O julgamento do mensalão e as redes sociais de interpretação. Pistas para uma hermenêutica da comunicação e cultura midiática compartilhada
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Na sociedade midiatizada a experiência política não desapareceu; transfigurou-se. O fenômeno da internet e das redes sociais forjaram uma nova ambiência comunicacional em que os atores-em-rede, ...

Na sociedade midiatizada a experiência política não desapareceu; transfigurou-se. O fenômeno da internet e das redes sociais forjaram uma nova ambiência comunicacional em que os atores-em-rede, e-leitores, a partir de uma cognição coletiva conectada articulam novos agenciamentos ético-políticos, virando do avesso a concepção e a própria atividade política. Este texto apresenta elementos para uma compreensão das notícias acerca do chamado “julgamento do mensalão”, em que as relações entre mídia e poder se mostram em toda sua complexidade. Observamos a sua projeção no contexto do ciberespaço, um ambiente que pulsa permanentemente, num presente contínuo, agregando diferentes linguagens e sensibilidades, e cuja forma e sentido solicitam novos parâmetros de interpretação. Neste sentido propomos algumas pistas para um exercício de interpretação, uma hermenêutica da comunicação compartilhada, que possa desvelar o significado do “julgamento do mensalão” nas redes sociais.

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    O julgamento do mensalão e as redes sociais de interpretação. Pistas para uma hermenêutica da comunicação e cultura midiática compartilhada O julgamento do mensalão e as redes sociais de interpretação. Pistas para uma hermenêutica da comunicação e cultura midiática compartilhada Document Transcript

    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013 O julgamento do mensalão e as redes sociais de interpretação. Pistas para uma hermenêutica da comunicação e cultura midiática compartilhada1The trial of the big monthly allowance and social networks. Clues to a hermeneutics of shared media communication and culture Cláudio Cardoso de Paiva 2 Resumo: Na sociedade midiatizada a experiência política não desapareceu; transfigurou-se. O fenômeno da internet e das redes sociais forjaram uma nova ambiência comunicacional em que os atores-em-rede, e-leitores, a partir de uma cognição coletiva conectada articulam novos agenciamentos ético-políticos, virando do avesso a concepção e a própria atividade política. Este texto apresenta elementos para uma compreensão das notícias acerca do chamado “julgamento do mensalão”, em que as relações entre mídia e poder se mostram em toda sua complexidade. Observamos a sua projeção no contexto do ciberespaço, um ambiente que pulsa permanentemente, num presente contínuo, agregando diferentes linguagens e sensibilidades, e cuja forma e sentido solicitam novos parâmetros de interpretação. Neste sentido propomos algumas pistas para um exercício de interpretação, uma hermenêutica da comunicação compartilhada, que possa desvelar o significado do “julgamento do mensalão” nas redes sociais. Palavras-Chave: 1. Mensalão; 2. Mídia; 3.Rede Social Abstract: In the mediatizated society the political experience has not disappeared; transfigured itself. the phenomenon of the internet and social networks have forged a new communicational ambience in which the actors-in-network, e-readers, from a collective cognition connected articulate new ethical-political arrangements, turning inside out the design and practice of political experience. The text presents elements for an understanding of the news of the so-called "trial of the big monthly allowance", in media relations and be able to show in all its complexity. We observe its projection in the context of cyberspace, an environment that pulsates constantly, on a present continuous, adding different languages and sensitivities, and whose shape and direction require new parameters of interpretation. To this end we propose an exercise of interpretation, a hermeneutics of shared communication, to understand the "trial of big monthly allowance" in the social network. Keywords: 1. Big monthly allowance; 2. Media; 3. social networks1 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Comunicação e Cibercultura do XXII Encontro Anual da Compós,na Universidade Federal da Bahia, Salvador, de 04 a 07 de junho de 2013.2 Prof. Associado, PPGC/UFPB; Doutor em Ciências Sociais; claudiocpaiva@yahoo.com.br www.compos.org.br 1
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013 1. Mídia, cotidiano e poder nas redes sociais A história política do Brasil está ligada à história dos usos sociais da mídia. O rádiofoi crucial na populista era Vargas e na reportagem radiofônica durante a II guerra mundial.O cinema forjou a “sociedade do sonho” e a politização do olhar no Brasil urbano. A TV foidecisiva no projeto de “integração nacional”, nos anos 70 e na denúncia da corrupção, nosanos 90. Há 20 anos, assistimos pelas mídias aos primeiros sinais de amadurecimento daconsciência política durante o impeachment do Presidente Collor (1992); mais do que umgrito de guerra dos “cara-pintadas”, foi uma desforra das massas no “país dos coronéis”. No tempo forte da televisão, irradiou-se o poder midiático de “construir oacontecimento” (Verón) e de desconstruí-lo também. Collor, como um protagonista de novelamexicana, foi produto da mídia e tragicamente a mídia ajudou a derrubá-lo. Nesses 20 anos,uma revolução inteira aconteceu na interface da mídia, política e sociedade. Há hoje, de umlado, uma complexidade midiática, aglutinando as irradiações da cultura de massa e, do outrolado, as inteligências coletivas conectadas, cujo saldo é positivo, pois beneficia a participaçãodos e-leitores, cidadãos, atores em rede, nos processos públicos de escolha e decisão. Nas primeiras décadas do século XXI, nos Estados Unidos, Europa e países doOriente eclodem novas crises, mas há também oportunidades que são aproveitadas pelosusuários dos meios digitais. Os cidadãos, usando as mídias e redes sociais, participam dastransformações na economia, sociedade e política. A informatização planetária é um processoaparentemente sem sujeito, mas na era da comunicação em rede, convém reconhecer oempoderamento dos cidadãos conectados, o surgimento do netativismo e ciberdemocracia,conforme demonstram as ações ético-políticas do Occupy, Wikileaks e Anonymos. O caso do mensalão e o seu “julgamento” constituem fatos de extrema importância nahistória social e política brasileira, pois sinalizam o triunfo da ética, democracia, realizaçãoda vontade de justiça, participação e cidadania, e tudo isso passa pelo crivo das redes sociais. www.compos.org.br 2
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013 Reunimos aqui um conjunto de pistas para entender como o “julgamento domensalão”, difundido nas tevês públicas e privadas e colocado em circulação nas redessociais Facebook e Twitter, o que tem gerado informação e empoderamento coletivo. Hoje as redes sociais permitem o enfrentamento do monopólio da comunicação pelascorporações e grupos econômicos, gerando estratégias sociocomunicacionais imprevistas. Mudaram a rotina de produção jornalística, os modos de circulação e recepção, esurgiu a pragmática das conversações digitais, cujos efeitos se fazem sentir no jornalismo. Osusuários podem acessar as interpretações dos fatos, em distintas versões e formatos, e podemigualmente interagir no que concerne aos processos do “julgamento do mensalão”, o quesignifica novos agenciamentos ético-políticos e democráticos. Observando a “midiatização do julgamento”, percebemos que este se realiza sob osigno da visibilidade total; é transmitido ao vivo pelo canal TV Justiça, reproduzido pelastevês comerciais. Mas há um dado novo: seus registros audiovisuais são distribuídosfartamente nas capilaridades da internet, se viralizam e se multiplicam nas malhas da rede. Odito “fenômeno político do século”, compartilhado nas mídias sociais, ganha novos contornossociocognitivos e ético-políticos, passando pelo crivo de novas mediações e agenciamentos. Apostamos que as mensagens sobre o “julgamento do mensalão” transitam noscircuitos inteligentes e colaborativos do Twitter, contribuindo para a formação de um espaçopúblico digital, um ethos informacional que atua positivamente sobre a razão crítica, apercepção estética e cognitiva dos e-leitores, contribuintes, cidadãos. No âmbito da história política nacional recente, o fato concerne às esferas dos poderesExecutivo, Legislativo e Judiciário. E, fixamos um ponto de vista, a partir da gestão dogoverno Lula (2003-2010), considerando a sua liderança no Partido dos Trabalhadores,historicamente fortalecido pelo respaldo popular, pautado pela postura ética e socializante.Mas vários dos seus representantes (dentro e fora da cúpula governamental) foramdenunciados pelo envolvimento em operações fraudulentas. A reportagem do acontecimentoé importante, pois atua nos modos de evidência e prova da existência de corrupção política, eemana a sensação de que se faz justiça num país em que os políticos e empresários corruptosocupam lugares estratégicos nas esferas do poder. Convém perceber, há distintos modos de se mostrar o acontecimento (Globo News,TV Justiça, You Tube, etc). Mas, a emergência das redes sociais é providencial, pois permite www.compos.org.br 3
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013o monitoramento das imagens e discursos acerca do acontecimento, autorizando o acesso aosseus efeitos de verdade e participação razoável na negociação de sentidos. É importante fazer uma cartografia reunindo as pistas, símbolos e sinais acerca do“julgamento”, os quais podem funcionar como data-base, visando pesquisas futuras emcomunicação, jornalismo, marketing político, mídias sociais e áreas fins; e nessa direção éfundamental a realização de estratégias de filtragem dos links de leitura sobre o tema. Seguindo uma base histórico-hermenêutica, interpretativa e explorando as relaçõesComunicação e Poder (Habermas, Foucault, Castells), focalizamos a malha sociodiscursivado twitter, almejando capturar a sua empiricidade, cuja substância se concentra na espessurasemiótica das postagens, comentários, conversações e compartilhamentos. Objetivamos assimextrair o sentido da comunicação em rede, que pode esclarecer acerca do modo como a esferapública digital tem compreendido o fenômeno do julgamento, o que adiciona uma camada desentido a este fato que pode vir a ser o divisor de águas na vida social e política brasileira. Recorremos a uma chave metodológica interdisciplinar, assimilando as contribuiçõesdos estudos voltados para as interfaces da Informação, Comunicação e Política (GAIA, 2011;GOMES, 2004; SODRÉ, 2006). E simultaneamente, seguimos as pesquisas em cibercultura eredes sociais que mesmo sendo objetos de pesquisa recente, já têm ensejado estudos deenvergadura, principalmente graças à convergência das análises de dados e vigorosadisposição para decifrar o sentido dos fenômenos socioculturais e políticos na era digital (Cf.LEMOS, 2004; RECUERO, 2009; 2011; SANTAELLA; 2010). 2. O óbvio e o obtuso na reportagem do acontecimento Em 14.05.2005, foi divulgada pela imprensa uma gravação de vídeo na qual o ex Chefe do DECAM/ECT, Maurício Marinho, solicitava e também recebia vantagem indevida para ilicitamente beneficiar um “empresário” interessado em negociar com os Correios. Na negociação, Marinho expôs o esquema de corrupção de agentes públicos naquela empresa pública (...). Segundo o Procurador Geral da República, Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, na denúncia oficial que apresentou ao STF, o ex Deputado Roberto Jefferson, então Presidente do PTB, divulgou detalhes do esquema de corrupção, do qual fazia parte, esclarecendo que parlamentares que compunham a chamada “base aliada” recebiam, recursos do PT em razão do seu apoio ao Governo Federal, constituindo o que se denominou como “mensalão”. (...) www.compos.org.br 4
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013 Jefferson acusou o então Ministro da Casa Civil José Dirceu de ser o mentor do esquema. (Wikipedia) 3. O fenômeno do “julgamento do mensalão” pode ser analisado pela via crítica do“ethos midiatizado” que, segundo Sodré (2002), envolve as instâncias da “veiculação”,“cognição” e “vinculação”. Isto é, uma ocorrência a qual temos acesso através da sua difusão,compreensão e compartilhamento forjados também pelas mídias sociais. Cumpre entender a natureza da cognição gerada pela mediação sociotecnológica, queconsiste numa modulação das conexões neurossensoriais e tecnoafetivas, as quais moldam apercepção, a memória e a compreensão, e isto vai definir os termos da relação dos atores emrede e a experiência do poder. Convém lembrar, aqui se forma uma comunidade simbólicacimentada pelos vínculos coletivos suscitados pelas imagens-sensações, afetos e perceptostradutores dos modos de indignação e perplexidade diante da corrupção política. Há tambémque se perceba a simbiose entre os objetos técnicos e os modos sociotécnicos deempoderamento dos cidadãos em rede, pois assim se moldam o pensamento, a linguagem e aação dos atores nas linhas do tempo virtual e presencial, pois assim se forja o estilo dasimersões na instância ético-política e os níveis de participação na vida pública informacional,desde os jovens internautas até os hackerativistas. Para além da forma e sentido do conteúdo midiático, o “julgamento do mensalão”deve ser interpretado também pela percepção dos efeitos da “reprodutibilidade técnica”(Benjamin) e circulação da notícia, da sua “repetição e serialidade” (Deleuze), e lidoigualmente pelos modos de consumo crítico e compartilhamento realizado pelos e-leitores. A midiatização tecnológica não oblitera a essência do fato político, nem esgota osentido da comunicabilidade implícita no acontecimento, muito pelo contrário, implica emimportante registro e inserção do acontecimento em um novo contexto público informacional.Mas apostamos na ação afirmativa viabilizada pela “cognição coletiva conectada”, iniciadadesde o uso dos dispositivos da cultura midiática (Santaella) até os protocolos sociotécnicosda “comunicação distribuída” (Antoun). E é necessário, decifrar as tramas e intersecções queocorrem entre a “narração e o fato” (Sodré); convém apreender o fio da meada histórica e seempenhar na crítica da interface mídia, cultura e poder (Fausto Neto; Mouchon; Verón) paracompreender o sentido do “julgamento midiatizado”. www.compos.org.br 5
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013 Em agosto de 2007, o STF iniciou o julgamento dos quarenta nomes denunciados em abril de 2006 por crimes como formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, gestão fraudulenta e evasão de divisas. O STF recebeu as denúncias feitas contra cada um dos acusados. No dia 14 de setembro de 2005, o mandato de Jefferson, delator do esquema, foi cassado, perdendo seus direitos políticos por oito anos. Em 1 de dezembro de 2005 foi a vez de José Dirceu ter seu mandato cassado pela Câmara dos Deputados; enquanto, os deputados acusados que conseguiram se reeleger nas eleições de 1º de outubro de 2006, poderão enfrentar mais um processo de perda de mandato. Foi descoberto em julho de 2008, durante uma investigação sobre o banqueiro Daniel Dantas, que o Banco Opportunity foi uma das principais fontes de recursos do mensalão. Através deste, Daniel Dantas era o gestor da Brasil Telecom, controladora da Telemig e da Amazônia Telecom. As investigações apontaram que essas empresas de telefonia injetaram R$ 127 milhões nas contas da DNA Propaganda, administrada por Marcos Valério, o que, segundo a PF, alimentava o valerioduto, esquema de pagamento ilegal a parlamentares. Em 2011, já depois do fim dos dois mandatos do presidente Lula, relatório final da Polícia Federal confirmou a existência do mensalão. O documento de 332 páginas foi a mais importante peça produzida pelo governo federal para provar o esquema de desvio de dinheiro público e uso para a compra de apoio político no Congresso durante o Governo Lula (Wikipedia). Ao hermeneuta da comunicação convém transcender as clivagens ideológicas epolítico-partidárias, e igualmente escapar ao “determinismo tecnológico”, mas sem deixar dereconhecer a potência das “tecnologias do imaginário” e suas irradiações (Machado da Silva). É importante se empenhar numa compreensão atenta aos filamentos de uma malhasociotécnica e discursiva que envolve o Poder Judiciário, o Poder Legislativo, servidorespúblicos e empresários, a qual nos chega através de um complexo processo de midiatização,mas vigorosamente enfrentado pelas mediações, imersões e interações planetárias, umaevidência gritante no espectro da vida digital (e presencial) do século XXI. Para decifrar as distintas versões midiáticas do fato, os diferentes aportes cognitivos,estéticos e ideológicos, convém recorrer ao expediente das plataformas crítico-colaborativascomo o Observatório da Imprensa, dispositivo digital cuja mediação tem servido dereferência no monitoramento das notícias divulgadas na midiosfera analógica e digital4. Mais de cinquenta mil páginas, sete anos de tramitação, 38 réus. O julgamento da ação penal do chamado mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) está sendo www.compos.org.br 6
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013 classificado como o mais importante caso já analisado pela alta Corte. De acordo com a estimativa dos ministros, as audiências podem se estender até as eleições municipais, marcadas para outubro deste ano. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (7/8) discutiu o papel da mídia na cobertura do escândalo do mensalão, que foi revelado pela imprensa em 2005. Observatório da Imprensa, 09.08.2012. 5O STF, constituído por 11 ministros6 começou o julgamento dos 38 réus do escândalo do“mensalão” no dia 2 de agosto de 2012. As opiniões se dividem no que respeita ao tratamento conferido pelas mídias ao“julgamento do mensalão”. De nossa parte, empenhamo-nos em observar o estado da artesobre o tema quando este migra para o ambiente colaborativo das redes; a intenção é refletircomo a circulação dos blogs, fotos, vídeos, depoimentos, críticas e comentárioscompartilhados enriquecem a cognição e o imaginário político dos e-leitores, cidadãos. 3. As redes sociais, o Twitter, a politização do cotidiano Partimos do pressuposto que, distintamente dos vários dispositivos de rede social(Orkut, Facebook, Youtube), o Twitter apresenta algumas singularidades: Primeiramente, consiste numa “escrita oralizada” (RECUERO, 2012), em migraçãodo formato da narrativa oral para as plataformas digitais, modalidade de conversação digitalem que forma e conteúdo estão condicionados ao limite de 140 caracteres, daí a sua naturezade comunicação minimalista, um agir comunicacional cuja intencionalidade precisa sertraduzida de maneira ágil, concisa e objetiva. Depois, o Twitter consiste em uma rede socialprestigiada pelas instituições, organizações, pesquisadores, profissionais, especialistas,formadores de opinião nas áreas de economia, política, jornalismo, marketing, educação, etc. E finalmente, as mensagens do Twitter, justamente pela concisão de sua escrita,atraem um nicho de interlocutores interessados em tópicos específicos, sem priorizar o apelo www.compos.org.br 7
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013sedutor das imagens, mesmo que os seus links possibilitem a migração para um formato decomunicação audiovisual (como o Youtube). Logo, apostamos na idéia de que o Facebook,sendo mais colorido, imagético, animado como uma revista de variedades, responde antes aosinteresses do público em busca do lúdico, lazer e recreação, enquanto que o Twitter, sendomovido por uma “razão gráfica”, estilo jornalístico, à base de enunciados curtos, cerebrais,matemáticos, lítero-informativos, tende a atrair o público mais pragmático e em busca dainformação qualificada, cujos links – presumivelmente – conduzem a fontes seguras. 4. Mídias, redes sociais e theatrum politicum “O inferno são os outros” (Jean Paul Sartre). A frase possui um matiz narcisista, mas traduz o mal-estar da pós-modernidade, oincômodo causado pelos desregramentos políticos e vem a calhar neste momento brasileirosob o signo do julgamento da “Ação Penal 470”, o dito “julgamento do mensalão”. Noimaginário popular, a figura do julgamento nas cartas do tarô é forte, sua significação éaustera e implacável. Mas a contextualização histórica é necessária para mesurar um pouco aecologia dos afetos públicos e as razões políticas no Brasil. 20 anos de ditadura, derrota naseleições diretas, morte de Tancredo Neves, Nova República, impeachment de Collor,corrupção da esquerda no poder e o escândalo do mensalão: são sete camadas traumáticas napsicologia política da nação. Ao contrário de uma postura conformista, agenciamentos sociopolíticos têm dado otom aos debates, no século XXI. Recentemente, no âmbito da “sociedade em rede” ressoa umprotesto geral do inconsciente coletivo. As hashtags do twitter são expressivas: #fora Sarney,#lei ficha limpa, #movimento contra a corrupção, #mensalão do PT, #mensalão Tucano,#fora Renan Calheiros, etc. são algumas das marcas fortes no Twitter, revelando os graus deperplexidade e indignação social, mas principalmente estratégias de respostas dos cidadãosconectados às redes sociais. A imprensa, guarnecida de sofisticados mecanismos de visibilidade, pode flagrar osfatos, publicar, comentar, debater, e é interessante observar como tudo isso é reprocessado naera das tecnologias da informação compartilhada. www.compos.org.br 8
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013 As teorias jornalísticas norteadas pelas noções e conceitos da “agenda setting”, “newsmaking”, “gate keeping” (WOLF, 2008) têm iluminado arestas específicas no campo,apontando etapas, procedimentos e estratégias de midiatização que ajudam na investigaçãodas relações entre a mídia e formação da opinião pública. Na área da pesquisa científica emComunicação, vários são os contributos epistemológicos para tratar da interface em queinteragem as instâncias da mídia, poder e sociedade; mas hoje é preciso refinar os aportesteóricos para reinterpretar a comunicação após a emergência das redes sociais. No querespeita à teoria do agendamento, que enfatiza o poder da empresa, do editor e do jornalista, énecessário relativizar sua esfera de ação, considerando o fenômeno da circulação das notíciasem rede e as estratégias de compartilhamento, que estremecem o monopólio da informação.No que se refere à teoria news making (a fabricação da notícia), convém atentar para aemergência das novas redes colaborativas de interpretação, como o site “Observatório”, queredimensionam a forma e a significação do noticiário através de processos de monitoramento.E enfim, no que concerne à teoria do “gate keeping”, enfatizando o papel controlador dos“cães de guarda” da mídia, cumpre apontar contrariamente para a experiência do “gatewatching”, que consiste em um olhar crítico, conectado, de observadores atentos acerca dareportagem do acontecimento. Isto é algo possível somente com as mídias audiovisuais,digitais, locativas que transformam a experiência tecnológico-midiática do “panótico”(vigilância sobre a sociedade) em expediente “sinótico” (vigilância da sociedade). Particularmente, a variável que se impõe destacar no processo de midiatização do“julgamento” na TV diz respeito ao fenômeno de “empoderamento audiovisual” conferidoaos atores da cena jurídica sob a ação das câmeras e luzes dos holofotes, o que não deixa deinfluenciar os sentimentos narcísicos dos magistrados. A experiência do tecnonarcisismo, quese inicia com os vidros e espelhos da sociedade industrial, reforçando-se na era de expansãoda TV, e que redimensiona o poder político, acentua-se notadamente na era das tecnologiasda visibilidade e da virtualidade global (Bruno; Kanashiro; Firmino, 2010). Convém se pensar dialogicamente as relações entre os indivíduos, o poder e as redessociais, acolhendo e discernindo a complexa diversidade de interesses, intenções e artimanhasocultas em cada fala, discurso e argumentação, sem deixar de apostar na ética, inteligência edignidade dos representantes da justiça. Relembramos, o índice populacional com acesso àinternet é ainda ínfimo; há hoje, em curso, estratégias de controle sobre as tecnologias da www.compos.org.br 9
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013informação e também há desconfiança por parte de grande parcela da população diante de umdispositivo comunicacional relativamente novo, que foge às suas habilidades cognitivas. Entretanto, faz-se necessário reconhecer as transformações da política desde a era dosmeios de massa até a era dos equipamentos colaborativos (WEBER, 2000; SODRÉ, 2002;SILVEIRA, 2001; ANTOUN, 2008). As redes sociais digitais resultam de uma revoluçãosociotécnica e cultural, promovida pela ação sociocognitiva e ético-política mediada pelastecnologias da informação e da comunicação, principalmente, após o advento da Web 2.0, emque se introduzem a “conectividade, mobilidade e ubiquidade” das mídias locativas. 5. Migrações da televisão para as redes sociais e vice-versa Para além da repetição e verticalidade da informação massiva, a internet e as redessociais trazem uma novidade: formação de habilidades e competências sociotécnicas parafazer a filtragem, a curadoria, o monitoramento das mensagens. Há dispositivos de redessociais que são bons condutores de informação (como o Twitter) e de conversação (como oFacebook); há distinções básicas entre eles, convém ressaltar. Mas, ambos são – em grausvariados –favoráveis às práticas de interação social, colaboração e compartilhamento. Devidoà natureza sociotécnica da sua mediação e comunicabilidade, o Twitter é mais adequado a umestudo da formação da opinião pública acerca do “julgamento”. Basta acompanhar onoticiário das emissoras de TV para percebermos a inserção das redes em sua programação, esimultaneamente, a substância midiática da TV faz parte da sua liquidez digital. Mas é preciso estudar melhor a internet e as redes sociais; neste sentido, caberiaretomar as formulações contidas no trabalho Métodos de Pesquisa para a Internet, em que seinscrevem modelos de investigação bastante apropriados. As autoras descrevem o twittercomo uma “ferramenta para publicação de micromensagens na qual os usuários sãoconvidados a responder a pergunta “O que você está fazendo?”, em 140 caracteres.(FRAGOSO, RECUERO e AMARAL, 2011). E, cumpre ultrapassar a dimensão empírica efuncional do dispositivo; convém examinar o quantum e o qualis das informações em rede; épreciso compreender a forma e o sentido das narrativas e conversações telemáticas. www.compos.org.br 10
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013 Há um consenso na pesquisa em comunicação, internet, redes sociais, reconhecendo a“etnografia” como uma alavanca metodológica fundamental. O termo remonta à antropologiade Geertz (1989), propondo uma interpretação densa da cultura, a qual consiste: na observação e narração dos detalhes sobre a realidade pesquisada. Trata-se de um processo interpretativo e de desconstrução textual, através do qual o etnógrafo constrói uma leitura que é ao mesmo tempo descrição e análise sociocultural. FRAGOSO, RECUERO, AMARAL, 2001, p. 233. Para entender as relações entre o twitter e o julgamento, convém construir umapágina, escolher um perfil, seguir usuários e se permitir ser seguido. A estratégia deve serseguir os “twitts”, mensagens publicadas pelos seguintes. O uso da “@” antes dos nomesviram “links” (nós, conexões) e são rastreados pelos usuários citados, aparecendo para elesnuma aba chamada resposta ou “replies”. (FRAGOSO, RECUERO, AMARAL, 2011, p.90).Pode-se fazer listas de usuários seguidos e organizar listas. O uso do comando “RT” leva aorepasse de mensagens dos seguidos para os seguidores. Isto é, a pesquisa quantitativa, estrutural, é estratégica para compreender a projeçãodas práticas sociais emergentes do twitter, para mesurar a sua utilização e seus valores paraos usuários. É importante avaliar o “capital social” investido na cultura das redes, e isso passatambém pela analise do seu conteúdo expresso na “escrita codificada” dos posts. O método etnográfico tem engendrado nuances metodológicas com terminologias enomenclaturas próprias e aí convém observar a astúcia e competência na interpretação dasemiose forjada pelas redes. Em verdade, é o olhar etnológico, a interpretação das culturas notempo das redes digitais e no contexto mais amplo da “ecologia pluralista da comunicação”,que pode ampliar o leque de opções para a pesquisa em cultura, política e redes sociais. A netnografia, etnografia digital, webnografia e ciberantropologia são modos decoleta de dados e de pesquisa aplicada que atestam os avanços num campo em permanentemutação e cujas configurações a cada dia se mostram mais complexas. Logo, os atores em rede representados em perfis, avatares, extensões dos indivíduosreais, micronarrativas, twitts, nós e conexões são elementos importantes no conjunto deinformações compartilhadas sobre o julgamento. Dentre os pesquisadores sobre o tema,Recuero tem investigado sistematicamente as redes em seus livros, A conversação em rede(2012) e Redes Sociais na Internet (2009), fornecendo munição para a pesquisa acadêmica. www.compos.org.br 11
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013Particularmente no que diz respeito ao “julgamento do mensalão” e sua projeção na redesocial Twitter, Recuero, traz bons insights. Em verdade, recolheu os dados do primeiro dia dejulgamento do mensalão, disponibilizados no twitter, a partir da inscrição da palavra “STF”..Recorreu à ferramenta NODXL para coleta e plotagem dos dados em rede. Masfundamentalmente, caberia aqui observar a formulação das suas questões, pois esta será aestratégia que vai conduzir a investigação: “Quem mais influenciou reportando o julgamento do STF?” Uma indagação queobteve os perfis de: “@jeanwyllys_real @stanleyburburin @MonicaWaldvogel @Estadao@TerraNoticiasBR @BlogdoNoblat @canalglobonews @ultimosegundo”. Em seguidapergunta: “Quais palavras foram mais usadas nos tweets sobre o julgamento? Conseguindodentre outras respostas: “ap470, brasilconfianostf, confionostf, globomente, mensalaodopt,mensaleironacadeia, petralhas, quemdeveteme”, etc. E deduz o seguinte: É curioso observar várias tags e expressões repetidas como “confionoSTF” e “brasilconfianostf” e “mensalaodopt”. Essas associações dizem bastante sobre o que as pessoas estão relacionando com o que, bem como com as expectativas de quem tuitou sobre o fato. Vemos uma cobrança grande pelo julgamento. RECUERO, 03.08.2012 Guarnecida de poderosos equipamentos interativos, Recuero empreende avisualização e análise dos enunciados, narrativas e conversações, mas devidamentecodificados em linguagem numérica, o que autoriza uma hermenêutica com base lógico-matemática. De nossa parte, percebemos como as pulsações políticas dos atores em redeepifanizam-se quantitativamente, densas, em cores fortes e expressivas. Considerando-se aindicação dos “usuários mais citados” e “hashtags mais usadas”, a partir da observação dografo (desenho gráfico da rede) analisado, verificamos a enunciação e contagem dos “níveisde influência”, o “capital social” investido pelos atores em rede, que se irradiam ali emexuberante visibilidade, atestando os níveis de empoderamento dos cibercidadãos. Logo,vislumbramos a imagem a filosófica de Deleuze chamada “rizoma” (em que filamentos, nós,ramificações, formam redes de sentido). Apreendemos o significado das mensagens acerca dojulgamento a partir dos rastros de linguagem deixados pelos internautas; são pistas paraentendermos as formas da cidadania e a politização do cotidiano na sociedade midiatizada. www.compos.org.br 12
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013 6. Midiatização e mediação do julgamento O cenário do tribunal midiatizado mereceria uma descrição antropossemiológicacomo talvez só Barthes pudesse fazê-lo, apontando a sedução da sua retórica. Tudo em seuinterior emana fulgurantemente o espírito da vontade de poder, tão bem demonstrado porNietzsche, em Genealogia da Moral. Entretanto, as redes sociais de olho no julgamento sãocampos de força essenciais na era da informação; o seu destino é gerar o poder-saber nopresente contínuo da comunicação colaborativa. Para entender a natureza do acontecimento, convém contemplar a geometria austerade sua espacialidade, a solenidade da sua ambiência física e psicológica, o rigor no desenho edistribuição dos lugares de fala. Observar o comportamento, gestualidade e indumentária doatores em cena, investigar a atuação dos personagens, os ministros da justiça, juízes,promotores, advogados, defensores e os réus, que estão ausentes, mas cuja presença épermanentemente materializada pelas referências discursivas dos interlocutores. Esteselementos são valiosos para uma antropológica da cultura política e – em última instância –reveladores dos aspectos do ethos e da civilidade hodierna. A cena do tribunal configura um contexto ritualístico que remete à memória histórica,literária e ficcional estruturantes do imaginário político e atualiza o sentido do contrato sociale preservação da ordem pública como garantia da vida em sociedade. O fenômeno de teatralização da vida pública, explícito aqui sob a forma de umjulgamento político, nos remete à etnologia de Goffman e o sentido das “máscaras sociais” naencenação da vida cotidiana; relembra o conceito da comunicação como drama (Burke). Aritualística do julgamento remete ao cinema e à representação das tribunas romanas, traz àmemória os filmes sobre o império romano que constituem suas mais fortes iconicidades.Faz-nos pensar em Crime e Castigo (Dostoievsky). E não deixa de relembrar a encenaçãodramatúrgica na peça O Balcão (Genet), expressão do Teatro do Absurdo, sátira dos tribunaise dos valores morais da “sociedade burguesa”. Mas existe uma aura em torno do fenômeno do “julgamento”, em que fulgura,sobretudo, o brilho da ardilosa inteligência humana e o seu fabuloso dom do discurso, da www.compos.org.br 13
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013palavra, da argumentação. A verdade seduzida pela retórica é disso que se trata. Naexperiência do julgamento, o acontecimento – como fato social e político - é elaborado elegitimado através de uma gramática ritualizada, em que os fatos narrados precisam adquirira aparência de verdade. Mirando o julgamento do mensalão assistimos à atualização de açõescomunicativas em que concorrem a hermenêutica, a semiologia e a pragmática discursiva,dando substância e orientando o sentido da comunicação jurídica; um prato cheio para apráxis jornalística. O significado do acontecimento não se esgota na sua midiatização; asubstância da sua matéria é a linguagem e sua legitimidade se impõe pela competência ehabilidade dos e-leitores. E cabe ao jornalista, sociólogo, semioticista, historiador,pesquisador em Direito, Ética, mídia, marketing, elaborar um conhecimento mais próximopossível da experiência, e doravante, em seu favor, existem a internet e as redes sociais. Para decifrar o sentido da nova comunicação da rede social twitter é necessárioestudar a sua estrutura e funcionamento, como o fazem as ditas ciências duras. A primeiracoisa a ser feita é explorar a interface estrutural da plataforma Twitter, fazer uma varreduraem seus dispositivos, aplicativos e ferramentas. Em seguida, recolher as falas, discursos,conversações e micronarrativas, o corpus que pode nos revelar a natureza da percepçãopública conectada acerca do “julgamento”. Por fim, à luz dos estudos de mídias sociais,inteligência tecnocognitiva, ética e política, fazer uma interpretação do fato observando otwitter como produto de comunicação colaborativa, nos leva a entender o “julgamento” poruma via que não se resume à espetacularização midiática. A intenção aqui é modesta, contribuir para uma primeira aproximação das plataformasinterativas, observando como ali se mobilizam as instâncias discursivas que nos permitemfalar em democratização da comunicação e cultura na era da informação, e estabelecer umolhar sobre o “julgamento do mensalão”, com o apoio destes novos saberes, gerados a partirda comunicação mediada pela tecnologia. 7. Elementos para uma epistemologia do twitter Uma via instigante para estudar as redes, interações sociais e a interatividade é seguiras obras e textos de Braga (2006), Primo (2007), Lemos (2004), assim como a “cultura deconvergência” (JENKINS, 2009) e “comunidades virtuais” (RHEINGOLD, 1996); eis umdiagrama epistemológico pertinente para uma interpretação social e filosófica das redes. www.compos.org.br 14
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013 Sobre as redes e mídias sociais, o recorte de Primo (2010), e Fragoso, Recuero eAmaral (2011) abrem novas arestas. No que concerne aos estudos do twitter, os trabalhos deKerckhove (2009), Flusser (1983), Latour (1994), norteiam a reflexão a partir de alicercesfilosóficos, sociológicos, antropológicos. E, de maneira mais direta, as pesquisas de Primo(2008), Recuero (2012) e Santaella & Lemos (2010) podem orientar as investigações. Denossa parte, apostamos no Twitter como um dispositivo de mídia e rede social que podecontribuir bastante nas formas de participação dos atores sociais nos processos de decisãopública. Reconhecemos ainda que, assim como outras modalidades de comunicaçãocompartilhada, faz parte de um contexto num “presente contínuo”, pois este é o espaço dacirculação (FAUSTO NETO, 2010), em permanente transformação. O Twitter atua noespectro da cognição coletiva conectada e já sinaliza as maneiras como os indivíduos egrupos, no século XXI, têm a chance de interagir com os poderes constituídos. O caso dojulgamento do mensalão é só um dos exemplos das estratégias de comunicação colaborativa,que têm conferido novos contornos às relações entre os atores sociais e os poderes, as quaisparecem transfiguradas pelos movimentos sociais mediados pelas tecnologias. 8. Conclusão: Dosimetria do poder e etnografia da comunicação Um olhar sobre a comunicação em rede não poderia ignorar o fenômeno deviralização das mensagens acerca do “julgamento do mensalão”. Os nós da rede remetem aosjornais, periódicos, programas de TV, blogs, sites que compõem uma massa formidável deinformações, mas que precisam de estratégias de filtro, de uma hermenêutica que leve a umacompreensão equilibrada da essência do fenômeno. Na fase final do julgamento, deparamo-nos com uma experiência bastante interessanteque tem tudo a ver com o problema da comunicação contemporânea, na era do excesso, davelocidade e da profusão de conteúdos em rede global. A “dosimetria da pena” que decide o destino dos réus do mensalão nos remete àdimensão do cálculo, da matemática e contabilidade dos dados. Mas não é este o nó górdio daera da informação? Quem tem o poder de medir, pesar e julgar? Quais os critérios razoáveispara uma apreciação equilibrada dos dados, das provas, das evidências? Como é possívelequilibrar uma hermenêutica histórica, uma interpretação fidedigna dos acontecimentos e a www.compos.org.br 15
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013partir daí exercer a faculdade de julgar? Qual a metodologia a ser empregada sem prejuízopara os atores sociais, os réus e os cidadãos? Como analisar o fenômeno político, a atuaçãodo poder do judiciário e os “sistemas de resposta” no espaço público informacional? Na era da comunicação numérica e digitalização das conversações políticas mediadaspela tecnologia, qual o lugar dos discursos políticos, jurídicos e socioparticipativos? Comomesurar os efeitos de verdade promovidos pelos feixes discursivos sobre o julgamento emcirculação nas mídias e redes sociais? Uma perspectiva hermenêutica não antecipa respostasa essas questões; entretanto, as formulações filosóficas de Habermas, Foucault, Ricoeur eoutros, ajudam a enfrentar a coincidência dos opostos, a aproximação dos contrários, aproblematizar a argumentação política no cerne da cibercultura. Muitos pensadores já tinhamprevisto a trama das convergências entre o tradicional e o ultramoderno, o antigo e o novo, amidiatização e a sociedade. Hoje, quando novos desafios se colocam, Hermes, o espíritomediador, fundador da hermenêutica, retorna com toda a força no ciberespaço. As tecnologias das redes são usadas antes de tudo como vetores da informação, lazer eentretenimento. O princípio da realidade ali, em sua maior parte, é acessado pela via doprincípio do lazer. Mas os atores têm aprendido a tirar proveito da “leitura imersiva”possibilitada pelo ciberespaço; descobriram que ali há novas estratégias do “saber-poder”,experiências que atualizam o “prazer (e sabedoria) do texto”. E assim, novas questões secolocam na interface da Ética, Política e Comunicação. Logo, desenham-se novos espectros no âmbito das liberdades civis, direito àinformação e exercício da responsabilidade. Enfim, essas são apenas algumas questões, nocampo da Comunicação Colaborativa que nos deixam pensando. 9. ReferênciasANTOUN, H. WEB 2.0 – Participação e Vigilância na Comunicação Distribuída. Rio de Janeiro: Ed.MAUAD, 2008BRAGA, J.L. A sociedade enfrenta a sua mídia. S. Paulo: Paulus, 2006.FAUSTO NETO, A. Olhares sobre a recepção através das bordas da circulação. Disponível em:<http://www.compos.org.br/data/biblioteca_1164.pdf> Acesso em: 18.02.2013 www.compos.org.br 16
    • Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação XXII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal da Bahia, 04 a 07 de junho de 2013FAUSTO NETO, A; VERÓN, E; MOUCHON, J. (orgs.). Lula presidente: televisão e política nacampanha eleitoral. São Paulo, Hacker Editores, 2003.FLUSSER, V. A filosofia da caixa preta. S. Paulo: Hucitec, 1985.FRAGOSO, S; RECUERO, R; AMARAL, A. Métodos de pesquisa para internet. Sulina, 2011.GAIA, R. A política na mídia e a mídia na política . Maceió: Ed.UFAL, 2011.GOMES, W. Transformações da política na era da comunicação de massa. Paulus, 2004.GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.JENKINS, H. Cultura da convergência. S. Paulo: Aleph, 2008.KERCKHOVE, D. A pele da cultura. São Paulo: Annablume, 2009.LATOUR, B. Jamais fomos modernos. Rio: Ed. 34, 1994PAIVA, C.C. “Sob o signo de Hermes, o espírito mediador: midiatização, interação e comunicaçãocompartihada”. In: MATTOS, M. A; JANOTTI JUNIOR, J; JACKS, N. (org.) Mediação & Mediatização. LivroCompós 2012, EDUFBa, 2012. Disponível em: <http://migre.me/djoE4> Acesso em: 18.02.2013PRIMO, A. Interação mediada por computador. Porto Alegre: Sulina, 2007.RECUERO, R. Redes Sociais na Internet. Sulina, 2009: ___ A conversação em rede. Comunicação mediada porcomputador e Redes Sociais na Internet. Sulina, 2012; ___ “Dados do primeiro dia do julgamento do mensalãono Twitter”. In: Blog de Raquel Recuero, 03.08.2012. Disponível em: <http://migre.me/dyydh>. Acesso em:10.08.2012.RHEINGOLD, H. A comunidade virtual. Lisboa: Gradiva, 1996.SANTAELLA, L. Culturas e Artes do Pós-Humano: Paulus, 2003; ___ A ecologia pluralista da comunicação.Conectividade, mobilidade, ubiquidade. Paulus, 2010.SANTAELLA, L; LEMOS, R. Redes Sociais Digitais. S. Paulo: Paulus, 2010.SILVEIRA, S.A. Exclusão digital: a miséria na era da informação. Perseu Abramo, 2001.SODRÉ, M. Estratégias Sensíveis. Afeto, mídia e política. Petrópolis: Vozes, 2006; ___ Antropológica doEspelho. Petrópolis: Vozes, 2002; ___ A narração do fato. Petrópolis: Vozes, 2009.WEBER, M.H. Comunicação e espetáculos da política. Ed. UFRGS, 2000.WOLF, M. Teorias da Comunicação. Lisboa: Editorial Presença, 1995. www.compos.org.br 17