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Hermes   cap. 1 - do cavalo de tróia ao wikileaks. os estilhaços do poder no ciberespaço
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Hermes   cap. 1 - do cavalo de tróia ao wikileaks. os estilhaços do poder no ciberespaço Hermes cap. 1 - do cavalo de tróia ao wikileaks. os estilhaços do poder no ciberespaço Document Transcript

  • Capítulo 1<br />Do Cavalo de Tróia ao Wikileaks: Estilhaços do Poder no Ciberespaço<br />O título, com licença poética, antecipa a intenção do trabalho, movido pela idéia de que a aventura do conhecimento, de maneira semelhante à experiência da navegação implica num processo de descoberta de si, do mundo social e cósmico, um processo que não se realiza sem a coragem necessária para enfrentar os obstáculos.<br />Foi assim ontem, no tempo dos deuses, heróis e guerreiros, como narra Homero na Ilíada e na Odisséia, e é assim também hoje, no tempo do wikileaks, das navegações virtuais, estratégias de poder e descobertas no ciberespaço. <br />A expressão “navegar no ciberespaço” tem analogia com a história do conhecimento, em que incidem erros, acertos, naufrágios e conquistas. Como na odisséia de Ulysses, o trajeto do saber é atravessado por crises, rupturas, derivas, sobrevivências, novos achados e permanentes modificações no mapa da viagem. <br />O ciberespaço é atravessado por forças históricas, sociais, econômicas e políticas, que lhe condicionam. Mas, ao mesmo tempo, consiste num motor que libera uma cibercultura, cuja irradiação, surpreendentemente, afeta os agenciamentos humanos, gerando um empoderamento coletivo que desafia os sistemas dominantes.<br />O triunfo na aventura do conhecimento consiste, desde os pré-socráticos, na habilidade de reunir, moderadamente, o vivido e o sensível, a teoria e a prática, a história e a mitologia. E a categoria de mediação é utilizada aqui como um farol orientando o nosso trajeto epistemológico; portanto, a figura de Hermes e suas emanações se fazem presentes ao longo do percurso investigativo. A figura simbólica do mediador, árbitro, mensageiro divino nos fornece insights valiosos para transitarmos entre os altos, baixos, apagões e clarividências da cultura digital.<br />Inteligência conectada e empoderamento coletivo<br />Existem diferentes maneiras dos indivíduos utilizarem os computadores e a internet. na rotina cotidiana. Para a maioria a rede funciona como um canal de diversão e entretenimento; para outros, além de se constituir como um vetor de informação permanente, a web funciona como uma estratégia operacional no campo da pesquisa científica e como oportunidade de trabalho numa época de desemprego. <br />Os defensores da internet enfatizam, por exemplo, como um dos seus aspectos positivos a dinâmica dos processos de digitalização, disponibilização e compartilhamento dos acervos públicos. Há outros usuários que apreciam a Internet como uma via de acesso a outras espiritualidades e corporeidades. Todavia, há aqueles que vêem a Internet e o ciberespaço como produto de uma tecnocultura, que, gerada em alta velocidade, oblitera a dimensão dos valores humanos e distancia os corpos físicos do espaço público; por esse prisma, seria uma experiência com vetores regressivos.<br />Investigamos alguns objetos, fenômenos e processos, que representam nacos no tecido da cibercultura, a qual tem sido popularmente assimilada a partir do desempenho das redes sociais. Mas para a análise cumpre nos guarnecermos de um instrumental conceitual e metodológico, moldando um corpus teórico para decifrar esta experiência que nos envolve, nos fascina e nos escapa. Sondamos, então, algumas estratégias de comunicação no ciberespaço, recorrendo a autores, cujos trabalhos, em sua diversidade, de modo analítico, crítico, compreensivo, trazem elementos para um debate. <br />“Enredar é tecer a arte de organizar encontros”, e este o mote epistemológico da coletânea Tramas da Rede (PARENTE, 2004), um arsenal teórico que reúne estudiosos de vulto como Latour, fazendo uma exploração racional e sensível dos “laboratórios, bibliotecas e coleções”; Marc Guillaume estudando a “comunicação comutativa”; Hardt & Negri, inspecionando a “biopolítica”; Pierre Lévy, estudando o ciberespaço e a “economia da atenção”; Henrique Antoun analisando a “democracia, multidão e guerra no ciberespaço”; Ascott, vislumbrando o “homo telematicus, no jardim da vida artificial”, e Maciel, “contemplando os espaços híbridos”.<br />A noção de rede vem despertando um tal interesse nos trabalhos teóricos e práticos de campos tão diversos como a ciência, a tecnologia e a arte, que temos a impressão de estar diante de um novo paradigma, ligado, sem dúvida, a um pensamento das relações em oposição a um pensamento das essências. (PARENTE, 2004).<br />Refazendo um estudo da obra Sociedade em Rede (1999) , percebemos que, numa perspectiva crítica, Castells se empenha em decifrar o alcance e os limites das redes sociais, como o produto mais acabados na nova fase do capitalismo global. A partir da sua leitura, entendemos que a hiperconcentração de renda, os fundamentalismos (religioso e mercadológico), as conexões do crime global, o apartheid tecnológico e a exclusão digital compõem a face regressiva da nova (des)ordem mundial na era das redes de informação. <br />Todavia, a perspicácia do autor reside em revelar como, no contexto da globalização, se inscrevem novas redes de sociabilidade, com matizes afirmativos. Essa problemática será atualizada nas obras posteriores, A Galáxia Internet, reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade (2003) e Communication Power (2010), vislumbrando os modos de empoderamento coletivo por meio das tecnologias. <br />Num outro registro, há autores que encontram nas “novas” redes de informação a projeção das atuais contradições socioeconômicas, políticas e culturais, conforme podemos constatar no livro Diferentes, desiguais, desconectados:<br />As diferenças na modernidade existem às vezes como desenvolvimentos culturais distintos, outras vezes como resultado da desigualdade das classes, entre as nações, entre os grupos sociais, e mais recentemente em relação com as possibilidades de conexão e desconexão das comunicações, ou das redes de informação, entretenimento e participação social. A mobilidade identitária tem muito a ver com essas diferenças, desigualdades, conexões e desconexões, com uma combinação dessas modalidades. (CANCLINI, 2005). <br />Convém reconhecer que as redes telemáticas geram processos afirmativos de pertencimento e identificação. As comunidades virtuais refletem novos estilos de ambiência, gerando modos de percepção, cognição e convivialidade, e os indivíduos e grupos sociais não cessam de agenciar modos de intervenção e participação. Servem de exemplo os ambientalistas, que se tornam cibermilitantes, organizando suas estratégias micropolíticas, modalidades de ação instaladas no interior da cibercultura, propiciando a emergência dos chamados “cidadãos culturais”, como mostra o livro Leitores, espectadores e internautas (2008):<br />O autor examina as fusões entre empresas dedicadas à produção de livros, mensagens audiovisuais e eletrônicas e investiga, em particular, hábitos culturais. Breves artigos, ordenados como num dicionário, interagem à maneira de um hipertexto para redefinir, não apenas o que é ser leitor, espectador e internauta, como o modo pelo qual agora somos cidadãos culturais, e nos relacionamos com o patrimônio, os museus e as marcas e para onde vai a pirataria, o zapping e os usos do corpo. (CANCLINI, 2008).<br />A correspondência on line, o webjornalismo, o cinema 3D, a tevê interativa, o namoro virtual, o marketing digital, e-comerce, as teleconferências, o ensino mediado pela tecnologia, a digitalização, disponibilização e compartilhamento das informações planetárias, entre outras experiências informacionais, criaram novas espacialidades e temporalidades que redefiniram o estatuto do ser na cultura, novas “formas comunicativas do habitar” (Di FELICE, 2009). <br />Entretanto, esses processos não se efetivam harmonicamente, pois envolve relações de poder, acirradas disputas e rivalidades. Neste sentido, a experiência do ciberativismo sinaliza algo de novo no contexto da cultura contemporânea, pois adverte como é possível se instalar no interior dos sistemas fechados e contribuir para uma estratégia de comunicação compartilhada e colaborativa. Assim, os hackers podem ser vistos como “ativistas midiáticos” (TRIGUEIRO, 2011), que utilizam uma tática tecno-comunicacional mais democrática, contribuindo para a inclusão digital.<br />Comunicação Digital, Poder e Tecnologia<br />Na Idade Mídia, emergem novas configurações que nos levam a repensar o significado do espaço público e os modos de participação social no contexto das decisões públicas. Diversos estudiosos têm se dedicado a análise do tema, participando de fóruns, como os congressos anuais da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política – COMPOLITICA, atuante desde 2006, que destacamos aqui, considerando a especificidade das análises no âmbito da cibercultura.<br />Na época dos mercados globais faz-se necessário perceber os níveis de expansão e concentração, conexão e mobilidade, em que se misturam o tradicional e o ultramoderno. Convém perceber, estas conjunções, nem sempre são bem balanceadas, e se projetam num contexto histórico e social, envolvendo poderes locais e globais, que podem afetar – positivamente ou negativamente - os indivíduos e grupos sociais.<br />Daí a importância de um debate consistente, num espaço público como a internet que pode agregar os acadêmicos, políticos, jornalistas, profissionais de mídia e, sobretudo, os cidadãos conectados em rede. Então, é pertinente a disponibilização dos papers da COMPOLÍTICA, resultantes das pesquisas arrojadas dos profissionais de primeira linha. Sua relevância reside na atualização dos temas que têm lugar na esfera pública (presencial e midiatizada) e ali, sendo problematizados – com rigor e sistematização – lançam luzes sobre um conjunto importante de fenômenos e acontecimentos de ordem política, que ganham novos contornos na era da informação. A citação de alguns dos temas explorados demonstra o quanto o Grupo de Trabalho “Internet e Política” pode contribuir para um debate sócio-político mais amplo: <br />“Os blogs, o jornalismo e a Política”, “Orkut e os surdos”, “as ágoras digitais”, “Internet e Desmatamento”, “Governo e Democracia Digital”, “O movimento Cansei na blogosfera”, “Acesso à informação na América Latina”, “Websites dos Governos Federais na América do Sul”, “O twitter na campanha eleitoral”, “Humor e Política”, “O debate sobre o Marco Civil na Internet”, “O blog e a ciberpolítica”, “Internet e Ministério da Cultura”, “Democracia e Monitoramento”, “O fenômeno wikileaks”, “Movimentos sociais na era digital”. Ou seja, os grandes temas analisados pelos especialistas da interface Comunicação e Política – doravante - podem ser compartilhados na internet, o que revigora o trabalho de interpretação da cultura política mediada pelas tecnologias colaborativas.<br />Estratégias políticas e informacionais: Da tecnocracia à digitofagia<br />Hoje, no campo da comunicação a batalha se dá em defesa dos creative commons, na luta em defesa do copyleft, software livre, redes gratuitas, banda larga para todos. E o que está em jogo neste processo são os modos de acesso à informação proativa, acerca das atividades básicas, como educação, saúde, transporte, trabalho, segurança, mas também o acesso às diversas modalidades socioculturais e políticas que podem regular o desnivelamento dos fluxos informacionais. <br />No que respeita às culturas híbridas latinas, brasileiras e à diversidade regional do Brasil, o desafio que se impõe é mapear as formas políticas, econômicas e sociais, que se delineiam nesse contexto. É preciso considerar que os seus espaços e tempos são desbalanceados e atravessados por processos verticalizantes e excludentes, necessitando, portanto, de novas estratégias de ação.<br />A especificidade do hibridismo cultural brasileiro (e latino) modela características particulares na vida cotidiana, inclusive nos modos de usar, “modos de fazer” (e de interagir diante das tecnologias), como afirma, num outro registro, Michel de Certeau, em A invenção do Cotidiano (1980) . Esta condição se expressa igualmente numa linhagem de pesquisa informada pelos “estudos culturais”, como aponta Yudice, em A conveniência da cultura: usos da cultura na era global (2004) e, numa outra perspectiva, Maffesoli, em Tempo das Tribos (1987) e Nomadisme: vagabondagens initiatiques (1997); ou ainda no instigante trabalho Net_Cultura 1.0: Digitofagia (ROSAS & VASCONCELOS, 2006).<br />A concepção da digitofagia (surgiu do) pensar uma prática antropofágica que reatualizasse esse ideário no contexto da cultura digital, reabastecendo seu viés libertário. Para tanto, abraçar práticas espontâneas na cultura contemporânea brasileira, como a pirataria, os camelôs e a gambiarra, seria, quem sabe, uma forma de trazer a mídia tática para um campo mais familiar e cotidiano aos praticantes, teóricos e ativistas brasileiros, e também publicamente expor o sentido da colaboração nas trocas de informações, fazeres e recursos materiais, a parafernália tecnológica compartilhada para ações coletivas. <br />(ROSAS & VASCONCELOS, 2006, p. 11). <br />Trata-se de uma provocação estimulante o projeto da “digitofagia” e pode iluminar arestas num contexto difuso como o nosso, em que as identidades (ou identificações) e as sociabilidades (ou socialidades), considerando o caráter nômade e mutante da cultura das redes sociais, celeiro dos cibercidadãos e da democracia virtual.<br />A web nos torna locais e globais simultaneamente; esta é a condição da nossa cibercidadania. Mais uma vez precisamos estar atentos para as raízes e antenas, as emanações da história e do cotidiano; outra vez é preciso recorrer às epistemologias transversais para contemplar a paisagem da latinidade no contexto da globalização. <br />No que concerne à interface comunicação e tecnologia, no contexto brasileiro e latino-americano, Barbéro tem participação efetiva neste debate. Desde a obra de referência, Dos Meios às mediações (1997), incluindo os estudos sobre a “alteridade tecnológica” (1985) e o livro Exercícios do ver (2001), em colaboração com o psicólogo German Rey, tratando da conexão entre a oralidade e a tecnologia, até a sua defesa da utilização da “inteligência coletiva (e conectada)” e do “empoderamento social”, no enfrentamento dos problemas econômicos, políticos e culturais (CISECO, 2010). <br />Cumpre ressaltar a maneira como as empiricidades fornecidas pela cibercultura não cessa de engendrar novas investigações, resultando num acervo privilegiado para as novas gerações de pesquisadores .<br />O pensamento crítico, vigilante, interpretativo aliado a gestão dos processos tecnocomunicacionais, articulados pelos “atores em rede”, interligados na “inteligência coletiva conectada” tem promovido agenciamentos desencadeadores de modalidades expressivas de empoderamento. A interação dos “actantes” (conforme conceitua Latour) propicia estratégias dinâmicas, que transformam o ciberespaço num campo de forças produtivas, políticas, revigorantes.<br />Para Latour, entre objetos, idéias ou pessoas, não existe qualquer espécie de diferença ontológica. Todos são “atores” (ou actantes), dotados de força própria e de capacidade de produzir efeitos no mundo. Por isso, nenhuma teoria ou idéia que busque reduzir a heterogeneidade do real a algum princípio unificador é efetivamente satisfatória. Nem o deus da religião, nem o inconsciente da psicanálise, nem o “poder” de Foucault conseguem traduzir adequadamente essa perspectiva. Todos os seres, animados ou inanimados, orgânicos ou inorgânicos, materiais ou imateriais, conscientes ou inconscientes localizam-se no mesmo patamar ontológico (“on the same footing”, como não se cansa de repetir Harman). Como bem explica nosso comentarista, “o mundo é uma série de negociações entre uma multiforme armada de forças, os humanos entre elas, e um tal mundo não pode ser dividido nitidamente entre dois pólos preexistentes chamados ‘natureza’ e ‘cultura’ ”.<br />Bruno Latour, o Príncipe das redes. In: Blog Carpintaria das Coisas (FELINTO, 17.05.2010) .<br />Mobilidade e Poder nas Redes Sociais<br />Na era das conexões globais, convergências e mobilidades, é difícil capturar o sentido das identidades, sociabilidades e empoderamentos sem recorrer à grande cartografia infoglobal, na qual nos inserimos e com a qual interagimos.<br />É importante sublinhar a emergência de vigorosas práticas sóciotécnicas em curso na organicidade da vida vivida, aproximando um pouco mais as dimensões da modernidade tecnológica e a vontade de modernização social e política. <br />Servem de exemplos os Pontões de Cultura, “entidades reconhecidas e apoiadas financeira e institucionalmente pelo Ministério da Cultura, que desenvolvem ações de impacto sócio-cultural em suas comunidades”; e a criação do Pontão Digital, que possui as mesmas funções dos Pontões de Cultura, porém, com a peculiaridade de utilizar predominantemente os meios digitais na promoção de suas atividades. E, analogamente, destacam-se as experiências dos Telecentros, uma estratégia de democratização e inclusão digital, “um espaço público onde pessoas podem utilizar microcomputadores, a Internet e outras tecnologias digitais que permitem coletar informações, criar, aprender e comunicar-se com outras pessoas, enquanto desenvolvem habilidades digitais essenciais”. (Cf. Wikipedia, 13.05.2011).<br />E para elaborar uma práxis teórica destas experiências, cumpre consultar o livro Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea (Lemos, 1996), assim como outros trabalhos de fôlego do autor, registrados no seu blog “Carnet de Notes”, até a coletânea Comunicação e Mobilidade, Aspectos socioculturais das tecnologias móveis de comunicação no Brasil, em parceria com Josgrilberg (2009) e a obra recente, com Pierre Lévy, O futuro da internet; em direção a uma ciberdemocracia planetária (2010). Ou seja, Lemos apresenta um sólido alicerce teórico-conceitual para compreendermos os processos sócio-técnicos, culturais e comunicacionais, reunindo pesquisa empírica, reflexão e síntese das tendências atuais, no Brasil e no mundo.<br />Diante do complexus da sociedade em rede, a percepção tout court racionalista, cartesiana e lógico-dedutiva é confrontada com outra geografia de pensamento, que inclui, por um lado, as investigações de Edgar Morin, focalizando as interconexões e complexidades socioculturais e políticas globais, o que abrange os insumos tecnológicos, e por outro lado, o trajeto antropológico composto por uma legião de pensadores e estudiosos, como Bachelard, Durand, Maffesoli, Rocha Pitta, Machado da Silva e outros instigando uma decifração da cultura digital, pela leitura da força simbólica que – antropologicamente - estrutura os laços sociais.<br />Esta “nova realidade eletrônica” tem sido historicamente vasculhada por distintos pensadores preocupados com a conexão entre o homem e a tecnologia, desde Alvim Tofler, A terceira Onda (1980), passando por Fritjof Capra, O ponto de Mutação (1983), e o ícone teórico da contracultura norte-americana, Theodor Roszak, O culto da informação: o folclore dos computadores e a verdadeira arte de pensar (1988); toda um legado especulativo, analítico e explicativo, que, vai irrigar o imaginário dos pesquisadores do ciberespaço durante anos. Em tempo, nessa perspectiva conviria apontar a obra A pele da cultura, Investigando a nova realidade eletrônica. (De KERCKHOVE, 2009), atualizando a discussão numa ótica “pós-McLuhaniana”.<br />Sob prismas diferenciados, organiza-se um repertório importante de expressões, diagnósticos e explicações sobre o fenômeno de intersecção da tecnologia & comunicação e suas repercussões no contexto da civilização. Estes estudos constituem passagens obrigatórias para uma compreensão histórica e social, e contribuem para uma mediação, face à inserção das “máquinas inteligentes” na vida cotidiana.<br />Uma interpretação fenomenológica da cultura digital<br />Mirarmos a comunicação digital na perspectiva de uma “antropologia interpretativa” (GEERTZ, 1989) significa contemplar a interface das culturas humanas com as tecnologias; significa interpretar a lógica interna dessa cultura tecnológica, observando as articulações do fenômeno com o mundo da natureza e da sociedade.<br />Por esse prisma, é instigante examinar como funcionam as suas relações com as formas ético-políticas, místico-religiosas, materiais e simbólicas, e como isto repercute nos estilos de apropriação das linguagens e empoderamentos sócio- tecnológicos.<br />Nessa direção, são esclarecedoras as idéias de Gleiser, em A dança do Universo (1997), que, explorando as interligações entre as ciências duras e as ciências do espírito, lança-nos para outra margem do pensamento, o que nos concede distanciamento e nos permite compreender melhor as experiências da comunicação na era digital.<br />Igualmente instigantes são as investigações de Zielinsky, filósofo-cientista, mago da comunicação que, como um autêntico hermeneuta, realiza uma “arqueologia da mídia, em busca do tempo remoto das técnicas do ver e do ouvir” (2006).<br />(Zielinsky) propõe, para a geração que começa a trabalhar com a imaginação nos mundos da mídia, ser de vital importância saber que uma abordagem mágica, em relação à tecnologia continua a ser possível, assim como assegurar que o investimento nessa abordagem é significativo. “Esses equipamentos não estão à espera para ser descobertos pelos ativistas midiáticos de hoje, como foi o caso em relação aos movimentos de vanguarda da década de 1920, dos pioneiros do pós-guerra da arte, dos fluxos, da ação e dos conceitos, do vídeo ou dos primeiros networkers. Pelo contrário, eles estão cercados por todos os lados por equipamentos e sistemas técnicos padronizados. Encontrar um caminho através de tudo isso - e conseguir uma expressão criativa e original - não é tarefa fácil. (...) A atitude de uma moderna Teoria das Mediações, em contraposição àquelas Teorias da Comunicação que se ocupam meramente dos produtos e da produção, (...) uma teoria deveria se ocupar, por um lado, com as raízes profundas, ou com o tempo profundo da mídia, uma arqueologia que desobstrua o passado e recupere uma real dimensão dos meios (de comunicação); por outro deveria voltar-se para as projeções e desdobramentos futuros. Uma visão ecológica avant la lettre, na medida em que pensa longos trajetos e seus possíveis impactos sobre o ambiente comunicacional. <br />In: BAITELLO JR, apres. Arqueologia da Mídia (ZIELINSKY, 2006).<br />Faz-se necessário explorar as interfaces da cibercultura enfrentando os paradoxos e idiossincrasias do pensamento social, que tanto se estabelecem nas conversações corriqueiras na praça pública, quanto nos debates acadêmicos e no âmbito dos mercados especializados. É importante perceber as diferentes maneiras como os indivíduos interagem nos ambientes gerados pela “terceira onda” do ciberespaço porque as escolhas, respostas, usos e gratificações dos atores sociais face às máquinas de comunicar, principalmente com as mídias locativas, são geralmente imprevisíveis.<br />Para uma visão atualizada sobre a cultura das redes, particularmente, focalizando os sistemas de poder e as legislações prevalentes, e para entender os modos de empoderamento dos indivíduos na sociedade informacional e suas estratégias de comunicação mediadas pelas redes sociais, convém acessar ao site e conhecer o livro Cidadania e Redes Digitais, do especialista Sergio Amadeu da Silveira (2010). <br />O autor focaliza diretamente o fenômeno das redes sociais abertas e colaborativas, citando exemplos de adoções bem sucedidas e fazendo a crítica das regressivas modalidades de controle por parte das corporações e do Estado. É conhecida a sua crítica e o seu combate frente à chamada Lei Azeredo, que – na visão dos cibermilitantes – consiste numa forma de controle e retrocesso para a liberdade de informação propiciada pelo ciberespaço.<br />O PLC (projeto de lei da câmara) incentiva o temor, o vigilantismo e a quebra da privacidade. Prejudica a liberdade de fluxos e a criatividade. Impõe o medo de expandir as redes. (...) O projeto de lei é tão absurdo que iguala os adolescentes que compartilham músicas aos crackers e suas quadrilhas que invadem as contas bancárias de cidadãos ou o banco de dados da previdência. (SILVEIRA, O.I, 01,07. 2008).<br />Silveira combate igualmente a estratégia política voltada para a tecnologia, do Ministério da Cultura, na gestão atual, apontando para o retrocesso que significa a retirada da licença do creative commons do site do Ministério.<br />Primeiro é preciso esclarecer que as licenças Creative Commons surgiram a partir do exemplo bem sucedido do movimento do software livre e das licenças GPL (General Public Licence). O software livre também inspirou uma das maiores obras intelectuais do século XXI, a enciclopédia livre chamada Wikipedia. Lamentavelmente, os lobistas do ECAD chegam a dizer que a Microsoft apóia o software livre e o movimento de compartilhamento do conhecimento. Segundo, o argumento do ECAD de que defender o Creative Commons é defender grandes corporações internacionais é completamente falso. As grandes corporações de intermediação da cultura se organizam e apóiam a International Intellectual Property Alliance® (IIPA, Associação internacional de Propriedade Internacional) e que é um grande combatente do software livre e do Creative Commons. (SILVEIRA, 30.01.2011)<br />Enfrentamos os paradoxos e contradições da nossa modernidade tecnológica, procurando transcender os espectros de crise e pessimismo. Apostamos ser possível nos instalarmos no interior deste sistema e descobrir as estratégias de comunicação contribuindo para a reversão das adversidades, e neste sentido os meios interativos podem se constituir como vetores favoráveis.<br />Uma perspectiva estimulante se apresenta na obra A sociedade enfrenta a sua mídia, dispositivos sociais de crítica midiática (BRAGA, 2006). Uma articulação de temas no âmbito da cultura midiática, que se efetiva a partir da eleição de três objetivos: <br />a) observar empiricamente lógicas do processo crítico-interpretativo da mídia pela sociedade; b) desenvolver o conceito de sistema de resposta social sobre a mídia; c) estabelecer bases mínimas para uma perspectiva praxiológica, para comentar criticamente as práticas do sistema. (BRAGA, 2006, p.339).<br />E no que concerne ao nosso objeto de estudo, a temática do ciberespaço, Braga dedica um capítulo ao estudo do site “Ética na TV – Campanha “Quem financia a baixaria”. O autor explica que “o objetivo da campanha é promover o respeito aos direitos humanos e à dignidade do cidadão nos programas de televisão” (BRAGA, 2006, p. 232). Paulo Paz faz a apresentação da obra e por esse prisma podemos entender que José Luiz Braga “apresenta uma contribuição para a teoria da comunicação”, e nos leva a vislumbrar uma modalidade específica da crítica do ciberespaço:<br />A circulação própria do sistema de resposta não é aquela que faz chegar o produto da mídia ao indivíduo, e sim aquela que se inicia após o consumo; a circulação é diferida e difusa, após a recepção, e sem necessariamente passar por grupos organizados e instituições. <br />(BRAGA, 2006, p. 15).<br />Daí, podemos concluir que existe uma inteligência crítica social, um exercício da crítica do (poder e do) ciberespaço, que se efetiva nos campos da produção, recepção e circulação das mensagens. Uma leitura mais detida do trabalho nos mostraria os níveis de atuação dessa inteligência, que o autor nos mostra envolvida na designação de “dispositivos sociais de crítica midiática”. E no que diz respeito à nossa investigação, particularmente, ao tópico da Cibercultura, às formas de poder e de empoderamento social, a sua contribuição não poderia ser mais pertinente.<br />Novas empiricidades e novas estratégias na sociedade em rede<br />Discutimos aqui a comunicação, em suas interfaces com as dimensões da cultura e sociedade, tendo em vista o contexto brasileiro. Para avançarmos eticamente e politicamente na discussão, é preciso conciliar os elementos esclarecidos da tradição crítica com as potências inovadoras e as ações afirmativas emergentes. De olho no cenário contemporâneo, através dos meios de comunicação, verificamos que existe uma efervescência coletiva em torno das tecnologias inteligentes. Aliás, isto é algo que se projeta com astúcia e sensibilidade nos diversos campos da ação pragmática.<br />No ramo da atividade político-partidária enxergamos como o voto digital tem inibido as fraudes eleitorais, num país com regiões historicamente marcadas pelo coronelismo e pelo chamado voto de cabresto. Num outro registro, entendemos que nas localidades em que os fluxos comerciais se perfaziam mais lentamente, a informatização tem agenciado uma economia de trocas mais ágil gerando bons dividendos.<br />Por meio dos novos movimentos artísticos, encontramos expressões atualizadas que traduzem as novas sensibilidades acústico-musicais cotidianas; ou seja, desenham-se no mundo da cibercultura, modalidades de empoderamento que se articulam pelo viés da “razão sensível”, das tecnologias da musicalidade. Neste sentido são pertinentes as análises realizadas por Simone Sá (Rumos da Cultura da Música, 2010)<br />Enfim, novas experiências se desenham no espaço de virtualidade da internet, por exemplo, nas páginas eletrônicas de várias organizações que têm aliado as expressões locais, marketing cultural, folclore e turismo promovendo experiências notáveis de desenvolvimento local.<br />No plano das estruturas do cotidiano há novos modos de interação e sociabilidade mediados pela tecnologia, que animam os diálogos e as conversações dos indivíduos e grupos, criando um estilo específico de redes sociais. Por vezes funcionam como vetores de lazer e entretenimento, mas também otimizam o trabalho nas ONGs e instituições sem fins lucrativos, voltadas para as estratégias de desenvolvimento social.<br />Incluímos aqui os exemplos demonstrados por Denis Moraes, monitorando as estratégias de ação afirmativa, na obra O concreto e o Virtual (2001), em que nos fornece uma (n)etnografia das instituições e organizações atreladas aos projetos de autonomia, emancipação e desenvolvimento social, e aí se inscrevem os organismos da sociedade civil que decidiram apostar na web:<br />O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria e pela Vida, Anistia Internacional, a Rede Telemática de Direitos Humanos (Dhnet), o Human Rights Watch, o Geenpeace, SOS Mata Atlântica, o Fundo Mundial para a Natureza, a Rede de Informações do Terceiro Setor (Rits), a Federação de Orgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), a Comissão Pastoral da Terra, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Global Exchange, o Social Watch, a Confédération Internationale des Syndicats Libres, o Fórum Nacional pela Democratização dos Meios de Comunicação, a Ação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (ATTAC), a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), o Enfants du Monde, o Centro de Educação Sexual (CEDUS), Women Rights, o Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) e o Médico Sem Fronteiras. (MORAIS, 2001).<br />É importante observar a eficácia dos regimes de comunicabilidade que estruturam os serviços na “sociedade em rede”, na medida em que os novos formatos implicam mutações evolutivas na divisão do trabalho. A informatização social tem propiciado favoravelmente a otimização dos recursos nas áreas da saúde, agricultura, política, jornalismo, arte, economia e educação.<br />Para concluir esta parte de nossa investigação, diríamos que cumpre discutir os processos educacionais, cognitivos, estéticos, políticos e comunicacionais que interagem no contexto das redes sociais. E compartilhamos aqui a preocupação com os modos como as novas tecnologias têm contribuído para o aprimoramento das condições de ensino, pesquisa e extensão nos quadros do ensino superior, o que significa uma modalidade inédita de empoderamento coletivo entre nós.<br />É preciso considerar a importância da universidade nos espaços socioeconômicos, políticos e culturais, cujos níveis de participação dos atores sociais na esfera pública se mostram desbalanceados. E é preciso igualmente considerar a relevância do mercado dos bens simbólicos em circulação no cotidiano midiatizado, em que proliferam competências e saberes que levam os atores sociais, como “actantes”, a participar ativamente dos processos de decisão. Além disso, faz-se necessária reconhecer a pertinência do hibridismo e da convergência dos campos (academia, mercado e comunidades) no contexto da sociedade, em rede, pois é a partir daí que se exprimem as novas correlações de força e as modalidades de empoderamento social.<br />Especificamente, caberia explorarmos os modos como as redes sociais - enquanto expressões da cultura de convergência - têm promovido melhorias no trabalho social da Comunicação. Conforme buscamos explicitar, este processo passa pelo crivo de uma politização do cotidiano, envolvendo a crítica dos usos (e abusos) dos dispositivos informacionais, no que concerne à interface Poder e Comunicação.<br />