Correio das artes novembro de 2011 (1)
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Contendo artigo sobre o livro DIONÍSIO NA IDADE MÍDIA. (Cláudio C. Paiva)

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Correio das artes novembro de 2011 (1) Correio das artes novembro de 2011 (1) Document Transcript

  • 66
  • 6 editorialPelo conjunto da “obra” Correio das Artes, seguindo a um planeta isolado em meio à ga- O trilha aberta pela Associação das Empresas de Transportes Coletivos de João Pessoa (AETC-JP), que lhe outorgou a Para Joana, através de petições online e coleta de láxia. O universo de Joana exis- te e brilha exatamente por estar em guerra ou harmonia. A harmonia nasce do carinho homenagem maior de seu Prêmio que dedica aos que lhe são pró- de Jornalismo, presta também um assinaturas se ximos e do sonho de uma socie- tributo à jornalista, escritora e dade onde vigorem a liberdade e professora universitária paraiba- consegue botar a a justiça social. A guerra é de- na, Joana Belarmino, pelo con- clarada contra aqueles cujas ati- junto de sua "obra" política, boca no trombone e tudes comprometem o bem-estar profissional e existencial. da humanidade - leia-se os maus Nas redações, Joana deu exem- praticar a mudança. patrões, os assassinos, os la- plos de competência na cobertura drões, os corruptos etc e tal. dos fatos e na construção de tex- Além da homenagem a Joana, tos, de solidariedade e de insub- o Correio traz, como sempre, missão às determinações que feri- como uma alternativa real e efi- excelentes artigos versando so- am sua consciência e o código de caz de praticar a cidadania. Para bre diversos temas da cultura, ética da profissão. Na literatura, ela, através de petições online e notadamente literatura e cinema, leitora assídua e atenta que é, coleta de assinaturas se consegue além dos textos imprescindíveis colheu as lições que a tornaram botar a boca no trombone e ob- de sua equipe fixa de colunistas, cronista. E na cátedra, partilha ter êxito, praticar a mudança. formada por escritores e profes- com seus alunos o que os livros e A natureza impôs o primeiro sores universitários de notório a experiência lhe ensinaram. grande desafio, superado com a saber, em áreas como mitologia, Joana também filiou-se ao ci- crescente consciência de si mes- cinema, literatura e mídia. berativismo, pois, para ela, a in- ma, de seus limites e de suas pos- ternet possibilita alcançar públi- sibilidades. Hoje, Joana tem no cos de todas as idades e grupos centro de seu mundo a família e sociais, de modo que a rede surge os amigos, mas não se trata de O Editor6 índice , 4 @ 16 D 19 2 21 ESPECIAL CINEMA MEMÓRIA CRÍTICA A trajetória de sonhos, luta e A professora Genilda Versos eivados de emoção, ‘A representação minimalista superação da jornalista, Azerêdo “coteja” o filme saudade e revolta. Assim é de O Quadro-Negro’, de escritora e professora Joana Bright Star, de Jane ‘meu jovem filho’, do poeta Ernani Sátyro, é o título do Belarmino, na reportagem Campion, com a poesia do e professor da UFPB, artigo da professora de Vanessa Furtado. inglês John Keats. Amador Ribeiro Neto. Ângela Bezerra de Castro. Suplemento mensal do jornal A UNIÃO, não pode ser vendido separadamente A União Superintendência de Imprensa e Editora Secretário Est. de Diretora de Operações Editoração Comunicação Institucional Albiege Fernandes Paulo Sérgio de Azevedo BR-101 - Km 3 - CEP 58.082-010 - Distrito Industrial - Nonato Bandeira João Pessoa - PB Editora Geral Ilustração PABX: (0xx83) 3218-6500 - FAX: 3218-6510 Superintendente Beth Torres Domingos Sávio e Tônio Severino Ramalho Leite Redação: 3218-6511/3218-6512 Editor do Correio das Artes Foto da Capa ISSN 1984-7335 Diretor Administrativo William Costa João Lobo editor.correiodasartes@gmail.com José Arthur Viana Teixeira Supervisor Gráfico Revisão Antônio Moraes http://www.auniao.pb.gov.br Diretora Técnica Paulo Sérgio de Azevedo Beth Torres
  • FOTOS: JOÃO LOBO6 reportagem Joana Belarmino, A beleza de viver sob a verdadeira luz Vanessa Furtado oana Belarmino tinha apenas seteJ anos de idade e estava descobrin- do o encanto das letras e o poder das palavras, quando o mundo mágico de Monteiro Lobato lhe foi apresentado por uma profes- sora. Encantada com a obra que a instigava e desafiava na busca por novas aventuras, ela se deixou le- var por entender que o caminho para enfrentar as dificuldades que o mundo lhe reservava e, con- sequentemente, desenvolver seu potencial, estava escondido em páginas de livros, à espera de sua curiosidade.4 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • Assim, a hoje jornalista, professora e escritora en-tregou-se ao prazer da leitura e passou também aescrever e narrar suas próprias histórias. Descobriuque a visão não é definida pelas imagens que se pro-jetam na retina, e que seus sonhos e fantasias sãoreais, sendo a sua imaginação tão rica e poderosaque é capaz de maravilhar crianças e adultos. “À medida que fui aprendendo a ler, fui tambémme aproximando cada vez mais da literatura a pon-to de recriar as histórias a meu modo e a contá-lascom dramaticidade a meus irmãos”, disse Joana,durante entrevista concedida ao Correio das Artes, nasala de seu apartamento, no bairro do Cabo Branco,em João Pessoa. Qualquer lugar servia e todo mo-mento era uma oportunidade para ela exercitar ogosto pela narração que a impulsionaria, alguns anosdepois, a decidir-se pelo jornalismo como profissão. Joana contou que o jornalismo lhe satisfaz à medi-da que ela tem a oportunidade de contar históriaspeculiares da vida da cidade e de personagens àsvezes comuns, às vezes excêntricos, mas confessa quegostaria mesmo é de ter sido escritora de históriasinfantis. “Ainda me aventurei pela literatura infan-til e publiquei, de forma independente, uma reuniãode contos para crianças em 1979. Quatro anos de-pois, publiquei pela Editora Moderna, em quatro edi-ções, Dartanhan, Um Gato com Gosto de Pinto, e, no fim dadécada de 1990, lancei, pela Editora Ideia, Era UmaVez Uma Vírgula”, ressaltou. Joana não apenas lia, mas recriava a seu modo o que lia A IMPORTÂNCIA Machado de Assis pela primeira vez. “Eu DA FAMÍLIA progredi rapidamente e passei a ler tudo o Se o incentivo da família e dos profes- que aparecia e as obras desses autores me sores é importante para o desenvolvimen- influenciaram de forma muito positiva. to saudável das crianças, ele se torna fa- Graças à literatura eu me fortaleci, enquan- tor fundamental para a educação de defi- to pessoa, e aprimorei minha escrita e mi- cientes visuais. No caso de Joana Belarmi- nha intelectualidade”, afirmou. no, a experiência com os livros proporcio- Quando a adolescência lhe bateu à por- nou uma melhor percepção das muitas ta, Joana Belarmino já havia moldado em informações do ambiente, e se tornou re- si um aguçado olhar interior e a poesia foi levante para seu crescimento e continui- a forma escolhida para expor sua sensibi- dade de sua aprendizagem. “Tive uma in- lidade. Com a percepção mais desenvolvi- fância feliz, no entanto, como deficiente da sobre as artes, ela escrevia sobre as su- visual, enfrentei muitas frustrações. Eu era tilezas do que ouvia, tocava e sentia. A pe- fascinada por esportes que eram pratica- culiaridade presente na maneira como re- dos com o uso de bola, mas nunca prati- conhecia o mundo proporcionou brilho, quei e, quando fui estudar em escola co- contraste e colorido especial a seus versos mum, vi que as pessoas não estavam pre- e foi transplantada para sua vida pessoal. paradas para lidar comigo”, revelou. Para Atualmente, as experiências que presencia compensar a ausência dessas experiênci- em seu lar, em seu trabalho e no mundo que a as, Joana fortaleceu sua personalidade, cerca são reveladas de forma extremamente aprimorando a habilidade de contar boas fina e sensível no blog que ela mantém na in- histórias e jamais se rendeu ao medo. ternet. Através do joanabelarmino.zip.net, a Ela lembra, com alegria, da sensação ain- escritora tece comentários críticos e narrati- da gravada no peito de estar lendo obras vos de recortes da realidade que de alguma de Monteiro Lobato, José de Alencar e maneira despertaram sua atenção.A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 5
  • “Não sei explicar ao certo o porquê, mas sou fascinada por entender o momento humano que antecede o fim.”FIM DE TARDE, cia. Por isso, ela mantem o hábito de escrever contos e participa de coletâneas e de encon-VELHICE E MORTE tros, a exemplo do Circuito Universitário, da “Os temas sobre os quais constantemente Associação dos Docentes da Universidade me debruço são: a morte, os fins de tarde e a Federal da Paraíba (Aduf-PB) e do Clube do velhice. Não sei explicar ao certo o porquê, mas Conto da Paraíba. sou fascinada por entender o momento huma- Para Joana, desvencilhar-se de seus pró- no que antecede o fim”, salientou. Para Joana prios sentimentos e escrever uma obra com- Belarmino, o tempo é registrado e entendido pletamente diferente de si é algo, por enquan- de forma especial, e essa peculiaridade é ins- to, impossível. Requer um amadurecimento piradora. “Me surpreendo sempre com o pul- e uma capacidade de abstração e indiferen- sar de vida que há em cada lugar. Muitas ve- ça incompatíveis com sua personalidade. “Já zes estou em casa, concentrada em meus afa- tentei, mas não consegui. Em cada um de zeres e de repente sou despertada pelo cheiro meus textos há sentimentos, fatos e emoções do café na casa da vizinha, pelo doce barulho próprios de meu coração. Costumo afirmar do retorno das crianças depois da escola e pelo que ainda não alcancei o grau desejável de ritmo crescente de veículos que levam pessoas maturação e que minha escrita é terapêuti- de volta a seus lares. Essa magia requer regis- ca”, sublinhou. tro e é isso o que faço”, explicou. Indisciplinada, mas muito criativa, Joana Joana foi casada durante 13 anos com o poe- confessou o seu desejo de escrever um livro ta Lau Siqueira, com quem teve duas filhas apenas com romances implícitos em frases (Mariana e Mayra) e uma neta (Gabriela). Com de livros, histórias de personagens passa- ele, a jornalista publicou o livro de poemas e geiros em romances, mas cujas aparições contos O Comício das Veias. “Lau é um homem são suficientes para desencadear questiona- muito importante em minha vida. Nossa fa- mentos sobre o futuro, que atitudes teriam mília foi um presente e as experiências profis- tomado, se foram felizes ou não. A inspira- sionais foram enriquecedoras”, declarou. ção para seus contos e crônicas surge de sen- A capacidade que a literatura possui de en- timentos muitas vezes antagônicos – a pai- volver o seu humano nos mais diversos sen- xão e a tristeza –, mas que preparados com timentos, e de fertilizar interesses e emoções atenção, talento e uma pitada de racionali- é, segundo Joana, de fundamental importân- dade, garantem o sucesso.6 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • O JORNALISMO lhou, durante quase nove anos, na redação. Outro desafio marcante na carreira desta– DESAFIOS E VITÓRIAS jornalista, na redação de O Norte, aconteceu Tímida e com dificuldades de relacionamen- durante a cobertura de uma manifestação de to, Joana Belarmino teve a vida transformada estudantes no Centro Universitário de João a partir do instante em que passou a fazer par- Pessoa (Unipê). “Fui enviada para acompa- te do quadro de alunos do Curso de Comuni- nhar a tentativa dos alunos de invadir a sala cação Social, com habilitação em Jornalismo, onde funcionava o DCE, mas fui sozinha, o fo- da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). tógrafo não pôde me acompanhar. Ao chegar Como uma borboleta que sai do casulo, ela en- lá eu me senti muito insegura e, quando os sol- xergou-se, pela primeira vez, como uma pes- dados realizaram a formação, eu achei que eles soa normal. fossem invadir. Neste momento eu não tinha “Foi na UFPB que conheci as pessoas que se a dimensão da cena que se desenrolava na tornaram meus grandes amigos e pude desen- minha frente e me senti vulnerável, mas foi aí volver todas as minhas potencialidades. Par- que superei e, com dificuldade, consegui en- ticipei de Movimento Estudantil e de uma sé- trevistar o tenente que estava comandando os rie de atividades que a academia me oferecia”, soldados e voltei para a redação com um exce- lembrou. Mas os desafios para esta paraibana lente material”, relatou. estavam apenas começando e, por vezes, ela Durante as entrevistas, Joana costumava precisou abrir mão de mais um sentido para utilizar um gravador ao mesmo tempo em que permanecer no sonho. “Muitas pessoas me di- fazia as anotações em braile, que é o sistema ziam que ia ser difícil e que eu não teria suces- de escrita e leitura para cegos. Alfabetizada so, mas eu era jovem e não dei ouvidos a elas, através de um grupo de pontos, costumeira- prossegui no curso e me graduei”, acrescen- mente utilizados para encerrar as frases, mas tou. que agrupados constituem 63 símbolos dife- Ainda enquanto estudante da UFPB Joana rentes, que servem para representar caracte- se aventurou e produziu quatro grandes re- res na literatura, matemática, informática e portagens para uma revista da instituição. música, Joana tem escrito sua própria histó- Com apoio do irmão - que a acompanhava - e ria. uma câmera fotográfica ela registrava os mo- Segundo ela, o medo de errar, de não conse- mentos que iriam compor as páginas, e pro- guir, de decepcionar sempre existe. No entan- vou para todos e, especialmente, para si mes- to, é exatamente este medo o responsável por ma, que este sonho era possível. ensinar algumas das mais importantes lições, Passado algum tempo, e já diplomada, a en- entre elas, a de que é preciso avançar, sempre. tão jornalista Joana Belarmino recebe convite do jornal O Norte, de João Pessoa, e passou a trabalhar na empresa. Ela recordou os con- tratempos enfrentados como detalhes essen- ciais de uma experiência única, mas fez ques- A CONQUISTA tão de guardar no relicário da memória, o apoio DA CÁTEDRA cúmplice dos chefes e amigos que contribuiu Depois de superar os inúmeros desafios que para firmar a certeza de ter escolhido a profis- a redação de jornal lhe reservara, Joana Belar- são perfeita. mino partiu para uma nova etapa. Aprovada “Lembro em detalhes de meu primeiro dia em concurso público, ela se tornou, em 1994, na redação. Minha pauta era uma entrevista professora do curso de Comunicação Social da com a então secretária estadual de Educação, UFPB. “Foi a realização de um sonho. A possi- Giselda Navarro, sobre desvio de verbas. Fui bilidade de passar meu conhecimento de aca- no carro da reportagem e, quando cheguei ao demia e de profissional me trouxe energia”, local, aprendi o significado do termo ‘chá de acentuou. cadeira’. Depois de algumas horas ela me rece- As qualidades de mulher inquieta e de pro- beu e a entrevista rendeu bem”, recordou. fissional questionadora foram levadas para dentro da UFPB e, a partir de então, Joana tem Mas, para quem acha que encarar ambien- se destacado como uma das docentes mais em- tes e pessoas completamente desconhecidas e penhadas em levar ensino de qualidade aos “arrancar” delas as informações que precisa estudantes daquela instituição. “Tento man- sem enxergá-las foram os maiores desafios en- ter um diálogo estreito com outras interfaces, frentados por Joana, seria bom experimentar sejam elas a arte, a literatura ou mesmo as redigir uma reportagem de página inteira em histórias de vida de cada um”, destacou. uma máquina de datilografia e não poder cor- Joana disse que ao longo dos seus 17 anos rigi-la. E foi exatamente assim que ela traba- como professora descobriu que o ensino é umA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 7
  • contrato e que, para dar certo, é necessário que todos os envolvidos colaborem. Através de métodos criativos e eficientes, ela tem conquis- tado o comprometimento de seus alunos, con- seguindo, assim, desenvolver neles qualida- des fundamentais para a formação do bom profissional de comunicação. “Procuro ques- tionar os conceitos deles sobre a ética profissi- onal e fazê-los enxergar a importância do diá- logo constante com a literatura. A escrita é o instrumento do jornalista e desenvolver um bom texto, com narratividade e criatividade, é fundamental”, justificou. Questionada sobre o preconceito em sala de aula, ela diz que jamais foi hostilizada por sua condição física e que a maior parte dos estudantes é respeitosa. Convicta de que seu grande diferencial não é o fato de ser defici- ente visual, mas a maneira como trabalha, como orienta seus alunos, Joana tem plena convicção de que o estigma de seu corpo não pode ser um atributo depreciativo, e que a interiorização de quem ela é, realmente, é o que garante sua felicidade.NA ARENA DASREDES SOCIAIS Durante a aventura de se tornar doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC–SP), em 2004, Joana Belarmino se rendeu ao cibe- sibilitado uma interação valiosa entre a pro- rativismo e, hoje, é uma das pessoas mais in- fessora e seus alunos, à medida que dúvidas e fluentes do estado nas redes sociais. “Através alertas estão sendo transmitidos em tempo do avanço da tecnologia é possível que defici- real. O mesmo acontece entre a escritora e seus entes visuais tenham acesso a todos os meios leitores, que ao longo de 2011 experimentaram de comunicação e, assim, temos transforma- a criação do NanoRomance. O projeto uniu do a internet em uma grande arena de mobi- André Ricardo Aguiar, Beto Menezes, Joana Be- lização”, observou. larmino, Anderson e Raoni no objetivo de de- Usuária assídua das ferramentas que possi- senvolver personagens que decorreriam capí- bilitam trocas de informações instantâneas tulos ligeiros sobre os mais diversos temas. entre pessoas de todo o mundo, Joana tem de- O projeto encerrou-se em 2 de junho de 2011, senvolvido pesquisas e feito parte de fóruns e quando Joana Belarmino, última remanescen- grupos de discussão. Nestes movimentos, ela te, fez as malas e partiu. Zarpando para a “ge- e tantos outros exigem de políticos e da socie- leira azul da solidão”, ela deu adeus aos leito- dade civil providências para questões impor- res e amigos, afirmando que não sabe “tomar tantes, tais como cumprimento dos direitos café sozinha” e alegando que, com o tempo, do consumidor, direitos humanos, fim da cor- “até a ‘matilha’ de leitores se foi”. rupção, conservação da natureza, acessibili- No entanto, esta paraibana multifacetada dade e cultura de paz. ainda promete surpreender muita gente com “A internet possibilita alcançarmos públi- novas formas de educar, a publicação de li- cos de todas as idades e grupos sociais de modo vros inéditos e campanhas mobilizadoras em que o ciberativismo surge como uma alterna- redes sociais. Joana garante que não jogou as tiva real e eficaz de praticar nossa cidadania. chaves de sua criatividade ao mar, e que tem A cada dia damos um passo, e através de peti- “esquecido” fragmentos de si em pequenas ções online e coleta de assinaturas consegui- gavetas. Ao longo dos anos que se seguirão, mos colocar a ‘boca no trombone’ e obter êxi- certamente encontraremos tesouros que ape- to, praticar a mudança”, assegurou. nas as percepções de um “olhar” de guerreira Além disso, as plataformas virtuais têm pos- são capazes de nos permitir vislumbrar.8 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 conto Sonho de SábadoJoana BelarminoS onhou que ele vinha. Não tinha sido um sonho longo, cheio de detalhes. Algo como umtelegrama, por baixo do seu sono de lexotã, sílabas aparentemente desconexas a ditar-lheo inusitado. Chegaria com a fome do seu corpo, e lhe despiria as parcas roupas, ali, pertoda porta, e a pressa se transmudaria em contemplação, em diálogo de respirações etoques, em entrega. De manhã ergueu-se à pressa, e surrupiou, no mercadinho da rua paralela, o sabonetede erva-doce com que se lavaria. Banho frio e revigorante, a lhe escorrer em grosso cone do velho cano do pequenobanheiro, a lhe lavar todas as sujidades, a lhe purificar o espírito, aceso pelas promes-sas do sonho. Imaginou-lhe a barba de muitos dias, a acumular dos cheiros da sua vida incerta,e experimentou, no fundo do sexo, a pulsação excitante de o saber ali, a vasculhar seucorpo, a provocar-lhe ganidos íntimos nas entranhas untadas de paixão. A manhã de sábado trouxe o jogo improvisado dos meninos de sempre, a berrarcom suas vozes roucas e nasaladas. Dentro de casa, fervia o chá e lutava por fazer calar-se o vento de outono, afim deque não perdesse os ruídos das velhas sandálias dele, a subir a rua. Ele viria. Chegaria sem se anunciar, e ficaria a contemplá-la, da porta, antesde entrar, um cinismo quase terno a enrugar-lhe o lábio superior, a exibir afalha dentária. E com passo sorrateiro iria até a sua velha cama, e se deita-ria, quase sem barulho, e ela sentiria a paz de tê-lo ali, num sábadosuspenso no tempo, a tremer de paixão. O sol do meio dia, amarelado e triste, cedia lugar à tropelia dasnuvens. Ele viria com a chuva. A água a lhe molhar o velho casa-co, a se entranhar pelos seus cabelos, a lhe emprestar um chei-ro a cachorro molhado, cheiro que tanto a excitava. A rua anoiteceu, ainda era cedo da tarde. Ele viria. Trariao desassossego da pressa, a cachaça comprada ali, nobuteco da esquina. E a chuva grossa, feito marceneiro, desconjuntavapouco a pouco a sua certeza. Fazer alguma coisa. Re-começar. Banhar-se na tarde, entregar seu corpo aolatejar da água, correr, correr, encurtar o caminho,encontrar-se com ele no meio da chuva. E saiu porta a fora, e viu assombrada a força daágua a erguer sua casa ao colo, a destampar achaleira e entregar o chá fervido ao largo rio queera agora a sua rua. Ele viria. Ele viria com osbraços erguidos, e fariam amor do meio dachuva, no cimo da tormenta, a remarem suapaixão intensa sobre os frágeis toros da casadesmantelada. Jornalista, escritora e professoraA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 9
  • 6 imagens amadas João Batista de Brito brito.joaobatista@gmail.com É tudo mentira , - ou quase tudo cinema começou documental. Disso nin- esquecido. Quem hoje chamaria um fil- o guém tem dúvidas. O que os irmãos Au- guste e Louis Lumière fizeram em filmes de 1895 como A Chegada do Trem à Estação e A Saída dos Operários da Fábrica era realmen- me ficcional de “posado”? Uma ironia que não pode deixar de ser colocada é que, naqueles tempos primitivos do cinema ainda predomi- te documentário, no sentido amplo de re- nantemente documental, a ideia de gistro do real. Como os irmãos Lumière que cinema consistia no mero registro foram os primeiros divulgadores do novo da realidade era tão consensual que meio, o conceito de documentário se con- até as “poses” dos irmãos Lumière fundiu, por um tempo, com o conceito de passavam por verídicas. O Regador Re- cinema. Apesar dos experimentos técni- gado (1895), por exemplo, é um filme cos do prestidigitador Georges Méliès, todo “posado”, e, contudo, esse lado que investiam na fantasia e no surreal, ficcional não veio à tona para ninguém essa confusão perdurou e na primeira da época, em parte por culpa de seus década do século XX ainda se pensava autores que – estranhamente - defen- uma coisa pela outra. deram sempre firmemente a ideia de No Brasil daquela época, por exemplo, que o cinematógrafo fora concebido o documentário era tão comum que, nos para o exclusivo registro do real. poucos circuitos de exibição, os filmes Essa equação cinema=documentário foi, não-documentais eram anunciados como como se sabe, corrigida pelo tempo, e o “posados”, e o adjetivo significava que as século XX viu o desabrochar e a consa- pessoas que se viam na tela haviam ence- gração do seu oposto: embora eminente- nado (posado) a estória, que, verídica ou mente representacional (ou seja, nunca não, era narrada assim, a partir de suas abstrato), o cinema efetivamente consa- “poses”. O fato de que não havia um ter- grou-se como uma arte narrativa e ficci- mo para denominar os filmes que não fos- onal (se você quiser usar o termo antigo, sem “posados” deixa bem claro o predo- “posada”). Sem se extinguir, o documen- mínio do cinema documental, certamen- tário diminuiu de tamanho: deixou de te entendido como o normal. Com o pas- ser sinônimo da arte cinematográfica sar do tempo, os “posados” (principal- como um todo e sensatamente acomo- mente os advindos da então emergente dou-se no conceito de gênero, ao lado dos Hollywood) tomaram conta do mercado: tantos outros existentes. eram tantos, e os documentais tão escas- Mas é neste ponto que aparece um sos, que o adjetivo caiu em desuso e foi equívoco crucial, recorrente nos meios c10 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 imagens amadasc cinematográficos. Por ser o gê- nero documentário entendido como “cinema sem ficção”, isso passou, para muita gente, a ideia de que um filme documental mostraria o real tal qual ele é, ou seja, sem interferência do ci- neasta – para usar uma expres- são de Roland Barthes, uma es- pécie de grau zero de linguagem, ou seja, uma forma de discurso em que o enunciado (o filme em si), cedeu lugar à enunciação (a realidade filmada) e sequer che- gou a nascer. A noção de um tal cinema do- cumental idealmente puro, e, portanto, hiper-realista, não foi só dos irmãos Lumière e, ao lon- go da História, ela ressurgiu em vários momentos, com nomes Auguste e Louis Lumière variados. Nos anos cinquenta- sessenta, essa noção teve um no real, pois o real é assimétrico, renascimento significativo com A noção de um tal disperso, caótico: não é montado. o etnólogo Jean Rouch, que pas- cinema documental Como se sabe, é comum que sou a propor e fazer um “cine- um documentário tenha um co- ma-verdade”, esse que fala por idealmente puro, e, pião extremamente longo (em al- si mesmo, como se à revelia de guns casos, com dezenas de ho- quem filma. Ora, que essa pure- portanto, hiper-realista, ras de duração) que não seria vi- za de linguagem não faz sentido não foi só dos irmãos ável para público algum assistir. por uma razão muito simples: Uma tarefa do documentarista é embora desejada por alguns, ela Lumière. sistematicamente cortar, deixan- é semioticamente impossível, o do de lado milhares de fotogra- que também equivale a dizer: mas, e escolhendo o que o públi- cientificamente impossível. co vai ver, e em que ordem o verá. Como nos explica Ferdinand de Bastaria o cotejo das duas metra- Saussure nos seus ensinamentos gens (duas horas para o filme linguísticos, toda linguagem é fei- pronto e dez para o copião, diga- ta de escolhas. De escolhas e de mos...) para se ter uma ideia do combinações, é verdade, mas, es- um determinado assunto, e não grau de ingerência do autor so- tas também são escolhas, pois outro, ele já está fazendo uma es- bre a obra. A edição do som (fa- combinamos o que queremos do colha. Quando liga a câmera e fil- las dos depoentes e/ou voz em modo que queremos. A língua pos- ma o objeto escolhido, ele o enqua- over do autor) e, se for o caso (e sui um número dado de palavras dra e ilumina de uma determina- geralmente é) o acréscimo da e um número também dado de da maneira, e não de outra, e como música terminam por definir o regras, e, contudo, ao falar, você ele o enquadrou e o iluminou foi caráter pessoal, e, portanto, au- escolhe as palavras que quer usar escolha sua. Se formos recobrir o toral, de todo e qualquer filme e, sem quebrar a regra da inteli- processo inteiro, todas as etapas documental. gibilidade, as combina da forma da filmagem de um documentá- Agora, atenção, esse caráter que lhe apraz. rio implicam escolhas, mas, de pessoal, subjetivo, autoral, não Do mesmo modo, o gesto de fil- todas, talvez a montagem seja a concede ao documentário uma mar consiste num amontoado de que melhor ilustra a interferên- natureza ficcional. Pelo menos, escolhas que se superpõem e dão cia do cineasta sobre a forma e o necessariamente, não. Docu- ao resultado final um aspecto sentido do filme. Nessa etapa, o mentário e filme ficcional são a bem particular, um pouco menos cineasta – representado pelo rigor duas coisas diferentes que objetivo do que se quer, e um pou- montador, ou não – corta o que não podem ser confundidas. Bas- co mais subjetivo do que se ima- filmou e não quer manter, e mon- taria o velho termo “posado” gina. Por mais realista que queira ta as partes do filme do modo que (usado em um e proibido no nou- ser, quando um cineasta-docu- quer, normalmente buscando efei- tro) para assegurar a diferença. mentarista decide que vai filmar tos de sentido que não estavam A natureza de cada um é tão evi- c A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 11
  • 6 imagens amadasc dente que, suponho, não necessi- ta de definições. E mesmo o fato de certos documentários conte- rem momentos ficcionais e cer- tos filmes de ficção conterem tre- chos documentais – mesmo este fato não destroi a diferença entre os dois gêneros. O que iguala documentário e filme ficcional é algo que está mais embaixo – ou seria mais encima? –: o fato de que ambos são autorais. A colocação é im- portante para a reflexão sobre a relação do documentário – e por tabela, do cinema em geral - com a realidade. Ao afirmarmos que um filme documental é tão auto- ral quanto um filme ficcional, ne- A Chegada do Trem à Estação (1895), dos irmãos Auguste e Louis Lumière cessariamente implicamos que a realidade que nele aparece não coincide de todo com – se for pos- am? A rigor, porque os Lumière, um filme ficcional sobre sível o pleonasmo - a “realidade de propósito ou não, escolheram real”, porque, inevitavelmente, um problema real (a (e o verbo é chave para nós) um consiste numa realidade constru- determinado enquadramento – e ída pelo documentarista. revolução russa, por não outro – que propiciava esse Essa “realidade construída” medo: filmado de longe, o trem exemplo) pode vir a ser pode até ser (e geralmente é) mais avançava em direção à câmera, o enfática, ou mais envolvente, ou mais realista do que um que equivale a dizer, em direção à mais contundente, ou mais signi- tela, ou seja, ao espectador. Tives- ficativa, do que a “realidade real” documentário sobre o sem os autores do filme escolhido e, contudo, isso não torna o filme um outro enquadramento (o trem mesmo assunto. documental mais realista, pois a se afastando, ou simplesmente rigor, ele é um constructo, em ter- cruzando a tela de um lado a ou- mos simples, uma visão pessoal. tro), com certeza, a reação do es- Se fosse para continuarmos com pectador primitivo teria sido ou- a dicotomia documental/ficcio- tra. Aqui não interessa se os Lu- nal, valeria lembrar paradoxos mière quiseram ou não provocar que não são fáceis de entender e o medo; o que interessa, para nós, que, no entanto, são verdadeiros com os inventores e pioneiros é que, num filme de uma única e pertinentes para a nossa refle- com que abrimos esta matéria, os tomada, breve e mimética, eles xão. Um deles é o seguinte: um irmãos Lumière. Segundo os his- colocaram, ao escolher o enqua- filme ficcional sobre um proble- toriadores, os jornais da época dramento, um inequívoco sinal ma real (o assassinato de Ken- deixaram registradas as reações de autoria. Assim, se o primeiro nedy, ou a revolução russa, ou dos primeiros espectadores ao fil- documentário do mundo já foi um campo de concentração na- me Chegada do Trem à Estação. Ao autoral, muito mais o seriam os zista, ou a vida num presídio ver o trem se aproximando, as outros, todos os que se fizeram brasileiro, por exemplo) pode vir pessoas agitavam-se, alguns se depois. a ser mais realista do que um afastavam, outros recuavam rá- O registro da reação dos espec- documentário sobre o mesmo pido, derrubando cadeiras e cau- tadores ao trem dos Lumière é assunto. O que, afinal de contas, sando atropelos. Foi preciso que importante, entre outras coisas, vai determinar o grau de realis- os irmãos Lumière avisassem, também porque dá a medida do mo serão os enfoques dados, e antes de cada sessão, que não ha- efeito de realismo no cinema do- não o gênero escolhido. via perigo e que todos podiam cumental. Embora correr da ima- Acreditando haver ficado este permanecer em seus lugares: em gem do trem fosse uma leitura ponto, passamos a mencionar al- suma, o trem que se via era só ingênua do cinema, não deixa de guns casos históricos em que o uma imagem em movimento, e ser uma reação similar a que quer constructo que é o filme foi con- não um trem real. o documentarista que apresenta fundido com a realidade. Se era só uma imagem, por que o seu assunto como verídico, ver- Comecemos nossas ilustrações os primeiros espectadores o temi- dadeiro. O documentarista que c 12 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 imagens amadasc filma hoje, por exemplo, o exter- mínio da raça indígena no Brasil quer que o espectador saia do ci- nema indignado, chocado ou ira- do. A indiferença dos espectado- res informados pelos Lumière de era só uma imagem de trem, e não um trem de verdade – essa indi- ferença não convém aos cineastas que realizam documentários. E o círculo é vicioso: porque não querem indiferença é que os cineastas-documentaristas bus- O Homem de Aran (1934), do americano Robert Flaherty cam efeitos além dos meramen- te descritivos, miméticos, docu- mentais, efeitos estes que, por até que ponto O Homem de Aran é O que parece ficar sua vez, acentuam o caráter au- um filme realista? O óbvio é que toral de seus filmes. evidente é que o a resposta é ambígua. Se for para Às vezes a busca desses efeitos tomar o incidente como parâme- vai longe demais. Foi o que acon- conceito de realismo no tro, o que parece ficar evidente é teceu com o nosso segundo exem- que o conceito de realismo no fil- filme documental é bem plo, o filme O Homem de Aran me documental é bem mais com- (1934) do americano Robert mais complexo do que plexo do que comumente se ima- Flaherty, um clássico que críticos gina. e historiadores consideram um comumente se imagina. Um outro caso desse tipo em que avatar do gênero. – por assim dizer – o cinema do- Todo rodado numa ilha da cos- cumental quis ser “melhor” que a ta oeste da Irlanda, o filme apa- realidade, aconteceu na URSS nos rentemente retrata a vida de uma tempos duros de Josef Stalin, e não aldeia de pescadores que retira o apenas em um filme, mas em toda seu sustento do mar bravio, que uma filmografia estatal. Na épo- castiga as falésias com sua fúria ca tinha o Kremlin a sua equipe indomável. Para maior familiari- do não existia eletricidade, tinha de cinegrafistas, encarregada de dade com o assunto, Flaherty e sua sido costume dos tetravôs, costu- acompanhar os acontecimentos equipe foram morar na ilha, onde me abandonado por ter feito mui- mais importantes que, filmados, ficaram por quase dois anos, fil- tas vítimas. Flaherty havia lido eram exibidos em naturais nos mando praticamente todos os as- sobre o tubarão branco e tentou cinemas do país. Além disso, es- pectos do modesto cotidiano dos convencer os pescadores de Aran ses cinegrafistas do governo tam- habitantes, e de fato, para quem a retomar a caça, pelo menos uma bém tinham a missão de viajar assiste ao filme, a impressão é de vez, para que ele pudesse filmar. país afora, filmando a vida coti- rigorosa fidelidade. O cotidiano Apavorados com a perspectiva, diana do camponês russo. da ilha está registrado, mas, o que os pescadores se recusaram ter- Era uma vida difícil, precária, mais impressiona – na verdade, o minantemente, inclusive, alegan- sofrida, mas o problema era que, ponto alto do filme - são as toma- do que, como a prática fora aban- previamente censurados pelos das no mar onde, entre ondas donada havia tanto tempo, não assessores de Stalin, esses cine- avassaladoras, os pescadores ca- conheciam a técnica necessária grafistas não podiam mostrar di- çam o temível tubarão branco. para a captura do temível tuba- ficuldades, e, ao contrário, tinham Assistindo a essa sequência, é pos- rão. O que fez Flaherty? Embre- que passar ao público uma ima- sível perceber o perigo a que es- nhou-se na leitura de compêndi- gem extremamente positiva da tão sujeitos os pescadores, e por os sobre pesca, aprendeu – pelo vida rural. Assim, a penúria e a tabela, o mesmo perigo a que se menos teoricamente - a técnica da dor eram evitadas (e se filmadas, sujeitou a equipe que os filmava. pesca do tubarão branco e a re- eram cortadas na montagem) e os Mas, ora, o que de fato aconte- passou para os pescadores, que só cinegrafistas faziam esforços so- ceu em Aran não é propriamente aceitaram a empreitada quando bre-humanos no sentido de en- o que está na tela de Flaherty. Flaherty lhes pagou uma soma de contrar sempre figuras bem nu- Quando este lá chegou, por volta dinheiro considerável para os tridas e saudáveis a quem se pe- de 1933, já não se pescava o tuba- seus modestos padrões financei- dia que rissem diante das câme- rão branco havia quase um sécu- ros. A cena foi “posada”, portan- ras, isso tendo se escolhido capri- lo. A caça desse violento cetáceo, to. chosamente um fundo verdejan- cujo óleo iluminava a aldeia quan- A essa altura, a pergunta seria: te de plantações viçosas e auro- c A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 13
  • 6 imagens amadasc ras encantadoras, claro, com o acréscimo posterior de uma mú- sica sublimemente revigorante. O povo russo acreditava nesses filmes? Se acreditava, não se sabe, mas sabe-se muito bem (pois há registro do fato) que den- tro das portas fechadas do Kre- mlin houve quem acreditasse – e o pior, o maior crédulo foi o au- tor do projeto. Sim, o que consta é que Stalin, de tanto assistir a esses documentários em sua sala de projeção particular, passou, com o tempo, a acreditar neles, e na fase mais madura de sua exis- tência, pública e privadamente, apresentava o sincero comporta- mento de quem cria piamente Sobre Crise a primeira que a vida rural na URSS era ver- dadeiramente idílica e paradisí- coisa a ser dita é que é, aca. Um caso curioso de um pseudo-feiticeiro convencido ainda hoje, impactante. pelo seu falso feitiço, mas, para Através do olho curioso nós, aqui, ilustra os poderes transformadores do cinema apre- da câmera, o espectador sentado como documental. Um pouco mais próximo da é introduzido aos dois ral ou de outra ordem. realidade está um documentá- Sobre Crise a primeira coisa a lados da questão. rio americano que relatou um ser dita é que é, ainda hoje, im- caso famoso do começo dos pactante. Através do olho curio- anos sessenta. so da câmera, o espectador é in- Não sei quem ainda recorda os troduzido aos dois lados da ques- fatos, mas, em junho de 1963, a tão. Enquanto as negociações imprensa mundial noticiou o caso prosseguem, vê-se o cotidiano do Governador de Alabama, Es- doméstico do Secretário de Justi- tados Unidos, que, em pessoa, cidade também sulista. ça, Robert Kennedy, do mesmo pôs-se em frente à porta da Uni- Pois bem, o caso inteiro foi fil- modo como se vê o cotidiano do versidade para impedir a entra- mado em seus bastidores, priva- intransigente Governador Geor- da de dois estudantes negros que dos e públicos, e pode ser visto ge Wallace. Cafés da manhã, tele- pretendiam matricular-se. Escan- no documentário de 52 minutos fonemas, reuniões internas, entre- daloso, o caso gerou uma crise na chamado Crise (Crisis: Behind a vistas, confrontos públicas, cada Casa Branca, onde o Pres. Kenne- Presidential Commitment, 1963), passo do impasse nos é mostra- dy já sancionara a lei que obriga- do cineasta Robert Drew. do, até o momento final em que os va as universidades americanas Como foi possível filmar por dois estudantes negros, vitoriosa- a aceitarem negros como alunos. dentro uma crise política com mente, adentram o recinto uni- Os assessores da presidência ten- tanta liberdade? Acontece que versitário, e o filme se conclui com taram “negociar” com o Gover- Drew havia coberto a campanha um pronunciamento televisivo de nador sulista, que não transigiu, eleitoral de Kennedy em 1960 e o Kennedy, citando Lincoln (outro e a solução de última hora foi o Presidente eleito gostou tanto do presidente assassinado) a respei- golpe diplomático de federalizar resultado (o filme se chama “Pri- to de igualdade e justiça social a Guarda estadual. Vivian Malo- márias”) que deu o sinal verde para para todos. ne e James Hood foram os últimos o registro do caso em questão. Em que pese à defesa de Drew negros a serem barrados em por- Para quem não lembra, Robert de um cinema-verdade, ou de um tas de universidades americanas, Drew (1924-) foi, e é, o defensor “cinema direto”, como preferem mas o caso deu o que falar e aba- americano do que os franceses os americanos, o filme tem, sim, a lou a unanimidade da política de chamam de “cinéma-verité”, ci- sua inevitável ingerência autoral. John F Kennedy, o qual, com ou nema-verdade, aquele que, em Tudo é ardilosamente montado de sem coincidência, seria assassi- princípio mostraria a realidade uma maneira pessoal que dá ao nado cinco meses depois, numa como ela é, sem ingerência auto- espectador, em certos momentos, c 14 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 imagens amadasc a impressão de estar assistindo a O que Crônica de um sas de restaurantes onde pratica- um filme de ficção. Um exemplo mente todos entrevistam todos. entre tantos está nas cenas de con- Verão revela é que o Várias cenas são encenações os- versas telefônicas: filmando em tensivas, como aquela que mostra locais diferentes (Washington, conceito de verdade/ o dia de um operário, desde o mo- Montgomery, Tuscaloosa, etc) o mento que acorda até a sua ativi- realidade no diretor corta e ordena as toma- dade no trabalho; ou aquela outra, das de modo a acompanharmos documentário foi onde uma das moças participan- a conversa com revezamento de tes faz uma longa caminhada, da perguntas e respostas, como se atingido de cheio e o foi Place de La Concorde até o setor faz no onisciente cinema ficcio- do Havre, recitando um monólogo de propósito. nal. O corolário é um maior en- sem interlocutor presente. Antes volvimento do espectador, sem de o filme se concluir, há uma cena- que a “verdade” dos fatos fique chave em que o tanto do filme ro- comprometida. dado é mostrado a todos os parti- A sequência que, nos batentes cipantes, que dão as suas opiniões da Universidade de Alabama, em sobre o conjunto, na maior parte Tuscaloosa, registra o confronto dos casos, opiniões desfavoráveis. entre o governador Wallace e o Um ponto que fica claro, nessa dis- assessor do presidente, Nicholas cussão coletiva, por exemplo, é se, Katzenbach, é um documento pre- for o caso, sobre o seu estado de ou até que ponto os desabafos fo- cioso para qualquer estudo sobre espírito naquele verão de 1960, ram sinceros ou encenados, para segregação racial, nos Estados porém, o roteiro é frouxo demais retomar um termo com que abri- Unidos ou alhures. Nela, como no para assegurar uma linha de an- mos esta metéria, “posados”. filme todo, se não se puder falar damento. As sequências são inde- Uma mistura evidente da etno- de “verdade” em si, pode-se pelo pendentes e, se cotejadas, não for- grafia de Rouch com a sociologia menos defender o conceito de re- mam uma estrutura de sentido. de Morin, o que Crônica de um Ve- alidade histórica assegurada por Assim, o filme começa com uma rão revela é que o conceito de ver- uma câmera investigativa. moça, Marceline, amiga dos cine- dade/realidade no documentário Temos usado a expressão “ci- astas sendo, com alguma relutân- foi atingido de cheio e o foi de nema-verdade” no amplo senti- cia, convencida a fazer o papel de propósito. Somente de uma ma- do rouchiano de documentário repórter de rua e interpelar os neira enviesada, indireta, disfor- que dá vez à realidade. Por isso passantes nas calçadas lhes for- me, a realidade se presentifica no mesmo, - e para fazer justiça - mulando de chofre uma pergun- cinema documental, e há mesmo nos sentimos na obrigação de ta estranha e difícil de responder: um mistério que sequer explica fechar esta matéria fazendo re- “Você é feliz?”. As reações dos a sua presença. Por isso, na cena ferência a um filme do próprio anônimos entrevistados são as final, a câmera que, em movimen- Jean Rouch que, ironicamente, mais variadas, mas, quando se to, durante algum tempo acom- problematiza a presença do real pensa que este método guiará o panha os dois cineastas enquan- no documentário. filme todo, ele é abandonado. De to estes caminham e discutem o Hoje um clássico do gênero (com repente, é Marceline a entrevista- filme, em dado momento, se de- um prêmio em Cannes), o filme se da, agora pela dupla de cineastas, tém e os deixa ir embora, sem que chama Crônica de um Verão(Chro- que vai variando os seus infor- mais ouçamos as suas palavras nique d´un Été, 1961) e foi rodado mantes de uma maneira mais ou sobre o filme realizado. a quatro mãos, com o sociólogo menos aleatória. Há artistas, ope- Como mais tarde admitiria o pró- do cinema Edgar Morin, no verão rários, estudantes, imigrantes prio Rouch, “o cinema-verdade é de 1960 em Paris. A projeção co- negros, crianças, mas a pergunta um cinema de mentiras, mas as meça com Rouch e Morin discu- do início (“Você é feliz?”) ficou es- mentiras são mais verdadeiras que tindo o filme que se vai ver, e se quecida, na medida em que as pes- a verdade”. Acho que, sem falsea- conclui com a mesma dupla fa- soas debulham os seus dramas, mentos, poderíamos mudar a pa- zendo a avaliação da realização, com certo nível de entrega emoci- lavra “verdade” para “realidade”. como se o making of (termo ine- onal. Até mesmo a paisagem pa- xistente na época) fizesse parte do risiense foi esquecida, já que a se- Em tempo: o título desta maté- filme. Esse grau de metalingua- quência final (um dos imigrantes ria é uma brincadeira com o pro- gem assumida é uma constante, e negros entrevistados, agora en- grama televisivo É Tudo Verda- o filme não se incomoda de ser trevistando uma moça branca na de, do crítico Amir Labaki. I desigual no método e na aborda- praia) acontece em Saint Tropez. gem. Composto basicamente de Algumas vezes as entrevistas entrevistas, em princípio, seria são no estilo “tête-à-tête”, outras Crítico de cinema e de literatura e sobre a vida do parisiense, ou se em grupo e com frequência em me- professor da UFPB A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 15
  • 6 crítica A estrela brilhante de Keats e Campion Genilda Azerêdo filme Bright Star (ao pé da letra, Estrela Brilhante; tradu- O zido no Brasil como Brilho de uma Paixão), de Jane Cam- pion, faz jus a um dos versos mais famosos da litera- tura inglesa: "A thing of beauty is a joy forever" / "Uma coisa de beleza (ou "um objeto de beleza") é uma ale- gria para sempre", do poeta romântico inglês John Keats. O filme conta justamente a história de amor e sofrimento entre Fanny Brawn e John Keats e, ao fazê- lo, oferece um painel sensível e instigante da Inglater- ra nas primeiras décadas do século XIX, seja quanto às convenções familiares e sociais, à sensibilidade poética, à dificuldade de aliar produção literária à pu- blicação, à questão da sobrevivência de artistas po- bres (a exemplo do próprio Keats), à impossibilidade de amar (materializar o sentimento) em um contexto de pobreza e rígidas regras sociais. c16 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • c Bright Star é inicialmente o títu- prio Wordsworth quem também lo de um poema de Keats dedica- define a poesia como "emoção re- do a Fanny. Este aspecto já amal- colhida/relembrada na tranquili- gama a importância que o casal dade", contraponto perfeito para possui na narrativa fílmica, cons- aludir ao caráter já moderno da truída de modo a valorizar a poe- poesia romântica inglesa. E é exa- sia de Keats e a "poesia" de Fanny. tamente dentro deste contexto - A sequência fílmica de abertura emoção e recolhimento/resgate da valoriza a costura e o bordado, ao emoção - que devemos compreen- preencher a tela com agulha, teci- der o verso "A thing of beauty is a do e linha. O filme coloca em pé de As discussões sobre poesia joy forever". Em seus ensinamen- igualdade a poesia das palavras e tos a Fanny sobre poesia, Keats en- a criatividade e beleza dos pon- entre Keats e Fanny fatiza a importância dos sentidos tos e bordados. Ambas as ativi- na apreensão do poético. Diz ele que dades têm inclusive uma função servem inclusive para a poesia é uma experiência para catártica. Quando o irmão de Ke- além do pensamento, devendo ser ats morre de tuberculose (doença desmistificar noções compreendida através dos senti- que também mataria o próprio dos. Em meio ao jogo de sentidos, a Keats, aos 26 anos), Fanny passa convencionais sobre o memória afetiva possui lugar de a noite inteira costurando e bor- destaque. A eternização da beleza dando uma fronha para ele. poeta (em sentido amplo) se faz através da memória, sempre Quando Keats parte para a Itália, que a memória da beleza é aciona- numa última tentativa de recu- e a função da poesia. da. Em dois poemas de Wordswor- peração da doença, escreve, em th, esta relação entre memória e pouco tempo, uma quantidade beleza é mediada pela natureza, significativa de poemas. através de duas metonímias - um Embora o filme se situe em um campo de narcisos e um arco-íris. contexto de sensibilidade român- tesanato da poesia, Keats defende É, inclusive no poema sobre o arco- tica e tenha como foco a história de um princípio caro aos poetas ro- íris que encontramos o verso "The amor intensa e dolorosa entre mânticos, ao declarar que a forma Child is father of the Man"/"A Cri- Fanny e Keats, sua tonalidade é é uma carcaça e "se a poesia não ança é o pai do Homem", que resu- contida e jamais descamba para o vier tão naturalmente quanto as me a reverberação da memória da melodramático ou sentimentalis- folhas de uma árvore, melhor que infância, do olhar encantado da cri- mo exacerbado. As discussões so- não venha". É preciso não confun- ança naquilo que somos quando bre poesia entre Keats e Fanny ser- dir essa defesa da espontaneidade adultos. Em Keats, diferentemente vem inclusive para desmistificar - que ecoa um princípio também de Wordsworth, há uma indefini- noções convencionais sobre o poe- famoso de William Wordsworth ção (e consequentemente, elastici- ta (em sentido amplo) e a função da (outro poeta romântico inglês), dade) quanto ao objeto de beleza, poesia: "o poeta é o ser mais não- quando diz que "a poesia é o fluir já que o mesmo é referido como "a poético que existe; é sem identida- espontâneo de sentimentos pode- thing of beauty", de modo a trans- de, vive de preencher outros cor- rosos" - com confissão, desabafo ou cender o próprio contexto român- pos, como o sol e a lua". Sobre o ar- negligência formal. Aliás, é o pró- tico. E não é esta uma das funções c A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 17
  • c da arte? Materializar a beleza, possibilitar mos exercitando instrumentos musicais, sua perenidade? mas também aprendendo a dançar, com A meu ver, foi exatamente isto que Jane um instrutor que fala francês). E há refe- Campion fez, ao construir a história de Bri- rências à participação de Fanny em bailes ght star. O brilho da estrela, referido no e ao quanto ela gosta de dançar. Também poema de Keats como "constante, imutá- assistimos, logo no início do filme, a uma vel", é duplicado metaforicamente através espécie de sarau artístico com canto e mú- da constância de sentimento entre Keats e sica, além de diálogos que aludem a poetas Fanny - um sentimento que ganha expres- (a Coleridge e ao próprio Keats). são, iconicamente, através da delicadeza e Quanto aos códigos morais que regem as beleza no nível da visualidade fílmica. Ci- relações amorosas, não são poucas as refe- temos um exemplo. Quando Fanny e Keats rências à separação física e sexual entre já vivenciam a vertigem da experiência Fanny e Keats. A propósito, desde o pri- amorosa, a narrativa fílmica metaforiza a meiro encontro amoroso entre eles, media- sensação de leveza através de paralelismos do pela vigilância de Toots (a irmã caçula - Fanny "desmaiando" sobre a cama, Keats de Fanny), até os momentos em que fica- deitado sobre a copa de uma árvore - que vam a sós na casa de Keats, ou quando, dramatizam a convergência de seus senti- doente, ele se hospedou na casa de Fanny, mentos. O verso de Keats que diz "Wish podemos testemunhar o distanciamento we were butterflies and lived but three físico (e a ansiedade e angústia resultan- summer days"/"quisera fôssemos borbole- tes) entre os dois - bilhetes eram trocados tas e vivêssemos apenas três dias de ve- embaixo da porta; mãos acariciavam pa- rão" contamina ironicamente a "leveza" redes que, ao tempo em que ligavam seus (embriaguês) dos apaixonados do caráter aposentos, também serviam de obstáculos. trágico inerente ao tempo, que põe fim a Jane Campion escolheu terminar o filme tudo. A ressonância que tal verso ganha com Fanny recitando o poema ‘Bright no contexto imagético do filme demonstra Star’, escrito por Keats para ela. A fotogra- não apenas a atitude hiperbólica do ser fia, nessa parte do filme, é escura, não ape- amoroso - fazendo Fanny encher seu quar- nas porque é frio, inverno e cedo da ma- to de borboletas - mas antecipa a dor ad- nhã, mas porque reflete a melancolia e o vinda da experiência: "Estou apaixonada? luto pela morte do poeta. Antes de sair de Isto é amor? Nunca mais vou brincar com casa, em meio à frieza da madrugada, isso de novo. É tão ruim que eu acho que Fanny corta os cabelos e veste-se de preto posso morrer". É relevante perceber, a pro- (rituais que também dizem do luto). A reci- pósito desta situação, a solidariedade da tação de um poema que fala de um desejo família de Fanny, cuja mãe nunca a censu- de constância e imutabilidade, em momen- ra ou critica. to de profunda dor, torna-se irônica ao Um contraponto interessante aos diá- menos em dois aspectos: nesse momento, a logos entre Keats e Fanny sobre a poesia homenagem é de Fanny a Keats, que, atra- é oferecido por Mr. Brown, também poe- vés da recitação do poema, traz à tona o ta, amigo de Keats. Mr. Brown não ape- poeta, ressuscitando-o através da sua pa- nas quer viver a criação poética como um lavra. A recitação (embora catártica) tam- sacerdócio, controlando a vida de Keats, bém parece dizer que, apesar da perda, seu seguindo à risca uma rotina de trabalho, sentimento vai perdurar, que o brilho da como se sente altamente enciumado com estrela (agora Keats) será eterno. O filme a convivência entre Keats, Fanny e sua termina, mas a poesia de Keats continua a família. Em oposição a tal seriedade, o fil- pontuar, em voz-over, toda a passagem dos me capta, de modo divertido, o senso de créditos. É, enfim, mais um modo de refor- humor de Keats e seu modo sempre sub- çar que a poesia, quando um objeto de be- versivo de romper com etiquetas e con- leza, é passível de ser rememorada, consti- venções. Keats gosta de brincar e passe- tuindo-se uma alegria eterna. I ar no jardim, e em várias das cenas com Fanny, mais parece uma criança frágil, protegida por ela. Em se tratando de convenções, o filme ofe- rece um retrato em miniatura (ao modo de Jane Austen) da sensibilidade artística da época. A família de Fanny, embora visivel- mente com parcos recursos materiais, edu- ca os filhos musicalmente (não só os ve- Professora da UFPB18 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 festas semióticas Amador Ribeiro Neto amador.ribeiro@uol.com.br meu jovem filho PARA O MEU FILHO PEDRO, FALECIDO AOS 24 ANOS o mau agouro de agosto [ pai também vive revolto em turbilhões de nublou 30 de julho com as tintas corrosivas pensamentos-cacos que molestam da morte um sujeito comum no meio do meu amor e zelo de pai que tão só e somente fui obrigado a medir os passos do berço luta pra manter uma de meu filho saúde comum ] até sua insepulta sepultura eu antevira a lúcidaimagem do meu filho num tiscar do tempo na noite anterior engolfando aos borbotões seus e meus pul- mões envolto num grosso saco plástico retirado das águas ainda pesadas águas revoltas solvem com avidez o corpo do meu filho ah na certa os excessos medicamentosos gerando a clarividente antevisão dantesca [ como sal em água ] um filho não morre antes do pai o pai foi feito pra morrer antes nem um fio de cabelo resta de seus 24 anos de puríssima juventude-luz um filho não morre antes do pai o pai foi feito pra morrer antes havia um rio no meio do caminho e o fatal mergulho no escuro a imersão do corpo do filho craveja a memória do pai, do irmão, da irmã um único e atroz embate com filho, irmão, tu, submerso nas águas, tens batismo às avessas o paredão de pedras encobertas pelo mar subfluvial batismo de corte de ceifa de morte e meu filho boiou inerte pra nunca mais respirar filho onde anda a luz de teus olhos azuis? eu o pai encontrava-me alienado numa clínica psiquiátrica onde as pernas jogando passos como um andarilho bailarino, filho?A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 19
  • 6 festas semióticas olho pro mundo e a prostração maldita recai sobre mim num abatimento funesto desgraçada luz filha da puta que cegara meu filho pra toda vida desinfeliz dia de trevas aquosas maldição trevosa sobre a falta que fiat trucidado meu coração é caudal de sangue que im(ex)plode diante de tua falta, filho eu contigo me asfixio sufoco na tua afogadura na estrangulação da tua execução os céus em imolação colhem a ceifa prematura a natureza é carrasco verdugo carnífice executor algoz assassino que se alimenta de teus despojos mortais ainda tão juvenis quisera eu cosê-la (a natureza) a canivetadas a facadas a punhaladas a espadadas a enxadadas a machadadas e sová-la até devolver-me o filho intacto em sua alegria ensolarada de meu menino do rio Poeta, crítico literário e professor da UFPB20 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 artigoA representação minimalista de O Quadro-Negro Ângela Bezerra de Castro Q uando O Quadro-Negrofoi lançado pela José Olympio, em 1954, era improvável que a ele eu pudesse ter acesso, nem mesmo à notícia de sua publicação. Estava iniciando o ginásio mas, àquela época, nenhum professor teria a Ernany Sátyro e a ousada iniciativa de estudar o autor contemporâ- capa da edição de neo local ou de indicá-lo para a leitura. O Quadro-Negro Ancorada no passado, nossa Escola recusava com projeto da o presente e se tornava incapaz de prenunciar as José Olympio incertezas do futuro. Naquela visão alienada, che- gava-se à aberração de proibir os livros de José Lins do Rego, privando-nos do texto renovador e revolucio- nário que deveria ter sido a motivação e o exemplo, para que os jovens estudantes de então se expressassem na linguagem de seu tempo, superando a submissão colonial aos “barões assinalados”. Mesmo depois que me tornei leitora apaixonada dos grandes romancistas nordestinos, jamais tive o interesse despertado para o escritor Ernani Sátyro. E, quando isto parecia possível, na efer- vescente convivência universitária, o político de destaque, no regi- me vigente a partir de 64, projetou-se como sombra deformadora cA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 21
  • c sobre o intelectual, erguendo a barreira de preconceito responsá- vel pela ignorância de minha geração sobre a obra literária do aca- dêmico centenário que hoje reverenciamos. Foi a devoção do estimado confrade Evaldo Gonçalves ao “Amigo Velho”, que despertou em mim a necessidade de conhecer Ernani Sátyro, para além da memória fixada, com a verdade do depoimen- to e da pesquisa, no livro Ernani Sátyro: Convivência e Participação. A necessidade de conhecer o escritor, em decorrência do compromis- so assumido com os objetivos da Academia Paraibana de Letras. Procurei O Quadro-Negro e Flávio Sátiro, gentilmente, me presen- teou a 3ª edição, possibilitando-me uma entusiástica descoberta e a feliz superação do velho preconceito. Antes que chegasse ao texto do romance, já tinha a certeza de que estava diante de um verdadeiro escritor. Menos pelo estudo e pelos artigos que o antecedem e revelam o interesse crítico pela ficção de Ernani Sátyro. A grande surpresa veio com o depoimen- to do autor para os Arquivos Implacáveis, de João Condé. Uma ver- dadeira síntese de mestre. Iniciando com a ressalva de que “Não é fácil dizer como nasce um romance”, o escritor encara o desafio. E com estilo sóbrio, em frases curtas e precisas, revelando uma aguda consciência do processo de elaboração ficcional, expõe a gênese de O Quadro-Negro, dando ên- fase ao tempo de gestação e aos limites transcendentes entre a rea- lidade e a criação literária. Depoimento capaz de enriquecer qual- quer lição de teoria sobre a ficção narrativa. O Quadro-Negro é um romance escrito em forma de diário. Com esta escolha do modo de narrar, o autor confere intencionalmente ao protagonista, Paulo Márcio, a grande liberdade confessional que se desdobra na análise de si mesmo, do ambiente e dos outros persona- gens, concretizando o princípio que ele repete até as últimas pági- nas: “Só tem importância o que se passa dentro de mim”. Com a variante: “me importam as pessoas e nestas, principalmente, os re- tratos que me ficam cá dentro”. Na abertura do “diário”, reflexões sobre a linguagem, sobre o pro- cesso narrativo, sobre a correspondência necessária entre forma e conteúdo, sobre o estilo. Essa intenção programática da construção literária, inserindo Ernani Sátyro na tendência ostensiva dos escri- tores modernos que elegeram a metalinguagem como recurso temá- tico e estético, chegando a elaborar uma teoria do conhecimento. Perfaz um ano e um mês o tempo da narrativa. Tem início com a chegada do jovem bacharel recém-formado à cidadezinha natal, para viver os conflitos que irão despertá-lo da inexperiência e dos sonhos, até a decisão de partir. Torna-se instigante a comparação entre Paulo Márcio e dois outros personagens: Lúcio, de A Bagaceira, e Carlos de Melo, em Banguê. Todos bacharéis, de volta para casa, e em crise de afirmação pessoal. No entanto, Lúcio e Carlos de Melo não sabem o que fazer do diploma e se desviam para a terra, numa espécie de fuga. O protagonista de O Quadro-Negro é o bacharel em ação, buscando na ordem jurídica a restauração e a garantia dos direitos. Essa diferença substancial entre os três personagens permite queAntes que chegasse ao se identifique em Paulo Márcio uma transfiguração inovadora, com a redescoberta da tradicional formação bacharelesca, predominantetexto do romance em nossa cultura, numa perspectiva de interferência positiva para o meio social, vislumbrando a prevalência do Direito na solução dos(Quadro-Negro) , já conflitos. Podemos constatar que Lúcio e Carlos de Melo são anti- herois desistentes. Enquanto o personagem criado por Ernani Sátyrotinha a certeza de que é o heroi comprometido com a luta, opondo-se à realidade estagna- da da cidadezinha simbolicamente denominada de Lagoa, espaçoestava diante de um imaginário do romance. Em terra de sapos, Paulo Márcio não fica de cócoras com eles. E é pela ação do jovem bacharel que se estrutura o conflito central do cverdadeiro escritor.22 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • c romance. Entre a arbitrariedade da força político-econômica domi- nante e a justa aplicação da lei, o poder do Direito. É esse o problema que se desenvolve na representação minimalista de O Quadro-Negro. Problema universal que se reproduz em todas as escalas da chamada sociedade politicamente organizada. Quer se trate de uma cidadezinha do sertão ou da metrópole mais progressista; de um país em desenvolvimento ou de uma potência do considerado primeiro mundo, em qualquer das realidades o Esta- do de Direito é ainda uma miragem ou um projeto sempre em pro- cesso de consolidação. Pois em cada instância se vê ameaçado por uma estrutura de poder, com seus “coroneis” que se colocam, arbi- trariamente, acima das leis. Na estreia como romancista, Ernani Sátyro acumulou considerá- vel fortuna crítica, com a unânime constatação de que não dava con- tinuidade aos grandes regionalistas nordestinos, seguia outra ori- entação estética. E é verdade. No entanto, a identificação do espaço romanesco com o sertão levou os críticos a uma visão reducionista da temática do romance e de outros elementos estruturantes da nar- rativa, esquecendo a natureza simbólica que os constitui. Os críticos não se aperceberam de que “o sertão” existe em todo lugar. Pressuponho que a percepção estereotipada da realidade sertaneja prejudicou as leituras de O Quadro-Negro, de tal maneira que o con- flito central do romance não foi identificado, ou melhor, foi confun- dido com problemas menores. E personagens marcantes como Adri- ano Pereira, o juiz, e Maria Augusta, a enigmática e desafiadora na- morada de Paulo Márcio, são injustamente subestimados, por certo, em decorrência da falta de análise do romance. Somente José Lins do Rego identifica em Adriano Pereira “um pa- tético que nos enche os olhos de lágrimas” lembrando a cena dramá- tica em que o juiz, desarmado, enfrenta o fuzil de um capitão de polícia, reforçado pelas carabinas dos soldados que apontam para sua cabeça e, tomando as chaves do carcereiro paralisado, abre as portas da cadeia para dar cumprimento a um habeas corpus, que fora rasgado pela suprema arrogância político-partidária. Onde a deficiência crítica enxerga apenas um juiz preguiçoso, o grande romancista do moderno regionalismo brasileiro descobre o patético, uma categoria do trágico. E não há dúvida de que Ernani Sátyro construiu essa dimensão para Adriano Pereira, personagem de vital importância na consti- tuição do conflito central de seu romance. Tanto que o protagonista- narrador reconhece no juiz o “homem que encarna a única reação possível à brutalidade e à violência”. A difícil missão do magistrado, isolado na comarca distante, cria para o personagem uma aparente rendição. Adriano Pereira quase não fala, recolhido à solidão do seu desamparo. Suportar o peso de ter confundida sua individualidade com a instituição que represen- ta parece esmagar o juiz, consumindo-lhe a vontade e a iniciativa. No entanto, uma grande reserva de energia e ação está contida naA identificação do espaço enganosa passividade, naquele silêncio onde se concentra a convic- ção abismal da defesa do Direito.romanesco com o sertão Adriano Pereira é um personagem-símbolo. A ambiguidade que o constitui não converge para a formação de um caráter, mas para alevou os críticos a uma transfiguração das dificuldades, defeitos e qualidades da complexa prestação jurisdicional. Acompanha-se uma constante e até chocan-visão reducionista da te exposição da morosidade dos seus despachos, mas a grande ênfase é para o gesto definitivo do juiz, que evidencia um compromisso detemática do romance e de vida ou morte com a prevalência do Direito, em sua função social insubstituível. Ioutros elementos (Apresentado na APL em 14 de outubro de 2011)estruturantes danarrativa. Escritora e professora da UFPBA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 23
  • Estátua da Justiça (1961) de6 artigo Alfredo Ceschiatti, Banco de Imagens do STF (www.stf.jus.br) O Gesto e o Momento O CINQUENTENÁRIO DA JUSTIÇA DE ALFREDO CESCHIATTI Marcilio Toscano Franca Filho “Meu pai, um imigrante italiano chegado no começo do século ao Brasil, era padeiro. Vivia com as mãos na massa. E eu, afinal, repito a mesma coisa. Só que troquei o trigo pela argila e, em vez de pães, faço estátuas.” Alfredo Ceschiatti24 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • c Há precisos cinquenta anos, declarou à revista Veja: “Aquilo em 1961, o mineiro Alfredo Ces- Cuida-se de uma Justiça massacra a gente, tem uma força chiatti inaugurava a sua emble- tão grande, um passado tão formi- mática escultura A Justiça, na austera e solene, cujos dável. Diante de Michelangelo, quem frente do edifício sede do Supre- é que pensaria em ser escultor?” Em ângulos bem marcados, a mo Tribunal Federal, na Praça outra passagem – também cita- dos Três Poderes, em Brasília. A postura ereta e o pesado da por Flamínio Fantini –, Ces- alegoria, realizada em granito de chiati volta a declarar em 1975 Petrópolis, mede 3,30m de altu- panejamento dão-lhe um sua paixão pela arte italiana: ra por 1,48m de largura e, ao “Não tenho fases. Só houve um mo- contrário da maior parte da ar hierático e formal. mento em que caí no abstrato. Logo multissecular iconografia da Jus- senti que não era nosso caminho, tiça, retrata uma Têmis sentada, muito sofisticado e muito frio para desprovida de balança e com a mim. Logo voltei ao Mediterrâneo, espada a repousar sobre o colo. à Renascença”. Não há rebuscamento, grandes Tanto quanto os grandes mes- volteios ou recantos impenetrá- tres renascentistas italianos, Al- veis na sua plasticidade. Há, fredo Ceschiatti também gosta- sim, um certo eco concretista na va que sua arte fosse pública e obra, com seu volume compac- monumental. Além de Brasília to, suas formas simétricas e eco- ligiosa de Ceschiatti é vista em e Minas Gerais, esculturas suas nômicas. As linhas concisas e muitas obras de Niemeyer – no de grandes dimensões podem sem interrupções imprimem à fi- Conjunto da Pampulha, em ser vistas, por exemplo, no Mo- gura de Ceschiatti uma serieda- Belo Horizonte; no Memorial da numento aos Pracinhas da Se- de art déco. Cuida-se de uma Jus- América Latina, em São Paulo; gunda Guerra Mundial, no tiça austera e solene, cujos ân- na Catedral, no Palácio da Al- Aterro do Flamengo, no Rio de gulos bem marcados, a postura vorada, no Supremo Tribunal, Janeiro; na figura feminina em ereta e o pesado panejamento no Palácio do Jaburu, na Câma- bronze, de três metros de com- dão-lhe um ar hierático e formal. ra dos Deputados e no Itamara- primento, sem título, no saguão Durante as cinco últimas dé- ti, todos em Brasília. Nascido em da Estação da Sé, do Metrô de cadas, foram ácidas e muitas as Belo Horizonte, a 1 de setembro São Paulo; no bronze feminino críticas ideológicas à Iustitia de de 1918, e filho de pais italianos dos jardins do conjunto habi- Ceschiatti. Não por acaso, a es- imigrantes, Alfredo Ceschiatti tacional de Hansa, em Berlim; tátua serve com freqüência de manifestou muito cedo, ainda ou na imensa estátua de José Bo- cenário midiático para os pro- na escola, uma forte vocação nifácio de Andrada e Silva, na testos que clamam por justiça para a arte. Em 1937, na condi- Praça do Patriarca, em São Pau- em Brasília. Mas como pode ção de oriundi, é beneficiado pelo lo. Em uma entrevista ao jornal uma Justiça sentada? Só pode es- governo fascista italiano com O Globo, em 1975, Ceschiatti é tar preguiçosa e acomodada, uma viagem à Itália, onde se in- incisivo: “Não sou escultor de bi- apesar do tanto ainda por fazer! teressa, sobretudo, pela obra dos belô”. Ainda segundo Flamínio E por que não brande uma es- artistas renascentistas – Miche- Fantini, aquela Justiça foi escul- pada? Fraqueza! Impotência! E langelo especialmente. “Essas pida num bloco único de grani- a balança onde está? Quem já viagens eram organizadas por Mus- to de três por cinco metros, tão viu uma Justiça sem balança?! solini, para filhos de italianos. Eu pesado que chegou a quebrar De onde ela retira a medida tinha, então, 18 anos e fiquei des- um caminhão. justa e ponderada para dar a lumbrado. Como fui muito bem re- Grande admirador de Miche- cada um o que é seu? Espada comendado, me deixaram livre da langelo Buonarotti, é possível sem balança é arbítrio e vio- propaganda fascista e eu tinha tem- que Ceschiatti, durante a sua lência desmedidos! Só um Es- po para visitar museus e exposições. temporada italiana, tenha toma- tado totalitário abrigaria uma Para mim, a Itália foi um choque. do conhecimento de que, muito Justiça assim construída! Isso Voltei decidido a estudar Belas Ar- antes daquele 8 de setembro de é coisa de comunista! tes.” – recordou ele em um de- 1504, quando uma pequena O artista plástico Ceschiatti e poimento reproduzido pelo jor- multidão de florentinos estupe- o arquiteto Niemeyer conhece- nalista Flamínio Fantini. Mas, fatos viu pela primeira vez o co- ram-se no início dos anos qua- ao retornar ao Brasil, não en- lossal Davi de Michelangelo ins- renta e desde então estabelece- veredou imediatamente pela es- talado na Piazza della Signoria, ram uma profíqua parceria es- cultura, conforme, muitos anos bem em frente ao Palazzo Vecchio, tética. A estatuária cívica ou re- depois, em 12 de maio de 1976, não haviam sido poucos os mes- c A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 25
  • c tres renascentistas que já havi- lla degli Scrovegni, em Pádua am retratado o bíblico herói que Como Michelangelo, com (1306), ou ainda aquela outra derrotara Golias, o gigante filis- que Raffaello Sanzio pintou no teu do Velho Testamento. Tad- o seu Davi, Ceschiatti teto da Stanza della Segnatura, no deo Gaddi, Donatello, Mariano Vaticano (1511). Ao contrário revoluciona a iconografia del Buono, Bartolomeo Bellano, dessas três representações, e de Lorenzo Ghiberti, Francesco da Justiça ao optar por outras tantas, a Justiça de Ces- Pessellino, Andrea del Castag- chiatti é uma Justiça que já cum- no, Bernardo Rossellino, An- uma outra dimensão priu o seu mister. E que se não drea del Verrocchio, Antonio del porta uma balança é porque não Pollaiolo são apenas alguns dos temporal do seu tema. está mais a julgar, a sopesar fa- grandes artistas conhecidos tos, a ponderar argumentos, a que, entre o Treccento e o Qua- medir direitos. Em Ceschiatti, a troccento, já haviam produzido justiça já foi feita; tudo já foi alguns belos Davis, muitos medido e pesado, e a cada um já anos antes da obra-prima de foi dado o que é seu. Suum cui- Michelangelo chegar ao centro que tribuere e desaparecem os pra- cívico da Repubblica Fiorentina. tos da balança. A espada, porém, Mas não era apenas o imenso permanece – tranqüila – nas nu masculino, que pela primei- mãos de Têmis. Fica ali porque, ra vez tomava lugar na praça nas mãos do homem, em poder pública, o que mais impressio- so, atento, vigilante e tomado de de uma das partes, poderia vi- nava os florentinos. Em quase grande coragem, é nesse preci- rar vingança privada. É mais se- todas aquelas representações pic- so momento que o Davi se agi- guro, portanto, que esse poder tóricas ou escultóricas até então ganta para enfrentar Golias. E reste – ainda que dormente – produzidas, o Davi bíblico que o jovem pastor abandona a frá- nas mãos do Estado-Tribunal. se celebrava era o jovem herói gil figura juvenil até então co- A obra de Ceschiatti repousa na vencedor, que já havia derrota- nhecida para, amadurecido, tor- entrada da mais alta e mais im- do e decaptado Golias. Até ali, nar-se homem feito, enorme, nu portante Corte Judicial brasilei- cultuava-se costumeiramente a como os deuses, mas em cujas ra e esse locus não pode ser ig- vitória do moço franzino e im- veias o sangue humano pulsa norado. Ali instalado, na Praça petuoso que, com a funda e a vigorosamente. O gesto e o mo- dos Três Poderes, o pesado gra- pedra, vencera o gigante e, de- mento de Michelangelo não são nito de Ceschiatti fala por pois, ainda o decaptara com a os mesmos de Donatello, Ghi- si(lêncio): naquele Palácio a Jus- própria espada do inimigo der- berti ou Pollaiolo e, ao imorta- tiça foi feita! Fez-se justiça na rotado. Em quase todas aque- lizar o atmo anterior à lutar, Mi- Corte projetada por Niemeyer, las imagens anteriores a 1504 es- chelangelo honrou as duas a cada novo julgamento. tavam presentes a espada em ris- principais virtudes cívicas do Não se pode compreender a Jus- te e a cabeça decepada do gigan- renascimento florentino: força e tiça de Ceschiatti sem perceber o te que jazia sob os pés do futu- coragem. Exatamente por isso, edifício do Supremo Tribunal, ro rei de Israel. por mostrar o homem comum logo ali atrás, ou, tampouco, en- Michelangelo, todavia, optou que se agiganta diante do desa- tender a plenitude da arquiteru- por uma outra narrativa da pas- fio, o seu Davi foi escolhido para ra do edifício do Supremo Tribu- sagem bíblica. E revolucionou permanecer no local mais nobre nal sem notar sua composição a iconografia do Davi. Original, da Toscana – na porta do Pala- com a Justiça de Ceschiatti. Um ele enveredou por um discurso zzo Vecchio, o Palácio do Gover- e outro se completam numa iden- pictórico que não fala do Davi no de Florença. tidade escultural-arquitetônica. já vitorioso e orgulhoso do seu Como Michelangelo, com o Essa harmônica simbiose entre a feito, que comemorava a derro- seu Davi, Ceschiatti revolucio- obra do escultor e a obra do ar- ta do gigante. Na verdade, Mi- na a iconografia da Justiça ao quiteto está na base da estética chelangelo refere-se, sim, a um optar por uma outra dimensão total do artista mineiro, cujo instante anterior à luta. Com a temporal do seu tema, uma tem- grande objetivo era, como ele di- sua imensa escultura, de 5,17m poralidade que já não é a de ou- zia, “o mesmo do Renascimento: de altura, Michelangelo lega- tras Justiças (também sentadas!) o da integração de todas as artes nos um Davi que olha fixa e ten- como, por exemplo, a que An- na unidade de um só prédio”. I samente para o seu alvo, en- drea Pisano fez para a Porta Sul quanto segura a pedra e a fun- do Batistério de Floreça (1336), Professor da UFPB e procurador da, a preparar o golpe final. Ten- ou aquela de Giotto, na Cappe- do Ministério Público junto ao TCE 26 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 midiafalar Wellington Pereira wellingtonpereyra@hotmail.comO Dioniso na narrativa televisual , e aisthesis dos mitos cotidianos o pensar a TV brasileira em sua relação com a vida coti- A diana, críticos e pesquisadores – na maioria das vezes – recorrem a métodos dos diversos campos do saber. Da Psicanálise à literatura, a crítica da mídia em exer- cida a partir de padrões hermenêuticos consagrados pelo ocidente. Isso parece muito previsível, quando se trata de adequar conceitos a paradigmas, paradigmas a con- ceitos e – por derrisão – se perder nos sintagmas de uma crítica corporativa disfarçada de “teoria crítica”. As ciências sociais no século XXI – principalmente a sociologia – parecem ter abandonado a estreita ligação com a estética das artes e de outras formas de conheci- mento da vida cotidiana. Nas dissertações e teses universitárias, o sociólogo e o antropológico têm assumido o caráter de interpre- tações teoréticas, cujo modelo explicativo (na maioria das vezes não podes falar em método) se resume às citações dos clássicos. Poucos são os pesquisadores que têm a coragem de fa- zer um percurso crítico em suas leituras dos fenômenos sociais indicando a proximidade de suas fontes com a vida cotidiana – sem negar a literatura – ou as mitologi- as – como instrumentos de suas reflexões. A cultura universitária do escaninho tem privado as novas gerações de sentir as belas “epifanias” escondi- das por trás de cada tratado sociológico ou filosófico. Assim, perdemos a dimensão de um Marx leitor de Balzac, de um Nietzsche amante da música, de um José Lins do Rego sociólogo-literário. Mas como o tempo dos saberes é menos cronológico e mais da duração – como nos ensina Bergson – eis que surgem na clareira da pobreza estética universi- tária alguns autores que resgatam a tradição ociden- cA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 27
  • 6 midiafalarc tal de pensar em movimento, patrono de uma estética, como nos tabelecidos, como a Psicanálise e sem odiar o presente. Isso tudo explica Cláudio Paiva: a “Sociossemiótica”, tampouco é resgatado no livro Dionísio na “A estética dionisíaca consiste foge aos desafios metodológicos Idade Média - Estética e Sociedade numa expressão do imaginário que se que devolvem aos telespectado- na Ficção Televisiva Seriada, de au- reconforta, ironiza e se deleita na imagi- res uma “razão da astúcia”, quan- toria do professor Cláudio Car- nação de um ‘ajuste final’ entre os ho- do estes travam uma batalha doso de Paiva, publicada pela mens e os deuses, entre a cultura e a para inscrever as cenas noveles- Editora da UFPB. natureza. É algo sensível no calor das cas no cotidiano e os imaginários A importância do livro do pro- interações juvenis, nos concertos de vividos nas novelas. fessor Cláudio Paiva está em música pop arregimentando legiões, nos Se a Idade Média para histori- procurar compreender as narra- momentos decisivos das partidas de fu- adores como Gorges Duby era a tivas “televisivas seriadas” a tebol – reunindo galeras e tribos indife- Idade dos Homens, a idade Mí- partir das experiências multis- renciadamente, e, sobretudo, na grande dia pode ser considerada a Idade sensoriais da vida cotidiana, ou festa do carnaval; o social de cabeça pra do Gadget – dos aplicativos ele- seja: na uma verticalização das baixo, invertendo derrisoriamente a ro- trônicos. Portanto, se faz neces- teorias midiáticas em relação tina mecânica, certinha e bem compor- sário compreender as nossas re- ao senso comum. tada da vida cotidiana”.1 lações com as narrativas televi- Paiva analisa a TV a partir da O importante no livro do pro- suais a partir de uma aisthesis: sinergia entre o moderno e o ar- fessor Cláudio Paiva é a compre- uma estética que seja campa de caico – o que para alguns pesqui- ensão que as narrativas televisu- libertar o home do sentido teleo- sadores constitui a pós-moder- ais têm a mesma importância lógico da mídia; aprendendo se- nidade – mas também demons- para a sociedade pós-moderno rem as emoções “banais” dos te- trando como os mitos trafegam que o romance teve para a socie- lespectadores um eficaz instru- em sentidos dialógicos, do coti- dade moderna. Mas nãos e trata mento de análise. diano para as narrativas televi- aqui de refutar – no exercício da Tudo isso está na leitura “des- suais, das narrativas televisuais crítica – fragmentos e resíduos, territorializada” das narrativas para a vida cotidiana. mas incorporar os elementos televisuais empreendidas pelo As análises do professor Cláu- opostos que denunciam os confli- professor e pesquisador da UFPB dio Paiva resgatam um mito caro tos ideológicos ou até mesmo a Cláudio Cardoso de Paiva. I à filosofia de Nietzsche e à socio- fuga das unificações teológicas logia de Simmel: Dioniso. promovidas pela modernidade (Endnotes) Dioniso é um mito ctônico, da através do conhecimento técnico. 1 Dionísio na Idade Mídia - Estética e Soci- terra – pronto para reaver as for- Neste livro, Cláudio Paiva não edade na Ficção Televisiva Seriada; p.19 mas de ordenação daquilo que é enquadra as narrativas televisu- artificial no natural. Ele é também ais em modelos retóricos pré-es- Professor da UFPB 28 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 crônica Dois nomes Analice Pereira Cena de José e Pilar del Rio que nossos nomes significam para alguém. E é esse fazer-se sentido que é o limite da solidão. A soli- dão se desfaz pela presença de um uem disse que o céu é o limite se o nome. Todos os nomes. Sem limi- Q que existe em torno de nós é um espaço infinito? Se o limite da vontade é a realização; da viagem é a chegada ou retorno; da luz é o ar provável entre o mundo dos mortos e dos vivos. Se não se co- nhece o nome que recebeu, não se conhece o nome que tem. É sozi- alcance dos olhos míopes; da vida, nho. É inominado. Conhece-se a estar-morto; da boa arte, o desas- si pelo nome que se tem e o outro, sossego; da solidão, o amor de pelo nome e pelo amor, também. amantes e a amizade (não exata- "O que dá o verdadeiro sentido mente nessa ordem); da ignorân- ao encontro é a busca e é preciso cia, a lucidez; do amor, a solidão? andar muito para alcançar o que E no limite da solidão o corpo está perto". (J. S.) Nesse sentido, o também se desassossega. E a alma encontro toma natureza estética. grita num silêncio aquele nome É uma arte. Do ser humano. Des- que lhe falta. E o estar-vivo é a tinos que se cruzam pela palavra, ausência absurda do permane- que nunca foi em vão, e que cha-Tão pessoalmente cer-vivo, mesmo que em vão. Mas mamos amor. Tão cara e tão vul- em vão não vivemos. Vão-se os gar. Tão pessoalmente definível:definível: amor é qualquer nomes como se nunca tivessem amor é qualquer gesto, sussurro, sido parte de nós. Às vezes vol- palavra, até com o que comumen-gesto, sussurro, palavra, tam transformados em algo que é te reconhecemos como o seu con- tão estranho quanto as lembran- trário. É um ponto de vista.até com o que ças do que já foi. E na vida, o que Mas há encontros e encontros. vale é o encontro. E nada mais. A E no encontro do amor o que me-comumente despedida é outra história, quan- nos importa é o nome que preci- do ela própria também não é um samos lhe dar. E o que mais im-reconhecemos como o encontro. porta é o nome da pessoa amada, Quando o motivo do encontro o objeto do amor, o nome que temseu contrário. É um ponto é o amor, os nomes tomam vida a pele que desperta em nós a vi- própria. E aí já não somos um bração da vida; o nome do donode vista. nada, mas absolutamente aquilo da voz; o nome do dono da fibra cA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 29
  • c do cabelo; o hálito. O nome, um nome, em comum e de uma obra literária que, dois nomes. ao contrário de trazer um alento para Em Lisboa, uma esquina une dois seus leitores, coloca-os no lugar do de- nomes, numa homenagem a duas sassossego. Ao contrário de lhes tra- pessoas. Um dos nomes nomeia mui- zer alento e respostas, busca, pelo sen- tas pessoas por aqui pelo Brasil. Com tido do amor, suscitar as perguntas o mesmo nome daquele tão conheci- que estão aí, esperando apenas que do por nós na poesia de Carlos Drum- alguém (seus leitores), às vezes até por mond, o José homenageado em Lis- um lapso, lembrem-se delas. E as fa- boa não é mais especial que o nosso, çam. Considera seus leitores seres porque não se sentia assim e é nessa pensantes e sujeitos de sua própria sua natureza que reside o melhor que história que é (ou pode ser) a história o ser humano pode ser no mundo: sen- de todos tir-se igual, apesar de diferente, mas Dois nomes apenas são necessários não melhor nem pior. E agora? para romper esse limiar e trazer con- "Nossa única defesa contra a mor- sigo a felicidade, algo tão difícil de ex- te é o amor". Essas suas palavras ilus- plicar, mas tão necessário ao bem-vi- tram de certa forma o que foi sua vida, ver. Dois nomes apenas para compre- seus personagens: o seu amor por ender que, pela cumplicidade que se uma mulher; o seu amor pela huma- tem nas ideias (aqui também as mar- nidade. O amor que está dentro de si xistas e ateias) e nas palavras que e que ultrapassa os limites do sentir constituem tais ideias, partindo da apenas, pois reside também numa mente, o amor faz um percurso ao co- certa racionalização de que amar é ração, onde se aloja para mostrar que necessidade primeira do homem, vem é um todo indissolúvel de palavra e junto à necessidade de alimentação, ação. de educação e de saúde para poder E assim são as histórias de amor pensar e cumprir com qualidade sua entre duas pessoas, que assim mesmo passagem aqui na terra. Amor está continuam se identificando pelos no- no coração, na mente e no corpo. No mes que lhes deram. E essa reflexão pensar e no agir. que aqui se faz tem como inspiração Palavras. Nomes. Ações. Atiram- os dois nomes que intitulam o docu- nos na cara todo-santo-dia o nome mentário que inspirou essas palavras que nos deram. Com qual significa- que se expressam com a humildade de do? Sentido? Quantas vezes ouvimos quem as escreveu. Mas antes de inti- durante o dia alguém chamar: venha tularem o filme esses dois nomes no- cá. Ou simplesmente pronunciar o meiam duas pessoas, que, não pelo sig- nome pelo amor que se tem, pela rai- nificado da palavra pessoas, mas pelo va, pelo interesse, pelo deboche. "Ao sentido que ela pode e deve ter em nós, contrário do que em geral se crê, sen- dispensam apresentações: José e Pilar. tido e significado nunca foram a mes- Nesse espaço infinito, onde se en- ma coisa, o significado fica-se logo tende que não há limites, ao passo que por aí, é directo, literal, explícito, fe- se percebe, porque se pensa, que todos chado em si mesmo, unívoco, por as- os limites estão aqui postos, às nossas sim dizer, ao passo que o sentido não vistas, reclama-se apenas uma defi- é capaz de permanecer quieto, fervi- nição simples: o limite da solidão é o lha de sentidos segundos, terceiros, amor mútuo, compartilhado, integra- quartos, de direcções irradiantes que do na confiança que ele exige de nós. E se vão dividindo e subdividindo em essa esperança nesse limite (porque se ramos e ramilhos, até se perderem de trata de uma dialética) pode remedi- vista, o sentido de cada palavra pa- ar nossa angústia mediante as com- rece-se com uma estrela quando se plexidades da vida. I põe a projectar marés vivas pelo es- paço afora, ventos cósmicos, pertur- bações magnéticas, aflições". (J. S.) Daí entendermos o significado do amor: quando este faz sentido em nós e nos inquieta. E é pura vida! Aqui se fala, portanto, de dois no- mes que entenderam porque viveram o sentido que seus nomes tinham um pra o outro: o sentido do amor mútuo e compartilhado em prol de uma vida Professora do IFPB30 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 convivência crítica Hildeberto Barbosa Filho hildebertobarbosa@bol.com.br Jorge Cooper ,(Hermetismo, Dialética, Ceticismo) m Notas sobre Poesia Moderna em Alagoas terpretação e Superinterpretação (1992), E (1955), Carlos Moliterno considera Jor- ge Cooper o “mais hermético de nossos fazedores de poesia”, ao que acrescen- ta, reafirmando esta inclinação: “Seus “transforma o teatro do mundo intei- ro num fenômeno lingüístico e, ao mes- mo tempo, nega à linguagem qualquer poder de comunicação”. poemas, de versos curtos, são de uma Tachar, portanto, uma poética de her- síntese rigorosa, e muitos deles de uma mética, é alinhá-la a uma tradição de se- comunicação apenas pressentida por gredos e de significações ocultos a que verdadeiros iniciados”. somente têm acesso aqueles que domi- Quero crer que não seja gratuita, por- nam os ritos e os procedimentos prefi- tanto, a alusão que o poeta faz provavel- gurados para tal empresa. Ou, no míni- mente a este fato no poema ‘Minha Pa- mo, situá-la, em particular, no contexto rábola Retilínea’, de Os Últimos III (1986- da modernidade, como uma poética “di- 1989), em especial, nas duas estrofes fi- fícil”, “obscura”, “complexa”, porém, nais. Vejamos: nunca “incomunicável”. Seria mesmo a poesia de Jorge Coo- Agora per hermética? Se o for, em qual dos quanto a mim dois sentidos? que escrevo claro Ora, quero crer que a poesia de Jorge como água Cooper, em que pese seu alto grau de ela- os letrados da terra dizem boração estética, não pode ser conside- que sou o Ernesto rada hermética, como são herméticas, - Hermético por exemplo, certas vertentes da poesia moderna, o Expressionismo e o Surrea- Pelo visto lismo, especialmente. Óbvio: nem naque- vou precisar de séculos le sentido esotérico em que se compra- para que me saibam zem os “seguidores do véu”, para me valer da metáfora irônica de Humberto Eco, nem mesmo na acepção de difícil e Hermetismo e iniciação, eis duas ca- obscura, como caracteriza Hugo Friedri- tegorias epistemológicas que conver- ch, em A Estrutura da Lírica Moderna (1956), gem para uma mesma perspectiva. Só estudando os poetas europeus, e o per- os iniciados compreenderiam o pensa- nambucano Fábio Andrade, em A trans- mento hermético, que, segundo Hum- parência Impossível (2010), no que concerne berto Eco, em ‘Interpretação e História’, aos poetas brasileiros contemporâneos. uma das conferências inseridas em In- Imagino que as palavras do compa- cA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 31
  • 6 convivência crítica c nheiro de geração de Jorge Cooper expres- porque o elemento racional e o elemento sem certo desconforto de alguns leitores intuitivo se confrontam na captura ines- perante a singularidade da dicção do poe- perada do avesso das coisas. Na poesia de ta e não um o reconhecimento de um her- Jorge Cooper, cada motivo, cada assunto, metismo essencial. cada temática é e não é. É isto e aquilo, tal- Observado o contexto da poesia alagoa- vez mais aquilo do que isto. Se algo vem à na, a partir das décadas de 40 e 50 do sé- tona, vem pelo outro lado, pelo atalho oblí- culo passado, quando os ecos do Moder- quo, pelo interstício, pelo avesso, pelo que nismo já começam a se cristalizar, ne- oculta, de que resulta, assim, a desautoma- nhum poeta, como Jorge Cooper, demons- tização e a desconvencionalização do olhar tra uma atitude anticonvencional e sub- de quem lê. Os títulos, Sonho pelo Avesso versiva face à tradição ainda forte, repre- (1986) e A Solidão Que Soma (1990), já sinali- sentada pelos epígonos do Romantismo, zam nesse sentido. do Parnasianismo e do Simbolismo. Diria Não são poucos os poemas e os versos mesmo que a modernidade do seu texto é regidos por esse princípio gerador que me a mais inventiva e, em certo sentido, a parece essencial à aproximação e ao conví- mais poética, entre seus pares. Seu modo vio com a expressão poética do autor ala- surpreendente de compor o poético talvez goano. Essa sensação de ambigüidade, pe- explique o mal-estar que muitos sentiram culiar à visão dialética da vida, cristali- diante do seu texto e justifique, sem dúvi- za-se em versos como estes: “- Invisíveis da, o fato de ser ele “um cacto solitário na são coisas / que a escuridão não deixa poesia alagoana”, como bem registrou ver”; “(...) mesmo de fora / tenha nos es- Luciana Stegagno Picchio. pelhos às vezes me escondido”;; “ – Lon- Quer em tom, quer em perspectiva, pou- ge da eternidade / que está viva dentro cos poetas brasileiros revelam a unidade e de mim”; “- No avesso escuro em que a uniformidade poéticas de um Jorge Coo- desapareço / e onde me procuro”, “(mor- per. A simplicidade da linguagem, a colo- rerão vocês comigo / e viverei eu com vo- quialidade e a oralidade constituem cês)” e “Prefiro é a noite escura / Vejo o marcas lingüísticas que perduram e per- que quero no que não posso ver”. manecem desde Achados (1945-1950) até Os Na mesma clave podem ser citados, en- Últimos IV (1989-1991), assim como o travo tre tantos, poemas como ‘Contassenso’, de irônico, distanciado e crítico com que in- Linha sem Traço (1969-19760) e ‘Poema Vi- terpreta a vida e seus derivados: o homem, gésimo Quinto’, ‘Poema Vigésimo Sexto’ as coisas, o tempo, a morte, o amor, o coti- e ‘Poema Vigésimo Nono’, todos de Poe- diano, a infância, a mulher, a poesia, as fi- mas Quando em São Luís (1977-1982). Cite- guras paterna e materna, enfim, tudo o que mos o ‘Poema Vigésimo Quinto’: motiva seu impulso criador. O poeta e crítico Marcos de Farias Costa Por onde andarão escondidos viu na sua poesia uma espécie de “metalí- os meus esquecimentos rica”, categoria também acolhida por José Não falo por mim escondidos Paulo Paes. Pertinente: a poesia de Jorge nas garrafas que esvaziei Cooper não se perde na simples exposição Não das afecções emocionais tão ao gosto do Falo dos que de mim se escon- “lirismo soluço” e do “lirismo lágrima”, deram indo muito além, contudo, para se confi- onde não sei gurar num lirismo reflexivo. Reflexivo si- multaneamente em duas instâncias: todo um veio subterrâneo em que o eu poéti- Talvez um poeta menor referisse as lem- co discute as condições da própria poe- branças em lugar dos esquecimentos, den- sia e do poema e um outro em que, à ma- tro de uma lógica mais adequada ao liris- neira de Fernando Pessoa, se a emoção mo puramente confessional, canonizado se faz presente, se faz presente pensan- pela tradição romântica, e cujo compromis- do; se o pensamento adentra o poema, so se restringe a simples exposição dos sen- adentra-o, emocionado. timentos. Dos sentimentos que, grosso Penso, no entanto, que essa metalírica modo, o eu possui e domina. Aqui, não. O corporifica sobretudo um lirismo dialéti- poeta revela sentimentos, sim, mas senti- co, no meu entender, o princípio seminal mentos que fogem ao seu controle e que nos dessa poética incomum. Dialético, aqui, não possuem e sobre os quais pouco sabemos. somente porque os versos fundem emoção É como se ele constatasse também que exis- e pensamento, pensamento e emoção, mas te uma memória do próprio esquecimen- c32 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 convivência crítica c to e que, se as experiências vividas por nós (1995), alude as “metáforas de impacto” de servem para nos conhecermos melhor, ser- Jorge Cooper. Penso mais nos versos, ou vem, em outro sentido, para nos esconder- mesmo em muitos poemas, sobretudo os mos de nós mesmo, tornando-nos de nós mais curtos, de impacto. Impacto conclusi- mesmos mais desconhecidos. A mesma di- vo, porém ambivalente e aberto nas suas alética aparece num texto como ‘Poema’, sugestões semânticas e estéticas, em que de Os Últimos IV. Vejamos: pese o viés aforismático da enunciação. Aliás, o registro aforismático constitui uma Às vezes penso marca registrada do seu discurso poético, o que não sou que acentua, sem dúvida, o princípio dialé- o que sou tico e a visão cética que permeiam e fundam a sua dicção lírica. Eis alguns exemplos: “As E que sou labaredas fogem à lei da gravidade”; “Quan- o que não sou tas vezes mandarei em versos / S.O.S. do co- às vezes penso ração”; “Como a lua é impiedosa”; “poças d`água são bem poesia à espera da pala- Esta dialética, que eu chamaria de postu- vra”; “Sensual como um tuberculoso /mal- ra epistêmica e que se configura na dinâmi- digo a falta que me faz teu corpo”; “A feli- ca de sentir/pensando ou de pensar/sentin- cidade é bem a barra do horizonte”; “- É do, tende a reforçar a perspectiva cética na mais distante o céu / assim na poça poesia de Jorge Cooper. Cética, não na d`água”; “- Esse nada em minha vida ocor- acepção epidérmica da palavra, ou seja, rida / dá-me hoje sua poesia em palavra”; no sentido do duvidar pelo duvidar, do não “O girassol é que por um só caminho / per- crer pelo não crer. Mas naquele sentido segue o destino”; “Há coisas que já nas- mais profundo, isto é, no sentido de inves- cem mortas”; “ – O dia dentro de casa / é tigação, de pesquisa, do não se fiar na apa- como a lua na rua”; “(a morte é o futuro rência das coisas. inteiro)”; “ – Nascer e viver é morrer”; “(...) Com isso quero afirmar que a poesia de a inocência é perversa / como a ignorân- Jorge Cooper, no seu fazer quase transpa- cia”, e, para fechar, este pequeno poema, rente (e aqui levo em conta sobretudo o re- ‘O Nada’, de Os Últimos II (1984-1986): corte do verso – curto, sintético, medular – e o desataviado do léxico), ao dizer, tem O nada consciência de que não diz tudo, ou que o é o que resta da luz objeto desse dizer é como que inapreensí- quando se apaga vel e inatingível em seu estado absoluto. Leia-se, por exemplo, um poema como Charles Cooper, Lêdo Ivo, José Paulo Paes, ‘Equívoco’, de Poesia sem Idade (1950-1968), Fernando Fiúza, Dirceu Lindoso, Wanderley e observemos este traço: de Gusmão e Marcos de Farias Costa, que integram a fortuna crítica do poeta, inseri- No meio da ponte da em sua Poesia Completa (Maceió:Imprensa parei e me vi Oficial Graciliano Ramos; Cepal, 2010), to- indo ao sabor das águas cam, cada um seu modo, em pontos nodais (Certo que para onde sonhei) do seu discurso poético. Embora haja um que outro pormenor a Ao toque de uma buzina prevalecer, de acordo com os critérios com- Com assombro me vi que fiquei parativos intrínsecos à atitude crítica, as - E se me pergunto aonde vou noções recorrentes de singularidade, orali- agora dade e economia, tanto no plano de fundo Não sei quanto no plano da forma, convergem no sentido de definir as linhas de força centrais Sabe-se que não se sabe, à maneira socrá- da poesia de Jorge Cooper. Uma poesia ge- tica, o que faz de Jorge Cooper um legítimo nuinamente autêntica, pois traz, conforme herdeiro de uma “escola” de pensamento, exigência de Johannes Pfeiffer, “o pressupos- embora seu pensamento se transmute em to, puramente humano e ético-espiritual, da poesia, que deu nomes como: Xenófanes, criação poética”. I também poeta, o próprio Sócrates, Eras- mo, Montaigne, Voltaire, Lessing e, no Brasil, Machado de Assis e Carlos Drum- mond de Andrade. Hildeberto Barbosa Filho é poeta, crítico José Paulo Paes, em ensaio de Transleituras literário e professor da UFPBA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 33
  • 6 resenha Guilherme IX de Aquitânia traduzidoGilberto de Sousa Lucena Para o êxito dessa árdua empreitada, é muito prová- vel que tenham sido necessários profundos estudos ao longo de décadas, a tomada de inúmeras anotações e de leituras diversas do erudito mestre português, bemU ma inestimável contribuição para o conhecimentodo que nos foi legado da obra poética do primeiro autor como seu interesse e entusiasmo para conhecer em várias línguas - numa trabalhosa recentio edótica - o que havia sido escrito e traduzido até hoje sobre o céle-da lírica ocidental é a excelente tradução dos poemas bre poeta de Poitiers. Neste tocante, um dos aspectosde Guilherme IX de Aquitânia (1071-1126) feita pelo po- chamativos da tradução empreendida por Arnaldo Sa-eta, cronista, crítico literário e tradutor português Ar- raiva é o detalhismo que se reflete na sua firme dispo-naldo Saraiva - também professor emérito, hoje apo- sição em explorar as diversas facetas daquele aclama-sentado, da Faculdade de Letras da Universidade do do poeta da Idade Média.Porto, Portugal. No Brasil, o seu magnífico trabalho foi A começar pelo completo levantamento que faz daspublicado pela Editora da Unicamp em 2009. "variantes" ou "variações" com que o nome do poeta Trata-se da primeira versão para a língua portugue- "aparece em manuscritos, em histórias, em históriassa dos 11 poemas que nos chegaram do VII Conde de da literatura, em ensaios e em coleções de poesia",Poitiers, um poeta genial que se tornou famoso por ter tendo o cuidado de - no tópico da biografia de Guilher-sido o "fundador da poesia ocidental" e considerado "o me - ressaltar que se o nome dele é "plural", sua perso-criador do amor cortês" - um dos temas mais caros à nalidade é sem dúvida "singular". A partir desta obser-poética dos trovadores da Idade Média. Apesar de ter vação passa a fornecer informações detalhadas acer-também se notabilizado por sua disposição para as guer- ca de outras facetas do grande poeta: a de "chefe polí-ras - (participou da primeira Cruzada contra os turcos, tico", a de irresistível sedutor de mulheres e a de ho-em 1101) -, pelo prestígio de haver herdado vastos do- mem que se envolveu em batalhas nem sempre exito-mínios territoriais no Sul da França e por ter sido "um sas. Pela gama de informações que são fornecidas aodos maiores sedutores de donas" de sua época, Gui- leitor, torna-se indiscutível o fato de Saraiva ter empre-lherme IX de Aquitânia foi ainda "um fabuloso criador endido uma imensa pesquisa sobre a vida conturbadade poemas emblemáticos sobre a arte de viver, de amar de Guilherme IX de Aquitânia.e de poetar" segundo Arnaldo Saraiva. O ilustre bardo O detalhismo do trabalho também se reflete na in-de Poitiers foi um extraordinário artista da palavra que tenção do seu autor em se amparar numa bibliografiaEzra Pound (1885-1972) "considerou tão moderno na- creditada de difícil acesso (pelo menos para nós brasi-quela época como na nossa". leiros) que nos convence sobre a seriedade com que o A difícil, delicada e competente tradução empreendi- assunto é tratado. São obras raras sobre a vida e ada por Saraiva dos poemas do grande trovador da Aqui- produção poética do Conde de Poitiers certamente en-tânia, pode ser considerada um raro contributo ao apro- contradas só em grandes bibliotecas da Europa ou, éfundamento da compreensão da poesia de um dos po- bem possível, no acervo pessoal do mestre tradutor.etas mais fascinantes e complexos (do ponto de vista Por seu esforço de pesquisa, teria ele conseguido reu-da língua) do medievo. O trabalho, em que um capaci- nir essa preciosa bibliografia? Acreditamos ser razoa-tado saber filológico se associa a uma surpreendente velmente possível, mediante o fato de Saraiva residirsensibilidade da parte do tradutor, vem preencher uma no Velho Continente.lacuna há muito existente a respeito do conhecimento Outro aspecto louvável do trabalho de Arnaldo Sa-da poesia daquele famoso trovador medieval em lín- raiva é, sem dúvida, seu empenho para realizar umgua portuguesa. Tomando por base o idioma original levantamento abrangente dos manuscritos existentesem que foram escritos os poemas, Arnaldo Saraiva nos sobre os poucos poemas conhecidos daquele famosopermite conhecer as virtualidades do corpus por ele poeta medieval. Procedendo como um rigoroso filólo-vertido, nos fornecendo as chaves indispensáveis para go, sobre os problemas textuais que cercam o corpusse compreender a poética de Guilherme IX de Aquitâ- por ele traduzido afirma:nia. Tudo feito com competência e atilada habilidadepara encontrar soluções que visam à superação das Os manuscritos podem conter erros e falhas, ou vari-enormes dificuldades lingüísticas apresentadas por cada antes ortográficas, sintáticas, prosódicas, lexicais; vari-poema, originalmente escritos em langue doc. antes às vezes simples, às vezes complexas, que melhor34 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • justificariam o nome de variações. Vários fatores contri- 1987, p.13) que podem - naturalmente - se distanciar do buíram para a existência dessas variantes ou variações: sentido original do texto em processo de tradução, situ- desconhecimento do manuscrito autoral, se o houve, ação que só contribui para endossar aquela malfadada reprodução escrita tardia ou em tempos distintos, pro- caracterização do tradutor como um franco "traidor". blemas na passagem da oralidade à escrita, incompetên- Não estamos de acordo com tal princípio em se tratan- cia, descuido ou diversidade dos copistas e da sua letra, do do caso de Arnaldo Saraiva quando traduz os onze deficiente estado do suporte dos textos, má leitura da poemas conhecidos de Guilherme IX de Aquitânia. letra ou mau entendimento do significado das palavras. Pela sua "capacidade intrínseca de gerar sentidos não Mas não podemos esquecer que Guilherme e os tro- referenciais", a linguagem artística, literária ou poética vadores usavam uma língua nova, o "roman" dito "doc", acaba superando e suplantando "o indizível" fazendo que não estava codificada ou não tinha a relativa estabili- com que, quando considerado o ato de traduzi-la, o sen- dade de uma língua com uma gramática definida, antes se tido chamado "linear" ou "referencial" dessa mesma decompunha em dialetos, socioletos, idioletos (p.18). linguagem seja castrado na sua potencialidade ou ca- pacidade de "gerar sentidos" polissêmicos (LARANJEI- Em relação aos problemas lingüísticos verificados na RA, 1993, p.24). Por esta razão as dificuldades do tradu-coletânea dos poemas traduzidos e, de modo geral, na tor são multiplicadas, tendo ele que possuir profundoslíngua dos trovadores medievais, Saraiva procede de e diversificados conhecimentos não apenas lingüísti-forma ainda mais detalhada objetivando esclarecê-los. cos, mas também histórico-sociais e culturais acercaPara isto, estabelece uma profunda discussão relativa da língua na qual se encontra exarado o texto objeto daà formação das línguas românicas chamando, antes, a sua tradução.atenção para o fato de que a Ainda de acordo com Paulo Rónai, para a transmis- são da mensagem do seu original o tradutor deve "es- Língua dos trovadores, a língua doc, ou o seu dialeto quecer momentaneamente as palavras em que esta lemosi, levanta ainda hoje, quando já se conhecem vári- era vazada e reformulá-la na sua língua" (RÓNAI, 1981, as gramáticas e dicionários do antigo ou do moderno p.129). Considerando esta afirmação do eminente tra- occitânico, delicados problemas à crítica textual e gené- dutor húngaro naturalizado brasileiro, podemos com- tica, e à leitura ou à tradução (p.20). preender que o trabalho de verter um texto para uma língua diversa da do idioma do original é tarefa dificíli- Após este adendo - sempre demonstrando abalizado ma que exige múltiplos talentos da parte de quem seconhecimento filológico - comenta a questão das edi- habilita a traduzi-lo. Entendemos que o também poetações dos poemas do poeta da Aquitânia. Mais uma vez Arnaldo Saraiva conseguiu superar a imensa dificulda-Saraiva nos convence do seu esforço em tentar resga- de de transmitir a essência de uma mensagem poéticatar o que se publicou da poesia daquele grande trova- situada no cerne da Idade Média, mesmo tendo quedor e menestrel medieval. Partindo de Alfred Jeanroy "reformulá-la" de acordo com a lição de Paulo Rónai.(1859-1954), um dos primeiros compiladores da produ- A sua notável tradução dos poemas até hoje conheci-ção poética do Conde de Poitiers, reconhece que - ape- dos do grande poeta medieval Guilherme IX de Aquitâ-sar dos enormes problemas textuais antes apontados - nia compreende um projeto de anos. Pelas felizes solu-"vem sendo feitas para a boa fixação" dos seus poemas ções por ele encontradas - (num enorme esforço deoutras edições consideradas fidedignas. As mais re- tentar superar as enormes dificuldades atinentes à fa-centes, inclusive as traduções em português, são refe- çanha de se verter para o português atual a remotarenciadas, de modo respectivo, nas páginas 21, 22, 23, langue doc) - podemos atestar sua grande sensibilida-29, 30 e 31. Porém, faz a advertência de que ainda assim de e competência de tradutor para preservar (na medi-existem hoje "discrepâncias a respeito da lição ou da da do possível e da razoabilidade) o sentido original doleitura e da interpretação dos poemas". Para compro- texto.var tal fato, estabelece comparações entre algumasedições que segundo ele apresentam versos "mal tra-duzidos e mal entendidos" por seus tradutores. REFERÊNCIAS Sem advogar a favor do princípio da intraduzibilida- GUILHERME IX DE AQUITÂNIA: Poesia. Tradução ede do texto poético Arnaldo Saraiva reconhece, como introdução de Arnaldo Saraiva. Campinas (SP): Editora"a maioria dos teóricos do processo tradutório ser ne- da UNICAMP, 2009.cessário ao tradutor - desde que respeitado o sentido LARANJEIRA, Mário. Poética da Tradução: Do Senti-geral da mensagem original - a busca de adaptações ou do à Significância. São Paulo: Editora da USP, 1993. (Cri-de soluções que sejam convincentes em relação à se- ação e Crítica, Volume 12).mântica do original" (LUCENA, 2010). Por apresenta- LUCENA, Gilberto de Sousa. "Walter Benjamin e arem "particularidades estético-formais como métrica, Arte da Tradução". João Pessoa: Programa de Pós-Gra-rima, sonoridade, linguagem metafórica, ritmo et cete- duação em Letras/Centro de Ciências Humanas, Le-ra" - os textos literários "estabelecem verdadeiros de- tras e Artes/Universidade Federal da Paraíba, 2010. [En-safios para o honesto tradutor que necessita, com mui- saio inédito].to esforço e abnegada paixão, encontrar recursos pro- RÓNAI, Paulo. Escola de Tradutores. 6ª Edição, revis-piciadores de soluções coerentes em relação ao senti- ta e ampliada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Institutodo do original a ser traduzido" (LUCENA, 2010). Nacional do Livro, 1987. (Língua e Crítica Literária). Arrancar palavras ou frases do "contexto múltiplo da RÓNAI, Paulo. A Tradução Vivida. 2ª Edição, revista elíngua-fonte", recolocando-as "no contexto completa- aumentada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. (Cole-mente diverso da língua-alvo" é, sem dúvida, empreita- ção Logos).da só por poucos realizada com algum sucesso. Tal difi-culdade no ato tradutório se explica, segundo Paulo Rónai(1907-1992), pelo fato de não ser "apenas a idéia queescolhe as palavras" mas, em muitos casos, as pala-vras a serem traduzidas "fazem brotar idéias" (RÓNAI, Mestre em Literatura BrasileiraA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 35
  • 6 scholiaMilton Marques Júnior Na marquesjr45@hotmail.com Companhia de Homero e Ovídio Companhia das Letras, em associação tradução e prefácio de Frederico Louren- A com a Penguin, acaba de lançar dois vo- lumes com clássicos greco-latinos. O pri- meiro volume encerra os Amores e a Arte de amar, de Ovídio; o segundo volume, a Odis- ço; introdução e notas de Bernard Knox. - São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.). Trata-se de uma tradu- ção direta do grego, que recebeu o prêmio seia, de Homero. D. Diniz da Casa de Mateus e o Grande Sobre Homero nada se sabe, além de Prêmio de Tradução do Pen Clube Portu- presumível autor da Ilíada e da Odisseia. guês e da Associação Portuguesa de Tra- Embora muitas cidades gregas disputem dutores. Um dos grandes méritos da be- a honra de tê-lo como um dos seus filhos, líssima tradução de Frederico Lourenço é nada existe que comprove sequer a sua não querer inventar, nem querer, como é o existência. A tradição, segundo nos infor- desejo de alguns tradutores, melhorar ma Paul Mazon, afirma ter Homero nas- Homero. Sem pretensão de ser poeta ou de cido em Smirna, vivido em Chios e mor- ser Homero, embora seja romancista, Fre- rido em Ios1, por volta do século VIII a. C., derico Lourenço faz uma tradução em ver- na região da Jônia. so, correta e, sobretudo, legível, procuran- O mais importante, porém, é o fato de do a fidelidade ao texto homérico. O único que, tendo existido Homero ou não, os senão encontra-se na escolha do nome do poemas encontram-se vivos, mais vivos herói. Frederico Lourenço preferiu Ulisses do que nunca. Lidos e estudados continu- a Odisseu, tendo em vista que o termo la- amente, continuamente estão sendo edi- tino se difundiu mais do que o termo gre- tados. Criados oralmente, digamos por go. Afora isto, asseguramos que o texto da um grego que outros gregos chamaram Odisseia, encontra, finalmente em Língua Homero - assim Borges resolveu o pro- Portuguesa, uma tradução brilhante em blema da existência de Homero -, a Ilíada e que o tradutor, conhecendo a língua e a a Odisseia são poemas que consolidam uma cultura gregas, opta por fazer o que lhe antiga tradição épica, remontando a uma compete: conduzir o leitor através do tex- civilização Acaia2, anterior, portanto, ao to homérico. Este o sentido de traduco, tra- que hoje chamamos de Grécia. É impor- ducere - traduzir -, em latim. tante ressaltar que, mesmo depois do ad- Destaque-se a riqueza de informações vento da escrita e da transformação dos que se encontram na introdução de Ber- poemas em texto, por volta de 540 a. C., nard Knox, em vida diretor do Centro de c eles continuaram vivos no canto dos ae- dos, permitindo um sem-número de va- 1 MAZON, Paul. Introduction à l’Iliade ; avec la riantes até a sua fixação pelos filólogos collaboration de Pierre Chantraine, Paul Collart et modernos. René Languimier. Paris: Les Belles Lettres, 1967, O texto que ora a Companhia das Le- 2 p. 260. Região situada a nordeste do Peloponeso, cujo tras/Penguin edita é a tradução lusitana patronímico era um dos termos utilizados para de Frederico Lourenço (HOMERO. Odisseia; designar os gregos na obra homérica. 36 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 scholia c Estudos Helênicos da Universidade de Harvard, margens do Ponto (hoje Mar Negro), bem longe abrangendo a obra em vários de seus aspectos, do centro do mundo, Roma. Ovídio morre no inclusive o da linguagem homérica e o da utili- exílio em 17 d. C., três anos depois de Augusto. zação dos epítetos, de uso comum na épica. São estes dois livros, um da juventude de Além disso, o prefácio e a explicação da tradu- Ovídio, Amores, e outro da sua madureza, a Arte ção, ambos de Frederico Lourenço, orientam de amar, que a Companhia das Letras em con- tanto o leitor que, por prazer e diletantismo, sórcio com a Penguin acaba de lançar no mer- vai ler essa narrativa de viagem de volta, a nós- cado (OVÍDIO. Amores & Arte de amar; tradução, tos, como se diz em grego, quanto orientam introdução e notas de Carlos Ascenso André; quem, pelo prazer da profissão vai revisitar a prefácio e apêndices de Peter Green. São Paulo: Odisseia. A feliz ideia de se anexarem três ma- Penguin Classics Companhia das Letras, 2011). pas à edição beneficia todos os que se ressen- A tradução lusitana de Carlos Ascenso An- tem de uma referência geográfica, imprescin- dré preenche uma lacuna no Brasil, tendo em dível por esta viagem de Ulisses/Odisseu, por vista que se há tradução da Arte de amar, não nos terras e por mares, extrapolando os limites do recordamos da existência de uma tradução di- Mediterrâneo. reta do latim dos Amores. Ambas são traduções Se de Homero quase nada sabemos, de Oví- criteriosas, que procuram, sobretudo a legibi- dio sabemos muito. Públio Ovídio Nasão nas- lidade do texto de Ovídio, respeitando o senti- ceu em Sulmona, em 43 a. C., no início do poder do do original. Trata-se de um trabalho de fôle- de Otaviano como triúnviro. Após vencer Mar- go, pois cada uma das obras é composta de três co Antônio, em 31 a. C., na batalha de Áccio, Livros (três capítulos, digamos), em dísticos Otaviano caminha a passos largos para se tor- elegíacos3. Carlos Ascenso André traduz em nar o primeiro homem de Roma, o que aconte- versos livres, dada a impossibilidade de se tra- ce em 29, com a instauração do principado, e duzirem os versos latinos ou gregos em metros em 27 a. C., quando ele se torna Augusto (o que da língua portuguesa4, mas respeita a disposi- acrescenta) e, daí por diante, Otávio Augusto ção dos versos, o que permite ao estudioso do César. Ovídio, nascido de uma família equestre latim localizar o verso traduzido na obra ori- tinha dezesseis anos, quando o poder se con- ginal. Merecem destaques as notas aos poemas, centra nas mãos de Augusto. É o que vai fazer a tanto quanto as introduções e o prefácio, pela desgraça do poeta. Augusto, que se tornaria riqueza de informações não só de contextuali- cônsul em vida, no ano de 19 a. C., fazendo pu- zação da época, mas sobretudo da língua lati- blicar no ano seguinte duas leis moralizantes - na e do mito, em cuja sapiência Ovídio era ver- a Lex Iulia de maritandis ordinibus (combate ao celi- sado. É só conferir as suas duas maiores obras, bato e regulamentação do matrimônio envol- Metamorfoses e Fastos. vendo os membros das altas classes sociais) e a Apesar de os Amores e a Arte de amar não serem Lex Iulia de adulteriis coercendis (punição às rela- as melhores obras de Ovídio, são obras inte- ções extraconjugais) -, não toleraria a publica- ressantes pela sua atualidade. Talvez os meios ção e a recepção de uma obra como Amores (en- hoje sejam outros, mais os modos e os fins são tre 24 e 19 a. C.), cujo teor são as conquistas os mesmos... Os recursos utilizados pelo amante amorosas de mulheres casadas ou que pelo me- para a conquista e para a manutenção da con- nos tenham já seus amantes. quista não ficam por baixo dos recursos atuais. O pingo d’água que leva Ovídio à desgraça é Do suborno de criados a estimular que os ma- c a publicação de Arte de amar (entre 1 a. C. e 2 d. C.), obra em três Livros ensinando o homem a conquistar as mulheres, a conservar o seu amor, 3 Conjunto de dois versos que utilizam dois metros e ensinando às mulheres a arte da conquista diferentes: o primeiro verso é um hexâmetro e o segundo dos homens. Um pouco antes dessa época (2 a. um pentâmetro. O hexâmetro tem seis pés e é o verso utilizado no poema épico. Já o pentâmetro tem cinco C.), Augusto já era, por decisão do senado ro- pés. Quando associado ao hexâmetro, compõe o dístico mano, o pater patriae, o pai da pátria. Mesmo elegíaco, próprio de determinados poemas líricos. antes do título, cioso de seus filhos e de sua 4 A métrica portuguesa se baseia em sílabas; a métrica greco-latina em um conjunto de pés, que formam uma moralidade, Augusto não titubeia em punir a sílaba. A dificuldade intransponível para o tradutor do filha Júlia e a neta Júlia minor, ambas com o latim e do grego é o fato de que os pés que formam a exílio, por causa dos seus escândalos amoro- sílabas se fundamentam em vogais longas e breves, o que não existe na nossa língua. A menos que queiram sos. Ovídio também não escaparia ao desterro, inventar, pois o que não falta é tradutor querendo ser em Tomos (hoje Constanza, na Romênia), às melhor do que o poeta que ele traduz...A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 37
  • 6 scholia c ridos bebam muito; das trocas de olhares furtivos às mensagens escritas nas tabui- nhas com cera; das desculpas inventadas pelas mulheres para sair de casa e se encon- trar com os amantes às artimanhas do amante para se encontrar com a sua amada, tudo ali se encontra com uma atualidade espantosa. Não pode faltar, claro, o fingimen- to persuasivo das lágrimas - Também as lágrimas são úteis; com lágrimas, comoverás diamantes (Arte de Amar, Livro I, verso 657). Ovídio de nada descuida, detalhando como deve pro- ceder uma mulher em casa ou em público, mesmo ao lado do marido, para se comuni- car com seu amante, e também como devem ser os procedimentos do amante, para não deixar escapar o alvo que persegue, afinal todo amante é um soldado, que tem no seu campo de batalha Cupido, o deus do amor (Amores, Livro I, 9, verso 1). Destaque-se no elenco dos detalhes, a reprimenda que ele faz às mulheres que, com suas preocupações excessivas com os cabelos, tenta modificá-los, literalmente, a ferro e fogo. Por Ovídio vemos que a atualíssima “chapinha” não é algo tão novo assim: É um crime, é um crime queimar esses cabelos! (Amores, Livro I, 14, verso 27) Talvez o que tenha escandalizado Augusto tenha sido a lógica do amante. Este preci- sa ser emulado, para ter o que é proibido e, por ser proibido, vigiado. O amor consenti- do ou obtido pela indolência de um marido não vigilante de sua mulher não desperta o interesse: Se não tens precisão, por ti, de vigiar a tua amada, ó meu doido, trata de a vigiar, ao menos, por mim, para que com mais força a deseje. O que é consentido não dá prazer; o que não é consentido com mais calor inflama; tem o coração de ferro aquele que ama o que o outro consente (Amores, Livro II, 19, versos 1-4). Além de não ser nosso propósito ser exaustivo na leitura dos dois poemas, também não queremos tirar do leitor o prazer de descobrir por si mesmo a grandeza desse poeta em meio a grandes poetas, que preferiu fugir do tema épico, em que Virgílio se fez maior, e fazer velas no gênero lírico-erótico, deixando claro ao seu público qual o obje- tivo principal que desejava atingir: nada por mim se aprende, a não ser amores que dão prazer (Arte de Amar, Livro III, verso 27). Finalizamos com um epigrama de Ovídio, em tradução nossa, para explicar a cons- trução dos Amores. Ovídio escreveu cinco Livros, mas depois diminuiu a obra, deixando apenas três. Pela própria natureza do gênero epigramático, trata-se de uma advertên- cia irônica a outros escritores: releiam sua obra e suprimam o que não for interessante; assim, será menos penoso para o leitor. Qui modo Nasonis fueramus quinque libelli, tres sumus: hoc illi praetulit auctor opus. Ut iam nulla tibi nos sit legisse uoluptas, at leuior demptis poena duobus erit.5 Nós, que há pouco fôramos cinco livrinhos de Nasão, três somos [agora]: o autor preferiu esta àquela obra. Supondo que já nenhum prazer exista para ti por nos ter lido, mais leve, porém, será a tua pena tendo sido retirados dois. I5 OVIDIO. Amori; introduzione, traduzione, commento e note di Ferruccio Bertini. Milano: Garzanti, 2003. Professor da UFPB38 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • POESIA Poema de Políbio Alves NÔMADES IMAGENS8 | João Pessoa, agosto de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • POESIA Poemas de Johniere Alves Ribeiro da feira flores e pássaros tua boca lebre sobre pele intensa faz-me duplo, reticente... entre os edifícios e } suas paisagens refletidas nos vidros do concreto{ mais uma Rita leio o mover desses vem minha Rita Baiana lábios serpenteando o quadril em (p)elehaste como lençol no varal tal qual o fresco da feira-de-flores de noite do mercado central jerônimo e firmo relutam com seus múltiplos sons em mim une-se à polifonia vem desta boca tão minha que a navalha e os brasões assinalados quanto o pássaro ali estão apostos em translucida carne engaiolado chama amor desejo para a despedida ultrapassou a Traprobana tão minha sina como um a toada em nylonaço no pinho gesto sem amanhã lança entonação adocicada 18/07/2011 Rita Baiana então vem requebrando as ancas não sei o que faço penso em reconstruir os muros de Jerusalém ou até mesmo os Bárbaros de Roma mas/° outracoisa RB Vem este sol em teus cabelos olhos negros cabelos ao vento teus copos entreparados como pipa ao céu meados num intervalo seus lábios são espadas e azeite da minh´alma da carne e oso RB afronta meu ver aquele sinall em teu mas faço-lhe rosto esquecido fenecer na pele do vestido deslembra-me tremer fita-me ela vem (mas que droga e levou meu sorriso aquele verso adolescente voltou mas pendurou eu queria dizer outra coisa) Monalisa no quarto na vida tudo é outra coisa deixou uma caixa de Gina dizer o oposto e a ruiva da mesma é o codinome sobre a mesa da poesia espreitam 01/09/10 a tatuagem deste silêncio do agora presente 22/09/10 PoetaA UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 39
  • 6 novo almanaque armorial Carlos Newton Júnior cnewtonjr@gmail.com Movimento Armorial, direita e esquerda eria o Armorial um Movimento “oficial” e quíssimos, diríamos melhor – poderiam S “de direita”, como acusam alguns dos seus detratores? Lançado em 1970, em pleno re- gime militar, com o apoio da Universidade Federal de Pernambuco e do Conselho Fe- antever o que a história hoje nos revela de modo tão cristalino: os generais tão so- mente vestiram a nossa secular plutocra- cia com uma casaca de ferro, que logo co- deral de Cultura, não se constituiria o Mo- meçaria a se oxidar; em menos de duas dé- vimento Armorial em um simples reflexo, cadas, urgia que ela, a nossa velha pluto- no campo da cultura e das artes, dos prin- cracia, voltasse a se travestir com a indu- cípios autoritários e conservadores que mentária leve, colorida e hipócrita da de- norteavam a política brasileira da época? mocracia, esta mesma que a reveste hoje, Defender, hoje, os postulados estéticos do e que esconde tão bem a sua essência de Movimento Armorial não corresponderia, injustiça e podridão. portanto, a uma declaração pública de sau- Foi tomado de espanto que li, por exem- dosismo em relação a um passado recente plo, no livro A Invenção do Nordeste, de Dur- de perseguições, arbitrariedades, truculên- val Muniz Júnior – obra premiada e que vem cia política e total ausência de liberdade? formando a opinião de mais de uma gera- Que me desculpem os que pensam o con- ção de estudantes do campo das ciências trário, mas quem responde afirmativamen- sociais – uma passagem que é, no mínimo, te a essas questões possui uma visão bas- de uma irresponsabilidade gritante. De tante simplista da realidade. E, o que é pior, fato, não bastasse a análise inteiramente não poucas vezes essa visão terminou se equivocada de Durval em relação à obra de firmando em diversos estudos sobre a cul- Suassuna (partindo, no caso do Romance tura brasileira, o que denotaria, desde logo, d’A Pedra do Reino, do erro grosseiro de iden- ao contrário dos artistas armoriais, a in- tificar as idéias de um personagem com as questionável filiação “progressista” e “de do seu criador), afirma o autor, em certa esquerda” dos seus inatacáveis autores. passagem do seu estudo: Simplista porque, no fundo, endossa a “Ariano Suassuna é bem um exemplo de seguinte tese: quem não pegou em armas onde terminou por desembocar politica- contra o regime militar, nem contra ele mente o regionalismo tradicionalista nor- vociferou em praça pública, tendo sido destino. Colocando-se sempre como um preso, torturado ou morto, aliou-se a ele crítico, seja da direita, seja da esquerda, ou foi com ele conivente. Desconsidera- Ariano acaba por apoiar ostensivamente se, assim, todo um naipe de possibilida- o golpe militar de 1964, tornando-se, em des de resistência não armada, e que, no 1967, um dos fundadores do Conselho Fe- momento mesmo da instauração do deral de Cultura”. “novo regime”, começava a conspirar con- Ora: associar a participação de Suassu- tra ele e a construir, a partir das contradi- na no Conselho Federal de Cultura a um ções do modelo instalado, o caminho de apoio “ostensivo” ao golpe militar não se retorno à liberdade perdida. Poucos – pou- constitui em simples erro de análise. Há c40 | João Pessoa, novembro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO
  • 6 novo almanaque armorial ILUSTRAÇÃO EXCLUSIVA DE MANUEL DANTAS SUASSUNA PARA A COLUNA NOVO ALMANAQUE ARMORIALc aqui, salvo melhor juízo, eviden- te má-fé na distorção de uma si- tuação real para fazê-la prova de uma conduta ativa e preten- samente reacionária de Suassu- na no contexto político da dé- cada de 1960. Quando aponta Suassuna como “um dos fun- dadores” do referido Conselho, Muniz Júnior leva o leitor a imaginar o autor do Auto da Compadecida na co-liderança de um movimento em prol da cri- ação do órgão, o que nunca ocorreu. Suassuna foi “funda- dor ” do Conselho na medida em que participou de sua pri- meira formação, por indicação e a pedido de sua amiga Rachel de Queiroz. João Guimarães Rosa também foi, assim, funda- dor do Conselho Federal de Cul- tura, e, ao que me consta, jamais foi acusado de apoiar o golpe mi- litar de 64 por causa disso. Por outro lado, ainda no to- cante ao episódio do Conselho, Muniz Júnior não faz referên- cia ao fato de que Suassuna, antes de aceitar a indicação, con- sultou uma série de amigos para saber a opinião deles sobre o assunto. Entre esses amigos, estava, por exemplo, Dom Hél- der Câmara, que o aconselhou a aceitar o convite para que ele, uma vez no cargo, pudesse pa- recer “insuspeito” aos órgãos da como em qualquer país subde- dos artistas que o recebem. Isto repressão e assim ajudar – so- senvolvido, certo apoio oficial é jamais ocorreu com o Movimen- bretudo através de depoimentos fundamental para a realização to Armorial. E a prova mais – intelectuais e artistas persegui- de determinadas ações no cam- contundente desta asserção en- dos pelo regime. A pesquisa su- po da arte e da cultura. De fato, contra-se no fato de que os perficial de Muniz Júnior não nenhuma companhia de teatro princípios estéticos defendidos possibilitaria a apuração desse sobreviveria no Brasil de hoje pelo Movimento, durante as fato. Mas ele deveria saber, ao sem algum tipo de patrocínio, suas duas primeiras fases, entre tempo em que escreveu o seu li- seja através de fundos governa- 1970 e 1981, e portanto sob o pa- vro, que o insuspeito Suassu- mentais, seja através de leis que trocínio de governos biônicos na escondeu, na sua própria estimulem o apoio de empresas “de direita”, são os mesmíssimos casa, vários amigos em situação privadas, concedido mediante princípios defendidos ao longo difícil, a exemplo de Hiram Pe- renúncia fiscal – apoio oficial, da sua terceira fase, iniciada em reira, militante político de es- portanto. Isto para não menci- 1995, sob o patrocínio do Go- querda e companheiro de Suas- onarmos o cinema, arte que exi- verno de Miguel Arraes, legiti- suna no Teatro Popular do ge recursos bem maiores do que mamente eleito e considerado Nordeste, e que depois veio a ser o teatro. “de esquerda”. I morto, em São Paulo, pelos ór- O apoio oficial só seria nefas- gãos de repressão. to à arte se atrelado, obviamen- Suassuna sempre defendeu a te, a qualquer exigência de ali- Carlos Newton Júnior é professor da Universidade Federal de Pernambuco, tese de que, no Brasil, assim nhamento político-ideológico poeta e ensaísta A UNIÃO – Correio das Artes João Pessoa, novembro de 2011 | 41
  • 6 conto Três motivos para o chá das cincoJanaína Azevedo 2º MOTIVO Quebrei uma por uma todas as xíca- 1 ° MOTIVO ras da casa. Mas a mesa, deixei-a posta: As xícaras russas. Do casamento pão, queijo e sachês de chá, geleia e tor-de décadas, extinto qual velha di- radas à francesa. Copos no armário tal-nastia, somente seguiria com as xí- vez possam ajudar a disfarçar a falta dascaras de porcelana russa que leva- xícaras que eu tive que quebrar, umara consigo da casa da mãe quando por uma, naquela tarde abafada, parase casara. enfeitar o chão da cozinha. De nada mais lhes serviriam acasa velha, o velho homem, o carro 3º MOTIVOde alguns anos atrás, a mobília Para compor a nossa história: duas xí-cara, os livros, as mantas, a empre- caras de café ou chá e a mesa posta.gada, a cozinheira e os três filhos. Para descompô-la: uma mão, um qua-De nada lhes serviriam. Serviriam dro e os mesmo nomes:sim, as xícaras russas, sem as quais Maria.o chá das cinco, que tomava sozi- José.nha, todas as tardes, não iria fazero menor sentido. Professora e escritora6 rodapé – ponto de vista crítico Rinaldo de Fernandes rinaldofernandes@uol.com.br Antologias de contos: Quem faz? Que critérios utiliza?(1) Uma faceta pouco comentada mados e novos de várias regiões adotou: "Na obrigação de publi-de Graciliano Ramos é a de anto- do país. Portanto, sintetizados no car um livro, antes expor coisalogista. Mas, pelo método que método, o critério temporal, o es- lida, mais ou menos julgada, queadotou, infalível, até aqui abso- pacial e o estilístico. Síntese per- exibir composição nova. A dificul-lutamente insuperável (e com feita. Dos 33 contos que integram dade não seria grande: resignar-todo respeito aos antologistas que o volume 1 da coletânea, 30 são me-ia a colecionar, dócil, o quevieram depois dele, incluindo este de autores do Nordeste e 3 de au- outros colecionaram - e numaque aqui escreve), é com certeza o tores do Norte, do estado do Pará, quinzena a tarefa estaria conclu-mais importante antologista de sendo eles H. Inglês de Sousa (‘O ída. Fiar-me-ia em juízos presu-contos da literatura brasileira de Baile do Judeu’), José Veríssimo (‘O mivelmente seguros; isto me li-todos os tempos. A coletânea Sele- Serão’) e Eneida de Morais (‘O vraria de esforços e complicações.ção de Contos Brasileiros, em três Guarda-chuva’). Sergipe e Bahia Os contistas verdadeiros estãovolumes (é muito difícil para um não constam desse volume, pois classificados, e temos na ponta daantologista atual - algo funda- integraram o volume 2, junta- língua o que melhor nos deram".mental para o método de mape- mente com Minas Gerais, Espíri- Os contistas brasileiros de reno-ar, efetivamente, a literatura bra- to Santo, Rio de Janeiro e o antigo me já "classificados" e tidos comosileira - fazer uma coletânea des- estado da Guanabara. O terceiro "verdadeiros" por Graciliano sãodobrada em volumes), prepara- volume traz autores de São Pau- os seguintes: Machado de Assis,da originalmente para a Casa do lo, Paraná, Santa Catarina, Rio Artur Azevedo, Lima Barreto,Estudante do Brasil pelo escritor Grande do Sul e Goiás. No volu- Medeiros e Albuquerque, Domícioalagoano, teve como critérios bá- me destinado aos autores nordes- da Gama, João do Rio, João Al-sicos, além de apresentar narra- tinos (apenas uma mulher, a es- phonsus, Monteiro Lobato e An-tivas expressivas produzidas do critora Raquel de Queiroz, consta tônio de Alcântara Machado.final do século XIX a meados do dele), Graciliano esboça inicial-século XX, recortando as afinida- mente no prefácio (o mais impor-des estilísticas (ou os "estilos de tante de seu método virá mais à Escritor, crítico literário e professor da UFPBépoca"), reunir escritores reno- frente) o processo de seleção que42 | João Pessoa, outubro de 2011 Correio das Artes – A UNIÃO