Síntese do Seminário Juventude: gênero, raça e sexualidade

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Síntese dos textos apresentados no Seminário Juventude: gênero, raça e sexualidade

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Síntese do Seminário Juventude: gênero, raça e sexualidade

  1. 1. Disciplina: Juventude, Educação e Cultura Profª: Dra. Wivian Weller Estudantes: Cleverson de Oliveira Domingos, Cláudia Denis Alves da Paz, Maria de Lourdes de Almeida da Silva e Lia Maria. SEMINÁRIO 9: Juventude: gênero, raça e sexualidade INTRODUÇÃO Na área da educação, os estudos sobre juventude, gênero e sexualidade representam 8% do total de trabalhos tanto no primeiro levantamento no período de 1980 a 1998 quanto no segundo entre 1999 a 2006, o que sinaliza que “esse movimento não correspondeu a um aumento da proporção de pesquisas sobre a temática “Jovens, sexualidade e gênero” dentro da área da Educação e não significa uma presença contundente que dê aos estudos de gênero e sexualidade um novo estatuto” (CARVALHO; SOUZA; OLIVEIRA, 2009). Segundo as autoras, os estudos envolvendo “jovens, gênero e sexualidade” podem ser agrupados em seis subtemas: Parentalidade; Sexualidades; DST’s/AIDS; Educação sexual; Masculinidades e feminilidades; e Educação formal. As pesquisas que investigam as intersecções entre gênero, raça e sexualidade representam um campo em construção no âmbito dos estudos sobre juventude, constituindo um interesse crescente principalmente por parte de pesquisadores mais jovens (WELLER, 2008). Geralmente, os pesquisadores que trabalham com essas categorias de análise são ligados e/ou identificados com os movimentos sociais negros, feministas e de liberação sexual, mas isso não significa que as análises ficam restritas exclusivamente nas mãos dessas pessoas, pois há atualmente um expressivo número de pesquisadores(as) brasileiros(as) de fora dos movimentos dissertando sobre tais tópicos, conforme levantamento na Plataforma Lattes do CNPq realizado por Carrara e Ramos (2006). Segundo Weller (2008), “os estudos sobre juventude e diversidade realizados no Brasil desde os anos noventa do século passado podem ser organizados em torno dos seguintes eixos: Jovens negros e culturas juvenis; Jovens mulheres e culturas juvenis; Juventudes, gênero e sexualidade; Juventudes, educação e ações afirmativas”. Veremos, nesse seminário, como se articulam as relações entre juventude, gênero, sexualidade, etnia e classe social, e como essas temáticas tem sido compreendidas e abordadas a partir dos textos: “O Corpo e a sexualidade” de Jeffrey Weeks (2001), “Jovens produzindo identidades sexuais” de Debbie Epstein e Richard Johnson (2009) e “Etnografias do brau: corpo, masculinidade e raça na reafricanização em Salvador” de Osmundo de Araújo Pinho (2005). 1  O CORPO E A SEXUALIDADE Referência: WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, Guacira L. (org.): O corpo educado: Pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2001, p. 37-82. Jeffrey Weeks é professor de Sociologia na South Bank University em Londres e um dos fundadores do "Gay Left Collective", tendo destacada atuação na política de identidade homossexual desde os anos 70. Ele é um dos investigadores do período inicial de estudos gays da Grã-Betanha, na sequência da sua militância na GLF ("Frente de Libertação Gay") e do "Movimento Gay de Esquerda" de que foi fundador. 1 “O corpo e a sexualidade” (Jeffrey Weeks): publicado originalmente com o título "The body and sexuality", capítulo 11 do livro: Stuart Hall, David Held, Don Hubert e Kenneth Thompson (org.). Modemity. An introduction to modem societies. Londres: Blackwell, 1996: pp.363-394.
  2. 2. P á g i n a |2 Em seu ensaio “O corpo e a sexualidade”, o autor examina os modos pelos quais se têm atribuído, nas sociedades modernas, uma extrema importância e significado ao corpo e a sexualidade, argumentando que o nosso conceito de sexualidade tem uma história e se trata de uma invenção ou um “dispositivo histórico” (FOUCAULT, 1993 apud WEEKS, 2000, p. 44). Nesse sentido, Weeks (2001) salienta que as relações entre sexualidade, gênero, etnia e classe social devem ser encaradas como fenômenos sociais e históricos, profundamente emaranhados, que organizam relações desiguais de poder na sociedade. O autor aborda como as noções dominantes que possuímos sobre a sexualidade emergiram na modernidade, as relações de poder envolvidas nessa definição, o processo pelo qual têm sido definidas e redefinidas as identidades sexuais nos últimos cem anos, enfatizando a institucionalização da heterossexualidade e a “invenção” da homossexualidade. Também discute as formas de regulação social dos corpos e da sexualidade, nos espaços públicos e privados (como divisão socialmente construída), questionando qual será o futuro da sexualidade e do corpo. Inicialmente centradas nas preocupações da religião e da filosofia moral, as questões relativas aos corpos e ao comportamento sexual tornaram-se a partir do século XIX preocupações da medicina, da biologia e de profissionais e reformadores morais. A sexualidade, segundo o autor, tem tanto a ver com nossos corpos quanto com as nossas crenças, ideologias e imaginações. E o modelo dominante de sexualidade é o masculino. Partindo de uma análise histórica sobre a sexualidade, fundamentada na abordagem do construcionismo social, que tem Michel Foucault como um dos mais influentes teóricos, Jeffrey Weeks argumenta que nossas concepções dominantes sobre a sexualidade foram discursivamente produzidas, principalmente, pelos sexólogos que se esforçaram em categorizar os comportamentos sexuais e determinar as práticas “consideradas” saudáveis e normais, construindo a sexualidade como um domínio privilegiado de conhecimento. O sexólogo Richard von Krafft-Ebing definiu (ou melhor, construiu discursivamente) o sexo, ao afirmar que seria um “instinto natural”, o qual, “com uma força e energia absolutamente avassaladoras, exige satisfação”. De acordo com Weeks (2001, p. 39), “isso reflete uma preocupação pós-darwinista do final do século XIX, em explicar todos os fenômenos humanos em termos de forças identificáveis, internas, biológicas”. Nesse sentido, o construcionismo social, abordagem adotada no ensaio de Weeks, embora seja usado de diferentes maneiras pelos(as) pesquisadores(as), deve ser entendido como uma perspectiva diferente do essencialismo. O essencialismo deve ser visto como o “*...+ ponto de vista que tenta explicar as propriedades de um todo complexo por referência a uma suposta verdade ou essência interior” (WEEKS, 2001, p. 43). Embora haja diferenças de ponto de vista entre os construcionistas sociais, todos eles acreditam na ideia de que a sexualidade não é algo inato, mas sim uma construção social e histórica, que depende do contexto histórico específico, das várias relações de poder que modelam o que vem a ser visto como comportamento normal ou anormal, aceitável ou inaceitável. Sendo assim, Weeks demonstra que os significados que são dados ao corpo e a sexualidade são socialmente organizados e sustentados por uma variedade de linguagens. Considerando os sentidos que podem ser expressos por meio da linguagem, Weeks destaca os sentidos que os conceitos por ele utilizados adquirem em seu ensaio: Sexo é um termo usado para descrever as diferenças anatômicas básicas, internas e externas ao corpo; Gênero é usado para descrever a diferenciação social entre homens e mulheres; Sexualidade é um termo para descrever uma série de crenças, comportamentos, relações e identidades socialmente construídas e historicamente modeladas que se relacionam com o que Michel Foucault denominou “o corpo e seus prazeres” (FOUCAULT, 1993).
  3. 3. P á g i n a |3 Weeks (2001) identifica três elementos interdependentes que são vistos como importantes aqui, que são os da classe, do gênero e da raça. O processo de regulação sexual teve como uma das influências de classe o fato da ideia de sexualidade ser uma ideia burguesa e os padrões respeitáveis no século XIX para a vida familiar terem sido desenvolvidos por essa classe, embora a classe operária resistisse a essas normas. Ressalta-se também que os padrões de vida sexual do século atual resultam de uma luta social em que classe e sexualidade se ligam. Já o gênero é visto como uma relação de poder. Ao longo dos séculos houve modificações fundamentais no modo como tratamos a relação entre o corpo feminino e o masculino. O discurso sobre a diferença sexual emergia em meio a novas relações culturais e políticas, resultado de mudanças no equilíbrio de poder entre homens e mulheres. Além de classe e gênero outra diferença também modela a sexualidade com a raça. Ideologias sexuais do século XIX classificavam os negros abaixo na escala evolutiva, como mais livres dos constrangimentos da civilização. Políticas eugenistas dessa época desqualificavam os corpos das “raças inferiores”. Avançando sua argumentação, Jeffrey Weeks examina a história dos termos homossexualidade e heterossexualidade. Segundo ele, “*...+ a emergência desses dois termos marca um estágio crucial na delimitação e definição modernas de sexualidade *...+” (p. 61). Em que se pese a intenção de descrever a homossexualidade como uma variante benigna do comportamento humano, 2 como pretendia o jornalista e advogado austro-húngaro e pró-gay Karol Maria Kertbeny , em 1989, na Alemanha, esse termo tornou-se, nas mãos de sexólogos pioneiros como Krafft-Ebing, uma descrição médico-moral. A “criação” desse termo pode ser entendida como um grande esforço, assumido depois pela sexologia, de definir a homossexualidade como uma forma distinta de sexualidade, e descrever os tipos e as formas de comportamento e identidade sexual. Entretanto, antes da invenção do termo homossexual, as relações afetivas e sexuais entre pessoas do mesmo sexo eram descritas pela Igreja como sodomia. A sodomia era proibida por motivos religiosos e incluída na categoria de pecados graves. Cabe relatar que a sodomia incluía outros tipos de comportamentos não necessariamente vinculados aos sexos e que se uma pessoa deixasse de praticar tais não era mais estigmatizada como sodomita, mas o/a homossexual continuava carregando uma identidade distintiva e essencial. A pesquisa histórica tem demostrado que outras culturas não são organizadas a partir das definições de heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade. Na visão de Costa (1994, p. 120 apud FERRARI, 2003, p. 107), “*...+ acreditamos que somos ou que outros são ‘heterossexuais, bissexuais e homossexuais’ porque nosso vocábulo sexual não coage a identificarmo-nos desta maneira. Esse vocabulário, entretanto, não surge do nada, nem representa, para nossa razão, a ‘verdade’ sobre a sexualidade, ignorada pelo obscurantismo dos que nos antecederam”. Dessa forma, o autor demostra que o modo como a atividade sexual é conceptualizada e consequentemente dividida é que tem uma história que importa. Devido ao grande esforço [ou a obsessão] para definir os tipos e formas de comportamento e identidade sexuais, os termos homossexualidade e heterossexualidade tornaram-se cruciais e estanques (WEEKS, 2000). Weeks defende que foi com a intenção de definir a heterossexualidade como uma norma que se insistiu em fixar a homossexualidade como a forma “anormal” de sexualidade. Por isso, a norma não precisa ser definida, pois ela é pressuposto, basta definir seu “desvio”, ou seja, aquilo que ela não é. A heterossexualidade é, portanto, uma norma “interiorizada” e “introjetada” culturalmente que se tornou o quadro de análise por meio do qual nosso pensamento é moldado, “ela é parte do ar que respiramos”. Esse processo é chamado pelo autor de institucionalização da heterossexualidade que, em primeiro lugar, tentou definir as características básicas do que constitui a 2 Nunan (2003, p. 34) relata que “diversos autores discordam da versão proposta por Mott da invenção do termo homossexual, sobretudo no que se refere à profissão e ao nome de seu criador”. De fato, é possível encontrar posições derivadas. Para Weeks (2000), por exemplo, seu nome era Karl Kertbeny e tal era um escritor. O entendimento que não deve prevalecer é de que Kertbeny era um médico.
  4. 4. P á g i n a |4 masculinidade e a feminilidade e, em segundo lugar, buscou catalogar as várias práticas sexuais e produzir uma hierarquia na qual o “normal” e o “anormal” poderia ser distinguido. Assim, Jeffrey Weeks argumenta, com base em autoras feministas, que a heterossexualidade foi institucionalizada na sociedade ocidental, de modo a encará-la como compulsória, ou seja, obrigatória, vista também como “normal” e, até mesmo, “natural”, sendo, portanto, uma questão pouco discutida, haja visto que como qualquer “norma” sua definição só se torna mais inteligível a partir da marcação daquilo que ela não é (BRITZMAN, 1996). No entanto, a história da heterossexualidade no século XX, adverte o autor, não pode ser entendida apenas como simples reflexo da literatura sexológica, mas sim como um processo historicamente cambiante, ligado às complexas mudanças em desenvolvimento em relação às ideias sobre (homos)sexualidade, associada as mudanças em relação a vida familiar, a integração das mulheres no mundo do trabalho, as métodos de controle da natalidade e fertilidade, e a ênfase no sexo como prazer. Segundo Weeks (2001), compreender a história da homossexualidade é fundamental para entender a construção da (heteros)sexualidade. Weeks (2000, p. 65) relembra que “*...+ antes do século XIX a ‘homossexualidade’ existia, mas o/a ‘homossexual’ não”. Foi somente a partir do século XIX e nas sociedades industrializadas modernas que se desenvolveu uma categoria homossexual distintiva e uma identidade a ela associada. Os escritos feitos sobre homossexuais e por homossexuais assinalavam a descoberta de um tipo distintivo de pessoa, cuja essência sexual era significativamente diferente do/a heterossexual. Os processos linguísticos usados para “fabricar” os/as homossexuais, são resultado de uma nova configuração de poder que nos exige classificar uma pessoa pela definição de sua verdadeira identidade, uma identidade que se expressa plenamente a real verdade do corpo. Esse novo zelo categorizador e definidor, ao redor do século XIX, constituiu uma mudança tão significativa na definição pública e privada da homossexualidade quanto a emergência de um política gay e lésbica aberta e desafiadora nas cidades americanas. Antes do século XIX, as relações sexuais fora do casamento eram proibidas, mas permitidas sob a forma de prostituição regulada. Todas as formas de atividade sexual que não fossem procriativas eram olhadas como pecaminosas, fossem elas solitárias, entre homens e mulheres, homens e homens e homens e animais. Na Grécia, por exemplo, a homossexualidade era tida como uma espécie de rito de passagem da infância para a vida adulta. Os meninos eram iniciados sexualmente por um adulto que desempenhava o papel “ativo” na relação (WEEKS, 2000). Conforme Weeks (2000, p. 66), [...] o adulto masculino também tinha relações sexuais com mulheres. O garoto, desde que adotasse um papel ativo na vida adulta, não sofria nenhuma perda de status ou de virilidade. Pelo contrário, na medida em que o papel fosse ativo, a atividade homossexual poderia ser vista como um sinal de virilidade. Mas o mesmo não era verdade para aqueles que mantinham um papel passivo na vida adulta: eles eram estigmatizados e, frequentemente, maltratados. Weeks (2000, p. 66) também aponta que “este padrão é muito comum em várias partes do mundo *...+, sendo que sobreviveu vigoroso, até o século XX, particularmente nos países mediterrâneos e também em algumas subculturas das sociedades ocidentais *...+”. Pode-se, inclusive, percebê-lo arraigado na cultura brasileira. No Brasil, há uma expressiva oposição entre passividade e atividade sexual. A pessoa, por exemplo, biologicamente “macho” que mantém relacionamentos sexuais com outra de sexo igual ao seu, só será considerada homossexual se se comportar passivamente, ou seja, se for aquele que é penetrado. O que penetra, ou seja, o ativo mantém seu status masculino e heterossexual, enquanto o passivo se rebaixa à posição feminina porque é penetrado e, assim, passa a ser estigmatizado. Conforme Guimarães (2004, p. 48), “*...+ mesmo que os indivíduos da ação sejam do
  5. 5. P á g i n a |5 mesmo sexo, àquele de desempenho ‘masculino’ e ‘ativo’ é atribuída à identidade heterossexual (status ‘normal’) e àquele de desempenho ‘feminino’ e ‘passivo’ à identidade homossexual (status ‘desviante’)”. No entanto, a identidade sexual não é algo puramente “natural”, inclusive, determinados autores e autoras construcionistas afirmam que a escolha do objeto sexual ou a hetero/homossexualidade não é intrínseca ou inerente ao indivíduo, mas sim construída. Weeks (2000, p. 70) enfatiza que “*...+ não são muitas as pessoas que podemos ouvir afirmando ‘eu sou heterossexual’, porque esse é o grande pressuposto. Além disso, esse autor esclarece que dizer ‘eu sou gay’ ou ‘eu sou lésbica’ significa fazer uma declaração sobre pertencimento, significa assumir uma posição específica em relação aos códigos sociais dominantes”. Além disso, o modelo homossexual que emergiu no século XIX tratou lésbicas e gays nos mesmos termos como se tivessem características comuns. Esse modelo era mais associado a homossexualidade masculina e desconsiderava certos aspectos específicos às lésbicas. Assim, a nova história da homossexualidade, tornou-se uma história de identidades. E para que as identidades sexuais surgissem foi preciso mais que o desejo ou a atividade sexual. Elas surgiram devido a globalização e o crescimento dos espaços sociais urbanos, especialmente, pela criação das redes de apoio social e acolhimento que se desenvolveram, como a subcultura homossexual, representada pelo movimento social e pelos locais de sociabilidade e consumo direcionados à lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT). Cada vez mais, a homossexualidade se torna uma questão de escolha, que os indivíduos podem seguir de um modo que era impossível numa sociedade mais hierárquica e monolítica. A homossexualidade continua sendo vista como uma ameaça ao status quo moral, contudo a existência de identidades gays e lésbicas positivas simboliza a pluralização cada vez mais crescente da vida social e a expansão da escolha individual que essa oferece. Segundo Weeks (2001, p. 70, grifos do autor), “*...+ as identidades são históricas e culturalmente específicas [...]. Elas não são atributos necessários de impulsos ou desejos sexuais particulares, e que elas não são partes essenciais de nossa personalidade *...+”. A sexualidade, portanto, é tanto um produto da linguagem e da cultura quanto da natureza. Três ênfases podem ser dadas sobre a questão da identidade: a identidade como destino; a identidade como resistência; e a identidade como escolha. A identidade como destino é uma suposição adotada pelos essencialistas, que acreditam na ideia de que há um destino sexual pré-determinado na biologia, nos genes ou hormônios. A identidade como resistência seria uma posição adotada pelos teóricos sociais dos anos 50 e 60, especialmente da psicologia e sociologia (como Erving Goffman e Erik Erikson), que acreditam que as identidades sexuais “estigmatizadas” seriam uma resposta necessária e automática ao princípio organizador das atitudes sexuais tradicionais. Já a identidade como escolha, posição assumida pelo construcionismo social, enfatiza que as identidades sexuais são, no final, escolhas feitas livremente pelos sujeitos. Nessa perspectiva, “*...+ tem-se argumentado que muitas pessoas são “empurradas” para a identidade, derrotadas pela contingência, ao invés de guiadas pela vontade *...+” (p. 71). “*...+ Alguns indivíduos são forçados a escolhas, através da estigmatização ou descrédito público [...]” (p. 72). Dessa forma, Weeks demonstra os quatro estágios característicos na construção de uma “identidade pessoal estigmatizada”: 1) sensibilização  o indivíduo torna-se consciente da sua diferença por ser rotulado como “maricas” (no caso no menino) ou “joãozinho” (no caso da menina); 2) significação  O indivíduo começa a atribuir sentido a essas diferenças; 3) subculturização  o indivíduo reconhece a si mesmo a partir dos contatos sexuais; 4) estabilização  o individuo aceita a si mesmo, seus sentimentos, desejos e constrói seu estilo de vida através do envolvimento numa subcultura que dá apoio as pessoas com a mesma “inclinação” (grifos meus).
  6. 6. P á g i n a |6 Esses estágios não são limiares, sendo, portanto, dependentes do acaso e da decisão. Outras pessoas também podem adotar “identidades abertas” por razões políticas. Também podem existir pessoas que se identificam como gays ou lésbicas, mas não realizam nenhum tipo de atividade sexual homossexual. Da mesma forma como podem existir pessoas que tem relações homossexuais, mas não se identificam como gays ou lésbicas. Assim, o autor diferencia comportamento sexual de identidade sexual, concluindo que “sentimentos e desejos podem estar profundamente entranhados e podem estruturar as possibilidades individuais. As identidades, entretanto, podem ser escolhidas, e, no mundo moderno, com sua preocupação com a sexualidade “verdadeira”, a escolha é muitas vezes altamente política” (p. 73). O comportamento sexual, nesse caso, corresponde a ter práticas eróticas ou afetivas homossexuais, enquanto a identidade sexual designa o processo de definir-se (e tornar-se visível, culturalmente inteligível) como homossexual (NUNAN, 2003). A sexualidade tem estado no centro das preocupações ocidentais e tem sido um elemento-chave no debate político nos últimos dois séculos. A preocupação com a sexualidade surgiu a partir de um crescente sentimento de crise sobre a sexualidade. As mudanças nas relações entre os sexos têm sido profundamente desestabilizadas pela rápida mudança social e pelo impacto do feminismo, com suas críticas a dominação masculina e a subordinação feminina. Essa crise de sexualidade, por sua vez, tem acentuado o problema de como devemos regulá-la e controla-la. Três estratégias de regulação da sexualidade tem dominado a sociedade nos últimos anos: a absolutista, posição que acredita de o sexo é perigoso, perturbador e antissocial e deve ser controlado rigidamente e autoritariamente; a libertária, posição que acredita que o desejo sexual é benigno, sendo mais flexível, porém radical; ou a liberal, posição que reconhece as desvantagens tanto do autoritarismo moral quanto do excesso. Nós somos herdeiros da tradição absolutista de origem judaico-cristã, embora várias formas de tradição liberal tenham regulado as sexualidades das gerações passadas. Weeks (2001, p. 76) argumenta que “*...+ as reformas liberais dos anos 60 foram tentativas de chegar a um acordo a respeito da mudança social e de estabelecer uma forma mais efetiva de regulação social *...+”. O ataque à permissividade foi uma tentativa de estabelecer uma nova norma pela mobilização conservadora que temia a ameaça a família, o questionamento dos papéis sexuais, o ataque à normalidade da heterossexualidade, a ameaça de uma educação sexual mais liberal, considerando também a emergência do vírus HIV e da AIDS. A relação público-privado também passa a ser questionada, pois não consegue lidar com algumas questões sexuais que agora estão em evidência. Weeks argumenta que aquilo que consideramos legítimo de se fazer no campo privado, sempre estará controlado por valores ainda maiores (em grande fluxo e mudança) que dizem respeito ao tipo de sociedade que queremos ver. Apontando o futuro da sexualidade, o autor afirma que está ocorrendo uma profunda mudança nas relações familiares, a partir da constatação de que há diferentes famílias, bem como mudanças na concepção de casamento como algo definitivo para toda a vida. Existe também aceitação generalizada do controle da natalidade e do apoio a leis de aborto liberais. No entanto, existe uma exceção à gradual liberalização que é a aceitação da homossexualidade, que embora não seja mais sujeita a punições, a sua legalidade é limitada, pois não é colocada numa situação de igualdade com os heterossexuais. O surgimento da AIDS e o fato dos homossexuais serem apontados como primeiros portadores do vírus reforçou o preconceito e a estigmatização em relação a esse “grupo de risco”. Nos Estados Unidos, os homens gays e as pessoas negras eram vistos como fonte potencial de “poluição” e ligados a emergência do novo vírus. Tanto a diversidade sexual quanto racial eram vistas como ameaça aos valores hegemônicos das sociedades modernas.
  7. 7. P á g i n a |7 O autor afirma que os desafios apresentados pela diversidade sexual irão crescer no futuro e talvez pudessem apontar para o fim do “regime de sexualidade”, discutido por Foucault. Finalizando, podemos perceber que na história da sexualidade a organização social da sexualidade não é estável, sendo moldada de acordo com contextos específicos, assim, possivelmente, pode-se esperar por uma mudança radical na maneira como nos relacionamos com nossos corpos e com a sexualidade. REFERÊNCIAS BRITZMAN, Deborah P. O que é esta coisa chamada amor: identidade homossexual, educação e currículo. In: Educação & Realidade, 21(1): 71-96, jan./jun. 1996. CARRARA, Sérgio; RAMOS, Silva. A constituição da problemática da violência contra homossexuais: a articulação entre ativismo e academia na elaboração de políticas públicas. In: PHYSIS: Revista Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 16(2): p. 185-205, 2006. CARVALHO, Marília Pinto de; SOUZA, Raquel; OLIVEIRA, Elisabete Regina Baptista de. Jovens, sexualidade e gênero. In: O estado da arte sobre a juventude na pós-graduação brasileira: educação, ciências sociais e serviço social (1999-2006). v. 1. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2009. FERRARI, Anderson. “Esses alunos desumanos”: a construção das identidades homossexuais na escola. In: Educação & Realidade, 28(1): p. 87-111, jan./jul. 2003. GUIMARÃES, Carmen Dora. O homossexual visto por entendidos. Rio Janeiro: Editora Garamond, 2004. NUNAN, Adriana. Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo. Rio de Janeiro: Caravansarai, 2003. MOTT, Luiz. Em defesa do homossexual. In: Enciclopédia digital direitos humanos. 2. ed. Natal: CENARTE, 2005. CD-ROM. WELLER, Wivian. Juventude e diversidade: articulando gênero, raça e sexualidade. In: I Colóquio Luso-Brasileiro de Sociologia da Educação, 2008, Belo Horizonte. In: ANAIS DO I COLOQUIO LUSO-BRASILEIRO DE SOCIOLOGIA DA EDUCACAO – Família, Escola e Juventude: olhares cruzados Brasil/Portugal. Belo Horizonte, 2008, p. 1-16. ISBN: 978-85-99372-93-7 3  JOVENS PRODUZINDO IDENTIDADES SEXUAIS Referência: EPSTEIN, Debbie; JOHNSON, Richard. Jovens produzindo identidades sexuais. In: Revista Brasileira de Educação. jan./abr. 2009, vol.14, n. 40, pp. 83-92. Debbie Epstein - Cardiff University, School of Social Sciences Richard Johnson - Nottingham Trent University, Faculty of Humanities Tradução: Lene Belon Revisão técnica: Guacira Lopes Louro Introdução1 Como podemos entender o modo como jovens formam suas identidades, particularmente em relação à sexualidade e ao gênero? Apresentação das seções do artigo. Os autores, inicialmente, descrevem seis jovens, encontrados no trabalho de campo no decorrer de vários anos e em diferentes projetos no Reino Unido. Ponto de partida para a exploração da formação das identidades de jovens. Tracy - jovem branca da classe trabalhadora, aluna de uma escola secundária profissionalizante, exclusiva para moças. Repetente, estava no 10º ano, com 14/15 anos. Infrequente (aparentemente com consentimento dos pais). Apresentava-se como interessada, experiente em sexo e ativa. Expressou ter prazer e desconforto simultâneos com sua reputação e imagem pública e dava a impressão 3 Tradução: Lene Belon; Revisão técnica: Guacira Lopes Louro; Revista Brasileira de Educação v. 14 n. 40 jan./abr. 2009
  8. 8. P á g i n a |8 de ser muito menos envolvida sexualmente do que sua reputação ou autoapresentação sugeriam. Ela produziu uma feminilidade performativa em que todos os diferentes aspectos de sua identidade social (classe, raça, gênero e sexo) desempenhavam seu papel. Simon - jovem gay branco de classe média, aluno de uma escola secundária de Londres. Alto, atlético, capitão da equipe de rúgbi da escola. Tinha um namorado na mesma escola, também na mesma equipe. Andavam juntos, muitas vezes de mãos dadas. Sabia que havia o perigo de tornar-se alvo de homofobia, e uma de suas estratégias de evitação era participar da intimidação de rapazes mais fracos e “efeminados” na escola. A autoapresentação de Simon era como ultramasculino, confiante, bem arrumado e “homogêneo”. Ele desfrutava de muito capital social, advindo de sua classe, da escola que frequentava e de seu sucesso educacional e esportivo. Era virtualmente uma versão didática de masculinidade – a masculinidade que se supõe ser desejável –, a não ser pelo fato de ser gay. Elias e Levi - Elias era um menino turco da classe trabalhadora, um “pré-adolescente” em uma escola de Londres. Atraente (personalidade e aparência). Menino popular entre meninos e meninas. Não era bom aluno. Passava a maior parte do tempo com seu melhor amigo, Levi, um menino afro-caribenho quase tão atraente quanto ele. Ambos eram tidos como “namorados” e sabiam- se como tal. Elias e Levi, de vez em quando, envolviam-se no assédio sexual de meninas (as mesmas que gostavam deles). As versões de masculinidade apresentadas por esses meninos demonstravam muitas nuances de etnicidade no estilo de vestir, corporificação e comportamento. Morgan - menina branca de classe média, estudava numa escola mista; ela escolheu esse pseudônimo a partir da versão feminista da lenda de Arthur, denominando-se Morgan le Fey, a irmã malvada nas versões dominantes mas aliada às boas e antigas religiões originais em algumas versões feministas. Estava nos primeiros anos da adolescência e era a garota mais popular de sua série, especialmente entre as meninas. Ela estava no controle de todos os seus relacionamentos. Desde pequena ela já liderava as outras crianças (meninos e meninas) em brincadeiras que eram tanto familiares quanto sexualizadas no sentido mais amplo. Morgan jogava futebol muito bem, e isso era fonte de parte de sua popularidade. Lara - de origem punjabi e identificava-se como lésbica. Ela procedia assim desde meados da adolescência e, naquela época, acreditava ser a única lésbica asiática no mundo. A autoapresentação de Lara estava muito marcada tanto em seu gênero quanto em sua etnicidade. Não queria apresentar-se como uma lésbica de cabelos curtos, calças largas (clássica). Identidade como auto produção/agência - Os jovens se produzem como atores generificados e sexualizados bem como atores de raça e classe, em e através de certas relações centrais. Seus contextos mais imediatos são as culturas sexuais dos próprios jovens, formadas em relação a espaços institucionais, como as escolas, a cultura popular comercial e as relações domésticas e familiares. Identidade= performance ativa/ construída em muitos níveis diferentes, tanto o interpessoal quanto o intrapessoal desempenham seu papel como constantes reiterações de práticas performativas que, como Judith Butler sugere (1990, 1993), vêm a ser escritas no corpo. Essas performances interativas nunca são exatamente umas como as outras e são de natureza relacional. Podem ser vistas como chave na produção do eu. Essa autoprodução ocorre em condições que os jovens não controlam. Não são os criadores livres das capacidades e limites de seus corpos. Não inventam de forma completamente nova as histórias com que narram suas vidas. Não produzem os bens que utilizam para criar um estilo. Os processos de formação de identidade estão cheios de ambivalência e contradição. (Ex.: Estratégia de Tracy = importar uma sexualidade adulta conhecedora para o contexto oficialmente dessexualizado da escola. Certo status e proeminência, mas também pagava um pesado preço em termos de reputação). Exemplo dos/as personagens: Morgan; Simon e Peter; Elias e Levi; Tracy. Práticas Reflexivas do corpo - As identidades são poderosamente formadas através do que Connell (1995, p. 62-64) chamou de “práticas reflexivas do corpo” – ou seja, o circuito de efeitos entre experiências corporais, vida emocional e explicações culturais para eles (Figura 1- p.87). É importante observar, no entanto, que esses entendimentos e experiências são desenvolvidos no contexto de relações sociais de poder em outros circuitos de produção cultural. Diferenças sexuais, por exemplo, estão sempre acompanhadas e são mutuamente moldadas por outras “diferenças que fazem diferença” na vida cotidiana das pessoas (como raça, gênero ou corporificação). Interações imediatas, face a face, estão sempre imbuídas de formações culturais mais amplas em torno do sexual (ou de outras diferenças sociais), que são reproduzidas e às vezes modificadas em práticas como representação na mídia, processos políticos e legais, venda e consumo de bens, conhecimentos científicos, profissionais e especializados. Exemplos: Simon e Peter: experiências corporais; Tracy: gravidez potencial (e prevista) na adolescência.
  9. 9. P á g i n a |9 Contextos, condições sociais - Quando jovens dão significado às suas vidas, usam narrativas e imagens que já foram produzidas em outro lugar. Exemplo: escolha do pseudônimo de Morgan; Lara usava e apreciava as roupas tradicionais, apesar de não querer ocupar a posição feminina tradicional em sua cultura. Professores e profissionais que trabalham com jovens estão necessariamente envolvidos no processo de sua produção de identidade de modos que são respaldados por formas particulares de poder, desde a avaliação acadêmica até a segmentação psiquiátrica. Podemos ampliar o quadro aqui e insistir que os jovens se produzem com identidades reconhecidas socialmente já correntes na cultura mais ampla. Há sempre uma apropriação individual, uma inflexão biográfica, mas o trabalho de identidade é sempre duplamente pressionado: primeiro, a partir do nível dos recursos materiais e corporais; segundo, a partir dos roteiros mais insistentes ou dominantes. Em relações sexuais, por exemplo, a pressuposição de heterossexualidade sempre torna mais difícil, para os gays e as lésbicas, buscar aconselhamento apropriado sobre temas sexuais e outros. Circuito de produção de identidade (Figura 2, p.89) = circuito mais abrangente de produção (Biografias e condições de vida; Autoprodução; Identidades socialmente; reconhecidas; Versões do eu; Corporificação Locais específicos; Recursos Estratégias ). A economia sexual das escolas (Hey, 1997) é tal que a pressuposição de heterossexualidade continua a ser forte e pode ser muito difícil para jovens, em especial para os meninos, agarrar-se a identidade queer com alguma convicção, segurança ou autoestima. De forma parecida, O’Flynn e Epstein (2005) mostram como pouco reconhecimento social é dirigido para estudantes refugiados no Reino Unido com famílias não normativamente heterossexuais. Esses/as estudantes têm dificuldade de “expor” sua organização familiar na escola, seja para outros estudantes, seja para a escola oficial (por exemplo, dizer como seu parente mais próximo é denominado quando o casamento é polígamo). Conclusão: implicações para a prática – Profissionais (de profissões de cuidado, ensino ou assistência médica) estão direta e ativamente envolvidos na construção da identidade de seus jovens clientes, alunos ou pacientes ao mesmo tempo em que constroem suas próprias identidades profissionais. Argumentamos que a prática ética com jovens em relação às suas identidades emergentes somente é realizável quando os profissionais são autorreflexivos no que diz respeito às limitações de seus próprios horizontes e estão cientes de sua parcialidade. O conhecimento científico é somente um modo de conhecer, mas objetiva um tipo de domínio que constrói o outro como um objeto. Esse paradigma de conhecimento é tão dominante que, com frequência, desqualifica outras formas de saber. Se existe preocupação com as culturas e identidades de jovens, temos que tratá-los como sujeitos e não objetos, qualificando nossos próprios preconceitos e poder mediante diálogo, bem como por meio de escuta e observação cuidadosas. Esse modelo de conhecimento como interpretação e compreensão que tenta atravessar grandes diferenças sociais tem que abrir seu caminho em uma cultura em que os jovens caracteristicamente não são ouvidos e são tratados como fontes de problemas e perigos, como vítimas ou ameaças, como portadores/as de patologias de diferentes tipos.  Etnografias do brau: corpo, masculinidade e raça na reafricanização em Salvador Referência: PINHO, Osmundo de Araújo. Etnografias do brau: corpo, masculinidade e raça na reafricanização em Salvador. Rev. Estudos Feministas. 2005, vol. 13, n.1, p. 127-145 Objetivos  Explorar desenvolvimentos do processo conhecido como reafricanização da cultura e da política em Salvador corporificados na cristalização transitória de determinada figura social conhecida como brau.  Discutir a consolidação de uma figura social que habita o mapa das representações de identidade da Salvador reafricanizada. (brau) 1 - Introdução O brau e a máquina de guerra da reafricanização  Brau - incorporado como uma fronteira entre significados impostos e autoatribuídos em disputa em interseção com sentidos historicamente determinados de identidade e de cultura negras  Reafricanização – Entendida como uma nova inflexão da agência social, política e cultural afrodescendente em Salvador, marcada pelo uso de símbolos ligados à africanidade e por uma interação determinada com a modernização seletiva, brasileira, caracterizada, ao mesmo tempo, pela conexão desterritorializada com fluxos simbólicos mundiais e da diáspora.
  10. 10. P á g i n a | 10 Aspectos desterritorializantes  Processo de globalização – destruição de formas tradicionais de espaço-temporalização nas relações sociais, novas estruturas de associação, pertencimento, lealdade, trocas e fluxos que se realizam em formas crescentemente complexificadas e aceleradas, criando novos parâmetros para a interação em contextos não mais facilmente descritos como simplesmente locais ou globais. Máquina de Guerra – arborescente (que tem quase a forma)  Gilles Deleuze e Félix Gualttari Invenção nômade, e dos nômades, que se opõe como uma exterioridade ao aparelho do estado.  Máquina de guerra é o “fora” permanente, a desterritorialização que impede a planificação, a centralização e o fechamento da subjetividade e dos devires sob o princípio da reprodução arborescente, que é o princípio do estado.  Desterritorializa os pontos de vista e as linguagens, reinventa um mundo, o lança para fora de si mesmo.  Como empreendimento nômade a reafricanização reinventa o território para as afetividades e identidades negras, fundando mundos e destruindo alguns outros.  Guerra pela europeização da cidade e da cultura em Salvador.  A invenção do brau como uma “personalidade-personagem” autônoma da reafricanização testemunha uma reconversão de significados associados ao negro e ao corpo negra.  O brau não apenas desafia a norma estética, mas também o cânone da cultura negra tradicional, põe em cena novas contradições de raça e gênero incorporadas no desconforto que a sua presença significa para a norma hegemônica sustentada pelas classes médias brancas. 2 – Representando o brau No contexto do processo referido como reafricanização, a juventude negra de Salvador em busca de afirmação cultural e modernidade entrou em conexão com a onda mundial da música negra-americana.  James Brown – funk, a partir dos anos 1970. Mais um dos elementos da cultura negra baiana.  Diferença: agora esta também poderia se reconhecer como internacional, falante de inglês, jovem corporal, articulada na relação com os bens de consumo e com a mídia.  Livio Sansone e Ari Lima (Pesquisa etnográfica) – Ambos ressaltam como a autoidentidade dos jovens se estrutura como uma relação entre os pares, assim como se dá sob a forma de uma redefinição da relação com a sociedade branca dominante, que passa a ser interpelada criticamente no cotidiano desses jovens através do espelho de identidade James Brown.  Identidade James Brown – imagem funkificada (neologismo de George YÚDICE, 1997.), era incorporada positivamente pelos jovens negros da periferia, era detestada e estigmatizada pela classe média que transformou a palavra brau em xingamento inequívoco, revelando os aspectos disputados dessa configuração.  Brau – Paradoxo – não categoria identitária, mas de acusação – categoria/performance brau disputou-se na história das representações raciais. 3 – O complexo funk-soul e o ambiente reafricanizado  “Culturas” funk, reggae e soul – papel determinante como co-participantes do processo mais amplo da reafricanização.  Invasão da música soul nos anos imediatamente precedentes ao primeiro desfile do bloco afro Ilê Aiyê.  Mudança na planta das casas – maior espaço para a evolução dos passos.  James Brown, Reverendo Matin Luther King Jr. e a luta por direitos civis para os negros norte-americanos.  Dom Filó, fundador da equipe Soul Grand Prix – procurou imprimir um sentido de consciência à adesão dos jovens ao soul – desencadeou o que viria a ser chamado pela imprensa em 1975 de Black Rio, o soul politizado. Polêmica: O soul é político ou não é político? Aliena ou traz conscientização? Coloniza ou emancipa? (Contexto: regime militar)  Discursos musicais-culturais interagem com a estrutura de relações de poder e servem como instrumentos para objetificação de identidades e posições antagônicas em um campo determinado.
  11. 11. P á g i n a | 11 “A identidade negra se desenvolve dentro do movimento rumo a uma nova cidadania e, em particular, nas suas formas mais populares ou de massa, não pode ser vista de forma separada do desejo de consumo e protagonismo civil.” 4 – Racializando corpo e gênero  Instalação vernácula do brau – interface conturbada que produz sua própria conexão com a política da raça e do gênero em Salvador.  Ambiência – re-invenvenção da imagem da cidade ou uma reterritorialização que conecta o corpo negro re-presentado com a re-presentação da cidade.  Produção social dos corpo negro sem Salvador articula-se com a reprodução social de uma autorrepresentação localizada da imagem da cidade – articulação à produção de identidades de gênero racializadas ou identidades raciais de gênero.  Corpo, enquanto categoria sociológica – formulação maussiana. Segundo Alexander Gofman, Mauss perseguiu a totalidade nas suas investigações, e no caso da discussão sobre o corpo duas tendências se escondem por detrás de um tom aparentemente desinteressado: 1 – corpo total, social e biológico e não uma entidade separada; 2 – levantamento das técnicas corporais permitiria uma categorização correta das habilidades culturais na relação com o corpo, em substituição a classificações incompletas ou parciais;  Gênero: não existe uma forma natural de masculinidade, mas muitas masculinidades eventualmente conflitantes, cujas clivagens mais significativas seriam entre homens gays e heterossexuais e entre brancos e negros. Para cada contexto sócio-cultural elegem-se modelos de home aceitáveis e valorizados assim como aqueles desprezados. (Andrea CORNWALL e Nancy LINDSFARNE, 1994; e Michael KIMEL, 1998.)  A masculinidade negra incorporaria de um modo geral as contradições e ambivalências típicas de estruturas de dominação de raça e gênero que se associam e ao mesmo tempo se autocontradizem. Masculinidade – “corpo negro” que nunca passa desapercebido – constantemente destacado da experiência cotidiana para ser simbolizado, fetichizado e decomposto. 5 – Conclusão: paisagens corporais Segundo Franz Fanon: “No mundo branco, o homem de cor encontra dificuldades na elaboração de seu esquema corporal. O conhecimento do corpo é uma atividade unicamente negadora. É um conhecimento em terceira pessoa” (1983, p. 92) Segundo Donna HARAWAY, 1991 “O cyborg – manifesto utópico para o século XXI que desafia a política radical e feminista que incorpora as alterações da corporalidade e da ética “natural” ligada ao corpo na transição para o século XXI como uma forma de desafios significados – o código – em sociedades de alta mediação tecnológica”  As novas revoluções industriais e tecnológicas estão produzindo novas etnicidades e identidades, meio híbridas e meio máquinas.  Constituição da paisagem reafricanizada em Salvador – permeada pela construção do corpo negro como elemento dessa paisagem.  A reafricanização tem dado nova inflexão às formas tradicionais de intervenção crítica afrodescendente, assim como para a tradição contracultural da diáspora. O gesto negro como ato subversivo, encarnado na performance do brau, revela o corpo negro como um não-ser, uma fronteira variável e em disputa. (Judith BUTLER, 1999.)

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