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Artigo de luís antônio groppo em revista
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  • 1. movimento EstudantilAgência Estado José Dirceu, presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo, em 1968 A revolta mundial da juventude e o Brasil Parte considerável dos universitários se mobilizou, em especial nas capitais dos estados, em eventos tão importantes quanto inesperados Luís Antonio Groppo S empre me senti surpre- alienados ou individualistas. E quis Menos que uma coincidência no endido pela vastidão do mesmo conferir a tal força de 1968. tempo de inúmeras revoltas de cunho movimento de 1968, que Se ainda considero caricata a ima- nacional, quis ler 1968 – e as revoltas abrangeu parte importante gem dos jovens da minha geração juvenis dos anos 1960 em seu todo, do planeta. Do mesmo modo, sempre como tão somente individualistas, a na verdade – como fenômeno único, me intrigaram os relatos sobre sua pesquisa à qual me dediquei durante complexo e contraditório, de cunho força e influência. Nascido em 1971, meu doutoramento me fez aprender global, como uma onda mundial de em meio à “geração AI-5”, não aceitei a enorme energia da revolta de 1968. revoltas. Ao mesmo tempo, considerei nunca com tranqüilidade a taxação E o que me propus a fazer foi observá- que este movimento teve na juventude de que os jovens das décadas pos- la como um movimento juvenil de real ou presumida de seus integrantes teriores à de 1960 eram apolíticos, caráter mundial. o seu principal elemento comum. Tal 35 Teoria e Debate Especial 1968 H maio 2008
  • 2. olhar não deve nos abster, entretanto, Estados Unidos (com uma enorme tos “anti-socialistas”, mas sim contra de compreender as muitas nuanças revolta estudantil em 1970 contra a as feições totalitárias, burocráticas e destas revoltas que, é bem verdade, invasão do Camboja, no contexto da corruptas assumidas pelos regimes tiveram características nacionais e guerra do Vietnã). soviéticos, em prol de mais liberdade mesmo locais bastante particulares. Mas, no Terceiro Mundo, foi forte e democracia. Outro risco a se evitar com o olhar e até mesmo precursora esta onda. Na Entre os elementos que deram a global sobre 1968 é o de considerar América Latina, inclusive Brasil e Mé- 1968 relativa unidade, deve ser cita- os movimentos algo mais legítimo xico, na Ásia, em países como Japão, do, primeiro, o fato de que os mais ou característico dos países ditos Vietnã, Paquistão e Bangladesh, Sri característicos movimentos eram de “desenvolvidos”. Ainda que contrá- Lanka, Índia, Iraque, Irã, Síria, Israel, juventude universitária com origem rio à mera inversão simplista desta Palestina, Turquia, Líbano, Tailândia, principalmente nas classes médias postura, o que eu proponho é que Birmânia e Malásia, e na África, como (principalmente das “novas classes a onda mundial de revoltas teve no Nigéria, Senegal, Egito, Argélia, Marro- médias”). Como segundo elemento Terceiro Mundo seu início e uma de cos, Mauritânia, Congo e Camarões, a de unidade, os movimentos se deram suas principais fontes. Isto não signi- onda mundial de revoltas teve eventos principalmente nas grandes cidades, fica desconsiderar a importância dos tão importantes quanto inesperados que eram centros políticos e econô- movimentos do “Primeiro Mundo”, para um olhar que espera apenas do micos (São Francisco, Washington, ao contrário. O maio francês de 1968 “Ocidente civilizado” os ímpetos de Nova York, Londres, Berlim, Paris, foi provavelmente o movimento em emancipação da humanidade. São Paulo, Rio de Janeiro, Cidade do que as possibilidades emancipatórias Também, contra quaisquer sim- México, Praga, Tóquio, Cairo etc.). daquela onda tenham ido mais longe. plismos na interpretação destes even- Terceiro, tinham como elementos A Alemanha teve importantes movi- tos, que poderiam caracterizá-los tão desencadeadores aspectos de um mentos estudantis na então Berlim somente como “anticapitalistas” (que, explosivo contexto histórico mundial: Ocidental desde o início da década em boa medida, realmente eram), fatores geopolíticos como a guerra de 1960. E, mesmo depois de 1968, 1968 foi muito importante também fria e a descolonização da Ásia e da países que já haviam tido eventos no antigo mundo socialista, em pa- África; fatores socioeconômicos como muito relevantes, atingiriam o ápice íses como Polônia, ex-Iugoslávia, ex- o enorme avanço da economia mun- de suas mobilizações, como a Itália Tchecoslováquia, antiga Alemanha dial no pós-Segunda Guerra Mundial (com uma greve estudantil-operária Oriental e, na China, a revolução cul- e a ascensão das novas classes médias de amplas proporções em 1969) e os tural. Não se tratavam de movimen- (mais ligadas aos setores de serviços e técnicos); e fatores político-culturais, como as transformações nas univer-Agência Estado sidades, os novos radicalismos e a contracultura. Importantes temas de cada movi- mento nacional giraram em torno de alguns eixos, em especial a rejeição agressiva ao imperialismo norte-ame- ricano (a começar pelos protestos no interior dos próprios Estados Unidos contra a guerra do Vietnã). Também se fez a crítica à tese da “convivência pacífica” entre o socialismo soviético e o capitalismo de extração norte- americano, e adotaram-se temas A relativa unidade está no fato de que os mais característicos movimentos eram de juventude sobre a democratização radical da universitária universidade e da sociedade; mundo Teoria e Debate – Especial 1968 H maio 2008 36
  • 3. dos. As possibilidades de rebeldia não são as mesmas em todos os tem- pos. Os jovens não são socializados sempre com os mesmos valores, nem sempre as alternativas de contestação Acervo Iconographia estão abertas a todos. Quase nunca as manifestações de descontentamento se dão do modo esperado, da forma “clássica” de fazer revolta política. SeVladimir Palmeira, presidente da União Metropolitana dos Estudantes (RJ),liderou a Passeata dos Cem Mil houve condições sociais e políticas que praticamente empurraram osafora, declarou-se solidariedade aos mesmo, os cartazes e as caricaturas jovens estudantes das classes médiasmovimentos de libertação nacional, na revolução cultural chinesa. à revolta em 1968, os jovens de hojefizeram-se presentes de modo con- Na arte, nas manifestações cultu- não deixam de protagonizar outrostundente os socialismos heterodoxos rais e nas novas doutrinas políticas, e novos protestos. Temos protestos– em especial os da revolução cultural todo um rol de respostas alternativas recentes contra a globalização neoli-chinesa e os da revolução cubana – e à situação global insatisfatória vivida beral que contaram com importantehouve a apologia e algumas vezes até naquele momento estava à disposi- participação dos jovens entre os seusa prática de guerrilhas, luta armada e ção, a serviço do cultivo da rebeldia. manifestantes, durante reuniões“guerra popular revolucionária”, sob Enquanto o “sistema” oferecia, como das instituições financeiras e políti-a influência dos socialismos antes supostas alternativas, a indústria cas supranacionais (como o Fundocitados. Esta apologia, demonstrando cultural massificada, o discurso de Monetário Internacional − FMI −, oa complexidade e a contraditoriedade fundo moralizante e tradicionalista Banco Mundial e o G-7 – o grupo dosdesta galáxia de rebeldias, conviveu, do mundo “democrático” ou a versão sete países mais ricos do mundo).algumas vezes bem, outras mal, estreita da ortodoxia comunista sovi- Também, contra a segunda guerra docom propostas de reestruturação e ética, os jovens buscaram respostas e Iraque, em 2003, em muitos países.transformação da vida cotidiana, modelos alternativos: Che Guevara e Outro questionamento logo seda cultura e do comportamento, em Cuba, Mao-Tsé e a China, o Vietnã e as apresenta. É preciso perguntar sem-especial na práxis da contracultura e lutas dos povos oprimidos nos países pre de qual jovem estamos falando,do movimento hippie. do Terceiro Mundo, intelectuais e seja hoje, seja em 1968. A juventude Em todos os movimentos, certa- novas organizações de esquerda que das camadas trabalhadoras não é amente, foram marcantes as mani- criticavam o comunismo soviético (o mesma das camadas mais bem provi-festações artístico-culturais, como o filósofo alemão Herbert Marcuse e a das de recursos financeiros. A própriaCinema Novo, a canção de protesto e Escola de Frankfurt, novas revistas e possibilidade de viver a juventudeo tropicalismo no Brasil, o movimento organizações de nova esquerda na Eu- como tempo de preparação para o fu-hippie, as drogas psicodélicas e a revo- ropa, grupos de discussão e ação estu- turo papel adulto é algo que esteve elução sexual nos Estados Unidos e em dantil) e contestadores culturais. está mais à disposição de certas clas-outros países da Europa Ocidental, os Creio que não se devem idealizar ses, certo gênero, etnia e regiões dografites e os panfletos no maio de 1968 os jovens do passado, nem desprezar país que de outras. Os jovens rebeldesfrancês, a literatura e o teatro nos paí- os do presente, muito menos usar os de 1968 foram, em ampla margem,ses soviéticos do Leste Europeu e, até primeiros para condenar os segun- filhos das classes médias.Importantes temas de cada movimento nacional giraramem torno da rejeição agressiva ao imperialismo norte-americanoe a democratização radical da universidade 37 Teoria e Debate Especial 1968 H maio 2008
  • 4. Como último ponto, apresento pitais dos estados, mas também há se deram em quase todas as demaisuma breve descrição desta revolta no notícias de importantes ações em capitais, como em Brasília, Belo Ho-Brasil. O Brasil também fez parte da regiões interioranas, como no estado rizonte, Goiânia e Curitiba.onda mundial de revoltas estudantis- de São Paulo. Se a seguir destacarei os O principal oponente deste movi-juvenis de 1968. Aqui, ela mobilizou eventos das capitais paulista e cario- mento foi o regime militar instaladoparte considerável dos estudantes ca, entretanto, é preciso enfatizar que no Brasil pelo golpe de 1964. O golpeuniversitários, em especial nas ca- manifestações muito importantes derrubou a ordem populista em crise, UnB, o sonho Visibilidade política de Brasília pedia de seu movimento estudantil atuação enfocada nas grandes questões nacionais Paulo Speller A Universidade de Brasília (UnB) era um sonho em 1968. E ainda é. Há quarenta anos, era o sonho de inovação, pico resumia-se a barracões de madeira à beira do lago Paranoá, que ocupamos em 1967 como moradia estudantil; o do estudante Edson Luís, no Restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, foi o es- topim da indignação de todos. A UnB foi de renovação, desta que é uma instituição Instituto de Teologia – hoje Fundação novamente invadida; Honestino foi preso, medieval, conservadora e corporativista, Educacional do Distrito Federal –, espigão e então o substituí como presidente da e que sobrevive há quase mil anos desde de cimento armado invadido pelo mato. Feub, em julho de 1968. Levamos a a criação da Universidade de Bolonha, na Tudo era sonho, provisório, estruturas de voz livre e solta dos estudantes para a Europa1. A UnB era o sonho da universi- madeira, poeira vermelha que nos coloria Esplanada dos Ministérios, para o Teatro dade brasileira, em construção. e dava vida à UnB. Nacional, para o Congresso Nacional: Aprovado em dois vestibulares da O movimento estudantil organizou-se “Abaixo a Ditadura!”. Ninguém discor- Universidade Federal de Minas Gerais, desde o seu nascedouro, com a cons- dava, o consenso era de todos. em Belo Horizonte, segui para Brasília trução da Federação dos Estudantes A visibilidade política de Brasília pedia em 1966. Queria estudar na UnB, re- Universitários de Brasília (Feub). A Feub de seu movimento estudantil atuação en- cém-reaberta depois da invasão das lutou pela consolidação da UnB, resistiu focada nas grandes questões nacionais. tropas da ditadura militar em 1965. A ao golpe de 1964, às invasões poli- Sua arquitetura, distante das grandes Universidade de Brasília era isso: sonho cial-militares. Os melhores estudantes praças e avenidas do Rio de Janeiro e que atraía, mobilizava, clamava, paixão dirigiram a Feub, entre eles, Honestino de São Paulo, exigia criatividade, que à primeira vista. Estudantes vinham de Monteiro Guimarães, seu presidente em mostramos diante das representações todo o Brasil, todos querendo ajudar a 1968, morto covardemente no pau-de- diplomáticas do imperialismo norte- construir a universidade que Juscelino arara em 1973. Estudante de Geologia, americano, na Câmara dos Deputados e Kubitschek demorara a aceitar. A UnB era aprovado em primeiro lugar no vestibular no Senado Federal; diante do Ministério precoce ruína de concreto. Construção da UnB aos 17 anos, Honestino mostrava da Cultura (MEC) e do próprio ministro interrompida pelos militares, o Instituto com seu carisma o que todos queríamos da Educação, Favorino Bastos Mércio. Central de Ciência (ICC) − chamado de da UnB: comprometimento com nossos Liderados pela Feub, os estudantes da “minhocão” –, que hoje é espinha dorsal grandes sonhos − redemocratização do UnB deram seu recado na luta em torno da universidade, constituía uma estrutura país, fim da ditadura, construção de um das grandes questões nacionais pela de concreto abandonada. O Centro Olím- Brasil mais justo e solidário para todos redemocratização do Brasil. Democracia, os brasileiros. sempre! 1 A Universidade de Bolonha, a mais antiga da Europa, foi fundada na Itália em 1088. Na As assembléias da Feub mobilizavam Idade Média, seria reconhecida em toda a o conjunto dos estudantes. Todos queriam Paulo Speller, estudante de psicologia Europa por seus cursos de humanidades e direito civil. E abrigaria os poetas, então estu- participar. O auditório Dois Candangos era da UnB em 1968, é professor e reitor da dantes, Dante Alighieri e Petrarca. (N.E.) pequeno para a UnB de 1968. A morte Universidade Federal do Mato GrossoTeoria e Debate – Especial 1968 H maio 2008 38
  • 5. Acervo IconographiaUNE na ilegalidade: todos participantes do 30º Congresso presos em Ibiúna (SP)promoveu prisões políticas, cassa- de uma verdadeira revolução nas ar- ações e contribuiu para uma relativações, torturas, exílios e tentou, paula- tes populares iniciada no começo da organização das mesmas.tinamente, institucionalizar um siste- década de 1960, em torno do Centro Entretanto, enquanto para boama político autoritário em nosso país, Popular de Cultura (CPC), do Teatro de parte dos estudantes a revolta signifi-com Atos Institucionais, leis e Consti- Arena e do Teatro Opinião, do Cinema cava “libertação”, tanto política quan-tuição que foram minando o pouco de Novo, dos Festivais de Música Popular, to comportamental, e para a própriademocrático que sobrevivera a 1964. da canção de protesto, da emergente classe média se tratava antes de tudoO final de 1968 selaria a entrada deste Música Popular Brasileira, da jovem de uma luta pela redemocratizaçãoregime em seu momento mais autori- guarda, do tropicalismo etc. do país, para os líderes de 1968 e mi-tário e violento, com a decretação do Encabeçando as manifestações, litantes dos partidos estudantis (emAto Institucional n° 5 (AI-5). Mas isto ainda que de modo mais formal que geral informados pelos socialismosse daria apenas em dezembro. Antes de fato, já que a direção dos aconte- heterodoxos e pela apologia da lutadisto, desde março até outubro, 1968 cimentos tomava rumo próprio nas armada) o maior desejo era tornarfora o ano de revoltas estudantis que massivas manifestações populares, possível a “revolução popular” quesacudiram o país e que estiveram no esteve a União Nacional dos Estu- levaria o Brasil ao socialismo:centro de esperanças democráticas e dantes (UNE). A UNE havia sido Nós éramos profundamente liber-de pesadelos da violência. declarada ilegal pelo governo e teria tários. O que mais se gritava naquele Por outro lado, o movimento seus espaços fechados pela ditadura, momento era a palavra de ordemtambém era cultural, contracultural, culminando na prisão de todos os “Liberdade”. O curioso, e paradoxal,ainda que não muito consciente disso, participantes do 30º Congresso da é que toda essa visão e toda essapois ao menos na prática, nos atos da UNE em Ibiúna (SP), em outubro de prática muito libertárias coexistiammassa estudantil, também se expres- 1968. Mas, antes disso, ao lado das com um discurso ideológico quesou o desejo da libertação dos com- uniões estaduais dos estudantes, di- apontava para outras direções. Todosportamentos e dos valores, no campo retórios centrais estudantis e centros nós, naquele momento, piamente de-da arte, da sexualidade e das drogas. acadêmicos, a UNE ajudou a impri- fendíamos a ditadura do proletariadoPor fim, 1968 foi o ponto culminante mir a marca da nova esquerda nestas (Sirkis 1999, p. 114). 39 Teoria e Debate Especial 1968 H maio 2008
  • 6. Hamilton / JB Dois ápices marcaram os oitomeses de revolta (Moraes, 1989). Oprimeiro se deu entre 28 de marçoe o início de abril, contando com 26grandes passeatas em quinze capi-tais estaduais. O fato que precipitouessas passeatas foi o assassinato doestudante secundarista Edson Luís1Souto pela polícia, no Rio de Janeiro,no restaurante Calabouço (destinadoa estudantes pobres, em geral vindos Edson Luís, primeiro estudante assassinado pela ditadura militar, morto durante confronto nodo interior do estado do Rio de Janeiro restaurante Calabouço, no Rio de Janeiroe de outras regiões do país). Em meioà enorme manifestação popular em houve dezessete grandes passeatas estudantil no centro da cidade, naque se transformou seu enterro, criou- em oito capitais de estado. Outro fato chamada “quarta-feira sangrenta”.se um slogan certeiro: “Mataram um ocorrido no Rio de Janeiro teria dis- No dia 21, centenas de estudantesestudante. Podia ser seu filho”. parado essa segunda onda, quando que estavam em assembléia na Uni- O segundo grande momento se a polícia, em 20 de junho, reprimiu versidade Federal foram agredidosdeu na metade de junho, no qual com br uta lidade uma passeata pela polícia no Estádio do Botafogo, Manifestações após a morte de Edson Luís mobilizaram várias capitais brasileiras Acervo IconographiaTeoria e Debate – Especial 1968 H maio 2008 40
  • 7. Com a violência da ditadura, que culminou na prisão de quaseoitocentos delegados no 3o Congresso da UNE e no AI-5, o ímpetojuvenil e rebelde de 1968 se dispersariaquando a televisão transmitiu cenas grupo ultraconservador Comando estudantes dos anos 1970 viram seuda violência oficial. Estava preparado de Caça aos Comunistas (CCC), alo- espaço constantemente cerceado eo cenário para a “sexta-feira sangren- jados na Universidade Mackenzie, vigiado, punidos por um radicalismota”, no dia 22: a população apoiou os travaram violento duelo contra os que não tinha sido o de sua geraçãoestudantes e também atacou a polí- estudantes esquerdistas que ocupa- e, ainda por cima – como os jovens decia, e o confronto que se estendeu até vam a Faculdade de Filosofia da USP. hoje –, foram acusados de alienadoso final da tarde deixou muitos feridos Ao final, a Faculdade de Filosofia foi pela mesma sociedade que não lhese mortos. Novo ato se convocou para incendiada, sob o olhar conivente da dava condições de ser um verdadeiroo dia 26, que ficaria conhecido como polícia. protagonista da vida política. ✪a Passeata dos Cem Mil. Postaram- Diante do crescente da violênciase ao lado dos estudantes, artistas, da ditadura, que culminou na prisão Luís Antonio Groppo é professor do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal),membros do clero, das classes mé- de quase oitocentos delegados no Unidade Americana, e pesquisador do Conselhodias e até dos trabalhadores, anga- 30º Congresso da UNE e no AI-5, o Nacional de Desenvolvimento Científico eriando à revolta ampla – mas breve ímpeto juvenil e rebelde de 1968 se Tecnológico (CNPq). Autor, entre outros,– legitimidade. dispersaria. Enquanto a classe média de Autogestão, Universidade e Movimento A resposta da ditadura não tar- logo se acomodaria ao sistema – fe- Estudantil, Uma Onda Mundial De Revoltas: Movimentos Estudantis de 1968 e Juventude:dou: decretou-se a proibição de pas- chado politicamente, mas com novas Ensaios Sobre Sociologia e História dasseatas em todo o país. Estava fechado oportunidades de enriquecimento Juventudes Modernas (Difel, 2000)o principal meio até então legal de acenadas pelo “milagre econômico”expressão da revolta estudantil e dos –, a rebelião juvenil bifurcou-se em Bibliografiaanseios de democratização. As ma- duas frentes. Uma delas, a da rebeldia Groppo, L. A. Uma Onda Mundial de Revoltas:nifestações que foram convocadas a comportamental de nossos hippies, Movimentos Estudantis de 1968. Piracica- ba, Editora da Unimep, 2005.partir de então sofreram repressão amantes da liberdade sexual e da ex- _____________. Autogestão, Universidade ecada vez mais vigorosa, desencora- perimentação psicodélica, não tinha Movimento Estudantil. Campinas, Autoresjando aqueles que antes facilmente se interesse central pela transformação Associados, 2006.animavam a seguir os protestos. do regime político. A outra, a da luta K atsiaficas, G. The Imagination on the New Left. A Global Analysis of 1968. Boston, Outro importante modo de ação armada, organizações de esquerda South End Press, 1987.também tinha seus dias contados, que entraram em clandestina mas Moraes, J. Q. de. “A mobilização democrática e o desencadeamento da luta armada noa saber, as greves e ocupações de sangrenta batalha contra o regime, Brasil em 1968: notas historiográficas eunidades estudantis. Destacaram- pouco puderam diante da violência observações críticas”. Tempo Social. São Paulo, I (2), 2o sem./1989, p. 135-158.se as ocupações na Universidade de quase absoluta daquele Estado – que Morais, P.; Reis Filho, D. A. 1968. A Paixão deSão Paulo (USP). Momento bastante mobilizou com mais eficácia os di- Uma Utopia. 2ª ed. Rio de Janeiro, Funda-indicativo de mais este fechamento versos órgãos de repressão na temível ção Getúlio Vargas, 1998. Sirkis, A. “Os paradoxos de 1968”. In: Gar-foi a guerra da Maria Antonia (rua Operação Bandeirantes (Oban). cia, M. A.; Vieira, M. A. (orgs.). Rebeldes eda capital de São Paulo onde se deu Contra os estudantes universitá- Contestadores. 1968: Brasil, França e Ale- manha. 2ª ed. São Paulo, Editora Fundaçãoo conflito), quando integrantes do rios, militantes ou não de qualquer Perseu Abramo, 2008, p. 111-116. rebelião, o Estado reservara para o Valle, Maria R. do. O Diálogo é a Violência: início de 1969 o Decreto n° 477, que Movimento Estudantil e Ditadura Militar no1 Nascido em Belém (PA), o secundarista Edson Brasil. Campinas, Unicamp, 1999. Luís foi o primeiro estudante morto pela ditadura estipulava que fazer ou participar Z aidan Filho, M.; Machado, O. L. (orgs.). Mo- militar. Foi assassinado pela Polícia Militar du- de greve, passeata ou simplesmente vimento Estudantil Brasileiro e a Educação rante um confronto no restaurante Calabouço, distribuir “material subversivo” era Superior. Recife. Editora Universitária no centro do Rio de Janeiro, onde funcionava o UFPE, 2007. Instituto Cooperativo de Ensino. (N.E.) um grave delito. Deste modo, os 41 Teoria e Debate Especial 1968 H maio 2008