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A blogosfera, o jornalismo e as mediações colaborativas

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  • 1. Capítulo 6<br />A Blogosfera, o Jornalismo e as Mediações Colaborativas<br />O blog é um dispositivo estratégico que permite aos pesquisadores, jornalistas, profissionais de comunicação exercitarem a função de escritores e exercerem a cidadania através de um meio colaborativo. Nasce assim um novo conceito de espaço público e como todo fenômeno social novo, o blog precisa de avaliação crítica. <br />O fórum indicado mais para um debate dessa natureza é – ou deveria ser – a academia, as escolas de comunicação, onde são preparados profissionais competentes e qualificados nos saberes (e fazeres) instrumentais, críticos e organizacionais. <br />Todavia, o debate mais eticamente pluralista é feito por meio do exercício de monitoramento realizado pelo site Observatório da Imprensa, que tem promovido uma leitura crítica da mídia, incluindo a blogosfera. E convém prestar atenção nos programas e sites que tratam das mídias (e dos blogs), pois geram uma metalinguagem digital instigante, dando um novo sentido à comunicação na esfera pública digitalizada.<br />No contexto da “modernidade líquida”, em que tudo aparece e desaparece muito depressa, um dos desafios que se impõe, particularmente, para os analistas da informação e da comunicação, é examinar os fenômenos midiáticos, como os blogs que mal acabaram de nascer já trazem consigo os sinais de transformação e os indícios de sua terminalidade. Assim ocorre com os processos digitais, atravessados pela velocidade tecnológica, em que se incluem os diários virtuais, os blogs e o Twitter. <br />O campo das Ciências da Informação e da Comunicação consiste num domínio privilegiado para o enfoque das “novas mídias” e suas mediações, e tem fornecido rigorosos métodos de análise empírica, qualitativa, corpus teórico-conceitual, reflexões críticas e insights valiosos para pensarmos as estratégias colaborativas dos blogs. <br />Apreciamos os blogs, em seu aspecto móvel, minimalista, proativo, como vetores de sócio-tecnicidades inteligentes que – conectadamente – fundam de uma nova arte na reportagem das ocorrências do cotidiano. Isso vale tanto para os diários pessoais (de cunho mais lúdico, subjetivo, intimista), quanto para os blogs jornalísticos (mais pragmáticos, políticos, publicitários).<br />Os blogs promovem mutações extremamente importantes no campo do jornalismo, uma atividade que, desde o século 18, consolida uma experiência básica para a constituição da esfera pública, do princípio democrático e formação da cidadania.<br />Procuramos aqui sistematizar um pré-entendimento dos blogs como expressão de uma nova formação discursiva mediada pela tecnologia, e logo formulamos algumas questões objetivando apreciar a sua natureza, o seu significado, os seus efeitos e usos sociais. E a partir daí, esboçamos um campo provável de discussão que pode remeter às reflexões sobre o retorno da escrita na era do virtual, a hipertextualidade da literatura pós-massiva, o fenômeno do webjornalismo e o poder social das redes interativas.<br />O que é o blog? Embora seja um objeto recente, encontramos na internet e nos formatos impressos um volume considerável de pesquisas sobre o seu conceito: Lemos (2002), Oliveira (2002), Recuero (2003), Sibilia (2005), Primo (2008), e Amaral, Recuero & Montardo (2009) têm se empenhado em traduzir o seu significado. <br />O termo “weblog” foi primeiramente usado por Jorn Barger, em 1997, para referir-se a um conjunto de sites que “colecionavam” e divulgavam links interessantes na web (Blood, 2000), como o seu Robot Wisdom. Daí o termo “web” + “log” (arquivo web), usado por Jorn para descrever a atividade de “logging the web”. <br />(AMARAL, RECUERO & MONTARDO, 2009, p. 28)<br />O blog é uma modalidade de diário (pessoal, coletivo, privado, institucional, público e/ou comercial); uma narrativa telemática de caráter sócio-interativo que faz o registro cotidiano das ocorrências, de modo semelhante às Actas Diurnas de Júlio César, na Roma Antiga, que confere uma dimensão pública aos discursos políticos, anteriormente circunscritos ao espaço de intimidade dos governantes.<br />Quem são os blogueiros? São escritores, artistas, estudantes, jornalistas, ciberativistas, contadores de histórias, personagens sintomáticos do hibridismo cultural, em que se cruzam anônimos e celebridades, amadores e especialistas, voluntários e militantes, interagindo conectadamente no contexto da sociedade midiatizada.<br />O que é a blogosfera? Um ambiente comunicacional recente que acolhe a vontade de poder escrever e se comunicar dos indivíduos e grupos sociais. Trata-se de um novo território, em que se instalam os atores em rede interagindo como cibercidadãos; uma nova camada na ecologia política e comunicacional contemporânea. <br />É um espaço propício ao encontro-confronto dos escritores, jornalistas, acadêmicos, profissionais do mercado, cronistas, historiadores do presente que interagem em “tempo real”, mas se encontram presencialmente em lugares distintos.<br />Para entendermos a experiência cotidiana do blog, no trabalho e no tempo livre, é esclarecedor o depoimento de André Lemos, falando do seu blog Carnet de Notes:<br />Para mim, o blog se tornou algo quotidiano, a meio caminho entre um caderno de notas pessoal e um arquivo profissional. (...) um observatório sobre minha pesquisa atual e como catálogo de meus projetos, livros, artigos e ensaios. (...) Considero este Carnet de Notes parte da minha produção acadêmica como pesquisador e professor universitário. De fato, ele é um espaço de expressão e de contato com outros, um prazer concretizado e compartilhado em palavras, imagens e informações. (...) Os blogs são, junto com os games, os chats e os softwares sociais, um dos fenômenos mais populares da cibercultura. (...) Os blogs são criados para os mais diversos fins, refletindo um desejo reprimido pela cultura de massa: o de ser ator na emissão, na produção de conteúdo e na partilha de experiências. <br />Carnet de Notes (LEMOS, 2009). <br />Fazendo uma exploração na rede, encontramos blogs acadêmicos, jornalísticos, artísticos, filosóficos, musicais. Há os blogs úteis, os fúteis, os informativos, os politizados, os elegantes, os esclarecedores, os desnecessários e os imprescindíveis, os quais - ritualisticamente - consultamos diariamente, e o seu conjunto compõe uma exuberante blogosfera de onde jorram narrativas geniais, informações quentes, flashes de sabedoria, e valeria a pena destacarmos aqui alguns deles. <br />O estado da arte na pesquisa sobre o tema<br />Existe um acervo importante de obras, ensaios e enquetes sobre o tema que tem auxiliado bastante nas investigações. Uma boa síntese da temática blog está no livro Blogs.com. Estudos sobre blogs e comunicação (2009), em formato impresso e digital, editado por Amaral, Recuero & Montardo. Reunindo 17 autores, o livro consiste num exaustivo trabalho metodológico gerado a partir da observação participante em diversas atividades relacionadas com os blogs ou diários virtuais:<br />(...) percebemos o aumento de eventos acadêmicos sobre o tema, como o BlogTalk – que acontece desde 2003 –, o ICWSM, International Conference on Weblogs and Social Media – que acontece desde 2004 – e o Encontro Nacional e Luso-Galaico sobre Weblogs, que ocorre anualmente em Portugal. No Brasil, o evento Blogs: Redes Sociais e Comunicação Digital, ocorrido em duas edições na Feevale, em 2007 e 2008, reuniu pesquisadores em grupos de trabalho e palestras. (...) Aoir (Association of Internet Researchers), Compós (Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação), ABCiber (Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura) e Lista de discussão sobre Cibercultura da UFBA, entre outras. <br />AMARAL; RECUERO; MONTARDO (Blogs.com, on line).<br />Organizado em duas partes, Blogs: definições, tipologias e Metodologias, e. Usos e Apropriações de Blogs, o e-book se empenha em investigar as interfaces dos blogs com os problemas de teorias e metodologias (sua objetividade e relevância; as perspectivas de análise e as bases conceituais empregadas nas pesquisas). <br />O trabalho explora a inserção dos blogs na esfera política, comercial e pedagógica, e o seu uso como ferramenta nas práticas de ensino (e profissionalização) do jornalismo. A obra contempla o objeto como uma nova categoria do jornalismo, examinando a sua operacionalidade como um poderoso vetor de compartilhamento da informação. Procura detectar as suas variações enquanto moblogs e microblogs, e interpretar o trabalho do jornalismo no uso das tecnologias móveis. <br />O livro já se tornou uma referência na área e apresenta, de maneira sistematizada, uma revisão bibliográfica rigorosa acerca dos blogs, incluindo títulos nacionais e internacionais.<br />Num outro registro, o trabalho de Alex Primo se volta para os problemas gerais da “interação mediada por computador” (2007), e examina os estilos de comunicabilidade, a natureza e as formas de cognição geradas a partir do uso das tecnologias de informação. O autor aponta para o caráter de heterogeneidade desta ferramenta - que assume diferentes formas (organizacionais, educacionais, de caráter público e privado) - e se propõe a estabelecer uma matriz classificatória dos blogs. <br />Raquel Recuero é uma das pioneiras no estudo e divulgação do trabalho dos blogs no Brasil, investigando o seu uso como estratégia bem sucedida, durante a guerra no Iraque e a emergência do Jornalismo on line (2003). Recuero e Primo (2003) apresentam uma análise do blog, como um “hipertexto cooperativo”, uma “escrita coletiva” analogamente ao modus operandi da enciclopédia digital (wikipedia).<br />Nesta área são instigantes - igualmente - os trabalhos de Paula Sibilia, dos quais inserimos aqui uma súmula, considerando o seu pioneirismo, sua pertinência metodológica e qualidade estilística do seu argumento, senão vejamos:<br />Em contraste com algumas formas modernas de atualizar a memória das próprias experiências vividas (do diário íntimo à psicanálise, do romance clássico às autobiografias românticas), este artigo examina o fenômeno dos weblogs, fotologs e videologs do tipo confessional; isto é, aqueles que expõem na Internet a intimidade de seus autores. Estas novas manifestações dos gêneros autobiográficos seriam uma tentativa atualíssima de “recuperar o tempo perdido” na vertigem do tempo real, do “sem tempo” e do presente constantemente “presentificado”, todos fatores que caracterizam a contemporaneidade. A peculiar inscrição cronológica desses novos “relatos do eu” denota uma certa reconfiguração das subjetividades, que se distanciam das modalidades tipicamente modernas de ser e estar no mundo. Assim como ocorre com a idéia de interioridade, também está sofrendo alterações o valor atribuído a outro fator primordial na constituição da identidade individual: o estatuto do passado como um alicerce fundamental do eu. Apesar de sua permanência como fatores ainda relevantes, essas duas noções que desempenharam papéis de primeira ordem na conformação das subjetividades modernas hoje parecem estar perdendo peso na definição do que cada um é, dando a luz a novos regimes de constituição do eu.<br />SIBILIA (2005 on line). <br />A análise de cunho qualitativo feita pela autora é severa, mas profundamente lúcida e converge com a nossa perspectiva epistemológica, pois empreende uma aguçada hermenêutica da comunicação humana na era das redes sociais, perfazendo um dos primeiros esforços em direção a uma psicanálise da cibercultura.<br />Duas novas formas de expressão e de comunicação florescem atualmente na Internet: os diários íntimos on-line (blogs) e as câmeras de vídeo que capturam e exibem "cenas da vida privada" dos próprios usuários (webcams). Estes fenômenos parecem recriar um hábito que teve seu apogeu nos séculos XVIII e XIX e que vinha agonizando lentamente ao longo do século passado: a paciente e minuciosa "escrita de si". A intenção é focalizar um aspecto particular dessas novas "narrativas do eu" que hoje se multiplicam nas redes digitais: a sua inscrição na fronteira entre o público e o privado, pois as confissões e as imagens cotidianas dos autores são expostas aos milhões de olhos que têm acesso à Internet. Os limites que costumavam separar essas duas esferas no mundo moderno estão sendo desafiados, acompanhando as fortes mutações que afetam as subjetividades contemporâneas.<br />SIBILIA (INTERCOM, 2003, on line).<br /> <br />Os seus textos exploram os diários face à convergência sócio-tecnológica, aceleração e velocidade do capitalismo global (ou seja, considerando as relações com a estrutura econômica); analisam os modos de subjetividade, focalizando as dimensões psicológicas, sociais, ético-políticas dos blogueiros. Sibilia enfrenta a nova concepção de esfera pública (virtual, digital, colaborativa) criada pelos blogs, entendida como um “imperativo da visibilidade”, que Recuero nos apresenta numa citação esclarecedora:<br />Esse imperativo, decorrente da intersecção entre o público e o privado, para ser uma conseqüência direta do fenômeno globalizante, que exacerba o individualismo. É preciso ser “visto” para existir no espaço dos fluxos. É preciso constituir-se parte dessa sociedade em rede, apropriando-se do ciberespaço e constituindo um “eu” ali. <br />(RECUERO, 2003, pag. 3). <br />Essa perspectiva reaparece nos estudos de Alonge (2003), que observa as ambiências comunicacionais geradas pelos blogs como ágoras digitais, propiciando estilos de sociabilidade no contexto da cultura midiática. Aliás, as subjetividades e sociabilidades forjadas pelos meios interativos têm sido também objeto das preocupações de Carvalho (2000), que explora os “Diários íntimos na era digital”, os paradoxos dos diários públicos que se originam de “mundos privados”.<br />Cumpre ratificar o trabalho de André Lemos, um dos pioneiros neste domínio, da pesquisa, tratando especificamente dos blogs em “A arte da vida, diários pessoais e webcam” (2002) e “Cibercultura e Tsunamis, Tecnologias de Comunicação Móvel, Blogs e Mobilização Social” (2005). O seu enfoque sócio-antropológico das infotecnologias atualiza um olhar sobre as mídias (e mediações) digitais, explorando as interfaces da cibercultura, tecnologia e vida social, e enfatizando o poder social no uso das mídias locativas. Uma ágil captura da inteligência coletiva conectada dos blogs, em trânsito, na rua, na praia, na praça pública, em todos os lugares e em lugar nenhum.<br />O retorno da escrit@ na era digital<br />Com o aparecimento dos diários nos deparamos com um retorno da escrita (que fora “obliterada” pelos audiovisuais no auge da cultura de massa) e o surgimento do leitor imersivo, expressão utilizada por Santaella (2004) para designar as experiências neuro-sensoriais e cognitivas envolvidas pelas inteligências conectadas.<br />A partir da revolução forjada pelas mídias colaborativas, um novo regime sócio-semiótico se instalou; surgiram novas maneiras de falar, de significar e de colaborar. Portanto, afloraram distintas modalidades de acesso, linguagem e interacionalidade. <br />A inteligência artificial, o uso simultâneo de imagem, som e texto, o ritmo, a velocidade das redes e a conexão sócio-tecnológica desencadearam novos modos de percepção, memorização, estímulo, resposta, cognição e aprendizagem; formas diferentes de traduzir a semiotização cotidiana e estratégias de participação social. <br />Uma leitura hermenêutica, semiológica ou semiótica dos blogs nos remete às três vocações da linguagem, como vetor de informação, comunicação e socialização. <br />E conduz a um tempo mítico da linguagem, à busca de uma linguagem pura, em que a prosa do mundo é revigorada pelas narrativas mitopoéticas, encorajando à comunicação e à sociabilidade. Como demonstra Santaella, no livro Linguagens líquidas na era da mobilidade (2007), é preciso perceber que os blogs, as redes sociais, levam às mediações sociais por meio das linguagens geradas pelas tecnologias.<br />O que acontece com a irradiação dos blogs - pessoais, coletivos, artísticos, políticos ou jornalísticos - é a instauração de uma nova gramática tecno-social, que condiciona os modos de pensamento, discurso e ação dos atores sociais. <br />A vigorosa interatividade desencadeada a partir da produção, circulação e consumo dos conteúdos dos blogs, resulta – sobretudo – do grande poder de mediação e equilíbrio inspirado no espírito hermenêutico-interpretativo. Ou seja, o trabalho dos blogueiros assimila as regras gramaticais, do logos, da razão gráfica e comunicativa, mas escapa aos padrões convencionais, liberando uma linguagem nova que estimula a imaginação criadora e participante no cotidiano midiatizado. <br />A blogosfera impõe dinâmica e atualização aos currículos universitários, assim como energiza os fluxos informacionais que otimizam os procedimentos organizacionais e mercadológicos, e igualmente, no âmbito do trabalho jornalístico apresentam novos desafios, forçando as redações e os seus profissionais a reexaminarem os seus métodos de investigação, os modos de elaboração das notícias e disponibilização dos seus conteúdos. A blogosfera fortalece o diálogo entre a academia, o mercado e a sociedade: a nova babel instalada pelos blogs traz bons presságios.<br />A “pureza” dos diários pessoais e o “perigo” dos blogs jornalísticos<br />Nos tempos da visibilidade total os diários íntimos assumiram novos formatos; parecem ter perdido o pudor, tornando-se mais evidentes, de acordo com os códigos abertos da chamada “sociedade transparente”. Trata-se de uma experiência fecunda, que permite os atores em rede abrirem caminho para a livre informação e a comunicação colaborativa, como mostram as experiências do blog, do twitter e do wikileaks.<br />Interessa-nos aqui explorar, sobretudo, o seu caráter sócio-político e informativo, problematizando as suas conexões sócio-tecnológicas que transformam os “inocentes diários” em influentes blogs jornalísticos:<br />Em A Book of One’s Own - People and Their Diaries, o estudioso inglês Thomas Mallon (1995, p.1) chama a atenção para o fato de que os dois termos se confundem por estarem associados à idéia de recordação diária de eventos. Mas ele acredita que a palavra diário tenha conotação associada a algo mais íntimo porque se ligou a dear na expressão “querido diário” (dear diary), muito utilizada por diaristas. O jornal, por sua vez, esteve mais associado a “newspapers trade” (jornal como informativo comercial, periódico, gazeta) – termo que vincula o jornal à idéia de fonte de notícia. (OLIVEIRA, 2009).<br />Para uma reflexão crítica dos blogs como “escrita de si” e vetor de publicização da vida cotidiana, é salutar recorrer aos pensadores Barthes, Lacan, Foucault, Deleuze e Derrida, mestres na arte de decifrar as narrativas, escritos, discursos, enunciados e escrituras, através dos quais se travam as batalhas lingüísticas, cognitivas, jurídicas, comerciais e políticas. Cada deles nos apresenta idéias instigantes para interpretarmos o sentido da nova linguagem hipertextual e polifônica da blogosfera, senão vejamos:<br />Barthes continua sendo um autor importante na academia, no que concerne aos seus estudos do texto, que podem ser adequados para desvendarmos as tramas da hipertextualidade . Observando as análises que fez sobre “o óbvio e o obtuso” das mídias modernas (os impressos, a fotografia, o cinema), podemos utilizar os seus estudos examinando os blogs como espécies de mitologias, “falas roubadas” (1980), povoando a semiurgia urbana, desvelando, assim, o “espírito do tempo”. Remontando a perspectiva barthesiana, os blogs podem ser vistos como narrativas que (re)definem um novo acesso ao poder da linguagem no contexto social (2003). <br />Num outro registro, recuperando as lições de Lacan (2003), um autor perspicaz também no que respeita à decifração do ser, através da fala, do texto, do discurso, vislumbramos a escrita do blog como expressão dos desejos inconscientes e como uma robusta usina de produção de linguagem. Pelo prisma lacaniano, o blog realizaria uma operação em que o significante (lugar do desejo) busca escapar à tirania do significado (lugar da norma), em que o discurso privado (subjetivo) passa a tornar parte de uma agenda pública (social). Logo, o blog consiste numa estratégia de liberação do desejo (de falar, escrever, se comunicar) e num motor de realização da catarse, na medida em que o leitor se torna autor, podendo interagir com outros autores-leitores-interlocutores<br />O célebre artigo “O que é um autor?” (FOUCAULT, 1984) oferece pistas para entendermos o blog, como um estilo de comunicação individual ou coletiva, mas, simultaneamente, autoral e interativa, fazendo uma ponte semiológica entre o domínio da subjetividade e da objetividade, das tecnologias do ego e da “socialidade on line”. <br />A concepção do discurso como dispositivo gerador de soberania, disciplina, autonomia e liberdade, segundo a Microfísica do poder (1979), produz agenciamentos que nos encorajam a defender a ampla e irrestrita liberação da linguagem no ciberespaço. Mas, sobretudo no último Foucault, autor de História da sexualidade, vol. 1. O uso dos prazeres, e O cuidado de si, vol. 2 (1984), em que propõe uma “estilística da existência”, encontramos insights para entendermos os novos estilos de subjetividade (e modos de cidadania) gerados pelos diários nos espaços anárquicos da blogosfera.<br />Deleuze, mais alegórico, em sua filosofia da diferença, recorre à personagem de Alice no país das maravilhas e os seus anagramas acerca das metamorfoses entre o “encolher” e “crescer”, como alternâncias necessárias à lógica de sentido, e assim, remete-nos a uma reflexão dos tamanhos do blog e microblogging, como espaços condicionantes para a tradução do pensamento em linguagem na era da velocidade. <br />Ao seu turno, Jacques Derrida, também sob a influência filológica de Nietzsche, denuncia a “farmácia de Platão”, rechaça a compulsão idealista que leva à angustiante busca pela “exatidão das palavras”. E por essa via faz a crítica radical da escritura fisgada pelo “logocentrismo”, defendendo o fonocentrismo, como expressão legítima da “diferença” do pensamento que manifesta a essência do ser na linguagem. <br />Efetivamente, Derrida – malgré lui même – prenuncia a vigência semiótica gerada, no século 21, pelo idioma sócio-técnico compartilhado da blogosfera. O filósofo aposta numa atitude filosófica de desconstrução das tramas lingüísticas hegemônicas, pela via da linguagem, que ele entende como um ato de resistência.<br />Essa constelação de idéias, mesmo partindo de rigorosa abstração filosófica, nos ajuda a compreender as condições de produção da subjetividade e da sociabilidade, através da linguagem, e nos instiga a entender a blogosfera como o lugar estratégico para o agenciamento de um novo narrador, sujeito da história, do desejo, da ação política, de um projeto de autonomia através de uma nova competência comunicativa.<br />Assim, a especulação filosófica acerca do poder da linguagem nos instiga a compreendermos –pragmaticamente - a experiência de resistência dos blogs, do twitter, das redes sociais, no contexto dos conflitos políticos na dita “primavera árabe”. <br />Enfrentando as gestões governamentais autoritárias da Tunísia, Egito, Líbia, Síria, Iémen, Sudão, Sri Lanka, Oman, os usuários-blogueiros conectados em rede se tornam cibermilitantes, contribuindo para a derrubada dos poderes hegemônicos. <br />Um balanço das categorizações<br />A blogosfera complexificou-se de tal forma que as primeiras definições sobre blogs passam a revelar suas limitações. Se em um primeiro momento a imprensa e a academia apressaram-se a comparar blogs, como diários pessoais, e vincular sua produção a uma atividade confessional de jovens, hoje vemos um crescente número de grandes corporações mantendo blogs como estratégia mercadológica e promocional (...). Diante dessas atualizações e dos desafios que a blogosfera impõe ao pesquisador, desde o início do ano venho trabalhando em um método que possa delimitar os diferentes gêneros de blogs. <br />(PRIMO, 2008, on line)<br />Dentre os pesquisadores preocupados com o fenômeno dos blogs, Alex Primo se dedica a explorar conceitualmente e pragmaticamente a blogosfera. E, sinaliza caminhos para um entendimento dessa complexa “maquinaria de linguagem”. Apoiando-se numa ampla bibliografia sobre o tema, aponta os problemas das suas definições, suas relações com a imprensa, a academia, o mercado e as instituições midiáticas. <br />Segundo Primo, a sua classificação foi desenvolvida a partir de uma insatisfação com as tipologias de blogs conhecidas por suas temáticas jornalísticas, educacionais etc. Para ele, “a complexificação da blogosfera acabou inflando essas últimas categorias” (...) e então propõe um modelo que apresenta 16 gêneros de blogs: <br />(...) existem blogs individuais e coletivos, o que já modifica as condições de produção e administração do blog. (...) busquei avaliar como se dão as interações (internas e com as audiências) e a relação do blogar com o trabalho e com o cotidiano (dimensão interações formalizadas/interações cotidianas). Quanto ao conteúdo, busquei investigar se os textos voltam-se para questões dos próprios blogueiros (quando falam de si, de suas relações e das próprias atividades) ou quando tratam de outros assuntos (dimensão dentro/fora). A última dimensão (reflexão/relato) visa observar a estratégia discursiva preferida: existe argumentação crítica ou apenas uma exposição de fatos? (...) A partir do cruzamento (das) dimensões, encontrei 16 gêneros: (1) profissional auto-reflexivo; (2) profissional informativo interno; (3) profissional informativo; (4) profissional reflexivo; (5) pessoal auto-reflexivo; (6) pessoal informativo interno; (7) pessoal informativo; (8) pessoal reflexivo; (9) grupal auto-reflexivo; (10) grupal informativo interno; (11) grupal informativo; (12) grupal reflexivo; (13) organizacional auto-reflexivo; (14) organizacional informativo interno; (15) organizacional informativo; e (16) organizacional reflexivo. <br />DOSSIÊ ALEX PRIMO (Blog, 30.09.2008).<br />O pesquisador apresenta instrumentos teórico-conceituais para compreendermos os blogs, a partir de sua caracterização em diferentes gêneros. Para isso recorre às leituras de Bakhtin e Todorov, pensadores engajados no estudo das relações entre o discurso literário e a trama social, empenhados em classificar, categorizar e explicar os gêneros de discurso no âmbito da cultura. Assim, Primo elabora uma tipologia dos gêneros de blogs que tem o mérito de encorajar novas categorizações, não só para uma análise dos blogs, mas de outros dispositivos semiótico-informacionais.<br />O jornal e as mediações digitais: o blog, o podcast, o Twitter<br />Da Galáxia de Gutemberg (expressão do desenvolvimento mundial da imprensa) até a Galáxia Internet (forma mais acabada da midiatização global) muita coisa aconteceu, e pelo que tudo indica estamos apenas no início de uma longa odisséia. <br />Conforme escreve o sociólogo catalão Manuel Castells, na obra monumental, em três tomos, A Era da Informação: economia, sociedade e cultura (1999), estamos assistindo a importantes transformações no domínio da economia, política, cultura e sociedade, e como diz Pierre Lévy, “a internet já é a própria revolução”. Ou como proclama o jornalista Marcelo Tas: “O Twitter já revolucionou a comunicação”. <br />O modo (como a gente lida com o fluxo de notícias nos próximos anos) “é algo que a gente não vai perceber de uma maneira tão pontual quanto a gente percebeu com a chegada da TV, por exemplo. É algo muito mais sutil e, paradoxalmente, muito mais rápido. Entra tão imediatamente na nossa vida que a gente não identifica. A gente tem uma dificuldade muito grande de processamento. Os chips vão se acelerando em proporção geométrica, e a gente continua com o mesmo cérebro, com o mesmo corpo – graças a Deus, inclusive -, e principalmente com a mesma cultura, que é muito analógica”. <br />Marcelo Tas (Entrevista, Estadão on line, 2011). <br />As nanotecnologias, as mídias móveis, colaborativas, os dispositivos “sem fio”, os laptops, palmtops, celulares e câmeras portáteis têm proporcionado modificações importantes no âmbito do trabalho dos jornalistas e profissionais de comunicação.<br />Não se pode precisar com certeza quando surgiu cada dispositivo e nem o momento exato em que as transformações começaram a acontecer, mas numa perspectiva histórica, percebemos que existe uma relação muito próxima entre a rota sinistra dos conflitos bélicos e a evolução das tecnologias de comunicação. <br />As grandes guerras mundiais, a guerra da Coréia, a guerra do Vietnã, a guerra do Golfo, a guerra no Iraque, o episódio da explosão das torres gêmeas, “A guerra contra o terror”, entre outros, são acontecimentos trágicos, em que as tecnologias de informação e da comunicação têm um papel preponderante. <br />Várias obras como Guerra e Paz na Aldeia Global (MCLUHAN, 1971), A invenção da Comunicação (MATTELART, 1996), Guerra e Cinema (VIRILIO, 2005), A guerra do golfo não aconteceu (BAUDRILLARD, 1991) e Democracia, multidão e guerra no ciberespaço (ANTOUN, 2004), entre outros, têm demonstrado a intersecção entre os conflitos, as guerras e a comunicação. <br />Numa perspectiva hermenêutica, a experiência comunicacional aparece aqui como mediação da “guerra das linguagens”, das tensões e dos conflitos das mais diversas naturezas. Com efeito, a história da evolução dos meios de comunicação que se efetiva pari passu com a evolução do processo civilizatório, conforme demonstra Hohlfeldt (2001), não se perfaz num rio de águas tranqüilas. <br />Nesta investigação dos blogs (diários virtuais) que já fazem parte da rotina de trabalho dos jornalistas – como as agências de notícias – notamos que estes se inserem num contexto histórico-cultural marcado pela globalização, dromocracia (aceleração e velocidade dos fluxos, mensagens, notícias), convergência sócio-tecnológica e dispositivos de conexão e mobilidade. Logo, caberia examinar como o jornalismo vem se transformando com a incrementação dos blogs, e como esta prática histórica vem se modificando sob a égide da digitalização, configurando a experiência do webjornalismo. <br />O novo formato se instala no tempo forte do capitalismo global (ou “turbocapitalismo”), mas não se pode perder de vista também que aqui se definem os espaços e tempos para as ações afirmativas e empoderamentos (dos usuários, cidadãos, jornalistas, pesquisadores), para a criação de oportunidades e a inserção das competências comunicativas nos chamados “mercados glocais”. <br />Sem pretender abarcar os grandes problemas causados pelas metamorfoses do jornalismo, a partir das tecnologias da informação, elencamos algumas questões que podem instigar um debate profícuo, e para isso, recorremos a alguns trabalhos que atestam o esforço da pesquisa voltada para as relações entre os blogs e o jornalismo. <br />Naturalmente esses são apenas alguns exemplos, dentre os muitos estudos sobre os blogs e suas interfaces com o jornalismo. <br />Podemos depreender dessa pequena amostra as preocupações em atualizar uma avaliação crítica da imprensa, enquanto instituição ocidental, que nasce diretamente ligada às questões da vontade geral, do Direito, das lutas políticas, da livre iniciativa e da liberdade de informação, e tais preocupações passam pelo crivo da nova experiência individual e coletiva que é a “interacionalidade” gerada pelos meios digitais.<br />Os blogs como extensões da casa, da rua, da escola e da vida profissional<br />Os blogs têm repercutido nos domínios da economia, política e educação. Atendem a funções sociais diversas; convém levá-los a sério naquilo que contêm de essencial, tornando a comunicação mais democrática e gerando empoderamento social.<br />Historicamente, observamos que a nova divisão social do trabalho introduz novas demandas, necessidades e responsabilidades, e tais instâncias passam pelo crivo da formação dos recursos humanos, das competências sócio-técnicas e cognitivas. Mas um estudo dos blogs não poderia prescindir também de uma apreciação dos componentes ético-políticos e estéticos, que lhes dão forma e sentido. Num nível mais pragmático, tudo isso remete – inevitavelmente – ao problema das escolas de Ensino Superior de Comunicação, e a rigor, às relações entre a escola, o mercado e a sociedade, instâncias movidas por interesses distintos, mas que não são irreconciliáveis. <br />O blog e o microblogging (como o Twitter) têm exercido uma presença marcante nas diversas esferas da ação pragmática, no âmbito da comunicação deste começo de século; logo, o seu significado não deve ser subestimado. Obliterá-los seria o mesmo que apagar o sistema de correio postal numa história da cultura do século XIX.<br />O jornalismo continua sendo – como sempre foi – um discurso socialmente poderoso, que contribui para a organização da vida mental e social no espaço público. O jornal mudou de forma na era da comunicação pós-massiva, conjugando os elementos verbais, impressos, gráficos, imagéticos, sonoros, e os blogs - em seu formato conciso, dinâmico, colaborativo – têm participado efetivamente destas mutações.<br />