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Dissertação de eder claudio malta souza na ufs 2010
 

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    Dissertação de eder claudio malta souza na ufs 2010 Dissertação de eder claudio malta souza na ufs 2010 Document Transcript

    • UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPEPRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISANÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAISEDER MALTAIDENTIDADES E PRÁTICAS CULTURAIS JUVENIS: ASREPÚBLICAS ESTUDANTIS DE OURO PRETOSão Cristóvão – Sergipe2010
    • EDER MALTAIDENTIDADES E PRÁTICAS CULTURAIS JUVENIS: ASREPÚBLICAS ESTUDANTIS DE OURO PRETODissertação de mestrado apresentada ao Núcleo dePós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais daUniversidade Federal de Sergipe, com Área deConcentração – “Cultura e Cidadania”.ORIENTADOR:Prof. Dr. Rogerio Proença LeiteSão Cristóvão – Sergipe2010
    • FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRALUNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPEM261iMalta, EderIdentidades e práticas culturais juvenis : as repúblicasestudantis de Ouro Preto / Eder Claudio Malta Souza. – SãoCristóvão, 2010.155 f. : il.Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Núcleo de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Pró-Reitoria de Pós-Graduação ePesquisa, Universidade Federal de Sergipe, 2010.Orientador: Prof. Dr. Rogério Proença Leite.1. Sociologia urbana. 2. Juventude – Ouro Preto (MG) I.Souza, Eder Claudio Malta. I. Título.CDU 316.334.56-053.6
    • AGRADECIMENTOSEste trabalho é fruto de esforços múltiplos, sem dúvida. Logo, no percurso da pesquisaacadêmica, a motivação e a leveza de compartilhar situações são realmente visíveis aoentendimento deste trabalho. Para tanto, agradeço a todos que compartilharam, direta ouindiretamente, de todos os meus questionamentos ao longo do percurso deste trabalho.Agradeço primeiramente aos repúblicos ouro-pretanos que, sem a disponibilidade eatenção prestada, eu não poderia concluir este trabalho. Especial menção aos moradores dasRepúblicas Nômades, Nau Sem Rumo, Xeque-Mate, Aquarius, Virada pra Lua, Lumiar,Indignação, Saudade da Mamãe e Marragolo, os quais conferiram grande atenção.Não seria possível realizar este trabalho sem as contribuições de muitas pessoas aquem devo agradecer:A minha família, por todo apoio e confiança.Ao professor e orientador Dr. Rogerio Proença Leite, a quem devo a fundamentalcolaboração para o projeto e desenvolvimento de minha carreira acadêmica.Ao programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais da UFS e a CAPESpelo fomento da pesquisa.Aos membros da banca, Dr. Ernesto Seidl e Drª Isabela Tamaso, que ao participaremda avaliação deste projeto, colaboraram com considerações importantes e estimulantes paranovas inserções desta pesquisa. E ao prof. Dr. Carlos Fortuna, que participou na qualificaçãodeste projeto, contribuindo com grandes questionamentos e sugestões.A socióloga e amiga Carina Gomes, que contribuiu bastante para meu conhecimentosobre a cidade de Coimbra, além de todo o apoio conferido.Aos amigos e companheiros, em diversos e difíceis momentos, que muitocontribuíram para ajudar-me a não perder a motivação deste trabalho: Ayalla, Raone, Hudson,Lorena, Presunto, Nina, João, Aretha, Igor, Tati, Ébano, Alysson, Natelson e Ranniery.Por fim, aos meus colegas de mestrado da turma de 2008, pelas conversasesclarecedoras e estimulantes, além das sociais realizadas durante os períodos letivos.Agradeço a todos!
    • Ouro Preto, 17 de novembro de 1935Estudantes da República VaticanoRua Nova, nº 7Essa república colocou à vista do público uma placa pintada sobre uma caixa de descargarepresentando o acrobata Farnésio subindo aos céus num trapézio e o Padre Eternosegurando o globo terrestre e apontando o céu com o dedo do destino. Tal Símbolo atentacontra a religiosidade da nossa gente e, por isso, estão intimados a retirá-lo ou modificá-lo,de modo a descaracterizar os motivos da repulsa popular.(a) Dr. José da Costa CarvalhoBacharel Delegado Regional de Ouro Preto.(Dequech, 1985, p.130)
    • RESUMOA histórica e patrimonial cidade de Ouro Preto, Minas Gerais/Brasil, tem uma fortecaracterística de vida juvenil universitária, a exemplo de outras cidades históricas, comoCoimbra, em Portugal. A presença da Universidade imprimiu novos hábitos e formasdiferenciadas de culturas urbanas, marcadas pela instalação das republicas estudantis. Estadissertação, resultante de pesquisa realizada no âmbito do Núcleo de Pós-Graduação ePesquisa em Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe, propõe-se a discutir essassociabilidades juvenis, em vista a observar as práticas culturais dos universitários de OuroPreto. Analisamos como as diferentes identidades urbanas apropriam-se dos espaços emanifestam estilos de vida distintos, demarcando lugares na cidade. Nosso argumento é quetanto as repúblicas universitárias quanto certos espaços da cidade podem ser qualificadoscomo espaços híbridos ou fragmentários, ao enunciarem usos que os transformam em lócusde sociabilidades públicas. O recorte empírico compreende tanto as repúblicas tradicionais –circunscritas à área patrimonial do centro histórico de Ouro Preto – quanto às novashabitações que surgiram em espaços não centrais da cidade; assim como ruas e praças nasquais se observam manifestações culturais típicas da cultura urbana juvenil. O que se conclui,como sugestão analítica, é que a forte inscrição sociossimbólica que essa cultura imprime àvida urbana cotidiana de Ouro Preto faz da cidade um espaço identitário dissonante depráticas sociais e sociabilidades diversas.Palavras-chave: Identidades Urbanas, Práticas Culturais, Sociabilidade Juvenil, Ouro Preto
    • ABSTRACTThe historic and patrimonial city of Ouro Preto, Minas Gerais/Brazil, has a strongcharacteristic of youthful university life, like other historic towns such as Coimbra,Portugal. The presence of the University printed new habits and forms of urban cultures,marked by the installation of the houses of students. This work, resulting from researchconducted within the Center for Graduate Studies and Research in Social Sciences, FederalUniversity of Sergipe, it is proposed to discuss these youthful sociability, in order to observethe cultural practices of the University of Ouro Preto. We analyze how the different identitiesappropriate the urban space and enunciate different lifestyles, pointing out places in thiscity. Our argument is that both the university and certain republics of the city spaces can becharacterized as hybrid spaces or fragmentary, to enunciate that uses the locus of socialchange into public. The empirical comprises both traditional republics - are limited to theassets of the old town area of Ouro Preto - for new dwellings that have arisen in non centralcity, as well as streets and squares in which cultural manifestations are observed typical urbanyouth culture. What follows, as analytical suggestion is that the strong enrollment social andsimbolic that culture gives to everyday urban life of Ouro Preto is a city space dissonantidentity of different social practices and sociability.Key-words: Urban Identities, Cultural Practices, Youth Sociability, Ouro Preto.
    • LISTA DE IMAGENSImagem 01........................................................................................................................... 52Imagem 02........................................................................................................................... 53Imagem 03........................................................................................................................... 58Imagem 04........................................................................................................................... 68Imagem 05........................................................................................................................... 68Imagem 06........................................................................................................................... 78Imagem 07........................................................................................................................... 78Imagem 08........................................................................................................................... 98Imagem 09........................................................................................................................... 98Imagem 10........................................................................................................................... 99Imagem 11........................................................................................................................... 100Imagem 12........................................................................................................................... 100Imagem 13........................................................................................................................... 101Imagem 14........................................................................................................................... 102Imagem 15........................................................................................................................... 102Imagem 16........................................................................................................................... 103Imagem 17........................................................................................................................... 105Imagem 18........................................................................................................................... 105Imagem 19........................................................................................................................... 106Imagem 20........................................................................................................................... 107Imagem 21........................................................................................................................... 108Imagem 22........................................................................................................................... 108Imagem 23........................................................................................................................... 111Imagem 24........................................................................................................................... 111Imagem 25........................................................................................................................... 122Imagem 26........................................................................................................................... 123Imagem 27........................................................................................................................... 126Imagem 28........................................................................................................................... 126
    • LISTA DE QUADROSQuadro 01............................................................................................................................ 74Quadro 02............................................................................................................................ 124
    • LISTA DE SIGLASALCAN - Aluminium Limited do CanadáCAEM – Centro Acadêmico da Escola de MinasCCCS – Centre for Contemporary Cultural StudiesCEEM – Casa do Estudante da Escola de MinasCEOP – Casa do Estudante de Ouro PretoCUNI – Conselho Universitário da Universidade Federal de Ouro PretoENEN – Exame Nacional do Ensino MédioFAMOP – Federação das Associações de Moradores de Ouro PretoIHGB – Instituto Histórico e Geográfico BrasileiroIPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico NacionalMDME – Movimento de Democratização da Moradia EstudantilMEC – Ministério da EducaçãoPROUNI – Programa Universidade para TodosREFOP – Associações dos Moradores de Repúblicas FederaisSPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico NacionalUC – Universidade de CoimbraUFOP – Universidade Federal de Ouro PretoUNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
    • SUMÁRIO1. INTRODUÇÃO.....................................................................................................1.1 Metodologia.......................................................................................................2. CIDADES, IDENTIDADES E DIFERENÇA: A FORMAÇÃO DOSLUGARES......................................................................................................................2.1 Espacialidades e lugares..........................................................................................2.2 A identidade atribuída à paisagem urbana de Ouro Preto.......................................2.3 A identidade nacional como recurso da patrimonialização de Ouro Preto..............3. OURO PRETO: “A CIDADE DAS REPÚBLICAS”............................................3.1 A fundação da Escola de Minas...............................................................................3.2 Constituição das repúblicas de Ouro Preto e a influência de Coimbra..................3.3 A Cidade dos Estudantes.........................................................................................4. INSCRIÇÃO DAS TRADIÇÕES ESTUDANTIS DE OURO PRETO...............5.1 A cidade das repúblicas e as práticas rituais............................................................5. CULTURAS E IDENTIDADES JUVENIS............................................................5.1 Categorização das culturas juvenis..........................................................................5.2 Identidades Urbanas Juvenis....................................................................................6. AS REPÚBLICAS UNIVERSITÁRIAS DE OURO PRETO: LUGAR DEMORADIA, FESTAS E SOCIABILIDADES............................................................6.1 Conflitos e articulações entre as repúblicas e a cidade.............................................6.2 Práticas socioculturais e usos dos espaços: Rock e Sociais......................................6.2.1 O Rock de Ouro Preto.......................................................................................6.2.2 Fazer Social.......................................................................................................7. CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................8. REFERÊNCIAS........................................................................................................9. ANEXOS....................................................................................................................ANEXO 01: QUADRO DE REPÚBLICAS FEDERAIS DE OURO PRETO..........ANEXO 02: TABELA UFOP.....................................................................................ANEXO 03: QUADRO DE ITENS LEXICAIS ESPECIAIS DOSUNIVERSITÁRIOS..........................................................................................................ANEXO 04: ESTATUTO DAS REPÚBLICAS FEDERAIS......................................12182332364245454854636481818895113118118124130136143144146147149
    • 121. INTRODUÇÃOUma antiga crença se instalou sobre a história da cidade de Ouro Preto: disseram, emoutros tempos, que ela não poderia mais crescer. No entanto, os especialistas e intelectuais dafase heroica do Iphan, de 1937 a 1967, não prescreveram essa crença e a orientação políticade preservação do patrimônio nem sempre corresponde às manifestações práticas e usoscotidianos de seus habitantes. Como refere Félix Guattari, “toda apreensão autêntica dopassado implica sempre uma recriação, uma reinvenção radical” (1992, p.158). Os vestígiosdo passado, as heranças de uma época, expressam as articulações entre passado e presente,ainda que desterritorialize os antigos espaços de referência dos sujeitos. A cidade foi seexpandindo e sua paisagem transformava-se à medida que as inovações na imagem urbanaforam sendo construídas através de diversos agenciamentos, usos e apropriações de seusespaços.Desta forma, a produção socioespacial de Ouro Preto, no curso de sua longa trajetória,foi ao mesmo tempo atributo 1) do período colonial, quando se consolidou seu centrohistórico; 2) do legado modernista do Iphan na construção da paisagem política da cidadeatravés das ações de preservação do patrimônio histórico e cultural e, posteriormente,consolidou o tombamento do acervo de bens como Patrimônio Mundial da Humanidade; 3)por fim, do turismo, quando a circulação de pessoas, signos e capital intensificou-se einscreveu novas imagens e usos dos espaços através do consumo cultural e redes virtuais decomunicação, com ofertas de bens e serviços. Entretanto, decorre além destes diversos fatoreso fluxo cotidiano e transformador enunciado pelos jovens estudantes universitários, os quais,de maneira muitas vezes irreverente, imprimiram novos usos aos velhos casarões e às antigasruas ouro-pretanas permeadas de tradições.A criação da Escola de Minas, em 12 de outubro de 1876, demarca um período defortes mudanças na educação superior brasileira e sobretudo na vida urbana ouro-pretana(CARVALHO, 1978). A partir da instalação das repúblicas estudantis novos usos enunciaram atransformação do espaço público urbano da cidade, inscreveram modos de vida e culturaurbana diferenciada1. Mais tarde, com a fundação da Universidade Federal de Ouro Preto(UFOP), em 21 de agosto de 1969, foram incorporadas as Escolas de Minas e de Farmácia. Apartir desta época ocorreu o aumento do número de alunos, que teve como consequênciamaior diversificação das repúblicas universitárias, visto que exprimiram novas formas de1Embora já existisse a Escola de Farmácia, cuja fundação data de 4 de abril de 1839, o número reduzido dealunos não possibilitou a criação de repúblicas, visto que os estudantes viviam em casas de família.
    • 13habitar e vivenciar a cidade, com suas práticas e tradições que nem sempre convergem com aidentidade tradicional atribuída à cidade.O conceito de “tradição” remete-nos à ideia de que os valores tradicionais vigentes nassociedades pressupõem a persistência de uma “integridade e continuidade que resistem aocontratempo da mudança” (GIDDENS, 2001, p. 31). As tradições estão em constante mutação,ao mesmo tempo em que são estruturadas por elementos como a crença, a memória e acontinuidade de práticas sociais coletivas vinculadas ao passado. Para Stuart Hall (2003), astradições não são completamente estruturadas, pois são relocalizadas e traduzidas no contextocontemporâneo. O resultado da tradução de diversas tradições concorre à hibridação. Há umaarticulação, um cruzamento, uma mistura entre várias práticas sociais e culturais que secomplementam entre identidade e diferença. Junto a essa mistura, as identidades dos sujeitostornam-se descentradas de referenciais fixos, estando suspensas, em transição. Tal transiçãopermite mobilidade e fortes mudanças na identidade dos grupos sociais e traduz novos estilosde vida, transcorrendo diferentes tradições e inovações culturais.De maneira que circunscreve as práticas enquanto modos de fazer, de enunciação esignificação da cultura, Michel De Certeau postula que “não basta ser autor de práticassociais; é preciso que essas práticas sociais tenham significado para aquele que as realiza”(1995, p.141) de modo que “ela consiste não em receber, mas em exercer a ação pela qualcada um marca aquilo que outros lhe dão para viver e pensar” (CERTEAU, 1995, p.143). Selevarmos em consideração a fragmentação dos sentidos atribuídos pelos sujeitos aos espaçosurbanos e como eles o praticam ao elaborarem os lugares de sociabilidade pública, suas açõesconsistem na formação de socioespacialidades inscritas de modo multipolarizado pelos usosou pelo que Rogerio P. Leite (2007) chamou de contra-usos da cidade.Tais práticas são “maneiras de fazer” advindas, portanto, da criatividade e deinvenções cotidianas, as quais podem significar movimentos contraditórios inscritos nosespaços urbanos ou não percebidos sob um olhar panóptico. Por exemplo, a arquitetura civil ereligiosa que constitui a paisagem política (ARANTES, 2000) de Ouro Preto parece conformaruma paisagem disjuntiva em relação às muitas práticas cotidianas de seus moradores. Mas oque ocorre são as articulações da paisagem com a importância da Universidade e das práticasestudantis que elaboram na identidade da “cidade tradicional” uma “cidade universitária”2.Estas articulações estão a expressar, conforme Antonio F. Costa (2002), o efeito das2Refiro-me à ideia de Ouro Preto ser não somente uma cidade patrimonial ou turística, mas universitáriatambém. Esta categoria “cidade universitária” é usada aqui simbolicamente para designar aspectos identitáriossobre Ouro Preto, e de modo diferente às demais universidades brasileiras chamadas institucionalmente decidades ou campus universitários referente ao seu espaço específico, como é o caso da USP e da própria UFOP.
    • 14dinâmicas identitárias. Isto significa falar em sobreposição desfocada entre as identidadesculturais experimentadas no curso cotidiano das pessoas e das instituições, como daquelasatribuídas às unidades de mapeamento da paisagem social das cidades.Em Ouro Preto, a presença da Universidade imprimiu novos hábitos e formasdiferenciadas de culturas urbanas, marcadas pela instalação das repúblicas estudantis. Em seuespaço articulam-se também a fragmentação dos estilos de vida e dos lugares desociabilidade; a interconexão de sistemas de comunicação; a produção de novas imagens,novos serviços e consumidores. Não são estas atividades privilégio das atividades turísticas,mas da inscrição sociossimbólica dos estudantes, nem turistas nem “nativos”, mas repúblicosouro-pretanos. Novas sociabilidades e formas de consumo, por exemplo, advêm da presençado estudante e de suas relações com os próprios turistas e nativos.As práticas cotidianas e as tradições estudantis advêm da criação, da organização e dacontinuidade das repúblicas. Em Ouro Preto, das mais de 400 repúblicas criadas, o primeiroregistro que se tem conhecido é anterior ao ano de 1919, quando foram criadas a “Castelo dosNobres” e a “Humaitá”, sendo que apenas a primeira continua a existir. Diversas são asformas como a cultura universitária, “esta configuração complexa de práticas rituais, formaise festivas, acompanhada de uma constelação de imagens, de objectos e de mitos, confereostensivamente à Universidade os sinais de uma singularidade reivindicada e de umaexemplaridade muito pouco estudada” (FRIAS, 2003, p. 81). Desde então, podemos entender ainscrição sociossimbólica das repúblicas estudantis na produção sociocultural do espaçopúblico ouro-pretano através das novas temporalidades, usos das casas antigas e ruídos noespaço urbano, indissociando-se, neste caso, da imagem urbana (LEITE, 2008) atribuída aOuro Preto desde o redescobrimento do barroco mineiro.Neste sentido, esta pesquisa objetivou à compreensão da “cidade histórica euniversitária” e teve como foco principal a observação do modo de vida dos repúblicos e dasociabilidade urbana juvenil contemporânea. Situamos aqui a enunciação das diferenças, dosprocessos de identificação com os lugares, da inserção das práticas socioculturais e espaciaisdos estudantes nos espaços da cidade e das formas de consumo cultural. Tendo em vista queum dos aspectos constitutivos para a compreensão destas categorias reside no entendimentosobre a construção dos lugares e do espaço público (LEITE, 2007, 2009), atentamos tambémpara os possíveis conflitos identitários, demarcados pela publicização das diferenças que seestabelecem no curso das interações públicas entre os estudantes e também com algunssetores da sociedade ouro-pretana.
    • 15Compreendemos ainda que as práticas culturais dos repúblicos, a exemplo dos trotes3,mesmo que articuladas à imagem urbana de Ouro Preto, estão situadas em um espaço-tempofragmentário, visto que a maioria destes jovens desloca-se de outros Estados e do interior deMinas Gerais, para estudar na UFOP. Embora estabeleça um entremeio de fronteiras culturaise processos descentrados, de possibilidades diversas de sentidos – racionais ou inconscientes– a sociabilidade estudantil produz a enunciação híbrida dos lugares (BHABHA, 1998).Adriana A. França (2008) observou os reflexos do contato linguístico entre eles e demonstrouque os modos de falar e as escolhas dos nomes de algumas repúblicas provêm da interação ecomunicação cotidiana. Queremos dizer que não há necessariamente um fechamento entre oestilo de vida dos estudantes e dos ouro-pretanos, o que desconstrói qualquer tentativa depolarização das identidades em questão.Esta articulação complexa entre eu/outro demarca a noção contemporânea dasidentidades. Um exemplo, bem assinalado por M. Margulis e M. Urresti (2000) e JoséMachado Pais (2003), destaca a articulação da classificação etária jovem/adulto, visto que asteorias contemporâneas criticam a noção de juventude como uma “fase da vida” de carátertransitório, dotada de representações como “irresponsabilidades”, “rebeldias” e“instabilidades” em contraposição ao status de estabilidade atribuído à vida adulta. Destaforma, a identidade “repúblico”4parece corresponder a esta percepção, pois, mesmo sendoum espaço juvenil, as repúblicas podem ser consideradas uma família – sem pais e mães –, àmedida que os jovens se inserem nestas casas e adquirem diversas responsabilidades da vidaadulta, sendo eles os próprios mantenedores.Estas responsabilidades são informadas através dos relatos de ex-moradores derepúblicas, de quem visitou ou morou por um curto período, como também circulam diversasinformações na internet. Em sua grande maioria os enunciados convergem com a ideia de que“morar em república é uma aprendizado para toda a vida”; “a república é uma Escola devida”. Ingressar na Universidade torna-se então um dos mais importantes momentos detransição da vida de muitos jovens, pois é no ensino superior que encontramos maior3Como veremos, os trotes geralmente são formas de inserir os calouros (bixo) no estilo de vida da república. Ocalouro deve usar placas quando sai às ruas, tem seus cabelos cortados à maneira que os moradores desejam.Ocorre também o “vento”; “varal”; “bixo pelado”; “baldada”; “amantegado” e “capote”. Tais situações sãobastante contestadas e geram os movimentos anti-trote. Acrescentemos que a grafia “bixo” (referência aocalouro) é utilizada pelos repúblicos, enquanto que podemos encontrar também a grafia “bicho” em outros meiosde informação. Descreveremos de modo mais detalhado no capítulo 4.4Adotaremos o termo “repúblico” ao invés de “republicano” comumente chamado pelos próprios moradores.Esta distinção serve para, à luz deste texto, evitar imprecisões com o termo usado para designar a identidadepolítica de um Estado republicano. O termo “republicano” é também usado por Aníbal Frias (2003), autor citadoneste trabalho.
    • 16liberdade de escolha para um futuro pessoal e profissional, mesmo ao lado de grandesinquietações, ainda mais se vamos estudar e morar longe de casa com outras pessoas, atéentão desconhecidas, por pelo menos 4 ou 5 anos. Este período demarca fortemente a pós-adolescência. É quando os jovens experimentam novas identidades, transitam para outrasvisões de mundo (políticas e socioculturais) decorrentes não só de novos contatos, mas daprópria vinculação ao mundo acadêmico.Observamos, tanto em forma teórica quanto através da nossa imersão em campo, aspráticas culturais estudantis nos diversos espaços da cidade. Ocorrem através dos usos eapropriações dos antigos sobrados como lugar de moradia e lazer, principalmente no centrohistórico, onde há maior interação com o fluxo de turistas da cidade, visto que estes sehospedam também nas repúblicas. Sabemos que, por um lado, as práticas dos estudantes emOuro Preto estão muitas vezes articuladas à Universidade, que promove famosos eventosanuais, tais como o Festival de Inverno, a Semana de Arte e Literatura e o Festival de Jazz.Por outro lado, há também os novos usos do patrimônio arquitetônico e histórico, através depráticas culturais e espaciais: o Carnaval de Ouro Preto, organizado e realizado também pelosestudantes, a criação de boates nos porões ou quartos dos antigos sobrados e a apropriação dediversos espaços da casa para a realização de festas.Embora o Movimento Estudantil seja uma importante prática política, não nosdeteremos neste assunto. Mas não podemos deixar de mencionar que esta prática entre osrepúblicos norteu a formação de uma esfera pública e na articulação dos interesses dosestudantes para questões de fins estudantis. A mediação política entre as repúblicas e osestudantes, como também com a sociedade e instituições públicas e privadas de Ouro Preto,ocorre através de Associações dos Moradores de Repúblicas Federais (Refop) e do CentroAcadêmico da Escola de Minas (CAEM), fundado em 1915 e instalado no antigo fórum dacidade, onde funciona o restaurante universitário da Escola de Minas. Devemos tambémadicionar que este mesmo espaço torna-se lugar para o lazer noturno, ao funcionar como localpara todo tipo de festas e shows musicais, rodas de capoeira, teatros, formatura etc.Do exposto acima, levantamos as seguintes indagações: Como se enunciam as práticassocioculturais das repúblicas estudantis de Ouro Preto? Como e por que tornam-se asrepúblicas um lugar de sociabilidade(s) pública(s) entre diferentes identidades? Quais asdiferenças e as identificações entre os repúblicos e como constitui o espaço público da“cidade universitária”?Além destas questões, devemos atentar também para os conflitos intra eintergeracionais, visto que as repúblicas são formadas majoritariamente por jovens e
    • 17adolescentes. Neste sentido lançamos mão da seguinte e não menos importante questão: Quaisos conflitos geracionais que se estendem em usos no espaço interno das repúblicas e comoeles também se enunciam no espaço urbano da cidade?Nesse sentido, através da leitura feita a partir de diversos autores (CERTEAU, 1994;FEATHERSTONE, 1995; BHABHA, 1998; COSTA, 2002; CANCLINI, 2006; LEITE, 2007),partimos da premissa de que as identidades e culturas urbanas juvenis são enunciadoras delugares híbridos e fragmentados, como de novas mediações culturais. Assim, em um cenárioglobal ou local, as identidades urbanas inscrevem práticas culturais e espaciais através desuas inserções no espaço público, produzindo diferenças e desigualdades, decorrentes dosmodos de vida experimentados. As identidades urbanas juvenis interagem de maneira diversae compreendem as relações intra e intersociais que dão forma e expressão às práticas e àsociabilidade contemporânea. Sugere-se então que as identidades culturais juvenis enunciame elaboram formas diferenciadas e dissonantes de culturas urbanas.Desse modo, ao associarmos estas premissas ao objeto de estudo aqui apresentado,inferimos que as repúblicas estudantis enunciam-se enquanto lugares híbridos oufragmentários no contexto relacional de Ouro Preto, as quais inscrevem um conjuntosignificativo de relações sociais e espaços identitários que demarcam fronteiras culturais. Aopasso em que elaboram práticas sociais, permeadas de tradições, rituais lúdicos esociabilidades localizadas, a cultura universitária articula-se à globalidade das identidadesculturais juvenis. Sua singularidade compreende as manifestações dos movimentos estudantise politizados às práticas inscritas em culturas e imagens urbanas disseminadas e diferenciadas.Para defender a hipótese aqui sugerida adequamos o marco teórico à realidadeestudada. As reflexões acima nos mostram que a realidade contemporânea pode ser entendidapela fragmentação da identidade política e cultural dos sujeitos tanto em contextos globaisquanto locais (KUMAR, 1997; HALL, 2006). Com isto, através dos processos advindos dainscrição sociossimbólica dos lugares, é evidente entender como os jovens fazem com que seressaltem as intensas mudanças culturais. Estes não só têm alterado Ouro Preto: mas alteram aprópria conformação social, o próprio entendimento daquela paisagem social, daquelecotidiano elaborado através de novas e cada vez mais complexas formas de sociabilidadejuvenil.Para responder a tais questões buscamos abordar a temática e articular marco teórico,categorias e conceitos. Descrevemos também nossas premissas sobre a cultura juvenil econsideramos os debates atuais sobre práticas culturais e identidades urbanas. Justificamos aescolha do objeto, destacando a importância atual que a cidade de Ouro Preto tem para as
    • 18pesquisas urbanas. A escolha da patrimonial e histórica cidade de Ouro Preto como objetodesta pesquisa justifica-se não somente por ser uma cidade que se inscreve no fluxo global,mas por verificarmos, diante de muitas pesquisas científicas na área de humanas e sociais, apouca exploração de estudos que tenham por determinação argumentativa outros fatores alémda identidade política (aspectos históricos da identidade nacional), arquitetônica(planejamento urbano e modernismo) e turística (enobrecimento urbano e oferta de bens).1.1. MetodologiaO trabalho de campo parte da análise com um plano baseado na observação direta.Esta pesquisa segue o modelo qualitativo, priorizando os aspectos ou elementos queincorporaram os significados da vida social e culturas modernas que possam adequadamentecolaborar com os nossos objetivos, ao ter em vista as identidades e diferenças que constroemo jogo da sociabilidade. Assim, tivemos como objetivo geral apreender e analisar, a partir deum campo de observação sistemática, os fatores relacionados ao processo de enunciação dacultura universitária e à sociabilidade nas repúblicas estudantis de Ouro Preto, descrevendo aprática cultural como forma de expressão socioespacial.Assim sendo, inserimos o tema em questão dentro de um contexto específicorelacionado à noção de prática sociocultural e à noção de lugares identitários das pessoas queos experimentam. Procuramos compreender a dimensão simbólica das práticas e dos lugaresda cidade de Ouro Preto em diferentes episódios, a partir do método indutivo, paraacompanhar os novos contextos de mudança social, diferenciação e novas perspectivassocioculturais. Propomos, enquanto corte teórico, a teoria pós-moderna, pós-estruturalista epós-colonial, portanto, não seguimos à risca a Grounded Theory. Deste modo, entendemosconforme Uwe Flick (2009) que as narrativas precisam ser justapostas em termos locais,temporais e situacionais, mas articuladas à inscrição dos processos globais que relocalizam aspráticas dos sujeitos.Este tipo de pesquisa obriga o pesquisador a ter flexibilidade e criatividade nomomento de coletar e analisar os dados que objetivem a compreensão de particularidades deum fenômeno (GOLDENBERG, 2005). Segundo Flick, a adoção do modelo qualitativo permiteao pesquisador desconcentrar os estudos empíricos de um dado objeto das questões abstratas euniversais. Para isso, lançamos mão dos seguintes procedimentos para a produção deinformações:
    • 19• Levantamento e revisão de literatura especializada nas temáticas urbanas relacionadas aeste estudo, a fim de nos proporcionar um embasamento teórico considerável sobre o temaestudado;• Levantamento iconográfico, que proporcionou a criação de um banco de imagens parafornecer perspectivas de análise sobre nosso objeto e um amplo quadro de representaçõesvisuais do centro histórico de Ouro Preto em diversas fases de sua história;• Pesquisa de campo, através da observação direta, realizadas em diferentes dias e horários,onde observamos as sociabilidades públicas desenvolvidas no espaço a ser estudado,identificando assim as diversas práticas e modos de vida dos sujeitos;• Entrevistas semi-estruturadas, não estruturadas e focais, através das quais levantamosimportantes informações contidas na fala dos informantes;• Pesquisa de informações veiculada pela mídia na internet, em sites de relacionamento enos sites e blogs das repúblicas. Foi realizado também o levantamento de dados visuais eeletrônicos, através do exame de vídeos capturados em diversos sites.A partir destes procedimentos argumentamos que a problemática deve estarrelacionada ao tema e não necessariamente ao método de pesquisa o qual deve ser flexívelpara que se alcancem os dados formais do trabalho, pelos quais a realidade social é enunciadapelo objeto da pesquisa. Para realizar os citados procedimentos, a investigação partiu de trêsimportantes dimensões: 1) a identificação das espacialidades das repúblicas; 2) a identificaçãodas práticas socioculturais através da sondagem direta e de pesquisas online; 3) a análise da“cidade dos estudantes” através da enunciação das formas e dos conteúdos das imagens enarrativas criadas e disseminadas local e nacionalmente.Como estratégia de observação fizemos duas incursões em campo entre 2009 e 2010.A primeira incursão ocorreu no período de férias dos estudantes durante o mês de Julho, em2009, na alta estação da cidade, quando fizemos o primeiro reconhecimento de campo. Nestaincursão tivemos acesso à hospedagem oferecida por repúblicas, de modo que pudemosvisualizar alguns aspectos que constituem a vida republicana e sua organização. Para ahospedagem foi feita uma sondagem por email com diversas repúblicas masculinas efemininas e em todas havia vagas para passar pelo menos uma semana. Os estudantes forambastante receptivos, explicando como funciona a hospedagem e quais os procedimentos para
    • 20pagamento da diária, refeições e horários. A hospedagem foi feita tanto em repúblicamasculina quanto feminina, quando elaborou-se as primeiras impressões acerca do objeto.Para tanto, a incursão durante o retorno do período de aulas, já em 2010, foi necessáriopara observar como os estudantes conformam a cultura universitária em Ouro Preto aopraticar os espaços, ao construir lugares de sociabilidade pública. Durante o período de aula, apesquisa foi aprofundada de maneira que possibilitou compreender alguns enunciadosdispostos na literatura sobre o tema. Entretanto, durante este período tivemos grandedificuldade em conseguir vagas, visto que estavam em época de provas. Assim, preferimos ahospedagem em albergues no Centro da cidade, quando tivemos contatos com os jovensturistas, o que possibilitou refazer alguns procedimentos de pesquisa. Ocorreu que em umprimeiro momento foi pensado em fazer um trabalho restrito às repúblicas, mas neste segundomomento pensou-se no contexto relacional de Ouro Preto em seus diversos espaços eagenciamentos.Deste modo, o procedimento de entrada no campo ocorreu através da triangulação dossujeitos observados: Os repúblicos, os turistas e os moradores “nativos”. A partir delesprocuramos analisar problemas temporalmente situados em vez de presumi-los e tentar testara validade das informações obtidas nas pesquisas literárias e online, pois consideramos que ashipóteses de pesquisa devem ser processadas pela circularidade dos conceitos-chave (FLICK,2009). Pelo contrário, procuramos acompanhar em dias e horários diferentes, de modocambiante, ora com turistas, ora com repúblicos ou nativos. Dentre estes elementos, é não sóevidente – como é o tema da pesquisa – que a maior parte da observação focalizou asrepúblicas e a inscrição da cultura e das identidades juvenis formadas pelos repúblicos nosespaços da cidade.Por fim, as entrevistas foram realizadas com os repúblicos ora em suas casas ora noslugares da cidade. Foram escolhidas 17 repúblicas (8 masculinas, 8 femininas, 1 mista), sendo12 localizadas no Centro Histórico e as demais no Morro do Cruzeiro. O critério de escolhabaseou-se 1) no tempo de existência da república; 2) ser federal ou particular; 3) possuirnúmero elevado de moradores (em média 10); 4) possuísse algum morador ligado aassociações ou qualquer entidade representativa das repúblicas e; 5) permissão dosmoradores. Algumas dificuldades surgiram para efetivar estes critérios. A permissão dosmoradores foi um fator considerável para o desenvolvimento da pesquisa pois, de algummodo, nem sempre foi possível ter acesso às repúblicas mais antigas ou maiores, assim comonão tivemos acesso à única república mista da cidade. Uma saída para esta dificuldade foi a
    • 21indicação dos próprios repúblicos e obtivemos os primeiros contatos ou a comunicação diretaentre as casas.As entrevistas com os turistas e os “nativos”, aconteciam nas ruas, à medida queexplorávamos os lugares do Centro Histórico mais frequentados pelos jovens. Conheceralguns moradores ouro-pretanos foi um passo importante para o tratamento das informaçõeslevantadas em entrevistas com os repúblicos e turistas. As impressões relatadas por elesacerca do que são as repúblicas na cidade divergiam a partir do tipo de interação cada sujeitoteve com os estudantes. Aqueles que convivem com os repúblicos (sendo morador ou amigo,estudante ou não) foram elucidativos para que o entendimento sobre os conflitos e asarticulações.Notamos, então, a necessidade de uma abordagem na esfera cultural e socioespacial,ao compreendermos a espacialidade das relações sociais que demarcam a identidade culturalde uma cidade. Ouro Preto ganha essa percepção através da inscrição da vida universitária edas repúblicas estudantis, sutilmente narrada pela literatura sobre a cidade5. Ressaltamosentão que se pretende um estudo que elucide os usos contemporâneos forjados na cidadecolonial; da sociabilidade pública que se desenrolou nesta cidade histórica; e da enunciação denovas identidades e culturas diversas, e dos lugares híbridos ou fragmentários (LEITE, 2007,2008) de uma cidade já também moderna. Estas categorias são verificadas em correspondênciaaos usos que os sujeitos sociais fazem dos espaços, como criam e elaboram cotidianamente oslugares de sociabilidade pública. É neste sentido que argumentarmos a importância de estudaras práticas e a identidade cultural verificando, no nosso caso, a sociabilidade juvenildecorrente da existência das repúblicas estudantis, dado o tempo de existência delas naprodução social do espaço ouro-pretano.Entretanto, à guisa de revisão da literatura, avaliamos que por estar inscrita no fluxoatual do consumo cultural, do turismo e por ter uma paisagem arquitetônica de grande relevopara entendermos as práticas de enobrecimento no Brasil, os estudos sobre Ouro Preto poucodestacaram análises sobre modos de vida na cidade. Assim, como campo amostral,observamos a cultura universitária ouro-pretana. Tivemos como ponto de partida 1) a análisesobre as identidades juvenis, 2) a construção de fronteiras e 3) lugares e as práticas culturaisdos moradores de repúblicas.5O “Guia de Ouro Preto” (a primeira edição data de 1938), de Manuel Bandeira, é um dos exemplos de obra quepouco confere a existência das Repúblicas na cidade. Outro livro, mas que compreende época anterior àformação da Escola de Minas é o clássico “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, no qual a autoratrata da história e da identidade política de Ouro Preto.
    • 22Para discorrer sobre a articulação entre cidade, identidade e diferença, desenvolvemosno capítulo 2 a discussão acerca da formação social do espaço ouro-pretano. A abordagemleva em consideração alguns aspectos históricos sobre a identidade política, arquitetônica eturística da cidade, que são bastante discutidas nos trabalhos acadêmicos. Entretanto, nossaênfase é sobre a identidade experimentada pelos jovens nos espaços públicos das cidades. Ocapítulo 3 discute a formação das repúblicas universitárias em Ouro Preto, a fundação daEscola de Minas e contextualizamos, com base na literatura especializada sobre o tema, osprocessos políticos e sociais que perpassaram a sua criação. Também apresentamos nestaparte o tópico sobre a constituição das repúblicas de Ouro Preto e o desenvolvimento dasrelações entre as repúblicas e a Escola de Minas, bem como a influência das repúblicas deCoimbra na elaboração das tradições das repúblicas ouro-pretanas.No capítulo 5 a discussão versa sobre as identidades juvenis. Neste capítulo (queintroduz para o capítulo seguinte a noção que adotamos sobre cultura juvenil), descrevemosos desdobramentos teóricos e temáticos sobre a cultura juvenil, considerando a críticacontemporânea de desconstrução das noções empregadas à cultura juvenil como umarealidade unitária, as quais consideram a juventude como um conjunto social homogêneo.Através da desconstrução dessas premissas, utilizamos as categorias que lançam mão dodebate sobre a cultura juvenil através da diferenciação inter e intrageracional com vistas àcompreensão das identidades dos sujeitos jovens. Para essa discussão abordamos os estudosas práticas cotidianas, usos do tempo, estilos de vida, globalização etc.Nos capítulos 4 e 6 apresentamos nossa incursão no campo realizada através daobservação direta e do levantamento da arte. O Capítulo 4 levanta uma discussão sobre astradições e as práticas “rituais” dos repúblicos. Atentamos para os significados destas práticaspara aqueles que vivenciam a cultura universitária em Ouro Preto. Destacamos as impressõesacerca dos estilos de vida dos jovens universitários em torno de “tradições acadêmicas”, queevidenciam diversos aspectos da sociabilidade contemporânea nos espaços que conformam asrepúblicas estudantis. Observamos as práticas cotidianas, usos e apropriações do patrimônio(as antigas casas transformadas em repúblicas). Também, no que concerne à sociabilidadepública, observamos a formação das identidades culturais, os conflitos e as articulações entreas repúblicas federais e particulares, assim como entre a “cidade dos estudantes” e a “cidadenativa”.
    • 232. CIDADES, IDENTIDADES E DIFERENÇA: A FORMAÇÃO DOS LUGARESSegundo a análise de Georg Simmel (1997), a sociabilidade típica da modernidade éeminentemente urbana. Com a eclosão das grandes cidades e metrópoles capitalistas novasformas de produção e consumo fizeram emergir espaços fragmentários, comportamentos eatitudes em que a indiferença e a reserva pessoal fizeram-se notar ao lado do crescimento daracionalização e do expressivo individualismo da vida moderna. Por outro lado estas novasformas contribuíram para a diversificação dos grupos sociais, despontando as diferentesculturas urbanas e formas de sociabilidades.Para Savage e Warde (2002), Simmel concebe que não há na natureza da modernidadea possibilidade de identificarmos um “modo de vida” coerente para todos. Com a pluralidadede estímulos que se apresentam nas cidades, somos tentados a experimentar o que é “novo”,no âmbito da fragmentação e diversidade da vida moderna. Desses “estímulos”, podemosrelacioná-los aos elementos visuais que ganham relevo especial na cultura urbana associadosao desenvolvimento da forma urbana moderna.É neste sentido que para Simmel existe a diferenciação dos modos de vida, a qual teminício na autonomização dos conteúdos (códigos culturais, signos, linguagem etc) e ocorrecom base na “interpretação de realidades” dos indivíduos (ou dos grupos sociais):Com base nas condições e nas necessidades práticas, nossa inteligência, vontade,criatividade e os movimentos afetivos, elaboramos o material que tomamos domundo. De acordo com nossos propósitos, damos a esses materiais determinadasformas, e apenas com tais formas esse material é usado como elemento de nossasvidas. Mas essas forças e esses interesses se liberam, de um modo peculiar, doserviço à vida que os havia gerado e aos quais estavam originalmente presos.Tornam-se autônomos, no sentido de que não se podem mais separar do objeto queformaram exclusivamente para seu próprio funcionamento e realização (SIMMEL,2006, p. 61).Por meio desse pressuposto é que o autor fundamenta a noção de sociabilidade,segundo o qual é uma forma autônoma ou lúdica de sociação. A sociabilidade é a forma pelaqual ocorre conjuntamente a interação dos indivíduos ou grupos sociais em razão de seusinteresses diversos, podendo ser efêmeros ou não, mas que, no entanto, é da ação recíprocados atores sociais que esta interação se constitui em “unidade”6. No limiar da sociabilidade asrelações se formam de acordo com as motivações e relações cambiantes que se desprendemdo cotidiano.6“Unidade” corresponde para este autor o mesmo que “sociedade” ou “grupos sociais”.
    • 24Uma segunda noção, a diferença, elaborada por Simmel, põe em questão aspectosimportantes que demarcam a sociabilidade. Para este autor, “o significado prático do serhumano é determinado por meio da semelhança e da diferença” (SIMMEL, 2006, p.45). Oautor enfatiza que o interesse pela diferenciação perpassa o cotidiano das pessoas e se estendeàs atividades práticas, assim como a observação contínua das diferenças tem por base as açõessociais que não levam em conta as semelhanças que caracterizam os grupos exteriores. Deoutro modo, ao falarmos da constituição das identidades, a semelhança passa a ser umcomponente importante para se perceber a solidariedade interna entre os grupos.Acrescente-se ainda o novo escopo teórico das teorias contemporâneas que sedesdobram em duas esferas conceituais: 1) a teoria social moderna: o modernismo e oestruturalismo; e, em contrapartida, 2) os estudos pós-coloniais e pós-estruturalistas e a teoriapós-moderna da cultura. Através de suas diferenças conceituais “a cidade” foi concebidacomo um laboratório de pesquisa ao postular-se, por um lado, como alegam as teoriasmodernas, que as ações – ou a praxis – dos sujeitos são o meio de transformação socialeconômica e ideológica da realidade, enquanto que os espaços urbanos estruturam as posiçõesdos indivíduos na sociedade, a exemplo das comunidades identitárias que estratificam asrelações sociais (no caso dos estudos urbanos o gueto, o subúrbio, os distintos bairros etc).Por outro lado, o pós-modernismo creditou à cultura a prática enunciatória de formas deprodução do espaço e das relações sociais (não exatamente estratificadas, visto que osindivíduos se movem e constroem diferentes trajetórias nas cidades, cruzando caminhos). Estaprática é melhor entendida nesta literatura através da fragmentação social e espacial atravésdos diferentes modos de vida e das formas de identificação dos sujeitos decorrentes dacontingência e da reflexividade sociocultural.As duas teorias preocupam-se em creditar à urbanidade ou à cultura urbana osaspectos de uma transformação social que impulsionou o período da modernidade,principalmente nos períodos pós-revoluções (industriais, políticas, tecnológicas e culturais).Ambas aludem, no campo da sociologia urbana, as cidades como foco de observaçãoconsiderando-as o lócus dos principais desdobramentos dos eventos da modernidade e docapitalismo (SAVAGE E WARDE, 1993). Portanto, seja através dos movimentos sociaisurbanos e do ativismo político ou cultural, seja devido à intermediação do mercado e doconsumo, o “modo de vida urbano” foi gradativamente desconstruindo as identidadestradicionais resultantes da separação campo-cidade e resultou em novas formas de associaçãoe sociabilidades entre os indivíduos – que articulam, para o pós-modernismo, o dualismocampo-cidade.
    • 25A modernização urbana, como apontam Giddens (2001), Harvey (2008), Hall (2006) eBhabha (1998), em suas diferentes análises, caracterizou as cidades – com todas suastradições – como espaços de produção do capitalismo de consumo, da democratização dapolítica e de disseminação de culturas. Ao mesmo tempo em que produziu formas desociabilidades diversas entre os indivíduos, fragmentou os espaços urbanos e a sociabilidadepública. Por isso, como consequência do crescimento populacional e geográfico, os graus depertencimento às comunidades tradicionais perderam força. No entanto, além dessecrescimento físico, essa passagem do tradicional para o moderno compreende o sentidosimbólico, geracional e cultural da própria cidade, espacializada cada vez mais em múltiplasredes sociais e identidades culturais como assistimos hoje por intermédio da globalização(CANCLINI, 2006).Homi Bhabha (1998) postula que a cultura não se resume nem se traduz por referênciaàs tradições “autênticas” de uma nação ou comunidade. Ela se tornou transnacional ecircunscrita ao deslocamento cultural7, o que implica possibilidades de um processo dearticulação de novas diferenças entre as identidades, no sentido estético, político, moral etc. Acultura, por ser fragmentada, também é tida como tradutória: não é um modo de vida globalem si, embora o deslocamento cultural acompanhe o processo de globalização das novastecnologias em suas diversas esferas, redes e instituições, constituindo lugares híbridos.A cultura transforma-se em uma prática enunciativa de temporalidades, significações,narrativas e espacialidades (espaços narrativos) indeterminadas, pelo que deixa de ser umobjeto epistemológico totalizante:Se a cultura como epistemologia se concentra na função e na intenção, então a culturacomo enunciação se concentra na significação e na institucionalização; se oepistemológico tende para uma reflexão de seu referente ou objeto empírico, oenunciativo tenta repetidamente reinscrever e relocar a reivindicação política deprioridade e hierarquias culturais (alto/baixo, nosso/deles) na instituição social daatividade de significação (BHABHA, 1998, p. 248)A enunciação reinscreve de maneira dialógica as oposições binárias (Primeiro/TerceiroMundo; público/privado; nós/eles etc.). Logo, ela reloca estas oposições como lugareshíbridos com outros “tempos” de significação cultural. Revisam-se os discursos, as narrativas,a racionalidade hegemônica e o centramento do sujeito. Bhabha reitera a noção do sujeito, oqual não fica, na perspectiva pós-colonial, comprimido às estruturas discursivas da teoria7O autor se refere ao deslocamento promovido pela migração de pessoas e signos do Terceiro Mundo para oOcidente durante o pós-guerra. Entretanto, adequaremos para o que o objeto desta pesquisa permite, quebrandoqualquer pretensão de sobrecarregar a realidade estudada em teorias de amplo escopo. Trataremos sobretudo dodeslocamento dos jovens de diversas cidades do país para Ouro Preto.
    • 26ocidental. Ao invés de ser um objeto de reflexão da epistemologia teórica, o sujeito seconstitui nas práticas e nos lugares de enunciação e articulação global/local da cultura, no qualele é o próprio sujeito; não é o objeto empírico para a descrição da história e experiência deuma sociedade, poisO epistemológico está preso dentro do círculo hermenêutico, na descrição deelementos culturais em sua tendência a uma totalidade. O enunciativo é um processomais dialógico que tenta rastrear deslocamentos e articulações culturais – subvertendoa razão do momento hegemônico e recolocando lugares híbridos, alternativos, denegociação cultural (BHABHA, 1998, p. 248).Nesta perspectiva, Garcia Canclini argumenta que “a cultura é um processo demontagem multinacional, uma articulação flexível de partes, uma colagem de traços quequalquer cidadão de qualquer país, religião e ideologia pode ler e utilizar” (2006, p. 32).Esta “colagem” permite tanto a hibridação das identidades (se considerarmos como aglobalização incorpora diferentes nações), quanto relacionar estas identidades a culturas locaise regionais. Os novos estilos de vida, a produção cultural, o uso e a prática espacial juvenil ouos movimentos sociais relacionados a gêneros, etnias e migrantes como novas expressões dasociedade civil, por exemplo, chama-nos a atenção pelo seu alcance na constituição desociabilidades que, devido às novas condições em que se apresentam, podem se chamar dedescentradas.A condição contemporânea referencia, mesmo no contexto fragmentário da vida emsociedade, a impossibilidade de fechamento de uma população em um espaço comunitário. Ébem visto que os processos de deslocamento cultural são consequência da globalização que sedissemina através da mídia, da internet, da literatura geral e acadêmica etc. e manifesta-se emformas e paisagens locais. Mas esta articulação é também fruto da inscrição do “estranho” noslugares e contribui para a abertura e a tradução entre diferentes culturas, identidades e modosde vida – ainda que algumas vezes traduzidas de maneira conflitiva. Através destespostulados, queremos dizer que, no caso de Ouro Preto, a interação entre jovens de váriaspartes do país produz um espaço da diferença, tanto no âmbito interno das repúblicas quantonas sociabilidades públicas.Se estivermos contextualizados dentro da cultura pós-moderna precisamos encontrarum lugar que a enuncie para que se possam observar as identidades culturais de pessoas egrupos descentrados. Dizer que estamos vivendo transformações radicais da modernidadepara a pós-modernidade tornou-se um impasse que requer argumentos com característicasbem delimitadas. Mas, o que se pode ressaltar são as intensas mudanças culturais que têm
    • 27alterado a paisagem social cotidiana da contemporaneidade. O foco deste argumento requer oexame do deslocamento da linguagem, da cultura e dos signos que, ao descerrarem asfronteiras, assinalam novos estilos de vida no espaço social contemporâneo. O deslocamentoproduz, no espaço-tempo, uma situação nova de diferença cultural entre as identidades (ounos processos de identificação dos sujeitos) que perpassa as fronteiras culturais (BHABHA,1998). Ele inscreve no âmbito da cultura urbana, por exemplo, as práticas juvenis em escalaglobal e local ao articular movimentos sociais, culturas de consumo e sociabilidades.Decerto que as identidades juvenis estão inscritas na esfera do consumo e do lazer,faz-se necessária a observação do uso, da apropriação e do consumo dos espaços para aanálise da inserção das identidades culturais nos lugares. Neste sentido, como afirma Leite, “acultura urbana contemporânea é uma realidade sobrecarregada de recursos e apelosvisuais” (2008, p. 171) e expressa-se em dimensões materiais e imateriais através da inserçãodas cidades contemporâneas na esfera da “cultura de consumo” (FEATHERSTONE, 1995).Tais processos, que envolvem a cultura juvenil, ganharam foco com a recuperação dos centrosurbanos antigos e a sobreposição de novas imagens culturais (HOLLANDS, 1997), sendo este ocaso de Ouro Preto.As identidades enunciam-se nos espaços da diferença, nos lugares híbridos, em que nasociabilidade pública a interação conflitiva pode estar mais visível – as repúblicas enunciamimportantes diferenças de estilos de vida, organização e relação com a cidade. As diferençasidentitárias (BHABHA, 1998) fragmentam a cultura urbana e estabelecem fronteirassocioespaciais e culturais que podem ser percebidas nas diferenças dos modos de vidaindividuais ou grupais, ao menos no que concerne aos aspectos econômicos, culturais epolíticos.No caso das culturas jovens, a articulação de diversos espaços urbanos como redes defluxos – de passagem, de uso e consumo, de interações efêmeras – compreende uma aberturaque não finda/fecha a identidade de um lugar e não situa seus usuários em necessária oposiçãoidentitária “eu/outro” – ou jovem ou adulto, por exemplo. Os próprios adultos, podemosressaltar, têm buscado uma juvenilização do cotidiano, ao consumirem também, por exemplo,artefatos estéticos, músicas e lugares preditos para jovens (FEIXA, 2006). Ao passo em que asidentidades culturais diferenciem-se sem necessariamente excluir a outra, principalmente osgrupos juvenis, dada a flexibilidade e maior interação com espaços de fluxo que os adultos, hátambém a abertura para uma sociabilidade pública baseada no conflito, quando os códigos enormas de um espaço é demarcado por outros (LEITE, 2007).
    • 28O conflito cultural decorre das diferenças dos estilos de vida das pessoas e nãonecessariamente pelas diferenças geracionais. As identidades juvenis publicizam muitasformas de ser ou expressões de si, ou demarcam ou reapropriam um lugar para usos esocialização – a exemplo de bares ou praças frequentados por adultos que foram, aos poucos,apropriados por jovens. Assim, sem generalizar, a “vida adulta” está carregada de obrigaçõesprofissionais e familiares, em que certos espaços da cidade tornam-se mais uma espécie defuga de fins de semana, principalmente aquelas paisagens que não condizem com os percursosrotineiros. Como defendem Pam Nilan e Carles Feixa (2006), as divisões etárias são o quemenos influencia na compreensão destas diferenças, pois tanto uma quanto a outra podecoabitar papéis inversos. Os jovens estudam e trabalham, os adultos divertem-se. Por isso apassagem para a vida adulta não necessariamente transcende a identidade jovem.Segundo essas premissas, os estudos sobre a cultura juvenil contemporânea têminserido novas perspectivas e interpelações sociológicas para compreender as sociabilidadespúblicas nas cidades. A inserção de novos modos de vida e identidades culturais incidereflexivamente no cotidiano dos sujeitos e no modo como atribuem sentidos aos espaçosurbanos, ao construir uma paisagem social dinâmica e estilizada. Dessa forma, as pesquisasurbanas têm dado atenção não só às regularidades, mas também às contingências das relaçõessociais entre os jovens e produzem mudanças nos discursos e teorias sobre a concepção dessacategoria (HOLLANDS, 1997; ALMEIDA e TRACY, 2003; PAIS, 2003; COSTA, 2006a; NILAN eFEIXA, 2006; WELLER, 2006; MAGNANI e SOUZA, 2007; PAIS e BLASS, 2007).Acerca do crescimento do campo dos estudos urbanos e culturais sobre culturasjuvenis, tem-se feito das grandes cidades e metrópoles um objeto privilegiado de interlocuçãoe crítica. Este esforço tem se dedicado a observar como se condensam as múltiplassociabilidades, práticas espaciais e culturais dos jovens fragmentadas nos espaços urbanos,tais como os movimentos punks, rappers, skaters e graffiteiros etc. Assim, as metrópoles, aoapresentarem um cenário criativo e polissêmico devido às suas próprias dimensõespopulacionais, geográficas e simbólicas, representam, desde os desdobramentos dos ensaiosde Georg Simmel e Walter Benjamin na sociologia urbana, o lugar de enunciação da culturajuvenil contemporânea.Benjamin (1994, 1997) percebeu tanto a cidade como a arte; a reprodução dosmodelos técnicos e também os modos de vida; quanto às novas inscrições culturais – oumovimentos, transformações –, estas a partir da modernização urbana e dos processos deracionalização, elaborados no entretempo da mudança da vida tradicional para a moderna.Entre os temas que sobressaíram dos estudos de Benjamin, a indústria cultural – a exemplo da
    • 29música, do cinema, da moda etc. – é, certamente, um dos tópicos mais bem elaborados. Foi,inclusive, o estudo de um destes temas que enunciou o uso e a transformação deequipamentos culturais e sua reprodução técnica (de filmes, instrumentos musicais, adereçosetc), o que muito importa para a configuração da cidade e dos usos dos espaços públicos porjovens.Em estudos posteriores, a indústria cultural foi fortemente observada a partir dainserção dos “sujeitos” nos espaços públicos. Diferente de outras áreas que debateram sobre amassificação dos bens culturais, a sociologia urbana direcionou suas análises para osmovimentos contraculturais e para a crise da cultura capitalista, em que avaliava a mudançade vida dos sujeitos (é importante lembrar que, no entanto, como se exprime na própria telados filmes e nas inovações musicais, estes são geralmente jovens). No fim dos anos 60 asculturas juvenis ganharam espaço nas pesquisas científicas, em que, devedores dos estudos deWalter Benjamin e Theodor Adorno, os novos temas ganharam contornos diferenciados,acreditando-se mais na invenção incessante e criativa de equipamentos que em suareprodução.Desde os anos ‘80 é notável a crescente publicação de novos temas e pesquisas noBrasil sobre estilos de vida, consumo, produção e mediação cultural, políticas públicas,identidades urbanas e práticas espaciais juvenis em grandes cidades. O objetos privilegiadosde estudo são Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Salvador, e em âmbito internacional, Cidadedo México, Nova York, Los Angeles, Londres, Paris, Berlim e Lisboa. Isto se deve,principalmente, à entrada das cidades no fluxo global de capital, de signos e de consumo, oque ressiginificou o modo de vida, o cotidiano e a cultura urbana das novas gerações.Ao mesmo tempo, além das mudanças na vida e cultura urbana, evidencia-se acrescente estratificação e intensificação das assimetrias que incorporam e reforçam asdesigualdades sociais entre os indivíduos. É através da distribuição desigual das camadassociais e da localização em diversas escalas quanto a interesses, oportunidades e estilos devida próprios que estas assimetrias se revelam. Entretanto, não somente os problemasenfrentados pelos jovens das grandes cidades – violência e delinquência juvenil, desempregoe exclusão – ou problemas de ordem estrutural que atingem a vida de muitos jovens –precariedade habitacional, ambiental e de saneamento – incrementam as pesquisas urbanasatuais. Mesmo diante da suma importância destes problemas sociológicos e sociais, devemosobservar outros fatores, como a expansão dos meios de comunicação, da TV, da internet, dosnovos bens culturais, processos de estetização, produções artísticas e movimentos expressivos
    • 30do mundo jovem, que têm alcançado grande importância para compreendermos asarticulações das práticas contemporâneas em escala global.Também é pertinente a crítica de Carlos Fortuna de que a concentração de pesquisasnas metrópoles ou cidades globais (neste caso, independente de suas dimensões) temassentado referências tomadas a partir dos grandes núcleos urbanos, privilegiando“determinadas geografias de centralidade e de privilégio sócio-económico” (FORTUNA,2008, p. 21). Deste modo, a sociologia urbana tradicional pouco legitimou os estudos sobre aspequenas cidades ou, como tem chamado, as “cidades normais”. Tais estudos relegaram a estetipo de cidade a invisibilidade na renovação das agendas acadêmicas ao privilegiar as grandescidades. Pois estas representam a experiência do desenvolvimento urbano da modernidadeatravés da compressão espaço-tempo, assim como o desenvolvimento tecnológico, financeiro,empresarial e de serviços especializados, além das cidades paradigmas do cosmopolitismourbano em torno do fluxo de pessoas e bens culturais.Nosso objeto de pesquisa, então, não é uma metrópole, a exemplo das cidades citadasacima, mas uma cidade que se insere no fluxo global de bens, pessoas e capital. Ouro Pretoavança sobre suas dimensões físicas e demográficas8ao entrar no fluxo turístico e nosprocessos de “concorrência inter-cidades” (FORTUNA, 1997) através de dois fatores: aconsolidação de seu patrimônio histórico como “Patrimônio Cultural da Humanidade”,conferido pela UNESCO em 1980 e as intervenções urbanísticas, que resultou enobrecimento(gentrification) de seu centro histórico.Cabe-nos destacar que o pano de fundo dessa discussão perpassa os processos deenobrecimento urbano, tema sobre o qual diversos especialistas dos estudos urbanos temdebruçado análises para a compreensão das cidades históricas revitalizadas e para ainterpretação sobre sua cultura urbana contemporânea. Por isso também é importante ressaltarque Ouro Preto tem, além de forte apelo paisagístico urbano e natural, outras característicasque a diferem, por exemplo, de muitas outras cidades de menor porte no Brasil, através da suainserção nas redes de ofertas de serviços e informação que conectam a cidade ao fluxoturístico: comunicação visual em sites, nas redes hoteleiras e hospedagens, nos postosturísticos, outdoors, rodoviária e aeroporto, e, claro, nas universidades.Segundo G. Cifelli (2005), as políticas públicas urbanas em Ouro Preto empreenderamao patrimônio sentido mercadológico voltado ao turismo, com alterações à espacialidade dosusos residenciais do centro histórico para uso comercial. Para esta autora, mesmo com esta8A população estimada de Ouro Preto, segundo o senso do IBGE, em 2009, é de 69.495 hab. (IBGE CIDADES)
    • 31orientação política voltada para o turismo, a cidade constitui-se uma exceção ao modelo deenobrecimento adotado no país, já que seu núcleo urbano central sempre fora ocupado pelascamadas mais abastadas. Devemos ressaltar que, em menor escala, ainda há residentes nestelugar. No entanto é possível observar o “refúgio dos nativos” orientado para os morros.Em Ouro Preto atualmente existem, por um lado, os bairros centrais ocupados para asfunções turísticas e residenciais, como os bairros Antônio Dias, Pilar, Rosário e Lages, quesão ocupados por moradores idosos e estudantes. De outro modo, não é difícil observar ogrande número de morros, a exemplo do Morro de Sant’anna e São Sebastião, os quais sãohabitados por uma população de menor poder aquisitivo. Já o Bairro Bauxita – que fica noMorro do Cruzeiro, região da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) – é diferente doCentro, que é habitado por estudantes e por uma população de trabalhadores de umaimportante indústria local, a ALCAN.As políticas de enobrecimento tem alterado os sentidos conferidos ao patrimôniocultural, material e simbólico de diversos sítios históricos brasileiros. Estas políticasrelocalizam grande parte dos atrativos, principalmente os monumentos civis e religiosos quesão transformados em museus, casas de cultura, hotéis restaurantes, pubs, cafés, cinemas etc,por meio da reapropriação das áreas centrais urbanas, atendo-se ao perímetro tombado.Apesar de formar lugares de consumo, nos quais tem se formado uma forte cultura urbanalocal através da oferta de equipamentos e serviços diferenciados de outros bairros da cidade,grande parte destas intervenções destina-se ao fluxo turístico. Este processo designou àpaisagem urbana do centro histórico um modelo de Shopping Center a céu aberto (um centrocomercial de serviços e bens diversos para a cidade), que criou uma multiplicidade de lugaresturísticos para suprir as necessidades da demanda externa e local. No entanto, tal demanda éformada, em parte, pelos próprios moradores desta área, habitada predominantemente porestudantes e por moradores idosos pertencentes às camadas sociais mais abastadas da cidade.Assim, com o turismo, a circulação de pessoas, signos e capital intensificou-se adisseminação de novas imagens urbanas e usos dos espaços através do consumo cultural e dasredes virtuais de comunicação, com ofertas de bens e serviços. São diversas as atraçõesturísticas voltadas para diferentes grupos: o turismo das agências de viagens, o turismorelacionado às festividades e eventos da cidade, e o turismo “estudantil”. Como consequênciado crescimento populacional e do fluxo de pessoas diversos conflitos passaram a coexistir nosespaços da cidade (CIFELLI, 2005). Segundo Sayegh (2009), os conflitos socioespaciais foramgerados a partir da patrimonialização da cidade, do turismo, da atividade industrial e dastransformações cotidianas em decorrência do crescimento da Universidade. Quanto a esta
    • 32última, há diversas formas com as quais podemos tratar dos conflitos em Ouro Preto,principalmente devido ao aumento do número de estudantes e de repúblicas na cidade. Com aforte presença e usos dos espaços pelos estudantes para festas e eventos, os conflitosidentitários entre “repúblicos” e “nativos” deve-se também em razão das demandas dos novosestilos de vida.Assim sendo, após esta breve explanação sobre cultura, sociabilidade, tradição,disjunção, entre outros temas, cremos estar já introduzidos no intento de articulação entreconceitos como “cidade”, “identidade e diferença”, de modo que cabe-nos agora fazeravaliações mais específicas sobre o tema. Isto significa que passaremos a perguntar-nos sobrea composição específica dos “lugares” de Ouro Preto.2.1. Espacialidades e lugaresEm discussão sobre “as noites cambiantes dos jovens”, em que bares, lojas deconveniências ou salas de cinema conformam os lugares flutuantes do Rio de Janeiro,Almeida e Tracy (2003) argumentam não haver centralidades determinantes do espaçourbano. Para as autoras que partem da proposição foucaultiana dos “espaços outros”, noçãoque desperta os sentidos da produção espacial em detrimento de localizações físicas dametrópole “esses espaços seriam ‘diferentes’ dos espaços culturais ordinários nos quaisvivemos, e Foucault propõe chamá-los ‘heterotópicos’ para diferenciá-los dos espaços‘utópicos’” (p.26). As espacialidades justapõem redes de informações e inovações culturaisque elaboram nas cidades a diversidade, a sociabilidade e a própria virtualização de suaspaisagens e imagens. Além de romperem com o tempo tradicional supõe-se configurar oslugares descentrados, estes espaços diferenciados, ao mesmo tempo em que tencionam umfechamento entre alguns grupos sociais, abre-se simultaneamente para outros instaurando umduplo processo de fragmentação e recombinação dos signos e identidades culturais9.Neste entender, as espacialidades contemporâneas configuram-se pelos excessivosnomadismos e performances sociais pluralizadas e polifônicas. Produzem-se, então, nainteração entre as diversas e diferentes pessoas, informações e imagens, uma superabundânciaespacial que dissolve os principais eixos de referência e caracterizam as experiências culturais9Desta forma, os espaços heterotópicos não vêm a ser definidos por uma “diferença de representação em tornode formas alternativas de organização espacial. As heterotopias definem-se fundamentalmente por práticasespacializantes, a um só tempo concretas e simbólicas, que não se encontram, necessariamente, localizadas”(2003, p. 27).
    • 33contemporâneas. Estas são a forma como a sociabilidade juvenil e seus novos regimes deexperimentação despontam, ao provocar, assim, uma implosão das territorialidades subjetivas.Deste modo, Almeida e Tracy (2003, p.33) argumentam que devido a este intenso fluxo e aodeslocamento acelerado na metrópole a sociabilidade juvenil pode ser descrita como “semlugares”. Isto acontece porque os processos de identificação estão em deslize, são efêmeros eresiduais, o que põe em colapso a existência dos espaços públicos de significação, ao passoque coexistem os espaços de comunicação virtuais, as linguagens e a estética subjetivas.Partindo de outra análise, Rogerio P. Leite (2007, 2009) compreende que o supostocolapso do espaço público contemporâneo decorrente da fragmentação da cultura e dodescentramento do sujeito deve ser revisto através de novas bases conceituais. Estas dãosentido a uma compreensão descentrada dos espaços públicos pós-modernos. Para o autor, acultura urbana contemporânea, ao invés de aniquilar, deu suporte aos espaços públicosfragmentando-os em diferentes lugares de sociabilidade. Refere este autoraos processos cotidianos que dão suporte espacial às manifestações da culturaurbana nas cidades, sem os quais as diferenças não podem se afirmar publicamente.A despeito da crescente possibilidade virtual de comunicabilidade social, as pessoasainda necessitam agendar, no curso rotineiro de suas vidas cotidianas,experimentações e interações concretas que implicam formas distintas de contatocom o outro. Em outras palavras, as marcas corporais da diferenciação, as práticasde consumo e a publicização da diferença necessitam de visibilidades públicas quesão recorrentes no curso cotidiano da vida pública (LEITE, 2009, p. 197).Segundo este autor, o espaço público é então constituído pelas práticas cotidianas queatribuem sentidos diferenciados e estruturam os lugares. Nas cidades contemporâneas oslugares estão delimitados pela convergência simbólica e pela demarcação de fronteiras, eimplicam a existência de conteúdos culturais reconhecidos e compartilhados reflexivamentepelos sujeitos mediante alguma possibilidade de entendimento sobre as significações dosespaços. São, então, demarcações espaciais em que se imprimem ações simbólicas capazes“de agregar sociabilidades que se assemelhem” (LEITE, 2007, p. 286).Deste modo, a existência de fronteiras espaciais configuram os lugares. Entretanto,não são elas necessariamente fixas. Pelo contrário, tais fronteiras são flexíveis, pois permiteminterações públicas entre diferentes identidades, visto que no processo de negociaçãocotidiana as identidades urbanas convergem sentidos e tendem a afirmar dissensões, e porvezes consensos, entre os estilos de vida. O conceito de “lugar” é então definido como“determinada demarcação física e/ou simbólica no espaço, cujos usos o qualificam e lhe
    • 34atribuem sentidos diferenciados, orientando ações sociais e sendo por estas delimitadoreflexivamente” (LEITE, 2007, p.284).Para um entendimento claro do que vem sendo proposto neste trabalho, aoconsiderarmos, de acordo com as proposições de R. P. Leite, que tanto as repúblicas quantocertos espaços de Ouro Preto podem ser qualificados como lócus de sociabilidades públicas,precisamos ainda compreender a distinção dos lugares segundo duas classificações:A consistência de um lugar depende, portanto, do modo como espaço e açãoexercem influência recíproca. Essa relação, entretanto, não tem, e nem poderia ter –na experiência urbana contemporânea – caráter exclusivista. [...] Pode ser híbrida,quando mais de um conjunto de ações diferentes atuam na significação de ummesmo espaço (transformando-o em diferentes lugares para “grupos” distintos); oufragmentária, quando um único conjunto de significação opera na qualificação demais de um espaço (quando um lugar passa a existir concomitantemente, e de modoespacialmente cambiante, em diferentes espaços de significação) (LEITE, 2007, p.293-294, grifos do autor).De modo análogo, a apropriação dos espaços públicos, a formação de lugares efronteiras de diferenciação (CERTEAU, 1994; BHABHA, 1998; LEITE, 2007) e as sociabilidadesadvindas da cultura de consumo (FEATHERSTONE, 1995) são exemplos de como a noção dedescentramento do sujeito atualiza tendências e imagens, assim como as liminaridadesculturais na paisagem urbana das metrópoles e das grandes ou pequenas cidades pós-modernas. Para Featherstone a compreensão da situação pós-moderna de fragmentaçãoenvolve três aspectos que se interrelacionam reflexivamente no cotidiano das pessoas edemarcam novos estilos de vida urbanos.Para este último autor, em primeiro lugar, os campos artísticos, intelectuais eacadêmicos não se constituem como esferas únicas de mudança social. Articula-se, emsegundo lugar, às inovações na esfera cultural, que circunscrevem também os modos deprodução, circulação e disseminação de bens simbólicos, ao alterar relações sociais,econômicas e de poder nos diferentes grupos e em níveis intra e intersocial. Por fim, asmudanças ocorridas nas práticas e experiências cotidianas envolvem diferentes identidadesculturais. Essas mudanças abrangem os campos do saber e da esfera cultural, já que estespromovem novos regimes de significação para a concepção das relações sociais, do consumo,das cidades e do próprio Estado-nação.Conforme Canclini (2008), as mudanças nas culturas populares urbanas decorrem deprocessos simbólicos atípicos através das migrações, fluxos de jovens dissidentes e signos.Como consequência existe uma mescla das “coleções organizadas pelos sistemas culturais”,
    • 35que gera a desterritorialização dos processos simbólicos em torno da expansão dos benshíbridos ou impuros. Para este autorA expansão urbana é uma das causas que intensificaram a hibridação cultural [...]Passamos de sociedades dispersas em milhares de comunidades rurais com culturastradicionais, locais e homogêneas, em algumas regiões com fortes raízes indígenas,com pouca comunicação com o resto de cada nação, a uma trama majoritariamenteurbana, em que se dispõe de uma oferta simbólica heterogênea, renovada por umaconstante interação do local com redes nacionais e transnacionais de comunicação(CANCLINI, 2008, p. 285).Portanto, as mudanças de pensamento e hábitos da vida urbana, as formas seletivas desociabilidade e a marcante presença da mídia eletrônica nas casas conectam os indivíduosdiretamente com os novos e diferentes artefatos modernos. Além disso, registra-se uma fortemudança nas estruturas urbanas constituídas na primeira metade do século XIX: o clube, ocafé, a associação de vizinhos, a biblioteca, o comitê político – que interligavam a vidaimediata com as transformações que se buscavam na sociedade e no Estado. Como veremos,em Ouro Preto existem tênues conflitos identitários entre antigos moradores de repúblicas e osatuais, visto que a mudança geracional é produzida também das demandas da vida moderna edos novos estilos de vida.Estes processos de mudanças envolvem a proliferação de signos, imagens, bensculturais, tecnologias, informações e mercados para todos os grupos sociais, ao criarimportantes mediações socioculturais na vida das pessoas em suas práticas cotidianas. Dessemodo “a tendência é que os grupos sociais procurem classificar e ordenar suas situaçõessociais e usar os bens culturais como meios de demarcação, como comunicadores queestabelecem barreiras entre algumas pessoas e constroem pontes com outras”(FEATHERSTONE, 1995, p.94). Em relação à articulação desses processos de mudança social ecultural não se deve desprezar como os modos de transmissão e consumos são intermediadospelas práticas de especialistas que disseminam os signos culturais.De todo modo, o pós-modernismo não reitera radicalmente as descontinuidades domodernismo, pois promove a compressão do espaço e do tempo e relocaliza muitas tradiçõesao fazer uma “colagem” de fragmentos das formas passadas para os usos correntes e efêmerosda contemporaneidade (HARVEY, 2008). Para Krishan Kumar,em vez de imposição autocrática de um gosto monolítico, aceita uma diversidade de“culturas de gosto”, cujas necessidades tenta satisfazer, oferecendo uma pluralidade deestilos... há a suposição de que não só pessoas diferentes vão querer coisas diferentes,
    • 36mas que as mesmas pessoas, em ocasiões diferentes, vão querer coisas diferentes(KUMAR, 1997, p. 117-118).A descrição da cidade contemporânea não está somente no tipo de ambiente edificado,mas na incursão das pessoas nos espaços urbanos através de suas práticas e modos de vidaespacializantes (CERTEAU, 1994). É neste sentido que De Certeau postula sobre as tramas doespaço urbano e o que fazem seus praticantes. Neste conjunto, podem-se detectar as práticascotidianas e as espacialidades constituídas pelos diferentes sujeitos citadinos. Podem tambémestas práticas ser “estranhas” mas enunciam os lugares para além do que foi imposto peloplanejamento geográfico ou político dos espaços da cidade. Os usos dos lugares sãodescolados do “artefato” urbano, ou seja, da existência da racionalidade urbanística. Embora aaglomeração urbana preceda de determinados elementos que intervêm ou se desdobram nosentido da organização e estrutura da urbanização, “planejar a cidade é ao mesmo tempopensar a própria pluralidade do real e dar efetividade a este pensamento do plural: é saber epoder articular” (CERTEAU, 1994, p.172).No entremeio da preservação e da pluralidade de usos do patrimônio de Ouro Preto éconsiderável resaltar que esta dinamicidade entre práticas, usos e apropriações plurais doslugares, deve-se ao grande número de jovens que se deslocam de outras regiões para ingressarna UFOP. Através desta informação, pretendemos abordar o contexto contemporâneo, nãonos reportando ao debate sobre a identidade designada no curso da história política e dasintervenções urbanas do patrimônio colonial da antiga Vila Rica: nossa investigação dar-se-áatravés daquelas pessoas, oriundas de várias partes do país, que vão se instalar na cidade comfins estudantis e intensificar novas experiências identitárias, compartilhando as novasespacialidades, uma nova cultura e construir socialmente novas identidades. A “cidadeuniversitária” é, portanto, constituída de repúblicas estudantis, lugares e identidades juvenisinscritas em um vasto conjunto de relações sociais e “incidências identitárias significativas”(COSTA, 2002).2.2. A identidade atribuída à paisagem urbana de Ouro Preto“Uma paisagem ou um quadro podem ao mesmo tempo adquirir uma consistênciaestrutural de caráter estético e me interrogar, me encarar fixamente de um ponto devista ético e afetivo que submerge toda discursividade espacial” (GUATTARI, 1992,p.154)
    • 37As paisagens urbanas relacionam-se a importantes espaços da cidade e possibilitam acompreensão de diferentes relações sociais e agenciamentos. As paisagens estão inscritas emdiversos espaços da cidade e representam diferentes características de um lugar, esteja eledisposto em ambiente natural ou urbano. Ao incidir reflexivamente na produção do espaçourbano, a paisagem sociocultural influi de modo significativo na construção de sua imagemsimbólica através das construções edificadas, de seu estilo estético e dos usos cotidianos emodos como os usuários se apropriam de certos espaços. Conforme Guattari (1992), o caráterde inseparabilidade entre o espaço e o corpo induz o observador a lançar subjetivamente seuolhar para uma polifonia de (in)formações na paisagem urbana. Os espaços construídos deOuro Preto enunciam os agenciamentos de subjetivação tais como expressos nas intervençõesurbanísticas realizadas pelo Iphan, que constituíram a tentativa de atribuição da identidadenacional orientada pelo processo de patrimonialização de seus bens culturais.Segundo Sharon Zukin (2000), “a paisagem é, em grande parte uma construçãomaterial, mas também é uma representação simbólica das relações sociais e espaciais [...] Apaisagem é uma poderosa expressão das restrições estruturais de uma cidade” (p. 106).Deste modo, para a autora, a paisagem expressa um tipo de “ordem espacial” importante naestrutura urbana. Conformam também relações entre os diferentes grupos sociais, que seestabelecem e se diferenciam através do poder político, do poder econômico e de diferençasculturais. Deste modo, a construção – simbólica ou material – da paisagem, seja ummonumento cultural e histórico ou um ambiente natural e conservado, torna-se um elementoimportante para compreendermos a transformação espacial das cidades. Neste sentido,partimos da definição de Antonio F. Costa, segundo a qualAs identidades designadas, ou atribuídas, por seu turno, reportam-se a construçõesdiscursivas ou icônicas de entidades coletivas, com as quais aqueles que asproduzem não têm relação subjetiva de pertença. Ou, pelo menos, não é a esse títulonem sobre essa base que tais formas de identidade cultural são elaboradassimbolicamente como unidades de mapeamento da paisagem social (2002, p.27).O centro histórico de Ouro Preto registra o período da colonização portuguesa noterritório brasileiro, pois representa o traçado inicial da cidade e uma paisagem que manifesta,como refere Rósio Baca Salcedo (2007), tanto as categorias urbanas e ambientais,arquitetônicas e administrativas, quanto as manifestações políticas, econômicas, socioculturaise tecnológicas em diferentes períodos históricos. Segundo a autora, “entende-se históricocomo tudo aquilo que expressa relevância na vida social e cultural de uma comunidade, enão somente os fragmentos mais antigos ou aqueles vinculados a um acontecimento
    • 38“histórico”, mas também aqueles relacionados com o cotidiano” (SALCEDO, 2007, p.23).Neste sentido, voltamos a Guattari (1992): os projetos urbanísticos deveriam conceber oalcance dos espaços construídos, agenciados, de modo menos restritivo às estruturas visíveis efuncionais, visto que os espaços são produtores de subjetividades individuais e coletivas.As transformações do espaço urbano correspondem às estruturas unitárias oufragmentárias, o que permite construir a trajetória que articula as gerações passadas àscontemporâneas, por isso enfatiza-se a importância de sua salvaguarda (SALCEDO, 2007). OServiço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) foi criado pela Lei nº 378, dejaneiro de 1937, e pelo Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro do mesmo ano, durante osdesdobramentos do Movimento Modernista no Brasil10. Neste entretempo de reflexão erevisão dos conceitos de cultura do país, as concepções sobre os problemas culturais, quedeveu-se em grande parte ao trabalho de Rodrigo Mello Franco de Andrade, foram abordadasatravés de novos posicionamentos técnicos de preservação e do envolvimento de uma parcelada sociedade.A noção de patrimônio foi revisada a partir de novos fundamentos (que não serestringiam mais aos aspectos estéticos) entendidos segundo critérios estilísticos, mas queabrangem a historicidade pertinente à construção sócio-espacial dos centros históricos, assimcomo seu caráter documental, sua trajetória e seus diversos componentes como expressãocultural (MOTTA, 1987). Neste sentido, a política de patrimônio orientava-se pela construçãode uma identidade nacional para o país, tendo em vista a salvaguarda dos vestígios dopassado. Era a chamada política cultural de “pedra e cal”, executada principalmente peloEstatuto do tombamento.Segundo Lúcia Lippi Oliveira (2008) os patrimônios históricos e artísticosrepresentam simbolicamente a identidade e a memória nacional, assim como o pertencimentode uma comunidade a determinadas noções do conjunto de bens: relíquias, monumentos,cidades históricas, etc. Conforme esta autora, a cidade de Ouro Preto torna-se exemplar em1934, quando foi criada a Inspetoria de Monumentos Nacionais, no Museu HistóricoNacional, localizado no Rio de Janeiro (então o primeiro órgão federal de proteção aopatrimônio), a qual é “considerada desde 1933 a principal relíquia do passado nacional a serpreservada” (OLIVEIRA, 2008, p.114). Com a criação do Serviço, a Inspetoria foi desativada,10Segundo Antonio Arantes (1997), as práticas preservacionistas dos modernistas têm sido bastante criticadaspela literatura da área, sendo consideradas uma extensão da ideologia do Estado de construção de umacomunidade nacional coesa e legitimadora das instituições, status e relações de autoridade. Para o autor, nemsempre tais posicionamentos e práticas reforçam ou legitimam a concepção institucional, homogeneizadora ehierárquica de nação. Voltaremos a este debate ao discutirmos a relação das práticas cotidianas do estudantescom o patrimônio de Ouro Preto, no Capítulo 5.
    • 39constituindo-se, desde então, o Sphan o mais significativo órgão de proteção e preservaçãodos bens nacionais.Lúcio Costa, arquiteto que idealizou o Plano Piloto para a construção de Brasília,executada mais tarde por Oscar Niemeyer, foi também um dos responsáveis por imprimir aOuro Preto a noção de cidade idealizada como obra de arte, ao designar uma identidadepatrimonial que evidencia também a atuação do órgão em diversas outras cidades11.Estagnada economicamente por quase meio século, desde a transferência da capital de MinasGerais para Belo Horizonte em 1897, Ouro Preto sofreu também um grande esvaziamentopopulacional, fator que contribuiu para a atuação do Sphan em diversas escalas. Primeirovisou-se a recuperação do traçado urbano edificado através da conservação e restauração,visto que muitas casas entraram em processo de deterioração.A preocupação maior do Sphan foi a de “ajustar melhor a arquitetura nova ao quadroantigo, diminuindo o contraste entre o passado e o presente sem reproduzir as velhasconstruções” (MOTTA, 1987, p. 111). Neste caso, utilizaram o uso de linhas ou elementostipológicos da arquitetura tradicional que harmonizassem a paisagem urbana da cidade, aexemplo da marcação dos esteios do pau-a-pique colonial. Lia Motta (1897) destaca que emum primeiro momento poucos eram os projetos de reforma ou construção de casas pelapopulação. O controle era casuístico, mas com o tempo os pedidos aumentaram, o queimpossibilitou o controle particular de cada caso. Então foi necessário normatizar asconstruções e as fachadas de acordo com as exigências caracterizadas pelos critérios estéticosdo órgão, definindo o “estilo Patrimônio”, que era empregado também nas novas áreas que seformavam na periferia e morros.Em segundo momento, foi também motivo de novas inscrições arquitetônicas,superando a arquitetura eclética do século XIX, sobretudo pelos projetos de estiloneocoloniais do início do século XX. Contudo, o Sphan teve como referência a novaarquitetura modernista, a exemplo da construção do Grande Hotel de Ouro Preto, projetomodernista de Oscar Niemeyer no início dos anos 40. Assim sendo, os critérios deconservação do Sphan tornaram-se complexos, pois valorizaram mais as fachadas de tipocolonial das casas em detrimento dos lotes e do modo como “deveriam” estar dispostos.Segundo Lia Motta, as consequências dessa atuação descaracterizou a paisagem urbanaatravés da falsificação do conjunto devido à persistência no controle das fachadas coloniais,11As candidaturas e aprovações de Olinda, Bom Jesus dos Matosinhos, Salvador, São Luís do Maranhão eDiamantina são, em parte, tributárias, vistas do ângulo da UNESCO, da afirmação de Ouro Preto – principalrepresentante da civilização mineira, como dizia Rodrigo M.F. de Andrade – diante do Comitê do Patrimônio(SILVA, 2003, p. 83).
    • 40produzindo ainda uma arquitetura híbrida. Este tipo de atuação deveu-se à crença dos técnicosdo órgão de que Ouro Preto não teria possibilidade de crescer mais.Como expressa a já citada autora, “a cidade foi usada como matéria-prima para umlaboratório de nacionalidade de inspiração modernista, deixando as populações que lámoravam a esta visão idealizada, não sendo elas sequer motivo de referência (MOTTA, 1987,p.110), visto que um dos objetivos era enquadrar o “bom gosto” da arquitetura modernista.Partindo-se do pressuposto de que a arquitetura residencial manifesta social e culturalmente omodo de vida das gerações anteriores e contemporâneas (SALCEDO, 2007), esta concepçãoestabeleceu o traçado urbanístico ouro-pretano, velando, de certa forma, os “tiposintermediários de habitação caracteristicamente brasileiros: as pequenas casas térreas daroça e das cidades, com sua variedade de aparência e de plano” – como frisou GilbertoFreyre (2004, p.52)12. Desse modo, a criação do Sphan deve ser compreendida e articulada àredescoberta das cidades barrocas mineiras, o que orientou politicamente a concepçãoestética:Para historiar a criação do serviço federal de patrimônio, é preciso retornar àscidades coloniais de Minas Gerais. Essas cidades barrocas foram sendoredescobertas ao longo da Primeira República. [...] As viagens a Minas Geraiscomeçaram a ganhar status de experiência de conversão à brasilidade, deredescoberta do Brasil. O mesmo se aplica ao encontro dos modernistas paulistascom os mineiros em 1924. Essa viagem a Minas constitui um relevante capítulo dahistória do movimento modernista no Brasil (OLIVEIRA, 2008, p115).13Salcedo (2007) recorda que o barroco influenciou principalmente a arquiteturareligiosa e oficial e com menor intensidade a arquitetura residencial. No entanto, asresidências individuais apresentam traçado simples, não sendo significativa, mas o seuconjunto lhes conferia uma monumentalidade de expressão autêntica “em razão dos volumes,das fachadas que, de forma escalonada, representam o urbanismo barroco, comcaracterísticas próprias de lugar, como consequencia da topografia, do código de obras, das12Para o autor, o conhecimento sociológico da época contribuiu para essa separação do estudo da casacorrespondente ao tipo dominante de família desde o século XVI, acenando para as expressões de status dafamília patriarcal, que predominava e reconstituía a paisagem socioespacial e cultural brasileira até o início doséculo XX. Entretanto, conforme ainda aponta Freyre (2004, p.55) “dentro desse sistema muita comunicaçãohouve entre casas-grandes e senzalas, entre sobrados e mucambos e não apenas separação e diferenciação. [...]Nem se explicaria de outro modo o relevo que vêm tomando, entre nós, manifestações híbridas não só de culturacom de tipo físico” – diga-se de passagem, a mestiçagem. Por fim, Salcedo (2007) aponta que muitas casas daspopulações de menor poder aquisitivo tiveram suas construções feitas a partir do modelo predominante. Adiferença estava nos equipamentos internos às casas, por exemplo, a ausência de banheiros.13O grupo de intelectuais modernistas era composto por Gustavo Capanema, Rodrigo Melo Franco de Andrade,Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, entre outros.
    • 41técnicas construtivas, da cultura (...) de singular beleza” (SALCEDO, 2007, p.125). Por issoque as cidades mineiras, a exemplo de Ouro Preto, Mariana, Diamantina, São João Del-Rei,entre outras, tornaram-se referências sobre o passado colonial do Brasil.A queda da produção aurífera que ocorreu nos fim do século XVIII, acompanhadaainda com a mudança da capital, em 1897, acarretou a transferência do funcionalismo públicoestadual, de serviços especializados para Belo Horizonte e provocou ainda forte declínioeconômico e populacional. Somente com o seu reconhecimento enquanto cidade monumento,e mais tarde como sítio urbano a ser preservado, Ouro Preto volta a ter importância no cenárionacional. Ao ser declarada Monumento Nacional em 1933, e mais tarde com a fase deindustrialização do país é implantada, em 1950, a ALCAN, uma indústria de fabricação dealumínio, dinamizando assim a economia local no chamado “ciclo do alumínio”. Segundo LiaMotta (1987), a fase de industrialização de Ouro Preto tornou-se problemática para o modelode conservação idealizado por Lúcio Costa, pois novas formas de morar e uma nova relaçãocasa/rua induziu uma arquitetura bastante diferente da tradicional. Para a autora,a cidade, já não mais obra de arte, retomou seu processo de crescimento, asfronteiras se romperam, a periferia foi ocupada e os espaços do centro histórico sevalorizaram também economicamente para ocupação. Não eram pedidas maisapenas uma ou outra construção e sim sucessivas residências, para atender a umanova demanda social (MOTTA, 1987, p.113)Além disso, o turismo começa a ser uma alternativa à cidade monumento, empregandoimportante parcela da mão de obra, como também a migração temporal de estudantes paraestudar na Escola de Minas. Com o crescimento populacional na década de ‘70, iniciaram-seos primeiros trabalhos urbanísticos para o planejamento da estrutura urbana de Ouro Preto, oqual incluiu também a cidade de Mariana14. Elaborados pelo arquiteto português AlfredoViana de Lima, “esses trabalhos subsidiariam o Plano da Fundação João Pinheiro eorientariam a decisão da Unesco de conferir à cidade o título de Patrimônio daHumanidade” (SALCEDO, 2007, p.135).Segundo Antonio Arantes (1997, 2000), as políticas públicas de intervenção urbanainvestem, para cada época, diferentes visões e modos de apropriação dos espaços e detransformação da paisagem, o que amplia o sentido conferido (pela sociedade) aos “projetosde recuperação de áreas urbanas ou de estruturas arquitetônicas de valor patrimonial”(ARANTES, 2000, p.152). Foi a partir destas intervenções que o Iphan atribuiu a Ouro Preto14A área físico-territorial foi subdivida em quatro setores: paisagismo, restauração, estrutura urbana e legislação.O documento “Consolidação das Leis Urbanas” compreendeu também uma legislação urbana para as duascidades composta de leis de uso do solo, códigos de obras e códigos de posturas (QUEIROZ, 1984).
    • 42sua identidade histórica, cultural e espacial, tomando como referência a salvaguarda daherança colonial. Neste sentido, os projetos urbanísticos são meios de disciplinar os “usos queos habitantes fazem da cidade”, pois avançam sobre os sentidos referenciais e atribuídos àconstrução e ressignificação do espaço na experiência urbana.2.3. A identidade nacional como recurso da patrimonialização de Ouro Preto.O Conjunto Arquitetônico e Urbanístico de Ouro Preto, a exemplo das cidades quecompõem a lista do Patrimônio Mundial, conferida pela UNESCO, como os CentrosHistóricos de Olinda (1982), Salvador (1985), São Luís (1997) e o Centro Histórico deDiamantina (1999), entre outros, está entre os monumentos que remontam ao período coloniale imperial do Brasil. Eles constituem o discurso da Identidade Nacional brasileira através desua significativa representação da colonização portuguesa, além de serem locais convergentesda cultura europeia e africana no Brasil (UNESCO, 2010).Devido principalmente aos aspectos como o traçado das vias, as edificações e os bensculturais “Ouro Preto e outras ‘cidades históricas’ de Minas são usadas como espaçosimbólico que dão concretude e autenticam os celebrados eventos da Inconfidência Mineira”(GONÇALVES, 1996, p.122). Foi com estes elementos que o Brasil conseguiu inscrever em1980 o sítio histórico preservado na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. Ouro Preto foia primeira cidade brasileira a receber o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, e desde1938 foi considerada Monumento Nacional15.Conforme Fernando F. Silva (2003, p.87) diante da Convenção da UNESCO em 1972foram definidos bens pertencentes à categoria de patrimônio cultural: 1) os monumentos(grupos de elementos que tenham um valor excepcional do ponto de vista da história, da arte eda ciência); 2) os conjuntos (grupos de construções isoladas ou reunidas que tenham um valorexcepcional do ponto de vista da história, da arte e da ciência) e; 3) os lugares notáveis (obrashumanas, naturais ou arqueológicos que tenham um valor excepcional do ponto de vistahistórico, estético, etnológico ou antropológico). Neste sentido, o Conjunto Arquitetônico eUrbanístico de Ouro Preto (datado de 05/09/1980) atendeu à classificação e critérios adotados15Fundada em 1698, por bandeirantes paulistas no local onde já corria a fama de haver ouro em abundância, apovoação logo ganhou o status de vila, sendo chamada de Vila Rica. Após a independência, em 1823, já comocidade, recebeu o nome de Imperial Cidade de Ouro Preto e tornou-se a capital da Província de Minas Gerais até1897, ano da inauguração de Belo Horizonte.
    • 43pela Convenção, sendo considerada uma “cidade histórica viva” por possuir vestígios dopassado em confluência às funções contemporâneas.Os critérios utilizados pela Unesco são:- Valor universal excepcional, representatividade e seletividade: representa umarealização humana única; obra-prima que exerce uma influência, por um período de tempo oudentro de uma área cultural específica do mundo. Isto envolve o modelo de paisagens e oplanejamento de uma cidade; deve estar associado a tradições, valores, ideia e crenças;- “Autenticidade”: são os bens que atendem a sua concepção original em “modelo,material, artesanato ou ambiente”;- A proteção nacional dos bens: tombamento pelo Decreto-lei nº 25/193716.Deste modo, Ouro Preto foi inscrita na Lista do Patrimônio Mundial “por representarum dos mais importantes centros históricos do estilo barroco do século XVIII, cujo períodofoi denominado ‘Idade do Ouro’” (SILVA, 2003, p.100). Além disso, seu estilo barroco épeculiar em relação a outras áreas do país, sua história é importante para a compreensão dacolonização portuguesa e sua região é testemunho importante do ciclo de mineração e doouro. Seu acervo cultural abrange obras artísticas, como as do Aleijadinho, e literárias, aexemplo da literatura existente durante e após o período inconfidente e, posteriormente, noperíodo modernista como ilustraram os escritores Carlos Drummond de Andrade, CecíliaMeireles e Manuel Bandeira.A cidade, a partir de 1980, torna-se um importante centro de turismo, de serviços eindústria, inscrevendo-a no que Carlos Fortuna (1997) chama de “concorrência inter-cidades”.Sendo reconhecida em nível internacional, nacional e regional, o fluxo de pessoas aumenta etorna-se um importante desafio para o gerenciamento e preservação do patrimônio. Por umlado, o patrimônio material e imaterial ouro-pretano ultrapassa suas dimensões locais e entrano processo de articulação com a globalização dos bens culturais. Por outro, evitar a“degradação” do patrimônio, das casas e ruas tornar-se-ia um dos discursos que constrói o queGonçalves (1996) chamou de “Retórica da Perda”.Como já indicamos, para A.F.Costa (2002), os processos de atribuição identitária deum lugar, apesar de serem construções discursivas, não se referem necessariamente às16“Em 1986, Ouro Preto foi inscrita no Tombamento dos Livros Históricos, Arqueológicos e Etnográficos ePaisagísticos, e em 1989 foi definida e inscrita a delimitação do perímetro de tombamento da cidade”(SALCEDO, 2007, p.135).
    • 44relações subjetivas de pertença de uma comunidade. Segundo este autor, a “reificaçãohistórico-patrimonialista”, em contrapartida, pode inverter e desconstruir as narrativas erepresentações tradicionais. Estes projetos têm como base relacionar a conservação dopatrimônio histórico ou vernacular ao modelo de planejamento urbano, conhecido naatualidade como “planejamento estratégico”. Desta forma, a noção atribuída às paisagenstorna-se central para a compreensão das transformações espaciais no contexto das políticas deenobrecimento do espaço urbano e de recuperação e conservação do patrimônio.Paulo Peixoto (2004) compreende que as políticas públicas urbanas partilham de ummesmo sentido as noções de patrimônio e identidade. Constroem assim uma metalinguagemque inverte, muitas vezes, o significado dos bens culturais, tornando-os uma representaçãoespetacularizada e performativa, o que acaba constituindo a identidade como recursometonímico de processos de patrimonialização. Como consequência importantes categoriaspoderão ser utilizadas para referenciar as intervenções: o espaço público, a qualidade de vida,a auto-estima e a identificação local os objetos e bens que compõem a cidade.Por fim, conforme expôs Queiroz (1984), a forma de gerenciamento do patrimônio dacidade de Ouro Preto foi o alvo preterido pelo discurso de intelectuais da cultura nacional,arquitetos e militantes preservacionistas do que da própria população, a qual é em grandeparte desassistida pelo poder público. Ao lado disto está a população da cidade, formada pelapopulação flutuante de estudantes e trabalhadores sazonais, o que dificulta a mobilização dapopulação para elaboração de plano com metas sociais. Este autor questiona então: comopode uma população “se apropriar de uma cidade sem ter a propriedade dela, sem que essapropriedade não tenha o crivo social?” (QUEIROZ, 1984, p.203).Tão válida e importante quanto esta pergunta é o esforço de respondê-la. Aotransformar os sítios históricos em espaços selecionados e de visibilidade pública, oargumento que justifica as atuais políticas de intervenção fundamenta-se na ideia de tradição.De algum modo, a ideia de tradição está aliada às práticas de preservação e poderia serconcebida como uma forma de articular várias gerações e criar “vínculos entre os cidadãospor fazer referência aos símbolos que são representativos da coletividade,ou bens coletivos”(TAMASO, 2005, p. 14). Segundo Leite (2007), esses processos resultam em diversas ocasiõesmenos em prática de cidadania e orienta-se por uma relocalização estética do passado. Estecritério torna o patrimônio passível de ser reapropriado por alguns segmentos da população evisitantes. Neste sentido, para Carlos Fortuna (1997), tanto a tradição quanto a inovação, sãoreferenciados como mensagens culturais que relocalizam os elementos do passado para osusos do presente.
    • 453. OURO PRETO: “A CIDADE DAS REPÚBLICAS”3.1. A fundação da Escola de MinasPara compreendermos a fundação das repúblicas de Ouro Preto é preciso indissociá-las da criação da Escola de Minas, que ocorreu em uma época de fortes conflitos políticos nopaís, no período da transição do Segundo Reinado do Império brasileiro para o regimeRepublicano. Antes da Escola de Minas, já havia sido fundada a Escola de Farmácia, que datade 04 de Abril de 1839, através da Lei nº 140. Esta instituição foi a primeira do país e daAmérica Latina a oferecer um curso naquela área de conhecimento (SAYEGH, 2009).A Escola de Minas foi criada pela Lei n.º 2.670, de 20/10/1875 e pelo Decreto n.º6.026, de 06/11/1875, sendo fundada em 12 de outubro de 1876, 43 anos após sua idealizaçãoatravés de um projeto de Lei em 183217. A iniciativa da criação partiu de Dom Pedro II,durante viagem para a Europa em busca de conhecimentos técnicos de exploração de riquezasminerais do Brasil18. O monarca entrou em contato com Auguste Daubrée, diretor da Escolade Minas de Paris, que indicou Claude Henri Gorceix “o qual possuía grandes requisitos paradesenvolver essa tarefa. Em julho de 1874 ele chega ao Rio de Janeiro, trazendo consigo umapersonalidade própria, a qual ficou conhecida como o ‘Espírito de Gorceix’” (CARVALHO,1978, p. 25).A Escola de Minas, ao lado do Instituto Oswaldo Cruz, foi fundada em torno doconhecimento e da ciência europeia da época, principalmente nas pesquisas geológicas ebiológicas. Segundo José Murilo de Carvalho (1978), a fundação dessas duas instituições paraa educação brasileira significou o ponto de passagem da ciência colonial para a ciêncianacional. Antes, em 1838, Pedro II já havia fundado o Instituto Histórico e GeográficoBrasileiro (IHGB) inspirado no Institut Historique de Paris. Mas é com a fundação da Escolade Minas e do Instituto Oswaldo Cruz que se iniciam as mudanças no sistema de pesquisacientifica, anteriormente dependente de pesquisadores e centros de conhecimentoestrangeiros. Um dos objetivos traçados por Gorceix para o desenvolvimento da Escola, e dapesquisa brasileira como um todo, foi a formação de pesquisadores nacionais aliada àobrigatoriedade do Estado em contratá-los após sua formatura.17A Escola de Minas teve sua primeira idealização através de um projeto de Lei em 1832, refletindopreocupações de cunho científico e técnico. O projeto visava desfazer a Província de Minas da decadênciaeconômica, mas só foi efetivado 43 anos depois (CARVALHO, 1978, p. 16)18No final do século XIX, a economia de Minas passou a girar em torno do café e “o tipo de formação técnicaque era exigido por esta economia era apenas a engenharia civil e militar”. (idem, ibidem, p. 21)
    • 46O primeiro edifício escolhido como sede da Escola situava-se na Rua das Mercês(atual Rua Padre Rolim), próximo à Igreja Nossa Senhora das Mercês, onde antes haviamfuncionado repartições públicas, tais como o Liceu Mineiro e a Repartição das Obras Públicas(TEODORO, 2003, p. 17). Em 1897, com a mudança da capital da província de Minas Geraisde Ouro Preto para Belo Horizonte, foi a sede da Escola transferida para o Palácio dosGovernadores, na Praça Tiradentes, onde hoje funciona o Museu de Mineralogia19.José M. Carvalho aponta alguns fatores que contribuíram para a idealização da Escolabastante influenciada pela reforma pombalina da Universidade de Coimbra (“fundada” no dia1º de Março de 1290, em Lisboa, pelo rei D. Dinis). Através dessa reforma o pensamentocientífico-iluminista, ainda que se preocupasse mais “com problemas de natureza filosóficado que propriamente científica” (1978, p.23), questiona o privilégio da teologia sobre outrasáreas, ao focalizar a história natural, a botânica, a mineralogia e as ciências exatas (química,física e matemática). Entretanto, Gorceix era contrário ao modelo de ensino liberal queinstituiu a faculdade livre, a frequência livre dos alunos e a livre-docência. Seu modelo, aocontrário, considerado revolucionário para os padrões da época, baseava-se na École desMines de Paris e na École des Mines de Saint-Étienne20, sendo este último adotado tendo emvista as circunstâncias do ensino brasileiro. Assim, Gorceix insistiu na obrigatoriedade deexames anuais e rigor nas avaliações dos alunos, tendo em vista a qualidade do ensinosuperior, que ele julgava fraca.Segundo Carvalho, a estrutura pedagógica da Escola orientou-se pelo modelo de Saint-Étienne, por ter menor duração (2 anos), tempo integral entre professores e alunos, exame deseleção, além do número limitado de alunos por turma (para cada exame apenas 10 ou menosalunos eram escolhidos). Outros importantes itens foram exigidos por Gorceix, tais como boaremuneração de professores; intensa prática de laboratório e viagens de estudos; bolsas deestudos para os estudantes pobres, e para os melhores alunos aperfeiçoamento no exterior;contratação pelo Estado dos que melhor aproveitassem a viagem de aperfeiçoamento. Estesdispositivos poderiam resultar em retornos mais rápidos para investir no desenvolvimento daindústria mineira, com a participação dos engenheiros formados pela Escola de Minas.No entanto, os métodos de ensino basearam-se no modelo da École Normale, comoaponta Rosa Teodoro (2003): “tal modelo enfatizava a necessidade de fusão entre teoria e19Cf. http://www.em.ufop.br/em/inauguracao.php, acessado em Fevereiro, 2010.20A primeira de formação básica, de três anos, com disciplinas de engenharia pertencentes ao domínio da física ematemática. A segunda formava os alunos em dois anos e fornecia conhecimentos em mecânica das máquinas,metalurgia e exploração (CARVALHO, 1978, p.29).
    • 47prática, expressa no brasão e símbolo da Escola: cum mente et malleo, e a aproximaçãoentre professores e alunos e entre estes e a Escola” (p. 18). Mesmo com o amplo apoio dePedro II ao diretor da Escola, houve muitas resistências a esta concepção de ensino superiorno Brasil. Tal filosofia de ensino chocou-se com a prática vigente no país, tornando-se alvo deseveras críticas. O então diretor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, Visconde do RioBranco, foi um dos maiores opositores ao sistema implantado por Gorceix, pois considerava ométodo adotado pouco funcional, como também duvidava da capacidade da Escola em manterseus alunos. Apesar da forte oposição os principais pontos do projeto foram aceitos, tendo seuregulamento definitivo promulgado pelo Decreto Lei de 6 de novembro de 1875. A únicaexceção foi a mudança do nome “Escola de Mineiros”, como queria Gorceix ao basear-se naprática como filosofia fundamental, para Escola de Minas (CARVALHO, 1978).Outro aspecto a ser discutido versa sobre o processo de diferenciação dos princípios daEscola para com a tradição da cidade. Esta diferença assinalou certo fechamento, nãonecessariamente de maneira harmoniosa e como diz Stuart Hall (2003), isso ocorre aoarticular vários discursos e práticas que não se constituem a partir do reconhecimento de umaorigem comum. Neste caso, do reconhecimento da Escola de Minas fundada na cidade deOuro Preto, a identidade da Escola apelava para a disjunção da identidade e da vida cotidianada cidade.José Murilo de Carvalho, em seu livro A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso daglória (1978), aponta para o conflito entre a identidade da Escola e da cidade através domemorial escrito em 1939 por Alberto Mazoni, na época professor do curso de EngenhariaCivil da Escola:O ponto central do memorial é a necessidade de separar a Escola de Minas da cidadede Ouro Preto. Pelo espírito que as anima, as duas são incompatíveis. A cidade é berçode tradições, volta-se para o passado e a ele deve ser mantida fiel. À Escola, pelocontrário, não cabe a guarda do passado, mas do futuro e para este deve projetar-se.‘Contagiar-se da alma da cidade é o mal de que cumpre fugir’. As condiçõesnecessárias para a conservação da cidade são exatamente as que militam contra a vidada Escola. A cidade precisa de silêncio e paz, a Escola precisa do fervilhar dasindústrias e das técnicas” (MAZONI, apud CARVALHO, 1978, p. 135).Para Machado (2007), é neste sentido que a cidade de Ouro Preto, no século XX,parecia tornar-se o símbolo do atraso, da Monarquia e da antimodernização perante a suatradição. Este aspecto é importante para a compreensão das mudanças nas relações entre osuniversitários e os moradores locais, visto que a Escola de Minas fecha-se em si mesma econstruiu sua própria tradição. Parte desta crítica traduz-se também para a relação conflitiva
    • 48entre os repúblicos e a cidade-patrimônio. No entanto, esta “relação” resulta, ao mesmotempo, de articulações e fechamentos simbólicos, ao passo que a inscrição dos lugares etradições estudantis descerraram os espaços ouro-pretanos para um ambiente universitário.3.2. Constituição das repúblicas de Ouro Preto e a influência de CoimbraOs critérios de organização de uma república orientam-se pela centralização de leis eregras comuns. A formação das repúblicas estudantis pode ser considerada uma táticaencontrada pelos estudantes para a permanência nas universidades, principalmente paraaqueles que moram fora de suas cidades e consequentemente longe da família. Assim, ahistória das repúblicas estudantis brasileiras, mesmo que pouco conhecida, está articulada àhistória das próprias universidades. É neste sentido que as repúblicas estudantis compreendema formação de um espaço democrático, configurando-se como um “lugar”, mesmo quepermeado de conflitos e normas internas.Quanto à denominação “república”, conforme Jaime A. Sardi (2000), a literaturabrasileira tem atribuído três explicações para a adoção desta expressão em Ouro Preto. Aprimeira se refere ao fato de estas se considerarem soberanas e autônomas em relação àUniversidade, gozando de autogestão administrativa. A segunda diz respeito ao fim daMonarquia no Brasil e à implantação do regime republicano, em 1889. Segundo o autor, osestudantes manifestaram-se contra a visita de representantes do gabinete parlamentar doImpério, demonstrando a rejeição à Monarquia e fizeram cartazes com a palavra "República"nas fachadas das moradias estudantis. Por fim, a terceira hipótese, a que Otávio Luiz Machado(2007) também refere, é que na Idade Média, nas principais cidades da Europa, as moradiasestudantis eram denominadas “repúblicas”, a exemplo de Coimbra. No entanto, conformeAníbal Frias (2003), o nome república, em Portugal, aparece em textos somente no início doséculo XIX, sob a influência do liberalismo republicano, embora na cidade de Coimbraexistissem as casas alugadas para estudantes desde o século XVI.De qualquer modo, segundo o próprio Machado (2007b), a origem do termo no Brasil,e mais precisamente em Ouro Preto, está relacionada diretamente à influência de Coimbra,sendo primeiro conhecido no Brasil como Casa de Estudantes. A cultura urbana universitáriaouro-pretana mantém forte relação sociossimbólica com as repúblicas coimbrãs. Ao passo queem Coimbra as repúblicas foram fundadas durante a Monarquia em Portugal (FRIAS, 2003),
    • 49em Ouro Preto surgem as primeiras repúblicas no início do século XX, quando o regimemonárquico perdia força política no Brasil.Como refere Liliane Sayegh (2009), as repúblicas de Ouro Preto são mais do que umasimples forma de moradia: ao criarem lugares e tradições elas articulam muitas semelhançascom as repúblicas estudantis de Coimbra, em Portugal. Segundo esta autora, desde o séculoXVIII estudantes brasileiros já faziam intercâmbio na Europa. Durante este século, MinasGerais liderou a lista de intercâmbios para a Universidade de Coimbra (UC) que, junto com asuniversidades de Paris foram os principais destinos dos estudantes oriundos de famíliasabastadas ou até mesmo filhos de famílias com menos condições.Havia ainda o intercâmbio de estudantes entre os dois países, fato constatado nas obrasde José M. Carvalho (1978) e David Dequech (1984), através das análises das cartas deGorceix para o imperador e atas de reuniões e encontros acadêmicos, nos quais constamreferências à presença de estudantes de Coimbra. Deste modo, consta que o retorno deestudantes para a província mineira era destinado geralmente para Ouro Preto, pois estacidade foi um dos primeiros centros urbanos do país e, além disso, desde o movimento daInconfidência já havia a ideia de implantar o ensino superior no Brasil (ideia suprimida juntocom o movimento).A dificuldade que se tem ao comparar as semelhanças e dessemelhanças da culturauniversitária destas cidades é que são poucos os relatos e documentos, ou praticamenteinexistem trabalhos acadêmicos que de modo geral sistematizem historicamente asarticulações entre estas urbes. No entanto, já supõem que as repúblicas estudantis ouro-pretanas surgem, “a partir da ocupação de casas centenárias por estudantes das Escolas deMinas e de Farmácia, que dividiam as despesas e tinham sistema de funcionamentosemelhante ao de Coimbra” (SAYEGH, 2009). Os trabalhos dos autores aqui citados21esforçam-se por elucidar as características de intercâmbio entre estas cidades. Embora possamesclarecer muitos detalhes ainda há a falta de documentos (textuais e iconográficos) quepossam elucidar as lacunas, visto também não haver estudos específicos sobre esta temática.Por isso presumimos que em decorrência das práticas tradicionais, que conformamaspectos simbólicos e identitários da “cultura republicana” de Ouro Preto, estes são osprincipais indícios de que o sistema de repúblicas ouro-pretanas foi influenciado pelo modelocoimbrão. Tanto que a divisão de hierarquias das repúblicas e os rituais conferem fortessemelhanças, pois a constituição e as identidades das repúblicas de Ouro Preto giram em torno21Cf. os recentes trabalhos de H. Crivellari (1998); J. A. Sardi (2000, 2001); O. L. Machado (2003, 2007);R.Teodoro (2003) e G.Cifelli (2005).
    • 50de suas tradições e formas de gerenciamento, o que levantou hipóteses de alguns autores sobrea organização e seu marco político. Neste caso, a influência da Praxe Académica coimbrã éfortemente visível. Segundo Frias, ao designar as tradições e rituais estudantis,a Praxe Académica constitui o registo cultural dos estudantes. Muitos dos seuselementos materiais e simbólicos derivam das práticas institucionais. Emboraautónoma, a sociedade estudantil retira da Universidade uma parte de sua lógicasocial. Esta lógica é a de uma ordem hierarquica e distintiva (2003, p. 83).O hábito de julgar no “dia da escolha”, os trotes, as festas, as gírias e os rituaiscoimbrãos imprimiram às repúblicas de Ouro Preto os modos de habitar a casa22. De acordocom este autor, estas práticas advêm do processo sócio-histórico do uso da palavra “Praxe”por volta de 1860, sendo que no universo acadêmico esta expressão sintetiza e emerge devidoà concorrência da Universidade de Coimbra com outras então criadas em Lisboa e Porto.Entretanto, a Praxe Acadêmica se traduz como um deslocamento de sentido da práticainstitucional e administrativa das universidades portuguesas (que inclui quadro burocrático,corpo docente e conforma a autogestão dos cursos e as hierarquias de cada departamento) ese configurou em sociabilidades lúdicas dos estudantes.Da mesma forma, as tradições das repúblicas ouro-pretanas imprimiram discursos ehábitos que enunciam novas significações e modos de apropriação diversos. Neste sentido, acontinuidade dos rituais coexiste com a inscrição contemporânea das culturas e identidadesjuvenis que ressignificam as heranças, a memória dos moradores mais antigos e a identidadedas repúblicas. Porém, comparando as repúblicas de Ouro Preto à observação de Aníbal Friassobre Coimbra, podemos inferir que:Por seu lado, a Praxe académica viu o seu conteúdo e os seus contornos, o seu usosocial e a sua significação, modificar-se ao longo dos tempos. Isto em conformidadecom a própria dinâmica de toda uma herança material e imaterial. Mais ainda, foi asua natureza que se transformou. De usos vividos e de costumes vulgares, ela passouao tradicionalismo. Por este termo é necessário entender uma codificação doscomportamentos e uma vontade prescritiva, frequentemente exógena, de preservar,ou mesmo de “fabricar” aquilo que é designado como memória colectiva. Aqui trata-se das práticas académicas como dos usos camponeses, ou mesmo da arquitectura:encontram-se patrimonializados (2002, p. 01).Mesmo não sendo tombadas como parte do acervo cultural de Ouro Preto asrepúblicas são propriedades públicas da Escola de Minas e, portanto, seus usos são definidospor estatutos elaborados pela UFOP. Por um lado, as repúblicas adaptaram-se ao chamado22Trataremos destas práticas nos capítulos posteriores.
    • 51espírito de Gorceix e ao “espírito da tradição” através da manutenção de um sistemacomunitário considerado soberano, e com o emprego de uma organização política calcada nademocratização das decisões e na responsabilidade perante o rumo das casas. Em Ouro Preto,as repúblicas tornaram-se o maior patrimônio da Universidade e fazem parte do patrimôniocultural juvenil da cidade. Em Coimbra, segundo Elísio Estanque,Desde o século XIII que, com a emergência das mais antigas universidadeseuropeias, surgiram as primeiras casas comunitárias de estudantes, algumas delasbaptizadas de "Nações", onde viviam conjuntamente estudantes e "mestres" oriundosde uma mesma região, nacionalidade ou até diocese. As Repúblicas de Coimbrasurgem já no século XIX, sem dúvida associadas aos movimentos político-ideológicos de matriz republicana. Animadas pelo espírito de fraternidade, protecçãomútua, convívio e boémia, as Repúblicas tiveram um papel decisivo na modelaçãoda cultura universitária e na própria gestão da Universidade. Muitas gerações da eliteintelectual portuguesa foram, directa ou indirectamente, tocadas pelo seu modo devida (2005, não paginado).É preciso levar em conta que a Universidade de Coimbra foi criada no ano de 1290,em Lisboa, pelo rei D. Dinis. A despeito de sua inscrição na cultura urbana da cidade o tempoaqui é considerável. Ao longo de 700 anos, a instituição conforma parte da imagem deCoimbra como cidade histórica, a qual tem papel relevante para o entendimento da história eda cultura portuguesa. Ela faz parte do cenário que constitui a paisagem arquitetônica esociocultural da cidade que remonta importância no contexto nacional de Portugal. SegundoCarina Gomes (2008) a imagem de Coimbra como cidade histórica e universitáriaaponta igualmente para uma vasta riqueza monumental, que lhe permite reunir umconjunto de interessantes testemunhos do passado. Para esta riqueza muito contribuioutra imagem, a de cidade universitária, que resulta de uma universidade antiga efamosa que coloca Coimbra no centro das rotas do conhecimento e da cultura (2008,p. 70).Para a autora, a inscrição sociossimbólica da Universidade na imagem urbana deCoimbra merece uma rubrica exclusiva. Em razão do espaço-tempo da existência dainstituição é que se atribui a Coimbra a identificação de “cidade dos estudantes”. Comoexemplo, C. Gomes lança mão de um estudo sobre o modo como a cidade é turisticamenteimaginada e narrada para seus visitantes através de Guias turísticos e formas de intermediaçãocultural entre os lugares da cidade. Desse modo, para cada caso, Coimbra é imaginada e(re)criada sob diversos modos de produção turísticas que articulam as identidades atribuídasaos lugares e ao acervo histórico-patrimonial. A questão é que as identidades coimbrãs podemser descritas a partir das representações sobre a cidade que ora é “histórica, ora tradicional,
    • 52ora universitária, ora dos estudantes, ora arquitectónica ora do fado e ora do Mondego”(GOMES, 2008, p.69).Imagem 01As diversas formas de narrar Coimbra referem às dimensões simbólicas da culturaurbana e ao acervo patrimonial que interessam nas promoções turísticas da cidade. Entre oselementos e recursos valorizados pelas empresas e intermediadores culturais a “CidadeUniversitária” situa-se inscrita em seu fluxo narrativo. A imagem urbana promovida sobre a“cidade dos estudantes” favorece a inserção deste espaço na formação dos lugares deconsumo cultural e sociabilidades juvenis, pois o que se enaltece são as tradições estudantis ecomo elaboram os lugares, a exemplo das repúblicas.De qualquer modo, as repúblicas estudantis consistem e constituem espaços culturais eidentitários da “cidade universitária”. Foi durante o reinado de D. Dinis, no século XVI, quesurgiram os primeiros alojamentos de estudantes em Coimbra, enquanto que as repúblicassurgiram nos fins do século XIX. Para Elísio Estanque (2005), com protagonismos variados,as repúblicas coimbrãs enunciaram um ambiente de irreverência cultural e cívica demarcandoRepúblicas Coimbrãs. Foto do autor, 2008
    • 53a vida estudantil desde a Idade Média23. No entanto, este autor elucida que após o ano de 1969ocorreu uma virada decisiva no papel das tradições das repúblicas de Coimbra. Ao passo queassumiram ao longo de sua trajetória como núcleo central dos movimentos estudantis, dosrituais e das práticas acadêmicas, atualmente os repúblicos vivem uma postura distinta. Embreve explicação, podemos inferir que após o regime salazarista (que está ligado diretamenteà Universidade de Coimbra) as repúblicas, no início dos anos ’80, aderiram ao movimentoanti-praxista, o que ressignificou uma identidade experimentada por muitos anos aoassumirem um estilo de vida diferenciado da maioria dos estudantes coimbrãos, que aderiramcrescentemente às praxes24.Imagem 0223Ressalte-se que desde este período histórico europeu as Universidades passaram a imprimir novascaracterísticas às cidades. Cf. LE GOFF, Jacques. “Os intelectuais na Idade Média” (1989).24Não é intento deste trabalho abordar as questões sociológicas para essa virada na cultura universitária emCoimbra. Por isso, destaquemos a importância de retomar a leitura dos artigos de Frias (2003) e Estanque (2005)para uma compreensão mais detalhada deste processo.Manifestação do Movimento Anti-Praxe das Repúblicas de Coimbra. Foto do autor 2008.
    • 543.3. A cidade dos estudantesRetomando a discussão sobre Ouro Preto e para entendermos o surgimento dasprimeiras moradias estudantis no Brasil, Machado (2007b) sugere observarmos a relação entreas cidades e as universidades (ou seja, evitar uma separação entre estas partes). Esta ideia éimportante para entender o contexto das repúblicas universitárias e das casas de estudantes emdiversos aspectos, sejam eles culturais, econômicos, sociais, políticos etc., como tambémdiscute a dificuldade que as cidades enfrentam para acompanhar o crescimento dasuniversidades e a demanda por moradia.Este autor cita (e é importante este exemplo) que a primeira moradia de estudantesconhecida no Brasil data do final dos anos de 1820 com a criação da Faculdade de Direito doLargo de São Francisco, em São Paulo. Na cidade de Olinda, em Pernambuco, tambémsurgiram repúblicas com a criação da Faculdade de Direito de Olinda, em 1827. Em SãoPaulo, neste período, a cidade possuía uma média de 10 mil habitantes e não dispunha demuitos imóveis para estudantes. A partir de 1830, com o crescimento da Faculdade de Direito,ocorreram os primeiros problemas que somente foram solucionados quando os estudantespassaram a viver nos cubículos do Mosteiro da Ordem Seráfica de São Francisco, prédio deestilo barroco, inaugurado em 1647.No caso de Ouro Preto, após a transferência da capital de Minas para Belo Horizonte,em 1897, a cidade passou a ser considerada a “cidade das repúblicas”. De acordo comMachado criou-se então um sistema de moradia através do qual “as repúblicas assumirampapéis importantes na conservação e na divulgação do patrimônio histórico” (2003, p. 197).A perda do título de capital da Província de Minas resultou como consequência a migração dapopulação local, principalmente de funcionários públicos, militares, comerciantes e famíliasinteiras, que partiram para Belo Horizonte e provocaram um esvaziamento de até 40% dosimóveis (RACIOPPI, 1940).A educação superior e vida estudantil de Ouro Preto existem desde 1839, com afundação da Escola de Farmácia, embora as repúblicas só viessem a se constituir, de fato, noperíodo que estava em curso a consolidação da Escola de Minas. No início muitos estudantesalugavam quartos em casas de famílias. Posteriormente surgiram as primeiras casas deestudantes e somente após duas décadas, em 1919, surgem as duas primeiras repúblicas deque se tem conhecimento: a Castelo dos Nobres e a Humaitá. Nos anos seguintes surgiram as
    • 55repúblicas Arca de Noé (1927), Canaan (1930), Vaticano e Pureza (1932) e Sparta (1941)25.As primeiras repúblicas existentes foram formadas através da socialização contínua dosestudantes; convém informar que tais locais de moradia foram mantidos através dasolidariedade e da formação de um espaço universitário local. Conforme relata Machado, osuniversitários da Escola de Minas estavamvivendo a sua grande maioria nas casas de estudantes, conhecidas por «Repúblicas»,(nome adaptado a partir da influência da Universidade de Coimbra). Desta forma,houve, inclusive, intercâmbios entre estudantes de Ouro Preto e Coimbra, como em1951, quando os estudantes de Coimbra visitaram Ouro Preto e foram recebidospelos estudantes da Escola de Minas. Os coimbrãos estavam na solenidade usandocapas pretas – os seus tradicionais trajes –, enquanto os estudantes de Ouro Preto, naausência de uma vestimenta tradicional, improvisavam-se com simples lençóisbrancos como forma de caracterização no evento (atas estudantis) (2003, p. 197).Tal foi a influência que muitas práticas contemporâneas ainda estão associadas àsrepúblicas de Coimbra. O uso da placa nas ruas, a divisão de hierarquias das repúblicas ealguns ritos festivos são decorrentes deste deslocamento. A cultura universitária coimbrã, aexemplo da Queima das Fitas26e dos eventos que participam como a Feira Medieval e dostrotes que ocorrem no início de cada período enunciou-se fortemente em Ouro Preto que, porsua vez, traduziu alguns dos rituais, objetos, gírias, elementos sonoros, associações, etc. parauma cultura própria: Festa do 12, bailes, hinos, etc.O fluxo migratório de estudantes e professores para Ouro Preto, primeiramente deengenharia e farmácia, contribuiu para o desenvolvimento urbano da cidade e abriu asfronteiras locais para a interação com o número cada vez mais elevado de pessoas de váriosEstados do país e interior de Minas Gerais. Dentre os motivos, os estudantes se deslocavampara Ouro Preto por ser esta região um dos principais laboratórios de pesquisas para as escolasde engenharia (e continua a ser atualmente). Junto com a interação entre os estudantes foicriado também um fluxo de redes locais com a comunidade ouro-pretana (TEODORO, 2003),que muitas vezes alugavam quartos para os recém-chegados, até que casas inteiras passaram aser alugadas, dando início à formação das residências estudantis.25São repúblicas federais a Castelo dos Nobres e a Canaan. As demais (Arca de Noé, Vaticano, Pureza e Sparta)são particulares. A república Humaitá já não existe.26Festividade estudantil das Universidades portuguesas que teve seu início em comemorações na Universidadede Coimbra. Desde o ano de 1899 a festa de Queima das Fitas se realiza como um importante evento culturalestudantil. A ideia geral nasce de um aspecto singular: o queimar das fitas que os alunos usavam nas pastas eeram indicadoras de sua condição de concluinte. O queimar das fitas transformou-se então em um ato simbólicoenunciando o término do curso. No entanto, com o passar dos anos a festividade passou a ser um evento daprópria cidade, cuja iniciativa pertencia aos estudantes. Atualmente ocorrem cerimônias, bailes e shows degrande porte. (Cf. http://www.queimadasfitas.org. Acessado em Julho de 2010).
    • 56Para Otávio L. Machado (2007) muitos imóveis localizados nos Bairros Antonio Dias,Centro e Pilar foram cedidos ou ocupados por estudantes que os mantiveram. Desta formaOuro Preto tornou-se cidade ideal para morar e estudar, com fortes apelos para os indícios daformação de uma cultura universitária e da preservação do patrimônio da cidade, pois quantoàs casas cedidas, as famílias preferiram liberá-las aos estudantes a ter que deixar desabá-las ouserem ocupadas por transeuntes. Além disso, é de se supor que a desvalorização dos imóveislevaria ao desestímulo dos antigos moradores quanto a quitarem os impostos, caso nãocompensassem frente ao valor de mercado da propriedade.Nesta época a Escola de Farmácia e a de Minas tornaram-se referências em nívelnacional e Ouro Preto passou a ser designada como local ideal para formação dos créditoseducacionais e referência de empregos para os jovens estudantes. A cidade fornecia condiçõesde moradia e permanência razoável durante todo o ano. Considerada tranquila, pequena, comclima e ambiente natural favorável à qualidade de vida, livre dos problemas de saúdedisseminados pela varíola e seu baixo custo de vida comparado ao do Rio de Janeiro, a cidadetornou-se o principal núcleo estudantil do país formado por um sistema de repúblicas(RACIOPPI, 1940).Ouro Preto tornou-se conhecida também pelos estudantes que vinham de outrosEstados a fim de fazer os cursos preparatórios para o ingresso nas Escolas do Rio de Janeiro.As viagens interurbanas eram feitas de trem, o que costumava levar mais de 5 horas de BeloHorizonte para Ouro Preto. Mesmo sem existir sistemas de transportes e comunicaçãoeficientes no Brasil, “os estudantes que vinham de fora do Estado, geralmente faziam a opçãode se dirigirem de trem até o Rio de Janeiro, e em passagem rápida, pegar um outro paraOuro Preto” (MACHADO, 2007, p .06). Assim, muitos jovens se sentiam atraídos pela cidade edurante suas incursões incluíam um modo de vida boêmio e liberal perante a juventude local,formada por ouro-pretanos (até então eram assim entendidos os próprios universitários).David Dequech, engenheiro formado pela Escola de Minas e autor do livro “IstoDantes em Ouro Preto” (1984), uma das poucas fontes existentes sobre o modo de vida dosrepúblicos e a formação de um ambiente universitário, relata que o método de ensino ensejadopor Gorceix, baseado no modelo francês de acompanhamento individualizado do aluno peloprofessor, proporcionou maior interação cotidiana, relações afetivas e recrutamento dosalunos praticamente em tempo integral para o desenvolvimento de atividades acadêmicas:O aspecto provinciano da cidade, o seu notável passado, a boemia, a descoberta daliberdade por uma juventude pouco vigiada, o espírito acolhedor do ouro-pretano comsua compreensão e bondade, as contas penduradas, e, acima de tudo, a presença
    • 57constante dos professores, seja nas escolas, fora delas, e até em casa, a incutir o cultoao dever e à responsabilidade (DEQUECH, 1984, p. 66).Nesta passagem temos uma primeira forma de enunciação das culturas e lugaresjuvenis em Ouro Preto, como a busca pela liberdade e a vida boêmia sem o controle familiar.Contudo, nesta citação ainda não é possível designar um estilo de vida dos repúblicos, comsuas práticas autônomas. De toda maneira, para entendermos a formação desse ambienteuniversitário é preciso levar em conta a fundação da Escola de Minas e sua relação com acidade. Nas atividades de pesquisa “tanto professores quanto alunos passavam o dia inteirona Escola e os fins-de-semana, feriados e férias fazendo investigações empíricas ao redor deOuro Preto ou em outros estados, havendo alguns alunos que chegavam mesmo a ir para oexterior” (TEODORO, 2003, p. 18).Como foi dito, neste modelo adotava-se tempo integral para alunos e professoresdurante toda a semana e até durante as férias, para o que eram destinadas à realização depesquisas, com bolsas e condições para o aproveitamento dos alunos carentes, além do ensinogratuito. Visava-se não somente ao mercado de trabalho, mas à formação extensiva do corpodiscente, para que assumissem a posição de professores da Escola de Minas. Enquanto issorecorriam a professores franceses ou brasileiros que aplicassem o método proposto por seufundador. Esta perspectiva trouxe como resposta a relação dos alunos formados com a cidade.Com o retorno dos ex-alunos, já como professores, famílias foram formadas, em quemostrou-se inclusive a sucessão de pais, filhos, sobrinhos etc. no âmbito da Escola, emsentido de demarcação do processo de identificação entre os estudantes, a Escola de Minas e acidade (CARVALHO, 1978). Este fato é chamado de inbreeding por Carvalho (1978) eCrivellari (1998), referindo-se ao papel de Gorceix “como forma de aumentar a estabilidadedo corpo docente em Ouro Preto, uma cidade pequena e distante dos grandes centros daépoca” (CRIVELLARI, 1998, p.124). De qualquer modo, a vida e a sociabilidade estudantil nasrepúblicas baseavam-se na solidariedade e nas relações afetivas entre os alunos e professores,diferenciando-se das relações entre os estudantes das faculdades localizadas nas grandescidades. Este ambiente favorecia então à formação da tradição entre os repúblicos e, por fim,a constituição de lugares e sociabilidades estudantis.Antes de prosseguirmos nossa análise sobre as demais práticas dos estudantes,trataremos da inscrição destas tradições, de forma que podemos situar este universo e seu graude interdependência e institucionalização de hábitos internos. As repúblicas são diferenciadasentre modos de gestão (federais e particulares), divisão sexual (masculinas, mistas efemininas); e a continuidade das casas, o que releva os aspectos tradicionais e não-
    • 58Tradições: Quadros dos ex-alunos na República Aquarius. Foto do autor, 2010.tradicionais. Estas distinções tornam-se importantes para a compreensão do modo de vida dosrepúblicos e como é possível a continuidade das mesmas após um período longo deexistência, a qual é expressa através dos quadros colados nas paredes das casas.Imagem 03As tradições orientam a continuidade de práticas cotidianas e modos de habitar a casa.Além disso, o estilo de vida do calouro é fundamental para sua permanência no grupo. Nestesentido, a liberdade individual de cada morador é articulada às regras coletivas da república,que determina, por exemplo, quando os membros devem fazer algum programa juntos, comosair às festas, embora não em caráter de obrigatoriedade etc. (MACHADO, 2007). Nasrepúblicas a individualidade de cada morador é reconhecida à medida que convivam com asdiferenças, pois todas elas possuem linguagens, vocabulários e formas particulares desociabilidade (SARDI, 2000).Entendemos, então, que não são somente as regras normativas que orientam a ação decada sujeito, mas como este se articula no espaço da diferença, em que o reconhecimento desua identidade perpassa o jogo da sociabilidade, como também o processo de socializaçãointerna das repúblicas. As regras, de certa forma, legitimam certos usos e ações no âmbito
    • 59próprio do grupo, no qual há meios que possibilitam a continuidade das práticas tradicionaisatravés do entendimento mútuo do lugar. Em primeira consideração, o conhecimento daautogestão possibilita a inserção do indivíduo no lugar. Em segunda consideração, aautonomia, a cooperação, a solidariedade e o apoio mútuo são formas de interação com aspráticas tradicionais. Por exemplo prático, podemos referir a demanda de o calouro seautorreconhecer como “bixo”, seguindo uma cadeia hierárquica por ordem de chegada à casa,até que ele passe a ser o “decano” (membro mais velho da casa).Em Ouro Preto, as tradições não são exclusividade das repúblicas federais. Há tambémrepúblicas particulares que seguem práticas tradicionais que compõem o sistema dasrepúblicas: a Festa do 12 de Outubro (aniversário da Escola de Minas), o 21 de Abril(aniversário das repúblicas fundadas no Morro do Cruzeiro), o uso de placas, o corte decabelo, os trotes, as hierarquias, as “cumadres”, os hinos, os vocabulários e os quadrinhosdispostos na parede da sala com fotos dos ex-alunos formados. Nas palavras de “Thumiaio”,morador da República Saudade da Mamãe e presidente da Refop, podemos visualizar a ideiade tradição deste “sistema de repúblicas”:Eu tenho certeza que a república federal, por mais questionável que seja essamodalidade de assistência estudantil, eu sou exemplo que não estaria em Ouro Pretose não fosse uma república federal. A situação de muitas pessoas aqui não é boa. Agente preza esse sistema de autogestão e autonomia justamente pra continuar arepública. A gente tem autonomia pra escolher quem vai morar e dar prioridade praquem precisa, mas não dá pra continuar com pessoas que não vai continuar com atradição que a gente preza. Que é uma tradição que às vezes impõe contradições.Mas há tradições que são boas. E a tradição de república federal é uma tradição boa,existe uma irmandade, uma família. Tem os quadrinhos nas paredes das pessoas eelas sempre voltam aqui pra saber como que tá a casa. Sempre ajudam pra saber se oespírito que eles deixaram aqui e levaram pra fora ainda tá continuando na casa. Nomeu ponto de vista morar 12 pessoas sem um critério de afinidades não dá. Eu nãovou conversar com um cara que não vai comigo27.Por outro lado, há um expressivo número de repúblicas particulares consideradas não-tradicionais. Estas seguem critérios de ocupação que as diferem das repúblicas tradicionais.Não há uma tradição constituída, pois grande parte destas formam-se com 3 ou 4 alunos emapartamentos alugados, não tendo então um referente espacial ou mesmo possibilidade decontinuidade da república por questões internas, como as brigas entre os moradores ou a faltade condições em manter o aluguel, visto que em Ouro Preto a especulação imobiliária tornou-se alta. “Thumiaio” explica que além da falta de estrutura de muitas pequenas repúblicas que27Depoimento concedido pelo estudante-morador da República Saudade da Mamãe, Jorge Benedito de FreitasTeodoro, Thumiaio, em 28/04/2010.
    • 60surgem ao longo do tempo, há ainda o fator geracional relacionado à dificuldade de se morarem uma cidade patrimonial como Ouro Preto:A gente luta pra manter essa tradição porque afinal todo ano chega gente. E umacoisa, eu cheguei com 21, mas a maioria da galera tá chegando com 17, 18. Cadavez mais novos e é uma vida diferente, é um convívio diferente. A gente requer umperíodo de adaptação. Precisa-se se adaptar à nova família, longe dos pais, pracompreender Ouro Preto que é uma cidade complicada28.Neste sentido, além das mudanças no espaço-tempo referente à inserção de novosmoradores cada vez com idade menos elevada, o que tem sido uma tendência dasuniversidades brasileiras através dos recentes programas do Ministério da Educação (MEC)como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e o Programa Universidade Para Todos(PROUNI), há a questão patrimonial que sabemos ser pouco entendida segundo a confusaequação público-privado no Brasil. Assim sendo, os repúblicos mais velhos devem orientar osnovos moradores sobre a preservação do bem público. Ao passo em que preservam a casa e adá continuidade à república, os moradores, devem, via de regra, adequarem-se às leis depreservação do patrimônio histórico atribuídas pelo IPHAN, pela UFOP e conforme o PlanoDiretor do Município do Ouro Preto29.As repúblicas estudantis são então constituídas pela autonomia e autogestão, porémsão amparadas por estatuto legal, o que exige nossa atenção. A preservação do patrimônioedificado enquadra o uso das casas apropriadas como repúblicas federais na resolução CUNInº 779 da UFOP, pela qual os moradores são responsáveis por qualquer dano ao patrimônio.Com a criação da Universidade em 1969, os imóveis pertencentes às entidades representativasdas repúblicas – Casa do Estudante de Ouro Preto (CEOP) e Casa do Estudante da Escola deMinas (CEEM) – foram doados ao patrimônio edificado da UFOP.A Resolução CUNI nº 779, aprovada no ano de 2006 pelo Conselho Universitário daUniversidade Federal de Ouro Preto, durante a gestão do atual Reitor João Luiz Martins,refere-se ao Estatuto das Residências Estudantis que integram a política de incentivo àpermanência dos discentes na UFOP. O objetivo do Estatuto, que considera Residência28Idem.29O Artigo 2º do Plano Diretor do Município de Ouro Preto, estabelece, conforme a Lei Complementar Nº29 de08 de Dezembro de 2006, que “Os bens artísticos, arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos de relevante valorcultural e natural localizados no Município e tomados individualmente ou em conjunto, são considerados bensínalienáveis de sua população, cabendo a ela exercer de forma concorrente às diferentes esferas daAdministração Pública, a sua guarda, proteção e gestão”.
    • 61Estudantil as chamadas Repúblicas Federais legalmente cedidas aos moradores, é assegurar amoradia aos estudantes regularmente matriculados.No Artigo 2º disposto no Capítulo I deste Estatuto, dispõe-se algumas atribuiçõesnecessárias ao bom funcionamento da república e convívio dos moradores. A ideia geral éoferecer ao estudante morador um ambiente de sociabilidade e estudos com boas condições demoradia. Há também a atribuição para que a república seja lugar de desenvolvimento daformação humanística do estudante, na qual o dever e responsabilidade com o patrimônio sejaincentivado pelo espírito de solidariedade e cidadania. Visa-se então o cumprimento dedeveres e a compreensão dos deveres para que ocorra um vínculo comunitário (RESOLUÇÃOCUNI, UFOP, 2006). Nos capítulos seguintes, dispõe-se as atribuições das residênciasestudantis segundo a ética de responsabilidade dos moradores e as sanções nas esferasadministrativa, penal e civil advindas pelos atos praticados no uso interno da casa.Por isso em cada república há um morador responsável por representá-la oficialmente.Surge então a figura do “Decano”. Membro com maior tempo de residência e responsávelpela administração da casa e que assegura os deveres aos novos moradores. Para isso, indica-se no Artigo 5º do Estatuto que “cada Residência Estudantil deverá ter seu próprioRegimento Interno, que estará subordinado a este Estatuto, bem como ao Estatuto e aoRegimento Interno da Universidade Federal de Ouro Preto” (RESOLUÇÃO CUNI, UFOP,2006). Neste sentido, a UFOP elaborou junto à Associação dos Moradores das RepúblicasFederais os critérios de preenchimento de vagas, não admitindo a existência de vagas ociosas.Este critério democratiza o acesso às casas, o que impossibilita a exclusão de pessoas por atosindividuais dos moradores.Dentre os direitos dos moradores é permitido o uso das instalações conforme asnecessidades diárias e a adoção de procedimentos de auto-gestão de cada residência. Assimsendo, o uso e a apropriação dos espaços para alojamento de terceiros não é vedada paravisitas de familiares, colegas e eventuais convidados. No entanto não é permitido oalojamento para fins lucrativos como o aluguel de quartos para visitantes. Entre os deveres, aadministração e a conservação do patrimônio estabelece-se em primeiro plano. Entre outrosdeveres deve-se manter respeito mútuo entre os pares envolvidos no uso das casas e ocumprimento com as normas de conservação do imóvel. Chamou-nos a atenção um item queresvala diretamente nas tradições das repúblicas, o qual refere-se aos trotes acadêmicos e temem vista coibir qualquer tipo de ato que constranja os moradores ou que venha a ferir osprincípios de dignidade humana.
    • 62Por fim, as repúblicas particulares também se amparam em regime legal pelo Estatutoda Associação das Repúblicas Particulares Autônomas de Ouro Preto30. L. Sayegh aponta queno final da década de 60, começam a proliferar as repúblicas particulares em Ouro Preto,reflexo do aumento de vagas na instituição. “As repúblicas particulares também têm seusnomes e tradições próprias, a grande diferença entre essas e as repúblicas federais é opagamento do aluguel, rateado pelos moradores” (2009, p. 118). Deste feito, as mais de 300repúblicas de caráter particular, localizadas no Centro Histórico e no Bairro Bauxita, têmexperimentado um grande desafio para sua manutenção. A especulação imobiliária de OuroPreto converge para a exaustão da patrimonialização do acervo socio-histórico e do turismo –o que tem dificultado a continuidade de muitas repúblicas não amparadas pela Universidade.Devido à grande quantidade de residências têm ocorrido muitos conflitos entreestudantes e a população da cidade. Além disso, as leis de preservação patrimonialestabelecem códigos de conduta que vêm sendo discutidos amplamente com os repúblicos epela Prefeitura do município. Estas questões e outras serão abordadas nos capítulos seguintes,nos quais discutiremos como as tradições dos repúblicos têm elaborado os espaços da “cidadeuniversitária” através de práticas que nem sempre convergem com a identidade atribuída àcidade de Ouro Preto.30Cf. http://www.republicanotredame.com/estatuto.pdf, Acesso em 20 de Julho de 2010.
    • 634. INSCRIÇÃO DAS TRADIÇÕES ESTUDANTIS DE OURO PRETOA cultura oscila mais essencialmente entre duas formas, das quais uma sempre fazcom que se esqueça da outra. De um lado, ela é aquilo que “permanece”; do outro,aquilo que se inventa (CERTEAU, 1995, p. 239)Vive-se em uma república compartilhando modos de habitar um determinado espaçofísico, por vezes restrito de equipamentos e espaços próprios, assim como modos de vida maisou menos convergentes. Será que as limitações físicas são empecilhos para a boa convivênciae o desenvolvimento da sociabilidade cotidiana? Como os jovens estudantes de diferenteslugares, culturas e valores sociabilizam-se em um dado espaço? O que permeia a adaptaçãode uma pessoa na república é como seu estilo de vida, valores, fazeres, interesses e linguagenstorna-se presente entre os demais membros da casa. Além disso, cada república possui regrasespecíficas que atingem principalmente o calouro, o qual tem que se adaptar para quecontinue vivendo na casa. Nesse processo de mudança há diversos aspectos favoráveis edesfavoráveis de se viver em uma república. Ademais, para quem foca o estudo comoprincipal perspectiva dessa mudança pode se deparar com uma convivência dinâmica entrerotina, estudos e festas.Grande parte da literatura que conseguimos sobre repúblicas no Brasil enfatiza queviver longe da família, do comprometimento mútuo com os pais, por mais conflitivo que seja,estabelece uma demarcação espaço-temporal na vida dos jovens que arriscam sair de casapara conviverem com outros até então desconhecidos. Alguns valores nucleares tornar-se-ãodissonantes para os jovens que migram de outro Estado ou cidade. Entretanto, o contatodiário, do estranho ao familiar, com outros jovens em um mesmo espaço descerra as fronteirasdo que pode ser considerada uma família ou não. Não substitui o núcleo familiar, mashibridiza a noção de família através dos multipertencimentos dos grupos característicos(VELHO, 2006), visto que o período de pelo menos quatro anos já estabelece uma ponte para ao entendimento de novos valores.As diferenças socioculturais dos jovens com a família são sempre demarcadas aolongo do período de convivência com os amigos do bairro, condomínio ecolégios/universidades, assim como pelos meios de comunicação: internet, televisão, rádio,revistas etc. Os novos valores disseminados pelo “outro” adentram a casa, levando o públicoao privado, consistindo nas primeiras dissonâncias de valores, linguagens e estilos de vida. Damesma forma, viver em república corresponde a situações próximas, pois nunca se sabe quemé ou como vivem os demais jovens que habitam a casa. Por isso são criados, para o
    • 64entendimento do lugar, as regras e regimentos internos subordinados ao Estatuto e Regimentointerno da Universidade Federal de Ouro Preto (RESOLUÇÃO CUNI, UFOP, 2006). É comose essa demarcação estabelecesse o ponto de partida para a interação dos membros da casa.4.1 A cidade das repúblicas e as práticas rituaisA cultura universitária ouro-pretana existe desde a fundação da Escola de Minas deOuro Preto, em 12 de outubro de 1876. Com a fundação da Universidade Federal de OuroPreto em 1969 foram integradas as Escolas de Farmácia e de Minas e nos anos posterioresforam criados outros núcleos como o Instituto de Ciências Exatas e Biológicas (ICEB/1982),a Escola de Nutrição (ENUT/1978), o Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC) e oInstituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS/1979), sendo este último criado na cidade deMariana. A partir dos anos 1940, com a fundação da Casa do Estudante de Ouro Preto (1964)e mais tarde com a fundação da Casa do Estudante da Escola de Minas (1953), ocorreu aconstrução de casas para estudantes e a compra de antigas casas que abrigaram váriasrepúblicas, a exemplo da Canaan, Sparta, Pureza, Reino do Baco e Formigueiro. A UFOPassume a responsabilidade pelas casas somente em 1975, visto que os repúblicos tiveramdificuldades na manutenção (MACHADO, 2003).No entanto, a consolidação das repúblicas através da compra ocorreu após ummovimento organizado pelos estudantes em 1968, que reivindicaram casas para moradia. Aespeculação imobiliária da cidade tornou-se, por um lado, um empecilho para a continuidadedas repúblicas; por outro, motivou a manifestação que ocorreu com um acampamento naPraça Tiradentes sob a liderança do Diretório Acadêmico da Escola de Minas e a ocupação dealgumas casas no centro histórico. Como consequência dos protestos, a Escola de Minas, como apoio financeiro do Ministério da Educação, optou por comprar diversas casas para abrigaras repúblicas, tornando-as patrimônio da Escola (MACHADO, 2007).Já a partir da década de 70, com o crescimento da UFOP, aos poucos o fluxo deestudantes foi aumentado e no entretempo de sua consolidação a presença maciça dos jovensno espaço público imprimiu novas formas de sociabilidade, práticas sociais e hábitos queconstruíram tradições e modos de vida diferenciados. Ouro Preto passa a ser não somente a“cidade das repúblicas”, mas uma “cidade universitária” em que se enunciam formasdiferenciadas de culturas urbanas, marcadas pela instalação das repúblicas estudantis que secaracterizam pela forte inscrição sociossimbólica na paisagem cultural da cidade. A vida
    • 65urbana cotidiana e a cultura universitária inscreveram um vasto conjunto de relações sociais eespaços identitários, demarcando “lugares” na cidade.Diversos espaços da cidade, como a Praça Tiradentes, o Cine Vila Rica, a Rua I.Bretas (Rua da Escadinha), o Centro Acadêmico da Escola de Minas (CAEM), assim como aspróprias repúblicas, podem ser qualificados como espaços híbridos ou fragmentários, aoenunciarem usos que os transformam em lócus de sociabilidades públicas. No entanto, aapropriação e o uso dos espaços e as práticas sociais que neles se estabelecem são motivos deconflitos tanto institucionais quanto sociais. Como veremos, os usos cotidianos dos estudantessão questionados à medida que a noção preservacionista do patrimônio material pareceameaçada. Ainda assim, devemos questionar por quais razões não são as próprias repúblicasparte desse vasto acervo cultural ouro-pretano.Viver em repúblicas não se traduz em uma escolha aleatória. Neste caso, sair de casa edo município de origem para ingressar nas universidades de outras cidades torna-se umdesafio pessoal e coletivo para os jovens estudantes. A coabitação e o convívio com pessoasdesconhecidas, desiguais e diferentes, faz da república um lugar em que compartilhar aidentidade e os estilos de vida torna-se um aspecto necessário para que um moradorpermaneça na casa até o fim do curso. Além disso, compartilham-se as experiências comunsnão somente no espaço da casa, mas na própria inserção dos estudantes na cidade.Os jovens possuem então um quarto próprio, mas que agrega diferentes significadosdo quarto na esfera familiar. Ter um quarto próprio não significa exatamente que desde oprimeiro dia cada estudante terá seu lugar próprio. A cultura do quarto próprio enunciou-sedesde as gerações dos anos 60 em diante quando o quarto foi reivindicado primeiramentepelas jovens como espaços de sociabilidades e de exercício da intimidade femininas, pois écomum na cultura juvenil feminina não haver disjunções na intimidade do corpo ao trocar deroupa ou ir ao banheiro, além da troca de artefatos e signos culturais (os diários, oscosméticos, roupas etc). Como é sabido, as mulheres (mãe, filhas, amigas) costumam estarmais à vontade e próximas entre elas. Já os homens reivindicaram os equipamentos públicoscomo praças e quadras de esportes, pubs, cafés etc, ganhando as ruas mais cedo. Contudo, osjovens em geral apropriaram-se dos quartos para formar associações e desenvolverematividades práticas como ouvir e tocar músicas, ver filmes etc.A questão que se levanta é outra. Enquanto que geralmente os jovens-adolescentesbuscam maior liberdade, fogem da vigilância dos pais ou vivem nos seus próprios quartos,transformando-os muitas vezes em um lugar íntimo, fechado; também abstém-se de algumasresponsabilidades da casa e procuram construir suas identidades ao lado dos amigos
    • 66percorrendo os lugares distantes do bairro; os jovens repúblicos de Ouro Preto, emboraestejam distantes da família, deparam-se com a responsabilidade de cuidar da casa e com oaprendizado de tarefas domésticas, mesmo que tenham uma “cumadre” para fazer o almoço elimpeza diária.Não é possível afirmar que um repúblico tenha a casa inteira só para ele. A república étambém lugar de convivência e divisão de bens e espaços. As repúblicas diferem-se dospensionatos e de muitos tipos de moradia em que as pessoas dividem um apartamento, masnão compartilham bens, tais como comidas e produtos diários. O chamado “sistema dasrepúblicas” compreende por um lado, regras, princípios e tradições que orientam osmoradores sobre que pode ou não ser feito na república: são responsabilidades para com acasa (saber trocar uma lâmpada, consertar uma torneira etc.) e com os outros (o bem-estar decada um). Além da divisão de tarefas há a divisão das hierarquias da casa que começa pelomembro mais velho (o Decano) até os recém-chegados (semi-bixo e bixo), preza-se o respeitomútuo e confiança entre os membros. Este “sistema” é válido para qualquer repúblicamasculina, mista ou feminina. Neste caso as ações e comportamentos individuais são dealguma forma observados, críveis de um controle interno. Por outro, os moradores dispõem deliberdade individual, do respeito com o modo de vida e a cultura de cada morador, massobretudo, da sociabilidade cotidiana.As repúblicas são um tipo de moradia regulada e administrada pelos própriosestudantes e que são, no caso de Ouro Preto, ou públicas (federais) de propriedade dauniversidade ou particulares alugadas pelos estudantes. Ao todo são 444 repúblicas, das quais66 são federais (58 em Ouro Preto e 08 em Mariana) e 378 particulares (329 em Ouro Preto e49 em Mariana), sendo grande parte delas constituídas de tradições. São ainda divididas entremasculinas, mistas e femininas (Anexo 01). (É preciso ressaltar que em Ouro Preto, aocontrário de Mariana, possui somente uma república federal de caráter misto. As informaçõeslevantadas durante a pesquisa de campo sugerem que este fato advém da descontinuidade dasrepúblicas mistas ao longo dos anos. Não há informação institucional para este tipo específicode sociabilidade). A UFOP oferece aos estudantes duas possibilidades de moradia, que são depropriedade da Instituição, sendo elas (MORADIAS ESTUDANTIS, UFOP):1. Alojamento: possui 64 quartos individuais e fica localizado no Centro deConvergência, campus Morro do Cruzeiro. A seleção é feita por meio de umaavaliação socioeconômica e de uma entrevista com a equipe da Prace (Pró-Reitoria de
    • 67Assuntos Comunitários e Estudantis). O ingresso acontece a partir da disponibilidadede vagas.2. Repúblicas Federais: são os imóveis que a Universidade cede aos alunos para amoradia estudantil. Em Ouro Preto são 58 repúblicas. Elas se localizam no entorno docampus Morro do Cruzeiro e espalhadas pelo centro histórico de Ouro Preto. Àsmoradias é assegurada a autogestão, em que cada casa tem seu regimento interno.Assim sendo, cada moradia tem um critério de seleção próprio que dura três meses, eno qual é avaliado o espírito de solidariedade e senso de comunidade.3. Já em Mariana, são sete casas pertencentes à Instituição que se localizam próximas aoInstituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS). A seleção é feita em parceria com aPrace, que seleciona previamente os alunos por critérios socioeconômicos.4. As Repúblicas Particulares são outra opção de moradia para os alunos em Ouro Preto,Mariana e João Monlevade. São aquelas onde grupos de estudantes se unem e alugamum imóvel particular, dividindo os custos referentes à manutenção da casa. Este valoré muito variado, pois depende do número de moradores. A UFOP colabora com oapoio jurídico, por meio de projeto de extensão do curso de Direito, no que dizrespeito ao relacionamento com os locatários.A distribuição de vagas/curso e os dados referentes à naturalidade do aluno podem servisualizados no Anexo 02 deste trabalho. Referem-se a dados sobre 1) alunos nascidos emOuro Preto e outras cidades de Minas Gerais; 2) de outros Estados. No período de matrículados calouros, os alunos moradores das repúblicas federais e particulares divulgam as vagasexistentes. São montadas tendas no campus localizado no Morro do Cruzeiro, onde osmoradores recebem os calouros e divulgam em folhetos as informações sobre a história darepública e a estrutura da casa, além de estabelecerem os primeiros contatos com ospretendentes às vagas (ver Imagem 04 e 05). É neste momento que se conhece também ofuncionamento das repúblicas: organização e manutenção, custos, batalha por vagas e oprocesso de escolha etc.
    • 68Imagem 04Imagem 05Cartaz-convite aos calouros ingressantes na UFOP. Fonte: República Nau Sem Rumo
    • 69Somente após o ingresso do calouro na república é que os estilos de vida do novato edos demais moradores se publicizam de maneira que possam compartilhar da liberdade deescolha e permanência na república. Forma-se então um espaço-tempo liminar, cria-se umaidentidade para ele no momento em que é escolhido como novo morador, que se traduz no“apelido”. Os calouros têm em média 6 meses (1 período letivo) para adaptar-se à república edeve compreender sobretudo os aspectos mais importantes da casa: organizar, respeitar eaprender para dar continuidade à república quando passar a ser o Decano da casa. Esteprimeiro contato abre múltiplas possibilidades para o calouro escolher em qual repúblicatentará “batalhar” para morar. Uma república em Ouro Preto é habitada por um número quevai geralmente de 6 a 15 pessoas, conquanto que seja preenchido corretamente o número devagas.O calouro passará então pelo período de adaptação na república, conhecido pelosestudantes como “batalha” de vagas. Neste entretempo ele é chamado por “bixo”, o queconstitui uma identidade compartilhada entre os estudantes repúblicos. Sendo um ritualtradicional, a batalha existe e tem sua continuidade devido a objetivos consideradosimportantes pelos repúblicos, tais como a vivência e o aprendizado do calouro segundo asnormas da casa, o amor e zelo pela casa, o companheirismo e cumplicidade com os demaismoradores, o entendimento de alguns códigos e situações que são criadas para o pretendente(trotes como o “vento”, por exemplo – cf. expressões linguísticas de Ouro Preto, inscritas noAnexo 03 deste trabalho). É considerada uma experiência única, pois é neste período que ocalouro deve mostrar maturidade tanto com a vida acadêmica quanto com o convívio entre osrepúblicos. O estudante “Barrigada”, morador da República Aquarius, explica que aadaptação dos calouros depende de cada pessoa. Há jovens que já moraram fora para estudarou trabalhar e há outros que chegam ainda imaturos não só pela idade, mas porque nuncarealizaram uma tarefa doméstica ao depender sempre dos pais31. Durante o período da batalhaé avaliada a “personalidade” do bixo, suas atitudes, iniciativas pessoais, assim como seucomprometimento com os problemas cotidianos da república e dos moradores.A tradição da “batalha” não é uma prática compartilhada por todos de maneira franca.Este ritual tornou-se polêmico e criou uma imagem conflitiva dos repúblicos, que sãoacusados de fazer do “bixo” um verdadeiro serviçal, ao tratá-lo de maneira humilhante. Nainternet é possível encontrar relatos de ex-repúblicos que acusam os moradores mais velhosda casa de explorar os calouros nas tarefas da casa, na organização das festas, impedindo-os31Depoimento concedido pelo estudante-morador da República Aquarius, Ronan de Freitas Santos (Barrigada),em 27/04/2010.
    • 70de agir por conta própria. Esta polêmica deve-se ao fato de que alguns repúblicos traduziramas hierarquias como uma distinção de poder, de modo que ocorreram abusos e conflitos entreos mais velhos e o recém-chegado, como informa-nos um ex-repúblico:Já morei em uma república onde o decano queria mandar em todos. Confundiu seupapel de líder com o de ditador. Até hoje me surpreendo com um fato: houve umafesta na república e um dos convidados bebeu muito e vomitou na parede da sala. Euestava cumprindo meu papel de bixo, servindo as cervejas e comidas, abrindo porta,atendendo telefone, coisas que são feitas em várias situações e não só em festa. Masaí, ao invés dele limpar o vômito, virou-se para mim e disse esbravejando: Limpe!Limpe isso tudo aqui! Eu recusei na hora, pois aí já é abuso. Depois disso “catei”antes do dia da escolha mesmo. Fui morar num pensionato, mas hoje moro em umarepública particular formada com alguns amigos32.Este problema citado refere-se não exatamente a um modelo de hierarquia rígido elegitimado, pois tradicionalmente as hierarquias servem como uma forma de ordenar asresponsabilidades. O presidente e o vice-presidente (decanos) coordenam as contas da casa,telefone e as despesas, sendo rotativa a responsabilidade para estas tarefas entre os maisvelhos da casa. A principal preocupação com o “bixo” é que ele aprenda sobre os aspectosintrínsecos à manutenção da casa para assumir posteriormente a função de presidente. Precisa-se criar confiança entre os moradores para que o lugar não desmanche devido aos conflitosinternos. Assim, os decanos orientam as atividades dos demais membros, não necessariamenteimpondo as regras. Entretanto, segundo este informante, “muitas repúblicas novas nãocompreendem o sistema das repúblicas tradicionais e a distinção hierárquica, aproveitando-se deste período de vulnerabilidade do calouro para mandar, dizer o que fazer”. Para ofilósofo Flávio Tonnetti, ocorre a seguinte situação:Para um turista que queira ir a Ouro Preto, ficar numa república estudantil é acolhidaboa e diversão certa. Organizados, proverão o visitante de cerveja e churrasco. Ecompartilharão suas vidas e sua casa com quem de lá se aproxime. São, em suma,ótimos anfitriões. No entanto, se o processo é acolhedor para os turistas que vãopassar dias numa república, o mesmo não se dá para com os calouros, recém-chegados na cidade. Para o estudante novato, não é simples descolar uma vaga numarepública. Para ser acolhido como morador, o candidato, doravante chamado bicho,deverá seguir regras severas para se adequar ao funcionamento da casa dentro daqual está pleiteando uma vaga (TONETTI, 2007)Tal situação é compartilhada por inúmeros estudantes que não se adequaram aosistema das repúblicas. Durante nosso incurso na cidade e a pesquisa feita em blogs e sites nainternet obtivemos vários relatos sobre o período de batalha e levantamos inúmeros conflitosentre os estudantes. Alguns alunos preferiram abrir mão de batalhar para não sacrificar os32Depoimento concedido por Gustavo Tenório, estudante do curso de direito, em 29/04/2010.
    • 71estudos. No entanto, para Tonnetti, esta constatação não chega a ser um problema grave paraos calouros, sendo também uma forma de inscrição do novato na vida republicana:Primeiro terá seu cabelo cortado de maneira típica, um trote tradicional entreestudantes – sendo que neste caso cada república tem um jeito próprio de cortar ocabelo do seu bicho. Depois, terá que mostrar que se adequou às rotinas e normas dacasa. Embora possa ser um choque, os novatos logo se acostumarão com seus novoscabelos, que em nada os atrapalhará, já que na cidade todos conhecem o ritual: asmoças não deixam de paquerar os rapazes por conta do cabelo esdrúxulo. E o bichoretirará daí seu primeiro aprendizado: mudar seu visual não significa mudar quemvocê é. A mudança de quem você é virá com as rotinas da casa. O bicho passará seismeses acordando mais cedo, limpando os banheiros e preparando o café para odemais moradores. Estes, por sua vez, avaliarão o comportamento do candidato,tirarão sarros homéricos e transformarão a vida do bicho num período muito, muito,difícil (TONNETTI, 2007)De outro modo, o estudante “Maldada”, morador da República Nau Sem Rumo,argumenta que a “batalha” é apenas um momento de adaptação e de socialização. O períodode adaptação ou “batalha” torna-se importante também na sociabilidade cotidiana e não seconfigura como uma disputa entre os calouros. Segundo informou, há diversos mitos sobre asrepúblicas que generalizam a visão negativa sobre suas tradições. Situações pontuais, queocorreram em uma ou outra república tendem a ser generalizadas e criam um senso comumacerca do sistema de repúblicas. “Ligador”, morador da República Aquarius, explica que nãohá sentido em humilhar ou “sacanear” uma pessoa que vai compartilhar um mesmo espaçoque os demais por 4 ou 5 anos.O que pode ser considerado são as punições àqueles calouros relaxados edesinteressados em fazer as tarefas domésticas. O aluno faz uma interessante comparaçãoentre as hierarquias nas repúblicas e nas universidades ou empresas, o que fundamenta aPraxe Acadêmica conceituada por Aníbal Frias (2002, 2003). A punição assim como adistinção hierárquica refere-se às obrigações da cada um. Se não cumpriu com o dever de casahaverá outros em dobro, e caso não se adapte o aluno poderá não ser escolhido comomorador. “Se você trabalha numa empresa e não cumpriu alguma coisa, de algum modo oseu chefe vai te punir. Seria mais ou menos nessa linha e para até que nossa formação tantoacadêmica quanto profissional saia melhor”33.É preciso observar que as repúblicas são divididas entre masculinas, mistas efemininas, onde há modos de habitar e usos distintos. Deste modo, também há diferençasentre estes três tipos de repúblicas na sociabilidade cotidiana em diversos aspectos. Os33Depoimento concedido pelo estudante-morador da República Aquarius, Gustavo Dimas Chaves Barbosa(Ligador), em 27/04/2010.
    • 72“bixos”, por exemplo, dormem nos quartos coletivos, com duas ou mais pessoas para que osrecém-chegados possam compartilhar experiências, hábitos e demandas entre eles. “Ligador”explica que a divisão de quartos ocorre também para que os calouros possam interagir aopasso que vão se integrando na república. O espaço íntimo (privado) torna-se necessário nãosó nas repúblicas, mas como uma demanda própria dos jovens-adolescentes. Assim, nasrepúblicas em geral há a preocupação de evitarem preconceitos contra o novo membro, dadoque seu estilo de vida possa diferenciar-se dos demais.De acordo com “Maldada”, o ritual da batalha de vagas não constitui uma disputaentre os calouros, pois as repúblicas oferecem somente a quantidade de vagas que dispõem.Não podem 3 calouros batalhar por 2 vagas na república. Como também não há exploração,há tarefas específicas e as cobranças são feitas para que os calouros não se abstenham dosafazeres e do zelo pela casa:A batalha... eu nunca falo esse nome porque soa estranho. Você não tá numabatalha, numa guerra. Na verdade não é isso. É um período de adaptação do calouro.Porque você já tem o calouro que já mora aqui e ele vai tentar passar pra eles como éa convivência em grupo, como é a organização da república. Então se o calouro seadequar a isso e gostar ele vai batalhar pra ficar. Na verdade não é batalhar paraficar. Ele se esforçar, demonstrar interesse, mostrar convivência, mostrar o métodode socialização dele principalmente, né. Que ele tá disposto de morar na república,que gostou de conviver34.Como é retratado neste depoimento, a socialização torna-se o método de inserção donovato na casa. Entretanto, é preciso que ele esteja disposto a inserir-se também, publicizandosua identidade. O estilo de vida de cada um é avaliado pelos demais moradores, observadocotidianamente, não como uma forma de controle, mas para que no dia da escolha estespossam fazer um julgamento contundente. Por isso o quarto coletivo torna-se importante naconfiguração fragmentária da casa. Este é o lugar do calouro em que seus signos e identidadessão reforçados à medida que se reconhecem na sociabilidade cotidiana. Um jovem maistímido e frágil pode não ter “táticas” para apropriar-se de um lugar (CERTEAU, 1994), destemodo, ele tenciona ficar à margem nas relações que se estabelecem na república. Inscrevendo-se no lugar e socializando-se com os demais calouros ele pode enfrentar as indeterminaçõesde estar na república:34Depoimento concedido pelo estudante-morador da República Nau Sem Rumo, Thiago César da Silva(Maldada), em 29/04/2010.
    • 73Você não tem como aceitar um calouro, por exemplo, que não gosta de morar commuita gente, que quer ter tudo dele individual, separado como se fosse assim... umapensão memo. Você chega numa casa, vai pro seu quarto, você tem suas coisas ali,fulano tem as coisas dele, então a gente não tem isso. Tem uma geladeira que é darepública então a gente faz as compras tudo em conjunto e todos os gastos sãodivididos pra todo mundo. Então não tem como você ter sempre só suas coisas. Ocalouro passa por esse período de adaptação pra ver se ele se adapta ao sistema. Senão se adaptar não tem como a gente escolher morar com uma pessoa que não tem amínima característica de morar em conjunto35.A vida em república rompe com a ascensão do individualismo. No entanto, isto nãosignifica a queda da individualidade do morador. Cada repúblico tem estilo de vida, cultura,linguagem, educação familiar e posições políticas diferentes, e por isso a república torna-seum espaço híbrido, no qual as interações cotidianas implicam formas distintas de contatoentre todos. Os conteúdos culturais e as diferenças são reconhecidas e compartilhadasreflexivamente pelos moradores, desde quando não quebrem as normas pertinentes àrepública. No caso das repúblicas federais, embora existam normas que regulem os usos eresponsabilizem os moradores por qualquer ato considerado ilegal ao bem público, a repúblicatem a característica dos lugares urbanos, visto que para além de ser uma casa de estudantesrestrita para tal uso, ela é uma demarcação espacial permeada de ações simbólicas esociabilidades gregárias.Uma das principais formas de identificação dos calouros ocorre através de doisaspectos primeiros: o uso de placas e os cortes de cabelo36. Estas “placas” são feitasgeralmente de papelão e têm por objetivo identificar o calouro de cada república.Consideram-na fundamental para a socialização do novato e para sua livre inserção em cadarepública. Com esta forma de identificação o calouro tem certa visibilidade, o que descerra, dealgum modo, a possibilidade de considerarem aquela pessoa um completo estranho no lugar –não sendo nem turista, nem “nativo”. A prática de cortes de cabelo também tinha esteobjetivo, embora o calouro não tivesse escolha como seria o corte. Em alguns casos osestudantes escreviam o nome da república ou faziam algum corte que destoasse da estéticavisual dos novatos.O uso das placas ocorre desde a fundação da república Castelo dos Nobres. As placaseram pequenas e continham uma breve informação indicando em qual república o calouromorava. Esta prática, embora não seja unânime, permite que o novo morador tenha uma35Depoimento concedido pelo estudante-morador da República Nau Sem Rumo, Thiago César da Silva(Maldada), em 26/04/2010.36O uso de placas foi proibido pela UFOP há 1 ano. Segundo os depoimentos coletados, o MPF argumenta que ouso de placa é considerado trote, prática proibida em todo o território nacional através da Lei 1023/95, aprovadano ano de 2009.
    • 74identidade vinculada à república quando sai às ruas da cidade. Usar a placa, de acordo com osrepúblicos entrevistados durante nossa pesquisa, não é uma mera prática para os fins dostrotes ou perturbar o calouro, pois é vista como uma forma de inserção do novato nacomunidade republicana. É através dela que o calouro torna-se conhecido entre os repúblicose assim ele poderá ter a liberdade de transitar em qualquer uma, pois ele não é consideradoum estranho. Nas festas que são realizadas nas repúblicas qualquer estudante novato temacesso, pois conseguem visibilidade na sua rotina de estudos e nas “sociais” que fazem aolongo do período. Vejamos este quadro de entrevista37:Quadro 01A placa é considerada um meio de socializar o calouro. Considera-se a “carteira deidentidade” do repúblico, onde logo é inscrito o apelido do “bixo” e em nome de qualrepública ele batalha. Além disto, ela é considerada pelos repúblicos como uma indumentária,um artefato que diferencia os estudantes de qualquer outra pessoa – seja ele nativo ou turista.Entretanto, por ser um trote, o uso das placas e os cortes de cabelo são contestados por muitos37Depoimentos concedidos pelas estudantes-moradoras da República Lumiar, Ana Paula Costa Aguiar (Só-Ri) eJuliana Almeida Rocha (Teka), em 28/04/2010.Entrevistador – Qual a opinião de vocês sobre o uso da placa?Só-Ri – É legal, porque todo mundo sabe que você é bixo, por exemplo, todo mundo sabe que você ébixo da Lumiar!Teka – Por exemplo, tem uma história de um amigo meu que foi lá no centro para sacar dinheiro e irpara aula, mas não tinha nenhum centavo para sacar dinheiro. Aí ele olhou e tinha um bixo com ocabelo feito e ele perguntou “Meu irmão de batalha, você tem R$ 1,40 para eu subir de ônibus?Depois vou lá para te dar” E o cara deu sem problemas. Porque, tipo assim, acaba que aquela pessoate identifica. Mesmo que você não conheça a pessoa, você tem a liberdade de chegar. Ou você tá namesma situação que ele ou você pode fazer isso por mim.Só-Ri – É como você ver um irmão de batalha. Mas agora eu não sei quem é bixo da onde, porquenão tem placa. A placa é para te identificar.Teka – Eu andava de placa e o povo chegava tipo assim “nossa caloura, você é bixo da Tim? Quetrote hein?”Só-Ri – Aí você tem o seu nome lá identificado, tem lá seu apelido! Aí todo mundo já sabe seu nome,porque, tipo assim, você é novo e as pessoas esquecem seu nome ou seu apelido.Teka – Outra coisa é que se você vai de placa num dia e no outro não, todo mundo pergunta se você“catou”!Entrevistador – O que quer dizer “uma pessoa catou”?Só-Ri – É quando você não é escolhido na república! E quando você é escolhido usa a placa deescolhido as pessoas dizem “nossa, fulana parabéns!”
    • 75estudantes que não se adaptaram ao sistema e às tradições dos repúblicos, pois são usadas nopescoço e variam de tamanho.Para o estudante Maldada, a placa não é um trote, nem uma forma de abuso pessoal,mas o Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual de Minas Geraisentenderam que a UFOP deveria coibir por se tratar de um duplo ato de ilegalidade. Primeiroconsta que as placas, por serem de uso obrigatório do calouro, feriam sua liberdade deescolher usá-la ou não. Segundo porque provocava uma imagem negativa na cidade, devidoaos excessos referentes ao tamanho das placas. No entanto, argumentam os estudantesLigador e Barrigada que as relações (entre repúblicos e turistas ou com outros estudantes quevisitam a cidade) se ampliaram e tornou-se uma forma de ser conhecida cada república e suahistória. Os turistas tiram fotos com os estudantes que passeiam com as placas na PraçaTiradentes e costumam não somente conhecer o patrimônio histórico material, mas também oimaterial, o que inclui o modo de vida das repúblicas – embora não seja este reconhecidoinstitucionalmente como parte do patrimônio cultural de Ouro Preto.Não somente as placas foram proibidas, mas todo tipo de trote que se publicize noespaço público da cidade, a exemplo dos trotes que envolvem situações constrangedoras paraos calouros, como andar pelado nas ruas à noite (isto ocorre quando suas roupas sãotransferidas para outra república) ou quando saem com algum corte de cabelo, roupasemitransparente etc38. O artista plástico Roberto Segabinazzi, gaúcho que transita emdiversas cidades turísticas brasileiras para vender seus desenhos, relata sobre alguns trotes quepresenciou, já que em Ouro Preto ele se apropria da calçada do Cine Vila Rica, na Rua SãoJosé, por onde transitam vários estudantes. Segundo contou, já foram observados calourosfazendo cambalhotas no cruzamento entre as Ruas São José e Conde de Bobadela (RuaDireita).Para Roberto, a prática da cambalhota não é o trote em si, mas o local, visto que asruas de Ouro Preto são pavimentadas com pedras, o que causa desconforto até para andar.Outra situação penosa para os bixos deriva do aspecto lúdico da brincadeira e oconstrangimento. Roberto conta que uma república fez com que seus três calouros corressempraticamente pelados nas ruas do centro histórico, em período diurno, tendo suas “partesíntimas” cobertas somente por um saco de gelo39. Este trote ficou conhecido na cidade como“bixo pelado” e causou diversas polêmicas, sendo também um dos mais citados pelos nativos38Tais situações foram relatadas por diversas pessoas na cidade, incluindo nativos, repúblicos e turistas.39Depoimento concedido no Cine Vila Rica, em 29/04/2010.
    • 76ouro-pretanos. Estes casos podem ser considerados peripécias ou travessuras de jovens-adolescentes à medida que subvertem não somente o cotidiano, as espacialidades e aidentidade designada à cidade por processos políticos que se orientam por uma paisagemsocial saneada e estilizada visualmente.Tais situações incentivaram a ação do Movimento Anti-Trote que formou uma carta deprincípios com relação ao que ocorria na UFOP. A carta intitulada “Movimento pelaDemocratização da Moradia Estudantil na Universidade Federal de Ouro Preto” tece umacrítica aos critérios de admissão nas repúblicas de Ouro Preto, considerando que o sistema deautogestão não possui um regulamento bem sucedido, pois não mantém a estrutura física dascasas, forçando os alunos a pagarem taxas para se manterem. A admissão dos novos alunosem repúblicas, até meados de 2006, baseava-se em critérios de “tradição”40: ritual da“batalha” e solidariedade. Segundo o Movimento Anti-Trote, este critério negligencia ademocratização das moradias a partir da perspectiva socioeconômica41. A principal críticadelibera o fim dos trotes nas repúblicas, considerando que é um ritual de iniciação nasUniversidades que degrada a imagem das instituições em todo o país, ao passo que éhumilhante para as pessoas que passam por tal ritual. O Movimento lista alguns exemplos:1) O apelido é obrigatório, o ingressante abandona o seu nome próprio;2) Uso da placa: carregar uma placa de papelão, em tempo integral, com o seu apelido enome da república, durante esse período chamado “batalha”;3) Vento: “bagunçar” os objetos pessoais do novo aluno, deixá-los fora de casa ouescondê-los;4) Varal: amarrar as roupas dos ingressantes nas sacadas, atravessando as ruas, deixando-as ao relento, etc;5) Capote: virar a cama do ingressante enquanto ele dorme;6) Baldada: jogar um balde de água gelada durante o sono;7) Bicho pelado: colocar o novo aluno para correr nu pelas ruas de Ouro Preto;8) Servir as bebidas durante as festas, permanecendo nelas obrigatoriamente.Ao fim da lista, o Anti-Trote conclui que em Ouro Preto os trotes são ainda diferentesde outras universidades brasileiras, pois depois da árdua “batalha” dos novos alunos, os40Não obtivemos dados sobre este procedimento.41Atualmente este é o critério adotado pela UFOP, com base na RESOLUÇÃO CUNI Nº 779, Estatuto dasResidências Estudantis em Ouro Preto, UFOP, 2006.
    • 77moradores mais antigos se reúnem, tendo cada um deles poder de veto e decidem sobre “aescolha” do novo morador.No trabalho de Rosa Teodoro (2003) há depoimentos de ex-alunos sobre as atuaispráticas e rituais das repúblicas. Nos depoimentos contestam-se os modos de fazer dessatradição, já que a Festa do 12 tornou-se uma festa de rua e as placas eram pequenas, usadasapenas para criar um ambiente universitário em que todos se conhecessem. Como referimos,as tradições são “traduzidas” e apesar de haver continuidades há também uma mistura entrevárias práticas que se complementam com inovações culturais em escalas local e global.Tratando-se ainda que os novos modos de vida dos sujeitos não estão fixos em um contextodado, eles expressam novos usos e formas de enunciação das práticas sociossimbólicas, aexemplo das sociabilidades virtuais. Deste modo, quando várias práticas articulam o espaço-tempo da sociabilidade pública, emergem concomitantemente os conflitos simbólicos eculturais.Em contrapartida, “Junta”, estudante de Direito e moradora da República Lumiar,defende que o uso da placa (ou até mesmo os trotes em geral) se fizeram destoar do controleda tradição. Isto ocorreu por causa do grande número de repúblicas particulares que surgiramsem considerar os princípios – tão caros aos repúblicos – de solidariedade. Desta forma,coube aos moradores de repúblicas federais, através da Refop, que acatassem a recomendaçãodo Ministério Público para evitar problemas judiciais. Contudo, como refere M. Certeau(1995), as práticas sociais são realizadas à medida que tenham significado para os sujeitos e,desse modo, os trotes são realizados em um lugar de enunciação da cultura juvenil, no qual ojogo da sociabilidade evidencia aspectos lúdicos e dissonantes. Nos “lugares”, as práticasestão longe de serem consensuais, elas derivam de uma possibilidade de entendimento sobreos códigos culturais inscritos no espaço público (LEITE, 2007), e por isso os trotes tornaram-semais dissonantes, abrindo margens para um conflito entre repúblicas federais e particulares,assim como entre repúblicos e estudantes diversos que não moram em repúblicas constituídas.
    • 78Imagem 06Imagem 07Estudantes de Repúblicas Particulares praticando uma tradição das Repúblicas Federais.Fotos do autor, 2009.
    • 79Para a estudante “Junta”, os repúblicos adaptaram-se à recomendação do MinistérioPúblico tendo em vista evitar conflitos com a comunidade ouro-pretana. No entanto, eladefende que com esta determinação as repúblicas privaram-se de práticas importantes (querefere a uma cultura compartilhada pela maioria dos jovens que passaram pela experiência demorar em república):Olha, antes a gente tinha coisas que eram assim... “eu passei, e eu me garanto semofender a minha dignidade”. Mas pra muita gente que tá de fora aquilo é sim umaofensa à dignidade da pessoa humana. Enfim, fere diversos preceitos constitucionaise por causa disso e pra gente tentar harmonizar nossa relação com a comunidade, pragente tentar entrar num equilíbrio mesmo e incomodar menos, digamos assim. [...]Por exemplo, o uso das placas. A gente usou isso durante a vida inteira em OuroPreto, todo mundo tinha a sua e hoje não existe mais. Só algumas particulares têm. Éaquela coisa que eu tava falando, as particulares surgiram em cima do sistema dasfederais, e nesse evoluir histórico a gente deixa de usar por um problema a princípionosso, mas elas continuaram usando. Mas assim, eu não posso responder por eles, eunão tenho nada a declarar em relação a isso. [...] É uma coisa inofensiva isso. Agente quando chega aqui, em Ouro Preto, querendo ou não, as pessoas são muitounidas. E com uma placa, se você chega num lugar, você tem identidade, você não ésimplesmente um calouro qualquer que acabou de chegar. Você é fulano, calouro darepública tal. Isso é muito importante. No fundo das placas tem assinaturas. Aspessoas que te conhecem vão assinando42.Podemos observar que para a estudante a identidade “caloura” deve ser reconhecida ecompartilhada de forma que os recém-chegados não fiquem dispersos nos espaçosuniversitários. Neste depoimento corre-se o risco de essencializarmos a identidade do calourocomo singular para entendermos a enunciação dos conflitos, da sociabilidade e das práticasculturais dos repúblicos. Pelo contrário, ser “bixo”, calouro, constitui o espaço-tempo liminardo estranho até que ele se torne parte de um “grupo”, mesmo que possa ser efêmera suapassagem ou porque conseguiu ser escolhido após muitos esforços.No entanto, os conflitos jurídicos relacionados a esta prática não são casos isolados emOuro Preto. O trote é considerado crime pela Lei 1023 e após as deliberações da UFOP houvemudanças que institucionalizaram esta prática. A batalha que durava um período letivo passoua vigorar por até 3 meses, tendo sua designação mudada para “período de adaptação”, comvistas a proteger o calouro das dificuldades de integrar-se à república que pretende morar. Aoinvés de “batalhar”, ele precisa adaptar-se e reconhecer primeiramente a importância de viverem conjunto e preservar o patrimônio público, fazendo as tarefas de casa, as quais sãodescritas no regimento interno de cada república e nas disposições do Estatuto das RepúblicasEstudantis da UFOP.42Depoimento concedido pela estudante-moradora da República Lumiar e diretora jurídica da Refop, JulianaRodrigues Martins (Junta), em 28/04/2010.
    • 80A partir destas informações podemos inferir que as tradições acadêmicas de OuroPreto descerram qualquer polarização entre o que seja moderno e tradicional na sociedadecontemporânea – elas enunciam transições identitárias. Se considerarmos que os mundosjuvenis elaboram sociabilidades a partir de contextos inovadores, em que as culturas degerações passadas tendem a oscilar para formas de essencialização da identidade adulta, comopoderíamos então conceber que os modos de habitar uma casa apropriada por jovensdescentrados perpassa a ideia de tradição?Logo que iniciamos nossa análise referimos que as tradições pressupõem acontinuidade de estruturas sociais baseadas em crenças, memória e práticas coletivasvinculadas ao passado. As tradições expõem-se à integridade de valores que persistem mesmoem contextos de grandes mudanças socioculturais. No entanto, ao referirmos, como indica otítulo deste trabalho, à noção de identidade – qual seja sempre supõe elementos tradicionais –estamos investindo na noção de hibridação, que recorre, por exemplo, à relocalização estéticado passado e à tradução de práticas sociais. Ao afirmarmos a noção de descentramento,queremos dizer que a “cidade dos estudantes” de Ouro Preto não só detém práticassocioespaciais próprias, como também fragmentadas no contexto relacional da cidade. Grandeparte dos estudantes desloca-se de outras cidades mineiras e estados brasileiros para estudarnesta cidade, o que confere uma multipolarização de socioespacialidades, conformandolugares diferenciados (LEITE, 2007).Devido às demarcações espaços-temporais, os conflitos entre os jovens tornam-semais evidentes. Muitas práticas foram traduzidas de forma conflitiva, a exemplo da noção desolidariedade, que se confunde com a noção plena de hierarquia nas repúblicas. A tradição da“batalha” e os trotes (que inclui o uso de placas e responsabilidades especiais) é vista pormuitos estudantes como imposição, exploração e humilhação. Enquanto que para outros éuma forma de ordenamento e aprendizagem. Por não ser uma prática compartilhada por todoseste ritual tornou-se conflitivo para a imagem e para as narrativas sobre as repúblicas. Deoutro modo, muitos informantes argumentaram em entrevistas que graças às tradiçõesacadêmicas e a maneira como elas estão inscritas no cotidiano dos estudantes é que asrepúblicas continuam a existir.O capítulo seguinte versa sobre os conceitos de culturas e identidades juvenis queserão empregados para tratar dos jovens repúblicos de Ouro Preto. As noções apresentadasfundamentará o capítulo empírico, tendo em vista que a proposta é articular a temáticacontemporânea das identidades e sociabilidades jovens ao tema que justifica o interesse destetrabalho.
    • 815. CULTURAS E IDENTIDADES JUVENIS“Somos jovens! E jovem incomoda”.(Junta, Estudante da República Lumiar)5.1. A categorização das culturas juvenisO trabalho de Pierre Bourdieu (2003), intitulado “A juventude é só uma palavra”, traz-nos uma importante discussão acerca da concepção de juventude. Sua contribuição destaca-sepela proposta de definir a categoria juventude não como uma unidade socialmente construída,mas como uma categoria que apreende distintas posições de classe e representa um espaço depossibilidades intermediárias. Para o autor, as representações correntes feitas às divisões entrejovens e adultos concede uma relação de conflito quanto às aspirações das sucessivasgerações. Esta sucessão geracional, de pais e filhos, ocorre em épocas diferentes e estáconstituída em “estados diferentes da estrutura da distribuição de bens e de oportunidades deacesso aos diferentes bens: o que para os pais era um privilégio fora do comum [...] tornou-se estatisticamente banal” (BOURDIEU, 2003, p.159). Neste sentido, por que os jovens“incomodam” os valores sancionados pela sociedade? Quais as razões para que as açõespráticas dos jovens sejam consideradas subversivas?Bourdieu parte da crítica de que a conquista de uma geração é dada como a estruturade um sistema socialmente construído às novas gerações. Em cada campo há “leis específicasde envelhecimento” para permitir a inserção dos jovens na produção literária, artística, namoda etc. Por isso ocorrem discriminações “antijovens” por parte das gerações mais velhas,principalmente as mais tradicionais, quanto às práticas, ou como o autor chama, às aspiraçõesdos mais jovens43. Desse modo, classificar a idade é uma forma de ordenar o lugar de cada ume onde cada qual deve se manter. A classificação etária se confunde, por exemplo, quando seobserva as “diferenças entre as juventudes”, o que torna esta categoria um objeto demanipulação. Antes, há relações de diferença entre a idade biológica e a idade social,tratando-se de um duplo recorte – etário (adolescentes) e economicosocial (SPOSITO eCARRANO, 2003).43Sobre estas práticas ou aspirações, Bourdieu fala que as gerações mais tradicionais são também “anti-artistas,anti-intelectuais, anti-contestação, são contra tudo aquilo que muda, tudo aquilo que se move, etc., justamenteporque eles deixaram o futuro para trás, enquanto os jovens se definem como tendo o futuro, como definindo ofuturo” (2003, p.160).
    • 82O que se entende por idade social está relacionado às posições sociais dos jovens, aoacúmulo de capital e às relações de poder em um determinado campo: condições sociais,origens de vida, mercado de trabalho etc. A idade biológica torna-se antes uma demarcaçãodo espaço, resultante da manipulação das estruturas sociais, remetendo à posição que o jovemocupa em termos etários. Deste modo, Bourdieu avança ao criticar estas concepções: “é pormeio de um formidável abuso de linguagem que se subsume no mesmo conceito universossociais que praticamente nada têm em comum” (2003, p. 153). Esta afirmação, defende oautor, deve-se à confusão feita quando se opõem diferentes classes sociais, mas tomadas comouma realidade unitária: a juventude, uma palavra. Deve-se então conceber a juventude comoum espaço de possibilidades intermediárias, isto é, como a descoberta de um statustemporário: “meio-criança, meio-adulto”; “nem criança, nem adulto” (BOURDIEU, 2003,p.154).Bourdieu traz-nos importantes reflexões para o entendimento sobre a juventude, para aqual, em sua análise, o autor utiliza critérios de distinção entre jovens burgueses e operários.Tal análise tenciona demonstrar as diferenças de classe e o posicionamento dos jovens quantoao sistema educacional. Os jovens burgueses, na visão do autor, têm maior mobilidade social,já que costumam aspirar às profissões de maior status, de maior capital econômico e cultural,enquanto que os jovens de origem humilde geralmente aspiram antes a entrar na vida adulta,seguindo as profissões que cabem aos pais, senão, estando incluídos no sistema educacional,tornam-se apenas detentores de títulos de menor valor social.A questão que se levanta na análise deste autor é que os “agentes” estão posicionadosna estrutura de um campo e convivem com a distribuição desigual deste campo. Considerandotal posicionamento, cada agente possui recursos distintos de capital (financeiro, cultural,tecnológico, simbólico etc.) e depende deles para agir, levando em conta os limites pelaestrutura do campo. Mesmo que Bourdieu destaque a dimensão simbólica da mudança nasrelações, nas estruturas e nas trajetórias pessoais, dos gostos e dos estilos de vida, a noção dehabitus permite pouca flexibilidade (mobilidade) para entendermos a questão dafragmentação social, política, cultural e econômica da contemporaneidade, devido às relaçõesde poder e à distribuição desigual dos bens.Assim destacamos a discussão levantada por Featherstone (1995) sobre a noção de“estilo de vida”, fazendo avançar a análise de Bourdieu quanto às noções de gosto e habitus,pois aquela noção permite maior flexibilidade para entendermos a fragmentação cultural eeconômica da contemporaneidade. Para este autor a noção de “estilo de vida” designa nãomais as afinidades dos grupos de status específicos, como apreendeu Max Weber em sua
    • 83análise sobre os grupos sociais na modernidade – o que fez também Pierre Bourdieu –, mas asdiferenças dos grupos e suas diversas afinidades. Estas mudanças empreendem à esferacultural um valor simbólico descentralizado das distinções entre estética e estilo (de vida) ouentre cultura popular e alta-cultura, o que faz com que alguns bens e equipamentos culturaissejam, de algum modo, recentralizados sob inúmeras perspectivas e apropriações. A culturaganha, assim, certa autonomização com os processos de produção cultural ao reproduzir umamplo repertório de imagens e signos que constituem a vida social.Esta expressão compreende a individualidade dos grupos e uma forma deautoexpressão, como também uma consciência de si estilizada, o que leva aos indivíduosbuscarem usos, práticas e formas de consumos distintos, manifestados no interesse e nasescolhas. “A implicação é que estamos rumando para uma sociedade sem grupos de statusfixos, na qual a adoção de estilos de vida fixos por grupos específicos (manifestados naescolha das roupas, atividades de lazer, bens de consumo, disposições corporais) está sendoultrapassada” (FEATHERSTONE, 1995, p.119-120). Com a globalização da cultura, arepercussão de bens simbólicos deslocados de seu contexto original ganha novo significadono âmbito do consumo. Estas notas são importantes para compreendermos a manifestação dasidentidades juvenis na contemporaneidade, tanto na esfera do consumo como no âmbito daspráticas culturais e nos usos e apropriações dos espaços.Neste sentido, segundo José Machado Pais (2003), os jovens articulam em suaspráticas cotidianas as formas sociais, culturais, econômicas, familiares e individuais nos seusdiferentes modos de vida. Os usos que os jovens fazem dos espaços e do tempo constituemum domínio de afirmação das identidades, das linguagens e estilos de vida, tanto em nívelsimbólico e discursivo quanto em nível prático. Deste modo, a sociabilidade juvenil se traduzem diferentes formas de consumo do tempo e na apropriação dos espaços urbanos, o quepossibilita o “desenvolvimento de tensões e conflitos, latentes ou abertos, entre éticasestruturais tradicionais e novos horizontes sociais de realização individual” (PAIS, 2003, p.14). As culturas juvenis constituem grupos de status que afirmam um estilo de vida eivado dediferenças intra e intergeracionais. Os jovens tencionam relativizar suas posições sociais,vivendo uma “vida de inconstâncias”, seja no trabalho, na família, nos estudos ou mesmo nasrelações amorosas e afetivas, provocadas pelas determinações estruturais do cotidiano (PAIS,2003, 2006).Diante de tal perspectiva, o autor aponta para a necessidade de situar distintamente oproblema sociológico sobre a juventude dos “problemas sociais” referentes aos grupos jovens.Duas tendências da Sociologia da Juventude “englobaram” problemas sociais pertinentes à
    • 84cultura juvenil como um todo. Segundo Pais, por um lado, a corrente geracional concebeu ajuventude “como um conjunto social em que os indivíduos são pertencentes a uma dada ‘fasede vida’, prevalecendo a busca de uniformidade e homogeneidade” (PAIS, 2003, p. 29). Poroutro lado, a corrente classista considerou a juventude como “um conjunto socialnecessariamente diversificado, perfilando-se diferentes culturas juvenis em função dediferentes pertenças de classe, situações economicas, parcelas de poder, interesses,oportunidades ocupacionais” (PAIS, 2003, p. 29).Na primeira corrente, a juventude é definida em termos etários, contrapondo-se àgeração adulta através da inovação de valores, práticas e códigos culturais dominantes. Nasegunda, entende-se, em termos de classes sociais ou culturas de classe, as diversas situaçõesque constituem os grupos juvenis e como estes se diferenciam. No entanto, admite-se não àexistência de culturas juvenis tomadas no sentido de diferença entre identidades culturais, masatravés de diferentes subculturas juvenis, “como produto de relações antagônicas de classe.Daí surgiram os estudos sobre as ‘culturas de resistência’, isto é, culturas negociadas noquadro de um contexto cultural determinado por relações de classe” (PAIS, 2003, p.61).Segundo Wivian Weller (2006) o conceito de subcultura foi bastante difundido pela Escola deChicago e pela CCCS de Birmingham, sobretudo quando empregado em relação a gruposjuvenis.Carles Feixa (2006) demonstra que ambas as correntes enfatizaram tais concepçõesdesde os anos de 1960, obscurecendo a escala das mudanças na esfera cultural. Na década de‘60, no momento anterior ao Maio de 1968, iniciou-se uma crescente necessidade dos jovenscom vistas à conquista de um espaço próprio que não estivesse compartilhado com os pais,transformando, historicamente, o fato de que os jovens se caracterizavam por não possuíremespaços privados. É neste ponto da discussão que nos parece necessário revelar que “areivindicação por um quarto próprio passou a ser o símbolo de um sujeito social emergente:a juventude” (FEIXA, 2006, p. 97), a partir da qual os jovens passaram a reivindicar espaçospara desenvolverem sociabilidades autônomas, longe da vigilância e controle dos pais,embora ainda circunscritas à casa, isto é, reivindicava-se um quarto próprio, individual, ondese pudesse formar associações juvenis ou um lugar para o convívio com os amigos, paraexercício da intimidade, da troca de signos culturais (posters de ídolos, escutar músicas efazer festas nos fins de semana – quando da ausência dos pais, é evidente).Então, na década de ‘70, iniciaram-se nos Estados Unidos e Europa – com reflexo emvários países do mundo – os movimentos da contracultura, do feminismo e os movimentospopulares urbanos. O rock’n’roll e a geração hippie protagonizaram reivindicações por
    • 85demandas de equipamentos de consumo coletivo e maior qualidade de vida nas cidades. Aomesmo tempo em que enunciaram concepções particulares de inserção dos jovens nos espaçosurbanos, reivindicavam o espaço próprio, o qual se define através de uma nova concepção,articulando o público e o privado:Nos anos 70, com o reflexo posterior a Maio de 1968, a reivindicação por um quartopróprio perde espaço para a luta por uma privacidade alternativa: apartamentos deestudantes, mansardas e comunidades, habitadas por jovens de ambos os sexos seconvertem na nova utopia. A norma passa a ser: sair da casa dos pais para construiruma nova privacidade comunitária, na qual o quarto próprio deixa de ter umaimportância tão grande (FEIXA, 2006, p. 99, grifo nosso)Mas foi a partir dos anos ’80 que as culturas juvenis passaram a produzir novas formasde identificação com o espaço público e de “novas imagens da conflitividade social nacidade” (SPOSITO, 1993, p. 162), a exemplo dos movimentos de filhos de trabalhadores quequestionaram a exclusão “da juventude” no mercado de trabalho. Há, assim, a presença dosjovens – nos EUA, a chamada geração yuppie – de ambos os sexos no espaço urbano dasgrandes cidades, ganhando as ruas, os bares, os cafés etc., ao passo que também assistiam asinovações tecnológicas de bens de consumo. Isto é o contrário do que ocorria nos anos 60,quando particularmente os jovens do sexo masculino tinham acesso aos espaços urbanos e,segundo C. Feixa, como parte de um mercado do ócio; “logo, a sociabilidade no quarto édeslocada e ampliada da juventude para a fase de “pré-adolescência” e da última infância,que passa a desenvolver a obsessão por um espaço autônomo” (FEIXA, 2006, p. 99).A geração zapping dos anos 90 em diante, ficou conhecida também como a geraçãoMTV, McDonald’s e shopping center. Os modos de vida transformaram-se drasticamentediante da massificação da indústria cultural e das tecnologias de informação e comunicação.Os jovens passaram a conviver com novos hábitos e modos de viver a cidade, ao conviverentre os espaços urbanos e os ciberespaços. Daí os novos léxicos empregados para descreveras culturas juvenis como clubcultures, neotribos, estilos de vida, pós-subculturas, networking,ciberculturas (NILAN & FEIXA, 2006). De acordo com Canclini (2007), as práticas culturaisdos jovens contemporâneos decorrem também do uso da televisão em cores, do vídeo, docontrole remoto, e – para uma minoria – do computador pessoal e da internet. Se antes sequestionavam como as gerações entre as décadas de 1970 e 80 lidariam com a TV, hojeassistimos a uma intensa proliferação e espetacularização das imagens, videoclipes, corpos eartefatos culturais.
    • 86Entre as décadas de 1960 e 1980, muitas iniciativas, como afirma Weller (2006),foram consideradas como consequências não da inovação dos estilos de vida juvenis, mascomo subculturas, que compreende as culturas juvenis como culturas alternativas. Estaconcepção generalizou-se aos diversos e diferentes grupos de jovens, associando suas práticascotidianas como formas de resistência às normas e valores tradicionais da sociedade. Por issoo termo passou a ter associações depreciativas, em que acaba por englobar as culturas juveniscomo segmentos específicos e alvos de políticas de controle social. Segundo esta autoraO termo subcultura sugere a existência de uma cultura superior, que, atualmente,deixa de fazer sentido em face da pluralidade de modos ou estilos, que não são maisespecíficos de uma dada cultura, uma vez que se manifestam em distintas localidadese em distintos continentes [...]. “Cultura juvenil” ou “culturas juvenis” seria o conceitomais indicado porque amplia a possibilidade de compreensão das distintasmanifestações dos jovens, seus estilos ou modos de vida, que vêm sendo criados erecriados em diferentes localidades e contextos sociais (WELLER, 2006, p.115-116)Segundo José Machado Pais (2003), embora as duas correntes oferecessem o primeiropasso para a formação de um campo de estudos sobre as culturas juvenis, ao observaremcomo as identidades jovens se estruturam em torno de instituições (família, educação,trabalho etc), elas limitaram-se a descrever esta categoria de modo sistemático. Fosse a partirda segmentação do curso da vida, ao basear-se na contraposição jovem/adulto, ao valorizar asnoções de continuidade e descontinuidade intergeracionais, no que concerne à inovação dosvalores dominantes das gerações mais velhas; fosse a partir das distinções econômicas eideológicas e das distinções simbólicas entre os jovens quanto à linguagem, vestuário, gêneroe etnia, às práticas de consumo etc., definidas em termos de determinações de classes,politizando assim a noção de cultura juvenil (Cf. Pierre Bourdieu, 1983). Em suma, estasabordagens primaram pelo binarismo e sua aparente distinção: unidade/diversidade.Deste modo, as diferenças e o conflito geracional foi muitas vezes concebido atravésde um período de “rebeldia” do jovem, muito enfatizado após a emergência dos movimentossociais a partir da década de 60 e dos novos estilos de vida dos anos 80. Esta noçãoenfraquece o argumento de que os sujeitos se identificam de maneiras diversas com as esferassimbólicas da vida cotidiana. Atitudes rebeldes podem ser até consideradas como parte dasmudanças cognitivas na fase da adolescência e juventude, mas não são elas que “determinam”o “desvio” dos valores familiares. De outro modo, o conflito geracional surpreende quando ospais já vivenciaram momentos de liberdade de fazer e experimentar sensações diversas, aosair de casa para morar com amigos (constituindo ou não uma república), com o uso de drogas
    • 87e bebidas alcoólicas, com o footing na cidade, com as viagens e diversas formas de atividadesao longo dessa fase da vida.A critica de Weller (2006) sobre estas correntes deve-se também às publicaçõesrecorrentes sobre as culturas juvenis. Estes recentes textos compreendem a categoria“juventude” como um todo, não diferenciando, por exemplo, as sociabilidades entre jovens eadolescentes do sexo feminino e masculino (o que gera o problema de que os trabalhos sobreos estilos de vida, estética, estilos musicais e práticas espaciais são em grande parte realizadasatravés de observações sobre as práticas exclusivas dos sujeitos do sexo masculino).Baseando-se na teoria feminista, a autora, então, propõe demonstrar o que ela chama deinvisibilidade das jovens nas pesquisas sociológicas e antropológicas em diversos espaçossocioculturais como o hip-hop. Este foco pretende não polarizar as pesquisas mas incrementá-las com uma perspectiva em que se possa articular ambos os sexos.Segundo Stuart Hall (2006), o impacto do feminismo, tanto como uma teoria críticaquanto como um movimento social que impulsionou o descentramento, levou à ruptura dedistinções no âmbito social como o público/privado, dentro/fora. Neste sentido tambémquestionou a identidade e o processo de identificação a que somos subjetivamente atribuídosenquanto homens/mulheres, mães/pais, entre outros pares. Este questionamento contribuiupara a inscrição de novos processos de identificação para as sociabilidades de gênero nopróprio cotidiano, para o que teceu fortes críticas às noções liberais e marxistas e dentre osvários aspectos mencionados, a política de identidade tornou-se uma estratégia deglobalização das identidades sociais que fortaleceram os movimentos culturais e políticos nãosó de gênero e sexualidade, mas de minorias, religiões e etnias.Para aquela teoria as análises e discursos relacionados às questões sobre sexualidade,relações de gênero, maternidade e trabalho são recorrentes, em que poucos são os estudos queabordam as identidades e as práticas culturais das jovens nos espaços públicos. Carles Feixa(2006) refere que a reivindicação do quarto próprio e a criação de associações juvenis foimanifestada primeiramente pelas jovens, visto que a juventude foi geralmente referida comoum “território masculino vinculado à sociabilidade no espaço público” (FEIXA, 2006, p.96),enquanto que a sociabilidade das mulheres pouco foi estudada, devido em parte à reclusão eao controle familiar e sexual no espaço privado.A perspectiva destes autores é de que devemos desconstruir as representações sobre ajuventude como parte de uma cultura juvenil “unitária” e homogênea. De modo que estacategoria situa-se em um conjunto socialmente definido através do pertencimento a classessociais ou a uma “fase de vida” portadora de uma essência identitária, de sentimentos e
    • 88ideologias comuns em contraposição às gerações adultas. Logo, a segregação, a“delinqüência”, as práticas sexuais, o uso de drogas; e as noções empregadas às culturasjuvenis como subculturas ou contraculturas são representadas como problemas de ordemsocial, ao criar um senso comum, “um mito ou quase mito” (PAIS, 2003, p. 34), muitas vezesdifundido pela mídia e pelas instituições acadêmicas.5.2. Identidades Urbanas Juvenis“Juventude” é entendido aqui como um léxico que não se limita a descrever uma “fasede vida”, um intermédio ou contraponto entre a adolescência e a passagem para a vida adulta(PAIS, 1993). Tal léxico é muitas vezes entendido como um conjunto homogêneo, nãoexaminado pelos atributos sociais que diferenciam os jovens uns dos outros. Podemos lançarmão de premissas que permitem múltiplas possibilidades para entender os diversos ediferentes grupos de jovens urbanos ao articularmos a noção de fase de vida à de enunciaçãodas identidades dos sujeitos.A cultura juvenil é uma expressão da construção social do sujeito no seu curso de vida.Deste modo, devido às indeterminações das identidades, enuncia uma condição detemporalidades e significações dos modos de vida e das práticas cotidianas, assim comoexprime narrativas e espacialidades indeterminadas, conformando a passagem para a vidaadulta. Margulis e Urresti elucidam sobre como o conceito é social e historicamenteconstruído:Esa palabra, cargada de evocaciones y significados, que parece autoevidente, puedeconducir a laberintos de sentido si no se tiene en cuenta la heterogeneidad social ylas diversas modalidades como se presenta la condición de joven. Juventud es unconcepto esquivo, construcción histórica y social y no mera condición de edad. Cadaépoca y cada sector social postula formas de ser joven. Hay muchos modos deexperimentar la juventud, y variadas oportunidades de presentar e representar lapersona en las múltiples tribus que emergem en la estallante socialidad urbana(MARGULIS e URRESTI, 2000, p. 11).Para Weller, devemos explorar “a condição juvenil como espaço-tempo – no qualestilos de vida são descobertos e experimentados, experiências geracionais são constituídas,identidades são construídas e/ou reconstruídas” (2006, p. 116). É importante entendermosque a propagação de novos símbolos e signos identitários na vida social tem influência namudança de significação dos modos de vida adotados pelas pessoas, neste caso, por muitos
    • 89jovens urbanos, consumidores-cidadãos. Significa que na passagem para a vida adulta, aoinvés de circunscreverem-se em um lócus identitário fixo, baseado no status, nos valorestradicionais e comunitários, nas posições de classe, a cultura juvenil enuncia-se descentrada,através do olhar panorâmico, em escala global, no qual as novas identidades criam diferentese dissonantes estilos de vida, que possibilitam manifestações de sociabilidades de cunhocomunicacional ou conflitivo.Para Nilan e Feixa (2006), a compreensão das novas gerações como subculturasmarginais, gangues ou grupos etários, podem esvaziar os sentidos das práticas juvenis. Alémdisso, ao restringirmos a noção de juventude aos limites etários, geralmente compreendidos daadolescência até os 20-25 anos, estaríamos correndo o risco de obscurecer as transições que opróprio adulto/jovem adulto vive em sua fase plena. A condição juvenil demarca não só umperíodo, mas uma trajetória indeterminada dos sujeitos44. Margulis e Urresti referem que estatemporalidade pode ser considerada “una condición constituida por la cultura pero que tieneuna base material vinculada con la edad. A esto le llamamos facticidad: un modo particularde estar en el mundo, de encontrarse arrojado en su temporalidad, de experimentardistancias y duraciones” (2000, p. 18) e, embora os espaços da juventude possam serconsiderados indeterminados, compreende-se também um modo particular de estar no mundo.Partimos então da concepção de identidade cultural urbana que propõe AntónioFirmino da Costa, a qual deve ser analisada à luz de seu “caráter plural e plástico, contextuale interativo, mutável e entrelaçado das identidades culturais, e as profundas ambigüidades deque muitas vezes se revestem nas suas manifestações simbólicas e nas suas dinâmicasrelacionais” (2002, p. 16). Para o autor, as identidades são socialmente construídas nosdiversos campos de possibilidades, de múltiplos e contingentes mundos sociais. Tais mundossão concomitantemente criados em contextos globais e locais, desalinham as fronteiras sociaise conflitivas da identidade (criadas pela tendência de homogeneização econômica para umaheterogeneização dos estilos de vida das pessoas) e são, portanto, vivenciados na experiênciaurbana, poisAs identidades experimentadas, ou vividas, têm a ver com as representaçõescognitivas e os sentimentos de pertença, reportados a coletivos de qualquer espécie(categoriais, institucionais, grupais, territoriais, ou outros), que um conjunto depessoas partilha, emergentes das suas experiências de vida e situações de existênciasocial (COSTA, 2002, p. 27).44Para M.P. Sposito e P. Carrano (2003), há diferença entre condição juvenil (modo como é significado esteciclo de vida) e situação juvenil (percursos desta condição juvenil em seus diversos recortes).
    • 90De acordo com tal proposta, podemos conceber que a condição juvenil na cidadecontemporânea registra, para ainda usarmos as palavras de Costa, “um conjunto de processose efeitos identitários” (2002, p. 23). Expressam-se, portanto, através das práticas de produçãoartística e cultural na literatura, no cinema, no teatro, na música; como também das novaspráticas da cidadania e do ativismo; e das tendências do consumo, da moda, dos artefatos, dasmarcas corporais etc. Estes processos manifestam-se no espaço público como expressão dasculturas urbanas juvenis entre os lugares, articulados à globalização da cultura, da informação,dos signos e imagens.Conforme Featherstone, as práticas cotidianas dos jovens “sujeitos descentrados”,quando se articulam com a proliferação de novos signos, com a experimentação e a estilizaçãoda vida, tendem a descontextualizar a tradição dos espaços da cidade. Estes novos signos seprojetam em diferentes formas culturais a fim de “extrair citações do lado imaginário da vida”(FEATHERSTONE, 1995, p.98), de modo que a sociabilidade juvenil enuncia-se de maneiradescentrada de um paradigma estético,rompendo com os padrões tradicionais de regulação social que vinculam estreitamenteos estilos de vida às classes, faixas etárias e normatividades [...]. Há algumasevidências de que os estilos de vida juvenis estão migrando para faixas mais altas daescala etária; a geração dos anos 60, à medida que envelhece, leva consigo algumas desuas disposições de orientação juvenil, e os adultos vêm desfrutando maior liberdadepara se comportar como crianças e vice-versa (FEATHERSTONE, 1995, p.142).A situação pós-moderna de fragmentação tenciona romper com os modelostradicionais de divisão entre jovem/adulto. Esta ruptura apela para a distinção dos estilos devida para além dos grupos etários e de status. Para Nilan e Feixa (2006), não importaexatamente em quais mundos os jovens estão, pois eles não vivem um modelo linear detransição. Mesmo que inseridos nos aspectos tradicionais de transição para a vida adulta, aexemplo da formação educacional, da entrada no mercado de trabalho, da iniciação sexual, daseparação da família, do casamento e da formação da própria família, os jovens vivem comojovens plurais, suas identidades são híbridas.Além disso, independente da posição socioeconômica em que se encontram nasociedade, os jovens disseminam culturas e identidades em âmbito global através da mídia einternet. Entretanto, não abre uma franca possibilidade de aceitação e tolerância às diferenças,visto que criam fronteiras socioespaciais através dos usos que os sujeitos fazem dos lugares.Neste sentido, importa-nos evidenciar a diferenciação entre as identidades juvenis, demodo que a expressão “estilo de vida” descerra as fronteiras culturais entre as diferentes
    • 91identidades no âmbito da cultura de consumo, das novas tendências de mercado e dasmudanças nas técnicas de produção. Segundo aqueles autores, “through the ‘new’ mediayouth (seemingly regardless of actual age) are central to the global leisure market, not justthe ‘marketing focus’ for cultural industry innovations, but the source of their inspiration”(NILAN e FEIXA, 2006, p. 8). Desta forma, os jovens não são meros receptores dos produtos eimagens lançados no mercado e na mídia. Os usos que fazem dos bens tecnológicos eartefatos culturais modifica a estrutura de produção do mercado que deve se adaptar às novasdemandas. A “juventude” tornou-se um mercado promissor no período pós-guerra. Aacumulação flexível do capital proporcionou a partir deste período uma grande variedade debens e serviços que logo foram apropriados pelas camadas sociais de acordo com seus estilosde vida.Entretanto o que se observa são as reapropriações que os jovens fazem das marcas egrifes de vestuários, artefatos e equipamentos diversos. Se estamos rumando para umasociedade sem status fixo, a busca pela distinção através do corpo, por exemplo, tornou-sealgo mais dinâmico visto que não somente as “marcas” dos vestuários publicizam asdiferentes identidades, mas também as marcas corporais; o modo de vestir (e nãopropriamente o que veste) e os adereços (piercings e tatuagens) têm sido um dos principaisbens que identificam as culturais juvenis (FERREIRA, 2004).Outro importante aspecto são os espaços virtuais que transformaramsignificativamente a sociabilidade juvenil. Para Jesús Martin-Barbero (1997) os usos que osjovens fazem do ciberespaço e a sociabilidade construída na cidade virtual podem sercomparados com os usos noturnos da cidade, já que estão isentos, de algum modo, das“autoridades” institucionais (pais, escolas etc.). A autonomia juvenil nos espaços urbanosnoturnos e nos espaços virtuais descerra caminhos para a construção de novas sensibilidades,sociabilidades e universos simbólicos. Para o autor, a visualidade eletrônica tem reestruturadoos lugares e produzido novas práticas, saberes e comunicação cotidiana. Por isso torna-senecessário observar os “modos de fazer” da cultura juvenil e como produzem um entremeiode cultura urbana e virtual, de modo a articular seus espaços.No que concerne às relações de trabalho e atividades práticas, Leila Blass (2006)elucida que as análises sociológicas têm ignorado as escolhas, o exercício profissional e asatividades de jovens na produção artística ou nas manifestações culturais contemporâneas.Toda produção artística requer práticas próprias de uma cultura, uma arte no seu fazer, seja namúsica, pintura, desenho, DJ, fotografia, teatro, VJ’s, esporte etc. Muitas das atividadesrealizadas pelos jovens tornam-se um posto de trabalho profissional na vida adulta, entretanto,
    • 92muitas delas são definidas como um não-trabalho, sendo realizadas como um processoconstante de reinvenção da vida cotidiana e que atendem às demandas, performances epráticas de lazer. São “maneiras de fazer” que refletem valores, criatividades e imagináriosjuvenis.Já Márcia Regina da Costa (2006a) discute como as noções empregadas às culturasjuvenis no Brasil desde os anos 60 foram tomando novas abordagens, chegando a um novoestado conceitual no contexto contemporâneo. A globalização tornou-se um importanteprocesso que logrou mudanças tanto na concepção midiática quanto científica sobre ocomportamento e as manifestações dos jovens no espaço público. Com o fluxo das culturasglobais em diversas localidades, as sociabilidades e práticas culturais, assim como os estilosde vida juvenis, passaram a ser concebidas não mais como forma de rebeldia ou resistência,como divulgavam os estudiosos da Escola de Chicago.Os estilos juvenis e suas práticas ganharam novas dimensões conceituais emconsequência da circulação de imagens e informações transnacionais, que muito contribuírampara a construção de novas percepções sobre as identidades jovens e como estas se tornaramum fenômeno cultural de ampla visibilidade, pondo em cena novas demandas sociais eeconômicas, comportamentos, formas de consumos e identidades. As temporalidades juvenisenunciam os sinais de mudança da própria pesquisa acadêmica. Para Martín-Barbero (2008),estamos vivendo diante de novas e alternativas sensibilidades, mesmo com a forte exclusãosocial e “desconexão” de muitos jovens nos novos recursos das tecnologias digitais.Principalmente a partir da década de 1980, no contexto da reestruturação econômica edas cidades (HOLLANDS, 1997; HARVEY, 2008), as pesquisas sobre a juventude passaram afocalizar os jovens das “camadas subalternas”. As novas formas de abordagem procuraramnão estigmatizar esta categoria, visto que muitas vezes eram descritas sob os termos“delinquentes” e “gangues”. Nos últimos anos, a cultura juvenil experimentou importantestransformações com as mudanças dos estilos de vida, do consumo cultural e com aemergência da cultura digital, através dos computadores e video games (FEIXA, 2006), assimcomo das novas formas de estar junto mediada pela comunicação audiovisual (MARTÍN-BARBERO, 2008). Várias identidades urbanas fortemente visíveis nas metrópoles desde osanos ‘80, como os punks, funkeiros, rappers, eram anteriormente taxados de gangues, mas ospesquisadores passaram a construir noções explicativas como “turmas, bando, galeras etribos”. Assim, buscou-se nestas novas abordagens a compreensão das diversas formas deassociação e organização próprias dos jovens.
    • 93Em vista disso, para discutir amplamente os processos de diferenciação inter eintragrupal das culturas juvenis preferimos adotar o léxico identidades urbanas juvenis, ousimplesmente, identidades juvenis. Esta escolha explica-se porque esteticamente as condutasjovens “são vistas como desalinhadas, confrontativas, exóticas” (PAIS, 2004, p. 13), portanto,expressam formas de sociabilidades conflitivas. A estetização da vida cotidiana exprimediversas identidades com suas linguagens correntes, maneiras de vestir, atividades de lazer,bens de consumo, artes corporais; ou mesmo a maneira como se identificam com a rua, osbairros, os lugares etc. Os novos estilos de vida surgem no espaço público ao criar um cenáriode liminaridade na paisagem urbana e, ao mesmo tempo, inscrevem um circuito de jovens,“produto da prática social acumulada” dos atores sociais (MAGNANI, 2008).É neste sentido que usamos tal expressão ao invés da metáfora “tribos urbanas”utilizada por alguns autores aqui citados45, pois entendemos que as culturas juvenis enunciamseus vínculos de pertencimento publicizando seus símbolos, escolhas e valores, ou para usar aexpressão de Pais, “para se fazerem crer que pertencem a um sedimento identitário” (2004, p.17). Assim, segundo Sérgio Costa (2006b), mesmo que certas práticas apontem para a defesada territorialidade e nelas se observem, por exemplo, ações ilegais ou violentas, não devemosadotar premissas generalizadas e associadas às noções de “problemas sociais” ou resistência,ou termos que considerem os tempos e espaços da cultura juvenil como desviantes das normase do que é socialmente aceito.O senso comum, as esferas institucionais e midiáticas tendem a generalizar os grupos,criar “etiquetas” e estigmatizar algumas identidades juvenis que adotam estilos de vidadiferenciados. Eles formam bandas, usam vestuários “tribais” ou marcas corporais (PAIS,2004; FERREIRA, 2004). Assim tomadas as definições de forma generalizada, através deaspectos fragmentados das culturas juvenis, criam-se estigmas que afetam a forma como ajuventude e suas sociabilidades são socialmente definidas. Neste sentido, como afirma Costa(2002), as identidades quando simbolicamente designadas através de construções discursivas,manifestam conflitos identitários que produzem representações coletivas, principalmente porentidades tradicionais ou sujeitos sem relação subjetiva de pertença.Em última instância, José M. Pais retoma algumas bases das correntes geracionais eclassistas. Exemplo disto são as noções de inovação e diferenciação, que ultrapassam asperspectivas mais comuns, ao definir a cultura juvenil em termos mais amplos, concebendo45Para uma discussão sobre o uso do termo “Tribos Urbanas” ver Pais (2004) e Magnani (2007). Em muitoscasos é preferível o uso do termo “Circuito de jovens” sugerido por Magnani quando pretendermos mapear osusos dos espaços públicos e privados da cidade. Termos como Straight Edges, graffiters, skaters, punk, funk,raves etc são alguns exemplos de tribos ou circuitos.
    • 94que “em sentido lato, pode entender-se o sistema de valores socialmente atribuídos àjuventude (tomada como conjunto referido a uma fase de vida), isto é, valores a que aderirãojovens de diferentes meios e condições sociais” (PAIS, 2003, p. 69). Para o autor, os modos devida dos jovens são exemplos que elucidam a ressiginificação da vida cotidiana. Apontampara diferenciação entre grupos, práticas e formas de sociabilidade que expressam umconjunto de significados, rituais e usos que simbolizam pertença às identidades; estas práticase formas partilham também valores, códigos, signos, linguagens, espacialidades etemporalidades. É desusado salientar que tais “modos de vida” não estão apenas circunscritosem nível institucional, mas também na própria vida cotidiana.É através dessas ideias que o autor levanta uma importante problemática sobre asformas como os jovens compartilham cotidianamente os modos de vida e o conjunto designificados. A observação básica revela como e porque os jovens vivem e como o fazemidentificando-se ou diferenciando-se no curso de suas interações, nos usos do tempocotidiano, nas práticas culturais e espaciais, nas formas de sociabilidade e no lazer. Comoreferimos, entendemos que as identidades juvenis estão situadas em fragmentadas formas desociabilidades nos espaços urbanos, em que para os nossos fins interessam mais suadinamicidade que os referentes estruturais, visto que delimitam de modo pouco flexível osvários níveis de interesses culturais juvenis. Tentaremos então expor tais noções no capítuloconstruído a partir das observações feitas na cidade de Ouro Preto, o que compreende osestilos de vida juvenil e como as repúblicas tornam-se espaços importantes da sociabilidadeuniversitária.
    • 956. AS REPÚBLICAS UNIVERSITÁRIAS DE OURO PRETO: LUGAR DEMORADIA, FESTAS E SOCIABILIDADES“Algumas das pessoas que nos acompanharam em excursões a Ouro Preto, ao veremaquele mundão de repúblicas de estudantes, perguntavam se os rapazes do meu tempo eram dados apatuscadas como os rapazes de agora. Em Ouro Preto, as famílias sempre fecharam os olhos àstravessuras dos estudantes. Conheço várias que deixam muito pra trás a travessura dosestudantes que moravam na Pensão Vermelha, fazendo soar a horas mortas o sino da Igreja de SãoFrancisco de Assis, ali bem defronte, o que conseguiram amarrando um fio de náilon no badalo dosino e levando-a até as janelas do casarão, num alarma que fez muita gente sair do leito e correr atéaquele local, pois em Ouro Preto, naquele tempo, sino tocando fora de hora era aviso de incêndio, epasmou a todos, pois de pronto ninguém com a sua causa atinou. E o sino a badalar invisível, como sefosse tangido por almas do outro mundo. Esse fato foi sobejamente noticiado por jornais de BeloHorizonte, da época”. (LESSA, 1981, p. 140-142, grifo nosso).Este trecho do livro de Maria Aracy Lessa destaca algumas das práticas ou travessurasdos estudantes universitários de Ouro Preto. O “mundão de repúblicas” que se instalou emdiversos bairros da cidade registrou formas de interação com a comunidade “nativa” atravésde apropriações lúdicas e subversões dos usos dos espaços. Relatadas pela autora como“patuscadas”46, as travessuras – jogos da sociabilidade – realizadas pelos estudantes tornaram-se referências na cidade à medida que provocavam uma inversão do cotidiano na cidadetradicional e religiosa.“Os ouro-pretanos são geralmente pacatos, de costumes severos e probidade proverbial,inteligentes, porém destituídos de pretensões. Raros são aqueles que aspiram alargar seus horizontesalém das elevadas montanhas do Itacolomi. (...) A essas qualidades reúnem um espírito dehospitalidade elevado a tal grau que nunca foi possível em Ouro Preto manter-se um hotel emprosperidade. Uma simples apresentação dá, ao recém-chegado, o direito de ser acolhido como decasa e, desde que é de casa, a vida se torna uma amenidade indescritível. Não nos faltam cuidados ecarinhos de que são pródigos os ouro-pretanos para com os hóspedes” (Relato do estudanteFrancisco, apud Dequech, 1984, p. 29).O próprio David Dequech, ex-aluno do curso de engenharia da Escola de Minas, emseu livro Isto Dantes em Ouro Preto (1984), através de 85 contos – os quais em grande parte46C.f. Dicionário Houaiss: 1) reunião festiva para comer e beber; 2) folia animada, divertida e barulhenta;pândega, farra.
    • 96relatam o cotidiano dos alunos e suas formas de interação com moradores, comerciantes,políticos e com as autoridades militares e religiosas – demonstra em linhas poéticas comoenunciou-se a vida estudantil no espaço público ouro-pretano em diversas esferas sociais einstitucionais. Não só de travessuras viviam os universitários, mas de manifestações própriasdo mundo estudantil, fossem elas politizadas ou culturais. Desde os trotes que pregavam commoradores ou comerciantes ao enfrentamento político em diversas ocasiões (ditadura militar,reivindicação por moradias etc.), os agregados da Escola de Minas demonstraram formaspróprias de sociabilidade no espaço público de Ouro Preto.Assim, aos sons dos sinos, os jovens estudantes foram descobrindo os lugares,descortinando a cidade para a qual se deslocaram. Este deslocamento para fins estudantis nãose resume através dos sentidos últimos atribuídos pelos sujeitos que foram garantir uma vagana Universidade. Pelo contrário, expande-se ao comprimir a presença e os valores do estranhono local, disseminando novas culturas ao passo em que relocaliza no espaço-tempo aidentidade cultural da cidade, através das práticas sociais e da cultura urbana inscrita por umapopulação flutuante de estudantes. À medida que descerravam as fronteiras socioespaciais eculturais, as repúblicas universitárias construíram formas próprias de sociabilidades, hábitos epráticas sociais, tornando-se então um lócus identitário enunciatório de estilos de vidadistintos.É preciso ressaltar desde logo que a dita hospitalidade do ouro-pretano resvala emduas situações distintas: 1) Os repúblicos possuem aspectos do modo de vida do ouro-pretanoao demonstrar hospitalidade e abertura para com o estranho. Este argumento foi bastantecitado por turistas que se hospedaram nas repúblicas; 2) As repúblicas reforçaram suasidentidades ao tornarem-se lugar de consumo e moradia, desde que a especulação imobiliáriae o custo de vida em Ouro Preto tornou-se um fator evidente do enobrecimento do centrohistórico. A especulação e o alto preço dos aluguéis, que se reveste em “prosperidade” ouro-pretana, já engloba outros bairros mais afastados, a exemplo dos bairros Bauxita e Morro doCruzeiro, onde se localiza a UFOP. Tal fator inverte, em certo sentido, os ditos do estudanteFrancisco, relatados por Dequech.A cultura universitária ouro-pretana existe nos interstícios do redescobrimento dobarroco mineiro e sua patrimonialização subsequente. Com a lei de tombamento do centrohistórico que consistiu na feitura dos códigos de posturas para o uso do solo e dos antigossobrados, o Iphan almejou, por tais prescrições, a preservação e os usos institucionalmenteconcebidos (QUEIROZ, 1984). Mas a incidência recorrente de uma população juvenilizada eflutuante fez com que a cidade crescesse para além dos morros, ao passo que sua universidade
    • 97se expandia física e simbolicamente. A UFOP possui 7.561 estudantes (Dados até junho de2010; ver Anexo 02) e adequou, nos fins da década de 60, normas de assistência dealojamento estudantil às leis sociais de proteção ao patrimônio público. Desta forma, algunsconflitos perpassam a vida universitária quanto ao uso e apropriação destas casas segundo osaspectos acima citados.No jogo da sociabilidade e das práticas socioculturais produzem-se algumas “fraturas”dos códigos sociais, da memória, do concebido. Existe um jogo, “um divertimento, umatransgressão, uma travessia ‘metafórica’, uma passagem de uma ordem a outra, umesquecimento efêmero no interior das grandes ortodoxias da memória. Todos essesmovimentos estão relacionados a organizações e a continuidades” (CERTEAU, 1995, p. 244).Ouro Preto é então chamada pelos estudantes como a “Terra do Nunca”, numa alusão àNeverland da clássica história do Peter Pan, terra onde a vida juvenil sempre florescerá. Estaalusão contrapõe a designação de uma cidade envelhecida e tradicionalizada. A UniversidadeFederal de Ouro Preto é chamada pelos estudantes de “Universidade Federal de Outro Planeta(UFOP)”. Os moradores ouro-pretanos são chamados de “nativos”. Os repúblicos não têmnomes, mas apelidos. A Praça Tiradentes e a Rua São José são os palcos principais daaglomeração do Carnaval universitário e da Festa do 12, enquanto outrora foram os espaçospolíticos por excelência. A balada é o rock, numa alusão ao Rock’n’Roll, estilo musical queperdurou entre os repúblicos por muitas décadas. Os encontros são chamados de “Social”,léxico que inscreve as repúblicas como espaços de enunciação da sociabilidade estudantil emsentido amplo. Neste sentido, destacaremos como as práticas culturais estudantis enunciarammodos de vida e sociabilidades descentradas de um contexto local.Ao que se refere às práticas, os estudantes tomaram as ruas para diversos tipos demanifestações. A Praça Tiradentes, como já citado, tornou-se o lugar apropriado para asreivindicações estudantis por moradia em 1968 e diversos movimentos politizados nopercorrer dos anos. É também um espaço híbrido, pois outras formas de apropriação podemser observadas. Isto é, as repúblicas são lugares de consumo cultural tanto pelos turistasquanto pelos estudantes, onde ocorrem diversos shows e eventos promovidos pela UFOP,como o “Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana”47. Muitos estudantes participam comoatores, debatedores e produtores culturais deste evento, o qual é considerado um dosprincipais, visto que ocorre há quase 50 anos e congrega uma série de atividades propostas47O nome oficial do evento é “Festival de Inverno de Música Erudita, Artes Cênicas e Visuais de Ouro Preto eMariana”, também conhecido como “Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes”. Ainstituição promotora do evento é a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em parceria com a FundaçãoEducativa de Rádio e Televisão Ouro Preto e as prefeituras dos municípios de Ouro Preto e Mariana.
    • 98pelas curadorias nas áreas de música, literatura, patrimônios cultural e natural e nas artescênicas, plásticas e visuais.Imagens 08 e 09Estudantes da UFOP em atividade no Festival de Inverno. O “palco” principal do eventoé o Centro Histórico. Fotos do autor, 2009.
    • 99Devemos dizer que o Festival de Inverno tornou-se importante para evidenciar odebate sobre as questões patrimoniais e culturais das cidades de Ouro Preto e Mariana.Através de suas curadorias ocorre também um resgate da cultura popular e acadêmica.Acompanhamos o evento, que ocorre durante o mês de julho, por um período de pelo menos 2semanas. Atividades lúdicas, como as apresentações teatrais e musicais e as oficinas de artescênicas ocorrem principalmente na Praça Tiradentes e em diversas outras ruas e bairros docentro histórico (Rua São José, Largo de Coimbra, Bairros Antonio Dias, Rosário e Pilar) eformam um quadro dinâmico de intervenções cotidianas durante as semanas do evento. Hátambém cinema e teatro itinerante, que se deslocam para outros bairros fora do centro ehabitados predominantemente por ouro-pretanos (Alto das Dores, Saramenha, São Cristóvão).Entretanto, constatamos a baixa participação dos moradores desses bairros – fato confirmadopelos organizadores do evento.Imagem 10Festival de Inverno no Bairro Alto das Dores e no Largo de Coimbra. Diferenças noconsumo cultural local e turístico. Foto do autror, 2009.
    • 100Imagem 11Imagem 12Festival de Inverno no Bairro Alto das Dores e no Largo de Coimbra. Diferenças noconsumo cultural local e turístico. Foto do autor, 2009.Lugar hibrído: Conexão vivo na Praça Tiradentes. Consumo cultural local e turístico. Fotodo autor, 2010.
    • 101A Praça Tiradentes, as Ruas Direita (Conde de Bobadela), Paraná e São Josélocalizam-se na área mais visível da cidade, o centro histórico, onde concentra-se grande partedos locais de comércio e serviços, como os ateliês de joias e artesanatos, as pousadas; cafés,pubs, restaurantes, bancos etc. Através de fotografias panorâmicas e dos mapas de Ouro Pretoconstata-se como estas áreas são interligam as demarcações físicas e simbólicas dos espaçospúblicos, fragmentando a paisagem ao passo que constitui uma imagem cenográfica de lugar(ARANTES, 2000). A Praça Tiradentes ostenta importantes monumentos, que podem serconcebidos como expressivas paisagens de poder (ZUKIN, 2000) condizentes com aidentidade histórico-política de Ouro Preto, como a estátua de Joaquim José da Silva Xavier,o Tiradentes, o Museu da Inconfidência (antiga Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica,construída em 1780) e o antigo Palácio dos Governadores construído entre 1738 e 1748, ondehoje está instalada a Escola de Minas. Nas Ruas Direita e Paraná existem grandes sobrados,formando uma moderna paisagem estetizada através da hibridação de sua arquitetura coloniale a fragmentação dos usos. Estes sobrados confundem-se entre lojas, restaurantes, pousadas,bares e repúblicas. Já na Rua São José, da mesma forma, localizam-se vários serviços comoos bancos e a rede hoteleira da cidade e algumas repúblicas. Além disso, ostenta paisagens ebens culturais que reforçam a identidade turística da cidade: Cine Vila Rica, Casa dos Contose Grande Hotel de Ouro Preto.Imagem 13Mapa da Praça Tiradentes e ruas do Centro Histórico. Fonte: Google maps, 2010.
    • 102Imagem 14Imagem 15Lugar de consumo e moradia: Na Rua Direita coexistem repúblicas e comércio. Foto doautor, 2009.Repúblicas Estudantis na Rua Paraná. Foto do autor, 2009.
    • 103Imagem 16Esta formação arquitetônica demarca as assimetrias urbanas que são reforçadas com osprocessos de globalização e sua composição mercadológica. Para Sharon Zukin (2000) ainfiltração desses empreendimentos turísticos nos espaços centrais das cidades sugere umaassimetria, de sentido visual, através de um repertório de imagens que sucede às paisagensreais e simbólicas, de modo que vincula o fluxo de capitais à mudança da paisagem material eimpõe múltiplas perspectivas à visibilidade paisagística, objetivando destacar a beleza dolugar. Conforme A. Arantes,seus efeitos sociais são as obras de natureza cenográfica, geralmente localizadas noscentros históricos das grandes cidades ou nas zonas mais diretamente vinculadas àsatividades formadoras do processo de globalização. [...] são ícones que identificamcada cidade, multiplicados infinitamente nos cartões postais e fotos turísticas. Essasconfigurações particulares da paisagem tendem a ser sequestradas de seu contextofísico e social imediato, por intervenções que as estilizam dramaticamente e que –nessa nova roupagem – oferecem-nos para resgate pelo comércio e para o consumovisual de moradores e visitantes (2000, p. 152).Apesar desta constatação, as ruas do centro histórico constituem uma paisagemhíbrida, não apenas sucede das intervenções urbanas que empregaram uma restauração decaráter modernizante, mas devido ao fluxo de pessoas que compreendem três categorias deNa Praça Tiradentes: consumo de bens culturais. Foto do autor, 2009.
    • 104análise das identidades juvenis: o “nativo”, o turista e o estudante. A importância destascategorias amplia e reforça uma noção múltipla de pertencimento às diferentes identidades ecomo elas se publicizam nos espaços ouro-pretanos. Suas diferenças estéticas e decomportamento estabelecem, portanto, espacialidades fragmentárias qualificando os lugaresde sociabilidades públicas nos espaços que compreendem o centro histórico, a exemplo doCentro Acadêmico da Escola de Minas (CAEM), do Barroco e da Praça de Eventos da UFOP.O CAEM, por exemplo, pode ser considerado um lugar híbrido, à medida que nesteespaço realizam-se os “rocks”48dos estudantes, assim como é o espaço de reuniões do centroacadêmico. Enquanto lugar híbrido refere-se às sociabilidades e práticas estudantis, em que osdistintos “grupos” de repúblicos publicizam suas identidades e diferenças. Os estudantesfrequentam o CAEM principalmente às quintas e sextas-feiras, enquanto que os “nativos”geralmente vão aos sábados. Mas não significa que necessariamente eles não frequentem omesmo espaço nos mesmos dias.Em alguns casos depende do estilo musical e do tipo de festa que ali se produz, aexemplo das festas estudantis como o “Miss-Bixo”, um tipo de festa em que os “bixos”vestem-se a caráter (homens de mulher e mulheres de homem) e dançam no palco do local.Em muitos outros casos há uma grande mistura de estudantes, turistas ou nativos. No entanto,não é difícil perceber como as diferenças se incidem neste lugar. Muitos estudantescomparecem às festas com a camisa da república, demarcando formas subjetivas depertencimento àquele espaço. O uso da camisa serve também para publicizar esteticamente aimagem da república e dos moradores que procuram interagir com outros repúblicos emdiversos aspectos.Convém assinalar que as festas noturnas não começam em horários convencionais. Osestudantes fazem primeiro as “sociais” no interior das repúblicas para depois, por volta das 2ou 3 horas da madrugada, deslocarem-se para o CAEM. No período de alta estação, muitosturistas participam destas festas e costumam estranhar tais horários. Enquanto o rock nãocomeça, a concentração de pessoas diversas (turistas, nativos, estudantes não-repúblicos)tende a ser na Rua Direita, principalmente nos bares Barroco e Satélite.48O termo rock faz parte da linguagem cotidiana dos repúblicos. Significa balada, night, festa.
    • 105Imagem 17Imagem 18O Rock no CAEM. Fotos do autor, 2010.
    • 106O Barroco é um dos bares mais frequentados por turistas e estudantes. Não há nestelocal nenhuma estrutura especial para que se observe grande fluxo de pessoas principalmentea partir do início da noite. Este bar pode ser considerado também uma importante fonte deanálise sobre os usos espaciais de Ouro Preto, já que configuram-se temporalidades liminares.Pela manhã, o bar é bastante frequentado por ouro-pretanos mais velhos que costumam beberno local. Os ruídos são de vozes mais compassadas, expressando um lugar de sociabilidadenão-juvenilizada. No período da tarde os usos vão se alterando lentamente e há grande misturade pessoas mais velhas e jovens que vão aparecendo em pequenos grupos para beber. Aospoucos o bar vai sendo reapropriado pelos jovens, que no início da noite já são grandemaioria. Cabe ressaltar que apesar de enfatizarmos os repúblicos como categoria de análise dasociabilidade juvenil em Ouro Preto, não há como distinguir as três categorias juvenis apriori, a não ser através de uma observação mais acurada, a partir da interação do pesquisadorcom os sujeitos em questão. Tal interação ocorre através de várias estratégias de comunicaçãocomo uma conversa informal ou prestar atenção na estética, nas disposições étnicas e nosmodos de falar.Imagem 19O Barroco. Lócus da sociabilidade noturna. Foto do autor, 2010.
    • 107Imagem 20A travessia que compreende o Barroco e o Satélite, para usar as palavras de HomiBhabha (1998), sugere um entrelugar produtor de performances cotidianas de diferenças eidentidades. Este espaço configura-se como parte dos lugares noturnos de Ouro Preto, ondenegocia-se subjetivamente as diferenças ao passo que articula o passado e o presente, asociabilidade ou a abstenção do estranho no lugar, e em decorrência das desigualdades sociaistambém negocia-se a inclusão e a exclusão do outro. A porta do Barroco, por exemplo, torna-se um espaço em que as identidades juvenis e suas formas de expressão através do vestuário,da comunicação, dos usos subjetivos daquele lugar. Por exemplo prático, podemos referir ogrupo de turistas que acompanhamos no 2º incurso, durante um período de 3 dias.Estes jovens flanaram pelas ruas da cidade em busca de diversos locais deentretenimento e lazer noturnos, principalmente pelas repúblicas. Com esta estratégia depesquisa pudemos compreender como as repúblicas estão ou não “abertas” para o estranho.Os turistas imaginavam encontrar festas regadas a muita cerveja e mulheres para paqueras,pois Ouro Preto é conhecida culturalmente como uma cidade de grande liberdade sexual.Diversos repúblicos estavam “fazendo sociais” durante a semana, onde ouviam-se ruídos esons distintos que enunciavam a diferença dos modos de vida em cada casa.Rua Direita. Boêmia e sociabilidade noturna juvenil. Foto do autor, 2010.
    • 108Imagem 21Imagem 22Estilos de vida juvenis. Fotos do autor, 2010.Estilos de vida juvenis. Fotos do autor, 2010.
    • 109Entretanto, todos os casos observados em que o grupo de turistas tentou participar dasfestas nas repúblicas não houve nenhum acesso ao espaço interno. Segundo os moradores daRepública Xeque-Mate, “0x0” e “X-Tose”49, em geral os “rocks” das repúblicas são abertossomente para as repúblicas amigas que compartilham as afinidades e os modos de vida, nãosendo também um tipo de festa comercial. Para que eles tivessem acesso deveriam antes teralgum contato com os repúblicos ou que houvesse uma permissão. Além dos grandes eventoshá algumas festas pagas, mas que são de caráter social restrito. As repúblicas promovem ostrotes e as festas solidárias, como o Arraiá Universitário, para a arrecadação de dinheiro paraajudar instituições como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Ouro Preto(APAE). Nestas festas a participação dos “nativos” é comemorada pelos repúblicos, poisconta com sociabilidades menos conflitivas à medida que aproxima os moradores.Há também uma grande preocupação com o patrimônio edificado, e nestes casos osrepúblicos estão enquadrados na Resolução CUNI nº 779 da UFOP, pela qual eles sãoresponsáveis diretos por qualquer dano ao patrimônio. Mas, para além da orientação depreservação do patrimônio, há também o cuidado com a própria casa, em que não é possívelcotidianamente liberar o acesso aos turistas, mesmo sendo recorrente a procura. No entanto,as repúblicas não se tornam por isso espaços necessariamente fechados. Sua abertura ocorreem períodos distintos, como o Carnaval, o Festival de Inverno e a Festa do 12. Nestes eventosa abertura para os turistas ocorre, sendo que para uma pessoa se hospedar paga-se um valorentre R$ 10,00 a R$ 15,00, embora o acesso seja liberado para os visitantes conhecerem e sedivertirem.As repúblicas são caracterizadas como espaços de muita liberdade e a imagem que osturistas têm estão associadas às festas, diversão, bebidas, drogas, práticas sexuais etc, explicao estudante “Ligador”50. Jaime António Sardi (2001) focaliza em seu trabalho a conciliaçãodos estudos com as “práticas de prazer” dos estudantes. Para o autor há certo exagero emafirmar que as repúblicas constituem-se como um espaço de exacerbação do prazer. Está éuma imagem divulgada amplamente pelos meios de comunicação e reforçada por aqueles quevisitaram a cidade durante as épocas de festas. Esta condição é de fato bastante divulgada pelamídia e tem provocado receios entre os repúblicos.49Depoimento concedido pelos estudantes-moradores da República Xeque-Mate, Luiz Ricardo Morine dosSantos (0x0) e Otávio Jardim Sírio (X-Tose), em 28/04/2010.50Depoimento concedido pelo estudante-morador da República Aquarius, Gustavo Dimas Chaves Barbosa(Ligador), em 27/04/2010.
    • 110O estudante “Maldada” explicou que o Profissão Repórter51, da Rede Globo, fez umareportagem sobre repúblicas em várias cidades brasileiras. A República Nau Sem Rumo foi odestaque em Ouro Preto e os repórteres fizeram tomadas durante todo o dia para acompanharo cotidiano dos estudantes dentro e fora da casa. No entanto, os moradores da Nau, assimcomo muito outros moradores de repúblicas federais, frustraram-se ao ser apenas exibido o“rock da república” em sua boite própria, enquanto que o programa enfatizou o cotidiano deestudos e organização nas repúblicas de outras cidades.Os repúblicos diversificam o cotidiano da casa entre lazer e estudos não só pelaausência dos pais, mas também devido ao alto custo do consumo cultural ouro-pretano, poismuitos serviços e oferta de bens tornaram-se caros para os estudantes, sendo prioritariamentevoltados para o turismo. “Kamikaze”, moradora da República Virada pra Lua, argumenta quefaltam espaços em Ouro Preto que comportem estudantes e principalmente os nativos. Paraela os empreendimentos da cidade focalizam o turismo em detrimento dos moradores locais epor isso os estudantes preferem passar os finais de semana fazendo festas nas própriasrepúblicas, o que é também uma tradição.O que salva são os grandes eventos, tipo o Festival de Inverno e o Fórum das Letras,mas que são em períodos muito curtos. Mas num final de semana qualquer e vocêquer fazer alguma coisa bacana, diferente, você não vai conseguir. Ou você vaibeber, ou você fica em casa lendo. Aí o que a gente faz no final de semana? Ou agente vai pra cachoeira ou vai pra BH ver filmes... ou a gente vai pra alguma festaem uma república ou no CAEM.52É notória a falta de opções noturnas e para fins de semana em Ouro Preto. O tamanhoe estrutura da cidade, assim como as leis de uso do solo talvez sejam os fatores principais paraa ausência de muitos espaços de lazer e entretenimento, mesmo que seja considerável ogrande fluxo de jovens durante todo o ano. Logo, as repúblicas possuem equipamentos que astornam lugar de sociabilidades e entretenimento diversos. Possuem boates, e os mesmos tiposde freezers de cervejas que existem em bares.51O tema do programa, exibido em 20/04/2010, destacava os jovens universitários e os desafios de uma novavida, longe da família, nas repúblicas de todo o país.52Depoimento concedido pela estudante-moradora da República Virada pra Lua, Bruna Evangelista RosaBarbosa (Kamikaze), em 30/04/2010.
    • 111Imagem 23Imagem 24Reapropriação dos espaços e usos das casas: Boates e Freezers das Repúblicas do CentroHistórico. Fotos do autor, 2010.
    • 112As boates são equipadas com jogos de luz, aparelhagem de som. Alguns espaços dascasas foram reapropriados como boates e são bastante utilizados nas festas e comemoraçõesdos estudantes. J. A. Sardi identifica as festas como uma reapropriação espontânea dosespaços, considerando as possibilidades de conviverem em um ambiente dinâmico eestilizado:Otra cuestión respecto a la existencia de un ambiente de exacerbación del placer serefiere a su naturaleza espontánea o deliberada, así como su continuidad históricamantenida a lo largo de tantas décadas. Efectivamente las iniciativas placenteras sonconducidas por los propios estudiantes, conducidas y ejecutas por ellos. Lasconmemoraciones pueden ser espontáneas cuando tiene lugar un evento inesperado.Consideramos que cuando hay planificación en la realización de eventosplacenteros, esto significa que se evidencia el deseo de tener deseos. Equivale a laactitud de producir circunstancias en las cuales se puede hacer brotar los deseos(SARDI, 2001, p. 48)Este autor considera as festas nas repúblicas como um conjunto significativo para acompreensão da “cidade universitária” e principalmente para o calouro durante as interaçõesiniciais com o “sistema das repúblicas”. Ao passo que batalham para morar na república vãoarticulando-se com a cultura dos atuais moradores e tendem a acompanhar o cotidiano festivoda casa enquanto tentam conciliar com os estudos. Porém a grande quantidade de tarefasatribuídas aos calouros dificulta que estes consigam conciliar de imediato as atividadesestudantis no âmbito da universidade com as sociais. Da mesma forma, devido à imagemdesignada à “cidade universitária” como “cidade dos prazeres” e “liberdade pura” surpreendealguns estudantes que consideravam encontrar um lugar de consumo em detrimento dasresponsabilidades para com a casa e os estudos:Hay un conjunto significativo de relatos en los cuales aparece que el contextouniversitario de Ouro Preto, a partir de las interacciones iniciales que el estudianterealiza con el “sistema de placeres”, promueve una ruptura en la trayectoria de lossujetos. En um primer momento, el de la llegada, los estudiantes manifiestansorpresa con la cantidad de fiestas y oportunidades placenteras disponibles. Algunosafirman que nunca vieron tanta fiesta a lo largo de su vida, otros manifiestan que lasfestividades van más allá de lo que tenían como expectativa, que “Ouro Preto es unatentación para la orgía”. La declaración de sorpresa presente en diversos relatos dejaver que, en cierta medida, ya que hay una ruptura expresada, que el ambiente deorigen del estudiante era más sobrio, comedido, quizás más limitado en función deprohibiciones. (SARDI, 2001, p. 49).As repúblicas tornam-se lugares fragmentários no contexto relacional ouro-pretano,pois nelas há práticas cotidianas diferenciadas de outros lugares da cidade, compartilhadascomo conjuntos de ações próprias. Mas, como já referimos, são híbridas quantos aosdiferentes usos que demarcam o lugar. São conjuntos de ações que sugerem não só uma
    • 113tradição, mas convergências de sentidos quanto ao que se pratica nestes espaços. Segundo aproposta de R.P. Leite (2007) acerca da existência dos lugares, podemos entender que associabilidades entre as repúblicas imprimem ações simbólicas e conteúdos culturais que sãocompartilhados reflexivamente entre os moradores. Suas fronteiras são flexíveis à medida quepermitem interações públicas entre as diferentes identidades e expressam dissensões ouconvergência de sentidos e estilos de vida.6.1 Conflitos e articulações entre as repúblicas e a cidadeInstituições sociais como o Iphan, o Ministério Público Federal e diversos setoreslocais – Prefeitura Municipal, Federação das Associações de Moradores de Ouro Preto(FAMOP) e o Movimento de Democratização da Moradia Estudantil (MDME) convergemcom o discurso de que o patrimônio precisa ser preservado e por isso faz-se necessário ocontrole e a fiscalização dos usos dos equipamentos urbanos, como ruas, a Praça Tiradentes, ocasario edificado (residencial e comercial), as Igrejas e Museus. Entende-se como um dosprincipais alvos dessa discussão a regulamentação do uso das repúblicas estudantis, visto queboa parte delas é instalada em prédios públicos e localizam-se no Centro Histórico. Alémdisso, os usos cotidianos são muitas vezes conflitivos com a população local.Muitos fatos devem-se aos ditos excessos dos estudantes em que os trotes ebrincadeiras ultrapassam a noção de civilidade e boa vizinhança. Além da preocupação com apreservação das casas, há os conflitos entre os universitários e a população local. Algunsincidentes não resultam somente do grande fluxo de turistas que visitam Ouro Preto durante oCarnaval e a Festa do 12. Muitos advêm das interações cotidianas ou mesmo os conflitosculturais que decorrem dos eventos e festas tradicionais da cidade, como a Sexta-Feira daPaixão, sobre a qual relataremos abaixo.No ano de 2006, por iniciativa do MDME e da Famop, foi entregue um abaixo-assinado ao reitor da Universidade Federal de Ouro Preto, João Luiz Martins, e deliberadasreuniões sobre a condição das repúblicas, envolvendo as entidades representativas de interessepúblico que se reuniram para buscar soluções para a regulamentação do uso das repúblicasfederais. O objetivo do MDME foi, conforme notícia extraída do sítio da Câmara Municipalde Ouro Preto, “o respeito ao Código Municipal de Posturas, o fim de trotes violentos, aadoção de critérios sócio-econômicos para a seleção dos moradores das repúblicas federais,assim como um maior aproveitamento do espaço das casas que as sediam [...] a campanha
    • 114leva à população um problema que se arrasta há muitos anos: o difícil convívio entre asrepúblicas federais e particulares e as comunidades situadas em sua vizinhança” (CÂMARAMUNICIPAL DE OURO PRETO, 2006). Segue ainda em outro trecho: “Se a adoção de critériossócio-econômicos e o fim dos trotes violentos são as questões mais visadas pelos estudantes,o respeito ao Código Municipal de Posturas é o ponto do abaixo assinado que encontra maisreceptividade entre os ouro-pretanos” (CÂMARA MUNICIPAL DE OURO PRETO, 2006). Esteconflito iniciou-se com um incidente durante uma das mais tradicionais festas religiosas dacidade, a Sexta-Feira da Paixão, envolvendo os moradores da república Pif-Paf, fundadadesde 1946. A república foi denunciada por utilizar músicas em nível sonoro alto, interferindoa passagem do cortejo religioso, que precisou mudar o tradicional trajeto.O desfecho deste conflito foi um decreto municipal que declarou a desapropriação darepública de seu antigo endereço, sendo aprovado por unanimidade o projeto de lei (DecretoMunicipal nº 84/2006) do então Prefeito Ângelo Oswaldo, durante a reunião na CâmaraMunicipal de Ouro Preto, que declarou o imóvel em caráter de utilidade pública. Mas apósquatro anos de espera do resultado deste processo (2006-2010), a República Pif-Paf não foidesapropriada por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) ao alegar que a PrefeituraMunicipal de Ouro Preto não poderia desapropriar o imóvel porque ele pertence aos bens depropriedade da Fundação Universidade Federal de Ouro Preto (FUFOP), sendo então daUnião (SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, 2010).Independente do resultado final evidencia-se, de todo modo, o conflito cotidiano esociocultural entre a “cidade dos estudantes” e da “cidade dos nativos”. Como referimos, ostrotes também foram enquadrados em decisões judiciais desde as intervenções dos MinistériosPúblico Federal e Estadual que proibiu o uso das placas e designou que o período de batalhadiminuísse de 6 para 3 meses. Estes conflitos também ocorrem na vida cotidiana entrerepúblicos e “nativos” desde que os estudantes passaram a se apropriar e consumir o espaçopúblico com suas práticas e hábitos dissonantes. No livro Isto Dantes em Ouro Preto (1984),de David Dequech, são listados diversos contos que evidenciam trotes de estudantes commoradores e comerciantes da cidade. Segundo relata o autor, muitos trotes foramconsiderados pelos nativos, que até então eram bastante próximos aos estudantes. Mas nodecorrer dos anos a presença maciça de estudantes destoou o cotidiano da cidade,principalmente no que se refere aos conflitos intergeracionais.Os repúblicos contam que situações pontuais tornaram tensa a sociabilidade públicacom os nativos mais velhos. Neste ponto, alguns repúblicos atribuem este conflito à imagemnegativa veiculada pela mídia e por moradores mais antigos da cidade. Para “Peposa”,
    • 115moradora da República Virada pra Lua, é preciso distinguir (como fizemos na pesquisa decampo) os moradores, os repúblicos e os turistas. Em suas palavras, “São pessoas muitodiferentes. São três tipos de pessoas que passam por Ouro Preto e cada uma vive num tempodiferente. Tem os moradores que vivem num tempo, tem os estudantes que são moradores nãopermanentes; e os turistas que estão aí de passagem. Pessoas de mundos diferentes que estãoaí na rua o tempo inteiro”53.Para “Ligeirinha”, também moradora da República Virada pra Lua, não se devegeneralizar os conflitos. Há aqueles que são contra a presença de estudantes e os veem apenascomo habitantes temporários e baderneiros, que vão às ruas para tomar cachaças e quebrar arotina da cidade. A estudante acredita que é preciso haver uma conciliação entre as partes epor isso as repúblicas federais fundaram a Refop em 2006, para abrir diálogos com acomunidade e as entidades públicas ouro-pretanas. Ela defende também que os estudantesprecisam conhecer melhor a cultura local, a sociabilidade e espaços novos de lazer na cidade,assim como os ouro-pretanos deveriam não criar mitos e aproximarem-se mais da culturauniversitária, de forma que conflitos pontuais não separem as duas “comunidades”54. Segundo“Junta”A Refop surgiu em 2006, no momento em que houve uma crise desse sistema.Digamos assim, não uma crise interna, mas uma crise que veio de fora, no momentoem que o sistema foi questionado. Porque a partir do momento em que acomunidade começou a crescer, em que vieram vários outros estudantes pra cá, queas repúblicas federais não mais comportavam número de alunos que a UFOP tinha, osistema passou a ser questionado por aqueles que não faziam parte dele, por pessoasque sequer conheciam. E neste momento surgiu a Refop como uma forma de defesamesmo, como articulação dos moradores das federais naquela época que seencontraram pra poder manter vivo aquilo que sempre acreditou55.No entanto tais conflitos não impedem a sociabilidade pública juvenil (intrageracional)entre repúblicos e nativos. Por exemplo prático, podemos citar o caso da estudante “Lu”,moradora da República Indignação, que mantém relações cotidianas com os ouro-pretanos.Ela namora um ouro-pretano e explica que conhece muitos estudantes e “nativos” que não sediferenciam, pois convivem a partir das identificações do estilo de vida. Segundo informou,53Depoimento concedido pela estudante-moradora da República Virada pra Lua, Monique Evelyn G. França(Peposa), em 30/04/2010.54Depoimento concedido pela estudante-moradora da República Virada pra Lua, Fabiana Richter O. da Silva(Ligeirinha), em 30/04/2010.55Depoimento concedido pela estudante-moradora da República Lumiar e diretora jurídica da Refop, JulianaRodrigues Martins (Junta), em 28/04/2010.
    • 116no início de seu namoro havia uma desconfiança entre os ouro-pretanos quanto à suapresença, mas que foi superada em pouco tempo, visto que ela se inseriu no grupo semdistinções de status56. Um depoimento nesse sentido foi dado por Jaqueline Bycie, ouro-pretana que pretende tentar vestibular na UFOP. A “nativa” e suas amigas não interagiam comos repúblicos e distanciavam-se do modo de vida desses estudantes por considerá-los“arruaceiros”. Após conhecer algumas repúblicas e passar a frequentar o CAEM seu modo dever mudou e passou a ser convidada para vários rocks nas repúblicas57.Jaqueline é teatróloga e foi convidada para participar do Festival de Inverno de 2009,quando manteve seus primeiros contatos com os estudantes de Artes, de Música e de Filosofiada UFOP. Segundo informou, a impressão que tinha era de que os estudantes sediferenciavam mais pelo curso que faziam, mas após sua inserção no lugar percebeu que,diante de quase 400 repúblicas, seria impossível fazer algum julgamento de curso e de formageneralizada. Ela questionava também se os ouro-pretanos universitários deveriam morar emrepúblicas para participarem de “sociais” e festas em repúblicas. Esta seria a maiorpolarização entre os “nativos” (estudantes ou não) e os repúblicos. Mas, em depoimento deTuca Lobo, ouro-pretano e estudante do curso de música da UFOP, não há nenhumaexigência das repúblicas quanto a este fato. Segundo o estudante, alguns “nativos” resolverammorar em repúblicas apenas para conhecerem, experiência que ele viveu:A decisão foi minha. Eu morava em um lugar onde o acesso para a universidade eraruim. Então resolvi morar com alguns amigos em uma república. Foi umaexperiência e tanto. Conhecer o sistema de repúblicas de perto quebra ou atéaumenta o preconceito com elas, mas é fato que eles também desconhecem a culturade Ouro Preto. Faltam informações a eles sobre quem somos, o que fazemos e o queproduzimos. A cultura daqui é linda e tem muita coisa a explorar. Mas os estudantespouco conhecem. Eu fiz o contrário, fui conhecer as repúblicas58.A questão que reside neste caso são as diferentes identidades e modos de vida juvenis.Nos eventos públicos e em alguns lugares como o Barroco e o CAEM essas identidadesdiferenciam-se mais através dos estilos de vida, linguagens e artefatos culturais, ao contráriodo que se observa na complexa relação entre repúblicos e “nativos”. Entretanto, no que serefere à linguagem há também articulações que reflexivamente transformam os espaços desociabilidades públicas ouro-pretanas.56Depoimento concedido pela estudante-moradora da República Indignação, Luciana Martins S. Sampaio (Lu),em 29/04/2010.57Depoimento concedido pela “nativa” Jaqueline Bycie em 29/04/2010.58Depoimento de Tuca Lobo. Ouro-pretano, músico e ex-morador de república, em 24/07/2009.
    • 117Importante destacar neste momento é a formação lexical na sociabilidade dosestudantes. A. França (2008) fornece-nos um quadro de “itens lexicais especiais dosuniversitários” (Anexo 03), elucidando a derivação de novos modos de compreender o camposemântico da língua em Ouro Preto. É tradição entre os universitários inventaremneologismos59a partir da linguagem local, como o nome de algumas repúblicas, a exemplo daRepública Marragolo que significa “marrar o golo”, isto é, beber uma cachaça, uma pinga60.A adoção de termos diversos desloca o sentido original da palavra para outros modos designificação, ou, como sugerem Almeida e Tracy (2003), para o deslocamento da cultura queinscreve à sociabilidade contemporânea formas deslizantes de compreensão, em que resulta ocontexto de “pós-significação”, isto é, a disseminação de linguagens e de culturas globais àsvariantes não determinam seu campo conceptual original.Segundo aquela autora, a categorização léxica expõe os modos de falar e deinterpretar das pessoas, que registram e armazenam na memória classificações individuais.Para tanto devemos lançar mão da ressignificação do léxico pelas identidades juvenis, aocompartilharem, em diferentes contextos, históricos e contemporâneos, seu novo usodeslocado do sentido conceptual original. A. França aponta que a linguagem concorre para adiferenciação entre estudantes e nativos através dos itens lexicais próprios dos universitários,pois estes não utilizam gírias, mas signos de grupo:Pode-se afirmar que os itens lexicais próprios dos Universitários constituem umamarca distintiva desse grupo, no presente trabalho, considerada, um signo de grupo(e, não, gíria). A razão para isso é que as gírias, além de utilizadas como marca degrupo específico, são expressivas, mas se desgastam com facilidade, sendoefêmeras, ou passam a ser adotadas por outros falantes, tornando-se um vocabuláriocomum, de uso vulgarizado. No que diz respeito à linguagem dos Universitários,aqui examinada, a sua especificidade lexical não foi adotada por outros grupos e,além disso, não é efêmera, o que pôde ser comprovado por meio de entrevistas comex-alunos (FRANÇA, 2008, p. 82).No entanto, todos os repúblicos entrevistados afirmaram que o quadro de léxicosenuncia-se em Ouro Preto como um todo e não somente nas repúblicas. Neste sentido,podemos considerar que a delimitação e definição das palavras estão “para além do texto”,como é sugerido nas teorias pós-estruturalistas, em que a ausência de fontes seguras para oconhecimento implica fragmentação de linguagem, discursos e textos (SMART, 2002).59“O processo de criação de novas unidades léxicas denomina-se neologia e ao elemento resultado desseprocesso dá-se o nome de neologismo” (ALVES apud FRANÇA, 2008, p. 32).60Depoimento concedido pelo estudante-morador da República Marragolo, Rafael Magalhães (Papagaio), em26/04/2010.
    • 118Portanto, como observamos, as palavras estão na sociabilidade cotidiana entre repúblicos enativos.Para resumir, devemos observar o uso dos neologismos dos estudantes em nível desociabilidade cotidiana, quando podem ser divididos em neologismo formal e conceptual. Noprimeiro caso uma nova palavra é introduzida na língua vernácula e “passa a integrar osistema linguístico por meio do contato com outras realidades linguísticas, sendo, assim, umempréstimo estrangeiro” (FRANÇA, 2008, p. 31). Ela se torna um tipo de interferência de umalíngua sobre a outra, a exemplo de palavras usadas cotidianamente como Xerox, playboy,marketing etc. No neologismo conceptual, observa-se não uma interferência ou uma novacriação, mas a atribuição de novo sentido aos termos, que ocorrem por conta dastransformações pelas quais a língua passa. Isso ocorre tanto com os processos de formaçãovernácula quanto com os estrangeirismos. Entretanto, não basta a criação do neologismo paraque se possa inventariar o acervo lexical de uma língua local, mas a observação de seu uso, oua sua não difusão entre as diferentes identidades sociais. Tais “usos” é o que evidenciam,então, a própria sociabilidade inscrita nos neologismos apresentados, a exemplo do uso dapalavra rock em Ouro Preto.6.2 Práticas socioculturais e usos dos espaços: Rock e Sociais6.2.1. O Rock de Ouro PretoMárcia Regina Costa (2006a) analisa os fatos e desdobramentos da cultura urbana dosanos ‘50 no Brasil. Data desta época a constituição da cultura juvenil e o interesse dasCiências Sociais brasileira em desenvolver teses a partir de estudos sobre as “culturas locais”dos subúrbios de São Paulo nos anos 80, como o movimento punk que inscreveu práticasculturais inovadoras devido à circulação de imagens e signos culturais desde a introdução doestilo no país. O rock como música jovem passou a ter ampla identificação como estilopolítico e culturalmente transnacionalizado. Mas esse estilo não tem a mesma conotaçãoatualmente, em que é mais patente sua definição enquanto mais um estilo cultural na esfera daprodução artística e musical, diferente do que se poderia pensar, ao denominá-lo por práticasideológicas e de contestação a valores institucionalizados, a exemplo da política e da religião.Para nosso objeto contribui esta temática, pois ao observarmos as sociabilidades dosrepúblicos de Ouro Preto, pensamos nas práticas organizadas culturalmente. Alguns
    • 119estudantes sugerem que o termo rock (não como estilo musical, mas ressignificadoconceitualmente) passou a ser usado na época de efervescência do Rock’n’Roll na cidade, nosfins da década de ‘60. Tal fato pode ter convergências se atentarmos para a enunciação dacontracultura no Brasil entre universitários. Assim como o punk foi politizado e sua produçãoartística perpassou os movimentos skinheads, darks, metaleiros, rappers, funkeiros, etc(COSTA, 2006a), o uso do léxico rock nesta cidade foi ressignificado pelos estudantesuniversitários, ao ter seu sentido designado para outros usos, assim como a pertença a esteestilo foi apropriada como nova linguagem.O rock em Ouro Preto é uma forma de enunciação das práticas cotidianas e dasidentidades experimentadas na cidade. Não é propriamente um show em si, mas são as festasnas ruas e as boates nas repúblicas; são os eventos, os encontros e as baladas; são oschurrascos nos fins de semana que ocorrem nas repúblicas ou nos sítios próximos à cidade;são os passeios nas cidades vizinhas em dia de eventos diversos; é o Carnaval etc. Em outrasregiões do país, no Nordeste, por exemplo, fala-se em reggae, para designar qualquer eventochamado “alternativo”, lazer e entretenimento. No Rio de Janeiro, fala-se em night e segundoAlmeida e Tracy (2003), termos assim usados são categorias espaciais que designam omovimento noturno dos jovens nas cidades, por isso enuncia para além da significação lexicalimediata.No entanto, em todos os casos, esses termos são falados em várias regiões do país, nãosendo exclusivos de uma cidade ou outra. No caso de Ouro Preto, o rock tornou-se nãosomente um léxico, mas uma categoria espacializante das sociabilidades cotidianas. Os“rocks” ocorrem em períodos diurnos ou noturnos, a depender dos estilos de vida dos diversosgrupos juvenis. O termo é generalizado para vários tipos de evento, a exemplo do Carnaval eda Festa do 12, que são tradicionalmente organizados e planejados pelos próprios estudantes.Em nossa pesquisa, observamos seu uso analogamente à categoria night, para quecompreendamos a dinâmica da cultura urbana na cidade.Durante o período letivo a vida noturna é intensamente marcada pelos encontros entreos repúblicos. Os encontros ocorrem principalmente nas próprias residências, sobretudo é omomento de articulação entre as repúblicas femininas e masculinas. O que ocorre sãoencontros entre as “repúblicas amigas” que se comunicam mais diretamente, demarcandoestilos de vida e fronteiras espaciais e de sociabilidade entre grupos identitários, emborasejam flexíveis. O rock é sinônimo de festa ou comemoração (FRANÇA, 2008). É o momentode fluxo entre os jovens, que fazem do uso do tempo livre uma maneira de fazer o cotidiano(PAIS, 1993).
    • 120O que marca esta prática é a forma como os encontros são aguardados como momentode explorar as noites cotidianamente. É com este intento que passam de uma república paraoutra, de algum local da cidade para as repúblicas que se tornam um típico espaço públicoconstitutivo de sociabilidades e usos múltiplos, diferenciados pelas fronteiras simbólicas quepermeiam a “cidade universitária” e a “cidade nativa”. “A noite, ou começa em um bar,principalmente o Satélite e o Barroco ou, como chamamos, o Bar das Coxas, ou termina nele.Muita festa acontece no CAEM, mas passa tudo pelas repúblicas”61. À noite intensifica-seentão um modo de vida nômade entre os universitários, que neste período constroem associabilidades que espacializam o cotidiano. Para “Pinda”, universitária e cicerone que meacompanhou durante a pesquisa em Ouro Preto:Ir ao "Rock" significa encontrar de maneira conjunta as pessoas que se vê diariamentena Universidade. Além de ser um local de encontro, é também um espaço com bebidaliberada em que os ânimos acabam se exaltando um pouco. Significa também omomento de curtição com as pessoas da sua república. Como lhe disse, os laços sãofortes com as pessoas que moram com você, e não com a sua turma de sala, além dasfamosas rodinhas de conversas. Vale ressaltar que repúblicas femininas geralmentenão se misturam, isto é quase uma regra, ficando essas rodinhas restritas a umarepública feminina e outras masculinas. Sempre embalado por funk e sertanejo, comexceção dos rocks de aniversário em que contratam uma banda que toca pop-rocknacional e internacional. Ocorrem geralmente de quinta a sábado, mas não é umaregra. Cerveja tem todo dia, portanto é fácil. Aí, acho que é isso!62As repúblicas tornam-se, então, lugares de lazer e sociabilidade. Observamos em duasoportunidades a apropriação do espaço das casas para usos que não sejam os modos dehabitar, como na Rua Paraná, onde há muitas repúblicas instaladas em casas antigas, aexemplo das Repúblicas Aquarius, Xeque-Mate, Nau Sem Rumo, entre outras. Para entendera apropriação dos espaços das casas para novos e diferentes usos que não seja a habitaçãovejamos a descrição que os moradores da República Aquarius, fundada em 1969, apresentamem seu sítio na internet:A casa é constituída de basicamente 5 pisos nos quais estão distribuídos os 32 quartos,5 banheiros, cozinha, copa, sala de TV. Além disso temos ainda, boate informatizada,área de festas, churrasqueira, sala de telefone, sala de computador com internet,impressora e scaner. Possuímos também uma biblioteca com livros e apostilasutilizados pelos diversos cursos em sua maioria de engenharia. Ainda tem quarto dequadrinhos de ex-alunos, cafofo, e quintal, possui também um campo de futebol aosfundos, comum a mais quatro repúblicas da rua (REPÚBLICA AQUARIUS).61Entrevista concedida por Amanda Milad, ex-moradora da República Nômades e ex-aluna da UFOP, em16/07/2009.62Idem.
    • 121A descrição da casa é elucidativa. A casa tornou-se um espaço público para festas eencontros juvenis. Os equipamentos como a boate e som foram instalados nos porões, quartosou salas das casas, a área de festas e churrasqueira é geralmente feita nos halls. Por seremtombados, os imóveis só podem sofrer alguma intervenção na estrutura física quandosubmetido ao Iphan para autorização. No entanto, conforme a apropriação das Repúblicascomo lugares públicos foi ganhando novas adesões, os estudantes passaram a não informar aoIphan sobre as construções e reformas dos imóveis63. Segundo a técnica do Iphan de OuroPreto, Simone Monteiro Silvestre Fernandes, são poucas as repúblicas que não informamsobre intervenções internas de maior impacto. Já existem acordos para que os repúblicospossam fazer alterações nas casas conforme as necessidades. O Iphan reconhece as boates,assim como diversos outros usos e apropriações dos imóveis para festas. A preocupaçãomaior é que os estudantes transformem o bem público em fonte de renda privada.Retomando a descrição sobre o rock em Ouro Preto, compreendemos que nosencontros não há preocupação formal com conteúdos e formas das relações. Entretanto, festascomo o Carnaval, o Festival de Inverno e a Festa do 12 são previamente organizadas,contendo patrocínios de empresas locais para mantimentos, de empresas nacionais de cervejas(Itaipava, Brahma, Nova Schin etc.), além de serem maciçamente divulgadas pela internet esites de relacionamento. A ideia geral é somente se divertir, “estender os laços de amizadesentre os republicanos”, “aproveitar a noite”, “sair da ferração”, “conhecer as camofas”64.Contudo, devemos sumarizar, ao levar em consideração o universo amostral pesquisado: osencontros ou as festas que ocorrem nas repúblicas são circunscritos aos moradores derepúblicas e pouco são abertos aos “nativos”65.63As repúblicas de Ouro Preto serão obrigadas a reconstruir os imóveis ocupados de acordo com projetos querespeitem suas características históricas originais. A decisão faz parte do “termo de ajustamento de conduta”(TAC) assinado com o Ministério Público Federal, em Belo Horizonte, pelas repúblicas Maracangalha, Ninho deAmor, Necrotério, Casablanca, Formigueiro, Hospício e Quitandinha. Também assinaram o acordo o chefe doescritório regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Secretaria Municipal dePatrimônio e Desenvolvimento Urbano daquela cidade. (http://www.defender.org.br/republicas-de-ouro-preto-reformam-imoveis/)64Os dois últimos termos, assim como o rock, é um uso próprio da linguagem construída pelos universitários. Otrabalho de França (2008, p. 52-53) traz alguns dos léxicos falados pela comunidade universitária. Assimpodemos traduzir alguns deles: Camofo (a) subst./adj. • Homem ou mulher que se relacionam afetivamente commuitas pessoas. • me chamou de camofa... disse que eu não prestava; mas as camofas do centro não deixam. •camofagem, camofeiro, camofeira, camofando. • Mulher/homem fácil. Ferrar v. trans. dir, v. intr. • tem genteque ferra muito, eu não ferro muito; tive que ferrar constitucional e tava doente. • ferração, ferrador, ferradora.• Estudar.65Em nossas entrevistas detectamos apenas em duas falas dos universitários a existência de relações mais diretasentre ouro-pretanos e estudantes que não estivessem circunscritas ao setor de serviços da cidade.
    • 122Os aniversários das repúblicas, o Carnaval e a Festa do 12 são exemplos da articulaçãodos estudantes com as empresas de consumo. Essas festas são melhor organizadas epromovem grande fluxo de pessoas anualmente. Tornam-se as principais fontes de obtençãode recursos para cada república que se articula nestes períodos. Ao receber visitantes de todopaís as repúblicas cobram hospedagem, chegando a preços que variam de R$ 10 a R$ 15 (deza quinze reais) por dia. É uma forma de autogestão e manutenção de cada república para suaprópria preservação. No Carnaval de Ouro Preto o público que tem acesso às repúblicas émenos seleto, pois com a adesão aos blocos de carnaval as fronteiras cotidianas se descerrame criam um espaço público menos excludente e mais interativo entre ouro-pretanos erepúblicos. Na Festa do 12, são hospedados principalmente os ex-alunos, sejam os maisvelhos ou os recém-formados e o acesso às casas está restrito aos estudantes ou visitantes.Não fosse o rock uma prática constante entre os estudantes, poderíamos afirmar que setratava somente de um encontro de jovens como qualquer outro, mas que, ao contrário,revelou-se uma festa bastante dinâmica: Comemora-se o quê? “O que tiver de comemorar!”,“Fim de muita ferração”, “Datas importantes”, “Início de período”, “Nada, ué. É só prabeber”.Imagens 25 e 26
    • 123Por outro lado, as festas populares de rua apresentam ruídos sonoros diferenciados dos rocksuniversitários. São percebidos pelo pagode, calypso e músicas sertanejas; ocorrem em algunsbairros fora da área enobrecida, compreendida pelo Centro, Antonio Dias e Pilar, principaislocais de interação e/ou sociabilidade de moradores e turistas, embora, como referimos,ocorram no CAEM. Não pudemos observar a sociabilidade cotidiana nos bairros periféricos.Somente algumas vezes tivemos acesso a estes bairros, quando acompanhávamos o CinemaItinerante, programação do Festival de Inverno, que visava levar o Festival a todos os bairrosda cidade fora do Centro. Nestas incursões observamos a pouca adesão do público de todas asidades. Desta forma, podemos supor que a estratificação social em Ouro Preto é espacializadanão somente pelo plano urbanístico, mas por diferenças socioculturais entre estudantes enativos.Diante do exposto, não podemos desconsiderar os conflitos advindos das práticasculturais dos estudantes, bem como as diferenças entre eles, entre os estudantes que divergemde determinados usos das casas. Tanto estudantes quanto profissionais ligados à proteção dopatrimônio ressaltam alguns problemas decorrentes de usos dos imóveis consideradosindevidos, de conflitos com a vizinhança por causa dos sons altos etc. Estes aspectos sãoimportantes para compreender, pelo menos em parte, porque a cultura universitária ouro-pretana se faz descentrada de um contexto comunitário local.O mesmo espaço é parte dos modos de habitar e das festas. Fontes RepúblicaAquarius (Imagem 25). Foto do autor, 2010 (Imagem 26).
    • 1246.2.2. Fazer SocialOutro momento que acompanhamos não foi exatamente uma grande festa comaparelhagem de som e bebidas à vontade. Fazer “Social” é o momento de interagir com novaspessoas e criar vínculos entre os moradores. O fluxo de pessoas é menor, o que permite maiorintimidade entre os participantes, embora isto não signifique que seja um encontro de poucashoras, visto que dura uma tarde ou uma noite inteira até o amanhecer. Segundo alguns relatosé algo que acontece todos os dias da semana, pois são inúmeras as repúblicas que promovemos encontros.A “Social” é uma forma de enunciação da cultura universitária que cria sociabilidadeslúdicas entre os jovens repúblicos. É um espaço para o livre convívio durante o período deformação universitária, o que significa uma média de quatro anos de convívio. Conforme asobservações levantadas, fazer social é uma forma de interagir as repúblicas masculinas efemininas ou repúblicas até então desconhecidas. Nestes casos, a continuidade destas sociaisparte dos processos de identificação dos estilos de vida, como segue o quadro que se formouna observação direta em uma social promovida entre as Repúblicas Lumiar (feminina) e NauSem Rumo (masculina)66:Quadro 0266Depoimentos concedidos pelas estudantes-moradoras da República Lumiar, Ana Paula Costa Aguiar (Só-Ri) eJuliana Almeida Rocha (Teka), em 28/04/2010.Só-Ri: Esse negócio de diferença é engraçado. Por exemplo, aqui é dividido por regiões e tem região queo povo curte mais Axé, Funk. Tem região que é mais Sertanejo, tem outras que é Rock n’ Roll, essa é amelhor região!!! Aqui é Rock! Mas aqui no Morro é tudo muito misturado. Aqui tem muito Rock n’ Roll,mas tem uns sertanejos.Teka: E geralmente as repúblicas que tem o mesmo estilo são mais amigas. Igual, por exemplo, tem umadaqui do Morro , que amiga de tal no Antonio Dias, que é amiga dos Deuses e Canaãn outra no Rosário.Só-Ri – É! E todas ouvem Rock!Entrevistador: Ao que parece as repúblicas mantém certas relações a partir de certas identificações...Só-Ri: Semelhanças, né!Teka: A partir do momento que você é federal já tem aquela identificação. Depois você é do bairro tal. Edepois dentro de um bairro tal, você gosta de um tal estilo musical ou vive de tal jeito. Mas nem por issoeu deixo de curtir, ser amiga de tal república que gosta de Axé e mora na praça. Vou nos rocks, ouço axé,mas é aquela história se tiver um rock que vai ter Rock ao invés de Axé, eu prefiro ir pro Rock. Entendeuessas coisas? Por exemplo, em termos de amizade a gente frequenta as outras repúblicas.
    • 125Neste sentido, torna-se importante compreender o fluxo de estudantes a partir dosdados fornecidos por eles próprios, para que se possa evidenciar os espaços de subjetivação(ALMEIDA e TRACY, 2003) e articular as categorias sociológicas aos enunciados sociais. Aochamar de “Social”, os estudantes reforçam os signos de grupo (FRANÇA, 2008) e os laços deamizade para enfatizar as identificações entre os estilos de vida:Fazemos uma social para se conhecer ou estreitar os laços entre as repúblicas. Aqui épreciso criar laços, sabe? Logo muita gente chega aqui sem conhecer ninguém. Aíquando entra numa república, fica menos deslocado de algumas coisas. E precisamosnos assegurar que as repúblicas precisam de autonomia; e precisamos levar em conta aajuda mútua entre elas, sabe? Nesse “trem” todo, pelo menos aquelas mais próximas.Só que tem o problema que muitas vezes também não temos contatos com as outras.Mas são tantas, não é? São quase 400 repúblicas. Não dá pra conversar com todomundo, “memo” nesta cidade pequena que é OP. OP é pequena, isso é fato, masparece às vezes uma grande cidade67.É a república uma forma de estreitamento de laços e criação de vínculos afetivos eduradouros entre os estudantes com estilos de vida semelhantes e de inserção dos “bixos” noslugares. Há também a troca de “bixos”, que passam a acampar na república amiga. Este modode fazer estreita a sociabilidade entre os jovens que precisam ter seus espaços asseguradosatravés de redes de comunicação cotidiana. As “repúblicas amigas”, como são chamadas,criam formas de sociabilidade como assistir a um filme ou ouvir músicas, fazer programasque acompanham “pingas” e culinárias, passar o tempo a conversar, fazer rodas de violão echurrascos, por fim, torna-se um exercício para aproveitar o momento de troca deexperiências. A identificação entre repúblicas reforça “territorialidades”, o que leva muitasvezes ao fechamento de uma para outras, demarcando estilos de vida, que não sãopropriamente fixos, mas que asseguram diferenças quanto a outras sociabilidades.A partir destes enunciados podemos inferir não somente a preocupação que osestudantes têm em construir os lugares de sociabilidade, de relações duradouras, mas um lugarinterativo, onde o fluxo de pessoas concorre para vários usos e apropriações. O estreitamentode laços é próprio da cultura juvenil, constituindo um importante processo de socialização, aoformar grupos de amigos que, com efeito, criam territorialidades que asseguram a pertença deidentidades culturais.67Depoimento de Tuca Lobo. Ouro-pretano, músico e ex-morador de república, em 24/07/2009.
    • 126Imagens 27 e 28Fazer Social enuncia o modo de vida e a cultura republicana. Social entre as RepúblicasLumiar e Nau Sem Rumo. Fotos do autor, 2010.
    • 127Torna-se interessante observar que na esfera da comunicação o nome de cadarepúblico é traduzido pelos apelidos diversos que são muitas vezes atribuídos por causa donome, da estética, do corpo, da altura, modos de falar e andar, gostos, medos, riso,desenvoltura nas tarefas da casa etc. Ouvem-se designações do tipo “Batatinha”, “Bretera”,“Malou”, “Maldada”, “Saqualé”, “Xing-Ling”, “Lerdex”, “Phosfro”, “Bussunda”, “Ligador”etc. Poderíamos então conceber que os indivíduos lançam-se a experimentar viver com asidentidades atribuídas e/ou impostas pelo outro? Como refere J. M. Pais: “de facto, para ageneralidade dos jovens, os amigos de grupo constituem o espelho da sua própria identidade,um meio através do qual fixam similitudes e diferenças em relação a outros” (2003, p. 115).Desse modo, os grupos de amigos asseguram certa identificação dos estilos de vida através deinterações e atividades práticas compartilhadas cotidianamente.Outro aspecto que deve ser considerado é a não-vigilância dos pais. Para que os jovensexerçam suas práticas no espaço da casa a presença dos pais inibe alguns comportamentos.Carles Feixa (2006) demonstra que é próprio das culturas juvenis modernas reivindicarem umespaço próprio, em que os pais não exerçam vigilância sobre seus usos cotidianos. Assim, porexemplo, a prática sexual entre jovens e jovens-adolescentes em Ouro Preto torna-se menosconstrangedora, podendo o aluno ou a aluna ter maior escolha e liberdade para sair com seusparceiros e parceiras. O uso de cigarros, bebidas ou drogas ilícitas também são recorrentes,considerando o estilo de vida de cada república. Entretanto, o uso de álcool parece ser maisgeneralizado, visto que os estudantes geralmente recorrem às práticas tradicionais como o atode embebedar-se após o dia da “escolha”.Levantamos, no entanto, que a discussão do uso da noção de “Social” pelas repúblicassustenta-se a partir do conceito de sociação formulado por Simmel (2006, p.16) para discorrersobre os modos ou as formas pelas quais os indivíduos se relacionam interativamente. Mesmoque os interesses não tenham um conteúdo formal e preconcebido, em que instamprefigurações de relações conflitivas, seu efeito tange por reciprocidade e maior intensidadeno conjunto de uma relação. Segundo o autor, a denominação de “social” não remete somenteàs interações duradouras e objetivadas (como Estado, família, corporações, igrejas, classes,associações etc.), mas àquelas que afluem de relações interdependentes e de reciprocidade(SIMMEL, 2006, p.16).Para este autor – e esta colocação nos fornece uma perspectiva abrangente para tratardas repúblicas estudantis enquanto espaços que os jovens dispõem para convivência e asocialização, mesmo prevendo, na maioria dos casos, sua partida de volta para a cidade deorigem ao final do curso, tornando-se um ex-morador e gerando modos de socializações
    • 128descontínuas – “os laços de associação entre os homens são incessantemente feitos edesfeitos, para que então sejam refeitos, constituindo uma fluidez e uma pulsação que atamos indivíduos mesmo quando não atingem a forma verdadeira de organizações” (SIMMEL,2006, p. 17).Tratando ainda do contexto pós-moderno de fragmentação, as relações tornaram-se,em alguns casos, menos duradouras, visto que podemos adjetivar as identidades comonomádicas (ALMEIDA e TRACY, 2003; FEIXA, 2006); líquidas (BAUMAN, 2001); ou, comopreferimos, experimentadas (COSTA, 2002). Entretanto, os vínculos podem ampliar-se. Logo,as relações virtuais promovem a comunicação à distância, mesmo que não haja maisproximidades físicas e no caso das repúblicas de Ouro Preto, o retorno de um ex-morador égeralmente garantido na Festa do 12, quando ocorrem as homenagens aos ex-alunos da Escolade Minas, após certo período de sua saída.Os usos do tempo cotidiano juvenil são conferidos pela adesão às formas lúdicas desociabilidade, conceito este que descreve de forma mais ampla as relações entre os jovens,como também a adesão às práticas cotidianas “e da construção de fachadas reforçativas dacoesão de grupo” (PAIS, 2003, p. 115). Estas “fachadas” exploram a gratuidade das formas desociabilidade, de identidades que experimentam a “artificialidade da sociabilidade” em nívelde efemeridade e liberdade de associação, com reforço à fluidez com que as relações sãomantidas (ou não).É neste processo de socialização com os amigos que ocorrem descontinuidades dosmodos de vida juvenis ainda articulados à esfera familiar. Outrora a casa parecia uma vezopor-se à rua, mas quando observamos que as repúblicas não se estruturam, como um todo,em um espaço privado em contraposição ao público, ela também confere tom articulador dediferenças intrageracionais. Nas repúblicas a escolha de um integrante faz-se através dainteração da individualidade dos recém-chegados aos seus valores e regras próprias defuncionamento, rituais e tradições68. Contudo, a indeterminação referida anteriormente ocorree fornece ao indivíduo a escolha por continuar ou não batalhando por uma vaga na república,ou que este seja escolhido pelos demais membros como novo morador da casa. Estas escolhasdependem então do estilo de vida de cada um.“Fazer Social” entre as repúblicas torna-se importante até para a escolha dos novosmembros da casa. A integração dos calouros na rede de amizades pode ser determinante para68Conforme Simmel “a tarefa ética da socialização é fazer com que a junção e a separação dos indivíduos queinteragem achem a expressão das relações entre esses indivíduos, embora essas relações sejam espontaneamentedeterminadas pela vida em sua totalidade...” (2006, p. 78).
    • 129o futuro do mesmo como escolhido. Nas repúblicas (ou mesmo nas culturas juvenis) aindividualidade do sujeito não tem autonomia própria, pois liga-se às regras e aos valoresconstituídos para a manutenção da imagem do grupo, como também às indeterminações daslinguagens e deslocamentos das culturas autoreferidas. Podemos aqui supor que os gruposjovens desfazem-se ligeiramente quando as identidades entram em conflito em suaslinguagens, estilos e práticas cotidianas. Na esteira deste pensamento, entendemos que osestilos de vida demarcam os espaços e inscrevem-se através da diferença cultural.
    • 1307. CONSIDERAÇÕES FINAISNo entretempo de sua trajetória Ouro Preto cresceu demográfica e simbolicamentepara a condição de cidade contemporânea. Diversos processos identitários conformaram oespaço-tempo de seus lugares e sociabilidades. Em suas antigas ruas não se ouve mais osruídos de correntes e chibatas. Os antigos casarões já não são habitados pelas abastadasfamílias patriarcais. Não mais existem escravos acorrentados a carregar pedras para construircasas e ruas. A “identidade” da cidade modificou-se e seu espaço urbano dinamizou-se numaarticulação entre passado e presente. A imagem urbana que se tem é da transição daidentidade nacional à configuração contemporânea das identidades culturais. Estas transiçõesderivaram da coexistência de agenciamentos em períodos diferentes e resultaram nadinamização sociocultural e espacial de Ouro Preto. A “cidade colonial” tornou-se 1) cidadepatrimonial; 2) turística e 3) universitária.Desde o “redescobrimento do barroco mineiro” as políticas públicas urbanas em OuroPreto atribuíram uma identidade à cidade em torno do discurso da autenticidade do passadonacional. O legado modernista do Iphan ressaltou a monumentalidade arquitetônica como umrecurso de patrimonialização e tombamento do Centro Histórico. O Conjunto Arquitetônico eUrbanístico de Ouro Preto detém significativa representação da colonização portuguesa, alémde serem locais convergentes da cultura europeia e africana no Brasil. Este conjunto,idealizado e preservado como principal relíquia do passado colonial, constitui um entretempoque articula as gerações passadas às contemporâneas, por isso enfatiza-se a importância desua salvaguarda.A paisagem simbólica e material de Ouro Preto representa na contemporaneidade umsítio de inspiração modernista que conforma as relações entre grupos sociais, que seestabelecem e se diferenciam através do poder político, do poder econômico e de diferençasculturais. Reforçam esta ideia a memória vinculada à produção socioespacial, assim como osinvestimentos turísticos, que constituíram a reificação histórico-patrimonialista da antigaVila Rica. Com a industrialização da região e o turismo, a circulação de pessoas, signos ecapital intensificou-se e inscreveu novas imagens e usos dos espaços através do consumocultural e das ofertas de bens e serviços. Estes processos sobrefocaram as identidadesculturais, a exemplo da vida universitária, que elaborou práticas e usos diferenciados econflitivos dos espaços ouro-pretanos.
    • 131Estas questões revelam a condição contemporânea das cidades históricas, visto que aorientação política de preservação urbana aponta para a disjunção entre práticassocioespaciais, a paisagem urbana e o uso do acervo cultural. Ao mesmo tempo concorrem asinovações culturais e a formação de lugares e sentidos conferidos ao patrimônio histórico-cultural. Foi com tal foco que tecemos os argumentos deste trabalho, com vistas a defender ahipótese sugerida de que as identidades culturais juvenis enunciam e elaboram formasdiferenciadas de culturas urbanas, de usos e apropriações espaciais, assim como de conflitocultural. Decorrem, portanto, de estilos de vida experimentados e elaborados cultural eespacialmente.Em Ouro Preto destacam-se as repúblicas estudantis como lugares a partir do modocomo os estudantes construíram formas diferenciadas de sociabilidades e identidades urbanasdesde a criação da Escola de Minas. Mais tarde, com a fundação da Universidade Federal deOuro Preto, a “cidade dos estudantes” tornou-se o espaço de enunciação do modo de vidauniversitário. Desse modo, ao inferirmos que as repúblicas estudantis são lugares em que aspráticas ali circunscritas elaboram processos identitários e demarcações de fronteiras, estamossugerindo que estes espaços publicizam suas diferenças no contexto relacional da cidade.Os elementos que as diferem conformam os usos e as práticas forjadas na cidadecolonial a partir de formas e linguagens contemporâneas. A sociabilidade pública universitáriaque se desenrolou em Ouro Preto advém da diferenciação dos modos de vida e daautonomização dos signos culturais juvenis que publicizados no cotidiano da cidade e seestende principalmente às atividades práticas dos estudantes repúblicos. Neste sentido, acultura universitária inscreve-se como uma prática enunciativa de temporalidades,significações, narrativas e espacialidades diversas que articulam de modo reflexivo a vidaacadêmica e a sociabilidade lúdica dos jovens estudantes.As universidades representam também a experiência do desenvolvimento urbano,tecnológico e econômico das cidades. Através desta instituição o fluxo de pessoas, signos,imagens e informações circunscreve o cotidiano urbano ao criar importantes mediaçõessocioculturais na vida das pessoas. A presença da Universidade representou uma novaexperiência identitária para Ouro Preto, ao disseminar os campos artísticos, intelectuais eacadêmicos com inovações na esfera sociocultural, na produção de bens simbólicos e de umpatrimônio próprio. O Festival de Inverno que ocorre anualmente constitui-se comoimportante exemplo desta articulação entre a vida cotidiana e turística ouro-pretana e a vidauniversitária.
    • 132Como analisamos, durante sua formação durante o início do século XIX, a Escola deMinas não se autoidentificava com as tradições religiosas e políticas da cidade de Ouro Preto.Criou-se então uma disjunção identitária que levou a certa polarização em razão dosprincípios adotados por seu fundador Henri Gorceix. Ao adotar um discurso progressista decaráter modernizante a Escola não reconhecia os aspectos norteadores da vida cotidiana dacidade, posicionamento este que construiu tradições próprias da “cidade universitária” econcorreu para as mudanças nas relações entre os estudantes e os moradores locais de maneiramuitas vezes conflitiva. De algum modo, os conflitos socioespaciais foram gerados a partir dapatrimonialização da cidade, do turismo, da atividade industrial e das transformaçõescotidianas devido ao crescimento da sua Universidade, a partir da qual tratamos daquelesprocedentes do aumento do número de estudantes e de repúblicas na cidade.Os conflitos mencionados referem-se ao modo de vida juvenil que se enunciou na“cidade universitária”. É preciso ressaltar que em uma cidade são diversas as culturas juvenis,a exemplo dos próprios moradores jovens-nativos da cidade. Mas para o recorte estabelecidoem nossa pesquisa, focou-se os jovens repúblicos, visto que são eles os sujeitos que enunciamo modo de vida da “cidade dos estudantes” (considerados como descentrados de referenciaisfixos no contexto relacional da cidade). O fluxo de estudantes para Ouro Preto tornou-seimportante para a compreensão das espacialidades, visto que articulam em suas práticascotidianas as formas sociais, políticas, culturais e econômicas mais propriamente do “sistemadas repúblicas”.Destaquemos ainda a relação destes estudantes com o patrimônio edificado. Comoargumentamos, os usos que os jovens fazem dos espaços e do tempo constituem um domíniode afirmação das identidades, das linguagens e estilos de vida, tanto em nível simbólico ediscursivo quanto em nível prático. A descrição da cidade contemporânea não concernenecessariamente ao ambiente edificado, mas na incursão das pessoas nos espaços urbanosatravés de suas práticas e modos de vida espacializantes. Deste modo, a sociabilidade juvenilse traduz em diferentes formas de consumo e apropriações dos lugares. Por isso, em umacidade como Ouro Preto, os códigos de condutas relacionados à preservação do patrimônio,assim como os modos de vida e estruturas tradicionais da cidade conflituam com as práticaselaboradas pelos repúblicos.É importante entendermos que a propagação de novos símbolos e signos identitáriosna vida social tem influência na mudança de significação dos modos de vida adotados pelaspessoas, neste caso, por muitos jovens urbanos. Logo, desde quando a UFOP foi criada, ofluxo de jovens aumentou gradativamente. As repúblicas que já existiam como principais
    • 133formas de inserção dos estudantes na vida acadêmica fora de casa tornaram-se também olugar de conflito em diversos aspectos. Constituídas de práticas e identidades próprias, esteslugares conformam espaços centrados em um conjunto de processos identitários coletivoscomo a praxe acadêmica influenciada pelo deslocamento cultural das tradições e signos dasrepúblicas de Coimbra. Enunciam-se então tradições, rituais, práticas culturais e modos deorganizações materiais e simbólicos: O uso da placa nas ruas, a divisão de hierarquias ealguns ritos festivos são decorrentes deste deslocamento.Portanto, a inscrição sociossimbólica da Universidade e das repúblicas na imagem epaisagem urbana ouro-pretana pode ser narrada enquanto parte de um acervo cultural bastanteramificado. As repúblicas estudantis consistem em espaços culturais e identitários da “cidadedos estudantes” desde a transferência da capital de Minas para Belo Horizonte em 1897,quando Ouro Preto passou a ser denominada de “cidade das repúblicas”. Decerto podemosafirmar que as repúblicas contribuíram para a conservação e divulgação do patrimôniohistórico para um público juvenil. São mais de 400 repúblicas, das quais algumas existemdesde o início do século XX, enquanto outras existem no entremeio da efemeridade dasrelações entre os moradores.Descrevemos a “cidade das repúblicas” como um espaço cultural cambiante, elaboradoe reelaborado constantemente. O público flutuante de jovens estudantes imprimiu à vidaurbana cotidiana de Ouro Preto imagens, signos e ruídos que fazem da “cidade dosestudantes” um espaço identitário dissonante de práticas e sociabilidades. As repúblicas são oslugares de moradia, estudo e festas. Como referimos, o que conforma esta multiplicidade deexpressões são os usos cotidianos que qualificam as repúblicas como espaços híbridos oufragmentários, ao enunciarem usos que os transformam em lócus de sociabilidades públicas.A sociabilidade das pessoas nestes lugares é possível quando seu estilo de vida, valores,fazeres, interesses e linguagens se inscrevem entre os demais membros da casa.Viver em repúblicas não se traduz como escolha aleatória. A convivência com pessoasdiferentes demarca no lugar que se compartilhe a identidade, os estilos de vida e a divisão debens, o que torna este aspecto necessário para que um morador permaneça na casa até o fimdo curso. Além disso, compartilham-se as experiências comuns não somente no espaço dacasa, mas na própria vida cotidiana dos estudantes na cidade. É um espaço de liberdade aomesmo tempo em que ações e comportamentos individuais são observados, críveis de umcontrole interno. As repúblicas compreendem então as características da flexibilidade doslugares. Foi neste sentido que procuramos detectar nas entrevistas com os repúblicos as
    • 134nuances que caracterizam as sociabilidades públicas entre os moradores e como elas sãoconstruídas, de forma que abrange modos de socializações e laços contínuos ou não.Compreendemos então que os laços sociais e a afetividade entre os jovens sãoincessantemente fluidos e concorrem para a descontinuidade ou a artificialidade dasociabilidade. Por isso entendemos que na experiência identitária das repúblicas ouro-pretanasas práticas tradicionais como os rituais de adaptação e socialização dos moradores (“batalha”)e os modos de escolhas (“julgamento”) podem tornar o lugar constituído de práticasdissonantes e por vezes conflitivas. Ao mesmo tempo, a escolha de um novo morador decorreda interação da individualidade com os valores e regras próprias de funcionamento, rituais etradições das repúblicas.Contudo, estes lugares destacam-se como espaços de indeterminação da sociabilidade,pois fornece ao indivíduo a possibilidade de ser ou não novo morador da casa. Desse modo osrepúblicos construíram táticas de sobrevivência para a continuidade das casas sem a perda deautonomia e autogestão, como o “Fazer Social”, isto é, como se denominam os encontrosentre as diversas repúblicas que visam formas lúdicas de inserção do outro. Outra tática são asidentidades criadas para cada morador com a designação de apelidos, o uso de placas, aslinguagens adotadas e a participação nos “Rocks”.Por fim, a trajetória histórica de Ouro Preto articula-se à contemporaneidade atravésdos novos usos conferidos ao patrimônio e da inscrição de novos signos e identidadesculturais. A presença marcante de estudantes nos espaços urbanos tem apelado para novassociabilidades e composições visuais diferenciadas. Dentre as diversas possibilidades deapreendermos os espaços de sociabilidade juvenis, precisamos tratar estas identidades urbanasa partir de seus elementos enunciativos. A prática cultural universitária e sua inscriçãosociossimbólica imprimiram ao cotidiano de Ouro Preto imagens e lugares que enunciam associabilidades públicas e as formações identitárias estudantis. Além disso, os estilos de vidaenunciados pelos repúblicos compõem os lugares de diferenciação dos usos e práticascotidianas desde a fundação da Escola de Minas no fim do século XIX.As culturas urbanas juvenis enunciam-se através de diferentes modos de significaçõesque muitas vezes supõem a efemeridade dos espaços públicos e a ausência de lugares. Mas, seestamos a entender de outro modo, com base na fragmentação da cultura e no descentramentodo sujeito, os lugares são apropriados e consumidos de diferentes modos, e não vêm a sernecessariamente residuais. Eles são experimentados e descobertos através das diferentesformas de identificação dos sujeitos, as quais podem descerrar as fronteiras socioespaciaisresultantes dos conflitos culturais ou mesmo ampliá-las para novas e dissonantes formas de
    • 135significação, a exemplo dos usos conferidos ao patrimônio histórico. Através desta percepção,propomos como sugestão analítica a aproximação conceitual dos lugares aos citados espaçospúblicos de Ouro Preto, visto que a forte inscrição sociossimbólica que essa cultura imprime àvida urbana cotidiana de Ouro Preto faz da cidade um espaço identitário dissonante depráticas sociais e sociabilidades diversas.Após tantas proposições e análises, é chegado o momento de um balanço teórico final.Ouro Preto foi visitada, enquanto espaço de campo, duas vezes, com o fim explícito deidentificar o modus vivendi dos jovens estudantes repúblicos. Como se relacionariam, naqueleespaço de queda do individualismo (e consequente afirmação do grupo)? Ao entendermos oprocesso cultural que enuncia os “estilos de vida”, enunciamos uma resposta repleta delugares e demarcações e fronteiras sociossimbólicas. Deste modo, podemos vislumbrar, aindaagora, que Ouro Preto é a reconhecida “cidade das repúblicas” – mas ressalvamos, em tomconciliador finalístico: é também a cidade dos “bixos”, dos “nativos” e dos turistas.
    • 1368. REFERÊNCIASALMEIDA, M. I. M.. TRACY, K. M. A. Noites Nômades: espaço e subjetividade nasculturas jovens contemporâneas. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.ARANTES, Antonio A. Paisagens Paulistanas: transformações do espaço público.Campinas: Editora da Unicamp/Imprensa Oficial, 2000.______. Patrimônio cultural e nação. In: Ângela Maria Carneiro Araújo. (Org.). Trabalho,Cultura e Cidadania: um balanço da história social brasileira. 1ª ed. São Paulo: Scritta,1997, v. 1, p. 275-290.BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 258 p.BHABHA, Homi. O pós-colonial e o pós-moderno: a questão da agência. In: ______. O localda cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Obrasescolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura.São Paulo: Brasiliense, 1994. v. 1.______. Paris, Capital do século XIX. In: FORTUNA, C. (org.). Cidade, Cultura eGlobalização: Ensaios de sociologia. Oeiras: Celta, 1997.BOURDIEU, P. A “juventude” é só uma palavra. In: Questões de Sociologia. Lisboa: Fim deSéculo, 2003. p. 151-162.BLASS, L. M. S. . Juventude e Trabalho. In: COSTA, M. R. e SILVA, E. M. Sociabilidadejuvenil e cultura urbana. São Paulo: Educ, 2006, v. 1º, p. 55-77.CÂMARA DE VEREADORES DE OURO PRETO. Acompanhe a polêmica sobre asrepúblicas de Ouro Preto. Disponível em <http://www.cmop.mg.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=279:acompanhe-a-polemica-sobre-as-republicas-de-ouro-preto&catid=62:outros&Itemid=1>. Matériaveiculada em 02 de Maio de 2006.CANCLINI, Nestor G. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização.6ª ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.______. Diferentes, Desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. Rio de Janeiro:Editora UFRJ, 2007.______. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp,2008.CARVALHO, José Murilo. A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória. São Paulo:Ed. Nacional; Rio de Janeiro: Financiadora de Estudos e Projetos, 1978.
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    • 143ANEXOS
    • 144ANEXO 01:QUADRO DE REPÚBLICAS FEDERAIS DE OURO PRETOADEGA Masc CENTROAQUARIUS Masc CENTROARTE E MANHA Mista MORRO DO CRUZEIROBANGALO Masc CENTROBASTILHA Masc MORRO DO CRUZEIROBAVIERA Masc ANTONIO DIASBEM NA BOCA Fem PILARBOITE CASABLANCA Masc CENTROBUTANTAN Masc PILARCANAAN Masc CENTROCASANOVA Masc PILARCASSINO Masc PILARCASTELO DOS NOBRES Masc ANTONIO DIASCHEGA MAIS Fem PILARCONSULADO Masc CENTROCONVENTO Fem MORRO DO CRUZEIROCOSA NOSTRA Masc MORRO DO CRUZEIROCOVIL DOS GENIOS Masc MORRO DO CRUZEIRODEUSES Masc ROSARIODOCE MISTURA Fem MORRO DO CRUZEIROESPIGAO Masc CENTROGAIOLA DE OURO Masc CENTROJARDIM DE ALÁ Masc CENTROJARDIM ZOOLOGICO Masc PILARKOXIXO Fem MORRO DO CRUZEIROLUMIAR Fem MORRO DO CRUZEIROMARACANGALHA Masc CENTROMARIA BONITA Fem ROSARIOMARRAGOLO Masc CENTROMIXURUCA Masc BARRANAU SEM RUMO Masc CENTRONECROTERIO Masc PILARNINHO DO AMOR Masc CENTROOVELHA NEGRA Fem MORRO DO CRUZEIROPALMARES Fem MORRO DO CRUZEIROPASARGADA Masc MORRO DO CRUZEIROPATOTINHA Fem ANTONIO DIASPENITENCIARIA Masc AGUA LIMPAPERIPATUS Masc MORRO DO CRUZEIROPIF-PAF Masc PILAR
    • 145POLEIRO DOS ANJOS Masc ANTONIO DIASPRONTO SOCORRO Masc PILARPULGATORIO Masc CENTROQUARTO CRESCENTE Fem MORRO DO CRUZEIROQUITANDINHA Masc CENTROREBU Fem PILARSAUDADE DA MAMAE Masc CABE€ASSENZALA Masc MORRO DO CRUZEIROSINAGOGA Masc CENTROTABU Masc CENTROTANTO FAZ Fem PILARTERRITORIO XAVANTE - TX Masc LAJESTIGRADA Masc MORRO CRUZEIROTOKA Fem CAMPUSUNIDOS POR ACASO - U.P.A. Masc MORRO DO CRUZEIROVERDES MARES Masc PILARVIRADA PRA LUA Fem PILARVIRA SAIA Masc MORRO DO CRUZEIROQUADRO DE REPÚBLICAS FEDERAIS DE MARIANAB* Mista CHACARADEVASSA Mista Bairro não disponívelPOCILGA Mista CHACARAQSQ Masc Bairro não disponívelROCINHA Mista CHACARASE Mista CHACARATAQUEUPA Mista CHACARAZONA Mista CHACARA
    • 146ANEXO 02: TABELA UFOPCURSOS MGMGOUTROSESTADOSTotal geralOUTRAS¹ OP ²ADMINISTRACAO 132 23 155 39 194ARQUITETURA E URBANISMO 87 9 96 49 145ARTES CENICAS 103 2 105 88 193CIENCIA DA COMPUTACAO 154 21 175 36 211CIENCIA E TECNOLOGIA DE ALIMENTOS 39 13 52 10 62CIENCIAS BIOLOGICAS 183 18 201 38 239CIENCIAS ECONOMICAS 102 15 117 32 149COMUNICACAO SOCIAL - JORNALISMO 128 12 140 45 185DIREITO 296 18 314 124 438EDUCACAO FISICA 101 33 134 17 151ENG. AMBIENTAL 112 7 119 46 165ENG. CIVIL 200 19 219 83 302ENG. DE COMPUTACAO 46 46 20 66ENG. DE CONTROLE E AUTOMACAO 139 12 151 65 216ENG. DE MINAS 223 10 233 64 297ENG. DE PRODUCAO 161 13 174 64 238ENG. DE PRODUCAO - JOAO MONLEVADE 214 2 216 45 261ENG. ELETRICA 56 2 58 12 70ENG. GEOLOGICA 219 18 237 61 298ENG. MECANICA 71 7 78 25 103ENG. METALURGICA 248 16 264 35 299ESTATISTICA 42 24 66 8 74FARMACIA 348 18 366 92 458FILOSOFIA 77 6 83 43 126FISICA 57 11 68 16 84HISTORIA 221 17 238 139 377LETRAS 253 46 299 100 399MATEMATICA 80 49 129 12 141MEDICINA 186 4 190 38 228MUSEOLOGIA 31 24 55 24 79MUSICA - MODALIDADE LICENCIATURA 81 15 96 13 109NUTRICAO 205 27 232 60 292PEDAGOGIA - LICENCIATURA 72 34 106 9 115QUIMICA INDUSTRIAL 107 13 120 23 143QUIMICA LICENCIATURA 51 10 61 10 71SERVICO SOCIAL 88 43 131 13 144SISTEMAS DE INFORMACAO 191 4 195 13 208TURISMO 128 32 160 71 231Total geral 5232 647 5879 1682 7561OBS: Dados referentes à cidade de Naturalidade do Aluno somente para cursos presenciais.1Outras Cidades de MG / ² Ouro Preto-MGFonte: Pró-Reitoria de Graduação/PROGRAD/UFOP. Dados referentes até o ano de 2010.
    • 147ANEXO 03:QUADRO DE ITENS LEXICAIS ESPECIAIS DOS UNIVERSITÁRIOS(FRANÇA, 2008, p.53-54)1. AGARRAR - Reprovar-se.2. ARRANCAR - Aprovar-se, Passar.3. BATALHA: Período de experiência pelo qual o calouro passa antes de ser ou não aceito narepública - Luta, Peleja.4. BICHO: Aluno novato na república - Calouro.5. BORRACHA - Fácil, Simples.6. CAMOFO (a): Homem ou mulher que se relacionam afetivamente com muitas pessoas -Mulher/homem fácil.7. CATAR: Desistir de algo: república, curso, disciplina, por exemplo - Desistir.8. COMADRE: Empregada doméstica - Empregada, doméstica.9. DOUTOR (a): Moradores mais velhos na república, estudantes que instruem os calourosdas tarefas a serem cumpridas - Veterano.10. ESCOLHA: Aceitação do calouro na república - Seleção, Opção.11. FERRAR - Estudar.12. FINA: Apostila, cópia reprográfica e anotação que contém conteúdos das aulas, cola -Apostila, Cola (inf.).13. PENSÃO: República onde a organização e a amizade entre os moradores não é exemplopara outras - Casa desorganizada.14. PRESIDENTE: Estudante responsável por administrar as contas da república numdeterminado mês - Administrador, Governanta.15. ROCK - Festa, comemoração.16. ROMBUDO (a): Estudante que consegue boas notas; disciplina e professor exigentes -Difícil, Exigente.17. SEMI-BICHO: Morador da república que passou recentemente pelo processo de‘batalha’ e que é o responsável direto por passar as instruções para calouro. Morador aindanão considerado um doutor - s/correspondente.
    • 14818. TEORIA: Estado de um estudante avesso a festas, metódico, teórico, teórica -Responsabilidade, Preocupação, Método.19. VENTO: Desarrumação dos pertences dos calouros (roupas, livros, etc) - Bagunça.
    • 149ANEXO 04:RESOLUÇÃO CUNI 779: ESTATUTO DAS REPÚBLICAS FEDERAIS
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