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    0 revista amazonia_numero_12 0 revista amazonia_numero_12 Document Transcript

    • AMAZÔNIAAMAZÔNIAAMAZÔNIAAMAZÔNIAAMAZÔNIA CIÊNCIA & DESENVOLVIMENTO ISSN 1809-4058 Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011
    • Amazônia: Ciência & Desenvolvimento / Banco da Amazônia. – v. 6, n. 12 (jan./jun. 2011) – . – Belém: Banco da Amazônia, 2005 – . Semestral. ISSN 1809-4058. 1. DESENVOLVIMENTO REGIONAL – Amazônia – Periódico. I. Banco da Amazônia. II. Título. CDD: 338 CDU: 33(811) (05) REPRODUÇÃO E RESPONSABILIDADE A Revista Amazônia Ciência & Desenvolvimento é um periódico científico semestral e multidisciplinar que tem por finalidade divulgar artigos sobre temas que tratem da economia, sociedade e meio ambiente amazônico. Qualquer parte da publicação pode ser reproduzida,desde que citada a fonte.As opiniões contidas nos artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não expressam,necessariamente,a visão do Banco daAmazônia ou da Comissão de Publicação da Revista. COMISSÃO DE PUBLICAÇÃO Coordenadores: Luiz Lourenço de Souza Neto e Fernanda Gene Nunes Barros EditoresTécnicos:Fabrício Khoury Rebello,Maria Lúcia Bahia Lopes e Oderle MilhomemAraújo Supervisora: Maria de Fátima da Costa Leão CONSELHO EDITORIAL Ahmad Saeed Khan (UFC),Alfredo Kingo Oyama Homma (EmbrapaAmazônia Oriental),Ana Laura dos Santos Sena (Embrapa Amazônia Oriental),Antônio Carvalho Campos (UFV),Antônio Cordeiro de Santana (UFRA),David Ferreira Carvalho (UFPA), Dulce Helena Martins Costa (Banco daAmazônia),Erly CardosoTeixeira (UFV),FernandoAntônioTeixeira Mendes (CEPLAC), Francisco de Assis Costa (UFPA), Iran Pereira Veiga Júnior (UFPA), João Eustáquio de Lima (UFV), Joaquim José Martins Guilhoto (USP),José JorgeValdez Pizarro (IESAM),Lauro Satoru Itó (UFRA),MarcosAntônio Souza dos Santos (UFRA),Mutsuo Asano Filho (UFRA),RaimundoAderson Lobão de Souza (UFRA),Roberto Ribeiro Corrêa (UFPA). EQUIPE TÉCNICA Normalização:Oderle MilhomemAraújo – CRB2 / 745 Diagramação/Layout: Gerência de Imagem e Comunicação - GICOM Coordenadoria de Comunicação Corporativa - CCOMC Editoração Eletrônica: Manoel de Deus Pereira do Nascimento Arte da 1ª Capa:Paulo do Carmo Pereira e Manoel de Deus Pereira do Nascimento Fotos da 1ª capa:Antonio José Menezes (Sistema de produção e tacacá) e Erika Miyazaki (Culinária do jambu) Apoio:Cristiane MarinaTeixeira Girard (Estagiária) www.bancoamazonia.com.br revistacientifica@bancoamazonia.com.br Correspondências: Biblioteca do Banco daAmazônia Av.PresidenteVargas,800 – 16º andar – Belém-PA.CEP 66.017-901
    • SUMÁRIO Editorial Artigos Ciências Agrárias Disponibilidade de fósforo em solos manejados com e sem queima no Nordeste Paraense Availability of phosphorus in managed soils with or without slash and burn in the Northeast of Pará Elineuza Faria da Silva Trindade; Osvaldo Riohey Kato; Eduardo Jorge Maklouf Carvalho; Ernildo César da Silva Serafim...................................................................................................................... 7 Fontes de contaminação microbiana da castanha-do-pará Source of microbial contamination in the brazilian nut (castanha-do-pará) Paulo de Oliveira Martins Junior; Vespasiano Yoji Kanzaki de Sousa; Amabel Fernandes Correia; Élida Cleyse Gomes da Mata; Luís Isamu Barros Kanzaki................................................................... 21 Germinação e emergência de milho híbrido sob doses de esterco bovino Germination and emergence of hybrid corn under dose cattle manure Jhansley Ferreira da Mata; Joseanny Cardoso da Silva Pereira; Jaíza Francisca Ribeiro Chagas; Leciany Márcia Vieira..................................................................................................................... 31 Produtividade de forragem e características morfogênicas e estruturais de Axonopus aureus nos cerrados de Roraima Forage yield and morphogenetics and structural characteristics of Axonopus aureus in Roraimas´s savannas Newton de Lucena Costa, Vicente Gianluppi, Anibal de Moraes, Amaury Burlamaqui Bendahan.............. 41 Produtividade de mandioca cultivada por agricultores familiares na região dos lagos, município de Tracuateua, estado do Pará Cassava´s productivity by smallholder farmers from lake region at city of Tracuateua, state of Pará Moisés de Souza Modesto Júnior; Raimundo Nonato Brabo Alves; Enilson Solano Albuquerque Silva......... 57 Ciências Humanas A construção de territórios culturais pelas antigas sociedades amazônicas Building cultural territories by old Amazonian societies Marcos Pereira Magalhães.............................................................................................................. 69 Economia Biodiesel e desenvolvimento regional na Amazônia Legal: casos do estado do Tocantins Biodiesel and regional development in the Brazilian Amazônia: cases from Tocantins state Marcus Vinícius Alves Finco; Werner Doppler..................................................................................... 89
    • Estimação dos preços da madeira em pé para as áreas de florestas públicas da região do Marajó, no estado do Pará Estimation of standing timber prices for the public forest areas of Marajó region, state of Pará Antônio Cordeiro de Santana; Marcos Antônio Souza dos Santos; Rafael de Paiva Salomão; Cyntia de Oliveira Meireles..................................................................................................................... 111 Etnocultivo do jambu para abastecimento da cidade de Belém, estado do Pará Jambu etnocultive in the metropolitan area of Belém, Pará state Alfredo Kingo Oyama Homma; Ronaldo da Silva Sanches; Antônio José Elias Amorim de Menezes; Sérgio Antônio Lopes de Gusmão.................................................................................................. 125 Otimização logística para o transporte multimodal de safras agrícolas pelo corredor Centro-Norte: o que pensam as empresas e instituições envolvidas? Logistic optimization for multimodal agricultural products transport by Center- North corridor: what do companies and institutions involved think about it? José Eduardo Holler Branco; José Vicente Caixeta Filho; Augusto Hauber Gameiro; Carlos Eduardo Osório Xavier; Walter Henrique Malachias Paes; Betty Clara Barraza de La Cruz.................................. 143 Planejamento Urbano e Regional As chuvas e as vazões na bacia hidrográfica do rio Acre, Amazônia ocidental: caracterização e implicações socioeconômicas e ambientais Rainfalls and flowrates in Acre river basin, western Amazônia: environmental and socio- economic characterization andimplications Alejandro Fonseca Duarte............................................................................................................. 161 Zootecnia/Recursos Pesqueiros Crescimento de juvenis de tambaqui, Colossoma Macropomum (Cuvier, 1818), em tanques-rede com diferentes densidades populacionais em Ji-Paraná, RO Growth of juvenile tambaqui, Colossoma Macropomum (Cuvier, 1818), in cages with different densities population in Ji-Paraná, RO Valdeir Vieira da Cunha; Antônio dos Santos Júnior........................................................................... 185 Normas editoriais.................................................................................................................... 195
    • 5Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. EDITORIAL A sofisticada e rica gastronomia elaborada nos estados da Amazônia têm ajudado a divulgar uma imagem positiva da Região no Brasil e no mundo. Isso tem favorecido a criação de muitas oportunidades nos mais diversos setores da economia, como no turismo, agropecuária e agroindústria, visando atender demandas crescentes dos residentes, turistas e para a exportação. Neste particular, as experiências dos festivais de culinária, com participação de renomados chefes nacionais e internacionais e da contribuição de muitos anônimos tem sido relevante para criar e promover essa apreciável gastronomia. Os peixes, frutas, ervas, raízes, jambu, tucupi e tantos outros sabores, aromas e iguarias dão o tom para as muitas invenções. Esta 12ª edição da Revista Amazônia: Ciência & Desenvolvimento traz, por sua vez, um interessante estudo apontando aspectos do etnocultivo do jambu, que ilustra nossa capa. Nele, destaca-se o processo de conhecimento gerado pelos produtores dessa hortaliça, análise sobre a biopirataria na Amazônia e as estratégias para combater esse mal, assim como, são apontadas possibilidades para expansão desse mercado.Desta feita,tem-se o esforço da pesquisa para consolidar o conhecimento e indicar caminhos para o desenvolvimento regional. Ao lado do artigo já mencionado, essa edição chega com outras onze pesquisas de igual identidade regional abrangendo questões dos estados do Acre, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. São textos que abarcam um amplo leque de saberes sobre a Amazônia, envolvendo discussões quanto a valoração florestal, produtividade de mandioca e forragens, logística de transporte, manejo de solo, experimento com adubação orgânica, cultura de sociedades amazônicas, contaminação microbiana da castanha-do-pará, piscicultura, biodiesel e vulnerabilidade social a partir das chuvas e enchentes. Boa leitura a todos! Abidias José de Sousa Junior Presidente do Banco daAmazônia
    • 7Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. DISPONIBILIDADE DE FÓSFORO EM SOLOS MANEJADOS COM E SEM QUEIMA NO NORDESTE PARAENSE1 Elineuza Faria da Silva Trindade* Osvaldo Riohey Kato** Eduardo Jorge Maklouf Carvalho*** Ernildo César da Silva Serafim **** RESUMO Os solos amazônicos são conhecidos por sua baixa fertilidade natural, que além da elevada acidez, apresenta baixos teores de fósforo na forma disponível pelas plantas. O sistema de manejo tradicionalmente utilizado na agricultura familiar da região é o de corte e queima, cujas consequências aceleram a perda de fósforo no solo. Como alternativa a esse tipo de sistema, a tecnologia de corte e trituração da capoeira sem queima vem consolidando espaço nas unidades de produção camponesas objetivando, entre outros possíveis efeitos, o aumento da eficiência do uso do fósforo na agricultura. Com a finalidade de verificar a disponibilidade do fósforo em solo manejado com queima e sem queima entre os anos de 1995 a 2010, conduziu-se um experimento no município de Igarapé-Açu, Pará, sob um Latossolo Amarelo Distrófico textura arenosa. O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso, com três repetições. As coletas de solo realizadas nas profundidades de 0-10 cm e 10-20 cm, em cada parcela, e analisadas segundo a metodologia da Embrapa (1997).As médias dos resultados analíticos foram comparadas pelo teste de Tukey a 5%. O sistema sem queima apontou para a elevação dos teores de fósforo disponível no solo e forte tendência de estabilização com o passar dos anos, notadamente no tratamento com incorporação da cobertura morta e adição de adubo. Ao contrário, o sistema com queima tendeu a diminuir os teores de fósforo ocasionado pela degradação química do solo e, consequentemente, contribuindo com a insustentabilidade do sistema de produção. Palavras-chave: Manejo do Solo-Amazônia. Agricultura Familiar. Sistema de Corte e Trituração da Capoeira. 1 Resultados da tese da primeira autora em elaboração junto ao Programa de Doutorado em Ciências Agrárias da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)/Embrapa Amazônia Oriental. * Engenheira Agrônoma; Doutoranda em Ciências Agrárias pela UFRA/Embrapa Amazônia Oriental. E-mail: elineuza_trindade@hotmail.com. ** Engenheiro Agrônomo; Dr.; Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. E-mail: okato@cpatu.embrapa.br. *** Engenheiro Agrônomo;Dr.; Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. E-mail: maklouf@cpatu.embrapa.br. **** Engenheiro Agrônomo; Técnico de Gestão Ambiental da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA/PA). E-mail: ernildoserafim@hotmail.com.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 8 AVAILABILITY OF PHOSPHORUS IN MANAGED SOILSWITH ORWITHOUT SLASHAND BURN IN THE NORTHEAST OF PARA ABSTRACT Amazon soils are known for their low natural fertility, high acidity and low availability of phosphorus contents to plants. The management system which has been traditionally used in small scale family agriculture is slash-and-burn, as a results it accelerates the loss of phosphorus in the soil. More recently, as an alternative to that system, the slash- and-chopped technique used for fallow vegetation, without burning, has been more frequently used by small farmers aiming, among other possible effects, an increase in the use of phosphorus efficiency in agriculture. In order to check the availability of phosphorus in managed soil with and without burning, between 1995 and 2010, an experiment was conducted in the Municipality of Igarapé-Açu, Pará, under Dystrophic Yellow Latosol of sandy texture. The experimental design was random blocks, with three repetitions. The collection was made in the upper 0-10 cm and 10-20 cm of the soil, in each parcel, and was analyzed according to Embrapa’s methodology (1997).The analytical result averages were compared toTukey test at 5%. The non-burning system indicated an increase in phosphorus contents available in the soil and a strong tendency of stabilization throughout the years, especially in treatment with of incorporation of dead cover and nutrient addition in the long term. The slash-and-burn system, on the other hand, tended to decrease phosphorus contents causing a soil degradation, consequently adding to the unsustainability of the production system. Keywords: Soil Management-Amazon. Family Agriculture. Fallow Vegetation Slash-and-Chopped System.
    • 9Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO Os solos brasileiros são conhecidos pela carência em fósforo, devido principalmente ao material de origem e a forte interação deste elemento com o solo (RAIJ, 1991). A pouca mobilidade desse nutriente é resultado da sua adsorção aos colóides de forma não trocável, ou seja,não disponível às plantas,e mesmo na forma trocável a sua liberação ocorre lentamente (TOMÉ JÚNIOR, 1997). Devido a essa característica, o fósforo é considerado como o nutriente mais limitante para produção de biomassa nos solos tropicais (NOVAIS; SMYTH, 1999). Raven (2007) assinala que a fonte da maior parte do fósforo no solo é proveniente do intemperismo das rochas e dos minerais, e provavelmente,é o que mais limita o crescimento vegetal.O fósforo,portanto,é o elemento químico considerado de grande essencialidade para as plantas, sendo componente das moléculas transportadoras de energia, como a ATP, e também dos nucleotídeos do DNA e RNA. Não diferentemente, os solos amazônicos são conhecidos pela sua baixa fertilidade natural, que além da elevada acidez, apresenta baixos teores de fósforo na forma disponível pelas plantas.A necessidade de alimentar a população que cresce de modo exponencial pode com o tempo conduzir à escassez de nutrientes específicos, devido à remoção da cobertura vegetal e o aumento da erosão, acelerando a perda de fósforo no solo. Neste contexto, a agricultura de corte-e- queima pode ser caracterizada como um sistema de uso da terra o qual utiliza o fogo na vegetação natural para o cultivo agrícola, mas que provoca efeitos negativos no solo e no meio ambiente. Essa prática ocorre durante um ou dois anos, seguindo-se um período de pousio. Nessa fase, a vegetação secundária (capoeira) se refaz por meio de rebrotas de tocos, raízes e sementes, principalmente aquelas que sobrevivem à queimada.As taxas de rotação do uso da capoeira exigem períodos de pousio longos, de modo que a nova vegetação recomposta possa contar com diversidade florística, ciclagem de água e nutrientes, acúmulo de carbono e nutrientes na biomassa (TIPPMANN; DENICH; VIELHAUER, 2000; SOMMER, 2004). Dessa forma, Kato, Sá e Figueiredo (2006) sugerem que o período de pousio cada vez mais curto, devido a pressão populacional por alimentos, diminui os efeitos benéficos desse sistema, pois as repetidas queimadas representam uma contínua perda de nutrientes minerais, maior exposição do solo, retirada da serrapilheira e o aumento da mineralização orgânica. Em estudos no Nordeste Paraense, Sommer (2004) estimou uma perda de 21,5 mg de carbono e 372 kg de nitrogênio por hectare, além da perda de 45 a 70% de cátions menos voláteis como o K, Ca e Mg em uma capoeira de sete anos de idade, sendo que a maioria dessas perdas ocorreu com a fumaça durante o processo de queima.O mais preocupante, neste caso, foi a exportação de 63% do estoque de fósforo,o qual corresponde a 11,0 kg ha-1 , por ser limitante para o rendimento das culturas, completa o autor. É oportuno destacar que antes da utilização do solo essa prática constitui-se numa das principais causas do desmatamento naAmazônia, além de ser, também, o foco de queimadas nessa região, contribuindo com a emissão de gases do efeito estufa, fatores que colocam em alerta a continuidade desse modelo. Para conter essas pressões sobre os recursos naturais, a comunidade científica tem se empenhado em buscar alternativas com o sistema de plantio direto na capoeira ou tecnologia de corte-e-trituração da capoeira sem
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 10 queima, desenvolvido pela Embrapa Amazônia Oriental em parceria com o governo alemão,onde nesse sistema a capoeira é cortada, triturada e espalhada homogeneamente sobre o solo como cobertura morta (KATO et al., 2007). Pesquisas nesse sentido,como os trabalhos de Kato (1998), Gama (2002) e Coelho et al. (2004) no Nordeste do Pará e Serra et al. (2007) no Oeste do Pará, baseados no corte-e-trituração da capoeira como alternativa ao uso do fogo, apontam tendências de aumento da matéria orgânica favorecendo o restabelecimento de níveis desejáveis de fertilidade do solo, notadamente quanto à disponibilidade de fósforo e nitrogênio às plantas, ainda que sejam utilizadas pequenas doses de fertilizantes químicos nos primeiros anos de implantação do sistema. Os resultados de pesquisa de Sommer (2004) demonstram balanço positivo de nutrientes pelo corte e trituração da vegetação por não ocorrer perdas pela queimada, com ganhos de 267 kg ha-1 de N, 8 kg ha-1 de P, 61 kg ha-1 de K, 176 kg ha-1 de Ca, 34 kg ha-1 de Mg e 27 kg ha-1 de S. Esse sistema proporciona, além da recuperação gradual do solo pela oferta de nutrientes e carbono através da reciclagem de nutrientes das camadas profundas para a superfície e fornecimento de matéria orgânica pela deposição da folhagem, melhorias nas propriedades químicas e físicas do solo, oferta de serviços ambientais e flexibilização do calendário agrícola. Diante disso, essa pesquisa tem por objetivo verificar a disponibilidade do fósforo no solo a partir de dois diferentes sistemas de manejo da capoeira, com e sem queima, este baseado na trituração da capoeira, no período de 1995 a 2010, em Igarapé-Açu, Pará. 2 MATERIAL E MÉTODOS A Pesquisa foi realizada na comunidade Cumaru, em área de pequeno produtor, no município de Igarapé-Açu, mesorregião do Nordeste Paraense, entre as coordenadas geográficas de 1° 11’ S e 47° 34’ W, sob um Latossolo Amarelo Distrófico textura arenosa (EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA, 1997). O município de Igarapé-Açu, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2011), possui 7.562 ha ocupados com lavouras temporárias (22,28%) e permanentes (77,72%), respondendo por 2,35% das áreas de lavouras do Nordeste Paraense.Entre as lavouras temporárias destaca-se o cultivo da mandioca com 68,25% da área plantada (1.150 ha). Quanto às permanentes, o cultivo do dendezeiro ocupa 4.200 ha (71,46%) e a pimenta-do-reino 1.060 ha (18,04%). O clima da região é intermediado entreAw/ Am, pela classificação de Köppen, chuvoso, apresentando estação seca de cinco meses, de agosto a dezembro, com temperatura anual variando entre 21 e 32ºC, precipitação de aproximadamente 2.500 mm, umidade relativa do ar de 84% e brilho solar de 192,8 h/mês (BASTOS; PACHECO, 1999). Os estudos foram conduzidos em áreas de pousio da vegetação secundária com idade de quatro anos, onde as parcelas experimentais constaram de 120 m2 (10,0 x 12,0 m) e área total de 5.000 m2 (50,0 X 100,0 m). O delineamento experimental utilizado foi o de blocos ao acaso, em esquema fatorial (7x4x2), com três repetições.As parcelas constituídas pelas formas de preparo da terra: Queima da vegetação + adubação química (Q+); Queima da vegetação sem adubação química (Q-); Cobertura com
    • 11Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. vegetação triturada + adubação química (C+); Cobertura com vegetação triturada sem adubação química (C-);Trituração e incorporação da vegetação + adubação química (I+); Trituração e incorporação da vegetação sem adubação química (I-) e Capoeira natural (CAP); quatro épocas de coleta de solo (1995, 1996, 1998 e 2010) e duas profundidades de coleta de solo (0-10 e 10-20 cm). As parcelas foram cultivadas em regime de sequeiro com o arroz (Oryza sativa cv. Xingu) em rotação com o feijão-caupi (Vigna unguiculata cv. BR3-Tracuateua) e a mandioca (Manihot esculenta cv. Pretinha) de acordo com o calendário agrícola da região nos anos de 1995, 1997, 2002, 2004 e 2010. Nas parcelas com fertilizantes foram utilizadas como fonte de NPK a uréia, o superfosfato triplo e o cloreto de potássio, respectivamente,nas doses 50,25 e 25 kg ha-1 para o arroz e 10, 22, 42 kg ha-1 para o feijão-caupi. Para a mandioca não houve adubação específica, sendo considerado o efeito residual do fertilizante aplicado nas culturas do arroz e feijão-caupi. A determinação analítica do parâmetro fósforo disponível foi realizada por meio do espctofotômetro de chama, em conformidade com os procedimentos propostos pela Embrapa (1997). Para isso, foram coletadas três amostras de solo compostas, oriundas de nove amostras simples, na área útil da subparcela em forma de “zig-zag,” utilizando-se trados. Para efeito de análise estatística foi empregado o modelo de análise de variância (ANOVA) com medidas repetidas (LITTELL et al., 2006). Tais análises foram conduzidas com auxílio da planilha Excel, do SAS System e do pacote STATISTICA 5.5.Dada a significância dos efeitos, a ordenação univariada dos valores médios, com representação do respectivo desvio padrão, foi obtida por meio do teste de Tukey a 5% de probabilidade. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados médios da variável fósforo disponível (P2 O5 ) para os diferentes tratamentos dentro de cada ano e os diferentes anos dentro de cada tratamento, por profundidade, estão apresentados na Tabela 1. Observa-se que, de modo geral, houve diferença estatística significativa pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade nos sistemas de manejo, inclusive em relação à testemunha, com melhores resultados naqueles que receberam aplicação de fertilizantes químicos,principalmente na camada de 0-10 cm e com tendência de diminuição do fósforo disponível no decorrer dos anos nas duas profundidades. Uma ressalva se faz para a camada de 10- 20 cm que apresenta valores e diferenças menores para todos os tratamentos e testemunha, tendendo a estabilização. Esta situação pode ser considerada normal, pois naturalmente os teores de nutrientes diminuem com a profundidade do solo. Como esperado, os resultados maiores foram observados nos tratamentos onde houve queima da vegetação independente da adubação, mas a partir de 1998 e, sobretudo em 2010 esses valores diminuem, ficando mais próximos dos demais tratamentos,devido possivelmente à ação dinâmica do solo,com sucessivas alternâncias de preparo de área, cultivo e pousio da vegetação ao longo dos anos e a reduzida capacidade regenerativa da capoeira devida provavelmente à baixa quantidade de nutrientes no solo, como também foi constatado em pesquisa realizada por Zarin et al. (2001).
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 12 As duas primeiras coletas de solo (1995 e 1996) tiveram o efeito de, apenas, um plantio, no ano de 1995, bem como na coleta de 1998 que teve efeitos do plantio de 1997. Os desgastes maiores no solo vieram a ser refletidos na última coleta em 2010, tanto pelo efeito cumulativo desde 1995 como pelos plantios (2002, 2004 e 2010) e queimas mais intensas em relação às coletas anteriores. Apesar de todos os tratamentos apresentarem tendência de aumento da quantidade de fósforo disponível para as plantas em relação à testemunha, nos tratamentos onde não foi realizada aplicação de adubo o teor de fósforo variou de 2,33 a 9,33 mg dm-3 , enquanto que nas áreas adubadas a variação foi de 9,0 a 19 mg dm-3 , considerados por Cravo, Viégas e Brasil (2007), para este tipo de solo arenoso, de baixo a médio, em geral. Esta situação é devida às características químicas e mineralógicas do solo,pois de acordo com Brady (1979) e Raij (1991) em regiões de clima tropical, semelhantes ao deste estudo, de pH ácido na faixa de 4 a 5, há predominância de óxidos de ferro, óxidos de alumínio e minerais de argila 1:1, como a caulinita, condicionando a formação de fosfatos de ferro e alumínio que além de não assimiláveis pelas plantas, fazem com que a disponibilização do fósforo, em nível de laboratório, ocorra a baixos teores, o que segundo Malavolta (1979) ocorre devido ao fenômeno da “fixação”. Tabela 1 - Valores médios de fósforo disponível (mg dm-3 ), em diferentes profundidades, comparando os Sistemas com Queima e com Corte e Trituração da Capoeira com uma área de Capoeira Natural, referentes aos anos de 1995, 1996, 1998 e 2010, no município de Igarapé-Açu (PA). Fonte: dados da pesquisa. Nota: médias seguidas de letras iguais, maiúsculas nas linhas e minúsculas nas colunas, não diferem estatisticamente pelo teste de Tukey a 5%. Comparando,apenas,os tratamentos sem adubação, na camada de 0-10 cm, na área submetida à queima (Q-), observou-se uma tendência de aumento no teor de fósforo para todos os anos, confirmando o efeito imediato das cinzas na disponibilidade deste nutriente no solo, apesar de uma diminuição a partir de 1998.
    • 13Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Para a cobertura do solo onde o material foi apenas triturado (C-), observa-se tendência de teores de fósforo maiores do que no tratamento com a incorporação (I-), provavelmente devido a mineralização mais lenta dos resíduos orgânicos deixados na superfície do solo pela ação quase que exclusiva do clima, concordando com Kato et al. (1998). Lopes (1989) acrescenta que há um aumento do teor de fósforo disponível no solo devido ao efeito da cobertura morta por esta melhorar as condições de umidade e temperatura. No entanto, quando há uma incorporação em grande quantidade de material orgânico, Rossetto e Tsai (1992) explicam a ocorrência de um aumento no estímulo ao crescimento da população microbiana, havendo uma maior demanda por fósforo que são assimiladas por esses organismos para a formação e desenvolvimento de suas células. Kato (1998) estudando a dinâmica do fósforo no solo no mesmo local desta pesquisa, também observou que nas parcelas onde houve incorporação da biomassa triturada sem adubação ocorreu um decréscimo acentuado nos teores de fósforo disponível em níveis quase indetectáveis na solução do solo. O autor atribuiu esse resultado ao baixo teor do nutriente no solo no início do experimento, a baixa quantidade do mesmo na biomassa da capoeira, a sua baixa mobilidade no solo e a remoção pelas culturas exigentes em fósforo (arroz e caupi) nos primeiros anos de implantação desse sistema. Já na comparação entre os tratamentos onde foi feita a aplicação de adubo, o tratamento Q(+) apresentou os maiores resultados, inclusive em relação a todo o experimento. Todos os tratamentos, também, repetiram a tendência de diminuição no teor do fósforo com o passar dos anos, exceto o I(+), que teve comportamento diferenciado, apesar de estatisticamente ter sido semelhante ao tratamento Q(+) para os anos de 1998 e 2010. É importante lembrar que o preparo de área feito em 2009 influencia diretamente nesse resultado. A queima ocorrida na área mais a adição de fertilizante provocaram a diminuição imediata da acidez e da toxidez do Al (Tabelas 2 e 3) favorecendo uma maior disponibilidade de fósforo no solo. No entanto, mesmo com trituração recente do material vegetal, a adição de adubo provavelmente compensou a imobilização dos nutrientes pelos microorganismos na fase inicial de decomposição da matéria orgânica, como proposto por Oliveira (2002), que somado ao efeito positivo dos manejos ocorridos nos anos anteriores na área deste tratamento refletiu no resultado alcançado pelo mesmo no último ano desta pesquisa (2010). Desta forma, é possível observar que o tratamento (I+) voltou a apresentar o resultado do início das observações (14 mg dm-3 ), apontando para a estabilidade da ação microbiana,mesmo com pouca chuva no período, enquanto no tratamento (Q+) houve queda gradativa do fósforo disponível ao longo dos anos. Este resultado assinala que com a continuidade dessa prática alternativa ao uso do fogo (incorporando a cobertura e adicionando adubo) é possível que haja uma tendência ao aumento do teor desse nutriente no solo, o qual contribuirá com a sustentabilidade do sistema de produção.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 14 Em relação a essa queda acentuada no teor de fósforo em quase todos os tratamentos no ano de 2010, outra possível causa pode estar relacionada ao período de coleta das amostras de solo realizado no mês de outubro, pois o solo encontrava-se muito seco devido à baixa precipitação pluviométrica do período.Neste tipo de situação, esclarece Lopes (1989), a menor umidade e as altas temperaturas tornam o fósforo, praticamente, todo fixado. Nos anos anteriores, as coletas foram realizadas em períodos de maior índice de chuvas na região (janeiro, julho e agosto), favorecendo uma maior umidade do solo e tornando o nutriente mais disponível, refletindo em maiores produtividades, como constatado no trabalho de Coelho et al. (2004), no município de Igarapé-Açu, PA, em solo do tipo Latossolo Amarelo fase arenosa, comparando uma área manejada com queima e outra com corte-e-trituração da capoeira. No caso da testemunha, capoeira natural (CAP), os teores de fósforo podem ser considerados relativamente altos para os três primeiros anos de observação da camada de 0- 10 cm, para as condições dos solos desta região. Isso pode estar relacionado à grande adição de resíduos vegetais na superfície do solo ou mesmo devido a queimadas ocorridas nessa área nos anos que antecederam a implantação do experimento,pois naquele momento a vegetação estava em repouso há quatro anos,e com certeza ainda sofrendo a influência dos manejos anteriores do solo. Porém, após 12 anos, quando a capoeira já se encontrava com um porte bem maior e possivelmente sem resíduos de cultivos anteriores ou de efeito de queimadas, o teor de nutrientes – e portanto de fósforo – no solo foi reduzindo, ainda mais, devido a maior absorção pelas plantas as quais passaram a exigir maiores demandas para a formação de frutos, ou até mesmo por fixação do fósforo, além do que o solo voltou a apresentar as características naturais da região, ou seja, pobres nesse nutriente. Esses resultados coincidem com os verificados por Szott e Palm (1986), trabalhando com vegetação secundária naAmazônia Peruana, onde foi observado um decréscimo acentuado no nível de fertilidade do solo com o passar do tempo de desenvolvimento da vegetação. Resultados semelhantes também foram encontrados por Kleinman et al. (1996) que observaram uma tendência de maior acidez e maiores teores de Al3+ em solos cuja vegetação ficou em pousio por onze anos, em comparação a outra de três anos, afetando negativamente a disponibilidade de fósforo no solo. NasTabelas 2 e 3,encontram-se os valores de pH e alumínio trocável, que apesar de não apresentarem diferenças estatísticas significativas para a maioria dos tratamentos ao longo dos anos, caracterizam esse solo como bastante ácido e de elevado teor de toxidez por alumínio, podendo explicar os baixos níveis nos teores de fósforo disponível na área estudada.
    • 15Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Tabela 2 - Valores médios de pH em H2 O, em diferentes épocas e profundidades, comparando os Sistemas com Queima e Sem Queima com uma área de Capoeira Natural, no município de Igarapé-Açu-PA. Fonte: dados da pesquisa. Nota: médias seguidas de letras iguais, maiúsculas nas linhas e minúsculas nas colunas, não diferem estatisticamente pelo teste de Tukey a 5%. Tabela 3 -Valores médios de alumínio trocável (cmolc dm-3 ),em diferentes épocas e profundidades,comparando os Sistemas com Queima e Sem Queima, com uma área de capoeira natural, no município de Igarapé-Açu-PA. Fonte: dados da pesquisa. Nota: médias seguidas de letras iguais, maiúsculas nas linhas e minúsculas nas colunas, não diferem estatisticamente pelo teste de Tukey a 5%.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 16 Fonte: dados da pesquisa. Em termos de produção e produtividade das culturas,ostrabalhosdeKatoetal.(2007)afirmam que é possível mostrar o benefício da prática de corte-e-trituração da capoeira para as culturas, considerando o uso de fertilizantes como um pré- requisito para se obter uma boa produção em solos de baixa fertilidade, pois o efeito residual do insumo aumenta consideravelmente a produção das culturas. Os pesquisadores verificaram que a produtividade do arroz passou de 2,3 para 3,6 t ha-1 , a do feijão-caupi de 1,5 para 1,8 t ha-1 e a da mandioca de 26,8 para 34,3 t ha-1 , do ano agrícola de 1995/1996 para o ano agrícola de 2002/2003 nas áreas manejadas com trituração da capoeira, enquanto que para os mesmos períodos a produção reduziu ou manteve- se estável nas áreas preparadas com queima. Costa (2008) avaliou o efeito da adubação e da calagem no primeiro ano de cultivo em sistema de corte-e-trituração da capoeira e observou que a adubação contribuiu para o aumento da produtividade, independentemente da calagem, e que a produção cresceu em função da maior dosagem de NPK. No entanto, deve-se observar a resposta biológica da planta de acordo com as quantidades utilizadas de adubo,uma vez que doses superiores à necessidade destas podem O Gráfico 1 ilustra de forma didática a situação de campo durante o período de estudo, ficando bastante nítido o efeito da adubação química, da prática da queima e redução do teor de fósforo ao longo dos anos,entre os diferentes tratamentos e a capoeira natural. Ficou evidente também, nos tratamentos com a cobertura, principalmente com adubação e a capoeira natural, os teores de fósforo em níveis mais equilibrados quando comparados com a queima. Gráfico 1 - Fósforo disponível na profundidade de 0-10 cm comparando os sistemas com queima e sem queima da vegetação secundária, com a área de capoeira natural, em diferentes épocas, no município de Igarapé-Açu- PA.
    • 17Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. tornar-se tóxicas, prejudicando o crescimento e, consequentemente, a produtividade da cultura. Neste trabalho, verifica-se um potencial benefício para a produtividade das culturas a partir da liberação de nutrientes da biomassa após o processo de decomposição, mesmo no caso dos tratamentos com trituração da capoeira sem adição de fertilizantes C(-) e I (-), pois é possível perceber o aumento significativo do fósforo em relação à testemunha (Tabela1).Kato (1998) confirmou o efeito da não adubação no sistema sem queima considerando, apenas, a cobertura sem incorporação do material vegetal, relatando que a produção da cultura do arroz nesse sistema aumentou 70,6% do ano agrícola de 1995/1996 para 1997/1998, enquanto sistema com queima e sem adubação o aumento foi de, apenas, 14,3% para o mesmo período. Os dados de produtividade para esta pesquisa tiveram de ser desconsiderados, mesmo sabendo da sua influência no estoque de nutrientes pelo efeito residual da adubação,devido às perdas ocasionadas por fatores climáticos adversos ocorridos durante o período analisado,escassez ou excesso de chuvas, especialmente para o ano de 2010, período em que houve perda total das culturas do feijão-caupi e do arroz e produtividade insignificante da cultura da mandioca. 4 CONCLUSÕES A partir dos resultados apresentados pode- se concluir que a elevação dos teores de fósforo disponível no solo nas condições de campo da região estudada pode ser conseguida satisfatoriamente a partir do manejo da capoeira natural, através da técnica de corte-e-trituração da biomassa da vegetação. Os melhores resultados obtidos pela queima,principalmenteassociadacomaaplicação de fertilizantes,não implica necessariamente que este tipo de manejo seja a melhor alternativa em relação a não queima, pois o corte-e-trituração da capoeira apontou para uma forte tendência em ser superior e se estabilizar com o passar dos anos,enquanto aquele tende a diminuir os teores de fósforo ocasionado pela degradação química e física do solo. O estoque do nutriente fósforo disponível no solo, considerado de baixo a médio, não atingiu níveis melhores, possivelmente, pela capoeira não ter tido tempo suficiente para a sua recomposição e fornecimento de um maior aporte de massa vegetal para reposição de nutrientes em níveis satisfatórios. Podendo-se, neste caso, lançar mão do enriquecimento da capoeira com espécies leguminosas de ciclo mais curto durante o período de pousio. Além do efeito positivo em longo prazo da incorporação da cobertura morta com adubação na disponibilidade de fósforo no solo, pode-se esperar que haja uma maior vantagem do sistema sem queima a partir da melhoria da qualidade física, umidade e temperatura do solo (dados ainda em análise de laboratório). E como consequência disso, a diminuição das perdas de nutrientes, melhor desenvolvimento e produtividade das plantas e sustentabilidade ambiental. AGRADECIMENTO À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (FAPESPA).
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 18 REFERÊNCIAS BASTOS, T. X.; PACHECO, N. A. Características agroclimáticas do município de Igarapé-Açu (PA) e suas implicações para as culturas anuais: feijão-caupi,milho,arroz e mandioca.Belém:EmbrapaAmazônia Oriental, 1999. 30 p. (Embrapa Amazônia Oriental. Boletim de Pesquisa, 25). BRADY, H. O. Natureza e propriedades dos solos: compêndio universitário sobre edafologia. 5.ed. Rio de Janeiro, 1979. 647 p. COELHO, R. F. R.; OLIVEIRA,V. C.; CARVALHO, C.J. R.; SÁ,T.D. deA. Fluxo de nitrogênio e fósforo pela deposição de liteira em sistemas de produção agrícola de corte/queima e corte/trituração/manejo de capoeira,naAmazônia oriental. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE SISTEMAS AGROFLORESTAIS, 5., 2004, Curitiba. Anais ... Colombo: EMBRAPA, 2004. p. 559-561. COSTA,M.C.G.Calagem e adubação no primeiro ano de cultivo em sistema de corte e trituração em Roraima. Boa Vista: Embrapa Roraima, 2008. 16 p. (Embrapa Roraima. Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 1). CRAVO, M. da S.; VIÉGAS, I. de J. M.; BRASIL, E. C. Recomendações de adubação e calagem para o Estado do Pará. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2007. 262 p. EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Centro Nacional de Pesquisa de Solos. Manual de métodos de análise de solos. 2. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: EMBRAPA, 1997. 212 p. GAMA, M. A. P. Dinâmica do fósforo em solo submetido a sistemas de preparo alternativos ao corte e queima no Nordeste Paraense. 2002. 96 f. Tese (Doutorado)- ESALQ, Piracicaba, 2002. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Agrícola Municipal. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>.Acesso em: 7 nov. 2011. KATO, M. do S. A. Fire free land preparation as an atlternative to slash-and-burn agriculture in the Bragantina region: crop performance and Phosphorus dynamics. Göttingen: Cuvillier, 1998. 144 p. ______; KATO, O. R.; PARRY, M. M., DENICH, M.; VLEK, P. L. G. Fire-free alternatives to slash-and-burn for shifting cultivation in the EasternAmazon region:The role of fertilizers. In: SHIFT-WORKSHOP, 3, 1998 Manaus. Abstracts... Manaus: CNPq/EMBRAPA/GmbH, 1998. 260 p. ______; SÁ,T.D. de A.; FIGUEIREDO, R. Plantio direto na capoeira. Ciência e Ambiente, 29:99-111. In: GAMA- RODRIGUES,Antonio Carlos et al.(Ed.). Sistemas agroflorestais: bases científicas para o desenvolvimento sustentável. Campos Goytacazes, RJ: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, 2006, 365 p. KATO, O. R.; KATO, M. do S. A.; CARVALHO, C. J. R. de ; FIGUEIREDO, R. de O.; CAMARÃO, A. P.; SÁ, T. D. de A. Plantio direto na capoeira:uma alternativa com base no manejo de recursos naturais.In:WADT,Paulo Guilherme Salvador (Org.). Sistema plantio direto e controle de erosão no Estado do Acre.Rio Branco:Embrapa Acre, 2007. p. 79-111. KLEINMAN,P.J.A.;BRYANT,R.B.;PIMENTEL,D.Assesing ecological sustainability of slash-and-burning agriculture through soil fertility indicators. Agronony Journal, v. 88, p. 122-127, 1996.
    • 19Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. LITTELL, R. C.; MILIKEN, G. A.; STROUP, W. W.; WOLFINGER, R.; SCHABENBERBER, P. D. SAS System for Mixed Models. 2nd Edition. SAS Publishing.. 2006. 840 p. LOPES, A. S. Manual de fertilidade do solo. Trad. e adap. de Alfredo Scheid Lopes. São Paulo: ANDA/ POTAFOS, 1989. 153 p. MALAVOLTA, E. ABC da adubação. São Paulo: Agronômica Ceres, 1979. NOVAIS, F.R.; SMYTH, T.J. Fósforo em solo e planta em condições tropicais. Viçosa: UFV, 1999. 399 p. OLIVEIRA, C. D. de S. Percepção de agricultores familiares na adaptação do sistema de cultivo de corte e trituração. 2002. 140 f. Dissertação (Mestrado em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2002. RAIJ, B.VAN. Fertilidade do solo e adubação. Piracicaba: Agronômica Ceres, 1991. 343 p. RAVEN, P.H. Biologia vegetal. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007. 830 p. ROSSETTO, R.;TSAI, M. S.Transformações microbianas do fósforo. In: CARDOSO, E. J. B.;TSAI, M. S.; NEVES, M. C. P. Microbiologia do solo. Campinas: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 1992. p. 231-242. SERRA, A. B.; CARVALHO, C. J. R. de; SÁ, T. D. de A.; SOUSA, G. F. de. Estoque de serapilheira e matéria orgânica do solo em sistemas alternativos ao uso do fogo, desenvolvido por agricultores familiares na região Transamazônica E Xingu – Oeste do Pará 2007. Disponível em: <http://www.fvpp.org.br/fotos/programas/estoque.PDF>.Acesso em: 6 mar. 2011. SOMMER,R.Water and nutrient balance in deep soils under shifting cultivation with and without burning in the eastern Amazon. 240 f. PhD (Thesis)-Göttingen, Cuvillier, 2004. SZOTT, L. T.; PALM, C. A. Nutrients stocks in managed and natural humid tropical fallows. Plant and Soil, v. 186, p. 293-309, 1986. TIPPMANN, R.; DENICH, M.; VIELHAUER, K. Integration of geo and remote sensing data for the assessment and monitoring of changes in smallholder land-use systems at farer level.In:GERMAN-BRAZILIANWORKSHOP ON NEOTROPICAL ECOSYSTEMS –ACHIEVEMENTSAND PROSPECTS OF COOPERATIVE RESEACH.Abstracts... Hamburg, 2000. 297 p. TOMÉ JUNIOR, J.B. Manual para interpretação de análise de solo. Guaíba:Agropecuária, 1997. 247 p. ZARIN, D. J.; DUCEY, M.; TUCKER, J. M.; SALAS, W. A. Potential biomass accumulation in Amazonian regrowth forests. Ecosystems, Nova York, v.4, p. 658-668, 2001.
    • 21Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. FONTES DE CONTAMINAÇÃO MICROBIANA DA CASTANHA-DO-PARÁ Paulo de Oliveira Martins Junior* Vespasiano Yoji Kanzaki de Sousa** Amabel Fernandes Correia*** Élida Cleyse Gomes da Mata**** Luís Isamu Barros Kanzaki***** RESUMO A amêndoa da castanha-do-pará ou castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa) é excelente fonte de nutrientes, em especial proteínas e selênio, destacando-se como produto nobre de exportação.As exigências sanitárias do comércio internacional tem imposto prejuízos econômicos aos extrativistas, produtores e atravessadores do produto. Com especial ênfase, por seus efeitos cancerígenos, a aflatoxina, toxina produzida principalmente por Aspergiillus flavus, tem sido nestes últimos anos, investigada com intensidade nas amêndoas da castanha-do-pará e, a detecção desta toxina, tem restringido a exportação deste produto. No entanto, vários procedimentos vêm sendo aplicados no controle da contaminação fúngica dos seus produtos. No bojo dos trabalhos conduzidos para avaliar a contaminação microbiana, detectou-se, também, bactérias de diferentes famílias, permitindo identificar as fontes de contaminação por estes microorganismos e interações que possam ter algum significado biológico até então desconhecidos,tal como o papel dos metabólitos bacterianos no controle sobre os fungos aflatoxigênicos. Palavras-chave: Castanha-do-pará. Bertholletia excelsa. Bactérias. Fungos. Aflatoxina. * Farmacêutico-Bioquímico; Hospital da Universidade de Brasília. E-mail: paulo.olimart@gmail.com. ** Mestrando; Laboratório de Bioprospecção, Universidade de Brasília. E-mail: yksousa@hotmail.com. *** Mestre; LACEN-Distrito Federal, Brasília. E-mail: amabelfernandes@yahoo.com.br. **** Mestre; Laboratório de Bioprospecção, Universidade de Brasília. E-mail: elidamata@unb.br. **** Doutor em Ciências; Professor Titular de Microbiologia; Laboratório de Bioprospecção, Universidade de Brasília. E-mail: kanzaki@unb.br.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 22 SOURCE OF MICROBIAL CONTAMINATION IN THE BRAZILIAN NUT (CASTANHA-DO-PARÁ) ABSTRACT The brazilian nut (Bertholletia excelsa) is an excellent source of nutrients,specially proteins and selenium, remarcably recognized as a noble export product. The sanitary requirements of the international trade community have imposed economic losses to extractivists, producers and jobbers of the brazilian nut.With special emphasis,for their tumorigenic effects,the aflatoxins,toxins produced mainly by Aspergillus flavus, have been these last years, intensely investigated in brazilian nuts, and the detection of this toxin, has restricted the exportation of this product. Anyway, many procedures have been applied to the control of fungic contamination of brazilian nuts products. Besides the research works carried out to evaluate brazilian nut products contamination,we also detected bacteria of different families, allowing us to identify the sources of contamination by these microorganisms and microbial interactions of unknown significance at this moment,likewise the role played by bacterial metabolites on the control of aflatoxigenic fungi. Keywords: Brazilian Nut. Bertholletia Excelsa. Bacteria. Fungi.Aflatoxin.
    • 23Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO As amêndoas da castanha-do-pará ou castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa Humb. & Bonpl.: Lecythidaceae) além de seu valor econômico,principalmente ao ser exportada,é rica fontedenutrientes,emespecialdeproteínas,ácidos graxos mono e poliinsaturados e selênio (LEMIRE et al., 2010; PINTO RAMOS; BORA, 2005; STRUNZ et al., 2008).A atividade extrativista envolvida na exploração econômica destas amêndoas tem gerado inúmeros estudos científicos,sobremaneira relacionados a socioeconomia e ecologia (FILOCREÃO,2008;RIBEIROetal.,2009).Avariação do preço deste produto, com e sem casca, no mercado internacional afeta principalmente os atravessadores, que compram das famílias extrativistas na floresta a castanha e as exportam para auferirem lucros maiores. A organização dos extrativistas em cooperativas para a exploração racional da castanha tem, de certo modo, suavizado a exploração do homem da floresta que maior sacrifício despende para coletar os ouriços,quebrá- los e obter grandes quantidades da amêndoa para comercialização, sem antes, ter que atravessar igarapés, rios, cachoeiras e caminhar enormes distâncias na floresta sob as mais adversas condições (KANZAKI, 2009; RIBEIRO et al., 2009). Por outro lado, muito se discute em fóruns nacionais e internacionais a possível extinção dos castanhais (PERES et al., 2003), que na Amazônia, ultrapassando os limites da fronteira brasileira, formam manchas em terras altas,e ao certo,ainda, não há estudos os quais possam realmente elucidar o passado da origem dos castanhais,embora muito se discuta o papel dos nativos ameríndios na disseminação deste frondoso vegetal (ALMEIDA et al., 2009). No entanto, a realidade atual é inquietante,poisohomememseuafãdeenriquecer e acumular bens vem desmatando a floresta amazônica em ritmo acelerado,comprovadamente os castanhais não têm sido poupados.Portanto,de uma forma ou de outra, a Bertholletia excelsa, está ameaçada de extinção,pois todo o ecossistema em que se encontra vem sendo ameaçado: os roedores que enterram os ouriços favorecendo a germinação da semente, os insetos que polinizam as flores da castanheira para geração do fruto, e os nutrientes que permitem seu extraordinário e monumental porte,estãosetornandoescassos(KANZAKI,2009). Por fim, normas de segurança alimentar determinam as concentrações mínimas de aflatoxinas na amêndoa e outros produtos, para que possam ser consumidas no mercado externo e por consequência no próprio País (DINIZ et al., 2009; MARKLINDER et al., 2005; MELLO; CUSSEL, 2007;THUVANDER et al.,2001).Neste momento então, a demanda econômica impulsionou diversos segmentos acadêmicos a esmiuçar todas as possíveis características que permeiam o extrativismo da castanha-do-pará. Em nosso enfoque, estudamos a microbiota bacteriana do ouriço e da amêndoa com casca e sem casca, oriundos de castanheiras do estado do Amapá. 2 MICROBIOTA BACTERIANA DO OURIÇO E AMÊNDOAS DA CASTANHA-DO-PARÁ A presença de microorganismos no ouriço e amêndoas da castanha não necessariamente indica que o produto seja impróprio para o consumo. Micróbios são onipresentes e dentre estes,apenas pequena população está envolvida em processos patogênicos,além do que,a relação do parasita versus hospedeiro não é relação matemática, e sim, depende do estado do hospedeiro, do ambiente e da carga microbiana dentre múltiplos fatores.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 24 A castanha que chega ao mercado internacional passa por verdadeira maratona, desde o momento da coleta dos ouriços, da amontoa na floresta, da lavagem nos igarapés, ao transporte por hidrovias e estradas de chão, até finalmente ser beneficiada, e de novo ganhar as estradas e porões de navio e portos internacionais. Portanto,o tempo passado desde a coleta ao consumo, sugere, verdadeira competição entre os vários microorganismos presentes na castanha, como os que a seguir descrevemos sem, no entanto, nos determos nos fungos os quais podem,também,estar presentes. Conforme o Quadro 1, discriminamos as bactérias isoladas do ouriço, da amêndoa com casca e sem casca (MARTINS JUNIOR et al., 2009). Quadro 1 - Microorganismos isolados de ouriço e amêndoa com e sem casca da castanha-do-pará oriundas do estado do Amapá. Fonte: MARTINS JUNIOR et al. (2009). Apesar de que as bactérias encontradas no ouriço,Klebsiella pneumoniaie,Enterobacter cloacae, Serratia marcescens são ubíquas na natureza, também têm sido reportadas como agentes patogênicos em doenças no homem e animais, principalmente ao adquirirem resistência a antibióticos comumente empregados na rotina terapêutica. Relativo ao Enterococcus durans e Kocuria varians, mesma forma encontrados no ouriço, não são reportados na literatura como agentes envolvidos em processos patológicos, quer seja do homem ou de animais,ao contrário,postula- se aqui neste trabalho que estes microorganismos estejam envolvidos no processo de maturação do ouriço e da própria castanha (MARTINS JUNIOR et al., 2009). As amêndoas com casca apresentaram microbiota bacteriana distinta da encontrada no ouriço, ainda que haja microorganismos comuns. Os organismos encontrados na amêndoa com
    • 25Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. casca, mas não no ouriço foram as bactérias Lactococcus garviae, Moraxella spp., Pseudomonas aeruginosa, Escherichia coli e Citrobacter koseri,dos quais apenas o Lactococcus garviae não tem sido reportado como patógeno, contrariamente supõe-se que poderia estar, também, envolvido em processo de maturação da amêndoa, como aquele reportado em outros produtos (NAJJARI et al., 2008). Outros microorganismos têm sido isolados de processos patogênicos do homem enfermo e animais, principalmente aqueles apresentando debilidade do sistema imunológico e, quando multirresistentes a antibióticos (MARTINS JUNIOR et al., 2009). Das amêndoas descascadas foram isolados Enterococcus durans, Enterobacter cloacae, Serratia marcescens, Pseudomonas aeruginosa, Citrobacter koseri e Achromobacter spp., das quais, apenas, o Enterococcus durans não está reportado como patógeno no entanto, multirresistência a antibióticos foi detectada nesta espécie em outro estudo, o que poderia futuramente levar a ocorrência de surtos epidêmicos com cepas emergentes desta espécie, visto já ter sido isolada de carcaça de animais para consumo (VIGNAROLI et al., 2011). Os outros agentes têm sido relatados como patogênicos tanto ao homem como aos animais em condições já previamente descritas (ALMUZARA et al., 2010; MARTINS JUNIOR et al., 2009). Apesar de que, nosso trabalho deu mais ênfase sobre a microbiota bacteriana, é interessante ressaltar que, também, isolamos Aspergillus flavus,Aspergillus niger,Aspergillus spp. e Candida spp. dos quais o gênero Aspergillus tem representantes produtores de aflatoxinas, que dependendo de sua concentração nas amêndoas, podem levar a transtornos digestivos e, por efeito cumulativo, a longo tempo desencadear processos carcinogênicos tanto no homem como animais (DINIZ et al., 2009; MARTINS JUNIOR et al., 2009). 3 FONTES DE CONTAMINAÇÃO Para que se possa compreender a riqueza da microbiota da castanha faz-se necessário conhecer a realidade da floresta amazônica, das áreas dos castanhais. O clima, nestas áreas, é bastante úmido podendo atingir 80% de umidade e temperaturas de até 40o C e estação chuvosa abundante (SEGOVIA et al.,2011),condições estas as quais propiciam o cultivo natural de fungos e bactérias dentre outros organismos.Soma-se que os ouriços,ainda,nas árvores,são alvos de ataque de aves,roedores,prossímios e macacos,os quais podem deixar inóculos microbianos de fezes, regurgitações, saliva e mesmo do solo com suas patas, e também insetos, que contribuem para a riqueza da microbiota (ALMEIDA et al., 2009). Os ouriços amadurecidos caem sob a ação do vento e da chuva, aninhando-se entre a folhagem em decomposição no solo. A coleta destes não é imediata, pois durante esta época muitos se despencam, colocando em perigo qualquer vertebrado que esteja embaixo das castanheiras. Desta forma, pelo menos entre 1 a 2 meses os ouriços interagem com a rica biota da liteira, onde há pouca luminosidade (KANZAKI et al., 2009). Após a coleta dos ouriços, estes são de início amontoados para depois, então, serem quebrados e as castanhas removidas, juntadas e posteriormente acondicionadas em sacos ou
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 26 cestas de vegetais secos.Em geral os castanhais estão distantes dos centros de beneficiamento, muitas das vezes, o caboclo atravessa enormes distâncias a pé, seguindo o caminho em cursos d’água, em canoas a remo ou motorizada e, finalmente, chegam às estradas empoeiradas. Durante todo o trajeto as amêndoas são expostas aos mais variados inóculos,agravando- se, ainda mais, ao serem lavadas as castanhas e ensacadas molhadas (KANZAKI et al., 2009; RIBEIRO et al., 2009). As instalações físicas onde são beneficiadas as castanhas estão nos recônditos da floresta, portanto, ainda, não se pode esperar tratamento de primeiro mundo ao produto que deverão alcançar os mercados da Europa, Ásia e América do Norte. Embora o ouriço pareça ser hermeticamente encerrado protegendo as amêndoas, na realidade possui comunicações com seu interior, podendo-se dizer que a rica polpa branca comestível da castanha respira. O que na verdade postula-se é que microorganismos já anteriormente citados, possam metabolizar o rico substrato da amêndoa, liberando metabólitos secundários envolvidos no amadurecimento, não só da amêndoa, como do fruto como um todo, envolvendo desde o ouriço, contribuindo, também, ao seu amadurecimento. 3.1 ANATOMIA DA CASTANHA E A CONTAMINAÇÃO Este fato pode ser corroborado ao se encontrar, ainda, os ouriços verdes na árvore, distinto daqueles amadurecidos, no solo da floresta, apresentando seu tecido já bastante enrijecido.Ao vermos as castanhas,que parecem hermeticamente isoladas, no entanto, nosso trabalho demonstra que há passagem do inóculo microbiano para o interior delas. Tomando em conta o descrito sobre a coleta e transporte da castanha até os locais de beneficiamento,é muito fácil compreender a presença de microorganimos patogênicos na amêndoa (KANZAKI et al., 2009). 3.2 FORMAS DE CONTROLE DA CONTAMINAÇÃO MICROBIANA Obviamente é possível reduzir a carga microbiana da castanha, mas não eliminá-la totalmente visto que o processo de coleta e transporte compõe a cultura do caboclo amazônida. A lavagem nos igarapés tem por objetivo selecionar aquelas de boa qualidade, visto que as castanhas estragadas ou como se diz no linguajar amazônida, as “chochas”, são mais leves e flutuam na água, facilitando sua separação das boas, que são mais densas e pesadas. Práticas podem ser exercitadas como: a secagem das amêndoas, a não lavagem em natureza, diminuir o tempo em que elas são amontoadas na floresta e, melhoria nos transportes tanto nas hidrovias como rodovias. Os locais de beneficiamento,também,podem ser melhorados quanto às condições de higiene e modernização dos aparelhos de processamento da castanha. Apesar das cooperativas de extrativismo na Amazônia terem dado forte impulso ao desenvolvimento socioeconômico local, protegendo o amazônida coletor, orientando-o, instruindo-o e fazendo-o conhecer seus direitos e,também,deveres.Isto ainda é insuficiente,para superar todos os problemas que cercam a atividade extrativista, em particular da castanha. Possivelmente, a maior participação das entidades governamentais, incluindo o Instituto
    • 27Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA),Instituições Federais de Ensino, Secretarias de Ciência e Tecnologia, Embrapa e Organizações Não Governamentais (ONGs) com propósitos sérios, poderiam colaborar decisivamente na melhoria das condições tanto das atividades inerentes do extrativismo da castanha, como também no manejo e conservação dos castanhais como proposto (ALMEIDA et al., 2009). Por outro lado, o tempo, que os ouriços e posteriormente as castanhas já amontoados aguardam para serem quebrados, poderia ser bastante reduzido, mas para que essas ações sejam modificadas, torna-se necessária a interação de órgãos governamentais especializados na orientação do extrativista. Prévio ao transporte da castanha, a secagem poderia ocorrer na própria floresta, apesar de que a umidade é alta e o alcance dos raios solares é dificultado pela densidade da mata. Desta forma, poderiam ser utilizados secadores movidos a fontes alternativas de energia, gerado pelos próprios resíduos do beneficiamento da castanha como cascas e ouriços,como vem sendo discutido em atual projeto coordenado pela Embrapa/Acre (comunicação pessoal). O transporte da castanha nas hidrovias poderia ser melhorado, utilizando-se sacos impermeáveis para impedir que os carregamentos fiquem molhados. Quanto às rodovias por onde se transportam as castanhas temos como exemplo, a que comunica Macapá a Laranjal do Jari, a qual no mapa está asfaltada há muitos anos, mas na realidade se sabe que jamais estas estradas de chão, bastante acidentadas e enlameadas na época das chuvas,tiveram o gosto de conhecer o sabor do piche e asfalto, portanto a seriedade na execução de obras públicas em muito contribuiria para minimizar os problemas enfrentados,particularmente,pelos castanheiros, embora se saiba que a corrupção no Brasil é endêmica e de tempos em tempos atinge proporções epidêmicas. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS O semeio de lavados de ouriço e das amêndoas, com e sem casca, da castanha-do- pará, em nutrientes que favoreceram o crescimento e colonização de microroganismos presentes nas estruturas supracitadas,associada às informações e observações in loco, na floresta, nas vias de transporte da castanha, em igarapés e estradas de chão, permitiu elencar as distintas fontes de contaminação do produto sob enfoque,como antes amplamente discutido, assim como recomendações de melhor gerenciamento na coleta dos ouriços na floresta, obtenção das amêndoas após a quebra do ouriço e transporte, de forma a minimizar os fatores bióticos e abióticos envolvidos na contaminação da castanha. Nossas investigações atuais, embasadas nos microorganismos isolados e extensão da pesquisa a outras áreas de castanhais da região amazônica, breve nos esclarecerá acerca das interações biológicas entre os diferentes microorganismos que colonizam o ouriço e a amêndoa em atividades sinérgicas ou inibitórias com reflexos na produção de aflatoxina por fungos contaminantes. Em vista do exposto, concluímos que a exportação da castanha-do-pará ou castanha- do-brasil in natura é enorme desperdício para o extrativista, além do que a comunidade científica internacional tem relatado episódios alérgicos na Europa pelo consumo da castanha
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 28 (GUO et al., 2007; MORENO; CLEMENTE, 2008), e recentemente reportaram a associação do desenvolvimento de diabete tipo 2 à alta ingestão de selênio (STRANGES et al., 2010), embora naAmazônia, estes efeitos não tenham sido documentados, ao contrário, postula-se o efeito protetor do selênio frente a intoxicação pelo mercúrio utilizado na mineração do ouro (MELNICK et al., 2010). Os trabalhos de investigação científica, atualmente, em execução mostram que agregar valor aos derivados da castanha é muitíssimo mais rentáveis que comercializá-la in natura. Da amêndoa se extrai o óleo, riquíssima fonte de nutrientes, além de aplicações medicinais e cosméticas, podendo ser comercializado como nutracêutico.Do bagaço obtido após a extração do óleo há muitos produtos que podem ser gerados, como farinhas de alto teor protéico, biscoitos,recheios de doce,e para muitos outros fins culinários. Todos estes derivados são mais facilmente manipulados quanto a mantê-los isentos de microorganismos, pelo próprio processo de elaboração. Estudos recentes em que participamos conjuntamente com a Embrapa e Instituições Federais de Ensino, têm-se buscado aproveitar os resíduos do processamento da castanha, como ouriços e cascas, na produção de carvão vegetal. É proposta nossa, também, produzir substratos das cascas para preparo de meio de cultivo para microorganismos comumente isolados da castanha. Há muitas propostas de caráter biotecnológico que se exitosas, poderiam abrir um leque de opções econômicas ao amazônida, permitindo a sustentabilidade em pleno exercício no coração da floresta. AGRADECIMENTOS Ao Banco da Amazônia por financiar a realização de nossos estudos e pesquisas sobre o tema da castanha. Dedicamos ao grande cientista paraense Samuel Almeida, que nos deixou,e ao Prof.Carlos ErnaniAlexandre da Silva o qual juntamente com sua companheira Profa . Safira Paixão deram os primeiros passos para a realização deste projeto.
    • 29Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. REFERÊNCIAS ALMEIDA, S. S.; SOUSA, D. G.; DO VALE, N. C. História natural, ecologia e técnicas de manejo em castanhais nativos do sul doAmapá.In:KANZAKI,Luis Isamu Barros (Org.). Desenvolvimento sustentável em áreas de extrativismo da castanha-do-brasil no sul do Amapá. Belém: Banco da Amazônia, 2009. p. 11-48. ALMUZARA,M.; LIMANSKY,A.;BALLERINI,V.;GALANTERNIK, L.; FAMIGLIETTI,A.;VAY,C. In vitro susceptibility of achromobacter spp. isolates: comparison of disk diffusion, Etest and agar dilution methods. International Journal of Antimicrobial Agents, Amsterdam, v.35, n.1, p. 68-71, 2010. DINIZ, S. P. S. S.; OLIVEIRA, R. R.; ROMERO, A. Fungos e micotoxinas. In: KANZAKI, Luis Isamu Barros (Org.). Desenvolvimento sustentável em áreas de extrativismo da castanha-do-brasil no sul doAmapá. Belém: Banco da Amazônia, 2009. p. 146-179. FILOCREÃO, A. S. M. A castanha-do-pará no desenvolvimento sustentável da Amazônia. In: SEMINÁRIO INTERNACIONALAMAZÔNIA E FRONTEIRAS DO CONHECIMENTO,2008,Belém.[Anais...] Belém:UFPA,Naea, 2008. GUO,F.;JIN,T.;HOWARD,A.;ZHANG,Y-Z.Purification,crystallization and initial crystallographic characterization of brazil-nut allergen Ber e 2. Acta Crystallographica Section F: Structural Biology and Crystallization Communication, Chester, v. 63, n. 11, p. 976–979, 2007. KANZAKI, L. I. B. (Org.). Desenvolvimento sustentável em áreas de extrativismo da castanha-do- brasil no sul doAmapá:ecologia,socioeconomia,microbiologia e físico-química.Belém:Banco daAmazônia, 2009. LEMIRE, M.; FILLION, M.; BARBOSA, F. JR., GUIMARÃES, J. R.; MERGLER, D. Elevated levels of selenium in the typical diet ofAmazonian riverside populations. The Science of the Total Environment,Amsterdam; New York, v.408, n. 19, p. 4076-4084, 2010. MARKLINDER, I.; LINDBLAD, M.; GIDLUND, A.; OLSEN, M. Consumers’ ability to discriminate aflatoxin- contaminated Brazil nuts. Food Additives and Contaminants, v. 22, n.1, p.56-64, 2005. MARTINS JUNIOR, P. O.; CORREIA,A. F.; KANZAKI, L. I. B. Contaminantes microbianos da castanha-do-pará. In: KANZAKI, Luís Isamu Barros (Org.). Desenvolvimento sustentável em áreas de extrativismo da castanha-do-brasil no sul do Amapá. Belém: Banco da Amazônia, 2009. p. 146-179. MELLO, F. R. de; SCUSSEL, V. M. Characteristics of in-shell Brazil nuts and their relationship to aflatoxin contamination: criteria for sorting. Journal of Agricultural and Food Chemistry,Washington, DC, v. 55, n.22, p.9305-9310, 2007. MELNICK, J. G.;YURKERWICH, K; PARKIN G. On the chalcogenophilicity of mercury: evidence for a strong Hg– Se Bond in [TmBut ]HgSePh and its relevance to the toxicity of mercury. Journal of American Chemical Society, v. 132, n.2, p. 647–655, 2010. MORENO, F, J.;CLEMENTE,A. 2SAlbumin storage proteins: what makes them food allergens? Open Biochem Journal, v. 2, p. 16–28, 2008.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 30 NAJJARI, A.; OUZARI, H.; BOUDABOUS, A.; ZAGOREC, M. Method for reliable isolation of Lactobacillus sakei strains originating fromTunisian seafood and meat products.International Journal of Food Microbiology, Philadelphia, v. 121, n. 3, p. 342-351, 2008. PERES, C. A.; BAIDER, C.; ZUIDEMA, P. A.; WADT, L. H.; KAINER, K. A.; GOMES-SILVA, D. A.; SALOMÃO, R. P.; SIMÕES, L. L.; FRANCIOSI, E. R.; CORNEJO, VALVERDE, F.; GRIBEL, R.; SHEPARD, G. H. JR.; KANASHIRO, M.; COVENTRY, P.;YU, D. W.; WATKINSON, A. R.; FRECKLETON, R. P. Demographic threats to the sustainability of Brazil nut exploitation. Science, New York, v. 302, n. 5653, p. 2112- 2114, 2003. PINTO RAMOS, C. M.; BORA, P. S. Functionality of succinylated Brazil nut (Bertholletia excelsa HBK) kernel globulin. Plant Foods for Human Nutrition, v. 60, n.1, p.1-6, 2005. RIBEIRO,A. C.; FILOCREÃO,A. S. M. ; CAMPOS, I.A socioeconomia da castanha-do-pará no Estado do Amapá. In: KANZAKI, Luis Isamu Barros (Org.). Desenvolvimento sustentável em áreas de extrativismo da castanha-do-brasil no sul do Amapá. Belém: Banco da Amazônia, 2009. p. 49 – 117. SEGOVIA, J. F. O.; OLIVEIRA L O ; GONÇALVES M C A ; RESCK, I. S.; C A M SILVA; SILVEIRA D; GAVRILOV A V; GAVRILOVA L A KANZAKI, L. I. B. Botanical characterization, geographical distribution and phytochemistry analysis of Manilkara huberi (Ducke) Stanhl autochtonous in Amapá State, Brazil. Proceedings of the National Academy of Sciences of Belarus/Series of Biological Sciences, Belarus, v. 2, p. 30-40, 2011. STRANGES,S.;SIERI S.;VINCETI.; M.;GRIONI,S.;GUALLAR, E.;LACLAUSTRA,M.;MUTI,P.;BERRINO,F.;KROGH, V. A prospective study of dietary selenium intake and risk of type 2 diabetes. BMC Public Health, v. 10, p. 564, 2010. STRUNZ, C. C.; OLIVEIRA,T.V.;VINAGRE, J. C.; LIMA, A,; COZZOLINO, S.; MARANHÃO, R. C. Brazil nut ingestion increased plasma selenium but had minimal effects on lipids, apolipoproteins, and high-density lipoprotein function in human subjects. Nutrition Research, v. 28, n. 3, p.151-155, 2008. THUVANDER,A.; MÖLLER,T.; BARBIERI,H. E.; JANSSON,A.; SALOMONSSON,A. C.; OLSEN,M.Dietary intake of some important mycotoxins by the Swedish population. Food Additives and Contaminants, v.18, n.8, p.696-706, 2001. VIGNAROLI, C.; ZANDRI, G.; AQUILANTI, L.; PASQUAROLI, S.; BIAVASCO, F. Multidrug-resistant enterococci in animal meat and faeces and co-transfer of resistance from an Enterococcus durans to a human Enterococcus faecium. Current Microbiology, v. 62, n. 5, p.1438- 1447, 2011.
    • 31Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. GERMINAÇÃO E EMERGÊNCIA DE MILHO HÍBRIDO SOB DOSES DE ESTERCO BOVINO Jhansley Ferreira da Mata* Joseanny Cardoso da Silva Pereira** Jaíza Francisca Ribeiro Chagas*** Leciany Márcia Vieira**** RESUMO Objetiva verificar a influência de níveis de adubação de esterco bovino sobre a germinação e emergência de plantas de milho. Utilizou-se o milho híbrido simples DAS655. O delineamento experimental empregado foi em blocos casualizados, com seis repetições e oito tratamentos (0, 10, 20, 30, 40, 50, 60 t.ha-1 de adubo orgânico e uma adubação química). As doses acima de 20 t ha-1 favoreceram um melhor desenvolvimento inicial da plântula.Há correlação positiva entre germinação e velocidade de emergência conforme as doses aplicadas. As doses menores resultaram em uma menor germinação e consequentemente uma baixa velocidade de emergência.A adubação orgânica acima de 30 t ha-1 e química foi a que obteve melhor resposta para o crescimento da planta.As doses de adubação orgânica maiores que 30 t ha-1 podem ser viáveis para a substituição da adubação química. Palavras-chave:Adubo Orgânico. Crescimento de plantas.Velocidade de Emergência. Zea mays L. * Engenheiro Agrônomo; MSc; Professor da UEMG - Frutal. E-mail: jhansley@agronomo.eng.br. ** Engenheira Agrônoma; Doutoranda em Agronomia - UFG. E-mail: josycardoso@yahoo.com.br. *** Engenheira Agrônoma; MSc. em Produção Vegetal - UFT. E-mail: jafra@uft.edu.br. **** Engenheira Agrônoma; Mestranda em Produção Vegetal - UFT. E-mail: lecianymvieira@hotmail.com.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 32 GERMINATION AND EMERGENCE OF HYBRID CORN UNDER DOSE CATTLE MANURE ABSTRACT It was aimed at to verify the influence of levels of manuring of bovine manure on the germination and emergency of corn plants.The simple hybrid corn was used DAS655.The employed experimental delineamento was in blocks casualizados, with six repetitions and eight treatments (0, 10, 20, 30, 40, 50, 60 t ha-1 of organic fertilizer and a chemical manuring).The doses above 20 t ha-1 favored a better initial development of the plantule.There is positive correlation between germination and speed of in accordance emergency the applied doses. The smaller doses resulted in a smaller germination and consequently a low emergency speed.The organic manuring above 30 t ha-1 and chemistry is advisable for the growth of the plant.The larger doses of organic manuring than 30 t ha-1 they can be viable for the substitution of the chemical manuring. Keywords: Organic Fertilizer. Plants Growth. Emergency Speed. Zea mays L.
    • 33Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO O milho (Zea mays) é uma cultura anual que tem sido muito utilizada como subsistência no Brasil. Atualmente o País é um dos maiores produtores deste grão no mundo, o qual é produzido em grande escala, embora a produção não seja suficiente para atender a demanda do mercado interno. Na Região Norte o cultivo do milho tem aumentado com o passar dos anos (IBGE, 2010). No entanto, a baixa produtividade está ligada principalmente às variações climáticas, situação típica do estado doTocantins,onde muitos fatores afetam o desenvolvimento do milho, como a adubação nitrogenada, espaçamento, variedade e temperatura. A associação adequada destes fatores pode proporcionar rendimentos favoráveis à cultura. O desenvolvimento vegetativo inicial do milho compreende na semeadura, germinação e emergência. O uso de sementes de alto vigor e percentual de emergência, plantada com densidade e profundidade adequada, resultará em um alto estande de plântulas. A germinação das sementes é composta por uma série de eventos morfológicos que resulta na transformação do embrião em uma plântula. A qualidade delas implica em uma melhor produção e qualidade das plantas. O efeito do nível de nitrogênio no solo, também, é um fator relevante para a cultura do milho, pois para obter altas produtividades precisa-se otimizar as condições de desenvolvimento das plantas, controlando os fatores limitantes, como o conteúdo de água (MASCARENHAS, 2008). As recomendações de adubação enfatizam o efeito sobre a produtividade, não correlacionando com a qualidade das sementes (TOLEDO; MARCOS FILHO, 1977). Entretanto, a produção e qualidade das sementes são influenciadas pela disponibilidade de nutrientes do solo, por afetar a formação do embrião e dos órgãos de reserva, assim como a composição química e, consequentemente, o metabolismo e o vigor. (CARVALHO; NAKAGAWA, 2000). O esterco bovino é um dos resíduos orgânicos com maior potencial de uso como fertilizante, principalmente por pequenos agricultores. Porém, pouco se conhece a respeito das quantidades a se empregar, que permitam a obtenção de rendimentos satisfatórios na produção e melhoria na qualidade das sementes (ALVES et al., 2005), já que vários fatores afetam a qualidade fisiológica das sementes, dentre eles, o manejo da adubação. O manejo eficiente de estercos e de resíduos orgânicos para a adubação de cultivos agrícolas requer o conhecimento de dinâmica de mineralização de nutrientes, visando otimizar a sincronização da disponibilidade de nutrientes no solo com a demanda pelas culturas, evitando a imobilização ou a rápida mineralização de nutrientes durante os períodos de alta ou baixa demanda (HANDAYANTO et al., 1997; MYERS et al., 1994). Diante disso, objetivou-se com este trabalho verificar a influência de diferentes níveis da adubação de esterco bovino sobre a germinação e emergência na cultura do milho.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 34 Fonte: INMET/UFT. O experimento foi instalado em 6 de março de 2009, com o plantio de milho híbrido simples DAS655,sobre um LatossoloVermelho distrófico, com as seguintes características: pH CaCl2 : 5,0; Ca: 2,5 cmolc dm-3 ; Mg: 0,7 cmolc dm-3 ; Al: 0,0 cmolc dm-3 ; Al+H: 3,3 cmolc dm-3 ; P (mmolc /L): 32,5 mg dm-3 ; P (resina): 41,0 mg dm-3 ; K: 85,0 mg dm-3 ; Cu: 0,7 mg dm-3 ; Zn: 5,8 mg dm-3 ; Fe: 490,0 mg dm-3 ; Mn: 44,6 mg dm-3 ; CTC: 6,72 cmolc dm-3 ; V: 50,96 %; M.O: 0,9 %. O delineamento experimental utilizado foi em blocos casualizados (DBC), com seis repetições. Cada um deles composto por oito tratamentos, sendo os seguintes níveis de adubação: 0, 10, 20, 30, 40, 50, 60 t/ha-1 de adubo orgânico (esterco bovino curtido) com as seguintes características: pH (CaCl2 ) - 6,9; Matéria Orgânica – 7,3% ; Cálcio – 4,0 cmolc dm-3 ; Magnésio – 2,3 cmolc dm-3 ;Alumínio – 0,0 cmolc dm-3 ; Hidrogênio + Alumínio – 0,4 cmolc dm-3 ; Potássio – 103,1 mg L-1 ; Fósforo – 683,0 mg L-1 , Sódio – 33,8 mg L-1 e adubação química com 500 kg ha-1 de 4-14-8 + Zn. O tratamento foi composto por uma linha de dois metros com dez sementes por metro linear e espaçamento entre tratamentos de um metro. Para análise de germinação e velocidade de crescimento, foi avaliado diariamente, do quarto ao décimo Dia Após o Plantio (DAP), o número de plantas emergidas e altura de delas por parcela. Os dados foram submetidos à análise de variânciapelotesteTeasmédiasdascaracterísticas avaliadas submetidas à análise de regressão. Os 2 MATERIAIS E MÉTODOS O trabalho foi conduzido no campo experimental da Universidade Federal do Tocantins (UFT) – Campus Universitário de Gurupi,região sudeste doTocantins,em um clima úmido com moderada deficiência hídrica, segundo Köppen, com temperatura média anual de 29,5º C e precipitação média anual de 1.804 mm como mostrado Gráfico 1. Gráfico 1 - Precipitação média dos meses de março a maio de 2009 no Campus Universitário de Gurupi, região sudoeste do Tocantins.
    • 35Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 3 RESULTADOS E DISCUSSÕES Conforme descrito nas Tabelas 1 e 2 de ajustes de equações,os níveis de significância dos valores de F, relativos aos parâmetros associados às variáveis para a cultura do milho aos dias após o plantio, foram significativos (0,05 > p < 0,001) nas diferentes doses de adubação orgânica e para a adubação química, mostrando o efeito nas sementes e plântulas de milho. Os valores dos coeficientes de determinação (R2 ) indicam, na generalidade das adubações,uma boa capacidade de estimação da variação dos parâmetros das equações estimadas, relativamente em cada uma das doses da adubação orgânica e química. Atendendo à probabilidade do teste F, todas as equações podem ser usadas para estimar os parâmetros analisados. O número de plantas emergidas de milho em função dos dias após o plantio evidenciou uma resposta polinomial de segundo grau, para as diferentes doses de adubação aplicada, sendo, significativo (0,05 > p  0,001) e com coeficientes de determinação (R2 > 0,97) (Gráfico 2). Comparando as doses aplicadas inicialmente observa-se que,os maiores números de plantas emergidas foram obtidos com a utilização das doses de 30, 40, 50 e 60 t ha-1 . Já aos 8 DAE os maiores números de plantas emergidas observados nas doses a partir de 20 t ha-1 e química (Gráfico 2). ajustes dos modelos foram realizados com base na sua significância e o coeficiente de determinação (R2 ), com base nas recomendações de Venegas e Alvarez (2003). A análise dos resultados foi submetida à análise regressão utilizando o programa estatístico Microcal Origin 6.1. Gráfico 2 - Germinação diária de milho híbrido sob níveis de adubação orgânica e química. Fonte: dados da pesquisa.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 36 Observando o Gráfico 2,as doses 0,10,20 t ha-1 e adubação química apresentaram, inicialmente, menor número de plantas emergidas. No entanto, ao se estabelecer à emergência, os tratamentos de 20 t ha-1 e químico obtiveram número de plantas adequado, não se diferenciando dos demais tratamentos. Já com relação às doses 0 e 10 t ha-1 , verifica-se menores emergência entre os tratamentos aos 8 DAE. Segundo Larson (1964), a baixa compressão do solo ao redor das sementes que não recebem adubação orgânica, interfere na germinação e no desenvolvimento inicial do milho, em virtude da reduzida taxa de transmissão de água e nutrientes pela interface solo/semente/raiz. Os coeficientes lineares (b1 ) das equações ajustadas na Tabela 1 indicam que a variação de um dia no ciclo de desenvolvimento da cultura promove um aumento no número de plântulas de milho emergidas de 9,53; 8,56; 6,79; 4,24; 3,69; 3,92; 2,84; 14,89 para as doses de 0, 10, 20, 30, 40, 50, 60 t ha-1 e química, respectivamente. Tabela 1 - Equações de regressão e respectivos coeficientes de determinação, ajustadas a Número de Planta de milho emergidas em função do tempo de crescimento, quando adubadas em diferentes níveis de adubação orgânica (0, 10, 20, 30, 40, 50 e 60 t ha-1 ) e adubação química 500 t ha-1 de 4-14-8 + Zn (Testemunha). Gurupi-TO, safra 2009/2010. *(0,05 > p  0,01) significativo; **(0,01 > p  0,001) muito significativo. Fonte: dados da pesquisa. No número de plântulas emergidas verifica-se que as menores doses de adubação orgânica e a mineral apresentaram maiores incrementos, isto se deve ao atraso inicial na emergência das plântulas observando-se no intercepto (b0 ) menores valores (Tabela 1), provavelmente está relacionado ao período de baixa precipitação após a semeadura, pois maiores doses de adubação orgânica teriam condições de reter maior quantidade de água, favorecendo,assim,um maior número de plantas emergidas, o que, todavia, não ocorreu. A água é o fator que mais influencia o processo de germinação, sendo que, quando as sementes são embebidas, ocorre a reidratação dos tecidos e,consequentemente,a intensificação da respiração e de todas as outras atividades
    • 37Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. metabólicas, que resultam com o fornecimento de energia e nutrientes necessários para a retomada de crescimento por parte do eixo embrionário (INSTITUTO DE PESQUISAS E ESTUDOS FLORESTAIS, 1998), tendo assim, condições adequadas para a germinação da semente e emergência da plântula. A altura de plantas de milho em função da adubação evidenciou uma resposta linear crescente com correlação positiva, sendo, muito altamente significativo (p < 0,001), constatado pela semelhança do coeficiente de regressão de ambas as equações, com elevados coeficientes de determinação (R2 ) (Gráfico 3 e Tabela 2). Inicialmente a resposta das plantas à adubação mineral mostrou os menores valores, porém aos 11 DAP observou-se um maior incremento (2,4 cm dia-1 ), apresentando maior altura quando comparado aos demais tratamentos.Isso pode ser explicado pelo estresse hídrico dias após o plantio (Gráfico 1), o que desfavoreceu a solubilidade do adubo,deixando- o indisponível para a planta, resultando assim em um menor crescimento inicial, corroborando com Gonçalves Júnior et al.(2010),que ao avaliar diferentes doses de adubação química em planta de soja verificaram que os nutrientes, possivelmente, estavam indisponibilizados para estas pela falta de umidade no solo. Gráfico 3 - Altura diária de plantas de milho híbrido sob níveis de adubação orgânica e química. Fonte: dados da pesquisa. Após a precipitação, o adubo foi disponibilizado às plantas, que por sua vez aumentaram o incremento de crescimento, constatando-se, assim, maiores alturas quando comparadas com as aquelas crescidas com esterco. Segundo Lira et al. (1989) a adubação orgânica no sulco de plantio favorece um crescimento inicial de plantas mais acelerado, reduzindo a suscetibilidade ao estresse hídrico, dada à capacidade que o adubo tem de armazenar e manter água no solo. No Gráfico 3, a partir dos 8 DAE observaram-se menores alturas de plantas de
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 38 milho nas menores dosagens de adubação orgânica (0, 10 e 20 t ha-1 ). Já para os demais tratamentos notaram-se maiores valores e semelhança com a adubação química. Resultados semelhantes aos encontrados por Freitas e Sousa (2009), que observaram menores alturas de plantas de sorgo nas menores doses de adubação orgânica. Os coeficientes lineares (b1 ) das equações ajustadas indicam que na variação de um dia no ciclo de desenvolvimento da cultura tem-se um acréscimo na altura de planta de milho de 1,74; 1,85; 1,89; 2,08; 2,09; 2,09; 2,21 e 2,40 cm para asdosesde0,10,20,30,40,50,60tha-1 equímica, respectivamente (Tabela 2). As maiores doses de adubação orgânica e a mineral apresentaram maiores incrementos no crescimento da planta. Tabela 2 - Equações de regressão e respectivos coeficientes de determinação, ajustadas a Altura da planta de milho em função do tempo de crescimento, quando adubadas em diferentes níveis de adubação orgânica (0,10,20,30,40,50 e 60 t ha-1 ) e adubação química 500 t ha-1 de 4-14-8 + Zn (Testemunha). Gurupi-TO, safra 2009/2010. Fonte: dados da pesquisa. Nota: ***(p < 0,001) muito altamente significativo. Analisando a emergência com a velocidade de crescimento inicial de plântula, nota-se que ocorreu uma correlação positiva entre os tratamentos,de forma que as doses 0,10 e 20 t ha- 1 apresentaram menores alturas de plantas em decorrência do atraso da emergência das plântulas. 4 CONCLUSÃO As doses acima de 20 t ha-1 e química contribuíram para um maior número de plantas de milho emergidas. Há correlação positiva entre emergência e velocidade de crescimento inicial das plântulas de acordo com as doses aplicadas; as doses menores resultaram em uma menor germinação e consequentemente uma baixa velocidade de emergência. A adubação orgânica acima de 30 t ha-1 foi a que obteve melhor resposta para o crescimento da planta.
    • 39Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. REFERÊNCIAS ALVES, E. U.; OLIVEIRA, A. P.; BRUNO, R. L. A.; SADER, R.; ALVES, A. U. Rendimento e qualidade fisiológica de sementes de coentro cultivado com adubação orgânica e mineral. Revista Brasileira de Sementes, Jaboticaba; v. 27, n. 1, p.132-137, 2005. CARVALHO, N.M.; NAKAGAWA,J. Sementes: ciência,tecnologia e produção. 4. ed.Jaboticabal: FUNEP, 2000. 588 p. FORNASIERI FILHO, D. A cultura do milho. São Paulo: FUNEP, 1992. FREITAS, G.A.; SOUZA, C. R. Desenvolvimento de plântulas de sorgo cultivadas sob elevadas concentrações de adubação orgânica no sulco de plantio. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE AGROECOLOGIA, 6.; CONGRESSO LATINO AMERICANO DE AGROECOLOGIA, 2., 2009, Curitiba. Anais..., Brasília, DF:ABA, 2009. p 702-706. GONÇALVES JÚNIOR, A. C.; NACKE, H.; MARENGONI, N. G.; CARVALHO, E. A.; COELHO, G. F. Produtividade e componentes de produção da soja adubada com diferentes doses de fósforo, potássio e zinco. Ciência e agrotecnologia, Lavras, v.34, n.3, maio/jun. 2010. HANDAYANTO, E.; GILLER, K. E.; CADISCH, G. Regulating N release from legume tree prunings by mixing residues of different quality. Soil Bilologi end Biochemistry, Amsterdam, v.29, p.1417-1426, 1997. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. IBGE estima safra. Disponível em: < h t p p : / / w w w. i b g e. g o v. b r / h o m e / p r e s i d ê n c i a / n o t i c i a s / n o t i c i a _ v i s u a l i z a . p h p ? i d . Noticia=1605&id_pagina=1&titulo=Em-abril,-IBGE-preve-safra-recorde-para-2010>.Acesso em:10 abr.2010. INSTITUTO DE PESQUISAS E ESTUDOS FLORESTAIS. Fatores externos (ambientais) que influenciam na germinação de sementes. 1998. Disponível em: <http://www.ipef.br/tectecsementes/germinação.asp>. Acesso em: 2 jul. 2010. LARSON, W. E. Soil parameters for evaluating tillage needs and operations. Soil Science American Proceedings, v. 28, p. 118-122, 1964. LIRA, M. de A. et al. Estudos preliminares de resistência à seca em genótipos de sorgo forrageiro (Sorghum bicolor (L.) Moench). Revista da Sociedade Brasileira de Zootecnia, Viçosa, v. 18, n. 1, p. 1-12, 1989. MASCARENHAS, A. D. Diferentes espaçamentos e níveis de nitrogênio sobre a germinação de milho pipoca. 2008. Disponível em: <http://www.artigonal.com/ensino-superior-artigos/diferentes- espacamentos-e-niveis-de-nitrogenio-sobre-a-germinacao-demilho-pipoca-629830.html> Acesso em: 5 nov. 2008. MENEZES,C.H.S. G.Potencial hídrico induzido por polietilenoglicol-6000 na qualidade fisiológica de sementes de algodão. 2007. 97 f. Dissertação (Mestrado em Agronomia) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2007. MYERS, R. J. K.; PALM, C.A.; CUEVAS, E.; GUNATILLEKE, I. U. N.; BROSSARD, M.The synchronization of nutrient mineralization and plant nutrient demand.In:WOOMER, P. L.; SWIFT, M.J. The biological management of tropical soil fertility. New York: John Wiley and Sons, 1994. cap. 5, p.81-116.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 40 TOLEDO, F.R.; MARCOS FILHO, J. Manual das sementes: tecnologia da produção. São Paulo: Agronômica Ceres, 1977. 224 p. VENEGAS,V.H.A.;ALVAREZ, G.A.M.Apresentação de equações de regressão e suas interpretações.Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 28, n. 3, p. 28-32, 2003. Disponível em: <http://sbcs.solos.ufv.br/ solos/boletins/28-3%20artigo%20equacoes%20de%2Oregressao.pdf>.Acesso em: 17 jun. 2010.
    • 41Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. PRODUTIVIDADE DE FORRAGEM E CARACTERÍSTICAS MORFOGÊNICAS E ESTRUTURAIS DE Axonopus aureus NOS CERRADOS DE RORAIMA Newton de Lucena Costa* Vicente Gianluppi** Anibal de Moraes*** Amaury Burlamaqui Bendahan**** RESUMO O efeito da idade de rebrota (21, 28, 35, 42, 49, 56, 63 e 70 dias) sobre a produção de forragem e características morfogênicas e estruturais de Axonopus aureus, durante o período chuvoso,foi avaliado em condições de campo.O delineamento experimental foi inteiramente casualizado com três repetições. As avaliações foram realizadas no período de junho a setembro de 2009. O aumento da idade de rebrota resultou em maiores rendimentos de forragem, taxa absoluta de crescimento, número de perfilhos/planta,número de folhas/perfilho,tamanho médio de folhas,área foliar e taxas de expansão e senescência foliar.As relações entre idades de rebrota e o rendimento de matéria seca (MS) e a taxa absoluta de crescimento da gramínea foram ajustadas ao modelo quadrático de regressão, sendo os máximos valores registrados aos 63,9 e 48,7 dias de rebrota,respectivamente.As taxas de crescimento da cultura, taxa de crescimento relativo, taxas de aparecimento de perfilhos e de folhas foram inversamente proporcionais às idades das plantas.Visando conciliar produtividade de forragem com a maximização das características morfogênicas e estruturais da gramínea, o período de utilização mais adequado de suas pastagens situa-se entre 49 e 56 dias de rebrota. Palavras-chave: Planta-Idade. Planta-Folha. Matéria Seca. Perfilhamento.Taxa de Crescimento. * Engenheiro Agrônomo; M.Sc., Embrapa Roraima; Doutorando em Agronomia/Produção Vegetal (UFPR). E:mail: newton@cpafrr.embrapa.br. ** Engenheiro Agrônomo; M.Sc., Embrapa Roraima. E-mail: vicente@cpafrr.embrapa.br. *** Engenheiro Agrônomo; D.Sc., Professor Associado II, UFPR. E-mail: anibalm@ufpr.br. **** Engenheiro Agrônomo; M.Sc., Embrapa Roraima. E-mail: amaury@cpafrr.embrapa.br.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 42 FORAGE YIELD AND MORPHOGENETICS AND STRUCTURAL CHARACTERISTICS OF Axonopus aureus IN RORAIMAS´S SAVANNAS ABSTRACT The effects of cutting plant age (21, 28,35,42, 49,56, 63 and 70 days) on dry matter (DM) yield, and morphogenetic and structural characteristics of Axonopus aureus, during rainy season, were evaluated under natural field conditions.The experimental design was a completely randomized, with three replications.Evaluations were carried out during the period of June to September of 2009.A DM yield, absolute growth rate (AGR), number of tillers/plant, number of leafs/plant, leaf area, leaf senescence and elongation rates and blade length increased consistently with growth stage. The relations between DM yield andAGR with cutting plants age were described by the quadratic regression model. The maximum DM yield and forage production rate performance were estimated at 63.9 and 48.7 days of regrowth. The crop growth and relative growth rates, tiller and leaf appearance rates were inversely proportional to cutting plant age.These data suggest that cutting at 49 to 56 days were optimal for obtain maximum dry matter yields and improved the grass morphogenetic and structural characteristics. Keywords: Dry Matter. Leaves. Plant Age. Plant Growth Rates.Tillering.
    • 43Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO Nos cerrados de Roraima, as pastagens nativas representam a fonte mais econômica para alimentação dos rebanhos. No entanto, face às oscilações climáticas, a produção de forragem durante o ano apresenta flutuações estacionais, ou seja, abundância no período chuvoso (maio a setembro) e déficit no período seco (outubro a abril), o que afeta negativamente os índices de produtividade animal (GIANLUPPI et al., 2001; COSTA, 2004). Dentre as diversas gramíneas forrageiras que compõem as pastagens nativas dos cerrados de Roraima,Axonopus aureus é uma das mais importantes, constituindo 30 a 40% da sua composição botânica.A gramínea apresenta ciclo perene, hábito de crescimento cespitoso, plantas com 40 a 60 cm de altura e folhas levemente pilosas. No entanto, são inexistentes as pesquisas sobre as suas características morfogênicas e estruturais,visando à proposição de práticas de manejo mais sustentáveis. O estádio de crescimento em que a planta é colhida afeta de forma direta o rendimento, a composição química, a capacidade de rebrota e a sua persistência. Em geral, pastejos menos frequentes fornecem maiores produções de forragem, porém, concomitantemente, ocorrem decréscimos acentuados em sua composição química, reduções na relação folha/colmo e, em consequência, menor consumo pelos animais (CARDOSO et al., 2003; COSTA et al., 2009). A morfogênese de uma gramínea durante seu crescimento vegetativo pode ser descrita por três variáveis: a taxa de aparecimento, a taxa de alongamento e a duração de vida das folhas, as quais, apesar de sua natureza genética, são fortemente influenciadas pelas condições ambientais (temperatura, luz, água e fertilidade do solo) e práticas de manejo.As interações entre estas variáveis determinam as características estruturais:número de folhas vivas/perfilho (NFV), tamanho final de folhas (TFF) e densidade de perfilhos, as quais irão determinar o índice de área foliar (IAF), ou seja, o aparato utilizado para a interceptação da radiação solar pelo dossel da pastagem. O NFV é decorrente da taxa de aparecimento e a duração de vida das folhas, sendo determinado geneticamente,enquanto que a taxa de alongamento foliar condiciona o TFF (CHAPMAN; LEMAIRE, 1993). Em condições de baixa disponibilidade de água no solo,oTFF,a DVF e o perfilhamento são as variáveis mais afetadas, enquanto que a TAF seria a última a ser penalizada, considerando- se a sua importância para a fotossíntese, ponto inicial para a formação de novos tecidos (LEMAIRE, 2001). O conhecimento das características morfogênicas e estruturais proporciona uma visualização da curva estacional de produção de forragem e uma estimativa de sua qualidade (GOMIDE, 1994), além de permitir a proposição de práticas de manejo específicas para cada gramínea forrageira (LEMAIRE, 2001). Neste trabalho foram avaliados os efeitos da idade de rebrota sobre a produção de forragem e características morfogênicas e estruturais de Axonopus aureus,durante o período chuvoso,nos cerrados de Roraima.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 44 2 MATERIAL E MÉTODOS O ensaio foi conduzido no Campo Experimental da Embrapa Roraima, localizado em Boa Vista (95 m de altitude, 60o 43’ de longitude oeste e 2o 45’ de latitude norte), durante o período de junho a setembro de 2009. O clima da região, segundo a classificação de Köppen, é Awi, caracterizado O solo da área experimental é um Latossolo Amarelo, textura média, com as seguintes características químicas, na profundidade de 0- 20 cm: pHH2O = 4,8; P = 1,8 mg/kg; Ca + Mg = 0,90 cmolc .dm-3 ; K = 0,01 cmolc .dm-3 ; Al = 0,61 cmolc dm-3 ; H+Al = 2,64 cmolc .dm-3 ; SB = 0,91 cmolc .dm-3 ;CTCt = 3,55 cmolc .dm-3 eV(%) = 25,6. A área experimental consistiu de uma pastagem nativa de A. aureus, a qual não foi submetida a prática de manejo.O delineamento experimental foi inteiramente casualizado com três repetições, sendo os tratamentos constituídos por oito idades de corte (21, 28, 35, 42, 49, 56, 63 e 70 dias após o rebaixamento da pastagem a 10 cm de altura do solo). O tamanho das parcelas de 2,0 x 2,0 m, sendo a área útil de 1,0 m2 . Os parâmetros avaliados foram rendimento de matéria seca (MS), taxa absoluta de crescimento (TAC), taxa de aparecimento de por períodos seco e chuvoso bem definido. A precipitação anual é de 1.600 mm, no entanto, 80% ocorrem no período chuvoso. Os dados de precipitação e temperatura, durante o período experimental, foram coletados através de pluviômetro e termômetro instalados na área experimental (Tabela 1). perfilhos (TAP), taxa de crescimento da cultura (TCC), taxa de crescimento relativo (TCR), número de perfilhos/planta (NPP), número de folhas/ perfilho (NFP), taxa de aparecimento de folhas (TAF), taxa de expansão foliar (TEF), taxa de senescência foliar (TSF), tamanho médio de folhas (TMF) e área foliar/perfilho (AF). Com exceção dos rendimentos de MS que foram determinados em toda a área útil da parcela, para as demais variáveis as avaliações foram realizadas em quatro touceiras/parcela, selecionadas em função de suas alturas (30 ± 5,5 cm) e diâmetros (14 ± 3,5 cm), de modo a representar a variabilidade da população de plantas em cada parcela. Para determinação das características morfogênicas e estruturais foram marcados quatro perfilhos/ touceira, utilizando-se fios coloridos. As avaliações realizadas a intervalos de três dias, Tabela 1 - Precipitação e temperaturas mínimas,máximas e médias registradas durante o período experimental. Boa Vista, Roraima. (jun./set. 2009). Fonte: Estação Meteorológica da Embrapa Roraima, Boa Vista, Roraima.
    • 45Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. quando se computava o aparecimento, o alongamento e a senescência de folhas. A TAC e a TAP foram obtidas dividindo-se o rendimento de MS e o número de perfilhos pelo respectivo período de rebrota.ATCC foi estimada pela fórmula: TCC = P2 – P1/T2 - T1; onde P1 e P2 representam a produtividade de MS de duas amostragens sucessivas (kg de MS/ha) e,T1 eT2 o intervalo de tempo, em dias, transcorrido entre a obtenção das amostragens.A TCR obtida pelo uso da expressão: TCR = LnP2 - LnP1/T2 - T1; onde LnP1 e LnP2 são os valores de logaritmos da MS de duas amostragens sucessivas e, T1 e T2 o intervalo de tempo em dias, transcorrido entre as amostragens. ATEF e aTAF foram calculadas dividindo- se o comprimento acumulado de folhas e o número total de folhas no perfilho, respectivamente,pelo período de rebrota.OTMF determinado pela divisão do alongamento foliar total do perfilho pelo seu número de folhas.Para o cálculo da AF utilizou-se a fórmula da área do triângulo (altura x base/2) e, para tanto foram anotados o comprimento e a largura de todas as folhas dos perfilhos das touceiras amostrados. A TSF foi obtida dividindo-se o comprimento destas que se apresentavam de coloração amarelada ou necrosada pela idade de rebrota ao corte. O filocrono, intervalo de tempo térmico para o aparecimento de duas folhas sucessivas, foi determinado como o inverso do coeficiente angular da regressão entre o número de folhas e a soma térmica (graus.dia – GD) observada durante o período experimental (70 dias). Para o cálculo do acúmulo de GD foi considerada a temperatura mínima basal da planta de 10ºC, utilizando-se a fórmula: GD = (TM – Tm / 2) + (Tm – Tb), onde,TM = temperatura máxima do ar (ºC);Tm = temperatura mínima do ar (ºC) e, Tb = temperatura mínima basal da planta (10ºC). Os dados foram submetidos à análise de variância e regressão considerando o nível de significância de 5% de probabilidade. Para se estimar a resposta dos parâmetros avaliados às idades de rebrota, a escolha dos modelos de regressão baseou-se na significância dos coeficientes linear e quadrático,por meio do teste “t”,de Student,ao nível de 5% de probabilidade. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Os rendimentos de MS e as TAC foram significativos (P=0,0382) incrementados com a idade de rebrota, sendo as relações quadráticas e os valores máximos estimados aos 63,9 e 48,7 dias,respectivamente (Gráficos 1 e 2). Os valores registrados, neste trabalho, foram superiores aos relatados por Mochiutti et al.(1997, 1999),avaliando a disponibilidade de forragem de A. aureus, durante o período seco, em pastagens nativas dos cerrados do Amapá (113 e 135 kg/ha de MS, respectivamente, para pastagens roçadas ou queimadas anualmente), contudo inferiores aos reportados por Costa et al. (2009), para A. aureus, durante o período chuvoso, submetido a diferentes níveis de desfolhação (689; 889 e 933 kg de MS/ha, respectivamente para cortes a 10, 15 e 20 cm acima do solo).
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 46 Fonte: dados da pesquisa. Gráfico 2 - Taxa absoluta de crescimento e taxa de crescimento da cultura de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota. Gráfico 1 - Rendimento de matéria seca de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota. Fonte: dados da pesquisa.
    • 47Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Os efeitos da idade de rebrota sobre aTCC e a TCR foram ajustados ao modelo exponencial (Gráficos 2 e 3). Os maiores valores foram registradosnoperíodoentre28e35diasderebrota, os quais foram superiores aos reportados porTejos (2002) para pastagens de A. aureus submetidas a uma queima anualmente (12,25 kg/ha/dia e 0,0451 g.g/dia).As altas taxas de crescimento, durante os períodos iniciais de rebrota, representam um mecanismo de adaptação da gramínea, pois ao reduzir o tempo para que ocorra a máxima interceptação da radiação solar incidente,promove uma melhor utilização da água devido ao sombreamento mais rápido do solo,o que favorece sua competitividade intraespecífica, notadamente quando a baixa umidade do solo é um dos fatores mais limitantes (ALVAREZ; LASCANO, 1987; GONÇALVES et al., 2002; COSTA et al., 2008a,b). Gráfico 3 - Taxa de crescimento relativo de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota. Fonte: dados da pesquisa. A TAP foi inversamente proporcional às idades de rebrota (Gráfico 4). O NPP e o NFP ajustados ao modelo quadrático de regressão e os máximos valores registrados aos 61,9 e 64,9 dias,respectivamente (Gráficos 5 e 6).Os valores registrados neste trabalho para o NPP e NFP foram inferiores aos reportados por Costa et al. (2008a), durante o período chuvoso, para A. aureus (10,75 perfilhos/planta; 6,95 folhas/ perfilho), contudo superiores ao constatado para a TAP (0,108 perfilhos/dia). As correlações entre o rendimento de MS e o NPP (r = 0,9430; P=0,0023) e o NFP (r = 0,9406; P=0,0046) foram positivas e significativas, as quais explicaram em 88,9 e 88,5%, respectivamente, os incrementos verificados nos rendimentos de forragem da gramínea, em função das idades de corte. Silva e Klink (2001), avaliando a dinâmica de foliação e o perfilhamento de gramíneas nativas dos cerrados do Distrito Federal, constataram variações significativas para o NPP e NFP, sendo os maiores valores registrados por Trachypogon spicatus (10,1 perfilhos/planta e 6,1 folhas/perfilho), comparativamente a Axonopus marginatus (7,9 perfilhos/planta e 3,4 folhas/ perfilho) e Echinolaena inflexa (4,0 perfilhos/ planta e 6,2 folhas/perfilho).
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 48 Fonte: dados da pesquisa. Gráfico 5 - Número de perfilhos/planta de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota. Gráfico 4 - Taxa de aparecimento de perfilhos de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota. Fonte: dados da pesquisa.
    • 49Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Fonte: dados da pesquisa. O perfilhamento de uma gramínea depende da velocidade de emissão de suas folhas, as quais produzirãogemaspotencialmenteaptasdeoriginar novos perfilhos, dependendo das condições ambientais e das práticas de manejo adotadas (LEMAIRE;CHAPMAN,1996).Em relvados densos, o ambiente luminoso afeta a competição entre plantas por meio da quantidade e qualidade de luz incidente e da relação vermelho: vermelho extremo (CARRÈRE et al., 1997). Quando a luz penetra no dossel, atenua-se a luz vermelha e a que alcança a base da planta é predominantemente vermelha extrema, caracterizada como fotossinteticamente ineficiente, promovendo redução na produção de perfilhos, notadamente os de ordem elevada (BALLARÉ et al., 1987). A TAP foi negativamente correlacionada com o NPP (r = -0,8731; p=0,0032) e o NFP (r = -0,9065; p=0,0019), evidenciando o efeito restritivo da luminosidade na porção inferior das plantas, o qual foi acentuado com o aumento do período de rebrota. O efeito da idade de rebrota sobre o TMF foi ajustado ao modelo quadrático e o máximo valor registrado aos 68,7 dias (Gráfico 7). Os valores registrados corresponderam a apenas 64% do estimado por Costa et al. (2008a) para A. aureus durante o período chuvoso (21,7 cm). A redução do TMF é uma estratégia utilizada pelas gramíneas nativas dos cerrados para aquisição e conservação de água,compensando o estresse hídrico através da diminuição das perdas de água por transpiração. (HOYOS; LASCANO, 1988; SOUZA FILHO et al., 1992; SILVA; KLINK, 2001). O tamanho e o ângulo de inserção das folhas têm implicação na distribuição e qualidade da luz dentro do dossel, afetando a modulação do crescimento das plantas através da produção de fotoassimilados nas fontes e sua alocação aos drenos.Folhas pequenas podem ser fundamentais no início do crescimento, pois facilitam a maior penetração da radiação vermelha em detrimento da vermelha extrema, implicando em melhor qualidade de luz para a realização da fotossíntese pelas folhas situadas na porção inferior da planta (LEMAIRE, 2001). Gráfico 6 - Número de folhas/perfilho de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 50 Gráfico 7 - Tamanho médio de folhas de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota. Fonte: dados da pesquisa A TAF foi inversamente proporcional às idades de rebrota, enquanto que para aAF e TEF as relações foram quadráticas e os máximos valores registrados aos 68,7 e 43,1 dias, respectivamente (Gráficos 8, 9 e 10).A AF,TAF e a TEF obtidas neste trabalho, para a maioria das idades das plantas,foram inferiores às reportados por Costa et al. (2008b) para A. aureus, durante o período chuvoso,que estimaram valores médios de 51,71 cm2 /perfilho; 0,154 folhas/perfilho.dia e 2,15 cm/perfilho.dia, para plantas aos 45 dias de rebrota. Em Brachiaria decumbens, Alves et al. (2008) constataram que o TMF e a TAF foram diretamente proporcionais à disponibilidade de água no solo, ocorrendo o inverso quanto à TEF. Gramíneas com maior habilidade competitiva são aquelas que desenvolvem uma arquitetura mais eficiente na interceptação de luz, através da rápida expansão de área foliar e colonização da camada superior do dossel, em decorrência do alongamento da bainha e entrenós do colmo (LEMAIRE, 2001; MACEDO et al., 2010). Neste trabalho a correlação entreTMF eTAF foi negativa e significativa (r = -0,9259; p=0,0015), evidenciando o efeito antagônico entre estas duas variáveis.
    • 51Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Fonte: dados da pesquisa. Gráfico 9 - Taxa de aparecimento de folhas de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota. Gráfico 8 - Área foliar/perfilho de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota. Fonte: dados da pesquisa.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 52 Fonte: dados da pesquisa. A TAF é a Característica morfogênica que merece maior destaque, pois afeta diretamente o tamanho da folha, a densidade populacional de perfilhos e o número de folhas/perfilho (HORST et al., 1978). As TAF e TEF apresentam uma correlação negativa,indicando que quanto maior a TAF, menor será o tempo disponível para o alongamento das folhas (COSTA et al.,2008a,b). Neste trabalho não houve correlação entre estas duas variáveis (r = 0,2047; p=0,6267). Grant et al. (1981), em azevém (Lolium perenne L.), observaram que a TEF foi positivamente correlacionada com a quantidade de folhas verdes remanescentes no perfilho após a desfolhação, sendo o tamanho do perfilho o principal responsável pela longa duração daTEF. A relação entre TSF e as idades de rebrota foi positiva e linear, sendo o processo de senescência constatado a partir dos 21 dias (Gráfico 11).Os valores registrados neste trabalho foram inferiores aos reportados por Costa et al. (2008b)para A.aureus,duranteoperíodochuvoso, que estimaram umaTSF de 0,224 cm/perfilho.dia, para plantas avaliadas aos 45 dias de rebrota. A senescência é um processo natural que caracteriza a última fase de desenvolvimento de uma folha, iniciada após sua completa expansão, cuja intensidade se acentua progressivamente com o aumento da área foliar, em decorrência do sombreamento das folhas superiores sobre as inseridas na porção inferior do colmo, as quais têm sua capacidade fotossintética reduzida. (NABINGER, 1997; MACEDO et al., 2010). Apesar do efeito negativo sobre a qualidade da forragem, a senescência representa um importante processo fisiológico no fluxo de tecidos da gramínea, pois cerca de 50% do carbono e 80% do nitrogênio podem ser reciclados das folhas senescentes e utilizados pela planta para a produção de novos tecidos foliares (CARRÈRE et al., 1997; LEMAIRE; AGNUSDEI, 2000; SANTOS et al., 2009). Gráfico 10 - Taxa de expansão foliar de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota.
    • 53Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Fonte: dados da pesquisa. A relação entre o número de folhas/perfilho easomatérmicafoilinearedescritapelaequação: Y = 2,1216 + 0,00495 GD (r2 = 0,9368). O filocrono estimado em 202 GD, o qual foi inferior ao reportado por Trindade e Rocha (2001) para Andropogon lateralis (205 GD), gramínea nativa da Depressão Central do Rio Grande do Sul, e ao constatado por Townsend (2008), na mesma região,para Paspalum guenoarum biótipoAzulão (275 GD), durante o outono e submetido a diferentes doses de nitrogênio (0, 60, 180 e 360 kg de N/ha). Em termos práticos, quanto menor o filocrono, mais eficiente é a gramínea na interceptação e conversão de energia luminosa em tecido foliar (LEMAIRE, 2001). O aumento do filocrono com a idade de rebrota decorre da necessidade de mais tempo para que a folha percorra a distância dentro da bainha desde a emergência até a completa expansão da folha (SKINNER; NELSON, 1994; MACEDO et al., 2010). Gráfico 11 - Taxa de senescência foliar de Axonopus aureus, em função da idade de rebrota. 4 CONCLUSÕES A idade de rebrota afeta o rendimento de forragem, as taxas de crescimento e as características morfogênicas e estruturais da gramínea. Visando conciliar produtividade de forragem com a otimização das características morfogênicas e estruturais de Axonopus aureus, o período de pastejo mais adequado de suas pastagens, durante o período chuvoso, situa-se entre 49 e 56 dias de rebrota.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 54 REFERÊNCIAS ALVAREZ, A.; LASCANO, C.E. Valor nutritivo de la sabana bien drenada de los Llanos Orientales e Colombia. Pasturas Tropicales, Cali, v.9, n.3, p.9-17, 1987. ALVES, J.S.; PIRES, A.J.V.; MATSUMOTO, N. et al. Características morfológicas e estruturais da Brachiaria decumbens Stapf.Submetida a diferentes doses de nitrogênio e volumes de água. Acta Veterinaria Brasilica, Mossoró, v.2, n.1, p.1-10, 2008. BALLARÉ,C.L.;SÁNCHEZ,R.A.;SCOPEL,A.L.et al.Early detection of neighbor plants by phytochrome perception of spectral changes in reflected sunlight. Plant Cell and Environment, Oxford, v.10, n.7, p.551-557, 1987. CARDOSO, E.L.; CRISPIM, S.M.A.;RODRIGUES, C.A.G. et al. Efeitos da queima na dinâmica da biomassa aérea de um campo nativo no Pantanal. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, DF, v.38, n.6, p.747-752, 2003. CARRÈRE, P.; LOUAULT, F.; SOUSSANA, J.F.Tissue turnover within grass-clover mixed swards grazed by sheep: methodology for calculating growth, senescence and intake fluxes. Journal of Applied Ecology, London, v.34, p.333-348, 1997. CHAPMAN, D; LEMAIRE, G. Morphogenetic and structural determinants of plant regrowth after defoliation. In: INTERNATIONAL GRASSLAND CONGRESS, 17., 1993, Palmerston North. Proceedings... Palmerston North: New Zealand Grassland Association, 1993. p.95-104. COSTA, N. de L. Formação, manejo e recuperação de pastagens em Rondônia. PortoVelho: Embrapa Rondônia, 2004. ______.; GIANLUPPI, V.; BENDAHAN, A.B. et al. Morfogênese de Axonopus aureus em diferentes alturas de corte. In: SEMINÁRIO DE PESQUISA E INICIAÇÃO CIENTÍFICA, 8., 2009, Boa Vista. Anais... Boa Vista: UFRR, 2009. 2 p. 1 CD-ROM. ______.; MATTOS, P.S.R.; BENDAHAN, A.B. et al. Morfogênese de duas gramíneas forrageiras nativas dos lavrados de Roraima. Pubvet, Londrina, v.2, n.43, 2008a. ______.; PAULINO,V.T.;MAGALHÃES,J.A.et al.Morfogênese de gramíneas forrageiras naAmazônia Ocidental. Pubvet, Londrina, v.2, n.29, 2008b. GIANLUPPI, D.; GIANLUPPI, V.; SMIDERLE, O. Produção de pastagens no cerrado de Roraima. Boa Vista: Embrapa Roraima, 2001. 4 p. (Embrapa Roraima. Comunicado Técnico, 14). GOMIDE, J.A. Fisiologia do crescimento livre de plantas forrageiras. In: ______. Pastagens: fundamentos da exploração racional. Piracicaba: FEALQ, 1994. p.1-14. GONÇALVES,A.de C. Características morfogênicas e padrões de desfolhação em pastos de capim- Marandu submetidos a regimes de lotação contínua. 2002. 124 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Animal e Pastagem) - ESALQ, Piracicaba, 2002. GRANT, S.A.; BERTHARM, G.T.;TORVELL, L. Components of regrowth in grazed and cut Lolium perenne swards. Grass and Forage Science, Malden, v.36, n.1, p.155-168, 1981.
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    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 56 TOWNSEND, C.R. Características produtivas de gramíneas nativas do gênero Paspalum, em resposta à disponibilidade de nitrogênio. 2008. 254 f. Tese (Doutorado em Zootecnia) - URGS, Porto Alegre, 2008. TRINDADE, J.P.P.; ROCHA, M.G. da. Rebrotamento de capim caninha (Andropogon lateralis Nees.) sob efeito do fogo. Ciência Rural, Santa Maria, v.31, n.6, p.1057-1061, 2001.
    • 57Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. PRODUTIVIDADE DE MANDIOCA CULTIVADA PORAGRICULTORES FAMILIARES NA REGIÃO DOS LAGOS, MUNICÍPIO DE TRACUATEUA, ESTADO DO PARÁ Moisés de Souza Modesto Júnior* Raimundo Nonato Brabo Alves** Enilson Solano Albuquerque Silva*** RESUMO O trabalho teve por objetivo avaliar a produtividade de mandioca obtida por agricultores familiares que adotam a parcagem como fertilização do solo e a cultivam em sistemas de preparo de área com tração animal e preparo de leiras. A pesquisa constou de aplicação de questionários para coleta de informações sobre número de animais que pernoitam na área para fertilização do solo, idade da capoeira, sistemas de preparo de área e tratos culturais utilizados pelos agricultores, tendo como parâmetros: a seleção de manivas-sementes, cultivo em espaçamento de 1m x 1m, realização de capinas para controle de plantas daninhas.A produtividade média em t/ha e o número de plantas/ ha, foram medidas por meio de colheita da mandioca em quatro parcelas do tamanho de 2 m x 10 m, selecionadas ao acaso no roçado de cada agricultor. Realizou-se, ainda, amostragem de solo na profundidade de 0 a 20 cm, para análise química de fertilidade pelo método Mehlich–1 e análise física para determinação da textura. A produtividade média de mandioca no sistema de preparo de área com tração animal foi de 23,9 t/ha com média de 9.291 plantas/ha, enquanto que no cultivo sobre leiras a produtividade obtida foi de 25,56 t/ha com média de 9.152 plantas/ha. Nos dois sistemas utilizados nenhum agricultor fez seleção de manivas-sementes e todos eles empregaram a prática de corte em bisel das manivas que resulta em muitas perdas na armazenagem e no plantio. Palavras-chave: Trio da Produtividade. Farinha. Plantas Daninhas. Parcagem.Tração Animal. * EngenheiroAgrônomo; Especialista em Marketing eAgronegócio;Analista da EmbrapaAmazônia Oriental. Belém/PA. E-mail: moises@cpatu.embrapa.br. ** Engenheiro Agrônomo; Mestre em Agronomia; Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. Belém/PA. E-mail: brabo@cpatu.embrapa.br. *** Engenheiro Agrônomo; Mestre em Agronomia; Analista da Embrapa Amazônia Oriental. Belém/PA. E-mail: enilson@cpatu.embrapa.br.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 58 CASSAVA´S PRODUCTIVITY BY SMALLHOLDER FARMERS FROM LAKE REGION AT CITY OF TRACUATEUA , STATE OF PARÁ ABSTRACT This study aimed to evaluate the productivity of cassava produced by smallholder farmers who adopt the parcage as natural soil fertilization and cultivate cassava by animal traction tillage and preparation of piles systems. The research consisted of questionnaires for collecting information on the number of animals who stay overnight in the area for soil fertility, age of poultry systems, land preparation and cultural practices used by farmers.Parameters used in the research were the selection of cassava-seeds,cropping spacing of 1m x 1m,and performing weeding to control weeds.The average yield in t/ha and number of plants / ha, were measured by harvesting cassava in four plots of size 2 m x 10 m randomly selected in each farmer’s cassava field.After that, a sampling was performed in the depth of 0-20 cm for chemical analysis of fertility by the Mehlich-1 Method and physical analysis to determine the soil texture.The average yield of cassava in the area of tillage with animal traction was 23.9 t/ha with an average of 9.291 plants/ha, whereas in seed-bed culture the yield obtained was 25.56 t/ha with an average of 9152 plants/ha. In both used systems no farmer made selection of cassava seed-cuttings and they all used the cassava bezel cutting system which provides a lot of losses in storage and planting. Keywords: Trio of Productivity. Flour. Starch Weed. Parcage.Animal Traction.
    • 59Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO O município de Tracuateua possui uma área de 936,12 km² e uma população de 27.455 habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010). Localiza-se na mesorregião do Nordeste Paraense, distante cerca de 200 km da capital Belém.Foi criado em 1994 e instalado em 1997, estando dividido em várias localidades, atualmente organizadas em comunidades de agricultores familiares, sendo as principais: Santa Maria, Vila Fátima, Arraial do São João, Vila Socorro, Santa Teresa, Chapada, Cajueiro do Tatu, Anirá, Flexal, Colônia das Neves, Cajueiro de Boa Esperança, Cocal, Açaiteua, Manoel dos Santos, Caranã, Tracuateuazinho, Icaraú e Flexeira (FERREIRA, 2003). Com relação ao uso da terra a sua economia está concentrada em atividades envolvendo lavoura permanente e temporária, pecuária de pequena escala e extração de madeira para lenha e produção de carvão (IBGE, 2009). Em 2009 a produção de coco-da-baia na ordem de 5,01 milhões de frutos, de 192 t de pimenta-do-reino e 1.360 t de laranja resultou no valor da produção de R$ 2.193.000,00, com uma representatividade de 49,13%, 31,65% e 17,0 %,respectivamente,em relação à produção total de culturas permanentes no município de Tracuateua.Em relação às lavouras temporárias a cultura do feijão-caupi foi, em 2008, a atividade mais importante da economia do município (BARBOSA; SANTOS; SANTANA, 2010), com uma área cultivada de 3.800 ha e produção de 3.056 t (IBGE, 2008). Porém em 2009,com a redução da área cultivada de feijão- caupi para 2.500 ha e redução da produção para 1.000 t de grãos,a mandioca passou a ter maior representatividade na economia de Tracuateua com 63,53% em relação ao valor total da produção dos cultivos temporários representados pelas culturas de abacaxi, feijão- caupi, fumo, malva, mandioca e milho que foi de R$ 4.017.000,00 (IBGE, 2009). Desmembrado do antigo município de Bragança, Tracuateua tem sua economia com base predominantemente na agricultura familiar, remanescente da mais antiga área de colonização do estado do Pará, em que o setor agropecuário foi responsável por 21,87 % do Produto Interno Bruto (PIB) do município em 2008 (IBGE, 2008). As pequenas propriedades, especificamente da região dos lagos, caracterizam-se pela condução de um sistema de integração lavoura/pecuária, que integram dois métodos de agricultura familiar sustentável: a parcagem e a tração animal, para produção de mandioca solteira ou em consórcio com feijão-caupi e fumo. O sistema de parcagem consiste, basicamente, na aplicação localizada de esterco de gado para fertilização do solo, feito por determinado número de animais que ficam confinados durante a noite numa área reduzida, selecionada previamente para cultivo de mandioca (ALVES; HOMMA, 2005). Segundo Costa (1986), a produção de esterco fresco de gado por cabeça pode ser calculada na quantidade de 32 kg/dia. O mesmo autor indica os teores médios de 0,23% de P2 O5 , encontrados na composição do esterco fresco. Com a deposição das fezes e urina na superfície do solo, ricos em nitrogênio e potássio, contribuem para neutralizar a acidez do solo (STILWELL; WOODMANSEE,1981;SOMDA et al.,1997),mas uma parte importante do nitrogênio da urina é perdida por lixiviação ou volatilização (STILWELL; WOODMANSEE, 1981; RUSSELLE, 1992). O presente trabalho teve por objetivo avaliar a produtividade média de raiz de mandioca e as técnicas de cultivo adotadas pelos agricultores familiares da região dos lagos de Tracuateua que utilizam a criação de gado para realização da parcagem como fertilização do solo e cultivam a mandioca em sistemas de preparo de área com tração animal e sobre leiras preparadas com enxadas.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 60 2 MATERIAIS E MÉTODOS O trabalho foi efetuado nas comunidades da Chapada, Jaquitara, Tatu e Ananã na região dos lagos. Nessas predominam as savanas naturais mal drenadas, ficando no primeiro quadrimestre por ocasião das chuvas,submersas na maior parte de sua extensão a uma profundidade abaixo de um metro. Com a seca no período de estiagem, segundo semestre, uma ciperácea chamada popularmente de junco aflora,formando os campos naturais.Essas áreas foram classificadas como Campos Equatoriais Higrófilos de Várzea, segundo Oliveira Junior et al.(1999).Nas áreas mais altas,indicando melhor drenagem,são cultivados o fumo e o feijão-caupi, em sistemas solteiro ou em consórcio com a mandioca. Deve-se ressaltar que o cultivo de fumo em consórcio com mandioca tende a restringir o acesso ao crédito rural, pois não condiz com um sistema de cultivo socialmente e politicamente correto. O clima da região, segundo a classificação de Köppen é do tipo Awi, dividido em duas estações: chuvosa de dezembro a maio, e menos chuvosa de junho a novembro, apresentando precipitação pluviométrica média de 2.500 mm anuais,temperatura média de 27,7°C e umidade relativa média do ar de 84% (OLIVEIRA JUNIOR et al., 1999). Nas comunidades pesquisadas predomina o solo do tipo Gleissolo Háplico, mal drenado, desenvolvido de sedimentos recentes, sob a influência do lençol freático (OLIVEIRA JUNIOR et al., 1999). O levantamento da produtividade de mandioca foi efetuado no período de 26/08 a 09/ 09/2010. O líder das comunidades Sr. Francisco Nazaré de Oliveira,mais conhecido como“Chico Espada”, indicou seis agricultores os quais estavam colhendo mandioca para que o trabalho de avaliação fosse feito nos respectivos roçados, três cultivaram a mandioca em sistema de preparo de área com a tração animal e três em fileiras simples sobre leiras preparadas manualmente com enxadas (semelhante ao cultivo de hortaliças). A pesquisa constou de aplicação de questionários para coleta de informações sobre número de animais que pernoitam na área para fertilização do solo, idade da capoeira, sistemas de preparo de área e tratos culturais utilizados pelos agricultores, tendo como parâmetros: a seleção de manivas-sementes; cultivo em espaçamento adequado e realização de capinas para controle de plantas daninhas. Nas áreas preparadas com tração animal a produtividade média em t/ha de raiz de mandioca e número de plantas/ha, foram medidas por meio de amostras colhidas em quatro parcelas do tamanho de 2 m x 10 m (Figura 1), coletadas ao acaso no roçado de cada agricultor. Nas áreas com leiras foi efetuada a contagem e colheita de plantas em quatro amostras ao acaso, em 10 m de leiras (Figura 2). Após a colheita da mandioca foi realizada amostragem de solo na profundidade de 0 a 20 cm, para análise química de fertilidade pelo método Mehlich–1 e análise física para determinação da textura. A produtividade da mandioca foi analisada em função do número de animais que pernoitaram na área para fertilização do solo por meio de parcagem (ALVES; HOMMA, 2005), idade da planta e adoção de tecnologia com base noTrio da Produtividade na Cultura da Mandioca, que consiste na seleção e tipo de corte da manivas-sementes, uso de espaçamento e número de capinas e roçagens efetuadas (ALVES et al., 2008).
    • 61Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Figura 1 - Detalhe da parcela de 10 m x 2 m no roçado de mandioca com 13 meses de idade do agricultor Francisco Nazaré Oliveira, do lado esquerdo. Fonte: Modesto Júnior, 2010. Figura 2 - Detalhe da leira com a mandioca aos 13 meses de idade, colhida no roçado do agricultor Manoel da Silva Gomes,no lado direito do agricultor Francisco Nazaré Oliveira. Fonte: Modesto Júnior, 2010.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 62 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Observou-se nas comunidades pesquisadas a existência de poucas áreas de capoeira e mata e escassez de lenha, tanto para fabricação de farinha, como para construção de cercas, indicando a necessidade de condução de pesquisas sobre introdução de espécies arbóreas de rápido crescimento. Os agricultores criam o gado em pastagens extensivas em que o rebanho transita livremente durante o dia pelos campos naturais,alimentando-se de forragem constituída basicamente de junco (Eleocharis interstincta R. Br.). Ao final da tarde o gado é recolhido para pernoite nas áreas de parcagem. A maioria dos animais (bovinos e bubalinos) é utilizada basicamente para trabalho, tração animal e parcagem. Foram poucos os relatos de agricultores que criam gado para produção de leite ou carne devido à falta de boas pastagens. Como a principal atividade econômica dos agricultores da região dos lagos de Tracuateua é a produção de mandioca, existem grandes possibilidades de seus subprodutos serem utilizados na alimentação animal, podendo ser fornecida sob as formas de raízes frescas,raspas, ramas (hastes e folhas) e subprodutos sólidos de sua industrialização (cascas,entrecascas,descarte e farelos). O fornecimento da rama da mandioca fresca é o modo mais simples e econômico de ministrar aos animais. Precisa-se apenas picar antes de colocar no cocho, mas só pode ocorrer em casos em que o produtor tenha certeza de que a espécie cultivada é uma variedade mansa, ou seja, não apresenta níveis altos de ácido cianídrico (<50mg), por não ser tóxica para ruminantes. Almeida e Ferreira Filho (2005) recomendam que o fornecimento in natura da folhagem somente pode ser feito de 12 a 24 horas depois de colhida, para reduzir o princípio tóxico em níveis seguros,no caso de espécies com níveis um pouco mais altos de ácido cianídrico. E, para espécies tidas como muito bravas, a rama deve ser misturada com outro tipo de volumoso, até a proporção máxima de 50% de rama. Tanto os agricultores que utilizam tração animal no preparo de área quanto aqueles que preparam leiras para o cultivo da mandioca, adotam a técnica da parcagem para a fertilização do solo com esterco, a qual consiste em confinar o gado na área a ser cultivada pela mandioca por um período pré-determinado em função do número de animais disponíveis na propriedade (ALVES; HOMMA 2005). O método da parcagem como processo de fertilização do solo feito pelos agricultores familiares de Tracuateua, consiste em recolher o gado para pernoite no período de setembro a dezembro,em pequenas cercas móveis dentro da área de cultivo, geralmente em número de oito denominadas de“caixinhas”,a fim de evitar que o rebanho se concentre em um só local, ficando em pousio no período chuvoso (janeiro a abril). A partir do mês de maio essas áreas são submetidas à “viração” com a tração animal ou ao preparo de leiras com uso de enxadas,seguida do plantio da mandioca. Os agricultores não efetuam o plantio, no período de janeiro a abril, devido à ocorrência de fortes chuvas,que poderão resultar na podridão das raízes de mandioca tanto por anoxia como por podridão biótica (fungo ou bactéria). Deve-se registrar que o pousio da área neste período chuvoso implica em perdas de nutrientes do esterco, principalmente de nitrogênio por volatilização e lixiviação. O sistema de parcagem, as práticas de cultivo adotadas e a produtividade de mandioca obtida pelos agricultores que utilizaram a tração animal e leiras no preparo de área são mostrados nas Tabelas 1 e 2, respectivamente. A produtividade média de mandioca no sistema de
    • 63Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Fonte: dados da pesquisa. OBS: média de quatro repetições. Como se pode observar, nas Tabelas 1 e 2, não existe uma definição exata entre o número de animais confinados, o período de duração da parcagem e a área fertilizada pelos agricultores, o que pode concorrer para uma adubação restritiva ou excessiva de esterco, implicando em diferentes produtividades de mandioca. Na Bahia, Gomes et al. (1983) obtiveram altos rendimentos com essa cultura (38,6 t de raízes/ha) utilizando o sistema de parcagem. Eles calcularam que 30 animais confinados em uma área de 1 ha por 60 noites, produzem cerca de 8 t de esterco seco contendo 40 kg de nitrogênio/ha. Doses excessivas de esterco podem elevar o nível de nitrogênio no solo possibilitando reduzir o índice de colheita da mandioca, estimulando o desenvolvimento da parte aérea em detrimento da produção de raízes. A produtividade dos agricultores,também, varia em função do uso de diferentes cultivares, umas de época de colheita tardias e outras precoces, bem como da não uniformidade do número de plantas por área e da falta de seleção do material de plantio,Tabelas 1 e 2. Ressalta-se a ausência de podridão radicular em todos os roçados prospectados,permitindo-nos inferir que o seu controle depende de um bom preparo de solo quanto à drenagem e fertilização. preparo de área com tração animal foi de 23,9 t/ ha com média de 9.291 plantas/ha, enquanto que no cultivo sobre leiras a produtividade obtida foi de 25,56 t/ha com média de 9.152 plantas/ha. Nos dois sistemas usados nenhum agricultor fez seleção de manivas-sementes. Todos eles utilizaram a prática de corte em bisel nas manivas que segundo Takahashi (2002) proporciona muitas perdas na armazenagem e no plantio. O corte reto seria o mais recomendado por possibilitar a produção mais uniforme e maior número de raízes que o formato em bisel (MATTOS; CARDOSO, 2003), e por isso influenciaria,diretamente,na produção de raízes. Tabela 1 - Sistema de parcagem, práticas de cultivos e produtividade de mandioca de agricultores familiares de Tracuateua, Pará, que utilizam tração animal no preparo de área.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 64 Fonte: dados da pesquisa. OBS: média de quatro repetições. O solo do tipo Gleissolo Háplico tem como característica ser mal drenado e apresentar textura muito argilosa e siltosa.Por isso evidencia limitações de uso agrícola, uma vez que apresenta deficiência de oxigênio, risco de inundação e dificuldade de mecanização. De acordo com os resultados médios das análises de granulonometria das áreas cultivadas pelos agricultores (Tabela 3), observa-se um teor de areia fina e grossa na ordem de 70 %, 20 % de silte e 10 % de argila total, classificando como solo do tipo Franco Arenoso, apresentando boas propriedades físicas para o cultivo da mandioca. O principal motivo da maioria dos agricultores cultivarem a mandioca sobre leiras é evitar o encharcamento do solo e podridão da cultura por anoxia, devido suas áreas estarem situadas nas cotas mais baixas do terreno. Com relação as análises químicas de solo colhidos das áreas pesquisadas, o pH em água variou de 4,6 a 5,0, embora a faixa ideal esteja entre 5,5 a 7,0 (MATTOS; CARDOSO, 2003). Os critérios de interpretação das análises químicas de solos,atualmente,utilizados no estado do Pará têm sido baseados nas recomendações do Laboratório de Solos da Embrapa Amazônia Oriental (BRASIL;CRAVO,2007) e de modo geral os teores de fósforo,potássio,Ca,Ca+Mg (Tabela 3) se enquadram na classe de baixa fertilidade. Os únicos agricultores cujas análises de solos obtiveram teores médios de fósforo (14 mg/dm³) e de potássio (48 mg/dm³) foram os senhores Francisco Nazaré de Oliveira e Manoel da Silva Souza,respectivamente,apesar da produtividade de mandioca obtida por esses agricultores ter sido menor em comparação com as demais áreas pesquisadas.Com relação aos teores de alumínio, embora sejam apresentadas faixas variando de médio a alto, a partir de 0,5 cmol/dm³, pode-se ficar alerta para a necessidade de correção do solo, especialmente em condições de baixos teores de cálcio e de magnésio (BRASIL; CRAVO, 2007). Tabela 2 - Sistema de parcagem, práticas de cultivos e produtividade de mandioca de agricultores familiares de Tracuateua, Pará, que cultivam a mandioca em fileiras simples sobre as leiras.
    • 65Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 4 CONCLUSÕES Existem amplas possibilidades de aumentar a produtividade de mandioca e explorar a capacidade atual que os agricultores dispõem para produção de farinha, sem a necessidade de aumento da área cultivada. Destacam-se como práticas importantes para melhorar o sistema a seleção de manivas-sementes, ajustes no processo de parcagem com definição do número de animais por área em função do tempo,seleção e introdução de variedades de mandioca mais produtivas e determinação de melhor população de plantas por unidade de área, que poderão contribuir para reduzir custos de produção e até duplicar a produtividade da cultura. A redução ou até eliminação do período de pousio da área, entre o término da parcagem e o plantio das culturas (janeiro a abril), com a introdução de cultura como o arroz, mais adaptado ao tempo chuvoso, pode elevar a eficiência do sistema de cultivo adotado pelos agricultores com melhor aproveitamento das propriedades do esterco de gado. Sugere-se que os agricultores busquem maior eficiência produtiva no aproveitamento dos subprodutos provenientes da cultura da mandioca, principalmente como forragem para alimentação animal.Também,recomenda-se que os agricultores façam ajustes na correção do solo, uma vez que os valores da análise de solo encontram-se abaixo do nível crítico. Tabela 3 - Resultados de análise química e física de solos colhidos das áreas dos agricultores pesquisados no momento da avaliação da produtividade da mandioca. Fonte: Laboratório de Solos da Embrapa Amazônia Oriental.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 66 REFERÊNCIAS ALMEIDA,J.de;FERREIRA FILHO,J.R.Mandioca: uma boa alternativa para alimentação animal. BahiaAgrícola, Salvador, v.7, n.1, p. 51-55, set. 2005. ALVES, R. N. B; MODESTO JÚNIOR, M. de S; ANDRADE, A. C. da S. O Trio da Produtividade na cultura da mandioca: estudo de caso de adoção de tecnologias na região no Baixo Tocantins, estado do Pará. In: CONGRESSO DA ABIPTI, 2008, Campina Grande-PB. Anais... Campina Grande: ABIPTI, 2008. 1 CD-ROM. ALVES, R. N. B.; HOMMA, A. K. O. O método de parcagem como alternativa agroecológica para a integração agricultura/pecuária da produção familiar do Sudeste Paraense. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2005. (Embrapa Amazônia Oriental. Documento, 220). BARBOSA, M. S.; SANTOS, M. A .S.; SANTANA, A.C. Análise socioeconômica e tecnológica da produção de feijão-caupi no município de Tracuateua, Nordeste Paraense. Amazônia: Ciência & Desenvolvimento, Belém, v. 5, n 10, p. 7-25, jan./jun. 2010. BRASIL, E. C.; CRAVO, M. da S. Interpretação de análise de solos. In: CRAVO, M. da S.;VIÉGAS, I. J. M.; BRASIL, E. C. Recomendações de adubação e calagem para o estado do Pará. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2007. 262 p. COSTA, M. B. B. (Coord.). Adubação orgânica: nova síntese e novo caminho para agricultura. São Paulo: Ícone, 1986. 104 p. FERREIRA, J. C. V. O Pará e seus municípios. Belém: J. C.V. Ferreira, 2003. 686 p. GOMES,C.J.de;CARVALHO,P.C.L.de;CARVALHO,F.L.C.;RODRIGUES,E.M.Adubação orgânica na recuperação de solos de baixa fertilidade com o cultivo da mandioca. Revista Brasileira de Mandioca, Cruz dasAlmas, v. 2, n. 2, p. 63-76, 1983. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cidades: produção agrícola municipal; Lavouras Temporárias e Permanentes. 2008. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1>. Acesso em: 13 maio 2011. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cidades: produção agrícola municipal; Lavouras Temporárias e Permanentes. 2009. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1>. Acesso em: 13 maio 2011. MATTOS P. L. P.; CARDOSO, E. M. R. Cultivo da mandioca para o estado do Pará. Cruz das Almas: Embrapa Mandioca e Fruticultura, 2003. (Sistemas de Produção, 13). Disponível em: < http:// sistemasdeproducao.cnptia.embrapa.br/FontesHTML/Mandioca/mandioca_para/cultivares >. Acesso em: 03 fev. 2011. OLIVEIRA JUNIOR,R.C.de;SANTOS,P.L.dos;RODRIGUES,T.E.;VALENTE,M.A.Zoneamento agroecológico do município de Tracuateua, Estado do Pará.Belém:EmbrapaAmazônia Oriental,1999.45 p.(Embrapa Amazônia Oriental. Documentos, 15).
    • 67Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. RUSSELLE, M. P. Nitrogen cycling in pasture and range. Journal of Production Agriculture, Madison, n. 5, p. 13-23, 1992. SOMDA, Z. C; POWELL, J. M; BATIONO, A. Soil pH and nitrogen changes following cattle and sheep urine deposition. Commun. Soil Sci. Plant Anal, Philadelphia, n. 28, p. 1253-1268, 1997. STILWELL, M.A;WOODMANSEE, R. G. Chemical transformation of urea-nitrogen and movement of nitrogen in a shortgrass prairie soil. Soil Science Society America Journal, Madison, n. 45, p. 893-898, 1981. TAKAHASHI, M. Produção, armazenamento e manejo do material de propagação. In: CEREDA, M. P. (Org.). Agricultura: tuberosas amiláceas latino americanas. 1. ed. São Paulo: Fundação Cargill, 2002. v. 2, p. 198- 206.
    • 69Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. A CONSTRUÇÃO DETERRITÓRIOS CULTURAIS PELASANTIGAS SOCIEDADESAMAZÔNICAS Marcos Pereira Magalhães* RESUMO Paisagem é um espaço construído onde o ambiente é transformado em um artefato social que, tal como os objetos materiais, reproduzem as representações culturais de uma sociedade.A maneira como as antigas sociedades nativas alteraram os ambientes naAmazônia ao interferirem na topografia, no solo e ao semearem ou cultivarem espécies selecionadas,indica como atividades técnicas adequadas e diversas tornaram-nos mais produtivos e,simultaneamente,familiares e culturalmente identificáveis. Sendo assim, o espaço que apresenta locais com ocorrências materiais arqueológicas e recursos naturais diversos pode representar um território cultural,com diferentes ambientes antropogênicos relacionados, onde uma dada população se organiza e se identifica socialmente. Palavras-chave: Paisagem. Cultura.Arqueologia-Amazônia. * Arqueólogo; Pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi. E-mail: mpm@museu-goeldi.br
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 70 BUILDING CULTURAL TERRITORIES BY OLD AMAZONIAN SOCIETIES ABSTRACT Landscape is a constructed space where the environment is transformed into a social artifact that,like material objects,reproducing the cultural representations of a society.The way ancient societies have altered the native environment in the Amazon by interfering in the topography, soil and sow or cultivate selected species, indicating how appropriate techniques and various activities have made us more productive and simultaneously familiar and culturally identifiable. Thus, the space that holds archaeological sites with material events and natural resources can represent a different cultural territory,associated with different anthropogenic environments,where a given population is organized and identifies socially. Keywords: Landscape. Culture.Archeology-Amazon.
    • 71Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO Este texto tratará das antigas populações humanas amazônicas sob a perspectiva da arqueologia da paisagem. Existem diversas definiçõesparapaisagem,inclusivenaarqueologia. Mas a nossa intenção é mostrar que os espaços historicamente ocupados apresentam símbolos culturais que se refletem não apenas nos objetos ou estruturas materiais, bem como na própria organização da paisagem. Sendo assim, a definição que mais se aproxima daquilo que entendemos como paisagem é aquela que diz que ela é todo espaço onde o ambiente é transformado em um artefato social que, tal como os objetos materiais, reproduz os valores culturais de uma sociedade.A maneira como as sociedades alteram os ambientes, seja interferindo na topografia, no solo, criando, semeando ou cultivando espécies selecionadas, indica como atividades técnicas adequadas e diversas torna-os mais produtivos e, simultaneamente, familiares e culturalmente identificáveis através de símbolos e representações. As atividades sociais que acarretam isto ocorrem independentes do nível de complexidade econômica ou política das comunidades humanas. Também existem inúmeras evidências de que essas atividades vêm interferindo sobre diferentes e extensos ambientes desde a mais recuada idade,tecendo com o tempo uma ampla rede regional de locais com recursos diversificados,mas culturalmente inter-relacionados. Sendo assim, na Amazônia, espaços que apresentam locais com ocorrências materiais e recursos naturais diversos podem representar um território cultural, com diferentes ambientes antropogênicos relacionados, onde uma dada população se organiza e se identifica socialmente. Nesses espaços, a paisagem é tão importante quanto os objetos materiais culturalmente reproduzidos que,por sua vez,identificam uma sociedade ou até mesmo uma civilização. 2 CULTURA/NATUREZA Para compreendermos mais profundamente a relação do ser humano com os recursos naturais é preciso entender a relação cultura/natureza. Em geral, cultura e natureza são consideradas dois campos de conhecimento complementares, mas vistos separadamente. Neste artigo será abordada a questão da paisagem em uma perspectiva na qual a cultura nada mais é do que uma expressão da natureza. Isto é, segundo esta consideração e a perspectiva evolucionária da natureza, a cultura pode ser tida como um sistema de padrões de comportamento, preferências e produtos da atividade humana os quais são socialmente transmitidos e que caracterizam uma população em determinado lugar. A cultura evolui e sua evolução pode ser definida como a mudança, ao longo do tempo e do espaço, na natureza e na frequência de preferências, padrões e produtos do comportamento social transmitidos numa população. A evolução cultural é em parte independente da variação genética das populações. Tal independência, entretanto, não dura para sempre, pois em algumas circunstâncias existe uma interação entre os sistemas genético e cultural. Por outro lado, as culturas transmitem informação através de aprendizagem social. Assim, o aprendizado socialmente mediado é um meio de mudança no comportamento que resulta de interações sociais com outros indivíduos, geralmente da mesma sociedade (JABLONKA; LAMB, 2009).
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 72 Quando o Homem coloniza uma região ele manipula o ambiente de tal modo, que a persistência dessa ação afeta o desenvolvimento sociocultural de seus descendentes, a própria identidade cultural deles e a vida das espécies que seleciona. O Homem age independente da complexidade cultural ostentada como engenheiro ecológico, já que o produto das suas práticas se difunde precocemente no ambiente e o transforma (BARRETT, 2001). Desde o início da colonização de uma área o Homem altera o regime seletivo de seus vizinhos e descendentes, bem como a sua própria identidade frente a eles. Os seres humanos,na verdade,são o maior agente seletivo do planeta Terra, e executam as mais drásticas construções ambientais. Pode-se dizer que na história humana a evolução adaptativa tem sido guiada pelo sistema cultural, o qual cria as condições necessárias nas quais os genes e o comportamento são expressos e selecionados. Portanto, o Homem não depende do sistema genético, cego e casual, para transmitir informações adaptativas adiante.Pelo contrário, sua capacidade adaptativa é induzida ou adquirida em resposta às condições de vida. E são as diferentes respostas culturais às diversas condições de vida que garantem aos grupos humanos a construção de paisagens e cartografias com cenários e símbolos socialmente organizados e cotidianamente reproduzidos. Ao modificar o ambiente segundo hábitos culturais reforçados, o efeito dessa modificação pode estabilizar outros hábitos os quais, por sua vez, podem constituir uma rede que, eventualmente, constrói um novo estilo de vida. A persistência das práticas e comportamentos relacionados a um determinado estilo de vida, não só reproduz os mesmos através de hábitos do cotidiano, como remodela o nicho segundo as ações pedagógicas a eles relacionadas. Essas mudanças ocorrem ao longo do desenvolvimento histórico da sociedade. Nas sociedades não industriais a remodelação de nichos anteriormente construídos é lenta e exige conhecimento prévio da natureza local. Esse conhecimento prévio pode ser o resultado da tentativa e repetição milenar de ações que acabam influenciando a distribuição e comportamento de certas espécies culturalmente selecionadas e regularmente relacionadas a paisagens socialmente construídas. Na Amazônia isto resultou na domesticação ou semi-domesticação de plantas A ideia da cultura enquanto natural facilita o reconhecimento de que toda sociedade é capaz de construir nichos culturalmente identificáveis através de símbolos, práticas e comportamentos. Esses nichos são construídos no espaço de ocupação socioambiental, de modo que não só a sociedade possui informações as quais ajudam a determinar preferências e identidades, bem como o ambiente é modelado e tornado familiar segundo essas mesmas informações. Por conseguinte, todo ambiente ocupado por uma população humana é um nicho culturalmente projetado, cuja herança reforçada e transmitida às gerações futuras pela aprendizagem (JABLONKA; LAMB, 2009). Ou seja, os hábitos, práticas e costumes de uma sociedade afetam o valor adaptativo das variações comportamentais das pessoas. Por conta disto, os ambientes construídos por elas deixam de ser um mero efeito da seleção natural e expressam valores simbólicos que são culturalmente transmitidos. 3 DOMESTICAÇÃO, EVOLUÇÃO E MUDANÇA NA AMAZÔNIA
    • 73Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. utilizadas até hoje, seja para a alimentação seja para a fabricação de armas,utensílios domésticos etc., como a mandioca (Manhihot esculenta), o açaí (Euterpe oleracea-Arecaceae), a bacaba (Oenocarpus bacaba), o caripé (Licania octandra), o inajá (Maximiliana maripa) e muitas outras. Segundo Charles Clement (2006a, 2006b), pouco antes da conquista européia, os povos amazônicos cultivavam,no mínimo,138 espécies vegetais.Muitos desses recursos genéticos eram artefatos humanos que requeriam a intervenção humana para a sua manutenção, ou seja, estavam em avançado estado de domesticação. Além disto, se houve uma população humana culturalmente organizada, vivendo e interferindo na natureza amazônica desde um tempo muito recuado, claro está que, pelo menos em alguns pontos, a floresta desde então não é primária, a distribuição de espécies não é meramente natural e as paisagens daí derivadas possuem tanta identidade cultural quanto às pinturas corporais ou os layouts decorativos das cerâmicas. 4 AMAZÔNIA CULTURAL Estudos recentes vêm mostrando que a influência humana sobre a natureza não só é uma condição da sua existência, bem como condição da própria evolução coletiva das espécies (BROWN; BROWN,1991; HOWELLS, 1997; MAYER, 2005;THOMAS, 2003).Acredita-se hoje em dia, que alguns dos padrões mais importantes de migração e colonização humanas durante os últimos 15 mil anos resultaram da domesticação de plantas e animais, que tornaram algumas espécies parte inseparável do nicho ecológico humano (ABRAÃO et al., 2008). Assim, considerando que algumas comunidades amazônicas alcançaram altos níveis de organização social, compreende-se que esses níveis resultaram da evolução cultural de antigas populações nativas, as quais se desenvolveram através de agentes que dominavam práticas e técnicas de manejo e cultivo de plantas selecionadas. Essas sociedades evoluíram porque elas percorreram uma longa duração onde acontecimentos históricos precedentes desenvolveram e conquistaram práticas e técnicas adequadas à exploração dos recursos naturais amazônicos (MAGALHÃES,2005,2009). Mas não é só isto. O domínio técnico do manejo seletivo de espécies permitiu que diferentes sociedades pudessem relacionar algumas delas com a sua própria formação cultural. Porém,durante a maior parte do século XX, a ideia que prevaleceu relativa à capacidade de interferência humana sobre o ambiente foi de que ela teria se configurado apenas com o advento das sociedades agricultoras e pastoras.Além de ter sido uma interferência de mão única, no qual os humanos, finalmente teriam conquistado as técnicas necessárias para o domínio e reprodução controlada de espécies úteis, as sociedades anteriores ou sem o domínio dessas técnicas seriam compostas de sujeitos passivos submetidos aos ditames ambientais e climáticos. Como consequência, toda natureza anterior ao advento da agricultura e, principalmente, da urbanização, não apresentaria qualquer traço civilizador.Assim,do paleolítico pleistocênico aos caçador-coletores holocênicos, o Homem teria cumprido, apenas, o papel de vítima de uma natureza cruel e indomável. E, na Amazônia, isto seria ainda mais complicado, pois era corrente a ideia de que a floresta amazônica teria ficado intocada, sem sofrer qualquer influência humana até a ascensão
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 74 das sociedades agricultoras. E que as antigas intervenções humanas, quando finalmente ocorreram, só teriam alcançado pontos isolados, em áreas reduzidas, localizadas às margens dos principais rios da região (SIMÕES, 1981). A Amazônia seria uma região exclusivamente “natural”, onde o Homem além de não fazer parte dela, teria sido repelido pela dificuldade de adaptar-se aos seus supostos parcos recursos não domesticáveis (MEGGERS, 1987). Este quadro começou a mudar, principalmente, a partir da última década do século XX e, mais recente, quando pesquisas arqueológicas e antropológicas apresentaram evidências cada vez mais convincentes de que a floresta tropical, mesmo há milhares de anos, nunca foi um fator restritivo para o progresso dos Homens que nela viveram (ESPITIA; BOCANEGRA, 2006; MORA CAMARGO, 2006; OLIVEIRA, 2007; SÁNCHEZ et al., 2007). Isto é: uma restrição ao florescimento de novas e melhores possibilidades; uma barreira ao preenchimento de todo nicho disponível; um obstáculo ao desenvolvimento de organizações sociais cada vez mais elaboradas. Muito pelo contrário, estudos recentes têm confirmado que não havia uma diferença marcante na adaptação dos povos que habitavam a terra firme daqueles que habitavam as várzeas e, inclusive, que a formação dos nichos explorados passou por forte influência antrópica (GUAPINDAIA, 2008; MAGALHÃES, 2009). Na Amazônia, a exploração dos recursos naturais,por parte das populações antigas,inclui um território com ecossistemas diferenciados, explorados e manejados complementarmente.Na verdade,a ocupação territorial era o modo como diferentes áreas de várzea, de interflúvios e terras firmes eram economicamente conectadas, culturalmente integradas e socialmente construídas. Os primeiros colonizadores da Amazônia formavam sociedades nômades que viviam da caça, da coleta e da pesca antes de desenvolverem a agricultura. Mas a pesca foi um fator importante para a fixação de populações por um período maior de tempo em torno de meios aquáticos, onde a piscosidade era particularmente favorecida. Daí, segundo a observação ainda válida de Lathrap (1977), a propagação da coleta e seleção de venenos para peixes, de plantas fitoterápicas e outras de utilidade prática (como a cabaça) impuseram disciplinas específicas para o Homem. E, no contexto desses padrões comportamentais, as atividades humanas responsáveis pela manutenção e dispersão de plantas úteis naAmazônia foram governadas por padrões culturais específicos adequados a essa tarefa; a ação inconsciente foi logo suplantada por ações conscientes, de modo que as pessoas sabiam o que estavam fazendo e mantinham interações comuns com as plantas. Isto, tal como proposto por Rindos (apud PIPERNO; PEARSALL, 1998), resultou em mudanças nas plantas e nas culturas com importantes consequências co- evolutivas para ambas. Mesmo que as práticas de seleção e semeadura de plantas úteis tenham levado à domesticação delas, isto não resultou na produção imediata de recursos altamente produtivos. Existiu um longo período de baixa produtividade e durante milênios o modo de produção dominante não dependeu das plantas domesticadas (PIPERNO; PEARSALL, 1998). Neste período, iniciado com o Holoceno, em que as populações amazônicas começam a interação delas com os recursos florísticos disponíveis: conhecendo-os,selecionando-os e manejando-os; ainda que tenham introduzido plantas exóticas (como a cabaça e o milho) por conta, respectivamente, de experiências ainda mais antigas e inter-regionais,as plantas com as quais passam a interagir são locais e de origem
    • 75Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. neotropical. Com isto as relações culturais e sociais que se desenvolvem na Amazônia além de terem por base as experiências com os recursos naturais predominantes da floresta neotropical, não só são originais como constituem um processo histórico (e civilizador) que chamamos de Cultura Tropical. Por conseguinte, a domesticação é vista como uma consequência das estratégias, das relações culturais e dos processos históricos seguidos pelos grupos pré-agrícolas. Nesta relação co-evolutiva, em que a domesticação é o resultado de interações comuns, usuais dos Homens com as plantas, as pessoas selecionam entre os espécimes existentes a melhor opção disponível para suprir: a alimentação, o artesanato, a saúde e os ritos, tornando isto um marco cultural socialmente reproduzido.Portanto, foi o modo como os nativos trataram os ambientes amazônicos explorados que fez a diferença e garantiu o sucesso e a evolução de suas práticas e modos de produção. Porém,quando as relações com as plantas se intensificam, os Homens vão se tornando os seus agentes dispersores obrigatórios. Simultaneamente, comportamentos humanos específicos intensificam o sucesso da domesticação. Quando esses comportamentos aumentam a importância dos cultivos na economia das sociedades, aumentando a manipulação ambiental e fazendo crescer a diversidade das plantas nos lugares manejados, estão criadas as condições que favorecem o surgimento do novo modo de produção o qual caracterizará as sociedades agricultoras. E é durante a evolução histórica desse estágio que surge outro processo civilizador (o da Cultura Neotropical) derivado do anterior (o da Cultura Tropical), cuja culminância é representada pelo aumento de complexidade social e econômica e pelo surgimento de densas populações sedentárias governadas por relações que ditam a natureza e a trajetória da evolução agrícola. E foi o sucesso da Cultura Neotropical o qual garantiu para as sociedades amazônicas: 1) a evolução ritualística e a popularização habitual do emprego da tecnológica da cerâmica; 2) o cultivo intenso e diversificado de plantas neotropicais; 3) o desenvolvimento das técnicas de processamento; 4) a ampliação das redes de relações sociais, de comunicação e de troca; e 5) o manejo em larga escala,para fins diversificados, de nichos ecológicos com diferentes características ambientais. Não obstante o sucesso da Cultura Neotropical amazônica, nos dias de hoje, ainda, existem alguns poucos povos nômades que preservaram antigas tradições relacionadas à Cultura Tropical, vivendo na floresta e nunca destruindo as malocas da aldeia depois de abandoná-las. Esses povos agem como se preservassem os arquétipos comportamentais do passado. Segundo John Hemming (2008), assim são os Maku (Nukak e Hupdu), que viajam ao longo de rotas familiares na floresta entre o Brasil e a Colômbia; e osAwá-Guajá na antiga floresta pré-amazônica no Maranhão. Quando os Maku abandonam uma área, eles sabem que seus restos vegetais irão fazer germinar as suas plantas favoritas. Ao retornarem, meses depois, eles encontram seu acampamento ao lado da floresta adjacente pronto para ser novamente usado. De um modo geral, as palmeiras, por exemplo, tinham muito a oferecer ao Homem primitivo. Algumas escavações arqueológicas, tais como a de Peña Roja em Caquetá, mostraram sementes de várias espécies de palmeiras ao lado de ferramentas líticas (MORA CAMARGO,2006). Por isto os arqueólogos reconhecem que concentrações de palmeiras em algumas florestas podem ter sido “plantadas” por antigos povos indígenas. Isto torna essas concentrações importantes marcadores que indicam a presença de sítios arqueológicos na floresta.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 76 Em o Cru e o Cozido, Lévi-Strauss (2004) demonstrou a importância que a floresta viva tinha para diferentes populações indígenas,tanto em termos filosóficos quanto de processo civilizador. Para o autor, antes do machado de ferro a lenha provinha de árvores mortas, ainda em pé ou caídas e só a madeira morta era permitida como combustível. Contudo, “muitas vezes o Homem era obrigado a queimar madeira viva, a fim de obter plantas cultivadas que ele se permitirá cozinhar apenas num fogo de madeira morta”(LÉVI-STRAUSS,p.182).Mas a queima da madeira viva não era aleatória, pois havia a prática deliberada de proteger aquelas cuja utilidade era reconhecida, pois a vida civilizada requeria não só o fogo, mas também as plantas cultivadas que o fogo permitia cozinhar. O que facilitava a queima seletiva era a reocupação constante - persistent places (SCHALANGER, 1992) - de diversos ambientes antropizados por processos práticos de recuperação de antigas áreas de ocupação. Isto é o que se percebe em diferentes sítios arqueológicos, onde observamos reocupações contínuas ou não na disposição estratigráfica das evidências. Fato que indica intencionalidade na escolha de locais previamente antropizados (MACHADO,2010) e cujas paisagens construídas são culturalmente emblemáticas.Locais esses,por sua vez, que faziam parte de uma ampla rede territorial de trocas e dispersão de plantas semeadas seletivamente. Enfim, em termos filosóficos e históricos, tal como observado por Lévi-Strauss (2004), a engenharia dessa construção resultava de um pensamento que via na relação natureza/cultura uma operação conjunta de compenetração isomórfica, onde suas diferentes partes seriam indiscerníveis e mutuamente permeáveis. Estudos realizados pelo antropólogo americano Darrell Posey (1990) revelaram como os Kayapó alteram a floresta, fazendo com que suas aldeias fiquem localizadas no centro da máxima diversidade de espécies, pois cada local oferecia produtos naturais e diferentes tipos de caça durante diferentes estações.Posey observou que os Kayapó praticavam“agricultura nômade” de longo prazo que incluía o manejo das clareiras em florestas, margens de trilhas e afloramentos de rochas. Nos campos cerrados,além das queimadas anuais, os Gorotire Kayapó promovem manchas de vegetação lenhosa ao fertilizarem as áreas com serapilheira, restos vegetais e a adição de ninhos de cupins e formigas. Com isto, eles cultivavam um número notável de 120 espécies de plantas da savana em seus “pomares”, todas de um modo ou de outro útil à comunidade. A característica fundamental da paisagem construída pelos Kayapó está na sua flexibilidade, abastecendo as necessidades da tribo em tempos de paz e guerra, seca e chuva. Segundo Posey (1990),quando os Gorotire Kayapó saem para caçar carregam pouca comida, mas quando param para acampar ou descansar, eles sempre têm o que precisam.Posey percebeu que isto não era coincidência. Eles carregavam sementes de plantas úteis, e tinham a preocupação de fertilizá-las, tornando os ambientes os quais percorriam, ainda, mais produtivos. Outros povos da Amazônia manejavam a floresta de maneira semelhante. William Balée (1994) descobriu que quando os Ka´apor procuravam alimento em uma floresta aparentemente virgem, na verdade estavam explorando um ecossistema que eles mesmos tinham alterado ao longo de muitos séculos. O autor chamou estes nichos de “florestas antropogênicas” e supôs que 12% da Amazônia foi modificada dessa maneira. Lévi-Strauss (2004) havia observado que os mitos sobre a origem da agricultura entre alguns povos Jê proclamavam que “o solo do
    • 77Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. cerrado não é cultivável,apenas a florestas”.Por conseguinte, a introdução da agricultura implicava na transformação de um modo de ser em seu converso. Isto é: para ser inserido no universo civilizado, o cerrado teria que ser transformado em floresta. Por outro lado, era através da agricultura que se apossava de uma determinada planta ou de uma determinada variedade da mesma espécie como forma de identificá-la a um clã. E essas mesmas plantas ou variedades eram semeadas nos territórios ocupados como forma de legitimar a posse deles. Segundo Lathrap (1977) isto ocorria através do plantio e cultivo de espécimes vegetais nos quintais das residências, que era o espaço comunitário e/ou privado protegido da floresta artificial, porém repleta de seres sobre os quais os Homens não tinham controle. O quintal era a área comunitária totalmente organizada e livre de influências maléficas.Ele também,funcionava como um lote experimental. Novas espécies de plantas trazidas da floresta ou recebidas através de contatos com outros grupos étnicos poderiam ser introduzidas no esforço consciente para avaliar o seu potencial como cultígeno útil. Para o autor, não existia pedaço de vegetação nessa zona que não fosse deixada intencionalmente ou introduzida por um propósito definido culturalmente. Como o padrão dos quintais foi movido de uma área de floresta tropical das grandes bacias fluviais para outras de terra firme interfluviais e vice-versa, ele ficou exposto a diferentes zonas de vegetação e, então, novos cultígenos potenciais integraram-se ao sistema. Com isto as populações nativas tornaram os territórios percorridos e regularmente ocupados cada vez mais produtivos e familiares. Foram práticas antrópicas deste tipo, enfim, que alteraram grandes extensões de florestas na Amazônia. E essas alterações ocorreram para muito além das áreas de influência direta das moradias e roças. Áreas reservadas para ritos, para caça e coleta de materiais diversos, também eram manejadas e tinham a vegetação alterada através do aumento proposital e significativo da incidência de plantas úteis.Assim,cada casa ou comunidade ficava envolvida e protegida por florestas composta de uma rede de ambientes totalmente artesanais. Balée (1989, 1992) enfatizou que as modificações antrópicas dos ambientes naturais iniciadas com a formação de concentrações de árvores frutíferas a partir do manejo da floresta, podem ter passado por diferentes fases de regressão agrícola, quando essas concentrações eram associadas com terras pretas, que resultavam do abandono de antigos roçados e assentamentos. Posteriormente, Politis (1996, 1999) apresentou observações etno- arqueológicas que mostraram como o descarte de sementes comestíveis por parte de grupos nômades aumenta, de forma significativa, o potencial de formação destas concentrações.Mas agora alguns pesquisadores estão concluindo que existem grupos os quais suas próprias práticas cotidianas,ainda nômades,conseguem modificar significativamente a biodiversidade presente (BALÉE,2006).Segundo esta perspectiva,Charles Clement (2006a, 2006b) tem levantado discussões sobre o papel das práticas de coleta de frutas comestíveis para os processos de domesticação de diversas espécies arbóreas na Amazônia. Posição, por sua vez, que contradiz Piperno e Pearsall (1998) para quem a importância das árvores frutíferas como sustento do sedentarismo nas terras baixas tropicais era bastante secundário. Por conta das ações e práticas antrópicas - fossem cotidianas, regulares ou intermitentes - sobre os ecossistemas florestais amazônicos terem se iniciado desde o passado mais remoto, supõem-se que grandes extensões das florestas da região sejam de origem cultural. Mas qual é o
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 78 percentual da floresta cultural na Amazônia brasileira, considerando a chegada do Homem na região, desde 11.000AP? Cálculos realizados pelo autor (MAGALHÃES, 2010), considerando a estimativa da população arqueológica na Amazônia desde, no mínimo 11000 AP, segundo uma perspectiva relativamente conservadora, sugerem que 45,36% do que se vê hoje como floresta “primária” pode ser resultado da interferência humana ao longo de milhares de anos. Entretanto, torna-se importante salientar que as florestas antropogênicas constituem espaços construídos, cujas paisagens, também, são o produto de uma série de mecanismos de representação, os quais possuem tecnologias de domesticação e dispositivos conceituais compatíveis com os sistemas sociais de poder. Sendo assim, pode-se afirmar que tanto os artefatos como os comportamentos sociais estão inseridos numa rede de relações interdependentes conectadas cultural e ambientalmente. Ou seja: os Homens se identificam plenamente no seu próprio espaço de existência; são seres sociais integrados ao seu meio circundante; e só podem se socializar em um espaço com o qual interajam e se identificam (FAGUNDES, 2008). Sendo a paisagem fruto de uma ação humana é, pois, um produto sociocultural criado pela objetividade - sobre o meio e em termos espaciais - da ação social tanto de caráter material quanto imaginário (CRIADO BOADO, 1999). Em síntese, podemos afirmar que a paisagem é um meio natural de origem cultural circunscrito no espaço onde os agentes humanos evoluem coletivamente e, em conjunto, têm influência direta sobre a distribuição de espécies diversas.Por outro lado,fora das redes de relação socioambiental as culturas não só perdem a identidade quanto o próprio significado (BENDER, 2006). Isto é, não apenas a sobrevivência de uma inovação depende da cultura existente em determinado lugar socialmente construído, mas também sua geração e reconstrução. Relações sociais, culturais e ambientais são fatores interdependentes. A seleção, manejo, organização e domesticação do espaço, dos recursos e organismos naturais são aspectos gerais da cognição e da cultura (JABLONKA; LAMB, 2009; MATURANA,2001;).Não podem ser isolados uns dos outros; não podem ser isolados dos sistemas econômicos, legais e políticos em que estão embutidos e são construídos e nem das práticas das pessoas que os constroem (HEADRICK et al., 2001;MITCHELL,2002;SHEPARD JUNIOR,2005) Na inter-relação cultura/natureza, o intercâmbio entre os comportamentos e o ambiente é ecológica e simbolicamente reproduzido e representado. Quando as pessoas guardavam em tempos de escassez e/ou transportavam de um lugar para outro as sementes das plantas preferidas e os seus animais de estimação, as espécies transportadas representavam aspectos importantes das representações culturais tradicionais. Isso acontecia porque, no caso das sementes, elas acabavam se espalhando e germinando nos lugares por onde essas pessoas passavam o que garantia um estoque de alimentos para as gerações futuras e a identidade de pertencimento a esses lugares. Por isso a probabilidade de que esse comportamento se repetisse nas gerações seguintes aumentava,pois eram criados símbolos e informações pedagógicas que preservavam os hábitos e as práticas relacionadas a esse costume. Ao colonizar a região amazônica, a persistência das ações humanas de manejo afetou o desenvolvimento sociocultural de seus descendentes, a sua identidade cultural e a vida das espécies que selecionou.Tendo isto ocorrido desde o início do Holoceno,os atributos culturais
    • 79Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. desenvolvidos foram frutos da inteiração regional e da longa duração da relação cultura/natureza. Nessa relação, além dos produtos culturais se identificarem com a floresta tropical onde se desenvolveram a própria floresta tropical reproduziu, de um modo ou de outro, o produto dessa relação. Por sua vez, as práticas dessa relação ficaram atreladas à evolução história das sociedades ao longo do tempo e se caracterizou, tal como observado por Lévi-Strauss, como um processo civilizador. Deste modo, desde a sua chegada, os seres humanos, como agentes seletivos daAmazônia executaram, intermitente ou continuamente, em diferentes territórios culturais da região, a construção de ambientes e a formatação de uma civilização, segundo suas tradições e o nível de complexidade social que ostentaram. O nível de interferência depende das necessidades geradas pela complexidade social. Portanto, entre sociedades de caçadores- coletores as necessidades, geralmente, não implicam em alterações radicais do ambiente,tais como aquelas exigidas para a construção de canais, de tesos e outras obras urbanas. Não é este tipo de interferência que caracteriza domesticação da paisagem em si, já que não envolve o manejo coletivo de animais, plantas ou da geografia. A interferência antrópica dos caçadores-coletores, consciente ou inconscientemente, só se caracteriza como domesticação quando eles interferem, em um primeiro momento, na distribuição das espécies culturalmente selecionadas e, no momento seguinte, na incidência e comportamento delas, tornando-as,então,antropogênicas.Há,portanto, uma diferença no tipo de interferência que a cultura faz sobre a natureza. De todo modo a cultura só domestica a natureza quando age sobre os seres vivos, incluindo aí os próprios seres humanos.Paisagem domesticada, portanto, é o espaço cuja distribuição, comportamento e concentração de espécies foram induzidos intensamente por práticas culturais orientadas. No início a construção antrópica dessa paisagem pode ser aleatória e conscientemente involuntária, mas ela resulta em um produto antropogênico de reconhecido valor para as gerações beneficiárias. Em consequência, esse produto tem possibilidades de se tornar não só fundamental para o desenvolvimento histórico da sociedade ou sociedades que o produziu como, também, consciente e tecnologicamente mais elaborado pelas sociedades herdeiras. Por outro lado, quanto mais complexa for a organização cultural de uma sociedade menos aleatória é a sua evolução histórica, pois comportamentos aprendidos interagem com todos os eventos recorrentes no desenvolvimento das mudanças. Se essas mudanças se refletem na construção ou reconstrução dos nichos que os abrigam, elas não só são reforçadas pelas ações pedagógicas bem como interferem mais intensamente na evolução das espécies a elas relacionadas. A capacidade do Homem de manipular a evolução é derivada da sua capacidade de pensar e de se comunicar por símbolos. Com o sistema simbólico o Homem pode planejar, prever e produzir efeitos sobre a evolução biológica. Entretanto, como na natureza todos os organismos, humanos ou não, formam uma complexa teia de inteirações, tudo interage, de modo que a evolução opera simultaneamente para todas as espécies inter-relacionadas de um ambiente (MATURANA,2002). Ou seja,tal como proposto por Rindos (1989), tudo nos leva a crer que a ação do Homem sobre o ambiente é uma ação co-evolutiva e,portanto,ele é coletivamente afetado por ela. A partir do momento em que a ação coletiva promovida pela seleção cultural
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 80 implica na produção simultânea de símbolos com os quais a sociedade se identifica e se comunica, a própria paisagem construída reproduz a simbologia e a comunicação embutidas nelas.Assim, a floresta tropical dos ambientes manejados pelo Homem, são bens culturais de valor simbólico e objetivo tal como a própria cultura material. Deste modo, se existem áreas onde padrões culturais e históricos são identificados na cultura material deixada por antigas populações amazônicas, é de se esperar que as paisagens onde esses materiais se encontrem, também, reflitam esse padrão. 5 AS EVIDÊNCIAS PARCIAIS PARA UMA CONCLUSÃO PROVISÓRIA NaAmazônia foram encontrados vestígios com datações bastante recuadas, como as obtidas por Anna Roosevelt e colaboradores (1996), na Caverna da Pedra Pintada, com idade máxima de 11200 anos AP. Mais recentemente, em 2005, Caldarelli e colaboradores obtiveram datação de 9570AP para um sítio de área aberta (Breu Branco 1) no sudeste do Pará. Essas datações, que foram alcançadas depois das estabelecidas para os vestígios encontrados em quatro grutas localizadas na Serra Norte de Carajás - 8140AP para a Gruta do Gavião (LOPES et al.,1993),8470AP para a Gruta do Rato,8260 AP para a Gruta da Guarita e 9000 AP para a Gruta do Pequiá (MAGALHÃES, 1998, 2005) - além de reforçar os argumentos de uma ocupação pré-Clóvis,encerraram,definitivamente,o debate sobre se as terras baixas amazônicas seriam ou não propícias para a ocupação humana. Ao confirmar a antiguidade holocênica da presença humana na Amazônia, as Grutas do Gavião e do Pequiá apresentaram restos orgânicos diversos associados aos hábitos alimentares das populações que as ocuparam. Esses restos mostraram que diferentes ecossistemas florestais amazônicos já eram explorados pelo Homem desde o Holoceno inicial, e revelaram que os vestígios de origem vegetal encontrados nas grutas da Serra Norte de Carajás estavam relacionados a importantes práticas de manejo e seleção de plantas neotropicais endêmicas daAmazônia, milhares de anos antes da ascensão das sociedades agricultoras. O que as pesquisas realizadas nas grutas do Gavião e Pequiá indicam,seja lá quem tenham sido,é que os Homens que as ocuparam já estavam perfeitamente adaptados aos recursos tropicais amazônicos e interferindo neles segundo suas necessidades e costumes. Assim, além da Amazônia apresentar uma colonização humana bastanteantiga,realizadaporsociedadespioneiras de caçadores-coletores que intercambiavam com diversos ecossistemas,essas sociedades,ao longo de milhares de anos de integração com os ambientes amazônicos, tiveram tempo suficiente para conhecer, manejar e cultivar os recursos vegetais da floresta úmida que exploravam. Pois, tal como foi constatado, esses recursos desde o início eram parte fundamental de sua organização socioeconômica e ainda que não dominante,deles dependiam substancialmente. A entropia na organização social das culturas de caçadores-coletores pioneiras induziu as mesmas respostas por várias gerações, até levar à variações culturais cada vez mais complexas. Essa complexidade culminou com a intensificação do manejo e consumo de plantas sistematicamente cultivadas e tecnologicamente manipuladas por populações agricultoras neotropicais, agora incorporadas ao sistema regional e multicultural da Cultura Neotropical.
    • 81Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. De fato, a maior parte dos vestígios de manejo encontrados associados às populações agricultoras amazônicas eram as mesmas plantas utilizadas (especialmente algumas das principais) e consumidas por populações pioneiras de caçadores-coletores. Isto teria ocorrido através de um processo civilizador contínuo, principalmente no que se referem às práticas que adaptaram o modo de produção, as relações culturais e os hábitos sociais aos recursos naturais explorados,todos provenientes e consumados na floresta neotropical amazônica. Foram as persistentes ações voltadas para o manejo direto e indireto do ambiente, que criaram nichos culturais cada vez mais abrangentes e deixaram um legado o qual foi transmitido de geração para geração,até ser definitivamente incorporado aos padrões culturais regionais mais complexos. Inventário botânico e pesquisas arqueológicas ainda inéditas comandadas por Vera Guapindaia e realizadas nos platôs da Floresta Nacional Saracá-Taquera (FLONA Saracá- Taquera), localizados no interflúvio Trombetas/ Nhamundá revelaram traços bastante convincentes de ações antrópicas sobre a formação das coberturas florestais locais. Essas florestas parecem constituir verdadeiras paisagens construídas ao longo de centenas de anos. Hipótese que se justifica por conta desta região ser uma importante área arqueológica, a PA-OR (Oriximiná) conforme estabelecido por Simões & Costa (1978), onde até agora foram registrados 120 sítios de antigas sociedades agricultoras, de elevado nível de complexidade social. Esses sítios estão distribuídos nos mais diversos ambientes,incluindo as margens dos rios, igarapés e lagos; nas áreas de terras baixas localizadas entre as margens dos rios principais e dos lagos e nas suas áreas mais elevadas; no topo dos platôs e,principalmente,na base de suas encostas (GUAPINDAIA;LOPES,2004;MACHADO, 2001). Assim, os vestígios arqueológicos da ocupação humana pretérita da área não estão restritos,apenas, às margens dos grandes cursos d’água (GUAPINDAIA, 2008). Além disto, foram identificados dois estilos cerâmicos (Pocó e Konduri), que mesmos que sejam frutos de sociedades diferentes, ocorrem nos mesmos nichos e parecem ter pertencido a povos que, em termos gerais, tiveram os mesmos costumes e práticas ambientais. Para completar, datações radiocarbônicas diversas indicam que a ocupação local e o manejo ambiental intensivo teriam começado, no mínimo, há 6000 AP, com os Pocó e se acentuado desde 4000 anos AP com os Konduri (GUAPINDAIA, 2008). Os platôs,onde foram observadas grandes e diversas concentrações de frutíferas associadas ou não,comporiam áreas de captação de recursos para as populações lacustres e/ou ribeirinhas.Por exemplo, pode-se inferir como propõe Morán (1990) que a coleta de frutos típicos de determinada época do ano levasse a população a rearranjos organizacionais para permitir a exploração adequada de tal fonte de alimentos. E/ou, conforme Shanley & Rosa (2005), para construir esperas em áreas com árvores atrativas para caça, especialmente aquelas ricas em flores de Caryocar villosum (comum no platô Greig, por exemplo), apreciadas por sua capacidade de atrair caça, tanto quantitativa, quanto qualitativamente. Isto pode implicar em dispersão populacional de grupos organizados com base em mitos, rituais, parentesco etc. e na ocupação sazonal, por grupos pequenos, dos platôs e interflúvios, para a exploração dos recursos naturais locais. Tais ocupações interfeririam regularmente na composição natural das florestas. Portanto, áreas circunscritas aos sítios podem ter passado por manejos diversos, quer na coleta e cultivo seletivo de espécies,bem como na construção de cenários sociais (residências,
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 82 acampamentos, roças, áreas de descarte, caminhos etc.), que resultaram em uma paisagem importante para a definição dos processos culturais territorial. O sítio Greig II localizado no topo noroeste do platô Greig apresenta um número significativo de fragmentos cerâmicos decorados pertencentes ao estilo Konduri.Esses fragmentos aparecem em pequenas concentrações próximas à borda do platô. Eles indicam que as atividades ali desenvolvidas eram especiais e realizadas por um número pequeno de pessoas.Significativamente, o inventário botânico (ainda inédito) realizado no platô,na área do sítio,revelou uma cobertura vegetal de floresta densa madura, mas com alto índice de plantas medicinais e alucinógenas,além de inúmeras plantas artesanalmente úteis. Essas ocorrências se diferenciam significativamente,em termos de incidência e diversidade, das registradas no entorno do sítio. Por conta disto,Guapindaia (2008) sugeriu que além dos sítios temporários encontrados na região terem sido utilizados para captação de recursos, alguns como o Greig II, também poderiam ter servido para outras atividades, provavelmente de cunho ritualístico. Parece que o aumento das necessidades das populações mais densas associadas ao estilo Kondurí, exigiu da ordenação socioeconômica um melhor controle do manejo e da exploração dos recursos naturais encontrados nas áreas altas. Portanto, no Greig II a ordem ritualística e a captação de recursos estariam mutuamente relacionadas e não poderiam ser percebidas separadamente.Assim, este sítio cumpriria dentro do território cultural kondurí, um relevante aspecto cultural nas representações sociais dominantes, que teriam erguido diferentes cenários sociais para finalidades específicas. Os ambientes transformados em paisagens culturalmente reconhecidas não podem ser vistos como um mero substrato natural (no sentido de selvagem),mas sim como espaços simbolicamente construídos. Neles, há toda uma dinâmica entre o mundo natural e a imagem social da paisagem, que permanece em obra em favor de interesses culturais, sociais e políticos. Com isto, os nichos ocupados e explorados pelas populações que produziram as cerâmicas Pocó e Konduri, não só tinhamumpadrãoestilísticobemdefinidoemsuas culturas materiais, mas também um padrão de manejo ambiental que cabe aos arqueólogos identificar e diferenciar dos outros criados por outras culturas. Estando certa, esta afirmação pode implicar que parte significativa dos ecossistemas amazônicos seria, efetivamente, paisagem eco-fatual resultante da interpretação e idealização do mundo por meio da cultura e que, portanto,possui tantos padrões quantos forem os padrões dos diferentes conjuntos materiais identificados no universo cultural da Amazônia. Diversas evidências encontradas em diferentes áreas de floresta tropical Neotropical mostram, cada vez mais claramente, que as sociedades agricultoras que ali se desenvolveram foram o fruto lógico e natural da evolução social, cultural, política e econômica de populações locais precedentes.Por outro lado,as sociedades agricultoras, nada mais fizeram do que acentuar, tanto na densidade quanto na intensidade, os usos e costumes relacionados ao conhecimento e domínio dos recursos florísticos tropicais e à elaboração estética e ritualística da cerâmica. O desenvolvimento e evolução sociocultural, baseado em recursos e costumes adquiridos a partir de populações perfeitamente adaptadas à floresta tropical amazônica, constituem, portanto, as bases das sociedades agricultoras locais.E,bem ou mal,foi sobre essas bases que a arqueologia amazônica definiu os diferentes horizontes,fases e tradições culturais, cuja distribuição foi estabelecida através da tipologia da tecnologia de produção, dos
    • 83Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. elementos e estilos decorativos e dos usos e fins da produção ceramista, organizada geográfica e cronologicamente. Por outro lado, a produção ceramista no contexto da cultura material tem sido correlacionada à expansão de línguas e famílias linguísticas, de complexos agrícolas e à dispersão genética (NEVES, 2010). Por isto, ao compreendermos que a diversidade cultural pode ser explicada por fatores históricos e esses implicam em longos períodos de formação, consolidação e mudanças, consequentemente, poderemos entender a correlação entre o ambiente territorial, a evolução da cultura material e os padrões do registro arqueológico. Isto é, os padrões arqueológicos que definem determinada área cultural implicam não só nas ocorrências materiais e expansão linguística, bem como também nos elementos ambientais que constituem a paisagem historicamente construída. Em consequência, se determinada área é definida culturalmente, ela deve apresentar a variabilidade cronológica da sua cultura material e a variabilidade de cenários sociais (caminhos; canais; aterros; áreas de roça, acampamento, caça; de captação de recursos etc.) e de espécies distribuídas em suas paisagens. Essas variabilidades (materiais, cenográficas e de espécies) é que podem caracterizar se determinado território foi o espaço histórico de dada cultura ou não. Finalmente, podemos dizer de modo sintético, que a Cultura Neotropical Amazônica não só é fruto da reorganização histórica de ações humanas anteriores (de Cultura Tropical), efetivadas na floresta úmida amazônica, bem como é um processo civilizador que fez dos ecossistemas neotropicais, um objeto manufaturável! Nela, a ação humana não era uma mera atividade sobre o destino das espécies vegetais. Porém, o destino do homem era planejado traçando o traço da própria paisagem. Isto é, o homem amazônico não só domesticava plantas, como também a floresta enquanto educava a si mesmo.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 84 REFERÊNCIAS ABRAÃO,M.B.;BANIWA,J.C.;NELSON,B.;ANDRELLO,G.;SHEPARD JUNIOR,G.H..Baniwa habitat classification in the white-sand campinarana forests of the Northwest Amazon. In: HUNN, E.; JOHNSON, L.M; MEILLEUR, B. (Org.). Landscape Ethnoecology: concepts of biotic and physical space. Tucson, AZ: University of Arizona Press, 2008. BALÉE,W. Footprints of the forest: Ka’apor Ethnobotany - the historical ecology of plant utilization by an Amazonian people. New York: Columbia University Press, 1994. ______.People of the fallow: an historical ecology of foraging in lowland South America. In: REDFORD, K.H.; PADOCH, C. (Ed.). Conservation of neotropical forests: working from traditional resource use. NewYork: Columbia University Press, 1992. p.35-46. ______. The culture of Amazonian forests. In: POSEY, D.; BALÉE, W. (Ed.). Resource Management in Amazonia: indigenous and folk strategies. Advances in Economic Botany, New York, n.7, p. 1-21, 1989. ______. The research program of historical ecology. Annual Review of Anthropology, Palo Alto, n.35, p. 75-98, 2006. BANDEIRA,A.M.O sambaqui do Bacanga na ilha de São Luiz,Maranhão:inserção na paisagem e levantamento extensivo. Canindé: Revista do Museu de Arqueologia de Xingó, Porto Alegre, v.8, p.43-66, 2006. BARRETT, John. The duality of structure and the problem of the Archaeological record. In: HODDER, Ian. Archaeological theory today. First Edition. Stanford: Stanford University, 2001. BENDER, Barbara. Place and landscape. In: TILLEY, C.; KEANE, W.; KUECHLER, S.; ROWLANDS, M.; SPYER, P. (Ed.) Handbook of material culture. London: Sage, 2006. p 303-312. BOURDIEU, P. La distinction: critique sociale du jugement. Paris: Col. Le Sens Commun. Ad. Minuit, 1982. BRADLEY, R. Archaeology of natural places. London: Routledge, 2000. BROWN, K.; BROWN, G. Habitat alteration and species loss in Brazilian forest: social, biological and ecological determinants. Campinas: Unicamp; Wisconsin: University of Wisconsin, 1991. CALDARELLI, S.B.; COSTA, F.A.; KERN, D.C. Assentamentos a céu aberto de caçadores-coletores datados da transição pleistoceno final/holoceno inicial no sudeste do Pará. Revista de Arqueologia, Belém, n.18, p. 95-108, 2005. CLEMENT, C.R. Demand for two classes of tradicional agroecological knowledge in modern Amazônia. In: POSEY,D.A.;BALICK,M.J.(Ed.).Human impacts on Amazonia:the role of tradicional ecological tradicional in conservation and development. New York: Columbia University Press, 2006. p. 33-55. ______. Domesticação de paisagens e plantas amazônicas: a interação de etnobotânica, genética molecular e arqueologia. In: MORCOTE, G.; MORA, S.; FRANKY, C. (Ed.). Pueblos, plantas y paisajes Antiguos en la selva tropical amazónica. Bogotá: Editorial Universidad Nacional, 2006. p. 97-112.
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    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 86 MACHADO, Juliana S. Espaço antropizado: entendendo os processos de reocupação a partir de uma visão e atnoarqueológica.In: PEREIRA,E.;GUAPINDAIA,V.Arqueologia Amazônica 1:v.1 Belém:Museu Paraense Emílio Goeldi, 2010. MAGALHÃES, Marcos P. A Phýsis da origem: o sentido da história na Amazônia. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2005. ______. A Physis da origem. Tese (Doutorado)-UFRJ, Programa de Pós-Graduação em História Social, Rio de Janeiro, 1998. ______. Evolução antropogênica daAmazônia Neotropical. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n. 12 jul./dez. 2009, p. 5-12. ______. Evolução histórica das antigas sociedades amazônicas. Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v.1, n.2, jan./jun. 2006. ______.Natureza selvagem e natureza antropogênica naAmazônia Neotropical.In:PEREIRA,E.;GUAPINDAIA, V. Arqueologia amazônica: v. 1. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2010. MATURANA, H. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: UFMG, 2002. ______. Cognição, Ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: UFMG, 2001. MAYER, E. Biologia, ciência única. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. MEGGERS, B. J. Amazônia: a ilusão de um paraíso. São Paulo: USP, 1987. MIGUEZ, G. E. Sistema de ocupación prehispánica y paisaje social en um sector del Piedemonte de la Sierra Sa Javier,Tucumán,Argentina. Canindé: Revista do Museu de Arqueologia de Xingó, MAX/UFS, Porto Alegre, n. 8, p.67-94, 2006. MITCHELL, W.J.T. Landscape and Power. 2.ed. Chicago: University of Chicago Press, 2002. MORA CAMARGO, S. Un caminho al diálogo, um paso hacia el pasado: pueblos y paisajes antigos de La selva Amazónica. In: RIOS, G.M.; MORA CAMARGO, S.; CALVO, C.F. Pueblos y paisajes antiquos de la selva amazónica. Bogotá: Universidade Nacional de Colômbia, 2006. MORAIS, José Luiz de. Perspectivas geoambientais da arqueologia do Paranapanema paulista. 1999. Tese (Livre Docência) - FFLCH/MAE-USP, São Paulo, 1999. MORÁN, Emilio F. A ecologia humana das populações da Amazônia. Petrópolis:Vozes, 1990. (Coleção Ecologia & Ecosofia). NEVES, E. G.AArqueologia daAmazônia Central e as classificações na arqueologiaAmazônica. In: PEREIRA, E.; GUAPINDAIA,V. Arqueologia Amazônica 1: v. 2 Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2010. OLIVEIRA,W.C. de. Caçadores coletores: eles existem. 2007. Dissertação (Mestrado)-USP/MAE, Programa de Pós-Graduação em Arqueologia, São Paulo, 2007. PIPERNO, D.; PEARSALL, D. The origins of agriculture in the lowland neotropics. NewYork:Academic Press, 1998.
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    • 89Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. BIODIESEL E DESENVOLVIMENTO REGIONAL NA AMAZÔNIA LEGAL: CASOS DO ESTADO DO TOCANTINS Marcus Vinícius Alves Finco* Werner Doppler** RESUMO A produção de biocombustíveis tem sido amplamente debatida no Brasil,levando a desenvolver e a implantar, no ano de 2004, o Programa Nacional de Uso e Produção de Biodiesel (PNPB), com a intenção de aumentar a participação de energias renováveis na matriz energética brasileira e, ao mesmo tempo,promover o desenvolvimento regional.Neste contexto,o estudo visa avaliar os impactos do PNPB na produção nacional e regional de biodiesel, bem como na geração de empregos. Para isto, uma gama de indicadores socioeconômicos foram coletados entre os órgãos responsáveis, em nível nacional e regional, bem como na literatura específica. Os resultados preliminares apontam que a logística de distribuição parece ser um obstáculo considerável para o sucesso do programa. A concentração de indústrias de biodiesel na região Centro-Oeste do País, e as grandes distâncias para entregá-lo no Norte do Brasil, torna o preço não competitivo, quando comparado com o diesel fóssil. Os resultados, também, sugerem que o PNPB não está conseguindo promover a integração da agricultura familiar no estado do Tocantins, especialmente por causa da dificuldade estrutural do sector agrícola e as deficiências técnicas e políticas apresentadas pelo mecanismo de incentivos. Palavras-chave: Biodiesel. Desenvolvimento Regional.- Amazônia - Estado do Tocantins. * Economista; PhD em Economia Agrícola pela Universitaet Hohenheim (Alemanha). Professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT). E-mail: finco@uft.edu.br. ** Professor at Institute ofAgricultural Economics (Universitaet Hohenheim,Germany).Email:doppler@uni-hohenheim.de.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 90 BIODIESEL AND REGIONAL DEVELOPMENT IN THE BRAZILIAN AMAZON: CASES FROM TOCANTINS STATE ABSTRACT Biofuel production has been a greatly discussed topic in Brazil. In 2004, these debates lead the country to develop new policies and implement a national Programa Nacional de Uso e Produção de Biodiesel (PNPB) with the intent to increase the share of renewable energy and foster regional development. In this context, the present study aims to assess the impacts of PNPB on national and regional biodiesel production,as well as on job generation.For this purpose,ranges of socio-economic indicators were collected among national and regional stakeholders and specific literature. The preliminary results point out that distribution logistics appears to be a considerable constraint to the success of the PNPB.The concentration of biodiesel industries in the Central-West region of the country, and the large distances to deliver biodiesel in the Northern Brazil make biodiesel prices non-competitive when compared to fossil diesel.The results also suggest that the PNPB is not succeeding in promoting the integration of family agriculture in theTocantins state,especially because of the structural difficulty of the agricultural sector and the technical and political shortcomings presented by the incentives mechanism. Keywords: Biodiesel. Regional Development - Amazônia - Estado do Tocantins.
    • 91Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO A preocupação global com a degradação e a exaustão dos recursos naturais tem levado governosecientistasdetodoomundoaidentificar alternativas e soluções para o problema. Nesse sentido, desde o início do século 21, um debate internacional vem tomando forma, e está presente em todos os encontros sobre desenvolvimento sustentável, a saber: os prós e contras dos biocombustíveis (DUBOIS, 2008; FAO, 2008a, 2008c). Do ponto de vista socioeconômico, os biocombustíveis podem impactar positivamente o desenvolvimento regional e diversificar a utilização do ambiente local, diversificando e promovendo a multi-funcionalidade do espaço rural, onde as explorações agrícolas são utilizadas não, apenas, para a produção agrícola, mas também para o turismo rural e ecológico, por exemplo (UN ENERGY, 2007; FAO, 2008b). Com base nisso, em 2004 o governo brasileiro lançou um programa sobre biocombustíveis,o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), construído com base em um cenário de preços elevados do petróleo,em umademandacrescenteporcombustíveisdefontes renováveis,e da vantagem comparativa do País em recursos naturais (NASS et al., 2007). O PNPB tem como objetivo a produção, implantação e uso do biodiesel com foco no desenvolvimento regional. Além disso,tem vários objetivos específicos como: (i) implantar um programa sustentável, promovendo inclusão social; (ii) garantir preços competitivos,qualidadeeofertadobiocombustível; e, (iii) produção de biodiesel a partir de óleos vegetais de diferentes espécies. Com base no exposto, o presente estudo avalia o PNPB, sua racionalidade e suas implicações para a economia, infraestrutura e geração de trabalho. A análise das partes envolvidas na cadeia produtiva, bem como a espacialidade geográfica das empresas produtoras de biodiesel e a produção de óleo permite uma melhor compreensão da realidade desta atividade no Brasil. O Selo Combustível Social, que é um instrumento do Programa, assim como os leilões nacionais, também, são analisados com o objetivo de melhor compreender o papel da produção de biodiesel na inclusão social, em nível macro. Em adição, o estudo avalia a produção regional,contemplando as empresas de biodiesel, a sua estrutura, logística, produção e expectativas relacionadas ao futuro. A análise regional foi realizada no estado do Tocantins, e é importante e essencial para entender os vetores por trás desta nova atividade, bem como seus impactos no desenvolvimento regional na Amazônia Legal. 2 BIODIESEL NO BRASIL 2.1 O PROGRAMA NACIONAL DE PRODUÇÃO E USO DE BIODIESEL (PNPB) No ano de 2003, um grupo interministerial se reuniu para discutir sobre a viabilidade do uso do biodiesel como fonte alternativa de energia. Um relatório final foi apresentado e os resultados apontaram algumas recomendações, como a incorporação de biodiesel à agenda nacional e a adoção da inclusão social e desenvolvimento regional como princípios de orientação para ações governamentais. Além disso, o relatório, também, recomenda que a política de agroenergia brasileira não deva privilegiar rotas tecnológicas (processos industriais), matéria- prima de base (produção agrícola), e nem escalas de produção industrial. Todas estas
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 92 recomendações foram indicadas com base na ampla gama de alternativas de óleos vegetais no país (REUNIÃO ..., 2003). Nesse sentido, desde que o arcabouço institucional e a estrutura organizacional foram implantados, bem como a utilização de biodiesel e estabelecida a produção no Brasil. Houve a necessidade da formulação de um marco regulatório, executado de acordo com a ordem de execução provisória nº 214, em setembro de 2004, que incluiu oficialmente o biodiesel na matriz energética nacional. Esta delegou competência e direitos para a Agência Nacional de Petróleo,Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para promover,regulamentar,autorizar,contratar e fiscalizar a produção, bem como a comercialização (BRASIL, 2004). Uma vez que a inclusão do biodiesel no balanço energético nacional foi realizada, o governo lançou o PNPB em dezembro de 2004. Assim, pode-se observar que o PNPB foi pensado e construído por diferentes setores do governo.Ao mesmo tempo,segue,em nível macro, o cenário internacional de crescente demanda por fontes de energia renováveis, bem como sobre o potencial brasileiro para suprir essa demanda. Em nível micro, o Programa procura gerar emprego e renda nas áreas rurais, principalmente através da integração de agricultores familiares na cadeia do biodiesel, bem como a diminuição das disparidades regionais no País.Em outras palavras, propõe a implantação sustentável da produção, com destaque para a inclusão social e o desenvolvimento regional, mas considerando a preservação dos aspectos ambientais e culturais. O PNPB reforça a importância de diferentes óleos vegetais como fontes de matéria-prima para produção de biodiesel com o objetivo de evitar uma sobre-exploração, trazendo também a oportunidade para a inclusão social de agricultores familiares em diversas regiões do Brasil. Em resumo, o PNPB tem uma diferença crucial para os outros programas de biodiesel criados durante a década de 1970 e 1980 no País. Além da produção e uso do biodisel, o Programa se concentra, principalmente na inclusão social e,também,leva em conta os aspectos ambientais da produção. Devido à importância do objetivo da inclusão social, o governo federal estabeleceu um conjunto de instrumentos diferentes com o objetivo de atingir esta meta, como isenções fiscais, subsídio financeiro, linhas de crédito específicas e, em especial, o Selo Combustível Social (SCS). 2.2 O SELO COMBUSTÍVEL SOCIAL (SCS) Junto com a introdução oficial e do reconhecimento do biodiesel como uma entidade corporativa na matriz energética nacional, o governo brasileiro, também criou o SCS através do Decreto nº 5.297, de 06/12/2004 (BRASIL, 2004). O SCS é um certificado dado às empresas de biodiesel que adquirem parte da matéria- prima de agricultores familiares para produzi-lo. De acordo com a Instrução Normativa nº 1, de 19/02/2009 (BRASIL, 2009) empresas produtoras de biodiesel devem adquirir um mínimo de 10% da matéria-prima da agricultura familiar no Norte e Centro-Oeste, e um mínimo de 30% no Sudeste, Sul e Nordeste do Brasil. Além disso, a empresa de biodisel que comprar parte da matéria-prima da agricultura familiar têm direito a isenção de impostos para a produção de biodiesel (PIS/PASEP e COFINS), instituída pela Lei nº 11.116, de 18/05/2005 (BRASIL, 2005). As empresas de biodiesel que possuem o SCS também têm facilidades para
    • 93Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. obter o apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exemplo. O SCS é monitorado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e para obter, assim como mantê-lo, a empresa de biodiesel deve estabelecer contratos com agricultores familiares e a garantia, ex ante, do preço de mercado ou preço mínimo (média dos últimos 36 meses), venda e condições de distribuição e fornecimento de sementes,bem como assistência técnica. Nas Tabelas 1 e 2, pode-se observar a tributação da produção no Brasil, bem como as diferenças entre as tributações do biodiesel, da gasolina, do diesel fóssil e do etanol. Tabela 1 - Taxação do biodiesel no Brasil. Fonte: Garcez;Vianna (2009). Nota: * referente às empresas detentoras do SCS. N = Norte; NE = Nordeste; S = Sul; SE = Sudeste; CO = Centro-Oeste; Sar = semi-árido. Como se pode observar, o biodiesel produzido a partir de matérias-primas cultivadas por agricultores familiares no Norte, Nordeste e nas regiões semi-áridas do País não têm incidência de tributação, entretanto nas mesmas condições em outras regiões do Brasil, têm uma tributação de cerca de R$ 70,00 por m3 de biodiesel.A menor tributação ou mesmo a falta de tributação do biodiesel que foi produzido a partir de matérias- primas cultivadas por agricultores familiares está baseada pela meta da inclusão social do PNPB. Além disso, reduzir a tributação do biodiesel produzido no Norte, Nordeste e semi-árido está relacionada ao fato de que são as regiões mais pobres do País. Desde 2004, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita da região Nordeste foi, aproximadamente, a metade da média nacional, enquanto na região Norte ficou cerca de 35% menor que a média nacional (HOLANDA, 2003). Como se pode notar na Tabela 1, sempre que o biodiesel é produzido sem a participação da agricultura familiar, há aumento de tributação. Com isso, o objetivo do governo brasileiro é estimular a produção na Região Norte (caracterizada, principalmente, pela floresta amazônica e cerrado), e no Nordeste do País (que compreende o bioma cerrado e mata atlântica), em especial através da produção de Ricinus communis (mamoneira) e Elaeis guineensis (dendezeiro) (GARCEZ; VIANNA, 2009). Esses incentivos não se aplicam a soja cultivada nessas regiões. Mesmo assim, a tributação é menor do que a da gasolina e do diesel fóssil, e algo semelhante ao etanol (que também tem isenções fiscais, por ser considerada uma fonte renovável de energia, como biodiesel).
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 94 Fonte: Garcez; Vianna (2009). Nota: * intervenção de domínio econômico Como se observa naTabela 2, a tributação (CIDE + PIS / PASEP + COFINS) é maior para a gasolina e o diesel, mesmo quando comparada a do biodiesel não produzido a partir de matérias- primas cultivadas por agricultores familiares. Pode-se notar, também, que a tributação do etanol é semelhante ao biodiesel. É interessante observar que as regras e normas para a produção de ambos os combustíveis renováveis são incorporados em diversos programas nacionais (produção de etanol se baseia no Programa Nacional do Álcool, o chamado Pró-Álcool), as tributações têm tendências semelhantes ou, em outras palavras, ambos os combustíveis renováveis obtêm isenções fiscais, quando comparados às suas contrapartes fósseis. Tabela 2 - Taxação da gasolina, diesel e etanol no Brasil. 2.3 LEILÕES DE BIODIESEL NACIONAL A Lei nº 11.097 (BRASIL, 2005) tornou o mercado de biodiesel obrigatório visando regulamentar sua comercialização no País. O Ministério de Minas e Energia (MME) estabeleceu as diretrizes para os leilões nacionais de aquisição de biodiesel (ordem presidencial nº 483 de 10/03/2005). Neste contexto, o leilão nacional foi concebido como um mecanismo para incluir o novo combustível renovável na matriz energética nacional, bem como resolver os inúmeros problemas de fornecimento, logística e distribuição. Com base nisso, o leilão nacional está enquadrado sob a égide de um concurso público organizado pela ANP, dividido em duas fases, onde: (a) a primeira composta por 80% do total de biodiesel comercializado e é dedicada às empresas que possuem o SCS; e (b) a segunda compreende os restantes 20% e todas as empresas de biodiesel podem participar,ou seja, aquelas que possuem ou não o SCS. Para cada leilão está previsto: (i) um anúncio que informa o volume de aquisição de biodiesel e entrega, bem como as condições de participação e o credenciamento do produtor; (ii) o envio eletrônico da proposta de preços,ou seja, a ANP apresenta um preço máximo por unidade de biodiesel, ex ante, que é a referência para os lances de produtores durante o leilão. Assim, as empresas têm a oportunidade de oferecer uma proposta, especificando, também, a quantidade e o local onde o produto deve ser entregue
    • 95Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 2.4 A COMERCIALIZAÇÃO DE BIODIESEL Após o pedido de execução provisória nº 214 (13/09/2004),aANP iniciou uma consultoria pública com o objetivo de estabelecer as especificações técnicas relativas aos percentuais de mistura de biodiesel ao diesel fóssil. Na época, a Agência chegou ao consenso de que uma mistura de biodiesel voluntária de 2% ao diesel fóssil, o chamado B2, seria apropriada para iniciar o programa. No entanto, quando a ordem executiva provisória tornou-se a Lei nº 11.097 (BRASIL, 2005), o governo federal escolheu a mistura obrigatória ao invés de voluntária. É importante dizer que as percentagens bem como os prazos envolvidos no processo podem ser alteradas a qualquer momento, de acordo com a disponibilidade de matéria-prima, capacidade industrial, e a participação da agricultura familiar na cadeia do biodiesel. Neste contexto, o governo federal estabeleceu que, antes do ano de 2008, todo o biodiesel poderia, voluntariamente, conter 2% de biodiesel, que se tornou obrigatório em janeiro de 2008. Já no ano de 2008, o percentual passou para 3% (B3) e para 4% (B4) em 2009 e, finalmente, chegou a 5% (B5) em 2010. Com o B2 no ano de 2007, houve uma demanda de cerca de 800 milhões de litros de biodiesel, volume que pode ultrapassar 2,3 bilhões de litros,em 2010,com o B5.Os impactos econômicos em todo o País podem ser vistos em números divulgados pelo Governo Federal, especialmente sobre a balança de pagamentos nacional, uma vez que o Brasil está a diminuir a importação de diesel fóssil. No entanto, os impactos em setores sociais e ambientais não são claros, porque a maior parte da produção de biodiesel é realizada a partir da soja e da gordura animal, ambas produzidas pela agricultura de larga escala. (GARCEZ;VIANNA,2009).Aquela que oferecer o menor preço para o respectivo volume de biodiesel é a vencedora e, portanto, é a responsável por produzir o combustível renovável no prazo estabelecido pela ANP. É importante dizer que, até o presente momento, a Petrobras é o único comprador de biodiesel durante os leilões nacionais, caracterizando assim uma situação de monopsônio. Depois de adquirido, a Petrobras permite aos distribuidores buscá-lo nas indústrias. Vendido em leilões nacionais é considerado free on board (FOB) significando que os distribuidores devem assumir a responsabilidade pelos custos do frete. Em seguida, a mistura de biodiesel ao diesel é feita pelas distribuidoras de combustível, mas as refinarias também estão autorizadas a fazê-lo e entregar a respectiva mistura “B” (no momento o B5) para as distribuidoras. Outra questão importante é que o combustível renovável precisa seguir normas de especificação técnicas estabelecidas pelaANP.Os produtores de biodiesel na comercialização de seu produto devem apresentar, a posteriori, o certificado de qualidade em conformidade com as normas nacionais. No entanto, como se pode ver na próxima seção, o PNPB também enfrenta problemas, principalmente quanto à diversificação e oferta de matéria-prima ou primária.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 96 No ano de 2009, haviam 64 indústrias autorizadas pelaANP para produzir biodiesel no País e, destas, 49 com permissão para comercializar o produto no Brasil. Com base nisso, a capacidade total instalada no ano de 2009 foi estimada em 4.628 milhões de m3 por ano,o que equivale a cerca de 50% da demanda necessária para a mistura de 5% de biodiesel ao diesel fóssil, o chamado B5 (cerca de 2,6 milhões de m3 ). 3 BIODIESEL NO BRASIL: SITUAÇÃO ATUAL Esta seção tem como objetivo apresentar o panorama da indústria brasileira, bem como o cenário atual do biodiesel nacional Após 6 anos de implementação do PNPB, alguns resultados são perceptíveis, especialmente aqueles relacionados aos setores de produção e comercialização. Com base nisso, a capacidade real, bem como o potencial de produção de biodiesel é analisada.Também, a localização espacial e a capacidade instalada das indústrias são avaliadas, permitindo que se tenha um quadro mais amplo da produção e comercialização de biodiesel nacional e, portanto, possibilitando estimar os impactos na inclusão social e geração de empregos, em nível macro. 3.1 COMERCIALIZAÇÃO E INDÚSTRIAS DE BIODIESEL Tabela 3 - Capacidade de produção de biodiesel no Brasil (2009). Fonte: ANP (2010). Nota: * baseado em 300 dias/ano. N = Norte; NE = Nordeste; S = Sul; SE = Sudeste; CO = Centro-Oeste. Como se pode ver na Tabela 3, há uma concentração de indústrias de biodiesel no Centro- OesteeSudestedoBrasil(29e14respectivamente). Esse cenário reflete a situação atual de localização espacial de unidades de produção, que estão mais próximas de unidades de exploração agrícola de oleaginosas no caso da região Centro-Oeste,e mais pertodeunidadesdedistribuição,nocasodaregião Sudeste. No entanto, quando se considera a capacidade anual de produção de biodiesel, o Sudeste é de longe a região que apresenta o maior volume: cerca de 1.780 bilhões l/ano.A região Sul, embora compreenda apenas sete indústrias de biodiesel, é responsável por 20,1% da capacidade de produção anual total, o mesmo montante que a região Centro-Oeste. Este número mostra que as
    • 97Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. unidades de produção na região Sul são maiores daquelas instaladas na região Centro-Oeste, em média. Quando se considera os dados longitudinais, existe uma clareza de que há uma concentração da capacidade de produção de biodiesel na região Centro Oeste. Não apenas a capacidade anual, mas também o número absoluto de unidades de produção aumentou, consideravelmente, na região durante o período entre 2007 e 2009, em comparação com outras regiões.Uma das explicações mais razoáveis para essa tendência é o fato desta região ser responsável pela maior parte do agronegócio no País,especialmente da soja,que pode ter um forte impacto nas decisões sobre a localização espacial das indústrias, pois a soja é o óleo mais usado para produzir biodiesel no Brasil (ANP, 2010). Assim, as informações contidas na Tabela 3 são corroboradas pelo Gráfico 1, onde a região Norte é responsável pelo menor número de indústrias, bem como a menor capacidade de produção de biodiesel, embora essa seja a maior (em território) e uma das regiões mais pobres do País, em relação ao Produto Interno Bruto (PIB)(FINCO, RODRIGUES; RODRIGUES, 2006). Portanto, com base na concentração de indústrias de biodiesel no País,deve-se destacar: uma vez que as regiões Norte e Nordeste são consideradas as mais pobres, a concentração do setor de biodiesel no Sul, Sudeste e especialmente no Centro-Oeste pode comprometer um dos objetivos do PNPB, ou seja, a diminuição das disparidades regionais. Gráfico - 1 (a) capacidade instalada de produção de biodiesel; e (b) número de indústrias de biodiesel no Brasil Fonte: ANP (2010). Nota: N = Norte; NE = Nordeste; S = Sul; SE = Sudeste; CW = Centro-Oeste. Outra questão interessante a respeito da produção e comercialização de biodiesel é que a capacidade atual no País é muito maior do que o biodiesel comercializado nos leilões nacionais. Como pode ser observado no Gráfico 2 a capacidade,em 2009,é consideravelmente,maior do que o produto vendido nos leilões nacionais. De acordo com os resultados dos leilões nacionais de número 13, 14, 15 e 16, ocorridos nesse ano, cerca de 1.810 bilhões de litros de biodiesel foram vendidos. Contudo, durante o mesmo período, a capacidade de produção de biodiesel instalada no Brasil era de 4.628 bilhões de litros, ou seja, mais que o dobro do biodiesel comercializado no País.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 98 No Gráfico 2b,por exemplo,observa-se que há uma diminuição na participação das regiões Sul e Nordeste nos leilões nacionais, bem como um aumento absoluto na participação da Região Centro-Oeste. Este cenário vai ao encontro com os números mostrados anteriormente,e,portanto, de aumento da concentração de indústrias no Centro-Oeste do Brasil.A regiões Sul e Nordeste, também, apresentam diminuição da participação nos leilões nacionais. Enquanto, a Norte está aumentando, mesmo que de forma tímida, na comercialização de biodiesel nos leilões nacionais. Gráfico 2 - (a) capacidade instalada vis-à-vis o biodiesel vendido nos leilões nacionais (2009); e (b) participação das regiões de acordo com o biodiesel vendido nos leilões Fonte: ANP (2010). Nota: N = Norte; NE = Nordeste; S = Sul; SE = Sudeste; CW = Centro-Oeste. 3.2 RESULTADOS DOS LEILÕES DE BIODIESEL NACIONAL Os leilões de biodiesel nacional têm ocorrido desde 2005, o principal objetivo deles é gerar um mercado e,assim,estimular à produção em quantidade suficiente que permita às refinarias e distribuidoras a necessária mistura de biodiesel ao diesel fóssil.Com base nisso,eles persistem no objetivo de assegurar que todo o diesel fóssil comercializado no País tenha a percentagem de biodiesel estabelecida pela legislação nacional. Neste contexto, até o final de 2009, 16 leilões de biodiesel haviam sido realizados pela ANP. Cerca de 5 indústrias participaram do primeiro, em 2005, e mais de 30 durante o de número 16, no mês de novembro de 2009. O volume do produto vendido em leilões nacionais também aumentou. Antes do quinto, a mistura de biodiesel ao diesel fóssil não era obrigatória e, assim, os leilões foram realizados para manter os estoques nacionais. No entanto, a partir de 2008 a mistura do biodiesel passou a ser obrigatória, e todo o diesel fóssil comercializado no País teve de conter certa percentagem de biodiesel. A quantia monetária atingiu R$ 1,3 bilhão durante o último leilão de 2009 (décimo sexto), refletindo, portanto, a importância econômica do setor de biodiesel. A participação das empresas nos cinco primeiros leilões foi condicionada, apenas, aquelas que detinham o SCS. Os picos entre o
    • 99Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Fonte: ANP (2010). Além disso, há uma tendência clara do aumento do número de indústrias que vendem biodiesel em leilões nacionais (Gráfico 3a). Alguma volatilidade pode ser vista no volume comercializado no leilão,e que pode ser explicado pelo menos em parte, pelo preço de referência (benchmark) estabelecido pela ANP vis-à-vis o preço do óleo vegetal. Quanto ao preço do biodiesel nos leilões nacionais, deve-se ter em mente queANP define ex ante,um preço máximo que é o de referência para os lances de produtores durante o leilão. Portanto, antes de cada leilão, a ANP em conjunto com o MME e o MDA,definem o preço de referência que é estabelecido com base nos custos das sementes (é normalmente utilizado o da soja), da extração, bem como dos custos de distribuição. Segundo a ANP, o preço de referência é geralmente maior do que o preço de mercado, uma vez que a entrega do biodiesel é levada em consideração. Com base nisso, o Gráfico 4 demonstra a volatilidade do preço final do biodiesel vendido nos leilões. Como se observa,o preço aumentou, especialmente entre o quinto e o décimo (principalmente no ano de 2008), o que é pelo menos em parte, explicado pelo aumento do preço do óleo de soja. Dado que os custos com matérias-primas contabilizam cerca de 80% dos custos totais de produção, em média, o preço do biodiesel segue a trajetória do óleo nas sementes. Como a soja é o óleo vegetal mais utilizado para produção de biodiesel no Brasil, o preço desta leva o do biodiesel à grande oscilação,que variou de R$ 2,00 até R$ 3,00 por litro de durante os anos de 2005 e 2009. primeiro e décimo leilão são explicados pelo fato de que em um único deles, somente empresas detentoras do SCS puderam participar,e no leilão seguinte todas as empresas (mesmo aquelas que não detinham o SCS). No entanto, a partir do leilão de número 12 em diante, o mesmo leilão foi dividido em duas fases: a primeira com, apenas, empresas detentoras do SCS e uma segunda fase,onde todas as empresas pudessem participar. Portanto, como se pode observar no Gráfico 3b, não houve mais picos extremos ocorridos nos leilões nacionais. Gráfico 3 - (a) número de empresas que venderam biodiesel nos leilões; e (b) volume de biodiesel comercializado nos leilões
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 100 Fonte: ANP (2010). O ágio, que se refere à diferença entre os preços de referência estabelecidos pela ANP e o preço final do biodiesel vendido nos leilões, é extremamente volátil e atingiu a cifra de 22% durante o sexto e sétimo em 2007. No entanto, a relação entre preço de referência, estratégias e preçodemercadodoóleodesoja,temumimpacto sobre a produção de biodiesel,uma vez que,ainda, há uma pequena taxa de inadimplência do lado da indústria, ou seja, alguns setores após a venda de um volume específico do biodiesel durante o leilão não entregaram o combustível dentro do prazo previamente estabelecido. Algumas explicações podem estar ligadas à baixa produtividade agrícola e ao não cumprimento do contrato por parte dos produtores, os quais preferem vender a produção para as indústrias química e farmacêutica, por exemplo. No entanto,uma questão importante a ser observada nos leilões nacionais é que o setor agrícola é constantemente ignorado,em especial no tocante à produção da agricultura familiar. O volume de biodiesel em todos os leilões nacionais é exclusivamente relacionado com a capacidade industrial de biodiesel das empresas e, portanto, não leva em conta a capacidade de produção do setor agrícola. Em outras palavras, a capacidade da agricultura familiar no fornecimento de matéria-prima necessária para o cumprimento do volume negociado (de acordo com as metas estabelecidas pelo PNPB) não é considerado pelos outros agentes envolvidos no processo. Neste contexto,pode-se ver claramente que entre as espécies de óleos vegetais, a soja é responsável em média por 80% da produção nacional de biodiesel, enquanto a mamona, pinhão manso, bem como outras espécies de óleo vegetal que podem ser cultivada por agricultores familiares são responsáveis, no total, por menos de 10% da produção nacional de biodiesel. Se considerarmos os últimos quatro anos,por exemplo,a soja aparece como a principal fonte de óleo vegetal (80% em média), seguido de gordura animal (cerca de 10% em média) e de outras espécies (10% em média). Considerando-se o estabelecido no PNPB que pelo menos 30% da matéria-prima utilizada para produzir biodiesel devem vir da agricultura familiar no Sul, Sudeste e Nordeste do País, e um mínimo de 10% do Norte e Centro-Oeste, percebe-se em nível macro, ou seja, nacional, o Programa não está cumprindo um dos seus objetivos principais,nomeadamente a promoção da inclusão social. Desde que a soja é a Gráfico 4 - (a) preço de venda de biodiesel nos leilões; e (b) ágio praticado nos leilões
    • 101Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. oleaginosa mais usada para produzir biodiesel, e normalmente é cultivada por grandes agricultores, o PNPB está longe de ser bem- sucedido quanto a diversificação de matéria- prima utilizada para produzir biodiesel. Culturas alternativas como a mamona, ainda apresentam uma quota simbólica na produção nacional de biodiesel, com participação inferior a 2%. O pinhão manso e dendê também podem ser usados como óleo vegetal e, consequentemente, como outras alternativas. No entanto,até agora,o pinhão não apresentou escala de produção, no caso do dendê a densidade de energia é alta o suficiente para dar rentabilidade sem a necessidade de políticas fiscais ou subsídios públicos, mas há um risco imperioso de desmatamento da floresta na Amazônia Legal. Portanto, considerando que o volume de biodiesel vendidos em leilões nacionais em 2009 atingiu 1,810 bilhão de litros, pode-se estimar que cerca de 1,448 bilhão de litros foram produzidos a partir de óleo de soja, 181 milhões de litros a partir de gordura animal, e cerca de 181 milhões de litros de outras matérias-prima como a mamona,por exemplo. No presente estudo,os 10% da produção global de biodiesel são representadas pela mamona, uma vez que de acordo com o governo nacional ela é o principal óleo vegetal produzido por agricultores familiares preconizada pelo PNPB (PROGRAMA ..., 2005).Assim, 181 milhões de litros de biodiesel produzidos a partir de desta oleaginosa requerem cerca de 450 mil t de mamona, que ocupam uma área entre 300 e 900 mil ha, dependendo da produtividade da matéria-prima. Como a mamona ocupava uma área de 156 mil ha em 2008 (BIODIESELBR, 2009), e tem uma produção estimada em 120 milhões de t, em média (FAOSTAT, 2009), a mamona atingiu uma produtividade média de 769 kg/ha, no ano de 2008. Nesse contexto e com base nessa produtividade, cerca de 580 mil ha são necessários para cultivar mamona visando o cumprimento das metas do PNPB, promovendo assim a inclusão social (o que é virtualmente improvável de ocorrer). A situação envolvendo o óleo de mamona na região Norte, a qual provavelmente vai afetar as empresas regionais de biodiesel no médio e longo prazo, reflete as escolhas feitas pelo governo nacional na seleção de uma única espécie de oleaginosa de pequena escala para a produção de biodiesel.Além disso,de acordo com o MDA,o Brasil tem no momento cerca de 80.000 agricultores familiares envolvidos na produção de biodiesel. Este valor é consideravelmente inferior á inclusão de 200 mil agricultores familiares previstos pelo governo brasileiro no início de 2005.Diante disto,pode-se observar que em nível macro,o PNPB não está sendo eficaz na promoção da inclusão social. 4 ANÁLISE REGIONAL:A PRODUÇÃO DE BIODIESEL NO ESTADO DO TOCANTINS Durante o ano de 2009, o estado do Tocantins foi considerado o oitavo maior produtor de biodiesel no Brasil. Além disso, quanto à capacidade de produção autorizada pela ANP, foi classificado na 7ª posição, com mais de 385 m3 / dia. Para se ter uma ideia de comparação, o primeiro lugar foi Mato Grosso, responsável por mais de 2.500 m3 /dia de capacidade produtiva. Na época em que a pesquisa foi realizada, no ano de 2008, apenas duas empresas de biodiesel estavam instaladas no estado, ou seja, a Brasil Ecodiesel e Biotins Energia (até 2010, eram as mesmas duas empresas). Ambas comercializam biodiesel em leilões nacionais regularmente, e mantêm contratos com agricultores familiares visando à manutenção do Selo Combustível Social.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 102 4.1 A PRODUÇÃO DE BIODIESEL E O PNPB O Estado do Tocantins foi responsável por mais de 38.580 milhões de litros de biodiesel vendido em leilões nacionais durante o ano de 2009. Desses, a Brasil Ecodiesel por 34 milhões de litros, e a Biotins Energia por 4,5 milhões de litros de biodiesel. Como está situado na região Norte as empresas localizadas no estado que visam produzir e vender biodiesel nos leilões nacionais devem seguir as normas estabelecidas pelo SCS e, portanto, usar pelo menos 10% da matéria- prima oriunda da agricultura familiar. Com base nisso, a Brasil Ecodiesel precisa produzir pelo menos 3,4 milhões de litros de biodiesel a partir de matéria-prima primária cultivadas por agricultores familiares. Este cenário exige, aproximadamente, 6,6 mil t de bagas de mamona. Considerando que a sua produtividade varia entre 0,5 e 1,5 t /ha, são necessários entre 13,3 mil e 4,4 mil ha, respectivamente, para atender a demanda da empresa de 10% de matéria-prima oriunda da agricultura familiar. Além disso, tendo em conta que a produtividade da produção de mamona na região foi de 127 kg/ha (dados do inquérito realizado em 2008), em média, mais de 52 mil ha são necessários para cultivar mamona visando atender a demanda da empresa para matéria-prima com base na produção da agricultura familiar. Portanto, considerando que hoje, apenas, cerca de 600 ha são cultivados com mamona por agricultores familiares no estado de Tocantins, pode-se concluir ser altamente improvável a capacidade da Brasil Ecodiesel satisfazer as condições preconizadas pelo SCS. Este cenário real sugere que,em nível regional,a empresa não cumpra os objetivos do PNPB no que tange a meta de inclusão social. Tendência semelhante pode ser observada no caso da Biotins Energia porque a proporção da sua produção durante os leilões nacionais no ano de 2009, a empresa deve produzir pelo menos 450 mil litros de biodiesel a partir de matéria-prima cultivada por agricultores familiares. Este cenário exige mais de 12,6 mil t de sementes de pinhão manso.Considerando que a sua produtividade varia de 2 a 12 ton/ha, são necessários entre 6.000 e 1.000 de ha, respectivamente, no estado do Tocantins para atender a demanda da empresa de 10% da matéria-prima produzida pela agricultura familiar. No entanto,levando em conta que a maior parte dos agricultores familiares que mantêm contratos com a Biotins iniciou a atividade no ano de 2007, uma estimativa da produtividade do pinhão manso no segundo ano (2009) foi feita e,portanto,três cenários diferentes estabelecidos: (i) o primeiro (ou cenário atual), reflete a produtividade do segundo ano após a baixa produtividade observada no primeiro ano (2008), que foi extremamente baixa, em especial devido às condições naturais da região em questão; (ii) o segundo (ou situação regular) reflete que a produtividade pode ser considerada a produtividade mínima esperada pela empresa na região e; (iii) o terceiro (ou cenário otimista) é baseado na relação entre a melhor produtividade alcançada no primeiro ano do ciclo do pinhão manso na região, sobre a produção mínima esperada pela empresa.
    • 103Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Fonte: resultados da pesquisa (2010). Assim, considerando a produtividade no segundo ano (2009) o cenário atual fica em torno de 542 kg,/ha; contra 1.280 kg/ha, no cenário regular e 1.822 kg/ha no cenário otimista. Com base nisso, visando atender a demanda de 10% de matéria-prima oriunda da agricultura familiar, mais de 23 mil ha são necessários para cultivar pinhão manso: no primeiro cenário; mais de 9 mil ha no segundo cenário; mais de 6.000 ha no terceiro cenário. Considerando que, atualmente, apenas cerca de 500 ha estão sendo cultivados com pinhão manso por pequenos agricultores no estado deTocantins,pode-se prever que a Biotins Energia não conseguirá as metas preconizadas pelo SCS. Mesmo com o aumento da produtividade, como se pode observar na Tabela 4, a quantidade de hectares necessários tem de aumentar, já que a capacidade de produção da empresa, também, será incrementada. Nesse sentido,as duas empresas,em nível regional,não devem corroborar o PNPB no que tange para o cumprimento da meta de inclusão social. Como mencionado anteriormente, cerca de 80% da produção nacional de biodiesel é realizada através do óleo de soja.Assim sendo, seguindo a tendência, o estado do Tocantins é responsável pela produção de 27,2 milhões de litros de biodiesel através do óleo de soja no caso da Brasil Ecodiesel e, em média, de 3,6 milhões de litros no caso da Biotins Energia. Ou seja, o volume total de biodiesel produzido a partir de óleo de soja soma mais de 30,8 milhões de litros. Esta situação exige mais de 159 mil t do grão, o que requer entre 79 mil ha e 53 mil ha, considerando a produtividade de 2 a 3 t/ha, respectivamente. Estima-se que a soja no estado ocupa uma área de 344 mil hectares, e foi responsável por mais de 665 mil t de grãos em 2008 (TOCANTINS, 2009), com produtividade em torno de 2 t/ha, pode-se ter certeza de que o volume de grão de soja produzido no estado é mais que suficiente para abastecer as empresas de biodiesel para a produção de biodiesel. Tabela 4 - Produtividade do pinhão manso do Estado do Tocantins. 4.2 LOGÍSTICA Outro obstáculo à produção de biodiesel está relacionado com a logística, principalmente em relação ao fornecimento de insumos, bem como à distribuição de produtos e subprodutos em todo o estado doTocantins.O armazenamento e o transporte podem ser considerados os principais entraves na região Norte do País, sobretudo devido à falta de assistência governamental, assim como questões geográficas relacionadas à dispersão espacial dos agricultores
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 104 familiares. Essas características podem, em alguns casos, comprometer a produção de biodiesel nesta região do País. Neste contexto, visando à superação desses problemas, o setor de biodiesel no norte do Brasil deve procurar recolher a matéria-prima oriunda da agricultura familiar o mais rápido possível a fim de reduzir os custos de movimentação e, ao mesmo tempo evitar qualquer tipo de alteração química da matéria- prima. Portanto, o desafio para toda a indústria responsável pela movimentação de matérias- primas nesta região está relacionado à dispersão espacial da produção da agricultura familiar. No caso da Biotins, por exemplo, situada na cidade de Paraíso do Tocantins a cerca de 70 km de Palmas (oeste), capital do estado doTocantins.A unidade de produção fica às margens da rodovia BR 153 (Belém-Brasília), principal estrada federal no estado e,portanto,facilita o fluxo de insumos, produtos e subprodutos. A Biotins Energia, também, está situada nas margens da Ferrovia Norte-Sul, que liga o sul ao norte do País (deverá estar concluída em 2012). Situação similar é observada no caso da Brasil Ecodiesel. A unidade de produção está situada na cidade de Porto Nacional, cerca de 60 km da cidade de Palmas (norte), e, também, tem uma localização privilegiada, pois fica nas proximidades da hidrovia,bem como da Ferrovia Norte-Sul. Ambas as empresas (Brasil Ecodiesel e Biotins Energia), embora com os obstáculos relacionados ao transporte da produção oriunda da agricultura familiar, têm uma estrutura e um aporte logístico privilegiado, especialmente quanto ao transporte de biodiesel para outros estados do País, ou mesmo para outros países via Porto de Itaqui, no estado do Maranhão. As várias formas de transporte dentro do estado, tais como rios e ferrovias, fazem do Tocantins um “hot spot” para produção de biodiesel no Brasil. 4.3 GERAÇÃO DE EMPREGOS Além da inclusão social, outro objetivo do PNPB é a geração de emprego. Neste contexto,o presente estudo apresenta também uma análise sobre a geração de empregos promovida pela produção de biodiesel regional. As espécies de grande escala da agricultura, como soja e girassol geram, em média, 0,05 empregos/ha, contra 0,5 no caso de mamona e pinhão manso, por exemplo,ambas consideradas espécies agrícolas oleaginosas de pequena escala. Em média, a produção de soja e girassol necessita de 20 ha para empregar uma família, contra apenas 2 ha no caso da mamona e do pinhão manso. Com base nisso,foi estimado o número de empregos atuais, bem como os possíveis postos de trabalho que podem ser gerados pelas atividades de semente oleaginosas no estado de Tocantins, considerando tanto a familiar como a agricultura empresarial. Como mencionado, a área atual ocupada pelo pinhão manso no estado fica ao redor de 500 ha, considerando a agricultura familiar, e 4 mil ha, considerando a agricultura comercial. Assim, a pequena produção de pinhão manso está gerando 250 empregos, em média, contra 2.000 empregos gerados pela produção de grande escala no Tocantins, em média. A mamona,por outro lado,apresenta cerca de 600 ha ocupados por pequenos agricultores, o que levou, em média, a 300 postos de trabalho gerados.Ela não é produzida por agricultores em grande escala no estado, não há geração de
    • 105Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Fonte: resultados da pesquisa (2010). Uma distância de 125 km foi estabelecida como limite para que um assentamento rural fosse considerado próximo a uma dada empresa de biodiesel. Entre 126 e 250 km como intermediária e o localizado acima de 250 km, também, foi levado em consideração, como relativamente distante. Portanto, todos os assentamentos rurais no estado do Tocantins foram analisados quanto à distância de uma dada empresa de biodiesel. Com base nisso, como se pode observar naTabela 6,cerca de 1.900 famílias estão situadas próximo da empresa Brasil Ecodiesel, e cerca de 1.600 ficam próximas da empresa Biotins Energia. Assim, estima-se que mais de 7.000 ha possa ser utilizado para o cultivo de matéria- prima oriunda da agricultura familiar a fim de ser usado para a produção de biodiesel no estado, a um menor custo de transporte e logística.Além disso, considerando uma produtividade regular do pinhão manso e da mamona e incluindo as demais famílias que estão localizados em uma distância intermediária das empresas, pode-se concluir que a área necessária para atender a demanda de 10% de matéria-prima oriunda da agricultura familiar defendida pelo PNPB e, consequentemente, pelo SCS é efetivada com sucesso no Tocantins. empregos a partir deste óleo vegetal, quando se considera a agricultura empresarial. Existe cerca de 100 mil ha de soja, responsável pela geração em média de 4.750 empregos, ou seja, se a soja produzida noTocantins fosse usada para produzir biodiesel, iria gerar cerca de 5 mil empregos. No entanto, existe um enorme potencial para geração de empregos no estado, especialmente quanto ao setor da agricultura familiar.Baseados nisso,todos os assentamentos rurais noTocantins foram avaliados e o potencial de geração de emprego foi estimado (Tabela 5). Tabela 5 - Geração de emprego devido à produção de biodiesel no Tocantins.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 106 Fonte: estimativa baseda em INCRA (2010). 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Com base na discussão, observa-se que uma das desvantagens da produção de biodiesel, no momento,é a baixa diversificação de espécies vegetais oleaginosas na produção global do produto no País.A logística de distribuição parece ser um obstáculo considerável para o sucesso do PNPB.A concentração de indústrias de biodiesel na Região Centro-Oeste, e as grandes distâncias para sua entrega no Norte, tornam o preço não competitivo, quando comparado com o diesel fóssil. Além disso, como o principal meio de transporte no País é a rodovia, o diesel fóssil é utilizado para o transporte de biodiesel, e, portanto, não apenas os custos, mas também o equilíbrio energético do combustível renovável se torna mais baixo ou mesmo negativo. Uma solução poderia ser o investimento em novas indústrias de biodiesel nesta região com o objetivo de reduzir os custos de logística. Outra solução poderia ser a regionalização das metas de mistura de biodiesel, ou seja, cada região é responsável pela aplicação do percentual obrigatório de biodiesel ao diesel fóssil com o objetivo de minimizar os elevados custos de distribuição em um País com dimensões continentais como o Brasil. Além disso, a falta de um marco de regulação atualizado a respeito da produção de biodiesel no Brasil é um dos principais entraves para o crescimento do setor. As diferentes alíquotas do ICMS afeta os produtores, já que é difícil competir com as indústrias localizadas em uma região com melhores alíquotas. Outra questão importante é a comercialização de biodiesel. Os leilões nacionais foram um instrumento essencial para inicializar este mercado no Brasil, mas após 6 anos da implantação do PNPB, o livre mercado possibilitaria a melhor maneira de equilibrar a demanda e a oferta do biocombustível no País. Neste contexto, os distribuidores poderiam comprar, diretamente, da indústria e não mais da Petrobras,oúnicocompradornosleilõesnacionais. Embora o Brasil tenha vocação para produzir energia renovável, o país ainda não Tabela 6 - Potencial de geração de emprego na agricultura familiar no Tocantins.
    • 107Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. apresenta uma escala que garanta a sustentabilidade do PNPB. Ao mesmo tempo, confiando apenas em culturas alternativas,como mamona ou pinhão manso, para aumento da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel fóssil, poderia comprometer todo o programa.Por outro lado, a disponibilidade de óleo de soja depende de mercados internacionais e, portanto, um aumento no preço, nestes mercados, faz do biodiesel menos competitivo. Com base nisso, uma solução poderia ser a indústria vertical integrada, a qual inclui o setor agrícola e industrial, considerada essencial para a competitividade do setor de biodiesel.Como,em média, 80% dos custos totais de biodiesel estão relacionados com a matéria-prima ou primária, o cluster vertical é um processo novo para este setor.No entanto,deve-se ter em mente que uma unidade de extração corresponde a grandes investimentos, além da adequação inteira para um novo modelo de negócios. O efeito adverso da dependência da soja não está relacionado, apenas, ao fornecimento de matérias-primas. A soja está dominando o setor como a principal matéria-prima para o biodiesel, o que indica a fragilidade na sustentabilidade ambiental do PNPB,uma vez que a soja é uma oleaginosa cultivada em larga escala (e,muitas vezes,em sistemas de monocultura),o que requer o desmatamento de extensas áreas da terra e a eventual perda de biodiversidade. O predomínio da soja, também, pode comprometer os objetivos sociais e de energia do PNPB, uma vez que criação de empregos através da produção de soja é inferior à mamona no Brasil, por exemplo. Quanto à análise regional de produção de biodiesel, um dos resultados apresentados até agora sugerem que o PNPB não está conseguindo promover a integração da agricultura familiar no estado do Tocantins, em especial por causa da dificuldade estrutural do setor agrícola e as deficiências técnicas e políticas apresentadas pelo mecanismo de incentivos.Assim, se o PNPB não sofrer as alterações e ajustes que realmente favoreçam os agricultores familiares,a produção de biodiesel no estado do Tocantins e no Brasil como um todo vai seguir o mesmo caminho da produção de etanol, ou seja, a produção será focada em, apenas, uma matéria-prima, a qual exige grandes unidades de processamento, e localizadas em uma única região do Brasil.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 108 REFERÊNCIAS AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS. Estatísticas do biodiesel.2010. Disponível em: <www.anp.gov.br>. Acesso em: 10 mar. 2010. BIODIESEBR. Estatísticas do biodiesel. 2009. Disponível em: <http://www.biodieselbr.com >. Acesso em: 12 dez. 2009, 23 abr. 2010. BRASIL. Estatísticas do biodiesel.2004. Disponível em: <http://www.biodiesel.gov.br>Acesso em: 17 nov. 2009. DUBOIS, O. How good enough biofuel governance can help rural livelihoods: making sure that biofuel development works for small farmers and communities. Roma: FAO, 2008. FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação). Bioenergy, food security and sustainability: towards an International framework. 2008a. Disponível em: <http://www.fao.org/fileadmin/ user_upload/foodclimate/HLCdocs/HLC08-inf-3-E.pdf> Acesso em: 26 out. 2009. ______. Climate change, bioenergy and food security: civil society and private sector perspectives. 2008b.Disponível em:<http://www.fao.org/fileadmin/user_upload/foodclimate/HLCdocs/HLC08-inf-6-E.pdf > Acesso em: 26 out. 2009. ______. Climate change, bioenergy and food security:options for decision makers identified by expert Meetings. 2008c. Disponível em: <http://www.fao.org/fileadmin/user_upload/ foodclimate/HLCdocs/HLC08- inf-5-E.pdf>. Acesso em: 26 out. 2009. FAOSTAT.Estatísticas da agricultura e alimentação.2009.Disponível em:< http://www.fao.org >Acesso em: 15 set. 2009. FINCO,M.V.A.;RODRIGUES,W.;RODRIGUES,I.AAmazônia legal brasileira e o mercado de créditos de carbono: perspectivas para o Estado do Tocantins. Amazônia: Ciência e Desenvolvimento, Belém, v. 2, n. 3, p.7 – 24, jul./dez. 2006. GARCEZ, C. A. G.; VIANNA, J. N. S. Brazilian Biodiesel Policy: social and environmental considerations. Energy, 2009. Disponível em: <300109_2870CBFB.pdf >. GARCIA, J. R. O Programa Nacional de produção e uso de biodiesel brasileiro e a agricultura familiar na região nordeste. 2007. Dissertação (Mestrado) - Instituto de Economia, UNICAMP, Campinas, 2007. HOLANDA, A. O biodiesel e a inclusão social. 2003. Disponível em: <http://www.sfiesc.org.br/artigos/ tecnologia/BIODIESEL_2003.pdf> Acesso em: 12 out. 2009. INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMAAGRÁRIA.2010.Disponível em:<http://www.incra.gov.br/ portal/> Acesso em: 15 mar. 2010. NASS, L.; PEREIRA, P.; ELLIS, D. Biofuels in Brazil: an overview. Crop Science, Estados Unidos, v. 47, nov./dez. 2007. Disponível em: <http://ddr.nal.usda.gov/bitstream/10113/11628/1/IND43990784.pdf>
    • 109Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. PROGRAMA Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB). 2005. Disponível em: <www.biodiesel.gov.br/ programa.html> Acesso em: 26 out. 2009. REUNIÃO DO GRUPO DETRABALHO INTERMINISTERIAL DO BIODIESEL, 2003, Brasília. Atas das reuniões... Disponível em: < http://www.biodiesel.gov.br/docs/anexo2.pdf > Acesso em: 10 out. 2009. TOCANTINS.Secretaria Estadual deAgricultura doTocantins.2009.Disponível em:http://www.seagro.to.gov.br>. Acesso em: 26 out. 2009. UN-Energy. Sustainable Bioenergy: a framework for decision makers. 2007. Disponível em: <http://www.fao.org/docrep/010/a1094e/a1094e00.htm> Acesso em: 26 out. 2009.
    • 111Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. ESTIMAÇÃO DOS PREÇOS DA MADEIRA EM PÉ PARA AS ÁREAS DE FLORESTAS PÚBLICAS DA REGIÃO DO MARAJÓ, NO ESTADO DO PARÁ Antônio Cordeiro de Santana* Marcos Antônio Souza dos Santos** Rafael de Paiva Salomão*** Cyntia de Oliveira Meireles**** RESUMO Apresenta uma metodologia fundamentada, teoricamente, para estimar os preços da madeira em pé (PMP), de modo a refletir o custo de oportunidade dos planos de manejo florestal em áreas de florestas públicas do Marajó,estado do Pará.Diferentemente das iniciativas anteriores para estimar o PMP, definiu-se o preço a partir do mercado local de madeira em tora, que além de ser o único nível de mercado para o produto funciona sob concorrência perfeita. Em função disso, os preços refletem o valor econômico das espécies florestais comercializadas. Qualquer outra forma de estimação deste preço que não leve em conta essa condição teórica, enviesa a mensuração do valor econômico da floresta.A média do preço da madeira em pé foi de R$ 27,2/m3 . Os preços médios por categorias foram: R$ 16,29/m3 para a categoria C4 (madeira branca), R$ 32,34/m3 para a categoria C3 (madeira vermelha), R$ 48,49/m3 para a C2 (madeira nobre) e R$ 86,22/m3 para a categoria C1 (madeira especial).A partir desses preços, foi determinado o valor dos contratos para a concessão florestal na região do Marajó. Palavras-chave:Valoração Florestal. Madeira Tropical. Concessão Florestal - Amazônia. * Engenheiro Agrônomo; Doutor em Economia Rural; Professor Associado da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). Belém/PA. Email: acsantana@superig.com.br. ** EngenheiroAgrônomo;Mestre em Economia;ProfessorAssistente da UFRA.Belém/PA.Email.marcos.santos@ufra.edu.br. *** Engenheiro Florestal; Mestre em Biologia Ambiental; Doutorando em Ciências Agrárias pela UFRA. Belém/PA. Email: salomão@museu-goldi.br. **** EngenheiraAgrônoma;Mestre em Extensão Rural; Doutoranda em CiênciasAgrárias pela UFRA;ProfessoraAssistente da UFRA. Belém/PA. Email: cyntiamei@hotmail.com.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 112 ESTIMATION OF STANDING TIMBER PRICES FOR THE PUBLIC FOREST AREAS OF MARAJÓ REGION, STATE OF PARA ABSTRACT Presents a theoretically based methodology to determine the prices of standing timber,reflecting the opportunity cost of forest management plans,in the public forest areas of the Marajo region,State of Para. Differently that earlier initiatives to estimate the price of standing timber, the price was specified from the local market for logs, that besides being the only market available for the product, it works under the assumptions of perfect competition.As a result,prices reflect the economic value of the forest species marketed. Any other way of estimating this price that does not take into account this theoretical condition, influences the measurement of the economic value of forest. The average price of standing timber was R$ 27.20/m3 . The average prices per category were: R$ 16.29/m3 for category C4 (white wood), R$ 32.34/m3 for category C3 (red wood), R$ 48.49/m3 for C2 (hardwood) and R$ 86.22/m3 for category C1 (special wood). Using these prices, it was determined the value of contracts for forest concession in the region of Marajo. Keywords: Forest Valuation.Tropical Wood. Forest Concession - Amazon.
    • 113Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO O setor florestal contribui para a economia paraense com empregos, renda e as divisas que gera. Em 2008, apresentou um valor adicionado de US$ 4,46 bilhões e criou 30.481 empregos, equivalente a 9,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e 3,6% do emprego total do Pará. O comércio nacional e internacional mostrou superávit de US$ 1,08 bilhão (SANTANA, 2009). Não obstante esta importância, a efetividade do marco regulatório da exploração florestal naAmazônia,que a partir de 2004 coibiu fortemente o desmatamento e a extração ilegal de madeira em tora, juntamente com os efeitos da crise econômica internacional a partir de 2007, o mercado paraense de produtos madeireiros diminuiu 64,6% entre 2007 e 2009 (SANTANA et al., 2010), causando forte impacto na indústria madeireira no que tange ao abastecimento do mercado e à geração de emprego e renda. Para atenuar este problema de abastecimento e contribuir para a recuperação e reestruturação da indústria madeireira paraense, o Instituto de Desenvolvimento Florestal do Estado do Pará (IDEFLOR) implementou a política de gestão de florestas públicas, por meio de contratos de transição florestal1 , destinados a viabilizar a extração manejada de madeira em tora pela iniciativa privada (IDEFLOR, 2009). Neste contexto, os contratos de transição florestal passaram a funcionar como o principal mecanismo de regulação da exploração florestal e de promoção do desenvolvimento da cadeia produtiva de madeira em tora no estado do Pará, por viabilizar o fornecimento de matéria-prima de origem legal para a indústria madeireira com vantagens comparativa e competitiva sustentáveis. A condição de suficiência para a implantação desses contratos é a determinação do seu valor econômico.Como determinar o valor de tais contratos, de modo a que representem o custo de oportunidade da extração manejada em áreas de floresta pública? O valor econômico dos contratos foi determinado a partir do preço da madeira em pé (PMP) e do volume máximo a ser extraída pelas empresas dos planos de manejo sustentável destas áreas. O volume de madeira é fixado em até 30 m3 /ha,contemplando as espécies de valor comercial identificadas no inventário florestal. Todavia, o PMP é desconhecido e precisa ser estimado. Para que esse preço reflita valor, deve ser estimado a partir do equilíbrio de mercado em concorrência perfeita. De acordo com o estudo de Santana et al. (2010), o mercado de madeira em tora do polo madeireiro do Marajó opera em concorrência perfeita. Portanto, o valor dos contratos de transição definidos a partir desse preço, além de refletir o custo de oportunidade da extração manejada de madeira nas áreas de florestas públicas estaduais, tende a estimular a participação ampla de empresas locais e demais agentes interessados no mercado de madeira tropical paraense. Neste mercado,há um fluxo de informação sobre preços e custos de extração de madeira em tora com ampla disseminação, que funciona à beira dos rios e apresenta as características de concorrência perfeita.Assim,a definição do PMP a partir do preço de equilíbrio da madeira em tora (PMT) formado neste local, garante a valoração eficiente da madeira oriunda dos contratos de transição e dos planos de manejo privados e comunitários do Marajó. Com efeito, este preço deve satisfazer, simultaneamente, a maioria dos agentes detentores de planos de manejo (comunidades e produtores) e das empresas da indústria madeireira paraense, interessados em participar do mercado de madeira em tora.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 114 2 REFERENCIAL TEÓRICO As iniciativas anteriores de determinação do PMP além de não levarem em conta os pressupostos da teoria econômica no que se refere ao funcionamento do mercado do produto, adicionam pressuposições irreais. O trabalho de Arima e Barreto (2002) além de partir do preço da madeira serrada, assumiu ex-ante o valor da margem de lucro, portanto atribuindo, equivocadamente, o poder de oligopólio para agentes que operam no mercado em concorrência perfeita. Estudos recentes,realizados porTourinho et al.(2009) e o Serviço Florestal Brasileiro (SFB, 2010) também revelaram desconhecimento sobre o funcionamento do mercado de madeira em tora. Para chegar ao PMP, estes estudos partiram do PMT no pátio das empresas. Deste valor foram subtraídos os custos e impostos e chegaram a um valor a que chamaram de PMP. Ocorre que não há mercado de madeira em tora em nível da indústria madeireira.A madeira em tora no pátio das serrarias é considerada matéria-prima, portanto ao invés de preço, é custo de insumo.A única possibilidade de este custo ser igual ao preço seria no caso de as empresas estarem operando em equilíbrio de longo prazo e sob concorrência perfeita. Neste caso,o lucro é igual a zero,uma vez que o custo marginal deve ser igual ao preço no ponto de mínimo do custo médio de produção. Ocorre que a indústria madeireira opera em concorrência oligopolista, portanto o pressuposto adotado não se aplica. A consequência é que o PMP estimado por este método tende a superestimar o valor da floresta e deixar de fora do processo grande parte do grupo de interesse, sobretudo as micros e pequenas empresas que operam na franja marginal da estrutura produtiva. Neste trabalho, ao invés das iniciativas pretéritas, adotou-se como primeiro passo a identificação do mercado de madeira em tora, o qual funciona próximo ao local da extração madeireira, para que os preços de equilíbrio deste mercado reflitam os custos de oportunidade da atividade florestal madeireira dos contratos de transição. Para que o PMP reflita valor, ou seja, represente o custo de oportunidade da exploração florestal por meio dos contratos de transição, necessita-se eleger um mercado para a madeira em tora no raio de influência dessas unidades de produção. Este deve funcionar em regime de concorrência perfeita, em que prevalecem as seguintes características: os produtores atuando como tomadores de preços, pois cada um agindo individualmente, não têm como influenciar o preço de mercado local; cada um dos produtores de madeira em tora oferta O objetivo deste artigo é propor uma metodologia para estimar o PMP de espécies florestais comercializadas no polo madeireiro do Marajó, o qual abrange a madeira extraída dos municípios deAfuá,Bagre,Breves,Chaves e Portel. A finalidade foi contribuir com o IDEFLOR na determinação do valor dos contratos de transição para a extração manejada das florestas públicas do estado do Pará, iniciados por este polo. O trabalho contempla mais quatro seções além desta introdução. A segunda apresenta a fundamentação teórica sobre o mercado e custos da exploração madeireira. A terceira discorre sobre a área de estudo onde foi realizada a pesquisa e descreve a metodologia utilizada na obtenção de dados para estimar o PMP.Na quarta seção, faz-se a análise dos resultados obtidos e na quinta apresentam-se as conclusões.
    • 115Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. uma pequena proporção do volume total de madeira transacionado no mercado. Igualmente, os compradores, pelo volume individual das compras, não são capazes de influenciar os preços do mercado; o produto é homogêneo na percepção dos compradores de madeira, uma vez que um ipê comercializado por um produtor é idêntico aos ipês ofertados pelos demais produtores (são substitutos perfeitos, portanto,não há preferências específicas por um produto de um dado fornecedor); fluxo de informações sobre preço,custo de extração,frete e transporte sendo do conhecimento dos principais agentes do mercado (empresas, proprietários dos planos de manejo, produtores locais, toreiros), assim como mobilidade de fatores (mão de obra) entre os locais produtores de madeira, em resposta a novas oportunidades de extração do produto; inexistência de barreiras à entrada e à saída dos agentes do mercado a qualquer tempo (THOMPSON JUNIOR; FORMBY, 1998; TIROLE, 2001; SANTANA, 2002, 2005; SANTANA et al., 2009). A beira dos rios Pacajá e Parauaú define bem o território de abrangência desse mercado no polo madeireiro Marajó, pois funciona como o local para armazenar a madeira exposta à venda ou à espera do carregamento para o mercado consumidor. É, pois, o lócus que todos reconhecem e aceitam como ponto à entrega da madeira adquirida dos planos de manejo de áreas privadas,públicas ou dos produtores locais.Assim, todos os custos e preços são ajustados com base neste ponto de referência. Este é o único elo da cadeia produtiva em que o mercado de madeira em tora é representativo e reconhecido pelos agentes. Neste são transacionadas madeiras com e sem documentação, de modo que o preço de equilíbrio entre oferta e demanda da madeira em tora reflete essa realidade. Sendo assim, o PMP estimado a partir deste mercado além de refletir o valor dos recursos florestais madeireiros, agrega simultaneamente as vantagens comparativas e competitivas para a indústria madeireira paraense. A esse nível de preços, pode-se ter ampla adesão do segmento madeireiro e possibilitar a inclusão de micro e pequenas serrarias no mercado legal de madeira em tora do estado do Pará. 2.1 CUSTO DE PRODUÇÃO E PREÇOS DA MADEIRA A unidade produtiva em análise é representada pelo plano de manejo das áreas florestais privadas ou públicas do Marajó e tem como produto principal as espécies florestais de interesse econômico, que é o foco dos contratos de transição. Espécies florestais madeireiras comerciais são identificadas a partir do inventário (árvores com diâmetros à altura do peito acima de 45 cm), a partir das quais se determina o volume máximo de madeira a ser extraída por hectare e por ano (até 30 m3 /ha). O custo de extração se refere à colheita das árvores, que envolve a derruba, arraste e romaneio das toras de madeira e o transporte até a “beira dos rios”. A soma destes custos com os de manejo compõe os custos operacionais totais de produção da madeira em tora.A diferença entre este custo de manejo e o PMP gera a margem de lucro unitária para o proprietário da floresta. Geralmente, os custos de extração, sobretudo quando se trata da prestação de serviços por uma empresa extratora já inclui a margem de lucro do extrator.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 116 Assim, o PMP pode ser obtido pela diferença entre o PMT no mercado local e o custo de extração incluindo a margem de lucro do extrator. Esta foi a maneira operacional encontrada para se determinar o PMP, uma vez que a informação tanto do PMT no mercado local quanto do custo de extração foi obtida dos agentes os quais transacionam madeira no mercado. Os agentes têm um bom conhecimento sobre os custos operacionais de produção e sobre os preços de equilíbrio da madeira em tora neste nível de mercado, inclusive sobre o preço das árvores e sua produtividade (em média, estima-se 4,0 m3 de madeira em tora por árvore e o preço gira em torno de R$ 40,00/ árvore) nas transações informais com produtores locais. Conforme Nicholson (2004); Besanko e Braeutigan (2004), estas características, juntamente com a atomização dos agentes e homogeneidade do produto, configuram o mercado como de concorrência perfeita. 3 METODOLOGIA 3.1 ÁREA DE ESTUDO E FONTE DOS DADOS A área de estudo abrange os municípios do polo madeireiro do Marajó que abrigam as concessões florestais denominadas, atualmente, de contratos de transição. Os planos de manejo desses contratos estão localizados nos municípios de Afuá, Bagre e Chaves, porém as sedes das empresas ficam em Breves e Portel (Marajó) e, também, em Belém e Marituba (Região Metropolitana de Belém). Assim, os levantamentos de campo foram direcionados para Breves e Portel,por serem os municípios com amplo mercado de madeira em tora e abrigam as empresas com os referidos contratos (uns em operação e outros em tramitação). Nestes municípios foram entrevistadas todas as empresas formais com e sem contratos de transição.Também foram entrevistadas empresas localizadas em Belém e Marituba. O universo amostrado foi composto por 20 entrevistas (três em Belém, uma em Marituba, dez em Breves e seis em Portel): 17 empresas madeireiras (nove com contratos de transição em vigor ou em tramitação e oito sem contratos) e três empresas extratoras. As 14 empresas em operação nos municípios de Portel e Breves foram entrevistadas, assim como as duas empresas especializadas na prestação de serviços para a extração de madeira. Independentemente dos contratos de transição, as empresas compram madeira em tora com e sem documentação no mercado local. Os dados primários foram obtidos, inicialmente, de três entrevistas piloto sobre a estrutura de custos e margens em contratos reais (uma empresa que contrata um prestador de serviços para fazer a extração da madeira, outra que utiliza suas máquinas para efetivar a extração e um prestador de serviços de extração).A partir dessa informação,foi possível balizar a aplicação dos formulários e aferir a consistência dos dados sobre custo de manejo, de extração e de transporte, preço da madeira em tora e margem de lucro. Alguns entrevistados forneceram a margem de lucro a partir da qual o negócio se viabiliza e o preço da árvore em negociações fora dos contratos de transição. Isto contribuiu para definir o PMP. O formulário foi estruturado para obter informações sobre custo operacional de produção
    • 117Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 3.2 ESTIMATIVA DO PREÇO DA MADEIRA EM PÉ Diante da fundamentação apresentada, o preço unitário da madeira em pé foi determinado por meio da seguinte equação: PMPi = PMTi – (CPMi + MLMi) (1) Em que: PMPi = é o preço médio da madeira em pé da espécie i, em R$/m3 , no polo madeireiro do Marajó em junho de 2010; PMTi = é o preço médio da madeira em tora da espécie i, em R$/m3 , no polo madeireiro do Marajó em junho de 2010; CPMi = é o custo médio de produção da madeira em tora da espécie i, em R$/m3 , no polo madeireiro do Marajó em junho de 2010; MLMi = é a margem de lucro do empresário da madeira em tora da espécie i, em R$/m3 , no polo madeireiro do Marajó em junho de 2010. envolvendo as atividades de manejo e de extração (colheita e transporte até o pátio local situado à beira dos rios Pacajá e Parauaú), PMT, frete e margem de lucro.A pesquisa foi realizada no mês de junho de 2010, período em que os preços históricos da madeira em tora e da madeira serrada estão no ponto mais baixo, em função da sazonalidade. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO No Marajó, os agentes conhecem e têm acesso ao fluxo de informações sobre o custo de extração da madeira, transporte no local e para Belém, valor do frete e do imposto, e o preço das árvores. Tais informações são de domínio dos intermediários que compram as árvores em pé e vendem madeira em tora, proprietários dos contratos de transição, prestadores de serviços de extração de madeira e empresários com planos de manejo. A margem de lucro tem certa limitação,por isso foi estimada como excedente, embora a maioria dos entrevistados tenha fornecido a faixa de variação da margem de lucro, outros o limite mínimo da margem de lucro e outros o valor da margem realmente obtida. Das 20 empresas entrevistadas, 10 estão trabalhando com mais de 30 espécies florestais (entre elas, duas estão operando com 72 e uma com 64), cinco entre 20 e 30 e cinco com menos de 20. Com relação à frequência das espécies florestais nas empresas, tem-se que 15 espécies aparecem em pelo menos 13 empresas e 29 espécies em até cinco empresas. A maçaranduba (Manilkara huberi (Ducke) Chevalier) foi a que apareceu em todas as empresas entrevistadas, em seguida quaruba cedro (Vochysia vismeaefolia Spruce ex Warm.), angelim vermelho (Dinizia excelsa Ducke) e cumaru (Dipteryx odorata (Aubl.) Willd.)em17empresas,depoissucupira(Bowdichia nitida Spruce), cupiúba (Goupia glabra Aubl.) e mandioqueira (Qualea lancifolia Ducke) em 16 empresas e o jatobá (Hymenaeacourbaril), angelim pedra (Hymenolobium nitidum), piquiá (Caryocar microcarpum Ducke),louro vermelho (Ocotearubra Mez), quarubarana (Erisma uncinatum Warm.) e quarubatinga (Vochysia guianensis Aubl.) em 15 das empresas entrevistadas. A relação entre o PMP e o PMT das espécies florestais variou entre: 12% para a
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 118 Fonte: dados da pesquisa. A categoria C1 contempla as espécies de madeira especiais de elevado valor comercial e ampla demanda de mercado como o ipê, cedro e cedro rosa. A categoria C2 contempla madeira nobre de alto valor comercial no mercado internacional como o jatobá, maçaranduba, sucupira e angelim. A categoria C3 inclui as madeiras vermelhas de ampla utilização no mercado nacional e com aceitação no mercado internacional, porém com menor cotação nesses mercados como o louro, quaruba (Vochysia paraensis Ducke), andiroba (Carapa guianensis Aubl.) e angelim pedra.A categoria C4 abriga as madeiras vermelhas e brancas de menor valor comercial e menor valor no mercado na forma de madeira serrada como cedrorana, cupiúba, curupixá (Micropholis melinoniana), copaíba (Copaifera guianensis Desf.), tauari (Couratari guianensis Aubl.), marupá (Simarouba amara Aubl.), virola (Virola surinamensis (Rol.) Warb.) etc. Estas madeiras, geralmente, são utilizadas na fabricação de laminados e compensados. Os resultados da Tabela 1 mostram as médias e os limites superiores (preço médio mais o desvio padrão) e inferiores (preço médio menos o desvio padrão) por categoria das espécies de madeira identificadas na pesquisa de campo. O coeficiente de variação do preço entre as espécies florestais por categoria está abaixo dos 10%, exceto para as madeiras da categoria C3 que apresentou um coeficiente de variação destoante, porém inferior a 20%.Isto se deve à variabilidade entre as espécies com relação à sua utilização e valorização no mercado. Por outro lado, o preço médio da madeira em pé foi de R$ 27,20/m3 e o desvio padrão de R$ 16,14/m3 , que resulta em um coeficiente de variação de 59,32%. Este resultado mostra que a categorização das espécies florestais é necessária em função do sucuúba (Himatanthus sucuuba Spruce ex Müll.Arg.); 22% para jutaí mirim (Hymenaea parvifolia) e cedrorana (Cedrelinga catenaeformis Ducke); 28% para louro (Ocotea spixiana (Nees) Mez.), maçarambuba, muiracatiara (Astronium ulei Mattick) e sucupira; 30% para angelim vermelho e ipê (Tabebuia sp.); 31% para cedro rosa (Cedrela angustifolia Mociño & Sessé ex DC.) e cumaru (Dipteryx odorata (Aubl.) Willd.); 32% para jatobá (Hymenaea courbaril); e 33% para o cedro (Cedrela odorata L.). Os resultados da estimação dos PMP permitiram o enquadramento natural das 84 espécies florestais identificadas nas empresas nas quatro categorias (C1, C2, C3 e C4) definidas pelo IDEFLOR (Tabela 1). Tabela 1 - Preços médios da madeira em pé (PMP), limite superior e limite inferior do PMP, de acordo com a categoria, Polo madeireiro do Marajó, estado do Pará, 2010.
    • 119Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. grande diferencial dos preços e do volume de madeira entre as categorias de espécies madeireiras. Ou seja, a utilização da média aritmética para os preços médios das categorias (R$ 45,84/m3 e desvio padrão de R$ 2,87/m3 ) em vez da média ponderada, pode superestimar o valor total da madeira a ser extraída, uma vez que é grande a diferença volumétrica de madeira produzida entre as categorias. Na categoria C1 foram incluídas três espécies florestais (3,6% do total) com uma média do PMP igual a R$ 86,22/m3 e coeficiente de variação de 0,44%. Essa baixa frequência se deve à extração predatória dessas espécies de madeira, pois durante décadas a taxa de extração superou a capacidade de regeneração natural dos estoques. A categoria C2 abrigou nove espécies (10,7% do total) ao PMP médio de R$ 48,49/m3 e CV de 9,88%. A redução dos estoques dessas espécies está ocorrendo de forma mais rápida do que a natureza é capaz de regenerar,com risco de exaustão a continuar o desmatamento e a extração clandestina. A terceira categoria C3 contemplou 26 espécies florestais (31,0% do total) ao PMP médio de R$ 32,34/m3 e CV de 16,12%. Finalmente, a categoria C4 incluiu 46 espécies florestais (54,8% do total) ao PMP médio de R$ 16,29/m3 e CV de 6,88% (Tabela 1). Os preços discriminados por espécie estão na Tabela 1A (Apêndice A). Nas categorias C3 e C4 ainda se dispõe de grandes estoques, em função da composição da floresta regional, porém o fator fundamental para essa elevada frequência deve-se ao fato de que grande parte dessas madeiras, ainda, é desconhecida do mercado de madeira serrada. Somente com a crise no mercado internacional de compensado e laminado, o aumento da utilização de madeira de reflorestamento na fabricação desses produtos e a substituição na indústria da construção civil e de móveis e artefatos por plástico,gesso,couro,ferro,alumínio e cerâmica, foi que tais espécies de madeira passaram a entrar no mercado consumidor de madeira serrada. Na Tabela 2, apresentam-se os PMP estimados nesta pesquisa e os preços anteriormente fixados pelo IDEFLOR e pelo SFB, ambos sem levar em conta a realidade do mercado. Observou-se que o PMP estimado na pesquisa ficou abaixo dos demais preços em todas as categorias. Estes resultados apresentaram diferenças estatísticas a 5% em relação ao preço praticado pelo IDEFLOR e PSFB.Ou seja,os preços estimados na pesquisa foram estatisticamente inferiores aos determinados pelo IDEFLOR e pelo SFB,mostrando que a não utilização dos preços de equilíbrio de mercado de madeira em tora tende a superestimar o valor dos contratos de transição. Tabela 2 - O preço médio da madeira em pé (PMP) obtido na pesquisa e os preços da madeira determinados pelo IDEFLOR (IPI) e o SFB (PSFB), estado do Pará, 2010. Fonte: dados da pesquisa.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 120 5 CONCLUSÕES O mercado de madeira em tora do polo madeireiro do Marajó, que tem como local de referência para as transações e formação dos preços em nível de firma a beira dos rios, funciona em regime de concorrência perfeita. Portanto, os PMP determinados a partir deste mercado refletem o custo de oportunidade da atividade florestal madeireira. O preço médio foi de R$ 27,20/m3 , variando entre R$ 16,29/m3 para a categoria C4, passando por R$ 32,34 e R$ 48,49, respectivamente, para as categorias C3 e C2, e um valor máximo de R$ 86,22/m3 para a categoria C1. Preços da madeira em pé, estimados a partir do PMT transacionada neste mercado, possibilitam a criação de vantagem comparativa e competitiva para a indústria madeireira e, ao mesmo tempo, viabiliza a valoração eficiente da madeira extraída dos planos de manejo do Marajó pelos produtores. Este ponto é fundamental tanto como um mecanismo de regulação quanto de estímulo ao desenvolvimento da cadeia de valor dos produtos florestais madeireiros regionais. O trabalho se limitou a estimar os preços para as 84 espécies florestais extraídas e comercializadas pelas empresas entrevistadas. Sabe-se, entretanto, que o número de espécies transacionadas no mercado de madeira em tora é maior. Para superar esta limitação, o IDEFLOR adotou, para as espécies florestais não identificadas na pesquisa, o preço médio da categoria a que tal espécie seja enquadrada. Apesar deste marco inicial da estimação do PMP, os contratos de transição não contemplam o aproveitamento dos resíduos de madeira gerados na exploração florestal, mesmo diante do amplo mercado paraense para carvão e produção de energia a partir de biomassa. Na perspectiva dodesenvolvimentolocal,oaproveitamentodesse subproduto poderia contribuir para a inclusão das populações locais que dependem, direta ou indiretamente, dessa economia florestal madeireira.Além disso, os contratos de transição não contemplam os produtos não madeireiros,em que boa parte deles, ainda, não tem preço no mercado, portanto necessitam de metodologia adequada para se definir os preços de referência. Estas estimativas dos PMP refletem a realidade do mercado de forma mais apropriada do que os demais, por trabalhar com as informações oriundas do mercado da madeira em tora do polo madeireiro do Marajó que opera em concorrência perfeita, portanto adequado para a estimação do “preço justo” da madeira em pé. A partir desses preços o valor dos contratos de transição do Marajó foram determinados. Cabe ressaltar que o trabalho identificou, apenas, 84 espécies florestais comercializadas no mercado do Marajó, porém existem estoques naturais de muitas outras madeiras com valor comercial. Para atenuar esse problema, o IDEFLOR adotou como critério o preço médio de cada categoria como válidos para as espécies não contempladas na pesquisa. NOTA 1 Contratos adotados no estado do Pará em similaridade com os contratos de concessão florestal usados pelo Serviço Florestal Brasileiro.São autorizações do Estado às empresas para exploração manejada de madeira em áreas de florestas públicas do estado do Pará por um período inicial de cinco anos após anuência de órgãos ambientais e fundiários.
    • 121Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. REFERÊNCIAS ARIMA, E.; BARRETO, P. Rentabilidade da produção de madeira em terras públicas e privadas na região de cinco florestas nacionais da Amazônia. Brasília, DF: Ministério do Meio Ambiente, 2002. BESANKO, D.; BRAEUTIGAN, R. R. Microeconomia: uma abordagem completa. Rio de Janeiro: LCT, 2004. INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO FLORESTAL DO ESTADO DO PARÁ.Instrução Normativa No 001/2009.Diário Oficial [do] Estado do Pará, Belém, 4 mar. 2009. NICHOLSON, W. Intermediate microeconomics and Its application. Mason: Dryden, 2004. SANTANA, A. C. de. A competitividade sistêmica das empresas de madeira da Região Norte. Belém: M & S Gráfica Editora, 2002. SANTANA, A. C. de. Elementos de economia, agronegócio e desenvolvimento local. Belém: UFRA; GTZ, 2005. SANTANA, A. C. de.; SANTOS, M. A. S.; OLIVEIRA, C. M. Preço da madeira em pé, cadeia de valor e mercado de madeira nos pólos do Marajó e Baixo Amazonas. Belém: IDEFLOR; UFRA, 2010. SANTANA,A. C. de; SILVA, I. M. da; OLIVEIRA, C. M.; SILVA, R. C.; FILGUEIRAS, G. C.; COSTA,A. D.; SOUZA,T. F.; HOMMA,A.K.O.Caracterização do mercado de produtos florestais madeireiros e não-madeireiros da região Mamuru-Arapiuns, Belém: FUNPEA, 2009. (Relatório de pesquisa, 1). SERVIÇO FLORESTAL BRASILEIRO (SFB).Descrição passo a passo da metodologia dos agrupamentos das espécies e preços florestais para a Floresta Nacional (Flona) de Amana. Brasília, DF, 2010. THOMPSON JUNIOR.,A.A.;FORMBY,J.P.Microeconomia da firma:teoria e prática.Rio de Janeiro:Prentice- Hall do Brasil, 1998. TIROLE, J. The theory of industrial organization. Cambridge: MIT Press, 2001. TOURINHO, M. M. (Coord.) Pesquisa socioambiental na região Mamuru Arapiuns – Pará. Belém: IDEFLOR, 2009. Relatório Final.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 122 APÊNDICE A Tabela 1A - Dados sobre o preço médio da madeira em pé (PMP) no estado do Pará, 2010. Continua...
    • 123Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Continuação Fonte: dados da pesquisa. LSPMP = limite superior do preço; LIPMP = limite inferior.
    • 125Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. ETNOCULTIVO DO JAMBU PARA ABASTECIMENTO DA CIDADE DE BELÉM, ESTADO DO PARÁ Alfredo Kingo Oyama Homma* Ronaldo da Silva Sanches** Antônio José Elias Amorim de Menezes*** Sérgio Antônio Lopes de Gusmão**** RESUMO O jambu que faz parte da gastronomia cultural dos paraenses como componente do pato-no- tucupi e tacacá vem sofrendo grandes transformações com relação a sua utilização. É cultivado por produtores periurbanos em pequenas áreas,em conjunto com outras hortaliças,sobretudo para atender o consumo da cidade de Belém e dos principais núcleos urbanos da mesorregião do Nordeste Paraense. Foi efetuado um levantamento histórico da utilização do jambu, das mudanças com relação e seu emprego na culinária, para indústria de cosméticos e fármacos e nas práticas usadas pelos agricultores periurbanos dos municípios deAnanindeua, Benevides, Santa Izabel do Pará e SantoAntônio deTauá. A urbanização e a especulação de terras nas áreas próximas de Belém, o surgimento de polos de produção em outros estados e países, o processo de patenteamento para novos produtos no exterior e uso na gastronomia nacional e internacional estão transformando o jambu em uma nova hortaliça dos trópicos. Palavras-chave: Jambu. Spilanthes oleracea. Hortaliça-Amazônia. * Agrônomo;Doutor em Economia Rural;Pesquisador da EmbrapaAmazônia Oriental.E-mail:homma@cpatu.embrapa.br e homma@oi.com.br. ** Agrônomo; Extensionista Rural da Emater - Santa Izabel do Pará. E-mail: ronaldosanchess@gmail.com e ronaldosanches@oi.com.br. *** Agrônomo; Doutor em Sistemas de Produção Agrícola Familiar; Analista da Embrapa Amazônia Oriental. E-mail: menezes@cpatu.embrapa.br. **** Agrônomo; Doutor em Agronomia; Professor Associado Universidade Federal Rural da Amazônia. E-mail: sergio.gusmao@ufra.edu.br.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 126 JAMBU ETNOCULTIVE IN THE METROPOLITAN AREA OF BELEM, PARA STATE ABSTRACT The jambu is part of the cultural cuisine of Para State as a component of the “duck-and-tucupi” and “tacacá” has undergone major changes with respect to its use. Grown by farmers in periurban small areas,together with other vegetables,especially to supply the city of Belem and the major urban centers of the Northeast Para State. It was made a historical survey on the use of jambu, changes with respect to its use in cooking, to cosmetics and medicines and practices used by farmers in periurban districts ofAnanindeua, Benevides, Santa Izabel do Para and SantoAntonio deTaua. Urbanization and land speculation in areas near Belem, the emergence of centers of production in other states and countries, the patenting process for new products abroad and the use in national and international cooking can make jambu a new vegetable of the tropics. Keywords: Jambu. Spilanthes oleracea.Vegetable-Amazon.
    • 127Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO Denomina-se “etnocultivo” aqueles conhecimentos gerados pelos próprios produtores, através de tentativas, e transmitidos ao longo do tempo, ordinariamente de maneira oral e desenvolvidos à margem do sistema de pesquisa formal. São conhecimentos dinâmicos que se encontram em constante processo de adaptação, com intervenções da extensão rural, da rede bancária, dos compradores, das tecnologias utilizadas para outros produtos e em outros locais, do aparecimento de pragas e doenças e do mercado de insumos. A metodologia da pesquisa procurou, portanto, entrevistar os agricultores que se dedicavam ao plantio de hortaliças identificando as práticas agrícolas adotadas como pertencentes ao senso comum aos conhecimentos denominados científicos, de modo a reconhecê- los como fundamentais à melhoria das práticas adotadas. Os dados deste artigo foram obtidos do acompanhamento de pequenos produtores periurbanos dos municípios de Ananindeua, Benevides, Santa Izabel do Pará e SantoAntônio deTauá feito de forma esporádica,desde fevereiro de 2000, e que foi intensificado a partir de 2009, procurando acompanhar as transformações decorrentes da urbanização,uso de agroquímicos, comercialização, novos produtos e das tecnologias utilizadas. Enquanto no passado o consumo de jambu ficava restrito a confecção do pato-no -tucupi nas datas festivas e nas comemorações familiares ou como quitute (tacacá), atualmente o seu uso se popularizou em dezenas de restaurantes, com a utilização em novos pratos como arroz com jambu (arroz paraense), pizza de jambu, pastel de jambu e na forma “in natura” em saladas cruas.A pizza de jambu começou a ser divulgada na imprensa a partir de 2006 e a sua invenção é atribuída ao Café Imaginário, na primitiva localização nas proximidades do Conjunto Santa Maria de Belém,do artista plástico JoséAugusto Toscano Simões (1958),que era reduto de artistas e intelectuais no início de 2000 (JAMBU ...,2006). Também é conhecido popularmente como erva medicinal, em face da presença em suas inflorescências, folhas e ramificações mais tenras, de uma resina sialagoga (provoca salivação), tida como possuidora de propriedades odontológicas e de ação contra doenças da boca, garganta e cálculos da bexiga (POLTRONIERI et al., 1999). No meio rural é conhecido o preparo do “lambedor” que consiste no cozimento de infusão de folhas de jambu e chicória com açúcar utilizado para tratamento de dores de garganta. O artigo procura trazer uma perspectiva histórica da utilização do jambu, sua evolução recente para outros usos, a descrição da etnotecnologia desenvolvida pelos produtores e o custo de produção.Sem dúvida,trata-se de uma hortaliça amazônica, com chances de popularizar em nível nacional e mundial. Fica perdida nas brumas da história, quem primeiro descobriu que esta planta poderia ser utilizada como alimento. A partir das invenções do tacacá (tucupi, goma de tapioca, jambu e camarão) e do pato-no-tucupi (tucupi, jambu e pato), dois ícones da gastronomia cultural paraense, passou a despertar maior interesse.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 128 2 HISTÓRICO O padre jesuíta João Daniel (1722-1776) viveu na Amazônia entre 1741 a 1757, quando foi preso, no período da caça aos jesuítas promovida por Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês do Pombal (1699-1782) e recambiado para Portugal. Na prisão, até sua morte, escreveu um enorme tratado sobre a região amazônica, Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas, onde fez detalhadas observações sobre as plantas, animais e os habitantes que viviam na região. Neste livro menciona sobre o caruru, cuja descrição identifica-se como sendo a do jambu [Spilanthes oleracea var. fusca (Lam.) DC.]: A verdura de que mais usam no estado do Pará são umas ervas a que chamam caruru, nome genérico para todas as ervas mais usadas, e comestíveis naquele estado,mas mais propriamente há duas espécies na verdade estimáveis: a uma podemos chamar caruru doce pela distinção que tem do outro. É este caruru na verdade doce,porque ou seja por si só em espernegados, ou misturado com os legumes lhes dá um excelente gosto; é tão tenra esta erva, e tão mimosa, que vence o tenro da alface, e o mimoso dos espinafres, e mais verduras; de sorte que metida na panela em poucos minutos está cozinhada. A segunda espécie não é menos galante, porque, em lugar do doce da primeira espécie, tem um picante, que não só lhe dá sua graça por si só, mas também a comunica aos legumes, e carne, com que se cozinha: a sua flor é semelhante aos malmequeres.Tanto deste caruru como do primeiro se fazem muito frescas e gostosas saladas; e muito mais o são se se misturam.E sendo tão estimáveis, ninguém os cultiva hortenses, nem é necessário, porque pelas roças da maniba, e mais searas, é a erva mais ordinária, que nasce em tanta abundância, que preciso arrancá-los, para não afrontarem, nem afogarem as searas. Com a mesma abundância crescem sem cultura outras ervas como são os espinafres, bredos, beldoegas e muitas outras de que naquele estado se não faz caso (DANIEL, 2004, v.1, p.432). O botânico João Barbosa Rodrigues (1842- 1909), em 1894, quando abordou as plantas existentes no Jardim Botânico do Rio de Janeiro discorreu sobre o jambu da seguinte forma: Spilanthes oleracea Linn. Nome vulgar: jambu-açu, agrião-do-pará. Floração em outubro e novembro. Planta anual, de hastes tenras,ramosas diffusas,com folhas oppostas, espessas, pecioladas, dentadas,cordiformes,dando capítulos terminaes, conicos, pedunculados, com o involucro em duas series. Flores amarello de ouro. Os capítulos são muito acres, de um sabor que queima, produzindo muita salivação e tremor na língua.A alcoolatura dos capítulos é um bom odontalgico. As folhas comem-se ensopadas (RODRIGUES, 1894). O escritor alemão Patrick Süskind (1949), autor do best seller“Perfume”,lançado em 1985, que inventou o personagem Jean-Baptiste Grenouille,com a capacidade de criar aromas que transmitiam atração, menosprezo, nojo, prazer, amor e ódio,não teria um cenário mais apropriado para a sua transfiguração do que Belém, na época do Círio, com o inconfundível aroma do pato-no- tucupi, maniçoba e tacacá a se espalhar pelos quatro quadrantes da cidade (HOMMA, 1999).
    • 129Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. A divulgação do uso do jambu em nível nacional e mundial muito se deve a iniciativa do chef-de-cuisine Paulo Martins (1946-2010), do conhecido restaurante Lá em Casa, criado em 1972, no qual já serviu dezenas de personalidades nacionais e internacionais como o Papa João Paulo II (1980), o Imperador Akihito (1933) e a Imperatriz Michiko (1934) nas duas visitas que fizeram a Belém (1978, 1997). Em 2011 foi realizada a nona versão do FestivalVer-o-Peso da Cozinha Paraense,iniciado em 2000, interrompido, em alguns anos, devido ao estado de saúde do chef Paulo Martins. O evento serviu como uma das alavancas da divulgação do jambu e de outras frutas amazônicas na culinária nacional e internacional ao convidar chefs de diversas partes do Brasil e do mundo para conhecer os produtos utilizados na gastronomia paraense. Em 2007, o famoso chef catalão Ferran Adriá ficou encantado com o poder “eletrizante” da folha de jambu, capaz de fazer a língua e os lábios formigarem (BOTELHO,2007). Paulo Martins em seu magnífico vídeo “Cozinha Paraense”, menciona a relação de 1 pato para 3 litros de tucupi e 3 maços de jambu e, considerando que um pato médio pesa 3 quilos, poderia estimar a quantidade de patos (frangos, peru etc.), de tucupi e jambu consumidos por ocasião das festividades do Círio de Nazaré (HOMMA, 1999). O professor Francisco de Assis Costa e colaboradores em magistral trabalho intitulado “O Círio de Nazaré de Belém do Pará: Economia e Fé” efetuaram uma estimativa dos participantes do Círio, no período 2000 a 2005, e os impactos provocados na economia (COSTA et al.,2008). Utilizando a estimativa de 1.952.163 romeiros, em 2005 e,considerando 5 pessoas por família, ter-se-á, um universo de 390.432 famílias. Supondo que a metade,aproximadamente 200 mil famílias, tenha condições de preparar um pato (frango, peru etc.) no tucupi, utilizar 3 litros de tucupi e 3 maços de jambu, obter-se- á um total de 600 mil maços de jambu e 600 mil litros de tucupi ou 30 caminhões tanque com capacidade de 20 mil litros. Como um canteiro padrão nas dimensões de 1,20 m x 25 m, produz 250 maços de jambu, serão necessários 2.400 canteiros ou equivalente a 12,5 hectares para ser consumido somente no domingo do Círio. 3 JAMBU: UMA HORTALIÇA AMAZÔNICA O jambu é uma planta herbácea com 20 a 30 cm de altura, com caule cilíndrico, carnoso, decumbente e ramificado.A inflorescência é em capítulo globoso terminal de coloração amarela, com flores hermafroditas. A flor é considerada como sendo de autopolinização ocorrendo quando o estilete cresce e ultrapassa as anteras e ao despontar no exterior os estigmas já se encontram cheios de pólen. Esse modo de autopolinização é chamado de cleistogamia. O fruto é um aquênio de tamanho reduzido, com pericarpo de cor cinza escuro, parcialmente envolvido por páleas membranosas (CARDOSO, 1997). Na Figura 1 (Anexo 1) tem-se algumas fotos dessa hortaliça e do seu sistema de produção. Também é conhecido como agrião-do-pará, agrião-do-norte, agrião-do-brasil, abecedária e jambuassu. É uma planta autóctone da América do Sul (Brasil, Colômbia, Guianas e Venezuela) onde pode ser encontrada cultivada ou subespontânea. O jambu possui bom valor nutritivo. Por cada 100 g de folhas, contém 89,0 g de água,
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 130 valor energético de aproximadamente 32,0 calorias, 1,9 g proteína, 0,3 g de lipídio, 7,2 g de carboidratos, 1,3 g de fibra,1,6 g de cinza,162,0 mg de cálcio,41,0 mg de fósforo,4,0 mg de ferro, 0,03 mg de vitamina B1, 0,21 mg de vitamina B2, 1,0 mg de niacina e 20,0 mg de vitamina C (BORGES, 2009). As inflorescências apresentam maior concentração do alcalóide sendo a sua exploração como fonte de matéria-prima para uso medicinal e cosmético,potencialmente,mais importante que ramos e folhas. O jambu é utilizado pela Natura na composição de creme anti-rugas Chronos.Inicialmente as plantas eram adquiridas na Região Metropolitana de Belém. A partir de 2004, passou a ser fornecido pelo Grupo Centroflora, fundado em 1957, de produtores selecionados que cultivam de forma orgânica nos municípios de Pratânia, Botucatu (onde efetua a secagem), Ribeirão Preto e Jaboticabal.Várias teses de pós-graduação sobre o jambu já foram defendidas nas universidades do Sul e Sudeste, facilitando, também, na disseminação desta planta (BORGES, 2009). Os agricultores que se dedicam ao plantio de hortaliças cultivam em canteiros, que no conjunto não atinge um quarto de hectare. Do elenco das folhosas, frutos ou tubérculos, os produtores se especializam em cinco ou seis espécies, permitindo o rodízio dos canteiros e quanto a perspectiva do mercado. O elenco de verduras cultivadas é bastante grande: jambu, coentro, salsa, chicória regional, cebolinha, caruru,vinagreira,hortelã,couve,alface,alfavaca, quiabo, pepino, maxixe, pimenta-de-cheiro, tomate cereja, pimentão, berinjela, espinafre, rúcula, mostarda, vagem, hortelã, manjericão, mastruz etc. O jambu mais cultivado apresenta folha verde-claro com flores amarelas. Existe, o tipo roxinho, cuja folha é um verde mais intenso, possui ramos de cor roxa e as inflorescências com um halo, também, de cor arroxeada. 4 REDUZIR OS RISCOS DA BIOPIRATARIA O alcalóide spilanthol presente nas folhas, ramos e flores do jambu é descrito em patentes como apropriado para uso anestésico, antisséptico, antirrugas, anti-inflamatório, creme dental, ginecológico, com diversos produtos no mercado,vendidos como remédio e cosmético. Esta é a razão da existência de cinco patentes que utilizam o jambu registradas no United States Patent and Trademark Office (USPTO) no período de 2000 a 2006 (uma americana, uma francesa e três japonesas),sete na World Intellectual Property Organization (WIPO) (japonesa, americana, inglesa, dinamarquesa, suíça, brasileira e australiana) no período de 2006 a 2010, sendo uma no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual em 2005. Há relatos do cultivo de jambu na Índia, na América Central, em alguns países da Europa e,sobretudo,na Ásia,onde ele já é plantado para o consumo como alimento (CARDOSO,1997).Na China, os ramos, as folhas e as inflorescências são comercializadas secas e existem diversos pratos considerados iguarias que incluem a erva, eventualmente usada, também, para suavizar pimentas muito ardidas (JOHN, 2011). No Japão, o jambu, foi introduzido pela University of Miyazaki, situada na ilha de Kyushu, em 2011. A melhor forma de combater a biopirataria naAmazônia é conseguir transformar os recursos da biodiversidade em atividades econômicas para gerar renda e emprego para a sua população. Para isso é necessário identificar
    • 131Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. esses recursos genéticos, analisar seus componentes, proceder a sua domesticação, a produção em bases racionais e a verticalização na região. A fragilidade da economia extrativa em que se apóia a maioria dos produtos da biodiversidade amazônica constitui em um convite a biopirataria. Se a exploração dos recursos da biodiversidade amazônica ficar restrita, ao mercado da angústia ou à comercialização folclórica das vendedoras da Feira doVer-o-Peso,dificilmente aAmazônia terá condições de transformar a sua biodiversidade em riqueza econômica (PRADAL, 1979). A formação de um parque produtivo local competitivo e a sua verticalização inibiria a sua transferência para outras partes do mundo (HOMMA, 2005). Há necessidade de desmistificar a biodiversidade potencial, dar maior atenção para a biodiversidade do passado e do presente (fontes da biopirataria) e,entender as limitações da economia extrativa. A conservação e a preservação da biodiversidade amazônica vão depender da utilização das áreas já desmatadas, da recuperação daquelas que não deveriam ter sido destruídas, de maiores investimentos em C&T e de infraestrutura social. As instituições de pesquisa devem estabelecer metas concretas de identificação, por exemplo, cinco novas plantas da biodiversidade por quinquênio, aproveitando o conhecimento tradicional, indígena e de screenings sobre os recursos genéticos potenciais. Há necessidade de respeitar os direitos de propriedade intelectual e a repartição dos benefícios, conectados com o setor empresarial, de programas de crédito, assistência técnica e associações com países desenvolvidos com salvaguardas mútuas, obedecendo ao ciclo de vida dos produtos. Outro ponto para discussão, refere-se à necessidade de qualificar os recursos da biodiversidade amazônica, sempre colocado em sentido amplo. Os recursos vegetais com maior interesse econômico seriam as plantas medicinais, aromáticos, inseticidas e corantes naturais. No caso de plantas medicinais, àqueles relacionados às doenças de pessoas ricas, tais como câncer, colesterol,hipertensão,geriátricos, etc. teriam maiores chances de retornos econômicos, ao contrário das doenças da pobreza,tais como malária,leishmaniose,doença de Chagas, etc., apesar do alto sentido social (PILLING, 1999). O patenteamento não significa a sua imediata transformação em produto comercial, mas demonstra o esforço de pesquisa, a demarcação de direitos e a probabilidade de futuras descobertas promissoras. Dessa forma, a histeria com relação à biopirataria na Amazônia esconde dois graves problemas. O primeiro, o de ocultar a gravidade real do problema e o outro, a busca de uma efetiva solução. No momento existe uma preocupação muito grande com a biopirataria externa, mas consideráveis recursos genéticos da Amazônia estão sendo drenados para outras partes do País e constituindo em atividades econômicas. Basta afirmar que a Bahia produz 55% da produção brasileira de guaraná, sem falar dos plantios de cacaueiro, cupuaçuzeiros, açaizeiros, pupunheiras, seringueiras, plantas medicinais, que estão sendo desenvolvidos na Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, entre outros. Para efetuar a biopirataria não é necessário embrenhar-se na floresta amazônica, uma vez que muitos produtos da biodiversidade do presente e do passado estão disponíveis nas feiras e, nas ruas,como acontece com os caroços de açaí.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 132 5.3 PROPAGAÇÃO E PLANTIO O jambu pode ser propagado por sementes, método mais empregado, ou por estacas de ramos.As sementes devem ser obtidas de plantas que foram deixadas no canteiro com maior desenvolvimento vegetativo, livre de pragas e doenças, até o amadurecimento dos aquênios, uma vez que as sementes certificadas não são comercializadas no mercado. Na feira do Ver-o- Peso e em algumas casas comerciais do município de Castanhal, é possível adquirir sementes para venda, sem haver garantias quanto à qualidade física e sanitária.As inflorescências são colhidas e postas para secar em ambiente ventilado.Após três a cinco dias é feita a debulha. O agricultor deve tomar as seguintes medidas para garantir sementes de boa qualidade: colhe-las de plantas sadias e evitar produzi-las na época chuvosa, pois estas retém muita umidade, tornando-as vulneráveis à ação de microorganismos, levando a perdas consideráveis, apresentando baixa germinação. Um grama de sementes de jambu com impureza (restos culturais) tem-se 2.000 sementes bem formadas. Em nível de produtor, não é necessário obtê-las limpas (livre de impurezas) devido o trabalho para limpá-las, e mesmo porque estas impurezas são constituídas, em geral, de palea que revestem as sementes, e das flores não-fecundadas, que são facilmente decompostas, não prejudicando a germinação, além de facilitarem a distribuição mais uniforme das sementes no canteiro de semeadura. O modo mais tradicional do plantio de jambu é fazer a semeadura a lanço sobre um canteiro, cobrindo as sementes com uma leve 5 SISTEMA DE PRODUÇÃO 5.1 CLIMA E SOLO O cultivo do jambu é, preferencialmente, realizado em clima quente e úmido, com temperatura média anual superior a 25,9o C e umidade relativa do ar em torno de 80%.Em São Paulo, onde os novos plantios estão localizados, ocorre em períodos do ano, cuja temperatura média seja acima de 15º C. Já os solos indicados para o cultivo dessa hortaliça devem ser argilo- arenosos e ricos em matéria orgânica.Porém vale ressaltar que solos de várzea, quando bem drenados podem, também, ser utilizados para o cultivo do jambu. 5.2 PREPARO DOS CANTEIROS Um trabalhador consegue preparar 8 canteiros de 1,20m x 25 m por dia para efetuar novo cultivo,considerando o terreno já preparado e sem tocos. O ciclo do jambu depois de plantado no canteiro dura de 25 a 30 dias até ser arrancado e os produtores efetuam a rotação com alface, coentro, cebolinha ou salsa. Sempre antes do plantio os canteiros recebem radiação solar direto por pelo menos 4 dias, tendo-se o cuidado de revirar o solo com o intuito de diminuir a infestação de nematóides no solo.
    • 133Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 5.3.1 Jambu em hidroponia O plantio do jambu em hidroponia com Técnica do Fluxo Laminar de Nutrientes (NFT) apresenta concorrência com o cultivo da alface, demanda constante durante o ano, e como produto diferenciado para os consumidores. A vantagem do cultivo em hidroponia seria o aproveitamento da ressoca e a venda do jambu sem as raízes. A técnica é semelhante àquela recomendada ao cultivo da alface, inclusive com relação à solução nutritiva. camada de serragem.A densidade de semeadura é elevada,sendo distribuídos de um a três gramas de impurezas por metro quadrado de canteiro. É realizada uma cobertura alta sobre o canteiro sementeira, com palha ou com sombrite de forma a reduzir a radiação em até 75%.Após a fase de germinação a cobertura é retirada e com 25 a 30 dias é feito o transplantio das mudas para o canteiro definitivo.As mudas são arrancadas da sementeira, sendo transplantadas em espaçamento de 5 cm x 5 cm x 10 cm. Um trabalhador treinado planta cinco a seis canteiros 1,20 m x 25 m. Outro processo é fazer a semeadura direta nos sulcos com espaçamento entre 10 cm a 15 cm. O excesso de plantas germinadas é transplantado para outros canteiros, ficando as mudas distanciadas em 5 cm nos sulcos. Esta forma antecipa a colheita em 10 a 15 dias. 5.4 TRATOS CULTURAIS E ADUBAÇÃO Um dos tratos culturais utilizados durante o período da cultura é a monda que consiste em retirar as ervas daninhas com as mãos após o plantio nos canteiros definitivos, efetuado antes da completa cobertura destes pelos ramos das plantas de jambu. Poucos produtores utilizam adubo químico na adubação do jambu, a grande maioria usa cama de frango para o cultivo. Na adubação básica os canteiros são adubados, três dias antes do transplantio, com a incorporação de,aproximadamente,30 litros de cama de frango (um carrinho de mão), para cada canteiro de 1,20 m x 25 m. O custo de 3 m³ é de R$ 108,00, entregue na propriedade e corresponde a 40 carrinhos de mão ou 45 sacos de ráfia com 2/3 de sua capacidade total de enchimento. É efetuada uma adubação complementar após o transplantio, sendo usada a proporção de três litros de adubo orgânico por 1 m² de canteiro, distribuídas a lanço entre as plantas. A adubação química mais comum, quando utilizada pelos produtores, é a formulação NPK 10-28-20, a mais comercializada no mercado regional de insumos.Adubações foliares também são feitas, usando-se 30 g de uréia e 20 g de adubo foliar completo, recomendado para folhosas diluídas em 20 litros de água, com aplicações a cada 10 dias. São usados dois litros para cada 10 metros de canteiro. Se o solo estiver “fraco” decorrente de sucessivos plantios, aplicam 4 kg de calcário dolomítico para um canteiro de 1,20 m x 25 m e deixam em descanso por 30 dias. O ciclo da cultura vai entre 45 a 50 dias após sua semeadura.A limpeza de ervas daninhas após o plantio nos canteiros é efetuada de modo manual, arrancando-as individualmente.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 134 5.5 PRINCIPAIS PRAGAS E DOENÇAS As principais pragas que atacam os canteiros com jambu são a paquinha (Neocurtilla hexadactyla), lagartas, ácaros etc. O controle desta é feita com iscas, efetuando-se a mistura de 20 ml inseticida (geralmente Parathion metilico) para um quilo de farelo de trigo, colocando uma colher de sobremesa por metro quadrado de canteiro à noite. O combate as lagartas é efetuado com aplicação dos inseticidas Decis (30 ml/20 litros de água) ou Folisuper ou Mentox (20 ml/20litros de água). Quanto ao ataque de ácaros é utilizado o Tamaron um inseticida organofosforado sistêmico (30 ml/ 20 litros de água) e oAgritoato 400 CE (40 ml/20 litros de água). O controle do nematóide é efetuado mediante rotação de cultura e exposição de solo do canteiro a luz solar revirado com a enxada. Verifica-se que muitos produtores não apresentam cuidados na aplicação de agroquímicos tanto para a sua saúde e dos consumidores pela não-observância com relação aos prazos mínimos exigidos para consumo. Os agrotóxicos utilizados não são permitidos pela legislação e não há utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPI). Entre as doenças destacam-se a ferrugem (Puccinia sp.), carvão (Tecaphora sp.), nematóides do gênero Meloidogyne, etc. O controle da ferrugem é efetuado com o fungicida Dithane (50 ml/20 litros de água) e pode efetuar até 3 pulverizações e o fungicida Amistar (20 ml/ 20litros de água); estes fungicidas são aplicados separadamente. Alguns produtores utilizam produtos misturados comoTamaron (30 ml) mais Dithane (30 ml) em 20 litros de água. Quanto ao ataque do carvão que produz galhas distribuídas nos caules, pecíolos, folhas e pedúnculos florais os produtores eliminam as plantas doentes e fazem outro plantio com sementes sadias. 5.4.1 Irrigação No período sem chuvas são feitas duas irrigaçõesdiárias.Comafontedeáguamaiscomum os poços semi artesianos. Usam-se motobombas elétricas e mangueiras plásticas com um chuveiro adaptado na extremidade, ligadas diretamente na tubulação de recalque. Alguns empregam microaspersão comercializada no mercado local em sistema de fitas plásticas para irrigação. 5.6 PRODUÇÃO A produção média de um canteiro de 25 m x 1,20 m é de 250 maços de jambu, que são vendidas para os intermediários a razão de R$ 0,25 a R$ 0,30/maço. Dependendo da fertilidade do solo, dos tratos culturais e da redução dos ataques de pragas e doenças é possível obter até 400 maços por canteiro no verão.O tamanho deles,segundo os produtores, é uma exigência dos intermediários. Estes são reduzidos nos supermercados e nas feiras para maços menores e, nas proximidades das festividades, chegando a R$ 1,00 a R$ 1,50/ maço, devido a sua utilização em comidas típicas.
    • 135Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 5.6.1 Pós-colheita De maneira geral, as plantas de jambu são arrancadas e amarradas em maços,ainda,na área de cultivo,transportados e depois lavados em um tanque próximo a residência do produtor. A mesma água é reutilizada várias vezes, para a lavagem diária e renovada, apenas, no dia seguinte.Os produtores já estão sendo orientados a utilizar água limpa nesta tarefa e efetuar a renovação com maior frequência. Esta lavagem constitui foco de contaminação das hortaliças. O amarrio é, em geral, efetuado pelos homens para dimensionar a quantidade de pés de jambu por maço, eventualmente, mulheres e crianças realizam esta atividade. Um rolo de fita dá para amarrar 1.000 maços e custa R$ 15,00. Existe outro tipo de barbante de R$ 16,00/rolo e dá para amarrar mais de 10.000 maços. Para amarrar jambu, 4 pessoas amarram 1.000 maços em 3 horas. Sua produção é intensificada de acordo com um calendário de eventos, que começa com o Carnaval, Semana Santa, Dia das Mães, São João, Dia dos Pais, Círio de Nazaré, Natal e Ano Novo. Um produtor de jambu tradicional destina metade dos canteiros para a época das festividades do Círio de Nazaré e 1/4 para o período normal. 5.7 COMERCIALIZAÇÃO E TRANSPORTE Isshiki (2011) estudou a variação estacional do preço do maço de jambu no mercado atacadista de Belém, no período 2000 a 2009. Ele identificou que no primeiro semestre apresenta os maiores valores, onde o preço mais elevado ocorre no mês de janeiro, com índice estacional médio de 123,06% e o menor no mês de agosto, com índice estacional médio igual a 73,92%,indicando uma variação média no preço do produto de 49,14% referente ao período de safra e entressafra do jambu. A maior produção ocorre no período do Círio e para as festividades de final do ano, mas os produtores recebem preços mais baixos. Existem diferentes fluxos de comercialização do jambu. Uns entregam diretamente para os intermediários,que vendem nas feiras, repassam para outros feirantes, supermercados e restaurantes.Alguns produtores levam direto para as feiras, supermercados, restaurantes, pizzarias, entre outros, transportando em ônibus de linha ou em carros próprios. Os intermediários, também, utilizam os mesmos meios de transportes para apanhar o jambu na propriedade e efetuar a entrega. O transporte dos “volumes” de jambu é feito, diariamente, no final da tarde ou no início da noite. Os produtores não efetuam o corte das raízes para evitar o murchamento mais rápido.Para o transporte da produção são cobrados R$ 3,00/ volume. Cada um corresponde a 100 maços. Nos meses de maior movimento o custo do transporte pode dobrar, passando a R$ 6,00/volume. O “volume” consiste em um saco de ráfia todo aberto onde são colocados os maços e depois amarrando as pontas em forma de trouxa. Alguns produtores e intermediários estão comercializando jambu pré-cozido, que consiste em retirar as raízes e os talos mais grossos,folhas com defeito e outras impurezas. A seguir são efetuadas cinco lavagens e
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 136 5.8 CONSUMO O uso tradicional do jambu na gastronomia cultural paraense destina-se para o pato-no-tucupi e tacacá. Nas duas últimas décadas,além do uso de outros animais assados em substituição ao pato, popularizou o uso do jambu com arroz (arroz paraense), pizza de jambu, uso na indústria cosmética, salada de folha in natura de jambu, como picles pelos descendentes de japoneses, etc. Para preparar o jambu devem-se separar as folhas com os talos mais tenros, lavar em água corrente várias vezes, escaldar em água fervente, deixar escorrer e reservar. Após este pré-cozimento, retira o “gosto do mato”, ocorrendo o amolecimento das folhas e do caule e está pronto para ser usado como insumo básico de diversos pratos.As folhas de jambu pré-cozidas além de atender a demanda de restaurantes, são destinadas a acatar pedidos de parentes e amigos residentes em outros estados do País, facilitando o seu transporte. Há necessidade do desenvolvimento de tecnologia visando o pré-cozimento ou a sua desidratação com a conservação, para atender mercados distantes. colocado em água fervente para promover o murchamento dos talos e folhas, deixam escorrer e embalam em sacos plásticos. O rendimento é de 6 a 7 maços (R$ 0,25/maço) para obter 1 kg de jambu pré-cozido que é vendido a R$ 6,00 a R$ 7,00/kg.A despeito da alta margem de comercialização, implica na utilização de três pessoas para preparar 50 kg e a despesa com gás, uma vez que o uso de lenha tende a contaminá-lo com detritos de carvão e cinza. O mercado do jambu pré-cozido destina-se a grandes restaurantes, reduzindo- se com isso a utilização de mão de obra para ao preparo dos maços de jambu. 6 CUSTO DE PRODUÇÃO Para o cálculo do custo operacional do plantio de jambu foi considerado para um hectare dispostos em canteiro padrão de 1,20 m x 25 m (30 m2), perfazendo 192 canteiros, com 5.760 m2 de área útil. Estes seriam separados entre si de 0,80 m e as ruas principais seriam de 2 metros a cada intervalo de 25 metros tanto no sentido vertical como horizontal.Adotou-se a produtividade média de 250 maços de jambu por canteiro, totalizando 48.000, considerando um ciclo produtivo de 2 meses a 2,5 meses, efetuando rotação de plantio. Ressalta-se que não existe um produtor exclusivo de jambu, mas em associação com outras olerícolas, onde ocorre a diluição das despesas com depreciação de pequenos equipamentos (enxadas, pás, carrinho de mão, etc.), utilização de adubação residual, mão de obra, moto-bomba e energia elétrica. Ocorrem algumas variações neste orçamento dependendo da escala do plantio e dos insumos utilizados.
    • 137Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Tabela 1 – Coeficientes técnicos na produção de jambu considerando um hectare, junho 2011. Fonte: Pesquisa de campo. Nota: para o cálculo foi considerado 192 canteiros de 1,20m x 25m (30m2 ), com 5.760m2 de área útil. 7 CONCLUSÕES O sucesso do jambu constitui exemplo de uma produção e consumo invisível, pois apesar da sua importância, não constam nas estatísticas oficiais. A expansão do seu cultivo mostra a importância que se deve dar para os recursos da biodiversidade, na medida em que são domesticados e aqueles que já são cultivados em consonância com o crescimento do mercado. As patentes já registradas configuram uma planta com possibilidades para atrair os interesses da indústria farmacêutica/cosmética mundial ou como uma hortaliça exótica. A sua exportação exige inovações tecnológicas, como a desidratação ou pré-cozimento,redução no uso de agroquímicos, produção em escala, etc. A transferência do jambu para outras partes do Brasil e do mundo torna questionável alguns
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 138 tópicos sobre a legislação de biopirataria. Reforça- se a ideia de que a criação de um parque produtivo local seja a melhor opção para se evitar a drenagem para outras partes do País e do mundo. O jambu, ainda, apresenta as características de um produto sazonal, limitado pelas festividades populares e das datas históricas familiares. Apesar disso, mostra grandes possibilidades de ampliar sua demanda ao longo do ano. O crescimento do turismo, a disseminação desta erva amazônica no centro- sul do País e, no exterior, poderia trazer novos mercados para esse produto. Hoje os produtores de jambu não se dedicam exclusivamente ao cultivo desta planta, mas em um conjunto de outras hortaliças,visando promover a rotação dos canteiros, assegurar maior renda, da demanda específica para cada produto hortícola e da diferença de rentabilidade para cada produto. AGRADECIMENTOS Ao Dr. José Edmar Urano de Carvalho (Embrapa Amazônia Oriental) pelas suas contribuições históricas. Ao Dr. Edowardo Muneaki Shimpo (Emater Benevides) pelo apoio entre os produtores. Ao Dr. Fabrício Khoury Rebello e ao Dr. Osvaldo Ryohei Kato pelas informações sobre a pizza de jambu. Ao Dr. Moacyr Bernardino Dias-Filho (Embrapa Amazônia Oriental) e aos produtores entrevistados de Ananindeua, Benevides, Santa Izabel do Pará e Santo Antônio de Tauá.
    • 139Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, M. A mandioca na Amazônia. Belém: Sudam, 1969. 277 p. BORGES, L.S. Biomassa, teores de nutrientes, espilantol e atividade antioxidante em plantas de jambu (Acmella ciliata Kunth) sob adubações mineral e orgânica.2009.108 f.Dissertação (Mestrado Agronomia) - Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências Agronômicas, Botucatu, 2009. BOTELHO, S. “Eletricidade” do jambu encantou o chef Ferran Adriá. Folha de São Paulo, São Paulo, p.10, 6 dez. 2007. CARDOSO, M. O. (Coord.). Hortaliças não convencionais da Amazônia. Brasília, DF: EMBRAPA–SPI: Manaus Embrapa-CPAA, 1997. 150 p. COSTA, F.A.; DINIZ, M.B.; FARIA, A. M. M.; SANTOS, J. N. A.. COSTA, J.A. O Círio de Nazaré de Belém do Pará: economia e fé. Amazônia: Ciência & Desenvolvimento, Belém, v. 3, n. 6, p. 93-125, jan./jun. 2008. DANIEL, J. Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004,v.1, 597p. GUSMÃO, S.A.L.; GUSMÃO, M.T.A.; VELASCO, W.; SILVESTRE, D.; LOPES, P.R.A. Caracterização do cultivo de jambu nas áreas produtoras que abastecem a grande Belém. Horticultura brasileira, Fortaleza, v. 23, n. 2, 2005. Suplemento CD-Rom. HOMMA, A. Jambu, uma hortaliça paraense. Gazeta Mercantil Pará, Belém, p.2, 15 out. 1999. HOMMA, A.K.O. Biopirataria na Amazônia: como reduzir os riscos? Amazônia: Ciência & Desenvolvimento, Belém, v.1, n.1, p.47-60, jul./dez. 2005. ISSHIKI, H. Análise estacional de preços do jambu no mercado atacadista de Belém no período 2000-2009. Disponível em: <http://www.administradores.com.br/informe-se/producao-academica/analise- estacional-de-precos-do-jambu-no-mercado-atacadista-de-belem-no-periodo-2000-2009/3643/>.Acesso em: 29 maio 2011. JAMBU ganha novas aplicações. O Liberal, Belém, 8 out. 2006. Mulher. JOHN,L.Tucupi,tacacá e tá na cara. Disponível em:<http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/ biodiversa/ >. Acesso em: 30 jun. 2011. PILLING, D. Na doença e na riqueza. Gazeta Mercantil, São Paulo, 1-2 nov. 1999. p.A-3. PRADAL, H. Mercado da angústia. São Paulo: Paz e Terra, 1979. 199 p. POLTRONIERI, M.C.; POLTRONIERI, L.S.; MULLER, N.R.M. Jambu (Spilanthes oleracea, L.) visando resistência ao carvão (Thecaphora spilanthes). In: EMBRAPA. Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Úmido (Belém, PA).Programa de melhoramento genético e de adaptação de espécies vegetais para aAmazônia Oriental. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 1999. p.99-104. (Embrapa Amazônia Oriental. Documento, 16).
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 140 RODRIGUES, J.B. Hortus fluminensis ou breve notícia sobre as plantas cultivadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894. 348 p. SUSKIND, P. O perfume: história de um assassino. São Paulo: Record, 2000. 276 p.
    • 141Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. ANEXO 1 Figura 1 - Na parte superior: horta periurbana de pequeno produtor em Santa Izabel do Pará e inflorescência de jambu. Na parte do meio canteiro plantado e arranquio de jambu para comercialização. Na parte inferior maços de jambu comercializado e cuia de tacacá (agosto 2011). Fotos: Antônio José Elias Amorim de Menezes.
    • 143Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. OTIMIZAÇÃO LOGÍSTICA PARA O TRANSPORTE MULTIMODAL DE SAFRAS AGRÍCOLAS PELO CORREDOR CENTRO-NORTE:O QUE PENSAMAS EMPRESAS E INSTITUIÇÕES ENVOLVIDAS?1 José Eduardo Holler Branco* José Vicente Caixeta Filho** Augusto Hauber Gameiro*** Carlos Eduardo Osório Xavier**** Walter Henrique Malachias Paes***** Betty Clara Barraza de La Cruz****** RESUMO Este artigo apresenta os resultados de pesquisa realizada junto a transportadores,embarcadores e agentes públicos envolvidos no transporte de produtos agrícolas no Corredor Centro-Norte brasileiro. Outras pesquisas procuraram conhecer as impedâncias para o desenvolvimento da multimodalidade, em especial de cargas agrícolas, que dependem de alternativas mais econômicas de transporte, em função do seu relativo valor agregado e das longas distâncias as quais precisam percorrer. Todavia, são raras as que consideram, efetivamente, o ponto de vista dos agentes envolvidos, em especial os transportadores (prestadores de serviço de transporte) e os embarcadores (contratantes do serviço de transporte). Esta pesquisa é parte de três projetos mais amplos relacionados ao tema.A amostra foi composta por 242 agentes, sendo 44 no Corredor em questão. As entrevistas foram realizadas pessoalmente por 25 pesquisadores, entre os meses de abril e julho de 2008. Os resultados são importantes no sentido de contribuírem para ratificar ou retificar a opinião pública sobre os desafios à multimodalidade na região; também contribuem para a calibração de modelos matemáticos usados para avaliação e planejamento de políticas de investimentos em infraestrutura logística. Palavras-chave:Transporte. Logística. Produtos Agrícolas. Instituições. * Pesquisador. Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial, Universidade de São Paulo (USP). E-mail: jehollerbranco@gmail.com. ** Professor Titular. Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, USP. E-mail: jvcaixet@esalq.usp.br. *** Professor Doutor. Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, USP. E-mail: gameiro@usp.br. **** Pesquisador. Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial, USP. E-mail: ceox@esalq.usp.br. ***** Pesquisador. Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial, USP. E-mail: waltermpaes@yahoo.com.br. ****** Professora Adjunta. Fundação Universidade Federal do Tocantins. E-mail: bettyvan2001@yahoo.com.br.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 144 LOGISTIC OPTIMIZATION FOR MULTIMODAL AGRICULTURAL PRODUCTS TRANSPORT BY CENTER-NORTH CORRIDOR:WHAT DO COMPANIES AND INSTITUTIONS INVOLVED THINK ABOUT IT? ABSTRACT This paper present the main results of a survey with transport companies, shippers and public agents evolved in the transport of agricultural products in the Brazilian Center-North Corridor. Other researches aimed to show the impedance to the development of multimodality in Brazilian transport especially of agricultural commodities that depend on more economical alternatives due their lower aggregated value and the long distances they need to cover.Although are scarce the ones that consider, effectively, the agents’ point of view, mainly the transport companies and the cargo owner (shippers). This survey is part of three research projects more ample related to the subject. The sample was composed by 242 agents, being 44 in the Center-North Corridor. The interviews were conducted personally by 25 researchers between April and July 2008. The results are important to ratify and rectify the public opinion about the challenges to multimodality in the region; also contribute to the calibration of mathematical models used to assess and to plan investment policies in logistic infrastructure. Keywords:Transport. Logistics.Agricultural Product. Institutions.
    • 145Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO O Corredor Centro-Norte possui como áreas de influência os estados do Mato Grosso, Goiás,Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia e Pará. As regiões englobadas pelo corredor possuem características semelhantes de escoamento das suas commodities que,para tanto,compartilham dos mesmos modais de transporte. Além disso, estão direta ou indiretamente ligadas à bacia dos rios Tocantins e Araguaia e têm como principal terminal marítimo de movimentação dos produtos o Porto do Itaqui, em São Luís (MA). Além da hidrovia Tocantins-Araguaia, também são importantes para o escoamento da produção, através do Corredor Centro-Norte, as seguintes infraestruturas de transporte: Estrada de Ferro Norte-Sul (ainda com trechos em fase de construção), Estrada de Ferro Carajás, Porto de Itaqui em São Luís (MA), além de algumas estradas federais e estaduais. A fim de levantar mais informações sobre os corredores de escoamento, o Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Escola Superior deAgricultura Luiz de Queiroz (ESALQ LOG), associado com a Universidade de São Paulo (ESALQUSP) e a Universidade Federal do Tocantins (UFT), realizou entre os meses de abril e julho de 2008 visitas a campo no corredor em questão. Elas foram subsidiadas pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) através dos recursos alocados para a realização da meta física “Pesquisa de Campo”, vinculada ao projeto em questão. A pesquisa de campo teve como objetivo levantar junto aos principais agentes embarcadores e transportadores do corredor, informações sobre as condições da infraestrutura atual, sobre os fluxos das principais commodities agrícolas pelo corredor, sobre as localidades que realizam operação de transbordo e a respeito das impedâncias logísticas apontadas pelos agentes envolvidos com o sistema de transporte nas regiões visitadas.Além disso,procurou-se buscar informações sobre investimentos previstos pela iniciativa pública e privada, e informações relevantes para desenvolver um panorama logístico a respeito da movimentação dos produtos agrícolas de interesse. Os dados coletados, além de promoverem o enriquecimento do estudo com informações qualitativas, também permitem o ajuste do modelo matemático utilizado na otimização logística para o transporte multimodal das safras agrícolas. Ademais, possibilita um bom comparativo entre as informações pesquisadas na revisão bibliográfica e as levantadas em campo, permitindo a montagem de cenários econômicos mais próximos da realidade, além de facilitar a compreensão das especificidades das movimentações agrícolas de cada região visitada. Apesar do artigo ter como foco documentar os resultados decorrentes do desenvolvimento do projeto intitulado “Modelo Matemático de Otimização Logística para o Transporte Multimodal de Safras Agrícolas pelo Corredor Centro-Norte”, a Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz,em conjunto com o ESALQ-LOG, desenvolveu dois trabalhos semelhantes que foram submetidos à mesma Chamada Pública. Estes denominados: “Modelo Matemático de Otimização Logística para o Transporte Multimodal de Safras Agrícolas pelo Corredor Nordeste”e“Modelo Matemático de Otimização Logística para oTransporte Multimodal de Safras Agrícolas pelo Corredor Centro Oeste”, que também envolveram atividades de pesquisa de campo, desenvolvidas com base no mesmo método e objetivos.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 146 2 PESQUISA DE CAMPO As visitas de campo foram realizadas entre os meses de abril e julho de 2008, e envolveram 25 pesquisadores,provenientes das seguintes instituições: USP/ESALQ, UFT, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Universidade Estadual de Maringá (UEM). Foram entrevistados 242 agentes, entre embarcadores (contratantes de serviços logísticos), transportadores e instituições (associações, prefeituras, órgãos de regulamentação etc.). O perfil dos entrevistados e o número de entrevistas realizadas, organizadas para cada um dos três corredores considerados na pesquisa, são apresentados nas Tabelas 1 e 2, respectivamente. Tabela 1 - Composição da amostra da pesquisa de campo. Fonte: ESALQ-LOG (2009). Houve um predomínio esperado de embarcadores na amostra (78%), uma vez que este perfil de agente é, de fato, o mais numeroso e aquele,diretamente,maisimpactadopelosgargalos relacionados à falta de alternativas multimodais. No que se refere à participação dos corredores na composição da amostra, também houve a preocupação de se representar adequadamente o universo da pesquisa, havendo um predomínio de entrevistados no Corredor Centro-Oeste,como ilustrado naTabela 2, por configurar a região geográfica responsável pela maior parcela da produção nacional dos produtos agrícolas e agroindustriais de interesse do estudo. Tabela 2 - Número de entrevistas realizadas por corredor logístico. Fonte: ESALQ-LOG (2009).
    • 147Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Foram visitadas instituições públicas associadas ao setor de transportes, transportadoras,embarcadores envolvidos com a movimentação de álcool,açúcar,farelo de soja, óleo de soja, soja em grão, milho e trigo. São exemplos de agentes visitados: armazéns de grãos (além das unidades armazenadoras, também engloba cooperativas, traders, entre outras empresas que de alguma forma estão relacionadas com a armazenagem e/ou comercialização de grãos), esmagadoras de soja, misturadoras de fertilizantes, usinas de açúcar e álcool, moinhos de trigo, indústrias de biodiesel, entre outras. ATabela 3 apresenta a representatividade dos resultados da pesquisa de campo por tipo de produto.A aplicação dos questionários,também, possibilitou a identificação de 1.403 fluxos ao longo das rotas utilizadas atualmente,indicando as principais regiões de origem e de destino de cargas ao longo dos corredores de transporte, bem como a identificação das principais alternativas multimodais utilizadas para o escoamento dos produtos de interesse. Tabela 3 - Rotas pesquisadas (Corredores Centro-Oeste, Centro-Norte e Nordeste). Fonte: ESALQ-LOG (2009). Nota: *produtos que não estão contidos neste estudo como: farelo e farinha de trigo, arroz, ração animal, entre outros. Nas visitas de campo foram aplicados três tipos de questionários: aos embarcadores, aos transportadores e às instituições. Consideram-se como embarcadores os agentes que detêm a carga agrícola (indústrias processadoras, traders etc.). Os transportadores,por sua vez,são todos aqueles que prestam algum tipo de serviço logístico, principalmente os relacionados ao transporte das cargas. Por último, as instituições são todos os órgãos ou instituições públicas que de alguma forma estejam relacionadas à cadeia logística dos produtos de interesse deste estudo: agências, órgãos fiscalizadores, regulamentadores, armazéns reguladores, entre outros. Em relação à estrutura dos questionários, os primeiros tópicos tinham como objetivo levantar as informações sobre as principais rotas, com os seus respectivos volumes, de forma a identificar as melhores alternativas multimodais
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 148 atualmente utilizadas, além dos principais gargalos nas rotas descritas, observados pelos agentes de cada corredor de transporte. Em segundo lugar fazia-se referência aos investimentos, buscando informações sobre as perspectivas a respeito das fontes públicas e privadas,a curto e médio prazo,empenhados para alavancar a multimodalidade.Por fim,os últimos tópicos dos questionários tiveram como objetivo avaliar os principais fatores que interferem na tomada de decisão dos agentes pelo uso de um modal de transporte em detrimento a outro. Dessa forma,foi possível avaliar os critérios mais determinantes quando da escolha de uma modalidade para a movimentação de mercadorias. 3 RESULTADOS Dentre os objetivos delineados, as entrevistas visaram estimar o volume das cargas de interesse que era movimentado pelos agentes amostrados. A Tabela 4 traz a quantidade de carga declarada pelos entrevistados,organizadas em granéis agrícolas sólidos e granéis agrícolas líquidos,e,ainda,em função dos modais por meio dos quais tais cargas eram movimentadas. Tabela 4 - Quantidade de cargas movimentadas declaradas pelos entrevistados em função do modal utilizado (corredores Centro-Oeste, Centro-Norte e Nordeste). Fonte: ESALQ-LOG (2009). A partir das quantidades movimentadas declaradas, construiu-se uma matriz de transporte em função dos modais, conforme consta na Tabela 5. Tabela 5 - Matriz de transporte estimada a partir das quantidades movimentadas declaradas pelos entrevistados (corredores Centro-Oeste, Centro-Norte e Nordeste). Fonte: ESALQ-LOG (2009).
    • 149Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Observa-se, nas Tabelas 4 e 5, a maior participação dos granéis sólidos agrícolas e do modal rodoviário para sua movimentação. A matriz estimada apresenta uma aderência bastante razoável em relação às matrizes de transporte disponíveis para o Brasil. Evidencia- se,ainda,que a multimodalidade é,ainda,mais incipiente quando se trata dos granéis líquidos, para os quais o modal rodoviário apresenta total domínio (87%) em sua movimentação. Também, ratifica-se a quase insignificante participação do modal hidroviário (2% a 3%) que,para faixas mais extensas de viagens,seria reconhecidamente o modal mais econômico e ambientalmente menos poluidor. Desagregando as quantidades para as cargas e modais específicos de interesse do estudo, têm-se os painéis expostos nasTabelas 6 e 7,para granéis sólidos e líquidos, respectivamente. Tabela 6 - Quantidade de carga (granéis agrícolas sólidos) movimentada declarada para os respectivos modais de transporte (Corredores Centro-Oeste, Centro-Norte e Nordeste). Fonte: ESALQ-LOG (2009).Nota: *algodão, arroz, resíduos de soja, farinha de trigo, girassol e ração. Tabela 7 - Quantidade de carga (granéis agrícolas líquidos) movimentada declarada para os respectivos modais de transporte (corredores Centro-Oeste, Centro-Norte e Nordeste). Fonte: ESALQ-LOG (2009).Nota: * biodiesel, derivados de petróleo, gordura animal, metanol e óleos vegetais diversos.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 150 Tabela 8 - Quantidade de carga (granéis agrícolas sólidos) movimentada declarada para os respectivos modais de transporte (Corredor Centro-Norte). As quantidades de carga movimentada declarada pelos entrevistados do Corredor Centro-Norte,especificamente,são apresentadas nas Tabelas 8 e 9. Fonte: ESALQ-LOG (2009). Tabela 9 - Quantidade de carga (granéis agrícolas líquidos) movimentada declarada para os respectivos modais de transporte (Corredor Centro-Norte). Fonte: ESALQ-LOG (2009).Nota: *biodiesel, gordura animal e metanol. As cargas que se destacaram na composição da amostra do Corredor Centro-Norte foram o álcool, açúcar, soja e o milho. Houve um domínio do modal rodoviário para todas as cargas, em especial os granéis líquidos.Praticamente não se identificou movimentação por hidrovias entre os entrevistados amostrados neste corredor. Uma vez que um dos principais objetivos deste projeto era identificar os impedimentos à multimodalidade, procurou-se compreender a disponibilidade declarada de modais alternativos para a movimentação das cargas. Para tanto, também, se utilizou do índice que recebeu a denominação de “índice de disponibilidade declarada de modais de transporte”. Este índice foi elaborado em relação à quantidade de carga movimentada declarada pelos entrevistados,que também foram questionados sobre a disponibilidade de outros modais para
    • 151Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Fonte: ESALQ-LOG (2009). Nota: R = Rodoviário, F = Ferroviário, H = Hidroviário. Para os granéis sólidos, observa-se que praticamente 81% do volume de carga declarada tem disponibilidade para uso exclusivo do modal rodoviário. Na segunda posição aparece a disponibilidade conjunta entre as alternativas rodoviária e ferroviária (18,8%). Apenas 0,4% da cargateriamastrêsalternativasmodaisparadecidir qual utilizar.Para os granéis líquidos,97% da carga só teria o modal rodoviário a utilizar.Os três modais de interesse seriam alternativos para,apenas,3,3% da carga a ser movimentada. De uma forma geral, observa-se uma disponibilidade nula entre as alternativas rodoviária/hidroviária e ferroviária/ hidroviária, motivada pela indisponibilidade do modal hidroviário neste corredor. Dentre os principais objetivos da pesquisa de campo estava a obtenção de informações para ajudar na aferição de modelo matemático de otimização logística, que era um dos objetivos centrais dos projetos relacionados. Nesse sentido,houve a preocupação em melhor compreender o comportamento dos embarcadores enquanto usuários dos serviços logísticos. Os atributos determinantes das operações foram apresentados aos entrevistados para que os ordenassem segundo sua importância. O resultado agregado é apresentado na Tabela 11. movimentá-las. Deve-se atentar, portanto, que esta disponibilidade apresenta um conceito amplo, podendo dizer respeito tanto a uma disponibilidade física (existe a estrutura do modal alternativo que permitiria o embarque,bem como equipamentos e tecnologia para tal) quanto à disponibilidade comercial (existe escala, conhecimento, condições negociais, interesse do transportador). O índice de disponibilidade declarada de modais de transporte para o Corredor Centro- Norte é apresentado na Tabela 10, organizado por carga. Tabela 10 - Índice de disponibilidade de modais de transporte para o Corredor Centro-Norte.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 152 Fonte: ESALQ-LOG (2009). Como pode ser observado, calculou-se a média e a moda das posições declaradas por todos os embarcadores entrevistados, para cada um dos atributos considerados. Para ter-se uma ideia de variabilidade, apresenta-se também o desvio-padrão das posições. O custo logístico total foi considerado o atributo mais importante, como pode ser observado tanto pela média das posições (1,6) quanto pela moda (1). O desvio-padrão foi o mais reduzidodentretodososatributos,ratificandoque, apesar da diversidade de situações (regiões, cargas,modais etc.),o atributo custo é quase uma unanimidade. A agilidade da operação portuária ficou na segunda posição dentre eles. Isso pode ser observado tanto pela média (2,9) quanto pela moda (2). Muito embora o tempo total do percurso (transit time) tenha ficado na terceira posição, a média de sua posição (3,1) foi bastante próxima à da agilidade portuária. Os demais atributos considerados - possibilidade de contrato de longo prazo, perdas físicas e garantias sobre sinistros - mostraram posições bastante semelhantes,o que não permite afirmar com segurança qual apresenta maior importância para os entrevistados considerados de forma agregada. Outro importante parâmetro investigado na pesquisa de campo diz respeito ao desconto exigido pelos embarcadores para que eles - tudo o resto mantido constante - decidam por embarcar sua carga em um modal alternativo ao rodoviário. Para analisar as respostas calculou- se, como na análise dos atributos, a média e a moda dos descontos declarados pelos entrevistados.Neste caso,a média foi ponderada pelo volume de carga embarcada, anualmente, declarada pelos informantes. Os resultados são apresentados na Tabela 12. Tabela 11 - Ordenação dos atributos determinantes das operações logísticas declarados pelos entrevistados (corredores Centro-Oeste, Centro-Norte e Nordeste).
    • 153Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Fonte: ESALQ-LOG (2009). Para as cargas em geral, com exceção das matérias-primas para fertilizantes e do álcool, o desconto exigido para o frete hidroviário é superior ao exigido para o frete ferroviário ou, no mínimo, em patamar bastante semelhante ao do ferroviário. Para o álcool, essa tendência parece inverter-se,sendo que os descontos exigidos sobre o frete ferroviário são superiores, provavelmente refletindo um maior risco que percebem no transporte de uma carga perigosa por esse modal. A compreensão das dificuldades enfrentadas pelos agentes envolvidos na logística agroindustrial nos corredores de análise, também, foi um objetivo importante da pesquisa de campo. Aos entrevistados era solicitado que declarassem quais são os problemas logísticos enfrentados em seus negócios, em especial aqueles gargalos mais diretamente relacionados aos impedimentos à multimodalidade. As respostas foram estudadas e sistematizadas em tópicos (“gargalo”). Tais resultados agregados constam na Tabela 13. Tabela 12 - Desconto no frete exigido pelos embarcadores das respectivas cargas para que decidam por embarcá-las em um dos modais de transportes alternativos (Corredores Centro-Oeste, Centro- Norte e Nordeste).
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 154 Fonte: ESALQ-LOG (2009). Os resultados agregados indicam que praticamente, três quartos dos entrevistados (74%) entendem que a infraestrutura viária brasileira é deficiente. Este foi, por conseguinte, o gargalo mais importante identificado na pesquisa. A oferta insuficiente de serviços de transporte o segundo gargalo mais frequente, tendo sido declarado por 41% dos entrevistados. Relacionado a este gargalo, mas com ênfase direta na questão da multimodalidade, ficou o item “falta de modal alternativo”, mencionado por 29% dos entrevistados. Este pode ser entendido, também, como parte da oferta insuficiente de serviço de transporte, porém está mais diretamente relacionado à escassez de alternativas e capacidade de movimentação multimodal, em especial relacionada aos modais ferroviário e hidroviário.Na quarta posição,surge Tabela 13 - Frequência dos gargalos logísticos declarados pelos entrevistados: para a amostra como um todo e para os corredores Centro-Oeste, Centro-Norte e Nordeste. a questão do elevado custo do frete,mencionado por 27% dos entrevistados. Importante ressaltar que este gargalo pode estar de alguma forma, relacionado aos três itens anteriores.Ainda assim, é sentido e manifestado, diretamente, por um número expressivo de agentes. Na sequência, com frequências de declarações entre 15% e 18%, apareceram os seguintes gargalos: dificuldades de negociação, falta de infraestrutura portuária, problemas no transbordo e o elevado custo dos pedágios. Com uma frequência entre 5% e 9% surgiram os gargalos relacionados ao elevado transit time, elevado risco na operação logística, trânsito intenso e a alta carga tributária. Menos de 5% dos entrevistados ainda declararam se deparar com os seguintes gargalos: necessidade de operar
    • 155Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. em grande escala, restrições de horário de tráfego, questões ambientais, problemas nas fiscalizações, inadequação de veículos de transporte específico e as perdas físicas (“quebras”) durante a operação. Ressaltam-se, mais uma vez, que alguns desses compõem, de certa forma, alguns dos gargalos mais abrangentes que ficaram nas primeiras posições. Quando analisados, separadamente, os gargalos declarados pelos entrevistados do Corredor Centro-Norte, observa-se certa semelhança com os resultados da amostra completa,queconsideraostrêscorredores.Todavia, as declarações dos entrevistados do Centro-Norte indicam que a falta da multimodalidade pode ser, ainda, mais evidente nesse corredor, uma vez que 68% dos entrevistados manifestaram-se nesse sentido, sendo esse gargalo o mais recorrente. Os gargalosrelacionadosàfaltadeestruturaportuária, às dificuldades de negociação e aos transbordos apareceram com pouca importância, quando comparados com os resultados agregados para os três corredores. Isso porque, devido à pequena operação multimodal e ao restrito acesso ao mar, esses itens acabam não sendo, efetivamente, tão relevantes. Aos entrevistados, também, era solicitado que,após a declaração dos gargalos identificados, fossem apontados os responsáveis por sua solução ou melhoria. As alternativas eram: governo, iniciativa privada ou as parcerias público-privadas. Os resultados são ilustrados na Tabela 14. Tabela 14 - Frequência dos gargalos logísticos declarados pelos entrevistados: para a amostra como um todo e organizados em função do responsável por sua solução ou melhoria. Fonte: ESALQ-LOG (2009).
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 156 Tabela 15 - Perfil dos novos investimentos em logística declarados pelos entrevistados para a mostra como um todo e por corredor. O governo foi predominantemente responsabilizado pela necessidade de solução dos gargalos relacionados à infraestrutura viária deficiente e à falta de modais alternativos. Os entrevistados entendem que cabe, em primeiro lugar às Parcerias Público-Privadas (PPPs), a solução dos problemas relacionados à inadequação de veículos de transportes específicos.Deve-se destacar,porém,que muitos entrevistados não souberam afirmar quem seria o responsável pela solução. Isso aconteceu para um grande número de gargalos,como se observa na última coluna da Tabela 14. Esse suposto desconhecimento dos agentes pode ser um indício de que, ainda, há indefinições de regulamentações, entendidas como falta de definições exatas de papéis e regras de funcionamento relacionadas a investimento e operação da logística no país. Aos entrevistados questionou-se,também, sobre os investimentos em logística previstos por suas empresas ou instituições.Consideraram-se seis tipos de investimentos, que são apresentados na Tabela 15, já com suas respectivas frequências. Fonte: ESALQ-LOG (2009). A aquisição de veículos e equipamentos foi o tipo de investimento mais frequente na amostra, sendo que 35% dos entrevistados apontaram nessa direção.Ampliar a capacidade de armazenagem mostrou-se um investimento iminente para 25% das empresas e instituições. Investimentos em transbordo e novas unidades apareceram com frequências bastante próximas, entre 12% e 15%. A realização de estudos de viabilidade foi um investimento menos frequente na pesquisa (9% dos entrevistados). Solicitou-se, também, aos entrevistados que indicassem localidades para implantação de terminais logísticos multimodais, caso entendessem haver necessidade dos mesmos.Em relação Corredor Centro-Norte foram indicadas seis localidades para instalação de terminais logísticos multimodais. Essas localidades são apresentadas na Tabela 16.
    • 157Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Tabela 16 - Locais indicados pelos entrevistados para a instalação de terminais logísticos multimodais no Corredor Centro-Norte, com suas respectivas frequências de declarações 4 CONCLUSÕES A pesquisa junto às empresas e instituições envolvidas com a logística de produtos agrícolas no Corredor Centro-Norte pode constatar a relevância dos gargalos existentes que dificultam ou impedem o uso da multimodalidade de transporte. Este foi o problema com maior frequência nas declarações dos entrevistados. Muitos agentes, também, demonstram significativo desconhecimento sobre os papéis relacionados a investimentos e operação logística no Corredor. O melhor entendimento dos atributos determinantes das operações logísticas, Fonte: ESALQ-LOG (2009). Todas as localidades tiveram a mesma frequência de indicações. Cidades dos estados do Pará e Piauí receberam destaque,além de São Luís do Maranhão,por sua importância portuária. também, pôde ser levantado, sendo que o custo total logístico aparece, indiscutivelmente, como o mais relevante. Os resultados são importantes no sentido de contribuírem para ratificar ou retificar a opinião pública sobre os desafios à multimodalidade na região; também contribuem para a calibração de modelos matemáticos usados para avaliação e planejamento de políticas de investimentos em infraestrutura logística. NOTA: 1 Este artigo resume parte dos resultados obtidos pelo projeto intitulado “Modelo Matemático de Otimização Logística para o Transporte Multimodal de Safras Agrícolas pelo Corredor Centro-Norte”, desenvolvido por meio do Convênio 01.07.0773.00, estabelecido entre a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e a Fundação de EstudosAgrários Luiz de Queiroz (FEALQ), executado pela Universidade de São Paulo (USP), por intermédio da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ), através do Grupo de Pesquisa e Extensão em LogísticaAgroindustrial (ESALQ-LOG),tendo ainda como co-executora a Fundação Universidade Federal do
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 158 Tocantins (FUFT). Os autores agradecem a colaboração dos seguintes pesquisadores, envolvidos no desenvolvimento do projeto citado:Ana Paula Fatoretto, André LuísArthuso Cuevas, Bruno Fernando de Oliveira, Carolina de Freitas Oliveira, Ciro Villela Oliva, Claudia Maciel de Lemos,Claudirene Romero de Oliveira,Daniel Gerard Eijsink, Daniel Godoy Penteado Bragado,Daniela Cristina Passoni, Diogo Galvão Levez,Edson Roberto da Silva Michelon, Erica Gomes da Silva, Fernando Vinícius da Rocha, Flávia Zaparoli Beretta, Gabriela Fernandes Begiato, Heiko Rossmann, Isabela Vescove Primiano, Joseane Thereza Bigaran, Leandro Bernardino de Carvalho, Leandro Henrique Guglielmin Tizato, Leticia Corassa Neves, Luis Claudio Oliveira do Nascimento, Maria Andrade Pinheiro, Maria Clara Silva Serafim, Mariana Soto Silva, Michael Camacho Roulet,Nermano Franco Ferreira,Priscila Biancarelli Nunes,RafaelVassolér Torres, Renan Buselli Menezes, Rhuana Reijers, Ricardo de Campos Bull,RodrigoAmâncio Briozo,Rodrigo Scapin Rosa, Rodrigo Viviani, Tatiana Beatriz de Oliveira Goudromilhos,Thiago Marques Baptista,Vanessa Duarte Rubia, Ricardo Luís Lopes, Vitor Pires Vencovsky, Maristela Minatel, José Manuel Carvalho Marta, Warli Anjos de Souza, Adriano Tenorio Pereira, Bruno Cesar Fleuri Siqueira, Bartira Maria Cechinel e Sarah Afonso Rodovalho.
    • 159Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. REFERÊNCIAS GRUPO DE PESQUISA E EXTENSÃO EM LOGÍSTICAAGROINDUSTRIAL DA ESCOLA SUPERIOR DEAGRICULTURA LUIZ DE QUEIROZ (ESALQ-LOG). Otimização logística para o transporte multimodal de safras agrícolas pelo Corredor Centro-Norte: Relatório de Pesquisa. São Paulo, 2009. 156 p.
    • 161Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. AS CHUVAS EASVAZÕES NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIOACRE,AMAZÔNIA OCIDENTAL: CARACTERIZAÇÃO E IMPLICAÇÕES SOCIOECONÔMICAS E AMBIENTAIS Alejandro Fonseca Duarte* RESUMO A riqueza da Amazônia contrasta com a vulnerabilidade das populações. O trabalho mostra o contexto das condições, em que os impactos negativos à sociedade e à economia, prejudicam o progresso de cidades amazônicas, em particular no âmbito da bacia do rio Acre. Em termos do comportamento hidrometeorológico observou-se a alternância sazonal de vazões extremas,acima de 900 m3 /s e abaixo de 50 m3 /s, que implicam em famílias desalojadas durante as cheias e falta do suprimento público de água durante as secas. Os impactos socioeconômicos são praticamente incalculáveis. Palavras-chave:Amazônia. Alagações e Secas. Bacia do Rio Acre.Vulnerabilidade Social. * Dr.; Prof. do Departamento de Ciências da Natureza, Universidade Federal do Acre (UFAC). E-mail: alejandro@ufac.br.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 162 RAINFALLSAND FLOWRATES INACRE RIVER BASIN,WESTERNAMAZONIA:ENVIRONMENTAL AND SOCIO-ECONOMIC CHARACTERIZATION AND IMPLICATIONS ABSTRACTS The wealth of the Amazonia contrasts with the vulnerability of populations. This work shows the context of conditions in which negative impacts on society and economy hinder the progress of Amazonian cities, particularly in the Acre Riverbasin. In terms of the hydrometeorological behavior the seasonal alternation of extreme flows,above 900 m3 /s and below 50 m3 /s,was observed.It involves families displaced during the floods and lack of public water supply during the droughts.The accumulated socio-economic impacts are almost incalculable. Keywords:Amazonia. Floods and Droughts.Acre River Basin. Social Vulnerability.
    • 163Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO A bacia amazônica é um ambiente quente e úmido de rica biodiversidade, onde as populações humanas que a habitam estão distribuídas em estados, municípios, terras indígenas, projetos de assentamento, unidades de conservação e áreas de preservação permanente. Identificam-se cidades de grande e mediano porte, vilas, campos e fazendas, no contexto florestal de planícies inundáveis. Nestas circunstâncias o equilíbrio entre sociedade e ambiente pode ser fragilizado prejudicando grandemente as duas partes desta unicidade: o homem que abandona as formas sustentáveis de existência na região, por um lado; e a floresta que começa a dar manifestações de modificação das suas interações e comportamentos naturais. As águas (rios, igarapés, açudes) na Amazônia estão associadas a populações e atividades humanas, além dos serviços ambientais que oferecem. A falta de planejamento físico e visão de futuro têm motivado a invasão “urbana” de áreas baixas, de escoamento superficial, onde proliferaram bairros carentes de infraestrutura, em geral, pobres e socialmente vulneráveis. Este trabalho visa mostrar um exemplo de tais circunstâncias na bacia hidrográfica do rioAcre e na capital do Acre, Rio Branco, onde o ciclo sazonal das águas estabelecido pelo clima motiva alagações no ambiente construído em áreas de risco em épocas de cheias e, deixa sem opções de suprimento de água as extensas áreas populacionais durante a seca, por falta de meios de abastecimento público.Estas situações estão em descompasso com o equilíbrio que deveria existir numa região, precisamente, caracterizada pela abundância das águas,que não poderiam provocar calamidades, faltar ou ser desperdiçadas. No presente trabalho, descreve-se o contexto social, econômico e hidrometeorológico da bacia do rio Acre; caracteriza-se a alternância sazonal de secas e enchentes e mostram-se seus impactos recorrentes sobre as populações expostas,aspectos comuns às cidades amazônicas, como Rio Branco. 2 A BACIA DO RIO ACRE: UMA BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO A bacia hidrográfica como unidade fundamental para o planejamento territorial vem funcionando cada vez melhor como uma unidade social e administrativa de apoio ao gerenciamento governamental. Os comitês de bacias e os planos de manejo de recursos hídricos são indicativos da importância prática conferida ao tema. Na bacia hidrográfica do rio Acre não se evidencia a existência de conflitos marcados de interesse no uso do solo das florestas,dos campos e das cidades, que compartilham as águas de chuva e de escoamento superficial. Com o passar das décadas se acumularam, nesta parte do Acre, quase a totalidade da população, do desmatamento, da produção agropecuária, do comércio e demais atividades socioeconômicas, devido principalmente à falta de acesso para as regiões intrincadas nas partes centrais e oeste do Estado.A bacia do rio Acre e suas microbacias não são,apenas,cursos de água, solos e florestas,mas também rodovias,fazendas e cidades, além de água, vida e movimento. A rodovia BR-317 faz um percurso semelhante ao do rio Acre, liga os municípios de Boca doAcre (AM) à Rio Branco (AC) e segue até Assis Brasil (AC) localizado na tripla fronteira Brasil – Peru – Bolívia (IBGE, 2010). De Boca do Acre (AM) à fronteira com oAcre constitui-se um trecho de chão esburacado, praticamente impossível de transitar. São 112 km que mesmo durante a seca constituem um obstáculo. Esta
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 164 situação está mudando com o asfaltamento da via. Ao longo desse percurso se observam áreas de matas, de pecuária, espaços descampados ou simplesmente desolados. Boca do Acre (AM), cidade com 30.632 habitantes (IBGE, 2010), é extensa, conta com um campus universitário, em Piquiá, e uma “praia” no rio Purus, de águas baixas em setembro, é um lugar de lazer e alegria que congrega multidões. O panorama climático fica ruim com as queimadas e a altíssima concentração de fumaça na atmosfera. É que aqueles espaços de mata, desolados e de fazendas descampadas viram focos de queimadas na estação seca; é a sinfonia do fogo, que no norte doAcre e no sul doAmazonas, de Acrelândia até Mâncio Lima, segue o destino da rodovia BR-364. Ao cruzar a fronteira, que deixa atrás Boca do Acre (AM) e entra em Rio Branco, a BR-317 é um plano asfaltado, que à distância de 90 km atravessa a BR-364, nas Quatro Bocas, a 35 km de Rio Branco. Daí, em mais 22 km ela chega a Quinari; depois de 45 km a Capixaba; e na rota para Epitaciolândia e Brasileia, aproxima-se a 12 km de Xapuri, no início da Estrada da Borracha. Toda esta região afetada pelo desmatamento é rica em gado. Capixaba (AC) também incursiona na cana de açúcar. Quinari, com pouco mais de 20.000 habitantes, e Capixaba, com menos de 10.000, sentem a necessidade de adequação ao ritmo da BR-317, que também recebe o nome de Estrada do Pacífico. Nestas cidades a rodovia é também sua avenida principal, confundida com a rodovia estadual AC-040, rota tradicional entre Rio Branco,Quinari e Plácido de Castro.A duplicação e a retificação da via entre Rio Branco e Quinarí colocaram estas cidades vizinhas, ainda, mais próximas em todos os sentidos. De Rio Branco até Epitaciolândia e Brasileia são 250 km, em mais 110 km está Assis Brasil, início da ligação com o mar, no Peru, através de Iñapari, rota em que se trabalha intensamente para concluir a Estrada do Pacífico, numa paisagem de florestas,rios e montanhas rochosas. Brasileia tem 21.398 habitantes, Epitaciolândia 15.100 e Assis Brasil 6.072. (IBGE, 2010). Rio Branco tem um pouco mais de 300.000 habitantes, conta com uma universidade federal há mais de 40 anos, e várias outras faculdades privadas,duas bibliotecas,dois teatros,um estádio de grande porte e outros menores, portanto concentra as principais atividades econômicas, culturais, esportivas e sociais da bacia do rio Acre. Bairros carentes e população desassistida nas áreas de educação, saúde, moradia, saneamento básico, emprego e renda convivem, em situação de pobreza, no dia a dia, inclusive com o problema de droga nas escolas e,sazonalmente,com as doenças recorrentes ou que se alastram até o nível de epidemias como no caso da dengue. Algumas destas condições nutrem a existência de uma grande população carcerária. O trânsito veicular caótico e os acidentes com motos ficam na contramão do esforço de construir e modernizar vias de circulação internas e de acesso a outras cidades, bem como pontes, para uma quantidade de caminhões, carros e motos que cresce assustadoramente. De Rio Branco chega-se a Porto Acre pela rodovia AC-010, num percurso de 65 km de paisagem ondulada de fazendas, extensões de capim e açudes.Cenário que se repete na rodovia AC-090 (Transacreana), importante via pavimentada em quase 100 km a partir de Rio Branco rumo ao oeste do Estado, parte inicial de um planejamento antigo de, aproximadamente, 800 km de estrada. Construir e manter a malha de rodovias e ramais noAcre representa um esforço caríssimo e complexo. A maior dificuldade está em lidar com o solo argiloso quase impermeável, que não dá suporte, que desliza e desagrega. Os rios, as ruas, as avenidas,as rodovias,os ramais e as trilhas são as vias de comunicação aquática e terrestre as quais movem a economia e a sociedade na bacia hidrográfica do rioAcre.Por eles transitam homens, mulheres e crianças do campo e da cidade,colonos de assentamentos da reforma agrária,ribeirinhos,
    • 165Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. enfim trabalhadores cuja beleza intrínseca e grandeza histórica são evidentemente uma continuação da exuberância da floresta e do clima da região,em meio da contradição entre progresso, cidadania e conservação. Xapuri, Epitaciolândia, Brasileia e Assis Brasil contam com campi universitários. A primeira cidade, terra de Chico Mendes, é uma região de ribeirinhos,extrativistas e seringueiros, também, de trabalhadores industriais da madeira certificada e do látex nas fábricas de móveis, de pisos e de preservativos. Com uma população de 16.091 habitantes (IBGE, 2010) cultiva sua tradição de luta, resistência e religiosidade. Para adentrar-se na Reserva Extrativista Chico Mendes carros e pessoas atravessam de balsa o rio Acre para sua margem esquerda, na Reserva já foram apreendidos cultivos de maconha. Diariamente a população local usa as catraias para cruzar o rio de uma margem a outra. O preço atual da viagem de ida ou de volta é de menos de um real, como nas catraias de Rio Branco que fazem igual função.O Mapa 1 resume a geografia descrita. Mapa 1 - A bacia hidrográfica do rio Acre no seu contexto amazônico; a oeste as áreas de floresta, a leste as cidades sedes dos municípios de igual nome:1)Assis Brasil e Iñapari (Peru),2) Brasileira,Epitaciolândia e Cobija (Bolívia), 3) Xapuri, 4) Capixaba, 5) Quinari, 6) Rio Branco, 7) Bujari, 8) Porto Acre e 9) Boca do Acre/AM. O rio Acre corre pela parte sul e leste da bacia, passando por Assis Brasil (Iñapari), Brasileia (Epitaciolândia e Cobija), Xapuri, Rio Branco, Porto Acre até chegar a Boca do Acre. Fonte: dados da pesquisa.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 166 A bacia do rio Acre pode ser dividida em cinco microbacias: o próprio rio Acre é o rio principal da microbacia Trinacioanal (Figura 1), ocupada por territórios do Brasil (Acre), Peru e Bolívia, sendo a sua área de drenagem S1 =7.600 km2 ;na sequência a microbacia Xapuri (Figura 2), sua área de drenagem é S2 = 5.200 km2 , nela, o Xapuri é rio principal; em seguida a microbacia Rôla (Figura 3), com uma área de drenagem S3 = 10.200 km2 ; seu rio principal é o chamado Riozinho do Rôla; segue a microbacia PortoAcre (Figura 4), que tem uma área de drenagem S4 = 2.700 km2 ;o próprio rioAcre,entre as cidades de Rio Branco e Porto Acre, é o rio principal da microbacia;finalmente,a microbacia Biestadual, com uma área de drenagem S5 = 9.300 km2 (Figura 5) é compartilhada pelos estados doAcre e do Amazonas. Nela, os rios Andirá e Antimarí desembocam no rio Acre, em curso para sua foz no rio Purus, na cidade de Boca do Acre (AM). Figura 1 – Microbacia Trinacional. Nota: o ponto a oeste representa Assis Brasil e Iñapari; a leste Brasileia, Epitaciolândia e Cobija. Figura 2 - Microbacia Xapuri. Nota: o ponto representa a cidade de Xapuri. Nota: o ponto representa a cidade de Rio Branco, capital do Acre. Figura 3 – Microbacia Rôla. Figura 4 - Microbacia Porto Acre. Nota: o ponto representa a cidade de Porto Acre. Figura 5 – Microbacia Biestadual. Nota: o ponto representa Boca do Acre (AM), onde o rio Acre deságua no rio Purus. Fonte: dados da pesquisa.
    • 167Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Segundo a Secretaria de Planejamento do Estado do Acre (SEPLAN) (ACRE, 2009), nos municípios localizados na bacia do rio Acre vive uma população aproximada de 412.000 habitantes. A esta quantidade deve-se somar o número de moradores de Iñapari, Cobija e Boca do Acre (AM), que também habitam na bacia. Desta forma mais de 60% da população do estado do Acre, estimada, no momento, em 690.000 habitantes, usufrui das águas da bacia. A população compreende indígenas,extrativistas, camponeses e citadinos. A área onde convivem envolve estradas, fazendas, assentamentos da reforma agrária, agricultura, pecuária, extração madeireira, indústrias, comércios e serviços; florestas intactas, desmatamentos e queimadas; uma abundante biodiversidade e uma condição natural compartilhada com os ecossistemas amazônicos, os sistemas meteorológicos regionais e o clima global. A bacia do rio Acre ocupa uma área de apenas 1/5 da área total do estado do Acre, e as formas de uso da água são diversas. Segundo a SEPLAN (ACRE, 2009) a pecuária possui um rebanho de 2.426.000 cabeças de gado no Acre, das quais 1.400.000 estão nos municípios da bacia do rio Acre, quase 60% da população bovina do Estado. Coincidentemente uma percentagem igual que a correspondente à população humana desta área em relação ao total do Estado,mas a relação de cabeças de gado por habitante é igual a 3,4. Quanto à folha de pagamento do programa social Bolsa Família em março de 2010,favorecia a 30.967 núcleos familiares dos municípios da bacia com 154.835 pessoas, equivalente a 38% da população da área. Entretanto em todo o Estado as famílias que recebem o benefício são 57.995,aproximadamente 289.975 pessoas.Isto significa que 53% da população do Acre, beneficiada com o Programa, são pessoas pobres que moram em municípios da bacia do rio Acre. Estes números indicam que os serviços ambientais os quais a floresta e o ambiente de águas prestam à região não estão distribuídos de maneira regular entre seus habitantes. Enquanto uns poucos utilizam a água para o ganho de capitais em fazendas agrícolas e pecuária de exploração extensiva, outros desprovidos de capital utilizam a água para as necessidades essenciais. Os primeiros contribuíram e mantêm o desflorestamento, os segundos não. Há sete anos a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, 2003) delineou alguns pontos relacionados com o pagamento dos serviços ambientais de bacias hidrográficas. Os serviços se relacionaram à conservação de recursos hídricos, biodiversidade e sequestro de carbono. Com o intuito de sensibilizar a população sobre o valor do que a natureza oferece, excluir os conflitos de interesses e transferir recursos a setores vulneráveis da sociedade, a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), o Programa de Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a Organização de Estados Americanos (OEA) (OTCA; PNUMA; OEA; 2007) produziram o projeto“Gerenciamento integrado e sustentável dos recursos hídricos transfronteiriços na bacia do rio Amazonas considerando a variabilidade e as mudanças climáticas”. Uma das ações em curso é a elaboração de mapas sobre a rede hidrográfica e agregados populacionais, contemplando aspectos de vulnerabilidade social e dos recursos hídricos. Embora aguarde por aprovação uma legislação federal sobre pagamento pelos serviços ambientais,noAcre existe uma legislação que estabelece o pagamento pelos serviços ambientais como um instrumento de gestão (WUNDER et al., 2008).
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 168 Neste artigo se observa a bacia hidrográfica do rio Acre na sua integração sustentável dos pontos de vista físico, ambiental e socioeconômico. O objetivo do trabalho é descrever a ocorrência de vazões de enchentes e secas determinadas pela sazonalidade das chuvas e as variabilidades climáticas, no contexto socioeconômico da região. Sabe-se que o sofrimento das populações com os eventos extremos de chuvas, as quais motivam escoamentos de águas pluviais por ruas e bairros, estão condicionados pela ocupação urbana desordenada, o desflorestamento, o fechamento de canais naturais com a impermeabilização pelo emprego de asfalto e concreto, e a insuficiente observância de canalização nas cidades. Na maioria das vezes não é um sistema de alerta de enchente o que seria necessário, mas uma reconsideração da infraestrutura urbana para eliminar a ocupação de áreas de risco iminente e outras de risco eventual como as planícies de inundação,lugares naturais de alagação durante as cheias. A reestruturação urbana, além de evitar os sofrimentos associados ao desalojamento, doenças e perdas de vidas humanas por desbarrancamentos,afogamentos, etc. poderia oferecer um serviço ambiental ligado à beleza planejada da paisagem, incentivo da contemplação da natureza em parques que outrora foram bairros alagadiços, expansão do lazer, em geral, e dos esportes aquáticos em particular. 3 METODOLOGIA E DADOS O clima da Amazônia vem sendo descrito por diversos autores a partir de variadas fontes de informações e dados, diferentes épocas e aspectos. As variáveis mais estudadas na sua distribuição espacial e temporal têm sido as chuvas, as temperaturas, a cobertura de nuvens e a radiação solar. Mas nota-se que os estudos envolvem com maior frequência a Amazônia Oriental e Central. Marengo (2007), no relatório “Mudanças Climáticas Globais e Efeitos sobre a Biodiversidade”, um compêndio de seus estudos sobre clima, chama a atenção para o fato de que a grande maioria dos dados das séries pluviométricas na Amazônia apresenta descontinuidades temporais com intervalos diversos e em diferentes momentos. Deve-se adicionar que antes do ano 1990, praticamente, todo o monitoramento era feito com base em estações pluviométricas e meteorológicas convencionais, cuja quantidade de medições por dia,em geral três,não possibilita uma sequência de dados suficientes para estudos detalhados sobre variabilidades climáticas e hidrologia. Normalmente para pesquisas de clima na Amazônia se utilizam dados coletados por várias instituições os quais se submetem a um controle de qualidade; devido à irregularidade da distribuição espacial do monitoramento se empregam métodos de interpolação de dados para as áreas não cobertas por medições, neste caso, com resultados de baixa resolução. Importante é destacar que no trabalho de referência, na descrição do clima do Brasil no século XX, ficou de fora dos mapas de precipitação e temperaturas a parte daAmazônia Ocidental e Central definida pelo“retângulo”de coordenadas 70ºW, 5ºS e 50ºW, 15ºS, as quais abrangem os estados do Acre, Rondônia, parte de Mato Grosso, parte do Pará e o sul do Amazonas; além disso, o estado do Amapá, no norte. Por este motivo e devido ao caráter fortemente aleatório da variável chuva, nas suas
    • 169Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. conclusões Marengo (2007) destaca a especificidade dos dados, mais convenientes a estudos a serem realizados numa região menor. Quanto ao fluxo dos rios, a Agência Nacional de Águas (ANA, 2007) demonstra ter em operação 488 estações pluviométricas, 60 estações fluviométricas, 219 estações fluviométricas dotadas de medição de descarga (vazão) e 87 estações de monitoramento da qualidade da água; e que outras instituições detêm 127 estações pluviométricas, 80 estações fluviométricas, 78 estações fluviométricas dotadas de medição de descarga (vazão) e 57 estações de monitoramento da qualidade da água. Muitas dessas estações estão desativadas ou em manutenção e suas informações em tempo real ou históricas não podem ser utilizadas para análises detalhadas sobre as vazões de enchente do rio principal ou córregos afluentes. Na bacia do rio Acre, eventos extremos de chuvas, chuvas intensas ou prolongadas por vários dias,durante os meses da estação chuvosa, levam ao estado de alerta e de calamidade pública à população atingida. Tucci (2004) aponta, convincentemente, que a estrutura urbana nos países em desenvolvimento tem sido construída de forma insustentável com deterioração da qualidade de vida e do meio ambiente; a urbanização é espontânea sem planejamento para as classes pobres, de baixa renda e moradores das periferias. Entre os fatores que conduzem a isso está a incapacidade governamental de investir em espaços seguros e adequados para a urbanização sendo que sempre a infraestrutura para água fica fora da atenção: faltam esgotamento sanitário e pluvial, acontece a ocupação das encostas de morros onde ocorre o escoamento superficial e desbarrancamento no pico da época chuvosa e durante eventos de chuva continuada, acontece a ocupação das encostas de rios e córregos, misturam-se os resíduos sólidos e as águas nos espaços impermeabilizados, bueiros e outros espaços. Tucci e Meller (2007) apontam a necessidade de controlar os impactos da urbanização sobre a bacia, questão distante de uma solução pela falta de gestão institucional entre a bacia e as cidades e de regulamentação dentro das cidades,o qual não permite atingir os padrões de desenvolvimento sustentável na drenagem, que envolvem os controles de quantidade e de qualidade das águas. Um desastre natural de natureza hidrológica, meteorológica ou climática pode ocasionar tremendamente danos às populações vulneráveis, por serem pobres não ter outra opção alternativa e se assentam em lugares expostos a contingências tais como inundações e deslizamentos de terra (MCBEAN, AJIBADE; 2009). Na bacia hidrográfica do rio Acre o tipo de desastre natural que acontece com frequência refere-se às inundações urbanas, as quais afetam à população carente ocupante de áreas de risco, particularmente na capital do Acre,Rio Branco.Os deslizamentos de terra são mais comuns em regiões do Brasil como Santa Catarina e Rio de Janeiro.Até o presente não se observa nenhuma iniciativa governamental definitiva para a redução de riscos e vulnerabilidades sociais no Brasil. As estações fluviométricas existentes na bacia do rio Acre são seis, todas convencionais (ANA, 2009); os pluviômetros e as estações meteorológicas no leste do Acre são quinze, aos cuidados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a Universidade Federal doAcre (UFAC),situadas como aparecem na Figura 6.Na região, a única estação meteorológica, em
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 170 funcionamento bastante contínuo,com dados de mais de 30 anos é a INMET – UFAC, de número 82.915,localizada no campus da UFAC.As demais são instalações recentes,posteriores a 2002,que exibem descontinuidades no seu funcionamento. Fonte: dados da pesquisa. Os dados pluviométricos para a parte leste do Acre, em Acrelândia, Quinari, Araxá, Capixaba, Xapuri, Brasileia, Assis Brasil, Seringal Espalha, Seringal Oriente e Plácido de Castro, para meses dos anos 2003, 2006 a 2009, como se demonstra no Gráfico 1 e na Tabela 1, estão em torno das médias climatológicas das chuvas em Rio Branco (Tabela 2), para o intervalo entre 1961 e 1990 e entre 1971 e 2000 (DUARTE, 2006). Estas climatologias caracterizam o leste do Estado, que inclui a bacia do rio Acre. Existem outras dedicadas às atividades específicas, como as da aeronáutica e dos bombeiros, com um padrão de medições e divulgação dos dados diferentes ao praticado pela ciência. Figura 6 - Bacia hidrográfica do rio Acre. Estações fluviométricas: 1)Assis Brasil, 2) Brasileia, 3) Xapuri, 4) Fazenda Santo Afonso, 5) Rio Branco, 6) Porto Acre. Estações pluviométricas e meteorológicas: 1) Assis Brasil, 2)Cobija, Brasileia e Epitaciolândia, 3) Xapuri, 5) Rio Branco, 6) Porto Acre, 7) Boca do Acre, 8) Capixaba, 9) Plácido de Castro, 10)Quinari, 11) Acrelândia, 12) Seringal Espalha, 13) Seringal Oriente, 14) Limoeiro, 15) Catuaba, 16)Transacreana.
    • 171Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Gráfico 1 - A climatologia das chuvas para Rio Branco coincide com a pluviometria em diferentes locais do leste do Acre. Fonte: dados da pesquisa. Tabela 1 - Valores médios de chuvas por mês, Ch (mm), distribuídos em vários locais no leste do Acre. Fonte: dados da pesquisa.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 172 Tabela 2 - Valores climatológicos das chuvas mensais, Ch (mm), entre 1971 e 2000 Os pontos correspondentes no Gráfico 1 são coincidentes, e o seriam ainda mais no caso em que o monitoramento das chuvas abrangesse uma distribuição maior de locais. O conjunto de todos os locais em um tempo curto,por exemplo, um ano (tempo muito menor que trinta anos,que é o longo intervalo assumido para uma climatologia) tem o mesmo comportamento de qualquer local do conjunto para um tempo longo. Esta suposição ergódica está fundamentada nas condições de uma região,relativamente,pequena de semelhantes características como a bacia hidrográfica do rio Acre e nas características do sistema clima (PEIXOTO; OORT, 1992). Desta forma para a caracterização climatológica dos volumes de água precipitada Pi, j para cada mês i em cada microbacia Sj se usará a climatologia das chuvas entre 1971 e 2000, referida anteriormente. A expressão de cálculo (1), em unidades do SI, será: Fonte: DUARTE (2006) e entre 1961 e 1990 INMET (http://www.inmet.gov.br). Pi,j = Chi Sj ; onde j = 1, 2,.., 5 e i = 1, 2,.., 12 (1) Para a determinação das vazões foi necessário estimar a velocidade média do fluxo das águas através da áreaA da seção de controle da estação fluviométrica. Para tanto foi determinado o perfil das seções mediante um sensor de profundidade Levelogger Gold e uma trena; e medida a velocidade das águas mediante um correntômetro GlobalWater. Os detalhes dos procedimentos estão descritos em Duarte (2009). Nas unidades fundamentais do SI a área A se dá em m2 , a velocidade em m/s e a vazão Q em m3 /s, que se calcula mediante a expressão (2): (2) Para o acompanhamento do nível das águas do rio Acre, em Rio Branco, foi utilizado o registro da ANA, corrigido a partir das medições feitas duranteaexperimentaçãoparaopresentetrabalho. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 NÍVEIS E VAZÕES As medições feitas nas estações fluviométricas da bacia do rio Acre, entre 2007 e 2009, têm apresentado valores de velocidades entre 0,4 e 1,2 m/s, no meio do canal, abaixo da superfície da corrente.A quantidade de medições e sua distribuição pelos momentos de cheias e vazantes não foram suficientes para a realização de estimativas do perfil de velocidades do rio ao longo de suas seções de controle, nem como este perfil se modifica sazonalmente. Mas as observações mostraram que a vazão do rio depende mais da área da seção de controle do
    • 173Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. que da velocidade das águas. Isto quer dizer, a velocidade média se modifica pouco porque o caudal do rio, mais veloz à medida que aumenta seu nível, permanece praticamente estático perto das margens;além do fluxo ser limitado,também, pelos: curso meandrante; baixa declividade a partir da saída da microbacia Xapuri; espalhamento das águas nas planícies de inundação; aglomerado de “balseiros” e represamento na desembocadura. Nestas condições o aumento da área transversal da correnteza contribui substancialmente para o maior volume de água transportada. Na Tabela 3, estão apresentados a largura medida, a área da seção de controle ao nível das águas e a vazão do rioAcre em Rio Branco. As vazões foram estimadas considerando o valor médio de velocidade das águas sendo de 0,7 m/s. Tabela 3 - Relação entre largura, área da seção da corrente, nível e vazão do rio Acre em Rio Branco. Fonte: dados da pesquisa. A relação dada na Tabela 3 se mantém aproximadamente a mesma enquanto não se modifique a seção de controle do rioAcre, em Rio Branco, cujo perfil aproximado está na Figura 7.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 174 Figura 7 - Perfil aproximado da seção de controle do rioAcre,em Rio Branco,anos 2007 – 2009,nas coordenadas Lat (o S) 9,975, Lon (o W) 67,800. Fonte: dados da pesquisa. Mesmo em épocas de vazante em que o nível do rio, na parte mais profunda da seção de controle, chega a ser muito raso, entre meio metro e setenta e cinco centímetros, a sua largura não é inferior a 60 m. Em épocas de cheia a maior largura atinge em torno de 200 m quando o nível alcança perto de 13 m; antes disso começa a penetração das águas nas planícies de inundação, bairros pobres da cidade. De maneira mais compacta o fluxo do rio pode ser descrito pela curva-chave correspondente, mostrada no Gráfico 2. Gráfico 2 - Curva-chave do rio Acre, em Rio Branco, anos 2007 – 2009. Fonte: dados da pesquisa.
    • 175Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. A equação (3) corresponde à relação expressada pela curva-chave, na figura anterior, isto é: Q = 3,4047 h2 + 20,632 h - 2 . 10-12 (3) Onde h representa o nível em metros e Q a vazão em metros cúbicos por segundo. 4.2 VOLUMES DE CHUVAS A partir da expressão (1) foram obtidos os volumes de chuvas por mês para cada uma das cinco microbacias em que se dividiu a bacia hidrográfica do rio Acre. Tais volumes aparecem na Tabela 4, em bilhões de metros cúbicos. Tabela 4 - Volumes mensais de chuvas (Gm3 ) por microbacia, na bacia hidrográfica do rio Acre. Fonte: dados da pesquisa. Na área de drenagem da bacia cai anualmente um volume P = 68,5 Gm3 de chuvas, como valor médio climatológico, integrado por microbacia e por mês, assim: (4) Parte desse volume de água escoa superficialmente. A montante de Rio Branco a área de drenagem compreende 23.000 km2 , quer dizer, .Nessa área caem 45 Gm3 de chuvas por ano. 4.3 ESCOAMENTO SUPERFICIAL Um hidrograma é uma representação interessante do escoamento superficial, uma demonstração gráfica da variação da vazão com o tempo, através da seção de controle.A escolha deste lugar diz respeito à padronização das medições num lugar conhecido, como deve ser o da estação fluviométrica. O hidrograma e o registro de nível estão vinculados pela curva- chave. Ele facilita achar a informação de quanta água passou pela seção do rio entre dois momentos, seja um intervalo de tempo curto, de apenas horas, ou mais prolongado, de dias ou
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 176 semanas,etc.Desta maneira é possível relacionar a ocorrência ou a falta de chuvas numa certa área com o aumento ou diminuição do nível ou da vazão do rio, a jusante. As curvas do Gráfico 3 são hidrogramas de cheias e vazantes, registrados para alguns meses entre 2004 e 2009, que refletem em Rio Branco as chuvas a montante da cidade. No Gráfico 3 os quadros (a), (b) e (c) são hidrogramas de cheias que envolvem os meses chuvosos do início do ano 2004; o quadro (d) corresponde a um hidrograma de vazante que reflete a situação de poucas chuvas durante janeiro de 2005, embora seja janeiro um dos meses mais chuvosos do ano; os quadros (e) e (f) são hidrogramas de cheias durante os restantes meses chuvosos do início de 2005, até abril; o quadro (g) também é um hidrograma de cheia que termina no fim do mês de abril, quando começou a extraordinária seca do ano 2005 na Amazônia; o quadro (h) é um hidrograma de vazante que mostra toda a extensão da perda de caudal do rio Acre durante a seca de 2005, entre os meses de maio e outubro, seis meses de prolongada estiagem; os quadros (i), (j) e (k) são hidrogramas de cheias, em particular (i) mostra a passagem do ano 2005 para 2006 com perda continuada da vazão após um pico de cheia em dezembro, (j) mostra as vazões da enchente de fevereiro de 2006, a segunda maior nos registros desses eventos em Rio Branco, e (k) mostra um “repique” ou “repiquete” em março; o quadro (l) é um hidrograma de cheia para os meses de janeiro e fevereiro de 2007; os quadros (m) e (n) são hidrogramas de cheias de janeiro, março e abril de 2008, que demonstram maiores vazões em abril que em meses chuvosos anteriores desse ano; o quadro (o) é um hidrograma que exemplifica acentuadas oscilações das vazantes em janeiro e fevereiro de 2009; o quadro (p) é um hidrograma de cheia que se estende através dos meses de março, abril, maio até o dia 20 de junho de 2009; noAcre, abril é o mês de declínio das chuvas para a entrada da estação seca,sendo incomum uma enchente nesse mês. Em abril de 2009 aconteceu uma enchente em Rio Branco, não tão importante quanto às enchentes que ocorreram entre abril e junho no Maranhão, Ceará, Pará, Amazonas e outros estados do Norte e Nordeste do Brasil, onde as informações indicam que foram as maiores nos últimos cinquenta anos. O volume R(m3 ) de água escoada através da seção de controle durante o tempo (s) é calculado mediante a integral (5), onde aparece explicitamente a dependência temporal da vazão Q(t)(m3 /s). (5)
    • 177Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Gráfico 3 - Hidrogramas para o rio Acre em Rio Branco. Continua...
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 178 Continuação Fonte: dados da pesquisa. Nota: os valores de vazão estão em escalas diferentes para cobrir o intervalo entre 250 e 950 m3 /s, o tempo está dado em dias, para vários meses e anos.
    • 179Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Tabela 5 - Volumes, em Gm3 , do escoamento superficial das águas pelo rio Acre, em Rio Branco, durante momentos de cheias e vazantes entre 2004 e 2009. Na Tabela 5 aparece o resultado da integração para os hidrogramas do Gráfico 3. Na Tabela 6 os intervalos são de vários meses e junto com os valores de R aparece o volume de chuvas P, nas microbacias a montante de Rio Branco, e a relação R/P que define o Coeficiente de escoamento superficial C, expressão (6). (6) Fonte: dados da pesquisa. Tabela 6 – Volumes do escoamento superficial das águas pelo rio Acre, em Rio Branco, chuvas a montante da cidade e Coeficiente de escoamento superficial. Fonte: dados da pesquisa.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 180 O impacto das enchentes, secas e doenças relacionadas com a alternância sazonal desses eventos, tem várias dimensões, associadas com a vulnerabilidade social das famílias que moram em bairros pobres de Rio Branco. Alguns dos problemas podem ser deduzidos dos seguintes dados: em março de 2010 foram mais de 4.000 edificações atingidas pela enchente, com mais de 300 famílias desalojadas e desabrigadas (Decreto Municipal, nº 1.184 de 6 de março de 2010); declarado o estado de emergência por decreto da Prefeitura Municipal de Rio Branco (13/04/2009), estimou- se em mais de 350 as famílias desabrigadas e desalojadas. Em 2006 foram cerca de 29.000 pessoas e 7.000 imóveis os afetados pela segunda maior enchente do rio Acre em Rio Branco. A seca de 2005 trouxe consideráveis prejuízosàpopulaçãodeRioBranco.Emparticular, os acometimentos de doenças respiratórias e outros padecimentos relacionados com a concentração de fumaça no ar aumentaram em mais de 100%, o qual é possível estimar considerando que a maioria dos postos de saúde prolongaram suas atividades de atendimento diário até as 22h. No Hospital de Urgências e Emergências (HUERB) foram atendidos 19.581 casos durante setembro, dos quais 15% corresponderam a doenças respiratórias como infecção das vias aéreas superiores, bronquite, asma e pneumonia. Estimou-se que 90% dos casos atendidos nos postos de saúde dos bairros mais carentes foram por acometimentos respiratórios e oculares (DUARTE et al., 2007; MASCARENHAS et al., 2008). Segundo resultado parcial do Levantamento de Índice Rápido de Infestação por Aedes aegypti (BRASIL, 2010) para o ano 2010, são 15 os municípios que estão em situação de risco de surto da doença, entre eles Rio Branco e Epitaciolândia. Deste total 11 estão no Nordeste, 3 no Norte (dois deles no Acre) e um no Sudeste. Os casos de dengue no Estado vêm aumentando; em 2010 até o início de março (semana 9), já eram mais de 10.400 casos notificados e até julho (semana 26) mais de 22.000. (BRASIL, 2010). Em 2010, até 16 de outubro, foram notificados 936.260 casos de dengue clássica no país,dos quais 14.342 classificados como graves com o número de mortes de 592. No mesmo período de 2009,480.919 notificações,com 8.714 casos graves e 312 óbitos. (BRASIL, 2010). Segundo Saab (2010), Rio Branco tem um dos mais caóticos sistemas de abastecimento de água do Brasil.Alguns dos pontos levantados pelo autor são: em 2010 estão sendo tratados 19% do esgoto produzido; o abastecimento de água chega a 51% das casas.Em 2008,o InstitutoTrata Brasil (2008) mostrava que,apenas,3% do esgoto da cidade tinha algum tratamento e Rio Branco ocupava a 7ª posição entre as dez piores em esgotamento sanitário do país; quanto à qualidade do tratamento do esgoto, entre as 81 cidades avaliadas por este Instituto, Rio Branco ficou na 75ª posição. Com exceção do intervalo correspondente à seca de 2005, em todos os casos o coeficiente C tem valor aproximado de 0,2,significando que 20% da água que cai nas microbacias a montante de Rio Branco fluem pelo rio através dessa cidade. 4.4 ENCHENTES, SECAS, DOENÇAS,ABASTECIMENTO DE ÁGUA E SERVIÇO DE ESGOTO
    • 181Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 5 CONCLUSÃO O ciclo hidrológico se comporta de maneira que, em média, 45 bilhões de metros cúbicos de água precipitam nas microbacias Trinacional, Xapuri e Rôla, que levam 20 % desse volume a escoar pelo rio Acre através de Rio Branco, a capital do Estado. A variabilidade climática interanual e os eventos extremos de chuvas e secas determinam aumentos e diminuições das vazões que colocam frequentemente em risco de desalojamento e de saúde à população pobre em situação de vulnerabilidade social que mora em bairros situados nas planícies de inundação. Os hidrogramas que retratam esta situação mostram vazões de cheias e de vazantes, contrastantes, entre 800 e 1200 m3 /s,em 2006 e 2009,e inferiores a 50 m3 /s em 2005.Quando há excesso de água resulta em desabrigados,quando há falta de água se interrompe o abastecimento urbano. Nesta situação a quantidade e a qualidade das águas comprometem ainda mais,a saúde da população. O manejo planejado das importantes reservas de água que caracterizam o ciclo hidrológico na bacia do rioAcre poderia garantir, aos habitantes da região, maior equilíbrio e sustentabilidade, por um lado, e menores riscos de vulnerabilidade, por outro lado. As vulnerabilidades atingem a toda a população quando se considera a baixa qualidade do ar durante a estação seca, em que acontecem as queimadas florestais, rurais e urbanas na Amazônia (somadas as queimadas em áreas do estado do Acre). A poluição das águas e dos solos pelo esgoto e do ar pela fumaça geram doenças e indicadores de baixa qualidade de vida, com agravos sazonais, endemias e epidemias. A bacia hidrográfica do rio Acre poderia associar com as suas riquezas de águas, cidades, florestas, campos e fazendas, maiores benefícios sociais e econômicos para a população do Estado.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 182 REFERÊNCIAS ACRE cria Lei de pagamento por serviços ambientais.2010.Disponível em: <http:// www.observatorioeco.com.br/ acre-cria-lei-de-pagamento-por-serviços-ambientais/>.Acesso em: 30 nov. 2011. ACRE. Secretaria de Estado de Planejamento. Acre em números. Rio Branco, 2009. AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS. Evolução da rede hidrometeorológica nacional. Brasília, DF: Superintendência de Gestão da Rede Hidrometeorológica, 2007. ______. Inventário das estações fluviométricas. Brasília, DF: Superintendência de Gestão da Rede Hidrometeorológica, 2009. BRASIL. Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome. Bolsa Família. 2010. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/bolsafamilia>.Acesso em: 1 dez. 2011. BRASIL. Secretaria de Vigilância em Saúde. Informe epidemiológico da dengue análise de situação e tendência. 2010. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/ informe_da_dengue_ate_a_semana9.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2011. DUARTE,A.F.Aspectos da climatologia doAcre,Brasil,com base no intervalo 1971 – 2000. Revista Brasileira de Meteorologia, São Paulo, v.21, n.3b, p.308-317, dez. 2006. ______. Hidrometria no Acre: fliviometria e hidroquímica. Rio Branco: EDUFAC, 2009. ______; RABELO JUNIOR, J.; SANTOS, G. M. Influencia de la polución del aire sobre la salud en Rio Branco-AC, Brasil. Revista Cubana de Salud Pública, Havana, v.33, n.4, 2007. FOODANDAGRICULTURE ORGANIZATION OFTHE UNITED NATIONS. Payment Schemes for Environmental Services in Watersheds = Sistemas de Pago por ServiciosAmbientales em Cuencas Hidrográficas. Arequipa, v.9, n.12, jun. 2003. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. IBGE cidades. 2010. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/cidades-at/topwindow.htm?1>. Acesso em: 30 nov. 2011. INSTITUTO TRATA BRASIL. Ranking do saneamento com avaliação dos serviços nas 81 maiores cidades do País. 2008. Disponível em: <http://www.tratabrasil.org.br/datafiles/uploads/release_final.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2011. MARENGO, J. A. Mudanças climáticas globais e efeitos sobre a biodiversidade: caracterização do clima atual e definição das alterações climáticas para o território brasileiro ao longo do século XXI. 2. ed. Brasília, DF: Ministério do Meio Ambiente, 2007. 212 p. (Biodiversidade, v.26). MASCARENHAS, M. D. M.; VIEIRA, L. C.; LANZIERI, T. M.; LEAL P. R. A. P.; DUARTE, A. F.; HATCH, D. L. Poluição atmosférica devido à queima de biomassa florestal e atendimentos de emergência por doença respiratória em Rio Branco, Brasil - setembro, 2005. Jornal Brasileiro de Pneumologia, São Paulo, v.34, n.1, p.42-46, jan. 2008.
    • 183Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. MCBEAN, G.; AJIBADE, I. Cliamte change, related hazards and human settlements. Current Opinion in Environmental Sustainability, v.1, p. 179-186, 2009. NÍVEL do rio Acre sobe mais quatro centímetros. 2006. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ cotidiano/ult95u118504.shtml>. Acesso em: 30 nov. 2011. OTCA; PNUMA; OEA. Gerenciamento integrado e sustentável dos recursos hídricos transfronteiriços na bacia do rio Amazonas considerando a variabilidade e as mudanças climáticas. Relatório Final. Brasília, DF: OTCA, 2007. PEIXOTO, J.P.; OORT, A.H. Physics of climate. Nova York: Spinger, 1992. SAAB, R. Rio Branco tem um dos mais caóticos abastecimentos de água do País, Rio Branco,AC, 4 nov. 2010. Disponível em: <http://agazeta.net>. Acesso em: 30 nov. 2011. TUCCI, C.E.M. Gerenciamento integrado das inundações urbanas no Brasil. Revista de Gestão de Água da América Latina, Porto Alegre, v.1, n.1, p.59-73, jan./jun. 2004. ______; MELLER A. Regulação das águas pluviais urbanas. Revista de Gestão de Água da América Latina, Porto Alegre, v.4, n.1, p.75-89, jan./jun. 2007. WUNDER,S.;BÖRNER,J.;RÜGNITZ,T.M.;PEREIRA,L.Pagamentos por serviços ambientais perspectivas para a Amazônia Legal. Brasília, DF: Ministério do Meio Ambiente, 2008. (Série Estudos, n.10).
    • 185Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. CRESCIMENTO DE JUVENIS DE TAMBAQUI, Colossoma macropomum (CUVIER, 1818), EM TANQUES-REDE COM DIFERENTES DENSIDADES POPULACIONAIS EM JI-PARANÁ, RO Valdeir Vieira da Cunha* Antônio dos Santos Júnior** RESUMO Investiga a correlação entre densidade populacional e desenvolvimento individual médio de juvenis deTambaqui em tanques-rede. Em uma represa foram distribuídos 12 tanques-rede com 1 m3 de área útil cada, povoados com densidades de 25, 50, 100 e 150 peixes/m3 , em três repetições inteiramente casualizadas. Os peixes foram alimentados com ração comercial com 40% de proteína bruta, duas vezes por dia, durante 120 dias, na proporção de 5% em relação ao peso vivo deles. As medidas de peso e comprimento foram mensuradas em 10 peixes retirados ao acaso de cada tanque- rede no início do estudo e a cada 20 dias.A mortalidade, conversão alimentar aparente e a produção de biomassa foram estimadas após 120 dias. A densidade populacional foi negativamente correlacionada com o crescimento de juvenis de Tambaqui. Os peixes nas densidades de 25 e 50 peixes /m³ apresentaram maior crescimento e ganho de peso que as demais densidades testadas. Contudo, recomenda-se queTambaqui na fase de recria seja estocado em densidade populacional de 50 peixes /m³ em razão de apresentar um equilíbrio mais interessante para o produtor entre a conversão alimentar aparente e a produção de biomassa. Palavras-chave: Piscicultura. Densidade de Estocagem. Conversão Alimentar. Manejo de Espécies Nativas. * Bacharel em Ciências Biológicas do Centro Universitário Luterano de Ji-Paraná/ULBRA.Email: cunha.04@hotmail.com. ** Professor do Departamento de Ciências Biológicas do Centro Universitário Luterano de Ji-Paraná/ULBRA. Email: tonhobio@hotmail.com.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 186 GROWTH OF JUVENILE TAMBAQUI, Colossoma macropomum (CUVIER, 1818), IN CAGES WITH DIFFERENT DENSITIES POPULATION IN JI-PARANÁ, RO ABSTRACT The correlation between population density and a individual development forTambaqui in cages was investigated.Twelve cages to 1 m3 each were installed in a dam.The cages were colonized with 25, 50, 100 and 150 fish/m3 with three replications randomized. The fish were fed commercial diets with 40% crude protein twice a day for 120 days at the rate of 5% on the weight of the fish. Measurements of weight and length were measured in 10 fish taken at random from each cages at baseline and every 20 days. Mortality, feed conversion and biomass production were estimated after 120 days. The population density was negatively correlated with growth of juvenile Tambaqui. Fish densities of 25 and 50 fish / m³ had more growth and weight gain than the other densities. However, it is recommended thatTambaqui in the growing phase are stored in population density of 50 fish/ m3 due to present a more interesting tradeoff between feed conversion and biomass production to producer. Keywords: Fish Farming. Stocking Density. Feed. Management of Native Species
    • 187Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 1 INTRODUÇÃO A piscicultura no estado de Rondônia é uma atividade econômica em expansão, apresentando uma produção próxima de 5 mil toneladas no ano de 2006 (BIOFISH, 2011). Há um forte apoio institucional do Ministério da Pesca e Aquicultura para a criação de uma estrutura estadual a qual trate da liberação de licenças ambientais, que é um requisito básico ao aumento da produção (MINISTÉRIO..., 2011). Esta atividade, atualmente, adota alguns procedimentos e técnicas para ganhar eficiência e aumentar a produtividade, isto é, produzir o máximo ao menor custo.A criação de peixes em tanques-rede é uma alternativa que atinge este objetivo e pode ser entendida como um sistema intensivo de produção, com renovação contínua de água em uma infraestrutura barata, mostrando-se útil ao aproveitamento de corpos d’água que apresentam limitações para a prática da piscicultura convencional (CONTE, 2002). A criação de peixes em tanques-rede tem se mostrado uma técnica vantajosa, com menor impacto ambiental sobre o ambiente, quando comparada com outras atividades empreendedoras, além de exibir elevada produtividade com altas taxas de estocagem (ANDRADE et al., 1993; BRANDÃO et al., 2004). Assim, a densidade de estocagem assume uma relevância considerável nesse sistema de criação. Por densidade de estocagem, ou densidade populacional, entende-se como sendo a relação entre o número de indivíduos de uma determinada espécie e o espaço ocupado por eles, que pode ser expresso em área, para espécies terrestres ou volume, para espécies aquáticas (BRANDÃO et al., 2004). A densidade populacional nos sistemas de criação de peixes é um dos fatores mais críticos para o bem-estar dos animais. Densidades populacionais muito elevadas podem promover a redução das taxas de crescimento e de conversão alimentar, o canibalismo das nadadeiras dorsais, a redução da condição física, o incremento da competição e a piora da qualidade da água (IGUCHI et al., 2003; PEDRAZZANI et al., 2007). Nestesentido,adeterminaçãodadensidade ótima para a criação de peixes em tanques-rede está diretamente ligada ao conceito de Boas Práticas de Manejo (BPM) em sistemas de criação, que têm usado estudos de indicadores de estresse em peixes (PORTO, 2005; PEDRAZZANI et al., 2007). Desta feita, situações de estresse podem ser evitadas por meio de contínuo monitoramento, melhorando as atividades na piscicultura. Na Região Norte,a espécie mais explorada comercialmente é o Tambaqui (Colossoma macropomum) (VAL et al.,2000),caracídeo nativo da bacia amazônica habitante dos rios do Brasil, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia (TAPHORN, 1992). Na natureza há registros de que ele atinge peso aproximado de 30 kg, sendo considerado um dos maiores peixes de escamas da bacia amazônica, superado em tamanho somente pelo Pirarucu (Arapaima gigas) (KUBITZA, 2004). O Tambaqui apresenta grande facilidade de obtenção de juvenis, bom potencial de crescimento e alta produtividade, bem como a aceitação pela população humana, destacando- se como uma das espécies de peixes mais importantes para a economia regional (ARAÚJO- LIMA; GOULDING, 1998). O cultivo de espécies nativas de peixes em tanques-rede, como o Tambaqui, é de extrema importância, por permitir o manejo seletivo e evitar a introdução de espécies exóticas, que podem ameaçar o equilíbrio ambiental (BARBOSA et al., 2000). Neste contexto, o uso de tanques- rede é uma ferramenta importante para a realização de estudos para a obtenção de
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 188 2 MATERIAL E MÉTODOS O estudo foi realizado no período de 16 de maio a 03 de setembro de 2010, em uma propriedade particular, no Km 14, da rodovia RO 135, no município de Ji-Paraná, Rondônia. Segundo a classificação de Köppen, a região possui clima do tipo Awi (tropical/quente e úmido). Com temperatura média anual de 25º C, e precipitação pluviométrica anual superior a 2.250 mm e umidade relativa do ar média de 85% (GAMA, 2005). Para o estudo foram utilizados 12 tanques- rede, com 1 m3 de área útil, malha de 20 mm entrenós, revestidos, externamente, por uma malha multifilamentada de 5 mm entrenós, envolto em estrutura de PVC ½ polegada. Os tanques-rede, flutuantes, colocados em uma represa com renovação natural de água, com profundidade máxima de 3 m e área de 1 ha. Cada tanque-rede recebeu uma quantidade de alevinos de Tambaqui (C. macropomum), referente aos tratamentos testados.Eles foram de 25,50,100 e 150 peixes/m3 , cada um com três replicas. O delineamento, inteiramente, casualizado. Os alevinos utilizados no experimento foram adquiridos em piscicultura local com peso médio de 9 gramas e comprimento de 4,5 cm. Para obtenção das medidas capturou-se, aleatoriamente,10 alevinos em cada tanque-rede. Foram tomadas as medidas de comprimento padrão, que se mede desde a ponta do focinho até ao extremo do pedúnculo caudal, com régua graduada em milímetros. As medidas de massa corporal mensuradas com balança digital e precisão de 1 g, no início do estudo e a cada 20 dias, para definir a dosagem de arraçoamento. Depois de medidos os peixes foram devolvidos aos tanques originais.O arraçoamento foi à base de ração comercial com teor de proteína bruta de aproximadamente 40%, sendo fornecidos na proporção de 5% em relação ao peso vivo dos peixes; duas vezes ao dia (09:00 h e 17:00 h), durante 120 dias. Os parâmetros físico-químicos da água transparência, pH, oxigênio dissolvido (OD) e temperatura foram anotados a cada 20 dias utilizando o Kit Técnico para Aquicultura – Alfakit®. Os valores de comprimento e massa corporal foram usados para calcular os seguintes parâmetros de desempenho: ganho de peso (peso médio final – peso médio inicial), crescimento (comprimento médio final – comprimento médio inicial), mortalidade ((tamanho populacional final/tamanho populacional inicial)*100) e conversão alimentar aparente que é obtida dividindo-se a quantidade de ração fornecida aos peixes de cada tanque-rede pela média final de biomassa existente no tanque-rede. A análise de dados, ainda, envolveu um teste de correlação linear de Pearson (R) entre os valores médios de comprimento padrão e massa corporal com a densidade populacional, bem como um testeANOVA de um fator e quatro níveis, seguido do teste de Tukey a 5% de probabilidade, para massa corporal e comprimento padrão dos peixes após 120 dias entre densidades populacionais. informações sobre o desenvolvimento dos peixes e da ecologia populacional das espécies, principalmente para o avanço de técnicas de criação em cativeiro,diminuindo assim a pressão da pesca predatória sobre as populações nativas. O objetivo deste estudo foi avaliar o crescimento, ganho de peso, conversão alimentar aparente e a mortalidade na fase inicial de vida doTambaqui (C. macropomum) em diferentes densidades populacionais em tanques-rede.
    • 189Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Os parâmetros físico-químicos da água oxigênio dissolvido, pH, temperatura e transparência foram avaliados durante o período experimental e apresentaram uma estreita variação. O oxigênio dissolvido (OD) sempre apresentou valores acima de 5 mg.L-1 (Tabela 1), o qual está acima do valor de 4 mg.L-1 , o mínimo indicado para a aquicultura ou cultivo de peixes e, assim, pode ser considerado ótimo (BOYD, 1990). O pH manteve-se próximo de 7 ao longo do estudo, podendo ser aceito como adequado ao cultivo de peixes (Tabela 1). As recomendações para a variação deste parâmetro de qualidade da água para o cultivo de peixes não chegam a um consenso. Alguns autores indicam que o pH ótimo da água para as espécies tropicais está entre o intervalo de pH de 7 a 8 (CECCARELLI et al., 2000), outros autores aceitam um intervalo mais amplo de 6 a 9,5 (KUBITZA, 2003). Porém, Merola & Souza (1988), Graef et al. (1987) e Resende et al. (1985) obtiveram bons resultados cultivando peixes com o pH variando de 4,9 a 8,3, sugerindo que estes são capazes de suportar certa variação no pH da água do cultivo. A temperatura da água de cultivo nas densidades testadas apresentou uma variação no intervalo de 21 ºC a 26 ºC, valores abaixo do recomendado (Tabela 1). Perez et al. (2003) indicam que o recomendável é escolher locais em que a temperatura da água do cultivo mantenha-se entre 26 ºC a 29 ºC, de forma que a água não exceda 30 ºC ou tenha mudança brusca de temperatura. Kubitza (1999) mostra que o intervalo de temperatura ideal para o cultivo de peixes tropicais está entre 28 ºC e 32 ºC. Graef et al. (1987) e Resende et al. (1985) cultivaram peixes em represas na região amazônica com a temperatura da água de cultivo entre 27 ºC a 31 ºC. Tabela 1 - Valores dos parâmetros de qualidade da água mensurados nas margens da represa a cada 20 dias no estudo de crescimento de juvenis de Tambaqui (Colossoma macropomum) em diferentes densidades populacionais, Ji-Paraná, RO. Fonte: dados da pesquisa De um modo geral, os parâmetros físico- químicos da água estiveram dentro dos intervalos recomendados,exceto a temperatura que se manteve um pouco abaixo do sugerido. O efeito da temperatura da água ser inferior ao sugerido influencia igualmente as densidades testadas, resultando em peixes menores que o esperado caso os animais crescessem no intervalo de temperatura ótima. Acreditamos que os valores mostraram uma estreita variação devido à renovação constante da água.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 190 Os peixes apresentaram crescimento consistente ao longo do tempo nas densidades testadas,portanto,a diferença no desempenho de crescimento e engorda dos peixes nas densidades populacionais avaliadas não resultam de algum efeito originado na qualidade da água. Após os 120 dias de monitoramento os juvenis de Tambaqui (C. macropomum) apresentaram aumento nas medidas de peso e comprimento em todas as densidades testadas.O aumento de peso (N=10, R(Pearson)= -0,935, Gl= 8, P<0,001) e de comprimento padrão (N=10, r(Pearson)= -0,935, Gl= 8, P<0,001) foram negativamente correlacionados com as densidades testadas. Àqueles criados nas densidades de 100 e 150 peixes/m³ não apresentaram diferença significativa entre si para os valores de crescimento final, dado em cm no comprimento padrão (ANOVA, N=10, gl=9, F=468,571 P=0,001) e de peso final, dado em gramas (ANOVA,N=10,gl=9,F=10.547,852 P=0,001), sendo que nessas densidades foram registrados os menores valores para estas medidas de desempenho de crescimento médio. Nas densidades de 25 e 50 peixes/m³ os peixes cresceram continuamente ao longo do tempo de estudo e diferiram estatisticamente entre si e das demais densidades populacionais. Na densidade de 25 peixes/m³ foi observado o melhor desempenho em crescimento padrão e em ganho de peso, com os peixes atingindo um peso final médio de 82,5±0,35 g (Tabela 2). Tabela 2 - Resultado dos parâmetros de desempenho de juvenis de Tambaqui (Colossoma macropomum), após 120 dias confinados na fase de recria em tanques-rede com quatro densidades populacionais, Ji-Paraná, RO. Médias±desvio padrão seguidas pela mesma letra não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. Fonte: dados da pesquisa Os valores estimados para a Conversão Alimentar Aparente (CAA) diferiram entre as quatro densidades testadas. A melhor CAA, também, foi obtida para a densidade de 25 peixes/ m3 , consumindo 2,78 kg de ração para a produção de 1 kg de biomassa de peixe (Tabela 2). Em todas as densidades avaliadas a mortalidade estimada apresentou valores que podem ser considerados pequenos, exceto a densidade de 50 peixes/m3 , na qual nenhum animal morreu.As causas das mortes não foram anotadas,entretanto não decorreu de ataque por aves nem por outras espécies de peixes predadores,pois os tanques-rede utilizados eram totalmente vedados contra tais predadores. A manipulação dos animais pode ser uma causa, porém eles foram tratados com todo o cuidado e
    • 191Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. durante o menor tempo possível, visando evitar o estresse ou mesmo lesões. Nos resultados obtidos por Souza (1993), em estudos com juvenis de C. macropomum na fase de engorda em viveiros escavados, com densidades de 15, 21, 27 e 34 peixes/m3 , os maiores valores das taxas de crescimento se deu nas menores, diminuindo com o aumento da densidade, segundo o autor, a mais adequada para esse tipo de viveiro é de 21 peixe/m³. No mesmo sentido, Hélio (2009) estudando densidades de 100, 150, 200 e 250 peixes/m3 concluiu que os maiores ganhos de peso foram obtidos nos tanques-rede com menor densidade populacional. Altas densidades populacionais ocasionam problemas de espaço e afetam a taxa de crescimento. Segundo Brandão et al. (2004), os baixos valores nas taxas de crescimento nos cultivos de tambaqui em altas densidades se devem ao comportamento gregário da espécie. Altas densidades inibem o bom desenvolvimento dos peixes com comportamento gregário,apesar de poder atingir uma elevada biomassa, não é equivalente ao desenvolvimento do indivíduo isolado. O crescimento não é a única variável que deve ser considerada na determinação da melhor densidade populacional.A eficiência na conversão do alimento, também, um bom indicador, sendo que a CAA atua nos custos de produção, pois o investimento em ração pode representar até 60% dos custos operacionais da criação de peixes em tanque-rede. A CAA baseia-se na relação entre a ração consumida no período analisado e o ganho de peso. Ela indica a quantidade em kg que é convertida em kg de biomassa nos peixes.Quanto maior o valor de CAA, pior será a conversão alimentar. No tanque-rede de menor densidade 25 peixes/ m³ os juvenis de Tambaqui apresentaram melhor conversão alimentar aparente. O aumento na densidade populacional, geralmente, piora a conversão alimentar, uma vez que a disputa por alimento é maior, causando um gasto energético nos peixes levando a um aumento no consumo de ração para manter as funções vitais e continuar crescendo (BRANDÃO et al., 2004). 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A densidade populacional é negativamente correlacionada ao ganho individual médio de comprimento padrão e massa corporal. Nas menores densidades (25 e 50 peixe/m³) os peixes atingiram os maiores valores de crescimento e ganho de peso final médio, que diferem entre si. O maior valor de biomassa total (kg/m³) foi obtido na densidade de 150 peixe/m³. No entanto, a densidade populacional de 50 peixe/m³ é a mais recomendada por obter maior equilíbrio entre os parâmetros avaliados para os juvenis de Tambaqui.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 192 REFERÊNCIAS ANDRADE, P. C. M.; TOLENTINO,A. S.; FREITAS, C. E. C. Desenvolvimento de juvenis de Tambaqui (Colossoma macropomum) em gaiolas.Revista da Universidade do Amazonas - Série Ciências Agrárias,Manaus, v. 2, p. 23-36, 1993. ARAÚJO-LIMA, C.; GOULDING, M. Os frutos do tambaqui: ecologia, conservação e cultivo na Amazônia. Brasília, DF: Sociedade Civil Mamirauá/CNPq, 1998. 186 p. BARBOSA, D. S.; OLIVEIRA, M. D.; NASCIMENTO, F. L.; SILVA, E.Avaliação da qualidade da água na piscicultura em tanques-rede, Pantanal, MS. In: SIMPÓSIO SOBRE RECURSOS NATURAIS E SOCIO-ECONÔMICOS DO PANTANAL, 2000, Corumbá, Ms: Anais... Corumbá: EMBRAPA, 2000. BIOFISH. Piscicultura no estado de Rondônia. Disponível em: <http://www. biofish.com.br/ interna.php?cdP=1&cdS=4>.Acesso: em 20 mar. 2011. BOYD, C.E. Water quality in ponds for Aquaculture. First printing. Alabama: Brimingham Publishing Co,1990. 482 p. BRANDÃO, F. R.; GOMES, L. C.; CHAGAS, E. C.;ARAUJO, L. D. Densidade de estocagem de juvenis de tambaqui durante a recria em tanques-rede. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasilia, DF, v.39, n.4, p. 357-362, abr. 2004. CECCARELLI, P. S.;SENHORINI, J.A.;VOLPATO, G. Dicas em piscicultura. Botucatu, SP: Santana, 2000.247 p. CONTE, L. Produtividade e economicidade da tilapicultura em gaiolas na região sudoeste do Estado de São Paulo: estudo de casos. 2002. Dissertação (Mestrado em Ciências Animal e Pastagens) - Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2002. GAMA, M. J. Boletim climatológico de Rondônia: 2003. Porto Velho: SEDAM- RO, 2005. GRAEF, E. W.; RESENDE, E. K.; PETRY, P.; STORI FILHO, A. Policultivo de Matrinchã (Brycon sp.) e Jaraqui (Semaprochilodus sp.) em pequenas represas. Acta Amazônica, Manaus, v. 16/17, nº único, p. 33-42, 1987. Suplemento. IGUCHI, K.; OGAWA, K.; NAGAE, M.; ITO, F. The influence of rearing density on stress response and disease susceptibility of ayu (Plecoglossus altivelis). Aquaculture, Ottawa, v. 220, p. 515-523, 2003. KUBITZA, F.Coletânea de informações aplicadas ao cultivo de tambaqui, do pacu e de outros peixes redondos. Panorama da Aquicultura, Rio de Janeiro, v.14, n.83, maio/jun. 2004. KUBITZA, F. Qualidade da água na produção de peixes. São Paulo: CIP-USP, 1999. ______. Qualidade da água no cultivo de peixes e camarões. São Paulo: CIP-USP, 2003. MEROLA,N.;SOUZA,H.Cage Culture of theAmazon FishTambaqui, Colossoma macropomum,atTwo Stocking Densities. Aquaculture, Ottawa, v. 71, p.15-21, jun.1988.
    • 193Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. MINISTÉRIO da Pesca e Aquicultura apóia a criação de uma estrutura estadual que trate da liberação de lcenças ambientais. Disponível em: <http://www.rondonia.ro.gov.br/noticias.asp? id=12072&tipo=Mais %20Noticias>.Acesso em: 17 mar. 2011. PEDRAZZANI, A. S.; MOLENTO C. F. M.; CARNERO P. C. F.; CASTILHO M. F. Sensciência e bem-estar de peixes: uma visão de futuro do mercado consumidor. Panorama da Aquicultura, Rio de Janeiro, v.17, n.102, jul./ ago. 2007. PÉREZ, E.; DÍAZ, F.; ESPINA, S.Thermoregulatory behavior and critical thermal limits of angelfish Pterophyllum scalare (Lichtenstein) (Pisces: Cichlidae). Journal of Thermal Biology, New York, v. 28, n.8, p. 531-537, 2003. PORTO, M. S. A. Indicadores de estresse em peixes da Amazônia: sensibilidade em face do tipo de estressor. 2005. Dissertação (Mestrado em Ciências Biológicas) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2005. RESENDE, E. K.; GRAEF, E.W.; ZANIBONI FILHO, E.; PAIXÃO,A. M.; STORI FILHO,A.Avaliação do crescimento e produção de Jaraquis (Semaprochilodus spp.), em açude de igarapé de terra firme nos arredores de Manaus, Amazonas. Acta Amazônica, Manaus, v.15, n.1/2, p.19-36, mar./jun. 1985. SOUZA, R. A. L. Efeito da densidade na estocagem sobre o crescimento na fase juvenil do tambaqui, Colossoma macropomum (Cuvier, 1818). 1993. Tese (Mestrado) - Departamento de Aqüicultura, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1993. Arquivo CD-ROM. TAPHORN, D. C. The characiform fishes of the apure river drainage. Caracas: Biollania, 1992. 537p. VAL,A. L.; ROLIM, P. R.; RABELO, H. Situação atual da aquicultura na Região Norte. In:VALENTE,W. C.; POLI, C. R.;PEREIRA,J.A.;BORGHETTI,J.R.(Ed.).Aquicultura no Brasil: bases para um desenvolvimento sustentável. Brasília, DF: CNPq; MCT, 2000. p.247-266.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 195 NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE ORIGINAIS AMAZÔNIA: Ciência & Desenvolvimento é uma publicação semestral destinada à divulgação de trabalhos de cunho técnico-científico, resultantes de estudos e pesquisas que contribuam para a constituição de uma base de informação sobre a Região. Objetiva divulgar trabalhos originais com destaque para o tema desenvolvimento sustentável tendo como editor o Banco da Amazônia. I - DIRETRIZES 1.A seleção dos trabalhos para publicação caberá à Comissão de Publicação e ao Conselho Editorial. 2. Os trabalhos deverão ser inéditos e não estar sendo avaliado em outro periódico. 3. Os originais deverão ser encaminhados em língua portuguesa. 4. O autor faculta ao Banco da Amazônia, através de correspondência enviada junto com o artigo, a publicação de seu trabalho na Revista em mídia impressa e eletrônica para efeito de divulgação científica (Lei n. 9.610, 1998). 5. As opiniões emitidas pelos autores dos artigos são de sua exclusiva responsabilidade, não expressando, necessariamente, as diretrizes da Instituição. 6. A Revista apresentará as seguintes seções: 6.1 Editorial - texto onde o editor ou redator apresenta o conteúdo do fascículo e outras informações; 6.2Artigos - trabalhos inéditos de pesquisadores de instituições com relevante conhecimento sobre a Região. Serão, aproximadamente, em número de doze e apresentados de acordo com esta norma. Devem conter, no máximo, vinte páginas cada um, cabendo à Comissão julgar as exceções. II ESTRUTURA DO ARTIGO Elementos pré-textuais: título e subtítulo; autor(es); resumo; palavras-chave (no máximo cinco); credenciais e endereço eletrônico dos autores; título e subtítulo em inglês; abstract; keywords. Elementos textuais: introdução; metodologia/material e método, desenvolvimento; conclusão/ considerações finais. Elementos pós-textuais: notas explicativas; referências; apêndice (s); anexo (s). III - APRESENTAÇÃO DOS ARTIGOS De acordo com a norma daABNT - NBR 6022/2003 - Artigo em Publicação Periódica Científica. 1. Formato: todas as colaborações devem ser enviadas no processador de textos Word, corpo 12, fonte Times New Roman, espaçamento 1,5, papel carta com margem superior e esquerda de 3,0 cm e inferior e direita de 2,0 cm. 1.1 A primeira lauda conterá: título do artigo (breve, específico e descritivo); autoria; resumo com aproximadamente 200 palavras; palavras-chave (máximo de cinco); credenciais e endereço eletrônico dos autores.
    • Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. 196 2. Notas: referentes ao corpo do artigo, indicadas com um número depois da palavra ou frase, a que dizem respeito, com a descrição ao final do texto, antes das referências. 3. Tabelas/Ilustrações: conforme as normas do IBGE (tabelas), utilizando-se, somente nas cores preta e cinza com tonalidades entre 30% e 70% da cor preta. Acompanhadas de cabeçalho na parte superior e com a indicação da fonte e notas na parte inferior. 4. Referências: de acordo com a NBR 6023/2002. 5. Citações no texto: usar no sistema de chamada autor-data (NBR 10.520/2002). 6. Endereçamento: os artigos devem ser enviados para revistacientifica@bancoamazonia.com.br, constando o endereço eletrônico e postal dos autores.