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Na ponta da língua
Miguel Esteves Cardoso
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Chamam-lhes peixe-diabo injustamente. As
jamantas são, afinal, anjos que voam ...
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Açores
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O corrico feminino é só mais uma
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Açores
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Passeio
Série Fugas em Portugal IX: Estremadura
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(como o Paço dos Duques de Aveiro).
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Passeio
Série Fugas em Portugal IX: Estremadura
Guia prático
ONDEDORMIR
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O microestado, com os seu...
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mentais em redor de Forbidden
Hill (hoje designada Fort Canning
Hill). Para d...
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A vida em blocos
Hoje, os ânimos estão apaziguados
num país que se pode consi...
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rista pode sempre flanquear as por-
tas de templos, igrejas e mesquitas –
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forte controvérsia, o edifício que pri-
vilegia a maximização de luz natural
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fugas.publico.pt/
de bilhar foi abatido, em 1902, o
último ti...
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Comospés
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Não é fácil chegar à Q...
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jogos dos seus países”, diz.
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um específico vinho do Porto.
Das entradas provaram-se a “sa-
lada de alface e...
Suplemento do jornal Publico "Fugas" dedicada à ilha de Santa Maria
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  1. 1. P?blico Açores Nomarde SantaMaria àprocurade jamantas EstremaduraSingapuraQuintadoCãoVinumHiddenXiringuitoBMW320d NELSONGARRIDOESTESUPLEMENTOFAZPARTEINTEGRANTEDAEDIÇÃONº8543DOPÚBLICO,ENÃOPODESERVENDIDOSEPARADAMENTE FUGAS|Público|Sábado31Agosto2013
  2. 2. COLECÇÃOSUPER-HERÓISDCCOMICS. QUINTA-FEIRA.UMDIATRISTEPARATODOSOSVILÕES. 88,90€,90€ Todas as 5.ª por mais Todas as 5.ª por mais ss TM&©2013DCComics. AllRightsReserved. 0-+% (% .978-Ÿ% r &%81%2 r 794)6,31)1 r *0%7, r 190,)61%6%:-0,% r 0%28)62% :)6() r %659)-63 :)6() r %8;31%2 r .3/)6 r 92-:)673 (' CSPIG¿»SHIPMZVSW4IVMSHMGMHEHIWIQEREPHIHI.YPLSEHI2SZIQFVS¸WUYMRXEWJIMVEW4:4’ZSPYQI€VIWXERXIW€. 4VI¿SXSXEPIQ4SVXYKEP'SRXMRIRXEP€)HM¿»SPMQMXEHEESWXSGOIMWXIRXI%GSQTVEHSTVSHYXSMQTPMGEEGSQTVEHSNSVREP NONO LIVRO “BATMAN: SAGA DE RA’S AL GHUL”, quinta, 5 DE SETEMBRO, POR MAIS 8,90€ com o Público. Ra’s Al Ghul é o maior inimigo de Batman. O mais astuto. O mais perigoso. Como se isso não bastasse, é também pai de Talia, a mulher fatal que conquistou o coração de Batman e lhe irá dar um filho. Damian. Nesta história épica, Denny O’Neil e Neal Adams recuperam momentos que marcaram para sempre o destino do Cavaleiro das Trevas. É o volume desta semana da série da DC Comics, inédita em português. Uma edição em capa dura, por um preço bem acessível. A pedido dos leitores, eis a colecção que todos esperavam. Ou melhor, quase todos. COLECÇÃOSUPER-HERÓISDCCOMICS. QUINTA-FEIRA.UMDIATRISTEPARATODOSOSVILÕES. w[[TYFPMGSTX RA’S AL GHUL
  3. 3. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 3 Na ponta da língua Miguel Esteves Cardoso Abeterraba é uma beleza e uma delícia que ganha muito em ser comida ao sol. Uma salada de beterraba, temperada só com cebola, azeite e vinagre de vinho, é um dos melhores acompanhamentos que há para o peixe frito ou grelhado. Conheci-a graças às mãos mágicas e doces da dona Ana, no Restaurante O Sacas, na Zambujeira do Mar. As minhas filhas cresceram mais uns centímetros graças a essas saladas de beterraba, literalmente irresistíveis. Não compreendo porque é tão difícil encontrar saladas de beterraba nos restaurantes. É mais uma ausência inexplicável para acrescentar às outras. As beterrabas são baratas e fáceis de cozer (35 minutos). Nem precisam de ser preparadas. São fácílimas de descascar: basta segurá-las enquanto estão quentes para elas soltarem a pele. Depois aguentam-se lindamente uns cinco dias no frigorífico. Dão menos trabalho do que as alfaces e os tomates, rendem mais e são mais nutritivas. Que velho preconceito pode haver contra as pobres das beterrabas? Comprando um molho de seis beterrabas por um euro e meio, aproveita-se tudo. As folhas são grandes e bonitas. Cozidas são parecidas com espinafres dos mais finos: melhores ainda. Até há pouco tempo, igualmente tiranizados pelo fascismo anti-beterrábico, também nós deitávamos fora as folhas. Que desperdício de fofura verdinha! Agora não queremos outra coisa. A Maria João cozeu as beterrabas, cozeu as folhas e salteou os caules, depois de um breve refogado. Almoçámos os três petiscos, cada um com a sua personalidade, textura e encanto. Os caules são estaladiços e suculentos, com um sabor diferente da beterraba em si. Só a pele das beterrabas é que não marchou — mas ficou a desconfiança que também não há-de ser má. Tudo na beterraba é bom: é magnífica. Nem valerá a pena falar da versatilidade da beterraba: assadas no forno, por exemplo, tornam-se mais doces. A beterraba não é bem doce. Tem um sabor telúrico. Este sabor a terra desconvence muita gente a experimentá-la. Mas o sabor a terra é leve e sensual, como o sabor umami de míscaros selvagens, crus ou grelhados. No Verão, quando saímos para almoçar, levamos um tupperware com umas beterrabas lá dentro. Dispomos a salada numa travessa emprestada (o restaurante tem de ser simpático e conivente) e o efeito, gastronómico e estético, é deslumbrante. Convém avisar que a beterraba pode dar uma cor avermelhada ao xixi e ao cocó até 24 horas depois de comida: se isto acontecer, não é preciso ir a correr aterrorizado para as urgências. Prepare-se de antemão para não se alarmar. Ou vá já colar um Post-it na parede da sua casa-de-banho. No mundo das ramas, as folhas das beterrabas serão as mais apetitosas de todas, não sendo preciso fazer mais do que cozê-las. São boas mesmo sem tempero, como acontece com os melhores grelos: o sabor do azeite tira-lhes o viço e sobrepôe-se, alterando a textura. Segundo consegui apurar, as folhas tendem a ser usadas mais em sopas, como a rama da cenoura e do nabo. Devem ficar maravilhosas nas sopas que usam espinafres (temos planeada uma sopa de grão com rama de beterraba para o primeiro dia fresco de Outono) mas, antes de as atirar para uma sopa, faça o favor de prová-las singelas, só cozidas durante sete ou oito minutos. Seja como for, não compre beterrabas ou nabos que não tenham rama — ou que tenham uma rama seca e velha. Também não ligue muito ao tamanho: as beterrabas pequenas, tal como os nabos, até podem ser um bocadinho mais deliciosas do que as variedades maiores. A beterraba é um prazer que dura o ano inteiro. Em Portugal é raro o mês em que não se encontra. Antes de começar a cozinhá-la de todas as maneiras, é bom conhecê-la primeiro tal qual ela é. Nem faço ideia como há quem consiga passar sem ela. Passeando pelasfeiras équese percebeo papelquea beterraba temna alimenta- ção portuguesa. Esgota quase sempre. János restauran- tesécomo senão existisse FICHA TÉCNICA Direcção Bárbara Reis Edição Sandra Silva Costa e Luís J. Santos (Online) Edição fotográfica Miguel Madeira e Manuel Roberto (adjunto) Design Mark Porter, Simon Esterson Directora de Arte Sónia Matos Designers Daniela Graça, Joana Lima e José Soares Infografia Cátia Mendonça, Célia Rodrigues, Joaquim Guerreiro e José Alves Secretariado Lucinda Vasconcelos Fugas Praça Coronel Pacheco, 2, 4050-453 Porto. Tel.: 226151000. E-mail: fugas@publico.pt . fugas.publico.pt Fugas n.º 693 A bela da beterraba que não tem nada para deitar fora RYMANCABANNES/CORBIS Passeando pelas feiras e pelos mercados é que se percebe o papel importante que a beterraba tem na alimentação portuguesa. Esgota quase sempre. Já nos restaurantes é como se não existisse. Quando há, é servida como se fosse uma novidade, uma ousadia.
  4. 4. 4 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 Chamam-lhes peixe-diabo injustamente. As jamantas são, afinal, anjos que voam pelo oceano Atlântico, companheiras dos golfinhos e dos meros curiosos. A Fugas pegou no equipamento de mergulho e foi conhecer estes e outros tesouros escondidos no mar de Santa Maria. Só nos esquecemos dos comprimidos para o enjoo. Capa Açores Emvoolivre noazuleléctrico doAtlântico Estivemos quase a perder a esperança. En- quanto o barco baloiçava, embalado por ondas pequeninas, e nos prepa- rávamos para o terceiro mergulho, já pensávamos que as jamantas não iam aparecer. Não é que tivéssemos encontro marcado — e também não estávamos ali só para isso — mas ir a Santa Maria e não ver jamantas era como ir a Roma e não ver o Papa. Te- ríamos sorte à terceira tentativa? Antes de partirmos de Lisboa rumo a Vila do Porto, o único con- celho da ilha, fizemos uma pesqui- sa rápida na Internet. As notícias mais recentes eram animadoras: “Concentração invulgar de jaman- tas atrai turistas a Santa Maria”. Di- zem os empresários com centros de mergulho na ilha que esta espécie de manta da família das raias tem aparecido em maior número nos úl- timos anos. Garantem que aquele é o melhor sítio da Europa para mer- gulhar com estes enormes peixes e parecem ter convencido sobretudo os turistas estrangeiros, que ali têm chegado em romaria. Tínhamos de confirmar. E para isso fomos munidos de armas e bagagens. Na mala da jornalista, 20 quilos de equipamento de mergulho habitua- do a estas andanças. Na do fotojor- nalista, uma caixa estanque para a máquina fotográfica e um curso de mergulhador tirado mesmo a tempo da viagem. Tudo a postos para ir co- nhecer os segredos subaquáticos da ilha mais continental dos Açores. Comprimidos para o enjoo Somos oito ao todo no barco do cen- tro Paralelo 37, fora o skipper, que conduz o semi-rígido carregado de coletes agarrados às garrafas de ar, máquinas fotográficas e de filmar, barbatanas e mochilas com o lanche. É sábado, saímos cedo do porto da vila, cerca das 9h30, e só contamos regressar a terra por volta das 17h. Rui, um dos guias, tinha avisado na noite anterior: levem roupa quen- te, a viagem é longa. Até ao ilhéu das Formigas, um aglomerado de oito pequenos rochedos situado a cer- ca de 24 milhas náuticas a nordeste de Santa Maria, demora-se cerca de duas horas. Isto se não encontrar- mos golfinhos ou tubarões-baleia no Marisa Soares (texto) e Nelson Garrido (fotos) caminho, avisou Rui. Se os encon- trássemos, até podíamos demorar o dia inteiro, pensámos nós. Tubarões-baleia não vimos. Um grupo de mergulhadores avistou um poucos dias antes de chegarmos à ilha, mas não tivemos a mesma sor- te. Tivemos outra. Quando vimos um bando de cagarros alvoraçado percebemos que não estavam sozi- nhos: estas aves, muito caracterís- ticas dos Açores, caçam em parce- ria com os golfinhos. É como uma coligação que resiste ao passar do tempo: os golfinhos atacam os car- dumes de peixes debaixo de água e os cagarros aproveitam os peixes que fogem para a superfície, mer- gulhando num voo picado para os apanharem. À medida que nos aproximamos, os cagarros afastam-se e os golfinhos pulam, calorosos, em volta do semi- rígido, com as barbatanas dorsais a rasgar a superfície da água, e não nos largam durante uns dez minu- tos. Parecem estar em êxtase, quase tanto como nós, por os vermos. Pelo caminho, à ida e à volta, encontra- mos quase uma dezena de grupos de
  5. 5. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 5 golfinhos comuns e riscados, com o mesmo entusiasmo. Avistamos ao longe o pequeno farol das Formigas, com a espu- ma das ondas a rebentar contra os rochedos. Não é tão mau como parece. No mergulho que fizemos no dia anterior, junto à costa Sul da ilha, na Baixa da Pedrinha, o mar estava tranquilo. Mas em mar aberto o caso muda de figura. O se- gredo é cair logo na água e descer, para fugir da corrente à superfície, mas quando o estômago começa às voltas não há como voltar atrás. Nota mental para a jornalista: para a próxima, levar comprimidos para o enjoo. Os primeiros mergulhadores caem na água, que ronda os 21 graus. Nada mau para quem está habituado a mergulhar no continente, em Se- simbra, com temperaturas médias de 15 graus. Equipados a rigor — fato de neoprene, cinto de chumbo à cin- tura, barbatanas, colete com garrafa às costas, máscara e regulador —, deixamo-nos cair também. É como se entrássemos num aquário gigante, sem paredes, onde quase não se vê o chão. Cardumes de encharéus, lírios, bicudas, aqui e ali um peixe-porco, peixes-rainha e outros peixes coloridos tropicais, ou não fosse esta a única ilha dos Açores que repousa na placa geo- lógica africana. À entrada de uma gruta, um enorme ratão, primo das raias, com a sua grande cauda apontada para fora. Mas de jaman- tas, nem sinal. Encontros imediatos Voltamos a bordo e preparamo-nos para um segundo mergulho. O semi- rígido “estaciona” a poucos metros do ilhéu, sobre a Baixa do Sul. As baixas, elevações do fundo marinho que chegam por vezes a escassos metros da superfície, são frequen- tes nos Açores. Estendemos o olhar sobre a água cristalina à procura de um sinal do peixe-diabo (outro nome dado à jamanta), que muitas vezes nada junto à superfície. Nada. Outra vez a corrente — e outra vez o enjoo. Descemos o mais rápido que podemos agarrados ao cabo que se- gura o barco ao fundo do mar, e se- guimos atrás dos guias. A visibilidade de 20 a 30 metros torna tudo mais fá- cil. Avistamos logo um grande mero, como que a levitar sobre as algas que forram o fundo, entre duas rochas. Aproximamo-nos para o ver de perto e ele continua ali, quieto, com os seus grossos “lábios” e os olhos salientes, que parecem observar-nos, curiosos. Mais à frente, outro mero sai de um buraco na rocha e vem pedir atenção. E enquanto agita as barbatanas num jeito desalinhado, deixa-se tocar. Os meros são uma das fortes atrac- ções dos Açores. Por se manterem quase sempre no mesmo sítio e te- rem um comportamento amistoso com os mergulhadores, são fáceis de encontrar e deixam qualquer um enternecido. À nossa volta, novamente cardu- mes prateados de lírios, bicudas e encharéus. Encontramos moreias es- condidas nas rochas, vejas (peixes de escamas largas e com um bico que parece de papagaio) e corais. As jamantas têm aparecido em maior número nos últimos anos na ilha de Santa Maria
  6. 6. 6 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 Capa Açores De repente, ouvimos o som metá- lico das maracas que o guia usa para chamar o grupo. É como música para os nossos ouvidos. Como que saídas do nada, surgem ao longe duas jamantas — as tão esperadas Mobula tarapacana — que rasgam o azul num voo livre, uma atrás da outra, a 20 metros da superfície. Tentamos nadar até elas mas a injecção de adrenalina é tanta que, no meio de uma cãibra, mal saímos do lugar. Nada do que nos ensinam no curso de mergulho sobre como ti- rar uma cãibra resulta quando mais precisamos... Desistimos e ficamos ali a pairar, inebriados. E em menos de nada, as jamantas, que nadam em círculo à volta do grupo de mergulhadores, passam mesmo aos nossos pés, de- vagar (pelo menos, aquele minuto parece demorar uma eternidade). Nunca o ditado “se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Ma- omé” fez tanto sentido. Graciosas, parecem bailarinas que agitam os braços suavemente, num enorme palco onde são as úni- cas estrelas. Isto apesar do mero e da raia que aparecem a pedinchar atenção, enquanto elas passam. Mas os olhos dos mergulhadores estão todos postos nas jamantas que, imponentes, batem as “asas” pontiagudas — têm pelo menos três metros de envergadura. No dorso verde dão boleia às rémoras. Estes pequenos peixes parasitas viajam junto aos “cornos” que as jamantas têm nas laterais da cabeça (daí o nome peixe-diabo) para ajudar a direccionar o fluxo de água para a boca. As jamantas comem plâncton e as rémoras apanham os restos, en- quanto desfrutam de uma espécie de voo de asa delta submarino. Mergulho no azul O espectáculo dura talvez dez mi- nutos. Quando deixamos de as ver, percebemos que o mergulho aca- bou. Estamos quase há 40 minutos debaixo de água, o ponteiro do ma- nómetro do ar marca quase na re- serva, é tempo de subir. O ideal seria fazê-lo pelo cabo, mas à medida que avançamos a corrente é tanta que nem sequer conseguimos lá chegar. Deixamo-nos levar. Por sorte, saímos mesmo junto ao barco e consegui- mos desequipar-nos sem problemas. E em poucos minutos o grupo está pronto para regressar a terra. Se fomos afortunados à terceira tentativa, à quarta saiu-nos a sorte grande. No domingo fizemos nova viagem, desta vez mais curta, em di- recção a um dos principais spots de mergulho em Santa Maria: a Baixa do Ambrósio, a três milhas da costa Norte. O mar está ainda mais picado do que no sábado, mas mais uma vez descemos pelo cabo do barco. Fazemos o verdadeiro mergulho no azul: é como se caíssemos num poço sem fundo (o chão está a cerca de 50 metros de profundidade, não o conseguimos ver), uma sensação quase vertiginosa. Paramos, agarrados ao cabo, en- tre os dez e os 15 metros. Não pre- cisamos de descer mais. Ouvimos novamente as maracas do guia. Num círculo perfeito à volta do grupo de mergulhadores, oito pares de “asas” batem energicamente, a poucos metros da superfície, como atletas de natação sincronizada. A dada altura, algumas desaparecem no azul, voltam em grupos de duas, ou de três, em fila indiana quase per- feita. De onde estamos, consegui- mos ver-lhes o ventre branco, em contra-luz, e as rémoras coladas à barriga. Ficamos ali quase uma hora a vê-las passar. Nem imaginamos o que estará aos nossos pés, que segredos guar- da aquele fundo em mar alto. Os olhos, já habituados ao azul, detec- tam algures uma espécie de parede prateada, que parece formada por bicudas (ou serão anchovas?), às de- zenas. Não conseguimos distingui- las a esta distância mas também não importa. O ar está no fim e subimos. Paramos antes de um último mergulho numa zona abrigada do vento, junto à costa, e ficamos ali a baloiçar devagar, a fazer o intervalo de superfície. Não voltamos a ver as jamantas mas é como se fechásse- mos os olhos e elas passassem, ou- tra vez, a voar na nossa direcção. A bordo trocam-se experiências, mais difícil é descrever as sensações. Da nossa parte, há uma inesquecível: pela primeira vez, tivemos vonta- de de chorar de alegria debaixo de água. E isso não se explica. A Fugas viajou a convite do Clube Naval de Santa Maria Por trás de uma grande pescadora, há sempre um grande skipper. Podia ser este o slogan do corrico feminino de barco, que se realiza há 11 anos na ilha de Santa Maria. É que nesta prova as protago- nistas são elas mas em quase todos os barcos segue um homem ao leme. E o segredo para uma boa pescaria está, em parte, na perícia da condu- ção. O resto é sorte, dizem. Mas este ano não houve muita. Não é fácil juntar tantas mulhe- res no mar. A maioria das 66 parti- cipantes no torneio deste ano nem costuma pescar, ou fá-lo apenas ao fim-de-semana para passar o tempo. Mas o primeiro fim-de-semana de Agosto era delas. “É a nossa vez”, di- zia, firme, Isabel Andrade, enquanto ouvia as regras do concurso, defini- das pelo Clube Naval de Santa Maria (CNSM). Isabel, que vai a bordo do Kosmos, nunca falhou uma prova de corrico feminino — a única do géne- ro no país. O clube organiza também o corrico geral, que é para todos, embora atraia mais homens. O corrico é uma pescaria lenta, feita à linha, na ponta da qual se prende a corrica, uma espécie de isco em forma de peixe, feito em materiais como metal ou plástico. Leva ainda um anzol e uma placa que brilha e faz atrito na água. Os peixes predadores sentem-se atraí- Elas pescam, eles ficam ao leme
  7. 7. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 7 Helena participa no corrico femi- nino pela “quinta ou sexta vez”. Tal como as outras participantes, mora em Vila do Porto. Segue a bordo do Zenite. A melhor classificação que já conseguiu foi um quarto lugar, gra- ças a uma anchova e muitas bicudas. É pescadora de fim-de-semana mas fá-lo com paixão. Gosta de lançar a linha e “sentir a batida do peixe”. A ansiedade é tanta que na noite ante- rior à prova nem consegue dormir. O torneio decorre no sábado e no domingo. Os barcos deixam o porto dos rasto deixado pela corrica. A corrica é lançada na água de modo a ficar a 20 a 30 metros do barco, e este tem de seguir lenta- mente. Não pode parar, nem quan- do o peixe pica. É aqui que entra a perícia do skipper — das 18 embar- cações a concurso, 16 tinham um homem ao leme. “Ele tem de levar o barco devagar, a uma velocidade constante. E tem de saber voltar ao sítio onde o peixe picou, para ver se apanhamos mais”, diz Helena Cabral, outra concorrente. À esquerda, a paisagem do lado nordeste da ilha, pontuada por diversas vinhas em socalcos. À direita (em cima), as pescadoras de corrico lançam a cana, à espera que o peixe pique. Em baixo, avista- -se o farol do ilhéu das Formigas às 17h e podem regressar até às 23h. São seis horas que “passam num instante”, garante Helena Cabral. É nesse período que os peixes preda- dores, maiores, costumam caçar. Quem sai para o mar previne-se em terra. No barco, as concorrentes (três no máximo) levam todos os in- gredientes para um fim de tarde de festa. É que enquanto o peixe pica e não pica, há tempo para tudo — beber umas cervejas, comer uns petiscos, ou dar música aos peixes tocando uns acordes. À procura do atum Os barcos podem dar a volta à ilha e afastar-se até 15 milhas da costa. Naquele fim-de-semana o mar não estava para grandes aventuras — aliás, o vento forte e o aumento da vaga levou a organização a cancelar o segundo dia de prova, por ques- tões de segurança. Os resultados finais seriam os de sábado, dia de pouco peixe. “Logo hoje que íamos apanhar o atum”, lamentava uma concorrente no domingo. O mar trocou-lhe as voltas. As mulheres de Vila do Porto foram para o mar tentar a sorte no corrico. Não tiveram muita, mas nem por isso desistiram
  8. 8. 8 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 Capa Açores O corrico feminino é só mais uma das muitas festas que animam Santa Maria durante o Verão — e no Inver- no os marienses (cerca de 5000 resi- dentes) também não se aborrecem. Apesar de na outra ponta da ilha se festejar o Sagrado Coração de Jesus, na freguesia de Santa Bárbara, mais de uma centena de pessoas foi ao porto ver a chegada das pescadoras, no sábado à noite. O primeiro barco chegou às 22h. “Normalmente os primeiros não trazem quase nada”, avisara João Batista, presidente do CNSM. Os recipientes de plástico entregues aos concorrentes para depositarem o peixe foram chegando com bicu- das. Duas, três, oito. Aqui e ali um peixe-porco. Peixes-serra. Muitos chegaram vazios. Algumas caras pouco animadas, outras enjoadas à custa dos balanços do barco, outras ainda em festa. A anchova de Sandra Tavares era a única. A pesagem do peixe é feita à vista de todos. O resultado, que era provi- sório, passou a final quando foi can- celada a prova de domingo. Mesmo assim, não foi mau: no total, as pes- cadoras de Santa Maria apanharam 53 quilos de peixe. Ficaram longe do máximo de 197 quilos apanhados em 2011, mas “este ano há pouco peixe”, aventava João Batista ainda antes de a prova começar. Não se enganou. Seja como for, pelo menos para a equipa do Swordfish valeu a pena. A anchova, da última vez que falámos, ainda estava “na friza”, o termo mariense para congelador, herdado dos norte-americanos (em inglês, diz-se freezer) que estiveram na ilha a construir o aeroporto, na década de 1940. Entretanto, já deve ter dado para um bom jantar. Nem tudo o que vem à rede é pei- xe. Ou melhor, nem todos os peixes que picam a corrica contam para o concurso. Apanhar um peixe-porco, por exemplo, pode compensar no prato (no fim, os concorrentes le- vam o peixe para comer em casa) mas não no da balança, onde o resultado da pescaria é pesado ao final da noite. Para a prova contam a bicuda, a anchova, o peixe-serra, o lírio, o encharéu, o bonito, o wahoo e o atum. Este último é, na verdade, o primeiro na lista de desejos das pescadoras. Mas em 11 anos de pro- va, nenhum mordeu o isco. “Apanhar um atum à linha pode dar duas ou três horas de trabalho, até conseguir trazê-lo para o barco, mas compensa”, diz Isabel Andrade, que este ano chegou a terra sem pei- xe. O atum pode significar o primeiro prémio—normalmenteéopeixemais pesado,equemtivermaispesoganha — ou o prémio de melhor exemplar. O recorde pertence a um atum de 92 quilos, apanhado há uns anos no corrico que é mais para os homens. Apesar do mar bravo, quem sabe da poda arrisca. E para as concor- rentes do barco Swordfish valeu a pena arriscar. O skipper, Eduardo Soares, levou-as até à costa Norte da ilha, mais desabrigada do ven- to. A seu favor tinha a experiência: é armador e tem 52 anos de mar, conhece-o como ninguém. “Andei dois anos na caça à baleia [a ilha tem uma forte tradição baleeira, que en- trou em declínio nos anos de 1960], cheguei a caçar quatro num só dia.” Talvez até tenha caçado mais, mas a memória já não recua tanto. Tinha 15 anos. Hoje tem 66, a pele quei- mada pelo sol e um jeito sereno que contagia. Santa Maria em festa A contrastar com a experiência do comandante, está o amadorismo da tripulação. Mas, já o dissemos, uma boa pescaria também se faz de sorte. E Sandra Tavares teve muita quan- do uma anchova de 7,710 quilos (o segundo maior peixe capturado des- de sempre na prova) mordeu a sua corrica. “A cana até se ia partindo”, conta esta empregada de limpezas que participa pela segunda vez no torneio. Demorou “cinco ou dez minutos” a puxar a anchova para bordo. Mal sabia que tinha acabado de ganhar a prova. Guia prático COMOIR A companhia aérea Sata (www. sata.pt) voa para Santa Maria durante todo o ano, a partir do continente ou de outras ilhas do arquipélago. A partir de São Miguel, pode-se chegar à ilha também de barco entre Maio e Outubro, usando os barcos da Atlânticoline, onde pode transportar veículo próprio. ONDEFICAR A ilha é pequena (menos de cem quilómetros quadrados) e a oferta hoteleira é proporcional. Ficámos alojados no Hotel Santa Maria, a um quilómetro do aeroporto e a cerca de dez minutos do centro da vila, de carro. Para quem quiser ficar mais perto da povoação, a mesma cadeia tem o Hotel Praia de Lobos. Ou então pode optar pelo Hotel Colombo, situado na zona das Pedras de São Pedro, a cinco minutos do centro de Vila do Porto, bom para famílias com filhos, por exemplo, já que tem apartamentos onde é possível cozinhar. Para mergulhadores, o Hotel Colombo é uma boa opção, uma vez que tem dois centros de mergulho “residentes”, o Paralelo 37 e o Haliotis. A Pousada de Juventude de Santa Maria, mais perto do porto, é outra opção a considerar, mais em conta. Em Junho do próximo ano deverá abrir o hotel Charming Blue, com centro de mergulho, a dois minutos do porto. Não faltam também casas de turismo rural. ONDECOMER Durante a nossa estadia comemos quase sempre no restaurante do Clube Naval de Santa Maria, que tem um bom polvo frito com batatas e um excelente naco de atum. Também provámos as deliciosas lapas. Incontornável é o caldo de nabos que comemos na Festa do Sagrado Coração
  9. 9. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 9 de Jesus, na freguesia de Santa Bárbara, e a carne de vaca assada em panela de ferro — e no Verão não faltam festas como esta um pouco por toda a ilha. Com sorte (que nós não tivemos), quem visitar a ilha entre Junho e Setembro pode participar nas Festas do Divino Espírito Santo e comer o pão embebido numa sopa de carne distribuída de forma gratuita a quem quiser, nos vários impérios espalhados pela ilha. A lasanha de albacora que comemos ao almoço no Restaurante Garrouchada, aberto das 9h à meia-noite na rua principal de Vila do Porto, também não desiludiu. Ficámos curiosos com as pizzas do Central Pub (na mesma rua) que não conseguimos provar, embora nos tenham garantido que são “as melhores do mundo e arredores”. Para petiscar com vista para o pôr do sol, a esplanada do Bar dos Anjos, na freguesia dos Anjos, que fica no Norte da ilha, é tentadora. O bar O Paquete, mesmo junto à praia Formosa, também merece uma visita ao fim da tarde. seis centros de mergulho (no próximo ano serão sete), com dez embarcações no total. Além do Paralelo 37, há o Haliotis, o Manta Maria, o Wahoo, o Dollabarat Sub e o CNSM. É só escolher. Quem não mergulha, tem outras opções. A ilha tem pelo menos dois trilhos pedestres assinalados, um na costa Norte e outro na costa Sul, muito procurados por quem aprecia birdwatching. Existe informação disponível em www.trails-azores.com. Existe ainda Rota dos Corsários, que se estende um pouco por toda a ilha com paragens obrigatórias em sete locais, onde painéis contam a história de Santa Maria, recheada de saques e invasões. OQUEFAZER Entre Junho e Setembro, o mergulho é uma das principais atracções da ilha de Santa Maria. A ilha é pequena mas tem Outra rota, mas dos fósseis, é imperdível para quem se interessa por paleontologia, e não só. Existem cerca de 20 jazidas de fósseis marinhos visitáveis, a maioria por terra. Apenas o trilho que inclui a Pedra-que-Pica é feito integralmente por mar, e para isso pode dirigir-se ao Clube Naval de Santa Maria. O Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo, no centro da vila, também disponibiliza informações aos visitantes. Além disso, há as festas tradicionais que animam o Verão, e em Agosto realiza-se o mais antigo e mais importante festival da região, o Maré de Agosto, na praia Formosa. Este concurso é uma iniciativa de: Organização: Depois dos Chefs Brás, Zé do Pipo e Gomes de Sá, chegou a hora de juntar o seu nome à história da gastronomia nacional. Manifeste-se com uma receita original de bacalhau seco da Noruega e uma boa dose de criatividade. Participe na 9ª edição da Revolta do Bacalhau e mostre toda a indignação perante os paladares mais conservadores. Os resultados desta Revolta serão avaliados pelo conceituado júri presidido pelo Chef Hélio Loureiro. O vencedor ganha um Curso Intensivo no Gastronomic Institute na Noruega. Inscreva-se até dia 15 de Setembro. Saiba mais em revoltadobacalhau.com ou facebook.com/revoltadobacalhau INSCRIÇÕES ABERTAS AGORA TAMBÉM PARA ESTUDANTES* *Ojovemtalentomaisrevoltoso,ganhaumamasterclassnasuaescolacomumchefnorueguês.
  10. 10. 10 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 Capa Açores Tínhamos ruma- do a sul naquela manhã de sexta-fei- ra ensolarada, encoberta a espaços por nuvens cor de algodão, para um primeiro mergulho. Saídos do fun- do do mar, seguimos na direcção da Ponta do Castelo, no extremo sudeste da ilha. Vemos ao fundo o farol de Gonçalo Velho (herdou o nome do navegador que descobriu a ilha) mas o semi-rígido do Clube Naval de Santa Maria (CNSM) come- ça a abrandar o passo. Chegamos ao destino. A cerca de 500 metros do farol, aos pés de uma enorme falésia que se precipita sobre as águas cristali- nas do Atlântico, parece uma língua de areia branca vista de longe. Mas não é. Se dúvidas houver, atentem no nome: Pedra-que-Pica. O barco aproxima-se e percebemos que ali não há areia macia, que o chão que pisamos é pontiagudo e que as bo- tas de mergulho não são o calçado ideal. Fica o aviso. Para onde quer que olhemos num raio de cerca de 20 metros, só vemos fósseis. E mais fósseis. E um rasto da actividade vulcânica na ilha, com rochas rugosas de cor negra. Temos os pés sobre milhões de conchas desarticuladas de bival- ves marinhos, algumas com mais de 20 centímetros de diâmetro, restos fossilizados de ouriços-de- areia, e sabe-se lá mais o quê. Diz- nos o guia, Paulo Ramalho, vice- presidente do CNSM e antropólogo, que aquela jazida fóssil tem cerca de cinco milhões de anos. É uma das mais antigas de Santa Maria, a única ilha dos Açores com fósseis marinhos. Procuramos a explicação científi- ca para o que parece ser um aciden- te geológico feliz. Depois de muito tempo sem actividade vulcânica, a ilha — que é a mais antiga do arqui- pélago, com sete a oito milhões de anos — ficou submersa, formando um gigantesco monte submarino. “Terá sido nesta altura, há cerca de cinco a seis milhões de anos, que os animais marinhos que nessa altura existiam se depositaram em gran- A pedra-que-pica (mesmo) des quantidades nos sedimentos marinhos”, no topo daquele mon- te, explica Sérgio Ávila, biólogo e paleontólogo da Universidade dos Açores, um dos vários investiga- dores que têm estudado as jazidas fósseis de Santa Maria. Muitos daqueles animais fossi- lizaram. Com o ressurgimento da actividade vulcânica, há cerca de dois milhões de anos, a ilha emer- giu novamente e elevou-se pelo menos 200 metros. “Talvez ainda o esteja a fazer.” Isto fez com que muitas jazidas estejam agora fora de água, sobretudo quando a maré baixa. A Pedra-que-Pica formou-se a cerca de 50 metros de profun- didade e terá resultado de uma grande tempestade, que fez acu- mular numa cova natural milhões de conchas, arrastadas para aquele local pela força das ondas. Além de conchas, os investigadores encon- traram invertebrados de pequenas dimensões, dentes de peixes e de tubarões (não detectámos nenhum naquele puzzle desordenado). Mas o que vemos agora pode ser apenas a ponta do icebergue. Segundo Sérgio Ávila, a jazida tem 2000 metros quadrados, “seis ve- zes menos do que a sua provável extensão inicial que rondaria, pelo menos, os 12 mil metros quadra- dos”. Não é fácil de imaginar. Mas uma coisa parece certa: se houver um paraíso na terra para os pale- ontólogos, deve ser algo parecido com a Pedra-que-Pica. Na jazida repousam milhões de fósseis de conchas, ouriços-do- -mar e outros invertebrados, que se depositaram ali há cinco a seis milhões de anos. Na ilha há cerca de 20 locais do género, que integram a Rota dos Fósseis
  11. 11. 12 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 Passeio Série Fugas em Portugal IX: Estremadura Omare asserras São territórios de agricultores e de aristocratas, de religiosos e poetas. Balançando entre o oceano e montes, quintas nobres e barcos de pescadores, praias e campos de cultivo, retiros religiosos e centros profanos, fomos de Setúbal a Sintra para acabarmos surpreendidos pela natureza — que é, afinal, quem mais ordena nestas paragens. “Sintraéum belo lugar para morrer”. Glauber Ro- cha, cineasta brasileiro, acabou por não morrer em Sintra, mas lá viveu os seus últimos dias. “Aqui é bonito. Escrevo diante de uma panavisão so- bre o Atlântico camoniano e sebastia- nista do alto de uma montanha antes habitada por Byron numa linda casa onde viveu Ferreira de Castro...”. Se num dia de Verão um viajante chega a Sintra com estas ideias ro- mânticas na cabeça, a realidade pode encarregar-se de as desfazer (depara- mo-nos com uma espécie de parque de diversões com lotação esgotada) se não acreditarmos que, mais cedo ou mais tarde, Sintra vai fazer o que sempre faz: surpreender-nos irreme- diavelmente. Nós insistimos, para desvendar o mistério que horas an- tes víamos encoberto pelas famosas brumas, que, insidiosas, jogam às es- condidasrevelandoapenaspequenas porções do glorious eden de Byron. A vila adivinha-se, então, entre as neblinas, enquanto percorremos os caminhos em volta — aldeias, cam- pos, aldeias, o outro rosto desta zona que foi refúgio da nobreza; aproxi- mamo-nos da costa e novamente um manto de nevoeiro “aqui onde a ter- ra acaba e o mar começa”, escreveu Camões. Estamos no Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa continental e de repente voltámos ao primeiro dia da viagem. Pode ser uma coincidência notável ou uma banalidade — para nós foi uma surpresa: dois cabos, duas sessões fotográficas de noivos. Do mar Mas comecemos por aquele dia inicial, em que as cegonhas descan- sam nos postes de electricidade. A Comporta está deserta — vive-se nas praias para lá das dunas. Na Carras- queira o sol derrama inclemente so- bre o cais palafítico, um dédalo de passadiços periclitantes que, sobre estacas, conquista os sapais do Sado. Para trás ficaram alguns palheiros e o largo com relva com o nicho da Nossa Senhora dos Navegantes, inaugurado este ano. “Fui eu e a minha cunhada que o fizemos”, conta Maria de Lur- des Carvalho, a pintar o Carvalhinho, o barco que é o ganha-pão dela e do marido — quando o tempo o permi- Andreia Marques Pereira (texto) e Bruno Simões Castanheira (fotos)
  12. 12. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 13 te; quando não, é a batata-doce que os ocupa. Sempre ela e o marido: “Aqui na aldeia anda tudo atrás do marido”, diz entre risos. Conhece a rotina, ou não fosse ela filha de pescador — “apenas de amêijoas e ostras”; “eu sou tuti-frutti”. Maria de Lurdes está habituada às camionetas que despejam visitantes nos meses de Verão. Vêm percorrer as centenas de metros de estrados que partem de um “tronco” principal e seguem por “ramos”, onde anco- ram os barcos. “Vai até lá ao fundo”, aponta com as mãos pintada de azul. Lá ao fundo passa para uma ilhota, entre barcos, redes cujas bóias pare- cem cogumelos na água e casinhas de madeira que são arrecadações. “Já fomos 60 barcos. Agora talvez 20. Os antigos estão a reformar-se, a mor- rer… Os novos não estão para isto…”. Que o diga Cesário Matias, que aca- ba por sair aos caranguejos sem o filho, depois de discussão. Já teve mais barcos, dois semi-rígidos que faziam passeios para ver golfinhos no Sado — ainda não desistiu de voltar. Há uma pequena baía aqui ao lado, onde uns poucos fazem praia. Mas o habitual é descer a costa, até Sines, diz Maria de Lurdes. Ela, de rosto tisnado, não gosta de praia: “A mi- nha vida é sempre dentro de água.” Em Sesimbra, as praias e a pesca andam lado a lado, mas não dão as mãos. Encontram-se nas mesas dos restaurantes que povoam as ruelas íngremes da vila e a avenida que se estende junto ao mar, dividida pela Fortaleza de Santiago — à porta, ar- cas mostram o peixe à espera de ser cozinhado, nas brasas, sobretudo. O castelo está escondido quando visto cá de baixo, das praias da Califórnia e do Ouro, que partilham a mesma faixa de areia e estão a abarrotar. Pa- rece-nos impossível circular entre to- alhas e guarda-sóis com vista para os insufláveis no mar. O movimento só abranda na altura do jantar, para de- pois as ruas começarem novamente a encher-se, no típico ritmo balnear. No porto de pesca o ritmo é outro e invariável. Sérgio Pinto explica-nos o seu, o do barco onde trabalha. Está na esplanada do café da doca à espe- ra das 20h, altura em que sai para o mar. É assim de segunda a quinta- feira; ao domingo sai às dez da noite; sexta e sábado é fim-de-semana. “Só temos hora certa para sair, para vol- tar…”. Voltar é quando o mar deseja — pode ser às dez, ao meio-dia ou às 15h, como hoje. Nem conseguiu dormir e por isso toma umas cerve- jas enquanto nos explica as artes da pesca que sobrevivem em Sesimbra (como a do cerco ou emalhar), nos fala dos barcos típicos (aiolas) e nos conta como chegou ao mar. Fez um curso profissional entre os 14 e os 17 anos — ficou com equivalência ao 9.º ano e um apego inabalável às lides marítimas. Desde os 16 anos, este- ve longe delas apenas os dois anos em que trabalhou na restauração. Experimentou o trabalho do avô e o trabalho do pai — o do avô ganhou. “Era uma vida presa [na restaura- ção], não nasci para aquilo. Gosto muito desta vida.” A maior parte do peixe pescado em Sesimbra tem direcção certa: Lis- boa. Em alternativa, vai para Setú- bal, onde o Mercado do Livramento é incontornável. Às primeiras horas da manhã, muitos disparam má- À esquerda, o Cabo Espichel, de onde se tem uma vista assombrosa sobre a costa recortada; à direita, a praia do Portinho da Arrábida, um dos cartões-de-visita da região Esta série tem o patrocínio
  13. 13. 14 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 quinas no espaço recentemente res- taurado; muitos mais os que andam às compras. António “da Glória” (o nome da mulher e sócia) é conheci- do pela enguia, que está a 20€. Só ele e um colega as vendem: “Se não tenho num dia, arranjo no seguinte.” Alice Manete tem fartura de peixe e uma banca em frente do painel de azulejos azuis e brancos, um dos ex- líbris do mercado. “Já não é igual”, diz-nos, “era a parede toda, não tinha estes recortes de puzzle”. “Quando a parede ruiu, parte foi destruída.” Continua, contudo, a retratar o modo de vida dos setubalenses há algumas décadas: a pesca, a agricultura, o co- mércio. Da serra É um deslumbramento percorrer a serra da Arrábida, que acompanha a costa de Setúbal até Sesimbra, na estrada desenhada sobre o seu relevo sinuoso — e algumas rectas: estamos no topo, entre vegetação rasteira e afloramentos rochosos. As brumas omnipresentes neste nosso périplo pregam-nos partidas, mas quando se abrem somos recompensados pelo mar verde a encontrar o mar azul: serra e oceano inseparáveis. Nos mi- radouros à beira da estrada, há en- garrafamentos, carros invadem a es- trada estreita, pessoas acotovelam-se pela melhor fotografia. O Convento da Arrábida vemo-lo aninhado, bran- co em moldura esmeralda, edifícios em cascata — em Agosto encerra para visitas; para cima, restos do convento velho: capelas, guaritas, cruzes con- tra o horizonte e, por momentos, o cenário é místico. Descemos ao encontro do mar com o verde a ganhar altura em carvalhos, medronheiros e murta; e novamente engarrafamento para chegar ao Portinho da Arrábida, o cartão-de-visita desta costa que se recorta em praias e baías serenas. Os carros acumulam-se na beira da estrada estreita e íngreme, que passa o Museu Oceanográfico e já come- çamos a ver a serra a entrar no mar (ou vice-versa). Pedro e Iva acabam de chegar de Palmela, vieram mais tarde com esperança de encontrar estacionamento perto. “Tivemos azar. Mas vale bem a caminhada.” Há algumas casas (com quartos para alugar) e restaurantes, dois de- les sobre a água: observamos o mo- vimento do barco de um dos restau- rantes, que traz e leva clientes até às embarcações ancoradas na enseada. No centro — praça minúscula apinha- da de carros — um grupo de franceses pesca no muro de cimento: a água é transparente, os peixes presa fácil. Deste núcleo ao areal são alguns minutos de terra batida, seguindo a linha da costa feita seixos e recan- tos rochosos. A praia é uma meia- lua pequena, a areia em contraste com o verde atrás e o azul à frente. “Depois do início pedregoso é muito boa”, diz Carlos Melo, que veio de Camarate com a família. “Disseram- nos que era giro e viemos conhecer.” André, o filho mais velho, é o mais entusiasmado: “Quem está na água olha e parece que está no Rio de Ja- neiro”, diz, mostrando as fotos. A sua única pena foi não ter ido até à ilhota rochosa que se avista. “Tem grutas muito bonitas. E há um barco a re- mos que leva muita gente.” Estamos no Parque Natural da Ar- rábida, onde as paisagens e a ocu- pação humana se unem em área protegida. Passamos aldeias, quin- tas, herdades; avistamos oficinas de azulejos, produções de queijo (de Azeitão) e as placas castanhas da Rota dos Vinhos surgem a recordar que este é território dos vinhos da Pe- nínsula de Setúbal. É o vinho que nos conduz à sede da Bacalhôa, em Vila Nogueira de Azeitão – mas não só: aqui, este caminha lado a lado com a arte. E tal é mais evidente na cave onde as barricas dos vinhos premium (Palácio e Quintas) repousam entre a colecção de azulejos do século XVI ao XX — a experiência é quase religiosa quando entramos na sala de luz rare- feita e música clássica a soar. Este espaço é o núcleo, diríamos, de um grande edifício onde a arte e o vinho convivem, nem sempre tão directamente. Duas salas pertencem à arte: a exposição Out of Africa, em homenagem a Nelson Mandela, um mergulho (sobretudo) na escultura africana; What a wonderful world, um passeio por Paris à boleia da Art Noveau e Art Deco, aqui exibidas em mobiliário e ao som de Edith Piaf — com um salto ao portuguesíssimo Rafael Bordalo Pinheiro. Nas tra- seiras, é o Moscatel de Setúbal que envelhece. “As pessoas ou vêm pela parte víni- ca ou pela arte”, explica-nos Ricardo Gomes, director de enoturismo do grupo, enquanto nos vai mostran- Passeio Série Fugas em Portugal IX: Estremadura do os cantos à casa. A adega está à espera das vindimas, as vinhas estão na “fase de pintor” (o verde que ve- mos em breve será preto), os jardins pontuam-se de mais obras de arte — incluindo naturais, como as oliveiras milenares trazidas do Alqueva (entre as quais se avistam arcos de pedra: restos de uma antiga cervejaria vin- dos de Lisboa) ou a Kaki, descen- dente da única árvore sobrevivente ao bombardeamento de Nagasaki. Não natural é a Wall of Sound, obra de William Furlong: duas paredes de aço que se atravessam como se fora uma selva — os sons estão todos lá. “É muito assustador”, ouviremos a uma miúda de um grupo escolar. “Tem um som estranho”, completa outro. Uma visita à Bacalhôa nesta região não fica completa sem uma passa- gem pela quinta homónima, em Vila Fresca de Azeitão. Foi propriedade da família real no século XV e talvez tenha sido essa ligação que atraiu a nobreza, que aqui instalou casas de recreio, escondidas por detrás de
  14. 14. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 15 muros altos, algumas degradadas (como o Paço dos Duques de Aveiro). No interior do palácio, mais peças da colecção de arte de Joe Berardo (pro- prietário da Bacalhôa), incluindo um raro piano contraforte; no exterior, os jardins franceses contrastam com o edifício de traça italiana, destacan- do-se a loggia, onde o olhar vagueia até ao tanque e junto ao qual se ergue a “casa dos prazeres”, a casa do lago, onde se encontram os azulejos mais antigos da propriedade. As vinhas ro- deiam o palácio — Cabernet e Merlot. Na sede, a loja organiza provas de vi- nho, com vista para o jardim japonês. De cabo a cabo De Azeitão para a praia da Foz (Meco) veio Pedro Martins e a família. A tar- de já vai bem alta quando se prepara para entrar na água, para duas ho- ras de caça submarina. “Normal- mente fico três, quatro horas”, diz, enquanto veste o fato de mergulho na enorme plataforma rochosa que antecede o areal, numa reentrância entre arribas altas. “Eu e o meu ir- mão fomos os primeiros a fazer surf na praia das Bicas, aqui ao lado. Te- mos filmes dos anos 1980. Descobri- mos isto, tem vento sul, ondas boas. Agora vem muita gente.” Estas são as duas praias mais “escondidas” da zona, onde o Meco e Alfarim atraem as grandes multidões. Também por isso gosta de caçar aqui, “há menos gente” atrás dos “sargos, robalos, safio, um ou outro polvo”. Mais a sul, o Cabo Espichel. Antes dele, fazemos um desvio na estrada solitária da serra da Azóia para se- guirmos o percurso pedestre “Ma- ravilhas do Cabo”. Damos por nós num promontório a norte do cabo num cenário primordial e belo: os recortes da costa, a silhueta do san- tuário, das hospedarias, da ermida mesmo no topo da falésia (Pedra da Mua) — e o trilho de dinossauros (que não temos a certeza de descortinar) na arriba, no fundo da qual se escon- de uma praia de seixos e o esquele- to queimado de um carro. Em volta do santuário, mistura de línguas em busca de fotografias de cortar a res- piração — excepto Ivo Pólvora e Cátia Mestra, que posam calmamente nas galerias da hospedaria (entaipada) com o traje do casamento, que foi um mês antes. “É um sítio fora do normal”, dizem simplesmente, e eles são de perto, do Barreiro. O fa- rol está noutro promontório a sul e está deserto. Regressamos ao Cabo da Roca. “Está sempre tanto frio”, comenta- se com o vento a soprar de todos os lados. O farol é secundário face aos precipícios que rodeiam o cenário onde a serra de Sintra encontra o fim do território europeu. As fotos em torno do padrão exigem espera, o que não sucede no penhasco que parece possivelmente estreito, mas onde um casal de noivos tira fotos — são ingleses, vivem na Holanda e casaram-se dias antes em Portugal. “Nofear”, afirma o noivo. E se a noiva nos parece hesitante, do alto das suas sandálias brancas, vê-la-emos mais tarde a tomar as vezes do fotógrafo, saltando desempoeiradamente as protecções de madeira. Todos con- templam a cena e, por momentos, as máquinas afastam-se da paisagem para pousarem sobre o casal. Menos radical é Rita Teixeira, que encontramos na piscina oceânica das Azenhas do Mar calmamente a ler Esta série tem o patrocínio No sentido dos ponteiros do relógio: a praia da Califórnia, em Sesimbra; o Cabo da Roca; os jardins da Bacalhôa; e o Palácio de Monserrate, em Sintra. Na página seguinte, o Castelo dos Mouros, também em Sintra Estar no Alentejo com conforto e requinte. Lugar para descansar e fazer umas férias. Usufrua de uma boa gastronomia. Casa dos Castelejos CASA DE CAMPO www.casadoscastelejos.pt geral@casadoscastelejos.pt São Marcos da Atabueira. +351 969 489 844 gps 37º 40’ 22.43º N - 7º 53’ 15.75ª W
  15. 15. 16 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 Passeio Série Fugas em Portugal IX: Estremadura Guia prático ONDEDORMIR HoteldoSado Rua Irene Lisboa, 1 Setúbal Tel.: 265 542 800 Email: geral@hoteldosado.com www.facebook.com/hoteldosado HoteldosZimbros Facho de Azóia, Cabo Espichel Sesimbra Tel.: 210 405 470 Email: hoteldoszimbros@gmail. com www.hotelzimbros.com PestanaSintra Quinta da Beloura Rua Mato da Mina, 19 Sintra Tel.: 210 424 300 Email: guest@pestana.com www.pestana.com Lisboa 10 km Rio Tejo OCEANO ATLÂNTICO Cabo da Roca Sintra Cabo Espichel Sesimbra SetúbalAzeitão ONDECOMER Daisy Miller, de Henry James. Antes de descermos a garganta até à beira- mar, o miradouro dá-nos a melhor vista sobre a aldeia que se desenvolve em crescendo para terminar mesmo em cima da falésia, povoada de casas brancas (“impressionante” e “espec- tacular”, repete um grupo de espa- nhóis). O mar está bravo, o tempo fechado — no mar, umbody-boarder; na piscina são mais os que ficam nas beiras. Uma família do Magoito que sai para almoçar diz que “infelizmen- te é muitas vezes assim [o tempo]” ; Rita é “do Norte”, está habituada. Veio conhecer Sintra e já percorreu a vila; agora são as praias. Na estrada do sonho Entre a vila e a costa, uma região que já foi eminentemente agrícola, saloia. Sucedem-se aldeias, pinheiros, moi- nhos de vento, campos abandonados entre muros de pedras arruinados. Mas já quase ninguém trabalha na agricultura, dizem-nos por todo o lado. Susana Vicente, no Café Ma- tias, em São João das Lampas, explica como o pai, que foi cabouqueiro e agora está reformado, passou a de- dicar-se à terra. “Aprendeu com os pais, viviam disso.” Como ele, muitos com quem nos cruzamos em busca da ponte romana da Catribana — o último, José Tafulo, que vive em As- safora, a algumas centenas de metros dela. Não trabalha nos campos por- que a saúde não permite, mas passou muitos anos a trabalhar nas pedreiras em volta, antes de arranjar trabalho na câmara. Reformado, está sempre disponível para conversas. “Quando vim para cá, há 45 anos, a ponte es- tava melhor. A terra começou a cres- cer e os resguardos vieram abaixo.” Quando, finalmente, encontramos a ponte, é uma ruína que vemos. “Monumento de interesse público, em risco de colapso; projecto de conservação e valorização”, lemos numa placa. Fechamos o círculo em Sintra. Na vila velha abrimos caminho entre hordas de turistas que ocupam as ruelas principais, se sentam à som- bra do Palácio da Vila (em obras), fa- zem fila em restaurantes e lojas, de artesanato, de doces (a Periquita I e II não pára), de vinhos. “Nestes dias, de muita gente, não corre bem. Só vêm passear”, nota Adriano, no umbral da sua Porta 12, galeria e loja. Está no átrio a pintar a Tina Turner — “Não está a correr muito bem”, diz, entre sorrisos. São os desenhos dos músi- cos que têm mais saída — “o que tam- bém é a minha praia, sou músico” —, mas é a iconografia portuguesa que nos atrai a atenção, como Camões a indagar “Hasanyoneseenmynymph”. Nas ruas passam coches a caminho da serra, as bicicletas continuam dis- poníveis para alugar. Pelas estradas que abrem caminho sobre o manto luxuriante de verde, são muitos os caminhantes à conquista da serra da Lua — mas são os carros que lhe dominam as entranhas, despejando visitantes para o Palácio da Pena e Castelo dos Mouros. Há quem faça desportos radicais e deslide dê a vol- ta ao parque, mas as multidões cami- nham compactas pelos dois monu- mentos emblemáticos. Encontramos um pouco de paz em Monserrate; porém, há que confessá-lo, só con- seguimos chegar quando o palácio estava quase a fechar (os jardins fe- cham mais tarde). Conseguimos visi- tá-lo calmamente, percorrendo salas preservadas e outras desgastadas, fotografando os corredores em ar- cos até à exaustão mas foi no parque que nos demorámos, espreitando as falsas ruínas da capela, desiludindo- nos com a pouca água na cascata. Mas, deitados no fundo do relvado, entre árvores gigantescas e olhando o lago de nenúfares, percebemos que Sintra já nos havia surpreendido. “Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...”, es- creveu Pessoa — nós nem precisamos do Chevrolet para o perceber. PoçodasFontainhas Rua das Fontainhas, 98 Setúbal Tel.: 265 534 807 www.pocodasfontainhas.com ORodinhas Rua Marques de Pombal 25 Sesimbra Tel.: 212 231 557 http://marisqueiraorodinhas.pt.vu ColaresVelho Largo Doutor Carlos França, 1/4 Colares, Sintra Tel.: 219 292 727 Email: colaresvelho@mail.telepac. pt www.facebook.com/ RestauranteColaresVelho OQUEFAZER VerroazesnoSado Não se sabe há quanto tempo esta espécie de golfinhos vive no Sado, mas estão para ficar e são uma das fontes da atracção da cidade de Setúbal e arredores — podem ser vistos também na costa da Arrábida e Tróia. Há empresas que organizam passeios. QuintadoLapidário Em Vila Nogueira de Azeitão, é fábrica de azulejos e casa de chá em parque luxuriante — para desfrutar da doçaria local, desde do queijo às tortas de Azeitão, sem esquecer o moscatel de Setúbal. RotadosVinhosdeSetúbal Das Caves José Maria da Fonseca à Quinta de Catralvos, o enoturismo oferece-se na órbita de Azeitão. Sintra A Quinta da Regaleira, o Palácio de Seteais e o Convento dos Capuchos fazem parte do roteiro obrigatório.
  16. 16. ENJOYNEERING SEAT.PT.COM/SEATPORTUGAL .COM/SEATPORTUGAL Valor para SEAT Alhambra Liberty 2.0 TDI CR Ecomotive 115Cv. Pintura em cor vermelho salsa. Consumo combinado de 5,6 lts/100Km. Emissões de CO2 de 146g/Km. As imagens podem não corresponder à versão comunicada. Oferta limitada ao stock existente. Oferta de 4 anos de garantia ou 80.000Km. SEAT ALHAMBRA LIBERTY 33.000€ (CHAVE NA MÃO) SEAT ALHAMBRA. PRODUZIDO EM PORTUGAL. Descubra o SEAT Alhambra Liberty, um monovolume de 7 lugares produzido na Fábrica da Autoeuropa que vem super equipado de série. Nesta versão especial oferecemos ainda 2 cadeiras de criança, sensores de estacionamento, 4 anos de garantia e o pacote lifestyle que inclui jantes de liga leve de 16”, função auto hold, volante multifunções, faróis de nevoeiro com função cornering, rádio com AUX-in, e muitas outras funções especialmente concebidas para que possa tirar o maior prazer da sua condução.
  17. 17. 18 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 Viagem Singapura Acabeçado leãoquepensa comoumtigre O microestado, com os seus 700 km2 e a segunda maior densidade populacional do mundo, celebra hoje 50 anos de independência do Império Britânico, um período de prosperidade que conduziu esta ilha na senda do progresso económico e para um patamar de excelência de fazer inveja a muitos dos vizinhos do sudeste asiático. Sabe o que significa Singapura? Eu conhecia a resposta mas, adi- vinhando a fome de conversa do homem que, sentado ao meu lado, no confortável Airbus da Singapore Airlines, sorvia com prazer o seu se- gundo whisky, deixei passar a men- sagem de ignorância e fitei-o interro- gativo na esperança de, ainda assim, ampliar os meus conhecimentos sobre a cidade que é uma ilha e, ao mesmo tempo, um estado. - Singapura quer dizer… As palavras foram entrecortadas pela voz do comandante que anun- ciava, para daí a 40 minutos, a ater- ragem no aeroporto internacional de Chanji. O homem bebeu mais um gole, lançou um olhar através da moldura da janela e, finalmente, retomou a explicação: - Quer dizer… cidade do leão. Ele observou a minha expressão admirativa em silêncio e, pensava já eu que a conversa se ficaria por ali, quando, subitamente, come- çou a dissertar sobre a etimologia da palavra: - Singapura deriva do sânscrito, não se sabe ao certo se de Simhapu- ra ou Singhapura. Mas não o abor- reço mais. Desfrute o seu tempo e não se deixe influenciar pela ideia generalizada de que Singapura não é mais do que um paraíso para com- pras. Vai ficar por muito tempo? Respondi, com um sorriso, que planeava permanecer três dias e, depois de viajar pela Malásia e o Brunei, outros três. - É o ideal. Terá oportunidade de conhecer numerosos recantos que escapam ao turista apressado. Cami- nhe serenamente pela Little India, pela China Town e por Kampong Glam. São os lugares mais genuínos, mais coloridos, mais ricos em histó- ria, lugares que conheceram poucas alterações ao longo dos anos e que são o espelho de uma cidade que abriga distintas culturas e etnias. De uma forma suave, o avião faz-se à pista e, à minha esquerda, pers- cruto um trecho do céu azul, como o prenúncio de um dia radioso. Des- peço-me com um aperto de mão e, uns minutos depois, bem desperto, caminho sobre alcatifa, dando por mim a pensar que, se a primeira ima- gem de um país, por mais errónea que possa ser, é a do aeroporto, o de Chanji, por onde passam, anual- mente, mais de 40 milhões de pas- sageiros, foi construído à medida da importância de Singapura. A organi- zação raia a perfeição, a celeridade de processos, desde a recolha de ba- gagens às burocracias alfandegárias, conduz-me rapidamente para uma porta que se abre deixando entrar o ar impregnado de calor e humidade, como uma bofetada violenta a dar as boas-vindas ao viajante. De autocar- ro, cruzo as ruas limpas da cidade, vejo passar árvores e jardins viçosos, casas coloniais que se encolhem pe- rante arranha-céus e, à distância, o mar que rebrilha e cujas águas são sulcadas por cargueiros e pequenas embarcações sobre as quais incidem os primeiros e pálidos raios matinais. Selva e pesca “É impossível conceber um lugar que combine mais vantagens… É o Sousa Ribeiro
  18. 18. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 19 mentais em redor de Forbidden Hill (hoje designada Fort Canning Hill). Para dar corpo à visão futura de “um lugar de considerável mag- nitude e importância”, Raffles foi o mentor de um projecto urbanístico que englobava ruas largas bordeja- das de lojas de comércio e passeios cobertos, estaleiros navais, igrejas e até um jardim botânico, obras que transformaram radicalmente a paisagem de Singapura. O diagrama de Raffles abrangia igualmente a prática colonialista de administrar a população de acordo com a categoria racial, com euro- peus, indianos, chineses e malaios a viver e a trabalhar nos seus dife- rentes bairros, um ordenamento que foi posto em causa na sequên- cia dos graves acontecimentos que mancharam de sangue o território em 1964, um ano antes de aban- donar a Federação da Malásia. Os tumultos mortais que opuseram chineses a malaios, em parte pro- vocados pela recusa de Singapura em alargar privilégios constitucio- nais aos malaios residentes na ilha, marcaram profundamente o tecido social e tiveram eco nos vinte anos que se seguiram, com manifesta- ções esporádicas de um certo his- terismo colectivo. centro dos países malaios”, escre- veu, maravilhado, Sir Thomas Sta- mford Raffles em 1819, poucos dias após ter posto pela primeira vez os pés na lama, obcecado com a ideia de transformar a ilha num dos bas- tiões do Império Britânico. Com a morte, por esses dias, do sultão de Johor, cujo império integrava o ter- ritório de Singapura, foi o filho mais novo que, aproveitando a ausência do irmão mais velho, assumiu o po- der, estabelecendo um pacto com os holandeses. Raffles, desejoso de garantir direitos de exploração aos ingleses, transformando a ilha num entreposto avançado de co- mércio, apoiou o regresso do filho mais velho do sultão, elevando-o a esse estatuto e obtendo, em tro- ca, a assinatura de um tratado que conferia ao Império Britânico total soberania sobre os negócios que já se perspectivam no horizonte dos colonizadores. Nesses primeiros anos do século XIX, Singapura, com um enorme potencial devido à sua posição geográfica, no extremo sul do es- treito de Malaca, não era mais do que um pântano inóspito rodeado de selva densa e habitado apenas por 150 pescadores e um ainda mais reduzido número de agricul- tores chineses. De regresso ao seu entreposto, em Bencoolen, na ilha de Sumatra (Indonésia), Raffles deixou instruções precisas para transformar Singapura em porto livre, tarefa da qual se encarregou com sucesso o novo Residente Bri- tânico, Coronel William Farquhar. Três anos mais tarde, em 1822, Ra- ffles estava de volta a Singapura, assumindo a governação da ilha e traçando um plano da cidade que compreendia o nivelamento de uma colina de modo a criar um distrito comercial (presentemen- te conhecido por Raffles Place) e a construção de edifícios governa- Marina Bay (foto à esquerda) é uma das zonas mais procuradas pelos turistas; à direita, Little India, espaço privilegiado de negócios da comunidade indiana e um mundo à parte em Singapura AVANTIKA GANJOO / REUTERSEDGAR SU / REUTERS
  19. 19. 20 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 A vida em blocos Hoje, os ânimos estão apaziguados num país que se pode considerar, sem qualquer ponta de exagero, um paraíso do conformismo e onde reina uma democracia autoritária (a título de exemplo, a tentativa de suicídio implica o cumprimento de uma pena de prisão). Ainda assim, no meio desta serenidade, as clivagens permanecem intactas: a população da ilha, aproximadamente cinco mi- lhões, divide-se entre chineses (77%), malaios (14%), indianos (8%) e expa- triados e mão-de-obra proveniente do sudeste asiático (1%). No sentido de garantir a paz social, o Estado, que controla em grande escala o liberalismo económico, ordenou a construção de imóveis (é importan- te não esquecer a dificuldade que consiste em abrigar cinco milhões em 700 km2 e que Singapura tem a segunda maior densidade populacio- nal do mundo, apenas superada pelo Mónaco), os famosos HDB, acrónimo de Housing Development Board, e cujos residentes são divididos atra- vés de um sistema de quotas étnicas tendo em conta a média nacional, uma medida que fomenta a interac- ção social e atenua a possibilidade de segregação racial ou de criação de enclaves ou guetos, tão comum noutros países. Cada bloco funciona de forma in- dependente, com um espaço para a prática do desporto, jardim-de- infância, ginásio, supermercado, restaurante, um conjunto de facili- dades (em contraste com os inestéti- cos prédios construídos na década de 1960) que serve de base para o epí- teto de “Cidade Radiosa”. Se o con- vívio social é uma regra importante, exaltando valores como respeito mú- tuo, afecto, piedade, solidariedade e responsabilidade, a mistura do ponto de vista cultural é, aos olhos do Estado, uma situação a evitar – e não é por acaso que os lugares de culto são proibidos (tal como o véu muçulmano nas escolas públicas) e os cemitérios comuns a todas as religiões nestes grupos de imóveis onde nem sequer falta um espaço para a celebração de matrimónios e organizações de caridade que assis- tem os desfavorecidos e substituem o Estado em matéria de protecção so- cial. Dentro de casa – tanto pode ser um estúdio como um apartamento de cinco assoalhadas, comprado ou arrendado – cada um tem o direito de expressar livremente a sua fé e de viver como bem entender; uma vez transposta a porta, as inúmeras câmaras de vigilância nos extensos corredores (e até nos elevadores) estão ali para confirmar que a lista de proibições é religiosamente cum- prida (e dela constam fumar, comer, atirar lixo para o chão, cães, gatos, bicicletas, skates, etc). Contendoestemododevidaaspec- tos positivos e negativos, a verdade é que mais de 80% da população recor- re a este serviço público e, por para- doxal que possa parecer, são muito poucos,mesmomuitopoucos,osque vivem abaixo do limiar da pobreza. Grande Little India Perante uma tal febre de constru- ção, poucos foram os bairros que re- sistiram à megalomania dos agentes imobiliários. As excepções, como oásis em desertos, com as suas ca- sas baixas, são China Town, Raffles, Kampong Glam e Little India. A meio da manhã, já sob um sol inclemente ávido de incendiar a Terra, vagueio pelas ruas desta última, tão cheias de alma e de tonalidades, deliciando- me com os aromas que remetem a minha memória para lugares menos cosmopolitas mas mais exóticos. O espaço privilegiado de negócios da comunidade indiana, originalmente um enclave europeu, é um mundo aparte de Singapura, o lugar para onde converge a mão-de-obra barata vinda não só da Índia como do Ban- gladesh e do Sri Lanka para executar trabalhos de construção que os ci- dadãos locais se recusam a aceitar. Little India, com os seus templos multicoloridos – como o Sri Veera- makaliamman, dedicado a Kali, o Sri Srinivasa Perumal, de onde parte o desfile para o Chettiar Hindu Tem- ple durante o festival Thaipusam, e o Sakaya Muni Buddha Gaya, mais conhecido como o templo das mil luzes e onde pontifica um buda com 15 metros de altura e o impressionan- te peso de 300 toneladas –, os seus restaurantes, o incessante formiguei- ro humano e as suas lojas cheias de identidade é o lugar, em toda a ci- dade, onde a vida dá ares de correr mais devagar, o lugar que mais des- perta os sentidos do viandante, como se, de repente, deixando para trás os prédios que se erguem nos céus, um passado intangível o envolves- Viagem Singapura
  20. 20. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 21 rista pode sempre flanquear as por- tas de templos, igrejas e mesquitas – e por ali permanecer, contemplando, meditando. É o que faço a meio da tarde na Mesquita do Sultão, erran- do por este espaço onde cabem três mil fiéis e cuja construção remonta a 1825 (cem anos mais tarde haveria de ser substituída por uma outra) antes de sair para a rua e, sentado num café, olhar a cúpula dourada con- tra o céu azul. A Arab Street, com as suas palmeiras e casas de cores gar- ridas, estendendo-se de um lado e se, matizando-o de uma melancolia nostálgica. Um raio de luz é filtrado pela ja- nela e incide sobre o homem que, totalmente compenetrado, deixa os olhos correr pelas páginas do Corão. Se Little India é o coração dos hin- dus e dos sikhs, Kampong Glam é terreno fértil para os muçulmanos nesta ilha onde as diferentes religi- ões (budismo, hinduísmo, islamismo e cristianismo) convivem em perfeita harmonia. Desde que essa seja a sua vontade e o faça com respeito, o tu- do outro, é uma das zonas que mais singularidade expressa em toda a ci- dade; se, durante o dia, nos invade com a sua paz apaziguadora, à noite, mal o crepúsculo se anuncia, pulsa plena de vibração, com os seus bares e restaurantes turcos e egípcios, as suas lojas e as suas gentes tão distin- tas, caminhando para cá e para lá. A cidade da arte A manhã desperta sob um céu plúm- beo e as águas do rio Singapura, que divide o Distrito Colonial do Central Business District e é, ainda hoje, mais de um século depois, a principal via de comércio da cidade-estado, reve- lam um brilho triste que os barcos coloridos atenuam, conferindo ao Boat Quay uma puerilidade que re- sulta da comparação com as torres assustadoramente gigantes que se erguem como pano de fundo. Até 1960 o principal centro de comércio de Singapura, vinte anos mais tarde pouco mais restava do que as ruínas de uma época de esplendor, levando o governo a avançar com um plano de restauração e a declarar o Boat Quay como área protegida. Bares e restaurantes, com fachadas de cores fortes, atraem actualmente, mal os escritórios da CBD encerram as suas portas, sequiosos homens de negó- cios em busca de um momento de descontracção, escutando o suave murmúrio da corrente na antecâma- ra de uma paz crepuscular. As nuvens são varridas e, mal po- nho o pé em Clarke Quay, já os raios de sol fustigam tudo à sua volta. As- sim designado em homenagem a Sir Andrew Clarke, o segundo gover- nador colonial de Singapura, este cais tem sofrido várias mudanças nos últimos 50 anos, ora como meca de compras, ora como, de há sete anos a esta parte, área de entreteni- mento, onde a sede de beber é mais forte do que a sede de comprar. Mas Clarke Quay distingue-se ainda por ser o espaço onde excêntricos de- signers têm carta branca para dar corpo aos seus projectos mais ex- travagantes. Famosa por ser uma cidade que apela ao consumo (ao turista que chega ao aeroporto não é imposto qualquer limite de dinheiro para entrar no país) Singapura tem- se destacado, nos últimos anos, no âmbito das artes. O governo incen- tiva a criatividade e multiplica os lo- cais de difusão cultural, recorrendo às enormes infraestruturas públicas para proporcionar exposições, fil- mes, espectáculos de dança, desfiles de moda e peças de teatro, todos eles com entrada gratuita. Inaugurada em 2002 e com um custo total de 350 milhões de euros, a Esplanade-Theatres on the Bay é o melhor exemplo da Singapura con- temporânea, embora concorrendo com o recentemente inaugurado Marina Bay Sands SkyPark, com os seus duzentos metros de altura em forma de barco. No início alvo de Se Little India é o coração dos hindus e dos sikhs, Kampong Glam é terreno fértil para os muçulmanos nesta ilha onde as diferentes religiões convivem em perfeita harmonia No sentido dos ponteiros do relógio: a ponte sobre o rio, aqui palco da celebração do Ano Novo chinês; a piscina panorâmica do Sands Skypark; um dos edifícios construídos ao abrigo do programa HDB; e Boat Quay, que até aos anos 1960 foi o principal centro de comércio de Singapura REUTERS/EDGARSU TIMCHONG/REUTERS REUTERS/RINA OTA VIVEK PRAKASH / REUTERS
  21. 21. 22 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 forte controvérsia, o edifício que pri- vilegia a maximização de luz natural e se assemelha a um enorme durian, considerado o rei dos frutos tropi- cais no sudeste asiático, abriga sob as suas cúpulas um teatro italiano com capacidade para duas mil pes- soas, um auditório com 1600 lugares e outras duas salas onde cabem 500 espectadores, espaços com perfor- mances nacionais e internacionais permanentes (algumas no exterior) e vizinhos de alguns dos melhores restaurantes de Singapura. Na verdade, foram necessários al- guns anos para os locais aceitarem o gigante durian como parte da pai- sagem da cidade e hoje, mais de dez anos decorridos sobre a abertura oficial, é o palco por onde uma gran- de maioria, especialmente casais de namorados, gosta de se passear, des- frutando dos amplos terraços para deitar um olhar ao Mar da China, onde agora o sol mergulha e acelera a minha vontade de me sentar tran- quilamente no bar do Raffles Hotel com uma ideia na mente: - A Singapore Sling, please! A força do tigre Se recuarmos menos de 70 anos, quando a bandeira inglesa ainda drapejava ao vento, Singapura, com uma população que não ultrapas- sava os 700 mil habitantes, não era mais do que uma pequena metrópo- le portuária, com as suas sampanas, mercados ambulantes e uma vasta área insalubre. Colónia inglesa até 1959, tornou-se autónoma nesse mesmo ano, cabendo ao Partido de Acção Popular (PAP) – partido úni- co e ainda hoje no poder – dotar o território de uma nova constituição. Conquistada a independência de In- glaterra, faz hoje, dia 31 de Agosto, precisamente 50 anos, deu início, pela mão do Grande Timoneiro, Lee Kwan Yew, primeiro-ministro até 1990 que foi substituído pelo filho, Lee Hsien Loon, ao milagre socioe- conómico que faz da cidade-estado uma referência na Ásia e no mundo. Exceptuando alguns altos e bai- xos, como a invasão japonesa du- rante a II Guerra Mundial, a ilha tem prosperado como o mais importante eixo do comércio livre no sudeste asiático (nenhum porto se equipa- ra ao de Singapura). Embora tenha sentido os efeitos da crise económi- ca mundial, em 2009, o forte estí- mulo proporcionado pelo governo relançou de novo a economia e, actualmente, Singapura ostenta o estatuto de um dos PIB per capita mais elevados do mundo, o país é sinónimo de riqueza e de progresso, de ausência de corrupção e de emi- Viagem Singapura Guia prático TAILÂNDIA OCEANO ÍNDICO INDONÉSIA CAMBOJA LAOS MALÁSIA VIETNAME SINGAPURA QUANDOIR O calor e a humidade dominam o dia-a-dia de Singapura, situado a apenas 90 quilómetros da linha do Equador. Ao longo do ano, a temperatura nunca se situa abaixo dos 20 graus e são poucos os dias em que não atinge os 30. Tão rapidamente o turista é envolvido por uma chuva torrencial, como, poucos minutos depois, por um sol radioso. Durante a época das chuvas, entre Novembro e Janeiro, a precipitação ocorre diariamente e a temporada mais seca vai de Maio a Julho. COMOIR A melhor tarifa entre Lisboa e Singapura, tendo como referência a segunda quinzena de Setembro, é oferecida pela Lufthansa. A companhia aérea alemã liga as duas cidades, com uma curta escala em Frankfurt, por 778 euros, valor idêntico ao que é proporcionado pela KLM, com a agravante de obrigar a uma escala de nove horas em Amesterdão e seis em Paris (o voo de regresso é operado pela Air France). É também possível utilizar, partindo da capital portuguesa, os serviços da Emirates ou da Qatar Airways, se bem que esta última tem o inconveniente de efectuar duas escalas antes de atingir o destino (em Madrid ou Barcelona e em Doha), enquanto a primeira permite ligar Lisboa ao Dubai e, após uma breve paragem de duas horas, cumprir a última etapa do percurso. A Emirates cobra pouco mais de 820 euros, ao passo que a Qatar Airways não ultrapassa os 790. OQUEFAZER Singapura é uma cidade que, não obstante a sua reduzida área, oferece ao turista múltiplas opções. Tornar-se-ia exaustivo fazer referência a todos os lugares de interesse mas alguns são absolutamente imperdíveis. É o caso, por exemplo, do Museu das Civilizações Asiáticas (1 Empress Place), uma viagem ao longo de dez galerias temáticas que focam aspectos tradicionais da cultura pan-asiática, religião e civilização, com delicados artefactos do sudeste asiático, do Sri Lanka, da China, da Índia e até da Turquia, bem como uma mostra do Islamismo e da sua influência na região. Se tiver roupa apropriada (não pense em ir de calções e havaianas), recomenda-se uma visita ao Raffles Hotel, uma instituição e um ícone da arquitectura colonial que, graças aos irmãos Sarkies, oriundos da Arménia, abriu as suas portas em 1887. Nesses anos longínquos resumia-se a um modesto bungalow com dez quartos; doze anos mais tarde era já sinónimo de opulência oriental, atraindo a elite inglesa e figuras da literatura como Somerset Maugham. No Raffles nasceu o famoso Singapore Sling, cocktail inventado pelo empregado de bar Ngiam Tong Boon; sob a sala gração selectiva, de um desenvolvi- mento sustentável. Caminhando pe- las ruas, conversando aqui e acolá, percebe-se facilmente que os cida- dãos locais sentem orgulho por tudo o que foi conseguido em tão poucos anos de existência. Trabalhadores laboriosos, os singapurenses pro- jectam uma imagem de afabilidade e de educação, uma das prioridades do estado, e ao mesmo tempo uma vontade enorme de participar no desenvolvimento do país, com a criação de indústrias pioneiras em áreas como a biologia, a medicina e o estudo do genoma humano (na Biopolis, centro de pesquisa e desen- volvimento, trabalham mais de dois mil investigadores), mas também no campo das telecomunicações. A tarde, como o país, avança ra- pidamente. Sento-me à espera que o sol se ponha e as luzes se acen- dam, espalhando o seu reflexo pe- las águas. E, em voz baixa, divago, tentando encontrar ainda mais ex- plicações para a pujança económica deste microestado que se conver- teu num dos cinco tigres da Ásia. Ao meu lado, está o Merlion, uma estátua híbrida, com cauda de sereia e uma cabeça de leão que jorra água pela boca. Em que ficamos? É a cidade do leão ou a cidade do tigre? REUTERS/JONATHANDRAKE
  22. 22. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 23 Mais viagens em fugas.publico.pt/ de bilhar foi abatido, em 1902, o último tigre de Singapura. Após um período de decadência, entre 1970 e 1990, reabriu as suas portas de cara lavada – o que quer dizer após obras com um custo global de aproximadamente cem milhões de euros. Antes ou depois de um copo, vale a pena dar uma espreitadela no Raffles Museum, aberto das 10h às 22h e com entrada livre. Mais recente (inaugurado em 2008), e não menos interessante, é o Museu Peranakan (39 Armenian Street), um testamento da cultura Peranakan (chineses nascidos no estreito), mescla de objectos e de exibições interactivas, incluindo um diorama de uma casa tradicional suportado por uma montagem de vídeo em que dois idosos discutem até que ponto os seus descendentes irão ou não preservar cultura e tradições. Para uma visão mais próxima e real do modo de vida desta comunidade ligada à história das origens de Singapura, o melhor mesmo é perder-se pelo Katong District, admirando as suas casas com terraços, decoradas com requintados colunas em estuque, dragões, pássaros e soberbos ladrilhos vítreos. Esta área permite também ao viajante provar alguma da gastronomia típica e ver de perto como se fazem as bonitas blusas ao estilo Nonya. Crianças – mas também adultos – ficarão deleitados com uma experiência em Sentosa Island, a apenas 500 metros da costa sul de Singapura, um resort de luxo (Parque Temático da Universal Studios, Underwater World, cujo preço de entrada inclui a admissão à baía dos golfinhos, e uma extraordinária panorâmica desde o Merlion, uma estátua com quase 40 metros de altura) utilizado pelos ingleses como fortaleza militar no final do século XIX; para os admiradores de pássaros, recomenda-se o Jurong Bird Park (2 Jurong Hill), com mais de 600 espécies, 30 das quais em vias de extinção; para os amantes da natureza, os Jardins Botânicos (que acolhe também o Jardim Nacional das Orquídeas, planta Road Food Centre, entre outros), onde a qualidade do que se come vale bem a pena o preço (muito em conta) que paga. Em Kampong Glam, é impensável não visitar o Zam Zam (699 North Bridge Road), uma verdadeira instituição aqui instalada desde 1908 e onde os martabaks (pão achatado com carneiro, frango ou legumes) são uma permanente tentação. Na Little India, perante a enorme oferta, a dificuldade reside na escolha mas o viajante não se irá arrepender quando, depois de ser recebido calorosamente, provar as delícias do Spice Queen (caril de cabeça de peixe, entre tantas outras), com a assinatura da chef Devagi Sammugam, a cozinhar há mais de 30 anos. O restaurante fica situado na 24/26 Race Course Road e é possível adquirir um livro de receitas ou participar, mediante inscrição, num curso simbólica da cidade-estado, com mais de 60 mil exemplares) e o Jardim Zoológico, com 26 hectares e sem uma única jaula (há mais de dois mil animais e todos parecem felizes), um exemplo para muitas cidades do mundo. Para quem gosta de aventura, um dos pontos altos em Singapura é um safari nocturno. Se apostar numa panorâmica de 360 graus, o Marina Bay Sands SkyPark ou o Singapore Flyer são as opções a ter conta. A visita não ficará completa sem uma subida ao Monte Faber e, para quem não resiste ao consumismo, à Orchard Road, com os seus megalómanos centros comerciais. Se esse não é um dos seus desportos preferidos, interne-se pela encantadora Emerald Hill, com as suas casas majestosas, e sinta o pulsar sereno desta artéria. fernloft.com), em China Town e na Little India, oferece camas em dormitórios por apenas 12 euros ou um duplo por menos de 40 euros. Situado a apenas 50 metros do Bugis MRT (1628 Rochor Road), o Bugis Backpackers Hostel também pratica preços acessíveis (entre 15 e 40 euros) e um conjunto de facilidades, a começar pela localização. O Bugis, a funcionar desde 2006, aceita reserva exclusivamente através do site oficial (www. bugisbackpackers.com). ONDECOMER de culinária. Em China Town, os apreciadores da gastronomia de Sichuan não se sentirão defraudados com o banquete que lhes é oferecido no Chuan Jiang Hao Zi (12 Smith Street), especializado em comida a vapor (na prática dois recipientes com um caldo, um deles picante, onde deverá colocar o que mais lhe agradar, carne, peixe, marisco e legumes. Singapura é uma das melhores cidades do mundo para saciar o apetite e não é por acaso que comer (a par das compras) é um dos desportos preferidos dos locais. Do mais barato ao mais caro, do mais básico ao mais sofisticado, são poucas as gastronomias mundiais que não estão representadas nesta ilha. Ainda assim, a melhor e mais deliciosa experiência passa por uma visita a um centro de vendedores ambulantes (China Town Complex, Chomp Chomp, Lavender Food Center e Adam ONDEDORMIR O Raffles Hotel (www.raffleshotel. com, em baixo, na foto), um grande palácio em estilo colonial, é a primeira opção para quem procura viver uma experiência única num espaço repleto de história – e talvez o preço pago por uma noite (entre 580 e 4650 euros) também fique para a história do turista. Mas, a despeito de encontrar um quarto vago ser, por vezes, uma tarefa complicada, Singapura tem alternativas para todas as carteiras e uma das mais credíveis, pela relação preço-qualidade (entre 90 e 120 euros), passa pelo antigo Perak Lodge, agora pomposamente designado Perak Hotel (www.perakhotelsingapore. com), situado no coração da Little India. Também por cerca de 120 euros pode instalar-se no cómodo Duxton (www.theduxton. sg), localizado em Tanjong Pagar, próximo do CBD. Entre as opções mais em conta, o Fern Loft (www. INFORMAÇÕES Para visitar Singapura é necessário apenas um passaporte com validade de seis meses. O visto, sem qualquer encargo, pode ser obtido no aeroporto, à chegada, ou em qualquer fronteira, garantindo uma permanência de 30 dias na ilha (em alguns casos, mas somente nas fronteiras terrestres, pode não exceder as duas semanas, uma situação facilmente contornável com uma breve visita à vizinha Malásia e o posterior regresso a Singapura). É importante notar que a lei é extremamente dura e que a posse de droga é punida com uma longa pena de prisão. Num país com fracos índices de corrupção, o tráfico de estupefacientes equivale à pena de morte. Fumar em locais públicos é expressamente proibido (a multa pode ascender a 300 euros), bem como atravessar a menos de 50 metros da passadeira (30 euros) ou atirar lixo para o chão (600 euros). Estas e outras regras, por norma respeitadas por turistas e locais, fazem de Singapura um dos países mais seguros e mais limpos do mundo. Um dólar de Singapura equivale a aproximadamente 60 cêntimos e é preferível recorrer às casas de câmbio, uma vez que a maior parte dos bancos cobra uma taxa de três euros por cada operação efectuada. A diferença horária entre Portugal e Singapura é de sete horas no Verão e de oito no Inverno. REUTERS/VIVEK PRAKASH REUTERS/TIM CHONG
  23. 23. 24 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 Dormir Quinta do Cão Comospés noDouro, agozarosilêncio Não é fácil chegar à Quinta do Cão, mas depois de lá estar não vai querer sair. O silêncio, a piscina, o rio, os terraços ou os campos de jogos ajudam- -no a gastar energias ou a prolongar a preguiça. Dormir, então, é um sossego. Chegamosaofinalda tarde, quando o sol ainda não se es- condeu por trás das encostas (mas es- tá quase, quase a fazê-lo) e os barcos já não passam pelo Douro, rio acima, rio abaixo. Mas é ele que nos atrai, de imediato. Deixamos a casa para depois e descemos até ao rio, para molhar os pés. A água é escura, pro- funda e está morna, morninha. Respi- ramos fundo e escutamos o silêncio. Aqui é possível esquecer o mundo. Chegar à Quinta do Cão dá algum trabalho. A página da Internet do es- paço dá instruções precisas para não nos perdermos, no caminho do Porto até à freguesia de São Lourenço do Douro, no Marco de Canaveses, mas, mesmo depois da última placa azul que indica a presença da quinta, se- guimos com algumas dúvidas. A es- trada é estreita (não se cruzam dois carros, apesar de ter dois sentidos) e parece estar sempre a terminar logo ali à frente, deixando-nos num ca- minho sem saída. Assim que o carro avança mais um pouco, percebemos que afinal o caminho continua, sem- pre a descer, até ao portão largo que indica que, agora sim, chegamos. Pedro Pinto e a esposa compraram a Quinta do Cão em 1995, para uso familiar. Na altura, a quinta era “só quase um terreno, com algumas me- mórias de casas”, recorda o empre- sário. Tudo foi, por isso, construído de novo, reutilizando a pedra local, organizando os socalcos para que al- bergassem, em cada um dos seus pa- tamares, mais um espaço dedicado ao lazer, abrindo caminho à piscina com vista sobre o rio. Pedro, a mu- lher e os dois filhos gozavam da casa quando podiam, mas perceberam rapidamente que “não fazia sentido não a partilhar com outros”. Foram convidados amigos e familiares e o projecto de criar uma unidade de Tu- rismo em Espaço Rural ganhou força com a proximidade do Euro 2004. “Percebemos que havia alguma es- cassez de alojamento e desafiaram- nos a abrir as portas. As primeiras pessoas que recebemos acabaram por ser pessoas que andavam pelo Porto, Aveiro e Guimarães, a ver os Patrícia Carvalho FOTOS DR
  24. 24. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 25 jogos dos seus países”, diz. À quinta chega-se pela estrada, mas também pelo rio. Lá em baixo, há um pequeno ancoradouro em frente ao qual desfilam, ao longo do dia, os cruzeiros do Douro, em direc- ção à Régua, pequenas embarcações de recreio, algumas canoas e até um barco rabelo. Exceptuando o ruído dos motores desses barcos, parece que não há som que chegue ali para perturbar quem procura o descanso. E ele pode ser gozado de diferentes maneiras. Nos quartos, sem televi- são (embora isto seja um desperdí- cio, porque lá fora é muito melhor). Nas espreguiçadeiras junto à piscina. Na piscina, a olhar o Douro. Na sala de estar, a ver televisão, a jogar xa- drez, ler uma revista ou a jogar às cartas. No terraço amplo, sentados num pouff, a ler um livro. Nos bancos junto à gaiola gigante, com pássaros esvoaçantes e coloridos por perto e uma fonte por companhia. A subtrair uns morangos doces e vermelhos dos vasos gigantes junto à esplanada da sala de refeições. A ver se as maçãs já estão boas para comer ou a pen- sar que no Outono também há-de ser bom vir até aqui e poder apanhar as castanhas que já se desenham dentro dos ouriços ainda verdes. Mas se tanto descanso já o cansa, não faz mal. Pode descer ao último piso da casa principal — que, graças aos socalcos, também tem diferentes andares e saídas — e jogar snooker. Ou procurar, perto da piscina, o re- canto abrigado com mesa de matra- quilhos ou pingue-pongue. Ou im- provisar uma partida de bowling com os pinos de madeira arrumados a um canto. Ou subir a encosta e utilizar o court de ténis, que também tem um cesto de basquetebol e balizas para improvisar outros jogos. Ou, final- mente, subir um pouco mais e deixar as crianças gastarem as energias no parque infantil da quinta. Chegar ali pode não ser demasiado fácil, mas a verdade é que também não terá muitas razões para querer sair. As refeições são confeccionadas no local, mediante marcação, ou, se preferir, há um churrasco à dispo- sição, perto da piscina. Ao almoço, sugerem-se refeições leves (para que se possa regressar à piscina o mais depressa possível) e Cristina, que toma conta da casa, pergunta-nos o que preferimos, porque vai sair para as compras e pode assim “orientar- se”. Uma salada e uma baguete de atum, com tomate vermelhinho, ovo e alface, deixam-nos satisfeitos. O ba- calhau com puré e salada, à noite, seguidos de figos, mousse de man- ga ou gelado com bolacha pedia um passeio nocturno, que acabamos por não dar, prolongando a conversa à volta da mesa de madeira. Não foi difícil adormecer. O silên- cio foi, quase sempre, total. É certo que um galo cantou cedo, cumprindo a tradição de anunciar que o dia es- tava a nascer, mas não fez mal. Cães a ladrar também não havia. Aliás, na Quinta do Cão, o que mais vimos foram gatos, pachorrentos e silen- ciosos, estendidos à sombra. Acor- damos devagar, preguiçosamente. Se tivéssemos uma semana e livros por companhia, não custaria nada deixar que o mundo se esquecesse de nós, neste recanto do Douro. Nós de cer- teza que nos esqueceríamos dele. A Fugas esteve alojada a convite da Quinta do Cão COMOIR QUINTADOCÃO Rua da Foz, 648 São Lourenço do Douro 4624-531 Marco de Canaveses Tel.: 255 582 703 Email: info@quintadocao.com www.quintadocao.com GPS: 41.09402; -8.188505 A Quinta do Cão tem três quartos duplos e dois quartos familiares. Estes últimos ficam fora da casa principal e podem albergar quatro pessoas cada. O preço, com pequeno-almoço, é de 110 euros por quarto duplo e 160 por quarto familiar. Uma cama extra custa 25 euros. A Quinta do Cão fecha as portas de Novembro a Janeiro, mas abre, para os interessados, para o Natal e Ano Novo. Os preços, nestes casos, são sob consulta. Siga pela A4 e abandone a auto- estrada na saída que indica Penafiel Sul/Entre-os-Rios. O caminho segue depois pela EN106, sempre em direcção a Entre-os-Rios e, depois, Alpendurada. A seguir, há-de aparecer uma indicação para a Régua (EN 198) e é por aí que quer aí. Ao quilómetro 51, depois da freguesia de Magrelos, encontra as placas azuis que indicam a quinta. Siga-as, é sempre a descer, até ao portão largo que indica o fim da viagem. Construída para ser uma casa de família, a Quinta do Cão está decorada para o mesmo efeito. Nenhum espaço é igual ao outro, há peças de arte espalhadas por toda a casa, que os donos trouxeram, em parte, de uma galeria a que estiveram associados; se quiser, pode levar para casa a tampa da lata de conserva que acompanha a chave do seu quarto. Ficámos no quarto Barco Rabelo e ele lá estava, minúsculo mas carregado, na lata de conserva colada junto à porta, criada por Isabel Ribeiro (hobbyir.blogspot.pt). A tampa tinha todas as explicações sobre a embarcação. No quarto, a roupa de cama e de casa-de-banho é Ralph Lauren e, em breve, entrará em vigor uma parceria com a Ach Brito, que permitirá à quinta ter os famosos sabonetes nacionais espalhados pela casa. “As pessoas podem pegar e levar para casa, para experimentar”, garante Pedro Pinto, que gostaria ainda de ter uma parceria, assente na troca de serviços, com produtores da região de vinhos, azeites e compotas. “A ideia era deixar o euro de fora. Nós servíamos de montra para os produtos deles e eles podiam usar a quinta para receber convidados ou eventos.” Esta parceria não passa, para já, de uma ideia, assim como a vontade de Pedro de ter instalado na quinta, em permanência, um casal que assuma todo o serviço e acompanhamento aos turistas. “Gostávamos de ter caseiros que pudessem tratar das limpezas e da cozinha, mas também do jardim, criar uma horta biológica, prestar informações, ensinar a pescar… Mas não é fácil, ainda não encontramos ninguém”, diz. PARCERIAS
  25. 25. 26 | FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 Restaurante Vinum Paisagem fabulosae umacozinha acondizer Produtos regionais e pratos da melhor cozinha tradicional em contexto elegante e descontraído. No restaurante das Caves Graham’s é das coisas simples e puras que resulta a diferença da experiência gastronómica. É claro que há mais barato, só que não é tão bom! Aideia original terá sido a de criar um palco para a história e os vinhos da casa mas o recital está longe de se ficar por aqui. Além da parte museológica e dos armazéns onde estagiam pre- ciosos vinhos do Porto, as Caves Graham’s oferecem agora também o serviço de um atraente restauran- te e bar vínico propondo “uma ex- periência gastronómica singular”. Associada ao vinho, claro, mas também com o propósito de “tra- zer para a mesa a cozinha tradicio- nal do Douro, de Trás-os-Montes, do Minho e do Oceano Atlântico”. Uma gastronomia que se anuncia como assente nos produtos locais, com “pratos tradicionais confeccio- nados de forma simples e franca” e enriquecida com “um toque de inovação inspirado nas mais im- portantes referências da cozinha internacional”, tal como se apre- senta o Vinum – Restaurante Wi- ne bar, na sua designação oficial. Propósito que, diga-se desde já, se vê eficazmente correspondido sobre a mesa, com base numa carta con- cisa, mas criteriosa, e um serviço que parece ainda à procura do ritmo adequado. Para lá da qualidade e critério gastronómico, o recital completa-se com um ambiente de refinado bom gosto e simplicidade e um cenário absolutamente único, com vistas fabulosas sobre o Douro e a zona histórica do Porto e de Gaia. Apetece mesmo dizer que só para poder desfrutar do cenário já a visita estaria mais que justificada, o que seria extremamente redutor face à importância e interesse da parte museológica, a qualidade das caves e dos vinhos e o excelente trabalho de restauro conjunto. Tudo é de vi- sita obrigatória e nada obriga a que seja feita em conjunto. Há que des- frutar, portanto. Por agora, o que nos interessa é o restaurante, que experimentámos em dois momentos distintos num dos últimos fins-de-semana, sem- pre ao almoço. Também o espaço se desdobra em duas áreas comple- mentares: uma interior e com o ali- ciante do “convívio” com a cozinha e com as caves de barricas, que se insinuam através de transparentes paredes de vidro; outra exterior e com as deslumbrantes vistas para o Douro, que parece atrair a preferên- cia generalizada. Trata-se de uma espécie de jardim de Inverno mon- tado no enorme pátio exterior das caves e debaixo da ramada aí exis- tente. Madeiras brancas, telhados e fachadas em vidro e uma decoração minimalista que destaca pormeno- res de elegância e bom gosto e a pro- porcionar um confortável ambien- te, informal e descontraído. Sobre as mesas, em folha de ma- deira de carvalho, apenas os toalhe- tes de linho e os copos. E ao centro três lascas de xisto lembrando as quintas do Douro e os solos donde são extraídos os preciosos vinhos. Aqueles que são produzidos pela Graham’s e a outras companhias do grupo Symington (que lidera o sector do vinho do Porto) e que inte- gram a carta do restaurante, à qual se juntam os de “outros produtores amigos” espalhados pelo país. A car- ta é larga e abrangente oferecendo as melhores opções À colher e na brasa Já no que respeita a sólidos, a car- ta oferece mais de uma dezena de “entradas”, pratos “para comer à colher”, “peixes” e “carnes”, com opções para a “brasa” em ambas as secções, e ainda uma lista de onze sobremesas, com a particularidade de para cada uma delas ser sugerido José Augusto Moreira (texto) e Adriano Miranda (fotos)
  26. 26. FUGAS | Público | Sábado 31 Agosto 2013 | 27 um específico vinho do Porto. Das entradas provaram-se a “sa- lada de alface e cebolinha tenra” (8€), fresca, macia, quase a cheirar a horta e a justificar em pleno a ad- jectivação; a “salada de bacalhau, tomate e azeitonas” (15€); e o “ros- bife e parmesano com vinagreta de mostarda” (16€). E se o bacalhau, elegantemente cortado em cubos e com cebola, cebolinho e as azeitonas em harmonioso picadinho, pareceu demasiado marcado pelo vinagre, já as lâminas de robisfe, escondendo alfaces, escarolas, cebolinho, nozes e pinhões sobre uma base de tosta com cebola confitada, estavam de- liciosas na combinação com queijo e o molho de mostarda. Diga-se que em ambos os casos as doses são mais do que generosas e só por si já bas- tam como refeição. Da lista constam também pre- sunto e lombo de porco, de origem espanhola, salada de queijo de ca- bra, foie-gras mi-cuit de pato, amê- ijoas com molho verde, chamuças de moura e maçã, alheira na grelha com pimentos, ovos mexidos com alheira, e uma torta de sardinhas e pimento verde assado, que solicitá- mos mas não estava disponível. Para comer à colher, optou-se pela “sopa de peixe, à moda dos pescadores da Póvoa de Varzim” (16€). Uma generosa terrina com um caldo de peixe, rico e saboroso, e igualmente suficiente para saciar os estômagos mais exigentes. Sabores fortes resultantes da base apurada do lento refogado de cebola que fornece a calda acastanhada onde amaciam os peixes e mariscos que compõem o atraente bouquet final. Um belo exemplo do tal propósito de pratos tradicionais com elegância e inovação. Para a colher são também propos- tos milhos de vieira, arroz de pol- vo, arroz cremoso de camarões do Atlântico e um guisado de orelha e chispe de porco com feijão branco. No capítulo dos peixes há uma “raia recheada de ratatouille”, da qual ouvimos já entusiasmados comentários, o “bife tártaro de atum com tomate confitado” (17€) e a “pescada de anzol com pencas” (17€), que saboreámos. Correcto e previsível o tártaro, enquanto a pes- cada se apresentou quase sublime na sua simplicidade. Posta genero- sa (mais uma vez) do alvo lombo espécime. Fresca, a saber a mar e a desmanchar-se em lascas ao sim- ples toque. Confeccionado de forma “simples e franca”, tal como anun- ciado, na companhia das pencas e duas rodelas de batata cozida. Para a “brasa”, são duas as pro- postas da lista: “lombo de bacalhau premium com molho de pimentos secos”; e “peixe do mercado de Ma- tosinhos”, em dose para duas pesso- as e consoante o mercado. Vaca velha e frango do campo Nas carnes, há apelativas propos- tas, como “vaca velha de Trás-os- Montes”, que se decompõe nas versões de bife tártaro e costeletão ou filet mignon na brasa. Da grelha do carvão, que se insinua à vista do cliente na sala interior, saem ainda o coelho do campo com pimentão “La Vera”, e entrecosto ou presas de porco, mas a nossa preferência foi para o “frango do campo com tabaco culinário e chalotas” (22€). Dose generosa com coxa e sobreco- xa de galináceo de boa envergadura e origem garantidamente rural, de qualidade culinária e sabor irre- preensíveis. “Mesmo bom”, como comentou um dos convencidos co- mensais. A oferta cárnica estende-se ainda ao “rabo de boi estufado” e ao “leitão confitado e estaladiço com puré de almofariz”. Com doses sempre generosas, a escolha das sobremesas apresentou- se já como uma espécie de “sacrifí- cio” extra, tendo as opções recaído sobre a “tarte fina de maçã” e a “pê- ra e vinho e gelado de nata fresca” (7€ cada), ambos de fino sabor e confecção apurada. Para a primei- ra é proposto o Graham’s 20 anos, enquanto o Graham’s The Tawny é sugerido para acompanhar a pêra, se bem que tenhamos optado antes pelo complemento do café, dado o avanço da hora. E a questão do tempo acabou por ser mesmo a parte mais complica- da de uma experiência, ou melhor, duas, em que o apuro e satisfação gastronómicas acabaram perturba- das pela questão do ritmo. O serviço parece também vaguear ainda entre o formalismo dos movimentos e a informalidade do discurso. Da mes- ma forma, ambígua parece a opção pela generosidade das porções em que são servidas as entradas que, assim, acabam por funcionar como pratos de substância. Ou restringem a experiência, se ficamos por aí, ou são excessivos e tornam a refeição demasiado cara, e avançamos na carta. Despropositado mesmo pare- ce o facto de os acompanhamentos (batatas, puré de batata, legumes ou arroz de legumes) serem pedidos (e pagos) à parte. Pormenores que em nada fazem sobra à satisfação resultante da qualidade do trato culinário, a que se junta também a evidente mais- valia da genuinidade dos produtos. Apenas acabam por ter o efeito de encarecer uma refeição que, não sendo barata, acaba por ter o cus- to plenamente justificado. É claro que há mais barato, só que não é tão bom! VINUM-RESTAURANTWINEBAR Rua do Agro, 141 ou Rua Rei Ramiro, 514 4440-281 Gaia Tel.: 220 930 417 www.vinumatgrahams.com Estacionamento: sim Cartões: sim (crédito e débito) Aberto todos os dias Oazeite sabe e faz melhor comido cru, mas pode ser ainda mais saboroso se for aro- matizado com produtos naturais do nosso agrado. Com umas poucas go- tas, podemos levar a natureza para a mesa e dar um toque especial a sopas, saladas, carnes, peixes e até sobremesas. Aromatizar azeites não é uma excentricidade gourmet. Os povos do Mediterrâneo sempre o fizeram e muitos chefs consagrados não os dispensam nas suas cozinhas. Há so- luÀ8Ơ'

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