. Vê C seaproximando de gatinhas. C coloca o rosto contra orosto dele e sorri. Um sorriso de gengivas comsangue.FM grita. C grita. A grita. C retira da boca umpunhado de dentes. FM está desorientado. C joga osdentes sobre ele. A rasga seu vestido verde pelomeio. FM observa horrorizado. A se aproximamostrando o vestido verde rasgado. Sobre os seusdentes estão os dentes da velha, superpostos. Acâmara desliza sobre o corpo de A até as pernas.Corte para FM olhando. As pernas se quebram erolam pelo chão. Fusões de batidas na porta, sinos,tiquetaque e mostrador de relógio. Corte para a salacom um talher. Tem uma boneca ao lado do prato. Aboneca solta uma farinha por uma costura mal feita.FM come olhando a boneca. A boneca cai. FM selevanta e vai para o corredor e jardim. FM nocorredor. Entra no quarto de A; ela o recebe. Beijam-se. Está mais velha. Beijam-se. Abraços.)A: Sente-se na cama, Felipe.FM: Sim.A: Vamos brincar. Não faça nada. Deixe-me fazertudo. (A se ajoelha diante de FM) O céu não é altonem baixo. Está em cima e debaixo de nós ao mesmotempo. (A o toma e baila enquanto ela canta umavalsa. Ela retira a camisa de FM. Ele vai fazendo omesmo. Ela retira de trás a boneca e acaricia aboneca. Quebra a boneca sobre suas coxas. A farinhase espalha. A se deita e se abre para receber FM quese deita sobre ela). Você me quererá para sempre?FM: Sempre, Aura, eu amarei sempre você. 228
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASA: Sempre? Você me jura?FM: Eu lhe juro.A: Ainda que perca minha beleza? Ainda que fiquede cabelos brancos? Ainda que eu envelheça?FM: Sempre, meu amor, sempre.A: Ainda que eu morra, Felipe? Você me amarásempre, ainda que eu morra?FM: Sempre, sempre, eu juro. Nada pode me separarde você.A: Venha Felipe, venha...(Volúpia total e FM está acordando num silêncio eprocura por A, na cama. Vê que A está de pé nafrente da cama, sorrindo, sem olhá-lo. A caminha ese senta no chão ao lado da cadeira de balanço queaos poucos vai se definindo, da mesma forma que asenhora C que balança e sorri para FM. Elas falammas não se ouve. Sorriem para FM. Então as duas, aomesmo tempo se levantam e vão para o quarto davelha, juntas, que é iluminado por velas).CENA 13(FM acorda triste em seu quarto. Dor de cabeça.Perdido. Cortes rápidos para as abluções. O sino nocorredor. Ao abrir a porta vê uma pessoa com roupaverde e um véu a cobrir seu rosto).A: O café está pronto.FM: Aura, chega de enganos.A: Enganos?FM: Diga-me se a senhora Consuelo a impede desair, de ter sua vida; por que há de estar presentequando eu e você...? Diga-me que você irá comigo 229
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASquando tudo isso...A: Irmos nós dois? Para onde?FM: Lá pata fora, para o mundo. Para vivermosjuntos. Você não pode sentir-se para sempreacorrentada á sua tia... Por que essa dedicação? Vocêgosta dela tanto assim?A: Gostar dela...FM: Sim; porque se há de sacrificar assim?A: Eu gostar ela? Ela é que me quer. Ela se sacrificapor mim.FM: Mas é uma mulher velha, quase um cadáver...você não pode...A: Ela tem mais vida do que eu. Sim, é velha, érepulsiva... Felipe, não quero voltar...Não quero sercomo ela...outra...FM: Você se enterra em vida... você tem querenascer, Aura.A: Tem-se que morrer antes de renascer... Não. Vocênão entende. Esqueça, Felipe. Tenha confiança emmim.FM: Se você me explicasse...A: Tenha confiança. Ela vai sair hoje durante tododia...FM: Ela?A: Sim, a outra.FM: Vai sair? Mas, se nunca...A: Sim, ás vezes sai. Faz um grande esforço e sai.Hoje vai sair. Durante todo dia... Você e eupodemos...FM: Irmos embora?A: Se você quiser... 230
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASFM: Não, talvez ainda não. Estou contratado para umtrabalho... Quando terminar o trabalho, então sim...A: Ah, sim. Ela vai sair durante todo o dia. Podemosfazer alguma coisa...FM: O quê?A: Espero-o esta noite no quarto de minha tia.Espero-o como sempre. (A se afasta tocando o sino.Quando FM entra na sala a velha está sentadavestida como se de noiva, mas uma roupa muitovelha, com seu cajado na mão e tomando um café. Co olha, meio enfadada).C: Hoje, não estarei em casa, senhor. (FM sinalizacom a cabeça mas procura por A lá na cozinha, ondehá umas sombras. C olha também e esboça umsorriso de volta) Confio em seu trabalho, senhorMonteiro. As memórias de meu esposo devem serpublicadas. (ela bebe uma última xícara e sai,tossindo e fungando. FM vai esperar, com a chave daarca na mão. O tempo passará. Sombras na cozinha.Relógio, Folhas que voam. A janela bate com o vento.Os cristais tremem. FM vai para o quarto da mulher.A coelho está sobre a cama roendo uma cenoura.Abre a arca, tira a pasta que derrama algumas fotosno chão. FM pega tudo. No quarto, sob vela começa aler e vai alternando de carta para carta).FM: Sei por que você chora às vezes, Consuelo. Nãolhe pude dar filhos, para você que irradia vida...(toma outra carta)... Consuelo não tente a Deus.(sino do corredor. A anda por ele) Devemos nosconformar. Não lhe basta o meu carinho? Eu sei quevocê me ama; eu o sinto... o meu amor compensará 231
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASqualquer imaginação enfermiça? (outra carta) Aviseia Consuelo que essas beberagens não servem paranada. (A no jardim cortando algumas ervas) Elainsiste em cultivar suas próprias plantas no jardim.As ervas só fertilizarão a alma...(outra carta) ...Encontrei-a no quarto delirando ela gritava (Agarota do general a gritar: Eu conseguiu! Eu aencarnei! Posso convocá-la!) (outra carta) Ela agoraanda descalça pela casa, pelos corredores. (A garotano corredor. Não se vê claramente quem é) Ela dizpara não ser detida pois está atrás de sua juventude.Sua juventude estava no jardim... Tinha acabado dechegar...(FM deita as cartas pensativo. Começa aolhar as fotos. Então cai em si ao ver uma foto de Acom data de 1876... vê as fotos de A que éConsuelo...)FM: Com amor, Consuelo! (outra foto) Emhomenagem ao décimo ano de casamento. (outrafoto) Quando estivemos em Buenos Aires, no hotelColón (outra foto e o assombro. A foto toma conta datela. Vê-se claramente Aura-Consuelo e, quando FMretira o dedo, o general, que é ele, Felipe Monteiro.Desesperadamente FM vai ao quarto de Consuelo eAura está deitada com sua roupa verde, de costas)Aura! Aura! (eles se olham).A: Não... não me toque... Deite-se a meu lado... (FM sesenta na cama).FM: Ela pode regressar a qualquer momento.A: Ela já não mais regressará.FM: Nunca?A: Estou esgostada. Ela já se esgotou. Nunca pude 232
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASmantê-la ao meu lado por mais de três dias.FM: Aura... (FM tenta tocar os seios de A).A: Não... não me toque...FM: Aura... eu amo você.A: Sim... você me ama. Me amará sempre... você disseontem.FM: Sempre a amarei. Não posso viver sem seusbeijos, sem seu corpo...A: Beije-me o rosto... somente o rosto.FM: Não... quero você inteira para mim...(FM se envolve, beija o rosto. Tudo é lento. Elecomeça a tirar a roupa de A; Se beijam, se amam, oenvolvimento é total. )A: (Isso é dito durante a cena de amor) Ela voltará,Felipe, nós a traremos juntos. Deixe que eu recupereas forças e a farei voltar... Você me amará mesmo seeu envelhecer? Você me amará mesmo que eu estejamorta? (FM concorda com tudo e jura tudo).CENA 14(É manhã. Vemos FM deitado que acorda, dá umsorriso e passa a mexer nos cabelos de A, sem vErmuito bem. A câmara faz uma varredura e vamosnotar que a mão de FM faz carinho num cadáverbem decomposto). 233
    • Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS ALTERNATIVAMENTE 234