Correio das artes novembro de 2011 (1)

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Contendo artigo sobre o livro DIONÍSIO NA IDADE MÍDIA. (Cláudio C. Paiva)

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Correio das artes novembro de 2011 (1)

  1. 1. 66
  2. 2. 6 editorialPelo conjunto da “obra” Correio das Artes, seguindo a um planeta isolado em meio à ga- O trilha aberta pela Associação das Empresas de Transportes Coletivos de João Pessoa (AETC-JP), que lhe outorgou a Para Joana, através de petições online e coleta de láxia. O universo de Joana exis- te e brilha exatamente por estar em guerra ou harmonia. A harmonia nasce do carinho homenagem maior de seu Prêmio que dedica aos que lhe são pró- de Jornalismo, presta também um assinaturas se ximos e do sonho de uma socie- tributo à jornalista, escritora e dade onde vigorem a liberdade e professora universitária paraiba- consegue botar a a justiça social. A guerra é de- na, Joana Belarmino, pelo con- clarada contra aqueles cujas ati- junto de sua "obra" política, boca no trombone e tudes comprometem o bem-estar profissional e existencial. da humanidade - leia-se os maus Nas redações, Joana deu exem- praticar a mudança. patrões, os assassinos, os la- plos de competência na cobertura drões, os corruptos etc e tal. dos fatos e na construção de tex- Além da homenagem a Joana, tos, de solidariedade e de insub- o Correio traz, como sempre, missão às determinações que feri- como uma alternativa real e efi- excelentes artigos versando so- am sua consciência e o código de caz de praticar a cidadania. Para bre diversos temas da cultura, ética da profissão. Na literatura, ela, através de petições online e notadamente literatura e cinema, leitora assídua e atenta que é, coleta de assinaturas se consegue além dos textos imprescindíveis colheu as lições que a tornaram botar a boca no trombone e ob- de sua equipe fixa de colunistas, cronista. E na cátedra, partilha ter êxito, praticar a mudança. formada por escritores e profes- com seus alunos o que os livros e A natureza impôs o primeiro sores universitários de notório a experiência lhe ensinaram. grande desafio, superado com a saber, em áreas como mitologia, Joana também filiou-se ao ci- crescente consciência de si mes- cinema, literatura e mídia. berativismo, pois, para ela, a in- ma, de seus limites e de suas pos- ternet possibilita alcançar públi- sibilidades. Hoje, Joana tem no cos de todas as idades e grupos centro de seu mundo a família e sociais, de modo que a rede surge os amigos, mas não se trata de O Editor6 índice , 4 @ 16 D 19 2 21 ESPECIAL CINEMA MEMÓRIA CRÍTICA A trajetória de sonhos, luta e A professora Genilda Versos eivados de emoção, ‘A representação minimalista superação da jornalista, Azerêdo “coteja” o filme saudade e revolta. Assim é de O Quadro-Negro’, de escritora e professora Joana Bright Star, de Jane ‘meu jovem filho’, do poeta Ernani Sátyro, é o título do Belarmino, na reportagem Campion, com a poesia do e professor da UFPB, artigo da professora de Vanessa Furtado. inglês John Keats. Amador Ribeiro Neto. Ângela Bezerra de Castro. Suplemento mensal do jornal A UNIÃO, não pode ser vendido separadamente A União Superintendência de Imprensa e Editora Secretário Est. de Diretora de Operações Editoração Comunicação Institucional Albiege Fernandes Paulo Sérgio de Azevedo BR-101 - Km 3 - CEP 58.082-010 - Distrito Industrial - Nonato Bandeira João Pessoa - PB Editora Geral Ilustração PABX: (0xx83) 3218-6500 - FAX: 3218-6510 Superintendente Beth Torres Domingos Sávio e Tônio Severino Ramalho Leite Redação: 3218-6511/3218-6512 Editor do Correio das Artes Foto da Capa ISSN 1984-7335 Diretor Administrativo William Costa João Lobo editor.correiodasartes@gmail.com José Arthur Viana Teixeira Supervisor Gráfico Revisão Antônio Moraes http://www.auniao.pb.gov.br Diretora Técnica Paulo Sérgio de Azevedo Beth Torres
  3. 3. FOTOS: JOÃO LOBO6 reportagem Joana Belarmino, A beleza de viver sob a verdadeira luz Vanessa Furtado oana Belarmino tinha apenas seteJ anos de idade e estava descobrin- do o encanto das letras e o poder das palavras, quando o mundo mágico de Monteiro Lobato lhe foi apresentado por uma profes- sora. Encantada com a obra que a instigava e desafiava na busca por novas aventuras, ela se deixou le- var por entender que o caminho para enfrentar as dificuldades que o mundo lhe reservava e, con- sequentemente, desenvolver seu potencial, estava escondido em páginas de livros, à espera de sua curiosidade.4 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  4. 4. Assim, a hoje jornalista, professora e escritora en-tregou-se ao prazer da leitura e passou também aescrever e narrar suas próprias histórias. Descobriuque a visão não é definida pelas imagens que se pro-jetam na retina, e que seus sonhos e fantasias sãoreais, sendo a sua imaginação tão rica e poderosaque é capaz de maravilhar crianças e adultos. “À medida que fui aprendendo a ler, fui tambémme aproximando cada vez mais da literatura a pon-to de recriar as histórias a meu modo e a contá-lascom dramaticidade a meus irmãos”, disse Joana,durante entrevista concedida ao Correio das Artes, nasala de seu apartamento, no bairro do Cabo Branco,em João Pessoa. Qualquer lugar servia e todo mo-mento era uma oportunidade para ela exercitar ogosto pela narração que a impulsionaria, alguns anosdepois, a decidir-se pelo jornalismo como profissão. Joana contou que o jornalismo lhe satisfaz à medi-da que ela tem a oportunidade de contar históriaspeculiares da vida da cidade e de personagens àsvezes comuns, às vezes excêntricos, mas confessa quegostaria mesmo é de ter sido escritora de históriasinfantis. “Ainda me aventurei pela literatura infan-til e publiquei, de forma independente, uma reuniãode contos para crianças em 1979. Quatro anos de-pois, publiquei pela Editora Moderna, em quatro edi-ções, Dartanhan, Um Gato com Gosto de Pinto, e, no fim dadécada de 1990, lancei, pela Editora Ideia, Era UmaVez Uma Vírgula”, ressaltou. Joana não apenas lia, mas recriava a seu modo o que lia A IMPORTÂNCIA Machado de Assis pela primeira vez. “Eu DA FAMÍLIA progredi rapidamente e passei a ler tudo o Se o incentivo da família e dos profes- que aparecia e as obras desses autores me sores é importante para o desenvolvimen- influenciaram de forma muito positiva. to saudável das crianças, ele se torna fa- Graças à literatura eu me fortaleci, enquan- tor fundamental para a educação de defi- to pessoa, e aprimorei minha escrita e mi- cientes visuais. No caso de Joana Belarmi- nha intelectualidade”, afirmou. no, a experiência com os livros proporcio- Quando a adolescência lhe bateu à por- nou uma melhor percepção das muitas ta, Joana Belarmino já havia moldado em informações do ambiente, e se tornou re- si um aguçado olhar interior e a poesia foi levante para seu crescimento e continui- a forma escolhida para expor sua sensibi- dade de sua aprendizagem. “Tive uma in- lidade. Com a percepção mais desenvolvi- fância feliz, no entanto, como deficiente da sobre as artes, ela escrevia sobre as su- visual, enfrentei muitas frustrações. Eu era tilezas do que ouvia, tocava e sentia. A pe- fascinada por esportes que eram pratica- culiaridade presente na maneira como re- dos com o uso de bola, mas nunca prati- conhecia o mundo proporcionou brilho, quei e, quando fui estudar em escola co- contraste e colorido especial a seus versos mum, vi que as pessoas não estavam pre- e foi transplantada para sua vida pessoal. paradas para lidar comigo”, revelou. Para Atualmente, as experiências que presencia compensar a ausência dessas experiênci- em seu lar, em seu trabalho e no mundo que a as, Joana fortaleceu sua personalidade, cerca são reveladas de forma extremamente aprimorando a habilidade de contar boas fina e sensível no blog que ela mantém na in- histórias e jamais se rendeu ao medo. ternet. Através do joanabelarmino.zip.net, a Ela lembra, com alegria, da sensação ain- escritora tece comentários críticos e narrati- da gravada no peito de estar lendo obras vos de recortes da realidade que de alguma de Monteiro Lobato, José de Alencar e maneira despertaram sua atenção.A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 5
  5. 5. “Não sei explicar ao certo o porquê, mas sou fascinada por entender o momento humano que antecede o fim.”FIM DE TARDE, cia. Por isso, ela mantem o hábito de escrever contos e participa de coletâneas e de encon-VELHICE E MORTE tros, a exemplo do Circuito Universitário, da “Os temas sobre os quais constantemente Associação dos Docentes da Universidade me debruço são: a morte, os fins de tarde e a Federal da Paraíba (Aduf-PB) e do Clube do velhice. Não sei explicar ao certo o porquê, mas Conto da Paraíba. sou fascinada por entender o momento huma- Para Joana, desvencilhar-se de seus pró- no que antecede o fim”, salientou. Para Joana prios sentimentos e escrever uma obra com- Belarmino, o tempo é registrado e entendido pletamente diferente de si é algo, por enquan- de forma especial, e essa peculiaridade é ins- to, impossível. Requer um amadurecimento piradora. “Me surpreendo sempre com o pul- e uma capacidade de abstração e indiferen- sar de vida que há em cada lugar. Muitas ve- ça incompatíveis com sua personalidade. “Já zes estou em casa, concentrada em meus afa- tentei, mas não consegui. Em cada um de zeres e de repente sou despertada pelo cheiro meus textos há sentimentos, fatos e emoções do café na casa da vizinha, pelo doce barulho próprios de meu coração. Costumo afirmar do retorno das crianças depois da escola e pelo que ainda não alcancei o grau desejável de ritmo crescente de veículos que levam pessoas maturação e que minha escrita é terapêuti- de volta a seus lares. Essa magia requer regis- ca”, sublinhou. tro e é isso o que faço”, explicou. Indisciplinada, mas muito criativa, Joana Joana foi casada durante 13 anos com o poe- confessou o seu desejo de escrever um livro ta Lau Siqueira, com quem teve duas filhas apenas com romances implícitos em frases (Mariana e Mayra) e uma neta (Gabriela). Com de livros, histórias de personagens passa- ele, a jornalista publicou o livro de poemas e geiros em romances, mas cujas aparições contos O Comício das Veias. “Lau é um homem são suficientes para desencadear questiona- muito importante em minha vida. Nossa fa- mentos sobre o futuro, que atitudes teriam mília foi um presente e as experiências profis- tomado, se foram felizes ou não. A inspira- sionais foram enriquecedoras”, declarou. ção para seus contos e crônicas surge de sen- A capacidade que a literatura possui de en- timentos muitas vezes antagônicos – a pai- volver o seu humano nos mais diversos sen- xão e a tristeza –, mas que preparados com timentos, e de fertilizar interesses e emoções atenção, talento e uma pitada de racionali- é, segundo Joana, de fundamental importân- dade, garantem o sucesso.6 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  6. 6. O JORNALISMO lhou, durante quase nove anos, na redação. Outro desafio marcante na carreira desta– DESAFIOS E VITÓRIAS jornalista, na redação de O Norte, aconteceu Tímida e com dificuldades de relacionamen- durante a cobertura de uma manifestação de to, Joana Belarmino teve a vida transformada estudantes no Centro Universitário de João a partir do instante em que passou a fazer par- Pessoa (Unipê). “Fui enviada para acompa- te do quadro de alunos do Curso de Comuni- nhar a tentativa dos alunos de invadir a sala cação Social, com habilitação em Jornalismo, onde funcionava o DCE, mas fui sozinha, o fo- da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). tógrafo não pôde me acompanhar. Ao chegar Como uma borboleta que sai do casulo, ela en- lá eu me senti muito insegura e, quando os sol- xergou-se, pela primeira vez, como uma pes- dados realizaram a formação, eu achei que eles soa normal. fossem invadir. Neste momento eu não tinha “Foi na UFPB que conheci as pessoas que se a dimensão da cena que se desenrolava na tornaram meus grandes amigos e pude desen- minha frente e me senti vulnerável, mas foi aí volver todas as minhas potencialidades. Par- que superei e, com dificuldade, consegui en- ticipei de Movimento Estudantil e de uma sé- trevistar o tenente que estava comandando os rie de atividades que a academia me oferecia”, soldados e voltei para a redação com um exce- lembrou. Mas os desafios para esta paraibana lente material”, relatou. estavam apenas começando e, por vezes, ela Durante as entrevistas, Joana costumava precisou abrir mão de mais um sentido para utilizar um gravador ao mesmo tempo em que permanecer no sonho. “Muitas pessoas me di- fazia as anotações em braile, que é o sistema ziam que ia ser difícil e que eu não teria suces- de escrita e leitura para cegos. Alfabetizada so, mas eu era jovem e não dei ouvidos a elas, através de um grupo de pontos, costumeira- prossegui no curso e me graduei”, acrescen- mente utilizados para encerrar as frases, mas tou. que agrupados constituem 63 símbolos dife- Ainda enquanto estudante da UFPB Joana rentes, que servem para representar caracte- se aventurou e produziu quatro grandes re- res na literatura, matemática, informática e portagens para uma revista da instituição. música, Joana tem escrito sua própria histó- Com apoio do irmão - que a acompanhava - e ria. uma câmera fotográfica ela registrava os mo- Segundo ela, o medo de errar, de não conse- mentos que iriam compor as páginas, e pro- guir, de decepcionar sempre existe. No entan- vou para todos e, especialmente, para si mes- to, é exatamente este medo o responsável por ma, que este sonho era possível. ensinar algumas das mais importantes lições, Passado algum tempo, e já diplomada, a en- entre elas, a de que é preciso avançar, sempre. tão jornalista Joana Belarmino recebe convite do jornal O Norte, de João Pessoa, e passou a trabalhar na empresa. Ela recordou os con- tratempos enfrentados como detalhes essen- ciais de uma experiência única, mas fez ques- A CONQUISTA tão de guardar no relicário da memória, o apoio DA CÁTEDRA cúmplice dos chefes e amigos que contribuiu Depois de superar os inúmeros desafios que para firmar a certeza de ter escolhido a profis- a redação de jornal lhe reservara, Joana Belar- são perfeita. mino partiu para uma nova etapa. Aprovada “Lembro em detalhes de meu primeiro dia em concurso público, ela se tornou, em 1994, na redação. Minha pauta era uma entrevista professora do curso de Comunicação Social da com a então secretária estadual de Educação, UFPB. “Foi a realização de um sonho. A possi- Giselda Navarro, sobre desvio de verbas. Fui bilidade de passar meu conhecimento de aca- no carro da reportagem e, quando cheguei ao demia e de profissional me trouxe energia”, local, aprendi o significado do termo ‘chá de acentuou. cadeira’. Depois de algumas horas ela me rece- As qualidades de mulher inquieta e de pro- beu e a entrevista rendeu bem”, recordou. fissional questionadora foram levadas para dentro da UFPB e, a partir de então, Joana tem Mas, para quem acha que encarar ambien- se destacado como uma das docentes mais em- tes e pessoas completamente desconhecidas e penhadas em levar ensino de qualidade aos “arrancar” delas as informações que precisa estudantes daquela instituição. “Tento man- sem enxergá-las foram os maiores desafios en- ter um diálogo estreito com outras interfaces, frentados por Joana, seria bom experimentar sejam elas a arte, a literatura ou mesmo as redigir uma reportagem de página inteira em histórias de vida de cada um”, destacou. uma máquina de datilografia e não poder cor- Joana disse que ao longo dos seus 17 anos rigi-la. E foi exatamente assim que ela traba- como professora descobriu que o ensino é umA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 7
  7. 7. contrato e que, para dar certo, é necessário que todos os envolvidos colaborem. Através de métodos criativos e eficientes, ela tem conquis- tado o comprometimento de seus alunos, con- seguindo, assim, desenvolver neles qualida- des fundamentais para a formação do bom profissional de comunicação. “Procuro ques- tionar os conceitos deles sobre a ética profissi- onal e fazê-los enxergar a importância do diá- logo constante com a literatura. A escrita é o instrumento do jornalista e desenvolver um bom texto, com narratividade e criatividade, é fundamental”, justificou. Questionada sobre o preconceito em sala de aula, ela diz que jamais foi hostilizada por sua condição física e que a maior parte dos estudantes é respeitosa. Convicta de que seu grande diferencial não é o fato de ser defici- ente visual, mas a maneira como trabalha, como orienta seus alunos, Joana tem plena convicção de que o estigma de seu corpo não pode ser um atributo depreciativo, e que a interiorização de quem ela é, realmente, é o que garante sua felicidade.NA ARENA DASREDES SOCIAIS Durante a aventura de se tornar doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC–SP), em 2004, Joana Belarmino se rendeu ao cibe- sibilitado uma interação valiosa entre a pro- rativismo e, hoje, é uma das pessoas mais in- fessora e seus alunos, à medida que dúvidas e fluentes do estado nas redes sociais. “Através alertas estão sendo transmitidos em tempo do avanço da tecnologia é possível que defici- real. O mesmo acontece entre a escritora e seus entes visuais tenham acesso a todos os meios leitores, que ao longo de 2011 experimentaram de comunicação e, assim, temos transforma- a criação do NanoRomance. O projeto uniu do a internet em uma grande arena de mobi- André Ricardo Aguiar, Beto Menezes, Joana Be- lização”, observou. larmino, Anderson e Raoni no objetivo de de- Usuária assídua das ferramentas que possi- senvolver personagens que decorreriam capí- bilitam trocas de informações instantâneas tulos ligeiros sobre os mais diversos temas. entre pessoas de todo o mundo, Joana tem de- O projeto encerrou-se em 2 de junho de 2011, senvolvido pesquisas e feito parte de fóruns e quando Joana Belarmino, última remanescen- grupos de discussão. Nestes movimentos, ela te, fez as malas e partiu. Zarpando para a “ge- e tantos outros exigem de políticos e da socie- leira azul da solidão”, ela deu adeus aos leito- dade civil providências para questões impor- res e amigos, afirmando que não sabe “tomar tantes, tais como cumprimento dos direitos café sozinha” e alegando que, com o tempo, do consumidor, direitos humanos, fim da cor- “até a ‘matilha’ de leitores se foi”. rupção, conservação da natureza, acessibili- No entanto, esta paraibana multifacetada dade e cultura de paz. ainda promete surpreender muita gente com “A internet possibilita alcançarmos públi- novas formas de educar, a publicação de li- cos de todas as idades e grupos sociais de modo vros inéditos e campanhas mobilizadoras em que o ciberativismo surge como uma alterna- redes sociais. Joana garante que não jogou as tiva real e eficaz de praticar nossa cidadania. chaves de sua criatividade ao mar, e que tem A cada dia damos um passo, e através de peti- “esquecido” fragmentos de si em pequenas ções online e coleta de assinaturas consegui- gavetas. Ao longo dos anos que se seguirão, mos colocar a ‘boca no trombone’ e obter êxi- certamente encontraremos tesouros que ape- to, praticar a mudança”, assegurou. nas as percepções de um “olhar” de guerreira Além disso, as plataformas virtuais têm pos- são capazes de nos permitir vislumbrar.8 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  8. 8. 6 conto Sonho de SábadoJoana BelarminoS onhou que ele vinha. Não tinha sido um sonho longo, cheio de detalhes. Algo como umtelegrama, por baixo do seu sono de lexotã, sílabas aparentemente desconexas a ditar-lheo inusitado. Chegaria com a fome do seu corpo, e lhe despiria as parcas roupas, ali, pertoda porta, e a pressa se transmudaria em contemplação, em diálogo de respirações etoques, em entrega. De manhã ergueu-se à pressa, e surrupiou, no mercadinho da rua paralela, o sabonetede erva-doce com que se lavaria. Banho frio e revigorante, a lhe escorrer em grosso cone do velho cano do pequenobanheiro, a lhe lavar todas as sujidades, a lhe purificar o espírito, aceso pelas promes-sas do sonho. Imaginou-lhe a barba de muitos dias, a acumular dos cheiros da sua vida incerta,e experimentou, no fundo do sexo, a pulsação excitante de o saber ali, a vasculhar seucorpo, a provocar-lhe ganidos íntimos nas entranhas untadas de paixão. A manhã de sábado trouxe o jogo improvisado dos meninos de sempre, a berrarcom suas vozes roucas e nasaladas. Dentro de casa, fervia o chá e lutava por fazer calar-se o vento de outono, afim deque não perdesse os ruídos das velhas sandálias dele, a subir a rua. Ele viria. Chegaria sem se anunciar, e ficaria a contemplá-la, da porta, antesde entrar, um cinismo quase terno a enrugar-lhe o lábio superior, a exibir afalha dentária. E com passo sorrateiro iria até a sua velha cama, e se deita-ria, quase sem barulho, e ela sentiria a paz de tê-lo ali, num sábadosuspenso no tempo, a tremer de paixão. O sol do meio dia, amarelado e triste, cedia lugar à tropelia dasnuvens. Ele viria com a chuva. A água a lhe molhar o velho casa-co, a se entranhar pelos seus cabelos, a lhe emprestar um chei-ro a cachorro molhado, cheiro que tanto a excitava. A rua anoiteceu, ainda era cedo da tarde. Ele viria. Trariao desassossego da pressa, a cachaça comprada ali, nobuteco da esquina. E a chuva grossa, feito marceneiro, desconjuntavapouco a pouco a sua certeza. Fazer alguma coisa. Re-começar. Banhar-se na tarde, entregar seu corpo aolatejar da água, correr, correr, encurtar o caminho,encontrar-se com ele no meio da chuva. E saiu porta a fora, e viu assombrada a força daágua a erguer sua casa ao colo, a destampar achaleira e entregar o chá fervido ao largo rio queera agora a sua rua. Ele viria. Ele viria com osbraços erguidos, e fariam amor do meio dachuva, no cimo da tormenta, a remarem suapaixão intensa sobre os frágeis toros da casadesmantelada. Jornalista, escritora e professoraA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 9
  9. 9. 6 imagens amadas João Batista de Brito brito.joaobatista@gmail.com É tudo mentira , - ou quase tudo cinema começou documental. Disso nin- esquecido. Quem hoje chamaria um fil- o guém tem dúvidas. O que os irmãos Au- guste e Louis Lumière fizeram em filmes de 1895 como A Chegada do Trem à Estação e A Saída dos Operários da Fábrica era realmen- me ficcional de “posado”? Uma ironia que não pode deixar de ser colocada é que, naqueles tempos primitivos do cinema ainda predomi- te documentário, no sentido amplo de re- nantemente documental, a ideia de gistro do real. Como os irmãos Lumière que cinema consistia no mero registro foram os primeiros divulgadores do novo da realidade era tão consensual que meio, o conceito de documentário se con- até as “poses” dos irmãos Lumière fundiu, por um tempo, com o conceito de passavam por verídicas. O Regador Re- cinema. Apesar dos experimentos técni- gado (1895), por exemplo, é um filme cos do prestidigitador Georges Méliès, todo “posado”, e, contudo, esse lado que investiam na fantasia e no surreal, ficcional não veio à tona para ninguém essa confusão perdurou e na primeira da época, em parte por culpa de seus década do século XX ainda se pensava autores que – estranhamente - defen- uma coisa pela outra. deram sempre firmemente a ideia de No Brasil daquela época, por exemplo, que o cinematógrafo fora concebido o documentário era tão comum que, nos para o exclusivo registro do real. poucos circuitos de exibição, os filmes Essa equação cinema=documentário foi, não-documentais eram anunciados como como se sabe, corrigida pelo tempo, e o “posados”, e o adjetivo significava que as século XX viu o desabrochar e a consa- pessoas que se viam na tela haviam ence- gração do seu oposto: embora eminente- nado (posado) a estória, que, verídica ou mente representacional (ou seja, nunca não, era narrada assim, a partir de suas abstrato), o cinema efetivamente consa- “poses”. O fato de que não havia um ter- grou-se como uma arte narrativa e ficci- mo para denominar os filmes que não fos- onal (se você quiser usar o termo antigo, sem “posados” deixa bem claro o predo- “posada”). Sem se extinguir, o documen- mínio do cinema documental, certamen- tário diminuiu de tamanho: deixou de te entendido como o normal. Com o pas- ser sinônimo da arte cinematográfica sar do tempo, os “posados” (principal- como um todo e sensatamente acomo- mente os advindos da então emergente dou-se no conceito de gênero, ao lado dos Hollywood) tomaram conta do mercado: tantos outros existentes. eram tantos, e os documentais tão escas- Mas é neste ponto que aparece um sos, que o adjetivo caiu em desuso e foi equívoco crucial, recorrente nos meios c10 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  10. 10. 6 imagens amadasc cinematográficos. Por ser o gê- nero documentário entendido como “cinema sem ficção”, isso passou, para muita gente, a ideia de que um filme documental mostraria o real tal qual ele é, ou seja, sem interferência do ci- neasta – para usar uma expres- são de Roland Barthes, uma es- pécie de grau zero de linguagem, ou seja, uma forma de discurso em que o enunciado (o filme em si), cedeu lugar à enunciação (a realidade filmada) e sequer che- gou a nascer. A noção de um tal cinema do- cumental idealmente puro, e, portanto, hiper-realista, não foi só dos irmãos Lumière e, ao lon- go da História, ela ressurgiu em vários momentos, com nomes Auguste e Louis Lumière variados. Nos anos cinquenta- sessenta, essa noção teve um no real, pois o real é assimétrico, renascimento significativo com A noção de um tal disperso, caótico: não é montado. o etnólogo Jean Rouch, que pas- cinema documental Como se sabe, é comum que sou a propor e fazer um “cine- um documentário tenha um co- ma-verdade”, esse que fala por idealmente puro, e, pião extremamente longo (em al- si mesmo, como se à revelia de guns casos, com dezenas de ho- quem filma. Ora, que essa pure- portanto, hiper-realista, ras de duração) que não seria vi- za de linguagem não faz sentido não foi só dos irmãos ável para público algum assistir. por uma razão muito simples: Uma tarefa do documentarista é embora desejada por alguns, ela Lumière. sistematicamente cortar, deixan- é semioticamente impossível, o do de lado milhares de fotogra- que também equivale a dizer: mas, e escolhendo o que o públi- cientificamente impossível. co vai ver, e em que ordem o verá. Como nos explica Ferdinand de Bastaria o cotejo das duas metra- Saussure nos seus ensinamentos gens (duas horas para o filme linguísticos, toda linguagem é fei- pronto e dez para o copião, diga- ta de escolhas. De escolhas e de mos...) para se ter uma ideia do combinações, é verdade, mas, es- um determinado assunto, e não grau de ingerência do autor so- tas também são escolhas, pois outro, ele já está fazendo uma es- bre a obra. A edição do som (fa- combinamos o que queremos do colha. Quando liga a câmera e fil- las dos depoentes e/ou voz em modo que queremos. A língua pos- ma o objeto escolhido, ele o enqua- over do autor) e, se for o caso (e sui um número dado de palavras dra e ilumina de uma determina- geralmente é) o acréscimo da e um número também dado de da maneira, e não de outra, e como música terminam por definir o regras, e, contudo, ao falar, você ele o enquadrou e o iluminou foi caráter pessoal, e, portanto, au- escolhe as palavras que quer usar escolha sua. Se formos recobrir o toral, de todo e qualquer filme e, sem quebrar a regra da inteli- processo inteiro, todas as etapas documental. gibilidade, as combina da forma da filmagem de um documentá- Agora, atenção, esse caráter que lhe apraz. rio implicam escolhas, mas, de pessoal, subjetivo, autoral, não Do mesmo modo, o gesto de fil- todas, talvez a montagem seja a concede ao documentário uma mar consiste num amontoado de que melhor ilustra a interferên- natureza ficcional. Pelo menos, escolhas que se superpõem e dão cia do cineasta sobre a forma e o necessariamente, não. Docu- ao resultado final um aspecto sentido do filme. Nessa etapa, o mentário e filme ficcional são a bem particular, um pouco menos cineasta – representado pelo rigor duas coisas diferentes que objetivo do que se quer, e um pou- montador, ou não – corta o que não podem ser confundidas. Bas- co mais subjetivo do que se ima- filmou e não quer manter, e mon- taria o velho termo “posado” gina. Por mais realista que queira ta as partes do filme do modo que (usado em um e proibido no nou- ser, quando um cineasta-docu- quer, normalmente buscando efei- tro) para assegurar a diferença. mentarista decide que vai filmar tos de sentido que não estavam A natureza de cada um é tão evi- c A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 11
  11. 11. 6 imagens amadasc dente que, suponho, não necessi- ta de definições. E mesmo o fato de certos documentários conte- rem momentos ficcionais e cer- tos filmes de ficção conterem tre- chos documentais – mesmo este fato não destroi a diferença entre os dois gêneros. O que iguala documentário e filme ficcional é algo que está mais embaixo – ou seria mais encima? –: o fato de que ambos são autorais. A colocação é im- portante para a reflexão sobre a relação do documentário – e por tabela, do cinema em geral - com a realidade. Ao afirmarmos que um filme documental é tão auto- ral quanto um filme ficcional, ne- A Chegada do Trem à Estação (1895), dos irmãos Auguste e Louis Lumière cessariamente implicamos que a realidade que nele aparece não coincide de todo com – se for pos- am? A rigor, porque os Lumière, um filme ficcional sobre sível o pleonasmo - a “realidade de propósito ou não, escolheram real”, porque, inevitavelmente, um problema real (a (e o verbo é chave para nós) um consiste numa realidade constru- determinado enquadramento – e ída pelo documentarista. revolução russa, por não outro – que propiciava esse Essa “realidade construída” medo: filmado de longe, o trem exemplo) pode vir a ser pode até ser (e geralmente é) mais avançava em direção à câmera, o enfática, ou mais envolvente, ou mais realista do que um que equivale a dizer, em direção à mais contundente, ou mais signi- tela, ou seja, ao espectador. Tives- ficativa, do que a “realidade real” documentário sobre o sem os autores do filme escolhido e, contudo, isso não torna o filme um outro enquadramento (o trem mesmo assunto. documental mais realista, pois a se afastando, ou simplesmente rigor, ele é um constructo, em ter- cruzando a tela de um lado a ou- mos simples, uma visão pessoal. tro), com certeza, a reação do es- Se fosse para continuarmos com pectador primitivo teria sido ou- a dicotomia documental/ficcio- tra. Aqui não interessa se os Lu- nal, valeria lembrar paradoxos mière quiseram ou não provocar que não são fáceis de entender e o medo; o que interessa, para nós, que, no entanto, são verdadeiros com os inventores e pioneiros é que, num filme de uma única e pertinentes para a nossa refle- com que abrimos esta matéria, os tomada, breve e mimética, eles xão. Um deles é o seguinte: um irmãos Lumière. Segundo os his- colocaram, ao escolher o enqua- filme ficcional sobre um proble- toriadores, os jornais da época dramento, um inequívoco sinal ma real (o assassinato de Ken- deixaram registradas as reações de autoria. Assim, se o primeiro nedy, ou a revolução russa, ou dos primeiros espectadores ao fil- documentário do mundo já foi um campo de concentração na- me Chegada do Trem à Estação. Ao autoral, muito mais o seriam os zista, ou a vida num presídio ver o trem se aproximando, as outros, todos os que se fizeram brasileiro, por exemplo) pode vir pessoas agitavam-se, alguns se depois. a ser mais realista do que um afastavam, outros recuavam rá- O registro da reação dos espec- documentário sobre o mesmo pido, derrubando cadeiras e cau- tadores ao trem dos Lumière é assunto. O que, afinal de contas, sando atropelos. Foi preciso que importante, entre outras coisas, vai determinar o grau de realis- os irmãos Lumière avisassem, também porque dá a medida do mo serão os enfoques dados, e antes de cada sessão, que não ha- efeito de realismo no cinema do- não o gênero escolhido. via perigo e que todos podiam cumental. Embora correr da ima- Acreditando haver ficado este permanecer em seus lugares: em gem do trem fosse uma leitura ponto, passamos a mencionar al- suma, o trem que se via era só ingênua do cinema, não deixa de guns casos históricos em que o uma imagem em movimento, e ser uma reação similar a que quer constructo que é o filme foi con- não um trem real. o documentarista que apresenta fundido com a realidade. Se era só uma imagem, por que o seu assunto como verídico, ver- Comecemos nossas ilustrações os primeiros espectadores o temi- dadeiro. O documentarista que c 12 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  12. 12. 6 imagens amadasc filma hoje, por exemplo, o exter- mínio da raça indígena no Brasil quer que o espectador saia do ci- nema indignado, chocado ou ira- do. A indiferença dos espectado- res informados pelos Lumière de era só uma imagem de trem, e não um trem de verdade – essa indi- ferença não convém aos cineastas que realizam documentários. E o círculo é vicioso: porque não querem indiferença é que os cineastas-documentaristas bus- O Homem de Aran (1934), do americano Robert Flaherty cam efeitos além dos meramen- te descritivos, miméticos, docu- mentais, efeitos estes que, por até que ponto O Homem de Aran é O que parece ficar sua vez, acentuam o caráter au- um filme realista? O óbvio é que toral de seus filmes. evidente é que o a resposta é ambígua. Se for para Às vezes a busca desses efeitos tomar o incidente como parâme- vai longe demais. Foi o que acon- conceito de realismo no tro, o que parece ficar evidente é teceu com o nosso segundo exem- que o conceito de realismo no fil- filme documental é bem plo, o filme O Homem de Aran me documental é bem mais com- (1934) do americano Robert mais complexo do que plexo do que comumente se ima- Flaherty, um clássico que críticos gina. e historiadores consideram um comumente se imagina. Um outro caso desse tipo em que avatar do gênero. – por assim dizer – o cinema do- Todo rodado numa ilha da cos- cumental quis ser “melhor” que a ta oeste da Irlanda, o filme apa- realidade, aconteceu na URSS nos rentemente retrata a vida de uma tempos duros de Josef Stalin, e não aldeia de pescadores que retira o apenas em um filme, mas em toda seu sustento do mar bravio, que uma filmografia estatal. Na épo- castiga as falésias com sua fúria ca tinha o Kremlin a sua equipe indomável. Para maior familiari- do não existia eletricidade, tinha de cinegrafistas, encarregada de dade com o assunto, Flaherty e sua sido costume dos tetravôs, costu- acompanhar os acontecimentos equipe foram morar na ilha, onde me abandonado por ter feito mui- mais importantes que, filmados, ficaram por quase dois anos, fil- tas vítimas. Flaherty havia lido eram exibidos em naturais nos mando praticamente todos os as- sobre o tubarão branco e tentou cinemas do país. Além disso, es- pectos do modesto cotidiano dos convencer os pescadores de Aran ses cinegrafistas do governo tam- habitantes, e de fato, para quem a retomar a caça, pelo menos uma bém tinham a missão de viajar assiste ao filme, a impressão é de vez, para que ele pudesse filmar. país afora, filmando a vida coti- rigorosa fidelidade. O cotidiano Apavorados com a perspectiva, diana do camponês russo. da ilha está registrado, mas, o que os pescadores se recusaram ter- Era uma vida difícil, precária, mais impressiona – na verdade, o minantemente, inclusive, alegan- sofrida, mas o problema era que, ponto alto do filme - são as toma- do que, como a prática fora aban- previamente censurados pelos das no mar onde, entre ondas donada havia tanto tempo, não assessores de Stalin, esses cine- avassaladoras, os pescadores ca- conheciam a técnica necessária grafistas não podiam mostrar di- çam o temível tubarão branco. para a captura do temível tuba- ficuldades, e, ao contrário, tinham Assistindo a essa sequência, é pos- rão. O que fez Flaherty? Embre- que passar ao público uma ima- sível perceber o perigo a que es- nhou-se na leitura de compêndi- gem extremamente positiva da tão sujeitos os pescadores, e por os sobre pesca, aprendeu – pelo vida rural. Assim, a penúria e a tabela, o mesmo perigo a que se menos teoricamente - a técnica da dor eram evitadas (e se filmadas, sujeitou a equipe que os filmava. pesca do tubarão branco e a re- eram cortadas na montagem) e os Mas, ora, o que de fato aconte- passou para os pescadores, que só cinegrafistas faziam esforços so- ceu em Aran não é propriamente aceitaram a empreitada quando bre-humanos no sentido de en- o que está na tela de Flaherty. Flaherty lhes pagou uma soma de contrar sempre figuras bem nu- Quando este lá chegou, por volta dinheiro considerável para os tridas e saudáveis a quem se pe- de 1933, já não se pescava o tuba- seus modestos padrões financei- dia que rissem diante das câme- rão branco havia quase um sécu- ros. A cena foi “posada”, portan- ras, isso tendo se escolhido capri- lo. A caça desse violento cetáceo, to. chosamente um fundo verdejan- cujo óleo iluminava a aldeia quan- A essa altura, a pergunta seria: te de plantações viçosas e auro- c A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 13
  13. 13. 6 imagens amadasc ras encantadoras, claro, com o acréscimo posterior de uma mú- sica sublimemente revigorante. O povo russo acreditava nesses filmes? Se acreditava, não se sabe, mas sabe-se muito bem (pois há registro do fato) que den- tro das portas fechadas do Kre- mlin houve quem acreditasse – e o pior, o maior crédulo foi o au- tor do projeto. Sim, o que consta é que Stalin, de tanto assistir a esses documentários em sua sala de projeção particular, passou, com o tempo, a acreditar neles, e na fase mais madura de sua exis- tência, pública e privadamente, apresentava o sincero comporta- mento de quem cria piamente Sobre Crise a primeira que a vida rural na URSS era ver- dadeiramente idílica e paradisí- coisa a ser dita é que é, aca. Um caso curioso de um pseudo-feiticeiro convencido ainda hoje, impactante. pelo seu falso feitiço, mas, para Através do olho curioso nós, aqui, ilustra os poderes transformadores do cinema apre- da câmera, o espectador sentado como documental. Um pouco mais próximo da é introduzido aos dois ral ou de outra ordem. realidade está um documentá- Sobre Crise a primeira coisa a lados da questão. rio americano que relatou um ser dita é que é, ainda hoje, im- caso famoso do começo dos pactante. Através do olho curio- anos sessenta. so da câmera, o espectador é in- Não sei quem ainda recorda os troduzido aos dois lados da ques- fatos, mas, em junho de 1963, a tão. Enquanto as negociações imprensa mundial noticiou o caso prosseguem, vê-se o cotidiano do Governador de Alabama, Es- doméstico do Secretário de Justi- tados Unidos, que, em pessoa, cidade também sulista. ça, Robert Kennedy, do mesmo pôs-se em frente à porta da Uni- Pois bem, o caso inteiro foi fil- modo como se vê o cotidiano do versidade para impedir a entra- mado em seus bastidores, priva- intransigente Governador Geor- da de dois estudantes negros que dos e públicos, e pode ser visto ge Wallace. Cafés da manhã, tele- pretendiam matricular-se. Escan- no documentário de 52 minutos fonemas, reuniões internas, entre- daloso, o caso gerou uma crise na chamado Crise (Crisis: Behind a vistas, confrontos públicas, cada Casa Branca, onde o Pres. Kenne- Presidential Commitment, 1963), passo do impasse nos é mostra- dy já sancionara a lei que obriga- do cineasta Robert Drew. do, até o momento final em que os va as universidades americanas Como foi possível filmar por dois estudantes negros, vitoriosa- a aceitarem negros como alunos. dentro uma crise política com mente, adentram o recinto uni- Os assessores da presidência ten- tanta liberdade? Acontece que versitário, e o filme se conclui com taram “negociar” com o Gover- Drew havia coberto a campanha um pronunciamento televisivo de nador sulista, que não transigiu, eleitoral de Kennedy em 1960 e o Kennedy, citando Lincoln (outro e a solução de última hora foi o Presidente eleito gostou tanto do presidente assassinado) a respei- golpe diplomático de federalizar resultado (o filme se chama “Pri- to de igualdade e justiça social a Guarda estadual. Vivian Malo- márias”) que deu o sinal verde para para todos. ne e James Hood foram os últimos o registro do caso em questão. Em que pese à defesa de Drew negros a serem barrados em por- Para quem não lembra, Robert de um cinema-verdade, ou de um tas de universidades americanas, Drew (1924-) foi, e é, o defensor “cinema direto”, como preferem mas o caso deu o que falar e aba- americano do que os franceses os americanos, o filme tem, sim, a lou a unanimidade da política de chamam de “cinéma-verité”, ci- sua inevitável ingerência autoral. John F Kennedy, o qual, com ou nema-verdade, aquele que, em Tudo é ardilosamente montado de sem coincidência, seria assassi- princípio mostraria a realidade uma maneira pessoal que dá ao nado cinco meses depois, numa como ela é, sem ingerência auto- espectador, em certos momentos, c 14 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  14. 14. 6 imagens amadasc a impressão de estar assistindo a O que Crônica de um sas de restaurantes onde pratica- um filme de ficção. Um exemplo mente todos entrevistam todos. entre tantos está nas cenas de con- Verão revela é que o Várias cenas são encenações os- versas telefônicas: filmando em tensivas, como aquela que mostra locais diferentes (Washington, conceito de verdade/ o dia de um operário, desde o mo- Montgomery, Tuscaloosa, etc) o mento que acorda até a sua ativi- realidade no diretor corta e ordena as toma- dade no trabalho; ou aquela outra, das de modo a acompanharmos documentário foi onde uma das moças participan- a conversa com revezamento de tes faz uma longa caminhada, da perguntas e respostas, como se atingido de cheio e o foi Place de La Concorde até o setor faz no onisciente cinema ficcio- do Havre, recitando um monólogo de propósito. nal. O corolário é um maior en- sem interlocutor presente. Antes volvimento do espectador, sem de o filme se concluir, há uma cena- que a “verdade” dos fatos fique chave em que o tanto do filme ro- comprometida. dado é mostrado a todos os parti- A sequência que, nos batentes cipantes, que dão as suas opiniões da Universidade de Alabama, em sobre o conjunto, na maior parte Tuscaloosa, registra o confronto dos casos, opiniões desfavoráveis. entre o governador Wallace e o Um ponto que fica claro, nessa dis- assessor do presidente, Nicholas cussão coletiva, por exemplo, é se, Katzenbach, é um documento pre- for o caso, sobre o seu estado de ou até que ponto os desabafos fo- cioso para qualquer estudo sobre espírito naquele verão de 1960, ram sinceros ou encenados, para segregação racial, nos Estados porém, o roteiro é frouxo demais retomar um termo com que abri- Unidos ou alhures. Nela, como no para assegurar uma linha de an- mos esta metéria, “posados”. filme todo, se não se puder falar damento. As sequências são inde- Uma mistura evidente da etno- de “verdade” em si, pode-se pelo pendentes e, se cotejadas, não for- grafia de Rouch com a sociologia menos defender o conceito de re- mam uma estrutura de sentido. de Morin, o que Crônica de um Ve- alidade histórica assegurada por Assim, o filme começa com uma rão revela é que o conceito de ver- uma câmera investigativa. moça, Marceline, amiga dos cine- dade/realidade no documentário Temos usado a expressão “ci- astas sendo, com alguma relutân- foi atingido de cheio e o foi de nema-verdade” no amplo senti- cia, convencida a fazer o papel de propósito. Somente de uma ma- do rouchiano de documentário repórter de rua e interpelar os neira enviesada, indireta, disfor- que dá vez à realidade. Por isso passantes nas calçadas lhes for- me, a realidade se presentifica no mesmo, - e para fazer justiça - mulando de chofre uma pergun- cinema documental, e há mesmo nos sentimos na obrigação de ta estranha e difícil de responder: um mistério que sequer explica fechar esta matéria fazendo re- “Você é feliz?”. As reações dos a sua presença. Por isso, na cena ferência a um filme do próprio anônimos entrevistados são as final, a câmera que, em movimen- Jean Rouch que, ironicamente, mais variadas, mas, quando se to, durante algum tempo acom- problematiza a presença do real pensa que este método guiará o panha os dois cineastas enquan- no documentário. filme todo, ele é abandonado. De to estes caminham e discutem o Hoje um clássico do gênero (com repente, é Marceline a entrevista- filme, em dado momento, se de- um prêmio em Cannes), o filme se da, agora pela dupla de cineastas, tém e os deixa ir embora, sem que chama Crônica de um Verão(Chro- que vai variando os seus infor- mais ouçamos as suas palavras nique d´un Été, 1961) e foi rodado mantes de uma maneira mais ou sobre o filme realizado. a quatro mãos, com o sociólogo menos aleatória. Há artistas, ope- Como mais tarde admitiria o pró- do cinema Edgar Morin, no verão rários, estudantes, imigrantes prio Rouch, “o cinema-verdade é de 1960 em Paris. A projeção co- negros, crianças, mas a pergunta um cinema de mentiras, mas as meça com Rouch e Morin discu- do início (“Você é feliz?”) ficou es- mentiras são mais verdadeiras que tindo o filme que se vai ver, e se quecida, na medida em que as pes- a verdade”. Acho que, sem falsea- conclui com a mesma dupla fa- soas debulham os seus dramas, mentos, poderíamos mudar a pa- zendo a avaliação da realização, com certo nível de entrega emoci- lavra “verdade” para “realidade”. como se o making of (termo ine- onal. Até mesmo a paisagem pa- xistente na época) fizesse parte do risiense foi esquecida, já que a se- Em tempo: o título desta maté- filme. Esse grau de metalingua- quência final (um dos imigrantes ria é uma brincadeira com o pro- gem assumida é uma constante, e negros entrevistados, agora en- grama televisivo É Tudo Verda- o filme não se incomoda de ser trevistando uma moça branca na de, do crítico Amir Labaki. I desigual no método e na aborda- praia) acontece em Saint Tropez. gem. Composto basicamente de Algumas vezes as entrevistas entrevistas, em princípio, seria são no estilo “tête-à-tête”, outras Crítico de cinema e de literatura e sobre a vida do parisiense, ou se em grupo e com frequência em me- professor da UFPB A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 15
  15. 15. 6 crítica A estrela brilhante de Keats e Campion Genilda Azerêdo filme Bright Star (ao pé da letra, Estrela Brilhante; tradu- O zido no Brasil como Brilho de uma Paixão), de Jane Cam- pion, faz jus a um dos versos mais famosos da litera- tura inglesa: A thing of beauty is a joy forever / Uma coisa de beleza (ou um objeto de beleza) é uma ale- gria para sempre, do poeta romântico inglês John Keats. O filme conta justamente a história de amor e sofrimento entre Fanny Brawn e John Keats e, ao fazê- lo, oferece um painel sensível e instigante da Inglater- ra nas primeiras décadas do século XIX, seja quanto às convenções familiares e sociais, à sensibilidade poética, à dificuldade de aliar produção literária à pu- blicação, à questão da sobrevivência de artistas po- bres (a exemplo do próprio Keats), à impossibilidade de amar (materializar o sentimento) em um contexto de pobreza e rígidas regras sociais. c16 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  16. 16. c Bright Star é inicialmente o títu- prio Wordsworth quem também lo de um poema de Keats dedica- define a poesia como emoção re- do a Fanny. Este aspecto já amal- colhida/relembrada na tranquili- gama a importância que o casal dade, contraponto perfeito para possui na narrativa fílmica, cons- aludir ao caráter já moderno da truída de modo a valorizar a poe- poesia romântica inglesa. E é exa- sia de Keats e a poesia de Fanny. tamente dentro deste contexto - A sequência fílmica de abertura emoção e recolhimento/resgate da valoriza a costura e o bordado, ao emoção - que devemos compreen- preencher a tela com agulha, teci- der o verso A thing of beauty is a do e linha. O filme coloca em pé de As discussões sobre poesia joy forever. Em seus ensinamen- igualdade a poesia das palavras e tos a Fanny sobre poesia, Keats en- a criatividade e beleza dos pon- entre Keats e Fanny fatiza a importância dos sentidos tos e bordados. Ambas as ativi- na apreensão do poético. Diz ele que dades têm inclusive uma função servem inclusive para a poesia é uma experiência para catártica. Quando o irmão de Ke- além do pensamento, devendo ser ats morre de tuberculose (doença desmistificar noções compreendida através dos senti- que também mataria o próprio dos. Em meio ao jogo de sentidos, a Keats, aos 26 anos), Fanny passa convencionais sobre o memória afetiva possui lugar de a noite inteira costurando e bor- destaque. A eternização da beleza dando uma fronha para ele. poeta (em sentido amplo) se faz através da memória, sempre Quando Keats parte para a Itália, que a memória da beleza é aciona- numa última tentativa de recu- e a função da poesia. da. Em dois poemas de Wordswor- peração da doença, escreve, em th, esta relação entre memória e pouco tempo, uma quantidade beleza é mediada pela natureza, significativa de poemas. através de duas metonímias - um Embora o filme se situe em um campo de narcisos e um arco-íris. contexto de sensibilidade român- tesanato da poesia, Keats defende É, inclusive no poema sobre o arco- tica e tenha como foco a história de um princípio caro aos poetas ro- íris que encontramos o verso The amor intensa e dolorosa entre mânticos, ao declarar que a forma Child is father of the Man/A Cri- Fanny e Keats, sua tonalidade é é uma carcaça e se a poesia não ança é o pai do Homem, que resu- contida e jamais descamba para o vier tão naturalmente quanto as me a reverberação da memória da melodramático ou sentimentalis- folhas de uma árvore, melhor que infância, do olhar encantado da cri- mo exacerbado. As discussões so- não venha. É preciso não confun- ança naquilo que somos quando bre poesia entre Keats e Fanny ser- dir essa defesa da espontaneidade adultos. Em Keats, diferentemente vem inclusive para desmistificar - que ecoa um princípio também de Wordsworth, há uma indefini- noções convencionais sobre o poe- famoso de William Wordsworth ção (e consequentemente, elastici- ta (em sentido amplo) e a função da (outro poeta romântico inglês), dade) quanto ao objeto de beleza, poesia: o poeta é o ser mais não- quando diz que a poesia é o fluir já que o mesmo é referido como a poético que existe; é sem identida- espontâneo de sentimentos pode- thing of beauty, de modo a trans- de, vive de preencher outros cor- rosos - com confissão, desabafo ou cender o próprio contexto român- pos, como o sol e a lua. Sobre o ar- negligência formal. Aliás, é o pró- tico. E não é esta uma das funções c A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 17
  17. 17. c da arte? Materializar a beleza, possibilitar mos exercitando instrumentos musicais, sua perenidade? mas também aprendendo a dançar, com A meu ver, foi exatamente isto que Jane um instrutor que fala francês). E há refe- Campion fez, ao construir a história de Bri- rências à participação de Fanny em bailes ght star. O brilho da estrela, referido no e ao quanto ela gosta de dançar. Também poema de Keats como constante, imutá- assistimos, logo no início do filme, a uma vel, é duplicado metaforicamente através espécie de sarau artístico com canto e mú- da constância de sentimento entre Keats e sica, além de diálogos que aludem a poetas Fanny - um sentimento que ganha expres- (a Coleridge e ao próprio Keats). são, iconicamente, através da delicadeza e Quanto aos códigos morais que regem as beleza no nível da visualidade fílmica. Ci- relações amorosas, não são poucas as refe- temos um exemplo. Quando Fanny e Keats rências à separação física e sexual entre já vivenciam a vertigem da experiência Fanny e Keats. A propósito, desde o pri- amorosa, a narrativa fílmica metaforiza a meiro encontro amoroso entre eles, media- sensação de leveza através de paralelismos do pela vigilância de Toots (a irmã caçula - Fanny desmaiando sobre a cama, Keats de Fanny), até os momentos em que fica- deitado sobre a copa de uma árvore - que vam a sós na casa de Keats, ou quando, dramatizam a convergência de seus senti- doente, ele se hospedou na casa de Fanny, mentos. O verso de Keats que diz Wish podemos testemunhar o distanciamento we were butterflies and lived but three físico (e a ansiedade e angústia resultan- summer days/quisera fôssemos borbole- tes) entre os dois - bilhetes eram trocados tas e vivêssemos apenas três dias de ve- embaixo da porta; mãos acariciavam pa- rão contamina ironicamente a leveza redes que, ao tempo em que ligavam seus (embriaguês) dos apaixonados do caráter aposentos, também serviam de obstáculos. trágico inerente ao tempo, que põe fim a Jane Campion escolheu terminar o filme tudo. A ressonância que tal verso ganha com Fanny recitando o poema ‘Bright no contexto imagético do filme demonstra Star’, escrito por Keats para ela. A fotogra- não apenas a atitude hiperbólica do ser fia, nessa parte do filme, é escura, não ape- amoroso - fazendo Fanny encher seu quar- nas porque é frio, inverno e cedo da ma- to de borboletas - mas antecipa a dor ad- nhã, mas porque reflete a melancolia e o vinda da experiência: Estou apaixonada? luto pela morte do poeta. Antes de sair de Isto é amor? Nunca mais vou brincar com casa, em meio à frieza da madrugada, isso de novo. É tão ruim que eu acho que Fanny corta os cabelos e veste-se de preto posso morrer. É relevante perceber, a pro- (rituais que também dizem do luto). A reci- pósito desta situação, a solidariedade da tação de um poema que fala de um desejo família de Fanny, cuja mãe nunca a censu- de constância e imutabilidade, em momen- ra ou critica. to de profunda dor, torna-se irônica ao Um contraponto interessante aos diá- menos em dois aspectos: nesse momento, a logos entre Keats e Fanny sobre a poesia homenagem é de Fanny a Keats, que, atra- é oferecido por Mr. Brown, também poe- vés da recitação do poema, traz à tona o ta, amigo de Keats. Mr. Brown não ape- poeta, ressuscitando-o através da sua pa- nas quer viver a criação poética como um lavra. A recitação (embora catártica) tam- sacerdócio, controlando a vida de Keats, bém parece dizer que, apesar da perda, seu seguindo à risca uma rotina de trabalho, sentimento vai perdurar, que o brilho da como se sente altamente enciumado com estrela (agora Keats) será eterno. O filme a convivência entre Keats, Fanny e sua termina, mas a poesia de Keats continua a família. Em oposição a tal seriedade, o fil- pontuar, em voz-over, toda a passagem dos me capta, de modo divertido, o senso de créditos. É, enfim, mais um modo de refor- humor de Keats e seu modo sempre sub- çar que a poesia, quando um objeto de be- versivo de romper com etiquetas e con- leza, é passível de ser rememorada, consti- venções. Keats gosta de brincar e passe- tuindo-se uma alegria eterna. I ar no jardim, e em várias das cenas com Fanny, mais parece uma criança frágil, protegida por ela. Em se tratando de convenções, o filme ofe- rece um retrato em miniatura (ao modo de Jane Austen) da sensibilidade artística da época. A família de Fanny, embora visivel- mente com parcos recursos materiais, edu- ca os filhos musicalmente (não só os ve- Professora da UFPB18 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  18. 18. 6 festas semióticas Amador Ribeiro Neto amador.ribeiro@uol.com.br meu jovem filho PARA O MEU FILHO PEDRO, FALECIDO AOS 24 ANOS o mau agouro de agosto [ pai também vive revolto em turbilhões de nublou 30 de julho com as tintas corrosivas pensamentos-cacos que molestam da morte um sujeito comum no meio do meu amor e zelo de pai que tão só e somente fui obrigado a medir os passos do berço luta pra manter uma de meu filho saúde comum ] até sua insepulta sepultura eu antevira a lúcidaimagem do meu filho num tiscar do tempo na noite anterior engolfando aos borbotões seus e meus pul- mões envolto num grosso saco plástico retirado das águas ainda pesadas águas revoltas solvem com avidez o corpo do meu filho ah na certa os excessos medicamentosos gerando a clarividente antevisão dantesca [ como sal em água ] um filho não morre antes do pai o pai foi feito pra morrer antes nem um fio de cabelo resta de seus 24 anos de puríssima juventude-luz um filho não morre antes do pai o pai foi feito pra morrer antes havia um rio no meio do caminho e o fatal mergulho no escuro a imersão do corpo do filho craveja a memória do pai, do irmão, da irmã um único e atroz embate com filho, irmão, tu, submerso nas águas, tens batismo às avessas o paredão de pedras encobertas pelo mar subfluvial batismo de corte de ceifa de morte e meu filho boiou inerte pra nunca mais respirar filho onde anda a luz de teus olhos azuis? eu o pai encontrava-me alienado numa clínica psiquiátrica onde as pernas jogando passos como um andarilho bailarino, filho?A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 19
  19. 19. 6 festas semióticas olho pro mundo e a prostração maldita recai sobre mim num abatimento funesto desgraçada luz filha da puta que cegara meu filho pra toda vida desinfeliz dia de trevas aquosas maldição trevosa sobre a falta que fiat trucidado meu coração é caudal de sangue que im(ex)plode diante de tua falta, filho eu contigo me asfixio sufoco na tua afogadura na estrangulação da tua execução os céus em imolação colhem a ceifa prematura a natureza é carrasco verdugo carnífice executor algoz assassino que se alimenta de teus despojos mortais ainda tão juvenis quisera eu cosê-la (a natureza) a canivetadas a facadas a punhaladas a espadadas a enxadadas a machadadas e sová-la até devolver-me o filho intacto em sua alegria ensolarada de meu menino do rio Poeta, crítico literário e professor da UFPB20 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  20. 20. 6 artigoA representação minimalista de O Quadro-Negro Ângela Bezerra de Castro Q uando O Quadro-Negrofoi lançado pela José Olympio, em 1954, era improvável que a ele eu pudesse ter acesso, nem mesmo à notícia de sua publicação. Estava iniciando o ginásio mas, àquela época, nenhum professor teria a Ernany Sátyro e a ousada iniciativa de estudar o autor contemporâ- capa da edição de neo local ou de indicá-lo para a leitura. O Quadro-Negro Ancorada no passado, nossa Escola recusava com projeto da o presente e se tornava incapaz de prenunciar as José Olympio incertezas do futuro. Naquela visão alienada, che- gava-se à aberração de proibir os livros de José Lins do Rego, privando-nos do texto renovador e revolucio- nário que deveria ter sido a motivação e o exemplo, para que os jovens estudantes de então se expressassem na linguagem de seu tempo, superando a submissão colonial aos “barões assinalados”. Mesmo depois que me tornei leitora apaixonada dos grandes romancistas nordestinos, jamais tive o interesse despertado para o escritor Ernani Sátyro. E, quando isto parecia possível, na efer- vescente convivência universitária, o político de destaque, no regi- me vigente a partir de 64, projetou-se como sombra deformadora cA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 21
  21. 21. c sobre o intelectual, erguendo a barreira de preconceito responsá- vel pela ignorância de minha geração sobre a obra literária do aca- dêmico centenário que hoje reverenciamos. Foi a devoção do estimado confrade Evaldo Gonçalves ao “Amigo Velho”, que despertou em mim a necessidade de conhecer Ernani Sátyro, para além da memória fixada, com a verdade do depoimen- to e da pesquisa, no livro Ernani Sátyro: Convivência e Participação. A necessidade de conhecer o escritor, em decorrência do compromis- so assumido com os objetivos da Academia Paraibana de Letras. Procurei O Quadro-Negro e Flávio Sátiro, gentilmente, me presen- teou a 3ª edição, possibilitando-me uma entusiástica descoberta e a feliz superação do velho preconceito. Antes que chegasse ao texto do romance, já tinha a certeza de que estava diante de um verdadeiro escritor. Menos pelo estudo e pelos artigos que o antecedem e revelam o interesse crítico pela ficção de Ernani Sátyro. A grande surpresa veio com o depoimen- to do autor para os Arquivos Implacáveis, de João Condé. Uma ver- dadeira síntese de mestre. Iniciando com a ressalva de que “Não é fácil dizer como nasce um romance”, o escritor encara o desafio. E com estilo sóbrio, em frases curtas e precisas, revelando uma aguda consciência do processo de elaboração ficcional, expõe a gênese de O Quadro-Negro, dando ên- fase ao tempo de gestação e aos limites transcendentes entre a rea- lidade e a criação literária. Depoimento capaz de enriquecer qual- quer lição de teoria sobre a ficção narrativa. O Quadro-Negro é um romance escrito em forma de diário. Com esta escolha do modo de narrar, o autor confere intencionalmente ao protagonista, Paulo Márcio, a grande liberdade confessional que se desdobra na análise de si mesmo, do ambiente e dos outros persona- gens, concretizando o princípio que ele repete até as últimas pági- nas: “Só tem importância o que se passa dentro de mim”. Com a variante: “me importam as pessoas e nestas, principalmente, os re- tratos que me ficam cá dentro”. Na abertura do “diário”, reflexões sobre a linguagem, sobre o pro- cesso narrativo, sobre a correspondência necessária entre forma e conteúdo, sobre o estilo. Essa intenção programática da construção literária, inserindo Ernani Sátyro na tendência ostensiva dos escri- tores modernos que elegeram a metalinguagem como recurso temá- tico e estético, chegando a elaborar uma teoria do conhecimento. Perfaz um ano e um mês o tempo da narrativa. Tem início com a chegada do jovem bacharel recém-formado à cidadezinha natal, para viver os conflitos que irão despertá-lo da inexperiência e dos sonhos, até a decisão de partir. Torna-se instigante a comparação entre Paulo Márcio e dois outros personagens: Lúcio, de A Bagaceira, e Carlos de Melo, em Banguê. Todos bacharéis, de volta para casa, e em crise de afirmação pessoal. No entanto, Lúcio e Carlos de Melo não sabem o que fazer do diploma e se desviam para a terra, numa espécie de fuga. O protagonista de O Quadro-Negro é o bacharel em ação, buscando na ordem jurídica a restauração e a garantia dos direitos. Essa diferença substancial entre os três personagens permite queAntes que chegasse ao se identifique em Paulo Márcio uma transfiguração inovadora, com a redescoberta da tradicional formação bacharelesca, predominantetexto do romance em nossa cultura, numa perspectiva de interferência positiva para o meio social, vislumbrando a prevalência do Direito na solução dos(Quadro-Negro) , já conflitos. Podemos constatar que Lúcio e Carlos de Melo são anti- herois desistentes. Enquanto o personagem criado por Ernani Sátyrotinha a certeza de que é o heroi comprometido com a luta, opondo-se à realidade estagna- da da cidadezinha simbolicamente denominada de Lagoa, espaçoestava diante de um imaginário do romance. Em terra de sapos, Paulo Márcio não fica de cócoras com eles. E é pela ação do jovem bacharel que se estrutura o conflito central do cverdadeiro escritor.22 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  22. 22. c romance. Entre a arbitrariedade da força político-econômica domi- nante e a justa aplicação da lei, o poder do Direito. É esse o problema que se desenvolve na representação minimalista de O Quadro-Negro. Problema universal que se reproduz em todas as escalas da chamada sociedade politicamente organizada. Quer se trate de uma cidadezinha do sertão ou da metrópole mais progressista; de um país em desenvolvimento ou de uma potência do considerado primeiro mundo, em qualquer das realidades o Esta- do de Direito é ainda uma miragem ou um projeto sempre em pro- cesso de consolidação. Pois em cada instância se vê ameaçado por uma estrutura de poder, com seus “coroneis” que se colocam, arbi- trariamente, acima das leis. Na estreia como romancista, Ernani Sátyro acumulou considerá- vel fortuna crítica, com a unânime constatação de que não dava con- tinuidade aos grandes regionalistas nordestinos, seguia outra ori- entação estética. E é verdade. No entanto, a identificação do espaço romanesco com o sertão levou os críticos a uma visão reducionista da temática do romance e de outros elementos estruturantes da nar- rativa, esquecendo a natureza simbólica que os constitui. Os críticos não se aperceberam de que “o sertão” existe em todo lugar. Pressuponho que a percepção estereotipada da realidade sertaneja prejudicou as leituras de O Quadro-Negro, de tal maneira que o con- flito central do romance não foi identificado, ou melhor, foi confun- dido com problemas menores. E personagens marcantes como Adri- ano Pereira, o juiz, e Maria Augusta, a enigmática e desafiadora na- morada de Paulo Márcio, são injustamente subestimados, por certo, em decorrência da falta de análise do romance. Somente José Lins do Rego identifica em Adriano Pereira “um pa- tético que nos enche os olhos de lágrimas” lembrando a cena dramá- tica em que o juiz, desarmado, enfrenta o fuzil de um capitão de polícia, reforçado pelas carabinas dos soldados que apontam para sua cabeça e, tomando as chaves do carcereiro paralisado, abre as portas da cadeia para dar cumprimento a um habeas corpus, que fora rasgado pela suprema arrogância político-partidária. Onde a deficiência crítica enxerga apenas um juiz preguiçoso, o grande romancista do moderno regionalismo brasileiro descobre o patético, uma categoria do trágico. E não há dúvida de que Ernani Sátyro construiu essa dimensão para Adriano Pereira, personagem de vital importância na consti- tuição do conflito central de seu romance. Tanto que o protagonista- narrador reconhece no juiz o “homem que encarna a única reação possível à brutalidade e à violência”. A difícil missão do magistrado, isolado na comarca distante, cria para o personagem uma aparente rendição. Adriano Pereira quase não fala, recolhido à solidão do seu desamparo. Suportar o peso de ter confundida sua individualidade com a instituição que represen- ta parece esmagar o juiz, consumindo-lhe a vontade e a iniciativa. No entanto, uma grande reserva de energia e ação está contida naA identificação do espaço enganosa passividade, naquele silêncio onde se concentra a convic- ção abismal da defesa do Direito.romanesco com o sertão Adriano Pereira é um personagem-símbolo. A ambiguidade que o constitui não converge para a formação de um caráter, mas para alevou os críticos a uma transfiguração das dificuldades, defeitos e qualidades da complexa prestação jurisdicional. Acompanha-se uma constante e até chocan-visão reducionista da te exposição da morosidade dos seus despachos, mas a grande ênfase é para o gesto definitivo do juiz, que evidencia um compromisso detemática do romance e de vida ou morte com a prevalência do Direito, em sua função social insubstituível. Ioutros elementos (Apresentado na APL em 14 de outubro de 2011)estruturantes danarrativa. Escritora e professora da UFPBA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 23

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